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Políticas de Saúde

Autora: Profa. Ângela Cristina Puzzi Fernandes


Profa. Giseli Panigassi
Professoras conteudistas: Ângela Cristina Puzzi Fernandes / Giseli Panigassi

Professora Dra. Ângela Cristina Puzzi Fernandes

Atuando há mais de três décadas como enfermeira, foi coordenadora de um serviço de saúde ocupacional. Fundou
o grupo de enfermeiros do trabalho de Campinas e região. Foi conselheira da Associação Nacional de Enfermeiros do
Trabalho. É especialista em Ergonomia, Administração Hospitalar e Saúde do Trabalhador. Mestre pela Faculdade de
Ciências Médica da Unicamp e Doutora pela USP. Voluntária há mais de vinte anos, presta serviços na comunidade da
Vila Brandina, em Campinas. É professora titular do Curso de Graduação e Pós-graduação em Enfermagem da UNIP e
professora convidada do Curso de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem da USP e da PUC de Goiânia.

Professora Dra. Giseli Panigassi

É nutricionista com aperfeiçoamento em Saúde pela CNPq/Unicamp (1991), aprimoramento em Saúde Pública
pela Fundap/Unicamp (1992), especializações em Saúde Pública pelo Ministério da Saúde/Unicamp (1993) e em
epidemiologia pela Unicamp (1994). É mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp (2000) e Doutora em Saúde Coletiva
pela Unicamp (2005). Como sanitarista, sempre trabalhou em serviços públicos com foco no ensino e na pesquisa. Hoje,
é professora titular da UNIP.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Z13 Zacariotto, William Antonio

?
Informática: Tecnologias Aplicadas à Educação. / William
Antonio Zacariotto - São Paulo: Editora Sol.

il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-006/11, ISSN 1517-9230.

1.Informática e tecnologia educacional 2.Informática I.Título

681.3

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Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Amanda Casale
Sumário
Políticas de Saúde

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................8
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................8

Unidade I
1 SEGURIDADE SOCIAL – COMPOSIÇÃO E NORMATIZAÇÃO............................................................. 12
1.1 Seguridade Social.................................................................................................................................. 13
1.2 Saúde Pública.......................................................................................................................................... 16
1.3 Previdência Social................................................................................................................................. 20
1.4 Assistência Social.................................................................................................................................. 23
1.5 Seguridade Social no Brasil – história.......................................................................................... 25
1.5.1 Saúde Pública............................................................................................................................................ 25
1.5.2 Período Colonial....................................................................................................................................... 25
1.5.3 Início da República.................................................................................................................................. 26
2 PREVIDÊNCIA SOCIAL..................................................................................................................................... 47
3 ASSISTÊNCIA SOCIAL...................................................................................................................................... 55
4 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE.......................................................................................................................... 57
4.1 A reforma sanitária brasileira........................................................................................................... 58
4.2 Definição................................................................................................................................................... 59
4.3 Legislação básica................................................................................................................................... 60
4.4 Normas Operacionais Básicas........................................................................................................... 61
4.5 Princípios do SUS.................................................................................................................................. 61
4.6 O Pacto pela Saúde............................................................................................................................... 63
4.6.1 O Pacto pela Vida..................................................................................................................................... 64
4.6.2 O Pacto de Gestão................................................................................................................................... 64
4.6.3 O Pacto em Defesa do SUS.................................................................................................................. 65
4.7 O custeio do SUS................................................................................................................................... 65
4.7.1 Bloco da assistência farmacêutica................................................................................................... 68
4.7.2 Bloco da Atenção Básica....................................................................................................................... 68
4.7.3 Bloco da Atenção de Média e Alta Complexidade Ambulatorial e Hospitalar............... 69
4.7.4 Bloco de Gestão do SUS....................................................................................................................... 69
4.7.5 Bloco de Vigilância Sanitária.............................................................................................................. 71
4.8 O controle social do SUS.................................................................................................................... 71
4.9 Os gestores do SUS............................................................................................................................... 74
4.10 Os Conselhos de Saúde..................................................................................................................... 75
4.10.1 O Conass e o Conasems...................................................................................................................... 76
4.11 Ações, programas e políticas do SUS.......................................................................................... 78
4.11.1 Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).............................................................. 78
4.11.2 Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24 horas).................................................................. 78
4.11.3 Programa Farmácia Popular do Brasil........................................................................................... 79
4.11.4 Centros de Atenção Psicossocial (Caps)....................................................................................... 79
4.11.5 Centros de Especialidades Odontológicas (CEO)....................................................................... 80
4.11.6 Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD)............................................................... 81
4.11.7 Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária..................................................... 82
4.11.8 Plano Diretor de Vigilância Sanitária (PDVisa)........................................................................... 83
4.11.9 Política de Educação Permanente em Saúde............................................................................. 83
4.11.10 Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN).......................................................... 84
4.11.11 Política Nacional de Assistência Farmacêutica........................................................................ 84

Unidade II
5 POLÍTICA NACIONAL DE PROMOÇÃO DA SAÚDE................................................................................ 88
5.1 Carta de Ottawa..................................................................................................................................... 88
5.2 II Conferência Internacional sobre Promoção à Saúde –
Declaração de Adelaide: Políticas Públicas Saudáveis, realizada em abril de 1988........... 90
5.3 III Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde –
Declaração de Sundsval: Ambientes Favoráveis à Saúde, realizada
em Sundsvall na Suécia, em junho de 1991...................................................................................... 90
5.4 IV Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde –
Declaração de Jacarta, realizada em Jacarta, em 1997................................................................ 91
5.5 V Conferência Internacional de Promoção da Saúde –
Declaração do México, realizada na cidade do México, de 5 a 9 de junho de 2000........ 91
5.6 VI Conferência Mundial de Promoção à Saúde – Carta de Bangkok,
realizada na cidade de Bangkok na Tailândia, em agosto de 2005.......................................... 91
5.7 VII Conferência Mundial de Promoção à Saúde – Carta de Nairóbi,
realizada em Nairóbi na África, em outubro de 2009................................................................... 92
5.8 VIII Conferência Global sobre Promoção da Saúde – Carta de Helsinki,
realizada em Helsinki na Finlândia, em junho de 2013................................................................. 92
6 POLÍTICA NACIONAL DE PROMOÇÃO DA SAÚDE – NORMATIZAÇÃO......................................... 93
6.1 Municípios saudáveis........................................................................................................................... 94
7 MODELOS E SISTEMAS DE ATENÇÃO À SAÚDE.................................................................................... 95
7.1 Definição, características e composição...................................................................................... 95
7.2 População, com as seguintes especificidades............................................................................ 97
7.3 Modelos de Sistemas de Atenção à Saúde................................................................................. 98
7.3.1 Modelo universalista.............................................................................................................................. 99
7.3.2 Modelo do seguro social....................................................................................................................... 99
7.3.3 Modelo de seguros privados............................................................................................................... 99
7.3.4 Modelo assistencialista.......................................................................................................................... 99
7.3.5 O Modelo do SUS..................................................................................................................................... 99
7.3.6 Modelos de Sistemas de Atenção à Saúde no Mundo...........................................................101
8 ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE.......................................................................................................................104
8.1 Fundamentos da Atenção Básica à Saúde................................................................................104
8.1.1 Prevenção primária...............................................................................................................................105
8.1.2 Prevenção secundária..........................................................................................................................106
8.1.3 Prevenção terciária...............................................................................................................................106
8.1.4 Prevenção quaternária........................................................................................................................106
8.1.5 Prevenção primordial...........................................................................................................................106
8.2 Normatização da Política Nacional de Atenção Básica (PNAS).......................................106
8.3 Responsabilidades das esferas gestoras em Atenção Básica.............................................111
8.4 Estratégia Saúde da Família............................................................................................................111
8.4.1 Características, contexto e finalidades..........................................................................................111
8.4.2 Equipes de saúde...................................................................................................................................113
8.4.3 O Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS)....................................................... 113
8.4.4 Gestão da ESF..........................................................................................................................................114
8.4.5 Política Nacional de Saúde Bucal – Brasil Sorridente............................................................. 114
8.5 Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf)...........................................................................114
8.6 Sistema de Saúde Suplementar....................................................................................................117
8.6.1 Criação do Sistema de Saúde Suplementar................................................................................117
8.6.2 Regulamentação do Sistema de Saúde Suplementar.............................................................119
8.6.3 Regulação no Setor Saúde................................................................................................................ 120
8.6.4 Definições de termos e relacionados à saúde suplementar.................................................121
8.6.5 Sistema de Saúde Suplementar no contexto da Saúde Pública........................................ 123
8.6.6 Política de Qualificação da Saúde Suplementar...................................................................... 125
8.6.7 A Política Nacional de Humanização do SUS – Humaniza SUS........................................ 126
APRESENTAÇÃO

“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política,


é que serão governados pelos que se interessam.”
Arnold Toynbee

Prezado(a) aluno(a),

É com grande satisfação que iniciamos a disciplina de Políticas de Saúde, trata-se de um grande
desafio que é fazê-lo gostar de leis e normas e entender a importância de um Sistema de Único de
Saúde – SUS, que promova e preserve o bem-estar de todos. Entender e quebrar o paradigma de que
tudo que é gratuito não pode ser oferecido com qualidade.

Sabemos que há um desafio: colocar em prática o bem-estar evocado, superando a limitação de


apenas viver ou de só controlar a doença, deixando de combater suas causas e adotando práticas
preventivas, sempre de menor custo e mais eficientes.

Os conteúdos desenvolvidos nesta disciplina serão conduzidos para construção do conhecimento


mútuo, pois, lembrando Paulo Freire, ensinar não é somente transmitir o saber. Para ele a missão do
professor é possibilitar a criação e produção de conhecimentos.

Por tudo isso, proponho perseguirmos juntos este mister.

INTRODUÇÃO

A avaliação do estado de saúde das populações dependeu, durante longo período de tempo,
quase que exclusivamente dos indicadores derivados de dados de mortalidade, mas esses índices
perderam progressivamente a capacidade de medir a saúde em decorrência da forte redução das
taxas de mortalidade, do aumento da sobrevida e da crescente prevalência de doenças crônicas, de
baixa letalidade, mas altamente incapacitantes. O novo espectro do problema passou a requerer, para
adequada mensuração dos níveis de saúde, a construção de indicadores de incidência e prevalência de
doenças, de lesões por acidentes e violências e de deficiências mentais e físicas.

A presença simultânea de várias doenças no mesmo indivíduo, fenômeno que se intensifica com o
aumento de sobrevida da população, demandou a elaboração de índices de comorbidades (CHARLSON
et al, 1994).

O novo contexto também deixa claro que ter uma doença diagnosticada não se acompanha,
necessariamente, do mesmo grau de prejuízo nos níveis de saúde e de autonomia na realização
de tarefas cotidianas. O impacto da doença em provocar limitações e incapacidades passa a ser
dimensionado por instrumentos que avaliam a preservação das atividades da vida diária e da
qualidade de vida em saúde.

9
Sabemos que as desigualdades sociais em saúde são registradas de longa data, tendo seu estudo
sido retomado com ênfase, nas últimas décadas, diante da verificação da persistência ou ampliação dos
diferenciais de saúde entre os segmentos sociais (WHO, 2002; GWATKIN, 2000).

10
POLÍTICAS DE SAÚDE

Unidade I
1 SEGURIDADE SOCIAL – COMPOSIÇÃO E NORMATIZAÇÃO

Se vamos estudar políticas de saúde então a pergunta é: você sabe o que é política?

Política é a ciência que busca mecanismos para a construção coletiva do bem comum.

Vamos fazer outra pergunta: você se interessa por política?

Há uma frase que diz “aqueles que não se interessam por política serão governados pelos que se
interessam”. E, gostaríamos de complementá-la escrevendo: “e os que se interessam nem sempre são
os que sabem o que é melhor para a maioria”. Por isso, precisamos entender o que é política e o que é
saúde para podermos compreender o cenário atual e desempenharmos com responsabilidade nossas
atividades na área.

No caso da saúde, a política tem o objetivo de organizar todos os setores, públicos e, também os
privados, em seus diversos níveis, para atender às necessidades de saúde da população.

Exemplo de aplicação

Vamos refletir: Quais são as necessidades de saúde? As necessidades de saúde são diferentes das
necessidades da doença? Um indivíduo saudável é apenas um indivíduo livre de doenças?

Para a Organização Mundial da Saúde, a OMS (World Health Organization – WHO na língua
inglesa), saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não simplesmente a
ausência de doença.

O conceito de saúde é muito mais amplo do que o conceito de doença. Um cidadão que apresenta
sinais e sintomas como dor, febre, tosse é considerado doente e precisa de assistência médica, e,
provavelmente necessitará de tratamento curativo para restabelecer seu estado físico. Esse é o cidadão
doente, correto?

Agora vamos usar a definição da OMS para exemplificar um cidadão saudável, ele teria que, além de
estar livre de doenças, ter um completo bem-estar físico, mental e social, precisaria sentir-se bem, morar
bem, comer bem, trabalhar bem e viver bem.

Essa visão de saúde é algo recente, se retomarmos a história da humanidade, vamos encontrar o
foco no tratamento, na cura e na contenção da propagação das doenças transmissíveis.

11
Unidade I

Para melhor definir e estabelecer o objeto de estudo deste trabalho – as políticas públicas em saúde – é
necessário identificar o exato contexto em que a Saúde Pública se insere, enquanto atribuição dos entes
públicos (a União, os Estados e Municípios), consideradas as correspondentes disposições constitucionais,
de onde precisamente decorrem todas as diretrizes que dão suporte e fundamento àquelas políticas.

1.1 Seguridade Social

A Constituição Federal (CF), ao tratar do Título VIII (“da Ordem Social”), divide-o em nove Capítulos,
dedicando o Capítulo II à Seguridade Social, subdividindo-o nas Seções I (“Disposições Gerais” – artigos
194 e 195), II (“Da Saúde” – artigos 196 a 200), III (“Da Previdência Social” – artigos 201 e 202) e IV (“Da
Assistência Social” – artigos 203 e 204) (BRASIL, 1988).

Esta estrutura é adotada pela CF justamente porque a Saúde Pública, a Previdência Social e a
Assistência Social são as três componentes da Seguridade Social.

Efetivamente, a CF dispõe sobre a Seguridade Social:

Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações


de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os
direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social.

Parágrafo único. Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a


seguridade social, com base nos seguintes objetivos:

I – universalidade da cobertura e do atendimento;

II – uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações


urbanas e rurais;

III – seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços;

IV – irredutibilidade do valor dos benefícios;

V – equidade na forma de participação no custeio;

VI – diversidade da base de financiamento;

VII – caráter democrático e descentralizado da administração, mediante


gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores,
dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados (Redação dada pela
Emenda Constitucional n. 20, de 1998).

Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma
direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos
12
POLÍTICAS DE SAÚDE

orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e


das seguintes contribuições sociais:

I – do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei,


incidentes sobre: (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados,


a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo
empregatício; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

b) a receita ou o faturamento; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20,


de 1998)

c) o lucro; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

II – do trabalhador e dos demais segurados da previdência social, não


incidindo contribuição sobre aposentadoria e pensão concedidas pelo
regime geral de previdência social de que trata o art. 201; (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

III – sobre a receita de concursos de prognósticos.

IV – do importador de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele


equiparar. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 42, de 19.12.2003)

§ 1º – As receitas dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios destinadas


à seguridade social constarão dos respectivos orçamentos, não integrando
o orçamento da União.

§ 2º – A proposta de orçamento da seguridade social será elaborada de


forma integrada pelos órgãos responsáveis pela saúde, previdência social
e assistência social, tendo em vista as metas e prioridades estabelecidas
na lei de diretrizes orçamentárias, assegurada a cada área a gestão de
seus recursos.

§ 3º – A pessoa jurídica em débito com o sistema da seguridade social, como


estabelecido em lei, não poderá contratar com o Poder Público nem dele
receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios.

§ 4º – A lei poderá instituir outras fontes destinadas a garantir a manutenção


ou expansão da seguridade social, obedecido ao disposto no art. 154, I.

§ 5º – Nenhum benefício ou serviço da seguridade social poderá ser criado,


majorado ou estendido sem a correspondente fonte de custeio total.
13
Unidade I

§ 6º – As contribuições sociais de que trata este artigo só poderão ser


exigidas após decorridos noventa dias da data da publicação da lei que as
houver instituído ou modificado, não se lhes aplicando o disposto no art.
150, III, “b”.

§ 7º – São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades


beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas
em lei.

§ 8º O produtor, o parceiro, o meeiro e o arrendatário rurais e o pescador


artesanal, bem como os respectivos cônjuges, que exerçam suas atividades
em regime de economia familiar, sem empregados permanentes, contribuirão
para a seguridade social mediante a aplicação de uma alíquota sobre o
resultado da comercialização da produção e farão jus aos benefícios nos
termos da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 9º As contribuições sociais previstas no inciso I do caput deste artigo


poderão ter alíquotas ou bases de cálculo diferenciadas, em razão da
atividade econômica, da utilização intensiva de mão de obra, do porte da
empresa ou da condição estrutural do mercado de trabalho. (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 47, de 2005)

§ 10. A lei definirá os critérios de transferência de recursos para o sistema


único de saúde e ações de assistência social da União para os Estados, o
Distrito Federal e os Municípios, e dos Estados para os Municípios, observada
a respectiva contrapartida de recursos. (Incluído pela Emenda Constitucional
n. 20, de 1998)

§ 11. É vedada a concessão de remissão ou anistia das contribuições sociais de


que tratam os incisos I, a, e II deste artigo, para débitos em montante superior
ao fixado em lei complementar. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20,
de 1998)

§ 12. A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as


contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não
cumulativas. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 42, de 19.12.2003)

§ 13. Aplica-se o disposto no § 12 inclusive na hipótese de substituição


gradual, total ou parcial, da contribuição incidente na forma do inciso I,
a, pela incidente sobre a receita ou o faturamento. (Incluído pela Emenda
Constitucional n. 42, de 19.12.2003) (BRASIL, 1988).

A CF, portanto, dispondo sobre a Seguridade Social, no caput do seu artigo 194, define Seguridade
Social e a desdobra em três componentes:
14
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Saúde Pública.

• Previdência Social.

• Assistência Social.

Nos seus incisos I a VII, a CF (BRASIL, 1988) estabelece as diretrizes que orientam os mecanismos da
Seguridade Social:

• Universalidade da cobertura e do atendimento.

• Uniformidade e equivalência dos serviços, independente de onde se encontre instalado o


beneficiário (na cidade ou no campo).

• Seletividade e distributividade.

• Administração democrática, descentralizada e quadripartite – serão adiante abordadas e se


encontram presentes na implantação e gestão dos órgãos que prestam os serviços, sejam de
saúde, assistencial ou previdenciário.

Ainda dispondo sobre Seguridade Social, a CF, na sequência, no seu artigo 195, trata, em linhas
gerais, do seu financiamento, e transfere à lei a prerrogativa da definição dos critérios de transferência
dos recursos para as ações de assistência social e para o “sistema único de saúde” (que é mencionado
pela primeira vez e de forma expressa).

1.2 Saúde Pública

A Saúde Pública – primeira componente da Seguridade Social – tem suas diretrizes especificamente
expressas nos artigos 196 a 200 da CF:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante


políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de
outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para
sua promoção, proteção e recuperação.

Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo


ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação,
fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou
através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito
privado.

Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede


regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado
de acordo com as seguintes diretrizes:
15
Unidade I

I – descentralização, com direção única em cada esfera de governo;

II – atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas,


sem prejuízo dos serviços assistenciais;

III – participação da comunidade.

§ 1º. O sistema único de saúde será financiado, nos termos do art. 195,
com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes. (Parágrafo único
renumerado para § 1º pela Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

§ 2º A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios aplicarão,


anualmente, em ações e serviços públicos de saúde recursos mínimos
derivados da aplicação de percentuais calculados sobre: (Incluído pela
Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

I – no caso da União, na forma definida nos termos da lei complementar


prevista no § 3º; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

II – no caso dos Estados e do Distrito Federal, o produto da arrecadação dos


impostos a que se refere o art. 155 e dos recursos de que tratam os arts. 157 e
159, inciso I, alínea a, e inciso II, deduzidas as parcelas que forem transferidas aos
respectivos Municípios; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

III – no caso dos Municípios e do Distrito Federal, o produto da arrecadação


dos impostos a que se refere o art. 156 e dos recursos de que tratam os arts.
158 e 159, inciso I, alínea b e § 3º.(Incluído pela Emenda Constitucional n.
29, de 2000)

§ 3º Lei complementar, que será reavaliada pelo menos a cada cinco anos,
estabelecerá: (Incluído pela Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

I – os percentuais de que trata o § 2º; (Incluído pela Emenda Constitucional


n. 29, de 2000)

II – os critérios de rateio dos recursos da União vinculados à saúde destinados


aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, e dos Estados destinados
a seus respectivos Municípios, objetivando a progressiva redução das
disparidades regionais; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

III – as normas de fiscalização, avaliação e controle das despesas com saúde


nas esferas federal, estadual, distrital e municipal; (Incluído pela Emenda
Constitucional n. 29, de 2000)
16
POLÍTICAS DE SAÚDE

IV – as normas de cálculo do montante a ser aplicado pela União. (Incluído


pela Emenda Constitucional n. 29, de 2000)

§ 4º Os gestores locais do sistema único de saúde poderão admitir agentes


comunitários de saúde e agentes de combate às endemias por meio de
processo seletivo público, de acordo com a natureza e complexidade de suas
atribuições e requisitos específicos para sua atuação. (Incluído pela Emenda
Constitucional n. 51, de 2006)

§ 5º Lei federal disporá sobre o regime jurídico, o piso salarial profissional


nacional, as diretrizes para os Planos de Carreira e a regulamentação
das atividades de agente comunitário de saúde e agente de combate às
endemias, competindo à União, nos termos da lei, prestar assistência
financeira complementar aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios,
para o cumprimento do referido piso salarial.

§ 6º Além das hipóteses previstas no § 1º do art. 41 e no § 4º do art. 169


da Constituição Federal, o servidor que exerça funções equivalentes às de
agente comunitário de saúde ou de agente de combate às endemias poderá
perder o cargo em caso de descumprimento dos requisitos específicos,
fixados em lei, para o seu exercício. (Incluído pela Emenda Constitucional
n. 51, de 2006).

Art. 199. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada.

§ 1º – As instituições privadas poderão participar de forma complementar


do sistema único de saúde, segundo diretrizes deste, mediante contrato de
direito público ou convênio, tendo preferência as entidades filantrópicas e
as sem fins lucrativos.

§ 2º – É vedada a destinação de recursos públicos para auxílios ou subvenções


às instituições privadas com fins lucrativos.

§ 3º – É vedada a participação direta ou indireta de empresas ou capitais


estrangeiros na assistência à saúde no País, salvo nos casos previstos em lei.

§ 4º – A lei disporá sobre as condições e os requisitos que facilitem a remoção


de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins de transplante, pesquisa
e tratamento, bem como a coleta, processamento e transfusão de sangue e
seus derivados, sendo vedado todo tipo de comercialização.

Art. 200. Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições,


nos termos da lei:

17
Unidade I

I – controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse


para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos,
imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos;

II – executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as


de saúde do trabalhador;

III – ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde;

IV – participar da formulação da política e da execução das ações de


saneamento básico;

V – incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e


tecnológico;

VI – fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor


nutricional, bem como bebidas e águas para consumo humano;

VII – participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e


utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos;

VIII – colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do


trabalho (BRASIL, 1988).

Lembrete

Todo cidadão brasileiro tem direito à saúde e acesso aos serviços públicos
de saúde. O Estado deve garantir através de suas políticas esses direitos.

Quanto à Saúde Pública, as disposições constitucionais estabelecem, pois, expressamente que:

• Artigo 196 – a saúde é direito de todos e dever do Estado, que está obrigado a estabelecer
políticas que assegurem a universalidade e a igualdade no acesso e que contemplem a prevenção,
promoção, proteção e recuperação da saúde.

• Artigo 197 – prevê a responsabilidade do Estado na sua regulamentação, fiscalização e controle,


mas prevê também a possibilidade de que a execução possa ser compartilhada com a iniciativa
privada.

• Artigo 198 – determina a instituição de um sistema único para a administração das ações e
serviços públicos de saúde, sistema este que será regionalizado e hierarquizado e determina suas
diretrizes: descentralização, atendimento integral (com prioridade para a prevenção) e participação
da comunidade.
18
POLÍTICAS DE SAÚDE

— Parágrafos 1º a 3º – tratam das fontes e regras de financiamento do “sistema único de saúde”.

— Parágrafos 4º a 6º – tratam das fontes e regras de financiamento do “sistema único de saúde”.

• Artigo 199 – prevê a possibilidade da atuação da iniciativa privada na saúde pública, segundo as
condições que estabelece.

• Artigo 200 – nos seus incisos I a VIII enumera as competências do serviço único de saúde, e prevê
também a possibilidade de que a lei estabeleça outras atribuições.

Lembrete

Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, que


consiste não apenas na ausência de doença ou de enfermidade.

1.3 Previdência Social

A Previdência Social – a segunda componente da Seguridade Social – foi contemplada pela CF com
as seguintes disposições:

Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral,
de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que
preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei, a:
(Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

I – cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada;


(Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

II – proteção à maternidade, especialmente à gestante; (Redação dada pela


Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

III – proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário;


(Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

IV – salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados


de baixa renda; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

V – pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou


companheiro e dependentes, observado o disposto no § 2º. (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 1º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a concessão


de aposentadoria aos beneficiários do regime geral de previdência social,
19
Unidade I

ressalvados os casos de atividades exercidas sob condições especiais que


prejudiquem a saúde ou a integridade física e quando se tratar de segurados
portadores de deficiência, nos termos definidos em lei complementar.
(Redação dada pela Emenda Constitucional n. 47, de 2005)

§ 2º Nenhum benefício que substitua o salário de contribuição ou o


rendimento do trabalho do segurado terá valor mensal inferior ao salário
mínimo. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 3º Todos os salários de contribuição considerados para o cálculo de


benefício serão devidamente atualizados, na forma da lei. (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 4º É assegurado o reajustamento dos benefícios para preservar-lhes,


em caráter permanente, o valor real, conforme critérios definidos em lei.
(Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 5º É vedada a filiação ao regime geral de previdência social, na qualidade


de segurado facultativo, de pessoa participante de regime próprio de
previdência. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 6º A gratificação natalina dos aposentados e pensionistas terá por base o


valor dos proventos do mês de dezembro de cada ano. (Redação dada pela
Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 7º É assegurada aposentadoria no regime geral de previdência social,


nos termos da lei, obedecidas as seguintes condições: (Redação dada pela
Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

I – trinta e cinco anos de contribuição, se homem, e trinta anos de contribuição,


se mulher; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

II – sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade,


se mulher, reduzido em cinco anos o limite para os trabalhadores rurais
de ambos os sexos e para os que exerçam suas atividades em regime de
economia familiar, nestes incluídos o produtor rural, o garimpeiro e o
pescador artesanal. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 8º Os requisitos a que se refere o inciso I do parágrafo anterior serão


reduzidos em cinco anos, para o professor que comprove exclusivamente
tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação infantil
e no ensino fundamental e médio. (Incluído pela Emenda Constitucional n.
20, de 1998)

20
POLÍTICAS DE SAÚDE

§ 9º Para efeito de aposentadoria, é assegurada a contagem recíproca do


tempo de contribuição na administração pública e na atividade privada,
rural e urbana, hipótese em que os diversos regimes de previdência social
se compensarão financeiramente, segundo critérios estabelecidos em lei.
(Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 10. Lei disciplinará a cobertura do risco de acidente do trabalho, a ser


atendida concorrentemente pelo regime geral de previdência social e pelo
setor privado. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 11. Os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados


ao salário para efeito de contribuição previdenciária e consequente
repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei. (Incluído pela
Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 12. Lei disporá sobre sistema especial de inclusão previdenciária para


atender os trabalhadores de baixa renda e àqueles sem renda própria que
se dediquem exclusivamente ao trabalho doméstico no âmbito de sua
residência, desde que pertencentes a famílias de baixa renda, garantindo-
lhes acesso a benefícios de valor igual a um salário-mínimo. (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 47, de 2005)

§ 13. O sistema especial de inclusão previdenciária de que trata o § 12


deste artigo terá alíquotas e carências inferiores às vigentes para os demais
segurados do regime geral de previdência social. (Incluído pela Emenda
Constitucional n. 47, de 2005)

Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e


organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência
social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o
benefício contratado, e regulado por lei complementar. (Redação dada pela
Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 1° A lei complementar de que trata este artigo assegurará ao participante


de planos de benefícios de entidades de previdência privada o pleno acesso
às informações relativas à gestão de seus respectivos planos. (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 2° As contribuições do empregador, os benefícios e as condições


contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios
das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho
dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não
integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. (Redação dada
pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)
21
Unidade I

§ 3º É vedado o aporte de recursos à entidade de previdência privada pela


União, Estados, Distrito Federal e Municípios, suas autarquias, fundações,
empresas públicas, sociedades de economia mista e outras entidades
públicas, salvo na qualidade de patrocinador, situação na qual, em hipótese
alguma, sua contribuição normal poderá exceder a do segurado. (Incluído
pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 4º Lei complementar disciplinará a relação entre a União, Estados, Distrito


Federal ou Municípios, inclusive suas autarquias, fundações, sociedades
de economia mista e empresas controladas direta ou indiretamente,
enquanto patrocinadoras de entidades fechadas de previdência privada, e
suas respectivas entidades fechadas de previdência privada. (Incluído pela
Emenda Constitucional n. 20, de 1998)

§ 5º A lei complementar de que trata o parágrafo anterior aplicar-se-á,


no que couber, às empresas privadas permissionárias ou concessionárias
de prestação de serviços públicos, quando patrocinadoras de entidades
fechadas de previdência privada. (Incluído pela Emenda Constitucional n.
20, de 1998)

§ 6º A lei complementar a que se refere o § 4° deste artigo estabelecerá


os requisitos para a designação dos membros das diretorias das entidades
fechadas de previdência privada e disciplinará a inserção dos participantes
nos colegiados e instâncias de decisão em que seus interesses sejam objeto
de discussão e deliberação. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de
1998) (BRASIL, 1988).

1.4 Assistência Social

Finalmente, a CF, ao tratar da Assistência Social – a terceira componente da Seguridade Social –


determinou:

Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar,


independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos:

I – a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice;

II – o amparo às crianças e adolescentes carentes;

III – a promoção da integração ao mercado de trabalho;

IV – a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a


promoção de sua integração à vida comunitária;

22
POLÍTICAS DE SAÚDE

V – a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de


deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria
manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei.

Art. 204. As ações governamentais na área da assistência social serão


realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art.
195, além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes diretrizes:

I – descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as


normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos
programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades
beneficentes e de assistência social;

II – participação da população, por meio de organizações representativas, na


formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis.

Parágrafo único. É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a


programa de apoio à inclusão e promoção social até cinco décimos por
cento de sua receita tributária líquida, vedada a aplicação desses recursos no
pagamento de: (Incluído pela Emenda Constitucional n. 42, de 19.12.2003)

I – despesas com pessoal e encargos sociais; (Incluído pela Emenda


Constitucional n. 42, de 19.12.2003)

II – serviço da dívida; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 42, de


19.12.2003)

III – qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos


investimentos ou ações apoiados. (Incluído pela Emenda Constitucional n.
42, de 19.12.2003) (BRASIL, 1988).

É importante estabelecer a relação entre a Saúde Pública, a Previdência Social e a Assistência


Social, enquanto mecanismos integrantes da Seguridade Social e inseri-las no contexto da CF, pois os
funcionamentos dos correspondentes mecanismos de políticas públicas se darão exatamente com base
nestas disposições constitucionais.

Assim, ao tratarmos das políticas de Saúde Pública, será sempre possível analisá-las sob a perspectiva
das disposições constitucionais e inseri-las no conjunto das diretrizes que orientam a Seguridade Social.
Nesse contexto, qualquer discussão acerca desse tema terá na CF os parâmetros e diretrizes a serem
observados e seguidos.

Antes, entretanto, de tratar das Políticas Públicas de Saúde no Brasil, é oportuno fazer um breve
histórico da Saúde Pública, da Previdência Social e da Assistência Social, para melhor entender o estágio
de desenvolvimento em que o país se encontra.
23
Unidade I

Observação

Dentre as iniciativas no âmbito da Assistência Social, o Bolsa Família é


certamente um dos programas mais conhecidos.

1.5 Seguridade Social no Brasil – história

1.5.1 Saúde Pública

Desde o descobrimento do Brasil, passando pelo período colonial, pelo período imperial e pelo início
da República, as ações em saúde pública eram realizadas de forma bastante desorganizada, seja pela
centralização das decisões na Corte, pela grande extensão territorial, pelo atraso tecnológico ou pela
falta de políticas efetivas, consistentes e coordenadas.

Quadro 1

Períodos da história do Brasil


Ano Período
Antes de 1500 Pré-descobrimento
1500 a 1822 Colônia
1822 a 1889 Império
Depois de 1889 República

1.5.2 Período Colonial

Em 1808, Dom João VI fundou na Bahia o Colégio Médico, Cirúrgico no Real Hospital Militar da
Cidade de Salvador. No mês de novembro do mesmo ano foi criada a Escola de Cirurgia do Rio de
Janeiro, anexa ao real Hospital Militar.

Até 1850 as atividades de Saúde Pública estavam limitadas:

• À delegação das atribuições sanitárias às juntas municipais.

• Ao controle de navios e saúde dos portos.

A carência de profissionais médicos no Brasil Colônia e no Brasil Império era enorme, por exemplo,
no Rio de Janeiro, em 1789, só existiam quatro médicos exercendo a profissão (SALLES, 1971). Em outros
estados brasileiros eram mesmo inexistentes.

Até a chegada da família real ao Brasil, em 1808, as medidas adotadas eram bastante incipientes,
praticamente sem significativas repercussões na saúde pública da Colônia.

24
POLÍTICAS DE SAÚDE

Foi justamente em 1808 que se deu a criação da primeira organização nacional de Saúde Pública no
Brasil: em 27 de fevereiro foi criado o cargo de Provedor-mor de Saúde da Corte e do Estado do Brasil
(embrião do Serviço de Saúde dos Portos, com delegados nos estados).

Somente após a proclamação da Independência do Brasil (em 1822), foi promulgada, em 30 de


agosto de 1828, a Lei de Municipalização dos Serviços de Saúde, com a criação das Juntas Municipais
(com as funções antes exercidas pelo Físico-mor, pelo Cirurgião-mor e seus Delegados). No mesmo ano,
ocorreu a criação da Inspeção de Saúde Pública do Porto do Rio de Janeiro.

No período imperial, que se seguiu à proclamação da Independência, são dignos de registros os


seguintes eventos:

• 1837 – foi introduzida a vacinação compulsória contra a varíola nas crianças.

• 1846 – foi organizado o Instituto Vacínico do Império.

• 1878 – tornou-se obrigatória a desinfecção terminal dos casos de morte por doenças contagiosas.

É interessante observar que, de 1850 ao final daquele século, em razão dos reflexos da revolução
industrial inglesa no Brasil, motivados principalmente pelos interesses dos grandes cafeicultores, que
começaram a investir no setor industrial, começaram a mudanças sociais, com reflexos na saúde
pública: crescimento de centros urbanos, em razão do deslocamento da população rural, movidas pela
expectativa de melhores condições de sobrevivência, gerando as condições propícias para o surgimento
de graves surtos de doenças epidêmicas, como a tuberculose.

Assim, em 1878, tornou-se obrigatória a desinfecção terminal dos casos de morte por doenças
contagiosas, a critério da autoridade sanitária e foi editado o Decreto n. 7.027, de 06/09/1878, que
tratou de providências sobre a desinfecção das casas e estabelecimentos públicos ou particulares.

1.5.3 Início da República

Na passagem do século XIX para o XX dá-se paulatinamente a implantação da administração


científica (utilização da estatística como instrumento de mensuração dos fenômenos sociais). Nesse
período, as epidemias de doenças transmissíveis, em particular a febre amarela e a malária, produziram
um impacto dramático de mortalidade nas cidades e nos principais canteiros de obras localizados nos
países periféricos, causando prejuízo ao comércio e dificultando a expansão do capitalismo.

A solução adotada foi o incentivo público às pesquisas biomédicas, sobretudo àquelas dirigidas às
doenças tropicais e à formação de equipes de trabalho organizadas em moldes militares, capazes de
intervir com disciplina e eficácia quando necessário. Foram, então, criadas as campanhas sanitárias. O
sucesso dessas campanhas sanitárias destacou-se tanto por seus resultados no controle de processos
epidêmicos, como pelo exemplo de articulação entre o conhecimento científico, a competência técnica
e a organização do processo de trabalho em saúde.

25
Unidade I

Quadro 2

Presidentes do Brasil até 1964


1889-1891 – Mar. Deodoro da Fonseca
1891-1894 – Mar. Floriano Peixoto
1894-1898 – Prudente de Morais
1898-1902 – Campos Sales
1902-1906 – Rodrigues Alves
1906-1909 – Afonso Penna
1909-1910 – Nilo Peçanha
1910-1914 – Mar. Hermes da Fonseca
1914-1918 – Wenceslau Brás
1918-1919 – Delfim Moreira
1919-1922 – Epitácio Pessoa
1922-1926 – Arthur Bernardes
1926-1930 – Washington Luís
1930-1945 – Getúlio Vargas
1946-1951 – General Dutra
1951-1954 – Getúlio Vargas
1954-1955 – João Café Filho
1956-1961 – Juscelino Kubitschek
1961-1961 – Jânio Quadros
1961-1964 – João Goulart – Jango

No início do século XX, a cidade do Rio de Janeiro apresentava um quadro sanitário caótico
caracterizado pela presença de diversas doenças graves, como a varíola, a malária, a febre amarela e,
posteriormente, a peste, o que acabou gerando sérias consequências tanto para saúde coletiva quanto
para outros setores como o do comércio exterior, visto que os navios estrangeiros não mais queriam
atracar no porto do Rio de Janeiro.

Ainda, nesse mesmo contexto, é criado, em 1900, o Instituto Soroterápico Federal, para fabricação
de soros e vacinas contra a peste.

O Rio de Janeiro, no início do século XX, era conhecido como o “túmulo dos estrangeiros”. O presidente
Rodrigues Alves, priorizando o saneamento e a reforma urbana, nomeou o engenheiro Pereira Passos
para a Prefeitura e o sanitarista Oswaldo Cruz para a Diretoria-Geral de Saúde Pública (que hoje seria
equivalente ao Ministério da Saúde), iniciando uma nova era para a higiene nacional, inclusive com a
ampliação das atividades do Instituto Soroterápico Federal, que passou a se dedicar também à pesquisa
básica e à qualificação de recursos humanos.

26
POLÍTICAS DE SAÚDE

Observação

Oswaldo Cruz, bacteriologista formado no Instituto Pasteur, teve


um importante papel na saúde do Brasil. Seu trabalho como sanitarista
foi marcado pelas batalhas contra as doenças transmissíveis no início do
século XX.

Nessa época, foram realizadas as memoráveis campanhas de saneamento, adotando métodos


militares na sua execução, primeiramente contra a febre amarela que, entre 1897 e 1906, matou quatro
mil imigrantes.

A capital do Brasil (então o Rio de Janeiro) foi dividida em distritos sanitários, administrados por
delegados de saúde, sendo implantada uma polícia sanitária, que adotava medidas rigorosas para o
combate à febre amarela, multando e intimando proprietários de imóveis insalubres a demoli-los ou
reformá-los.

As brigadas mata-mosquitos percorriam a cidade, limpando calhas e telhados, exigindo providências


para proteção de caixas d’água, colocando petróleo em ralos e bueiros e acabando com depósitos de
larvas e mosquitos. Oswaldo Cruz baseou o combate à febre amarela no êxito da campanha realizada
pelos americanos em Havana e em algumas experiências realizadas no Brasil, que comprovavam o
acerto da teoria do médico cubano Carlos Finlay, de que o transmissor da doença era um mosquito (o
Aedes aegypti, na época conhecido como Stegomyia fasciata ou Culex aegypti). Em seguida, Oswaldo
Cruz iniciou sua luta contra a peste bubônica. A campanha previa a notificação compulsória dos casos,
isolamento e aplicação do soro fabricado em Manguinhos nos doentes, vacinação nas áreas mais
problemáticas, como a zona portuária, bem como desratização da cidade. Com a percepção de que havia
relação entre as doenças, os ratos e os mosquitos, foi tomada a decisão de pagar por roedor capturado.
Surgiram, assim, os inúmeros compradores de “gabirus”, que percorriam a cidade, o que só agravou a
situação. Mas, em poucos meses, a incidência de peste bubônica diminuiu com o extermínio dos ratos,
hospedeiros das pulgas que transmitiam a doença.

Ainda em 1904, foi instituída a Reforma Oswaldo Cruz, com a criação do Serviço de Profilaxia da
Febre Amarela e a Inspetoria de Isolamento e Desinfecção (com responsabilidade de combate à malária
e à peste no Rio de Janeiro).

Assim, tornou-se obrigatória, em toda a República, a vacinação e a revacinação contra a varíola. Foi,
também, criada a Diretoria-Geral de Saúde Pública (para atender aos problemas de saúde da capital do
país e prosseguir na defesa sanitária dos portos brasileiros).

Nesse mesmo ano, uma epidemia de varíola assolou a capital, somente nos cinco primeiros meses,
1.800 pessoas foram internadas no Hospital São Sebastião, pois, embora uma lei prevendo imunização
compulsória das crianças contra a doença estivesse em vigor desde 1837, ela nunca fora cumprida.

27
Unidade I

Foi ainda naquele ano (em 13 de novembro) que eclodiu a Revolta da Vacina, mas os fatos que
deram origem àquele triste evento começaram a ocorrer meses antes: em 29 de junho, o Governo
enviou ao Congresso projeto reinstaurando a obrigatoriedade de vacinação antivariólica, com a previsão
de vacinação antes dos seis meses de idade e para todos os militares, revacinação de sete em sete
anos e exigência de atestado de imunização para candidatos a quaisquer cargos ou funções públicas,
para quem quisesse se casar, viajar ou matricular-se numa escola; foram também outorgados à polícia
sanitária poderes para convocar todos os moradores de uma área de foco a se imunizarem; e, quem se
recusasse, seria submetido à observação médica em local apropriado, pagando as despesas de estadia; o
projeto estipulava ainda punições e multas para médicos que emitissem atestados falsos de vacinação
e revacinação e obrigava os diretores de colégios a obedecerem às disposições sobre imunização dos
estudantes e instituía a comunicação de todos os registros de nascimento.

Ocorreu que essas medidas enfrentaram grande resistência da população, oposição esta que era
estimulada pelos jornais, sendo, até mesmo, organizada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. E, como
resultado da Revolta da Vacina, a população se levantou contra o governo e ocorreram choques com a
polícia, greves, barricadas, quebra-quebra, tiroteios nas ruas, levando, inclusive à decretação do estado
de sítio.

Apenas no dia 16, o Governo Federal conseguiu derrotar a Revolta, mas suspendeu a obrigatoriedade
da vacina.

Lembrete

Em 1904, o presidente Rodrigues Alves determina a vacinação contra


varíola como obrigatória. As manifestações populares contrárias e os
conflitos com as autoridades sanitárias ficaram conhecidos como a Revolta
da Vacina.

Em 1907 deu-se a criação do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (atual Instituto


Oswaldo Cruz), sendo estabelecidas normas e estratégias para o controle dos mosquitos, vetores da
febre amarela.

Nesse mesmo ano a febre amarela foi erradicada do Rio de Janeiro e Oswaldo Cruz recebeu,
em setembro, a medalha de ouro pelo trabalho de saneamento do Rio de Janeiro no IV Congresso
Internacional de Higiene e Demografia de Berlim.

No ano seguinte (em 1908) eclodiu, entretanto, uma violenta epidemia de varíola levou a população
em massa aos postos de vacinação. Nesse mesmo ano, Oswaldo Cruz reformou o Código Sanitário e
reestruturou todos os órgãos de saúde e higiene do país.

Em 1909, Oswaldo Cruz deixou a Diretoria-Geral de Saúde Pública, passando a dedicar-se apenas
ao Instituto de Manguinhos, que fora rebatizado com o seu nome. Nesse ano, também foi erradicada
a febre amarela no Pará e realizada a campanha de saneamento na Amazônia, que permitiu o término
28
POLÍTICAS DE SAÚDE

das obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, cuja construção havia sido interrompida pelo grande
número de mortes entre os operários, tendo sido determinadas as seguintes medidas profiláticas e
preventivas: exame médico minucioso e fornecimento de quinino durante a viagem; exames periódicos
nos empregados; fornecimento diário de quinino; desconto dos dias em que o trabalhador não ingerisse
o medicamento e gratificação para o operário que passasse três meses sem sofrer nenhum acesso de
malária; recomendou a construção de galpões telados para alojamento do pessoal, fornecimento de
água fervida; uso de calçados, locais determinados para a defecação.

Ainda em 1909, Carlos Chagas descobriu a doença provocada pelo Tripanosoma cruzi, que, então,
passou a se chamar doença de Chagas.

Em 14 de fevereiro de 1917, Carlos Chagas assumiu a direção do Instituto Oswaldo Cruz.

No ano seguinte foram criados dois órgãos de saúde pública de relevância:

• O Serviço da Quinina Oficial (profilático da malária).

• O Serviço de Profilaxia Rural, subordinado à Inspetoria de Serviços de Profilaxia.

Em 1920, Carlos Chagas reorganiza os Serviços de Saúde Pública, com a criação do Departamento
Nacional de Saúde Pública e é editado o Decreto n. 3.987, de 02/01/1920, que criou o Departamento
Nacional de Saúde Pública. Nesse ano ocorre, também, a aprovação do regulamento para o Departamento
Nacional de Saúde Pública.

Finalmente, em 1921, foi instituída a Reforma Carlos Chagas, que ampliou as atividades de cooperação
com estados, por meio da Diretoria de Saneamento e da Profilaxia Rural.

Observação

Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, 1879-1934, brasileiro de Minas Gerais,


foi um importante médico sanitarista atuante no combate à malária e a
outras doenças tropicais.

Entretanto, somente a partir da década de 1930 foram adotadas as primeiras tentativas de


organização e implantação de medidas na área da saúde pública, com alguma eficácia, como a criação
de diversos órgãos, visando basicamente à prevenção e ao controle de doenças. Mas, ainda nesse período,
especialmente a implantação da saúde preventiva enfrentou grandes dificuldades pelas seguintes razões:

• O limitado desenvolvimento científico, tecnológico e industrial.

• Expansão da assistência médica vinculada à lógica de mercado.

• Processo (lento) de formação de uma consciência dos direitos de cidadania.


29
Unidade I

É criado, em 1930, o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, tendo sido os serviços
relacionados com a saúde pública transferidos para o novo Ministério e reativado o Serviço de Profilaxia
de Febre Amarela, em função da epidemia de 1927-1928, no Rio de Janeiro, e da dispersão do mosquito
transmissor.

O médico-sanitarista João de Barros Barreto assumiu, em 1931, a diretoria do Serviço Sanitário


Estadual de São Paulo, em cuja gestão foi formada a Secretaria Estadual de Educação e Saúde Pública.

Dá-se, em 1932, a instituição do ensino e a pesquisa científica no campo da administração, com a


criação do Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort).

Em 1936, uma comissão chefiada por Evandro Chagas chegou ao Pará com uma equipe de médicos
e farmacêuticos, tendo constatado que a Amazônia era um campo vasto para pesquisa nas áreas médica
e científica. Sugeriu, então, criação de um instituto de pesquisa para ampliar os estudos de doenças
regionais, como malária, leishmaniose, filariose, do que resultou a criação, em 11 de novembro, do
Instituto de Patologia Experimental do Norte (Ipen), atual Instituto Evandro Chagas (IEC).

A Reforma Barros Barreto instituiu-se em 1941, em que se destacam as seguintes ações:

• Instituição de órgãos normativos e supletivos destinados a orientar a assistência sanitária e hospitalar.


• Criação de órgãos executivos de ação direta contra as endemias mais importantes (malária, febre
amarela, peste).
• Fortalecimento do Instituto Oswaldo Cruz, como referência nacional.
• Descentralização das atividades normativas e executivas por 8 regiões sanitárias.
• Destaque aos programas de abastecimento de água e construção de esgotos, no âmbito da
saúde pública.
• Atenção aos problemas das doenças degenerativas e mentais com a criação de serviços
especializados de âmbito nacional (Instituto Nacional do Câncer).

Nos anos que se seguem são dignos de nota os seguintes eventos:

1942

• Autorização do então Ministério da Educação e Saúde, a organizar o Serviço Especial de Saúde


Pública (SESP), em cooperação com o Institute of Interamerican Affairs, do Governo Americano.

• Assinatura do convênio básico, que estabelecia o desenvolvimento de atividades de saneamento,


profilaxia da malária e assistência médico-sanitária às populações da Amazônia, onde se extraía a
borracha necessária ao esforço de guerra.
• Realização da I Conferência Nacional de Saúde.
30
POLÍTICAS DE SAÚDE

1943

• Criação da Campanha Contra a Bouba e implantação dos Postos Experimentais de Combate à


Esquistossomose (Catende/PE) e ao Tracoma (Jacarezinho/PR).

1944

• Criação do Serviço Nacional de Helmintoses (em especial a esquistossomose e a ancilostomose).

1948

• Instalado o Centro de Estudos do Instituto Oswaldo Cruz, em Bambuí/MG, que desenvolveu os


primeiros estudos para o controle da doença de Chagas e criação do primeiro Conselho de Saúde
(considerado por William Wech o marco inicial da Saúde Pública moderna).

1953

• É criado o Ministério da Saúde, regulamentado pelo Decreto n. 34.596, de 16 de novembro de 1953.

• Foi instituída a obrigatoriedade da iodação do sal de cozinha destinado a consumo alimentar nas
regiões bocígenas do país.

1954

• É editada a Lei n. 2.312, de 03/09/1954 estabeleceu normas gerais sobre a defesa e proteção da saúde.

Somente a partir da década de 1960 é que realmente começaram a ser implantadas normas, que,
destinadas a acompanhar o aumento da produção e do consumo de bens e serviços, tiveram repercussões
na área da saúde pública, como a regulamentação da iodação do sal e das águas de consumo humano
e a reforma do laboratório de análises, com a criação do Instituo Nacional de Controle da Qualidade
em Saúde (INCQS), estimulado pela implantação do Programa Nacional de Imunização, com o controle
sanitário das vacinas.

Medidas adotadas nos anos seguintes:

1961

• Início da produção, no Brasil, da vacina liofilizada contra a varíola, em substituição à tradicional,


que era pouco estável, por ser fabricada em forma de linfa.

• Realização das primeiras campanhas com a vacina oral contra a poliomielite: projetos experimentais
em Petrópolis/RJ e Santo André/SP.

• Introdução da técnica de diagnóstico laboratorial da poliomielite, no Instituto Oswaldo Cruz (IOC).


31
Unidade I

• Regulamentação do Código Nacional de Saúde, Lei n. 2.312, de 03/09/1954, estabelecendo as


Normas Gerais sobre Defesa e Proteção da Saúde.

1962

• É instituída Campanha Nacional contra a Varíola, coordenada pelo Departamento Nacional de


Saúde, com a organização de operações de vacinação em diversos Estados, mediante mobilização
de recursos locais.

• Primeiro ensaio para administração da vacina BCG Intradérmica, no Brasil.

Cenário político

A partir de 1961 o presidente João Goulart (Jango) desenvolveu uma política externa
independente do apoio das superpotências da Guerra Fria. Jango fortaleceu os movimentos
sindicais, estudantis, camponeses e populares. Além desses fatos, o então presidente
promoveu uma aproximação política entre o Brasil e a União Soviética, o que desencadeou
atritos com as lideranças políticas, econômicas e militares do Brasil.

Havia uma preocupação crescente em relação à proliferação dos regimes comunista e


socialista no mundo, especialmente na América Latina, o que punha em risco os interesses
e a hegemonia do capitalismo, especialmente do americano nesta região.

Foi exatamente neste contexto que as Forças Armadas brasileiras articularam e


executaram um golpe de estado em 31 de março de 1964 e instalaram um regime militar,
com o aval dos Estados Unidos (um processo que se repetiu na maioria dos países da América
Latina, configurando um ciclo de ditaduras militares em toda a região).

O regime militar, instaurado em 1964, contava com suportes políticos extremamente


fortes. A maioria da burguesia defendia a internacionalização da economia e das finanças
brasileiras, ampliando o processo que era ainda obstaculizado, segundo os capitalistas,
pela proposta populista de fortalecimento das empresas estatais e de economia mista pelo
governo João Goulart.

Houve o fortalecimento do executivo e o esvaziamento do legislativo e foram editados


Atos Institucionais (principalmente o de n. 5 de 1968), que limitavam as liberdades individuais
e constitucionais.

O êxito da atuação do Executivo justificava-se, na área econômica, com o chamado


milagre econômico brasileiro, movido a capital estrangeiro.

O longo programa ideológico do movimento foi acionado com a retirada dos estudantes,
especialmente os de nível universitário, de qualquer autonomia representativa e mantendo-os
afastados de uma participação ativa nas transformações políticas. Posteriormente, o processo
32
POLÍTICAS DE SAÚDE

prosseguiria com o afastamento de professores; e, a partir de 1969, com a repressão brutal das
manifestações estudantis, articuladas ou não a organizações políticas clandestinas.

O enquadramento ideológico completou-se pelo esvaziamento dos estudos sociais,


negando-se reconhecimento à profissão de sociólogo e pela instauração de novas disciplinas
curriculares, com claro viés fascista e missionário: Educação Moral e Cívica e Organização
Social e Política Brasileira (OSPB); e, no âmbito do ensino superior, com o Estudo de
Problemas Brasileiros (EPB).

O regime militar, que se instalou a partir de 1964, de caráter ditatorial e repressivo,


procurou utilizar-se de forças policiais e do Exército e dos atos de exceção para se impor.

Observação

A Guerra Fria foi um conflito no campo ideológico, não ocorrendo um


embate militar declarado e direto entre Estados Unidos e URSS, logo após
a Segunda Guerra Mundial.

Milagre econômico brasileiro foi o período da história do Brasil, entre os


anos de 1969 e 1973, marcado por forte crescimento da economia. Nessa
época o Brasil era uma Ditadura Militar.

Neste período, no campo da organização da saúde pública no Brasil, foram desenvolvidas as


seguintes ações:

1967

• Promulgação do Decreto-Lei 200/1967, estabelecendo as competências do Ministério da Saúde:

— Formulação e coordenação da política nacional de saúde.


— Responsabilidade pelas atividades médicas ambulatoriais e ações preventivas em geral.
— Controle de drogas e medicamentos e alimentos.
— Pesquisa médico-sanitária.

1970

• Criação da SUCAM (Superintendência de Campanhas da Saúde Pública), com a atribuição de


executar as atividades de erradicação e controle de endemias, sucedendo o Departamento
Nacional de Endemias Rurais (DeneRu) e a campanha de erradicação da malária.
33
Unidade I

1975

• Instituição, ainda no papel, do Sistema Nacional de Saúde, que estabelecia de forma sistemática
o campo de ação na área de saúde, dos setores públicos e privados, para o desenvolvimento das
atividades de promoção, proteção e recuperação da saúde. O documento reconhece e oficializa
a dicotomia da questão da saúde, afirmando que a medicina curativa seria de competência do
Ministério da Previdência, e a medicina preventiva de responsabilidade do Ministério da Saúde.
No entanto, o governo federal destinou poucos recursos ao Ministério da Saúde, que foi incapaz
de desenvolver as ações de saúde pública propostas, o que significou, na prática, uma clara opção
pela medicina curativa, que era mais cara e que, no entanto, contava com recursos garantidos
através da contribuição dos trabalhadores para o INPS.

Observação

Medicina curativa atua quando a doença já se instalou no paciente,


devendo ser tratada a partir de então. A saúde é entendida primordialmente
como ausência de doença.

Assim, o Ministério da Saúde tornou-se muito mais um órgão burocrato-normativo do que um


órgão executivo de política de saúde.

Tendo como referência as recomendações internacionais e a necessidade de expandir cobertura,


iniciou-se, em 1976, o Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (PIASS), que,
concebido na Secretaria de Planejamento da Presidência da República, constituiu o primeiro programa
de medicina simplificada do nível federal e permitiu a entrada de técnicos provenientes do movimento
sanitário no interior do aparelho de Estado. O programa foi estendido a todo o território nacional, o que
resultou numa grande expansão da rede ambulatorial pública.

De qualquer forma, o modelo econômico implantado pela ditadura militar entra em crise, basicamente
por duas razões:

• Período de crise internacional, pelo qual passou o capitalismo.

• Diminuição do fluxo de capital estrangeiro para mover a economia nacional, logo, o país diminuiu
o ritmo de crescimento, que deixou de ser sustentável.

A ideia de que era preciso fazer “crescer o bolo” (a economia) para depois redistribuí-lo para a
população não se confirmou no plano social: os pobres ficaram mais pobres e os ricos mais ricos, sendo
o país um dos que apresentam um dos maiores índices de concentração de renda em nível mundial.

A população, com baixos salários, contidos pela política econômica e pela repressão, passou a
conviver com o desemprego e as suas graves consequências sociais, como aumento da marginalidade,
das favelas e da mortalidade infantil.
34
POLÍTICAS DE SAÚDE

É exatamente nesse contexto que o modelo de saúde começou a mostrar as suas mazelas:

• Por ter priorizado a medicina curativa, o modelo proposto revelou-se incapaz de solucionar os
principais problemas de saúde coletiva, como as endemias, as epidemias, e os indicadores de
saúde (mortalidade infantil, por exemplo).

• Passou-se a registrar a ocorrência de aumentos constantes dos custos da medicina curativa,


centrada na atenção médico-hospitalar de complexidade crescente.

• Houve a diminuição do crescimento econômico com a respectiva repercussão na arrecadação do


sistema previdenciário reduzindo as suas receitas.

• Revelou-se, também, a incapacidade do sistema em atender a uma população cada vez maior de
marginalizados, que, sem carteira assinada e contribuição previdenciária, foram excluídos do sistema.

• A esse quadro, acrescentam-se os desvios de verba do sistema previdenciário para cobrir despesas
de outros setores e para realização de obras por parte do governo federal.

• Finalmente, todo esse quadro de crise foi agravado pelo não repasse da União de recursos do
Tesouro Nacional para o sistema previdenciário, assumindo, assim, a condição de inadimplente no
custeio tripartite do sistema (empregador, empregado e união).

Assim, o modelo entrou em crise, principalmente pelas seguintes razões:

• Escassez de recursos para a sua manutenção.

• Aumento dos custos operacionais.

• Descrédito social em resolver a agenda da saúde.

Alguns eventos relevantes desse período:

1965

• Instituição da Campanha de Erradicação da Malária e da Campanha de Erradicação da Varíola.

1969

• O SESP passou a denominar-se Fundação de Serviços de Saúde Pública FSESP e organizou o


sistema de notificação de algumas doenças transmissíveis, prioritariamente, aquelas passíveis de
controle por meio de programas de vacinação, além de criar o Boletim Epidemiológico.

• Foi realizada a reorganização administrativa do Ministério da Saúde em 1970, criando-se a


Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), subordinada à Secretaria de Saúde
Pública e incorporando o DENERu, a CEM e a CEV.
35
Unidade I

• Deu-se a criação da Divisão Nacional de Epidemiologia e Estatística da Saúde (DNEES), no


Departamento de Profilaxia e Controle de Doenças.

• Instalação das unidades de Vigilância Epidemiológica da Varíola, em âmbito federal.

• Foi instituída a Fundação Oswaldo Cruz, congregando inicialmente o então Instituto Oswaldo
Cruz, a Fundação de Recursos Humanos para a Saúde, posteriormente Escola Nacional de Saúde
Pública (ENSP) e o Instituto Fernandes Figueira (as demais unidades que hoje compõem a Fiocruz
foram incorporadas ao longo dos anos).

1971

• Instituição do Plano Nacional de Controle da Poliomielite.

• Criação da Central de Medicamentos (CEME).

• Início da organização do sistema de produção e distribuição de medicamentos essenciais, inclusive


produtos imunobiológicos.

1975

• Realização da Campanha Nacional de Vacinação contra a meningite meningocócica.

• Início da implantação do sistema nacional de registro de doses de vacinas aplicadas.

1976

• Regulamentação da Lei n. 6.259/75, que dispôs sobre a organização das Ações de Vigilância
Epidemiológica, o Programa Nacional de Imunizações e estabeleceu normas relativas à notificação
compulsória de doenças.

• Implantação do Sistema de Informações sobre Mortalidade.

• Estabelecimento das doenças de notificação compulsória.

• Implantação do sistema nacional de vigilância de casos suspeitos de poliomielite.

• Criação da Secretaria Nacional de Ações Básicas de Saúde (SNABS) e a Secretaria Nacional de


Programas Especiais de Saúde (SNPES).

• Realização da Campanha de Vacinação Contra a meningite meningocócica (SUCAM e FSESP).

1977

• São registradas as últimas ocorrências de casos de varíola no mundo.

• São definidas as vacinas obrigatórias para os menores de um ano, em todo território nacional.
36
POLÍTICAS DE SAÚDE

1979

• Certificação, pela OMS, da erradicação global da varíola.

• Implantação, pela Fiocruz, do concentrado viral para diluição da vacina contra sarampo.

1980

• Extinção da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola.

• No mesmo ano, é lançamento do Plano de Ação Contra a Poliomielite, estabelecendo os dias


nacionais de vacinação e demonstração do impacto epidemiológico dos dias nacionais de
vacinação contra a poliomielite realizados em 14 de junho e 16 de agosto, pela drástica redução
da incidência da doença, em todas as regiões do país.

1981

• Execução do Plano de Ação Contra o Sarampo, por intermédio de campanhas estaduais de vacinação.

• Inauguração do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), da Fiocruz.

• Para tentar conter custos e combater fraudes o governo criou o Conselho Consultivo de
Administração da Saúde Previdenciária – Conasp (ligado ao Inamps) e que passa a absorver em
postos de importância alguns técnicos ligados ao movimento sanitário, o que permitiu dar início
à ruptura, por dentro, da dominância dos anéis burocráticos previdenciários.

Com a adoção da nova estratégia, inicia-se uma fiscalização mais rigorosa da prestação de contas dos
prestadores de serviços credenciados, combatendo-se as fraudes. O plano propõe, também, a reversão
gradual do modelo médico-assistencial, visando:

• Aumento da produtividade do sistema.

• Melhoria da qualidade da atenção.

• Equalização dos serviços prestados as populações urbanas e rurais.

• Eliminação da capacidade ociosa do setor público.

• Hierarquização.

• Criação do domicílio sanitário.

• Montagem de um sistema de auditoria médico-assistencial.

• Revisão dos mecanismos de financiamento do FAS.

37
Unidade I

O Conasp encontrou oposição da Federação Brasileira de Hospitais e de Medicina de Grupo, que viam
nessa tentativa a perda da sua hegemonia dentro do sistema e a perda do seu status. Para se mencionar
a forma desses grupos atuarem, basta citar que eles se opuseram e conseguiram derrotar dentro do
governo, com a ajuda de parlamentares, um dos projetos mais interessantes de modelo sanitário, que
foi o PREV-SAÚDE, que depois de seguidas distorções acabou por ser arquivado. No entanto, isso,
não impediu que o Conasp implantasse e apoiasse projetos pilotos de novos modelos assistenciais,
destacando o Piass no nordeste.

Devido ao agravamento da crise financeira, o sistema redescobre, quinze anos depois, a existência do
setor público de saúde e a necessidade de se investir nesse setor, que trabalhava com um custo menor
e atendendo a uma grande parcela da população carente de assistência.

Assim, em 1983, foi criado a AIS (Ações Integradas de Saúde), um projeto interministerial (Previdência-
Saúde-Educação), visando um novo modelo assistencial que incorporava o setor público, procurando
integrar ações curativo-preventivas e educativas ao mesmo tempo.

Nesse contexto, cujo período coincidiu com o movimento de transição democrática, com eleição
direta para governadores e a vitória esmagadora de oposição em quase todos os estados nas primeiras
eleições democráticas do período (1982), a Previdência Social passa a comprar e pagar serviços prestados
por estados, municípios, hospitais filantrópicos, públicos e universitários.

Apenas em meados da década de 1980, com o movimento de redemocratização do país, foram


sendo criadas as condições sociais e políticas necessárias para as mudanças que viriam, que
foram fortalecidas principalmente pelo movimento pela Reforma Sanitária, até o advento da VIII
Conferência Nacional de Saúde, em 1986, quando surgiram, então, as bases para a criação do
Sistema Único de Saúde, o SUS.

O movimento Diretas Já, de 1985, e a eleição de Tancredo Neves marcaram o fim do regime
militar, gerando diversos movimentos sociais inclusive na área de saúde, que culminaram com a
criação das Associações dos Secretários de Saúde Estaduais (Conass) ou municipais (Conasems).
A partir da grande mobilização nacional por ocasião da realização da VIII Conferência Nacional
de Saúde (Congresso Nacional, 1986) resultaram as bases da reforma sanitária e do Suds (Sistema
Único Descentralizado de Saúde).

Observação

Diretas Já foi um movimento político democrático com diversas


manifestações populares em muitas cidades brasileiras no ano de 1984.
Porém, as eleições diretas para presidente só ocorreram em 1989.

Esses fatos ocorreram concomitantemente com a eleição da Assembleia Nacional Constituinte em


1986 e a promulgação da nova Constituição em 1988.

38
POLÍTICAS DE SAÚDE

É preciso fazer um pequeno corte nessa sequência para entender como o modelo médico neoliberal
procurou se articular naquele momento da crise.

O setor médico privado que se beneficiou do modelo médico-privatista durante quinze anos a partir
de 1964, tendo recebido nesse período vultosos recursos do setor público e financiamentos subsidiados,
cresceu, se desenvolveu e engordou.

Assim, a partir do momento em que o setor público entrou em crise, o setor privado começou a
perceber que não mais poderia se manter e se nutrir daquele e passou a formular novas alternativas
para sua estruturação. Direcionou, então, o seu modelo de atenção médica para parcelas da
população, classe média e categorias de assalariados, procurando através da poupança desses
setores sociais organizar uma nova base estrutural.

Desse modo, foi concebido um subsistema de atenção médica supletiva, composto de cinco
modalidades assistenciais:

• Medicina de grupo.

• Cooperativas médicas.

• Autogestão.

• Seguro-saúde.

• Plano de administração.

Com pequenas diferenças entre si, estas modalidades se baseiam em contribuições mensais dos
beneficiários, em contrapartida pela prestação de determinados serviços. Esses serviços e benefícios
eram pré-determinados, com prazos de carências, além de determinadas exclusões, por exemplo, a não
cobertura do tratamento de doenças infecciosas.

O subsistema de atenção médico-supletiva cresceu vertiginosamente, na década de 80, de tal modo


que, no ano de 1989, chega a cobrir 31.140.000 brasileiros, correspondentes a 22% da população total,
e apresentando um volume de faturamento de US$ 2.423.500.000,00 (MENDES, 1993).

Esse sistema baseou-se num universalismo excludente, beneficiando e fornecendo atenção médica
somente para aquela parcela da população que tem condições financeiras de arcar com o sistema, não
beneficiando a população como um todo e sem a preocupação de investir em saúde preventiva e na
mudança de indicadores de saúde, cabendo, enquanto isso, ao subsistema público atender à grande
maioria da população (aproximadamente 120.000.000 de brasileiros, em 1990), com os minguados
recursos dos Governos Federal, Estadual e Municipal.

39
Unidade I

Destacam-se nesse período os seguintes eventos:

1984

• A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef) recomendam a adoção da estratégia de dias nacionais de vacinação, que é adotada pelos
países latino-americanos.

• Dá-se, em 1984, a introdução, em alguns estados, da estratégia de multivacinação utilizando a


mobilização para os dias nacionais de vacinação contra a poliomielite.

Observação

O Fundo das Nações Unidas para a Infância foi criado em 1946, por
decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Em 1950, foi instalado o
primeiro escritório do Unicef no Brasil.

1985

• É instituído o Programa de Controle de Acidentes Ofídicos.

• Dá-se a publicação e distribuição da primeira edição do Guia de Vigilância Epidemiológica.

1986

• Ocorre a aprovação do Plano de Ação para a Erradicação da Poliomielite no Brasil.

• É criado o personagem símbolo da erradicação da poliomielite, o Zé Gotinha, e é publicado o


documento A Marca de Um Compromisso.

• É realizada a publicação e distribuição da primeira edição do Manual de Procedimentos para Vacinação.

1987

• Criação do Programa de Desenvolvimento de Sistemas Unificados e Descentralizados de Saúde


(Suds) nos estados.

Finalmente, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, ficou legalmente estabelecido que
a saúde pública é um direito de todos e dever do Estado, criando-se, assim, as condições necessárias
ao surgimento de canais e mecanismos de controle e participação social, para dar cumprimento aos
princípios constitucionais que visavam garantir os direitos sociais e individuais.

Em cumprimento das disposições constitucionais, o Governo, em 1990, editou as Leis 8.080 e 8.142,
conhecidas como Leis Orgânicas da Saúde, regulamentando o SUS, criado pela Constituição de 1988.
40
POLÍTICAS DE SAÚDE

Saiba mais

A Organização Pan-Americana da Saúde é um organismo internacional


de saúde pública, dedicado a melhorar as condições de saúde dos países das
Américas por meio de transferência de tecnologia e conhecimento.

Para aprofundar seus conhecimentos sobre a organização, acesse:

<http://www.paho.org/>.

Quanto aos anos mais recentes, segue um resumo esquemático das medidas de saúde pública adotadas:

1989

• Ocorrência do último caso de poliomielite no Brasil.

• Elaboração do documento: “PNI 15 anos, uma análise crítica”.

• Início do controle da hepatite B, com a realização de vacinação na Amazônia Ocidental.

1990

• Transferência das atribuições, do acervo e dos recursos orçamentários da SUCAM para a FSESP,
que passou a denominar-se Fundação Nacional de Saúde (FNS).

• A Lei n. 8.029, de 12/4/1990 autorizou o Poder Executivo a instituir a Fundação Nacional de Saúde
(FNS), mediante incorporação da FSESP e SUCAM.

• A Lei n. 8.080, de 19/9/1990 instituiu o SUS, definindo seus objetivos, competências e atribuições;
princípios e diretrizes; organização, direção e gestão; criou o subsistema de atenção à saúde
indígena; regulou a prestação de serviços privados de assistência à saúde; definiu políticas de
recursos humanos; financiamento; gestão financeira; planejamento e orçamento.

• A Lei n. 8.101, de 6/12/1990 incorporou à Fundação Nacional de Saúde (FNS) as atividades de


informática do SUS, desenvolvidas pela Empresa de Processamento de Dados da Previdência
Social (DATAPREV).

• A Lei n. 8.142, de 28/12/1990 introduziu a gestão participativa no SUS; forma de alocação dos
recursos oriundos do Fundo Nacional de Saúde.

1991

• Intensificação da vacinação de recém-nascidos com a BCG-ID, nas maternidades de grande porte.

41
Unidade I

• Introdução da vacinação contra a febre amarela na rotina dos serviços permanentes de vacinação,
nas áreas endêmicas.

• Implantação e ampliação da vacinação contra a hepatite B, na Amazônia Ocidental.

• Instituição, através do Decreto n. 100, de 16/4/1991, da Fundação Nacional de Saúde (FNS).

• Início do Plano de Eliminação do Tétano Neonatal, com vacinação de mulheres em idade fértil,
nos municípios de risco.

1992

• Implantação do Plano Nacional de Eliminação do Sarampo, com a realização de campanha


nacional de vacinação em menores de 15 anos.

• Implantação da vacina contra a hepatite B, para grupos de alto risco de infecção pelo vírus HB,
em todo país.

1994

• Obtenção, pelo Brasil, do Certificado Internacional de Erradicação da Transmissão Autóctone do


Poliovírus Selvagem.

1995

• Lançamento do Projeto para Redução da Mortalidade na Infância (PRMI), integrante do Programa


Comunidade Solidária.

1996

• Realização de campanha nacional de vacinação contra a hepatite B, envolvendo escolares e


odontólogos, esses últimos em parceria com o Conselho Nacional de Odontologia.

1997

• Implantação da vacina monovalente contra a rubéola no pós-aborto e no pós-parto.

1998

• Implantação da vacina contra o Haemophilus influenzae tipo B, para menores de um ano, em


todo o país.

• Responsabilização direta dos municípios pela execução da vacinação, na rede de serviços, a partir
da sua habilitação às condições de Gestão estabelecidas pela NOB/96: Gestão Plena de Atenção
Básica e Gestão Plena do Sistema Municipal.
42
POLÍTICAS DE SAÚDE

1999

• Regulamentação da NOB/SUS n. 1/1996 no que se refere às competências dos três níveis de


governo na área de epidemiologia e controle de doenças.

• Definição da sistemática de financiamento (Portaria GM/MS n. 1.399, de 15/12/1999).

2000

• Estabelecimento dos procedimentos e as responsabilidades relativas ao Controle e Vigilância da


Qualidade da Água para Consumo Humano e seu padrão de potabilidade (Portaria GM/MS n.
1.469, de 29/12/2000).

2001

• Aprovação da Norma Operacional de Assistência à Saúde (Noas-SUS 1/2001), que ampliou a


responsabilidade dos municípios na atenção básica; definiu o processo de regionalização da assistência;
criou mecanismos para o fortalecimento da capacidade de gestão do SUS e procedeu à atualização dos
critérios de habilitação de estados e municípios (Portaria GM/MS n. 95, de 26/1/2001).

• Regulamentação da Portaria GM/MS n. 1.399/99, no que se refere às competências da União,


Estados, Municípios e DF na área de Vigilância Ambiental em Saúde (Instrução Normativa Funasa
n. 1, de 25/9/2001).

• Definição da relação de doenças de notificação compulsória em todo o território nacional (Portaria


GM/MS n. 1.943, de 18/10/2001).

• Adoção da vacinação obrigatória de trabalhadores das áreas portuárias, aeroportuárias, de


terminais e passagens de fronteira (Portaria GM/MS n. 1.986, de 25/10/2001).

2002

• Inclusão das ações de epidemiologia e controle de doenças na gestão da atenção básica de saúde
(Portaria GM/MS n. 44, de 3/1/2002).

• Instituição, no âmbito do SUS, o Programa Nacional para a Prevenção e o Controle das Hepatites
Virais, a ser desenvolvido pelos três níveis de gestão; definição das competências e atribuições
relativas à implantação/gestão do Programa em cada nível de direção do SUS; estabeleceu níveis
assistenciais; delegou à Funasa a coordenação do Sistema Epidemiológico das Hepatites Virais e o
uso de imunobiológicos para a prevenção das hepatites virais, e deu outras providências (Portaria
GM/MS n. 263, de 5/2/2002).

• Instituição, no âmbito do Ministério da Saúde, da Comissão de Biossegurança em Saúde (Portaria


GM/MS n. 343, de 19/2/2002).
43
Unidade I

• Aprovação da Norma Operacional de Assistência à Saúde (Noas-SUS 01/2002) que ampliou as


responsabilidades dos municípios na Atenção Básica; estabeleceu o processo de regionalização
como estratégia de hierarquização dos serviços de saúde e de busca de maior equidade; criou
mecanismos para o fortalecimento da capacidade de gestão do Sistema Único de Saúde e
procedeu à atualização dos critérios de habilitação de estados e municípios (Portaria GM/MS n.
373, de 27/2/2002).

• Alterações na Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990, que dispôs sobre as condições para a
promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento correspondentes;
regulamentou a assistência domiciliar no âmbito do SUS, e deu outras providências (Lei n. 10.424,
de 15/4/2002).

• Instituição do Dia Nacional da Mobilização contra a Dengue (Portaria GM/MS n. 1.346, de 24/7/2002).

• Instituição do Programa Nacional de Controle da Dengue (Portaria GM/MS n. 1.347, de 24/7/2002).

• Instituição do Cartão Nacional de Saúde – Cartão SUS (Portaria GM/MS n. 1.560, de 29/8/2002).

• Instituição do Comitê Nacional de Mobilização Contra a Dengue (Portaria Funasa n. 408, de 12/9/2002).

• Definição do parâmetro que caracteriza situação de iminente perigo à saúde pública pela presença
do mosquito transmissor da dengue (Portaria Funasa n. 559, de 4/12/2002).

• Instituição do Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária (Portaria Funasa n. 663, de


27/12/2002).

2003

• Instituição do Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS com os objetivos de


promover as pesquisas científico-tecnológicas que atendam às necessidades do Sistema Único de
Saúde (SUS); reconhecer e premiar os méritos dos pesquisadores responsáveis pela condução de
pesquisas básicas e aplicadas com elevado potencial de utilização pelo SUS; e divulgar nacional
e internacionalmente os resultados dos trabalhos premiados e selecionados (Portaria GM/MS n.
1.419, de 24/7/2003).

• Criação do Comitê Interministerial da Inclusão Social de Catadores de Lixo (Decreto s/n, de


11/9/2003).

• Constituição do Comitê Nacional de Mobilização contra a Dengue (Portaria GM/MS n. 2.001, de


17/10/2003).

• Instituição do Programa Nacional para Prevenção e Controle das Hepatites Virais, o Comitê Técnico
de Acompanhamento e Assessoramento do Programa (Portaria GM/MS n. 2.080, de 31/10/2003).

44
POLÍTICAS DE SAÚDE

2004

• Instituição da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde como estratégia do Sistema


Único de Saúde para a formação e o desenvolvimento de trabalhadores para o setor (Portaria GM/
MS n. 198, de 13/2/2004).

• Instituição, em todo território nacional, dos calendários de vacinação (Portaria GM/MS n. 597,
de 8/4/2004).

• Criação do Projeto de Saneamento Ambiental em Regiões Metropolitanas (Portaria Interministerial


GM/MCIDADES/MS n. 165, de 20/4/2004).

• Regulamentação da NOB SUS 01/96 no que se refere às competências da União, Estados, Municípios
e Distrito Federal, na área de Vigilância em Saúde, define a sistemática de financiamento, com a
previsão, no art. 30, de que a Funasa estabelecerá, com a participação da SVS, critérios e limites
para o pagamento da indenização de campo dos seus agentes de controle de endemias (Portaria
GM/MS n. 1.172, de 15/6/2004).

2005

• Instituição da Comissão Nacional de Monitoramento e Avaliação da Implementação do Pacto


Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal (Portaria GM/MS n. 427, de 22/3/2005).

2006

• Aprovação da Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas


para organização da Atenção Básica para o Programa de Saúde da Família (PSF) e do Programa
Agentes Comunitários (Pacs) (Portaria GM/MS n. 648, de 28/03/2006).

2007

• Fixação das diretrizes nacionais para o saneamento básico (Lei n. 11.445, de 5/1/2007).

• Instituição do Comitê Gestor da Política Nacional de Promoção da Saúde (Portaria GM/MS n.


1.409, de 13/6/2007).

• Lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), instituído pelo Governo Federal,


na área de saneamento, é implementado pela Funasa, em municípios com população até 50 mil
habitantes.

2009

• Instituição, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), da Política Nacional de Atenção Integral
à Saúde do Homem (Portaria GM/MS n. 1.944, de 27/08/2009).
45
Unidade I

2010

• Instituição, em todo o território nacional, do Calendário de Vacinação para os Povos Indígenas


(Portaria GM/MS n. 1.946, de 19/7/2010).

• Instituição do Programa Pró-Catador (Decreto n. 7.405, de 23/12/2010).

2011

• Estabelecimento das diretrizes, competências e atribuições do Programa Nacional de Apoio ao


Controle da Qualidade da Água para Consumo Humano (Portaria Funasa n. 177, de 21/3/2011).

Presentemente, de forma esquemática, o Ministério da Saúde é composto dos seguintes órgãos que
assim se inter-relacionam (BRASIL, 2012a):

Órgãos Colegiados
Ministro
Órgãos Subordinados

Subordinação
da Saúde Conselho Nacional de Saúde
Vinculação Conselho de Saúde Suplementar

Gabinete do Secretaria
Ministro Executiva

Consultoria Departamento
jurídica Nacional de
Auditoria do SUS

Secretaria de Secretaria de Gestão do Secretaria de Secretaria de Ciência,


Secretaria de Gestão
Atenção à Trabalho e da Educação Vigilância na Tecnologia e Insumos
Participativa
Saúde na Saúde Saúde Estratégicos

Fundações Públicas Autarquias Empresa Pública Sociedade de Economia Mista


Fundação Nacional de Saúde Agência Nacional de Empresa Brasileira Hospital N. S. da Conceição S/A
Fundação Oswaldo Cruz Vigilância Sanitária de Hemoderivados Hospital Fêmina S/A
Agência Nacional de e Biotecnologia Hospital Cristo Redentor S/A
Saúde Suplementar

Figura 1

2 PREVIDÊNCIA SOCIAL

A Previdência Social constitui instrumento fundamental no conjunto de medidas sociais e protetivas


do trabalhador e de sua família, pois:

• Constitui um mecanismo importante, no conjunto de medidas protetivas relacionadas à


saúde pública e ao bem-estar social, com repercussão não apenas para o beneficiário direto (o
trabalhador), mas de sua família (e, por isso, de toda a sociedade), em face dos reflexos dos
benefícios legais que garante, por exemplo, a aposentadoria e a pensão (proteção e assistência à
velhice ou invalidez) e a indenização temporária ou definitiva (em casos de acidente ou morte).
46
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Constitui, também, um importante e eficaz mecanismo de distribuição de rendas e de política


econômica, na medida em que é financiada por todo o conjunto dos agentes econômicos, de
acordo com suas atividades econômicas, guardando, inclusive, certa proporcionalidade com a
capacidade financeira de cada um deles (empregados e trabalhadores autônomos; pequenas e
médias empresas; as grandes corporações e as instituições financeiras).

A Lei 4.682, de 24 de janeiro de 1923 é considerada o marco inicial, ou, pelo menos, a primeira
iniciativa realmente importante na instituição da Previdência Social Pública no Brasil.

Denominada Lei Eloy Chaves, em homenagem ao seu criador, instituiu a Caixa de Aposentadoria e
Pensões (CAP) para os empregados (e seus dependentes) das empresas de estrada de ferro.

Observação

A Lei Eloy Chaves, publicada em 1923, consolidou a base do sistema


previdenciário brasileiro, com a criação da Caixa de Aposentadorias e
Pensões (CAP) para os empregados das empresas ferroviárias.

Além da aposentadoria (benefício pago ao trabalhador, quando se afastava definitivamente do


trabalho por invalidez, idade ou tempo de serviço) e pensão (paga aos dependentes do trabalhador, após
sua morte), as Caixas concediam, também, assistência médica, aproximando, por isso, aquele sistema
das regras previdenciárias atuais.

As CAP foram, em seguida, estendidas aos demais trabalhadores (empregados do serviço público,
serviços portuários, serviços telegráficos, de água, energia, transporte aéreo e mineração, entre
tantos outros), mas tinham basicamente duas limitações que dificultavam sua disseminação para a
todos os trabalhadores: eram organizadas apenas por empresas (e não por categorias profissionais)
e não se estendiam aos trabalhadores rurais (condição imposta pela classe política dominante, para
aprovação da lei).

O fato de serem limitados no âmbito das empresas impedia que as CAP tivessem segurados em
quantidade suficiente e pudesse captar recursos em volume, que permitisse o funcionamento eficiente
das Caixas criadas.

Por isso, com a crescente urbanização, a evolução da organização dos trabalhadores (inclusive
com a participação dos trabalhadores imigrantes europeus) e a industrialização (ainda que incipiente)
surgiram as condições necessárias para mudanças no sistema, permitindo, assim, a criação dos Institutos
e Aposentadoria e Pensões (IAP), implantados no Governo Getúlio Vargas e que correspondiam a
autarquias de extensão nacional, centralizadas pelo governo federal.

47
Unidade I

Observação

Em junho de 1933 foi criado o primeiro IAP, que passou a organizar as


contribuições dos trabalhadores por categoria profissional, enquanto nas
extintas CAPs eram organizadas por empresas.

As CAPs foram fundidas, surgindo, a partir de 1933, os IAP, nos quais a filiação dos trabalhadores
passou a se dar, não mais por empresa, mas por categoria profissional, possibilitando, assim, o
crescimento do sistema previdenciário. Em sequência foram, então, sendo criados os IAP dos marítimos,
dos comerciários, dos bancários e dos industriários, dos servidores do Estado, dos empregados do
transporte e cargas, entre outros.

Os IAPs também apresentavam problemas: havia diferenças entre os sistemas de benefícios dos vários
IAPs, criando dificuldades de adaptação, quando os trabalhadores mudavam de categoria profissional,
alterando a filiação previdenciária, ao migrarem de um para outro instituto.

Os IAPs foram finalmente uniformizados com a edição da Lei 3.807, de 26 de agosto de 1960
(chamada a Lei Orgânica da Previdência Social), que uniformizou os planos de prestação, de custeio e as
estruturas administrativas dos IAP, do que, na prática, resultou a uniformização dos diferentes regimes
de previdência social, então existentes no Brasil (exceto para os funcionários públicos e militares).

Na sequência, em 21 de novembro de 1966 foi editado o Decreto-Lei 72 que reuniu os IAPs existentes
e criou o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS).

A Lei Complementar 11, de 25 de maio de 1971 instituiu o Programa de Assistência do Trabalhador


Rural (Prorural).

Em 1975 a Previdência Social foi estendida aos trabalhadores rurais e a seus dependentes, sendo,
também, garantido o seguro de acidentes do trabalho.

Com a criação, em 1974, do Ministério da Previdência e Assistência Social, em 01/05/1974, a


Previdência Social finalmente atingiu a condição de Ministério (até então vinculado ao Ministério do
Trabalho e Previdência Social).

Nessa época, os serviços de Saúde Pública, Previdência Social e Assistência Social enfrentavam
grandes dificuldades de administração, organização e racionalização, pois estavam distribuídos entre
vários órgãos:

• INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), que era responsável por:

— Pagamento dos benefícios em dinheiro.

48
POLÍTICAS DE SAÚDE

— Prestação de assistência médica e outros serviços aos trabalhadores urbanos e seus dependentes.

— Responsável pela arrecadação das contribuições devidas pelos segurados e empregadores.

• Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural), cujas atribuições, extensíveis aos


trabalhadores e empregadores rurais, e seus dependentes, eram:

— Concessão de benefícios pecuniários.

— Prestação de assistência médica e outros serviços.

• Ipase (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado), que prestava assistência
médica aos funcionários públicos federais e da pensão e outros benefícios pecuniários para os
seus dependentes.

Observação

A aposentadoria dos funcionários públicos federais era paga diretamente


pelos cofres públicos, independentemente de suas contribuições.

• LBA (Fundação Legião Brasileira de Assistência), encarregada da:

— Prestação de assistência à maternidade, à infância e à adolescência.

— Assistência social em geral aos grupos carentes da população.

• Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), com a finalidade implementar a “política


nacional de bem-estar do menor”, através da elaboração de “diretrizes políticas e técnicas”, sendo
criadas, a nível estadual, as Febem, órgãos executivos, responsáveis pela prática das orientações
elaboradas pela Funabem, através do atendimento direto dos menores.

• Ceme (Central de Medicamentos), encarregada do fornecimento subsidiado ou gratuito de


medicamentos, principalmente aos beneficiários da previdência social.

• Dataprev (Empresa de Processamento de Dados da Previdência Social), responsável pela prestação


de serviços na área de informática para a Previdência Social Pública.

Com a Lei 6.439, de 01/09/1977, foi instituído o SINPAS – Sistema Nacional de Previdência e
Assistência Social, que determinou as seguintes mudanças no sistema:

• Criou o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social – Inamps, e o Instituto de


Administração Financeira da Previdência e Assistência Social – Iapas.

49
Unidade I

• Extinguiu o Funrural e o Ipase.

• Promoveu alterações no INPS, retirando as atribuições relativas à prestação da assistência médica


e à arrecadação de contribuições, e conferindo-lhe as atribuições relativas aos pagamentos, então
a cargo do Funrural e do Ipase.

• Promoveu alterações nas atribuições da LBA.

• Criou o Fundo de Previdência e Assistência Social – FPAS.

Em razão dessas medidas, o SINPAS, vinculado e administrado pelo Ministério da Previdência e


Assistência Social, foi constituído pelos seguintes órgãos, com as respectivas atribuições:

• INPS – Instituto Nacional da Previdência Social, com as atribuições de conceder e dar manutenção
aos benefícios (prestações em dinheiro), inclusive em casos de acidente do trabalho, compreendendo
a Previdência Social urbana, a rural, a dos funcionários públicos federais e aos maiores de 70 anos
e inválidos.

• Inamps – Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social, com as atribuições de


prestar serviços de:

— Assistência médica aos trabalhadores urbanos e rurais, funcionários públicos estatutários e


dependentes, além dos maiores de 70 anos e inválidos, no gozo do recebimento da renda
mensal vitalícia.

— Execução dos programas especiais de assistência médica antes mantidos pela LBA e destinados
às populações carentes (beneficiárias ou não da previdência social, em determinadas regiões,
mediante convênios com entidades públicas que assegurem ao Inamps os recursos necessários).

• LBA – Fundação Legião Brasileira de Assistência, cujas atribuições passaram a ser:

— Prestação de serviços de assistência social à população carente, mediante programas de


desenvolvimento social e de atendimento às pessoas, independentemente da vinculação destas
a outra entidade do Sinpas.

— Prestação de serviços de assistência complementar, não prestados pelo INPS ou pelo Inamps
aos seus beneficiários.

— Funabem – Fundação Nacional para o Bem-Estar do Menor, responsável pela promoção da


política nacional do menor.

• Ceme – Central de Medicamentos, responsável por:

— Distribuição de medicamentos, gratuitamente ou a baixo custo, principalmente a beneficiários


da Previdência Social.
50
POLÍTICAS DE SAÚDE

— Realização de atividades de estímulo à pesquisa científica com subsídios a entidades de


pesquisa na área farmacêutica.

Observação

O CEME não constituía uma entidade do SINPAS, mas um órgão


autônomo do Ministério da Previdência e Assistência Social.

• Iapas – Instituto de Administração Financeira de Previdência e Assistência Social, que assumiu as


atribuições do INPS, Funrural, Ipase e demais entidades que integravam o Sinpas, inclusive:

— Arrecadar, cobrar e fiscalizar as contribuições devidas àquelas entidades.

— Administrar os recursos das entidades do Sinpas de acordo com o Plano Plurianual de Custeio,
inclusive as aplicações patrimoniais e financeiras aprovadas pelo colegiado que administra o
respectivo Fundo.

Quadro 3

Órgãos Função
INPS

Instituto Nacional da Previdência Social Conceder e controlar a manutenção de benefícios


Iapas

Instituto de Administração Financeira da Arrecadar, fiscalizar e cobrar as contribuições


Previdência Social previdenciárias
S
INAMPS
I
Instituto Nacional de Assistência Médica da Prestar assistência médica
N Previdência Social
FUNABEM
P
Fundação Nacional do Bem-estar do Menor Prestar assistência ao bem-estar do menor
A
LBA
S
Fundação Legião Brasileira de Assistência Prestar assistência às pessoas carentes
CEME

Central de Medicamentos Distribuir medicamentos às pessoas carentes


DATAPREV

Empresa de Processamento de Dados da Prestar o serviço de processamento de dados


Previdência Social

Finalmente, ainda no âmbito do sistema previdenciário e antes do advento da CF de 1988, foi editado
o Decreto-lei 2.283, de 27 de fevereiro de 1986 (revogado e substituído pelo Decreto-lei 2.284, de 10 de
março de 1986), que instituiu o seguro-desemprego.

51
Unidade I

Promulgada a CF de 1988, como já exposto, foram definidas disposições específicas (artigos 194 a
204), abrangendo exatamente as três áreas integrantes da Seguridade Social (Saúde Pública, Previdência
Social e Assistência Social).

Seguiu-se, então, a chamada reforma administrativa, sendo editado o Decreto 99.350, de 27 de


junho de 1990, que:

• Unificou o Ministério do Trabalho e o da Previdência e Assistência Social, sendo criado o Ministério


do Trabalho e da Previdência Social (MTPS).

• Ao MTPS foram vinculados a Dataprev e o INSS – Instituto Nacional do Seguro Social (organizado
na forma de autarquia), resultante da fusão do Iapas e do INPS, assumindo as atribuições de
arrecadar e cobrar as contribuições, bem como de pagar os benefícios.

• Em seguida, em 24 de julho de 1991, foram publicadas duas leis fundamentais ao funcionamento


da Previdência Social (e que se encontram ainda vigentes):

— Lei 8.212, que dispõe sobre a organização e o custeio da Previdência Social.

— Lei 8.213, que dispõe os benefícios da Previdência Social.

Na sequência, foram ocorrendo mudanças que deram os atuais contornos à Seguridade Social
no Brasil:

• Lei 8.080, de 19/09/1990, que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação
da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e cria o SUS – Sistema
Único de Saúde.

• Lei 8.142, de 28/12/1990, que dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema
Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na
área da saúde.

• Lei 8.689, de 27/07/1993, que extinguiu o Inamps, transferindo as atribuições do órgão para o
SUS.

• Lei 8.742, de 07/12/1993, que dispõe sobre a Assistência Social, instituindo o Fundo Nacional de
Assistência Social.

• Lei 9.649, de 27/05/1998 (conversão da Medida Provisória 1.651-43/1998), que extinguiu a LBA e
a CBIA – Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (sucessor da Funabem).

• Lei 9.876, de 26/11/1999, que promoveu alterações nas leis 8.212/1991 e 8.213/1991 e criou o
“fator previdenciário”.

52
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Lei 9.983, de 14/07/2000, que promoveu alterações no Código Penal, instituindo tipos penais
relacionados à Previdência Social e a atuação dos agentes públicos.

• Lei Complementar 108 e Lei Complementar 109, de 29/05/2001, que tratam da previdência
complementar.

• Lei 10.666 de 08/05/2003, que dispõe sobre a concessão da aposentadoria especial ao cooperado
de cooperativa de trabalho ou de produção.

• Lei 10.683, de 28/05/2003 (conversão da Medida Provisória 103, de 01/01/2003), que reestruturou
a administração pública, passando o MPAS passou a se denominar Ministério da Previdência
Social – MPS e a Assistência Social passou para o Ministério da Assistência e Promoção Social
(atualmente Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome).

• A Emenda Constitucional 41 de 19/12/2003, que, em relação ao Regime Próprio de Previdência


Social – RPPS (funcionários públicos federais):

— Criou subtetos e determinou o fim da integralidade e paridade entre os servidores públicos


ativos e os inativos.

— Criou também um redutor para pensões.

— Instituiu a contribuição de inativos, pensionistas e criou o abono de permanência.

• Emenda Constitucional 47, de 05/07/2005, com alterações basicamente no regime previdenciário


dos funcionários públicos (alterações na Emenda Constitucional 41/2003).

• Lei 11.457 de 16/03/2007, que transferiu para a Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRFB) a
competência para arrecadar e fiscalizar as contribuições previdenciárias.

• Decreto 6.214 de 26/09/2007, regulamentando o benefício de prestação continuada da assistência


social devido à pessoa com deficiência e ao idoso de que trata a Lei 8.742/1993.

• Lei Complementar 142 de 08/05/2013, que regulamenta o § 1º do artigo 201 da Constituição


Federal, no tocante à aposentadoria da pessoa com deficiência segurada do Regime Geral de
Previdência Social – RGPS.

• Lei Complementar 150 de 01/06/2015, que dispõe sobre o contrato de trabalho do empregado
doméstico.

• Lei 13.183 de 04/11/2015, que:

— Trata da associação do segurado especial em cooperativa de crédito rural.

53
Unidade I

— Assegura pagamento do seguro-defeso para familiar que exerça atividade de apoio à pesca.

— Estabelece regra de inscrição no regime de previdência complementar dos servidores públicos


federais titulares de cargo efetivo.

— Dispõe sobre o pagamento de empréstimos realizados por participantes e assistidos com


entidades fechadas e abertas de previdência complementar.

3 ASSISTÊNCIA SOCIAL

A solidariedade, a caridade e a benemerência constituem práticas históricas, sempre ligadas à ideia


de que se deve prestar auxílio aos incapazes e aos mais pobres, mas, apenas no século XX assumiu,
no Brasil, a condição de política pública de solidariedade social. Tanto é que, pelo menos até 1930, a
pobreza não era entendida como uma questão social, mas sim “caso de polícia”, sendo, nesse contexto,
frequentemente enfrentada pelos órgãos repressivos.

Assim, somente em 1938 foi criado o Conselho Nacional de Serviço Social – CNSS, ligado ao
Ministério da Educação e Saúde, constituindo a primeira iniciativa brasileira, no âmbito da organização
da Assistência Social.

Contando com o apoio da Federação das Associações Comerciais e da Confederação Nacional da


Indústria, a primeira grande instituição de Assistência Social foi a Legião Brasileira de Assistência
– LBA, fundada em 28 de agosto de 1942, pela então primeira-dama Darcy Vargas, para prestar
assistência e apoio às famílias dos expedicionários brasileiros (os soldados enviados à Segunda
Guerra Mundial).

A LBA, que tradicionalmente era presidida pelas primeiras-damas, foi instalada no Rio de Janeiro e,
com o final da guerra, passou a prestar assistência às famílias necessitadas em geral, tendo sido, com
o Decreto-lei n. 593/1969, transformada de sociedade civil em fundação, passando a adotar o nome
Fundação Legião Brasileira de Assistência, mas mantendo a sigla LBA e se vinculando ao Ministério do
Trabalho e Previdência Social.

Durante o regime militar, sob o governo do general Ernesto, foi criado, em 01/05/1974, o Ministério
da Previdência e Assistência Social – MPAS, que tinha, em sua estrutura, uma Secretaria de Assistência
Social, de caráter consultivo e que viria, na época, a se constituir em importante órgão na formulação
de política de combate à pobreza.

Na sequência, através da Lei n. 6.439, de 01/09/1977, a LBA foi transferida para o Ministério da
Previdência e Assistência Social.

Coube à CF de 1988 elevar a Assistência Social à condição de Política Social Nacional, ao colocando-a,
juntamente com a Saúde Pública e a Previdência Social, como componente da Seguridade Social, a
partir de quando foram editadas as seguintes normas legais, com disposições acerca do tema:

54
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Lei 7.853, de 24/10/1989, que dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua
integração social; sobre a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência – Corde que institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas
pessoas, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes e dá outras providências.
• Decreto n. 99.244, de 10/05/1990, através do qual a LBA passa a se vincular ao Ministério da Ação Social.
• Lei 8.742, de 07/12/1993, que dispõe sobre a organização da Assistência Social (é denominada
Lei Orgânica da Assistência Social), tendo suas disposições regulamentadas pelo Decreto 3.048,
de 06/05/1999 (Regulamento da Previdência Social); Decreto 6.214, de 26/09/2007 (que trata
do benefício de prestação continuada da assistência social devido à pessoa com deficiência e ao
idoso de que trata a Lei 8.742, de 07/12/1993 e a Lei 10.741, de 01/10/2003; e acresce parágrafo ao
artigo 162 do Decreto 3.048, de 06/05/1999) e pelo Decreto 7.788, de 15/08/2012 (regulamento
do Fundo Nacional de Assistência Social).
• Lei 8.160, de 08/01/1991, que dispõe sobre a caracterização de símbolo que permita a identificação
de pessoas portadoras de deficiência auditiva.
• Lei n. 8.842, de 04 de janeiro de 1994, dispõe sobre a política nacional do idoso, cria o Conselho
Nacional do Idoso.
• Medida Provisória 813, de 01/01/1995 (várias vezes reeditada, até finalmente ser convertida na Lei
9.649, de 27/05/1998), que extinguiu a LBA.
• Lei 10.048, de 08/11/2000, que dispõe sobre a prioridade de atendimento para idosos e portadores
de deficiência.
• Lei 10.741, de 01/10/2003, dispõe sobre o Estatuto do Idoso.
• Lei 10.836, de 09/01/2004 (conversão da Medida Provisória 132/2003), que cria o Programa
Bolsa Família.
• Lei 12.852, de 05/08/2013, que instituiu o Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os
direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema
Nacional de Juventude – Sinajuve.
• Resolução n. 145, de 15/10/2004, do CNAS, aprova a Política Nacional de Assistência Social.

Saiba mais
O documentário a seguir pode propiciar um contexto histórico e político
dos conteúdos dessa unidade:
POLÍTICAS de saúde no Brasil: um século de luta pelo direito à saúde.
Dir. Renato Tapajós. Brasil, 2006. 62 min.

55
Unidade I

A Saúde Pública no Brasil, sob a perspectiva histórica, pode ser dividida em três grandes etapas:

• Descobrimento até 1923 (Lei Eloy Chaves).

Este período é basicamente caracterizado pela centralização e pela desorganização administrativa,


iniciado com o descobrimento do Brasil, passando pelo Período Colonial e pelo Império, até chegar ao
início da República.

São, de qualquer forma, dignas de notas (e louvor) algumas das iniciativas adotadas nesse período.
Mas, de qualquer forma, as medidas de Saúde Pública implementadas traziam sempre a marca das
iniciativas isoladas, nem sempre concatenadas entre si, fundamentadas basicamente na filantropia.

• 1923 a 1988 (promulgação da Constituição Federal).

Com o advento da Lei Eloy Chaves, em 1923 (quando foram criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensão),
seguidas (e substituídas) pelos Institutos Aposentadoria e Pensão (IAP), esses, depois (em 1960), substituídos
pelo INPS, paralelamente à criação do Ministério da Saúde (em 1953, com suas finalidades melhor definidas em
1967) e o Sistema Nacional de Saúde (em 1975), o sistema de saúde público foi adotando contornos vinculados
às políticas de previdenciárias, inclusive quanto à parte de seu custeio e manutenção.

• Vigência da Constituição Federal.

Assim, somente com o advento da Constituição Federal, em 1988, sucedida pela legislação
complementar (Lei n. 8.080/1.990, Lei 8.142/1990, Emenda Constitucional 29/2000, Decreto n.
7.508/2.011, Lei Complementar n. 141/2.012), é que, finalmente, foram traçadas as bases legais atuais de
funcionamento do Sistema Único de Saúde.

4 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

Você já percebeu que o usa o SUS o tempo todo?

Erra quem considera SUS apenas como atendimento, pense o SUS com toda a sua grandeza que te
envolve como cidadão nas características, sanitárias e de vigilância epidemiológica.

Quer exemplos?

Todas as vezes que você come alguma coisa você está usando o SUS, alguém fiscalizou o alimento
que você come, concorda?

Todo medicamento que você ingere, a água que você consome, o lixo que é produzido, as suas
opções de lazer, os cuidados no tratamento de água e esgoto e a coleta de lixo de seu município são
realizados pelo SUS.

Então, vamos entender melhor o Sistema único de Saúde?


56
POLÍTICAS DE SAÚDE

Quando abordamos o SUS, precisamos diferenciar os termos.

Sistema: significa todas as formas de organização de recursos-humanos, materiais e financeiros que


um país possui.

Único: independente de qualquer lugar do país, todo Brasil utiliza um único Sistema de Saúde
Público que estabelece direitos e conquistas para o país e para todos os brasileiros.

Antes das definições e legislações desse sistema, vamos entender seu contexto histórico:

4.1 A reforma sanitária brasileira

O final da década de 80 foi marcado, no Brasil, por movimentos sociais pela redemocratização do
país e pela melhoria das condições da saúde da população.

Em 1985 foi criada a Nova República (eleição indireta de um presidente não militar desde 1964),
época em que, paralelamente, crescia e ganhava representatividade o Movimento Sanitarista Brasileiro,
que correspondia à luta pela reestruturação do nosso sistema de saúde, patrocinado pelos profissionais
de saúde, usuários, políticos e lideranças populares.

É considerado um marco deste movimento, a VIII Conferência Nacional de Saúde em Brasília, realizada
em 1986, cujas propostas foram defendidas na Assembleia Nacional Constituinte criada em 1987.

A nova Constituição brasileira, promulgada em 1988, incorporou grande parte destas ideias e
garantiu o direito à saúde para todo cidadão, transformando-a num dever do Estado, através da criação
de um sistema de acesso universal e igualitário, com ações voltadas para sua promoção, proteção e
recuperação (BRASIL, 1988; PEREIRA et al, 2009).

A Reforma Sanitária Brasileira foi proposta num momento de intensas mudanças e sempre pretendeu
ser mais do que apenas uma reforma setorial. Almejava-se, desde seus primórdios, que pudesse servir à
democracia e à consolidação da cidadania no país.

A realidade social, na década de 1980, era de exclusão da maior parte dos cidadãos do direito
à saúde, que se constituía na assistência prestada pelo Instituto Nacional de Previdência Social,
restrita aos trabalhadores que para ele contribuíam, prevalecendo a lógica contraprestacional e a
cidadania regulada.

Ainda na década de 1980, ganhou força no país o movimento da Reforma Sanitária, observando-
se o recrudescimento dos movimentos populares. No Distrito Federal, o Programa Integrado de Saúde
Escolar (PISE) adotou a odontologia simplificada em toda sua rede, com produção de equipamentos e
insumos, sendo referência para todo o País.

O Prevsaúde, embora não sendo aprovado, propôs a efetivação da saúde bucal como uma das cinco
principais ofertas das unidades de saúde.
57
Unidade I

No Conselho Consultivo da Administração da Saúde Previdenciária (Conasp), o Programa de Ações


Integradas de Saúde (Pais) propiciou, para vários Municípios, a incorporação de recursos para aquisição
de equipamentos odontológicos nas escolas de primeiro grau e subsidiou os salários dos profissionais.

As Ações Integradas de Saúde (AIS) significaram um avanço nos processos incipientes de


municipalização da saúde e participação da população junto ao sistema de saúde.

Em 1983, como decorrência das eleições diretas para governadores, surgiram alguns programas de
saúde baseados nos princípios da reforma sanitária.

Com a Realização da VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986, foram estabelecidas as bases
para a reestruturação do sistema de saúde brasileiro.

A criação do Sistema Unificado Descentralizado de Saúde (Suds) significou a intenção do Governo


Federal em dar início à implantação do SUS. Sua principal característica foi à estadualização das ações,
por meio da fusão das Secretarias Estaduais de Saúde com as diretorias regionais do Inamps.

Promulgada em 1988 a Constituição Federal, foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), definindo a
saúde como “um direito de todos e um dever do Estado”.

A Reforma Sanitária constitui um importante movimento na gestação das atuais Políticas de Saúde
Pública, pois:

• Buscou reverter a lógica da assistência à saúde com a adoção dos seguintes princípios:

— Universalização do direito à saúde.

— Integralização das ações de cunho preventivo e curativo, desenvolvidas pelos Ministérios da


Saúde e da Previdência separadamente.

— Inversão da entrada do paciente no sistema. Ao invés de buscar o hospital quando já estiver doente,
buscar a prevenção. Ou seja: do preventivo para o curativo, portanto promovendo a saúde.

— Descentralização da gestão administrativa e financeira.

— Promoção da participação e do controle social.

• Tratou de denunciar e combater a forma de organização do sistema, caracterizado pelas crises,


gastos, privilégios e concentração de renda.

4.2 Definição

Como o próprio nome informa, trata-se de um sistema de saúde, no qual sistema deve ser entendido
como um conjunto coordenado de instituições das três esferas da administração pública (federal,
estadual e municipal), que participam com seus respectivos órgãos e entidades, aos quais se juntam,
58
POLÍTICAS DE SAÚDE

também, entidades de natureza privada (hospitais, clínicas, laboratórios etc.), vinculadas através de
contratos de prestação de serviços e convênios.

O SUS é um sistema, pois não pode ser classificado apenas como um serviço ou uma instituição,
mas sim um conjunto de unidades, de serviços e ações coordenadas, visando um fim comum, qual seja
a realização de atividades, cujos objetivos são: a promoção, a proteção e a recuperação da saúde.

Além de ser um sistema, é, também, um sistema único, pois o SUS é regido por uma doutrina única
e pelos mesmos princípios organizativos em todo o território nacional, compreendendo as três esferas
da administração pública: a federal, a estadual e a municipal.

4.3 Legislação básica

Basicamente, é a seguinte a legislação que rege o funcionamento do SUS:

• Constituição Federal (BRASIL, 1988) – que, no seu Título VIII – Da Ordem Social, traz:

— Capítulo I – Disposição Geral (artigo 193).


— Capítulo II – Da Seguridade Social: Seção I – Disposições Gerais (artigos 194 e 195); Seção II
– Da Saúde (artigos 196 a 200); Seção III – Da Previdência Social (artigos 201 e 202) e Seção
IV – Da Assistência Social (artigos 203 e 204).

• Lei 8.080, de 19/09/1990, que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação
da saúde; a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes.
• Lei 8.142, de 28/12/1990, que dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema
Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na
área da saúde.
• Decreto 1.651, de 28/09/1995, que regulamenta o Sistema Nacional de Auditoria no âmbito do
Sistema Único de Saúde.
• Decreto 7.508, de 28/06/2011, que regulamenta a Lei 8.080, de 19 de setembro de 1990, para
dispor sobre:

— A organização do Sistema Único de Saúde – SUS.


— O planejamento da saúde.
— A assistência à saúde.

— A articulação interfederativa.

59
Unidade I

4.4 Normas Operacionais Básicas

Além destas normas, que constituem a legislação básica do SUS, o sistema é também regido
pelas Normas Operacionais Básicas (NOB), cujo objetivo é operacionalizar o sistema, detalhando as
responsabilidades e atribuições das três esferas da Administração Pública e são as seguintes:

• Norma Operacional Básica 01/91 – foram criados:

— A Autorização de Internação Hospitalar – AIH.

— O Sistema de Informação Hospitalar – SIH.

— O Fator de Estímulo à Municipalização – FIM.

— Os Conselhos Estaduais e Municipais.

• Norma Operacional Básica 01/93 – providências adotadas:

— Definiu procedimentos e instrumentos operacionais, visando o aprimoramento das condições


de gestão, para estabelecer comando único do SUS nas três esferas da administração pública.

— Assim, foram criados: Comissões Intergestores; o Fator de Apoio do Estado (FAE); o Fator de
Apoio ao Município (FAM) e o Sistema de Informação Laboratorial (SAI).

• Norma Operacional Básica 01/96 – buscou aperfeiçoar a gestão dos serviços de saúde e a
organização do sistema, definindo especialmente a responsabilidade do Município, pelas condições
de saúde da sua população e organizando os serviços sob sua gestão.

• Norma Operacional Básica SUS 01/2001-2 – sua edição foi motivada pela constatação da
existência de Municípios, que por serem pequenos, não reúnem condições de gestão do sistema
de funcionamento completo e existência de outros municípios que se encontram na situação
de polos de atração regional, para onde se deslocam as populações dos pequenos municípios
próximos. Tratou-se, assim, do processo de regionalização da assistência médica nestas condições,
além de promover outros ajustes e regulamentações nessas situações.

4.5 Princípios do SUS

A organização e funcionamento do SUS são baseados nos seguintes princípios doutrinários e organizativos:

Princípios doutrinários:

• Universalidade – a atenção à saúde é assegurada a todo cidadão, que tem direito a todos os
serviços de saúde, públicos ou contratados. Esse princípio doutrinário se fundamenta na disposição
constitucional de que a saúde é um direito de cidadania e um dever do Estado (no sentido de
governo federal, estadual e municipal).
60
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Equidade – todo cidadão é igual perante o SUS e será atendido conforme suas necessidades,
até o limite do que o sistema puder oferecer, independentemente de onde more o cidadão, sem
privilégios ou restrições.

• Integralidade – funda-se na proposição de que o homem é um ser integral, biopsicossocial,


devendo ser atendido com essa visão integral, por um sistema de saúde também integral, e
voltado à promoção e recuperação da sua saúde.

Princípios organizativos:

• Regionalização e hierarquização

— A organização dos serviços deve se dar em crescentes níveis de complexidades, observada a


delimitação geográfica regional e definição da população a ser atendida.

— A população deve ter acesso à rede através dos serviços de nível primário de atenção, qualificados
para resolver os principais problemas demandados no sistema de saúde. Os demais problemas deverão
ser referenciados, ou seja, encaminhados para os serviços de maior complexidade tecnológica.

• Resolubilidade – constitui na exigência de que o serviço de saúde esteja capacitado para enfrentar
e resolver, no nível da sua competência, o problema que lhe seja proposto. Assim, quando o
cidadão procura o serviço, ou quando surge um problema que cause impacto coletivo na saúde, o
serviço correspondente deverá resolvê-lo.

• Descentralização – os serviços e as ações devem ser distribuídos, entre os vários níveis de governo,
sob a premissa básica de que quanto mais perto do fato for tomada a decisão, maior é a chance
de acerto. Assim, o Município, o Estado e a União devem ser responsabilizados de acordo com suas
respectivas áreas de abrangência, devendo, entretanto, o sistema ser conduzido no sentido de que
as atribuições dos vários níveis de governo se direcionem ao reforço do poder municipal sobre a
saúde, no sentido da “municipalização da saúde”.

• Participação popular – é assegurada à população, através de suas entidades representativas, o


direito, constitucionalmente estabelecido, de participar do processo de formulação das políticas
de saúde e no controle da sua execução, em todos os níveis de decisão (federal, estadual ou
municipal). Esta participação pode-se dar nos Conselhos de Saúde (com representações paritárias)
ou em conferências periódicas de saúde, com o objetivo de definir as prioridades e as linhas de
ação sobre saúde.

• Complementariedade do setor privado – constitui na possibilidade de contratação de serviços


privados, quando verificada a insuficiência do setor público. Essa contratação é regida por três
condições básicas:

— O contrato ou convênio deve ser celebrado com observância das normas de direito público, o
que assegura a prevalência do interesse público sobre o particular.
61
Unidade I

— A instituição privada deve observar os princípios básicos e as normas técnicas do SUS,


prevalecendo, assim, os princípios doutrinários do SUS (como a universalidade e a equidade),
de forma que o serviço privado preste o atendimento à semelhança do serviço público, pois,
uma vez contratado, o serviço privado atua em nome do serviço público.

— A contratação de serviços privados deve também obedecer aos princípios organizacionais,


assegurando, assim, a integração dos serviços privados com a mesma lógica organizativa do
SUS (como a regionalização e hierarquização serviços). Assim, como consequência e, para
plena observância desses princípios, em cada região, deverá estar claramente estabelecida a
organização, considerando-se os serviços públicos e privados.

4.6 O Pacto pela Saúde

O Pacto pela Saúde é assim definido, segundo publicação constante da página eletrônica do Ministério
Público do Paraná, no seu Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Proteção à Saúde Pública:

O Pacto pela Saúde é um conjunto de reformas institucionais do SUS


pactuado entre as três esferas de gestão (União, Estados e Municípios)
com o objetivo de promover inovações nos processos e instrumentos de
gestão, visando alcançar maior eficiência e qualidade das respostas do
Sistema Único de Saúde. Ao mesmo tempo, o Pacto pela Saúde redefine as
responsabilidades de cada gestor em função das necessidades de saúde da
população e na busca da equidade social (PARANÁ, 2011).

Sua formalização foi realizada através da Coletânea Série Pactos pela Saúde, a qual a mesma página
eletrônica (no mesmo endereço) assim se refere:

A Série Pactos pela Saúde é iniciativa do Ministério da Saúde em parceria


com CONASS e CONASEMS que objetiva difundir políticas, instrumentos
e orientações para apoiar a gestão na implantação de inovações advindas
com o Pacto pela Saúde. A série Pactos pela Saúde é instrumento de
cooperação com gestão da saúde que assume com adesão ao Pacto,
responsabilidades pela saúde da população, em busca da equidade social.
Uma forma de utilizar o conteúdo da Série Pactos pela Saúde é fazer a
análise dos objetivos dos Pactos e conhecer as responsabilidades de cada
esfera de governo (PARANÁ, 2011).

O Pacto pela Saúde foi formalizado pela Portaria/GM 399, de 22/02/2006, do Ministério da Saúde,
que divulga o Pacto pela Saúde 2006 – Consolidação do SUS e aprova as Diretrizes Operacionais do
Referido Pacto. A aludida Portaria/GM 399/2006 é composta dos seguintes anexos:

• Anexo I – Pacto pela Saúde 2006 – Consolidação do SUS.

• Anexo II – Diretrizes Operacionais do Pacto pela Saúde em 2006 – Consolidação do SUS.


62
POLÍTICAS DE SAÚDE

São três as dimensões do Pacto pela Saúde:

• O Pacto pela Vida.


• O Pacto de Gestão.
• O Pacto em Defesa do SUS.

Com a implantação do Pacto pela Saúde nessas três dimensões são efetivados os acordos entre as
três esferas de gestão do SUS (federal, estadual e municipal).

4.6.1 O Pacto pela Vida

No Pacto pela Vida foram definidas as seguintes prioridades:

• Saúde do idoso.
• Câncer de colo de útero e de mama.
• Mortalidade infantil e materna.
• Doenças emergentes e endemias, com ênfase a dengue, hanseníase, tuberculose, malária e influenza.
• Promoção à saúde.
• Atenção básica à saúde.

4.6.2 O Pacto de Gestão

No Pacto de Gestão foram definidas as seguintes prioridades:

• Definir de forma inequívoca a responsabilidade sanitária de cada instância gestora do SUS.


• Estabelecer as diretrizes para a gestão do SUS, com ênfase na:

— Descentralização.
— Regionalização.
— Financiamento.
— Programação Pactuada e Integrada.
— Regulação.
— Participação e Controle Social.
— Planejamento.

63
Unidade I

— Gestão do Trabalho.
— Educação na Saúde.

4.6.3 O Pacto em Defesa do SUS

O Pacto em Defesa do SUS envolve ações concretas e articuladas pelas três instâncias federativas
no sentido de:

• Reforçar o SUS como política de Estado mais do que política de governos.


• Defender os princípios constitucionais (que são os fundamentais) dessa política pública.

No Pacto em Defesa do SUS foram definidas as seguintes prioridades:

• Implementação de um projeto permanente de mobilização social com a finalidade de:

— Mostrar a saúde como direito de cidadania e o SUS como sistema público universal garantidor
desses direitos.
— Alcançar, no curto prazo, a regulamentação da Emenda Constitucional n. 29, pelo Congresso Nacional.
— Garantir, no longo prazo, o incremento dos recursos orçamentários e financeiros para a saúde.
— Aprovar o orçamento do SUS, composto dos orçamentos das três esferas de gestão, explicitando
o compromisso de cada uma delas.
— Elaborar e divulgar a carta dos direitos dos usuários do SUS.

Saiba mais
Sobre o Pacto pela Saúde, acesse:
PARANÁ. O que é o Pacto pela Saúde e como utilizar a Coletânea, Ministério
Público do Estado do Paraná, Curitiba, 2011. Disponível em: <http://www.saude.
mppr.mp.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=387>. Acesso em: 4
jan. 2017.

4.7 O custeio do SUS

Os recursos para a Saúde Pública foram definidos pela Emenda Constitucional 29, de 13/09/2000,
que alterou os artigos 34, 35, 156, 160, 167 e 198 da CF e estabeleceu:

• A participação concorrente da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios no


financiamento das ações e serviços de saúde pública.
64
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Limites mínimos de aplicação em saúde para cada ente federativo:

— União: os gastos devem ser iguais ao do ano anterior, corrigidos pela variação nominal do
Produto Interno Bruto (PIB).
— Estados: estão obrigados a garantir que 12% de suas receitas sejam destinadas ao financiamento
da Saúde Pública.
— Municípios: estão obrigados a aplicar pelo menos 15% de suas receitas.

Em razão da EC 29/2000, foi editada a Lei Complementar 141, de 13/01/2012, que regulamenta o §
3º do artigo 198 da CF, para:

• Dispor sobre os valores mínimos a serem aplicados anualmente pela União, Estados, Distrito
Federal e Municípios em ações e serviços públicos de saúde.
• Estabelecer os critérios de rateio dos recursos de transferências para a saúde e as normas de
fiscalização, avaliação e controle das despesas com saúde nas três esferas de governo.

A Lei Complementar 141/2012 foi regulamentada pelo Decreto 7.827, de 16/10/2012, que:

• Dispõe sobre os procedimentos de condicionamento e restabelecimento das transferências de


recursos provenientes das receitas de que tratam o inciso II do caput do artigo 158, as alíneas “a”
e “b” do inciso I e o inciso II do caput do artigo 159 da CF.
• Dispõe sobre os procedimentos de suspensão e restabelecimento das transferências voluntárias
da União, nos casos de descumprimento da aplicação dos recursos em ações e serviços públicos
de saúde de que trata a Lei Complementar n. 141/2012.

Os recursos do SUS são geridos e administrados pelos entes federativos, através de seus respectivos
Fundos:

• Fundo Nacional de Saúde (FNS), que:

— Recebe recursos da União.


— É administrado pelo Ministério da Saúde.

• Fundo Estadual de Saúde, que:

— Recebe recursos dos Governos Estaduais e da União.


— É administrado pela Secretaria Estadual de Saúde.

— É fiscalizado pelo Conselho Estadual de Saúde.

65
Unidade I

• Fundo Municipal de Saúde, que:

— Recebe recursos do Governo Municipal, Estadual e da União.


— É administrado pela Secretaria Municipal de Saúde.
— É fiscalizado pelo Conselho Municipal de Saúde.

As transferências de recursos se dão de três formas:

• Transferência regular e automática (transferência fundo a fundo): ocorre de maneira obrigatória.


Tipicamente, correspondem às transferências do Fundo Nacional de Saúde (FNS) para os Fundos
Estaduais e Municipais.
• Remuneração por serviços realizados: correspondem aos pagamentos dos serviços hospitalares
e ambulatoriais executados por instituições cadastradas no SUS. O pagamento efetiva-se,
diretamente, mediante a apresentação, ao FNS, da fatura dos serviços prestados, calculada com
base nas tabelas de procedimentos do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA) e do Sistema
de Informações Hospitalares (SIH), disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, mas sujeita à
disponibilidade de limites financeiros e condicionada a requisitos (dados da região: população, a
frequência e a distribuição de doenças ou a estrutura da rede de saúde).
• Convênios: são acordos firmados para financiamento de projetos específicos (por exemplo:
reformas de hospitais ou compras de equipamentos), observando-se:

— Estes convênios podem ser realizados das seguintes formas: pelo Ministério da Saúde com
órgãos ou entidades federais, estaduais ou municipais, com entidades filantrópicas ou com
organizações não governamentais.
— O repasse de recursos se dá ao longo do cumprimento do convênio, na medida do cumprimento
das etapas especificadas no respectivo cronograma.

Considerado o ente federativo da União (o Governo Federal), o SUS é custeado por cinco blocos
de financiamento, definidos no Pacto pela Saúde:

• Bloco da assistência farmacêutica.


• Bloco da atenção básica.
• Bloco da atenção de média e alta complexidade ambulatorial e hospitalar.
• Bloco de gestão do SUS.
• Bloco de Vigilância Sanitária.

É importante tratar, ainda que brevemente, de cada um desses blocos, para identificar os requisitos
e as condições exigidas para o custeio do Sistema:
66
POLÍTICAS DE SAÚDE

4.7.1 Bloco da assistência farmacêutica

É constituído por três componentes:

• O componente assistência farmacêutica básica: destina-se à aquisição de medicamentos e


insumos de assistência farmacêutica para a atenção básica em saúde e às ações relacionadas a
agravos e programas de saúde específicos, inseridos na rede de cuidados da atenção básica, sendo
composto de uma parte financeira fixa e de uma parte financeira variável.

• O componente assistência farmacêutica estratégica: destina-se ao custeio de ações de


assistência farmacêutica nos seguintes programas estratégicos de saúde:

— Controle de endemias.

— Antirretrovirais do Programa DST e AIDS.

— Sangue, hemoderivados e imunobiológicos.

• O componente medicamentos de dispensação excepcional: destina-se ao financiamento do


Programa de Medicamentos de Dispensação Excepcional para aquisição e distribuição do grupo
de medicamentos da tabela de procedimentos ambulatoriais.

4.7.2 Bloco da Atenção Básica

É formado por dois componentes:

• O Piso de Atenção Básica Fixo (PAB Fixo): destina-se ao custeio de ações de atenção básica
à saúde cujos recursos são transferidos mensalmente, de forma regular e automática, do Fundo
Nacional de Saúde (FNS) aos fundos de Saúde dos Municípios e do Distrito Federal.

• O Piso da Atenção Básica Variável (PAB Variável): é constituído por recursos destinados ao
custeio de estratégias, realizadas no âmbito da atenção básica em Saúde e são transferidos do
FNS aos fundos de Saúde dos Municípios e Distrito Federal mediante adesão e implementação das
ações às quais se destinam, desde que constantes nos respectivos planos de saúde.

Observação

Com a aprovação do Pacto pela Saúde, os recursos de custeio das ações


de assistência farmacêutica e de vigilância sanitária, que antes integravam o
PAB Variável, passaram a compor os blocos de financiamento da assistência
farmacêutica e da vigilância em Saúde, respectivamente.

67
Unidade I

4.7.3 Bloco da Atenção de Média e Alta Complexidade Ambulatorial e Hospitalar

É constituído por dois componentes:

• Limite Financeiro da Média e Alta Complexidade Ambulatorial e Hospitalar (MAC):


destina-se ao financiamento de procedimentos e de incentivos permanentes, sendo transferidos
mensalmente para custeio de ações de média e alta complexidade em saúde. Os recursos federais
deste componente serão transferidos do Fundo Nacional de Saúde (FNS) aos fundos de saúde dos
Estados, Municípios e Distrito Federal conforme a Programação Pactuada e Integrada (PPI) da
assistência, publicada em ato normativo específico.

• Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (FAEC): abrange recursos destinados ao custeio


dos seguintes procedimentos:

— Os regulados pela Central Nacional de Regulação da Alta Complexidade (CNRAC).


— Os transplantes e os procedimentos vinculados.
— As ações estratégicas ou emergenciais, de caráter temporário, realizadas com prazo pré-definido.
— Os novos procedimentos não relacionados aos constantes da tabela vigente ou que não
possuam parâmetros para permitir a definição de limite de financiamento, sendo que esses
últimos serão custeados pelo Faec por um período de seis meses para permitir a formação da
série histórica necessária à sua agregação ao componente MAC.

Observação

Os outros recursos destinados ao custeio de procedimentos atualmente


financiados por meio do Faec serão incorporados ao MAC dos Estados,
Municípios e Distrito Federal conforme ato normativo específico, observando
as pactuações da Comissão Intergestores Tripartite (CIT).

4.7.4 Bloco de Gestão do SUS

Destina-se ao fortalecimento da gestão do SUS para custeio de ações específicas relacionadas à


organização e ampliação do acesso aos serviços de saúde.

Os recursos federais que o integram são constituídos pelos seguintes componentes:

• A Qualificação da Gestão do SUS dá-se mediante a adesão ao Pacto pela Saúde, por meio da
assinatura do Termo de Compromisso de Gestão, com incentivo específico para cada ação que
integra, sendo elas:

— Regulação, controle, avaliação, auditoria e monitoramento.


68
POLÍTICAS DE SAÚDE

— Planejamento e orçamento.

— Programação.

— Regionalização.

— Gestão do trabalho.

— Educação em saúde.

— Incentivo à participação e ao controle social.

— Informação e informática em saúde.

— Estruturação de serviços e organização de ações de assistência farmacêutica.

— Outros que vierem a ser instituídos por meio de ato normativo específico.

• A Implantação de Ações e Serviços de Saúde é efetivada em parcela única, respeitando os


critérios estabelecidos em cada política específica, atualmente designados:

— Implantação de Centros de Atenção Psicossocial.

— Qualificação de Centros de Atenção Psicossocial.

— Implantação de Residências Terapêuticas em Saúde Mental.

— Fomento para ações de redução de danos em Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e
Drogas (Caps AD).

— Inclusão social pelo trabalho para pessoas portadoras de transtornos mentais e outros
transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas.

— Implantação de Centros de Especialidades Odontológicas (CEO).

— Implantação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

— Reestruturação dos Hospitais Colônias de Hanseníase.

— Implantação de Centros de Referência em Saúde do Trabalhador.

— Adesão à Contratualização dos Hospitais de Ensino.

— Outros que vierem a ser instituídos por meio de ato normativo para fins de implantação de
políticas específicas.

69
Unidade I

4.7.5 Bloco de Vigilância Sanitária

Os recursos financeiros correspondentes às ações de vigilância em saúde agrupam as ações da


vigilância epidemiológica, ambiental e sanitária, tendo dois componentes:

• Vigilância sanitária: é constituída pelo Termo de Ajuste e Metas (TAM) e pelo Piso da Atenção
Básica em Vigilância Sanitária (PAB Visa).

• Vigilância epidemiológica e ambiental em saúde: o seu financiamento é transferido, em


parcelas mensais, diretamente do Fundo Nacional de Saúde (FNS) para os fundos estaduais e
municipais de saúde, observadas as seguintes condições:

— O valor das transferências mensais para Estados, Municípios e Distrito Federal, bem como
seu respectivo limite financeiro, é estabelecido em Portaria específica, de acordo com valores
pactuados nas Comissões Intergestores Bipartite (CIB).
— Integram ainda o componente vigilância epidemiológica e ambiental os recursos destinados às
seguintes finalidades, com repasses específicos:

- O fortalecimento da gestão da vigilância em saúde nos Estados e Municípios (Vigi SUS II).
- As campanhas de vacinação e o incentivo do Programa DST e AIDS.

• Os recursos destinados à contratação de agentes de campo para as ações de combate ao Aedes


aegypti serão incorporados ao componente de vigilância epidemiológica e ambiental quando o
gestor comprovar a efetiva contratação dos agentes de campo.
• Os valores correspondentes ao componente de vigilância epidemiológica e ambiental destinados
às Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde podem ser revistos pela CIB, levando em
consideração as responsabilidades assumidas, as modificações do perfil epidemiológico ou
outros parâmetros pactuados, desde que observados os valores mínimos a serem destinados aos
Municípios estabelecidos na Portaria 1.172/04.

4.8 O controle social do SUS

A participação da sociedade na gestão do SUS está prevista no inciso III do artigo 198 da CF de 1988,
como uma das diretrizes do funcionamento do sistema (constituindo, como já se viu, um dos princípios
organizativos do SUS), do que trata, também, a Lei 8.080/1990 e a Lei 8.142/1990, além do Decreto
7.508/2011, que regulamenta a Lei 8.080/1990 (BRASIL, 2013).

Assim, a sociedade, por meio dos Conselhos de Saúde, passou a exercer o controle social:

• Participando do planejamento das políticas públicas e da gestão do sistema de saúde.

• Fiscalizando as ações do governo e verificando o cumprimento das leis relacionadas ao SUS.


70
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Analisando as aplicações financeiras realizadas pelo município ou pelo estado no gerenciamento


da saúde.

Também os Estados e os Municípios passaram, desde 1990, a constituir os seus próprios Conselhos de
Saúde, havendo, hoje no Brasil, além do Conselho Nacional de Saúde (CNS), os Conselhos Estaduais de
Saúde, o Conselho do Distrito Federal e milhares de Conselhos Municipais, além de Conselhos Distritais
Sanitários Indígenas, entre outros.

Como já destacamos, o SUS tem por princípio organizativo a participação popular na sua gestão,
podendo, inclusive, por disposição constitucional expressa, participar do processo de formulação das
políticas de saúde e no controle da sua execução, em todos os níveis de decisão (federal, estadual ou
municipal). Esta participação dá-se de variadas formas (nos Conselhos de Saúde, de representações
paritárias; ou em conferências periódicas de saúde), com o objetivo de definir prioridades e as linhas de
ação sobre saúde.

Neste contexto, é oportuno destacar o Participa SUS, que é a denominação que identifica a política
da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP) do SUS, que busca promover o fortalecimento
da gestão participativa, incorporando outras ferramentas de gestão, como a escuta dos cidadãos, o
monitoramento e avaliação da gestão do SUS, além da auditoria, sob enfoque ampliado.

O Participa SUS compreende todos os mecanismos de deliberação e de gestão compartilhados, com


ênfase no controle social, realizado por meio dos conselhos e conferências de saúde, na participação e
mobilização popular e no funcionamento de ouvidorias e pesquisas sobre a satisfação dos usuários do
SUS. Inclui, ainda, ações de educação popular em saúde, difusão dos direitos dos usuários e estratégias
de promoção de equidade em saúde para as populações em condições de desigualdade.

Esta política é orientada pelas diretrizes:

• Reafirmação dos pressupostos da reforma sanitária sobre o direito universal à saúde, como
responsabilidade do estado; construção de um pacto de promoção da gestão estratégica e
participativa entre as três esferas de governo.
• Ampliação dos mecanismos de participação popular nos processos de gestão do SUS, de forma a
garantir sua consolidação como política de inclusão social e conquista popular.

• Adoção de mecanismos e práticas de gestão participativa, nas três esferas de gestão do SUS,
envolvendo gestores, prestadores de serviços, trabalhadores de saúde e usuários do SUS.

A Lei 8.142/1990 trata da participação também da comunidade na gestão do SUS, nos


seguintes termos:

Art. 1° O Sistema Único de Saúde (SUS), de que trata a Lei n° 8.080, de 19


de setembro de 1990, contará, em cada esfera de governo, sem prejuízo das
funções do Poder Legislativo, com as seguintes instâncias colegiadas:

71
Unidade I

I – a Conferência de Saúde; e

II – o Conselho de Saúde.

§ 1° A Conferência de Saúde reunir-se-á a cada quatro anos com a


representação dos vários segmentos sociais, para avaliar a situação de saúde
e propor as diretrizes para a formulação da política de saúde nos níveis
correspondentes, convocada pelo Poder Executivo ou, extraordinariamente,
por esta ou pelo Conselho de Saúde.

§ 2° O Conselho de Saúde, em caráter permanente e deliberativo, órgão


colegiado composto por representantes do governo, prestadores de serviço,
profissionais de saúde e usuários, atua na formulação de estratégias e no
controle da execução da política de saúde na instância correspondente,
inclusive nos aspectos econômicos e financeiros, cujas decisões serão
homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera
do governo.

§ 3° O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e o Conselho


Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS) terão
representação no Conselho Nacional de Saúde.

§ 4° A representação dos usuários nos Conselhos de Saúde e Conferências


será paritária em relação ao conjunto dos demais segmentos.

§ 5° As Conferências de Saúde e os Conselhos de Saúde terão sua organização


e normas de funcionamento definidas em regimento próprio, aprovadas
pelo respectivo conselho (BRASIL, 1990a).

Constituem, pois, previsões legais expressas, no âmbito da participação popular no SUS:

• A previsão da existência e funcionamento da Conferência de Saúde (com reuniões periódicas


e objetivos próprios) e dos Conselhos de Saúde (com regras específicas de organização,
funcionamento e atribuições).

• As previsões de existência do Conass e do Conasems.

72
POLÍTICAS DE SAÚDE

Quadro 4

Conferências Nacionais de Saúde


1941 – 1ª CNS
1950 – 2ª CNS
1963 – 3ª CNS
1967 – 4ª CNS
1975 – 5ª CNS
1977 – 6ª CNS
1980 – 7ª CNS
1986 – 8ª CNS
1992 – 9ª CNS
1996 – 10ª CNS
2000 – 11ª CNS
2003 – 12ª CNS
2007 – 13ª CNS
2011 – 14ª CNS
2015 – 15ª CNS

4.9 Os gestores do SUS

A gestão do SUS pode ser assim esquematizada (BRASIL, 2003):

Estrutura Institucional e Decisória do SUS

Comissão Colegiado
Gestor intergestores participativo

Esfera Ministério Comissão Conselho


Nacional da Saúde Tripartite Nacional

Esfera Secretarias Conselho


Estadual Estaduais Estadual
Comissão
Bipartite
Esfera Secretarias Conselho
Municipal Municipais Municipal

Figura 2

Este esquema permite visualizar os seguintes arranjos administrativos e respectivas características:

• A gestão se dá no âmbito das três esferas da administração pública: federal, estadual e municipal.
• A gestão, na esfera federal, é encabeçada pelo Ministério da Saúde; na estadual, pelas Secretarias
Estaduais de Saúde; e na municipal, pelas Secretarias Municipais de Saúde.
73
Unidade I

A CIT e a CIB

Compõem, também, a gestão do SUS as Comissões Intergestores Tripartite (CIT) e a Comissão


Intergestores Bipartite (CIB), com as seguintes características respectivamente:

• Comissões Intergestores Tripartite (CIT):

— É formada por quinze membros, sendo cinco representantes do Ministério da Saúde; cinco
do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e cinco do Conselho Nacional de
Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).
— A representação de Estados e Municípios é regional (um representante para cada uma das
cinco regiões do país).
— Define as diretrizes, estratégias, programas, projetos e alocação de recursos do SUS.

• Comissão Intergestores Bipartite (CIB):

— É constituída paritariamente por representantes da Secretaria Estadual de Saúde e das


Secretarias Municipais de Saúde (estes indicados pelo Conselho de Secretários Municipais de
Saúde – Cosems).
— Incluem, obrigatoriamente, o Secretário de Saúde da capital do estado.

4.10 Os Conselhos de Saúde

Os Conselhos de Saúde são órgãos colegiados deliberativos e permanentes do SUS, existentes em


cada esfera de governo e integrantes da estrutura básica do Ministério da Saúde, das Secretarias de
Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, com composição, organização e competência
fixadas pela Lei n. 8.142, de 28 de dezembro de 1990.

Atuam na formulação e proposição de estratégias, e no controle da execução das políticas de saúde,


inclusive em seus aspectos econômicos e financeiros.

Suas decisões devem ser homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído, em cada esfera
de governo.

As regras para composição dos Conselhos de Saúde são, também, estabelecidas no texto legal,
devendo incluir representantes do governo, prestadores de serviços, trabalhadores de saúde e usuários,
sendo a representação dos usuários paritária (50%) em relação ao conjunto dos demais segmentos.

A criação dos conselhos deve ser objeto de lei ou decreto, em âmbito municipal ou estadual.

O Conselho Nacional de Saúde (regulado pelo Decreto n. 99.438, de 1990) estabeleceu recomendações
para constituição e estruturação dos conselhos estaduais e municipais de saúde, quais sejam:
74
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Garantia de representatividade, com a escolha dos representantes feita pelos próprios segmentos.

• Distribuição da composição, sendo 50% usuários, 25% para trabalhadores de saúde e 25% para
gestores e prestadores de serviços.

• Eleição do presidente entre os membros do Conselho.

• Os conselheiros são indicados pelas entidades a que pertencem, mediante discussão ampliada
entre os pares ou outras entidades e movimentos afins.

• Recomenda-se, ainda, que não haja coincidência de mandatos entre membros dos conselhos
e governantes, como forma de minimizar as possibilidades de rupturas bruscas nas políticas
implementadas.

Desde a edição das Leis Orgânicas da Saúde (Leis n. 8.080, de 19 de setembro de 1990 e n. 8.142, de 28
de dezembro de 1990), a existência e o funcionamento dos Conselhos de Saúde são requisitos exigidos
para a habilitação e o recebimento dos recursos federais repassados fundo a fundo aos municípios.

Essa exigência foi reforçada pela Emenda Constitucional n. 29/00.

4.10.1 O Conass e o Conasems

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), cuja Diretoria é eleita anualmente, reúne os
Secretários de Saúde dos estados e do Distrito Federal e seus substitutos legais, tendo por finalidades:

• Promover o intercâmbio de experiências e informações entre seus membros, assegurando a


implementação dos princípios e diretrizes constitucionais e da legislação complementar da saúde
brasileira, na implementação de ações e serviços de saúde.

• Promover o pleno exercício das responsabilidades das Secretarias de Saúde, no que diz respeito às
políticas de saúde, junto aos órgãos dos Governos Federal e Municipal, ao Poder Legislativo e às
entidades da sociedade.

• Realizar diligência no sentido de que as Secretarias de Saúde dos estados e do Distrito Federal
participem da formulação e tomada de decisões que digam respeito ao desenvolvimento dos
sistemas de saúde nas unidades federadas, em conjunto com o Ministério da Saúde (MS).

• Assegurar às Secretarias Municipais de Saúde ou órgãos municipais equivalentes, por meio da


direção do Conselho ou Associação de Secretários Municipais de Saúde de cada unidade federada,
a participação em todas as decisões que digam respeito ao desenvolvimento dos sistemas
municipais ou intermunicipais de saúde.

• Encaminhar aos órgãos competentes propostas para equacionar os problemas da área de Saúde
em todo território nacional, estimulando e intercambiando experiências quanto ao funcionamento
75
Unidade I

dos conselhos de saúde, promovendo estudos e propondo soluções aos problemas relativos ao
desenvolvimento da área da Saúde.

• Orientar e promover a realização de congressos, conferências, seminários e outros encontros


tendentes ao aperfeiçoamento das atividades do setor de saúde.

• Manter intercâmbio com órgãos e entidades nacionais e estrangeiras de interesse para o


setor Saúde.

O Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) é uma entidade não
governamental, sem fins lucrativos, criada com o objetivo de representar as Secretarias Municipais
de Saúde. Sua importância no cenário político brasileiro deve-se à constatação de que cabe,
prioritariamente, ao município a prestação de serviços de saúde, com a cooperação técnica e financeira
dos estados e da União e cuja conclusão é baseada no entendimento de que é no município onde
as necessidades de saúde da população podem ser dimensionadas de perto. Têm como atribuições
institucionais as atuações:

• Na formulação de políticas públicas intersetoriais e de saúde.

• Na disputa política em espaços nacionais de pactuação federativa e de implementação


compartilhada das políticas públicas.

• No intercâmbio de experiências entre os municípios e com outros países e, na propagação dos


princípios da universalidade, equidade e integralidade da saúde.

Reúne representante das 5.562 Secretarias Municipais de Saúde do Brasil e participa do Conselho
Nacional de Saúde (CNS), órgão deliberativo do SUS, e da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), que
reúne a representação dos três entes federados: o Ministério da Saúde (MS), o Conselho Nacional dos
Secretários de Saúde (Conass) e o Conasems.

O Conasems mantém, ainda, os Núcleos Temáticos, espaços onde secretários municipais de saúde e
assessores reúnem-se para discutir políticas, realizar estudos e preparar informações e pareceres para
decisão dos colegiados.

Os participantes dos Núcleos Temáticos têm assento nas comissões e grupos de trabalho tripartites
do SUS.

O Conasems realiza o Congresso Anual Conasems, que reúne, presencialmente, todos os Secretários
Municipais de Saúde para discutir temas do interesse dos gestores municipais e definir orientações para
o trabalho de representação do Conasems e, a cada dois anos, elege a diretoria do órgão.

76
POLÍTICAS DE SAÚDE

Leitura obrigatória

Para entender melhor o SUS, leia:

SOLHA, R. K. de T. Sistema Único de Saúde: componentes, diretrizes e


políticas públicas. São Paulo: Érica, 2014. Disponível em: <https://integrada.
minhabiblioteca.com.br/books/9788536513232>. Acesso em: 4 jan. 2017.

4.11 Ações, programas e políticas do SUS

4.11.1 Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu)

É um programa com a função de prestar o socorro à população em casos de emergências.

Atendem às urgências e emergências traumáticas, clínicas, pediátricas, cirúrgicas, gineco-obstétricas


e psiquiátricas.

Funciona 24 horas por dia e são constituídos por médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem
e socorristas.

O serviço é prestado em qualquer lugar: residências, locais de trabalho e ruas.

É acionado por chamada telefônica gratuita, atendida por técnicos na Central de Regulação, que
identificam o caso e imediatamente, transferem para o médico regulador, que faz o diagnóstico da
situação e inicia o atendimento no mesmo instante, orientando o paciente, ou a pessoa que fez a
chamada, sobre as primeiras ações e avaliando a necessidade de encaminhamento para um posto de
saúde ou aos hospitais públicos, nesse caso reservando leito para que o atendimento tenha continuidade.

O Samu pode ser acionado por meio do número 192 e é o principal componente da Política Nacional
de Atenção às Urgências.

4.11.2 Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24 horas)

São unidades de complexidade intermediária entre as Unidades Básicas de Saúde e as portas de urgência
hospitalares. Faz parte do atendimento pré-hospitalar fixo (diferente do Samu que é móvel-ambulância).

Seu funcionamento está diretamente relacionado ao Samu, pois este organiza o fluxo de atendimento
pré-hospitalar de urgência e emergência e encaminha o paciente ao serviço de saúde adequado à situação.

Essas unidades se organizam de acordo com o número de habitantes da população de cobertura da


região assistida, conforme quadro (distribuição de Unidades de pronto atendimento de acordo com a
região de cobertura):

77
Unidade I

Tabela 1

População da Número de atendimentos Número mínimo de Número mínimo de


Unidade região de cobertura médicos em 24 horas médicos por plantão leitos para observação
50.000 a 100.000 2 médicos (1 pediatra e 1
UPA Porte I 50 a 150 pacientes 5 a 8 leitos
habitantes. clínico geral)
100.001 a 200.000 4 médicos (entre pediatras
UPA Porte II 151 a 300 pacientes 9 a 12 leitos
habitantes. e clínicos gerais)
200.001 a 300.000 6 médicos (entre pediatras
UPA Porte III 301 a 450 pacientes 13 a 20 leitos
habitantes. e clínicos gerais)

Fonte: Brasil (2008).

4.11.3 Programa Farmácia Popular do Brasil

Criado em 2004 para ampliar o acesso da população aos medicamentos essenciais, que são vendidos
a preço de custo aos cidadãos em unidades próprias. À venda constam de 107 itens para as doenças
mais comuns na população brasileira, dentre eles analgésicos, anti-hipertensivos, medicamentos para
diabetes etc.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é o órgão do Ministério da Saúde que executa o programa.
Existe também o programa Aqui tem farmácia Popular, que é uma parceria com farmácias privadas para
oferecer três tipos de medicamentos: diabetes, hipertensão e anticoncepcionais.

4.11.4 Centros de Atenção Psicossocial (Caps)

É um programa de atenção à saúde mental, com valor estratégico para a Reforma Psiquiátrica
Brasileira. São serviços criados para substituir os hospitais psiquiátricos. Tem como funções:

• Prestar atendimento clínico em regime de atenção diária, evitando as internações em


hospitais psiquiátricos.

• Promover a inserção social das pessoas com transtornos mentais através das ações intersetoriais.

• Regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental na sua área de atuação e dar
suporte à atenção à saúde mental na rede básica.

Os Caps têm base territorial e comunitária do SUS, referenciais no tratamento das pessoas que sofrem
com transtornos mentais (psicoses, neuroses graves e demais quadros), cuja severidade e/ou persistência
justifiquem sua permanência em um dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e
promotor de vida.

O objetivo dos Caps é oferecer atendimento à população de sua base territorial, realizando:

• Acompanhamento clínico.

78
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Reinserção social dos usuários, pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e
fortalecimento dos laços familiares e comunitários.

É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em


hospitais psiquiátricos.

Existem diferentes tipos de CAPS, segundo seu porte e clientela:

Caps I

• Atendimento diário de adultos com transtornos mentais severos e persistentes.

• Destinado a municípios com população entre 20 mil e 70 mil habitantes.

Caps II

• Atendimento diário de adultos com transtornos mentais severos e persistentes.

• Destinado a municípios com população com mais de 70 mil habitantes.

Caps III

• Atendimento diário e noturno, (com funcionamento todos os dias da semana) para adultos com
transtornos mentais severos e persistentes.

• Destinado às grandes cidades.

Caps i

• Atendimento diário a crianças e adolescentes com transtornos mentais.

Caps AD

• Atendimento diário da população com transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas.

4.11.5 Centros de Especialidades Odontológicas (CEO)

Trata-se de um serviço de referência para as Unidades Básicas de Saúde.

O Ceo é integrado ao processo de planejamento local (regional), com oferta de, pelo menos, as
seguintes especialidades odontológicas:

• Cirurgia oral menor.

• Atendimento a pacientes com necessidades especiais.


79
Unidade I

• Periodontia (tratamento de doenças na gengiva).

• Endodontia (tratamento de canal) e diagnóstico oral, com ênfase na identificação do câncer


de boca.

Existem três tipos de CEO, conforme sua capacidade assistencial:

• CEO Tipo I – com três cadeiras odontológicas.

• CEO Tipo II – com quatro a seis cadeiras odontológicas.

• CEO Tipo III – com sete ou mais cadeiras odontológicas.

Os CEO constituem serviços que visam a ampliação da capacidade assistencial do SUS, quanto às
ações de média complexidade em saúde bucal, na busca da promoção da integralidade na atenção à
saúde bucal.

4.11.6 Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD)

Tem o objetivo de reduzir o número de óbitos e a incidência da doença no Brasil, envolvendo ações
permanentes e intersetoriais, uma vez que não existem evidências técnicas de que, em curto prazo, seja
possível a erradicação do mosquito transmissor Aedes aegypti.

Foi implantado em 2002 e desenvolve – em parcerias com Estados e Municípios – campanhas


de comunicação e mobilização social visando à prevenção e ao controle do mosquito transmissor
(eliminando potenciais criadouros do vetor em ambiente doméstico e tratando com larvicidas apenas
aqueles onde ações alternativas não puderam ser adotadas).

O PNCD está organizado segundo diretrizes de ações, das quais destacam-se:

• O fortalecimento da vigilância epidemiológica, de modo a ampliar a capacidade de detecção


precoce de casos da doença.

• A integração do combate à dengue na Atenção Básica, articulada com os Programas de Agentes


Comunitários de Saúde (Pacs), Estratégia Saúde da Família e ações de saneamento ambiental
visando à redução de criadouros. Esta diretriz tem o objetivo de estabelecer parcerias com vistas
à instalação de uma rede de pontos de recolhimento e destinação adequada de pneus inservíveis
(os ecopontos).

O Aedes aegypti tem algumas características específicas que favorece sua disseminação e dificulta
o seu combate:

• É um mosquito altamente endófilo, utilizando, na maioria das vezes, os depósitos de água


domiciliares e outros artefatos como seus principais criadouros.
80
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Aproximadamente 70% dos criadouros estão no interior dos domicílios. Nesse caso, as ações de
saneamento domiciliar são de grande importância para o controle do mosquito. Ações simples,
como a vedação de caixas d’água e outros possíveis depósitos de água, desobstrução de calhas,
dentre outras, são importantes para o controle do vetor.

A principal prioridade do programa é evitar a ocorrência de óbitos, diante da situação epidemiológica


do País, onde os sorotipos DEN-1, DEN-2 e DEN-3 circulam simultaneamente.

4.11.7 Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária

A malária é uma doença infecciosa aguda, cujo agente etiológico é o parasito do gênero Plasmodium,
transmitida pela picada de fêmeas de mosquito do gênero Anopheles Meigen, 1818, que se infectam ao
sugar sangue de indivíduos doentes.

Os sintomas deste agravo são pouco específicos, sendo os mais comuns: febre alta, acompanhada de
calafrios, sudorese abundante e cefaleia.

Alguns pacientes podem manifestar, no início da doença, outros sintomas principalmente náuseas,
vômitos, astenia, fadiga e anorexia.

Mais de 99% dos casos de malária anualmente diagnosticados no Brasil estão concentrados nos
nove estados que compõem a Amazônia Legal (AC, AM, AP, MA, MT, PA, RO, RR e TO).

Ainda não existe uma vacina para a malária. No Brasil, 3,5 milhões de suspeitos/ano foram submetidos
ao diagnóstico laboratorial nas unidades do SUS, no ano de 2006, dos quais 450 mil foram positivos
para malária, sendo-lhes administrado imediatamente o tratamento específico para a cura da doença.

O Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária (PNCM) tem como objetivos gerais:

• Reduzir a morbimortalidade por malária.

• Reduzir a transmissão em áreas urbanas da Amazônia.

• Manter a ausência de transmissão nas áreas onde a doença foi interrompida.

Para garantir o controle da doença, a redução das formas graves e a mortalidade por ela provocada,
o PNCM tem proporcionado apoio sistemático à estruturação dos serviços de saúde para o diagnóstico
e tratamento adequado e oportuno.

Outros componentes importantes do PNCM são:

• O fortalecimento da vigilância epidemiológica, da educação em saúde e do controle seletivo


de vetores.

81
Unidade I

• Capacitação de profissionais de saúde para desenvolverem as ações de prevenção e controle da


malária nas unidades de saúde do SUS.

Nos últimos anos, tem sido observado considerável avanço no controle da malária e o
fortalecimento da parceria entre as três esferas de governo, estabelecida a partir do processo de
descentralização das ações de vigilância em saúde, com a permanente articulação intermunicipal
promovida pelos gestores.

4.11.8 Plano Diretor de Vigilância Sanitária (PDVisa)

O PDVisa é o instrumento através do qual são eleitas as prioridades em Vigilância Sanitária, tendo
sua origem e fundamentos:

• Na I Conferência Nacional de Vigilância Sanitária.

• É resultado de discussões, desde março de 2005, envolvendo as três esferas de governo.

• Buscou observar as visões e experiências dos gestores, profissionais de saúde e conselheiros do


SUS envolvidos nesse processo.

Esse Plano aborda as diretrizes para o fortalecimento do SNVS e sua efetiva consolidação como parte
integrante do SUS, agregando-as em cinco eixos, a saber:

• Organização e gestão do SNVS, no âmbito do SUS.

• Ação regulatória: vigilância de produtos, de serviços e de ambientes.

• A vigilância sanitária no contexto da atenção integral à saúde.

• Produção do conhecimento, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

• Construção da consciência sanitária: mobilização, participação e controle social.

4.11.9 Política de Educação Permanente em Saúde

A Política de Educação Permanente para o SUS é regida pelos seguintes princípios:

• Articulação entre educação e trabalho no SUS.

• Produção de processos e práticas de desenvolvimento nos locais de serviço.

• Mudança nas práticas de formação e de saúde, tendo em vista a integralidade e humanização da


atenção à saúde.

82
POLÍTICAS DE SAÚDE

• Articulação entre ensino, gestão, atenção, participação popular e controle social em saúde e
produção de conhecimento para o desenvolvimento da capacidade pedagógica dos serviços e do
sistema de saúde.

O foco da Educação Permanente em Saúde são os processos de trabalho e as equipes (atenção,


gestão, participação e controle social), possibilitando a construção de um novo estilo de gestão, no qual
os pactos para reorganizar o trabalho sejam construídos coletivamente e os diferentes profissionais
passam a ser sujeitos da produção de alternativas para a superação de problemas.

A Política de Educação Permanente foi aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde, pactuada na
Comissão Intergestores Tripartite e instituída pela Portaria MS/GM n. 198, de 13/02/2004, alterada pela
Portaria MS/GM n. 1.996, de 20/08/2007, que introduziu novas diretrizes e processos e instância para a
implantação dessa política.

4.11.10 Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN)

Aprovada pela Portaria MS/GM n. 710, de 10/07/1999, refere-se ao reconhecimento do direito


humano universal à alimentação e à nutrição e tem por objetivos:

• Assegurar a garantia da qualidade dos alimentos colocados para o consumo no País.

• Realizar a promoção de práticas alimentares saudáveis.

• Disseminar a adoção de práticas que garantam a prevenção e o controle dos distúrbios nutricionais.

• Garantir o acesso universal aos alimentos.

4.11.11 Política Nacional de Assistência Farmacêutica

Aprovada pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde 338, de 06/05/2004, a Política Nacional de
Assistência Farmacêutica envolve um conjunto de ações voltadas à promoção, à proteção e à recuperação
da saúde, garantindo os princípios da universalidade, integralidade e equidade.

Pretendem servir de orientação às demais políticas intersetoriais, como as políticas de Medicamentos,


de Ciência, Tecnologia e Inovação, de Desenvolvimento Industrial e de Formação de Pessoal envolvendo
os setores público e privado de Atenção à Saúde.

83
Unidade I

Saiba mais

Para melhorar a compreensão dos conteúdos desta unidade, leia:

CARVALHO, G. A saúde pública no Brasil. Estudos Avançados, São Paulo,


v. 27, n. 78, p. 7-26, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142013000200002&lng=pt&nrm=i
so>. Acesso em: 4 jan. 2017.

MERCADANTE, A. O. (Coord.). Evolução das políticas e do sistema de


saúde. In: FINKELMAN, J. (Org.). Caminhos da saúde no Brasil. Rio de Janeiro:
Editora Fiocruz, 2002.

SIQUEIRA, J. E. de. 25 anos do SUS: o que há para comemorar? O


Mundo da Saúde, São Paulo, v. 37, n. 1, p. 56-64, 2013. Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/mundo_saude/25_anos_sus_ha_
comemorar.pdf>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Resumo

O tema Saúde Pública evoca a questão da própria finalidade do


Estado, o que nos remete à proposição segundo a qual cabe ao Estado
promover o bem-estar social, que, de acordo com o desenho dado pela
Constituição Federal, no seu Título que trata da Ordem Social, remete ao
conceito de Seguridade Social. Assim, entendermos as três componentes da
Seguridade Social, segundo sua estruturação constitucional, nos possibilita
a compreensão da estruturação dos órgãos e entidades envolvidos e a
discriminação de funções, responsabilidades e atribuições desses órgãos
e entidades. Permiti-nos, também, compreender a vinculação entre as
Políticas Públicas eleitas e implementadas, em face das disposições legais
vigentes, especialmente considerando as diretrizes constitucionais, que, no
final das contas, apontam os caminhos a serem percorridos. De tal forma
que, mudanças só podem ocorrer como resultado de intensas discussões
populares, culminadas necessariamente com mobilizações que possam
determinar mudanças constitucionais.

Quanto à Saúde Pública, é importante destacar o que está garantido


no seu artigo 196, que estabelece que a saúde é direito de todos e dever
do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem
à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e
igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
84
POLÍTICAS DE SAÚDE

A Saúde Pública, segundo a estrutura em que está organizada, não é um


mero programa de governo, mas, antes, uma Política de Estado, com suas
diretrizes estabelecidas na Constituição Federal, que, paralelamente, cuida,
também, da Previdência Social Pública (enquanto conjunto de normas
destinadas a assegurar benefícios àqueles que se encontram inseridos
no sistema previdenciário) e da Assistência Social (enquanto conjunto de
normas destinadas a prestar auxílio àqueles que não disponham de meios
próprios para garantir sua própria sobrevivência).

As políticas de saúde são criadas quando há uma necessidade de conter


algum risco de doença para algum grupo populacional, como a criação da
Política Nacional de Atenção Integral à Saúde para o Homem, em 2009, com
o objetivo de promover a saúde da população masculina no Brasil, reduzindo,
assim a os altos índices de morbimortalidade. O artigo 198 CF garante a
implantação do Sistema Único de Saúde – SUS, o artigo 199 da CF garante
a participação da iniciativa privada. Trata a CF também da Previdência Social
– a segunda componente da Seguridade Social – e que garante o direito à
cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada; proteção
à maternidade, especialmente à gestante. Quanto à Assistência Social, ela
garantirá a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à
velhice, independente de contribuição à seguridade social, isto é, determina a
implantação de programas com garantam recursos financeiros para custear a
habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção
de sua integração à vida comunitária, bem como portadora de deficiência e ao
idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria à manutenção ou
de tê-la provida por sua família.

A Saúde Pública no Brasil, sob a perspectiva histórica, pode ser dividida


em três grandes etapas: Descobrimento até 1923 (Lei Eloy Chaves):
este período é basicamente caracterizado pela centralização e pela
desorganização administrativa, iniciado com o descobrimento do Brasil,
passando pelo Período Colonial e pelo Império, até chegar ao início da
República. São, de qualquer forma, dignas de notas (e louvor) algumas das
iniciativas adotadas nesse período. Mas, de qualquer forma, as medidas
de Saúde Pública implementadas traziam sempre a marca das iniciativas
isoladas, nem sempre concatenadas entre si, fundamentadas basicamente
na filantropia. Com o advento da Lei Eloy Chaves, em 1923 (quando foram
criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensão), seguidas (e substituídas)
pelos Institutos Aposentadoria e Pensão (IAP), esses, depois (em 1960),
substituídos pelo INPS, paralelamente à criação do Ministério da Saúde (em
1953, com suas finalidade melhor definidas em 1967) e o Sistema Nacional
de Saúde (em 1975), o sistema de saúde público foi adotando contornos
vinculados às políticas de previdenciárias, inclusive quanto à parte de seu
custeio e manutenção.
85
Unidade I

Assim, somente com o advento da Constituição Federal, em 1988,


sucedida pela legislação complementar (Lei n. 8.080/1.990, Lei 8.142/1990,
Emenda Constitucional 29/2000, Decreto n. 7.508/2.011, Lei Complementar
n. 141/2.012), é que, finalmente, foram traçadas as bases legais atuais de
funcionamento do Sistema Único de Saúde.

O texto constitucional demonstra claramente que a concepção do


SUS está baseada na formulação de um modelo de saúde voltado para as
necessidades da população, procurando resgatar o compromisso do Estado
para com o bem-estar social, especialmente no que se refere à saúde
coletiva, consolidando-a como um dos direitos da cidadania.

O SUS, com o seu modelo operacional, propôs a sua forma de organização


e de funcionamento, determinando seus princípios, objetivos e atribuições,
inclusive quanto à vigilância sanitária, vigilância epidemiológica, saúde
do trabalhador, assistência farmacêutica, atribuições, financiamento e
participação da iniciativa privada. Para sua implantação e operacionalização
o SUS foi fundamentado em princípios doutrinários (universalidade,
equidade e integralidade) e em princípios organizativos (hierarquização,
resolutibilidade, descentralização e participação popular).

Quanto às normas operacionais que regem o funcionamento do SUS,


vale destacar: Noas 91, que centraliza a gestão na esfera federal; Noas 93,
que tem como objetivo organizar o processo de descentralização; Noas 96,
que promove e consolida a municipalização, criando dois tipos de gestão
(Gestão Plena de Atenção Básica, na qual o Município toma conta de toda
atenção básica, e Gestão Plena do Sistema Municipal, na qual o Município
é responsável pela atenção básica e também dos níveis de complexidade
maior, média e alta; Piso de Atenção Básica; Noas 2001, que promove maior
equidade na alocação de recursos e no acesso da população às ações e
serviços de saúde em todos os níveis de atenção; Noas 2002, que amplia as
responsabilidades dos Municípios na Atenção Básica e cria o PAB ampliado.

É importante, ainda, destacar o Pacto da Saúde – 2006, caracterizado


pela instituição de metas a serem atingidas para diminuir as doenças ou
riscos de grupos populacionais: saúde do idoso; câncer de colo uterino e
mama; mortalidade infantil e materna; doenças emergentes e endemias;
promoção à saúde; atenção básica à saúde (principalmente PSF) e Pactos
em defesa dos SUS – defesa e fortalecimento dos princípios do SUS. O
Pacto pela Vida – 2008 acrescentou as seguintes prioridades: saúde do
trabalhador; saúde mental; fortalecimento da capacidade de resposta do
sistema de saúde às pessoas com deficiência; atenção integral às pessoas
em situação ou risco de violência e saúde do homem.

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