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UMA HISTÓRIA DAS ARÁBIAS

Há muito, muito tempo atrás, algures nos confins da Arábia existiu uma cidade e nela,
dez mil cidadãos.

Perdido, insignificante, à deriva entremeio à abundante e diversa população, tanto


artífice, comerciante, cameleiro, tintureiro, curtidor, talhante, curador, escriba,
publicano, doutor em leis, malabarista, artista de feira ou de salão, engolidores de fogo e
espadas, mendigos e ladrões, nobres, plebeus ou meros servos existiu um certo Youssef,
sem mais designação, pois como se verá até o direito a ostentar o nome de família, seu
orgulho e brasão perdera, espécie pois de Zé Ninguém, que por ali flanava fazendo
serviços mínimos, pequenos biscates, recados, em busca de subsistência.

Já fora aguadeiro, horticultor, marinheiro, mensageiro, poeta, cantor, contador de


fábulas, contrabandista, mendigo, ladrão, de tudo tentara e em tudo se orientara, por
algum tempo.
Nesse tempo estava a modos que reduzido à ínfima condição de pedinte, mendicante.
Isso em nada o diminuía ou humilhava, pois era condição social aceite, modo de vida
assaz digno e bem integrado, pois como é sabido um dos cinco pilares do Islão, é a
obrigação de todos os crentes à esmola, o auxílio desinteressado àqueles a quem a sorte,
kermit ou destino menos bafejou com suas prodigalidades.

Nos seus andrajos, todavia limpos circulava pelas ruelas do souk, dirigia-se depois ao
centro da cidade, buscando cativar alguma alma generosa, que pelo começo da tarde,
contra algum aforismo ou mera piada que o fizesse rir e sentir superior, lhe obviasse ao
mata bicho.

Convém lembrar que isto passa-se num tempo tão antigo, bem anterior ao advento do
Islão naquelas paragens, que os crentes, que nesse tempo ainda não eram crentes e sim
meros pagãos, adoradores de ídolos, do fogo e de fenómenos naturais, não se sentiam
ainda obrigados á caridade para com o seu próximo, atributo que só o Islão viria a
instituir como um dos cinco pilares da fé, séculos mais tarde.

Eram tempos difíceis, em que as pessoas mutuamente se ignoravam, se espezinhavam


com desdém e arduamente competiam pelo melhor bocado, a melhor posição, o afago
protector dos mais nobres. Não sei porquê mas isto parece-me vagamente familiar…

Nessa cidade também habitava, num pequeno mas belo palácio, dispendiosa jóia
arquitectónica, na zona mais exclusiva do burgo, uma dama de beleza fabulosa, lendária
mesmo. Era a princesa Marisela, nobre dama de elevada extracção, sobre quem todavia
corriam mil rumores sibilinos e contraditórios.

Dizia-se á boca pequena que gostava de seduzir jovens e que, quando se fartava deles,
o que era rápido e frequente, os transportava á loucura. Tinha fama de houri, dama
feiticeira, que dominava as mais elaboradas técnicas do amor, os mais refinados filtros,
capazes de alterar sem mácula a personalidade de suas vítimas, que de nada se
apercebiam. Dizia-se que depois de levá-los á loucura com seus filtros e sortilégios, os
transformava em inofensivos animais, sapos, cágados, camaleões, canários, pintassilgos,
grous, jumentos, raposas ou coiotes e que a maioria se mantinham inconsoláveis

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rondando pelas proximidades do seu frondoso jardim, na esperança de voltarem ás boas
graças da princesa e quem sabe ao formato original, de amante e preferido.

Dizia-se que já assim havia feito com seu primeiro esposo, o príncipe, a quem
transformara num boi manso e complacente, para quem mandara construir em aldeia
distante um soberbo curral com mangedoiras de marfim e paredes de ónix e pórfiro,
onde o pobre penava a solidão das noites, mugindo desconsolado seu isolamento e triste
condição bovina.

Parece que durante os dias o deixava voltar á forma primitiva, humana, mas que um
forte feitiço o impedia de se aproximar da sua amada e como tal circulava furibundo,
infinitamente triste, revoltado e louco nessa terra próxima e contudo tão distante, pois
por mais se empenhasse, escorneasse ou bufasse, não conseguia ultrapassar seus limites.

Dizia-se ainda que era servida por djins, esses génios rebeldes e contudo obedientes,
soubesse-lhes manter a rédea curta.

Nunca se vira um serviçal no seu palácio, que contudo resplandecia de asseio e


brancura. Dizia-se ainda que possuía um carro alado que a transportava sem esforço ou
besta motriz aonde quer ela quisesse.

Era uma daquelas belezas raras, que cativam os corações e fazem parar o trânsito. É
sabido que nesse tempo ainda não havia trânsito nas ruas, a bem dizer. Não passavam de
alguns camelos pulguentos, jumentos preguiçosos, escassas carroças desconchavadas,
pelas ruelas estreitas do souk, entre o vozear estridente de aguadeiros, comerciantes e
condutores de gado.

Contudo logo que a princesa se deixava ver nas ruas era um pandemónio. Os camelos
blateravam teimosos, babosos, os jumentos zurravam e não se mexiam nem à chicotada,
as carroças faziam filas demoradas e as pessoas, essas gozavam o doce fascínio, o raro
perfume que à sua passagem espalhava pelas ruelas, de hábito fedorentas.

Um dia, esta princesa Marisela saiu de sua voluntária clausura. Era criatura raramente
vista pelas ruas o que ainda lhe aumenta o mistério, o esplendor, o prestígio, a glória. De
hábito mantinha-se no seu palácio, servida pelos djins, por longos períodos.

Ás vezes porém aborrecia-se e gostava de visitar o souk e mercados adjacentes, de


perder-se entre vendedores e artífices, em busca de alguma jóia que a cativasse pelo seu
desenho, algum produto ou fruto de exóticas e longínquas paragens, ou tão somente as
sumarosas e doces tâmaras locais, ou ainda álcoois finos e raros que consabidamente
apreciava e consumia e nesses tempos de antanho não estavam ainda proibidos aos
crentes.

Nesse tempo não havia ainda crentes. Ainda o profeta estava longe de ter nascido,
explodido em fúria e revolta, combatido suas batalhas e heresias, antes de ser finalmente
içado aos céus e à glória no dorso indomável do seu branco corcel, imaculado como às
nuvens.

Nesse dia fatídico, Youssef agora mendigo, pedinte, palhaço, escriba de letras de
amor, poeta, quase músico, espécie de homem para todo o serviço, arrastava-se cansado

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nos seus andrajos, todavia limpos não muito longe de uma pequena esplanada onde os
comensais fatigados de tanto calor, modorra e canseira se refrescavam com capitosos
vinhos de palma, tamareira ou especiarias, após conclusão de intricados e assaz
discutidos negócios.

Para lá se dirigiu Youssef, que passara o dia redigindo letras de amor e esperança para
escravos e analfabetos e não vira um ceitil por tão denodado serviço, nada mais que
escassas tâmaras magras, alguns figos secos, um potinho de yogurt, agora na acesa
esperança de conseguir qualquer pequeno serviço para os grandes e abastados, que lhe
proporcionasse o tão almejado alimento e a não menos necessária bebida, para regar o
conduto.

Quis o destino, sempre tão pródigo em seus desenlaces que Marisela, a princesa
também cansada, afogueada, já farta de tanto pó e povoléu barulhento e malcheiroso,
também para lá dirigisse seus elegantes e curtos passos.

O que acontece a seguir é uma epifania. Um momento sacralizado no tempo,


cristalizado na orbe, uma cicatriz indelével. Também não é de admirar. Nesta terra
nunca acontece nada.
Aquilo que se passa contudo, ou fica escondido entre paredes e beijos, facadas e
traições ou passa-se às escancaras nesta esplanada.
É o centro da terra, o núcleo da vida pública, caravansarai de negócios e prazeres, de
mentiras e afazeres, de todos os misteres.

E agora está para eclodir a epifania. Isso vai acontecer no vero momento em que os
olhares da princesa e do mendigo, pela prima vez se cruzem.
Nesse momento é como se algo muito velho, coisa informe e uniforme que ao longo
dos séculos maturou, eclodisse, germinasse, ganhasse asas para voar.

É uma epifania, uma espécie de quimera, um daqueles momentos em que o tempo


pára, o silêncio se acentua e tudo parece preparado para explodir numa rosácea de
artifício. Tudo congela e ouve-se sem querer uma espécie de harpejo no cosmos,
inaudível para a maioria, que andam distraídos, mas fortemente nítido para quem está
atento e percebe.
É a música das esferas, a própria epifania. Quando dois corações, ou olhares ou almas
se cruzam e entendem. Ficam cúmplices momentaneamente. Querem foder…

Este finalmente é ainda o momento que antecede a epifania. Ninguém ainda se viu ou
cruzou. Ninguém se conhece. Ninguém aspira ainda o corpo ou a alma do seu próximo.
Este momento é fértil em suspense e clímax. É quando a música redobra de
intensidade. Quando se pressente que algo finalmente está para acontecer. É como nos
filmes.

Boy meets girl…

É a epifania. Já de antemão prometida.

Às vezes, ocasionalmente certas pessoas encontram-se, cruzam-se em seus trajectos


pelo mundo e entendendo-se, reconhecendo-se percorrem algum caminho juntos.

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A isto chama-se amor ou então loucura, ou paixão e tem muito de fantasia, de
sofrimento, de imaginação. E muito de maldade e muito de coração.

Mas todavia ainda não eclodiu esse momento. Por agora Youssef o bobo, o crédulo
passeia-se inocente pelo mundo sem imaginar sequer o que deus ou o destino lhe
debuxaram na palma da mão, nas profundas do coração, na insuficiente anima.

E a demisela, a fragrante princesa muito menos, que se passeia desempoeirada com


seus invisíveis guarda espaldas, o seu séquito de djins a reboque, temida e amada,
reverenciada, pelo souk.

Este é o momento que antecede a epifania. Aquele momento quase a eclodir em que a
princesa e o mendigo se cruzam e logo ali se revelam, se desnudam, se deslumbram
como duas almas gémeas, duas metades de um mesmo mistério.

E foi de facto um mistério.

Não que a dama fosse isenta de reputação. Tem fama de puta, de alcoólica, de bruxa
feiticeira. De malvadez e perfídia. Mas isto são coisas que só se murmuram à boca
pequena e depois de olhar muito bem em volta, até porque nunca se sabe, não vão estar
os djins de atalaia na vizinhança.

Quanto a Youssef já se sabe, é um pária, persona non grata. Em tempos foi mesmo
uma espécie de pestífero. Toda a gente se afastava, olhos em baixo. Mudavam de
direcção, fingiam que o não viam. Faziam o sinal dos cornos com os dedos, cuspiam
para o chão, para esconjurar a má sorte.

Hoje porém já não é assim. Com o tempo as pessoas chegaram à conclusão de que
Youssef não tinha os cinco alqueires bem medidos, já nesse tempo se dizia. Era um
irresponsável, talvez mesmo algo atrasado, sofria de dupla personalidade. Era bipolar.

Nesse tempo contudo não existiam estas noções. Dizia-se simplesmente que essas
pessoas estavam tocadas pelos deuses, ou viviam à sombra dos deuses. E eram
reverenciadas. Dava sorte, boa baraka tocar-lhes no cocoruto e malapata maltratá-los.

A partir daqui todas as portas se abriram para Youssef. Enfim, maneira de dizer. As
pessoas não o convidavam para suas casas, mas também já não o ostracizavam.
Pelo contrário, era frequente convidarem-no para uma malga de vinho de palma, umas
tâmaras maduras, até mesmo uma pratada de carneiro com sêmola, quando o viam à
deriva pelo souk, com aquele seu ar perdido, alucinado, descabelado e sujo.

Era já uma espécie de caridade para com o próximo. Não aquela dos verdadeiros
crentes que se tornaria institucional aquando do advento do Islão, mas assim uma
espécie de jogar pelo seguro, pois ninguém se queria incompatibilizar com os deuses.

Para Youssef era um regalo, o regabofe garantido. Às vezes até, com sorte, alguma
criadita condoída, abria-lhe a porta do seu casebre, para uma noite de consolo.
É sempre bem recebido, pois todos o sabem bem humorado e de fácil trato. É mesmo
um bom contador de histórias. É o bobo, o histrião, entretem as pessoas.

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Todos porém já sabem que onde quer que Youssef se cole, o vinho tem de correr
abundante e é bom que haja algum conduto para acompanhar. E alguém tem de cobrir as
despesas, pois Youssef não tem meios.

É voz corrente que em tempos os teve e até volumosos. Ainda há memória desses
tempos quando desperdiçava dinares e maravedis a rodos, oferecia rodadas a todos, a
vida era uma alegria, estouvamento e despreocupação.

Dizia-se que matara pai e mãe de desgosto e como era filho único logo desbaratara
tudo. Vendera a grande tenda familiar, o gado, as alfaias, as jóias, as ferramentas, para
rebentar com tudo na estroina. No ópio, no haxixe, no vinho, nas apostas, na jogatana,
nas putas.
Nada disto se provou. O caso nem chegou a subir às altas instâncias. Não foi ao cadi,
para julgamento sumário.

Nunca passaram de insidiosas suspeitas, calúnias e murmúrios. Má-língua. Esta terra


sempre foi fértil na maldicência, no diz que disse, nos pombos-correios. Já se disse,
estamos no deserto. Aqui toda a gente alucina, sofre de miragens e depois crê nelas.

Por tudo isto não deixa de ser surpreendente aquilo que está para acontecer.
Foi uma espécie de explosão em que ninguém reparou. Houvesse máquinas
fotográficas nesse tempo, ou meros funcionais, telemóveis e teria sido possível reter
esse momento.
Aquela expressão. O verdadeiro eclodir do tesão. Quando tudo descamba. Acaba-se o
pensamento e a razão, o equilíbrio. Acaba-se o bom senso.
Só resta mesmo é mulher. Corpo, alma, incompreensão…

Este é o momento que antecede a epifania. Até aqui tudo era possível, daqui para a
frente, também.

Há uma esplanada vista de cima. Mesas, conversas, pessoas. Há um enorme


burburinho. Parece uma gaiola com pássaros a mais. É a humanidade no seu mais raro
desenho, no seu mais belo cântico. A perfeita eclosão dos interesses, o fascínio da
hipnose colectiva, o riso e o canto em perfeita sintonia. Nós..

A princesa vem, pisando o chão, orgulhosa, com seus guarda espaldas invisíveis, o seu
séquito de djins e toda a gente se dobra, toda a gente se arreda.

Parece uma maré de costas vergadas, de respeito e emoção. Esta gaja tem mesmo
perfil de princesa. Com seu belo sorriso, suas mãos de tecedeira vai espalhando
primícias e promessas, moedas e desenhos, maldade e perfídia. Com seu belo sorriso
augura promessas e beijos, pranto e delícias, acalanto e esperança, água finalmente, para
o povo.

Estamos na Arábia Félix, a primitiva, não esqueçamos. O deserto explana-se limítrofe,


a perder de vista. Faz um calor insuportável. Há camelos e fedor na paisagem. Gente
também, pouco limpa, suadeira, palradora. Esta é a moldura, a respiração, o ambiente.

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E aquelas duas criaturas, que neste momento ainda se ignoram, se não cruzaram ou
conheceram, inocentes portanto de toda a presunção mundana, estão quase a modificar o
trajecto do mundo, a edificar um tsunami, o voo de uma borboleta, o fechar de uma
porta, o escuro, a surpresa, o horror…

Este finalmente é o momento da epifania!

Quando nenhum dos intervenientes se recorda do como e do quando, nem do porquê e


apenas resta a fadiga, a surpresa e sempre o fascínio.

Youssef não se lembra de nada. Parece que foi transportado pelos ares. Ontem no
souk, mendigando. Agora na cama da princesa, ao lado da princesa, que dorme
indiferente. Só pode ser coisa dos djins.

Youssef teme por si, por sua alma invisível, insensível. É um crédulo. Acredita nos
djins, na magia, no impossível. Tudo lhe parece portanto possível.

Por isso teme, sente os intestinos sobrecarregados, uma vontade imperiosa de cagar. O
coração pulsa-lhe acelerado em sobre esforço. Está entupido de colesterol.

Olha a princesa e geme, de prazer antecipado, de medo, de fascínio. É o cagaço


propriamente dito.

Sabe que foi transportado para um outro mundo no qual é um estranho, mero
convidado, que rapidamente pode ser dispensado, olvidado, moído. Sabe que está
perdido, teme e contudo ousa. Está fodido. Deve ser coisa dos djins…

Entretanto, porque é pragmático e sobretudo pobre, aproveita. A suavidade do leito, a


amplitude do aposento, a frescura da cal, a profusão das cores, a generosidade dos
panos, o murmúrio da água, próxima, a fragrância inebriante das flores. A presença
tamisada, perfumada da princesa, dormindo a seu lado.

Nesse momento Marisela acorda, espreguiça-se, sorri-lhe e é como se o sol penetrasse


a rodos no aposento. Lado a lado, nus, redescobrem-se, riem, acariciam-se. Depois
comem. E depois refrescam-se na piscina interior que rumoreja no gozo partilhado e de
novo se beijam e de novo adormecem.
Parece um sonho, um passe de magia. Ontem mendigo, homeless sem eira nem beira.
Hoje o escolhido, o preferido, acariciado e bem tratado, espécie de burguês ou
publicano.

A cabeça de Youssef não pára quieta, menos ainda seu baixo-ventre. Inesperadamente,
da noite para o dia, tudo se modifica em sua vida.

Não é normal. Youssef é porém um homem de fé. É um crente. Acredita que deus dá.
E o mundo também e a sua expressão mais tamisada, perigosa e doce, a mulher. E de
facto assim é. Haja fé. Ou ilusão, ou delírio. Só pode ser coisa dos djins…

Youssef acorda nú, junto ao corpo matizado de Marisela e não se recorda de nada.
Nem do ontem, nem do como, menos ainda se porquê. Apenas sente, respira a vê. A seu

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lado, nua, serena, a princesa Marisela, doirada, belíssima, dormindo nua ou quase,
apenas um leve pano diáfano e transparente a cobri-a.

Algo lhe começa a roer o baixo-ventre, um medo irracional, uma vontade de cagar, de
implodir, de se furtar.

Mas a realidade é poderosa. Princesa Marisela acorda nesse momento e sem


pronunciar palavra audível, toda ela sorriso radiante e intenso piscar de pestanas, logo
impôs sua lei:
- Serás meu escravo! Tonto e bêbedo me seguirás pelo mundo ou então aguardarás em
pórtico, postigo ou antecâmara que eu te chame.
E se eu não te chamar, se de mim não souberes por longo ou curto tempo, terás de
esperar que eu te chame, que eu te beije, que eu te lembre. Estás fodido Youssef. És meu
escravo, dedicado e fiel…

Nada disto foi dito ou pronunciado e contudo de ambas as partes plenamente


percebido, tacitamente aceite. O alfa e o Ómega à debulha.

Nada como o poder económico. Ou a reputação. A capacidade de sedução. Nada como


a ficção. Finalmente já houve a eclosão. Tudo já aconteceu e ninguém reparou.

Youssef acorda e não se lembra de nada. Mil ideias lhe passam pela cabeça. Nenhuma
constrói lá ninho. Se fosse do tipo nervoso ficaria em pânico.

Como o não é, prefere adiar. Encostando-se mais a Marisela, passa-lhe uma perna por
sobre as suas e encosta-lhe o nariz ao perfumado cangote.

Penetra no sonho. E o sonho, se sonho é parece-lhe mais vívido que a realidade. A


carne mais quente, a respiração mais profunda, a recordação mais cerce.

Youssef sonha que está num barco, navegando à vela panda pelas costas da Arábia.
Alegra-se com o sol, com o vento, com o cheiro da maresia, que não conhece.

Mas subitamente, debaixo dos seus pés a carga do navio torna-se demasiado pesada
para o bojo do navio. Se calhar estava mal estivada. Tudo dança, tudo freme, tudo se
afunda. A carga demasiado pesada, mal estivada, no bojo do navio.

Youssef esbraceja aflito. Não sabe nadar. Nem sequer jamais viu o mar. Quer respirar.
Dorme contudo entre os tentáculos de um pesadelo. E não acorda. Está fodido.

Marisela dorme também e sonha. Mas está serena. Mantém um meio sorriso
misterioso, entre lábios. No sonho da princesa não nos é permitido penetrar.

Ela é o ser do mistério, do fascínio, do arbítrio. Sonhará com a liberdade, com o voo
das aves, com o sangue, quem sabe o que sonham as mulheres? Quem sabe rendas de
bilros, ursinhos de peluche, pudim de mirtilos?

Dois seres dormem abraçados lado a lado e contudo não podem estar mais distantes,
mais separados. Um no pavor. Outra no deleite. Mas que enfeite…

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Youssef sonha que é um peixe nadando livremente no mar oceano, que nunca viu em
dias da sua vida. Maravilha-se com toda aquela beleza líquida, um mundo oculto quase
transparente.
Persegue outros peixes, brinca entre algas e corais. Percorre vertiginoso longas
distâncias. Sente-se poderoso. Como uma seta prateada rasgando espaço. Sonha…

Sonha o que lhe parecem meses, céleres minutos. Sonha agora que é um chacal,
furtivo, magro, ágil. Persegue a fêmea em cio por entre os pedregais áridos do deserto.

Inebriado uiva longamente sobre um outeiro, na noite atroz do deserto. Sente uma
liberdade, uma pulsão, um poder como nunca antes. Sente alegria pura ardendo nas
veias. Corre rápido pela noite, arfando, a língua de fora, pendida da boca.

Sonha que é uma aranha tecendo uma beleza de cristal líquido, no vão de uma janela.

Sonha com Marisela, pois sempre que acorda ela lhe parece alheada e turva. Parece
que só a possui em sonhos quando ela se torna na fêmea ávida, sempre em cio, de todos
os animais de que se vê vestido.

Sonha que é um camelo blaterando furioso, a baba espessa escorrendo dos beiços, o
longo membro oscilando entre os flancos.

Sonha que é uma cobra riscando ésses na areia. Um falcão piando imperial, enroscado
na fêmea num voo poderoso, de vertigem em queda livre, rasgando o céu.

Um verme ocluso no silencio da noite, a lua antes de nascer no espaço.

Nunca se sonha um homem como antigamente. Agora é sempre bicho e está sempre
erecto.

Às vezes, nebulosamente como que acorda daquele fascínio, corropio de formas e


emoções em que permanentemente se debate e então sente-se escravo, preso ao corpo
pesado e lento, às ordens da princesa Marisela.

Ela leva-o a fazer coisas, recados, serviços. As suas ordens são sempre concisas, secas,
inadiáveis. E logo Youssef corre pressuroso, a cumpri-las.

Vai ao souk fazer compras, aos artífices buscar encomendas. Cozinha, espaneja, lava.
É uma máquina obediente, um escravo dedicado e útil, uma besta fiel. Um castrado.

Outras vezes Marisela, súbita, sempre altiva, rude, dispensa os seus serviços:
- Vai! – diz-lhe imperiosa, o braço estendido na direcção da porta. – Voltarei a chamar-
te quando precisar de ti. Até lá ficas proibido de falar-me, de procurar-me, de ver-me.
Nem te aproximes da minha porta. Vai! Desaparece verme!

Começa então um longo penar para Youssef. Regressa às suas voltas pelo souk, pelos
arrabaldes da cidade, as zonas periféricas à margem do deserto. Mas curiosamente não
se sente livre nem consegue sonhar.

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Parece alma penada, vagueando cegamente pelo mundo. Sofre, pois sabe que
Marisela, fêmea ávida e impiedosa, estará agora com outro.

Outros sonharão agora em seu lugar. Que nadam, que voam, que mergulham. Entre as
dobras tépidas, as fendas cálidas, as carnes oferecidas da princesa.

Nessas noites uiva desesperado sob o manto estrelado do céu, como quando era
chacal, no deserto. Ou chora, fraco, emborrachado de vinho de palma.
Não se barbeia já e pouco se lava, os andrajos imundos pendendo do corpo. Vagueia à
toa por ruelas estreitas, foge ao convívio dos humanos, palmilha o deserto descalço,
uivando à lua, esconde-se na noite, dorme enroscado em qualquer lugar.

Não consegue sonhar. Emagrece, enlanguesce, sente vontade de morrer. Está fodido.

Então, longas semanas passadas, raramente meses, sente uma espécie de zumbido na
cabeça, ouve assim como que um tilintar, plim, plim e logo subitamente nítida, a voz de
Marisela ecoando-lhe dentro do crânio:
– Vem! Quero estar contigo. Despacha-te estúpido!

Apavorado, olha o céu límpido do deserto e fazendo um esforço de concentração, ousa


interrogá-la, esperançoso : - Estás só minha princesa?

- Sim! Estou só. Vem depressa. – responde a voz como se o tivesse de facto ouvido e
depois com um clic dramático desliga-se a voz e de novo soa o silencio dentro da sua
cabeça.

Youssef não percebe nada daquilo. Só pode ser coisa dos djins, ocorre-lhe de
passagem, mas corre já saltitando de prazer e antecipação para os banhos públicos, onde
por manter vaga amizade de malgas e odres com o porteiro, é admitido à socapa, sem ter
de pagar.

Já lavado e às pressas enverga de novo seus torpes andrajos e desata a correr para o
palácio. Chega cansado, arquejante. Não está habituado a galopar tanto.

Marisela abre-lhe a porta sorridente, mas sentindo o pivete arrepiante que os seus
trapos exalam logo lhe ordena que se dispa e lave de novo enquanto encarrega aos djins
que vão queimar aquele lixo bem longe, lá para os fundos do pátio.

Mais tarde, limpo, barbeado, perfumado de essências, envergando uma sumptuosa


djelaba azul debruada a ouro, repousando sobre amplos e confortáveis coxins, comendo
fruta e bebendo vinho de palma, Youssef sente-se nas suas sete quintas, como que a
penetrar já preguiçosamente no sonho, na companhia afável e risonha de Marisela, que
exibe orgulhosa os seios e mostra as coxas soberbas, entre panos doirados quase
transparentes.

Ri muito mostrando os alvos dentes perfeitamente alinhados, enquanto falam de


boatos e futilidades.

Youssef fala muito, mas não sabe propriamente o que diz, também ri nervosamente,
inebriado já de tanto vinho e fascínio pela proximidade e cheiro da bela.

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Ousa às vezes num arrepanho de coragem ébria, interrogá-la sobre esse tempo
passado. E ela, marafada não se faz rogada. Conta-lhe com cópia abundante de
pormenores seus comércios com outros homens.

Youssef louco de ciúmes e raiva tapa os ouvidos, esmurra a cabeça, diz que não quer
saber, implora-lhe que se cale.
E ela rindo, bebendo, cínicamente comenta: - Então porque perguntas meu querido?

Às vezes Marisela a bela, abusa do vinho de palma e adormece babando-se sobre a


almofada, em meio à conversa. Então Youssef pega-lhe ao colo e com gentileza de
parente leva-a para o leito e deita-se a seu lado.

Nem sempre ela consente que ele a abrace e beije. Faz birra, finge-se amuada, vira-lhe
as costas. Mas depois lentamente cede às suas carícias…

Mas, paradoxo, coisa dos djins certamente, mal começam seus gestos amorosos, logo
Youssef estranhamente se sente catapultado para fora da realidade.
E recomeçam os sonhos, as bizarrias, as alucinações. Youssef sonha acordado,
fatigado, parece-lhe que nem dorme.

Sonha que é um gato pardo farejando no deserto rasto de presa ou fêmea.


Sonha que é um lacrau soterrado na areia. Sonha que é um grou dormindo gravemente
sobre uma só perna.
Um macaco trepado numa palmeira, massajando o sexo esguio e fino, de cor azul.
Sonhou que era um lagarto, um cágado, um sapo bufo. E em todas estas
manifestações, buscava ansiosamente fêmea e explodia depois.

Sempre acordava cansado, com a cabeça pesada, o coração apertado, mas logo
Marisela o punha a trabalhar, a fazer recados, a tratar da lida da casa.

Aquilo revoltava-o um bocado. Afinal por onde andavam os djins? Não eram aqueles
os seus deveres?

Mas não conseguia resistir. Os desejos dela eram ordens, as suas palavras como
música, os seus beijos pura ambrósia, maná.

E depois à noite repousava entre seus braços, buscava-lhe afanosamente o estro, a


húmida boca do corpo e sonhava…

Sonhou que era um bútio a planar e pousando alimentava-se de carniça.


Sonhou que era um rato escondido num túnel, protegendo fêmea e crias.
Sonhou que era um cão pulguento e sem dono, perseguindo em bando escanzeladas
cadelas em cio.
Sonhou que era um homúnculo aberrante e defeituoso, fugido de um circo.
Sonhou-se baleia, enorme cetáceo das profundezas, desconhecido nas Arábias.
Sonhou que nadava, que voava, que mergulhava. E era sempre na carne tépida e doce,
tamisada de Marisela.

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E quando acordava, cansado, a cabeça em brumas, o coração pesado, um nervoso
miudinho a consumir-lhe o ventre, a roer-lhe as tripas, a donzela parecia-lhe fria,
ausente, desdenhosa.
Dava-lhe ordens como a um servo que se despreza. Recusava-lhe o sorriso, as
cumplicidades, as intimidades.
Andava sempre amuada, a boca torcida num ríctus de contrariedade. Tornava-se
brusca, seca, maldosa, até por vezes.

Até que o dia sempre temido, sempre adiado, sempre presente qual espada de um a
quem chamaram Dêmocles, sobre o seu pescoço, finalmente chegava.

Era sempre após um daqueles longos e inexplicáveis períodos de sonho, intensos. Era
quando Youssef se encontrava mais fraco, fragilizado de corpo e essência.

Marisela, também ela lassa, olheirenta, sempre amuada, de maus modos e voz
arrastada dizia-lhe:
- Estou cansada. Vai, volta à tua vidinha de pária. Quando precisar de ti voltarei a
chamar-te. Já sabes como eu sou. Adeus! Não me busques nem tentes ver-me ou falar-
me. Desaparece. Aguarda.

De novo Youssef desesperado penava. Qual cadáver adiado vagava errático pelas
ruelas estreitas, sombrias, intermináveis do souk. Só se deixava ver à noite. Não
procurava trabalho, convívio, simpatia. Estava preso num labirinto.

Parecia o pobre do Borges, mas esse era cego e tinha uma bengala. Locomovia-se por
instinto e tacto nos seus futuros labirintos.
Também Youssef era todo ele instinto, todo chama, todo lava, pura cinza.
Mineralizava-se-lhe o coração.

Quase já se não alimentava. Dormia a esmo, enrodilhado sob qualquer pórtico ou


degrau. A grenha e a barba espetavam-se sujas como cerdas de porco.

A sua bela djelaba outrora azul cobalto debruada a ouro, enchia-se de nódoas e
encardia de imundície.

Saía para o deserto, comia gafanhotos e ervas amargas. Emagrecia. Uivava à lua, nas
tristes noites do deserto, chorava quando ébrio de palma, que o seu amigo porteiro dos
banhos, compadecido, às vezes lhe oferecia.

O amigo insistia que se banhasse. Não tinha de pagar. Mas ele recusava. Refocilava na
imundície, no mau cheiro. Esfregava-se com a areia do deserto sobre o suor do corpo.
Enlanguescia. Estava fodido.

Odiava Marisela. Sentia em todas as fibras do seu magro corpo, sabia seguramente
que ela estava nesse momento com outro, com outros, dando-lhes de bandeja o que a si
recusava. Esta é a situação mais triste do mundo. A chamada dor de corno.

Pensava em matá-la, estrangulá-la com um fio de seda, decepar-lhe a cabeça com um


alfange roubado algures, afogá-la lentamente na sua piscina interior, fazê-la sofrer
torturas atrozes, partir-lhe os dedos, pisar-lhe a sombra, cortar-lhe a língua.

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Mas depois reflectia no silêncio álgido da noite, no deserto. Ouvia o chiar asmático do
seu coração. Não conseguia odiá-la de facto.
Na verdade amava-a, desejava-a, queria possuí-la eternamente. Estava cativado.
Estava fodido, como qualquer homem que ama. Num estado deveras lastimoso.

É assim o amor dos pobres. Uma imensa cova de vácuo, buraco negro, profundo breu,
escarvado à força no coração de quem ama e nem sempre é correspondido.

Youssef enlanguescia cada vez mais triste e imundo, cada vez mais magro, infecundo.

E assim passavam os dias, as semanas e ele desesperando. Não matava nem morria.
Apenas esperava, sofria. Marisela não dava notícias.

- Putana de merda, que me estropias el corazon. Hei-de guardar tua cabeça num saco
de couro, em salgema. Foder-te-ei na boca e na cavidade dos olhos, quando estejas meio
podrida.
- Princesa do caralho, bruxa amaldiçoada, feiticeira, xantra, zina, cróia do cacete.
Odeio-te!

Tinha-lhe ganas de morte, saudades sem prumo, ou norte. Uivava e morria todas as
noites. Estava fodido como de costume.

Mas o tempo sempre passa e ao que parece cura todas as feridas, já nesse tempo se
dizia. Longe dos olhos, longe do coração, também se dizia.
Com ele não dava grande resultado. Mas nada podia fazer. Tinha de aguentar, esperar,
sofrer. Estava fodido.

- Hás-de voltar. Sempre voltas – pensava Youssef para se consolar, mas entretanto
estava todos os dias de caganeira, todos os dias de ressaca, porque muito bebia e
raramente se alimentava.

Já não sonhava, apenas pensava desesperado, de coração pesado, mente labiríntica,


tomates cheios, moral em baixo. Muito fraca auto-estima este fulano. Vê-se bem que é
um boneco, uma caricatura.

Estas noções contudo ainda não existiam, nesse tempo.. Ainda não se ouvira falar de
psicanálise, nem Freud viera ao mundo, ou Jung, ou Lacan, nem sequer o pretérito
Galeno, o poético Avicena ou o vulgar Lineu. Estamos no dealbar dos tempos, no
começo do mundo.

Até que um dia, de novo, inesperadamente sentia aquele zumbido já algo familiar
dentro do crânio, espécie de tilintar e depois, nítida, alegre, renovada, a fresca voz de
Marisela ecoando entre os ossos parietais da sua cabeça :
- Então Youssef, estás bem? Vem! Quero ver-te.
Imperiosa a moçoila…

Seria coisa dos djins certamente. Esta espécie de mensagens se assim se poderia dizer,
coisa telepática, errática, inexplicável para suas parcas luzes, apanhavam-no sempre no

12
deserto, às vezes quase na alba, madrugada adentro, outras vezes em plena tarde, à
torreira do sol inclemente. Não percebia nada daquilo.

Todavia Youssef já não corria apressado, como louco a colocar a cabeça no cepo.
Agora ia calmo, quase tranquilo.

Às vezes nem passava sequer pelos banhos. Passava antes pela taberna. Pedia uma
malga de vinho, fiado. Tinha tempo, o coração finalmente pacificado, mineralizado.

Parecia-lhe caminhar na música e não já em direcção ao juiz, ao catafalco, à perdição.


Parecia-lhe penetrar na alma, no espírito do vinho, no dorso de um corcel invisível.

Ia ao chamado, ao castigo. Mas ia de cabresto posto, de má vontade, como um boi vai


para o matadouro, como que amarrado, obrigado, sem voz, nem vez, nem opção. Ia
porque devia, porque tinha de ser, porque não lhe restava outra hipótese.

Amava, supunha-se amado. Esperava, tinha esperança. Estava fodido, como todo o
homem que ama.

E no entanto a dúvida insinuava-se-lhe na alma. Tinha uma larva no coração. Um


bicho ruim que o consumia e obrigava a ceder. Estava cheio de veneno, suava cicuta
pelos poros. Estava possesso e no entanto tranquilo.
Caminhava e ia ao seu destino, eterno cansaço, mormaço e seiva, langor e beijo,
amor…

Isto no deserto é normal. As pessoas sonham, beijam-se, morrem. E depois


recrudescem, renovam-se. No deserto estão todos loucos. É normal. A coisa flutua, é
uma espécie de miragem constante, um delírio…

Esta gente não sabe nada do mundo. Vivem fechados sobre si próprios.
O mais que sabem é que existe algures muito longe o golfo de Oman, o mar de Adén,
de onde lhes vem no dorso dos camelos tudo aquilo que aspiram e necessitam. Isto é
uma terra que não produz nada excepto tâmaras, cabras e camelos. Tudo o resto vem de
importação.

Nem sabem que existe o Nilo, o Mediterrâneo. Não sabem que Roma aspira a
governar o mundo. Que combate facínorosamente contra Cartago. Que irá vencer essa
guerra e fundar um império que durará quase mil anos.

Não fazem parte do mundo conhecido. Estão fechados sobre si mesmos. São felizes à
sua maneira e tristes por igual. Muitos são pobres e alguns são ricos. Há também os
loucos, os desesperados, os alucinados que às vezes dão em profetas.

É a Arábia Félix como vem representada nos antigos mapas ptolomaicos. Uma imensa
porção de terra, toda representada em branco, um enorme vazio sobre a carta.

Ninguém conhece nada daquilo. Ninguém aspira a conhecer. Toda a gente teme o
calor, a distância, o vazio, a insolação, a miragem.
Talvez o Ibn Batuta, séculos depois que por lá se aventurou e deixou testemunho.

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Esta gente não tem noção do pecado. Neste tempo não existia ainda o pecado.
Mas já há gente vaidosa, gente orgulhosa, gulosa, irascível, avarenta, luxuriosa
sobretudo. Invejosa também. E contudo é uma festa permanente. Não há noção da
maldade ou do remorso.

Para esta malta tudo é normal, faz parte do dia a dia. Toda a gente fode, toda a gente
mata, estupra, mente, rouba, aldraba, foge. Estamos ainda próximos à idade do ouro. A
natureza humana é um tesouro incandescente, vive um carnival permanente.
Os pais comem as filhas, os irmãos às irmãs, os amantes sucedem-se, os crimes
também. Ninguém sente remorsos, escrúpulos, qualquer incómodo.

Mata-se, pilha-se, come-se, bebe-se, fode-se, vomita-se. É uma festa. Não há freio,
nem moral. Só há tesão, infestação, desejo desenfreado. Deve ser coisa dos djins.
Toda a gente frui de uma espécie de liberdade, uma espécie de inocência. Vive-se no
caos, no presente, no sonho, na mente. É a idade do ouro, ou próximo disso.

Até aqui tudo era possível. A partir de agora também. Estamos na era do impasse, no
momento da epifania. Mais uma como todas as outras.
Tudo isto é muito bonito, mas um bocado prematuro, convenhamos. Por agora só os
nativos contam. Só eles habitam e sofrem, sobrevivem e riem, fodem e procriam. Só
eles contam. Isto é a terra de ninguém. Já se disse…

Princesa Marisela espera. Começa a ficar enervada. O seu escravo preferido está a
demorar a responder ao seu chamado. Algo de anormal se passa. Ela não gosta nada
disso. Está habituada aos faustos orientais. Uma espécie de fascismo absoluto. Poder
sem lei nem roque. Apenas a vontade imperiosa de quem manda e quer. E pode, exige e
faz. Actua.

Princesa Marisela pensava que os outros existiam apenas para seu exclusivo serviço,
desfrute e deleite. Nunca lhe passou pela cabeça que tivessem uma vida própria, muito
menos qualquer direito ou pretensão a isso.

Aqui nunca se ouviu falar em direitos humanos. Isso seria motivo para riso e desdém.
Talvez até motivo para prisão, para decapitação.

Para Marisela as pessoas não passam de objectos utilitários e sem consistência real.
Servem-lhe para o prazer ou para os serviços. Nunca pensa neles como pessoas
semelhantes a si própria. Era o quer faltava. Cambada de atrasados mentais.

Ela é uma princesa. Toda a gente está à sua disposição, meros escravos da sua vontade
ou intenção. Bonecos articulados num teatrinho de marionetes.

É assim que ela vê o mundo e as gentes. Além disso tem os djins ao seu serviço.
Escravos da sua vontade, do seu desígnio. Não faz qualquer diferenciação em relação às
pessoas de carne e osso. É tudo a mesma cambada.

Mas onde andará o bobo, o seu entretenimento das horas vagas? Onde anda o palhaço,
o rendido, o cão? Por onde anda o escravo que desconhece os limites da liberdade, o
cego, o iludido, o fascinado, o cão?

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Youssef às vezes caminhava na dor, outras vezes na música, outras ainda na dúvida.
Outras vezes ainda no silêncio, no pânico, nómada.
Às vezes caminhava no vácuo, voava, pressentia, esquecia-se. Não se lembrava de
nada. E queria, ambicionava, desejava. Mas tinha brancas, na cabeça.

Para isso se encaminhava, lento, pausado, um pouco embaraçado. Coisa rara nele que
sempre foi como a pilha de Bagdad, sempre aceso, nervoso, eléctrico.
Umas vezes no céu, outras no desterro. A maior parte do tempo, desligado,
desfigurado, no vago, no nada.
No nada divaga, nada, às vezes em apneia, mergulho profundo, desconhecido desporto
na Arábia.

À porta do palau é recebido como de costume por uma princesa bela, gasta, honesta,
sem perfume nem teatro, sem alvaiade nem mentira, apenas promessa, perfume, o
costume, o acalanto do sorriso, a ternura das boas vindas, o calor do toque, afiado
estoque.

Marisela assim que o vê, recua horrorizada. Rindo muito, com uma mão tapando o
nariz, uma careta mal disfarçada, ordena fanhosa:
- Vá já a banhos seu desmiolado. Sabe bem que não gosto de vê-lo assim, porco e
descuidado. Raio do homem, que não tem brio nenhum.

Youssef está na piscina com os djins atarefando-se à sua volta. Esfregam-no, limpam-
no, depilam-no.

Cortam-lhe o cabelo e a barba, o pintelho, pois Marisela detesta pilosidades faciais e


outras. Secam-no, massajam-no, perfumam-no. Cobrem-no com nova, sumptuosa
djelaba azul, debruada a ouro. A antiga foi a queimar, nas lonjuras do pátio.

De novo Youssef se sente na pele de um senhor, um dignatário, um príncipe. Tudo


ilusão. Este gajo nunca mais aprende. É de facto um ostário…

Comem, bebem, riem, servidos pelos djins, sempre invisíveis, prudentes, servis.

Youssef está expectante, ao cair da tarde. A tarde cai, sem ruído, como uma manta que
se estende sobre o sono de uma criança, como é de uso nestas paragens. Já a noite se
insinua, fatal.

Marisela está alegre, bonita, sensual. Ri muito mostrando os belos dentes sem mácula,
os seios fartos, regurgitantes de seiva, o entre das coxas inda mais.

E logo recomeçam os jogos, os beijos roubados, o arroubo, a ventura, os olhares


langorosos, demorados, os gestos ousados, a petição e a dádiva. Logo recomeça o
sonho, o desvario.

Youssef sonha que é um golfinho, um pargo, uma dourada, uma lula iridiscente, um
camaleão ultrajado de cores, uma iguana de guelras, um guelfo. Sonha que se farta entre
as pernas da mulata.

15
Sonha que é cetáceo, proboscídeo, bicho ungulado. Vê-se réptil, anémona,
invertebrado. Vai ao núcleo da vida. Àquela escada sinuosa que se enrola sobre si
mesma e com 24 caracteres, pode extrair de si mesma uma explosão supra humana, uma
implosão, um anátema, fatal e único.

Sonha e divaga. Sonha-se ínfimo, sofrível, desmesurado.

Está atacado de tinha, de lombriga, de caganeira. Sofre de permanente diarreia.


Está assustado, mas não confessa. Há-de passar, ousa conceber. Tudo passa, tudo
arreia. Já passou por outras antes.

E logo o sonho exagera. Logo lhe parece de mais, imerecidas tais liberdades. Porque
entre o que vê e o que sente é o Nirvana, finalmente, o inferno e isso não é permitido às
pessoas. Só pode ser um exagero.
Um truque dos djins, essas almas perdidas, malfazejas, transitórias, revoltadas, servis.

Youssef é um demente. Havia algum tempo já que se sentia desconfiado em relação


aos djins. Últimamente pareciam-lhe demasiado reais, compactos, morenos, sólidos,
suados demais. Tão serviçais e dóceis. Tão visíveis e compactos. Tão sonoros e
presentes e constantes. Tão presentes, tão fedentes. Tão visíveis, os cabrões.

Estes djins, conquanto dóceis e serviçais como é de seu lema e virtude não eram os
djins habituais. Eram ultimamente, demasiado presentes, morenos, tropicais.
E tinham cheiro e distinguiam-se a olho nú. Eram demasiado reais. Não eram
silenciosos e invisíveis, como compete aos verdadeiros. Percebia-se o seu trabalho, a
sua presença, o seu cheiro.

Pareciam pessoas disfarçadas de djins. Isto também acontece, conquanto não seja
comum. Sobre este assunto não ousa Youssef interrogar Marisela. Esta coisa é tabu.
Conquanto toda a gente saiba que os djins existem, ninguém jamais se lhes refere.
Toda a gente faz o sinal dos cornos e cospe para o chão.

Ora toda a gente sabe que os djins são invisíveis e etéreos. Eternos, servis e doces.
Ainda que sempre revoltados. Ninguém aprecia a escravidão. Mesmo os incorpóreos.
Isto é sabido, de antemão. Mas estes não.

Há gente porém que os imita muito bem. Até parece verdade. Vergam-se, rezam suas
mentiras, sua entrecruzadas linhas, seus teatros factuais e tornam-se imorais, quase
invisíveis mas sempre presentes, de tão necessários que se tornam para o andamento do
mundo.

Youssef andava desconfiado, já de algum tempo a esta parte. Contudo, como crente.
homem de fé e bom carácter pensa que está louco. Nunca pensou coisas assim, tão
elaboradas. Só pode ser coisa dos djins.

Joga uma mão aos tomates, afaga-os, com carinho. Pensa de súbito nela, a bela. O falo
cresce, a mão consente. Que triste situação para um homem já crescido.

E no entanto isto passou-se a meio caminho entre a realidade e o sonho. Youssef


derramou a sua semente sobre as areias do deserto. Não é a primeira vez, convenhamos.

16
Também já se passou com o Moisés. E com outros tantos que aspiraram a santos, no
deserto. Não é o caso dele que é apenas um mênstruo, um aprendiz, um girino.

Ora vai se a ver a vida das pessoas. Tanta coisa oculta, secreta, mentida. Tanta coisa
esquecida, muda, calada. E no entanto não passa da vida banal, das pessoas.

Princesa Marisela não sofria deste tipo de problemas. Era uma corça do deserto. Uma
ave do céu. Estava como todas as mulheres, na presença de deus. Tu cá, tu lá, com deus.

Voava. Só o seu corpo lhe importava. O seu prazer, a sua vidinha. Marisela estava na
maior. Tinha os djins ao seu serviço. E mais ainda, muitos humanos, rendidos ao seu
fascínio.

Marisela era uma princesa, não esqueçamos os parâmetros da realidade. Como


Berenice, a judia que por tanto tempo fascinou Tito e ainda assim não conseguiu
impedir a segunda e última destruição do Templo, jogava todo o seu capital no corpo, no
rosto, no olhar.
Ora é sabido que há homens frios. Não é o caso de Youssef, que é um desnorteado.

Marisela contudo era a dona da cidade, a senhora do seu tempo. A mais bela, a mais
secreta, a que pagava melhor. Era a princesa, a herdeira, a matrona, a bruxa, a mulher.
De todas a mais bela, de todas a mais prendada. Deus disfarçado, omnipresente.
Tudo nela era inquestionável. Tinha o poder de vida e morte sobre o povo, a ralé e até
empenhando-se sobre a nobreza, o próprio senado também.

Facilmente poderia arquitectar uma revolução. Uma palavra aqui, um beijo acolá,
nova promessa, um olhar de seus olhos negros como carvões e as pessoas matar-se-iam
por nada, pelo grito, pelo sangue, pelo ódio finalmente solto e legítimo. Pelo sonho.

Mas que triste situação. Afinal esta gente está toda louca, na Arábia Félix daquele
tempo, como em qualquer lugar noutro tempo qualquer.
Quem foi que disse que não há nada de novo debaixo do sol? O Confúncio ou o Lao
Tsé?

Youssef já não sabe a quantas anda. Há pouco parecia-lhe estar no leito da princesa,
abraçado ao seu corpo, agora vê-se caminhando no deserto.

No seu caminho Youssef pensa em deus. Conquanto seja um pagão tem uma ideia do
cosmos dentro da cabeça, uma espécie de desenho.

Sabe confusamente que existem três forças que governam o mundo. Réia ou Isis, a
deusa vulva, Mãe Terra, agrícola, fértil, a força passiva.
Sabe também que existe o deus pénis, a força activa, filho ungénito da primeira que
comete incesto com a mãe e provoca a explosão da vida, a fertilização planetária.
Anthropos, a força activa. Expulsão das águas, vida.
E finalmente, sabe que existe a força neutra, que tudo equilibra, o demiurgo, fogo e ar
misturados, aqui no deserto conhecidos simplesmente por djins, deus cego, instinto,
influenciável, rendido.
Esta é a força mais temida que por ser neutra, é cega. Vende-se à melhor oferta.
Sobretudo à do sangue e à da reza.

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Youssef quer esquecer-se destas ideias. Não está habituado a pensar coisas assim.
Prefere o deserto e a dor. A esperança e o sonho. A ilusão.

Vai a caminho esperançoso. Uma vez mais está fodido. Aspira futuro, espécie de
sonho, coisa onírica, mentira, adiamento, pão. De facto o que aspira é cona.
Mas na realidade nada lhe foi prometido, não há real compromisso, portanto está bem
consigo mesmo, apenas aspira, inspira, ousa.
Será mais uma trova, uma prova, um desafio? Será choro ou esperanza? Desejo ou
constanza? Será pão, água ou apenas esperma derramado, desperdiçado?
Ou sonho, ou fundura de poço? Será escuridão ou claridade, riso ou maldade,
desprezo ou amor? Não sabe…

Youssef está num estado deveras lastimoso…

Quem penhorará por ele?

Youssef é um ignorante. Como pode a caminho do palácio, do merecido e não


demorado castigo, pensar coisas assim?
Estará louco, possuído pelos djins, ou pela alma rasteira e quente da princesa?

Youssef está fodido. Toda a gente o sabe. Todos nós temos muita pena dele…
Já não é dono de seu corpo, nem de seu tempo, nem de sua alma. Nunca o foi. Sempre
fingiu.
Não é dono do seu espaço, nem de suas aparências. Sempre mentiu e frequentemente
esquece que o fez. Dão-lhe brancas, na cabeça, na alma, na estrutura e
fundamentalmente. Já se viu.
E contudo, estranhamente ri, como um tolo, como quem está perdido na música, no
élan, num sonho. Ri como um tolo, como demente, um irresponsável.

Parece o homúnculo, o homem elefante que ri e somente aguarda que o tempo passe,
que venha a graça e o esquecimento, para não ser mais torturado ou exibido. Para
finalmente dormir, sonhar, exaurir, descansar, na sua jaula, sozinho.

Este moço realmente não está na sua melhor forma. Não parece jovem que vai visitar
a amásia. Antes parece um doente, espécie de paranóico, demente…

Este moço não está bem, seguramente. Sonha demais, delira, está doente.

Estava ainda no sonho ou deslizava pelos meandros da realidade? Nem sabia…

Youssef caminhava descalço e roto pelos trilhos não pisados do deserto, a caminho do
palau, ampla casa, sonho, desvario. Não lhe importa deus, nem futuro, nem mulher.
Quem sabe um sonho, um filho, outra ilusão. Quem sabe deus, mentira, tesão…
Quem sabe adeus, tempo, esporão. Poesia, maldade, negrura?
Quem sabe o que se passa no coração de um homem, ou de uma mulher?

Um e outro estão descontentes, distantes, ausentes, esperando, rançando, buscando.


Um e outro sofrem mas negam-no a si próprios. Mentem, fingem, pretendem, inventam,
esperam. Ambos cantam e choram. Ambos riem. Ambos choram.

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Que se foda a solidão dos seres. Que foda a consciência, a noção, o equilíbrio, o livre
arbítrio. Antes sonhar, beber, ser animal e viver, foder. Antes carpir sem dor nem culpa,
avoar, navegar, mergulhar entre carnes tépidas, rosadas, sonhos ousados, ficções.
Antes morrer, ou esquecer, cantar. Antes chegar ao porto, ser bem recebido, saudades e
beijos, ser o bem amado, o ser do olvido.

Duas pessoas sofrem e não sabem, ou sabendo-o, negam. Duas pessoas querem e não
se revelam, nem a si mesmas. Será este o mistério do mundo? Aquilo que ninguém
confessa, o incesto?
Será isto a génese nossa, o primordial desejo, o ensejo, afinal?

Youssef já não sabe onde está nem porquê, nem por quanto tempo, nem sequer quem
é. Se no deserto se no palácio. No sonho ou na aparente realidade. Tudo se confunde e
aproxima e afasta. Tudo se funde, tudo se gasta…

Youssef sonha de novo. Cada vez mais usado, mais triste. Cada vez mais possuído,
mais em riste, coitado. Está fodido como de costume, todos nós temos muita pena dele.
Não lhe serve de muito, não é dono de si, nem do mundo que o rodeia e comanda.
Nada sabe, nada quer, nada aspira, é um ignorante, um crédulo.
Está no Nirvana, no inferno, entre as pernas da mulata, em pleno mistério do mundo e
da vida.
Está feliz mas não alcança. Sonha, afiança, babuja.
Dorme e baba-se. É uma criança…

Princesa Marisela às vezes tem-lhe ternura., outras só desprezo. Sobretudo, quando


embriegado ressona, não a deixa dormir.

São assim as mulheres, volúveis, instáveis, qual piúma al vento, como Mozart
afiançaria, séculos mais tarde Vá um gajo colocar de boa fé o seu coração entre as
unhacas de uma mulher, qualquer. Estará fodido, garanto.

Agora já não se sabe onde está um nem o outro. Estamos em plena epifania, como de
há muito prometido. Sobre que leito velam, vacilam ou dormem, ou sonham.
Tudo se complicou, tudo se embrenhou, estamos em pleno labirinto. Será este o nó
górdio? Aquele indossolúvel entre corações? Não me parece.

Até este momento, tudo era possível. A partir de agora, também.

Ultrapassámos o impasse, a epifania, estamos no centro do cosmos, na liberdade


aparente, no caos. Estamos com deus, como de costume, na fé. Na verdade estamos
todos fodidos.
Antigamente era assim na Arábia. Hoje não me parece que seja diferente.

Youssef acorda de chofre, uma vez mais após longo período de sonho, ou pesadelo,
nem sabe. Parece-lhe estar no leito inflamado da princesa, mas não tem a certeza.
Poderá bem estar no deserto, dormindo enrodilhado em parcos trapos e isto, este
aparente despertar, no leito inflamado da princesa não passar de uma nuance do seu
sonho, ou pesadelo.

19
Está só, nu, suado. Faz muito calor no deserto. Sente a cabeça pesada, o sexo dorido.
Sente-se usado, ultrajado, traído.

Quando o coelho ou o rato vê a cobra, estaca paralisado de medo. Não foge mais. Está
fodido. Vai ser comido. E sabe-o. No entanto é bem mais rápido que o ofídio rastejante.
Contudo está fodido. Vai ser comido. E sabe-o. E quem sabe, deseja-o.

Assim se sente Youssef naquele leito. Um rato, um coelho que já foi comido, mas tem
que ser longamente digerido. Trapo usado, encardido.
Não sabe se está acordado ou sonhando ainda. Está só, aparentemente, nú sobre o
amplo leito da princesa. Respira aquele ar tão puro. Aspira à salvação.

Logo em seguida, suado, cansado, ouve-a perto, barulhando na cozinha, ali tão perto.

E logo surge Marisela, sempre bela, fascinante, luminosa.


- Então meu menino, dormiu bem? Quer tomar um cafezinho? – pergunta sinuosa,
insinuando-se com um requebro de ancas, a mão afagando os longos cabelos loiros, os
olhos brilhantes, a boca húmida, irresistível.

Mas Youssef resiste. Já se lhe mineralizou o coração. Está feito pedra, cana, coelho
medroso em frente à cobra. Está cheio de cagaço. Jà conhece o sistema. Não quer mais
daquilo. Já deu muito para esse peditório.

Sorri, espreguiça-se, coça os tomates com negligência e tempo, a ver se ganha tempo e
diz:
- Sim minha princesa, depois. Agora vou banhar-me na picina. E vai.
Não quer vê-la, mirá-la, ser de novo seduzido, usado, brincado, comido. Está farto do
sonho e da escravidão.

Finalmente começa a acordar. Está ainda fodido, mas um pouco menos que ao
habitual…

Ela nem repara, como sempre segura de si. Conhece o poder do fascínio, da hipnose, o
peso do corpo, a importância do sexo. O fascínio, a sedução, a insinuação, a promessa, o
requebro.

Marisela sabe o que vale, sabe-a toda. É de facto uma princesa, puta velha, velhaca.

Já treinou muito. Conhece o mundo e sobretudo os homens, almas fáceis, rendidas,


ocas. Está à vontade na vida. Sabe demais.

Por isso, às vezes descuida-se. Acontece com todos. Perde o prumo, a atenção, a
concentração.
Pensa que o mundo não muda, menos ainda as pessoas. Erro grave. Pensa que tudo
está concentrado na palma de sua mão. Nos uivos do seu coração, descontente. Pensa
que a ela, porque é especial, porque é diferente, tudo se lhe consente.

Também anda um bocado iludida. Mas é chavala nova. Tem a vida toda pela frente.

Já não o era propriamente, mas sempre o parecia no auge da sua sedução.

20
Princesa Marisela tinha uma pele doirada, sedosa, suave ao toque dos dedos e da
língua, como coiro de bebé.

Não tinha um pelinho no corpo, excepto leve penugem em derredor da vulva, onde
Youssef gostava de pousar os lábios e beber, como fosse fonte de vida. E era de facto
fonte de vida. Coisa maravilhosa, inebriante…

Mas isto é nos primeiros tempos, já se sabe. Depois torna-se cova de breu, vulcão
sanguinolento, crivo de polvo, ofensa para qualquer crente.

Agora Youssef, quando acordava do sonho ou pesadelo, cabeça pesada, coração de


martírio, já a via com outros olhos. Olhos de réptil, manhosos, sáurios, frios. Olhos de
crocodilo, de caimão, de lizardo, de gusano…

Olhava para ela, a princesa, Marisela a bela, o seu mais profundo, único amor possível
e só via uma miragem defeituosa. Como que através de um vidro de papel encerado,
grosso, molhado pela chuva, o que via não o satisfazia. Antes lhe amedrontava. Antes
lhe fodia…

O que via fazia-o duvidar. De si próprio primeiro, dela, logo a seguir. Seria tudo isto
ilusão, sonho, martírio, pesadelo, insolação? Seria tudo isto miragem, fascínio, sedução?
Teria construído este seu último amor sobre areia movediça, pântano, terra infirme?

No deserto isto é normal. As pessoas alucinam, profetizam, rebentam pelas costuras,


caem na loucura. Às vezes deixam vagas recordações, que rapidamente se desvanecem e
depois sobram lendas, murmúrios, divagações…

É Sherazade e o seu conto interminável por mil e uma noites, para salvar o coiro.
Talvez fosse esta a semente. Talvez não também. Toda a gente sabe que sementes
violadas não germinam.
Talvez se encham os olhos dos cegos de chapas falsas, talvez a cítara toque por si
própria sem dedos nem maestro, talvez exista a magia, o próprio milagre, quem sabe?
Quem nega? Quem afiança? Quem ousa?

Youssef interroga-se, estendido, nú sobre o leito da princesa.

Masturba-se sozinho, suado, a seu lado enquanto ela dorme ou finge que dorme,
desdenhosa e álgida.
Não há coisa mais triste no mundo de que um homem desejoso e fértil e uma mulher
indiferente, lado a lado na cama, nus e suados, ambos acordados e ambos fingindo, que
sonham ou dormem ou simplesmente negam as primícias do corpo.
O homem masturba-se mirando-a a ela, nua, bela, não mais oferecida e ela olha-o
indiferente, quase despreziva e depois levanta-se pausada e vai acender e fumar um
narghilé, ou beber vinho de palma, ou água fresca, ou chá frio, ou café, exótico produto
de importação…

Aqui é onde tudo termina, mesmo que a gente, as pessoas o não percebam ou
admitam. Na indiferença, no desprezo, no esquecimento. O verdadeiro olvido.

21
Aqui é onde tudo acaba, no soltar dos laços, na preguiça, no desprendimento, no
bocejo, no desperdício.

A morte de um amor que já foi é como a explosão de uma estrela distante. Abre um
buraco negro nas profundezas do espaço. Um dilema, uma interrogação, um incêndio.

Mesmo que tudo se passe apenas dentro, no silêncio e drama do coração das pessoas…

É igual à explosão de uma estrela distante. Aparentemente nada se passa, mas


subitamente todo o universo muda, uma nova distribuição de nebulosas, outra expansão
do espaço. Uma nova riqueza do tempo.
Einstein, dois mil anos antes, no seu mais puro arbítrio, na sua mais solta loucura…

Tudo isto é civilização. Tudo isto é sofrimento. Tudo isto é mentira. Foi assim que a
vida se formou e cresceu e deu e continuará a dar. Foi assim que deus, consta, disse:
- Procriem e desapareçam. Caminhem, povoem, olvidem, foi ele quem disse, parece, a
Abraão ou a Moisés, não se sabe já bem, ou talvez Elias ou Samuel, com estes gajos
nada é siguro. Há aqui uma data de histórias cruzadas, todos nós já reparámos. Não é
grave.
- Fodam-se vocês e a vossa geração, continuou Yhavé. Deixem as coisas acontecerem
normalmente. Está fora de vossas mãos. O processo é irreversível. Os dados estão já
lançados.
- Rezem sim e orem, que eu gosto de vénia, respeito, veneração. Mas não peçam mais
milagres. Esse tempo já passou. Nem chuva no tempo da seca, nem estio em época de
monção. Deixem-me da mão, que estou velho e cansado. E sobretudo farto, ó
camandrio…

Isto também é do que há de mais triste no mundo. Não que eu esteja a fazer uma
colecção. Mas quando um coração outrora cego, apasionato, não bate mais acelerado,
apenas murmura e vage, range, quase indiferente, ausente, quando a miragem volveu
deserto, a ternura algo incerto, o desejo circunspecto, o pensamento lógico, algo aqui
não bate certo.

Quando se olha a mulher que loucamente se amou e o corpo já não freme e obedece
ao instinto, o sangue não é mais retinto, polvoroso, nervoso, é coisa quase transparente,
aquosa, diluída. Não retumba já nem outorga desafios, loucuras, raiva, ciúmes, vontade
de matar e morrer, então está tudo por um fio, curto pavio, parco dedal, saciado afinal.

Está tudo finalmente mudado, o processo concluído, no geral, fodido, como nos não
cansamos de cantar…

E aqui há lugar para outra epifania. A implosão da consciência, coisa que explode por
dentro e faz um estrago do quilhéu. O último desafio, a puta de solidão mais extrema.
Um homem ou mulher, sozinho perante a negrura imensa do cosmos. A mais
lancinante dor, a ultima mentira, a realidade, o pavor. Ópio, caganeira, deus finalmente,
o horror…

Mas que mania, não saberá este gajo que deus é insuportável, icognoscível,
inconfrontável, indigerível?

22
Atenção, neste tempo, deus propriamente dito era ainda um turista, um forasteiro, um
emigrante. Neste tempo era ainda o irrevelado.

De facto ainda só se tinha manifestado ao seu povo preferido, os judios.


Era um deus terrível, do deserto, vigilante, rancoroso, vingativo, que exigia sacrifícios
de pais para filhos. A sua lei era exigente, olho por olho, dente por dente.

Não era muito diferente dos ídolos perversos que outros povos adoravam, noutros
desertos próximos e distantes.

Tudo vagas noções, tudo considerações, elocubrações. Tal e qual como hoje…

Contudo já Sidharta palmilhara a sua parte do mundo, com sua doce mensagem de
renúncia. As Três Compilações, as Seis Virtudes, o Caminho Óctupulo.

Mas nenhuma destas novidades tinha chegado ali à Arábia. Aquela gente vivia fechada
sobre si mesma. Nada sabiam do restante mundo, muito menos de filosofia, ciência,
religação.

Eram malta simples, cameleiros, artífices, ferreiros, comerciantes, guerreiros,


cortesãos, contrabandistas.

Pouca cabeça tinham para as coisas elevadas da vida, paciência ainda menos. Eram
gente simples, um bocado teimosa, um bocado nervosa, fanática quanto baste. Não eram
muito dados à especulação.

Por isso este moço nos surpreende…

Já Sócrates pasmara o mundo com seus aforismos e fora obrigado a tomar da cicuta,
por mor de uma ingente dívida a um taberneiro, nada de grave, apenas um galo que
roubara aquando uma de suas célebres carraspanas.

O século de ouro de Péricles terminara com seu exílio e desonra, a traição de


Alcibíades criara escola. Há muito já que Tróia caíra, Aquiles se alcandorara ao patamar
dos semi deuses e Odisseus firmara sua fama sob o patronímico latino de Ulisses, o
eterno viandante, o Navegante.

Penélope teceu e desfez todas as noites sua inconsolável urdidura de viúva, mas esta
gente aqui não sabia de nada, viviam fechados sobre si próprios, tinham vidas simples e
despreocupadas.
Só pensavam em tâmaras para comer, bosta seca para se aquecer, vulva fresca para se
entreter. Os simples prazeres do corpo.

Já passara Alexandre da Macedónia o primeiro Magno de todos e em Roma firmava-


se um espírito milenar. Já passaram Mário e Sila, já na Hispânia Citerior se traíram
Viriato e Sertório mais tarde na Zulitânia, já Cipião arrasara Cartago, salgando a terra
toda, mas ainda vêm longe Pompeu, o Magno segundo, os Júlios, Marco António, os
Cláudios, os Aenobarbos.

O mundo está em plena construção Aqui, ninguém repara nisso.

23
Princesa Marisela observa Youssef debatendo-se suado, dormindo, sonhando nas
vascas insalubres do pesadelo. Lê dentro da sua cabeça como sobre um livro aberto.

Sorri com cinismo e pensa:


– Estás quase maduro, meu pêssego, minha ameixa passa, meu passarinho…

Princesa Marisela é uma poupettiére. Para ela o mundo e as gentes são fantoches. Tem
toda esta comunidade presa por fios. Todos e sobretudo Youssef o seu escravo preferido,
são marionetes nas suas delicadas mãos de tecedeira…

De todos sabe, a todos governa, de todos recebe o dízimo, a gratificação, mil preces,
devoção…

Aquele ciclo interminável de pesadelo e fascínio repetiu-se muitas vezes ao longo dos
meses. Mas agora sempre que acordava do sonho, Youssef já via Marisela com outros
olhos, mais frios. Olhos de réptil, de lagarto, de iguana, de camaleão, de gusano, que
tantas vezes encarnara ao serviço da deusa.

Notava-lhe uma ligeira papada, que lhe deformava a redondez do pescoço, papos
azuis, salientes debaixo dos olhos, rugas na face e pescoço, ligeira corcunda no dorso.
As mamas outrora magníficas, hoje descaídas, o ventre inchado da bebida, as coxas
sim, inda soberbas, o cú contudo ausente, as canelas finas, descarnadas, como às gazelas
das areias.

Os pés e as mãos conservavam beleza de gourmet, não obstante algumas veias


demasiado azuis ou verdes, sobretudo salientes.

Mas Youssef não é muito dado a esse tipo de fetiches, conquanto Marisela goste muito
de ser ensebada, massajada, com nardo e mirra e leite de jumenta ou camela gorda.

Às vezes Youssef quando está de paciência beija-lhe os pés tão delicados, introduz um
a um os seus dedinhos minúsculos na boca, mas é só para lha dar espécie de prazer a
ela. Pessoalmente não lhe diz nada.

Quando acordava do sonho, o seu coração já não batia alucinado de paixão. Antes
pausava estéril, sem emoção.

Princesa Marisela está no seu palácio rodeada dos seus íntimos, os djins. Quanto a ela
nada se passa. Está no seu normal. Nada de especial. Só pensa na sua conaça, no seu
estômago, no seu prazer. Nunca se interrogou se possuía alma ou para que é que isso
servia.

Quer lá saber. Tem os djins ao seu serviço. É a rainha daquele burgo. Tudo se lhe
resolve a contento. Ela é que vive no milagre. Está por cima da carne seca. Na presença
de deus. É mulher e basta.

Quem está fodido é Youssef. Ele é que duvida, se interroga, aspira. Ele é que sonha e
vê chamas no sonho e desmonoramentos e sangue e uivos.

24
Youssef sonha as coisas mais estranhas da vida, o fim do pavio, a saúde acabada, o
mundo ruído, deus ao longe, mentiroso rindo, o horizonte queimado, muita gente
morrida, outras carpindo, esperando, lacrimosa e triste. Nunca sonhou coisas assim.
Sente o peito apertado, as tripas convulsas. Aspira céus vazios, salvação…

Mas que mania a desta gente. Sempre que o coração delira ou chora, ou teme, logo se
viram para o céu, o altíssimo, a ilusão, a mentira. Viram-se sempre para a esperança, a
imagem, o símbolo.
Na falta de carne, a respiração, na ausência de amor, tentação. Estão todos loucos por
ali.

Este moço não se livra do fascínio. Na ardência da carne recorre à mão e depois
temeroso volta-se para o espírito. É um otário.
Está ligado à medula, ao sistema nervoso. Não consegue deixar de pensar nela. E no
que nela pensa, de novo sonha.

Sonha que é uma lombriga branca, uma minhoca gorda esfuracando a terra, o lodo.
Sonha que é animal subterrâneo, sub aquático, larva cega desprovida de cérebro e
sensações, apenas instinto, apenas raiva, desejo de subsistência, de salvação,
perpetuação, futuro.

Sonha que nada, que flutua, que arde, que esburaca, que fura, que aprende. Sonha que
fende, que se divide, que explode. Sonha-se estrela, espaço, luz. Sonha-se vácuo,
ausência, dormência, essência. Sonha-se nada e tudo.

Sonha-se semente e planta, árvore. Sonha-se negro mineral derretido nas entranhas
profundas do chão.

Sonha-se menino e órfão chorando por pão. Sonha-se borboleta eclipsando por
momentos o brilho amplo do sol com o sussurro inaudível de suas asas. Sonha-se lava
de vulcão, sonha-se terra fértil vermelha, calhau rolando na praia ao capricho das ondas
do mar, tudo coisas que não conhece nem nunca viu.

Sabe-se vítima de um poderoso feitiço e contudo delira, gosta, ri, quer mais, quer
sempre. Está rendido. Está fodido, como costume.

Princesa Marisela espera, está segura de si, do seu poder infindo. Todo este teatro lhe
pertence. Ela comanda a ilusão. O tempo está do seu lado. Ela é imortal, sensual, é a
deusa, a princesa, a dona. Ela comanda o Carnaval. Tem todos os fios na sua mão,
decide os destinos, as ocasiões, as calamidades.

É Kali a deusa cona, a deusa morte, a que inspira e dá o norte, a vida, a ilusão, o
sorriso, a satisfação.

Youssef sonha, ou pensa, ou vive o fim do mundo. O destruir dos palácios, o fim das
imagens, o âmago do sofrimento. Pensa ou sonha ou vive que tudo o que sentiu, sonhou,
viveu é mera ilusão.

25
Vê, como na realidade, tudo a desmoronar-se, a cidade, os edifícios, os cidadãos, o
souk, os arrabaldes, o deserto, o próprio palácio, a princesa ela mesma, tudo no seu
sonho se desfaz. Youssef delira, subjaz.

E como de costume não tem a certeza de nada.

Princesa Marisela ao reparar repugnada, como aquele animal verifica, ou adivinha,


finalmente assusta-se. Pensa:
- Será este ignorante, esta besta, capaz de deslassar, penetrar, fender, destruir um
sonho assim tão antigo?
- Não acredito. Vou dar-lhe mais alimento, mais sonho, fomento, formato, ilusão…

Youssef porém já está para lá de Marraquexe, de Djibuti, de Tombuctu. Já vai quase


no mar oceano, planando, sonhando, revivendo. O seu coração já mineralizou. É o
epítome da solidão. O peregrino, o só, o pagão. O caminhante, o iludido, o sonhador.
Está quase inalcançável, mesmo pelos djins.

E sonha com desmoronamentos, sonha graves momentos, incêndios, gritos, uivos,


murmúrios, massacres. Sonha com o acabar do mundo, o fim das miragens, o deserto nú
e seco, vazio. Sonha com o futuro, com o impossível.

E o que vê, não consegue descrevê-lo. Tem pavor ao que vê, ao que pressente. Não é
um letrado, é um ignorante. Tudo se perde portanto, fica fechado dentro da sua cabeça,
quem sabe debuxado a fogo, na alma.
Mas nada resta, não sobra testemunho.

Não é João em Patmos, nem Al-Muthamid em Sevilha, muita água passará sob as
pontes, antes que isto seja revelado. E contudo já foi visto, já foi anunciado, mas
perdeu-se.

O próprio Noé, se não tem sido um fanático, afogava-se. Não é grave. Deus é
paciente, o cosmos é irónico, o caos é dinâmico…

Youssef sonha e antevê. Há muito já que esqueceu Marisela. Sonha agora coisas
portentosas. Vulcões, glaciares, tsunamis, terramotos, gelo sobre a terra, oceanos sobre
o seco, desertos onde antes houve mar. Coisas que o ultrapassam e não crê.

Sabe que possui um conhecimento, uma mensagem, um desígnio. Mas não sabe o que
fazer com isso.

Está mesmo maduro. Princesa Marisela, sempre atenta comunica, após tanto tempo:
- Então meu bem, vem! Estou à tua espera…

Youssef ouve a voz imperiosa, fanhosa, impiedosa dentro da sua cabeça e triste, contra
vontade, vai…

Será o último desafio, o render da guarda, quem sabe a morte?


O amor fingido, a mais triste emoção, a monção? Chuva, despaltério, silêncio no
coração.

26
Nada há pior que o silêncio entre os amados. Nada pior que o riso falso, o
constrangimento, o não saber das vozes, das mãos, o olhar desviado, fugidio, a
incongruência, o desavontade.
Nada pior entre os amados que o falso, o teatro, a desconfiança, a mentira, o silêncio.

- Vem! – insiste a voz de Marisela, poderosa dentro da sua cabeça.

Youssef corre, galga as dunas, salta, pula, rodopia. Chega finalmente à cidade e o que
vê pasma-o.

- Vê! – diz-lhe a voz de Marisela nítida, cortante dentro da sua cabeça e Youssef vê
acontecer aquilo que sonhou. A cidade a desfazer-se, a esborar-se, a desaparecer.

Corre entre os edifícios pelas ruelas do souk, em direcção ao palácio.

Tudo se desmorona sem ruído nas suas costas, à sua volta, os edifícios, o souk, as
pessoas. Tudo se dissolve em pranto, como miragem no deserto, tudo transparece, flui,
se acaba, desaparece, desfeito em pó, em poeira residual, tal qual como no seu sonho.

Chega frente ao palácio finalmente. Também ele se esboroa lentamente, feito areia
fina.
Nesse momento Marisela começa a rir dentro da sua cabeça. Uma gargalhada louca,
aguda, sinistra, histérica, interminável.

Youssef tapa os ouvidos com as mãos, ajoelha no deserto. Não lhe serve de nada.
Aquele riso não o larga, não se cala, está grudado dentro da sua cabeça, nítido, forte,
insuportável.

Youssef está sozinho no deserto, de joelhos sobre a areia, onde antes existiu uma
cidade, uma gargalhada horrível ecoando-lhe no crânio, rasgando-lhe os tímpanos.

Youssef fica sozinho no deserto. Nada nem ninguém à sua volta. Quer fugir dali.
Assustado desata a correr, quer afastar-se, rápido. Corre tanto e tão depressa que sem
se aperceber flutua já, voa a média altitude, como um pássaro. Sente-se leve, oco,
esvaziado.

Olha para os braços, para as asas. Nada vê. Tenta apalpar o corpo, mas não tem mãos
para apalpar, nem corpo para sentir. Não tem corpo nem pernas, nem penas.
Mas voa, sente, pensa e vê. É todo ele emoção, pensamento, visão.

O desgraçado do Youssef transformou-se num djin.


Invisível, previsível e quiçá liberado, voa agora livremente em direcção ao mar, que
nunca viu.
A voz calou-se. Sente-se bem, sem dono e sem coleira, quase livre.

Mas não tem a certeza de nada. Sabe-se irremediavelmente perdido, escravo daquela
voz na sua cabeça, para sempre. Sabe que há-de acorrer solícito, prestável, abjecto
sempre que ela o convoque de novo ao seu serviço. Está fodido…

27
FIM

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