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CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988

CAPÍTULO V
DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma,
processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação
jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII
e XIV.

§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

§ 3º Compete à lei federal:

I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza
deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se
mostre inadequada;

II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem


de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem
como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio
ambiente.

§ 4º A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias


estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que
necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso.

§ 5º Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou
oligopólio.

§ 6º A publicação de veículo impresso de comunicação independe de licença de autoridade.

Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes
princípios:

I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua
divulgação;

III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais


estabelecidos em lei;

IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.


Art. 222. A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa
de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis
brasileiras e que tenham sede no País. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 36, de 2002)

§ 1º Em qualquer caso, pelo menos setenta por cento do capital total e do capital votante das empresas
jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagens deverá pertencer, direta ou indiretamente, a
brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, que exercerão obrigatoriamente a gestão das
atividades e estabelecerão o conteúdo da programação. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº
36, de 2002)

§ 2º A responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação veiculada são


privativas de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, em qualquer meio de
comunicação social. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 36, de 2002)

§ 3º Os meios de comunicação social eletrônica, independentemente da tecnologia utilizada para a


prestação do serviço, deverão observar os princípios enunciados no art. 221, na forma de lei específica,
que também garantirá a prioridade de profissionais brasileiros na execução de produções nacionais.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 36, de 2002)

§ 4º Lei disciplinará a participação de capital estrangeiro nas empresas de que trata o § 1º. (Incluído
pela Emenda Constitucional nº 36, de 2002)

§ 5º As alterações de controle societário das empresas de que trata o § 1º serão comunicadas ao


Congresso Nacional. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 36, de 2002)

Art. 223. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o
serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos
sistemas privado, público e estatal.

§ 1º O Congresso Nacional apreciará o ato no prazo do art. 64, § 2º e § 4º, a contar do recebimento da
mensagem.

§ 2º A não renovação da concessão ou permissão dependerá de aprovação de, no mínimo, dois quintos
do Congresso Nacional, em votação nominal.

§ 3º O ato de outorga ou renovação somente produzirá efeitos legais após deliberação do Congresso
Nacional, na forma dos parágrafos anteriores.

§ 4º O cancelamento da concessão ou permissão, antes de vencido o prazo, depende de decisão


judicial.

§ 5º O prazo da concessão ou permissão será de dez anos para as emissoras de rádio e de quinze para
as de televisão.

Art. 224. Para os efeitos do disposto neste capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão
auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei.
O direito à comunicação: necessidade de uma
política pública para promover a inclusão social
José Roberto Garcez INTRODUÇÃO
Diretor de Jornalismo da Radiobras
E-mail: jrgarcez@radiobras.gov.br;NFreitas@radiobras.gov.br
A informação salva vidas. Esta não é uma frase de
efeito. A informação elimina preconceitos, esclarece
sobre direitos, orienta para medidas de prevenção,
encaminha os cidadãos para serviços públicos e pode,
portanto, salvar vidas. Em muitos casos, literalmente.
Resumo
Em outros, simbolicamente. Quando uma pessoa fica
sabendo da diferença que faz na sua vida a existência
O artigo analisa a importância da comunicação como elemento do registro civil, um mundo se abre. É o que
para a construção de uma política de inclusão social. O direito
à informação e o direito à comunicação ainda não são
aconteceu, por exemplo, com Anailza Chaves
entendidos como fundamentais para o desenvolvimento da Mendes, moradora no interior da Vila Bom Jardim,
cidadania. No entanto, eles são a base para o exercício dos na cidade de Pacajá, no Pará. Em carta enviada à
demais direitos. A construção de uma política pública de
comunicação é essencial para o futuro da democracia no Rádio Nacional da Amazônia (emissora da Radiobras
Brasil, especialmente agora, no momento em que a tecnologia que transmite em ondas curtas para toda a Amazônia
digital abre novas possibilidades para a multiplicação dos Legal), ela escreveu:
agentes que produzem conteúdo.

Palavras-chave O que mais mexeu comigo foi uma informação


que você me deu sobre o famoso registro, pois eu
Comunicação. Comunicação pública. Informação. Migração
digital. Serviço público. já tinha 17 anos e não tinha registro. (...) Eu fui
ao cartório e fiz o meu registro e com ele eu já
tirei identidade, carteira do trabalho, CPF, título
The right to communication: need of a public
de eleitor e hoje eu estou superfeliz.
policy for promoting social inclusion

Abstract
Foi assim, com uma informação ouvida, em um
pequeno rádio que captava a Nacional da Amazônia
The article analyzes the importance of the communication as em uma estrada vicinal escondida no meio da
element for the construction of one politics of social
inclusion. The right to the information and the right to the
floresta, que Anailza descobriu que podia ser uma
communication not yet are understood as basic for the cidadã brasileira. Essa descoberta foi tão importante,
development of the citizenship. However, they are the base for que ela decidiu compartilhar a sua alegria com os
the exercise of the excessively right ones. The construction
of one public politics of communication is essential for the apresentadores da emissora. Quantos outros
future of the democracy in Brazil, especially now, moment brasileiros descobrem todos os dias a importância de
where the digital technology opens new possibilities for the tratar a água que bebem, produzir o soro caseiro que
multiplication of the agents who produce content.
salva a vida de seus filhos, usar o preservativo que
Keywords impedirá o contágio de doenças, ou ficar atento às
Communication. Public communication. Information. Digital
propostas de candidatos a cargos eletivos?
migration. Public service.
Se a comunicação constrói a cidadania, ela deveria
ser tratada como outras áreas da atividade humana
que são regidas por políticas públicas definidoras de
objetivos e metas e reguladoras do papel dos agentes
envolvidos em cada processo. É assim na saúde, na
educação, no transporte e em outras áreas. A infor-

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O direito à comunicação: necessidade de uma política pública para promover a inclusão social

mação que salva vidas, porém, não é reconhecida de 1960, não atende às exigências da sociedade
como um direito de todos. A comunicação é tratada contemporânea e não acompanhou, por exemplo, o
como um bem privado, e os veículos, como uma avanço da Constituição de 1988, que solidificou uma
propriedade intocável. Na verdade, enquanto a série de direitos individuais e coletivos.
informação e a comunicação não se transformarem
em direitos exercidos no dia-a-dia por todos os Sem consciência desses parâmetros, as pessoas não
cidadãos, pouco se poderá avançar na inclusão de percebem que têm direito de exigir dos veículos de
milhões de brasileiros que não têm acesso a outros comunicação maior qualidade, respeito ao interesse
direitos. público, obrigações mútuas, como fazem com os
serviços de saúde. Passa longe da imaginação da
INCLUSÃO NECESSÁRIA maioria que é possível a ele, cidadão, controlar aquilo
que lhe pertence. Emissoras de rádio e televisão
Ninguém questiona a importância dos meios de usufruem um bem público, as ondas hertzianas, que
comunicação na sociedade atual. Por que, então, são limitadas e estão concedidas para que um
fala-se tão pouco na consolidação de uma política operador privado execute um serviço destinado a
pública para o setor? Por que, da mesma forma, há melhorar a vida da população.
tanta resistência quando se defende a necessidade
de haver uma democratização dos meios de Hoje, é absolutamente natural que existam conselhos
comunicação? Ou então, ainda, qual a razão da forte para definir as políticas públicas para quase todas as
reação quando se fala sobre a possibilidade de haver áreas. Do bairro ao país, os conselhos de saúde, por
um controle público sobre o setor? O debate sobre exemplo, formulam políticas e fiscalizam o seu
esses temas não é assunto de jornais, rádios e muito cumprimento. O mesmo ocorre com a educação. Para
menos das televisões. O direito de fazer comunicação ficar apenas nesses dois setores, existe abundante e
é guardado como um privilégio para poucos. minuciosa regulação sobre a prestação dos serviços
públicos nessas áreas. Os operadores privados de
O direito à informação e, mais ainda, o direito à ambas discutem o conteúdo e o sentido dessas
comunicação não estão inseridos em uma lista dos regulações. Mas não contestam o direito e até a
direitos básicos da cidadania. Pelo menos no Brasil e necessidade de o Estado regular a prestação desses
para o senso comum – que é, quase sempre, serviços. Desde a Constituição de 1988, a
construído pelos próprios meios de comunicação. Ao participação popular, principalmente por meio dos
contrário de outros direitos fundamentais (educação, conselhos, é vista como uma saudável prática
saúde, moradia, trabalho, emprego etc.), para a democrática.
maioria da população, a comunicação não é encarada
como tal. Apropriada privadamente, não é vista como O mesmo não acontece em relação à comunicação
um serviço público executado, no caso das emissoras social. Qualquer proposta, por mais tímida que seja,
de rádio e televisão, por concessionários. Nada muito de construir uma política pública que, entre outras
diferente, por exemplo, dos concessionários dos funções, regule o papel desses meios como um
serviços de transporte público que operam ônibus em serviço público é atacada como se fizesse parte de
todas as cidades. um complô para exterminar a liberdade de
imprensa. Nesse momento, então, a mídia vira pauta
É inconcebível que o proprietário de uma empresa da mídia. E as manchetes se voltam contra quem
de transporte coletivo não siga as regras que tem a ousadia de sugerir que a comunicação é muito
determinam o itinerário, o valor da tarifa, o horário importante para ficar apenas nas mãos de
e as condições do serviço a ser prestado aos usuários. comunicadores. Ou dos proprietários dos meios de
Como se trata de um serviço público essencial, cada comunicação. Discutir esse quadro é vital para o
concessão deve ser licitada, e os ganhadores dessas futuro da democracia no Brasil.
licitações se submetem às normas determinadas pelo
Estado. Já a legislação sobre comunicação eletrônica Atualmente, a absoluta maioria da população está
é bem menos exigente sobre os conteúdos oferecidos excluída do direito à comunicação. A exclusão atinge
à população. Essa legislação, quase toda da década até o direito de ela ser informada corretamente.

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José Roberto Garcez

Transformada em espetáculo, a informação é inserida servir de instrumento auxiliar às campanhas maciças


na indústria do entretenimento, hoje um dos maiores de alfabetização. Por isso, a legislação, mantida até
negócios do mundo. E, assim, quem transmite essa os dias de hoje, só admitia que as emissoras
informação, os jornalistas, são encarados como educativas transmitissem aulas, conferências e
“artistas”, portadores de um dom intrínseco. Não debates. Ficava explícita a intenção de que as
ocorre ao cidadão que ele também tem plenas educativas não fossem, de qualquer modo,
condições de fazer comunicação e, mais do que isso, concorrentes das emissoras privadas. Nem mesmo
tem todo o direito de fazê-lo. Todos deveriam se lhes foi dado o direito de ser uma alternativa ou um
perguntar sobre o que concede a alguns poucos o complemento.
direito de descrever a realidade e interpretá-la para
que todos os demais percebam o mundo com base Fracassada a possibilidade de essas televisões
nessa ótica alheia. contribuírem com as políticas pedagógicas, restou a
opção de serem auxiliares dos serviços de divulgação
A maioria das comunidades está excluída do direito dos governos. Assim, firmou-se a tradição de
de produzir a própria comunicação ou de manter uma emissoras públicas não comprometidas com o direito
relação autônoma com os meios de comunicação à informação, pois serviam quase sempre como meros
existentes, pois não está educada para exercer ou porta-vozes dos governantes de plantão. A maioria
reivindicar tal direito. No máximo, pode receber da população não dava credibilidade a esses serviços
unilateralmente as informações disponíveis nos meios de comunicação, pois percebia que as informações
de comunicação. Como o índice de leitura de jornais distribuídas por eles tinham apenas o interesse de
e revistas no Brasil é um dos menores do mundo, fazer a propaganda dos governantes. Sem
restam o rádio e, principalmente, a televisão como credibilidade, tornavam-se inúteis até mesmo para
meios para informar a opinião pública. Sem uma governantes que deles faziam uso. “Para um governo
estrutura de comunicação pública eficiente, o democrático, é muito bom que uma empresa pública
equilíbrio do quadro de distribuição de informações de comunicação ofereça ao público um relato
fica distorcido pela ampla hegemonia da jornalístico objetivo, pois a objetividade gera um
comunicação privada. aumento da credibilidade da instituição, o que
reverte em mais credibilidade do Estado e do próprio
TRADIÇÃO AUTORITÁRIA governo”, reconhece o documento O Jornalismo na
Radiobras (2005).
Toda a estrutura da comunicação brasileira foi
construída com base na iniciativa privada. As Quando a Constituição de 1988 incluiu no capítulo
primeiras iniciativas de Roquette Pinto, na década da comunicação social a exigência da comple-
de 1920, no sentido de montar um serviço de rádio mentaridade dos serviços de comunicação pública,
que atendesse às necessidades de educação do povo privada e estatal, pela primeira vez surge o conceito
foram logo suplantadas pela vigência da exploração de comunicação pública em um documento legal.
privada dos meios. Com a implantação da televisão Mesmo com todos os entraves à democratização da
no Brasil, esse quadro consolidou-se definitivamente. comunicação na mudança constitucional, o
Entretanto, a tradição do Estado brasileiro na sua reconhecimento da existência de uma comunicação
relação com a informação é bastante autoritária. pública começa a mudar a situação em todo o país.
Desde sempre, os governos montaram estruturas para A década de 1990 vê surgir, por exemplo, uma
divulgar as próprias atividades, como se tivessem associação das emissoras públicas de televisão. Ainda
direito de usar um serviço público para defender seus naqueles anos, a Lei do Cabo cria a figura dos canais
interesses particulares, quase sempre no sentido de públicos (universitários, legislativos e comunitários).
manter o poder político. Representam avanços que foram criando condições
para a construção de um novo modelo para a
No caso da televisão, só houve a previsão legal de comunicação eletrônica no Brasil.
funcionamento de emissoras educativas ligadas ao
Estado na década de 1970. E elas só surgiram para

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Entre tantas outras modificações que esse novo Sem recursos, elas não podem cumprir seu papel de
quadro possibilitou, está a relação das pessoas com a abrir-se como canais de comunicação da sociedade.
captação e produção de notícias do parlamento.
Modificar esse quadro exige o estabelecimento de
Com a criação das televisões da Câmara dos uma política pública para a comunicação no Brasil.
Deputados e do Senado Federal, tornou-se cada vez Só assim será possível incluir milhões de brasileiros
mais comum e crescente o interesse pela transmissão que estão à margem desse direito. Ela deveria
de sessões do Congresso Nacional, especialmente estimular a diversidade e a pluralidade na produção
aquelas que tratavam de temas de maior apelo. de conteúdos, com a garantia de que a sociedade,
por meio de suas organizações, teria amplo acesso a
A partir daí, o telespectador pôde comparar a notícia mecanismos de apoio, inclusive financeiro, para a
que ele via acontecer ao vivo durante a sessão construção de veículos próprios de comunicação,
legislativa com a informação editada no telejornal independentes do Estado e do mercado. A partici-
noturno. E isso foi se transformando em uma aula de pação popular na formulação, definição e
educação para os meios. acompanhamento dessa política asseguraria o
indispensável caráter democrático.
Entre outros motivos, a importância do
reconhecimento da complementaridade entre os três A implantação de um sistema público de comunica-
sistemas estava na definição da vinculação de cada ção daria organicidade à rede de veículos constituída
um. A comunicação privada está vinculada ao pela organização autônoma da sociedade. Emissoras
mercado, defende seus valores e é por ele financiada. de rádio e televisão, veículos impressos e o emprego
A comunicação estatal está ligada às instituições da internet se somariam para, sob controle público,
governamentais e nelas deve encontrar sua estabelecer o equilíbrio indispensável, tendo em vista
viabilidade financeira. E a comunicação pública a consolidação de um modelo democrático para a
precisa estar relacionada à sociedade e daí deve comunicação no Brasil. Junto com os sistemas privado
nascer seu sustento. Mas todas elas estão e estatal, essa rede de comunicação pública formaria
dependentes do mesmo princípio: prestam um serviço um conjunto capaz de estimular a pluralidade,
público que deve ser regulado pelo interesse comum revertendo a realidade de concentração dos meios
da sociedade. Elas não estão acima das demais vivida atualmente em nosso país.
instituições e não podem ser usadas pelos interesses
particulares de cada segmento. Há, nesse momento, uma perspectiva positiva para a
transformação dessa situação, com dois fatores:
FUTURO DESAFIADOR primeiro, a revolução tecnológica que a transmissão
digital pode proporcionar no rádio e na televisão;
É impossível falar em construção de uma política de segundo, a imperiosa necessidade de construção de
inclusão social sem pensar em uma modificação uma legislação adequada aos novos tempos da
radical no marco regulatório da comunicação no cidadania brasileira. A combinação desses dois fatores
Brasil. A nossa legislação é ultrapassada, anacrônica poderá gerar um cenário inovador, que permitirá a
e insustentável diante do desenvolvimento muitos segmentos da população encarar o desafio de
tecnológico e do avanço democrático. Essa legislação fazer a própria comunicação.
prevê a absoluta liberdade dos proprietários dos meios
de comunicação para que definam qual uso vão dar A migração para a tecnologia digital pode permitir a
aos seus veículos. Em contrapartida, o Estado está entrada de novos sujeitos na produção de conteúdos.
aparelhado para exercer uma capacidade de Com isso, veríamos uma multiplicação de visões que
intervenção usada para garantir os interesses de beneficiaria bastante a sociedade na compreensão
quem está estabelecido. Por exemplo, o Estado regula dos fatos cotidianos.
draconianamente a existência das rádios
comunitárias e das emissoras educativas de televisão.

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José Roberto Garcez

Nesse momento, trava-se intensa disputa para que REFERÊNCIAS


os benefícios dessa transformação oferecida pela
INTERVOZES. Coletivo Brasil de comunicação social: o direito à
técnica não sejam apropriados pelos atuais comunicação. Disponível em: <http://www.intervozes.org.br>.
detentores do poder da comunicação de forma a Acesso em: 2007.
ampliar ainda mais a concentração dos meios. Em RADIOBRAS. O jornalismo na Radiobras. Disponível em: <http:/
qualquer sentido, haverá a necessidade de uma /www.radiobras.gov.br>. Acesso em: 2007.
mudança profunda da legislação, que contemple a
atualização do marco regulatório às mudanças
tecnológicas das últimas quatro décadas e,
principalmente, ao avanço da participação popular
como pilar indispensável da democracia.

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