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Proteção passiva de estruturas

metálicas em situação de
incêndio – a importância do
conhecimento da temperatura
crítica
Paulo Vila Real
Sumário

 Introdução

 Noções básicas

 Exemplo de aplicação
Cálculo ao Fogo de
Estruturas de Aço. Porquê?

A capacidade resistente do aço e a sua rigidez


diminuem drasticamente com a temperatura.
A grande condutividade térmica do aço faz com
que a temperatura se propague rapidamente.
Os elementos estruturais em aço têm em geral
secções transversais muito esbeltas.
Cálculo ao Fogo de
Estruturas de Aço. Porquê?
Tensão (N/mm2)
300
A capacidade 20°C
resistente do aço 200°C
250
diminui a partir de 100- 300°C
200 ºC. 400°C
200
Apenas 23% da 500°C
capacidade resistente 150
do aço permanece a 600°C 47%
700 ºC. 100
A 800 ºC aquela 700°C
50
capacidade reduz-se a
11% e a 900 °C a 6%. 800°C

O aço funde a 0 0.5 1.0 1.5 2.0


1500°C. Extensão (%)
Cálculo ao Fogo de
Estruturas de Aço. Porquê?

% do valor a 20 ºC
• Redução da tensão
100
de cedência e do Tensão de cedência
módulo de
elasticidade dos 80
aços estruturais
S235, S275, 355, 60
S420 e S460.
40

20 Módulo de
elasticidade

0 300 600 900 1200


Temperatura (°C)
Cálculo ao Fogo de
Estruturas de Aço. Porquê?

A capacidade resistente do aço e a sua rigidez


diminuem drasticamente com a temperatura.
A grande condutividade térmica do aço faz com
que a temperatura se propague rapidamente.
Os elementos estruturais em aço têm em geral
secções transversais muito esbeltas.
Cálculo ao Fogo de
Estruturas de Aço. Porquê?
30 minutos de exposição ao incêndio padrão ISO 834
AÇO (IPE 300) BETÃO (30x30 cm2)

DT = 22 ºC DT = 794 ºC
Regulamentação

Dois tipos de regulamentação e normas de cálculo

1. Regulamentação Nacional de Segurança contra Incêndios em


Edifícios (SCIE).

2. Normas de cálculo da resistência ao fogo – os EUROCÓDIGOS


ESTRUTURAIS.
Regulamentação Nacional

Regulamentação Nacional de Segurança contra Incêndios em


Edifícios (SCIE)

 Regime Jurídico de Segurança contra Incêndio em Edifícios (Decreto


Lei nº 220/2008)

 Decreto-Lei n.º 224/2015 - primeira alteração ao Decreto -Lei n.º


220/2008, de 12 de novembro, que aprova o regime jurídico da
segurança contra incêndio em edifícios

 Regulamento Técnico de Segurança contra Incêndio em Edifícios


(Portaria n.º 1532/2008)

 Critérios técnicos para determinação da densidade de carga de


incêndio modificada (Despacho n.º 2074/2009)
Normas Europeias

Os EUROCÓDIGOS ESTRUTURAIS
Para verificação da resistência ao fogo das estruturas
EN 1990 Bases para o projeto de estruturas (2009)
EN 1991-1-2 Ações em estruturas expostas ao fogo (2010)
EN 1993-1-2 Verificação da resistência ao fogo de estruturas de metálicas (2010)
Cálculo Estrutural ao Fogo
Quatro etapas

1. Definir o tipo de incêndio - EC1

2. Definir as cargas em situação de incêndio - EC0 +EC1


3. Calcular a temperatura na estrutura - EC3

4. Calcular o comportamento mecânico - EC3


Ações Térmicas

Métodos de Cálculo

Abordagem Prescritiva Abordagem baseada no


(Ações térmicas dadas por desempenho
incêndios nominais) (Ações térmicas baseadas na Física)

q q

t t
Incêndio nominal. Ex: Incêndio natural
Incêndio padrão ISO 834
Cálculo Estrutural ao Fogo
Quatro etapas

1. Definir o tipo de incêndio - EC1

2. Definir as cargas em situação de incêndio - EC0 +EC1


3. Calcular a temperatura na estrutura - EC3

4. Calcular o comportamento mecânico - EC3


Regras de combinação para
as ações mecânicas

• À temperatura ambiente (20 ºC)


 G    Q     Q
j 1
G, j k,j Q ,1 k ,1
i 1
Q ,1 0 ,i k ,i

• Em situação de incêndio
1. O fogo deve ser considerado como uma acção de acidente.
2. A ocorrência simultânea de outras acções de acidente
independentes não necessita ser considerada.

 G  ( ou  )  Q    Q  A
j 1
k ,1 1,1 2 ,1 k ,1
i 1
2 ,i k ,i d

1.0 x carga permanente


1 x acção variável de base (valores frequentes) (Recomendado no Anexo Nacional)
2 x outras acções variáveis (valores quase permanentes)
Ad – valor de cálculo das acções indirectas de incêndio.
O EC3 permite desprezar o efeito da dilatação térmica.
Cálculo Estrutural ao Fogo
Quatro etapas

1. Definir o tipo de incêndio - EC1

2. Definir as cargas em situação de incêndio - EC0 +EC1


3. Calcular a temperatura na estrutura - EC3

4. Calcular o comportamento mecânico - EC3


Fator de massividade Am/V

Perfis metálicos não protegidos

Am V 
Dqa.t  k sh hnet,d Dt
c a a b

perimetro Perimetro exposto 2(b+h)


Área s/r Área s/r Área s/r
Tababela para determinação
da temperatura
Perfis metálicos não protegidos
Temperature of unprotected steel in ºC, exposed to the ISO 834 fire curve
A
 
for different values of k sh m , m 1 (continued)
V
Time 10 15 20 25 30 40 60 100 200 300 400
[min.] m-1 m-1 m-1 m-1 m-1 m-1 m-1 m-1 m-1 m-1 m-1
51 468 600 688 732 750 825 894 911 917 918 919
52 477 610 697 734 757 835 899 915 920 921 922
53 487 620 704 736 765 845 904 918 923 924 925
54 496 629 711 739 774 854 908 921 926 927 928
55 505 638 718 743 784 863 913 924 928 930 930
56 514 648 723 747 794 872 917 927 931 932 933
57 523 656 728 753 804 880 920 930 934 935 936
58 532 665 731 760 814 887 924 933 937 938 938
59 541 673 734 768 825 894 927 935 939 940 941
60 549 681 736 777 834 901 931 938 942 943 944
Nomograma para temp. em
perfis metálicos não protegidos

Nomograma para temperaturas em perfis metálicos não protegidos


Sujeitos à curva ISO 834, Para diferentes valores de ksh ∙ Am/V [m-1]
800

q 700

600

500
Temperature [ºC]

400 m-1
400
300 m-1
200 m-1

300 100 m-1


60 m-1
40 m-1
200 30 m-1
25 m-1
20 m-1
100
15 m-1
10 m-1

0 18
0 10 20 30 40 50 60
Time [min.]
Aumento da temperatura em
perfis metálicos protegidos

Equação simplificada do EC3 Temperatura


do incêndio
• A quantidade de calor Temperatur
armazenada na proteção é a do aço

c p p Ap
 dp
c aa V Aço
Proteção
• O aumento da temperatura do aço
no intervalo de tempo Dt dp
Dqa.t 
 p / dp A p  1 
    
 qg.t  qa.t Dt  e  / 10  1 Dqg.t
c a a V  1   / 3 
Section factor Ap/V

Para perfis metálicos protegidos

Dqa.t 
 p / dp A p  1 
    
 qg.t  qa.t Dt  e  / 10  1 Dqg.t
c a a V  1   / 3 
b

Perímetro do perfil (b+2h) 2(b+h)


Área s/r do perfil Área s/r do perfil Área s/r do perfil
Tabelas para avaliação da
temperatura
Perfis metálicos protegidos sujeitas à curva ISO 834
Temperature of protected steel in ºC, exposed to the ISO 834 fire curve
Ap  p
for different values of
V dp

, W/m3K 
Time 100 200 300 400 600 800 1000 1500 2000
[min.] W/m3K W/m3K W/m3K W/m3K W/m3K W/m3K W/m3K W/m3K W/m3K
Nota: esta tabela é 0 20 20 20 20 20 20 20 20 20
5 24 27 31 35 41 48 55 71 86
valida apenas para
10 29 38 46 54 70 85 100 133 164
materiais de 15 35 49 62 75 100 123 145 194 237
proteção leves, 20 41 61 79 97 130 160 189 251 305

  0.0 25
30
47
54
72
84
96
113
118
140
159
188
197
232
231
271
305
354
366
421
35 60 97 130 161 216 266 309 400 470
40 67 109 147 181 244 298 346 442 514
45 74 121 163 202 270 329 380 481 554
50 80 133 179 222 296 359 413 516 589
55 87 145 196 241 321 387 443 549 621
60 94 156 211 261 345 414 472 578 650
Nomograma para
determinação da temperatura
em perfis metálicos protegidos
Nomogram para determinação da temperatura de perfis metálicos protegidos
sujeitos à curva ISO 834, para diferentes valores de [Ap/V][λp/dp] [W/Km3]
800

q Nota: este gráfico é


700
apenas válido para
600 meteriais de
500
proteção leves,
Temperature [ºC]

2000 W/Km3

400
1500 W/Km3
1000 W/Km3
  0.0
800 W/Km3
300 600 W/Km3
400 W/Km3 Para materiais de
200 300 W/Km3
200 W/Km3 proteção pesados deve
100
100 W/Km3
ser usado um fator de
massividade
0
0 60 120 180 240modificado corrigido
Time [min.]
Proteção passiva contra incêndio

1. Pintura com tintas intumescentes


2. Materiais projectados
3. Placas rígidas Colunas:
4. Mantas

Vigas:
1. Revestimento intumescente

Proteção passiva

Acabamento com Tinta intumescente


2. Revestimento Projetados

Proteção passiva

Apresentam-se sob a
forma de argamassa
hidráulica pastosa ou
fibrosa, aplicável por
projecção.

Com espessuras finais de 10 a 40 mm, aplicam-se em zonas


com pouca exigência estética.
3. Revestimento com Placas

Protecção passiva

Apresentam-se sob
a forma de placas
rígidas com 20, 25,
30, 35, 40 e 50 mm
de espessura.
4. Revestimento com Mantas

Proteção passiva

Podem ser de fibra


cerâmica, lã de
rocha ou qualquer
outro material
fibroso. São
aplicadas no
contorno por meio
de pinos de aço
previamente
soldados à estrutura.
Cálculo Estrutural ao Fogo
Quatro etapas

1. Definir o tipo de incêndio - EC1

2. Definir as cargas em situação de incêndio - EC0 +EC1


3. Calcular a temperatura na estrutura - EC3

4. Calcular o comportamento mecânico - EC3


Domínios de verificação da
resistência ao Fogo – curvas
nominais
R, E

1. Tempo:
22
Rfi,d tfi,d > tfi,requ
Efi,d
1
2. Resistência:
t fi,requ t fi,d t Rfi,d,t > Efi,d,t

q 3. Temperatura:
qd qd < qcr,d

q cr,d
Nota: 1e 3 necessitam do
33 conhecimento da
temperatura crítica.
t
O conceito de temperatura
crítica - 1

Cabe ao projetista de
Estruturas o cálculo da
temperatura crítica.

qcrit,1 qcrit,2 qcrit,2 < qcrit,1

Nota: A temperatura crítica


depende do grau de
carregamento do
elemento estrutural.
O conceito de temperatura
crítica - 2
EN 1993-1-2:

Qual o significado da equação (4.22)?


O conceito de temperatura
crítica - 3
A curva que melhor se ajusta aos valores da tabela :
1

  q a  482


3.833

k y ,q  0.9674  e 39.19  1 1


  
  

1,2

1 Eq. 5.7
Table 5.2
0,8

0,6

0,4

0,2

0
0 200 400 600 800 1000 1200

Temperature [ºC]
O conceito de temperatura
crítica - 4
1

  q a  482


3.833

k y ,q  0.9674  e 39.19  1 1


  
  

q a , cr  k y ,q 
1

 1 
q a ,cr  39.19 ln   1  482
 0,9674k y ,q 
3,833
Temperaturas críticas por
defeito no Eurocódigo 3 e no
Anexo Nacional Português - 1
- O Eurocódigo 3 fornece um valor da temperatura crítica por
defeito a utilizar no caso de elementos de Classe 4, quando
não se efetua o seu cálculo.
Temperaturas críticas por
defeito no Eurocódigo 3 e no
Anexo Nacional Português - 2
- O Anexo Nacional da NP EN 1993-1-2 fornece valores da temperatura
crítica por defeito a utilizar quando não se efetua o seu cálculo.

(zonas de armazenamento)
Importância de conhecer
a temp. crítica para a determi.
da espessura da proteção
Espessura de tinta intumescente em função do fator de massividade e da temperatura crítica.

...

Este fabricante tem tabelas para as seguintes temperaturas: 350, 400, 450, 500, 550, 600, 620, 650 e 700ºC
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 1

Caso de estudo – Pavilhão industrial


Método simplificado de cálculo
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 2

Resistência ao fogo exigida – R60

AçoS355

6 x 14 = 84 m

2.0 m
1.85 m

8.15 m IPE500
qcr = ?
2.75 x 24 = 66 m
Protecção = ?
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 3

Combinação de ações

G – Peso próprio
Q – Sobrecarga de utilização
W - Vento

Combinação de ações1: G  1,QQ   2,W W  G  0.0Q  0.0 W  G


Section N M1 M2 q lfi,y lfi,z
- [kN] [kNm] [kNm] [kN/m] [m] [m]
-139.4 0 135.9 0 16.300 -
IPE 500
-139.4 0 0 0 - 4.075

Combinação de ações 2: G  1,W W   2,QQ  G  0.2W  0.0Q  G  0.2W


Section N M1 M2 q lfi,y lfi,z
- [kN] [kNm] [kNm] [kN/m] [m] [m]
-135.9 0 170.9 0.69 16.300 -
IPE 500
-135.9 0 0 0 - 4.075
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 4

Temperatura crítica para a combinação de ações 1


Section N M1 M2 q lfi,y lfi,z
- [kN] [kNm] [kNm] [kN/m] [m] [m]
-139.4 0 135.9 0 16.300 -
IPE 500
-139.4 0 0 0 - 4.075
Programa Elefir-EN

40
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 5

Temperatura crítica para a combinação de ações 1


Caso de estudo
Pavilhão industrial - 6

Temperatura crítica para a combinação de ações 2


Section N M1 M2 q lfi,y lfi,z
- [kN] [kNm] [kNm] [kN/m] [m] [m]
-135.9 0 170.9 0.69 16.300 -
IPE 500
-135.9 0 0 0 - 4.075
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 7

Temperatura crítica para a combinação de ações 2


Caso de estudo
Pavilhão industrial - 8

Temperatura crítica do pilar IPE 500

qa,cr = min(656 ºC; 638 ºC) = 638 ºC


Caso de estudo
Pavilhão industrial - 11
Tempo crítico com a curva ISO 834
Usando o Nomograma
800

700

638ºC
600

500
Temperature [ºC]

400 m-1
400
300 m-1
200 m-1

300 100 m-1


60 m-1
40 m-1
200 30 m-1
25 m-1
A
k sh m  93.1 m1
20 m-1
100
15 m-1
V 10 m-1

0
0 10  1820 30 40 50 60
Time [min.]

tfi,d < trequ = 60 min É necessário proteção passiva


para uma temperatura crítica de qa,cr = 638 ºC
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 12

Espessura da tinta intumescente


... 600ºC , 620ºC,X650ºC, ...

qa,cr = 638 ºC

Am
 133.1  135 m 1
V
Caso de estudo
Pavilhão industrial - 13

Espessura da tinta intumescente

Em alguns países incluindo Portugal, são fornecidas


temperaturas críticas por defeito se nenhum cálculo for feito.
Normalmente para pilares e outros elementos em que pode
ocorrer instabilidade é sugerida uma temperatura crítica de
500ºC.
Se, em vez de uma temperatura crítica de 638ºC, fosse usada
uma temperatura de 500ºC, seria necessária uma espessura de
0,605 mm.

qcr = 638ºC => e = 0,402 mm


Mais do que 50%
qcr = 500ºC => e = 0.605 mm
Conclusões

Alguns países, incluindo Portugal, permitem a utilização de


temperaturas críticas por defeito, se nenhum cálculo for
efetuado.

Mostrou-se, num caso concreto, que não calcular a temperatura


crítica pode corresponder a um gasto de tinta intumescente
superior a 50% relativamente ao uso de temperaturas críticas por
defeito.
Bibliografia

• Paulo M. M. Vila Real – Incêndio em Estruturas Metálicas – Cálculo Estrutural, Edições


Orion, 2003.
• Franssen, J.-M., Vila Real P. M. M., Fire Design of Steel Structures, ECCS ed., 2015.
• NP EN 1990, Eurocódigo: Bases para o projecto de estruturas, 2009.
• NP EN 1991-1-2, Eurocódigo 1: Acções em estruturas. Parte 1-2: Acções gerais. Acções em
estruturas expostas ao fogo, 2010.
• NP EN 1993-1-2, Eurocódigo 3: Projecto de estruturas de aço. Parte 1-1: Regras gerais e
regras para edifícios, 2010.
• Vila Real, P., Franssen, J. M. – Elefir-EN V1.2.3 (2010), Software for fire design of steel
structural members according the Eurocode 3. http://elefiren.web.ua.pt.
Obrigado pela Vossa atenção.

Paulo Vila Real


Prof. Catedrático da Universidade de Aveiro
pvreal@ua.pt