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os

passos
para criar
uma

história
da ideia à prática do storytelling

Marcelo Andrighetti
Tom Freitas

www.escoladeroteiro.com.br
INTRODUÇÃO AOS 7 PASSOS

São 7 passos que levam você da ideia até a escrita de uma história. Esses 7

passos são a base de uma construção narrativa. Não exclusivamente para o

cinema e audiovisual, mas também para qualquer estrutura que necessite de um

caminho para ser desenvolvido.

Anote os 7 passos, imprima-os, cole-os na sua escrivaninha - eles vão lhe

acompanhar durante toda a sua vida criativa.

Uma banda pode aprender sobre Incidente Incitante e Clímax e pensar nisso no

momento da escrita.

Um jornalista pode desenvolver um Plot para uma reportagem e utilizar essa

estratégia no momento de “vender” a ideia ao seu editor.

Um fotógrafo pode encarar o clique como o entendimento do arco dramatúrgico

de um personagem.

Então, estes 7 passos foram compostos para que você saiba realmente quais são

os caminhos que precisa seguir ao ter uma ideia. Não basta sentar e escrever logo

após a inspiração.

É necessário subir um degrau por vez. Lembre-se: contar uma história é 80%

construir e 20% escrever.

Vamos conhecer os 7 passos? Sirva-se de café e vem comigo.

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PREMISSA
1 E
se...
E se um professor começar a produzir
metanfetamina...

É inverno. Em uma tarde chuvosa, você está descansando em um sofá. Um chá de

camomila lhe aquece o corpo. Buscando um momento de ócio criativo, seus olhos

buscam o vidro da sala. Uma gota escorre lentamente. E por alguma conexão

inconsciente você lembra das manhãs de domingo, quando seu pai acordava cedo

para assistir as corridas de Fórmula 1. E você pensa: “e se eu fizesse um filme

sobre um adolescente que sonha em ser piloto?”

“E se...”

Essa brincadeira do “e se…” é a base pra nascer uma história.

- E se um tubarão atacar uma cidade.

- E se um professor começar a produzir metanfetamina.

- E se...

Quem falou sobre isso pela primeira vez foi Constantin Stanislavski, com o

“Mágico Se…”.

A premissa é ponto ou ideia de que se parte para armar um raciocínio. É a

largada. Sem motivo racionalmente palpável: é algo que surge. Um momento em

que você não precisa de respostas. Talvez perguntas e devaneios.

Uma premissa é a ideia inicial da sua história, o ponto de partida para você

construir o seu storytelling. É tão embrionário, que após todo movimento de

criação, você pode ter um resultado completamente diferente do que imaginou.

Mas começar é importante!

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Os 7 Passos para Criar uma História

Como montar a premissa da minha história?

Você normalmente tem um insight criativo. Em alguns casos você até consegue

perceber pontos específicos de sua trama: o que será sua história, do que vai se

tratar, o que você quer dizer com ela, etc. Em outros casos, você simplesmente

não tem nada. Tem apenas um pedacinho de todo iceberg.

E o que você faz?

O importante é você anotar. E não perder nenhuma ideia, nem as ruins. E é

importante que anote tudo o que lhe chamar a atenção: ideias, propostas,

reflexões. Com isso você está treinando seu cérebro.

É interessante que você pense em comprar um caderno. Eu chamo


DICA:
de Caderninho do Mágico Se. Ande com ele, pra cima e pra baixo.

Você está enviando uma mensagem ao seu cérebro. Em ações, está querendo

dizer: “vale a pena pensar nisso!”. Quando você não escreve, atrofia as conexões.

Ao anotar, em algum dado momento você vai perceber “opa, aqui eu tenho a ideia

para uma história”. Neste momento entra a Premissa de um Storytelling.

Você abre um arquivo em branco e começa a digitar o que imagina. Sem

compromisso algum. Deixa vir, aparecer. Se for uma droga, tudo bem. Não crie

rótulos ou barreiras. Nesta fase é necessário que você esteja realmente de braços

abertos, sentindo a ideia.

Vamos supor que você estava andando na rua e alguém lhe pediu uma moeda.

Você não tinha. Isso lhe fez pensar. Você abre o seu Caderninho do Mágico Se e

anota: “história de um homem que assaltou um mercado para dar dinheiro a um

mendigo”. Aí você chega em casa e escreve sobre isso. Coloque em palavras qual

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Os 7 Passos para Criar uma História

foi sua sensação naquele momento, o porquê você acredita nesta história, como

você enxerga a trama neste momento.

Você escreve o quanto estiver a fim. Aqui realmente você deve se permitir. Mas

importante fazer isso sem “peso”. Não é uma tarefa que precisa ser realizada para

a história existir. É um caminho mais racional para que seu storytelling ganhe

forma, corpo, volume. Não fique apenas na memória!

Uma mesma premissa pode ser a base para diversos tipos de histórias. Tomemos

como exemplo, a premissa “Jovens apaixonados que tem o amor proibido estão

dispostos a ir até as últimas consequências para ficarem juntos”. Essa pode muito

bem ser a premissa de "Romeu e Julieta", de William Shakespeare, mas também

pode ser a de "Moonrise Kingdom", de Wes Anderson. Isso significa que - e eu

acho que você já sabe - praticamente todo tipo de premissa já foi usada para

contar histórias, mas o que diferencia a sua e a torna única é o que só você pode

fazer.

Tudo depende do contexto, da época, dos conflitos, ou seja, do universo que

você constrói em volta dessa premissa, com ferramentas que pertencem única e

exclusivamente a você: a sua imaginação, seu repertório e suas referências.

Por isso, anotar torna-se poderoso. Você une um pensamento universal (a

premissa base) a algo individual (a sua premissa).

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GÊNERO
2 Antes de abrir o vinho deixe ele envelhecer. Para a
premissa da sua história maturar você precisa provar
outros vinhos do mesmo sabor...

Você anotou tudo o que podia sobre Premissa. Pensou e repensou. Poetizou.

Sonhou. Acordou de madrugada tendo mais ideias. Ótimo! Agora você está

pronto pra escrever sua história, certo? Errado!

Imagine que duas pessoas se conheceram. Apaixonaram-se lindamente.

Conversaram, tomaram vinho, transaram. No dia seguinte elas casam? Não. Elas

vão se conhecer um pouco mais. Vão apresentar suas famílias, seus amigos, vão

dividir segredos (uns bons, outros nem tanto).

Aqui é a mesma coisa. Deixe a premissa maturar. Antes de abrir o vinho deixe ele

envelhecer. Para isso ocorrer com a sua história você precisa provar outros vinhos

do mesmo sabor. Assim você vai entender como chegar lá.

Aqui você vai analisar, pesquisar, se aprofundar no tipo da uva. Narrativamente

falando, aqui você estuda o gênero. Isso é muito importante para qualquer

criativo. Eu diria que não é apenas essencial, mas obrigatório.

Gênero nada mais é do que uma organização de convenções. O cérebro

humano se acostumou ao longo dos milênios a ouvir histórias. Só para você ter

uma ideia: contar uma história é a forma mais direta e fácil de você mexer com as

emoções, com o sistema límbico das pessoas.

O sistema racional do cérebro é conhecido como neocórtex. É ele o responsável

por nos fazer tomar decisões. E como o sistema límbico é o responsável pelas

emoções, é ele que nos deixa passivos.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Está calor. Você passa em frente a uma cervejaria. No outdoor de divulgação

há uma foto de um chope gelado. Na hora você decide entrar e tomar. É o seu

sistema límbico respondendo. Acontece isso com pessoas que decidem parar

de comer, mas não podem ver um pedaço de torta de chocolate, pois fogem

facilmente da dieta.

Quando contamos uma história, o Sistema Límbico do público-alvo estremece.

Aristóteles chegou a criar uma analogia para isso. Ele diz: você está indo a uma

peça de teatro. No meio do caminho você cruza com o corpo de uma pessoa que

acabou de morrer. E você fica chocado. Mas aquilo é tão REAL, que o choque

atinge seu racional. Chegando na peça de teatro, um personagem morre no final.

E você chora sem parar. Por quê? Isso ocorre porque houve um tiro ao alvo - a

história preencheu um espaço e seu sistema límbico foi acionado.

Cada uma das histórias tem um motivo. Você pode contar uma história para

vender um automóvel, para dizer que o amor vale a pena, para dialogar sobre a

injustiça do mundo, entre outros fatores. E como o ato de contar uma história

é mais antigo que a própria escrita (afinal de contas nos comunicamos dessa

forma), atualmente - com uma avalanche de informações - o público é certeiro e

já diferencia as estruturas boas das ruins.

É para isso que existe o gênero. Para inserir sua ideia dentro de uma possibilidade

já conhecida pelo público. Quem pega um livro de Agatha Christie na mão quer

Suspense. Quem dá play em um filme do Adam Sandler quer Comédia. Mesmo

que você nunca tenha ouvido falar de Godard ou Wes Anderson, os elementos

iniciais de qualquer filme desses roteiristas e diretores vão fazer você ficar

assistindo ou não.

Ou seja, você optou pela convenção.

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Os 7 Passos para Criar uma História

“Eu não quero assistir esse filme louco, sem pé nem cabeça”. Isso é uma

convenção. Muitos roteiristas e diretores fazem filmes dessa forma. Não apenas

o Godard.

Aí você troca de filme.

“Agora sim. Eu estava a fim de assistir algo nessa atmosfera leve”. Isso é uma

convenção. Muitos roteiristas e diretores fazem filmes dessa forma. Não apenas o

Wes Anderson.

Então, quer dizer que não existe inovar ao contar uma história? É quase isso. Na

verdade a limitação do gênero possibilita que você atraia o público. Você tem em

mãos uma forma de bolo, e não uma fórmula matemática. Pode colocar dentro da

forma qualquer tipo de receita.

Para entendermos um pouco dessas convenções é legal falarmos dos gêneros

literários. Podemos dividir as histórias em três grandes: Épico, Lírico e Dramático.

A definição desses três gêneros pode ser encontrada em "A Poética", de

Aristóteles, mas é preciso conhecer, mesmo que superficialmente, cada um deles

para entendermos melhor sobre a arte de escrever.

• Épico

Uma de suas principais características é a presença de um narrador, usado

antigamente para falar do passado e de grandes conquistas de um povo, é muito

confundido com filmes grandiosos de superprodução, pelo fato de muitas vezes

contarem histórias de um povo. Porém, um filme épico pode ser contado por

apenas um personagem, como em "Forrest Gump".

• Lírico

É a forma mais poética de se contar histórias, onde se expressam as emoções e os

sentimentos e onde as figuras de linguagem são frequentemente usadas.

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Os 7 Passos para Criar uma História

No roteiro, apesar de não haver tanto a função da musicalidade, a subjetividade

do texto está lá, dentro de cada cena, de cada diálogo. Pense nos filmes que você

demora pra entender ou nunca entendeu, provavelmente eles são uma narrativa

lírica.

• Dramático

É o gênero mais comum, onde os personagens agem dentro da história sem a

presença de um narrador e com diálogos. A história é movida pelos próprios

acontecimentos de forma autônoma. A imensa maioria dos filmes é contada de

forma dramática.

Dentro desses grandes gêneros, dessas grandes formas de contar histórias,

podemos identificar alguns voltados especificamente para o cinema. Esses

gêneros não são definidos pela forma que suas narrativas são colocadas, mas

sim, por suas temáticas. É uma ferramenta importante quando você pensar no

público-alvo do seu roteiro.

• Comédia

Como a maioria dos gêneros, a comédia se divide em vários subgêneros como o

pastelão, sátira, comédia romântica, entre outros. Nesse gênero, o humor deve

trabalhar em função da história, ou seja, por mais engraçada que seja uma cena

ou uma piada, ela precisa ter uma função narrativa para que possa entrar no seu

roteiro.

• Drama

Não confunda com o gênero dramático explicado anteriormente. Os dois

existem, mas o gênero DRAMA de cinema é outra coisa. Também dividido em

vários subgêneros, como drama social, drama familiar e drama histórico, tem

como uma de suas principais características a verossimilhança com a vida real, ou

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Os 7 Passos para Criar uma História

seja, histórias que poderiam acontecer no mundo em que vivemos, com situações

possíveis de acontecer conosco. Um filme de drama não é necessariamente um

filme triste, apesar de muitos carregarem essa característica.

• Terror

A fonte do terror é sempre assombrosa, porém ela pode ser oriunda de um

ser possível no nosso mundo ou não. Alienígenas e monstros geneticamente

modificados não existem, mas existem explicações lógicas que levam à origem

desses seres. Nesta categoria também entram os assassinos maníacos, como

Leatherface, em "O Massacre da Serra Elétrica". Também há a fonte de terror

sobrenatural, onde entram os espíritos e demônios. Sobre o terror, ainda há um

outro tipo, onde você deixa o público em dúvida sobre o que é a fonte do terror.

• Crime

A maioria dos filmes de crime segue o estilo noir, onde um policial tenta

desvendar os mistérios por trás de um assassinato. Apesar disso, também há

outros subgêneros que são muito bem explorados, como filmes que contam a

história de um grupo mafioso, como em "O Poderoso Chefão", ou uma trama

sobre a redenção de um ex-presidiário, por exemplo.

• Ação/Aventura

Geralmente com um ritmo acelerado e situações que colocam o protagonista em

perigo de morte constante, os filmes de ação e aventura podem acontecer em

diversos ambientes com diversos tipos de histórias, desde um herói enfrentando

a natureza até um herói que precisa salvar o mundo em um dia, como em "24

Horas".

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Os 7 Passos para Criar uma História

• Ficção Científica

Normalmente passado no futuro, conta com a tecnologia para criar

hipóteses sobre os caminhos da humanidade, além de também fazer críticas.

Experimentos científicos e corrida espacial são amplamente explorados nesse

gênero, mas também há filmes que podem se passar nos dias de hoje como "O

Exterminador do Futuro".

• Fantasia

Aqui, um universo fictício inteiro é criado, criaturas mágicas, armas, poderes e

tudo que você quiser criar para o seu universo se encaixa no gênero de fantasia.

Entra muito bem em animações como "Monstros S.A.", mas sagas como "Star

Wars" e "Harry Potter" fazem o uso da fantasia de uma forma excelente.

É bom você saber que nenhuma história é uma coisa só, não existe uma fronteira

separando tudo o que é drama de tudo que é comédia, você pode ter bons

momentos de drama dentro da sua história de ação, você pode adicionar uma

boa dose de comédia dentro do seu drama e por aí vai. O mais importante é

saber o que predomina dentro da sua história, pois é assim que você consegue

direcioná-la melhor para seu público-alvo.

Após perceber e escrever sua premissa, faça uma lista de filmes,


séries, comerciais de TV, filmes institucionais, vídeos corporativos,
DICA:
etc., e assista a todos. Perceba as diferenças e as convenções entre
eles. É um estudo que você irá realizar para descobrir onde sua
vontade se encaixa melhor. E como ela se encaixa.

Lembre-se, usar referências não é copiar. Como já citado no capítulo anterior,

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Os 7 Passos para Criar uma História

praticamente todo tipo de história já foi contado, e contar uma história

baseando-se na mesma premissa de outra não é copiar. Aprender com quem fez

e deu certo é um passo importante para você adquirir sua própria identidade,

então não tenha medo de observar certas estruturas e usar como referência na

sua história.

ATENÇÃO: Isso também não significa que você pode copiar cenas ou diálogos,

isso sim é copiar.

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PERSONAGEM
3 Há a ponta do iceberg - o personagem em si, o que as
pessoas enxergam - e o restante, que é a profundidade
do protagonista...

“Personagem é ação”, Syd Field.

O que significa dizer que personagem é ação? Dentro da história, os personagens

são construídos através das escolhas que eles fazem.

Uma história é um pedaço da vida de um personagem, um recorte de um

momento específico forte o suficiente para se tornar um longa, um curta, um

livro, uma história. Uma máxima dos roteiristas diz que a melhor história é aquela

que você pode sugar 1% do personagem.

Imagine o seu dia a dia, a não ser que você seja uma pessoa muito sortuda com

uma vida incrível, 99% do seu dia é uma repetição do dia anterior. E o que é o 1%

restante? É exatamente o que poderia virar um filme.

É por isso passamos tanto tempo na parte conceitual de uma história: estudando,

pesquisando, encontrando referências: para buscar esse 1% dos nossos

personagens. E qual a melhor maneira de fazer isso?

Uma técnica bastante eficiente é construir a história pregressa dos personagens.

É como se você escrevesse a biografia completa de cada um deles (ou dos mais

importantes) pontuando os “pontos de virada em suas vidas”. Isso significa que,

a partir da personalidade de um personagem, você deve imaginar como foi a vida

dele antes disso e quais foram os pontos decisivos para ele agir da maneira que

age e fazer as escolhas que faz. A história pregressa pode ou não ser usada em sua

narrativa, mas ela é uma ferramenta muito importante para o próximo passo que

veremos em seguida.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Você constrói seu personagem para saber como ele é internamente. Para

distinguir o que são máscaras e o que realmente faz parte de sua essência. Assim,

você percebe que há a ponta do iceberg (o personagem em si, o que as pessoas

enxergam) e o restante, que é a profundidade do protagonista.

Imagine a seguinte situação: em um bar, um homem chamado Otávio recebe um

convite de um estranho. A proposta é: ir a uma viagem que pode mudar sua vida

para sempre. O homem recusa o convite e o estranho vai embora. Não temos

história.

Para existir uma história dentro dessa situação, Otávio teria que aceitar o convite.

A história pregressa do Otávio pode definir o futuro da história. Veja bem: Otávio

pode ter vivido momentos na infância em que ele se fascinava com as viagens

que fazia com os pais. Ou ele pode estar vivendo uma vida tão entediante nos

últimos 10 anos que sente que é hora de agir por impulso e mudar.

Essas duas situações podem virar duas histórias completamente diferentes para

Otávio (aliás, o próprio nome do personagem é uma história pregressa). Apesar de

partirem do mesmo ponto, tudo muda com a história pregressa. Lembre-se, seu

personagem molda a história que será contada, por isso é tão importante saber

construí-lo.

Tipos de personagens

Existem basicamente 2 tipos de personagens, os personagens planos e os

personagens esféricos. A diferença básica entre os dois é que o personagem

plano normalmente possui uma única característica que define sua

personalidade, sem contradições ou dilemas internos. Isso deixa o personagem

mais fraco para a narrativa. Em muitos casos isso é bom. Você não precisa criar

um filme com 20 personagens profundos e cheio de dilemas. Eles podem ser

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Os 7 Passos para Criar uma História

personagens que estão ali estrategicamente inseridos na narrativa.

Já os esféricos, ou multidimensionais, possuem contradições em sua

personalidade, vivem dilemas que os transformam ao longo da história.

O conjunto das escolhas que nossos personagens são obrigados a fazer durante

a narrativa, as mudanças que essas escolhas causam e o que isso impacta em

sua jornada para alcançar seu objetivo chama-se arco do personagem, é toda

a transformação que seu personagem sofre durante a história do incidente

incitante até o clímax.

Apesar de toda importância que temos que ter sobre personagens esféricos, os

personagens planos também podem ser muito bem usados, até mesmo como

protagonistas.

Tomemos de exemplo o filme "Curtindo a Vida Adoidado". Você já viu?

Ferris Bueller é um garoto que engana os pais, engana o diretor da sua escola

e ainda convence o amigo e a namorada a matarem aula. Do início ao fim, o

personagem não sofreu mudanças, a última cena é até bem parecida com a de

início, onde Ferris Bueller se deu bem em seu plano, não aprendeu nenhuma lição,

não mudou, continuou sendo um personagem linear.

Isso funciona muito bem para a narrativa. Primeiro para seguir a premissa do

filme, que o próprio protagonista fala na última cena “Se você não parar e dar

uma olhada em volta de vez em quando, vai perdê-la (a vida)”. O segundo ponto

e mais importante é que, apesar de o protagonista não sofrer mudanças, o

coadjuvante Cameron é quem sofre a grande transformação no filme, passando

de um medroso submisso a um garoto corajoso que enfrenta as consequências

de seus atos. Esse arco de Cameron não teria sido possível sem a participação

ativa de Ferris durante o filme.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Este exemplo demonstra que personagens planos também podem ser bem

usados, porém não se iluda achando que isso sempre vai funcionar. As narrativas

mais ricas e interessantes são feitas com personagens esféricos. Saber

usar seus personagens é primordial, então lembre-se de dar características

únicas, escolhas pessoais e contradições para enriquecer seus personagens e,

consequentemente, sua narrativa.

O que você precisa afinar é que o protagonista de uma história é qualquer coisa

que possa agir e sofrer as consequências. Quem pode ser protagonista de uma

história?

a) uma pessoa

b) uma dupla

c) um trio

d) um grupo

e) um animal

f) um objeto

Repetindo: todos eles, para serem protagonistas, precisam AGIR e SOFRER as

consequências. Uma maleta que passa de mão em mão, como em "Pulp Fiction",

não é uma protagonista. Um rato é protagonista somente se ele AGIR e SOFRER.

Crie personagens que são necessários para a história. E não


DICA: personagens que você gosta! Aliás, para isso é interessante que você

consiga fazer um estudo do arco dramatúrgico.


Arco dramatúrgico nada mais é do que as mudanças constantes que o personagem

sofre durante sua jornada. A partir do incidente incitante (logo explico),

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Os 7 Passos para Criar uma História

o personagem adquire um desejo e ele vai correr atrás disso até o clímax, onde

esse desejo será realizado ou não.

A história só se desenvolve a partir da ação dos personagens, ou seja, todos os

conflitos acontecerão através da construção dos personagens que estão lá. São

eles que vão ajudar a construir o plot.

Ao construir o personagem, você cria uma racionalização da ideia. O que era

premissa, passa a ser composto, verdadeiro, palpável. Ainda não temos história,

mas ao trabalhar o personagem a estrutura começa a se moldar.

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PLOT + STORYLINE
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PLOT
P
D
Personagem + Desejo + Conflito C

Definir a trama de sua narrativa é como dar alma à sua premissa. O “E se…” que

servia como guia, agora cria vida e sai andando. O Plot é a rede de uma partida de

ping pong. Não temos como jogar ping pong sem rede.

O primeiro passo para você iniciar a escrita é o Plot. Ele é o resumo de sua

trama em uma frase. Uma frase... você tá louco? Robert McKee, o guru do

Storytelling, enfatiza: “se você não consegue resumir sua história em uma frase é

porque você não tem história”.

O enredo de uma história se baseia no seguinte esquema:

Personagem + Desejo + Conflito

Com essas três ferramentas, você pode construir o plot da sua história, ou seja,

como a sua premissa vai se desenvolver. Exemplo:

Um homem (personagem) quer casar com uma mulher (desejo), mas ela já tem

marido (conflito).

Reduza a sua história ao plot. Faça uma lista de possíveis plots.


DICA:
Não acredite ou aceite de primeira. Vá em busca do melhor.

Tendo fechado isso, imprima e deixe o plot ao seu lado. Qualquer criação a partir

dessa fase, você deve olhar para o plot e se perguntar: isso que estou querendo

inserir tem relação com o plot? Se a resposta for sim, deixe. Se a resposta for não,

elimine.

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Os 7 Passos para Criar uma História

A partir daí, você pode começar a pensar em seu storyline.

Ele é um instrumento importantíssimo para você dar um passo além na sua

narrativa. Trata-se basicamente de um resumo de sua história em poucas linhas,

no máximo cinco, também podemos fazer três linhas, uma representando cada

ato. Nessas poucas linhas estarão os conflitos principais da trama e como serão

resolvidos.

Veja o exemplo de "Toy Story":

Cowboy, boneco preferido de uma criança se depara com um problema quando

um novo brinquedo espacial chega em sua casa. Consumido por ciúme, ele e o

novo brinquedo acabam caindo da janela de sua casa e se perdendo do outros. Os

dois traçam um grande plano para voltar para casa antes de todos se mudarem e

conseguem chegar no último minuto.

Nessas poucas linhas, está resumida toda trama de "Toy Story", ainda que

superficialmente, através dessa estrutura, é possível escrever todas as outras

cenas que existem no filme.

A sua história pode ser dividida em Três Atos. O que ocorre entre um ato e outro

é o que chamamos de Ponto de Virada: um acontecimento narrativo que salta

aos olhos. É o momento em que algo ocorre com o Protagonista, e a trama muda

de rumo.

A tradição - o clássico - se resume em três atos. Você pode construir sua história

com três atos. Mas lembre-se: isso é a tradição, o comum. Um comercial de

televisão pode ter apenas dois atos. Um longa-metragem pode ter cinco atos.

Uma série pode ter quatro atos em cada episódio.

Os três atos representam basicamente o início, meio e fim de sua história. Ou

seja: apresentação, desenvolvimento e conclusão.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Primeiro ato: Aqui você deve apresentar seus personagens, o universo em que

vivem e introduzir os principais conflitos. Na vida de seu protagonista acontecerá

um incidente incitante (próximo passo a ser estudado).

Segundo ato: É geralmente o mais difícil de se escrever, é aqui onde você deve

desenvolver os conflitos que levarão seu filme até o clímax, por isso ele também

é, normalmente, o mais longo. Existem paradigmas, como a jornada do herói,

que nos auxiliam nessa caminhada até o clímax, através deles temos uma ideia,

um modelo de como as complicações progressivas vão acontecendo durante a

jornada de seu personagem. O ponto de virada do segundo ato o leva para um

caminho sem volta, para o “tudo ou nada”.

Terceiro ato: É geralmente o mais curto e mais dinâmico dos atos, depois de ter

obrigado a escolher seguir esse caminho, o protagonista precisa enfrentar o seu

destino de qualquer forma. Seu ponto de virada é o clímax da história, o ponto

mais alto e mais importante do filme.

O grande segredo dos roteiristas é ter repertório. Assista a filmes,


séries, leia histórias, estude e anote como as histórias que são

DICA: mais parecidas com as suas funcionam. Assim você vai adquirir um
conhecimento único, de saber como levar os obstáculos até um
ponto de virada que leva o filme ao terceiro ato.

Seguindo a ordem lógica de criação, você sai do plot e pensa em possíveis pontos

de virada. A primeira grande virada de um filme chama-se Incidente Incitante ou

Gatilho.

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INCIDENTE INCITANTE
5 É o gatilho que vai puxar o seu personagem para fora
do mundo comum...

O Incidente Incitante é aquilo que faz o protagonista iniciar a sua Jornada. É

quando desperta nele o primeiro desejo por algo.

Vamos supor que estejamos criando a história de Joana. A premissa era algo

assim: “E se uma mulher conhecer a paixão de sua vida de uma maneira

inusitada”. Você assistiu a filmes de diversos gêneros, estudou as convenções e

mergulhou na atmosfera do seu storytelling.

Beleza! Até aqui tudo bem. Não esqueça: isso leva tempo para acontecer. Aqui fiz

apenas um breve resumo. Mas você deve escrever sobre a premissa, estudar as

referências, pesquisar sobre o gênero e realmente suar nesta primeira etapa. É aí

que tudo acontece. É aí que nasce uma história bem desenvolvida.

Seguindo na história de Joana, depois de muito pensar e fazer uma lista imensa

de Plots, você optou por um deles: Uma mulher, de 42 anos, recém divorciada do

marido, apaixona-se por uma amiga e tenta namorar com ela.

Consegue “enxergar” o Plot (personagem + desejo + conflito)?

Há um personagem central: a Joana.

Há conflito nele... correto? Divórcio, novo relacionamento.

Há o desejo de conquistar algo… consegue perceber? A amiga, uma paixão.

O Plot é o primeiro movimento estrutural. Mas o incidente incitante é o que faz

nascer a espinha dorsal de um enredo. Na história de Joana, o gatilho seria aquilo

que inicia a história propriamente dita.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Ou seja: pode ser uma cena onde Joana convida a amiga para jantar e contar

sobre o divórcio. As duas bebem além da conta. E então, saem do restaurante e

se beijam. Esse beijo pode despertar a Jornada de Joana. É por conta desse beijo

que toda a história existe.

É obrigatória a existência de um Incidente Incitante. Veja alguns exemplos de

Incidentes:

- Walter White descobre que está com câncer (Breaking Bad)

- Francis Underwood não vira o vice-presidente dos EUA (House of Cards)

- Um tubarão mata uma pessoa (Tubarão)

- Um homem compra um sistema operacional (Her)

- Garoto conhece garota (Romeu e Julieta / Titanic)

- Pessoas ficam cegas (Ensaio Sobre a Cegueira)

É ele o gatilho que vai puxar o seu personagem para fora do mundo comum e o

colocar em um mundo desconhecido, onde ele precisa enfrentar obstáculos

para conseguir atingir seu objetivo. E qual é o objetivo? É exatamente isso que o

incidente incitante dá para o protagonista, é como uma provocação que precisa

ser saciada.

Falando em roteiro, nunca existem regras engessadas e definidas


sobre o que você deve fazer, porém, existe o tipo de história que
DICA:
a gente sabe que dá certo. O incidente incitante de uma história
normalmente vem bem no início.

Há quem diga que o incidente incitante não deve passar do primeiro terço

da história. Por quê? oras, com uma história que já passou da metade e nada

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Os 7 Passos para Criar uma História

motivou seu protagonista a mudar de rumo, quem não vai ficar entediado?

Existem infinitas possibilidades para uma história começar, aqui estão outros

exemplos de gatilhos:

- Um acidente deixa você com problemas para voltar a viver a vida normalmente.

- Garoto que encontra garota que acha ser a perfeita para ele.

- Um convite para uma viagem que você sempre sonhou.

- A morte de alguém obriga você a mudar drasticamente sua vida.

- A chegada de um vizinho torna sua vida um inferno.

- Ao presenciar uma experiência de quase morte, protagonista decide mudar de

vida.

Todos esses incidentes podem se tornar histórias diferentes. A chegada do

vizinho pode se tornar uma guerra entre famílias ou um drama particular.

Importante você saber que o Incidente deixa o protagonista em desequilíbrio.

Entretanto, não precisa ser algo ruim, pesado, doloroso. Pode ser um desequilíbrio

para melhor: um personagem que ganhou na mega sena, por exemplo.

Existem muitas possibilidades e é a partir do gatilho de sua história que você vai

decidir que rumo ela irá tomar.

O incidente incitante é muito importante, ele é como uma promessa feita ao

público de que o protagonista vai perseguir aquele desejo até o último instante.

Mas, se ele vai conseguir ou não, o público só vai saber no Clímax.

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CLÍMAX
6 O clímax de um filme é um ponto sem volta

O desfecho de um filme precisa ser catártico, único e gerar sensações pré-

estabelecidas para o público. O final entrega ao público a promessa que foi feita a

partir do incidente incitante. E para isso acontecer, precisamos entender a nossa

história como uma unidade inteira, como um caminho que se trilhou até chegar

nesse momento decisivo. É como uma bifurcação onde você escolhe qual vai

ser o destino final da sua viagem.

“Uma revolução nos valores, indo do positivo ao negativo ou do negativo ao

positivo com ou sem ironia – um valor mudado em sua carga máxima que é

absoluto e irreversível. O significado dessa mudança mexe com o coração do

público.” Story, 293.

É o momento onde o herói mata o dragão, onde o homem entra na igreja e

impede o casamento de sua amada, ou o momento em que o herói morre no

meio de uma batalha.

O clímax de um filme é um ponto sem volta. Ele é o principal momento do seu

filme, porque é o ponto de virada onde tudo vai mudar, onde o protagonista

consegue o desejo ou perde de uma vez por todas, onde as esperanças triunfam

ou morrem.

E para um clímax ser poderoso o suficiente, você deve ter em mente que ele deve

ser o ponto mais alto da sua história, o mais grandioso.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Por favor, não confunda grandioso com superprodução. Um simples


DICA: diálogo pode impactar muito mais do que um amontoado de tiros
e explosões, você só precisa saber o que é mais importante para a
história.

Os filmes geralmente possuem três tipos de desfecho:

• Positivo (Final feliz)

É a forma mais clássica e talvez o desfecho da maioria dos filmes que você já viu.

O protagonista geralmente alcança seu objetivo, as coisas ficam bem, o vilão se

dá mal e todos vivem felizes para sempre. Esse tipo de desfecho funciona muito

bem em comédias, filmes de ação e aventura, filmes que tem um ritmo rápido

e são feitos para que não haja muitas surpresas. Mas também pode funcionar

para qualquer outro tipo de narrativa, desde que você construa uma história para

chegar a esse final.

Apesar do exemplo acima, um final positivo não significa um final totalmente

feliz. O mais importante é o protagonista alcançar seu objetivo primário, mas

ele não precisa necessariamente alcançar o secundário. Alguns dos personagens

também não conseguirem atingir seus objetivos não significa ser um fim triste.

Exemplos de filmes com clímax positivos:

- Uma Linda Mulher

- O Mágico de Oz

- Django Livre

- Procurando Nemo

- American Pie

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Os 7 Passos para Criar uma História

• Negativo (Final triste)

É quando as coisas dão errado, o protagonista não atinge seus objetivos e as

forças antagônicas vencem. É muito comum em filmes de terror, mas também

funciona muito bem em dramas e suspenses.

Exemplos de filmes e série com clímax negativos:

- O Chamado

- Na Natureza Selvagem

- Oldboy

- A Onda

- Black Mirror (esta série tende a ter finais negativos)

• Irônico / Ambíguo

Assim como ocorre com a classificação de gêneros, os desfechos nem sempre

são puramente positivos ou negativos, e é aí que encontramos o final ambíguo.

Nesse tipo de desfecho, o protagonista normalmente ganha uma coisa e perde

outra, ou abre mão de uma para conseguir outra.

Imagine um jogador de futebol que aceitou dinheiro para que seu time perca o

campeonato. Com esse dinheiro, ele iria salvar a casa dos pais, mas no final, sua

moral fala mais alto e ele acaba vencendo o jogo. Aqui, dois valores são colocados

em jogo: um positivo, já que sua moral permaneceu intacta e um negativo, já que

não vai conseguir salvar a casa dos pais.

Exemplos de filmes e série com clímax ambíguos:

- Filhos do Paraíso

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Os 7 Passos para Criar uma História

- Deus Ex-Machina

- Beleza Americana

- Closer

- Titanic

- Breaking Bad

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ESCREVA
7 Agora é a hora de finalizar o quebra-cabeça

A escrita é a parte final de todo o processo de construção narrativa. Só depois de

projetar e arquitetar uma base sólida você pode começar sem perigo a construir

uma casa. Assim ela não corre o risco de desabar.

Se você veio até aqui, meus parabéns!

Como já falamos anteriormente, você deve escrever em todas as etapas, mas

aqui você começa a materializar e racionalizar em palavras o que antes eram

pedaços. Agora é a hora de finalizar o quebra-cabeça.

O caminhão estacionou em frente ao terreno e descarregou a areia, os sacos

de cimento, os tijolos e todos os apetrechos. Agora é arregaçar as mangas e

trabalhar.

Imagine que você passou dias criando um plano de viagem. Nesta etapa você

vai colocar a bagagem nas costas e aproveitar. Não há mais dúvidas. Não pode

mais haver aqui tantos dilemas. Lógico que eles existem. O tempo inteiro. Mas as

etapas anteriores fizeram você ir derrubando barreiras, enxergando o horizonte,

tendo uma clareza do que queria colocar no resultado.

Adentrando o processo de escrita, nós podemos criar um processo mais

minucioso. São subtarefas essenciais.

1 - Argumento

2 - Escaleta

3 - Roteiro

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Os 7 Passos para Criar uma História

Vamos entender um pouco cada um deles.

Argumento

É a sua história contada do início ao fim em parágrafos, como se fosse um conto.

É uma forma “mais livre” de escrever. Tome cuidado para não poetizar demais.

A linguagem de um argumento deve ser clara e precisa. Será um texto que você

vai usar para apresentar o seu projeto para alguém (para um produtor ou em um

edital), então dedique um bom tempo para fazer um bom argumento.

O argumento não é dispensável. Ele é um passo para uma história audiovisual

bem sucedida.

Não há uma regra certa de que tamanho deve ser seu argumento, isso vai

depender muito do seu poder de síntese. O que você precisa é deixar sua história

inteira contada de maneira clara.

Geralmente, um longa de 2 horas pode ter cerca de 15 páginas de


argumento. Um curta de 20 minutos pode ter 4 páginas. Já um
DICA: comercial de 3 minutos deve apresentar algo em torno de uma
página, nada além disso.

Se você quiser conhecer todos os detalhes na hora da escrita de um

argumento, basta clicar aqui.

Escaleta

A escaleta é uma das ferramentas mais úteis para roteiristas. Ela consiste na

separação de cenas do seu roteiro. Toda cena, sem exceção, deve constar na

escaleta, junto com um pequeno resumo do que acontece naquele momento.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Exemplo de uma cena na escaleta:

CENA 01 - EXT. CASA - DIA

ROBERTO entra em casa e percebe que a família não está. Fica

desesperado. E liga para a emergência.

Com a escaleta você consegue identificar diversas características antes de

escrever o roteiro propriamente dito:

- Cenas que funcionam

- Cenas que não funcionam

- Onde está posicionado o Gatilho da História

- Onde está o Clímax

- Como estão distribuídos os Pontos de Virada

- Qual o valor do filme, em relação ao tamanho da produção

Você pode utilizar cores para isso. Cenas que representam trocas

DICA: de ATO podem ser de uma cor. Cenas que unidas formam o clímax
podem ser de outra. E assim sucessivamente.

Escrever sem escaleta é como escrever sem luz nenhuma, você pode até

conseguir de alguma forma, mas o resultado será muito melhor e o processo

muito mais prático com o uso dessa ferramenta.

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Os 7 Passos para Criar uma História

Roteiro

Finalmente chegamos aqui. Depois de tanto falar sobre os assuntos que

envolvem a escrita, chegou a hora de escrever o que vai ser o produto final, as

páginas que serão gravadas pela câmera, o roteiro do seu filme.

O texto, neste ponto aqui, tem uma linguagem própria e você deve estar

atento(a) a algumas regras básicas. Tudo o que está no texto deve ser filmado,

isso significa que dentro do seu roteiro não pode ter pensamentos de

personagens nem uma linguagem romantizada. As palavras devem ser claras e

precisas, toda a poesia de um roteiro deve estar no subtexto: você não escreve

sensações, cenários, figurinos, luz, etc.

Veja aqui exemplos de não roteiros.

Outra coisa importante é não dar instruções para a câmera, seu dever é contar

uma boa história e sua função para por aí, o resto é tarefa do diretor e da equipe.

Agora que você chegou até o processo final de escrita, precisa saber que não vai

ser fácil e as palavras não vão cair do céu. Escrever é um processo consistente,

cansativo e contínuo que você deve construir ao longo do tempo, exige paciência

e perseverança.

Saiba mais sobre a formatação do roteiro clicando aqui.

Como me organizar para escrever melhor?

O escritor precisa ter uma rotina. Isso significa que você precisa adquirir o hábito

de escrever e carregar isso para sua vida. É um exercício que funciona como

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Os 7 Passos para Criar uma História

qualquer esporte (ou como qualquer atividade), quanto mais você pratica, melhor

você fica.

É imprescindível saber se organizar para escrever. É verdade, quase nunca

temos tempo, mas você precisa fazer o seu tempo dentro da sua rotina e incluir

essa atividade como uma prioridade na sua vida. Dessa maneira você vai ver

seus textos fluírem naturalmente, assim como o conhecimento que você vai

adquirindo ao longo do tempo com livros, vídeos, cursos, etc.

Adquirir o hábito de escrever é uma das coisas que vão definir se você consegue

manter sua história até o final, até o último tratamento. Nessa jornada, assim

como seus personagens, você irá passar por diversos desafios e uma das armas

mais poderosas para sua vida criativa é colocar o hábito de escrever dentro da

sua vida.

Melhor escrever um pouquinho por dia do que passar o sábado


inteiro escrevendo. Hábito se adquire no cotidiano. No início, você
precisa se disciplinar: fazer todos os dias um pouco. Mas depois,
DICA:
quando vira hábito, você pode riscar aquilo das suas metas. Ele já
está acontecendo.

Outros dois fatores importantes são: motivação e especificidade. Não motivação

emocional (bem, isso também é importante), mas algo direto.

“Vou escrever um longa porque vai abrir um edital”. Isso é um motivo.

“Vou escrever um curta porque tenho um amigo produtor. Ele disse que pode ler

minha história no mês que vem”. Isso é um motivo.

Digamos que você pense: “preciso ler mais livros, sinto falta disso”. Se você não

tiver um motivo, pode acontecer de, daqui a cinco anos, você continuar com a

mesma vontade. Então, sugiro que você crie um blog e diga: “vou ler um livro a

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Os 7 Passos para Criar uma História

cada 15 dias e vou escrever um artigo sobre cada uma das obras”. Isso é um motivo.

E quanto mais específico você for dentro da sua motivação, mais você tem continuidade.

“Vou escrever o roteiro de meu longa-metragem em 60 dias”. Isso é um pouco específico.

Seja mais:

“Vou escrever duas páginas por dia, durante 60 dias e terei meu roteiro de 120 páginas ao

final de dois meses”.

Entende?

Isso facilita muito seu processo. Porque no momento em que você não escrever naquele

dia, você pelo menos saberá comparar ou mesmo dar a volta por cima: “bem, não escrevi

nada ontem, mas hoje tenho tempo e vou escrever 4 páginas”.

Mas tem algo muito importante: não se culpe. Às vezes, quando os 6 processos

anteriores à escrita foram mal administrados ou mesmo você está começando neste

mecanismo, é importante que você entenda que faz parte.

O bloqueio criativo faz parte. A demora ao decidir um motivo e uma especificidade

pode ser o combustível para você voltar aos itens anteriores e perceber onde você pode

melhorar. Pensar mais, criar mais, observar mais, administrar mais.

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CONCLUSÃO

Você está sentado(a) na sala escura. Uma sala de cinema linda. Você comprou o

ingresso há dias e escolheu a melhor poltrona. Tem em mãos uma pipoca gigante

e um guaraná bem gelado. O filme começa e você fica maravilhado(a). Você

enxerga o incidente incitante, os pontos de virada, o clímax, o arco dramatúrgico

do protagonista.

Você ama cinema e trabalha com isso (ou quer trabalhar).

O filme termina e você só tem a dizer:

- Cara, é isso que quero fazer o resto da minha vida: cinema!

Ok. Isso é muito bom, mas tome cuidado. Você acabou de perceber o resultado de

um filme. E geralmente a mídia faz isso. A sociedade faz isso. Quando você lê uma

reportagem sobre Steve Jobs há apenas um parágrafo dizendo as dificuldades

que ele teve para chegar “lá”. O restante é o resultado que ele trouxe ao mundo.

O filósofo Mario Sergio Cortella chama isso de Síndrome de Rocky Balboa. No

filme "Rocky", o personagem principal de Silvester Stallone se prepara em três

minutos fílmicos, representados em cenas rápidas, para o confronto da sua vida.

A mensagem que o filme passa, naquele momento, é: “foi fácil chegar lá!”. Parece

fácil.

Não compare resultado com processo. Se atenha ao processo. Mergulhe de

cabeça e de corpo no processo. Não adianta você sonhar em ganhar o "Oscar" e

ficar treinando o discurso. Ao invés disso, esqueça o prêmio (ou seus amigos que

estão “lá”) e pense no passo a passo para construir uma ótima história.

Mergulhado(a) no processo, você sai do cinema interessado(a) em saber “como”

e “porque” aquele filme foi feito. E não no resultado. E ao mudar esse padrão de

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Os 7 Passos para Criar uma História

pensamento, na maioria dos casos você vai perceber que você já está “lá”. É o hoje

que está valendo.

Hoje você já é escritor(a). Hoje você chegou onde poderia estar. É impossível ser

melhor amanhã, se hoje você estiver esperando o amanhã. O seu sonho pode ser

o futuro. Mas a vontade, a meta não pode ser o amanhã. O chegar “lá”. O alpinista

quer chegar no topo, mas ele sabe que para isso acontecer ele precisa pensar em

cada um dos passos para subir a montanha. Não adianta ele pensar: um dia eu

subo.

Eu tenho um tio que há anos fala: quero comprar uma Range Rover. Um dia eu o

questionei:

- E porque até hoje você nunca comprou, tio?

E ele me disse triste:

- Porque eu não tive dinheiro.

Eu retruquei:

- Há quantos anos você está se planejando para comprar uma?

E ele não respondeu de imediato. Ele parou pra pensar. Estávamos em um almoço

de família, todos falando ao mesmo tempo. Sou descendente de italiano: todos

falam muito alto. Eu senti que, naquele momento, meu tio estava em seu silêncio

particular. Parecia que nada lhe batia ao ouvido. Aquilo seguiu por um tempo.

Depois de ele tomar todo o seu café e eu continuar na minha cerveja, ele me olha:

- Sabe...acho que se guardar um pedaço de meu salário posso realmente dar

uma entrada em menos de 3 anos.

Eu sorri. Talvez pela primeira vez na vida ele tenha realmente pensado no

processo. Tenha se questionado: o que eu preciso hoje? E a resposta é igual em

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Os 7 Passos para Criar uma História

qualquer situação: você precisa estar atento ao processo, ao momento. E não ao

“lá”.

Por isso, os 7 passos apresentados neste e-book não podem ser eliminados. Eles

são todos importantes. Todos levam sua ideia a um degrau adiante, em busca do

topo da história. Você vai encontrar a história. Mas não se abrace a ela. Abrace os

passos que você precisa para chegar lá.

Eu perco a conta de quantas pessoas me dizem várias vezes: “estou com um

projeto aí”. Existem pessoas que passam a vida com “um projeto aí”. Não deixe

o desejo lhe abraçar. Leonardo DiCaprio trabalhou muito pra estar onde está.

Iñárritu trabalhou muito pra chegar “lá”. Fernando Meirelles suou muito para

construir um primeiro longa ficcional.

Dê tempo ao tempo, não busque atalhos. Encontre um processo em que você

acredite.

Espero que estes 7 Passos Para Criar uma História possam lhe mostrar

um caminho a ser trilhado. Um movimento a ser colocado em prática. Não

acredite nos 7 Passos simplesmente. Coloque-os em prática e perceba se

funcionam para você!

Boa criação!

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