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Arruda, Wosley Costa

EXEGESE DO NOVO
TESTAMENTO
Guia para a exegese

Orientador: Prof. Adilton Cruz Coêlho

Palmas-TO
Fev./2018
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CONSIDERAÇÕES INICIAIS
“Fazer exegese” é um trabalho fascinante. Por seu intermédio procuramos interpretar a
Bíblia. Quando nos lançamos a essa tarefa, percebemos com gratidão que existe um enorme
instrumental científico à nossa disposição, fruto do labor abnegado de inúmeros pesquisadores
e pesquisadoras em diferentes áreas. Simultaneamente, nos damos conta das lacunas na
ciência. Estas fazem nossos juízos permanecer modestos, porque nem sempre é possível
emiti-los com o necessário grau de seguranças e fundamentação.
Mas o fascínio do labor exegético não se deve unicamente àquilo que, através dele, é
possível descobrir sobre a Bíblia. Neste caso, esta não passaria de mero objeto de
interpretação. O fascínio da exegese reside também no fato de que a Bíblia nos interpreta. Ela
é também sujeito de interpretação. Como palavra de Deus, ela “penetra até dividir alma e
espírito”, julgando “as disposições e as intenções do coração” (Hb 4:12). Assim, à medida que
vamos descobrindo coisas na e da Bíblia, ela vai nos descobrindo também. É precisamente
esta dialética de interpretar e ser interpretado que dá ao labor exegético um gosto todo
especial.

ALGUNS PASSOS PARA O PROCESSO EXEGÉTICO


PASSO 1. ESTUDE O CONTEXTO HISTÓRICO EM GERAL
Antes de estudar qualquer frase, parágrafo, ou alguma outra subseção de um
documento, é necessário que se tenha sempre uma boa ideia geral dele. Quem é o autor?
Quem são os destinatários? Qual é o relacionamento entre ambos? Onde os destinatários
vivem? Quais são suas circunstâncias no momento? Que situação histórica levou à
composição do documento? Qual é o propósito do autor? Qual é o tema geral ou preocupação
do autor? O argumento ou a narrativa têm um esboço facilmente discernível?
Leia todo o livro de uma só vez. Você precisa ter uma noção do todo antes de analisar
suas partes. Depois da primeira leitura, leia todo o texto do livro pela segunda vez e faça
anotações sobre o seguinte:

a) Descubra tudo o que puder sobre os destinatários. Eles são judeus ou gentios? Ou
uma combinação de ambos? Que relação eles têm com o autor? Existem indícios
sobre a sua situação socioeconômica?

b) Descubra tudo o que puder sobre o propósito. O autor explicitamente diz algo a
respeito? O que está implícito?

c) Observe ênfases especiais ou questões emergentes. Que palavras ou ideias são


frequentemente repetidas? Que vocábulos incomuns recorrem? O que, se for o
caso, essas coisas podem lhe informar sobre a ocasião ou o propósito?

d) Faça um esboço anotado de todo o livro (para ser visto no estudo mais adiante).
Depois de sentir-se mais à vontade com o livro como um todo, prossiga para os
próximos passos.
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PASSO 2. CONFIRME OS LIMITES DA PASSAGEM


Procure se certificar de que a passagem que você escolheu para a exegese é uma
unidade genuína e completa, ou seja, faça uma delimitação no texto, significa determinar os
limites da passagem, identificando a unidade do pensamento. O resultado desta delimitação
chama-se “perícope”. Em geral as Bíblias já trazem as divisões dos textos em perícopes,
embora o texto original não os contenha. Muitas vezes estas divisões são felizes. Em outras
tantas, entretanto, o trabalho editorial dos tradutores incorre em dois tipos de erros: a) Quebrar
uma unidade textual: isolando assim versículos do seu contexto; b) Manter dois assuntos
diferentes dentro da mesma perícope.

1. Elementos que indicam o início de uma perícope


Podem ser indicadores de uma nova perícope os seguintes elementos: a) Tempo e
espaço: o tempo pode indicar o início, a continuação, a conclusão ou a repetição de um
episódio. Da mesma forma, o espaço localiza fisicamente a ação e dá noção de movimento
(Mt 2.1; 4.1; 8.5; Mc 16.1; Lc 1.5). b) Personagens: Uma nova perícope pode iniciar com a
chegada, a percepção ou a mera aparição de um novo personagem, ou com a atividade de
alguém inativo até aquele momento (Mc 7.1; Lc 1.26). c) Argumento: uma nova perícope
pode ser identificada pela mudança de assunto, muitas vezes introduzida por “finalmente...”,
“quanto a...”, “a propósito de...” (1 Co 12.1; 2 Tm 4.6). d) Anúncio do Tema: alguns textos
retóricos anunciam ao término de uma argumentação os assuntos que serão tratados a seguir
(Hb 2.17-18 c/ 3.1 –5.10). e) Título: em alguns lugares felizmente tem-se os títulos dos
próprios autores (Ap 2.1,8,12). f) Vocativo e/ou novos destinatários: um vocativo explicita a
quem tais palavras são dirigidas, que podem ser os mesmos de até então (Gl 3.1; 1 Jo 4.1,7),
ou novos destinatários (Ap 2.1,8,12). g) Introdução ao recurso: quando o próprio texto
introduz a fala de um novo personagem (Lc 15.3,8,11). g) Mudança de estilo: pode acontecer
passando de um discurso para uma narrativa (Mt 10.4-5), da prosa para a poesia (Fp 2.5-6) ou
da poesia para a prosa (Mt 11.1-2).

2. Elementos que indicam o término de uma perícope


Por sua vez, os elementos que indicam o término de uma perícope são: a)
Personagens: o número de personagens pode ser multiplicado, obscurecendo o foco (Mc 1.45;
Lc 5.15), ou mesmo reduzido, provocando uma mudança de focalização (Mc 9.28; Mt 17.19).
b) Espaço: uma narrativa pode ficar desfocada quando há um deslocamento do tipo partida
(Mt 21.17) ou uma extensão (Mc 1.39). c) Tempo: pode acontecer uma expansão do tempo
que dispersa nossa atenção (At 10.48) e o chamado “tempo terminal” no qual o autor dá a
narrativa por concluída (Jo 13.30). d) Ação do tipo partida: normalmente o personagem
central sai de cena, separando-se dos demais (Mc 8.13). e) Ação terminal: são aquelas ações
ou reações decorrentes do episódio narrado (Mt 9.8). f) Ruptura do diálogo: freqüente em
controvérsias, onde o último a falar é o vencedor; é o clímax da discussão (Lc 14.5-6). g)
Comentário: o narrador interrompe sua exposição para fazer observações que dão sentido ao
relato (Jo 2.21-22). h) Sumário: o autor interrompe a narrativa para apresentar de modo
resumido o que acabou de expor (Jo 8.20; Lc 2.51-52).
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3. Elementos que aparecem ao longo da perícope


Alguns dos elementos que podem aparecer do corpo de uma perícope são: a) Ação:
aparece como o núcleo de uma perícope (narrativa), com indicações de tempo, espaço e
personagens (Mc 6.17). b) Campo semântico: grupo de palavras cujos significados estão
relacionados, por terem uma referência comum (tema, idéia, ambiente). Um exemplo no AT é
o texto de Gn 22.6-10, que utiliza o campo semântico “sacrifício”: lenha, fogo, cutelo, altar,
cordeiro, etc. c) Intercalação: a ação iniciada é interrompida para ser retomada mais a frente.
Temos como conseqüência um episódio dentro do episódio, como se fosse um sanduíche (Mc
3.20-21 e 30-31). d) Quiasmos: quando uma seqüência de palavras, frases ou idéias
reaparecem de forma invertida (Is 6.10). Várias perícopes podem estar agrupadas de forma
quiástica (Lc 9-18 – narrativa da viagem).

PASSO 3. FAÇA UMA TRADUÇÃO PROVISÓRIA


Uma vez concluída a “aproximação ao texto”, a tradução é o primeiro passo a ser
realizado na exegese. Ele é necessário pelo simples fato de o Novo Testamento ter sido
redigido originalmente em grego. Este passo exegético tem por objetivo levar intérpretes a:

o Inteirar-se dos princípios que regem a tradução de textos bíblicos.


o Realizar uma tradução própria do texto, do grego para o português.
o Avaliar outras traduções feitas em comentários exegéticos.
o Avaliar as modernas traduções do Novo Testamento quanto ao seu grau de
fidelidade ao texto original.

Princípios de Tradução:
A tradução de textos antigos encerra uma série de dificuldades, especialmente quando
se trata – como no caso do NT – de um texto escrito há dois milênios, num lugar distante e
culturalmente diferente do nosso.

1. O princípio da correspondência formal


Esse princípio sugere traduzir os textos literalmente, observando, sempre que possível,
suas características originais de estilo, métrica e gramática. Ele procura ser o mais fiel
possível ao texto original, evitando o recurso a interpretações, acréscimos ou explicações
adicionais. Procura preservar não apenas o conteúdo, mas também a forma do texto original.
Dentro do corpo da exegese, a tradução a ser feita, segundo este princípio, denomina-
se de tradução literal. Os recursos a serem empregados neste tipo de tradução são:

o Dicionários do grego bíblico e extrabíblico.


o Gramáticas do grego neotestamentário e da época intertestamentária.
o Edições interlineares do NT.
o Chaves gramaticais e/ ou linguísticas do NT.
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As vantagens da tradução literal são:

a) Ela nos familiariza com o texto grego que serve de base para a exegese, levando a
sério o fato de que o texto a ser interpretado foi escrito originalmente em língua diferente da
nossa;
b) Ela mostra que tradução implica sempre também interpretação. Isto ficará claro
principalmente em relação àqueles termos ou expressões para os quais os dicionários
apresentam diversas opções de tradução;
c) Ela aguça a nossa sensibilidade para o exame de outras traduções disponíveis, seja
em comentários, ou em modernas versões portuguesas do Novo Testamento.

Para realizar a tradução literal recomendamos o seguinte:

 Substantivos e verbos devem ser traduzidos, sempre que possível, segundo o


significado primário, ou seja, de raiz. Isto vale para os casos em que um termo tem um
significado básico, a partir do qual outros significados foram acrescentados
posteriormente. Ex.: o significado original de é “carne”, embora, de acordo com
os contextos específicos, possa adquirir vários significados derivados, como p. ex.,
“corpo”, etc. A tradução literal deve verter o termo pelo seu significado de raiz
(portanto = carne). Cabe à interpretação posterior verificar se, no contexto, ele
possui um outro significado. Este princípio naturalmente não poderá ser aplicado nos
casos em que já no grego um termo tenha claramente um sentido figurado ou
secundário!

 A tradução literal procurará respeitar a inclusão ou omissão dos artigos, bem como a
ordem original das palavras, desde que, naturalmente, isso não produza, em português,
um sentido diferente do que havia no original grego.

 Construções gramaticais “rústicas” podem ser preservadas. Quando melhoradas em


português para efeitos de compreensão, devem ser explicadas em nota de rodapé.

 É recomendável que intérpretes pouco familiarizados com o grego façam uma análise
gramatical e tradução de todas as palavras do texto, anexando-as à exegese em forma
de apêndice.

A tradução literal trará como resultado um texto muito parecido, em forma e conteúdo,
aos textos das traduções interlineares. Ela não visa apresentar o texto num “bom português”,
mas num português que consiga reproduzir, da melhor maneira possível, as construções
gramaticais, a ordem das palavras e a forma da língua original.

Por ser parte integrante do início da exegese, toda tradução literal terá um forte
caráter de provisoriedade. Ela necessitará de uma segunda tradução complementar ao final
da exegese.

2. O princípio da equivalência dinâmica


Como vimos, a tradução literal procura familiarizar o intérprete com as
particularidades do texto grego, sendo por isso realizada antes da interpretação do texto. Após
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o trabalho de interpretação, pode-se fazer uma segunda tradução, desta vez considerando os
destinatários atuais do texto e as particularidades do seu idioma. O princípio que rege este tipo
de tradução denomina-se de equivalência dinâmica, e a tradução assim efetuada de
idiomática. Por pressupor o trabalho interpretativo do texto, esta segunda tradução deverá ser
apresentada somente ao final da exegese.
Pressupõe-se que o princípio da equivalência dinâmica também procura traduzir os
textos de acordo com o seu significado original. Entende-se, contudo, que tradução fidedigna
implica mais do que reprodução fiel do conteúdo dos textos. É preciso que a tradução consiga
verter estes conteúdos com tal habilidade, que o impacto que o texto conseguiu produzir nos
primeiros leitores possa ser experimentado também pelos leitores ou ouvintes de hoje. Ou
seja: é preciso que a tradução comunique não apenas o conteúdo, mas também a dinâmica
linguística que originalmente revestia este conteúdo. Neste sentido, como afirmou Eugene A.
Nida, “traduzir é tentar estimular no novo leitor na nova língua a mesma reação ao texto que o
autor original desejou estimular nos seus primeiros e imediatos leitores”. Katherine Barnwell
resume da seguinte forma as qualidades de uma tradução segundo o princípio da equivalência
dinâmica.

UMA BOA TRADUÇÃO DEVE SER:

Correta: A tradução deve dar o sentido o mais exato possível da mensagem original.
Clara: A tradução deve produzir um texto bem compreensível. Não deve ter
expressões confusas ou que possam ser entendidas erradamente.
Natural: A linguagem da tradução deve ser completamente natural. Não deve parecer
uma tradução, mas soar como se um falante nativo tivesse escrito aquele texto.

O princípio da equivalência dinâmica trabalha com uma série de pressupostos. Para


que a tradução seja acessível ao povo, é preciso que se
tenha realizado uma exegese completa do texto;
leve rigorosamente em consideração o significado dos termos a partir do seu
contexto literário;
esteja profundamente familiarizado com a língua do povo para a qual se
deseja verter o texto bíblico.

3. Avaliação das modernas versões em português do Novo Testamento

Após efetuada a tradução literal do texto, o ou a intérprete deve estar em condições de


avaliar outras traduções existentes do seu texto. Sugerimos comparar a tradução própria com
outras traduções em uso, como as de Almeida, da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia na
Linguagem de Hoje e da Bíblia Pastoral. A comparação pode ser feita com uma versão
oficialmente reconhecida pela própria Igreja, com uma reconhecida por uma outra Igreja e,
ainda, com uma terceira que aplique o princípio da equivalência dinâmica, como é o caso da
Bíblia na Linguagem de Hoje. Este exercício comparativo terá por finalidade:

o Avaliar a fidedignidade das traduções em uso nas comunidades.


o Mostrar as várias possibilidades de tradução do texto.
o Levar o ou a intérprete a rever, eventualmente, sua própria tradução.
o Introduzir nas primeiras interpretações do texto, considerando, sobretudo, que
a tradução já implica parcialmente uma interpretação.
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A avaliação de traduções poderá orientar-se por alguns critérios. Estes compreendem,


sobretudo, perguntas relacionadas com acréscimos, omissões ou modificações. Os e as
exegetas poderão se perguntar se o texto das versões avaliadas:

o Omite termos ou expressões do original grego. Em caso positivo: qual a


natureza das omissões? Atingem conteúdos essenciais, como substantivos e
verbos, ou se restringem a partes menos importantes, como artigos ou
partículas? E, mesmo nestes últimos casos: as omissões alteram o sentido do
original grego?

o Acrescenta termos ou expressões ao original grego. Qual a natureza de tais


acréscimos? Eles apenas explicam as palavras gregas, ou as interpretam já num
sentido bem determinado?

o Modifica/substitui termos ou expressões do original grego. As modificações


implicam uma interpretação ou uma adaptação ao sentido específico dado pelo
contexto (p. ex.: traduz-se a palavra “fé” por “confiança”)? As modificações
implicam uso de expressões diferentes, mas com um sentido idêntico ao do
original, como é o caso na tradução de certas expressões idiomáticas? Ou a
modificação é uma tentativa de simplificar um texto original muito longo e
complexo.

PASSO 4. PESQUISE O PANO DE FUNDO HISTÓRICO-


CULTURAL
Estão envolvidas neste passo muitas questões que incluem: (1) O significado de
pessoas, lugares, eventos etc., mencionados na passagem; (2) O ambiente sociocultural do
autor e de seus leitores; (3) Os costumes e práticas do autor ou do orador, e de seus leitores ou
ouvintes; (4) A cosmovisão do autor e de seus leitores; e (5) A frequente intertextualidade
(ecos de linguagem e contexto do AT) achada nos escritos dos autores do NT.

PASSO 5. ANÁLISE DO CONTEÚDO


Nos passos exegéticos anteriores, vimos como os textos podem ser examinados em
seus aspectos literário, foral e contextual.
As perguntas a serem respondidas neste passo são:

1. Que conteúdos apresenta o texto?


2. Que significados tinham estes conteúdos na época da sua formulação?
3. Como e com que significados são usados dentro do texto?
4. Como querem ser entendidos e interpretados na perspectiva dos seus
formuladores?
5. O que o conteúdo do texto como unidade de sentido quer destacar? Qual é sua
intenção maior? Qual é seu objetivo último?

A análise de conteúdo é considerada, com razão, o “coração” da exegese. Seu interesse


precípuo reside na resposta a três perguntas básicas:
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o O que está escrito?


o Como entendê-lo?
o O que implica?

PASSO 6. NOVA TRADUÇÃO

A segunda tradução dentro da exegese


Afirmávamos no início deste guia para a exegese que era apropriado realizar duas
traduções dentro da exegese. Uma primeira, que procurasse ser tão literal quanto possível.
Esta havia sido prevista para o início da exegese. A segunda, reservada para a parte final,
deveria nortear-se pelo princípio da equivalência dinâmica e orientar-se, sobretudo, por dois
critérios:

o Apresentar um texto perfeitamente adequado à compreensão dentro da língua


receptora.

o Considerar todas as descobertas de conteúdo feitas ao longo do trabalho de


interpretação.

O propósito e as implicações desta segunda tradução serão exemplificadas no trecho


de Mt 17:24-27. O texto é o seguinte:

V. 24: Tendo eles chegado a Cafarnaum, dirigiram-se a Pedro os que cobravam o


imposto das duas dracmas, e perguntaram: Não paga o vosso Mestre as duas
dracmas?

V.25: Sim, respondeu ele. Ao entrar Pedro em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo:
Simão, que te parece? de quem cobram os reis da terra impostos ou tributos:
dos seus filhos ou dos estranhos?

V.26 Respondeu Pedro: Dos estranhos. Jesus lhe disse: Logo, estão isentos os
filhos.

V.27 Mas, para que não os escandelizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro
peixe que fisgar, tira-o; e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o, e
entrega-lhes por mim e por ti.

Limitamo-nos às seguintes considerações sobre uma possível segunda tradução deste


texto:

o No português a referência a eles na primeira frase do v. 24 é dúbia: pode tanto


sinalizar “os que cobravam o imposto das duas dracmas” quanto Jesus e seus
discípulos. Se a exegese optar pela segunda interpretação, a tradução adequada
seria: “Tendo Jesus e seus discípulos chegado a Cafarnaum...
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o A referência ao imposto das duas dracmas (v. 24) e ao estáter (v.27) não pode
ser compreendida pelo leitor atual, já que se trata de impostos e moedas não
mais conhecidas. A pesquisa exegética identifica no “imposto das duas
dracmas” um tributo devido anualmente ao templo de Jerusalem (cf. Ne
10:33). A dracma era uma moeda grega que correspondia a um denário
romano, ou seja, ao salário de um dia de trabalho (cf. Mt 20:2). Por fim, o
estáter era uma moeda de prata grega no valor de 4 dracmas – 4 denários.
Como traduzir estas referências? Uma sugestão para a tradução seria a
seguinte: “dirigiram-se a Pedro os que combravam um imposto anual a ser
pago para o templo, no valor de dois dias de trabalho. E perguntaram: Não
paga o vosso Mestre as duas moedas de prata [para o templo]? (v. 24). A
referência ao estáter no v. 27 poderia ser traduzida de forma idêntica:
“...abrindo-lhe a boca, acharás uma moeda de prata, chamada estáter...”

o No v. 25 há inicialmente a referência à cobrança de “impostos ou tributos”


pelos reis da terra. No grego as duas palavras não têm sempre o mesmo
sentido: a primeira (), quando acompanhada da referência a outros
tributos, costuma referir-se a impostos indiretos (p. ex., o ICMS), enquanto que
a segunda () aos diretos (p. ex., imposto de renda, impostos prediais e
territoriais). Talvez, contudo, a expressão “impostos ou tributos” nem esteja –
no texto – interessada primeiramente numa diferenciação exata, e, sim, na mera
constatação de que alguns necessitam pagar e outros não. Se a exegese optar
por esta segunda interpretação, a tradução poderia ser: “De quem cobram os
reis da terra os vários tipos de impostos existentes?”

o A pergunta do v. 25 termina assim: “Dos seus filhos ou dos estranhos?” Ambos


os substantivos empregados nesta frase podem dar margem a falsas
interpretações. Em primeiro lugar: a quem se refere Jesus quando fala de seus
filhos? Pensa ele nos filhos dos reis e, por extensão, nos filhos das pessoas
ligadas à corte e aos membros da casa real? Ou entende ele por filhos os
súditos do reino de uma maneira genérica? Se a exegese optar por esta segunda
significação, a tradução mais apropriada para “filhos” seria cidadãos ou
súditos do reinado. O outro substantivo usado na pergunta, estranhos,
igualmente carece de interpretação. A política do Império Romano costumava
fazer os povos dominados arcar com pesadas cargas de tributos. Se Jesus
estava pensando nesta situação, uma opção melhor de tradução para o termo
seria estrangeiros ou povos dominados.

o A Bíblia de Almeida traduz a conclusão de Jesus no v. 26 por: “Logo, estão


isentos os filhos.” No grego, a palavra empregada para isentos é e
significa livres. Almeida parece interpretar corretamente o sentido do termo
dentro da frase de Jesus: de fato, ser livre em relação a impostos significa estar
isento do seu pagamento.
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PASSO 7. ATUALIZAÇÃO
A atualização da mensagem do texto para dentro da situação do ou da intérprete é o
último passo que propomos neste guia para exegese. A tarefa da atualização é construir uma
ponte entre o significado do texto no passado e sua relevância para os dias atuais. A
dificuldade inerente a esta tarefa reside no fato de que o contexto cultural, sócio-político e
religioso dos tempos bíblicos não é o mesmo de hoje. Isto significa que muitas vezes não é
possível estabelecer analogias diretas entre o passado bíblico e nosso presente. É preciso,
pois, transpor o sentido do texto para uma realidade nova, diferente e, por vezes, até contrária
à realidade de então.
A atualização pressupõe que a palavra de Deus, a despeito de ser sempre situacional e
contextual, tem uma mensagem perene e válida para além da situação concreta em que foi
formulada, pelo simples fato de que a verdadeira identidade da pessoa humana frente a Deus,
aos seus semelhantes e ao mundo criado permanece igual hoje àquela que foi no passado e
também àquela que será no futuro. O mesmo poderíamos dizer em relação a certos
paradigmas com que é interpretada a revelação bíblica de Deus: o êxodo, a amorosa aliança
de Deus com o seu povo, o reino de libertação aos cativos, a cruz e a ressurreição não são
meros acidentes históricos da ação divina entre as criaturas, mas, sim, características perenes
de como Deus se apresenta e quer ser compreendido e crido no seio da humanidade. É esta a
razão última que justifica o nosso esforço em pretender atualizar um texto antigo, por um
lado, mas eminentemente verdadeiro e atual por outro.
Os princípios que orientam uma atualização coerente dos textos bíblicos geralmente
vêm enumerados e tematizados dentro dos manuais de hermenêutica bíblica. Para nosso
propósito gostaríamos de referir-nos só sucintamente a alguns destes critérios de atualização.
Para tal servimo-nos inicialmente da orientação prestada pelo manual de hermenêutica de
J.M. Martínez, que destaca seis princípios básicos para uma correta atualização de textos, a
saber:

1. O significado atual de um texto não pode ser divorciado de seu significado


original...;
2. É preciso que se descubra o elemento comum ao contexto original do autor e
do leitor...;
3. É necessário fazer-se a devida distinção entre o cultural e o perenamente
normativo...;
4. Deve-se determinar o pensamento central da mensagem...;
5. Devem ser tomadas em consideração todas as partes do texto...;
6. Deve-se descobrir e respeitar o fundamento teológico do texto.

Na prática, tanto a atualização como a maneira concreta de apresentá-la variarão de


autor para autor, mas também de texto para texto. Duas recomendações têm se comprovado
como úteis no exercício de atualização:

1) Antes de iniciá-la, é conveniente que o e a intérprete estejam absolutamente


cientes do que constitui o centro e fundamento teológico do seu texto. Para tal é
útil formular um escopo do texto. “Escopo” significa “alvo, mira, fim, propósito,
intuito, intento...”. No escopo procura-se formular em breves palavras em que
consiste o propósito último e central do conteúdo analisado. Ele deve ser
formulado em estreita conexão com a análise da intenção teológica do texto. A
formulação do escopo deve ser sucinta e compreender poucas frases.
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2) Outro exercício que tem se mostrado proveitoso na tarefa de atualização é efetuá-la


não só em relação à sua dimensão pessoal, mas englobar também as dimensões
eclesial e social. Dentro desta perspectiva maior, uma atualização poderia
concentrar-se na resposta a perguntas básicas relacionadas com a mensagem
central do texto, ou seja:

o Que significado tem a mensagem do texto, o seu potencial evangélico


para mim, individualmente, como cristão? Que descobertas me
proporcionou sobre Jesus, sobre o evangelho e sobre mim próprio? Que
chamado representa a mensagem do texto para minha pessoa? Em que
sentido devo converter-me para atender a este chamado? Quais são
minhas reservas frente ao mesmo? Em que sentido estou vivendo sua
mensagem?

o Que mensagem traz o texto para a comunidade da qual faço parte e para
a igreja à qual pertenço e na qual procuro viver o discipulado? A
comunidade e igreja estão vivendo sua mensagem? Que resistências e
dificuldades apresentam elas frente às propostas do texto?

o Que perspectivas apresenta o conteúdo para a sociedade que integro?


Como é possível viver a mensagem deste texto em sociedade? Que
desafios apresentam para nossa organização social, econômica e política?
Que passos de conversão precisariam ser realizados para que a mensagem
do texto pudesse ser vivenciada em sua dimensão social fraterna?
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia, São Leopoldo:


Sinodal: São Paulo: Paulus, 1998, 414 p.

STUART, Douglas. Manual de Exegese bíblica Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida
Nova, 2008.

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