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Revista Portuguesa de Psicossomática

Sociedade Portuguesa de Psicossomática


medisa@mail.telepac.pt
ISSN (Versión impresa): 0874-4696
PORTUGAL

2004
Henrique Costa Pinto / Sónia Ramos / Rui Coelho
HISTERIA E PERTURBAÇÃO CONVERSIVA
Revista Portuguesa de Psicossomática, julho-dezembro, año/vol. 6, número 002
Sociedade Portuguesa de Psicossomática
Porto, Portugal
pp. 141-150
HISTERIA E PERTURBAÇÃO CONVERSIVA 141

HISTERIA E PERTURBAÇÃO CONVERSIVA


Henrique Costa Pinto*, Sónia Ramos**, Rui Coelho***

Resumo A HISTÓRIA DA HISTERIA


Neste trabalho os autores procedem
à revisão do conceito de histeria desde a A denominação de histeria é já bastan-
sua descrição original até à sua aplica- te antiga, tendo-lhe sido feita uma primei-
ção mais actual. Fazem também refe- ra referência no papiro egípcio de Kahun
rência às diversas propostas etiopatogé- onde se defendia que seria causada por
nicas e clínicas desta perturbação, dis- deslocações anormais do útero para o in-
cutem as principais características do terior do corpo e que o tratamento indi-
tipo de personalidade frequentemente cado consistia no uso de fumigações de
associada, bem como as principais pa- ervas cheirosas de forma a tentar repeli-lo
tologias a ter em conta no diagnóstico novamente para uma posição inferior.
diferencial. Finalizam com uma breve Posteriormente surge Hipócrates, em 460
referência respeitante ao prognóstico e a.C., que tenta diferenciar as diferentes
ao tratamento. formas clínicas da patologia tendo em
Palavras-chave: Histeria; Perso- conta as diferentes posições ocupadas pelo
nalidade histérica; Epilepsia. útero(1).
Na Antiguidade Clássica duas ideias
prevalecem: por um lado a histeria é con-
siderada uma doença orgânica resultante
da migração do útero através do corpo;
por outro, existe também uma forte asso-
ciação à continência sexual. Já na Idade
Média, e devido à influência da Igreja nes-
sa altura, a noção de histeria deixa de ser
relacionada com a sexualidade e surge
como uma doença associada à religião, ao
demónio, às ideias mágicas e sobrenatu-
rais, às histórias de possessão e feitiçari-
* Assistente Hospitalar de Psiquiatria no Hos-
as(2,3). Nesta altura, as neuroses desempe-
pital S. Gonçalo, Amarante. nharam um papel crucial na história da
** Interna Complementar de Psiquiatria no Hos- civilização, acreditando-se que surgiam
pital de Magalhães Lemos, Porto. na forma de epidemias em consequência
*** Chefe de Serviço de Psiquiatria no Hospital de contágio psíquico(4).
de S. João. Professor Associado de Psiquia-
tria e Saúde Mental na Faculdade de Medici-
Na altura do Renascimento, Paracelso
na do Porto. foi o primeiro a publicar um livro sobre

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patologia psiquiátrica defendendo que do. Desenvolveu uma teoria que de-
“todas as doenças do espírito são da terra fendia que um fluido magnético sai-
e não dos céus”. Este autor propôs a exis- ria de certos indivíduos favorecendo
tência de causas psicogenéticas e fantasio- a ocorrência de quadros convulsivos
sas na etiopatogenia da histeria. Thomas e de estados de transe (6).
Sydenham (século XVII), faz a distinção
entre causalidade externa (perturbações O final do século XIX vai ser marcado
excessivas do espírito) e causalidade in- por Charcot, um neurologista que intro-
terna (ruptura do equilíbrio entre o corpo duziu a noção de “lesão dinâmica” e apli-
e o espírito) e faz referência à elevada cou à histeria a metodologia da Neurolo-
ocorrência de simulações, mentiras e su- gia, efectuando uma observação e descri-
perficialidade por parte destes doentes(5) ção rigorosas dos sintomas e uma posteri-
aos quais se refere como “aqueles que or correlação anátomo-clínica (2). Este au-
amam sem medida quem mais tarde odei- tor argumentava que existiria na sua
am sem razão”(6). Assim, no Renascimen- génese patologia do Sistema Nervoso
to a etiopatogenia da histeria não está ain- Central (SNC), pelo que a histeria não se-
da totalmente definida. ria exclusiva das mulheres, e que factores
No século XIX, são três as teorias que psicogénicos estariam também envolvi-
predominam: dos, tendo desta forma valorizado a hip-
- Teoria psicológica de Pinel: este autor nose na histeria(1).
foi o primeiro a inserir a histeria na O interesse de Charcot pela histeria de-
classificação de Neuroses, sendo en- rivou do facto de dirigir em Salpêtrière
tão definida como uma neurose uma secção hospitalar onde predominava
genital, particularmente frequente a patologia histérica e epiléptica e de ter
na mulher na qual o psiquismo de- verificado que os doentes histéricos opta-
sempenhava um papel fulcral(7); vam, muitas vezes, por imitar as crises dos
- Teoria de tendência organicista de epilépticos, o que o levou mesmo a utilizar
Griesinger: para Griesinger a histeria nessas situações a expressão “histero-epi-
é a expressão de um sofrimento glo- lepsia”(6). Embora alguns autores dividam
bal dos centros nervosos e a sua etio- as crises descritas por Charcot em quatro
patogenia reside em lesões do apa- ou cinco fases (como P. Pichot)(8), optou-se
relho genital. Esta teoria vai de certa por seguir a descrição de três fases de acor-
forma ao encontro da teoria que do com Debray:
existia na Antiguidade, ao atribuir à - movimentos epileptóides (com imo-
insatisfação sexual a grande respon- bilização, sustendo a respiração e
sabilidade pelo desenvolvimento da acabando por passar à fase seguin-
histeria(6); te);
- Teoria do magnetismo animal de - contorções e grandes movimentos;
Mesmer: Mesmer foi tido na sua épo- - atitudes passionais (onde o doente
ca como um médico “maldito” que vai reviver cenas violentas ou eróti-
trabalhava com base no desconheci- cas)(9).

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Babinski, aluno de Charcot, defende EPIDEMIOLOGIA


que a histeria surge muito relacionada
com a sugestionabilidade e sugere o ter- A perturbação conversiva é a pertur-
mo “Pitiatismo”, procedendo à separação bação somatoforme mais frequente po-
entre o que pertence ao campo da Psiqui- dendo surgir em qualquer idade sendo,
atria e o que mais respeito diz à Neurolo- no entanto, mais comum em adolescen-
gia(3). tes e adultos jovens. Surge preferencial-
Pierre Janet, também discípulo de mente no sexo feminino(2); ao longo da
Charcot, defendia que a histeria decorria história a generalidade dos autores atri-
de um enfraquecimento da tensão psíqui- buíram esta patologia quase exclusiva-
ca que originava choques emocionais e mente ao sexo feminino. Os gregos não
recordações traumáticas(3). Janet descre- admitiam a ocorrência desta patologia nos
veu os fenómenos dissociativos como es- homens uma vez que para eles se tratava
tados em que o indivíduo, despersonali- de uma patologia provocada pela
zado, se entrega a actos automáticos não deslocação do útero. Areteo de Capado-
registados pela memória(9), apresentando cia, na Antiguidade, detectou casos de his-
os doentes com esta patologia uma enor- teria em indivíduos do sexo masculino e
me facilidade para vivenciar com intensi- também Sydenham, no século XVII, tor-
dade as imagens e por elas se hipnotizar(5). na a colocar essa possibilidade(5). No sécu-
Podemos, contudo, referir que a gran- lo XIX, Pinel, Carter e Griesinger defen-
de revolução no campo de histeria se deve dem a histeria como entidade nosológica
ao enorme contributo de Freud, também exclusiva do sexo feminino enquanto que
este trabalhou com Charcot. Juntamente posteriormente Charcot, Babinski e Freud
com Breuer, Freud publica o caso de Anna admitem a ocorrência dessa perturbação,
O. – uma jovem doente que apresentava também, no homem(4).
perturbações como paralisias, confusão
mental e inibição as quais, sob efeito da No que respeita à prevalência da pato-
hipnose, se foram esvanecendo(9). logia alguns estudos relatam taxas de
Posteriormente, Freud acaba por 33%, no entanto, estas variam bastante
abandonar a hipnose como forma tera- em função das regiões e da cultura sendo
pêutica recorrendo então ao método de notório um predomínio em populações
associação livre(6). Define, também, con- rurais, com baixo nível de escolaridade e
versão histérica como “a transposição de culturalmente menos desenvolvidas(2).
um conflito psíquico e tentativa de reso-
lução do mesmo em sintomas motores e
sensitivos”; desenvolve as noções de in- ETIOPATOGENIA
consciente e recalcamento e, influencia-
do por Sydenham e Pinel, elabora a no- A etiopatogenia difere no sexo femini-
ção de neurose(5). no e no sexo masculino, sendo no primei-
ro género mais frequente a ocorrência de
conflitos afectivos e sexuais como desen-
cadeadores do fenómeno e, no segundo

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género acidentes laborais traumatizantes Segundo os defensores da teoria com-


e factores relacionados com situações de portamentalista as perturbações conversi-
guerra(2). vas são adquiridas por aprendizagem me-
diante condicionamento clássico. Os indi-
A teoria psicanalítica defende que esta víduos aprendem na infância a agir como
perturbação tem a sua origem na repres- doentes manejando desta forma situações
são de conflitos intrapsíquicos inconscien- de maior gravidade conflitual ou que exi-
tes convertendo a ansiedade a eles associ- gem maior responsabilidade(5).
ada em sintomatologia do foro somático
localizada em regiões específicas do cor- Os sintomas conversivos podem ainda
po. Esta redução de ansiedade pode ser ser entendidos tendo por base a teoria só-
considerada como um ganho secundário cio-cultural que os encara como uma for-
sendo a sua permanência e gravidade re- ma de comunicação relativamente a um
forçadas pelo facto de o paciente estar en- sentimento que tem a sua expressão blo-
redado num conflito insolúvel pelo qual queada por restrições quer pessoais quer
não se sente responsável. Quando os im- culturais ou ainda como uma forma de
pulsos sexuais ou agressivos surgem num manipulação do comportamento dos ou-
campo de forte inibição de sua expressão, tros(10).
o conflito resultante sobrepõe-se aos me-
canismos normais de defesa do Eu do in- Vários autores têm, ainda, enfatizado
divíduo e surge, então, uma formação de a existência de factores biológicos na
compromisso sintomática na qual existe a etiopatogénese da perturbação conversi-
expressão parcial do impulso primitivo va. Pierre Flor-Henry sugeriu a existência
sem que o indivíduo perceba a sua vonta- nestes doentes de uma hipofunção dos
de inconsciente e o desejo inaceitável. sistemas do hemisfério não-dominante,
Tanto o ganho primário como o ganho se- uma hiperfunção do hemisfério domi-
cundário fazem parte da síndrome associ- nante e relações inter-hemisféricas anor-
ada à perturbação conversiva. Os doentes mais. Também alguns estudos neuropsi-
obtêm um ganho primário ao manterem cológicos têm valorizado um comprome-
os conflitos internos fora da sua consciên- timento subtil da vigília-atenção e da me-
cia e um ganho secundário pelo facto de, mória a curto prazo, uma maior sugestio-
ao se encontrarem doentes, conseguirem nabilidade e dependência nestes doentes
obter dispensas de obrigações e de situa- e a ocorrência de uma disfunção dos he-
ções sociais, ao mesmo tempo que obtêm misférios não-dominante direito e espe-
apoio por parte de outras pessoas (10). cialmente do dominante esquerdo. Esta
Para Freud a origem da histeria pode teoria da localização cerebral pode, de cer-
ser hereditária: os histéricos têm uma dis- ta forma, contribuir para uma melhor
posição hereditária para perturbações da compreensão do facto de esta patologia
actividade nervosa sendo frequente en- ocorrer com maior frequência no sexo fe-
contrar entre os seus familiares uma minino. Sabendo-se já que as mulheres
prevalência aumentada de epilepsia e de- apresentam uma maior instabilidade da
bilidade mental(4). organização hemisférica direita, foi pro-
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posta a existência de alterações no hemis- túnel e surdez uni- ou bilateral. Na ce-


fério esquerdo que poderiam interferir gueira de etiopatogenia histérica as pupi-
nas funções estabilizadoras inibitórias las são foto-reactivas e os seus potenciais
transcalosas normais de um hemisfério evocados visuais no electroencefalograma
contralateral direito instável(10). (EEG) são consistentes com os de uma vi-
são normal(10).
As algias são também bastante fre-
CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS quentes, podendo ocorrer isoladas, fixas,
temporárias ou de forma mais persisten-
As crises histéricas geralmente são bre- te. As algias explicam, de alguma forma, a
ves e surgem muitas vezes relacionadas frequência excessiva com que os indiví-
com situações de conflito. Actualmente é duos com perturbação histérica recorrem
raro encontrar-se na clínica o “grande ata- ao médico, a abundância de exames com-
que à Charcot”, que consistia numa es- plementares de diagnóstico e, ainda, os er-
pectacular crise de agitação psicomotora ros de diagnóstico que muitas vezes cul-
na qual o simbolismo sexual muitas vezes minam em intervenções médicas excessi-
estava presente(3). vas e desnecessárias(2).

É comum os pacientes terem dificul- No que diz respeito a sintomatologia do


dade em recordar alguns acontecimentos foro motor podem surgir fraqueza, paralisi-
podendo surgir a denominada amnésia as ou paresias (geralmente do lado não
infantil (amnésia essencialmente focaliza- dominante do doente, com manutenção
da naquela altura da vida); a amnésia se- dos reflexos neurológicos normais e sem
lectiva (que representa o esquecimento de se verificar fasciculação, atrofia muscular
uma experiência considerada pelo doen- ou anomalias electromiográficas), movi-
te como vergonhosa ou punível) ou ain- mentos involuntários, tremores rítmicos,
da episódios amnésicos agudos especial- espasmos episódicos, tiques, quedas, ble-
mente nos indivíduos do sexo masculino faroespasmo, torcicolo, opistótono. Pode,
(geralmente por detrás destes episódios também, observar-se a ocorrência de
agudos encontram-se situações de guerra pseudoconvulsões que geralmente não
que se revelaram traumatizantes)(2). são seguidas por um período de apatia, de
sonolência ou de confusão e nas quais há
Os sintomas sensoriais conversivos mais preservação de reflexos corneanos,
frequentemente observáveis são a anes- pupilares e mandibulares, além da ausên-
tesia, a hiperestesia e as parestesias das cia de respostas extensores plantares(10).
extremidades. Todas as modalidades sen- Também uma marcha atáxica e vacilante
soriais podem estar envolvidas sendo a com contracções e abalos grosseiros, agi-
sua distribuição inconsistente com a de tação das extremidades superiores e fre-
uma doença neurológica central ou peri- quente incapacidade em ficar em pé sem
férica. Os sintomas conversivos, não rara- apoio pode estar presente (astasia-abasia).
mente, envolvem os órgãos dos sentidos Geralmente a astasia-abasia é bastante co-
especiais produzindo cegueira, visão em mum no sexo feminino, tem a duração
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de algumas semanas a alguns meses e é como vómitos, dores abdominais e per-


precedida de sentimentos de insegurança turbações do sono sem que essas mani-
e de crises de angústia(2). festações constituam mecanismos de na-
tureza histérica(11).
Sintomas viscerais que ocorrem com al-
guma frequência são o vómito psicogéni- É raro o aparecimento de sintomato-
co (em que a avaliação gastrointestinal logia histérica após o período da meno-
não evidencia perturbação orgânica sig- pausa, no entanto quando aparecem têm
nificativa), a retenção urinária (em que na tendência a ser menos frequentes e a se-
avaliação urológica a dinâmica intracisto- rem menos espectaculares e geralmente
métrica é normal), pseudociese (que se são desencadeados por acontecimentos
caracteriza por cessação da menstruação, relevantes como o falecimento do cônju-
abdómen protuberante e elevação das ge ou o casamento de um filho(2).
hormonas séricas), a síncope e a diar-
reia(10). Podemos também observar espas-
mos faríngeos que geralmente são conhe- A PERSONALIDADE HISTÉRICA
cidos pela denominação de “bola esofági-
ca ou globo histérico”(2). A personalidade histérica caracteriza-
se por:
Quando a perturbação histérica ocorre Teatralismo: a pessoa histérica adquire
no sexo masculino estão por vezes presen- uma postura pouco natural, hiperexpres-
tes alterações da sexualidade como a siva, plena de caricaturas e imitações que
disfunção eréctil e a ejaculação precoce, tem como objectivo final atrair a atenção
podendo estes indivíduos representar pe- dos outros(12).
rante a sociedade o papel de sedutores Mitomania: estes indivíduos têm uma
dada a sua tendência para a conquista (Don enorme dificuldade em separar o real do
Juanismo)(5). imaginário, o verdadeiro do falso, os seus
fantasmas da realidade, sendo frequente
Uma histeria de conversão autêntica é fazerem-se passar por outras pessoas que
muito rara nas crianças, sendo mais fre- não elas próprias. A hiperfeminilidade das
quentemente encontrada neste grupo mulheres histéricas é muitas vezes uma
etário as somatizações mistas com uma forma de se esconderem de si próprias e
vertente neurótica e uma vertente psicos- se dissimularem perante os outros(12).
somática(3). É relativamente frequente as Falsificação da existência: o histérico fal-
raparigas apresentarem as seguintes ca- sifica as suas recordações e a sua existên-
racterísticas de personalidade: sugestiona- cia adquirindo uma linguagem exagera-
bilidade, tendência à imitação, hiperemo- da, enfática, imprecisa e um comporta-
tividade e exaltação imaginativa. As cri- mento inadaptado, acabando por viver,
anças usam frequentemente o corpo muitas vezes, num mundo totalmente
como forma de expressão do seu sofri- factício. É o seu imaginário erótico que sa-
mento e angústia, pelo que é habitual en- tisfaz a sua líbido pois a verdadeira satisfa-
contrarem-se manifestações somáticas ção sexual é para estes indivíduos muito
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difícil de obter. O prazer sexual das perso- -epilepsia. Contudo, Charcot no século
nalidades histéricas decorre essencial- XIX e Babinski no século XX estudaram
mente a nível dos seus fantasmas e não mais aprofundadamente as manifestações
tanto no acto em si. Incapaz frequente- histéricas e epilépticas passando a conside-
mente de amar, a personalidade histérica rá-las entidades distintas(13). Para Charcot a
não consegue separar-se de si mesmo e histero-epilepsia consistia numa situação
entregar-se livremente a outro(12). grave de histeria a qual incluía em sua ma-
Inconsistência do Eu: O Eu dos indiví- nifestação uma fase epileptóide. Freud de-
duos histéricos não é suficientemente fendia a total abolição do termo dado que
consistente de forma a permitir resolver para este autor constituíam duas patolo-
o conflito interno da sua identificação, o gias pouco relacionadas entre si e que só
que inevitavelmente perturba as suas re- ocasionalmente se encontravam presentes
lações com os outros(12). no mesmo sujeito(4).
Sugestionabilidade: é um fenómeno
clássico na histeria. São pessoas de uma Uma crise histérica geralmente ocorre
dependência extrema [inicialmente em durante o dia (podendo inclusive ocorrer
relação a seus pais e posteriormente em várias vezes durante o dia) na presença
relação ao(à) companheiro(a)]. Assim, de outras pessoas, tem factores desenca-
uma personalidade histérica é, por natu- deantes habitualmente de ordem emo-
reza, influenciável, inconsistente, oscilan- cional(14); um padrão de crise variável com
te e versátil(12). auras aparatosas, início progressivo em
que geralmente são tomadas por parte do
paciente medidas de segurança e a perda
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL de consciência quando existe é apenas
parcial. As convulsões são anárquicas, o
Apresenta-se como um problema de doente pode falar durante a crise(5,14), o
diagnóstico de perturbação conversiva a di- descontrole de esfíncteres é ocasional, não
ficuldade em excluir uma perturbação do é frequente ocorrer mordedura da língua
foro orgânico. A existência de uma doença e as consequências físicas da queda são
orgânica concomitante é comum em pa- pequenas lesões ou não ocorrem(4,5). O
cientes hospitalizados com perturbação doente responde de forma positiva a ma-
conversiva e, evidências de uma perturba- nobras sugestivas, a estímulos dolorosos e
ção neurológica actual ou de uma doença apresenta resposta plantar em flexão. A
sistémica com atingimento cerebral foram crise dura minutos ou mesmo horas sen-
relatadas em cerca de 25 a 50% dos doen- do a sua recuperação, regra geral, rápida.
tes com perturbação conversiva. A crise epiléptica, geralmente, tem um
início brusco, sem auras aparatosas, pode
Epilepsia ocorrer durante a noite estando o doente
A psiquiatria francesa do século XIX sozinho. O padrão das crises é constante e
relacionava a epilepsia com as neuroses, a perda de consciência é geralmente total.
mais concretamente com a histeria tendo As convulsões são simétricas, organizadas,
mesmo chegado a surgir o termo histero- não intencionais, o doente não fala du-
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rante as crises, o descontrole esfincteriano tamento voluntário e consciente o que as


e a mordedura da língua são frequentes. diferenciam da histeria de conversão, que
Não raramente ocorrem traumatismos por seu lado ocorre a um nível mais in-
graves devidos às quedas. Estes doentes consciente(9).
não respondem a manobras sugestivas ou
a estímulos dolorosos. A crise epiléptica Tétano
tem geralmente a duração de minutos, a A associação entre tétano e histeria é
recuperação é feita de forma progressiva, já bastante antiga, uma vez que ambas
termina com estado confusional e mal-es- podem ocorrer com convulsões, podendo
tar geral e acompanha-se de prolactine- ter factores desencadeantes comuns. O
mia elevada e resposta plantar em exten- quadro clínico e a história pregressa do
são(5). Outra característica diferencial é doente favorecem o diagnóstico diferen-
que o epiléptico se encontra pálido no iní- cial entre as duas patologias(5).
cio da crise e depois torna-se cianótico en-
quanto que o histérico mantém uma co- Hipocondria
loração de pele normal(4). Na hipocondria o doente apresenta
uma preocupação excessiva em ter doen-
É importante ter presente que a clíni- ça grave e é dificilmente reassegurado
ca é o elemento de diagnóstico mais im- pelo médico, apresentando-se por isso
portante e que apesar de o EEG poder re- bastante angustiado, descrevendo porme-
velar-se bastante útil na distinção entre norizadamente as suas queixas, multipli-
histeria e epilepsia (uma vez que geral- cando as suas consultas no médico e pe-
mente está normal quando estamos pe- dindo de forma obstinada os mais varia-
rante uma histeria e poder mostrar alte- dos exames complementares de dia-
rações patológicas na epilepsia) não serve gnóstico. As queixas, geralmente, reve-
isoladamente para fazer o diagnóstico. lam-se em vários domínios orgânicos po-
Convém, ainda, relembrar que a epilep- dendo ser cefaleias, dores torácicas, abdo-
sia e a histeria podem surgir no mesmo minais ou mesmo do foro ginecológico.
doente e que numa crise histérica o ex- Contrariamente ao doente histérico que
cesso de ansiedade pode favorecer no do- ao converter a sua ansiedade acaba por
ente hiperpneia que pode conduzir a mostrar-se indiferente aos sintomas (“belle
alcalose e desencadear, desta forma, um indifférence”), o doente hipocondríaco re-
quadro orgânico(5). vela-se bastante angustiado, reivindicati-
vo, agressivo e isolado.
Perturbações factícias
Estas perturbações constituem uma pa- Síndrome de Ganser
tologia grave no sentido em que o doente Foi descrito em 1897 por Ganser para
não hesita em ferir o próprio corpo para caracterizar um quadro clínico apresenta-
revelar uma perturbação somática. Assim, do por alguns prisioneiros que consistia
as perturbações factícias correspondem a numa alteração breve do estado mental,
sintomatologia física ou psíquica produzi- com um início e um fim brusco, que se
da intencionalmente, sendo o seu compor- acompanhava de perturbação da consci-
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ência, de alucinações e de respostas “ex- No tratamento sintomático, podem


travagantes”. Inicialmente este quadro clí- utilizar-se benzodiazepinas, neurolépticos
nico foi apenas descrito nos prisioneiros, sedativos e mesmo antidepressores(12).
tendo posteriormente sido observado em
doentes com esquizofrenia, neurossífilis,
acidente vascular cerebral, amnésia e Abstract
pseudo-demência(5). The concept of hysteria is reviewed
on this paper from the original
description to its most modern applica-
EVOLUÇÃO E PROGNÓSTICO tion. In this process, the authors refer to
the ethiopatogenic, clinical, diagnostic
Cerca de 90 % dos doentes que apre- and therapeutical aspects of this entity.
sentam uma perturbação conversiva me- Key-words: Hysteria; Histrionic
lhoram dos seus sintomas em dias ou em personality disorder; Epilepsy.
menos de um mês; 75% dos doentes po-
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