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ESPECIAL | PSICOTERAPIA BREVE

ANO XIII
No 301

psicologia • psicanálise • neurociência

NEUROCIÊNCIA

Videogames O efeito dos


mantras para a
preservação
da memória

podem deixar SENTIDOS


As diferentes

você mais maneiras de


interpretar estímulos
sensoriais

inteligente? ANIMAIS
Como a convivência
com bichos aumenta
O que neurocientistas dizem a capacidade de
sobre mitos e verdades a respeito concentração
do treinamento cerebral
carta da editora

Outros jeitos de jogar


U
m dos maiores fantasmas que passam a rondar as pessoas após os 40
anos (primeiro de forma tímida, mas aos poucos de maneira mais incisiva)
é o medo de ver a própria agilidade mental diminuída, seja por problemas
cognitivos em geral ou mais especificamente por causa do enfraquecimento da
memória e da capacidade de aprendizagem. Mais até do que as transformações
físicas, o receio de “se perder de si mesmo” assombra principalmente aqueles que
convivem (ou conviveram) com pessoas na família com algum tipo de demência.
De fato, os números são preocupantes quando se fala de patologias neuro-
degenerativas. O Alzheimer, por exemplo, atinge no Brasil algo em torno de 1,2
milhão de pessoas. Apenas metade delas se trata e, a cada ano, surgem apro-
ximadamente 100 mil novos casos. A estimativa é que esse número dobre até
2030 – ou seja, em apenas 12 anos – segundo dados da Associação Brasileira de
Alzheimer. Além disso, a cada duas pessoas com a doença, apenas uma sabe que
a tem. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que até 2050 o número de
casos aumente em até 500% na América Latina.
Atentos à crescente preocupação das pessoas em relação a essa progressão, nos
últimos anos várias empresas têm prometido desenvolver jogos digitais para tornar
o cérebro mais ágil. O treinamento, com recomendação para ser feito diariamente,
por aproximadamente de 30 minutos (dependendo do programa) é vendido como
uma forma de “aprimoramento intelectual”. Nesta edição de Mente e Cérebro, neu-
rocientistas esclarecem até que ponto esses métodos são realmente úteis.
Há benefícios, mas muitos pesquisadores argumentam que pode ser mais
interessante nos aprimorarmos com a prática de atividades naturalmente com-
plexas e mais gratificantes, como aprender uma língua, estudar um instrumento
musical, fazer esportes ou até mesmo brincar com alguns jogos de videogame.
Os exercícios físicos e a participação em atividades sociais, por exemplo,
comprovadamente ajudam a nos mantermos mentalmente saudáveis por mais
tempo, bem como a meditação e o cultivo de vínculos emocionais significativos.
Ou seja, conforme o tempo passa, mais raro ele se torna – até porque não sabe-
mos quanto de vida nos resta e adquirimos experiência suficiente para perceber
a preciosidade de cada escolha. Portanto, recorrer a atividades prazerosas, que
também sejam funcionalmente úteis, parece o melhor jeito de investir em nós
mesmos. Videogames podem até ser uma boa pedida – mesmo não sendo a
grande salvação de nossos neurônios.

Obrigada. Boa leitura!


GLÁUCIA LEAL, editora-chefe
glaucialeal@editorasegmento.com.br
sumário | fevereiro 2018

Videogames
capa podem deixar
você mais
12 inteligente?
Tem ganhado força
a ideia de que dedicar
alguns minutos por
dia à prática de 26 Bem mais que 5 sentidos
determinados Mais importante do que o número de “portas
jogos torna nosso sensoriais” que temos é a maneira como
cérebro mais ágil. nos relacionamos com essas capacidades.
Neurocientistas Pesquisadores estudam o “valor agregado”
esclarecem o que que o cérebro confere aos dados sensoriais
está comprovado brutos que apreendemos
sobre manter
por Bruce Durie
nossas habilidades
por Simon Markin
especial
8 O efeito dos mantras
sobre o cérebro
Avanços na
Exames de ressonância magnética
mostram que a memorização e a
recitação das sílabas produzem
36 luta contra
o que pesquisadores chamam de
“efeito sânscrito”: o aumento do
a ENXAQUECA
tamanho das regiões cerebrais
Depois de um
associadas à função cognitiva
longo período
sem novidades,
22 Bichos fofos aumentam neurocientistas
sua concentração começam a
Estudos desenvolvidos em centros de desenvolver
pesquisas de vários países mostram tratamentos que
que o convívio com esses simpáticos podem prevenir e
seres é capaz de alterar – para evitar as dores
melhor – vários aspectos da química por R. Allan Purdy e
cerebral. O resultado pode ser a David W. Dodick
diminuição do estresse, da depressão
e até de problemas cardíacos

4
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fevereiro 2018 • mentecérebro 5


cinema A FORMA DA ÁGUA.
123 min. Estados Unidos, 2017.
Direção Guillermo del Toro.
Elenco: Sally Hawkins, Michael
Shannon, Doug Jones, Richard
Jenkins, Octavia Spencer e outros.

A linguagem fluida do afeto


Espécie de conto de fadas sombrio, com toques eróticos, filme dirigido
por Guillermo del Toro lembra um sonho e fala de perto com o psiquismo

seu redor, mais duro e contundente.


Para a psicanálise,
N ão por acaso o filme A forma da
água tem atraído e emocionado
tanto espectadores. Em si, a trama não
a relação com o
Mas, assim que se levanta, começa
sua interação com a água – a que es-
corre da torneira, a que preenche o
traz grandes surpresas – é uma relei- estranho tem sido recipiente onde ferve ovos para o café
tura da recorrente luta estereotipada matéria de atenção da manhã, a banheira onde se mas-
entre o “bem” contra o “mal” (como e estudo. Freud turba durante o banho, as gotículas
se fosse possível separar o mundo que acompanha no vidro do ônibus
nessas duas categorias). No entanto, considera que o no começo do dia (na verdade, da
quando vemos a dicotomia tão clara- inquietante é algo noite, pois ela trabalha no período
mente apresentada, experimentamos já conhecido, mas noturno num centro de pesquisas de
certo alívio do qual nem sempre nos uma instalação militar como auxiliar
damos conta conscientemente: é
enclausurado; de limpeza).
relaxante que, ainda que por poucos quando sai de águas Muda, Elisa tem cicatrizes e um
minutos, saibamos com certeza onde profundas e vem passado de abandono, também mar-
está o “perigo”. Como um bom conto cado pela proximidade com o rio que
de fadas um tanto sombrio e com
à tona, provoca corta a cidade. Afetuosa, prescinde
toques eróticos, o filme dirigido pelo medo, mas também das palavras para se comunicar e fa-
mexicano Guillermo del Toro apre- atrai o olhar zer amigos. O vizinho Giles (Richard
senta ingredientes que falam de perto Jenkins), um pintor homossexual de
com nosso psiquismo. E é do feitio dos contos de fadas meia-idade em busca de um amor e de uma chance pro-
evocar fantasia e riqueza simbólica. fissional, e a melhor amiga, a tagarela Zelda Dalila (Octavia
Um tom onírico permeia as cenas. Na primeira delas, Spencer), sua colega de trabalho, são seus fiéis protetores.
aliás, a protagonista Elisa (Sally Hawkins) sonha com um O antagonista – verdadeiro monstro da história – é o
mundo submerso. Ao despertar, tudo se torna seco ao militar Richard Strickland (Michael Shannon), o arquétipo
6
divulgação

do homem mau, sádico, misógino, abusivo e racista. A panhia das Letras). Para Freud, o estranhamento tem ori-
história se passa na década de 60, em plena Guerra Fria, gem em traumas da infância, é recalcado no inconsciente
quando Strickland captura um ser anfíbio (Doug Jones) e se torna, ao mesmo tempo, “familiar” e “suspeito”. O
de forma humanoide na América do Sul. Cultuada pelos criador da psicanálise considera que o inquietante é algo
povos nativos (possivelmente da Amazônia) como uma já conhecido, mas enclausurado. Quando sai de águas
espécie de deus, a criatura é torturada pelo militar que profundas e vem à tona, pode provocar medo. Mas tam-
insiste em afirmar seu poder e se manter no controle. bém atrai o olhar, é difícil ficar indiferente.
Aquilo que ele não conhece ou não entende o apavora O homem anfíbio, visto por Strickland e outros mi-
– e desperta sua ira. Nada o alegra, nada lhe parece su- litares como monstruoso, na verdade espelha a própria
ficiente: prevalece sempre uma aura soturna de dureza e monstruosidade de quem o olha. Já Elisa apreende no es-
infelicidade, como convém aos vilões. tranho a beleza e a possibilidade do encontro. A violência
Aos poucos, a faxineira se aproxima do anfíbio. Para é às vezes explícita, às vezes latente – mas há saída, existe
ela, não há motivo de temor, oferece ovos e apresenta a bondade e esperança. É possível que, por isso, além do
ele uma de suas paixões, a música. A história de amor se conflito da história em si o que prevaleça seja a emergên-
torna inevitável: os dois são “incompletos” como diz Eli- cia dos conflitos pessoais e a possibilidade de vê-los, por
sa, em linguagem de sinais (como se algum de nós fosse algum tempo, flutuar leves, na cadência da água.
completo). Ainda assim, essa percepção os aproxima de A linguagem proposta, assim como a usada por Elisa,
forma delicada, em contraste com a brutalidade do auto- foge ao convencional. Apesar do poder de cura, que se
ritarismo e do poder sem sabedoria. Os dois se encon- evidencia ao longo do filme, a criatura não confere a ela
tram em seus silêncios, em suas “estranhezas”. a recuperação da fala fluente. De fato, seu silêncio é, em
Para a psicanálise, a relação com o que estranhamos alguns momentos, a sua libertação. Além do mais, embai-
tem sido matéria de atenção e estudo. Há quase um sé- xo d’água não há espaço para sons, pelo menos não para
culo, em 1919, Freud escreveu o ensaio Das Unheimliche, aqueles com os quais estamos acostumados. Para Elisa e
na maioria das vezes traduzido para o português como O sua criatura amada a comunicação se dá pelo afeto. Entre
estranho e, mais recentemente, como O inquietante (Com- eles, a história é outra. (Por Gláucia Leal, editora-chefe)
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neurociência

O efeito
dos mantras
sobre o
cérebro
Exames de ressonância magnética mostram
que a memorização e a recitação produzem
o que pesquisadores chamam de “efeito
sânscrito”: o aumento do tamanho das regiões
cerebrais associadas à função cognitiva

fotos: tiago falótico


U
ma centena de homens jovens de repetir exatamente as sentenças ao fazer
vestidos com roupas tipicamente perguntas em aula. O desenvolvimento des-
orientais estavam sentados de per- sa capacidade, porém, não é exclusividade
nas cruzadas no chão, em fileiras, minha: outros tradutores do sânscrito me fa-
conversando entre si. Com um sinal do mestre, laram de mudanças cognitivas semelhantes,
o salão ficou silencioso por um instante e em o que me deixou ainda mais curioso. Havia
seguida começou a recitação. Sem pausa ou realmente um “efeito sânscrito” específico
erro, inteiramente de memória, os que esta- desse idioma?
vam num lado da sala entoaram uma frase e,
na sequência, os demais “responderam” com A IDENTIDADE DE VOZ
a linha seguinte. Vozes baixas e de barítono Quando entrei no programa de doutora-
preenchiam o corredor com uma prosódia do em neurociência cognitiva da Univer-
sonora, cada palavra era ouvida claramente e sidade de Trento, na Itália, em 2011, tive a
os braços em sincronia para marcar o tom e oportunidade de começar a investigar essa
o acento. O efeito era hipnótico: o som antigo questão. Os praticantes de sânscrito védico
que reverberava pela sala parecia envolver pri- da Índia treinam por anos para memorizar
meiro o cérebro e depois o corpo todo. Após oralmente e recitar com exatidão textos, de
20 minutos eles pararam em uníssono. Era 3 mil anos, transmitidos oralmente, com
apenas uma demonstração. A recitação com- quantidades de palavras que variam de 40
pleta de um dos textos sânscritos mais antigos mil a 100 mil. Queríamos descobrir como o
da Índia, o Shukla Yajurveda, leva seis horas. treinamento intenso de memória verbal afeta
Passei muitos anos estudando e tradu- a estrutura física de seu cérebro. O projeto
zindo sânscrito. O que mais fascinou foi o Parceria Índia-Trento para Pesquisa Avança-
aparente impacto das palavras repetidas da (ITPAR) possibilitou o recrutamento de PANDITAS, estudiosos
nesse antigo idioma sobre a mente e a me- panditas profissionais, na região de Délhi, tradicionais da Índia,
mória. Nos métodos tradicionais de apren- vinculados a várias escolas patrocinadas pelo memorizam com precisão
enorme quantidade de
dizagem da Índia, a memorização textual é governo. O passo seguinte foi usar o equipa-
textos sagrados e preces;
padrão: estudiosos tradicionais, chamados mento de ressonância magnética estrutural a prática pode funcionar
panditas, dominam poesia e textos em pro- (MRI) no Centro Nacional de Pesquisa do como proteção para a
sa. Monges budistas de diferentes linhagens Cérebro da Índia para escanear o cérebro de mente não apenas no
sentido espiritual, mas
também se dedicam a longas memorizações panditas e voluntários (que não recitavam também no âmbito
de textos sagrados e preces, mas – por ques- mantras) integrantes do grupo de controle. neurológico
tões práticas – em minhas pesquisas foram
focados particularmente os indianos. No en-
tanto, em qualquer linha, a tradição sustenta
que memorizar e recitar com exatidão as anti-
gas palavras e frases, conhecidas como man-
tras, numa espécie de meditação, aumenta
a memória e o raciocínio. Curiosamente, a
palavra mantra, em sânscrito, significa justa-
mente “controle (ou proteção) da mente”. E,
em termos neuroanatômicos, parece que é
justamente isso que essas entoações fazem:
protegem a pessoa de patologias graves que
causam a deterioração irreversível do raciocí-
nio e da memória.
Em minha experiência eu notei que,
shutterstock/arte fval

quanto mais estudava e traduzia o idioma


milenar, melhor minha memória verbal pare-
cia se tornar. Colegas acadêmicos e alunos
muitas vezes observaram minha habilidade
fevereiro 2018 • mentecérebro 9
neurociência

shutterstock
Os participantes das duas equipes tinham na tentativa de imaginar o cérebro de pandi-
idade, gênero, habilidade manual, acuidade tas sânscritos treinados profissionalmente na
visual e auditiva similares. Índia. Embora essa pesquisa inicial, focada na
O que descobrimos na análise estrutural de comparação intergrupal da estrutura do cére-
MRI foi notável. Numerosas regiões cerebrais bro, não possa abordar diretamente a questão
dos panditas são dramaticamente maiores do do efeito sânscrito (que requer estudos funcio-
que a daqueles que compunham o grupo de nais detalhados com comparações de memo-
controle, com mais de 10% mais matéria cin- rização em linguagem cruzada, para os quais
zenta em ambos os hemisférios cerebrais e au- atualmente estamos buscando financiamento),
mentos substanciais na espessura cortical. Em- encontramos algo específico sobre a relação en-
bora os fundamentos celulares exatos da maté- tre o treinamento verbal intensivo de a memó-
ria cinzenta e as medidas de espessura cortical ria. Uma pergunta parece inevitável: o aumento
ainda estejam sendo pesquisados, o aumento substancial da matéria cinzenta de áreas funda-
dessas métricas se correlaciona consistente- mentais da memória verbal dos recitadores de
mente com a função cognitiva aprimorada. mantras significaria que essas pessoas são me-
O mais interessante para a memória ver- nos propensas a patologias e memória devasta-
bal é que o hipocampo direito (região do cé- doras, como a doença de Alzheimer? Ainda não
rebro que desempenha um papel fundamen- sabemos, embora alguns relatos de médicos
tal na memória de curto e longo prazo) dos ayurvédicos da Índia sugiram que essa hipótese
panditas apresenta mais matéria cinzenta em seja bastante possível. Se for assim, isso levan-
quase 75% dessa estrutura subcortical. Mui- ta a possibilidade de que exercitar a memória
tas funções de memória são compartilhadas verbal pode ajudar pessoas idosas em risco de
pelos dois hipocampos (um em cada he- comprometimento cognitivo leve, retardando
misfério cerebral). No entanto, o direito é o ou, ainda mais radicalmente, impedindo o iní-
mais especializado em padrões sonoros, es- cio da degeneração.
paciais e visuais. Faz sentido, portanto, que Se assim for, o treinamento precisa ser
tenhamos encontrado grande quantidade exato. Um dia eu estava filmando quatro pro-
de matéria cinza no hipocampo direito dos fessores de meditação de nível avançado de-
entoadores de mantras: a recitação requer monstrando as diferentes velocidades de re-
codificação e reprodução de padrões de som citação. Em meio a uma longa sessão, os qua-
altamente precisos. Os meditadores mostra- tro pararam de repente. “O que está errado?”,
ram também espessamento substancial das perguntei. “Um de nós cometeu um pequeno
regiões do córtex temporal direito que estão erro”, respondeu um deles. Comentei que o
associadas à entonação e a características da deslize era absolutamente imperceptível para
fala, uma espécie de identidade de voz. mim. “Mas nós percebemos”, disse outro. E
Nosso estudo foi uma primeira incursão reiniciaram a recitação desde o início.
10
capa • treinamento cerebral

Videogames
podem deixar
você mais
inteligente?
A promessa: dedicar alguns minutos por dia à
prática de determinados jogos para tornar nosso
cérebro mais ágil. A realidade: quando a ciência e
o comércio se cruzam, os resultados nem sempre
são os mais confiáveis
por Simon Makin
Em meio a opiniões divergentes, o que se sabe é que
aumentar nossas habilidades intelectuais à medida
que envelhecemos não é tarefa simples. No entanto,
fazer parecer que alcançamos resultados positivos é
surpreendentemente fácil

ressiono algumas teclas do meu em 2005 os valores giravam em torno de US$

P notebook enquanto observo formas


coloridas surgirem na tela. Tenho
de apertar rapidamente a seta para
a direita se uma nova figura corresponde à
anterior, e a da esquerda se isso não aconte-
210 milhões e em 2012 já ultrapassavam US$
1,3 bilhão. A previsão é que esse número che-
gue a US$ 6 bilhões até 2020.
No início, escolas e prestadores de cui-
dados de saúde compunham a maioria dos
cer. Em seguida, em um teste de atenção, o consumidores interessados em adquirir pro-
objetivo é mudar o desvio de pistas virtuais gramas como os oferecidos pela Cogmed
para posicionar trens coloridos nas estações (que promete tratar transtorno de déficit de
correspondentes. É um pouco mais compli- atenção e hiperatividade (TDAH) e outros
cado, mas não muito mais interessante; fico problemas de aprendizagem). Hoje, porém,
entediado e minha mente divaga. De repente, clientes privados entre 55 e 70 anos lideram
percebo peças que surgem ininterruptamen- a lista nesse segmento em rápida expansão.
te no lugar errado. Isso não acaba bem. Es- Eles são atraídos por anúncios que prome-
tou determinado a virar o jogo e, com algu- tem aumentar o desempenho mental. Mui-
ma irritação, decido começar outro. Grades tas empresas garantem que o treinamento
quadradas aparecem. A sombra de algumas cerebral é capaz de ajudar os consumidores
muda rapidamente enquanto tento gravar as a manter as funções cognitivas na velhice ou
posições. As formas ficam cada vez maiores até mesmo prevenir demências. Esses ape-
e mais difíceis de assimilar. Mesmo assim los tendem a provocar um grande impacto,
consigo acumular boa pontuação. Resultado considerando que “ter a mente afiada” é uma
final: estou no percentil 92 de memória, 80 preocupação muitas vezes maior do que cui-
de velocidade – e 13 de atenção. Acho que o dar da saúde física, principalmente entre as
problema foi a falta de concentração, e o fato pessoas com mais de 50 anos.
de eu ser daltônico não colaborou. Apostando nisso, em geral, os anúncios
Acabo de fazer o Fit Test, da empresa Lu- costumam dizer que as empresas se orgu-
mosity, uma avaliação online gratuita e um lham em oferecer produtos “desenvolvidos
atrativo para novos clientes. A equipe Lumos por renomados neurocientistas” e “testados
Labs, que desenvolveu o programa, é um dos cientificamente”. Mas, assim que o treina-
maiores nomes da crescente indústria de “trei- mento cognitivo chegou ao mercado, há
namento cerebral”, ao lado de outros como aproximadamente uma década, as queixas
CogniFit, MindSparke, Cogmed, HAPPYneu- começaram a surgir. Céticos levantavam
ron, Posit Science e Jungle Memory. A empresa questões sobre a evidência dos benefícios e
de pesquisa de mercado SharpBrains, que faz apontavam falhas graves em muitos estudos.
estimativas de gastos globais com tecnologias A mídia rapidamente denunciou a indústria –
relacionadas com a saúde do cérebro (que in- “Jogos cerebrais são uma farsa”, publicou o
cluem softwares e “biometria”, como fones de New Yorker em um artigo de 2013. E, em ou-
ouvido com eletroencefalograma), revela que tubro de 2107, um grupo de mais de 70 neu-
capa

Defensores dos jogos para o cérebro se baseiam na


comprovação de que a neuroplasticidade ocorre ao
longo de toda a vida; essa capacidade do sistema
nervoso de se adaptar e se moldar a novas condições,
tanto no âmbito estrutural quanto no funcional, ocorre
quando temos novas experiências
rocientistas que seguem diretrizes do Centro que” (ciência ficcional) refere-se ao aprimora-
de Longevidade da Universidade Stanford e mento das habilidades mentais muito além
do Instituto Max Planck para o Desenvolvi- do foco no treinamento. Ou seja: hipotetica-
mento Humano, em Berlim, divulgou um re- mente, alguém que se torna hábil em empi-
latório que dizia: “Contestamos a afirmação lhar figuras geométricas na tela do computa-
de que treinamentos cerebrais podem ofere- dor passa a ter maior facilidade em memori-
cer aos clientes recursos neurais que ajudam zar informações do dia a dia, por exemplo. O
a reduzir ou reverter o declínio cognitivo, que pesquisadores esperam é que essa tarefa
considerando que não há evidência científica inclua habilidades de grande utilidade em ati-
convincente até agora sobre o assunto”. vidades do cotidiano.
Hoje em dia, pesquisas sobre o tema cons- Os primeiros estudos demonstraram ga-
tituem um mar de resultados conflitantes e ale- nhos em atividades muito semelhantes aos
gações contraditórias. Existem diversas razões próprios exercícios cognitivos. Em 1982, por
para tanta divergência, mas a raiz do problema exemplo, a psicóloga Karlene Ball, agora na
pode estar na complexidade da aprendizagem Universidade do Alabama em Birmingham, e
e inteligência – e, portanto, nas tentativas de o neurocientista Robert Sekuler, atualmente
medir aspectos da cognição. E num campo na Universidade Brandeis, conduziram um es-
onde até mesmo os cientistas mais talento- tudo em que treinaram pessoas para detectar
sos, sinceros e diligentes erram regularmente pequenas diferenças na direção do movimento
em excluir as possíveis fontes de erros e pro- de pontos numa tela. Os participantes aprimo-
pensões, pesquisas coordenadas pela indús- raram a capacidade de discernir alterações cada
tria exigem ainda maior cuidado. Quando a vez menores, mas essa habilidade era específi-
ciência e o comércio se cruzam, os resultados ca para a orientação das figuras no experimen-
nem sempre são os mais confiáveis. to. Se a via média girava mais do que 45 graus,
No entanto, duas conclusões emergem: os ganhos desapareciam; é provável que o trei-
treinar o cérebro de maneira eficiente, prin- namento tivesse pouca relevância para tarefas
cipalmente à medida que envelhecemos, é reais de acuidade visual, como dirigir.
muito difícil. Fazer parecer que alcançamos Nessa época, surgiram pistas intrigantes
resultados positivos, no entanto, é surpreen- de que o cérebro pode se transformar mes-
dentemente fácil. mo na velhice. Durante algum tempo, os pes-
quisadores acreditavam que esse potencial,
PARA GANHAR TEMPO chamado de neuroplasticidade, fosse restrito
Pesquisas sobre o tema remontam pelo me- a períodos específicos durante o desenvolvi-
nos a três décadas, e dessa época até hoje a mento. Mas o progresso em várias áreas da
“far transfer” (o termo é usado para falar da medicina, a maioria em relação à capacidade
transferência de aprendizado de uma área de recuperação de vítimas de derrame, forne-
para outra) tem sido o santo graal do treina- ceu novas evidências desse recurso cerebral
mento cognitivo. O termo “science-fiction-es- durante toda a vida.

14
Essas mudanças, porém, se tornaram
evidentes somente nas pessoas com vasta e
complexa experiência no mundo real. O de-
clínio natural relacionado com a idade pode
afetar a plasticidade. A capacidade do cérebro
de formar novas conexões não é um bem sem
ressalvas. É provável que com o passar dos
anos esse recurso seja menos importante do
que a estabilidade cerebral, que nos permite
manter a aprendizagem e os hábitos neces-
sários. Além disso, a neuroplasticidade é me-
tabolicamente cara (exige grande quantidade
SUSANNE JAEGGI: empresas costumam citar de energia), por isso, em adultos, essas altera-
estudo de 2008 desenvolvido pela neurocientista ções estruturais não ocorrem tão facilmente.
para referendar a eficácia de seus produtos; a
No entanto, no início de 2000 diversos es-
pesquisadora, no entanto, faz parte de um grupo de
neurocientistas que contesta que exercícios cerebrais tudos finalmente demonstraram que os efei-
possam oferecer aos clientes recursos neurais que tos do treinamento cognitivo não eram tão li-
ajudam a reduzir ou reverter o declínio cognitivo mitados como muitos acreditavam. Em 2002,
um grupo liderado pelo neurocientista Torkel
Klingberg, do Instituto Karolinska, em Estocol-
Os indícios de que o sistema nervoso adul- mo, decidiu aplicar tarefas “adaptativas” de
to saudável também pode se transformar são memória (em que o grau de dificuldade muda
bem relevantes para os “empresários da cog- de acordo com o desempenho da pessoa) em
nição”. O exemplo mais famoso é um estudo crianças com TDAH. Esse tipo de exercício
de 2000 com ressonância magnética funcional toma como base um princípio amplamente
(fMRI) da neurocientista Eleanor Maguire e aceito de que aprendemos melhor quando
seus colegas da Universidade College London somos levados ao limite de nossas capacida-
que constatou que motoristas de táxi da capi- des, de forma que não fiquemos nem muito
tal inglesa, que conheciam a cidade detalhada- entediados ou frustrados. Os pequenos par-
mente, demonstraram diferenças marcantes ticipantes apresentaram melhores resultados
na forma do hipocampo (região associada em testes de raciocínio e atenção em compa-
com o armazenamento de informações de na- ração com um grupo treinado com programas
vegação) em comparação com condutores co- não adaptativos. A equipe observou também
muns. Quanto maior era o tempo de estrada, algumas evidências de reduções nos sintomas
maiores eram as alterações. de TDAH: as crianças se tornaram menos pro-
pensas a se distrair nas tarefas.
A memória de trabalho, uma medida da
nossa capacidade de manter e manipular in-
formações diante de interferências, é o alvo
ideal para o treinamento cognitivo. Essa região
funciona como uma espécie de espaço mental
e está envolvida na leitura e resolução de pro-
blemas, além de se correlacionar com medi-
das de quociente de inteligência (QI). A cone-
xão com a inteligência em particular inspirou
shutterstock

fevereiro 2018 • mentecérebro 15


capa

em que os participantes deveriam tentar des-


cobrir relações entre formas abstratas (veja

reprodução MIND julho/agosto de 2015


ilustração ao lado). Resultado: o treinamen-
to ajudou a aumentar a inteligência fluida.
Quanto mais os voluntários se empenhavam,
mais aprimoravam essa capacidade. E bas-
taram apenas algumas horas de prática em
uma tarefa de laboratório. Por muito tempo,
os cientistas acreditaram que a capacidade
intelectual fosse fixa, mas essa descoberta
causou um grande impacto. A promessa da
transferência distante havia se materializado.
Jaeggi nunca procurou comercializar o
treinamento dual n-back, mas hoje em dia
têm surgido algumas de suas versões na
maioria das empresas de jogos de videoga-
me. Um grande número de fabricantes cita o
Medidas cognitivas são inevitavelmente imperfeitas, como revela uma ferramenta estudo de 2008 para referendar a eficácia de
comum utilizada para validar o treinamento cerebral. Matrizes Progressivas de Raven é seus produtos – embora Jaeggi, distanciada
um teste com padrões de formas que variam sistematicamente, com um elemento que
falta no final. Os participantes devem selecionar uma das várias opções que completa dessas alegações, tenha sido um dos que as-
logicamente a sequência. (A resposta é o número 5.) Pesquisadores estimam que 64% sinaram a recente declaração de consenso.
da variação na pontuação está relacionada com a inteligência fluida, o que torna a
avaliação uma das melhores medidas de raciocínio que existem. Mas o teste exige
também memória visual-espacial e velocidade de processamento, o que interfere nas
PROBLEMAS COM A MOTIVAÇÃO
conclusões sobre o raciocínio exclusivamente. Não demorou muito depois que a transfe-
rência distante apareceu para que os críticos
pusessem em xeque sua eficácia. Uma das
os psicólogos Martin Buschkuehl e Susanne principais preocupações envolve um proble-
M. Jaeggi e seus colegas da Universidade de ma central na psicologia: reagimos de mui-
Berna, na Suíça, a desenvolver um exercício tas maneiras complexas quando outros nos
cerebral para potencializar a memória de tra- estudam. Em uma recente série de revisões
balho. O treino “dual n-back” apresenta dois de pesquisa, psicólogos do Instituto de Tec-
fluxos simultâneos de informação: formas que nologia da Geórgia mostram que tendemos a
aparecem em uma tela e uma sequência de mudar nosso comportamento, em geral para
áudio de letras faladas. Os participantes de- melhorar o desempenho, quando sabemos
vem indicar quando uma figura ou um som que somos observados.
é o mesmo que n itens apresentados atrás. A E, como constatei por conta própria, a fal-
tarefa se adapta de acordo com o nível de habi- ta de estímulo pode causar grandes impactos
lidade da pessoa, alterando o valor de n. sobre tarefas cognitivas. Muitos estudos, in-
Em um estudo de 2008, a equipe de Jaeggi cluindo o de Jaeggi, utilizaram os chamados
dividiu 34 jovens adultos saudáveis em qua- grupos de controle sem contato, em que os
tro grupos que passaram por treinamentos participantes fazem os testes no início e no fim
cerebrais de diferentes durações. Psicólogos do estudo, mas permanecem longe dos pes-
diferenciam a inteligência “cristalizada” (que quisadores entre esses períodos. Essa aborda-
envolve o conhecimento adquirido) da “flui- gem é mais econômica, mas é inerentemente
da” (a capacidade de raciocinar sobre um as- problemática porque menor interação com os
sunto novo). Jaeggi e seus colegas avaliaram cientistas pode significar menor motivação.
os efeitos de exercícios cerebrais realizados Uma das soluções é usar grupos de con-
com testes desse segundo tipo de raciocínio, trole ativos, com voluntários que tenham o
16
É possível que um dia a ciência desenvolva técnicas que
colaborem para nos manter afiados mentalmente por mais
tempo; até agora, porém, o que as pesquisas mostram é
que uma boa estratégia para se manter mentalmente ativo é
calçar o tênis e sair para uma corrida

mesmo grau de contato que os participantes cientistas não podem prever se um cérebro
do teste com os pesquisadores. Agindo as- que passou por esses exercícios vai mostrar
sim, alguns cientistas notaram que os efei- aumento no funcionamento (o que implicaria
tos da transferência distante desaparecem. maior processamento) ou diminuição (maior
Em 2013, os psicólogos Charles Hulme, da eficiência).(Veja ilustração abaixo).
Universidade College London, e Monica Mel- É difícil produzir e demonstrar a transfe-
by-Lervåg, da Universidade de Oslo, condu- rência distante; por isso, boa parte do treina-
ziram uma meta-análise que combinou da- mento cerebral se concentra na “transferên-
dos de 23 pesquisas sobre o treinamento da cia próxima”: exercícios que conferem bene-
memória de trabalho. Eles descobriram um fícios em tarefas que usam habilidades se-
pequeno aumento nas medidas de transfe- melhantes. Esse recurso é menos ambicioso,
rência distante do raciocínio não verbal, mas mas também menos controverso. Muitos es-
nenhum quando consideravam apenas estu- tudos mostram que treinar uma capacidade
dos com grupos de controle ativos. Jaeggi e cognitiva específica, como a memória, pode
seus colegas argumentam, em uma pesquisa ajudar a melhorar o resultado em outras ta-
de 2014, que os últimos experimentos não refas usando tal habilidade, mesmo que não
conseguiram reproduzir suas descobertas favoreça ganhos, por exemplo, em exercícios
porque os voluntários não se envolveram o de raciocínio.
suficiente nos exercícios e, portanto, não pu- No entanto, não é simples demonstrar por
deram colher seus benefícios. que o desempenho aumenta. Podemos nos
Ao mesmo tempo que psicólogos procu- tornar mais craques em algo simplesmente
ravam evidências comportamentais da trans- pela prática; por isso, os pesquisadores de-
ferência distante, os neurocientistas explora-
vam se o treinamento poderia induzir mudan-
ças na atividade neural, demonstrando assim AUMENTO DA ATIVIDADE
a plasticidade biológica que muitos acredita- cerebral não é a mesma coisa
que melhor desempenho
vam existir por trás dos benefícios. Para tenta- cognitivo. A imagem mostra
rem identificar alterações no funcionamento o funcionamento neural
cerebral, em geral os pesquisadores solicitam médio dos participantes em
um regime de treinamento
aos participantes que realizem uma tarefa em para aprimorar a memória de
um escâner de ressonância magnética funcio- trabalho. É possível observar
nal, tanto antes como depois do treinamento que a atividade cresceu
nas primeiras sessões
cognitivo. A interpretação desses resultados,
(vermelho), o que indica
no entanto, pode ser difícil. A questão é saber aumento no processamento,
se as diferenças na atividade mental refletem e depois diminuiu (azul),
mudanças genuínas na capacidade cogniti- refletindo provavelmente
maior eficiência cognitiva
va ou simplesmente alterações na estratégia
neural decorrente da prática. Além disso, os
fevereiro 2018 • mentecérebro 17
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Fatos e mitos
Empresas que comercializam exercícios cognitivos são ousadas na hora vem mostrar que os benefícios associados
de falar sobre os benefícios que seus produtos oferecem. Mas será que com o treinamento envolvem mais do que a
há alguma verdade nisso? repetição – é preciso utilizar testes que sejam
Jogos cerebrais são projetados por neurocientistas e testados
diferentes dos exercícios cerebrais. No entan-
cientificamente? to, elaborar uma tarefa que exija apenas uma
Verdadeiro – Alguns produtos desse segmento (Cogmed e Posit única habilidade cognitiva é praticamente im-
Science, por exemplo) foram de fato desenvolvidos por cientistas. As possível. Tudo o que fazemos envolve vários
empresas por trás dessas marcas têm realizado diversos estudos com processos mentais, de modo que os efeitos
pesquisadores independentes. A maioria, aliás, fundamenta os jogos
da prática de uma atividade podem influenciar
em tarefas cognitivas criadas por especialistas, por isso pode usar os
experimentos relacionados para falar sobre os itens que comercializam. o desempenho (veja quadro à esquerda). Uma
das únicas maneiras razoavelmente confiáveis
O treinamento cerebral pode aprimorar que pesquisadores têm para identificar em
o desempenho em tarefas cognitivas? que medida os progressos refletem mudanças
Questionável – A real surpresa seria se os exercícios não
reais de uma capacidade cognitiva, e não avan-
favorecessem pontuações mais altas na tarefa praticada. Mas isso não
indica aumento das funções cognitivas. Para que os resultados sejam ços na habilidade de fazer o teste por causa da
convincentes, as empresas devem demonstrar que os benefícios prática, é medir cada resultado com a ajuda de
são transferidos para atividades diferentes das praticadas durante o vários exercícios que sobrecarregam essa ca-
treinamento. pacidade de maneiras distintas.
Ainda melhor do que testes múltiplos é
Exercícios cognitivos ajudam a tratar o TDAH?
um conjunto de técnicas estatísticas sofisti-
É possível – Pesquisadores apontam resultados positivos,
principalmente em relação ao treinamento cerebral para a cadas chamadas pelos cientistas de medidas
memória de trabalho da Cogmed, em crianças e adultos com TDAH e de fator latente, que podem revelar alterações
outros problemas com atenção. Os benefícios, porém, ainda não são nas habilidades subjacentes. Esses métodos
claros; alguns, aliás, foram contestados. Os problemas incluem o uso exigem diversas baterias de testes e grandes
de medidas subjetivas, como a avaliação de pais ou professores, e as
amostras. Por exemplo, em 2010 o psicólo-
divergências sobre grupos de controle apropriados.
go Florian Schmiedek, do Instituto Alemão
Jogos cerebrais previnem o declínio cognitivo? de Pesquisa Educacional Internacional, e os
Questionável – Alguns estudos sugerem que certos tipos de neurocientistas Martin Lövdén, agora no Ins-
treinamento podem ajudar a aprimorar o desempenho em tituto Karolinska, e Ulman Lindenberger, do
tarefas diferentes das praticadas durante o regime, independentemente Instituto Max Planck para o Desenvolvimento
da idade do participante. Outros estudos descobriram, porém, que
adultos mais velhos não se beneficiam dos ganhos. Além disso, não há
Humano, utilizaram a análise de fator laten-
evidências sólidas do impacto na vida real. te em um dos estudos mais rigorosos sobre
o treinamento cognitivo até hoje. O regime
Exercícios cognitivos podem prevenir ou retardar a envolveu 101 jovens e 103 adultos, que rea-
progressão da doença de Alzheimer? lizaram seis testes de velocidade percep-
Falso – A maioria das empresas, na verdade, é muito cuidadosa
tual, três de memória de trabalho e três de
para fazer declarações explícitas de eficácia no tratamento da patologia
e prefere apenas sugerir fortemente que seus produtos se esforçam memória episódica, administrados em uma
nesse sentido. No entanto, os estudos não demonstram evidências de média de 101 sessões de uma hora ao longo
que jogos cerebrais podem ajudar a prevenir Alzheimer ou demências de seis meses. Os pesquisadores usaram 14
em geral. medidas para avaliar os resultados, cobrindo
as transferências distante e próxima. Eles en-
reinamentos mentais podem ajudar a ser um motorista
melhor
contraram efeitos da transferência distante
Verdadeiro – Há fortes evidências de que contribuem para a sobre a memória episódica e o raciocínio, que
velocidade de processamento de tarefas (apreensão do campo de visão permaneceram por pelo menos dois anos.
o mais rápido possível), o que pode nos ajudar a dirigir melhor, como Os ganhos, porém, foram muito pequenos.
demonstra a redução de manobras perigosas em testes reais de condução. Além disso, os adultos mais velhos não se
SIMON MAKIN é jornalista científico. beneficiaram, provavelmente por causa da
18
Praticar qualquer tarefa tende a aumentar os resultados
sem necessariamente melhorar o desempenho em outras
atividades; ou seja, o treinamento cerebral pode favorecer
o desempenho em determinados games, mas isso não se
transfere de forma automática para a “vida real”

plasticidade em declínio, o que sugere que os sentado atrás do volante na hora do rush.
exercícios cerebrais podem ser menos úteis “Há diversos estudos que mostram que pes-
justamente para aqueles que mais precisam. soas que praticam jogos cerebrais se tornam
Embora importantes, esses estudos são melhores nessa atividade”, diz a psicóloga
raros porque exigem muito esforço profissio- Laura Carstensen, diretora do Centro Stan-
nal e bastante dinheiro. Em 2014, em uma ford sobre Longevidade. “Mas a verdadeira
revisão de pesquisas sobre a transferência, questão é: a transferência para o lado de fora
Schmiedek e seus colegas descobriram que do laboratório ajudou a aprimorar o desem-
apenas 7% dos experimentos utilizaram me- penho?”. Nesse caso, parece que sim.
didas de fator latente e menos de um quarto
nem sequer usou múltiplas classificações. CUIDADO COM O QUE COMPRA
Ironicamente, evidências sólidas de que Apesar do fio de esperança no horizonte, ain-
as técnicas de exercícios cerebrais podem ren- da não há prova incontestável de que o trei-
der benefícios reais mensuráveis finalmente namento cerebral resulte em transferência
emergiram num ambiente não convencional. distante de habilidades cognitivas, seja algo
O treino de velocidade de processamento é medido pelo aumento do QI ou pelo impacto
baseado em uma medida referida a um cam- no funcionamento da vida real. Além disso,
po útil de visão (a amplitude de espaço que os pesquisadores ainda debatem a importân-
percebemos de relance), desenvolvido há cia da transferência próxima. Assim, as alega-
quase 30 anos por Karlene, da Universidade ções da indústria em relação a turbinar a inte-
do Alabama, e pelo psicólogo Daniel L. Roen- ligência, os padrões neurais ou até mesmo o
ker, da Universidade Ocidental de Kentucky. funcionamento mental de uma maneira fácil
A tarefa exige que o participante fixe o olhar e rápida cada vez mais tomam como base ar-
num objeto central enquanto tenta perceber gumentos inconsistentes.
o mais rapidamente possível em que lugar da Outro fator preocupante tanto para as em-
periferia visual outros objetos aparecem. presas como para os clientes: é possível que
A diminuição do risco de acidente de trân- a maneira como jogos cerebrais focam deter-
sito foi usada como medida para avaliar a minadas habilidades cognitivas individuais
eficácia. Em um estudo de 2003, Roenker e não favoreça a variedade, que ajuda a tornar
seus colegas descobriram que o treinamento a aprendizagem eficaz. Por exemplo, em um
cerebral resultou em uma queda de cerca de estudo de 1978, os pesquisadores Robert Kerr
um terço de manobras perigosas em exames e Bernard Booth, da Universidade de Ottawa,
de condução do mundo real. Ainda não está descobriram que crianças que treinaram ati-
claro se os exercícios ajudam a aumentar a rar almofadas em alvos a dois e a quatro pés
capacidade cognitiva ou simplesmente refor- de distância mais tarde demonstraram maior
çam uma habilidade útil em algumas circuns- precisão quando miraram em objetos a três
tâncias reais. Essas considerações teóricas, pés (um intervalo que não haviam praticado)
porém, são de pouco interesse para alguém em relação a outros participantes da mesma
fevereiro 2018 • mentecérebro 19
capa

shutterstock

ESTUDAR MÚSICA ou praticar esportes costumam ser atividades mais


eficazes do que o treinamento cerebral para prevenir o declínio cognitivo;
engajamento social também tem papel fundamental na preservação das PARA SABER MAIS
funções mentais
On the validity and
generality of transfer
effects in cognitive
training research. Hannes
Noack, Martin Lövdén e
faixa etária, mas que tinham treinado ape- De qualquer maneira, podemos nos apri- Florian Schmiedek, em
nas a distância de três pés. Isso sugere que morar com a prática de atividades natural- Psychological Research, vol.
78, nº 6, págs. 773-789;
aprender a modular relações pode ser mais mente complexas, mas gratificantes, como novembro de 2014.
importante do que a experiência específica. aprender uma língua, estudar um instrumento
Calisthenics for a child’s
Muitos fabricantes de jogos cerebrais po- musical, praticar esportes ou até mesmo brin- mind. Ingrid Wickelgren,
dem ter optado por uma abordagem falha. Di- car com alguns jogos de videogame. Todos em Scientific American;
videm a atividade cognitiva em componentes esses exemplos envolvem múltiplas funções maio/junho de 2013.

simples e os atacam com procedimentos alta- cognitivas simultaneamente e circunstâncias Is working memory
mente repetitivos. Esse esquema provavelmen- que se alternam constantemente, um cardá- training effective? A meta-
analytic review. Monica
te ajuda a ter melhor desempenho e de forma pio variado para ajudar a ampliar habilidades. Melby-Lervåg e Charles
rápida nos jogos, mas também pode produzir Exercícios físicos e ocupações sociais têm sido Hulme, em Developmental
Psychology, vol. 49, nº 2,
menor transferência. A Lumosity promete em constantemente associados ao envelhecimen- págs. 270-291; fevereiro
seu site que “apenas 10 ou 15 minutos diários to cognitivo saudável. Portanto, se você gasta de 2013.
do treinamento que oferece podem aprimo- 30 minutos por dia com treinamentos cere- Hundred days of cognitive
rar habilidades nesses exercícios ao longo do brais e isso significa deixar de passear com training enhance broad
tempo”. A afirmação pode ser verdadeira, mas seu cachorro, por exemplo, você está trocando cognitive abilities in
adulthood: findings from
não faz muito sentido. Praticar qualquer tarefa benefícios conhecidos por uma aposta. the COGITO study. Florian
pode contribuir para os resultados sem neces- Os exercícios cognitivos ainda têm um Schmiedek, Martin Lövdén
e Ulman Lindenberger,
sariamente melhorar o desempenho em outras longo caminho a percorrer. O problema, em Frontiers in Aging
coisas. Em outras palavras, conduzir trens co- como costuma acontecer, é que o negócio Neuroscience, vol. 2, artigo
nº 27; 13 de julho de 2010.
loridos numa tela não vai ajudar a desenvolver correu à frente da ciência. Na hora de faze-
essa habilidade no mundo real. rem o marketing sobre seus produtos, nem Exercising your brain: a
review of human brain
O fato é que é difícil vender jogos mais efi- todas as empresas se preocupam em se plasticity and training-
cazes porque são muito desafiadores. O trei- basear em evidências concretas. É possível induced learning. C. S.
Green e D. Bavelier, in
no dual n-back, por exemplo, é extremamente que um dia as pesquisas ajudem a desen- Psychology and Aging,
complicado e desagradável – um grande pro- volver técnicas que colaborem, pelo menos vol. 23, nº 4, págs. 692-
blema para a indústria, considerando que a um pouco, em determinadas circunstâncias. 701; dezembro de 2008.

perseverança do cliente é fundamental para Nesse meio-tempo, prefiro calçar meus tê-
que alcance os benefícios. nis e sair para uma corrida.
20
V Congresso
clínica psiquiátrica

Congresso direcionado à todos os profissionais


e estudantes da área da psiquiatria e saúde mental.
Data: 19,20 e 21 de abril de 2018
Local: CCr, Av. Rebouças, 600
Venda de ingressos no site:
clinicapsiquiatrica.org.br/2018

informações
gerais

Também em nosso site:


programação de palestras e cursos
palestrantes e seus currículos
valores de investimento
animais

Bichos fofos
aumentam sua
concentração
Estudos desenvolvidos
em centros de pesquisas
de vários países mostram
que o convívio com esses
simpáticos seres é capaz
de alterar – para melhor –
vários aspectos da química
cerebral. O resultado pode
ser a diminuição do estresse,
da depressão e até de
problemas cardíacos
shutterstock

22
“fofo”, em japonês) as pessoas ficavam mais
atentas a suas tarefas.
Em um artigo publicado pelo periódico
científico Plos One, os especialistas japone-
ses contaram a experiência: pediram 50 vo-
luntários, todos universitários, que executas-
sem tarefas que exigiam atenção, como um
popular jogo infantil oriental que consiste
em movimentar pequenos objetos com uma
pinça sem deixá-los cair.
shutterstock

Antes das atividades, metade dos volun-


tários viu fotos de bichinhos apresentadas
pelos pesquisadores. Justamente esse grupo
demonstrou muito mais foco e preocupação
com detalhes ao cumprir a tarefa. Segundo
os autores, mais que provocar emoções po-
sitivas, essas imagens despertam uma espé-
cie de instinto protetor, o que deixa as pes-
soas mais atentas e cuidadosas. “O aumen-
to da sensibilidade provavelmente estimula
movimentos mais suaves e precisos”, diz o
coordenador da pesquisa, Hiroshi Nittono.
Além disso, levar o amigo de quatro patas

J
á há alguns anos as pesquisas cien- para o trabalho torna a rotina mais amena,
tíficas têm mostrado que ter animais tanto para o dono do animal como para os
de estimação faz bem à saúde física colegas. Segundo estudo publicado no Jour-
e mental. A interação e o cuidado nal of workplace health management, adultos
costumam deflagrar a afetividade, a empatia que passam o dia em companhia de seu bi-
e o resgate da capacidade lúdica, mesmo em cho de estimação apresentam menores ní-
pessoas idosas. Mais recentemente, porém, veis de hormônios associados ao estresse,
vários estudos têm oferecido respaldo para a como o cortisol, ao fim do dia.
constatação de que os efeitos positivos dessa Pesquisadores da Universidade Virginia
proximidade entre raças vão ainda mais longe. Commonwealth colheram, durante uma se-
O convívio com animais teria efeitos sobre o mana, saliva de 450 funcionários de uma em-
metabolismo das pessoas, a ponto de influir presa de varejo que permite a presença dos
em aspectos da cognição. Uma das mais bichos de estimação. Aproximadamente 30
recentes e inusitadas utilidades dos animais deles levaram seu cachorro para o trabalho
é a habilidade de favorecer a capacidade de pelo menos um dia durante a pesquisa. Nes-
concentração dos humanos. E os bichinhos só se grupo, o nível de estresse diminuiu da ma-
precisam cumprir um único requisito: parecer nhã para a noite, ao contrário das pessoas
fofos para quem os observa. que deixaram seu bicho em casa e das que
Pesquisadores da Universidade de Hi- não tinham um. Estas, aliás, apresentaram
roshima estudaram o efeito que imagens maiores quantidades de cortisol.
de filhotes flagrados com alguma expressão A análise de questionários e entrevistas
divertida, fantasiados com roupinhas ou em revelou que o aumento da sensação de bem-
posições engraçadas exercem sobre a cog- -estar não fica restrito aos proprietários dos
nição. Eles descobriram que após observar animais. Observações como “ter cães aqui
fotos de um animal kawaii (que quer dizer alivia o estresse”, “os bichos aumentam a
fevereiro 2018 • mentecérebro 23
animais

cooperação” foram recorrentes. “A presença


dos cães motivou a interação com os colegas
e o ambiente de trabalho foi percebido como
mais amigável”, diz o autor da pesquisa,
Randolph Barker, ressaltando que os animais
que participaram do estudo eram “educados
e limpos, de forma que não causassem incô-
modo”. O estudo sugere que a presença do
cão ajuda o cérebro a relaxar e a interpretar o
ambiente como menos hostil. Barker preten-
de, agora, repetir o experimento em outras
empresas, com mais voluntários.
Um estudo desenvolvido pelos pesquisa-
dores Johannes Odendaal e Susan Lehmann Em outra investigação, os mesmos pes-
publicado pelo Journal of the American Asso- quisadores se empenharam em descobrir
ciation of Human-Animal Bond Veterinarian os efeitos que a proximidade com animais,
(AAHABV) também mostra que a interação associada à psicoterapia, tem sobre os ami-
entre cães e humanos deflagra, em ambos, noácidos presentes nos neurotransmisso-
a diminuição da ação do cortisol no organis- res de pessoas com depressão e se pode-
mo, provocando sensações de bem-estar. As riam causar mudanças químicas no cérebro
alterações hormonais afetam o nível de en- e no sistema imunológico. Seis voluntários
dorfinas beta, febilatalamina, prolactina e oxi- com diagnóstico de depressão participa-
tocina por períodos médios de 15 minutos. ram de um dos estudos mais recentes de
Odendaal. Durante a fase de teste, todos
recebiam diariamente a visita de um cão.
Foi comprovado que a interação entre Antes e depois eram realizadas medições
cães e humanos deflagra, em ambos, de aminoácidos na corrente sanguínea e o
que se constatou é que o convívio com bi-
a diminuição da ação do hormônio chos tornava os pacientes mais fortalecidos
do estresse, o cortisol, provocando do ponto de vista neuroquímico.
sensações de bem-estar Nessa mesma linha, um estudo com 6
mil pessoas realizado no Instituto Baker de
Pesquisas Médicas, Austrália, pelo médico
Warwik Anderson, mostrou que proprietários
de cães e gatos tinham taxas menores de co-
lesterol e triglicérides que aqueles que não
tinham bichos. Indiretamente, os animais
também trazem benefícios. Pesquisadores
do Centro Médico Hospitalar de Northridge,
Estados Unidos, constataram que apesar de
predispostos a doenças cardiovasculares em
decorrência de fatores de risco como fumo
e excesso de peso, os pacientes obtinham
melhoras significativas -– como diminuição
de pressão arterial e colesterol – após adotar
um bichinho de estimação que exigisse sua
dedicação diária, já que os cuidados, princi-
palmente com cães, motivam não só a troca
afetiva, mas também o exercício físico – em
especial as caminhadas.
Amando os animais e seus limites
Eles podem ser parte de nossa recuperação psíquica, mas também se prestam a suportar,
silenciosos, nossas formas mais patológicas de expressão de afeto e perversão

por Christian Ingo Lenz Dunker

Animais de estimação são como filhos,


mas filhos que não crescem nem nos
abandonam. Retribuem nosso amor com
sua presença e solicitude, sem conflitos ou
oscilações na qualidade afetiva, oferecendo
suporte simbólico para experiências de
reconhecimento, metafóricas e metonímicas,
centrais na formação e na reconstrução de
nossa capacidade de amar. Eles podem ser
parte de nossa recuperação psíquica, como
vemos na abordagem proposta por Nise da decisivos. Reduzindo o problema: animais nos
Silveira, mas também se prestam a suportar, convidam a investigar esse limite entre o amor
silenciosos, nossas formas mais patológicas metonímico (o outro como parte de mim) e o
de amar, como os acumuladores de cães ou amor metafórico (o outro como outro).
gatos, os que submetem animais a uma vida Quando amar se opõe a ser amado,
“demasiadamente humana” e, no limite, os segundo o tema clássico da correspondência,
estupradores crônicos de animais. Está em os animais tornam-se uma espécie de totem
jogo aqui a sutil diferença entre ser como de nosso amor primário, cujo exagero nos
um filho, amigo ou amante e ser o próprio faz entender a força irresistível da imagem de
bebê, companheiro e objeto de satisfação animais fofinhos, desamparados e supremos
erótica. Nossa gramática amorosa, definida em sua disponibilidade para receber e oferecer
pela inversão entre amor e ódio, entre amar a nossa mera presença como um presente.
e ser amado ou entre amar e ser indiferente, Metáfora do outro que um dia fomos, ou que
depende essencialmente deste “como se”. Por gostaríamos de ter sido. Quando tomamos a
isso, amar não é dissociável da poesia e suas inversão entre amar e odiar, entendemos por
práticas equivalentes. Por isso, em nosso amor que podemos dirigir nosso ódio aos animais,
pelos animais, nós os fazemos falar conosco, exercendo sobre eles crueldade impiedosa,
sentindo suas atitudes como fidelidade canina voracidade instrumental e ambição de
ou independência felina. domínio. Metonímia do que não suportamos
Portanto, animais domésticos são “como em nós mesmos.
nós”, eles vivem em nossa casa, como parte de Contudo, quando falamos da oposição
nossa família e extensão metonímica de nosso entre amor e indiferença, não estamos
modo de vida. No entanto, eles não são “nós”, nem no totemismo metafórico nem no
mas uma metáfora dos humanos, pois a eles animismo metonímico, mas no cruzamento
não aplicamos nossas leis, nem esperamos contingente de nossas perspectivas
sua participação na vida política. Justamente humanas, como uma espécie de destino
por isso eles colocam-se em posição decisiva comum e inumano. Desta feita, eles nos
para que exercitemos esse limite tão difícil ensinam algo sobre nosso próprio limite
entre o amor narcísico, no qual nos amamos que nos constitui, nos abrindo para formas
através do outro, amamos o outro como uma de amor ainda não descobertas.
extensão projetiva de nós mesmos, e esta
Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista pós-doutor
outra forma de amor, na qual sua alteridade, em psicologia, professor do Instituto de Psicologia da
sua estranheza e sua diferença são os fatores Universidade de São Paulo (USP)

fevereiro 2018 • mentecérebro 25


percepção

Bem
que
mais
5 sentidos
Não importa quantas “portas sensoriais” temos. Atualmente,
cientistas acreditam que o que realmente conta é a maneira como
nos relacionamos com essas capacidades, como se fosse uma
espécie de “valor agregado” que o cérebro confere aos dados
sensoriais brutos – e envolve não só sensações, mas também
memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados

Por Bruce Durie, jornalista científico

Q
uantos sentidos você tem? É
muito provável que tenha res-
pondido cinco, com base numa
ideia que vem desde os tempos
de Aristóteles e ainda é muito presente na
cultura popular. Mas é preciso saber que sua
resposta está equivocada. Tente pegar um
cubo de gelo com uma das mãos e um garfo
aquecido com a outra e poderá comprovar que
tato é pouco para descrever as duas sensações.
Ande num trem-fantasma, desses que existem
nos parques temáticos, e diga se tudo o que
vivenciou pode ser explicado apenas com a
visão, a audição e o toque. Não há dúvida
de que nossos sentidos não cabem apenas
26
em cinco categorias. No entanto, determinar Em geral, estamos cientes de nossa ca-
quantos são depende de como entendemos pacidade de sentir as variações de tempera-
os sistemas sensoriais. tura e de pressão, a posição das articulações
Uma possibilidade é classificá-los segundo (propriocepção), o movimento corporal (ci-
a natureza do estímulo. Assim, haveria apenas nestesia), o equilíbrio e outras sensações,
três tipos, em vez de cinco: mecânico (tato e como sede ou estômago vazio. Mas existem
audição), luminoso (visão) e químico (gusta- outros sistemas de monitoração dos quais
ção, olfação). Alguns animais também con- nunca teremos a menor noção, como a de-
tam com a eletrorrecepção. Esses três grupos tecção do pH do fluido cerebrospinal ou do
de sensações exigem sistemas sensoriais bem nível de glicose na circulação.
diferentes. Algo que se dissolve na língua, pro- Também poderíamos, com a mesma fa-
duz um aroma que penetra no nariz e se en- cilidade, definir “sentido” como um sistema
caixa em um receptor não tem nada a ver com formado por um tipo celular especializado que
o movimento de uma célula pilosa no ouvido reage a um sinal específico e se reporta a certa
interno ou com um fóton que atinge a retina. parte do cérebro. Assim, o paladar não seria
outubro 2017 • mentecérebro 27
percepção

ENCONTRO DE
SENSAÇÕES:
a obra O som
amarelo, de 1912,
é uma mistura de
cores, luz, dança
e ritmo

shutterstock
único sentido, teria quatro divisões, cada uma paradamente. À medida que estudamos em
voltada para a distinção de um sabor: doce, detalhes as estruturas dos órgãos sensoriais,
salgado, azedo e amargo. Os neurologistas parece que temos cada vez mais sentidos.
classificam a dor como cutânea, somática ou Entretanto, por mais intrigante que tudo
visceral, dependendo de onde é sentida, mas isso seja, a sensação sozinha não é realmen-
isso significa que estariam em diferentes sis- te tão importante assim. Quando falamos de
temas sensoriais ou que seria simplesmente sentidos, o que realmente queremos dizer
uma questão de geografia corporal? são sensações ou percepções. Do contrário,
Considere o exemplo da audição. Seria não estaríamos muito acima do nível de uma
um único sentido ou várias centenas, um ameba ou de uma planta. A maioria dos se-
para cada célula pilosa coclear? Talvez isso res vivos se vira muito bem com apenas dois
seja levar as coisas um pouco longe demais, canais sensoriais: tato e luz (não necessaria-
mas é interessante notar que podemos per- mente visão). Uma planta cujo crescimento
der a audição de alta frequência sem perder segue a luminosidade está meramente rea-
a acuidade de baixa frequência e vice-versa. gindo mecanicamente a um estímulo.
Portanto, talvez devêssemos pensar nelas se- Já os humanos veem luzes e sombras.
Além disso, percebemos objetos e pessoas
e suas respectivas posições no espaço. Ouvi-
Alguns pesquisadores trabalham com mos sons e identificamos vozes, músicas ou
a hipótese de que o cérebro esteja diversos ruídos. Sentimos o gosto ou o chei-
ro de uma complexa mistura de sinais quími-
organizado para fazer uma “mistura cos, e sabemos reconhecer a diferença entre
dos sentidos”; parece haver “conversas um sorvete, uma laranja ou uma berinjela. A
cruzadas” entre diferentes áreas sensoriais. percepção é o “valor agregado” que o cére-
bro organizado confere aos dados sensoriais
Não por acaso, identificamos objetos mais brutos. Ela vai muito além da paleta de sen-
facilmente se ouvirmos um som relevante sações e envolve memória, experiência e pro-
ao mesmo tempo que os vemos cessamentos cognitivos sofisticados.
28
ESCUTA SELETIVA
O que ouvimos, por exemplo, é bem mais Escritores, pintores
que o simples somatório de sons coletados
por cada ouvido. Vários processos entram e músicos
em cena, alguns dos quais permitem que o
cérebro identifique de onde vem o barulho.
Filtros complexos nos permitem barrar um O escritor russo Vladimir Nabokov (1889-1977) ainda era pequeno
tipo de som enquanto prestamos atenção a quando explicou a sua mãe que as cores das letras do alfabeto dos
outro. No conhecido “fenômeno da festa”, cubinhos de madeira que ganhara estavam “todas erradas”. A mãe
por exemplo, ignoramos todos os ruídos irre- entendeu perfeitamente o drama do filho porque, além de lhe ocorrer
levantes enquanto participamos de uma con- o mesmo, ela tinha outras sensações estranhas, como ver cores
versa, e conseguimos mudar rapidamente de enquanto ouvia música.
foco se mais alguém mencionar nosso nome. O compositor russo Alexander Scriabin (1872-1915) incluiu um
Isso significa que estamos sempre “ouvindo” teclado mudo e luminoso na sinfonia Prometeu, o poema do fogo. O
o som ambiente, mas nem sempre o esta- instrumento deveria acender e apagar luzes coloridas organizadas
mos “escutando”, a menos que ele se torne em forma de raios e nuvens, que se difundiriam pelo ambiente até
subitamente significativo. Nossa percepção culminar numa luz branca tão forte que provocaria dor nos olhos da
vai muito além da sensação pura e simples. plateia. Contemporâneo de Scriabin, o pintor russo Vassily Kandinsky
A vida dos animais é bem mais fácil. (1866-1944) desenvolveu mais profundamente o conceito de fusão
Em geral o dilema de sobrevivência deles, sensorial, explorando a relação entre som e cor e valendo-se de
quando deparam com outro ser vivo, se re- termos musicais para descrever suas obras. O som amarelo, de 1912,
sume a três perguntas: devo comê-lo, fugir é uma mistura de cores, luz, dança e ritmo. “Abandona teu ouvido
ou me acasalar? Nessa tomada de decisão, à música, abre teus olhos à pintura e para de pensar! Pergunta-
eles contam com tudo que puderem dedu- te somente se o pensamento te tornou incapaz de entrar em um
zir dessa nova experiência, bem como com mundo até agora desconhecido. Se a resposta for sim, o que queres
a memória de outras semelhantes. Contudo, mais?”, escreveu o pintor.
animais mais primitivos, com equipamento A mistura entre sons e cores esteve presente na vida do compositor
neural mais limitado, são facilmente engana- húngaro Franz Liszt (1811-1886), que costumava se dirigir aos
dos por flores de cores brilhantes ou por ad- músicos com frases do tipo “Não tão violeta, por favor”. Sem
versários que conseguem inchar e aumentar compreender, muitos deles preferiam levar na brincadeira, embora
de tamanho, que têm marcas que parecem Liszt afirmasse que
olhos ou exalam cheiros bizarros, para citar realmente via cores
apenas alguns truques que a evolução ela- enquanto regia
borou. Quanto mais alto na escala filogené- ou tocava. Outro
tica − o que significa processos perceptivos músico sinestésico
mais complexos −, menos o organismo está foi o americano
à mercê de seus sentidos primitivos. Duke Ellington
(1899-1974).
NÃO É O QUE PARECE
O ponto básico é que cometemos um erro
ao nos concentrar nos sentidos e, até, em
discutir a quantidade deles. O que importa
é a percepção – a sensação é o que a acom-
panha. Para os seres humanos, isso tem im- FRANZ LISZT (1811-1886)
dizia “ver cores” quando
plicações dia a dia. Uma delas é nosso julga- compunha ou tocava; o
mento de tamanho. compositor costumava se
A coerência de nossa visão de mundo dirigir aos músicos com
frases do tipo: “Não tão
nasce do fato de os objetos geralmente não violeta, por favor”
outubro 2017 • mentecérebro 29
percepção

Tomemos o estranho caso da sinestesia,


fenômeno de contaminação dos sentidos
que não chega a ser uma doença. As formas
mais frequentemente relatadas são sentir
sons, letras, números ou palavras associados
a cores. Até bem recentemente as pessoas
com sinestesia eram ignoradas, considera-
das delirantes e, às vezes, confundidas com
doentes mentais. Elas são capazes de falar,
com a maior naturalidade, sobre a textura de
um aroma, o sabor das diferentes letras ou
a melodia do gosto de um pêssego. O que
isso nos informa é que os sentidos não são
entidades independentes e que a percepção
é seu produto final.
É bem possível que o cérebro esteja or-
ganizado para fazer exatamente essa espécie
de “mistura dos sentidos” como parte do
processamento perceptivo. Acumulam-se as
evidências de que a conversa cruzada entre
diferentes áreas sensoriais mistura muito
mais coisas do que podemos imaginar. Iden-
SENTIMOS O GOSTO OU O CHEIRO de tificamos ou reconhecemos objetos mais fa-
alimentos, por exemplo, e interpretamos
uma complexa mistura de sinais químicos, cilmente se ouvirmos um som relevante ao
necessária para reconhecer a diferença entre mesmo tempo. Somos capazes até de acre-
um sorvete, uma laranja ou uma berinjela ditar que ouvimos algo diferente se formos
enganados por uma falsa leitura labial, que
mudarem de tamanho rapidamente. Assim, não condiz com o que é falado. Pergunte a
para objetos com os quais estamos familia- qualquer pessoa que sofra de enxaqueca so-
rizados, como um carro, quanto maior ele bre como um perfume pode desencadear a
parece, mais perto o percebemos. E mesmo dor. Possivelmente, todos nós temos essa
quando o vemos na televisão ou numa foto, facilidade em maior ou menor grau e é por
isto é, numa imagem pequena, “sabemos” isso que o blues é azul.
que ele não encolheu. Coisas que não fa- Obviamente, a confusão da nomencla-
zem parte de nosso cotidiano, no entanto, tura não ajuda. Algumas coisas comumen-
costumam nos enganar. As nuvens podem te rotuladas como “sentido” não são nada
PARA SABER MAIS
ter qualquer tamanho e forma, portanto, é disso (sentido de perda, sexto sentido etc.).
Os cinco sentidos.
difícil julgar sua distância. Trens são familia- Em compensação, nosso relógio biológico, Bartolomeu C. Queiroz.
res, mas a maioria de nós não percebe exata- que marca o tempo interno do organismo, Global, 2009.
mente o quanto eles são grandes, julgamos deveria ser incluído nessa lista. Ou seria isso Sinestesia, arte e
erroneamente sua velocidade e a que distân- parte da percepção, e não de um sentido? tecnologia: fundamentos
cias se encontram, o que, aliás, é uma causa Como de hábito, a ciência contesta crenças da cromossonia. Sérgio
Roclaw Basbaum. Editora
constante de acidentes. Não resolvemos es- cotidianas e se empenha em desfazer mitos. Annablume, 2002.
ses problemas nos torturando internamen- Dependemos muito de nosso aparato senso-
Percepção e realidade
te sobre quais ou quantos sentidos estão rial, e dizer que ele não é tão importante a – Introdução ao estudo
envolvidos, mas com a criação de um todo princípio pode parecer maluquice. Mais cedo da atividade perceptiva.
Antonio Gomes Penna.
perceptual. Isto é função cerebral superior, ou mais tarde, porém, essa história de cinco Imago, 1993.
ou seja, cortical. sentidos vai parar na lata de lixo científica.
30
psicologia

fotos: tiago falótico


Líderes C aracterísticas como carisma e inteli-
gência sempre foram consideradas
fundamentais para o exercício do
comando eficaz. Durante muitos

não
anos especialistas afirmaram que bons líderes
teriam talentos inatos, usados para conquistar
seguidores e despertar o entusiasmo da equipe
ou conseguir obediência. Essa teoria sugeria
que pessoas com perfil de líder poderiam ser
bem-sucedidas em qualquer situação. Nos
últimos anos, porém, vem surgindo uma nova
imagem de liderança. Em vez de simplesmente

nascem desfrutar o “dom” da autoridade inata, os líde-


res contemporâneos precisam se esforçar para
entender valores e opiniões das pessoas que
pretendem comandar, se quiserem estabelecer

prontos relações produtivas.


Essa conduta permite compreender o
funcionamento do grupo, o que resulta em
intervenções mais eficazes, sobretudo a lon-
go prazo. O conceito de liderança, portanto,
está relacionado à capacidade de direcionar
Não é possível determinar um conjunto de os interesses do grupo onde se está inserido,
e não à obediência em troca de recompensas
traços de personalidade que garantam a ou obtida com punições; os mais hábeis não
boa liderança: as características desejáveis são os que conseguem impor o que pensam,
dependem da natureza do grupo. Os mais mas sim aqueles que despertam nos colegas
o desejo de cooperação. Para ganhar credibi-
hábeis são os que se adaptam e aprendem a lidade, os líderes de hoje devem se posicio-
despertar nos colegas o desejo de cooperação nar na equipe, não acima dela.
Segundo essa nova abordagem, não é
possível determinar um conjunto de traços Diferenças muito grandes de
de personalidade que garantam a boa lide- remuneração abalam a equipe,
rança: as características desejáveis de um lí- minando qualquer disposição de pensar
der dependem da natureza do grupo. Pesqui-
sas recentes revelam, porém, que a maioria
coletivamente e se esforçar para algo
das empresas ainda leva em conta o conceito além do próprio interesse imediato; o
antigo, segundo o qual pessoas em postos grupo passa a enxergar aquele
de comando devem trabalhar para “moldar”
a identidade do grupo subalterno de acordo
que ganha significativamente mais
com os próprios interesses. como adversário, não como um colega
Para entender melhor o tema, os doutores
em psicologia Stephen D. Reicher, S. Alexan-
der Haslam e Michael J. Platow (respectiva- Universidade Claremont Graduate, argumen-
mente professores das universidades de St. tou que “salários muito altos no topo abalam
Andrews, na Escócia, de Exeter, na Inglaterra, a equipe, que passa a considerar o próprio
e da Universidade Nacional Australiana) re- gerente como adversário, em vez de colega.
solveram investigar o assunto realizando um Essa estratégia apaga qualquer disposição
experimento. Eles formaram três equipes e das pessoas em pensar coletivamente e se
determinaram diferentes formas de remune- esforçar para algo além do próprio interesse
ração em cada um. Num dos grupos todos imediato”. Obviamente, a diferença de remu-
recebiam os mesmos valores; no segundo o neração é vista pelos integrantes da equipe
salário do líder correspondia ao dobro e, no como injusta. O conceito de comando ético,
terceiro, ao triplo do dos demais. Embora a em geral, está relacionado à capacidade de se
diferenciação não tenha afetado os esforços sacrificar pelos outros e não obter vantagens
dos coordenadores, o rendimento dos mem- individuais. Mahatma Gandhi (1869-1948)
bros da equipe caía de maneira significativa e costuma ser citado como exemplo: conquis-
sob condições de desigualdade mais acentua- tou admiradores em todo o mundo usando
da. O pesquisador americano Peter F. Druc- vestimenta de aldeão indiano, como símbolo
ker, doutor em administração, professor da de sua recusa a bens materiais.
fevereiro 2018 • mentecérebro 33
patologia

Proteínas para
diagnosticar
Alzheimer
Anticorpos no sangue de pacientes

O
organismo humano dispõe de milhões de anti-
podem ser um caminho para detectar corpos com especificidades que permitem que
cada um deles se conecte a um agente invasor
mais cedo a doença e evitar (antígeno). As células imunológicas “reconhe-
que os danos se alastrem silenciosos cem” a proteína estranha e agem sobre ela, tornando-a
pelo cérebro, sendo detectados apenas inócua. Assim que uma pessoa entra em contato com
determinado antígeno, por exemplo, o HIV (da aids), o
quando é tarde demais para revertê-los sistema imunológico se “lembra” dele e rapidamente ativa
grande quantidade de anticorpos específicos para combatê-
-lo – o que pode ser detectado pelo teste. Para o Alzheimer,
entretanto, não havia até pouco ha tempo nenhum exame
de sangue semelhante que detectasse anticorpos, pois a
busca pelo malfeitor molecular não tinha sucesso.
Para mudar isso, cientistas coordenados por Thomas
Kodadek, do Instituto de Pesquisas Scripps, em Júpiter,
na Flórida, recorreram a moléculas sintéticas semelhan-
34
Testes e exames
de imagem
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que
acomete neurônios de diversas regiões cerebrais. Por isso,
as pessoas afetadas – cerca de 46,8 milhões em todo o
mundo, segundo estimativas da Organização Mundial
da Saúde (OMS) – não sofrem apenas de problemas de
memória, mas também de outros distúrbios cognitivos que
incluem a fala, a capacidade de concentração, de orientação
espacial, de raciocínio e cálculo. Não há cura e as terapias
disponíveis apenas retardam o desenvolvimento da doença
por alguns poucos anos.
Exames como análises do fluido espinal, ou líquido
cefalorraquidiano, e tomografias por emissão de pósitrons
(PET), podem detectar sinais de doença iminente e ajudar
a identificar a janela pré-clínica, mas eles são caros ou
difíceis de manipular. Hemogramas, exames de varredura
fotos: tiago falótico

retinal e testes cognitivos computadorizados também são


considerados como formas simples de monitoramento
de Alzheimer pré-sintomático. No entanto, ainda não está
claro qual deles é mais preciso, e médicos provavelmente
gostariam de aplicar vários deles para avaliar a progressão
da doença. A administração de drogas para aumentar
tes a peptídeos, chamadas peptoides, as quais foram os níveis do neurotransmissor acetilcolina no cérebro,
misturadas com amostras de sangue de cinco pacientes por exemplo, auxilia a comunicação neuronal e tende a
com Alzheimer e cinco com Parkinson, assim como ao desacelerar sua degeneração.
sangue de pessoas saudáveis do grupo de controle. Real- Esse tratamento costuma ser até três vezes mais
mente, dois peptoides – chamados ADP-1 e ADP-2 (do eficaz no estágio inicial da doença do que mais tarde,
inglês Alzheimer’s Disease Peptoid) – se depositaram quando os sintomas se desenvolveram por completo e
em determinados anticorpos com uma frequência três a transmissão entre os neurônios já foi comprometida.
vezes maior nas amostras de pacientes com demência, Diagnóstico precoce, portanto, é fundamental. Na verdade, a
em comparação ao que ocorreu com amostras do grupo comprovação inequívoca de que alguém sofre de Alzheimer
de controle ou daqueles com diagnóstico de Parkinson. só é possível por meio da análise do tecido cerebral e só
Testes realizados em seguida confirmam a descober- pode ser realizada, obviamente, depois da morte do paciente.
ta. Kodadek mostra-se otimista quanto ao fato de que Atualmente, para diferenciar a doença de Alzheimer de
esses dois peptoides um dia possam contribuir para o outros tipos de demência e distúrbios neurológicos na
diagnóstico precoce do Alzheimer – um passo a mais prática clínica, a ciência dispõe principalmente de testes
para que a doença seja combatida antes que a memória neuropsicológicos e procedimentos de imageamento que
comece a desaparecer permitem inferir o estado de deterioração cerebral.
fevereiro 2018 • mentecérebro 35
especial

Avanços na
luta contra a
EN
XA
Depois de um longo período sem novidades,
neurocientistas começam a desenvolver novos
tratamentos que prometem não só nocautear
as dores debilitantes como também preveni-las

QUE
CA
por R. Allan Purdy e David W. Dodick

OS AUTORES
R. ALLAN PURDY é professor de medicina da Universidade Dalhousie, da Nova Escócia. É presidente da Sociedade Americana de Cefaleia
(AHS, na sigla em inglês) e do Comitê de Educação da Sociedade Internacional de Cefaleia (IHS). DAVID W. DODICK é professor de neurologia
e diretor do programa de dores de cabeça da Clínica Mayo, do Arizona. É presidente do IHS, diretor da Fundação Americana de Enxaqueca
(AMF) e ex-presidente da AHS.

36
especial •

A mais nova classe de drogas contra enxaqueca no


mercado, os triptanos, tem quase 30 anos. Funcionam
para apenas um terço das pessoas e muitas não
podem ingerir a substância por causa dos riscos
cardiovasculares

H
á 18 meses, Stephanie*, hoje com fato é que, em suas várias formas, a enxaque-
22 anos, vive com enxaqueca. Em ca é um dos problemas neurológicos mais
geral, a crise começa com um comuns, afetando aproximadamente 15%
distúrbio visual que os especia- da população do planeta, de acordo com es-
listas chamam de aura – linhas cintilantes timativas da Organização Mundial da Saúde
em ziguezague que se movem pelo campo (OMS), e considerado o décimo mais incapa-
de visão e se expandem gradualmente, até citante. Somente no Brasil cerca de 30 milhões
que não se enxergue mais nada. Em seguida, de pessoas sofrem de enxaqueca, segundo
chega a dor, principalmente do lado esquerdo dados da Academia Brasileira de Neurologia.
da cabeça. E, para piorar, a sensibilidade à luz, A doença traz grandes desafios, tanto em
ao som e ao cheiro aumenta e, muitas vezes, relação ao tratamento quanto à prevenção.
transforma estímulos comuns (mesmo um Segundo estudos populacionais feitos nos Es-
perfume) em algo insuportável, o que piora tados Unidos (onde uma em cada cinco mu-
sensivelmente o desconforto. lheres e um em cada 16 homens enfrentam
Quando chegou à clínica de neurologia esse quadro), apenas um quarto dos que têm
em Halifax, na Nova Escócia, onde um de enxaqueca episódica (15 dias ou menos por
nós (Purdy) atende, Stephanie disse que já mês) e menos de 5% dos que sofrem com o
tinha tentado vários medicamentos, mas to- problema de forma crônica (15 dias ou mais
dos haviam falhado ou desencadeado efeitos no mesmo período) consultaram um profis-
colaterais intoleráveis. No ano passado, os sional de saúde ou receberam diagnóstico
sintomas tinham se agravado e se tornado as- preciso e terapia adequada. A mais nova clas-
sustadores. Agora, à medida que sua visão se se de medicamentos no mercado remonta ao
desvanece, uma sensação de formigamento início dos anos 1990. Depois que a crise co-
se move lentamente: começa na mão direita, meça, tomar esses fármacos alivia a dor em
sobe pelo braço e, por vezes, alcança o rosto e menos de um terço das pessoas. Além disso,
a língua – um sinal de que a cegueira pode es- os potenciais efeitos colaterais não permitem
tar prestes a chegar. Ao mesmo tempo, ela co- que muitos usem esse tipo de droga.
meça a ter dificuldade para encontrar palavras Agora, porém, quem sofre de enxaqueca
e se fazer entender para os outros. Stephanie tem razões para acreditar que o sofrimento
teme que a enxaqueca a leve a um acidente está prestes a acabar. Avanços na compreen-
vascular cerebral, o que, de fato, é um risco. são de redes neurais e mensageiros quími-
Para alguns, as dores representam um cos que causam os sintomas têm permitido
incômodo ocasional; para outros, um flagelo o desenvolvimento de diversos tratamentos
persistente. No caso de pacientes como Ste- sofisticados que interrompem as crises ou
phanie, as crises podem significar alterações impedem que comecem. Assim como maior
peculiares na percepção e nas sensações. O conhecimento sobre o cérebro tem ajudado

* O nome da paciente foi alterado, juntamente com alguns detalhes do caso, para proteger a privacidade.

38
PARA ALGUMAS
PESSOAS, a
enxaqueca começa
com uma aura visual
cintilante que pode
shutterstock

borrar parcialmente
a visão. Veja o efeito
simulado na imagem

a encontrar novas maneiras de combater a fenômeno visual se manifesta em forma de


doença, o estudo sobre a enxaqueca tem re- linhas irregulares que produzem redução e
velado alguns segredos do sistema nervoso. embaçado na área de visão, às vezes com um
ponto cego no centro. Estudos de imagens
UMA VELHA AFLIÇÃO revelam que a aura clássica se origina no cór-
A enxaqueca compete apenas com a epilepsia tex visual, na parte posterior do cérebro, e se
pelo título da doença neurológica mais anti- espalha em alguns minutos – um fenômeno
ga conhecida. Os egípcios a descreveram em conhecido como depressão alastrante cortical
documentos médicos em 1200 a.C., embora (DAC) (veja quadro ao lado).
o crédito da descoberta como uma condição A maioria dos indivíduos que não têm a
distinta geralmente vá para Areteu da Capa- aura visual ainda assim experimenta sintomas
dócia, cujos escritos do século 2 descrevem precursores (bocejo, fadiga, mudanças de hu-
indivíduos com graves e repetidas crises de mor, dor de garganta, sensibilidade à luz) que
dores de cabeça unilaterais e vômito. podem servir como aviso de enxaqueca imi-
A gravidade varia muito. Alguns podem ter nente. A doença está associada também com
um terrível incômodo poucas vezes por ano e outros riscos, como acidente vascular cere-
tratar com analgésico sem receita médica, sem bral isquêmico (AVCI), depressão e epilepsia.
se preocupar em procurar o médico. Para a O perigo de acidente vascular cerebral (AVC) é
maioria, no entanto, as crises ocorrem uma ou especialmente elevado nas mulheres, em par-
duas vezes por mês. E para aproximadamen- ticular entre aquelas que fumam ou tomam
te um quarto dos indivíduos que sofrem com medicamentos contendo estrogênio, como
enxaqueca nos Estados Unidos os ataques se pílulas anticoncepcionais.
tornam mais frequentes, com sintomas qua- Os clínicos sabem há muito tempo que a
se que diários. Para essas pessoas, embora a enxaqueca costuma ser hereditária. Pesquisas
doença não represente um risco de morte em recentes identificaram mais de 30 genes que
si, certamente altera a qualidade de vida. parecem estar associados com o transtorno.
Ainda que o elemento mais debilitante da Alguns deles são responsáveis pelos canais e
enxaqueca seja a dor, o que mais a caracteriza transportadores que se acomodam na super-
(e fascina neurologistas) é a aura, que afeta fície dos neurônios e de outras células cere-
aproximadamente um terço de quem sofre brais. Estas estruturas controlam o tráfego de
com o problema. Na maioria das vezes, o íons (como sódio, potássio e cálcio) dentro e
fevereiro 2018 • mentecérebro 39
especial •

fora das células e dos neurotransmissores por


Uma onda longa e lenta meio das sinapses – e, assim, a excitabilida-
de de certas células e redes neurais. Outros
Um dos antigos mistérios da enxaqueca é a relação entre as genes associados com a cefaleia são respon-
fortes dores de cabeça e os curiosos sintomas sensoriais que às sáveis por gerar a dor e manter a saúde dos
vezes as precedem. Um fenômeno conhecido como depressão vasos sanguíneos. Tomadas em conjunto,
alastrante cortical (DAC) pode ser responsável por ambos. A DAC é essas variações genéticas podem explicar a
caracterizada por uma oscilação da atividade elétrica que se espalha hiperexcitabilidade do cérebro e a extrema
lentamente sobre o córtex, seguida por uma onda de quietude, sensibilidade à luz, ao som e a odores, além
produzindo sintomas relacionados com a região cerebral em que da dor e dos distúrbios vasculares, como AVC,
acontece esse movimento. associados com a doença.

EM BUSCA DO ALÍVIO
Os primeiros tratamentos para a enxaqueca
eram fundamentados na superstição e feiti-
çaria, que vão desde a sangria até a abertura
de um buraco no crânio para libertar espíritos
malignos. No século 19, a doença era conside-
rada psicossomática, juntamente com outros
Começando no córtex visual, na parte posterior do cérebro (à esquerda), a DAC se estende desconfortos, sofridos principalmente por
como uma onda de atividade elétrica (roxa) aproximadamente de 2 a 3 milímetros por mulheres. Essa noção começou a mudar em
minuto, desencadeando uma aura visual. Quando atinge os córtices parietal e temporal
meados do século 20. Diversos experimentos
(centro), pode causar dificuldades de fala, e, em seguida, sensações de formigamento
podem ocorrer em um dos membros ou na cabeça, na faixa sensorial (direita, verde). da década de 1940 realizados pelo neurologis-
ta Harold Wolff, do Centro Médico Cornell, do
Após qualquer fator desencadeador de crise (estresse, luzes Hospital de Nova York, levaram à moderna
brilhantes, alterações hormonais e falta de sono), a DAC começa teoria vascular da enxaqueca – notavelmente,
tipicamente no córtex visual, na parte posterior do cérebro, causando que a dor vem da dilatação e distensão dos va-
os padrões de ziguezague e a visão borrada, características clássicas sos sanguíneos dentro e fora do crânio. Wolff
da aura. A onda, então, pode viajar para a faixa sensorial do lobo mediu a amplitude das pulsações desses
parietal, induzindo a uma perturbação motora que começa pela mão canais no couro cabeludo durante as crises
e sobe até a face e a língua. Para alguns que sofrem com o problema, e após a administração de um fármaco que
a fala é a próxima a ser atingida, culminando na afasia. contraía os vasos. As descobertas levaram à
Enquanto atravessa o cérebro, a DCA pode estimular também adoção do primeiro e genuíno medicamento
neurônios de detecção de dor, diretamente ou por meio da de enxaqueca: tartarato de ergotamina, um
inflamação que excita as fibras que irrigam a superfície externa e poderoso vasoconstritor derivado do fungo
sensível do cérebro. Elas, então, liberam diversos neurotransmissores da cravagem que trazia um alívio do incômo-
químicos ou proteicos (entre eles o peptídeo CGRP) capazes de do que coincidia com a constrição da artéria
transmitir sinais de dor do sistema nervoso periférico para o central. no couro cabeludo.
No entanto, dois terços das pessoas com enxaqueca não Nas décadas de 1970 e 1980, os pesqui-
apresentam aura. Para elas, o gatilho da enxaqueca ainda está sadores da Universidade Erasmus de Roter-
em fase de pesquisa. A DAC pode ocorrer no tecido cerebral dam, na Holanda, e da Universidade de Nova
cortical ou subcortical, sem dar origem a sintomas sensoriais. Gales do Sul, em Sydney, na Austrália, obser-
Ou diferentes mecanismos podem gerar uma crise nas estruturas varam uma associação entre a enxaqueca e
cerebrais subcorticais que ajudam a processar luz, som e outros a serotonina: os níveis do neurotransmissor
estímulos sensoriais, além de influenciar os neurônios sensores caíam no sangue e subiam na urina durante
de dor. Ou talvez ambos funcionem em conjunto. Nos dois casos, as crises. Em outras palavras, o corpo estava
a DAC é uma complexa ponte entre a enxaqueca e seus notáveis perdendo serotonina. Eles descobriram tam-
sintomas neurológicos. bém que administrar o neurotransmissor,
40
Em estudos com novas drogas de anticorpos,
aproximadamente 70% dos pacientes tiveram queda de
mais de 50% no número de dias com dor de cabeça. Os
sintomas de enxaqueca desapareceram em um a cada seis

bem como a ergotamina, durante o ataque neos por todo o corpo; por isso, pessoas com
aliviava o desconforto. Na época, a ideia era doenças cardíacas ou com histórico de AVC
que a perda de serotonina fazia com que os não podem fazer uso.
vasos sanguíneos relaxassem e dilatassem, Os triptanos, porém, representavam um
causando enxaqueca. grande avanço para aqueles que poderiam,
No entanto, o tratamento com ergotami- então, tomar uma pílula ou injeção e inter-
na e o neurotransmissor pode trazer sérios romper uma dor de cabeça debilitante em 30
problemas. Ambos podem provocar efeitos minutos. Significavam também um triunfo na
colaterais preocupantes, como náuseas, vô- ciência do desenvolvimento de drogas – em-
mitos e cólicas – o que já costuma ocorrer bora a compreensão da neurobiologia subja-
com quem sofre de enxaqueca. A ergotamina cente não fosse tão clara. Como as pesquisas
pode causar também perigosas reduções no revelariam em breve, a principal causa da en-
fluxo sanguíneo. xaqueca não era a dilatação dos vasos sanguí-
Na década de 1970, o farmacologista Pa- neos da cabeça. E a maior colaboração do trip-
trick Humphrey, na época na empresa farma- tano não estava relacionada com a constrição
cêutica britânica Glaxo, começou a procurar desses canais. Tratava-se de algo mais. E o
uma maneira de reproduzir os efeitos bené- desenvolvimento de drogas mais eficazes de-
ficos da serotonina sem os prejuízos. Hum- penderia do desvendamento desse mistério.
phrey trabalhava com a suposição de que a
dilatação dos vasos sanguíneos dentro e fora MÍSSEIS GUIADOS
do crânio era responsável pela enxaqueca e Na década de 1980, em torno da mesma épo-
de que drogas que podiam se ligar aos recep- ca em que Humphrey estava trabalhando com
tores de serotonina poderiam proporcionar os triptanos, o neurocientista Lars Edvinsson,
alívio. Ele se empenhou no desenvolvimento da Universidade de Lund, na Suécia, encon-
de um fármaco que pudesse fazer exatamente trou um composto conhecido como peptídeo
isso, e o resultado, após uma década, foi o su- relacionado ao gene da calcitonina (CGRP, na
matriptano, que, assim como a ergotamina, sigla em inglês) nos nervos que cercam os
tanto aliviava a dor como contraía os vasos vasos sanguíneos dentro do crânio. O com-
sanguíneos. Seria a primeira droga da família posto tinha sido descoberto recentemente
dos triptanos. no sistema nervoso central e no periférico.
Entretanto esses medicamentos também As evidências sugeriam que ele servia como
têm limitações. Trazem alívio total para ape- mensageiro químico da dor. O CGRP é tam-
nas aproximadamente 30% dos que sofrem bém um vasodilatador potente. Edvinsson,
com enxaqueca. No entanto, para muitos, a que estuda o fornecimento de sangue para o
dor de cabeça retorna no mesmo dia. Os trip- cérebro, acreditava que isso podia contribuir
tanos também podem desencadear também para o desenvolvimento da enxaqueca.
diversos efeitos colaterais desagradáveis, Nas duas décadas seguintes, experimentos
como sonolência, tonturas, formigamento, de muitos pesquisadores confirmaram a ideia.
aperto no peito e rubor no rosto e pescoço. Os cientistas descobriram, por exemplo, que
As drogas podem contrair os vasos sanguí- os níveis sanguíneos do CGRP aumentavam
fevereiro 2018 • mentecérebro 41
especial •

Ensaios clínicos em andamento mostram


que anticorpos monoclonais podem prevenir cefaleias,
bloqueando substâncias que carregam sinais
de dor para os nervos cranianos; outros novos
fármacos amenizam as crises sem causar constrição
dos vasos sanguíneos, o que os torna seguros
para pacientes com risco de AVC

durante as crises de enxaqueca e voltavam ao Apesar dos resultados promissores, o pro-


normal depois que uma dose de sumatriptano gresso no desenvolvimento de antagonistas
amenizava a dor. Potente, o composto consis- de receptores do CGRP atrasou devido a um
tentemente desencadeava uma crise quando grave efeito secundário: a toxicidade hepática
infundido na corrente sanguínea de quem so- que surgiu em ensaios com três desses fár-
fria com o problema. Estudos com humanos e macos. Os pesquisadores teriam de encontrar
com animais demonstram que o CGRP e seus outro caminho.
receptores são encontrados em estruturas ce-
rebrais como o hipotálamo e cerebelo, regiões
que há muito tempo os cientistas acreditam
desempenhar um papel no gatilho das crises
de enxaqueca. Estão presentes também no
Como novos
nervo trigêmeo, uma estrutura craniana com medicamentos
envolvimento fundamental no processamento funcionam
dos sinais sensoriais e que também estava im-
plicada na cefaleia. Além disso, o CGRP é uma Fármacos de última geração têm
das substâncias químicas liberadas durante a como alvo a molécula CGRP
depressão alastrante cortical, o suposto meca- (círculos verdes), que dilata os vasos
nismo da aura da enxaqueca. sanguíneos (parte superior), excita os
No início da década de 2000, cientistas da centros nervosos (meio) e percorre
empresa farmacêutica Boehringer Ingelheim, o sangue (fundo). Quando ingeridos
na Alemanha, sintetizaram uma pequena mo- no momento em que a dor de cabeça
lécula desenvolvida para se ligar ao receptor do começa, os antagonistas do receptor
CGRP e bloquear sua atividade – uma categoria de CGRP (cilindros azuis) impedem
de substâncias conhecidas como antagonistas que essa molécula se ligue
de receptores. Um estudo com 126 pacientes a receptores na cabeça,
publicado no New England Journal of Medicine interrompendo assim a dor. Em
em 2004 confirmou que essa molécula, admi- contraste, os anticorpos monoclonais
nistrada por via intravenosa, foi capaz de inter- (formas Y azuis) devem ser tomados
romper a enxaqueca de alguns pacientes, o que de modo contínuo para prevenir
ocorreu sem a constrição dos vasos sanguíneos enxaquecas. A ação depende da sua
da cabeça. Uma descoberta decisiva, pois de- ligação aos receptores de CGRP, que
monstrou que o modelo vascular de longa du- estão nos nervos e vasos sanguíneos
ração da enxaqueca não estava totalmente cor- e, também, da absorção dessa
reto e que a constrição dos vasos sanguíneos molécula nessas ramificações
não era essencial para trazer alívio. e na corrente sanguínea.
42
Alguns decidiram atingir o CGRP e seu Anticorpos são muito grandes para passar
receptor com um anticorpo monoclonal. Os através da barreira hematoencefálica. Ainda
anticorpos são grandes proteínas que podem assim, essas novas drogas têm demonstrado
ser direcionadas com precisão a um único resultados impressionantes na prevenção de
alvo, da mesma forma que um míssil guiado enxaquecas em estudos preliminares. Um me-
a laser. Os desenvolvedores de fármacos cos- canismo possível: ao bloquearem o CGRP nas
tumam produzi-los a partir de clones de uma vias do nervo trigêmeo fora do cérebro, os anti-
célula imunitária monocamada, razão pela corpos podem reduzir a sinalização entre o sis-
qual são descritos como monoclonais. Como tema nervoso central e o periférico, diminuindo
outras proteínas, são metabolizados em ami- os sinais de dor que entram no cérebro.
noácidos por tecidos em todo o corpo, em vez Desde 2012, vários pesquisadores, incluin-
de sobrecarregar os rins ou o fígado. Assim, do Dodick, realizaram ensaios clínicos contro-
embora possam ter efeitos secundários as- lados com placebo envolvendo mais de 10 mil
sociados ao bloqueio do seu alvo específico pacientes. Uma grande parte fez o tratamento
(como o CGRP), não devem causar efeitos por mais de um ano, sem demonstrar efeitos
secundários “fora do alvo” nem toxicidade, colaterais, a não ser alguma vermelhidão no lo-
como danos renais. cal da injeção. Em 70% deles, o número de dias

Terminação
do nervo trigêmeo

CGRP Anticorpo

Antagonista Vaso
de CGRP sanguíneo
Receptor de CGRP

Célula de músculo liso

Nervo trigêmeo

Gânglio trigeminal Antagonista


de CGRP

Receptor
de CGRP
Anticorpo
Célula glial

Vasos sanguíneos

CGRP
Anticorpo

fevereiro 2018 • mentecérebro 43


especial •

com dor de cabeça caiu mais da metade. E um mais de 85% das pessoas que iniciam o trata-
em cada seis pacientes ficou completamente mento com os medicamentos preventivos de
livre da enxaqueca durante o acompanhamen- hoje interrompem em um ano.
to. A melhora apareceu logo após três dias da Ainda assim, o tratamento com anticorpos
administração do anticorpo. Várias indústrias monoclonais não será para todos. A adminis-
farmacêuticas estão desenvolvendo pesquisas tração do medicamento é feita por via intrave-
e, salvo imprevistos, o primeiro desses anticor- nosa (o que exige uma visita ao médico a cada
pos estará disponível até o fim de 2018. três meses) ou depende de injeção mensal
Os monoclonais serão um salto à fren- autoaplicada. E ainda há dúvidas sobre a segu-
te dos tratamentos preventivos atualmente rança de longo prazo no que diz respeito à obs-
disponíveis, que incluem betabloqueadores, trução de uma proteína encontrada por todo o
como propranolol e diversos medicamentos corpo. Essa preocupação é particularmente re-
para pressão arterial. As drogas mais antigas levante para pacientes com doenças cardiovas-
têm respostas semelhantes, mas um efeito culares e hipertensão, porque se acredita que o
perceptível pode levar semanas ou meses CGRP seja importante na manutenção do tono
para aparecer. Muitas vezes, a dose precisa dos vasos sanguíneos e na compensação do
ser aumentada ao longo do tempo e os efei- baixo fornecimento de sangue para o cérebro
tos colaterais, como ganho de peso, perda de e o coração durante AVCs e ataques cardíacos.
cabelo, disfunção cognitiva e sedação, podem Não está claro também se os fármacos s
impedir os pacientes de atingir uma quantida- seguros durante a gravidez – uma conside
de eficaz ou continuar com a droga. De fato, relevante porque a maioria das pessoas

O que existe hoje


O tratamento preventivo com medicamentos pode ser necessário para pessoas que sofrem com
crises mais frequentes e/ou mais longas – em média, um em cada quatro pacientes com enxaq

Neuromoduladores Anti-inflamatórios Betabloqueadores Bloqueadores Toxina


do canal de botulínic
cálcio
Estimulam Agem nos vasos Também usados Usados no Eficaz
a produção sanguíneos no tratamento tratamento apenas em
de GABA, que sensibilizados. de hipertensão de problemas casos de
ajuda a diminuir Indicados arterial, inibem a cardiovasculares, enxaqueca
a percepção dolorosa, principalmente em ação de substâncias ajudam a crônica.
e inibem a crises relacionadas relacionadas ao bloquear
de aminoácido ao ciclo menstrual. estresse, como a a ação das
glutamato, que adrenalina. prostaglandinas,
tem ação excitatória. que enviam
mensagens
dolorosas.

44
enxaqueca que procura tratamento são mulhe- servada em ensaios anteriores parece estar
res em idade fértil. Muitas vezes, o problema relacionada especificamente com as drogas, e
diminui na menopausa. não com o bloqueio do CGRP.
Para os pacientes que não podem fazer Uma nova família de drogas chamadas de
uso dos anticorpos ou não são beneficiados ditanas, que visam receptores de serotonina,
por eles, e para muitos que preferem tratar en- promete grandes resultados. A lasmiditana,
xaquecas apenas quando surgem, permanece atualmente em desenvolvimento, é seletiva
a necessidade de tratamento seguro, eficaz e para receptores de serotonina localizados
personalizado das crises agudas. Idealmente, apenas em neurônios e não em vasos sanguí-
os analgésicos seriam em forma de pílula e neos, o que significa que deve ser segura para
não causariam a constrição dos vasos san- os 20% dos pacientes com enxaqueca que têm
guíneos, como os triptanos. Duas classes de fatores de risco cardiovasculares. Em um re-
medicamentos em fase de desenvolvimento cente ensaio clínico com lasmiditana, 2.231 in-
prometem esses resultados. Ensaios clínicos divíduos que receberam tratamento para uma
de antagonistas de receptores de CGRP mais única crise, um terço dos pacientes ficou sem
recentes demonstram serem estes tão efica- dor em duas horas (um de nós, Dodick, aju-
zes quanto os triptanos, mas sem causar os dou a projetar o experimento e a analisar os re-
efeitos prejudiciais. A toxicidade hepática ob- sultados). Essa taxa de sucesso é semelhante
à dos triptanos, mas sem os riscos associados
à constrição dos vasos sanguíneos. De fato,
mais de 80% dos pacientes do estudo tiveram
um ou mais fatores de risco cardiovasculares.
Não surgiram problemas de segurança.
PARA SABER MAIS

ESPERANÇA NO HORIZONTE Migraine. 3a. David


Os novos tratamentos que estão chegando ao W. Dodick e Stephen
D. Silberstein. Oxford
mercado refletem enormes progressos na iden- University Press, 2016.
tificação de áreas e mecanismos cerebrais rela-
CGRP receptor antagonists
cionados com a enxaqueca. O resultado é uma and antibodies against
medicação com maior especificidade e menos CGRP and its receptor
in migraine treatment.
efeitos colaterais do que os fármacos mais anti- Lars Edvinsson, em
gos. O desenvolvimento de uma droga bem-su- British Journal of Clinical
Pharmacology, vol. 80, nº
cedida conduz frequentemente a progressivos 2, págs. 193–199; agosto
avanços no conhecimento sobre os processos de 2015.
da doença e à geração de tratamentos seguinte.
Therapeutic antibodies
Assim ocorreu com os triptanos e, certamente, against CGRP or its
Atuam na se repetirá com as drogas atualmente em fase receptor. Marcelo E.
Bigal, Sarah Walter e
percepção Cápsulas do de testes. O mero fato de que uma molécu- Alan M. Rapoport, em
de dor e sobre hormônio do la grande (como um anticorpo, sem nenhum British Journal of Clinical
Pharmacology, vol. 79, nº
o bem-estar sono podem acesso provável ao cérebro) pode impedir cri- 6, págs. 886–895; junho
geral. reduzir a ses originadas no sistema nervoso já está trans- de 2015.
intensidade das formando a forma como pensamos não só so- Monoclonal antibodies
crises. Sua venda bre a enxaqueca, mas também sobre o próprio for migraine: preventing
funcionamento cerebral. Mais importante: se calcitonin gene-related
ainda não peptide activity. Marcelo
é liberada tudo correr bem, pacientes como Stephanie, E. Bigal e Sarah Walter, em
que não conseguiam encontrar alívio com os CNS Drugs, vol. 28, nº 5,
no Brasil. págs. 389–399; maio de
remédios atuais, finalmente terão a atenção e o 2014.
tratamento que merecem.
fevereiro 2018 • mentecérebro 45
livros | lança tos OS

- P R I -

F
- M E I R O S -

s primeiros R
- P S I C A -
psicanalistas – Atas da
sociedade psicanalítica E
- N A L I S -
de Viena. Vol. 1
( 906/1908). Sigmund U
- T A S -
Freud. Org. Marcelo
Checchia, Ronaldo Torres D
e Waldo Hoffmann. Hedra, VOL. 1

1906/1908

2017. 854 págs. R$ 119,00.

As noites de quarta-feira
Diferentemente dos textos clínicos e teóricos de Freud, ou de suas
correspondências, o livro convida o leitor a acompanhar de as vívidas
discussões vivas entre o criador da psicanálise e alguns de seus interlocutores
mais próximos

O bra apresenta os famosos encontros semanais


conduzidos por Freud; registros documentaram a
fundação da primeira sociedade psicanalítica
lo de amigos buscava, num esforço coletivo, comprovar as
ideias de Freud em diferentes campos de trabalho”, escre-
ve, em 1910, o músico Max Graf, assíduo nos encontros.
Em Viena, no início do século retrasado, um grupo de A obra apresenta os conflitos e dissidências do grupo de
intelectuais começou a se encontrar todas as semanas na fundadores da psicanálise e seus colaboradores. Diferen-
casa de um jovem neurologista, com ideias bastante in- temente dos textos clínicos e teóricos de Freud, ou de suas
teressantes e revolucionárias a respeito do funcionamen- correspondências, o livro convida o leitor a acompanhar
to psíquico. Das reuniões – que se tornaram conhecidas de perto as vívidas discussões vivas entre o criador da psi-
como “as noites psicológicas de quartas-feiras” – surgiria canálise e alguns de seus interlocutores mais próximos.
um campo de saber com profundas influências para a As “atas” ultrapassam em muito o registro burocrático de
compreensão não apenas do comportamento do indiví- uma reunião, revelando um espírito investigativo em te-
duo, mas também das relações sociais e de fenômenos mas variados. Os participantes falavam sobre neurose, an-
culturais. Passados quase 120 anos desses encontros gústia, incesto, mania, fome, amor, misticismo, sono e so-
coordenados por Sigmund Freud, muito do que foi pen- nambulismo, impotência, traumas sexuais e muitos outros
sado e discutido na ocasião permanece atual. Traduzido tantos que até então eram distantes de qualquer tratamen-
pela primeira vez em português, diretamente do alemão, to ou discussão clínica. Numa época em que falar sobre
Os primeiros psicanalistas – Atas da Sociedade Psicanalítica fantasia, desejo e repressão era, muitas vezes, sinônimo de
de Viena conta esses primórdios da psicanálise em qua- transgressão, a expressão da sexualidade suscitava mais
tro volumes. O primeiro deles, que já chegou às livrarias, do que reflexões e embates – participar das reuniões sinali-
compreende os anos de 1906 a 1908, quando é de fato zava certa rebeldia intelectual.
fundada a Sociedade Psicanalítica de Viena. Não há ano- Desde que começaram a ser veiculadas, as ideias ino-
tações das reuniões ocorridas de 1902, quando os encon- vadoras de Freud causavam desconforto e até repúdio no
tros tiveram início, até os quatro anos seguintes. meio acadêmico e mesmo entre médicos. Paralelamen-
O volume inicial reúne especificamente as anotações te, porém, alguns pensadores da época se aproximaram
feitas por Otto Rank. A introdução foi escrita pelo psicana- dele. Os primeiros psicanalistas apresenta esses homens
lista Hermann Nunberg, um dos frequentadores das reu- que se encantaram com formas então pouco ortodoxas
niões, em 1959, para a edição em alemão. Com a fundação de pensar, bem como seus dilemas, dissidências e pai-
da primeira sociedade psicanalítica, as reuniões se tornam xões. É como se, mais de um século depois, fôssemos
formais e, em 1910, são transferidas da casa de Freud, na aquela mosquinha que acompanhava despercebida os
Berggasse 19, para o Colégio dos Doutores. “Nosso círcu- primórdios do nascimento da psicanálise.
46
No sótão
Hiawyn Oram e
Satoshi Kitamura.
Pequena Zahar,
2107. 32 págs.
R$ 46,90
imagens: divulgação

A aventura de fazer de conta


O protagonista da história contada por Hiawyn Oram e ilustrada por Satoshi Kitamura
inventa um mundo particular, repleto de possibilidades e amigos

Há momentos em que nada parece interessante, o que fez o garotinho que protagoniza a história
brinquedo nenhum parece ter graça. Mesmo no escrita pelo sul-africano Hiawyn Oram e ilustrada
caso de gente grande, livros, filmes ou tarefas pelo japonês Satoshi Kitamura.
que em geral atraem nossa atenção de repente O personagem de No sótão, lançado pela Pequena
se tornam (ao menos momentaneamente) Zahar, encontra uma escada que lhe permite chegar
desinteressantes. É o sentimento de tédio, que a lugares inusitados, que o distraem do tédio. Para
faz com que tudo pareça sem graça. Para o escapar da sensação de solidão, o menino brinca
neurocientista Daniel Weissman, pesquisador da com a própria criatividade e é assim que descobre
Universidade de Michigan em Ann Arbor, é possível amigos como uma família de camundongos e um
que nessas ocasiões algumas partes do nosso tigre listrado. Em suas aventuras, abre janelas que
cérebro estejam espontaneamente desconectadas. abrem outras e outras janelas – sem precisar acessar
Em seus estudos, ele constatou que quando nos a internet. Conhece uma aranha, aprende a fazer teias
cansamos de executar uma tarefa ou de prestar e percebe que um ninho de besouro pode ser um bom
atenção ao mundo a nossa volta colocamos lugar para descansar. Aventuras não faltam para o
parcialmente “em repouso” algumas áreas neurais, lugar aonde o menino descobre que pode ir: um sótão
diminuindo a atividade de comunicação. Segundo o particular, sem limites. Em tempos de brinquedos
cientista, parece haver uma diminuição significativa eletrônicos em alta e imagens que surgem detalhadas
da comunicação entre as áreas cerebrais ligadas em telas reluzentes, obedecendo ao comando de
ao autocontrole, visão e linguagem. E é nesse dedinhos ágeis, deixar de lado a diversão que vem
momento que podemos acessar outras conexões – pronta e recorrer à imaginação é fundamental à saúde
por exemplo, deixando que a imaginação flua. Foi mental das crianças. (Gláucia Leal, editora-chefe)

fevereiro 2018 • mentecérebro 47