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A Filosofia Humanista de Fromm como Ciência do homem*

Rainer Funk

Tradução: Ralph Roman K. Gniss**

Manuscritos Econômico-filosóficos, são


onipresentes no pensamento de Fromm,
não a filosofia como uma abstração do
ser humano concreto.
O interesse norteador da filosofia como
ciência do homem de Fromm é sempre o
ser humano concreto, não o pensar ou a
consciência enquanto tal, ou a questão
sobre as condições da possibilidade do
pensar ou da consciência. Do
surgimento da psicanálise, que não
investiga o pensamento ou a
consciência, mas o inconsciente em sua
Erich Fromm (1900-1980) função de ser condição da possibilidade
de pensar, resulta para o filosofar de
1) O interesse norteador no pensar Fromm, um interesse nortedador que
filosófico de Fromm não é mais puramente filosófico. Não
que ele quisesse reduzir a filosofia à
O conjunto da obra de Fromm revela psicanálise. Não se trata de diminuir o
que ele estudou Kant, Hegel, Nietzsche, valor próprio da filosofia, mas esta é
Herbert Spencer, John Stuart Mill e refletida em relação com outros fatores.
William James, Heidegger, Sartre, O que pensa um homem, e de que
Bloch e Habermas, mas nenhum deles maneira, o que significa razão para ele, e
marcou seu pensamento de verdade, e o grau de abstração que ele escolhe, se
nem a filosofia de valores do seu mestre ele busca sua identidade filosófica no
Rickert, em Heidelberg, reflete no seu niilismo ou na metafísica – ele não
pensamento. Fromm, porém, se vê filosofa sem ser direcionado, de uma
profundamente ligado a pensadores maneira ou outra, pelo inconsciente.
como o filósofo judaico Maimônides,
como a Cohen e Cassirer, Aristóteles, Fromm gostava de ilustrar até que ponto
Espinoza e Marx, mais tarde também a o inconsciente pode humilhar o filósofo
Tomás de Aquino. Fromm haure do e seu magnífico pensamento com
pensamento destes, mas chama a observações sobre seu mestre Rickert.
atenção que ele cita principalmente Este tinha uma aparência imponente e
aqueles escritos onde articulam o ser uma grande retórica filosófica. Mas
humano como atuante. As éticas das Rickert, esse mestre do pensamento,
virtudes de Aristóteles, Tomás e sofreu de agorafobia, que o obrigou a
Espinoza, além do Marx dos ser levado numa cadeirinha entre sua

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casa e a universidade. A discrepância, Marx, e do condicionamento pelo
aqui visível, entre espírito e psique, inconsciente por Freud. A leitura
simboliza que não existe nenhuma filosófica destas descobertas levou a
imunidade psíquica do filósofo e do seu diversas tentativas de integração em
filosofar. filosofias antropológicas, em “ciências
sociais interdisciplinares”, tentativas
Fromm critica cada filosofar abstrato
sistêmicas e cibernéticas da coordenação
que se imagina imune, principalmente
dos saberes e igualmente a um “re-
quando argumenta como que existisse
filosofar”, partindo dos resultados de
um ser humano abstrato ou uma abstrata
cada ciência separada.
natureza do ser humano. Apesar de falar
constantemente sobre a “natureza do ser Fromm tenta integrar os diversos
humano”, e sendo por causa disso aspectos da conditio humana por sua
acusado de naturalismo e idealismo, a “teoria combinatória”. Sua ideia mais
questão sobre a “natureza humana” fértil era de aceitar o inconsciente de
nunca aparece como se referisse à cada um como marcado pela condição
essência humana, mas sobre a conditio social, que pode ser investigado como
humana concreta. caráter social e tem a função de
substituir a segurança do instinto
A insistência de Fromm no
animal. Ele escolheu este conceito
conhecimento da conditio humana não
“sócio-biológico” que reflete a situação
significa que ele se restringisse às
original de cada um no seu
ciências de maneira isolada. Menos
condicionamento biológico, social e
ainda gostou do pensamento positivista
psíquico e reúne os resultados das
ou do conceito behaviorista para as
pesquisas de Darwin, Marx e Freud
ciências humanas. Quando ele define
numa caracterologia sócio-psicológica.
“normas e valores objetivos”, ele não
pensa segundo a concepção behaviorista 2. O humanismo na base das ciências
ou sociológica em normas de humanas.
comportamento, nem em valores O humanismo “contempla o ser humano
segundo uma ética de valores ou em sua totalidade psico-física e defende
ontologia de valores. Podemos nos a ideia de que a destinação do ser
aproximar da sua compreensão de humano é tornar-se ele mesmo.
valores e normas com seu conceito das Condição prévia disso é que o homem
atitudes (conscientes e inconscientes), tem sua finalidade em si mesmo”
como são descritas nas antigas éticas de (1947a). Com isso, Fromm entra na
virtudes. O aspecto subjetivo pertence fileira dos humanistas do iluminismo,
essencialmente à concreta conditio para os quais o homem tem sua
humana. Portanto, uma ética filosófica finalidade em si mesmo na medida em
tem de respeitar as condições das que encontra seu fundamento último
possibilidades da ética no ser humano naquilo que para ele é possível. Fromm
concreto. desenvolve esta tradição humanista ao
O pensamento da modernidade é dizer que, contra a filosofia abstrata, a
marcado por três descobertas finalidade em si mesmo só pode ser
fundamentais, relevantes para a questão fundamentada naquilo que é possível ao
da conditio humana: a descoberta do ser humano, e se esta fundamentação
condicionamento biológico do ser pode ser comprovada pelas ciências
humano por Darwin, do humanas.
condicionamento sócio-econômico por

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Fromm busca com sua teoria sócio- do homem o sujeito. O método
psicológica do caráter responder à combinatório da caracterologia sócio-
exigência de um saber concreto sobre a psicológica não significa apenas uma
conditio humana, orientada ao sujeito, coincidência das determinações
como é típico desde a filosofia do biológica, psicológica e sociológica no
iluminismo. Ele fundamenta seu caráter, mas igualmente, que todas as
humanismo diante dos resultados suas expressões vitais – seu pensar, seu
biológicos, sociológicos e psicológicos sentir e seu agir – são determinadas por
não de maneira religiosa, teológica, esses fatores, formando assim o caráter
metafísica, positivista ou niilista, mas individual e social de cada um. Não
por meio do conceito combinatório da existe um conhecimento geral ou
sócio-psicologia, baseando-se nas científico, que independa do sujeito
ciências humanas de maneira cognoscente, que em seus juízos está
abrangente. A referência às ciências orientado por seu caráter. Por isso vale
humanas implica os dois aspectos da “que o conhecimento da verdade não é
teoria combinatória: trata-se de uma primeiramente uma questão da
fundamentação humana por meio de um inteligência, mas do caráter” (1962a).
método que abrange a totalidade do ser Um conhecimento objetivo nas ciências
humano e de uma fundamentação humanas não se alcança isento de
científica que parte dos conhecimentos qualquer subjetividade e purificando o
das ciências humanas e sociais. conhecimento de qualquer interesse,
mas incluindo o caráter com sua
A tentativa frommiana de uma
orientação do conhecimento e do
fundamentação inclui vários aspectos da
interesse, ou como diz Fromm,
filosofia humanista. “O conceito mais
conforme a orientação produtiva ao não-
importante e básico de humanismo é a
produtiva do caráter (1947a).
ideia de que a humanidade (humanitas)
não é uma abstração, mas uma O caráter cunhado na sua orientação por
realidade, de tal maneira que em cada fatores sócio-econômicos e individuais
indivíduo a humanidade toda está induz a que a pessoa se oriente em todas
contida. Cada um representa toda a as suas expressões vitais de maneira
humanidade, e por isso todos os homens igual. Um exemplo da área da produção
são iguais – não em relação às suas científica pode explicar isso: a atual
aptidões e aos seus talentos, mas em organização científica das universidades
relação às suas qualidades humanas corresponde ao aumento máximo da
básicas” (1963f). Ao não entender o produção na sociedade industrial. Por
homem como abstração do homem isso, ela produz cientistas cuja intenção
concreto, mas tentando entender o principal não é o conhecimento da
homem concreto de maneira metódica e verdade, mas o maior aumento de
abrangente no condicionamento do seu produção científica sob forte
caráter, pode-se conceber a humanidade concorrência. Este traço do caráter
inteira tendo em vista a pessoa concreta. orienta não apenas a produção de
Daí, não existe “nada de humano..., que matérias científicas (cuja quantidade
não poderia ser encontrado em cada um” decide sobre a pontuação em concursos
(1966i). públicos), mas igualmente o trato com
alunos, com a família, com outros
Quando se entende o ser humano de
cientistas, com o lazer ou com a
maneira abrangente e não como uma
necessidade de novos neologismos ou
abstração da pessoa concreta,
especializações acadêmicas.
consequentemente não se pode abstrair

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Com o exemplo acima pode ser interesse do humanista? A ciência
mostrado um outro aspecto do conceito humanista reconhece o interesse de
do caráter na filosofia humanista de favorecer a dignidade, individualidade e
Fromm enquanto orientada ao homem. integridade do ser humano e a convicção
Cientistas orientados principalmente no de que através desses atributos os
aumento máximo da produção e com homens se tornam mais justos, amáveis
isso, na concorrência, representarão uma e razoáveis uns para com os outros. A
imagem do homem segundo a qual cada investigação do caráter e de suas
um é “por natureza” inimigo de cada um funções, deve oferecer à relação do
– homo homini lupus – e para quem a homem consigo mesmo e com seu
“verdadeira” ciência consiste na ambiente uma orientação dinâmica, pela
libertação dos sentimentos e de tudo qual o ser humano se comporta em todas
incalculável, uma pura e objetiva ciência as suas expressões de vida e
da razão. A exclusão metodológica de relacionamentos sem grandes
todos os fatores não-quantificáveis, diferenças, esta investigação confirmou
subjetivos, do conhecimento científico, a convicção humanista de que existem
leva a maneiras de pensar, em que orientações do caráter que favorecem o
elementos correlativos como indivíduo- desdobramento e crescimento das forças
sociedade, homem-Deus, razão- intrínsecas do ser humano e outras, que
sentimentos, consciente-inconsciente, o inibem. Sempre quando o caráter tem
subjetividade-objetividade são vistos o interesse de levar as forças psíquicas
como dicotomias. intrínsecas ao crescimento, confirma-se
a seguinte lógica:
Razão científica e caráter estão numa
interdependência mútua. Como o caráter Cognoscente e conhecido, eu e tu,
recebe sua orientação conforme as homem e humanidade, indivíduo e
necessidades econômicas e sociais, a sociedade, amor próprio e amor ao
ciência humanista do homem reconhece próximo, não são alternativas, mas
a disposição e orientação psicossocial de aspectos correlativos. Quanto mais o
todo conhecimento. Não existe homem for sujeito, tanto mais
conhecimento sem interesse. A relacionar-se-á com os outros e com o
contribuição específica de Fromm a uma mundo afora de maneira objetiva;
compreensão humana das ciências quanto mais o homem está consigo
consiste na percepção da correlação mesmo de forma abrangente e realiza
entre razão científica e caráter a partir suas possibilidades, tanto mais pode
do caráter; nisso persiste o conceito estar junto ao outro; quanto mais
filosófico da conditio humana. A confiante estiver de si mesmo, tanto
posição-chave do caráter em Fromm mais pode confiar no outro; quanto mais
resulta não apenas da tentativa de ele se conhecer, tanto mais próximo está
fundamentar o humanismo e uma o diferente; quanto mais ele aprende a
filosofia humanista nas ciências amar o estranho dentro de si mesmo,
humanas, mas igualmente da tentativa tanto mais pode ir ao encontro com o
de fundamentar uma ciência humanista estranho de maneira amorosa, pois
no homem concreto. descobriu no estranho algo de si mesmo.
3) Uma ciência do homem Se alguém considera os resultados de
fundamentada no humanismo uma ciência humanista como plausíveis,
isso decidir-se-á pela orientação do seu
Não existe conhecimento sem interesse.
caráter. Estes resultados serão plausíveis
Portanto, a questão decisiva é: qual é o
só para quem tem uma orientação do

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caráter que desenvolve e realiza as distinguir melhor, ele formou dois
forças psíquicas intrínsecas do ser outros conceitos na definição da
humano, seu ser sujeito e ser ele mesmo, orientação do caráter: a orientação do
seu amor próprio, seu auto- caráter ou desenvolve tudo que favorece
conhecimento e sua auto-confiança. No a vida, então é biófila, ou inibe esse
seu Credo humanista, Fromm escreve: desenvolvimento e promove tudo o que
“Creio que o ser humano pode aniquila o que está vivo, quando é
presenciar a verdade do homem em sua necrófíla (1964a).
universalidade somente ao realizar sua Diferentemente de Freud, para quem
individualidade, e que ele nunca vai impulso à vida e impulso à morte são da
atingi-la se tenta reduzir o homem a um mesma originalidade, para Fromm a
denominador comum. O desafio biofilia é a possibilidade primária,
paradoxal da vida consiste na realização enquanto a necrofilia é o resultado de
da sua individualidade para transcendê- uma vida não vivida. Também nisso,
la e chegar à vivência da universalidade. Fromm pensa consequentemente como
Só um Self plenamente desenvolvido humanista, sendo a capacidade ao
pode abandonar o Ego” (1962a) “bem” primária. Assim, escreve no
Fromm chamou de produtivas as Credo humanista: “Creio na
orientações do caráter que desenvolvem possibilidade do aperfeiçoamento do ser
as forças intrínsecas da psique humana, humano. Entendo que o homem pode
porque nelas o ser humano produz e alcançar seu objetivo, mas que ele não
forma sua relação com o mundo a partir tem que alcançá-lo. Quando alguém não
de si mesmo e não apenas as re-produz quer optar pela vida e por isso não
(1947a). Aquele que pensa, sente e atua cresce, será inevitavelmente destrutivo,
de maneira produtiva faz isso por um cadáver vivo. O mal e a perda do
motivação própria – sponte sua; por Self são tão reais como o bem e o estar
isso, Fromm falou no início de vivo. Essas são as possibilidades
spontaneous activity (atividade secundárias do ser humano, quando ele
espontânea), mais tarde da orientação não opta por suas possibilidades
pelo “ser” em vez pelo “ter” (1976a). As primárias” (1962a).
orientações produtivas do caráter Entender a potencialidade para a vida
contrastam com as não-produtivas que como potencialidade para o bem só é
levam o ser humano a se fazer possível por um ponto de vista que
dependente daquilo que pode “ter” em provém de uma orientação biofílica do
vez de viver das suas próprias caráter. Em analogia às forças
potencialidades. Eles definem seu valor intelectuais, como a memória, e físicas,
próprio pela posse de algo que está fora como a força muscular, existem forças
das suas capacidades: pela posse de psíquicas intrínsecas que mostram a
outros seres humanos, de bens materiais, mesma dinâmica: elas existem apenas
valores éticos, convicções religiosas, como potências e se atualizam como
ofertas psíquicas, etc., ou pelo não-ter forças próprias na medida em que são
das suas possibilidades. exercidas e praticadas. Tais forças
Em relação à dimensão psíquica da vida, psíquicas próprias são o pensamento
Fromm mostrou que a inibição e a produtivo, o amor produtivo e o trabalho
frustração no desenvolvimento das produtivo.
forças intrínsecas provocam que o Produtividade, biofilia, orientação do
potencial do crescimento perverte-se em caráter ao ser se expressam na dimensão
destruição e regressão maligna. Para

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da relação intelectual pela capacidade de marceneiro faz uma mesa ou um
uma razão produtiva. Ao contrário da joalheiro uma jóia, se um agricultor
inteligência e da razão instrumental, a cultiva seu campo ou um artista pinta
razão produtiva se interessa por seu um quadro, em cada uma destas
objeto “não como algo morto [...], algo atividades criativas o criador se torna
desvinculado de si mesmo e da própria uno com a sua obra, o ser humano se
vida, ou como algo sobre que se reflete, unifica no processo criativo com o
isolando-o de si mesmo. Pelo contrário, mundo. Mas isso vale apenas para um
o sujeito está interessado no seu objeto, trabalho onde eu planejo, executo e vejo
e quanto mais intensa a relação, tanto o resultado deste trabalho” (1956a).
mais fértil a reflexão [...]. Mas a Razão, amor a trabalho produtivos são
objetividade também caracteriza o forças psíquicas intrínsecas do ser
pensamento produtivo: o respeito do humano que crescem e se tornam
pensador pelo objeto, e a capacidade de capacidades habituais, isto é,
ver seu objeto tal qual é, e não como orientações do caráter, na medida em
deveria ser conforme suas imaginações” que são praticadas. São sinais de uma
(1947ª). vida desenvolvida e realizada, feliz por
A correlação entre sujeito e objeto, na possibilitar uma melhor relação do ser
qual se atinge a maior objetividade pela humano consigo mesmo e com seu
maior subjetividade possível, é ambiente, preservando sua totalidade e
igualmente o sinal da relação emocional integridade. O homem produtivo nem
na capacidade do amor produtivo. O está viciado em si mesmo nem em fugir
amor é fundamentalmente inseparável; do mundo, mas na entrega ao mundo
não se pode separar o amor a certos está totalmente consigo mesmo e no
“objetos” do amor-próprio. O amor mais elevado ser-ele-mesmo está
verdadeiro é expressão de uma totalmente com o outro.
produtividade interna e implica em Para uma ciência do homem orientada
atenção, respeito, responsabilidade e na produtividade em sentido frommiano,
‘conhecimento’. Ele não é um afeto que os opostos próprio-diferente, eu-tu,
outro nos causa como efeito, mas é o sujeito-objeto, dentro-fora não são
desejo de favorecer o crescimento e a alternativas, mas correlativos, para os
felicidade das pessoa amada... Se quais vale um tanto-quanto, enquanto os
alguém é capaz de amar de maneira opostos produtivo-não-produtivo,
produtiva, amará também a si mesmo; se biofílico-necrofílico, ser-ter são
alguém pode amar só os outros, é alternativas que se excluem
incapaz de amar” (1956a). O amor entre mutuamente. Para uma ciência na base
duas pessoas é – como qualquer amor da orientação não-produtiva do caráter
produtivo – “expressão de confiança vale o inverso: próprio-diferente, eu-tu,
entre duas pessoas sob a condição que sujeito-objeto, dentro-fora são opostos
cada personalidade fique intacta” que parecem ser alternativas, de maneira
(1947a). que importa frisar a diferença,
O trabalho produtivo como expressão distinguir, especializar, pulverizar, se
da dimensão de uma relação ativa definir, se assegurar, se impor e se
mostra seu aspecto generativo da defender. No outro lado, os opostos
orientação produtiva do caráter. Ser produtivo-não-produtivo, biofílico-
criativo não significa necessariamente necrofílico, ser-ter são entendidos no
que algo novo tenha de ser criado, pelo sentido do tanto-quanto: Quanto mais
qual o ser humano se define. “Se um você tem, tanto mais você é; só quem

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tem, também é; primeiro o ter, depois o religioso, em sua ética humanista e sua
ser; nenhum ser sem ter; os lemas são teoria social socialista, em sua critica à
estes. sociedades alienadas, em sua luta contra
O início da definição do conceito do o armamento nuclear, em suas propostas
caráter por Fromm, leva a uma para uma re-formulação da ordem social
valoração das orientações do caráter que e econômica e em suas propostas para
toma como medida as leis intrínsecas de uma “arte de viver”. Em todas essas
uma vida psíquica que quer se desdobrar áreas, a fundamentação do humanismo
e crescer. Deste modo, Fromm se frommiano nas ciências humanas
encontra na tradição humanista da provoca seus resultados; só no recurso à
modernidade. Ele fundamenta esta fundamentação sócio-psciológica da
definição nas ciências humanas, correlação entre caráter e razão as
entendendo-a a partir da conditio diversas afirmações e conclusões de
humana, isto é, pelas leis intrínsecas da Fromm sobre a ciência humanista do
vida psíquica. homem são coerentes e plausíveis.

A tentativa de Fromm de compreender o


ser humano a partir do próprio humano, Referências
descobrindo o caráter como condição da FROMM, Erich. Psychoanalyse und Ethik
possibilidade de uma existência concreta (1947a) = Análise do Homem. 10ª edição, Rio
totalmente realizada, e chegando a uma de Janeiro: Zahar, 1978. ). Muenchen: Deutscher
Taschenbuch Verlag , 1989 (GA; todas as obras
fundamentação de uma filosofia
de Fromm são citadas pela GA = Obra
humanista e a uma ciência do homem completa)
fundada nas ciências humanas, pode ser
_____. Die Kunst des Liebens (1956a) = A Arte
entendida como tentativa de de Amar. São Paulo: Itatiaia, 1990.
fundamentar um humanismo radical,
que procurou e encontrou sua raiz _____. Jenseits der Illusionen. Die Bedeutung
von Marx und Freud. (1962a) = Meu Encontro
(radix) na conditio humana enquanto com Marx e Freud. 7ª edição, Rio de Janeiro:
tal. Zahar, 1984a.
A definição biofílica e humanista, _____. Die Seele des Menschen (1964a) =
enquanto correlativa de caráter e razão, Coração do Homem. Rio de Janeiro: Zahar,
é relevante em todas as áreas do 1965
pensamento de Fromm. Além das _____. Humanismus und Psychoanalyse (1963f)
afirmações filosófico-antropológicas, o _____. Zum Problem einer umfassenden
humanismo frommiano e sua ciência philosophischen Antropologie (1966i) = O
humanista do homem podem ser humanismo como Filosofia Global do Homem.
mostrados em suas concepções sobre a Rio de Janeiro: Zahar, 1981
teoria e a práxis psicanalítica, sua crítica _____. Haben oder Sein? (1976a) = Ter ou Ser?
à religião e sua defesa de um ethos 4ª edição, Rio de Janeiro: Guanabara, 1987

*
Publicado originalmente em: FUNK, Rainer. Erich Fromms humanistische Philosophie einer
Wissenschaft vom Menschen Erstveröffentlichung. In: Jahrbuch der Internationalen Erich-Fromm-
Gesellschaft, Band 1, 1990: Wissenschaft vom Menschen - Science of Man, Münster: LIT-Verlag, 1990,
S. 28-39. Copyright © 1990 and 2003 by Dr. Rainer Funk, Ursrainer Ring 24, D-72076 Tübingen.
Traduzido e publicado com permissão do autor.
**
Professor da Faculdade de Filosofia/UFG – Universidade Federal de Goiás.

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