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Estudos Culturais

em Língua Inglesa

autor do original
Ivi Furloni

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2015
Conselho editorial  magda maria ventura gomes da silva, rosaura de barros baião,
gladis linhares

Autor do original  ivi furloni

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  rodrigo azevedo de oliveira

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  fabrico

Revisão linguística  aderbal torres bezerra

Imagem de capa  nome do autor  —  shutterstock

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

F985e Furloni, Ivi


Estudos culturais em língua inglesa / Ivi Furloni.
— Rio de Janeiro: SESES, 2015.
114 p. : il.

isbn: 978-85-5548-062-1

1. Estudos culturais. 2. Identidade. 3. Pós-modernidade.


4. Cultura de massas. I. SESES. II. Estácio.
cdd 306.420

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 5

1. Cultura e Identidade: Visões Clássica e Moderna 7


Introdução 9
Cultura: origens 10
A passagem da natureza para a cultura 12
O conceito de Cultura 14
A cultura dos outros 18

2. Cultura, Identidade e Pós Modernidade 23

Introdução 25
Marx 26
Weber 29
Por que nos socializamos? 32
O que é Socialização? 33
Os agentes socializadores 35
As contribuições de Bourdieu 41

3. A Cultura na Modernidade: Cultura de Massa,


Cultura Popular, Cultura Jovem e Subcultura 49

Introdução 50
Indústria Cultural 53
Cultura popular 59
Cultura de massa 60
Cultura jovem e subcultura 61

4. As contribuições das Ciências Humanas


para a Linguagem 67

Introdução 68
Um conhecimento em diversos tipos 70
Ciência e ciência humana 78

5. Comunidade, Nação e Globalização 91

Introdução 92
Globalização: um conceito atual? 94
Globalização: definições 96
Globalização: características 99
Globalização e mídia 101
As contradições da globalização 102
O multiculturalismo e a ética igualitária 104
Prefácio
Caros alunos, nesta disciplina, iremos refletir sobre temas contemporâneos
que envolvam as noções de cultura e identidade e sobre o uso de teorias con-
temporâneas que estão baseadas nas discussões do papel da cultura e identi-
dade na sociedade.
Além disso, abordaremos as definições de cultura e identidade em vários
momentos da história, levando em consideração a utilização dos conceitos de
cultura e identidade por sociólogos e filósofos. Vamos também abordar as vi-
sões clássicas e modernas sobre os conceitos de cultura e identidade.
Com isso, pretendemos estudar sobre as manifestações culturais e de iden-
tidade para tentar aprofundar o conhecimento necessário que o ajudarão a en-
tender os movimentos da sociedade e como eles são operados no nosso campo
de estudo, mais especificamente no que se refere aos estudos Linguísticos e
Literários
Objetivamos, também, analisar criticamente os autores e obras estudadas
e correlaciona-las com conceitos literários e linguísticos estudados no curso
para assim podermos identificar e utilizar conhecimento cultural, histórico,
sociológico e discursivo para construir e reconstruir significado tanto na leitu-
ra quanto na escrita.

Profa. Ivi Furloni

7
1
Cultura e Identidade:
Visões Clássica e
Moderna
1  Cultura e Identidade: Visões Clássica e
Moderna

Neste capítulo, iremos estudar o significado da noção de cultura e as aborda-


gens teóricas que buscam responder o seu sentido na constituição da civiliza-
ção humana. A cultura, durante muito tempo, foi relacionada ao saber intelec-
tual e às produções artísticas. Uma pessoa culta era uma pessoa detentora de
um conhecimento acumulado em pintura, escultura, música, linguagem en-
fim, na arte em geral. Mas, apesar de correta, essa definição é apenas parcial do
significado de cultura. Esse termo carrega um sentido mais amplo: é resultado
de toda a atividade humana e, ao mesmo tempo, é aquilo que nos identifica ao
meio social do qual fazemos parte. É a capacidade de produzir cultura o que di-
ferencia os seres humanos dos outros animais. Por isso, podemos afirmar que
todos os indivíduos possuem cultura. Vamos ver mais de perto o significado e
origem desse termo.

OBJETIVOS
•  Definir o conceito de cultura;
•  Compreender o processo da construção histórica da cultura;
•  Entender que o ser humano é um ser sociocultural;
•  Compreender os processos de interação entre os indivíduos;
•  Identificar os elementos que estruturam a cultura.

REFLEXÃO
Você se lembra da última vez que ouviu a expressão “esta é uma pessoa sem cultura” ou,
então, a “cultura de um determinado povo é superior a outra”. Essas afirmações são, geral-
mente, feitas por conta do desconhecimento do significado e abrangência do termo cultura.
Vamos ver nessa unidade as definições de cultura e entendê-la como parte inseparável da
vida humana.

10 • capítulo 1
1.1  Introdução

Uma das principais certezas das ciências humanas é a definição de que os seres
humanos são seres socioculturais. Isso resulta, basicamente, de dois pontos
essenciais.
O primeiro deles é aquele que define que a vida humana só é possível em
grupo. Desde a época pré-histórica, da vida em cavernas, os homens notaram
que apenas unindo forças conseguiriam vencer os obstáculos impostos pela
natureza. Surgem, assim, os primeiros grupos que a cada obstáculo vencido
percebiam ainda mais claramente a necessidade de se organizarem coletiva-
mente para garantir a própria subsistência e, por consequência, a do próprio
grupo. Isso nos caracteriza como seres sociáveis, que estabelecem interações
rotineiras e constantes, criando assim, o que conhecemos como vida social.
Aos poucos, da interação entre indivíduos surgem as interações entre indi-
víduos e grupo; em seguida, entre diferentes grupos e, por fim, entre socieda-
des inteiras e, dessa forma, foi sendo construída a civilização humana. Daí que
se conclui que a:

A identidade humana só é reconhecida e estabelecida ante um grupo. Ou seja, o ser


humano só se faz como tal diante de outro, seu semelhante, com o qual estabelece
mecanismos diversos de interação constantes. (FERREIRA, 2009, p. 28).

O segundo ponto essencial que nos caracteriza como ser sociocultural diz
respeito ao produto desse processo de interação entre os indivíduos. A esse pro-
duto damos o nome de cultura.

ATENÇÃO
Vida social deve ser entendida como o conjunto de comportamentos que existe entre os
indivíduos e seu meio social. Esses padrões de comportamentos são criados e consolida-
dos pela diferentes inter-relações que estabelecemos uns com os outros. Relaciona-se,
portanto, à coletividade. Nas sociedades modernas e contemporâneas, consideradas so-
ciedades complexas, o conjunto de inter-relação e mais diversificado. É dele que resulta o
conjunto da vida social.

capítulo 1 • 11
1.2  Cultura: origens

Enquanto a definição de que os seres humanos são seres socioculturais é am-


plamente aceita pelas correntes teóricas das ciências humanas, a noção do
significado de cultura não encontra apenas um sentido, ao contrário, há uma
gama de definições e significados possíveis que são atribuídos à esfera cultural.
De maneira genérica, a cultura é entendida como o produto material e ima-
terial de toda a atividade humana, que foi se acumulando desde nossas origens,
quando passamos a viver em grupo. Ao mesmo tempo, é por meio da cultura
que se dá a identificação entre os indivíduos e seu meio social e/ou o reconheci-
mento dos grupos e sociedades distintos.
Como apontamos logo no início desse capítulo, a espécie humana, logo
em sua origem, percebeu que vivendo em grupo aumentava sua capacidade de
sobrevivência num meio hostil como a natureza. Dias (2010) afirma que num
primeiro momento, essa necessidade respondia às questões puramente instin-
tivas e biológicas como comer, se proteger do frio ou calor, se reproduzir, etc.
Com o passar do tempo, a espécie humana se diferencia das outras espécies:
adapta-se melhor a outros lugares, cria novas necessidades, desenvolve novas
habilidades, aprende a criar novos instrumentos; e, importante, transmite para
as gerações seguintes tudo aquilo que foi criado ou descoberto, possibilitando
um mecanismo de perpetuação do conhecimento.
© Fernando Gonzalez Diaz | Dreamstime.com

Ao mesmo tempo, com o crescimento dos agrupamentos humanos, foi ne-


cessária a criação de normas, regras, funções, enfim, uma série de códigos e
símbolos que organizavam a vida em grupo.

12 • capítulo 1
Todas essas criações, intervenções e normatizações dos indivíduos em seu
meio, que já não correspondiam apenas às necessidades instintivas, mas às ou-
tras necessidades e vontades, é que chamamos de cultura. E esta só existe se re-
lacionada à espécie humana.

A cultura deve ser compreendida como algo inerente aos seres humanos. Não há cultu-
ra fora dos humanos. O conceito de cultura, portanto, contrapõem-se a uma existência
não cultural, natural, em que prevalecem os instintos básicos do ser humano como
animal. Toda criação humana material ou não-material, é cultura; onde não há criação
ou intervenção humana, temos somente a natureza e não cultura. Em decorrência disso,
podemos falar em meio ambiente natural e cultural. (DIAS, 2010, p. 64).

Essa explicação nos ajuda a localizar a origem da cultura e já oferecer uma


primeira tentativa de defini-la: cultura como toda criação humana material
e imaterial.
Por outro lado, mesmo concordando com essa definição inicial, a cultura já
foi analisada sob variadas perspectivas pelos pesquisadores: por meio do con-
junto de símbolos produzidos por uma determinada sociedade, como textos,
figuras, objetos. Há ainda, as teorias que buscam identificar no conjunto de
regras, normas, valores, costumes, hábitos, crenças e linguagem as bases cul-
turais de um determinado povo. Outras perspectivas apontam, por sua vez, o
conjunto de códigos e sistemas simbólicos, as formas de pensamento, conduta
e representação do mundo que são compartilhadas.
A cultura é também analisada sob abordagens teóricas distintas. Os estu-
dos antropológicos norte-americanos, por exemplo, buscam identificar o signi-
ficado dos fenômenos culturais para um determinado grupo, privilegiando os
sistemas simbólicos. Para esta corrente, estes sistemas podem ser entendidos
separadamente de outras esferas da vida social, como a economia e a política,
uma vez que o ser humano se caracteriza por ser uma espécie que dá sentido à
própria existência a partir de significados que ele mesmo criou.
Sistemas simbólicos é conjunto de símbolos que permitem o conhecimen-
to e a comunicação na sociedade, dando sentido ao mundo social. Eles exercem
uma função social e, ao mesmo tempo, são instrumentos de integração social.
Segundo Bourdieu (2010, p. 10): “enquanto instrumentos de conhecimento e
de comunicação, eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mun-

capítulo 1 • 13
do social e contribui para a reprodução da ordem social”. São exemplos de sis-
temas simbólicos: religião, a língua, a arte, a ciência, as normas jurídicas, etc.

© Marek Szlachta | Dreamstime.com


Há, por outro lado, a abordagem materialista histórica, de origem marxista,
que coloca a cultura como condicionada pelas condições materiais/ econômi-
cas de determinada ordem social. Você se lembra das últimas unidades quando
vimos a relação entre infraestrutura e superestrututa? Nessa perspectiva, a cul-
tura é um sistema que serve aos interesses das classes dominantes, permeada
pela ideologia.

1.3  A passagem da natureza para a cultura

As teorias antropológicas oferecem algumas possibilidades de reflexão acerca


da cultura, tomando como princípio a relação desta com a natureza. Mais preci-
samente, elas buscam identificar em que momento se dá a passagem do estado
de natureza para a cultura, ou, mais precisamente, em que momento o homem
se torna um ser cultural.
Uma das definições mais conhecidas sobre a origem da cultura e a relação
desta com a natureza foi formulada pelo francês Claude Lévi-Strauss. Para ele,
a natureza é o local do instintivo, da ausência de regras. Assim, o ser huma-
no apenas superou esse estado quando convencionou a primeira regra que,

14 • capítulo 1
aponta o autor, foi a proibição do incesto. Essa norma foi aceita e se tornou um
padrão comum a todas as sociedades humanas, tornando-se uma imposição
cultural. A cultura nasce assim, na perspectiva do autor, a partir da primeira
convenção criada, que estabelece um padrão de compor-tamento ao qual todos
os integrantes daquele grupo deverão obedecer.
Já o antropólogo americano Leslie White, define que o homem se torna um
ser cultural graças à sua capacidade de simbolização; isto é, de construção de
símbolos que dão sentido aos objetos, ao cotidiano e às práticas sociais. O com-
portamento humano é um comportamento simbólico. Por exemplo, parte de
nós usa o preto em sinal de luto; outras culturas usam o branco. De qualquer
maneira, o uso específico dessas cores serve, social e culturalmente, para expri-
mir nosso sentimento.
Clifford Geertz, um dos mais importantes antropólogos contemporâneos,
também considera que a prática simbólica é o elemento particular da espécie
humana e o que nos caracteriza como seres culturais. Para ele, a própria evo-
lução humana é inseparável da formação da vida cultural de tal forma que o
individuo só pode ser compreendido por meio do impacto da cultura. O autor
defende que o sistema de símbolos criados ao longo da historia – crenças, nor-
mas, arte, instituições – foi responsável por orientar e organizar a vida social.
Você percebe como são múltiplas as possibilidades de entendermos a ori-
gem e o significado de cultura? Ainda assim, é possível enumerar alguns pontos
em comum do que vimos até aqui:
1.  Cultura é criação exclusiva da espécie humana;
2.  Compõem um conjunto de normas, símbolos, conhecimentos e regras
que dão sentido à vida humana ao mesmo tempo em que estruturam
nossa conduta. O ser humano é um ser simbólico;
3.  Toda a produção resultado da atividade humana compõe o universo
cultural.

CONEXÃO
Assista ao documentário Casa Grande e Senzala, produzido por Nelson Pereira dos Santos, a
partir da obra homônima de Gilberto Freyre. Nessa obra, conhecemos um pouco do processo
de formação da cultura brasileira.
Disponível em:<http://www.youtube.com/watch?v=grbZx619ymI>.

capítulo 1 • 15
1.4  O conceito de Cultura

O termo cultura remete, claramente, a noção de cultivo, com o sentido similar


à noção que encontramos na agricultura. E cultura tem mesmo essa origem eti-
mológica: do latim (colore) ou do alemão (kultur) o significado é de “cultivar” e
“coisas a cultivar”, respectivamente. Foi, dessa forma, aplicado aos processos
de produção, ou cultivo, ligados à terra. Quando transportado para as relações
humanas, ganhou o sentido de cultivo da mente humana, o que contribuiu, em
alguma medida, para um definição limitada do sentido de cultura.
No senso comum, o termo cultura é definido como o conjunto de conheci-
mentos artísticos e intelectuais que uma pessoa ou um grupo possuem. Assim, é
comum que se parta desse princípio para afirmar que uma pessoa é culta ou não,
ou, ainda, para estabelecer níveis hierárquicos que as classificam em superior
ou inferior. Por exemplo, o povo X tem mais cultura que o povo Y; determinado
grupo é menos culto que outro. Essas perspectivas são herdeiras da forma como
cultura foi classificada no mundo ocidental durante séculos, quando o termo es-
teve intimamente ligado à aristocracia. Nesse cenário, qualquer outra manifesta-
ção que tivesse origem em outros grupos sociais que não a aristocracia, como o
folclore e as tradições populares, sequer eram consideradas como cultura.
Do ponto de vista das ciências modernas, essa concepção é incorreta, assim
como as classificações de diferentes culturas em inferior ou superior ou, ainda,
a suposição de que existam indivíduos sem cultura. Todas essas noções foram
desmistificadas pelo desenvolvimento das ciências humanas, em especial, da
Antropologia no século XVIII alçada à categoria de ciência e tendo como objeto
a análise das formações humanas. O emprego do termo de cultura como conhe-
cemos hoje é, portanto, relativamente recente.
Devemos aos antropólogos as primeiras definições do termo. Segundo La-
raia (2006, p. 12) uma das primeiras definições de cultura, e que se tornou uma
das mais conhecidas, foi feita pelo britânico Edward Taylor que a definiu como
“todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei,
os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem
como membro da sociedade”.
Já Malinowski definiu cultura como “um conjunto integral dos instrumen-
tos e bens de consumo, nos códigos constitucionais dos vários grupos da socie-
dade, nas ideias e artes, crenças e costumes humanos” (apud DIAS, 2010, p. 67).
Parte das teorias sociológicas, por sua vez, definiu cultura relacionando-a
à ideia de estrutura social. Estrutura social é o conjunto de padrões, normas e

16 • capítulo 1
instituições estáveis e duradouros de uma organização social que orientam as
relações sociais, formando, assim, a base da sociedade. A cultura aqui influen-
cia e, ao mesmo tempo, é influenciada pela estrutura social. Ela assume, por-
tanto, certa relação com a esfera do poder. Para Pierre Bourdieu, por exemplo,
a cultura seria a estrutura simbólica da sociedade, espaço pelo qual se realizam
embates, lutas pelos diversos grupos, buscando legitimar seu poder simbólico
sobre o outro. Os sistemas simbólicos, na perspectiva do autor, são a arte, o
mito, as religiões, a ciência e a língua, e são responsáveis por tornar inteligíveis
os objetos e as relações, definindo o que é aceitável ou não, o que é bom ou
ruim, etc. Isso faz com que se construa uma série de normas, valores e padrões
de conduta que orientam as ações e comportamentos dos indivíduos dentro de
um mesmo grupo social.
Dias (2010, p. 68) oferece uma definição que coloca a cultura como a base de
toda a organização social:

Podemos definir cultura, ainda, como toda conduta que é aprendida e seus resultados,
cujos elementos são compartilhados e transmitidos pelos homens que compõem uma
determinada sociedade. Na conduta se inclui tudo aquilo que o homem aprende e pro-
duz por meio de suas atividades, incluindo os aspectos sociais, psicológicos e físicos. Os
resultados da conduta se manifestam, primeiramente, pelos traços não materiais que
expressam em tudo aquilo que o homem aprende pela socialização, resultando nos valo-
res, na forma de pensar, sentir e agir. E, em segundo lugar, pelos traços materiais que são
os objetos que o homem constrói e que se manifestam pela tecnologia, infraestrutura e
invenções. (DIAS, 2010, p. 68).
© Samrat35 | Dreamstime.com

Dessa perspectiva, temos que a cultura


é o conjunto de tudo o que é produzido por
uma determinada sociedade e transmitido
para as gerações seguintes de tal maneira
que essas produções, materiais e imateriais,
tornam-se características que nos permitem
identificar um determinado grupo/ socieda-
de/ nação por meio da sua cultura.
Dessa maneira, identificamos a cultura
de um indivíduo ou grupo por meio das ma-
nifestações concretas que esse indivíduo ou

capítulo 1 • 17
grupo reproduzem socialmente: nos valores que defende, na língua e nas ex-
pressões que usa, nos hábitos alimentares, na sua religião e crença, nas vesti-
mentas, na arquitetura e formas de moradia, nas expressões e manifestações,
nas produções artísticas, literárias, nas manifestações populares, nos pa-drões
sociais, etc. Também a forma como uma sociedade define as suas instituições
revela seu traço cultural: as religiões, a forma de crença e maneira pela qual a
manifestamos são diferentes de uma cultura para outra. Outro exemplo: o casa-
mento é instituição que também possui traços específicos, dependendo da cul-
tura da qual faz parte: em algumas apenas o casamento monogâmico é aceito;
em outras é possível estar casado com mais de uma pessoa; há culturas no qual
o casamento é arranjado, em outras o casamento é por amor; em algumas so-
ciedades o casamento entre pessoas do mesmo sexo é aceito; em outras não. As-
sim, a particularidade de uma cultura revela o grupo da qual ela é constituinte.

1.4.1  Características da Cultura

Você percebe, portanto, que as manifestações da cultura são múltiplas e variadas


o que se revela, como vimos, nas diferentes conceituações que o termo possui.
Sintetizamos abaixo algumas de suas principais características que nos aju-
dam a compreender o seu significado.
1.  A cultura é produzida e reproduzida entre as gerações por meio das inte-
rações sociais que se realizam, pelo processo de socialização. Isso signi-
fica que aprendemos nossas noções culturais por meio da relação com
outras pessoas ao longo da nossa vida e a transmitimos às gerações se-
guintes. A cultura é, portanto, produzida e compartilhada socialmente.
“[...] É transmissível pela herança social, e não pela herança biológica”
(DIAS, 2010, p. 73).
2.  Cultura é a totalidade material e imaterial do que é produzido pela ativi-
dade humana. Compreende, assim, os utensílios e ferramentas criadas,
instrumentos de trabalho, vestimentas, tipo de alimentação, arquitetu-
ra, conhecimento cientifico e, também, valores, normas, crenças, reli-
gião, códigos, instituições, manifestações artísticas, etc.
3.  A cultura é inerente à espécie humana e exclusiva desta. Os animais irra-
cionais não produzem cultura.
4.  A cultura já foi definida como a lente pela qual o indivíduo enxerga a
realidade e o mundo (BENEDICT, 2006). Isso significa que é a partir da
nossa própria cultura, dos valores que recebemos durante nossa vida
e nas interações sociais que realizamos, que interpretamos o mundo

18 • capítulo 1
a nossa volta, inclusive as culturas que são diferentes de nós. Isso é o
que nos possibilita emitirmos juízos de valor sobre as coisas. A cultura,
assim, estabelece os limites da ação humana.
5.  As noções culturais que apreendemos são bastante consolidadas. Isso
não significa, entretanto, que essas noções não possam ser modifica-
das com o passar do tempo. Podemos discordar de uma determinada
atitude e, tempos depois, considerarmos essa mesma atitude como po-
sitiva. O conhecimento, a relação com culturas diferentes ou mesmo a
passagem por algum processo específico podem contribuir para a mu-
dança de um determinado valor cultural. Imaginem, por exemplo, um
grupo que migra para uma cultura distinta da sua. Aqui é possível, que
na relação entre eles, os valores culturais se modifiquem em contato
com o diferente ou, ao contrário, se consolidem ainda mais. O impor-
tante aqui é termos em mente que cultura é uma estrutura simbólica,
mas não é estanque.
6.  Cultura está intimamente relacionada à capacidade de adaptação do ser
humano ao seu meio o que leva à evolução humana. Como vimos, a cul-
tura nasce da necessidade do ser humano em superar as dificuldades
impostas pela natureza. “Ao superá-las, faz cultura” (DIAS, 2010, p. 74).
Com o passar do tem-po, o próprio meio cultural acaba impondo novas
dificuldades que os indivíduos se adaptam ou superam, transformando
e desenvolvendo, assim, a própria cultura humana.
7.  Cultura são valores, normas, padrões de conduta que são compartilha-
dos pelo grupo. Não existe cultura de uma pessoa só. Elementos cultu-
rais são sempre sociais.

1.5  A cultura dos outros

Temos demonstrado até aqui que a cultura é um traço característica da espé-


cie humana, inerente à formação da vida social. Portanto, todos os indivíduos
são portadores de cultura. Ao mesmo tempo, cada grupo possui uma estrutu-
ra cultural própria que, em alguns casos, se assemelha aos valores de outras
culturas, mas, em outros casos, não. A Antropologia trouxe a forma como nos
relacionamos com a cultura do outro, já no século XVIII quando a expansão co-
lonial colocou em contato povos diversos. Como entender esse outro? Por quais
mecanismos eu interpreto aquele que possui uma cultura distinta da minha?

capítulo 1 • 19
Para responder essas questões, usamos algumas noções criadas pelas ciên-
cia antropológica: alteridade; etnocentrismo; xenofobia, relativismo cultural.
Vamos ver o significado de cada um deles:

1.5.1  Alteridade

Essa primeira noção remete à ideia de construção da própria identidade cultural.


Ou seja, uma cultura só pode ser compreendida se colocada diante de outra. É
apenas na relação com sistemas culturais distintos que podemos compreender
não apenas a cultura do outro, mas a nossa própria. Em contato com sistemas
simbólicos diferentes dos nossos é que nos descobrimos e descobrimos o outro;
nos revelamos e revelamos o outro; nos modificamos e modificamos o outro.

1.5.2  Etnocentrismo

Imagine a seguinte situação: você viaja ou se muda para um país que tenha uma
cultura completamente diferente da sua; onde as pessoas se vestem, se alimen-
tam, se comportam, possuem valores completamente diferentes do seu, alguns
dos quais, inclusive, você desaprova. Qual seria a sua reação? Possivelmente,
num primeiro momento você poderia condenar tais hábitos; ficar em choque
diante daquela situação ou, ainda, olhar com olhos curiosos, achar engraçado,
ridículo, etc. O que queremos pon-tuar aqui, é que sua primeira reação seria
emitir um juízo de valor acerca daquela cultura que é diferente da sua.
Chamamos isso de etnocentrismo e esta é uma característica, em maior ou
menos grau, de todas as culturas. O etnocentrismo revela certa disposição que
temos em avaliar o outro a partir de nós mesmos. Ou seja, classificamos a cultura
do outro em boa ou má, aceitável ou inaceitável; certa ou errada, superior ou in-
ferior tendo como referência a nossa própria cultura, os nossos valores culturais.
Como vemos o mundo por meio da nossa cultura, tomamos esta como refe-
rência para decidirmos o que é aceito ou não nos sistemas diferentes; conside-
ramos, assim, o nosso modo de vida e o nosso sistema de valores como o mais
correto. Não é por outra razão que diante da escolha entre todos os sistemas
culturais existentes, escolhemos o nosso próprio.
As noções de xenofobia e relativismo cultural dialogam diretamente
com o etnocentrismo.

1.5.3  Xenofobia

20 • capítulo 1
A xenofobia pode ser entendida como o etnocentrismo levado ao extremo. Isto
é, não apenas consideramos como correta a nossa própria cultura e apenas ela
como, também, desqualificamos por completo aquele que é diferente de nós.
Encontramos aqui o germe do racismo e da intolerância, utilizamos frequente-
mente para justificar a violência.

1.5.4  Relativismo Cultural

O relativismo cultural, por sua vez, é o oposto das duas noções que vimos anterior-
mente. Ele se caracteriza por considerar que cada sistema cultural é único e só po-
demos interpretá-lo, portanto, tomando-o como referência. Assim, os valores, as
normas, as crenças, os hábitos de determinada cultura apenas podem ser compre-
endidos se estudados dentro da sua própria rede de significados e valores.
Esse pressuposto nos coloca diante de uma reflexão: em nome do respeito
ao diverso, devemos considerar todos os valores legítimos ou, é possível consi-
derar que algumas práticas são inaceitáveis? Há culturas, por exemplo, onde as
mulheres consideradas adúlteras são condenadas à morte por apedrejamento.
Em algumas culturas tribais, os partos são feitos na água, pois se for detectado
algum tipo de deficiência, o recém-nascido é afogado. Em alguns países, ocor-
rem mutilações genitais em meninas para que elas não sintam prazer sexual.
São inúmeros os exemplos que podemos citar aqui de valores, condutas e
normas que são culturais, mas que nos colocam diante da discussão sobre o
relativismo cultural, sobre a aceitabilidade ou não desses sistemas. Como você
analisa essa questão?

ATIVIDADE
1. Qual a origem da cultura?

2. Como a cultura é definida a partir do senso comum?

3. Como a cultura é definida a partir da ciência?

4. Das criações humanas, o que podemos definir como sendo cultural?

capítulo 1 • 21
5. Explique as noções de etnocentrismo e relativismo cultural.

6. Como podemos relacionar o etnocentrismo com a xenofobia?

7. É possível afirmarmos que uma pessoa não tem cultura? Justifique sua resposta.

REFLEXÃO
A dimensão do significado de cultura e a definição de que todos nós somos seres culturais nos
ajuda a compreender os processos pelos quais construímos nossas estruturas sociais, a repro-
duzimos e a transformamos. Somos parte de uma espécie que necessita de um sistema de
símbolos para compreender a própria realidade e dar sentido às nossas vivências. Construímos,
assim, um conjunto que forma nossa identidade cultural e permite que possamos reconhecer
aqueles que compartilham do mesmo sistema que nós e os grupos que compartilham de um
sistema diferente. Isso, por certo, nos coloca diante da situação de como interpretar o outro,
parte da mesma espécie, mas possuidor de um sistema simbólico diferente. Vemo-nos, assim,
diante da complexidade das organizações humanas e sociais. Ao mesmo tempo, fazemos parte
de uma época onde as culturas estão cada vez mais próximas e em contato por conta do pro-
cesso de globalização e, ainda, subordinadas à mercantilização pelos meios de comunicação de
massa e indústria cultural. Compreender criticamente esses processos, nos ajuda a entender
as formas pelas quais produzimos e reproduzimos nossos sistemas culturais e que definem,
portanto, na forma como vivemos.

LEITURA
Roque de Barros Laraia. Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
Nessa obra, Laraia trata das diversas definições de cultura e de como a noção sobre ela foi
sendo construída pelos estudos antropológicos.

Pierre Bourdieu. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Betrand, 2010.


O pesquisador francês trata nessa obra da construção dos sistemas simbólicos na sociedade
e de como eles são espaços, por excelência, de disputa de poder e dominação.

22 • capítulo 1
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO, T. HORKHEIMER, M. “A indústria cultural – o iluminismo como mistificação das
massas”. In: Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

BENEDICT, Ruth. O Crisântemo e a Espada. Editora Perspectiva, 2006.

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Betrand, 2010.

COELHO, Teixeira. O que é indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1980.

DIAS, Reinaldo. Introdução à Sociologia. São Paulo: Pearson, 2010.

FERREIRA, Delson. Manual de Sociologia. São Paulo: Atlas, 2009.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. São Paulo: LTC, 2003.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

MARX; K. ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

SCOTT, John. Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo, faremos um levantamento do conceito de cultura e identidade para al-
guns autores. É importante perceber que cada autor entende esses conceitos de forma seme-
lhante, mas enquadro-o de acordo com sua formação e o encaminhamento do seus estudos.

capítulo 1 • 23
2
Cultura, Identidade
e Pós Modernidade
2  Cultura, Identidade e Pós Modernidade
É importante dizer que desde que o homem surgiu, e se agrupou em socieda-
de, ocorreu a troca de experiências e a reciprocidade se estabeleceu. Isso deu
origem à cultura, sendo que cada sociedade apresenta a sua, o que independe
do ambiente em que essa sociedade se insere. Todo ser humano, ao chegar ao
mundo, já começa a se tornar um ser social, pois
Um recém-nascido em seus primeiros minutos já começa, de certa maneira,
a socializar-se, pois obrigatoriamente vai estabelecer vínculos sociais e cultu-
rais com as pessoas que o cercam, além de aprender a língua e toda a carga
cultural que esta carrega, e sua forma de vestir e se portar que, com certeza, vai
estar de acordo com o país em que se insere; sem falar da comida, rituais, etc.
Desse modo, podemos afirmar que a identidade cultural caracteriza as pessoas
pelo modo de agir, de falar, é como se as “rotulasse” a partir dos modos especí-
ficos de sua cultura.
A cultura surge da miscigenação de diferentes povos que introduziram seus
hábitos e costumes, com o contato de uma cultura e outra, podendo gerar uma
cultura ainda mais complexa.
A identidade cultural move os sentimentos, os valores, o folclore e uma infinida-
de de itens impregnados nas mais variadas sociedades do mundo, e apresenta o
reflexo da convivência humana.

OBJETIVOS
• Conhecer as contribuições de alguns autores para o entendimento de cultura e
identidade;
• Compreender o significado do processo de socialização;
• Entender que o ser humano é um ser social;
• Identificar as instituições socializadoras;
• Analisar o papel dos meios de comunicação de massa como agentes socializadores;
• Conhecer as perspectivas de Bourdieu e as noções de habitus e campo.

26 • capítulo 2
REFLEXÃO
Você se lembra da última regra ou norma social e de convivência que aprendeu? Possivelmente
não, mas o fato é que desde o momento em que nascemos recebemos “instruções” sobre a for-
ma como devemos nos comportar socialmente. Estas instruções começam em nossa famí¬lia,
passam pela escola, pelas igrejas, pelo ambiente de trabalho, pelas associações, pelo grupo de
amigos, etc. Chamamos esse conjunto de interações sociais de socialização.

2.1  Introdução

Ao pensarmos em sociedade, devemos analisar como se estabelece a dinâmi-


ca social. Essa dinâmica se dá em três momentos: exteriorização, objetivação
e interiorização, que não ocorrem em uma sequência temporal. Sendo assim,
estar em sociedade significa fazer parte da dialética social. E de que forma isso
se dá? O sujeito, simultaneamente, exterioriza seu próprio ser no mundo social
e interioriza o mundo social como realidade objetiva.
Mas o sujeito não nasce membro da sociedade, e sim com predisposição
à sociabilidade. Na vida de cada indivíduo existe uma sequência temporal no
curso da qual é induzido a tomar parte da dialética da sociedade. O ponto ini-
cial deste processo é a interiorização, a saber, a apreensão ou a interpretação
imediata de um acontecimento objetivo como dotado de sentido, isto é, como
manifestação de processos subjetivos de outrem, que desta maneira torna-se
subjetivamente significativo para mim.
Assim, ao interiorizar os sentidos produzidos pela realidade social, o sujei-
to assume a sociedade em que os outros já vivem e assim passa a fazer parte
do grupo. Isso faz com que os sujeitos não apenas partilhem das ideias, mas
façam parte do mundo interno um do outro. E assim surge a identidade, que
é formada por processos sociais. Uma vez cristalizada, é mantida, modificada
ou mesmo remodelada pelas relações sociais. Os processos sociais implicados
na formação e conservação da identidade são determinados pela estrutura so-
cial. Inversamente, as identidades produzidas pela interação do organismo, da
consciência individual e da estrutura social, reagem sobre a estrutura social
dada, mantendo-a, modificando-a ou mesmo remodelando-a.

capítulo 2 • 27
CONEXÃO
Assista ao filme O Enigma de Kaspar Hause. Filme alemão ocidental de 1974, um dos mais
celebrados do diretor Werner Herzog, narra a história de Kaspar Hauser, uma criança aban-
donada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século XIX, com alegadas
ligações à família real de Baden. O rapaz, Kaspar Hauser, cresce acorrentado em um porão. Um
dia é solto em uma cidade. Tem muita facilidade para aprender a ler, música, tricô, jardinagem,
mas não consegue absrover as normas sociais.

Se pensarmos que os valores da sociedade são a sua cultura, ao se tornar


parte da sociedade, o sujeito absorve a cultura de tal grupo social, e sua iden-
tidade vai estar intrinsicamente ligada a essa cultura. Sendo assim, podemos
dizer que Identidade cultural, então, é o sentimento de identidade de um grupo
ou cultura, ou de um indivíduo, na medida em que ele é influenciado pela sua
pertença a um grupo ou cultura e/ou seus mecanismos de afiliação/exclusão
do mesmo, ou seja, saber se reconhecer. Vale ressaltar que a discussão sobre a
identidade cultural acaba influenciada por questões sobre: lugar, gênero, raça,
história, nacionalidade, orientação sexual, crença religiosa e etnia.
Em se tratando de identidade, é preciso dizer que a cultura exerce um papel
fundamental na moldagem das personalidades individuais. Antigamente, as
identidades eram mais permanentes. Hoje, com a globalização, isso mudou,
pois há uma maior interação entre os sujeitos as diversas culturas. Um indi-
víduo nasce em uma determinada sociedade e absorve determinada cultura;
mas, ao ser imerso em uma nova cultura, poderá adquirir as características do
novo local.
Agora que entendemos como a cultura e a identidade mantêm entre uma
relação fundamental, passemos a analisar como alguns autores entendem es-
ses conceitos.

2.2  Marx

Karl Heinrich Marx, nasceu em uma família de origem judaica, classe média,
em Tráveris, Alemanha, em cinco de maio de 1818. Faleceu em 14 de março
de 1883. Foi um economista, filósofo e socialista. Fundou a doutrina comunis-
ta moderna, e também atuou como historiador, teórico político e jornalista. O
pensamento marxista influencia várias áreas, tais como Filosofia, Geografia,
história, direito, sociologia, literatura, Pedagogia, entre outras.

28 • capítulo 2
Em sua obra, Marx sofre influência de
Hegel, e constrói a concepção de Mate-
rialismo Histórico, atribuindo ao conjun-
to das condições de produção econômica
uma influência fundamental sobre o de-
senvolvimento das culturas e estabele-
cendo a primazia da infraestrutura social
(forças econômicas) sobre o que deno-
minou superestrutura social, isto é, toda
cultura não material. Crítico ferrenho do
capitalismo, Marx preconiza a revolução
do proletariado, sua ascensão a uma po-

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sição ditatorial e a organização de uma
sociedade sem classes. Marx foi chama-
do por alguns de socialista científico.

Possivelmente você já deve ter ouvido o adjetivo “marxista” fazendo referência ao pensa-
mento de Marx; porém, neste momento, usamos o adjetivo “marxiano”; qual a diferença?
Na verdade, comumente marxista designou o pensamento do próprio Marx, querendo
dizer “aquilo que o próprio Marx pensou”; porém as ideias do pensador tiveram desen-
volvimentos diversos, a partir de inúmeros outros pensadores (tanto, que o pensamento
de Marx virou doutrina filosófica). Desse modo, é necessário que possamos distinguir
entre aquilo que é o pensamento desenvolvido pelo próprio Marx e aquele que veio de
seus intérpretes e comentadores; tal diferença é possível com os adjetivos: usamos
“marxista” para o pensamento que, de qualquer modo, tenha relação com as ideias de
Marx e usamos “marxiano” para as ideias que foram postas pelo próprio Marx.

Para Marx, o homem faz a história, e como vê a economia como motor que
gera a história, sua teoria ficou conhecida como Materialismo histórico. Ele
questionava a sociedade de classes, apontando suas contradições.
Para entender melhor as ideias marxistas, precisamos entender alguns con-
ceitos apresentados por ele:

capítulo 2 • 29
•  Forças produtivas: são os instrumentos produtivos pertencentes a deter-
minada sociedade em determinada época e que criam condições para
geração de riquezas.
•  Relações de produção ou estrutura econômica: forma como os sujeitos,
em sociedade, se organizam para gerar riqueza.
•  Superestrutura: instituições (normas, valores e ideias) que caracterizam
uma dada sociedade em determinado momento histórico.
•  Modo de produção: é a relação que estabelece entre as forças produtivas,
as relações de produção e a superestrutura. O capitalismo é um exemplo
de modo de produção, assim como o feudalismo.
•  Classes e lutas de classes: coletividades que se definem pelas diferentes
formas como os indivíduos participam das relações de produção. Há uma
classe social formada pelos assalariados (ou proletariado, como eram cha-
mados) e outra formada pelos empresários (patrões ou burguesia).

Para Marx a luta de classes surge porque os interesses são divergentes: en-
quanto patrões querem lucra muito e pagar baixos salários, os empregados que-
rem altos salários e pagar pouco pelas mercadorias consumidas. Há sempre uma
classe que será a dominante e uma que será a dominada. Assim, a história seria
marcada por uma constante luta pelo poder, ou seja, se torna a classe dominante.
O materialismo histórico consiste numa proposta de explicação da história
humana. Ele propõe que observemos fatores específicos para compreendermos
o porquê os homens antes nômades vivem hoje em cidades, porque em dado mo-
mento criaram regimes de escravidão e em certo momento foi possível conferir
dignidade ao indivíduo e criar um sistema em que todos são iguais e livres.
Na filosofia marxista, o que realmente importa para o desenvolvimento so-
cial são as formas de organização econômica. Estas representam a infraestrutu-
ra das sociedades humanas, ao passo que as demais esferas culturais (religião,
arte, ciência, moral, etc.) seriam meras derivações. Marx apregoa a sociedade
sem classes, que surgiria quando o proletariado se rebelasse contra a burgue-
sia. Marx analisa a história de todas as sociedades como uma luta de classes
contínua, e é assim que Marx defini a relação entre indivíduo e sociedade.
No capítulo 5, abordaremos com mais profundida as contribuições marxis-
ta para os estudos culturais.
Passemos agora a conhecer a teoria de Max Weber e suas contribuições para
o estudo da cultura.

30 • capítulo 2
2.3  Weber

Karl Emil Maximilian Weber nasceu em Erfurt,


em 21 de Abril de 1864, e faleceu em Munique,
14 de Junho de 1920. É considerado um dos
fundadores da Sociologia, além de ter sido ju-
rista e economista.
A maior parte de seu trabalho versa sobre
o capitalismo e o que ele chamou de “proces-
so de racionalização e desencanto do mundo”.
No entanto, sua obra mais famosa:

[...] são dois artigos que compõem A ética protestante e o espírito do capitalismo, nos
quais inicia suas reflexões sobre a sociologia da religião. Weber argumentou que a reli-
gião era uma das razões não-exclusivas do porquê as culturas do Ocidente e do Oriente
se desenvolveram de formas diversas, e ressaltou a importância de algumas caracterís-
ticas específicas do protestantismo ascético, que levou ao nascimento do capitalismo,
da burocracia e do estado racional e legal nos países ocidentais. Em outro trabalho
importante, A política como vocação, Weber definiu o Estado como “uma entidade que
reivindica o monopólio do uso legítimo da força física”, uma definição que se tornou
central no estudo da moderna ciência política no Ocidente.

Para Weber, a realidade social não é apenas resultado de forças políticas e


econômicas. Esse autor investigou como certas forças culturais (como a orien-
tação da ação e certas doutrinas religiosas) influenciaram na formação do es-
pírito capitalista. Sendo assim, podemos afirmar que os fatores culturais têm
papel central na obra do autor.
Enquanto Marx entende que a economia move o homem e a história, We-
ber vai além disso. Para esse autor, as bases do pensamento capitalista estão
num conjunto de valores religiosos que fortaleceram e introduziram uma sis-
tematização da conduta ética. Vale lembrar que a Reforma Protestante foi um
propulsor na transformação da cultura urbana do ocidente, o que ajudou no
surgimento de uma nova forma de pensar.

capítulo 2 • 31
ATENÇÃO
A Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão culminado no início do século XVI
por Martinho Lutero, quando através da publicação de suas 95 teses, em 31 de outubro de
1517 1 2 na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, protestou contra diversos pontos da
doutrina da Igreja Católica Romana, propondo uma reforma no catolicismo romano. Os princí-
pios fundamentais da Reforma Protestante são conhecidos como os Cinco solas. (fonte: http://
pt.wikipedia.org/wiki/Reforma_Protestante)

Para Weber, o que dá origem ao sistema capitalista são não forças politicas
ou econômicas, nem mesmo a vontade de riqueza, mas sim um conjunto de um
conjunto de valores religiosos que introduz e fortalece uma nova forma de con-
duta ética. O estudioso tenta demostrar que a única explicação para a forma de
agir dos empresários está pautada na sua concepção de mundo e na sua crença
de valores.
Essa nova forma de pensar, pautada na Reforma Protesta, mais focada na
racionalização, vai transformar toda a estrutura social da época e, de certa for-
ma, se perpetua até hoje.
Para entender a cultura ocidental, Weber teve que se debruçar sobre o es-
tudo do Capitalismo. Para ele, as marcas do Capitalismo e suas formas de ra-
cionalidade são características marcantes da cultura do Ocidente. Essa racio-
nalidade deu origem a uma sociedade burocrática estritamente reguladora. A
cultura da razão, ou racionalização da cultura, leva os indivíduos a controlar as
Paixões, e não demonstrar em público sentimentos, ou seja, regular seu com-
portamento em público. Apesar de apontar uma crítica a essa sociedade, Weber
não vê saída para ele, seria então uma crítica resignada.
Em Weber, a questão cultural é muito forte. Segundo Ênio Passiani:

No seu Metodologia das Ciências Sociais, Weber afirma que o caráter e fenômeno so-
cioeconômico de um processo não é algo que lhe seja inerente; “pelo contrário, ele está
condicionado pela orientação do nosso interesse de conhecimento e essa orientação
define-se em conformidade com o significado cultural que atribuímos ao evento em
questão, em cada caso particular. Portanto, são os processos da vida cultural que con-
têm o significado dos eventos sócio-econômicos” (WEBER, 1992:118 - grifos nossos;
1ª. edição 1982).

32 • capítulo 2
Se, por um lado, um determinado fenômeno social, seja qual for, possui um significado
cultural, por outro, os fenômenos culturais não podem ser deduzidos como produto ou
como função de determinados interesses materiais. Por isso, Weber criticava veemen-
temente aquelas teorias que preconizavam que os fatos sociais que não pudessem ser
analisados a partir de seus motivos econômicos deveriam ser considerados cientifi-
camente insignificantes. Destarte, o conhecimento dos acontecimentos culturais, na
teoria weberiana, só pode ser construído com base na significação que a realidade da
vida possui para nós. Tomando como pressuposto que os fenômenos sociais e econô-
micos possuem um significado cultural, Weber se deteve nos motivos pelos quais se
originaram a ética religiosa da negação do mundo (elemento intrínseco ao processo
de racionalização ocidental) e as direções que tomou para, a partir daí, esclarecer seu
provável significado. (WEBER, 1982; 1 ed. 1915)

Para Weber, até mesmo o sistema econômico é marcado por significados


culturais, visto que o ethos que se forma vem da conjugação de valores que vão
sendo difundidos na sociedade ocidental.
Ao contrário de Marx, Weber não vê no materialismo histórico a base do
surgimento da nova economia e novo ethos.

A questão das forças motivadoras da expansão do capitalismo não é, em primeira ins-


tância, uma questão de origem das somas de capital disponíveis para uso capitalístico,
mas, principalmente, do desenvolvimento do espírito do capitalismo” (WEBER, 1996:
44; 1 ed. 1905).

Isso porque, para ele, para que um sistema econômico pudesse se difun-
dir com tal força, não poderia ter nascido em um individuo, mas antes ser um
modo de vida comum de um grupo, ou seja, uma ideia compactuada por todos
do grupo que os levasse a agir de uma determinada forma e assim validar o novo
modo de vida.
As crenças religiosas difundidas pelo protestantismo vão dar base ao capi-
talismo por principalmente pelo desenvolvimento da ideia de Vocação. Gros-
so modo, o individuo já nasce predestinado ao reino dos céus, mas praticar as
boas ações são a confirmação dessa escolha.
Passemos agora pensar a questão da Socialização e como esse conceito se
relaciona às questões culturais.

capítulo 2 • 33
2.4  Por que nos socializamos?

Viver em grupo foi um mecanismo criado pela espécie humana desde suas ori-
gens, pois, dessa forma, aumentava suas chances de vencer os obstáculos impos-
tos por um meio natural hostil. Desse primeiro agrupamento até as modernas
sociedades, uma série de instituições e organizações sociais se consolidaram,
criando, por consequência, uma pluralidade de relações e interações entre os in-
divíduos. Da necessidade surgida nos primórdios até os dias atuais, viver fora de
um grupo tornou-se inconcebível para o indivíduo.
Há em todo esse processo, a construção incalculável de valores, normas, hábi-
tos e regras que regulam a forma de viver do indivíduo. Assim, quando nascemos,
já há um meio social formado e complexo, ao qual temos que nos habituar. Isso
nos é transmitido incessantemente a partir do momento em que nascemos até o
decorrer de toda nossa vida. É por meio desse processo de transmissão dos siste-
mas simbólicos que nos transformamos “de animal da espécie humana em um ser
humano culturalmente definido. [...] assim, o grupo social – a sociedade – prece-
de o indivíduo, sendo o ser humano um produto da interação social” (DIAS, 2010,
p. 108). É dessa prerrogativa que é possível afirmar que o homem é um ser social.

CONEXÃO
Assista ao documentário “o segredo da criança selvagem”, produção da década de 70, que
relata a historia de uma criança criada quase completamente isolada do meio social.Disponível
em <http://www.youtube.com/watch?v=_B9IH3riB>.

Socializamo-nos, portanto, para sermos integrados, no sentido mais amplo


do termo, ao grupo social no qual estamos inseridos, adquirindo as mesmas
bases culturais desse meio social. Ao longo desse processo, todo o conjunto
simbólico que nos é transmitido é, aos poucos, assimilado e incorporado for-
mando a personalidade individual. Perceba, portanto, que mesmo sendo dis-
tintos biologicamente uns dos outros, compartilhamos os mesmos traços cul-
turais do nosso grupo, ou grande parte deles.
Mas esse não é um processo de via única. O sistema social é formado por um
conjunto complexo de interações sociais. Assim, ao mesmo tempo em que o
indivíduo incorpora as normas e regras do meio social, ao interagir com outros
indivíduos e grupos, ele transmite o sistema incorporado, intervindo, assim, na
construção a realidade social.

34 • capítulo 2
Indivíduo Meio social

O processo de interação social se realiza por meio da comunicação que pres-


supõe ação recíproca, isto é, modifica-se o outro e a si mesmo.

Podemos definir, grosso modo, interação social como a ação reciproca de ideias, atos
ou sentimentos entre pessoas, entre grupos ou entre pessoas e grupos. A interação
implica modificação do comportamento das pessoas ou grupos que dela participam. A
base de toda vida social é a interação, ela é responsável pela socialização dos indivídu-
os e também pela formação de personalidade. (DIAS, 2010, p. 109).

Temos, portanto, que é por meio das interações sociais estabelecidas entre
os indivíduos que o processo de socialização se realiza, dando forma e continui-
dade ao meio social. Vamos ver mais alguns pontos que nos ajudam a caracte-
rizar esse processo.

2.5  O que é Socialização?

Socialização é um termo amplamente debatido pelas ciências humanas desde


sua origem. Para Scott (2010, p. 193), é um conceito que “reconhece que identi-
dades sociais, papéis e biografias pessoais são construídos por meio de um pro-
cesso contínuo de transmissão cultural”. De maneira geral, todas as definições
levam a esse entendimento: o do processo constante de transmissão e assimila-
ção dos valores, normas e hábitos de um determinado grupo pelos indivíduos.
Conforme Dias (2010, p. 116), socialização pode ser definida como a “aqui-
sição das maneiras de agir, pensar e sentir próprias dos grupos, da sociedade
ou da civilização em que o indivíduo nasce”.
A noção de que a socialização é um processo indissociável da transformação
do homem em um ser social é amplamente aceita pelas teorias das ciências hu-
manas. A influência desse processo na formação da personalidade individual,
entretanto, é ponto de discórdia entre os pesquisadores. Para alguns, o meio so-
cial exerce poder determinante na personalidade e formação dos indivíduos. É
daqui a noção de que o indivíduo é produto do seu meio. Assim, um meio vio-
lento irá produzir necessariamente indivíduos violentos. Outras perspectivas,
entretanto, apontam que há outros fatores, como pré-disposições biológicas, por

capítulo 2 • 35
exemplo, que contribuem decisivamente para a formação da personalidade indi-
vidual. Para essa corrente se o meio social representasse o único condicionante
da personalidade humana, então, em um meio violento, todos os indivíduos se-
riam necessariamente violentos. Ou, ainda, não haveria diferença entre irmãos
criados dentro de um mesmo grupo. Há, ainda, outra corrente que considera que
a personalidade humana é formada por fatores múltiplos que interferem de for-
ma e graus variados e sob diversas combinações na formação individual.
A relação entre a formação da personalidade individual e o meio social po-
dem ser sintetizadas, nas noções abaixo:
a) As correntes teóricas que sugerem que o processo de socialização não é ne-
gociável; que os indivíduos não têm – e nem devem ter – poder de escolha,
pois a sociedade somente pode funcionar se se sobrepuser integralmente
aos desejos individuais.
b) As correntes que defendem as particularidades de cada indivíduo, con-
centrando-se nos aspectos inconscientes e emocionais de sua personali-
dade, o que tornaria único cada um de nós.
c) As correntes que apontam a importância individual na construção da
personalidade. Essa corrente afirma que os indivíduos são agentes ativos
no processo de socialização. E a que a formação de sua personalidade irá
depender das experiências pessoais de cada um.

ATENÇÃO
Para essa perspectiva, para entendermos o processo de formação da personalidade individual,
temos que levar em conta a herança biológica; o ambiente físico; a cultura da qual o indivíduo
faz parte; e as experiências biológicas e psicossociais individual.

2.6  Os agentes socializadores

Na história da formação humana, as instituições e organizações sociais foram


sendo modificadas conforme a sociedade foi se transformando e se tornando
mais complexa. Esse processo, por certo, nos leva a considerar que as intera-
ções sociais e o próprio processo de socialização também se transformaram.
Nas sociedades modernas e contemporâneas, o conjunto de relações e inte-
rações sociais que estabelecemos em nossa vida é incalculável. Em maior ou
menor medida, todas essas interações irão contribuir na formação dos sujeitos

36 • capítulo 2
sociais. Mas temos, por certo, algumas instituições que por conta da própria
importância na estrutura social, desempenham papeis significativos no pro-
cesso de transmissão do sistema cultural.
O papel dessas instituições pode ser melhor compreendido a partir da divi-
são comumente feita do processo de socialização em duas partes: “socialização
primária” e “socialização secundária”.

2.6.1  A Socialização Primária

O processo de socialização primária é associado ao período da nossa vida no


qual recebemos as primeiras noções culturais, isto é, os primeiros anos da nos-
sa vida. Essa fase é considerada fundamental na formação do ser social, pois é
o período no qual se formam as bases da personalidade, ou seja, é a etapa fun-
dacional da formação do ser social.
Nessa etapa, por meio dos jogos, brincadeiras, observação, imitação, con-
vivência, a criança começa a assimilar as primeiras regras sociais enquanto,
ao mesmo tempo, começa a acumular conhecimento e as práticas necessárias
para integrar o grupo social.
Nesse contexto, a família assume o papel de principal agente socializadora.
Essa fase será responsável pela formação das bases da nossa identidade,
aquelas que irão responder pela nossa etnia, crenças religiosas, gêneros, baga-
gem cultural, etc, ou seja, os aspectos centrais da nossa personalidade. Assim,
ainda que, no decorrer do tempo, por conta de outras interações sociais, esses
traços sejam revistos, ainda assim, essa revisão ou questionamento da nossa
formação se fará tendo como premissa àquelas primeiras noções apreendidas.

A família corresponde, assim,


à instituição que transmite os pri-
meiros processos que os indivídu-
os internalizam e que correspon-
dem à maneira como irão pensar,
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agir, sentir, enfim, à formação da


própria subjetividade. Por ser a pri-
meira instituição social da qual o
indivíduo fará parte, a família des-
fruta, assim, de um dos papeis mais decisivos na transmissão dos sistemas sim-
bólicos e, portanto, na reprodução e manutenção da ordem social.

capítulo 2 • 37
É possível reconhecer a importância da família nos processos de socializa-
ção a partir das noções abaixo:
•  a família é responsável por transmitir as primeiras regras e hábitos so-
ciais que tornarão o indivíduo um ser social;
•  por meio dessa transmissão dos primeiros sistemas simbólicos a identi-
ficação do indivíduo com seu meio social vai sendo construída, fato es-
sencial para a manutenção de qualquer sociedade;
•  religião, afeto, personalidade, moral, gostos são primeiramente constru-
ídas pela família;
•  ao mesmo tempo, cabe à família a perpetuação da diversidade social,
cultural e genética;
•  a família é responsável ainda, por garantir a proteção e assistência.

Esse conjunto de atributos faz com que a família desempenhe papel decisivo
na formação individual. O trecho abaixo, de Pierre Bourdieu, aponta como está
na origem familiar fatores que, se não são decisivos, condicionam, ainda assim,
a formação cultural e econômica de um indivíduo:
Cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um
certo capital cultural e um certo ethos, sistema de valores implícitos e profunda-
mente interiorizados, que contribui para definir, entre coisas, as atitudes face
ao capital cultural e à instituição escolar. A herança cultural, que difere, sob
dois aspectos, segundo as classes sociais, é a responsável pela diferença inicial
das crianças diante da experiência escolar e, consequentemente, pelas taxas de
êxito. (BOURDIEU; 1982, p. 42).

2.6.2  A Socialização Secundária

Se a família representa a instituição socializadora primária por transmitir aos


indivíduos os primeiros conhecimentos para a vida em sociedade, o reconhe-
cimento dessas experiências e as interações complexas com outros grupos so-
ciais são feitos pelo o que chamamos de processo de socialização secundária.
Esta etapa é exercida durante toda a vida do indivíduo quando ele torna-se
membro de uma sociedade, ou de outros grupos culturais. Aqui são exigidos
uma multiplicidade de habilidades e conhecimentos, pois durante nossa vida
serão exercidos inúmeros papeis sociais.
Encontramos como agentes socializadores nesse processo diferentes insti-
tuições, organizações e grupos sociais. Entretanto, as teorias concordam que,

38 • capítulo 2
nesse contexto, a escola exerce papel fundamental. O ambiente escolar é, geral-
mente, o primeiro grande grupo cultural do qual a criança faz parte. Ali ela é ex-
posta a dois tipos de conhecimento que possibilitam a transmissão simbólica
do seu meio social:
•  Aprendizado formal: onde são expostos os conhecimentos e habilida-
des considerados importantes por uma determinada sociedade por
meio de disciplinas, conteúdos. Os professores aqui assumem o papel
de agentes socializadores.
•  Aprendizado informal: é o processo de interação com os indivíduos,
membros de outros grupos e que, portanto, carre¬gam uma bagagem so-
ciocultural própria. Nas relações com os amigos, por exemplo, é estabe-
lecido um intenso processo de relação social, no qual valores e habilida-
des são apreendidos, conhecimentos compartilhados, formam-se
identidades (tanto individual quanto do próprio grupo).

Percebemos, portanto, que famí-


lia e escola ocupam lugar de referên-
cia na construção identidade indivi-
dual e social. Mas, certamente, esse
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processo não se encerra nessas duas


instituições. Ao longo de nossa vida,
construímos diferentes outras identi-
dades “secundárias”, parte importan-
te também do ser social: as posições partidárias, as atividades ocupacionais,
lazer, as opções de consumo, etc.

Há na teoria a proposição da noção de “socialização ocupacional” que faz referência


aos processos aprendidos na escolha e vivência de uma função. É necessário um pro-
cesso de transmissão de conhecimento e sistema simbólicos para que alguém se torne
professor, médico, cozinheiro, manicure, etc. Esse processo envolve a transmissão dos
conhecimentos formais e habilidades (Letras, Pedagógica, Medicina, Cursos Técnicos,
etc.), mas há também um aprendizado na vivência do processo, através da observa-
ção, do ambiente profissional, dos erros, das interações, etc. “Aprender as sutilezas do
ambiente ocupacional é tão importante quanto adquirir as habilidades técnicas – para
estabelecer e manter uma identidade ocupacional plausível e para ser socializado na
cultura ocupacional”. (SOCOTT, 2010, p. 194).

capítulo 2 • 39
2.6.3  Os meios de comunicação de massa como agentes socializadores

A socialização como temos visto é o processo pelo qual nos tornamos seres so-
ciais por meio das instituições e das interações sociais que estabelecemos em
nossa vida. Assim, cada época “elege” os agentes socializadores, por excelência,
tendo como premissa a forma como a organização social está predominante
constituída. Dessa forma, os agentes socializadores não foram os mesmos du-
rante toda a história da civilização humana, pois cada grupo e cada época pos-
suiu um conjunto simbólico próprio. Em sociedades religiosas, por exemplo, a
igreja assume papel socializador fundamental; já em sociedades tribais, o che-
fe ou líder da tribo é quem detém esse papel; em sociedades complexas, como a
moderna, há diferentes agentes socializadores, e assim por diante.
Na sociedade contemporânea muito se tem discutido sobre o papel dos meios
de comunicação de massa como agente socializador, especialmente, meios como
o cinema e a TV, uma vez que por meio deles aprendemos uma série de padrões
de conduta, modos de agir, hábitos, padrões de vestimenta, uso da linguagem e,
também, uma série de valores. Acrescenta-se, ainda, que em sociedades como a
brasileira, por exemplo, a televisão é um meio predominante, quando não único,
de acesso à produções artísticas e culturais para muitas famílias.
Não há concordância nas teorias sobre o grau de influência no qual se reali-
za esse processo de transmissão do conjunto simbólico. Alguns pesquisadores
apontam que o excesso à imagens violentas aumenta a propensão à violência in-
dividual. Para outros as imagens violentas são, na verdade, reflexo de uma orga-
nização social violenta. Discute-se também sobre o papel das propagandas nas
decisões sobre o consumo, especialmente infantil. Para alguns pesquisadores
isso influencia decisivamente a criança, sobretudo, porque não há formada nela
ainda a consciência necessária para identificar que se trata de uma propaganda.
Outros teóricos, ao contrário, discordam dessa afirmativa apontando que mes-
mo que a propaganda exerça influência, o papel da família, nesse processo, se
sobrepõe à TV.
Você percebe, portanto, que não se trata de uma questão de consenso para
as pesquisas sociais. O mesmo se dá quando o foco da discussão está no papel
dessas mídias na conservação ou não da ordem social. Parte dos pesquisadores
aponta que a TV estimula comportamentos positivos, como o engajamento dos
jovens em questões ambientes ou sociais. Para outros, entretanto, a cultura mi-
diática é responsável pela criação de estereótipos (imagens distorcidas da rea-
lidade) que contribuem para reforçar posturas equivocadas ou preconceituosas

40 • capítulo 2
(negros em papel secundários ou de bandidos; loiras no papel de ignorantes; etc).
Como parte da discussão do papel da mídia como agente socializador no
mundo moderno, o pensador francês Edgard Morin aponta o papel das mídias
na construção dos sonhos, do inconsciente por meio da criação de mitos. O
foco do pesquisador são as produções cinematográficas como referência para a
construção da vida cotidiana.

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[...] continua ainda desconhecida enquanto traduz a presença ines-perada da magia nos
nossos gestos, nos nossos atos, nos nossos sonhos, nos bibelôs que nos rodeiam, nos
nossos ritos inconscientes, na nossa cólera, nos nossos amores, nas nossas fidelidades.
A vida cotidiana é o domínio da nossa própria “primitividade”, do nosso arcaísmo vivido.
(MORIN, 1977, p. 308).

Decorre daí, segundo o autor, grande parte dos conhecimentos e aspirações


humanas como, por exemplo, a noção do que é “amor” ou de felicidade, construí-
das por meio dos happy end dos filmes românticos. Mas o problema da cultura da
mídia para Morin não está apenas nos valores que ela dissemina, mas, também,
nas relações com outras formas de produção e transmissão de culturas.

A cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa re-alidade policultural;


faz-se conter controlar, censurar (pelo Estado, pela Igreja) e, simultaneamente, tende a
corroer, a desagregar ou-tras culturas. A esse título, ela não é absolutamente autôno-
ma: ela pode embeber-se de cultura nacional, religiosa ou humanista e, por sua vez, ela
embebe as culturas nacional, religiosa ou humanista. (MORIN, 1977, p. 16).

capítulo 2 • 41
Para o autor, vivemos numa sociedade complexa e multicultural, onde di-
ferentes culturas convivem ao mesmo tempo, ao passo em que as instituições
culturais não podem ser vistas como esferas autônomas. Ou seja, há uma in-
terdependência entre elas: a religião influencia o Estado; este por sua vez in-
fluencia a Cultura; que influencia a Escola, que influencia e Família e assim
sucessivamente. O ponto essencial aqui é que para Morin, a mídia exerce uma
influência maior sobre todas elas, condicionando sua forma de existir. Por isso,
portanto, segundo o autor, ao falarmos sobre a sociedade moderna, temos que
analisar de que forma se dá o processo de construção das identidades individu-
ais e sociais pelos meios de comunicação de massa.

2.7  As contribuições de Bourdieu

Você percebe, portanto, que o processo pelo qual nos tornamos seres sociais
nos acompanha durante toda a nossa existência através das diferentes intera-
ções sociais que estabelecemos em nossa vida e que novos agentes socializado-
res colocam em pauta a questão de como esses processos se realizam na socie-
dade moderna e contemporânea.
Para finalizar este capítulo, propomos olhar para o processo de socialização
a partir da perspectiva do pensador francês Pierre Bourdieu.(1930 -2002).
A teoria desenvolvida por Bourdieu é considerada uma das mais importan-
tes do século XX, sobretudo porque faz uma releitura dos clássicos das ciên-
cias humanas, especialmente da Sociologia, à luz da contemporaneidade. Sua
obra, portanto, dialoga e acabou influenciando diversas áreas do conhecimen-
to como a própria Sociologia, a Filosofia, Antropologia, Pedagogia, Psicanálise
e Linguística.
Aqui iremos destacar um ponto especifico analisado pelo autor e que faz re-
ferência direta ao processo de socialização: como o indivíduo se torna ser social
e quais estratégias usar para se diferenciar no meio social. Para isso, vamos re-
correr às noções de habitus e campo, criadas pelo autor.
A noção de habitus foi criada por Bourdieu para explicar como internali-
zamos as práticas que são social e historicamente construídas a tal ponto que
elas se naturalizam em nossas ações. É a esse processo de naturalização das
práticas “artificiais”, construída pelos processos de socialização, que Bourdieu
dá o nome de habitus como:

42 • capítulo 2
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[...] um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, inte-grando todas as ex-
periências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de
apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente dife-
renciadas, graças às transferências analógicas de esquemas [...] (BOURDIEU, 1983, p.
65).O ponto central aqui é como se dá a construção da subjetividade dos indivíduos. A
noção de habitus busca traduzir a tensão que se dá na relação entre o biológico (aquilo
que é natural) e o social. O habitus revela, dessa forma, como as práticas sociais são
inscritas no corpo, no indivíduo, conduzindo sua ação e pensamento. Em outras pala-
vras, o conceito revela como nos tornamos seres sociais, como se realiza a mediação
entre o indivíduo e a sociedade.

Algumas definições, apontam habitus como a forma pela qual interioriza-


mos as exterioridades sociais e, ao mesmo tempo, exteriorizamos as interiori-
dades. Isto é, revela como os sujeitos sociais são construídos a partir de uma re-
lação constante entre indivíduo e sociedade; mundo subjetivo e objetivo. Essa
formação se dá pelas experiências que vivenciamos e se revelam nas práticas
cotidianas, nas formas de pensar e agir. Assim, “o habitus é uma subjetividade
socializada” (Bourdieu, 1992, p. 101). Em outros termos, é a mediação entre o
sujeito e o meio social.
A concepção de Bourdieu de habitus busca relativizar o determinismo pre-
sente na ideia de que o meio social se impõe ao indivíduo sem uma contrapar-
tida deste. Para o autor, o indivíduo é sujeito social que desenvolve uma série de
estratégias para conduzir sua ação num meio social específico. Para ser melhor
compreendido, a noção de habitus deve ser acompanhada do conceito de campo.

capítulo 2 • 43
O campo é um espaço social estruturado, por onde as ações dos diversos
grupos se realizam. Por exemplo: o campo econômico, politico, cultural, social,
educacional, médico, jornalista etc. É uma espécie de microcosmos dentro da
organização social mais ampla.

CONEXÃO
Leia o texto “A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura con-temporânea”, da pesqui-
sadora Maria da Graça Setton. A autora traz aqui uma analise dos processos de socialização
contemporâneo, tendo como referência justamente a noção de habitus concebida por Bour-
dieu. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S141324782002000200005&s-
cript=sci_arttext108 Ciências Humanas>.

Ao relacionar as duas noções, Bourdieu analisa a formação do ser social e,


portanto, do processo de socialização a partir de uma perspectiva dialética que
leva em conta a relação do indivíduo com o seu meio social historicamente de-
terminado. Ou sejam, as praticas individuais refletem e se realizam em relação
à conjuntura do campo no qual o indivíduo está inserido. Essa conjuntura é
sempre histórica e socialmente construída, o que faz com que o indivíduo de-
senvolva aptidões, percepções e habilidades em resposta à estrutura do campo
do qual faz parte. Estabelece-se, assim, uma correspondência entre as práticas
propriamente individuais e a condições objetivas de existência.

ATIVIDADE
1. Por que é possível afirmar que o ser humano é um ser social?

2. Explique o que é socialização

3. Qual a relação da socialização com a manutenção da ordem social?

4. Como se forma a personalidade individual?

5. Por que a família é considerada a agente primaria de socialização?

44 • capítulo 2
6. Indique alguns agentes socializadores da sociedade moderna.

7. Explique a importância dos meios de comunicação como agentes socializadores

8. Defina o conceito de habitus, na perspectiva de Bourdieu.

REFLEXÃO
Compreender a forma como nos tornamos seres sociais têm sido ponto de análise das pes-
quisas nas ciências humanas há muito tempo, pois ela revela, logo em sua base, como se dá
nossa relação com o meio social do qual fazemos parte; de que maneira esse meio influen-
cia na formação de nossa subjetividade e individualidade. Não é possível separar o sujeito,
ou melhor, sua construção, do meio no qual ele está inserido. Nos tornamos seres sociais,
justamente, quando absorvemos o conjunto de sistemas simbólicos de nosso meio. É essa
relação que permite internalizarmos as práticas sociais e reproduzi-las em nosso cotidiano.
Não é possível, dessa forma, conhecer o sujeito social e sua subjetividade sem dimensionar
o meio social, histórico e determinado, do qual ele faz parte.

LEITURA
Anthony Giddens. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
Nessa obra, Giddens reflete sobre o sentido de sociedade e discute como a modernidade se
relaciona com a formação da identidade.

Edgard Morin. A indústria cultural”. In: Sociologia e sociedade. Org. Marialice Menca-
rini Foracchi e José de Souza Martins. Rio de janeiro: LTC; 1984.
O papel das mídias e da comunicação de massa na formação dos sujeitos sociais é analisada
por Morin nessa obra. O autor discute ainda como esses meios criam modelos modernos de
mitos que servem como referência na construção das subjetividades individuais.

capítulo 2 • 45
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SICHIROLLO, Livio. Dialéctica. Barcelona: Labor, 1976.

capítulo 2 • 47
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios
de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo abordaremos a noção de Cultura na modernidade, e como esse concei-
to se desdobra em cultura de massa, cultura popular, cultura jovem e subcultura.

48 • capítulo 2
3
A Cultura na
Modernidade:
Cultura de Massa,
Cultura Popular,
Cultura Jovem e
Subcultura
3  A Cultura na Modernidade: Cultura de
Massa, Cultura Popular, Cultura Jovem e
Subcultura
Neste capítulo, abordaremos uma questão bastante pertinente à modernidade:
os conceitos de Indústria Cultural e Cultura de Massa. A partir dos estudos desses
conceitos, poderemos pontuar os propósitos consumistas da Indústria do consu-
mo, e percebermos como, na indústria do consumo, a cultura também se tornou
mercadoria, e neste contexto de compra e venda de bens simbólicos e compreen-
dermos de que forma a linguagem se coloca como elemento fundamental.

OBJETIVOS
•  Compreender os conceitos de Indústria Cultural e Massificação.
•  Compreender como a linguagem midiática é capaz de promover uma cultura homogeneizante.

REFLEXÃO
Os meios de comunicação têm um importante papel de cimentar a ideologia vigente. Um
conceito sociológico importante para analisar seu alcance é o de Indústria Cultural. Com ele
teremos, a partir de uma perspectiva marxista, uma interpretação sobre a mídia como instru-
mento de configuração da vida social.
A indústria cultural vende Cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. A
“mídia” é o senso comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova.
Massificar é, assim, banalizar a expressão artística e cultural, vulgarizando as artes.

3.1  Introdução

O tema da comunicação tem importantes implicações, por isso, com o tema


Cultura de massa é possível relacionar alguns aspectos importantes à sociabili-
zação dos indivíduos por meio das linguagens contemporâneas. Ainda no que
se refere á Indústria Cultural, é importante contextualizar esse conceito no Bra-
sil, com as diferentes matrizes históricas presentes e a convivência constante-
mente articulada entre o moderno e arcaico.

50 • capítulo 3
A indústria da atual TV brasileira é indiscutivelmente poderosa, com capa-
cidade de estimular o desejo, ditar comportamentos, moda e estilo de vida,
com o intuito de vender seus produtos, associando-os aos artistas famosos.
Tudo é meticulosamente preparado para criar uma atmosfera de sonho na qual
se insere o telespectador.
As influências dos estu-
dos marxistas contemplaram
também o âmbito da cultura.
Dentre elas destacamos a im-
portância da Escola de Frank-

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furt e seus pesquisadores,
que durante a década de 20,
na Alemanha, decidiram dis-
cutir as implicações e modi-
ficações da cultura mediante o desenvolvimento do capitalismo. Dentre esses
autores, muitos se destacaram, Adorno e Horkheimer, por exemplo, definiram
o conceito de Indústria Cultural, (1922) Walter Benjamim, embora à margem
do grupo de formação inicial, discutiu: “A obra de arte na era da sua reproduti-
bilidade técnica” e apontou novos caminhos e alternativas para as artes pós-au-
ráticas (fotografia e o cinema).
O objetivo principal destes teóricos foi criticar a transformação da cultura
em mercadoria, sua massificação e padronização destinando-se apenas ao en-
tretenimento da chamada “camada média” da população, alvo da Sociedade
de Consumo. Assim como qualquer outro produto vendável, também a arte e a
cultura seriam passíveis de comercialização pelos grandes conglomerados que
venderiam junto com “produtos” culturais, sonhos, projeções, ilusões e entre-
tenimento vazio, esvaído de crítica ou de reflexão.
Esses produtos vendidos em larga escala teriam como principal característi-
ca a padronização e o enredo facilitado, atendendo a exigências dos modismos
e tendências ditados pela Sociedade Capitalista de Consumo. Temos então a
Cultura de Massa, superficial e efêmera, difundida através de veículos massivos
que atingem a imensa maioria da população sem a preocupação com critérios de
qualidade do conteúdo, mas apenas com o número da audiência/ consumidores.
Os meios de comunicação de massa, particularmente a televisão, são rela-
tivamente os novos agentes de socialização, influenciando comportamentos,
atitudes e incentivando novos hábitos (especialmente os de consumo), difun-
dindo padrões (estereótipos).

capítulo 3 • 51
Como contraponto a esta perspectiva pessimista adotada pelos Frankfurtia-
nos, Benjamin defendia o potencial emancipatório e até mesmo revolucionário
que as artes pós-auráticas (cinema/fotografia) poderiam promover caso fossem
bem utilizadas na criação de uma perspectiva mais crítica e reflexiva nas pessoas.
Nas últimas décadas, alguns teóricos latino-americanos, discutem e ques-
tionam em seus estudos sobre a recepção (Canclini, Barbero, Sarlo) essa mera
transposição da cultura como mercadoria, levantando a hipótese de uma res-
significação do conteúdo veiculado pelos meios de comunicação de massa por
parte dos sujeitos/receptores, inclusive sendo possível uma reinterpretação
que contemple a reflexão sobre sua própria condição social.

Vejamos algumas considerações importantes sobre a Indústria Cultural:


“Ser, pensar, agir, estar sempre, obrigatoriamente, “como os outros” é amoldar-se ine-
xoravelmente a esse implacável Deus “chamado “todo mundo””. É renunciar à própria
individualidade, trocando-a pelo amorfo e medíocre “eu coletivo” da multidão.
Inserir-se na massa é socializar a si mesmo. A massa é, portanto, o povo degenera-
do.”(Orlando Fedeli)
“A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capa-
zes de julgar e de decidir conscientemente.

Mas, uma crítica contundente ainda válida dos estudos Frankfurtianos resi-
de no aspecto central da manipulação ideológica presente nos produtos da In-
dústria Cultural. A alienação e a ideologia do consumo orientam a produção e a
divulgação destes produtos, fazendo com que em sua própria forma e conteúdo
conformem as mentes para a importância do ato de “Consumir” para pertencer
ao grupo social e ao mesmo tempo diferenciar-se dos demais grupos existentes.
Para reforçar esse processo, existe o importante papel exercido pelo discur-
so publicitário que associa produtos a valores socialmente aceitos às determi-
nadas marcas e produtos, atribuindo-lhes um valor simbólico (Fetichização)
que suplanta em muito o seu valor de uso/utilidade ou função.
Antes de se olhar de maneira crítica para essas afirmações acima, é preciso
compreender o conceito de Indústria Cultural.

52 • capítulo 3
CONCEITO
Fetichização: Ato de atribuir simbolicamente aos indivíduos parte do corpo ou objeto. Fetichi-
zação vem de fetichismo que é um desvio de interesse sexual para alguma parte do corpo do
parceiro, para algumas funções fisiológicas ou ainda para peças de roupas, adornos. Este é o
meio utilizado pela pessoa para que a mesma possa atingir o seu desejo sexual; tal compor-
tamento faz parte das parafilias(padrões diferenciados de comportamentos).

3.2  Indústria Cultural

O conceito de indústria cultural foi utilizado pela primeira vez por dois filóso-
fos alemães, Theodor W. Adorno e Max Hockeimer, em 1947, na obra “Dialé-
tica do Iluminismo”. Theodor e Max eram dois professores judeus do Instituto
de Pesquisas Sociais da Universidade de Frankfurt, que fugindo do nazismo em
1933, emigraram para os EUA e aí permaneceram vivendo em um período mui-
to importante deste país.
O nazismo, através de uma competente política de comunicação desenvol-
vida por Goebels, ministro da Propaganda do governo nazista, havia apostado
nas novas formas de comunicação, aperfeiçoando o uso do rádio e do cinema.
Quando Hitler assumiu o poder em 1933, apesar do surgimento recente do rá-
dio, ele já havia delineado claramente sua política para este veículo. A partir de
1930/31, o Partido Nacional Nazista começou a influir na nomeação de direto-
res de rádio, pois este foi criado na Europa como sistema público, ou seja, um
sistema controlado pelo Estado. Vai ser nítida a diferença entre uma Indústria
Cultural que surge a partir do Estado e aquela que advém das empresas, das
indústrias e do comércio, como vai ser o modelo americano.
O nazismo era plenamente consciente da eficácia do rádio, já que o partido
não tinha condições de controlar os jornais, que em sua grande maioria não
apoiaram o movimento. Assim, contando com a adversidade dos jornais ale-
mães, Goebels apostou no rádio e no cinema. Ora, Adorno e Horkheimer co-
nheceram a propaganda nazista. Eles viram o que o nazismo fez com o rádio,
repetindo, de certa forma, a estratégia já desenvolvida por Mussolini na Itália.
Ao assumir o poder em 1922 na Itália, Mussolini também usou esses dois
veículos. Ele criou a Cineccittà, empresa de filmes do Estado italiano. Esses
dois ditadores desenvolveram políticas de comunicação que podem ser consi-

capítulo 3 • 53
deradas as mais competentes que já existiram. Perceberam o grande potencial
de mobilização das massas através do cinema e do rádio. É importante apren-
der com esses exemplos, pois eles podem ensinar a mobilizar uma sociedade
não para o autoritarismo, mas para a libertação, a criatividade e a emancipação.
Assim, a origem desse con-
ceito, Indústria Cultural, é, de
um lado, o nazismo, claramen-
te explicitado em uma frase
de Adorno e Horkheimer que
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impressiona muito: “O rádio é


a voz do Führer”; e, de outro, a
sociedade de massa americana
e sua cultura. Trata-se de uma
sociedade que eles aprende-
ram a conhecer a partir de 1933 e que nunca deixou de representar o desprezo que
intelectuais europeus exilados tinham pelos Estados Unidos, que se traduzia no
horror pela cultura de uma sociedade que, de certa forma, trazia uma série de ele-
mentos completamente desconhecidos na Alemanha do mesmo período.
Em nenhum momento na análise desses autores sobre a cultura do século
XX, encontra-se o reconhecimento de que o paraíso da cultura, esse eldorado
do século XIX, foi também contemporâneo de um dos mais violentos períodos
da história. Nas fábricas havia um trabalho quase escravo, onde as crianças ti-
nham jornadas absolutamente impensáveis hoje. Esse é um período em que a
arte, a literatura e a pintura não estavam sendo assediadas pela cultura deca-
dente que os meios de comunicação de massa então veiculavam.
É preciso, então, interpretar o conceito de Indústria Cultural a partir do seu con-
texto histórico. De um lado, o nazismo; de outro, a sociedade americana vista pelos
filósofos judeus emigrados como o sintoma da decadência cultural do Ocidente.

ATENÇÃO
Então, se formos ler também o que esses dois autores escrevem sobre a sociedade america-
na, perceberemos o clima de real desencanto, de desespero e de falta de esperança. O livro:
“Dialética do lluminismo” anunciava a decadência cultural do Ocidente, depois do surgimento
dos meios de comunicação de massa. Tal decadência foi estabelecida em função de um para-
íso imaginário da cultura do século XIX.

54 • capítulo 3
A partir de suas idéias, tentou-se definir uma indústria muito especial, que pro-
duz não uma mercadoria qualquer, mas sim uma mercadoria que possui um valor
simbólico muito grande, embora ela se organize da mesma forma que uma fábrica
de automóveis. Por quê? Sua produção é em grande escala – basta ver as tiragens
dos jornais e as audiências da televisão e do rádio; tem um baixo custo, porque se
beneficia da economia de escala; é padronizada, pois é a eterna repetição do mes-
mo. Foi a partir dessas três características que os autores tentaram mostrar como
essa indústria realizava uma verdadeira manipulação das consciências.
No Brasil, infelizmente, continua-se a definir essa indústria da mesma for-
ma que em 1947. Infelizmente, porque Adorno, três meses antes de morrer, em
1968, fez uma conferência numa rádio alemã, que se chamou “Tempo Livre”,
dizendo que, quando ele e HORKHEIMER criaram este conceito de Indústria
Cultural, cometeram alguns equívocos.
Esse conceito não servia mais para designar a nova realidade. Por que essa
afirmação? Porque ele havia feito uma pesquisa sobre a televisão alemã, exa-
minando como o público via o casamento da Princesa Beatriz da Holanda com
o Sr. Klaus, um diplomata alemão. A conclusão a que ele chegara foi de que os
alemães não deram a menor atenção ao casamento. Tratava-se de uma coisa ba-
nal que não despertara nenhum interesse, apesar da grande cobertura da televi-
são alemã. ADORNO encerrou a conferência, afirmando: “A televisão ainda não
se apropriou da consciência dos alemães, existe ainda um espaço de liberdade,
existe um espaço que nós podemos trabalhar”.
Os pontos de partida das teorias desenvolvidas pelos dois autores mencio-
nados são o Marxismo e a Psicanálise. Mas é comum designá-los como perten-
centes – ao lado de outros filósofos, sociólogos, psicanalistas e historiadores – à
Escola de Frankfurt, que na verdade nunca existiu, mas sim o Instituto de Pes-
quisas Sociais da Universidade de Frankfurt. Assim, cada vez que se fizer uma
denúncia em relação à Indústria Cultural, corre-se sempre o risco de ser cha-
mado de “frankfurtiano”. Havia uma certa coerência teórica entre aqueles que
denunciavam a sociedade de massa, como a suprema forma de totalitarismo e
de perversão da cultura. Para Herbert Marcuse, também filósofo alemão ligado
a esse grupo e que morreu nos Estados Unidos na década de 70, a sociedade de
massa contemporânea é uma nova forma de totalitarismo, só que muito mais
perigosa, porque este totalitarismo não é percebido como tal.
Enquanto o nazismo e o fascismo são identificados como formas totalitá-
rias de governo, a sociedade americana não pode ser identificada como uma

capítulo 3 • 55
sociedade totalitária, porque não existe a consciência da denominação, ou me-
lhor, essa denominação é agradável. Para esses autores, a sociedade de massa
é também uma sociedade totalitária, porque os dominados não percebem até
onde vai essa dominação.
As duas experiências mencionadas anteriormente, tanto a do nazismo como
a da sociedade americana do pós-Guerra, não têm nada a ver com a sociedade
brasileira. Ao se adotarem esses conceitos sem nenhuma análise crítica, corre-se
o risco de uma dependência teórica, que ainda é muito forte no Brasil. Incorpo-
ram-se conceitos de forma acrítica, o que conduz a análises completamente equi-
vocadas. Portanto, nós temos de analisar essas teorias a partir de uma perspecti-
va crítica e pensando na história cultural da América Latina e do Brasil.
Com relação à comunicação de massa, pode-se dizer que ela não é uma carac-
terística do século XX, mas tem já suas manifestações no século XIX claramente
delineadas. Segundo Adorno, na Indústria Cultural, tudo se torna negócio. En-
quanto negócios, seus fins comerciais são realizados por meio de sistemática
e programada exploração de bens considerados culturais. Um exemplo disso,
dirá ele, é o cinema. O que antes era um mecanismo de lazer, ou seja, uma arte,
agora se tornou um meio eficaz de manipulação. Portanto, podemos dizer que
a Indústria Cultural traz consigo todos os elementos característicos do mundo
industrial moderno e nele exerce um papel especifico, qual seja, o de portadora
da ideologia dominante, a qual outorga sentido a todo o sistema.
É importante salientar que, para Adorno, o homem, nessa Indústria Cultu-
ral, não passa de mero instrumento de trabalho e de consumo, ou seja, objeto.
O homem é tão bem manipulado e ideologizado que até mesmo o seu lazer se
torna uma extensão do trabalho. Portanto, o homem ganha um coração-máqui-
na. Tudo que ele fará, fará segundo o seu coração-máquina, isto é, segundo a
ideologia dominante. A Indústria
Cultural, que tem como guia a racionalidade técnica esclarecida, prepara as
mentes para um esquematismo que é oferecido pela indústria da cultura – que
aparece para os seus usuários como um “conselho de quem entende”. O con-
sumidor não precisa se dar ao trabalho de pensar, é só escolher. É a lógica do
clichê. Esquemas prontos que podem serem pregados indiscriminadamente só
tendo como única condição a aplicação ao fim a que se destinam. Nada escapa a
voracidade da Indústria Cultural. Toda vida torna-se replicante. Dizem os auto-
res: Ultrapassando de longe o teatro de ilusões, o filme não deixa mais à fantasia
e ao pensamento dos espectadores nenhuma dimensão na qual estes possam,
sem perder o fio, passear e divagar no quadro da obra fílmica permanecendo, no

56 • capítulo 3
entanto, livres do controle de seus dados exatos, e é assim precisamente que o
filme adestra o espectador entregue a ele para se identificar imediatamente com
a realidade. Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consu-
midor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os próprios
produtos [...] paralisam essas capacidade em virtude de sua própria constituição
objetiva (ADORNO & HORKHEIMER, 1997, p.119).
Fica claro, portanto, a grande intenção da Indústria Cultural: obscurecer a
percepção de todas as pessoas, principalmente, daqueles que são formadores de
opinião. Ela é a própria ideologia. Os valores passam a ser regidos por ela. Até mes-
mo a felicidade do individuo é influenciada e condicionada por essa cultura. Na
Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer exemplificam este fato através
do episódio das Sereias da epopéia homérica. Ulisses preocupado com o encanta-
mento produzido pelo canto das sereias tampa com cera os ouvidos da tripulação
de sua nau. Ao mesmo tempo, o comandante Ulisses, ordena que o amarrem ao
mastro para que, mesmo ouvindo o cântico sedutor, possa enfrentá-lo sem su-
cumbir à tentação das sereias. Assim, a respeito de Ulisses, dizem os autores:

O escutado não tem conseqüências para ele que pode apenas acenar com a cabeça
para que o soltem, porém tarde demais: os companheiros, que não podem escutar, sa-
bem apenas do perigo do canto, não da sua beleza, e deixam-no atado ao mastro para
salvar a ele e a si próprios. Eles reproduzem a vida do opressor ao mesmo tempo que
a sua própria vida e ele não pode mais fugir a seu papel social. Os vínculos pelos quais
ele é irrevogavelmente acorrentado à práxis ao mesmo tempo guardam as sereias à
distância da práxis: sua tentação é neutralizada em puro objeto de contemplação, em
arte. O acorrentado assiste a um concerto escutando imóvel, como fará o público de
um concerto, e seu grito apaixonado pela liberação perde-se num aplauso. Assim o
prazer artístico e o trabalho manual se separam na despedida do antemundo. A epopéia
já contém a teoria correta. Os bens culturais estão em exata correlação com o trabalho
comandado e os dois se fundamentam na inelutável coação à dominação social sobre
a natureza (ADORNO & HORKHEIMER, 1997, p. 45).

É importante frisar que a grande força da Indústria Cultural se verifica em


proporcionar ao homem necessidades. Mas, não aquelas necessidades básicas
para se viver dignamente (casa, comida, lazer, educação, e assim por diante)
e, sim, as necessidades do sistema vigente (consumir incessantemente). Com

capítulo 3 • 57
isso, o consumidor viverá sempre insatisfeito, querendo, constantemente, con-
sumir e o campo de consumo se torna cada vez maior. Tal dominação, como diz
Max Jimeenez, comentador de Adorno, tem sua mola motora no desejo de pos-
se constantemente renovado pelo progresso técnico e científico, e sabiamente
controlado pela Indústria Cultural.

CONEXÃO
Para compreender um pouco mais as ideias de Theodor Adorno e da Escola de Frankfurt,
acesse:<http://educaterra.terra.com.br>.

Nesse sentido, o universo social, além de configurar-se como um universo


de “coisas” constituiria um espaço hermeticamente fechado. E, assim, todas as
tentativas de se livrar desse engodo estão condenadas ao fracasso. Mas, a visão
“pessimista” da realidade é passada pela ideologia dominando, e não por Ador-
no. Para ele, existe uma saída, e esta, encontra-se na própria cultura do homem:
a limitação do sistema e a estética.
Na Teoria Estética, obra que Adorno tentará explanar seus pensamentos
sobre a salvação do homem, dirá ele que não adianta combater o mal com o
próprio mal. Exemplo disso ocorreu no nazismo e em outras guerras. Segundo
ele, a antítese mais viável da sociedade selvagem é a arte. A arte, para ele, é que
liberta o homem das amarras dos sistemas e o coloca com um ser autônomo, e,
portanto, um ser humano. Enquanto para a Indústria Cultural o homem é mero
objeto de trabalho e consumo, na arte é um ser livre para pensar, sentir e agir.
A arte é como se fosse algo perfeito diante da realidade imperfeita. Além disso,
para Adorno, a Indústria Cultural não pode ser pensada de maneira absoluta:
ela possui uma origem histórica e, portanto, pode desaparecer.
Por fim, podemos dizer que Adorno foi um filósofo que conseguiu inter-
pretar o mundo em que viveu, sem cair num pessimismo. Ele pôde vivenciar e
apreender as amarras da ideologia vigente, encontrando dentro dela o próprio
antídoto: a arte e a limitação da própria Indústria Cultural.
Portanto, os remédios contra as imperfeições humanas estão inseridos
na própria história da humanidade. É preciso que esses remédios cheguem a
consciência de todos (a filosofia tem essa finalidade), pois, só assim, é que con-
seguiremos um mundo humano e sadio.

58 • capítulo 3
3.3  Cultura popular

Definir cultura popular não é uma tarefa precisa e, por isso mesmo, esta tem
sido ponto de debate frequente nas ciências humanas.
No geral, a cultura popular é aquela que é contraposta à cultura erudita ou de
elite. São, portanto, classificações que dialogam, em alguma medida, com o siste-
ma pelo qual uma determinada sociedade esta dividida. Popular se relacionaria
ao povo, enquanto erudito faz relação à cultura da elite.
Essa definição, ainda que possível, fica bastante limitada se consideramos
as sociedades complexas em que vivemos e que colocam em constante contato
culturas diferentes e de origens distintas, tornando menos decisivas as classifi-
cações “popular” e “erudito”. Ainda assim, é possível considerarmos que den-
tro dos próprios sistemas culturais são criadas hierarquias que tornam mais ou
menos oficiais e hegemônicas determinadas manifestações culturais.
Dias (2010) afirma que uma forma de entendimento do que é cultura popular
pode ser feita relacionando-a ao que é considerado como cultura dominante. As-
sim, diz o autor, a cultura popular surge na Idade Média para “expressar uma vi-
são diferente daquela oficial, representada pela nobreza e pelo clero” (DIAS, 2010,
p. 71). Por essa razão, o espaço de desenvolvimento dessas manifestações é o espa-
ço do povo: ruas, praças ao invés
dos ambientes fechados, como
os palácios, as igrejas que, na-
quele momento, eram espaços
de convivência da nobreza e do © Anibal Trejo | Dreamstime.com

clero. As manifestações da cul-


tura popular se fazem, assim,
buscando inverter os valores e
as noções morais determinadas
pela cultura oficial.
Com o surgimento da sociedade de classes na idade moderna e contemporâ-
nea, a hierarquia social é transformada, mas, para alguns autores, permanece a
noção de existência de um sistema cultural considerado como oficial, dominante.
A polarização, assim, passa a ser feita entre cultura popular e cultura dominante.
A cultura popular se manifesta, dessa forma, pela arte, pelo folclore, por pa-
drões de comportamento, pela religião, etc, compondo um conjunto de represen-
tações que possuem uma lógica própria e que distingue-se da cultura dominante.

capítulo 3 • 59
3.4  Cultura de massa

A cultura de massa é um fenôme-


no relativamente recente na so-
ciedade. Sua origem é localizada
no final do século XIX quando
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o desenvolvimento tecnológico
permitiu a criação de meios que
permitiam a difusão da cultura
para um número ilimitado de
pessoas, como o jornal impres-
so, o rádio, o cinema, a televisão.
Desse desenvolvimento nasceu a indústria cultural e a cultura de massa.
Esse fenômeno tornou-se tão hegemônico na produção cultural que para
alguns autores, a cultura de massa é o traço mais marcante da cultura moderna.
Isso porque, grande parte da transmissão cultural em nossa sociedade é feita
por meio dos meios de comunicação de massa.
É preciso aqui definir o que estamos chamando de massa. Essa conceitu-
ação foi feita pelos autores alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer, tam-
bém criadores do conceito de indústria cultural, em 1947, para explicar o lugar
da arte na sociedade industrial capitalista. Massa, aqui, significa um conjunto
heterogêneo, diverso de pessoas, mas que são tratados de forma homogênea
pela indústria cultural através dos meios de comunicação de massa. Para aten-
der à massa, a indústria padroniza e banaliza as expressões artísticas e cultu-
rais. O ponto central desse argumento, segundo Adorno e Horkheimer, é que a
cultura que deveria ser o lugar da emancipação humana torna-se o espaço do
consumo e conformismo.
Isso se dá, pois assim como todas as outras produções do sistema capitalis-
ta, a produção da cultura também se adequa à economia de mercado e à socie-
dade de consumo.

A cultura feita em série, industrialmente para um grande numero, passa a ser vista
não como um instrumento de critica e conhecimento, mas como produto trocável por
dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa. [...] Com
seus produtos, a indústria cultural pratica o reforço das normas sociais, repetidas até a
exaustão, sem discussão. Em consequência, uma outra função: a de promover o confor-
mismo social. (COELHO, 1980, p. 26).

60 • capítulo 3
É bastante fácil percebermos o alcance cultural da cultura de massa. Imagine,
por exemplo, uma telenovela. Por meio dela, diariamente são oferecidas à milhões
de pessoas formas de se vestir, produtos de consumo, gestos, normas e valores, ex-
pressões linguísticas que facilmente são incorporados em nosso cotidiano.
Para alguns autores, esse consumo cultural não é tão automático; cada pes-
soa ou grupo recebe essas informações e elaboram uma ressignificação do seu
conteúdo, aceitando-as ou não. Já outro grupo de autores definem que a indús-
tria cultural é a face ideológica da cultura no sistema capitalista. Uma terceira
via, assume ainda que a cultura de massa é apenas uma das formas de produção
cultural, ao lado da cultura popular e erudita, e em constante relação com essas
outras manifestações.

CONEXÃO
Assista ao filme Show de Truman, de Peter Weir.
O ponto inicial dessa obra é uma espécie de reality show, do qual principal Truman faz parte
desde que nasceu, sem saber.

3.5  Cultura jovem e subcultura

O conceito de subcultura surgiu pós segunda guerra, na Europa, onde jovens


começaram a se manifestar, devido às novas condições que enfrentavam. Dick
Hebdige, em 1979, publica Subculture, the meaning of style. Os jovens criticavam
a sociedade ufanista e de consumo que surgia no pós-guerra, buscando, assim,
trejeitos peculiares de comportamento e atitude que demonstrassem sua insa-
tisfação. Surgem os Punks, Mods, Góticos, Hippies, Rockers, entre outros.
Grosso modo, podemos dizer que subcultura é a cultura de um grupo que se
insere em uma sociedade maior. Sendo assim, subculturas são aquelas cultu-
ras dos grupos, e que, normalmente, surgem entre os jovens.
Quando o determinado grupo determina elementos culturais que o diferen-
cia dos demais, temos uma subcultura. Isso acontece porque é impossível pen-
sar em uma cultura homogênea em uma sociedade ampla. As subculturas são
marcas pluriculturais da sociedade.

capítulo 3 • 61
Punks, góticos, roqueiros, além de grupos étnicos, como nordestinos, japone-
ses, italianos , em uma grande cidade como São Paulo, formam subculturas, pois
esses grupos se apropriam do das características culturais mais gerais da socie-
dade em que vivem e moldam-nas para o seu estilo de vida ou necessidades.
As subculturas se caracterizam por apre-
sentar caraterísticas e rituais específicos, e é
isso que os diferencia uns dos outros dentro
em um mesmo espaço social. Esses peque-
nos grupos escolhem na cultura padrão e
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global da sociedade elementos que são mais


adequados à sua forma de entender a rea-
lidade e a partir daí criam um conjunto de
critério de valores, comportamentos, práticas e sistema simbólicos que se con-
solidam em uma “identidade”. A isso, Levi Strauss, em sua doutrina social dá o
nome de Bricolagem, ou seja, uma nova forma de organização as peças do jogo
utilizando-se de peças pré-existentes no meio social.
Por exemplo, diante da situação deplorável que as pessoas atravessam nos
morros do Rio de Janeiro, contando apenas com um auxílio precário por parte
das autoridades, a subcultura Funk colhe nessa situação elementos para com-
pôr suas letras de protesto e propagar suas ideias de uma sociedade em que
impera o poder do marginal, a tentativa de igualdade da mulher por meio do
sexo, a necessidade de se impor por da riqueza e da “ostentação”.

CONEXÃO
Assista ao filme Clube da Luta, 199, dirigido por David Fincher, com Brad Pitty, Edward
Norton e Helena Boham Carter. O filme aborda a vida de um executivo yuppie (Young Urban
Professional, jovens profissionais, ambiciosos, bem formados e com boa posição social). No
filme, a personagem yuppie de Edward Norton passa por uma crise de identidade.

62 • capítulo 3
ATIVIDADE
1. Como surge a noção de Indústria Cultural?

2. Defina cultura de massa.

3. Defina cultura popular.

4. O que é subcultura?

REFLEXÃO
Nos Países das Américas, pode-se constatar a presença de uma cultura de massa, alimen-
tada e difundida pelos grandes meios de comunicação social, muito dinâmica, produzindo
sempre novas e passageiras modas de consumo. Isto acaba impondo ou reforçando uma
mentalidade materialista, em que tudo é subordinado ao lucro.
Assim, contraditoriamente, a “cultura de massa” se apresenta como extremamente per-
missiva e oferece (em teoria) a liberdade de escolha. Na realidade, porém, procura impor a
todos, os mesmos modelos e até os mesmos vícios de comportamento e de consumo. Ca-
racteriza-se por ser produzida segundo as normas de fabricação industrial, propagada por
técnicas destinadas a uma massa social.
Muitas vezes, o próprio acúmulo de informações e de imagens, apresentadas em cres-
cente velocidade, impede o desenvolvimento de qualquer atitude reflexiva e crítica, reduzindo
a cultura de massa a “entretenimento”, que serve para esquecermos do mundo.
A cultura de massa não é imposta, nem reflete as necessidades e desejos culturais do
público, molda-se a esses desejos, às aspirações, tornando-se local de auto-realização, de
concretização daquilo que é suprimido na “vida real”. Exemplo: As pessoas gostam de assistir
novelas, pois vêem nos personagens algo que gostariam de ser em sua vida.
Tem-se, portanto, a criação de um novo público, cujo consumo homogeneizado cria uma
identidade de valores (de consumo), veiculados pelos meios de comunicação de massa. Há
um nivelamento das diferenças sociais, como parte da padronização dos gostos.

capítulo 3 • 63
LEITURA
MORIN, E. Cultura de massas no século XX. Vol I. e Vol II. RJ: Forense Universitária,
1975.
Neste Livro, Edgard Morin elabora uma consistente reflexão sobre a Indústria Cultural e a
massificação da cultura no século XX.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENJAMIN, W. Coleção Grande Cientistas Sociais. SP: Ática, 1988.

COELHO, T. O que é indústria cultural. Col. Primeiros Passos. SP: Brasiliense, 1980.

CHAUÍ, M. O que é Ideologia? Col. Primeiros Passos. SP: Brasiliense, 1988.

MORIN, E. Cultura de massas no século XX. Vol I. e Vol II. RJ: Forense Universitária,
1975.

PENTEADO, H. D. Televisão e escola. Conflito ou cooperação. SP: Cortez,1999.

THALMANN, R. A República de Weimar. RJ: Jorge Zahar, 1988.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
Para entendermos como as questões sociais estão intimamente ligadas à noção de Cultura,
identidade e Linguagem, faremos uma retomada dos principais conceitos dentro das ciências
Humanas.

64 • capítulo 3
4
As Contribuições
das Ciências
Humanas para a
Linguagem
4  As contribuições das Ciências Humanas
para a Linguagem

Neste capítulo, você problematizará o conhecimento em geral e o conhecimen-


to específico das Ciências Humanas. É importante saber, de início, o que é pro-
priamente o conhecimento em seus diversos tipos, para, depois, aventurar-se
em um de seus ramos. Esperamos que você perceba que o objeto das Ciências
Humanos é um dos mais difíceis de se conhecer – por sermos cada um de nós;
isto, porém, não impede que estabeleçamos um conhecimento fundamentado
sobre tal objeto.

OBJETIVOS
•  Saber o que é o conhecimento e seus tipos;
•  Problematizar de modo específico a ciência;
•  Entender a importância do método em ciência;
•  Problematizar propriamente as Ciências Humanas.

REFLEXÃO
Possivelmente você já ouviu falar muito sobre “ciências humanas”, porém, muitas vezes isto
acaba soando com certa nebulosidade e indeterminação. O que entra no conceito de ciências
humanas? Sociologia, antropologia, política, história e, de certo modo, geografia e filosofia.
Você saberia dizer exatamente de que tratam tais ciências? Será que estudar um objeto que
nunca é totalmente pronto (o homem) pode ser entendido como “ciência”?
O estudo que aqui propomos não tratará de cada ciência humana particularmente (seria im-
possível), mas sim de diversos problemas que se fazem presentes em tais ramos da ciência.

4.1  Introdução

Pretendemos oferecer um roteiro temático que sirva como uma introdução a


um problema – o problema das ciências humanas. Talvez seja o âmbito mais
complexo da ciência, já que seu objeto de estudos ainda não está completa-

66 • capítulo 4
mente pronto (o ser humano) e também porque nós assumimos uma dupla po-
sição: somos os que estudam (sujeito do conhecimento) e somos aquilo que é
estudado (objeto do conhecimento).
Como funciona o mundo? De que modo são estabelecidas relações entre todos
os seres que aqui estão? Por que é que algumas ocorrências se repetem enquanto
outras são únicas? Existe sentido no fato de que as coisas ocorram de determinado
modo? Há algum sentido para o existir? Se sim, qual é? É possível fazer algum tipo
de previsão sobre qualquer evento da realidade? De que modo? Quais certezas po-
dem ser alcançadas sobre o conhecimento que temos das coisas? Muitas pergun-
tas, não é mesmo? Isso é coisa de quem busca o conhecimento.

ATENÇÃO
Você já percebeu o quanto se divulga, nos meios de comuni-cação em geral, dos novos estu-
dos e pesquisas que buscam descobrir sempre mais sobre os seres humanos? Neurociência,
biologia, psicologia, sociologia – alguns dos ramos da ciência que se preocupam em falar do
ser humano. Mesmo assim, não é possível dizer que algum dos muitos estudos tenha che-
gado a uma verdade última sobre o ente humano. Isto indica que as ciências que estudam
o homem são campo fértil, de muitas possibilidades; há muito ainda por fazer e descobrir.

E, aqui, nós estamos justamente como aqueles que buscam um conheci-


mento; portanto, as perguntas são sempre bem vindas. Que tipo de pergunta
serve? Na verdade, e de início, qualquer tipo de pergunta é válida, já que esta-
mos iniciando um caminho de reflexão. Com a evolução dos nossos estudos,
você poderá perceber que, então, algumas perguntas ganham mais peso e sen-
tido dentro do que buscamos entender – daí sim, poderemos dizer de pergun-
tas que servem ou não. O cientista é aquele que sabe fazer perguntas de modo
regrado e mais certeiro para aquilo que é seu objetivo.
Todos nós buscamos conhecer; segundo o filósofo Aristóteles
(384-322a.C.), da Grécia Antiga, é um desejo natural do ser humano. Pare e pen-
se por um instante sobre a tamanha satisfação que temos quando algum co-
nhecimento, ou seja, quando chegamos a saber a verdade de algo – com certe-
za, sempre queremos saber mais e mais ainda. Com o passar do tempo, temos
mais instrumentos (práticos e teóricos, ferramentas e pensamentos) que po-
dem auxiliar no trabalho de conhecer o mundo; assim, a produção de conheci-
mentos vai aumentando e se desenvolvendo a partir de tudo o que é novo e vai

capítulo 4 • 67
sendo acrescentado ao que já sabemos. Importante mesmo é sempre buscar
uma explicação sobre o mundo, nunca desistindo diante do que não sabemos;
mesmo que o caminho seja árduo, não podemos dizer que não conseguimos e
que temos de parar.
A proposta que, com este
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livro, fazemos a você é, justa-


mente, árdua. Neste curso não
vamos realizar pesquisa de
campo, não vamos nos encon-
trar em laboratórios para ob-
servar como um objeto respon-
de a um estímulo dado. Nosso
trabalho é reflexivo, é teórico.
Nosso objetivo será o de assis-
tir às aulas, ler os textos, compreender as ideias, refletir sobre elas e, assim,
desenvolver nossa capacidade de pensamento sobre o problema das ciências
humanas – quem sabe, produzindo nossas próprias reflexões.
Uma primeira observação que devemos fazer é com relação às “nossas pró-
prias reflexões”. Devemos sempre tomar muito cuidado para não querer falar,
falar e falar sempre mais se ainda não tivermos fundamentação para o que di-
zemos. Quando iniciamos nosso estudo na área acadêmica, sempre chegamos
com um conhecimento já adquirido (muitas vezes, são simples opiniões ape-
nas passadas para nós por meio das pessoas com as quais convivemos desde
sempre); porém a ciência não trabalha com simples opiniões – é preciso algo
mais. O que devemos fazer, então? É preciso buscar sempre mais conhecimen-
to, lendo e pesquisando, nunca se satisfazendo com o mínimo que alcançamos.
Assim, muito citamos aqui a questão do conhecimento, mas o que é ele? Há
apenas um tipo de conhecimento?

4.2  Um conhecimento em diversos tipos

O que é propriamente o conhecimento? De um modo menos rigoroso, poderí-


amos dizer que o conhecimento é uma aventura. Aventura por dentro daquilo
que é o mundo, em sua constituição. Aventura por não sabermos exatamente o
que vamos encontrar pela frente: o infinito se abre a nós e podemos nos lançar
nele para que possamos “dominá-lo” – em nossa leda pretensão. Mas, como

68 • capítulo 4
estamos em ambiente acadêmico, não podemos tratar o conhecimento deste
modo tanto quanto poético.
Conhecimento é a relação que se estabelece entre um sujeito e um objeto.
Desse modo, não pode haver conhecimento sem, antes, existirem um sujeito
e um objeto específicos. Para que verdadeiramente ocorra o conhecimento, é
preciso que haja a apreensão do objeto pelo sujeito. Se o sujeito não consegue
apreender o objeto, então não existiu o conhecimento. Devemos, então, dizer
que o conhecimento exige que existam: um sujeito cognoscente (que tem capa-
cidade e condições de conhecer) e um objeto cognoscível (que se dá a conhecer,
ou seja, que pode ser conhecido de algum modo).

Conhecimento Sujeito Objeto

O sujeito do conhecimento é sempre o ser humano, o único com a possibi-


lidade de conhecer; por sua vez, o objeto do conhecimento pode ser qualquer
coisa passível de conhecimento, seja prático ou teórico, físico ou imaterial. Nas
ciências humanas, por exemplo, o próprio ser humano é tomado como objeto,
aquilo que deve ser conhecido em suas diversas manifestações.

Imagine uma situação na qual você passa diante de uma loja de eletrônicos e, na vitrine,
vê um objeto que nunca viu. É algo meio estranho, com uma forma diferente, tem fio
para ser ligado na tomada, mas não se parece com nada que você conheça. Enfim, você
não sabe como funciona, nem para que serve. Na verdade, você nem sabe o que é –
significa: você não conhece. Mas você é o sujeito e aquilo é o objeto daquela relação
de conhecimento que pode se dar. Há dois desfechos possíveis: 1) você simplesmente
passa e segue adiante, levando a interrogação junto de você, ou 2) para, entra na loja e
pergunta o que é exatamente aquilo. Seguindo a opção “1”, você segue sem ter ocor-
rido conhecimento; já seguindo a opção “2”, você recebeu a informação de que aquele
objeto era uma luminária desenhada projetada por um artista plástico muito conhecido.
Utilizando-se das informações recebidas em “2”, foi possível se dar o conhecimento,
com um sujeito (você) que conheceu o objeto (a luminária).

São diferentes os tipos de conhecimento que existem, a saber, o senso comum,


a ciência, a religião (teologia), a arte e a filosofia. Na verdade, estes cinco tipos po-
deriam desdobrar-se em diversos outros, porém entendemos que estes reúnem os

capítulo 4 • 69
principais ramos. Cada tipo de conhecimento difere do outro, principalmente, (a)
no objeto, (b) na base a partir da qual vai falar do objeto e (c) no método utilizado
para conhecer o objeto. Falemos, brevemente, sobre cada um deles.

4.2.1  Senso comum

Como o próprio nome já diz, ele é “comum” simplesmente por que todas as
pessoas participam dele, todas as pessoas o recebem e compartilham de seu
conteúdo. O senso comum é o sentido mais básico que as pessoas podem dar
às coisas que as cercam. É um tipo de conhecimento mais simples que os de-
mais, simplesmente por que pode ser assimilado por qualquer pessoa, letrada
ou sem instrução alguma. É o tipo de conhecimento que recebemos desde a
infância, aprendido por meio da convivência.
O senso comum tem objetivos muito práticos, nós o chamamos de pragmá-
tico: deve servir para algo, ou seja, deve ser útil. Por isso, por exemplo, é que o
nível de conhecimento chamado senso comum é superficial: não se tem tempo
para aprofundamentos e, também, isso nem se faz necessário, já que o impor-
tante é sua utilidade. Outro ponto importante é a questão da a-criticidade, pois
não há preocupação com o aspecto crítico das ideias; na verdade, é como se
tudo pudesse ser aceito, mesmo ideias contrárias. Vale o que se observa, e não
uma possível teoria. Esse aspecto da observacionalidade é também muito im-
portante, pois “o que se vê deve ser a prova da verdade” (mesmo que nem todo
visto traga tudo o que realmente ocorre). Aqui, há a crença na experiência que
se faz do mundo. Devemos olhar, então, para o senso comum simplesmente
como um tipo de conhecimento, que não pode ser desmerecido diante dos ou-
tros. É a situação na qual nascemos; porém é importante que enxerguemos a
possibilidade de sair do senso comum para pensar melhor sobre o mundo. O
senso comum também não se relaciona à ideia de classe social; ou seja, posso
ser muito pobre e não pensar como o senso comum, e também posso ser milio-
nário e ainda viver na concepção de mundo que é típica do senso comum.

ATENÇÃO
Com certeza, você ainda traz em sua vida diária muitos conhecimentos que vieram do senso
comum; por exemplo: “não se pode tomar banho depois de se alimentar”, “manga com leite faz
mal”... ou então: “filho de peixe, peixinho é”, “onde há fumaça, há fogo”... São ideias passadas de

70 • capítulo 4
geração em geração, sem questionamentos sobre sua veracidade. Na realidade, muitos de tais
conhecimentos já foram desmistificados, por exemplo, pela ciência, porém há que afirme que
“estes cientistas devem estar errados, pois minha avó já dizia o contrário...”

4.2.2  Ciência

Mesmo que ainda voltemos a falar sobre a ciência, para este momento inicial
é importante ressaltarmos algumas ideias. De certo modo, podemos bem en-
tender a ciência como um senso comum mais refinado. Isto, pois todos os pro-
blemas que motivam o senso comum a elaborar algumas ideias são os mesmos
que motivam os cientistas a elaborar suas teorias – a preocupação com tais pro-
blemas e o modo como elaboram as teorias é que diferem muito.
O conhecimento elaborado pela ciência passa sempre pela razão. Ou seja,
não pode simplesmente ser aceito o que é visto, mas sim aquilo que pode ser
explicado pela razão. Ou seja, sem a racionalidade não se faz ciência. Mas isso
também não exclui a crença ou a imaginação.
A ciência trata da verdade como aquilo que pode ser observado; porém que
pode responder a um entendimento científico anterior – além disso, o observa-
do deve ser uma experiência repetível. Não se faz ciência com o conhecimento
de algo que ocorre apenas uma única vez – é a repetição da ocorrência em situa-
ções semelhantes à original (e que se encaixe em uma teoria anterior) que pode
trazer a verdade à luz. Assim nascem as teorias científicas. Pode, sim, nascer
uma teoria que não obedeça a nada anterior; mas, daí, já falamos da novidade
plena de uma teoria – ela que servirá para explicar outros fenômenos. Nossa
sociedade vive hoje a era da técnica e da ciência, situação na qual tudo o que é
comprovadamente científico ganha sempre mais prestígio.
A ciência não é “uma forma de conhecimento diferente do senso comum.
Não é um novo órgão. Apenas uma especialização de certos órgãos e um contro-
le disciplinado de seu uso”. (ALVES, 2001, p.14)

ATENÇÃO
Muitas vezes, a crença na razão como a única capaz de explicar a verdade do mundo pode se
tornar problema. Isto deve estar claro para nós, pois bem sabemos não haver indicação alguma
de que o ser humano já saiba usar sua razão de modo pleno – na verdade, há indicações do

capítulo 4 • 71
contrário. Tal crença já levou muitos cientistas à loucura, acreditando-se deuses. No aspecto
da imaginação, o próprio Einstein já afirmou ser a qualidade mais importante do cientista, pois,
diante da necessidade de explicar um novo fenômeno, é a imaginação que permite elaborar as
melhores hipóteses.

4.2.3  Teologia

Falar de religião ou sobre algum tema que com ela se relacione nem sempre é
fácil, principalmente por haver grande confusão exatamente sobre estes tipos
de conhecimento existentes. A religião é algo cultural, ou seja, é criação huma-
na – criada com a finalidade de reunir pessoas que tenham uma mesma fé. Nes-
se sentido, a religião parte de uma crença, mas não existe crença coletiva, pois
é algo unicamente de foro interior (por exemplo, eu posso falar que acredito do
mesmo modo que você, mas, no fundo, ser algo diverso). A fé é algo particular,
nunca coletivo; a religião, sim, é coletiva.
Com a finalidade de reunir pessoas pela “mesma” fé, a religião teve de en-
contrar elementos que pudessem servir como pontos comuns, ela teve de siste-
matizar sua fé. Isso significa que ela teve de organizar todas as ideias relaciona-
das à sua crença de modo que todas as pessoas a pudessem entender. De modo
muito simplista, esta racionalização das ideias a partir daquilo que se entende
por uma revelação divina, chamamos de teologia (“teós”= deus e “logos”=razão,
palavra).
O pensamento religioso sempre parte do dado da fé, diferentemente da
ciência e do senso comum, como dissemos. São realizados estudos sérios nas
academias para que se possa obter um conteúdo significativo de compreensão
daquilo que é a fé de uma denominação religiosa. É importante observar que
nem toda denominação tem estudos teológicos.

CONEXÃO
Podemos observar a grande confusão e o grande problema que são causados por muitas
pessoas que tentam misturar ciência e religião. Cada uma delas trata de uma área distinta do
conhecimento, portanto não se pode simplesmente tentar cruzar suas explicações para se
chegar a um conhecimento de mundo. Muitos que tentam fazer esta mistura de entendimentos
acabam ficando apenas no senso comum da ciência e no senso comum da religião – ou seja,
cria discussão, mas não sai daquilo que qualquer um sabe. Albert Einstein era grande físico,

72 • capítulo 4
mas teve suas aventuras religiosas e ele afirma que não é impossível ser cientista e ser religio-
so ao mesmo tempo, apenas não se pode confundir as duas áreas: a ciência deve cuidar do que
é, enquanto a religião deve cuidar do que deve ser. Leia o texto no qual ele trata deste assunto,
intitulado Sobre a liberdade. Disponível em:<http://www.psb40.org.br/bib/b1.pdf>.

4.2.4  Arte

Também diferente dos demais tipos apresentados, a arte é um conhecimento


específico. Em primeiro lugar, pense sobre o que você conhece de arte: quem
são os artistas? O que os faz serem artistas? O que é propriamente a arte?
A arte, de certo modo, é uma maneira de conhecer e expressar o que se co-
nhece do mundo. O artista (ator, pintor, escultor, escritor, poeta, etc.) sente o
mundo de determinada forma e, depois, expressa aquilo que captou com seu
sentimento, mas é uma expressão que transcende a pura individualidade; a ex-
pressão artística é compartilhada, gerando um sentimento diante do mundo
para todas as pessoas que apreciem a obra.
O que resta claro para nós: a arte está diretamente relacionada ao sentimento.
Não significa que o artista tenha exatamente o sentimento que parece revelar sua
obra. Mas o artista sente algo diante do mundo – é, portanto, experiência puramen-
te individual; e transforma o que sentiu em expressão – esta expressão é a obra de
arte, é algo mais objetivo que o sentimento, porém ela vem do sentimento e gera
sentimento. Por esta razão é que, por exemplo, muitas pessoas dizem: “Como esta
pintura estranha pode valer tanto?!”; é preciso saber que a obra não é simplesmen-
te o que está diante de nós, mas todo o contexto do antes, durante e depois.
© Slavenko Vukasovic | Dreamstime.com

capítulo 4 • 73
Fernando Pessoa (1998, pp.232-33) diz:
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar de um corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato de que os homens o fizeram usar.

4.2.5  Filosofia

A filosofia é um tipo de conhecimento que, também, como a ciência, toma a


razão por base para seu entendimento do mundo. Mas filosofia não é ciência; a
atividade do filosofar é anterior à atividade científica. O que possibilitou o nas-
cimento da ciência ocidental, como conhecemos hoje, deve-se ao surgimento e
desenvolvimento da filosofia ao longo dos séculos.
O filosofar é uma atividade que se iniciou por volta do século VII a.C. É a
primeira tentativa de explicação racional do mundo, pois, antes, as explicações
seguiam um viés mítico, mitológico. A filosofia é um fenômeno que tem local
de nascimento: a Grécia. Os primeiros pensadores tentaram explicar o mundo,
sua origem, não mais se pautando no que era entendido como verdade vinda
dos deuses mitológicos. Muito do que eles produziram de conhecimento ainda
hoje é base para as reflexões tanto da filosofia quanto da ciência.
Os primeiros pensadores não eram
unicamente filósofos, mas também
matemáticos, físicos, astrônomos,
poetas, etc.; isto, pois o conhecimento
ainda não tinha se desenvolvido nem
se dividido em diversas áreas.
© Alexey Maslov | Dreamstime.com

Ao longo dos séculos, o conheci-


mento foi se subdividindo e as diver-
sas ciências foram surgindo, cada
uma construindo seu corpo de con-
teúdo. A filosofia, porém, não desaparece, pois há algo de bem específico que
apenas a ela compete conhecer: o problema da própria existência como um
todo – enquanto cada ciência estuda a realidade apenas em suas partes (cada

74 • capítulo 4
ciência conhece apenas uma região da realidade, por exemplo, a física não trata
dos objetos da química, nem a história trata dos objetos da engenharia, etc.).

ATENÇÃO
Os primeiros pensadores da filosofia são conhecidos como pré-socráticos, ou filósofos da na-
tureza. Muitos deles são bem conhecidos de todos nós, pelas contribuições que deram para
diversas áreas. Alguns deles são: Tales de Mileto (é o primeiro a ser chamado de “filósofo” na
história), que dizia ser a água o elemento original do Universo; Pitágoras de Samos, falando
dos números e das relações numéricas, também contribuiu na área da música; Demócrito de
Abdera, o primeiro a falar do átomo como partícula original do Universo... Enfim, são diversos
pensadores que abriram caminho para o pensar racional, cada um dando sua explicação, ela-
borando sua teoria em busca da verdade sobre a existência.

O conhecimento da filosofia busca ser global, preocupando-se com os obje-


tos em sua completude; dizemos que é o conhecimento que busca ser globali-
zante, querendo entender o que são as coisas, e não apenas como funcionam as
coisas. O que os pensadores buscam é saber a verdade da existência como um
todo. Filosofia é a perene busca pela verdade.
Toda filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento é filosofia. Isto
significa que não basta apenas começar a divagar em pensamentos para já filo-
sofar; é preciso algo mais. O filosofar é um pensamento de modo específico que
segue as leis do raciocínio correto (a lógica), além de estar ligado a uma proble-
mática central desenvolvida pelos pensadores ao longo do tempo; o problema
central da filosofia é o próprio existir.
A filosofia é um conhecimento:
•  globalizante, que se preocupa com aquilo que é o todo que envolvem os
diferentes problemas – busca a totalidade;
•  rigoroso, que se preocupa em não deixar possibilidade de erro no racio-
cínio – segue as regras da lógica;
•  de conjunto, que busca entender seu objeto de forma não isolada, mas
no conjunto da existência;
•  sistemático, que organiza as ideias de forma a dar uma explicação com-
pleta do mundo;
•  crítico, que busca verificar as ideias antes de aceitá-las.

capítulo 4 • 75
4.3  Ciência e ciência humana

Ciência é saber, é conhecimento de mundo. Ciência é busca por um entendi-


mento mais claro do porquê de todas as coisas, de como elas ocorrem. Ciência
é descoberta daquilo que existe e do como existe. Na insegurança da existência,
a ciência é uma das respostas que o homem construiu para que não se perdesse
em divagações infundadas sobre o próprio existir. A ciência busca a verdade
e, embora os outros tipos de conhecimento também a busquem, ela o faz de
modo tal que se tornou marca característica da sociedade ocidental – os cientis-
tas conquistaram lugar de dignidade, como se fossem os verdadeiros e únicos
capazes de falar sobre o mundo.

Quer gostemos ou não, a ciência parece ser a única contribui-


ção universalmente bem-vinda da civilização européia para
todo o resto do mundo. É sem dúvida a única coisa desen-
volvida na Europa e adotada por todas as outras sociedades,
culturas, religiões, nações, populações e etnias que sobre ela
aprenderam. A arte, a música, a literatura, a arquitetura, a
ordem econômica, os códigos legais e os sistemas de valores
éticos e políticos do Ocidente sem dúvida têm obtido aceita-
ção comum. Entretanto, uma vez iniciada a descolonização,
essas “bênçãos” da cultura européia têm sido na maioria dos
casos repudiadas pelos não-europeus. Mas não a ciência. E
não é preciso dizer ciência “ocidental”, pois ela não existe de
outra forma, e na verdade não brotou de modo independen-
te em outro lugar antes, simultaneamente ou depois de sua
emergência entre os gregos há 2.500 anos. (ROSENBERG,
2009, p.27)

Porém, com os avanços nas pesquisas nos diversos âmbitos das ciências,
o questionamento surgiu, vindo de diversos setores, a saber, político, social e
filosófico. Devemos entender, então, a necessidade de que estabeleçamos uma
postura crítica diante do universo da ciência, para não cairmos na ingenuidade
de acreditar que tudo o que este conhecimento diz já é prova última de algo. É
preciso questionar desde os fundamentos até as consequências.

76 • capítulo 4
O que entendemos por “verdade” é um conceito que merece ser discutido; porém tal
discussão se dá no âmbito filosófico. Aqui, devemos, no mínimo, ter em mente que as
verdades científicas se mostraram como relativas; por isso é que temos teorias científi-
cas. A ciência trabalha com experiências e comprovações que podem ser obtidas com
a repetição das mesmas experiências; ela se utiliza de vestígios e materiais que podem
ser auxílio no indício de alguma explicação para os fenômenos do mundo. E qual o
alcance das experiências científicas, já que o mundo muda constantemente? Por isso
é que as verdades, na ciência, são relativas: dependem de um tempo e de um espaço
específicos. Como exemplo, na Idade Média: até aquele período, a teoria de que a Terra
era o centro do Universo era entendida como verdadeira – era a verdade da astronomia
da época. Assim, quando muda o contexto, muda também a verdade.

Podemos entender que a ciência seja um conjunto de conceitos sobre a rea-


lidade, ou seja, é uma teoria que busca explicar exatamente como funciona rea-
lidade. Uma única teoria com diversas ciências? Sim, porém cada ramo explica
uma parte específica do real – concebe e conceitua o mundo de determinado
modo. Costa (2008, p.13) afirma:

O conhecimento científico é um conhecimento conceitual.


Tenta-mos compreender e explicar a realidade por meio de
conceitos que relacionamos nas teorias, nas hipóteses e nas
leis. Toda a ciência é um vasto sistema conceitual que nos
permite, entre outras coisas, sistematizar o real. Daí poder-
mos efetuar previsões e melhor nos adaptarmos ao contor-
no. O próprio senso comum se articula por meio de concei-
tos. Não há razão sem conceituação.

Acima, falamos que a ciência poderia ser entendida como um senso comum
mais refinado. Isso significa que os fenômenos são os mesmos no mundo,
ocorrendo simplesmente. O senso comum dá suas explicações de modo sim-
ples, sem grande preocupação com o como busca as respostas. A ciência, po-
rém, não faz assim: ela intenta encontrar um meio que mostre que aquilo que
diz é verdadeiro; chegamos à questão do método.

capítulo 4 • 77
MÉTODO – Tem-se um método quando se segue um deter-
minado caminho, para alcançar um certo fim, ou posto de
antemão como tal. Este fim pode ser o caminho ou pode ser
também um fim humano ou vital; por exemplo, a felicidade.
O método contrapõe-se à sorte e ao acaso, pois o método é,
antes de mais, uma ordem manifestada num conjunto de re-
gras. (MORA, 1978, p.186)

A ciência busca encontrar a verdade; ter um método significa seguir um


caminho estruturado para tal intento. Imagine, por exemplo, se cada cientista
quisesse sair por aí realizando qualquer pesquisa de qualquer modo – como
seria o desenvolvimento do conhecimento científico? Possivelmente a alguma
descoberta se chegaria, porém a falta de organização não contribuiria grande-
mente e o processo seria moroso. O que fazer, então? O melhor foi estabelecer
um caminho que seja único para que se pesquise cientificamente.
Muitos foram os pensadores que se propuseram a pensar um método para
a ciência, de modo especial os filósofos. Vamos apenas citar, como exemplo,
Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650).
Francis Bacon ofereceu as bases daquilo que é o método científico (experi-
mental) que conhecemos hoje. Autor da obra Novum Órganon (“novo instru-
mento”), publicada em 1620, ele tentou apresentar uma maneira nova de se
construir o conhecimento através da observação e experimentação da natureza.
Observar exatamente o que ocorre e, a partir disso, realizar experiências seme-
lhantes ao observado devem ser a base de toda produção científica. De forma
regrada, é possível fazer com que a natureza seja testada afim de os cientistas
poderem apreender e registrar a verdade do mundo. É através do raciocínio in-
dutivo que a ciência pode, então, chegar a suas conclusões.
“A indução é o raciocínio que, após considerar um número suficiente de ca-
sos particulares, conclui uma verdade geral. A indução, ao contrário da dedu-
ção, parte da experiência sensível, dos dados particulares. Por exemplo:
•  O cobre é condutor de eletricidade, assim como a prata, o ouro, o ferro, o
zinco e outros metais,
Logo, todo metal é condutor de eletricidade.
É importante que a enumeração de dados (que correspondem às experi-
ências feitas) seja suficiente para permitir a passagem do particular para
o geral. Entretanto, a indução também pressupõe a probabilidade, isto
é, já que tantos se comportam de tal forma, é muito provável que todos

78 • capítulo 4
se comportem assim. Em função desse “salto”, há maior possibilidade
de erro nos raciocínios indutivos, uma vez que basta encontrarmos uma
exceção para invalidar a regra geral. Por outro lado, é esse mesmo “salto”
em direção ao provável que torna possível a descoberta, a proposta de no-
vos modos de compreender o mundo. Por isso, a indução é o tipo de ra-
ciocínio mais usado em ciências experimentais.” Disponível em:<http://
educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/logica-inducao-casos-parti-
culares-se-tornam-lei-geral.htm>.

ATENÇÃO
Como já dissemos anteriormente, as diversas ciências surgiram ao longo dos séculos, a partir
da própria filosofia. Mas a filosofia ainda tem grande relação com a ciência, principalmente
quando se busca pensar as bases do conhecimento científico. Dentre as várias áreas que
constituem o que é a filosofia, há a filosofia da ciência – é a filosofia que pensa a ciência em
seus diversos aspectos. Por exemplo, a área de metodologia das ciências é desenvolvida, em
sua base, pela filosofia.

É muito importante que você entenda o que é a indução e de que modo ela
constitui a base do raciocínio da ciência; por isso, pesquise mais a respeito.
René Descartes foi outro grande pensador que se debruçou sobre o proble-
ma do método. Sua célebre obra, publicada em 1637, foi O discurso do método,
na qual ele buscava encontrar as regras do que deveria ser um método eficaz na
condução da razão para conhecer a verdade. Ele estabeleceu quatro regras para
seu método. Mas você entendeu bem a necessidade de um método? É uma ma-
neira organizada de se conduzir a reflexão, a partir de elementos diversos, para
que se possa chegar a alguma conclusão, a alguma nova ideia.
Descartes chegou a quatro regras, a saber:
•  evidência – apenas pode ser aceito como verdade aquilo que não deixa
elemento algum de dúvida;
•  análise – todo problema deve ser dividido em problemas menores para
se chegar às ideias mais simples que se alcance;
•  síntese – encontradas as ideias mais simples, o problema deve ser re-
construído;
•  enumeração – é preciso que seja feita uma revisão de todo o processo em
busca de qualquer resquício de dúvida.

capítulo 4 • 79
O pensador entendia que, passando detidamente pelas regras do método,
qualquer pesquisador que buscasse encontrar a verdade para determinado
problema alcançaria seus objetivos. Para Descartes, enquanto houver alguma
dúvida, é preciso ainda buscar, não se podendo dar por satisfeito com meias
verdades. Para ser verdadeira, uma ideia deveria ser clara e distinta.

CONEXÃO
Sobre o método científico, recomendamos a leitura do breve texto que se encontra pelo link
que segue – importante também que se assista ao vídeo Luz, trevas e o método científico,
disponível em:<http://www.proficiencia.org.br/article.php3?id_article=489>. .

Do mesmo modo como os pensadores apresentados, muitos outros busca-


ram encontrar o caminho seguro para o conhecimento. E é importante deixar-
mos claro que, aqui, falamos de um método geral para a ciência como um todo,
mas você pode observar que cada ramo da ciência acabou por desenvolver uma
maneira própria de construir seu conhecimento. O que é preciso perceber é a
necessidade do método; cada área especificou o seu próprio caminho, pois o
objeto de cada uma é diferente, exigindo adequações e elementos diversos.
O dicionário de filosofia (MORA, 1978, p.37) traz que:

[...] a ciência é um modo de conhecimento que procura for-


mular, mediante linguagens rigorosas e apropriadas – tanto
quanto possível, com o auxílio da linguagem matemática –
leis por meio das quais se regem os fenómenos. Estas leis são
de diversas categorias. Todas têm, porém, vários elementos
em comum: serem capazes de descrever séries de fenóme-
nos; serem comprováveis por meio da observação dos factos
e da experimentação; serem capazes de predizer – quer me-
diante predicação completa, quer mediante predicação esta-
tística – acontecimentos futuros.

Ressaltemos alguns elementos:


•  “linguagens rigorosas e apropriadas” – o objetivo principal é o de falar
sobre a realidade sem deixar possibilidade de interpretações secundá-
rias e fazendo com que qualquer estudioso no assunto possa entender o
que se quer dizer;

80 • capítulo 4
•  “auxílio da linguagem matemática” – diretamente ligado o item ante-
rior, entendendo-se que a linguagem matemática (através de símbolos)
é mais clara e não tem de enfrentar as diferenças das línguas naturais;
•  “formular leis por meio das quais os fenômenos se regem” – a ciência
quer identificar exatamente de que modo funciona o mundo, de que
modo se dão os fenômenos; o objetivo é transformar a lei natural de
ocorrência do fenômeno em linguagem racional;
•  “generalização de leis” – identificadas as leis como no item anterior, o
cientista tenta verifica a extensão, a abrangência, daquilo que a lei fala,
querendo generalizar, ou seja, mostrar que a lei não serve apenas para
aquele caso particular, mas pode descrever séries de fenômenos;
•  “leis: comprovação pela observação e pela experimentação” – depois de
formulada a lei, ela deve ser verificada em sua força de explicação, e isto
é feito pela repetição de experiências, em uma observação atenta dos da-
dos que se dão naturalmente ou de modo provocado;
•  “leis: capacidade de previsão” – é o objetivo de toda a ciência poder acer-
tar no que diz sobre a realidade; se o cientista “descobre” a lei da na-
tureza, pode prever ocorrências futuras; uma teoria científica é melhor
quanto maior a previsão acertada que pode fazer.

Esses elementos, de modo claro, indicam, por sua vez, aquelas ciências que
conhecemos por “experimentais”, a saber, toda a área biológica, a área física e
a área química. Elas trazem o cálculo (matemática) como um de seus pilares e,
de certo modo, podem buscar a exatidão em suas respostas (o que não significa
falar em verdade). Ainda é importante dizer aqui, que o cientista não apenas
observa, mas põe algo de si, interpreta e se utiliza da imaginação para as hipó-
teses sobre o que verdadeiramente acontece com o real; por exemplo:

Os criadores das teorias físicas mais importantes, como


Newton, Maxwell e Einstein, por isso mesmo, parecem, às
vezes, ter algo em comum com o artista – e de fato têm: com
base em elementos (experimentos, leis, hipóteses,...) de âm-
bito mais ou menos restringido, edificam teorias cujo esco-
po vai muito além do que os dados pareciam autorizar, asse-
melhando-se mais a criadores do que a descobridores, onde
o gênio e a inspiração despontam, lembrando o ato criador
do artista. (COSTA, 2008, p.24)

capítulo 4 • 81
As ciências experimentais encontraram esplendoroso desenvolvimento na
chamada Revolução Científica, período de grande efervescência e descobertas
que abrange desde Nicolau Copérnico (1473-1543) até Isaac Newton (1643-
1727). Foi o período no qual a ciência se separou definitivamente da filosofia e
do poder religioso. Porém o que queremos estudar aqui se volta para um objeto
não pronto e não completo: o homem – o homem e tudo o que se encontra no
âmbito do humano, que o caracteriza assim. Ou seja, o objeto de estudos deste
nosso livro não é nenhuma destas citadas ciências; intentamos estudar as ci-
ências humanas. Mas será que o método pensado até aquele período serviria,
por exemplo, para pensar o ser humano? O âmbito do humano é objeto para as
ciências experimentais? De modo intuitivo (sem demonstrar), podemos dizer
que não. Daí que, a partir do século XIX, a ciência começa a se desenvolver para
outro ramo, o humano.

4.3.1  Ciências humanas

Estranhamente, o homem – cujo conhecimento passa, a


olhos ingênuos, como a mais velha busca desde Sócrates –
não é, sem dúvida nada mais que uma certa brecha na ordem
das coisas, uma configuração, em todo o caso desenhada
pela disposição nova que ele assumiu recentemente no sa-
ber. (FOUCAULT, 2000, p.XXI)

É importante saber o que pretendemos exatamente, já que se torna impossível


aqui, estudar de modo isolado e aprofundado cada uma das ciências chamadas
humanas, a saber, a Sociologia, a História e a Antropologia, dentre outras. O
que faremos é verificar alguns elementos e algumas teorias que perpassam as
ciências humanas. Elementos estes que são auxílio no entendimento do ser hu-
mano em seu modo plural de realizar a existência.
De certo modo, devemos alertar: estudar ciências humanas é algo mais difí-
cil que estudar outros tipos de ciências; dois motivos claramente simples são:
1) o fato de que o objeto das humanidades é algo incompleto e fugidio, transfor-
mando-se a cada instante e também 2) o fato de que o sujeito de conhecimento
se identifica com o objeto, já que o homem está nos dois lados da relação. É
uma relação quase recíproca entre sujeito e objeto; Foucault (2000, p.7) mostra
exatamente este problema, refletindo sobre a obra Las niñas, de Velazquez – um

82 • capítulo 4
jogo de espelhos: “Olhamo-nos olhados pelo pintor e tornados visíveis aos seus
olhos pela mesma luz que no-lo faz ver.”

As ciências experimentais conquistaram prestígio e, até o século XIX, já


tinham avançado significativamente na questão do método. Seria possível
simplesmente transpor tudo o que era a ciência experimental para pensar o
homem e o problema social? Esta foi, de certo modo, a tentativa de Auguste
Comte (1798-1857), criador do positivismo.
No período, grassava o cientificismo, que nada mais era que a crença na ci-
ência como salvadora dos problemas do mundo. É possível verificarmos, por
exemplo, no pensamento de Comte, uma teoria evolutiva nos mesmos moldes
que a de Charles Darwin (1809-1882), porém, aplicada à sociedade. Para Comte,
a sociedade se desenvolve por um processo evolutivo que pode ser identificado
em seus estágios: teológico, metafísico e científico (positivo). É uma tentativa
de pensar a sociedade, com certeza, mas a crítica pode ser feita no aspecto de
que uma determinada sociedade seria identificada como último estágio de evo-
lução (e qual deveria ser assim identificada?).

capítulo 4 • 83
De outro lado, também Hegel (1770-1831) construiu um pensamento para
explicar a realidade (que veremos no próximo capítulo), sendo autor do auge
do idealismo alemão. O autor buscou explicar a realidade como um todo, mos-
trando que tal realidade é a realização da Ideia, do Espírito Absoluto.
Desse modo, o que identificamos é uma crise de paradigmas filosóficos e cien-
tíficos para o pensamento da realidade e, principalmente, da realidade humano-
social. Desse contexto, trazemos um pensador singular que se debruçou sobre o
problema: Wilhelm Dilthey (1833-1911). Era preciso buscar uma base adequada
para a ciência sobre o homem, solo sobre o qual a verdade pudesse ser alcançada.

A influência de Dilthey sobre os seus contemporâneos não foi acaso, muito dela se
explica dado a sua obra, desde muito cedo, ter se concentrado em um único escopo,
a referida fundamentação das ciências humanas. Este fato garantiu-lhe antecipação
e maturidade. Uma prova disso é o fato do autor, no ano de 1850, com apenas
17 anos, já acenar à urgência de um movimento que tornasse possível “a constituição
definitiva da ciência histórica e, por meio dela, as ciências do espírito”. Perseguindo a esse
objetivo, Dilthey, já em seus primeiros trabalhos, toma Kant e Hegel por interlocutores
(o segundo como alvo de contestação); também Schleiermacher se mostra como um
aliado, na medida em que seu método hermenêutico é apropriado no esforço diltheyano
de desenvolver algo que poderíamos chamar de “crítica da razão histórica”. Como a
denomi¬nação anuncia, Dilthey visa a estender a intuição do projeto crítico kantiano
ao domínio da história, passo que dependeria da determi-nação do estatuto do homem
na constituição das ciências humanas. Dilthey investe em seu projeto sabendo que é
o âmbito da vida, o espaço característico das vivências, que garante as percepções de
um mundo histórico constituído (do mesmo modo, num outro período mais adiantado
de sua obra, vemos o autor apostar no projeto de uma psicologia analítico-descritiva,
via congênere que aponta para o embasamento psicológico-gnosiológico das ciências).
Disponível em:<http://www.consciencia.org/as-ciencias-humanas-segundo-dilthey,
acesso em 15/03/13>.

O que deve estar claro para nós é a dificuldade de se estabelecer este âm-
bito de conhecimento que deve ter método próprio. Os fenômenos humanos
resistem a qualquer forma de enquadramento fechado, ou seja, apresentam
complexidade tal que não se sujeitam a simplificações – não há constância nos
fenômenos humanos do mesmo modo como há nos fenômenos naturais. O
método científico deve, por sua vez, proporcionar experiências diversas (testes)

84 • capítulo 4
a partir das quais seja possível pensar uma generalização. Resta-nos claro, en-
tão, outra dificuldade: como dirigir experiências com objetos que se modificam
constantemente a partir de inúmeros fatores? E a linguagem para se falar de
tais objetos, como pensá-la? As ciências naturais pautam-se, principalmente,
na linguagem matemática, mas este não é o caminho para falar da experiência
humana. Ainda poderíamos pensar outros problemas de ordem ético-moral no
tratamento do objeto ou ainda na influência direta da subjetividade do cientis-
ta desde o dizer o que é seu objeto.

ATIVIDADE
Procure aprofundar seus estudos nas temáticas apresentadas neste capítulo, buscando ou-
tros textos e obras de referência. A partir de então, faça as atividades a seguir – elas são
auxílio na fixação do conteúdo.
1. Diferencie o conhecimento filosófico do conhecimento científico.
2. De que modo a ciência pode ser entendida como um senso comum mais refinado.
3. Por que o estudo das ciências humanas se mostra, de certo modo, como algo mais complicado
que o estudo das ciências exatas?
4. O que é e qual a importância do método científico?
5. Sobre o raciocínio indutivo, responda:
a) Por que ele é importante para o progresso do conhecimento científico?
b) Qual a complicação de seu uso especificamente nas ciências humanas?

REFLEXÃO
A área das Ciências Humanas é rica em pensadores e teorias mas, como conhecimento
científico, deve buscar estabelecer um método que leve ao conhecimento cada vez maior do
fenômeno humano. Cada ramo das ciências humanas vai construindo seu método de inter-
pretação/entendimento da realidade, porém falar do ser humano, ficou claro para nós, não é
algo simples e de senso comum, mas sim a tentativa racional de desenvolver os problemas
relacionados às questões humanas, vencendo as barreiras epistemológicas que se puserem
no meio do caminho.
Nenhum olhar é estável, ou antes, no sulco neutro do olhar que traspassa a tela perpen-
dicularmente, o sujeito e o objeto, o espectador e o modelo invertem seu papel ao infinito.
(FOUCAULT, 2000, p.5)

capítulo 4 • 85
LEITURA
Recomendamos a leitura da obra As palavras e as coisas, de Michel Foucault, de forma espe-
cial o capítulo X – a problematização das ciências humanas feita pelo autor nos fornece um
aprofundamento nas características mais gerais das humanidades. Vale a pena esta leitura!
Disponível em: <http://projetophronesis.files.wordpress.com/2009/08/foucault-michel-as-
palavras-e-as-coisas-digitalizado.pdf>.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência; introdução ao jogo e a suas regras. 3.ed. São Paulo:
Loyola, 2001.

COSTA, Newton C. A. da. Lógica indutiva e probabilidade. São Paulo: Hucitec, 2008.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São
Paulo: Martins Fontes, 2000.

MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978.

PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio. São Paulo: Companhia das Letras: 1998.

ROSENBERG, Alex. Introdução à filosofia da ciência. São Paulo: Loyola, 2009.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
O tema do nosso próximo capítulo será o processo de globalização. Veremos como a interdepen-
dência entre as nações tornou-se uma das marcas da sociedade contemporânea nas diversas
esferas da vida social: economia, política, cultura, influenciando, entre outras coisas, a própria
construção das identidades nacionais.

86 • capítulo 4
5
Comunidade, Nação
e Globalização
5  Comunidade, Nação e Globalização
Neste capítulo, iremos estudar o processo de globalização e suas implicações no
mundo contemporâneo. Veremos que a integração entre os povos, em alguma
medida, sempre fez parte da história, mas que, nas últimas décadas esse proces-
so assumiu uma dimensão muito maior, revelando, com isso, toda sua complexi-
dade e contradição. As esferas da vida social, como a política, economia e cultura
se transformaram e hoje devem ser pensadas tendo o global como referência.

OBJETIVOS
• Compreender o significado de globalização. Entender que o processo de globaliza-
ção é complexo e contraditório;
• Analisar os efeitos da globalização na produção cultural;
• Compreender as noções de fragmentação e homogeneização e as relações entre
local e global.

REFLEXÃO
Você se lembra da última vez que ouviu ou leu sobre o termo globalização? O termo é
bastante conhecido desde a década de 80 e seus efeitos podem ser sentidos em nosso
cotidiano. Vamos ver mais de perto o significado do processo de globalização e suas
consequências no mundo contemporâneo.

5.1  Introdução

Todas as sociedades, na contemporaneidade, são atingidas, em maior ou me-


nos grau, pelos efeitos da globalização. Pense bem: você certamente já viu ou
ouviu algum filme ou música americana ou de outra nacionalidade; já bebeu
Coca-Cola; comeu fast-food; usa termos em inglês; produtos da Microsoft,
Apple; veste jeans; dirige um carro de uma empresa transnacional, etc. Além
disso, acompanha ou participa das discussões acerca do melhor modelo de
democracia, direitos humanos, questões ecológicas, crises financeiras. De ma-
neira geral, a globalização implica na adoção desses padrões de consumo ou

88 • capítulo 5
comportamentais, tidos como universalmente dominantes, pelas mais diver-
sas culturas.
Para compreendermos os efeitos da globalização partimos, então, das rela-
ções, nos diferentes níveis, entre o “local” e o “global”.
O termo globalização, como afirma Dias (2010) foi criado na década de 1980
pelos norte-americanos para designar e interpretar as causas e consequências
da consolidação de uma economia em escala global, refletindo a interdepen-
dência que esse fato causava entre diferentes países. Logo, foi adotado pelos
meios de comunicação de massa e também pelos pesquisadores e universida-
des, estes últimos interessados na busca de uma maior precisão dos seus sen-
tidos e efeitos.
Mas, assim como vimos nos exemplos citados logo no início dessa unidade,
o termo globalização hoje é usado para designar outras dimensões, tais como:
política, comunicação, comércio, alimentação, transporte, tecnologia, meio
ambiente, informação e cultura.
Justamente por conta desse cenário multifacetado, é que o processo de glo-
balização passou a ser analisado tendo como premissas sua complexidade, mas
também contradições. Afinal, a interdependência entre as nações faz prevalecer
a força dos países hegemônicos ou, ao contrário, fortalece as realidades locais?
Essa é uma das perguntas que balizam as atuais discussões acerca desse fenôme-
no. Por essa razão, é que, inicialmente, devemos entender a globalização como
um processo que coloca em debate pontos dicotômicos como local e global; ho-
mogeneização e diversidade e que, portanto, gera contradições.

CONEXÃO
Assista ao documentário Encontro com Milton Santos: o mundo visto do lado de cá, de Silvio Tendler.
No docu¬mentário, há uma entrevista com o pensador brasileiro onde são discutidos os efeitos da
globalização nos países subdesenvolvidos. Para Santos, esse processo é totalitário e devastador
nessas localidades e, por isso, ele o classifica como “globalitarismo”. Disponível em < http://www.
youtube.com/watch?v=yRsRH4Pky18>.

Vamos ver mais de perto as definições e o processo histórico da globaliza-


ção e suas características, para podermos, em seguida, discutir seus limites e
contradições.

capítulo 5 • 89
5.2  Globalização: um conceito atual?

Norbert Elias (1994) mostra que a vida em grupo é uma prerrogativa da exis-
tência humana. As pessoas sempre viveram em grupos, o que Elias denominou
de “unidades de sobrevivência”. Algumas das funções desempenhadas pelos
grupos estavam voltadas exclusivamente para a manutenção de sua integridade
como, por exemplo:
•  A necessidade de providenciar alimentos e outros meios de subsistência;
•  O controle da violência (interno e externo).

E o que a antiga existência desses grupos denominados de “unidades de so-


brevivência” têm a ver com a globalização?
Durante o processo de desenvolvimento humano, as unidades de sobrevi-
vência foram se tornando cada vez maiores, tanto em termos populacionais
quanto geográficos. Vejam alguns exemplos:
•  Após o colapso de cada um dos grandes impérios do Mundo Antigo,
aquele que os sucedia conseguia integrar uma área geográfica maior do
que a de seu precedente. Trata-se de um movimento expansivo.
•  O processo de formação dos Estados-nações, característicos da era mo-
derna, é marcado pela tendência generalizante para o surgimento de
unidades de sobrevivência maiores, que incorporam um maior número
de pessoas e um território mais amplo.

Com o passar do tempo, essas sociedades começaram a mobilizar recursos


militares e econômicos necessários para derrotar as invasões periódicas por
parte de populações migrantes.
Consoante à tendência para a formação de unidades de sobrevivência maio-
res, nota-se o uso persistente da violência no interior dos e entre as unidades de
sobrevivência.
Há duas formas distintas quanto à utilização da violência:
•  Dentro das unidades de sobrevivência: há um controle dos impulsos vio-
lentos, oriundo do fato de as pessoas serem forçadas a viver em paz umas
com as outras;
•  Entre as unidades de sobrevivência: há a persistência de uma violência
relativamente descontrolada.

90 • capítulo 5
Elias (1994) analisa inúmeros exemplos de lutas hegemônicas entre as so-
ciedades desde a Antiguidade Clássica até os dias atuais. O equilíbrio de poder
entre os Estados é tal que cada um deles é tão dependente dos outros que cada
Estado enxerga em seu oponente uma ameaça a sua distribuição interna de po-
der, de independência e até a possibilidade de extinção física.
Tal como mostramos até aqui, conclui-se que a globalização parece novi-
dade, mas não é. Inúmeros pesquisadores, por exemplo, concluem que a ex-
pansão marítima realizada pelos europeus no século XV, que culminou no
descobrimento da América e do Brasil, também pode ser vista sob a ótica da
globalização uma vez que podemos observar a intensificação das relações en-
tre os países.

O “Theatrum Orbis Terrarum” (“Teatro do Globo Terrestre”) de Abraham Ortelius, publicado


em 1570. I17

Até mesmo Marx fazia referência às formas de expansão do capitalismo, ao


mercado mundial e às transformações da grande indústria e dos monopólios,
sublinhando o papel da burguesia no sentido de promover a internacionaliza-
ção da produção e do consumo. O modo de produção capitalista requer dimen-
sões mundiais para viabilizar sua produção e reprodução material e intelectual
(SANTOS, 2001).
Vejamos agora, mais de perto, algumas definições do conceito de globalização.

capítulo 5 • 91
ATENÇÃO
No mundo atual, as fronteiras entre os grupos opostos de poder não são mais simplesmente
geográficas. Após os anos 80, surge um novo emprego para a palavra globalização. Não é
mais possível pensar no globo terrestre como um aglomerado de Estados-nações em suas
relações de interdependência.

5.3  Globalização: definições

Na atualidade, o termo globalização é usado para designar o conjunto de rela-


ções, interações e interdependência que se estabeleceram entre os diferentes
países e culturas, a tal ponto que hoje os grandes problemas não possam mais
ser compreendidos em termos locais ou nacionais, mas, sim, tendo o global
como referência. Vamos ver algumas definições sobre esse processo:

Na era moderna, o nível de distanciamento tempo-espaço é muito maior do que em


qualquer período precedente, e as relações entre formas sociais e eventos locais e
distantes se tornam correspondentemente ‘alongadas’. A globalização se refere essen-
cialmente a esse processo de alongamento, na medida em que as modalidades de
conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais se enredaram na superfície da
Terra como um todo. A globalização pode assim ser definida como a intensificação das
relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que
acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de dis-
tância e vice-versa (GIDDENS, 1991, p. 69).

Já para Castells, está no desenvolvimento das tecnologias da informação e


da consolidação da economia em escala global os pontos que mais precisamen-
te explicam a globalização:

[...] foi apenas no final do século XX que a economia mundial conseguiu tornar-se ver-
dadeiramente global com base na nova infra-estrutura, propiciada pelas tecnologias
da informação e da comunicação, e com uma ajuda decisiva das políticas de desregu-
lamentação e da liberalização postas em prática pelos governos e pelas instituições
internacionais (CASTELLS, 2003, p. 142).

92 • capítulo 5
Ianni, por sua vez, aponta que quando falamos em globalização, devemos en-
tendê-la além da expansão econômica, mas, sim, como um marco civilizatório e
ideológico. Globalização é decisiva, portanto, quando nos referimos à produção

[...] material e espiritual, simultaneamente nacional e internacional, a rigor um processo


civilizatório universal. Esta tendência, inerente a este modo de produção desde os seus
primórdios, revela-se bastante acentuada ao longo da época contemporânea. A des-
peito das oscilações cíclicas, suas crises e contradições, ele se generaliza e se recria
como um modo de produção material e espiritual de âmbito global (IANNI, 1996, p. 53).

Tecnologia, economia, cultura, ideologia. Como definir o significado da


globalização?
Para definir mais precisamente o significado do processo de globalização,
alguns estudiosos, defendem que este deve ser entendido a partir de duas di-
mensões interligadas: a forma genérica e a forma capitalista. A forma genérica
caracteriza a globalização a partir dos seus aspectos gerais, mais precisamen-
te, dos fenômenos que se intensificaram a partir da segunda metade do século
XX. Esses fenômenos podem ser resumidos, segundo Scott (2010, p. 94-95), em
quatro pontos principais:
1.  O desenvolvimento tecnológico e de infraestrutura que propiciaram o
surgimento e intensificação dos meios de comunicação de massa.
2.  A transformação econômica, cultural e os processos migratórios após a
descolonização da África, Ásia e Caribe;
3.  O surgimento de espaços transnacionais;
4.  Supremacia da forma de vida cosmopolita e da possibilidade de cons-
trução de múltiplas identidades sociais.
Essas características que definem genericamente o processo de globali-
zação se manifestam na sua forma particular: a globalização do capitalismo,
sistema de organização da vida social hegemônico na era moderna e contem-
porânea. Ou seja, quando falamos da globalização em nossa época, estamos
nos referindo a um “tipo” particular de globalização. É essa forma específica
de manifestação que tem sido estudada com mais profundidade e sob diversas
abordagens pelos pesquisadores.

capítulo 5 • 93
Para alguns teóricos, por exemplo, a globalização pode ser entendida a par-
tir da organização econômica e do trabalho, tomados aqui como os principais
pontos definidores dos papéis de cada nação no sistema global. Essa concep-
ção é conhecida como teoria dos sistemas-mundo.

ATENÇÃO
O termo “aldeia global” foi criado pelo autor canadense Marshall McLuhan na década de 60 e
se transformou numa das principais teorias críticas ao processo de globalização.

Outros defendem que a globalização deve ser analisada a partir da cultura ou,
de maneira mais precisa, da formação de uma cultura global que tem nos meios
de comunicação de massa, como a televisão e a internet, o seu principal agente.
Nessa análise, o mundo moderno pode ter compreendido a partir da predomi-
nância de uma cultura homogeneizadora, universal, que coloca em risco as iden-
tidades nacionais e locais. Esse fenômeno é associado à ideia de “aldeia global”,
isto é, a possibilidade de intercomunicação atinge seu ápice; é como se todo o
mundo fosse parte de uma mesma comunidade, de uma mesma cultura.
Há, por fim, as abordagens que tomam os campos políticos e sociais como
os principais pontos de entendimento e compreensão do processo de globali-
zação destancado, em alguns casos, os aspectos positivos dessa inter-relação
entre os diversos países, que possibilitariam a formação de uma coletividade
mais mobilizada na busca de soluções para problemas globais.
Você percebe como não há uma definição única do processo de globaliza-
ção e de seus efeitos? Isso revela, justamente, a complexidade desse fenôme-
no no mundo moderno e dos diversos níveis nos quais ele atua. Na definição
de Giddens (2000, p. 23): “a globalização não é um processo singular, mas um
conjunto complexo de processos. E que estes operam de uma maneira contra-
ditória ou antagônica”.
Nesse cenário, o embate entre local e o global; a diversidade e a homogenei-
zação configura-se como meio para compreendermos as transformações polí-
ticas, geográficas, econômicas e culturais. É possível identificarmos algumas
características desse processo. Vamos a elas.

94 • capítulo 5
5.4  Globalização: características

Como vimos há pouco, uma das ideias principais que vêm com a globalização
recente é a do surgimento de uma “aldeia global”, que sugere a formação de
uma comunidade mundial interligada graças às realizações e possibilidades de
comunicação encetadas pelos avanços tecnológicos.
Em um curto período de tempo, as províncias, nações, regiões e culturas
passam a ser atravessadas e articuladas pelo sistema de informação e comuni-
cação agilizados pelas descobertas de um mundo eletrônico.
Na aldeia global, além de mercadorias convencionais, “empacotam-se” e
vendem-se informações. Essas são fabricadas como mercadorias e comerciali-
zadas em escala mundial. As informações, os entretenimentos e as ideias são
produzidas, comercializadas e consumidas como mercadorias.
Trata-se da fabricação de imagens, do mundo enquanto um caleidoscópio
de imagens, da dissolução de fronteiras, da agilização dos mercados e do con-
sumismo. É o redimensionamento de tempos e espaços.

Criou-se um ambiente intelectual propicio para conferir ares de novidade a aconteci-


mentos e tendências que constituem a repetição, sob nova roupagem, de fenômenos
às vezes bastante antigos. De um ponto de vista histórico “globalização” é a palavra da
moda para um processo que remonta, em última análise, à expansão da civili-zação eu-
ropeia a partir do final do século XV (BATISTA JÚNIOR, apud SANTOS 2001).

A globalização é o momento que assiste à tecnificação das relações sociais,


em todos os níveis. A globalização é marcada pela racionalidade funcional, a
serviço do processo de valorização do dinheiro.
Resumidamente, as características da globalização podem ser definidas
nos seguintes pontos:
a) O inglês se edifica como língua universal, predominante;
b) Produtividade, lucratividade e consumismo são os eixos centrais da eco-
nomia;
c) O liberalismo consagra-se como regime econômico e político hegemôni-
cos. Nele, o mercado passa a ser o regulador da vida social e a esfera do
trabalho é reconfigurada;

capítulo 5 • 95
d) Desenvolvimento de técnicas de produção de realidades virtuais e das
telecomunicações;
e) Fim das fronteiras geográficas, pelo menos virtualmente. A sensação de
proximidade com outros países e culturas é maior;
f) Internacionalização da justiça e de grandes questões de debate como di-
reitos humanos, democracia, meio ambiente;
g) Predomínio da indústria cultural, da cultura mundializada e padronizada;
h) Obsolência das mercadorias culturais; tudo é rapidamente substituído;
i) Predomínio da imagem sobre a escrita;
j) Padronização dos valores e desejos.

Eis o contexto em que as pessoas, as ideias e os produtos passam a se inscre-


ver em uma dinâmica caracterizada pela desterritorialização. No mesmo curso
da modernização do mundo, simultaneamente à globalização do capitalismo,
intensifica-se a generalização do pensamento pragmático e tecnocrático.

CONEXÃO
Assista ao filme Babel, do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritus Nele somos apresentados a
diferentes historias, aparentemente desconexas, mas que são, na verdade, interligadas.

Em grande medida, todas essas características são controladas pelos paí-


ses he-gemônicos economicamente, como os Estados Unidos, ponto principal
para os críticos do capitalismo. Para Dias (2010), sobretudo quando falamos da
globalização cultural, não é possível identificarmos apenas um agente domi-
nante. O que impera, nesse contexto, é o mercado e o consumo em larga escala,
desterritorializado. Assim, tudo aquilo “que pode ser consumido globalmente
pode se tornar um produto cultural global, não importando se a cultura que o
gerou é brasileira, norte-americana, chinesa ou francesa” (DIAS, 2010, p. 93).
Isso se aplica tanto aos costumes e hábitos, a gastronomia, a forma de se vestir,
quanto às ideias, manifestações artísticas e culturais. Nesse contexto, o autor
destaca o papel da televisão e do cinema (e mais recentemente da internet) na
modificação dos costumes e hábitos dos mais diferentes povos.
Ao mesmo tempo, algumas linhas de pesquisa e estudos acerca da globali-
zação indicam que esse movimento de hegemonia e imposição de certo padrão
ou consumo não se realiza sem choque com relação às culturas locais. A possi-

96 • capítulo 5
bilidade de resistência existe, assim como a reinterpretação ou mesmo rejeição
desses padrões.
Ou, como afirma Ianni (1996, p. 33), a globalização “é um universo de di-
versidade, desigualdades, tensões e antagonismos [...] [no qual] as identidades
reais e ilusórias baralham-se, afirmam-se ou recriam-se”.
A globalização envolve, portanto, duas faces: homogeneização e heteroge-
neização. E é justamente esse fato que revela as contradições e limites desse
processo, conforme veremos um pouco mais a frente. Por ora, iremos analisar
a relação entre globalização e mídia. A comunicação e a disseminação da infor-
mação são processos indissociáveis da consolidação da globalização.

5.5  Globalização e mídia

O signo, por excelência, da moder-

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nização é a comunicação, a prolife-
ração e a generalização dos meios
impressos e eletrônicos de comu-
nicação, articulados em teias multi-
mídia e alcançando todo o mundo.
Os meios de comunicação de
massa, graças à tecnologia, rom-
pem ou ultrapassam fronteiras culturais, idiomas, religiões, regimes políticos,
diversidades e desigualdades sócio-culturais.
O satélite passa a ser usado como o mais importante instrumento mundial
de propaganda na disputa pelos corações e mentes. No âmbito da aldeia global,
prevalece a mídia eletrônica, poderoso instrumento de comunicação, informa-
ção, compreensão, explicação e imaginação sobre o mundo. O computador
consolida-se como aliado e algoz na prática do ensino ao mesmo tempo em que
ele se torna um eficaz recurso pedagógico, a inesgotabilidade de informações e
sua heterogeneidade concorrem para a difusão de dados inconsistentes.
McLuhan viu a tecnologia como uma extensão do homem. Para o autor, da
mesma forma que a roda é a extensão do pé, o telescópio uma extensão do olho,
a rede de comunicações é uma extensão do sistema nervoso. A televisão tornou-
se nossos olhos e o telefone a nossa boca e ouvidos.
A intensificação do ritmo da produção de mercadorias e o volume de infor-
mações produzidas fazem com que haja uma modificação na percepção que o

capítulo 5 • 97
homem acerca da passagem do tempo. Temos a sensação de uma aceleração
do ritmo da vida e a conversão dos cidadãos em meros consumidores (todos se
igualam através da possibilidade de aquisição de mercadorias).
O poder dos meios de comunicação fica evidente na seguinte frase, dita pelo
poeta francês Charles Baudelaire: Qualquer pessoa pode governar uma grande
nação assim que obtém o controle do telégrafo e da imprensa nacional.
A globalização cria a ilusão da universalização das condições e possibilida-
des do mercado e da democracia, do capital, da cidadania. Os direitos são, na
prática, privilégios.
Há sempre alguma manipulação, mais ou menos decisiva, no modo pelo
qual a mídia registra, seleciona, interpreta e difunde o que será divulgado, dei-
xando evidente que os censores da atualidade são os redatores.

5.6  As contradições da globalização

A globalização está relacionada à ideia de modernização e ocidentalização do


mundo, que passaram a ser o emblema do desenvolvimento, do crescimento,
do progresso.

De um lado, [a globalização] gera um processo de homogeneização, padronizando ele-


mentos produtivos e culturais, mas, de outro lado, surge um universo de diferenciações,
tensões e conflitos sociais. As mesmas forças que produzem a globalização, propician-
do novas articulações e associações em nível internacional, provocam formas opostas
e fragmentadas. Globalização e regionalização, fragmentação e unidade, inclusão e ex-
clusão são polos antagônicos inter-relacionados de forma dialética, ou seja, são forças
opostas que estão em constante interação. [...] Ulrich Beck (1998) analisa os conceitos
de globalização e de localismo, considerando-os duas faces da mesma moeda. Os dois
conceitos expressam uma nova polarização e estratificação social em nível internacio-
nal: ricos globalizados e pobres localizados. A desigualdade social e a existência de
enormes contingentes populacionais que estão à margem do processo de desenvolvi-
mento, multiplicam e aprofundam os conflitos sociais e a deterioração da qualidade de
vida na maioria das regiões do planeta. Por conseguinte, o problema da exclusão social
torna-se hoje uma questão fundamental, que requer muito mais soluções estruturais do
que reformas paliativas (SANTOS, 2001).

98 • capítulo 5
Noções como metrópole e colônia, império e imperialismo, interdependên-
cia e dependência, central e periférico, urbano e agrário, moderno e arcaico,
primeiro e terceiro mundo expressam o vai-vêm do processo histórico-social de
ocidentalização e modernização do mundo.
A modernização do mundo implica a difusão e sedimentação dos padrões
e valores sócio-culturais predominantes na Europa e nos Estados Unidos. Ela
traz a ideia de que o capitalismo é um processo civilizatório não só superior,
mas inexorável. O capitalismo desenvolve-se pelos quatro cantos do mundo,
generalizando padrões, valores e instituições ocidentais.
Essa modernização traz implícito o ideário democrático da procedência da
liberdade econômica em face da política. Na economia, consolida-se o neoli-
beralismo, fazendo com que as forças de mercado capitalista se espraiem glo-
balmente. Enquanto o liberalismo fundamentava-se no princípio da soberania
nacional, ou ao menos tomava-o como parâmetro, o neoliberalismo passa por
cima de tal princípio, deslocando as possibilidades de soberania para as orga-
nizações, corporações e outras entidades de âmbito global.
Os princípios envolvidos no mercado generalizam-se, tornando-se padrão
para os mais diversos grupos, as mais diversas formas de organização da vida e
do trabalho, independentemente das culturas.
Ainda que os processos de globalização desenvolvam-se simultaneamente e re-
ciprocamente pelo mundo afora, também produzem desenvolvimentos desiguais,
desencontros. No mesmo curso de integração e homogeneização, desenvolve-se a
fragmentação e a contradição. O mesmo vasto processo de globalização do mundo
é um vasto processo de pluralização dos mundos. O que cria a ilusão de homoge-
neização e integração é o fato indiscutível da ocidentalização e do capitalismo.
Vimos até aqui que a globalização é uma das características marcantes da
era moderna e contemporânea, mas que a compreensão de sua dimensão deve
ser vista a partir da complexidade que envolve esse fenômeno, bem como dos
limites de sua manifestação. Se a padronização de valores, hábitos e costumes
são impostos nas mais diferentes sociedades, o fato é que esse processo tam-
bém gera uma contrapartida: a resistência e ressignificação. Diante disso é que
propomos como finalização deste capitulo a discussão acerca de um tema que
dialoga diretamente com o processo de globalização: o multiculturalismo e a
relação entre a igualdade e a diversidade.

capítulo 5 • 99
5.7  O multiculturalismo e a ética igualitária

Pensar que o multiculturalismo é importante, isso não há dúvida. O problema


está em como pensá-lo. Já que ele é um questionamento radical, uma reação ao
processo de miscigenação e encontro (e confronto) das diferenças, então estão
em questão termos conhecidos pela filosofia como Igualdade, Liberdade Identi-
dade, Cultura, Diversidade e Justiça. Ou seja, estão em jogo os ideais da Moderni-
dade, aquilo que nossa civilização ocidental mais preza e luta com todas as forças
para manter e legitimar com sua arma mais poderosa e eficaz que é a Ciência.
O multiculturalismo abre a discussão, põe em xeque esses ideais, prolon-
ga o horizonte e questiona até o mais onipotente dos seres: a Ciência! Aquela
que se pronuncia genuinamente a respeito da diversidade com seus Determi-
nismos de Meio, sua biologia inquestionável, suas provas de inferioridade inte-
lectual, deliberações de raças e etnias, enfim, sua profunda justificativa para a
dominação monocultural que, infelizmente, não foi superada.
O maior sonho da Modernidade está ameaçado: Igualdade, Liberdade e Fra-
ternidade! Vale dizer, e isto é esquecido, que este sonho é uma criação nossa,
nós o instituímos como verdade, criamos a relação entre estes três ideais e fize-
mos com que eles tivessem sentido juntos. Então, temos que recriar e repensar
esta relação, mesmo porque não vemos motivos para abandoná-la.
Se estamos falando de Multiculturalismo, de diferença, diversidade, identi-
dades diversas, somos obrigados a pensar naquilo que alimenta o imaginário
moderno que é o ideal filosófico da Igualdade – não podemos refletir a Diferen-
ça sem rever a Igualdade, já que a primeira desafia os ideais da segunda.
Muito se diz sobre uma recuperação da Ética – nos moldes da filosofia clás-
sica – (a proposta do Politicamente Correto é um grande exemplo disso), em
meio a tanta diversidade é preciso saber “como se deve fazer” em relação ao ou-
tro. Para Castoriadis (1987), isso não passa de uma mistificação é “fuga e sinal
de desprezo pela própria Ética”. Pois, se existe uma questão social e política,
posta pelo Multiculturalismo, então a Ética está interpenetrada pela Política.
O “dever fazer” individual não é puramente ético, é um problema social – sen-
do o indivíduo parte de uma sociedade, mesmo enquanto indivíduo. E para o
intelectual, principal responsável pela instauração de “Éticas” e pelo pensar
Multicultural, não é o bastante ser um técnico (um expert em algum assunto),
ele precisa ter algo a dizer sobre a sociedade. Isso vale para a filosofia e o seu
investigador – o filósofo –, a discussão acadêmica é vazia se não se preocupar

100 • capítulo 5
em transformar o mundo. A filosofia precisa politizar a cultura, pensá-la em
sua articulação com o político e o social. Já que a percepção da cultura é criação
histórica, então o intelectual não deve ocultar esse movimento, principalmente
porque ele participa desse movimento, o que não significa “nem inscrever-se
em um partido para seguir-lhe docilmente as ordens, nem simplesmente assi-
nar petições. Mas, sim, agir enquanto cidadão” (CASTORIADIS, 1987), ou seja,
saber que tem um compromisso social e político – isso sim é ser ético!
Então podemos, por hora, concluir que o problema maior do Multicultura-
lismo é o da atividade política e da sua organização na sociedade. É uma ques-
tão radical, que envolve, como já dito, a questão da Igualdade pois ela possui,
sim, uma dimensão sócio-política, entendendo por isso um questionamento
da instituição efetiva da sociedade – questionamento radical.
Admitindo que a igualdade é uma criação histórica podemos afirmar que
ela é auto-instituída pela sociedade, isto é, está ligada ao mundo social-histó-
rico no qual é criada. O problema está aí, na ocultação desse fato, pois ocultar
que história é criação coloca no esquecimento a relação intrínseca entre Igual-
dade e Liberdade. A igualdade está fundamentada em lógicas deterministas
que não se sustentam.
Esse é o grande desafio para a luta do Multiculturalismo, revelar que o indi-
víduo é uma fabricação social específica, uma forma instituída e que isso impli-
ca em uma forma parcial de igualdade, ou seja, que as relações de igualdade são
necessárias para a instituição da sociedade como um todo, mas que as igualda-
des são estabelecidas sempre em relação a algum critério (Deus, Biologia, Clas-
ses, Natureza, etc.). A exigência de igualdade existe de fato, mas devemos não
tentar fundamentá-la de algum modo e, sim, entender que é ela que nos funda.
Só assim será possível enxergar o paradoxo da cultura ocidental e perceber o
problema político ao qual nos leva esse pensamento monocultural, pois o que
faremos com Estados que transgridem os princípios que concebemos como
certos, inseridos em uma ideia de igualdade universal e irrestrita?! Transforma-
remos todos os problemas em um relativismo absoluto? Condenaremos todos
os que violarem as leis que consideramos universais? Procuraremos na Ciência
uma resposta incontestável?
Uma coisa é certa, o Multiculturalismo não pode responder à essas ques-
tões com fundamentos científicos, suas respostas, sejam quais forem, devem
estar baseadas em uma opinião responsável e em um querer político. Deve ser
lembrado sempre que a exigência de uma igualdade exige, da mesma forma,

capítulo 5 • 101
responsabilidade e participação iguais. Ou seja, não posso participar e opinar
na cultura de um povo – um grupo – se este também não participa da minha
cultura, das minhas decisões. Isso fica bem claro na questão muçulmana da
excisão das mulheres: como condenar ou intervir em um ato cultural particu-
lar – mesmo que esse fira nossos princípios – se nossa cultura pratica atos que
também para eles são extremamente ofensivos e, ainda sim, não permitimos
intervenção. De maneira nenhuma pretende-se cair em um relativismo absur-
do, mas é preciso estar consciente que a opinião emitida é uma opinião parti-
cular, não oferece direitos de intervenção por isso, além disso ela cria respon-
sabilidades. E, estando inserida em uma sociedade e emitindo opiniões sobre
ela, a luta multiculturalista também chama para si algumas responsabilidades,
e a maior delas é política.
Se, os movimentos multiculturais e suas organizações políticas preocupa-
rem-se somente em penetrar no aparelho do Estado ou em conquistá-lo para si,
então, sua luta não é genuinamente política e o multiculturalismo não estará
indo a fundo no questionamento da diversidade e da construção das identida-
des que se originam nela. Várias questões poderão ser esquecidas e a diferença
continuará restrita ao privado ou então será tratada com deslumbramento ex-
cêntrico. Ou ainda, a diferença permanecerá, aos olhos da política ocidental
fundamentada pela ideia moderna de Igualdade.
O multiculturalismo permite fazer perguntas como: a nação é uma iden-
tidade hegemônica como pretendem os programas dos Estados Nacionais?
França, EUA, Brasil, Espanha, México, e tantos outros, são uma nação, com um
só povo, com os mesmos ideais a mesma cultura, as mesmas aspirações socio-
políticas? Se, dentro de um Estado Nação igualitário e democrático (algumas
vezes), a diversidade é permanente, e as várias identidades (reconhecidas ou
não, ou mesmo falsamente reconhecidas) convivem juntas tendo de respeitar
as mesmas leis e parâmetros impostos por uma cultura que é a dominante, en-
tão – e essa é a principal questão – como respeitar estas diferenças como sendo
parte integrante da conquista da igualdade?
Essa última questão não pode e nem deve ser respondida de imediato (tal-
vez seja uma daquelas perguntas sem resposta – por isso tão importante), pen-
sar nela é o que os multiculturalistas e todos nós devemos fazer. Lembrando
sempre que a diferença e a diversidade surgem como problema e como força
política hoje devido a séculos de repressão e supressão pela cultura ocidental,
europeia, dominante. A igualdade de oportunidades, tão sonhada, revela uma

102 • capítulo 5
extrema desigualdade, latejante, que grita: o Direito à igualdade tem que com-
portar o Direito à diferença! Avisando à dominação monocultural uma situa-
ção insustentável onde a exclusão e a pertença afloram de modo radical. E é do
mesmo modo que deve ser feito o questionamento do multiculturalismo.

ATIVIDADE
1. Como você define o processo de globalização?

2. Explique as dimensões da globalização.

3. Por que podemos afirmar que a globalização é um processo contraditório?

4. É possível afirmar que a globalização possui apenas a face homogeneizadora?

5. Como você relaciona a ideia de multiculturalismo com a globalização?

REFLEXÃO
A globalização, por abarcar elementos antagônicos, que mantêm entre si relações dialéticas,
deve ser analisada como um fenômeno contraditório. Ela produz aspectos positivos e nega-
tivos concomitantemente, ou seja, de um lado a sociedade global propicia uma acelerada
revolução científica e tecnológica, mas, por outro lado, a dominação torna-se cada vez mais
sofisticada e efetiva, levando a uma maior exploração e exclusão (agora também uma nova
forma de exclusão: a digital) de amplos segmentos da população mundial.
Uma das principais manifestações da globalização é sua dimensão cultural, aquela que
revela a homogeneização de padrões e costumes, além da própria arte e, ao mesmo tempo,
o surgimento e fortalecimento de culturas e manifestações locais como forma de resistência
à imposição de padrões hegemônicos.
É nesse ponto que a globalização revela seus limites e contradições: vivenciamos o fim
das barreiras geográficas, pelo menos virtualmente, e a aproximação de povos e culturas
muitas vezes bastante diversos do nosso. Participamos ativa ou passivamente dos grandes
problemas e debates mundiais, contribuindo, em vários casos, para saídas mais justas e hu-

capítulo 5 • 103
manistas. Mas, ao mesmo tempo, vemos crescer a intolerância e a xenofobia contra aqueles
que são diferentes de nós. Essa dicotomia entre o local e o global acaba revelando toda a
complexidade que marca nossa era.

LEITURA
Octávio Ianni. A sociedade global. Rio de Janeiro: Record, 1992.
Nessa obra, Ianni aponta os significados e consequências da globalização para os indivíduos
e a sociedade. O autor aponta como esse fenômeno ultrapassou a esfera econômica, atin-
gindo outras esferas da nossa vida, graças à revolução tecnológica. Destaca que ao contrário
de seu viés dominador, a globalização foi responsável pelo desenvolvimento da consciência
crítica e emancipação política em diversos países.

Marshall McLuhan. A Galáxia de Gutenberg. Passo Fundo/RS: UPF, 2003


Obra na qual o autor cunhou o termo “aldeia global” que viria a se tornar uma das referên-
cias mais significativas na análise da globalização, sobretudo, através do seu viés tecnoló-
gico e cultural.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIAS, Reinaldo, Sociologia. São Paulo: Pearson, 2010.

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1994.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura global: nacionalismo, globalização e modernidade. Petró-


polis Vozes, 1999.

GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós.


Rio de Janeiro: Record, 2000.

_______. As consequências da modernidade. São Paulo:Unesp, 1991.

IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

_______. Globalização e transculturação. Campinas: UNICAMP, 1997.

104 • capítulo 5
MONTERO, Paula. O problema das diferenças em um mundo global. Petrópolis: Vo-
zes, 1998.

SANTOS, Tania Steren dos. “Globalização e exclusão: a dialética da mundialização do


capital”. Sociologias, n. 6. Porto Alegre, jul./dez. 2001.

SCOTT, John (org). Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

EXERCÍCIO RESOLVIDO
Capítulo 1

1.  Qual a origem da cultura?


Resposta: Uma das definições mais conhecidas sobre a origem da cultura e a
relação desta com a natureza foi formulada pelo francês Claude Lévi-Strauss. Para
ele, a natureza é o local do instintivo, da ausência de regras. Assim, o ser humano
apenas superou este estado quando convencionou a primeira regra que, aponta
o autor, foi a proibição do incesto. Essa norma foi aceita e se tornou um padrão
comum a todas as sociedades humanas, tornando-se uma imposição cultural. A
cultura nasce assim, na perspectiva do autor, a partir da primeira convenção criada,
que estabelece um padrão de compor-tamento ao qual todos os integrantes da-
quele grupo deverão obedecer.

2.  Como a cultura é definida a partir do senso comum?


Resposta: Para o senso comum, cultura é o conjunto de conhecimento artísticos e
culturais produzido por uma sociedade.

3.  Como a cultura é definida a partir da ciência?


Resposta: A cultura é o conjunto de tudo o que é produzido por uma determinada
sociedade e transmitido para as gerações seguintes de tal maneira que essas pro-
duções, materiais e imateriais, tornam-se características que nos permitem identifi-
car um determinado grupo/ sociedade/ nação por meio da sua cultura.

capítulo 5 • 105
4.  Das criações humanas, o que podemos definir como sendo cultural?
Resposta: São criações culturais: valores que defende, na língua e nas expressões
que usa, nos hábitos alimentares, na sua religião e crença, nas vestimentas, na
arquitetura e formas de moradia, nas expressões e manifestações, nas produções
artísticas, literárias, nas manifestações populares, nos padrões sociais, etc.

5.  Explique as noções de etnocentrismo e relativismo cultural.


Resposta: Etnocentrismo: emitir um juízo de valor acerca de uma cultura que é
diferente da do sujeito que a analisa. Relativismo cultural: se caracteriza por con-
siderar que cada sistema cultural é único e só podemos interpretá-lo, portanto, to-
mando-o como referência. Assim, os valores, as normas, as crenças, os hábitos de
determinada cultura apenas podem ser compreendidos se estudados dentro da
sua própria rede de significados e valores.

6.  Como podemos relacionar o etnocentrismo com a xenofobia?


Resposta: A xenofobia pode ser entendida como o etnocentrismo levado ao ex-
tremo. Isto é, não apenas consideramos como correta a nossa própria cultura e
apenas ela como, também, desqualificamos por completo aquele que é diferente de
nós. Encontramos aqui o germe do racismo e da intole-rância, utilizamos frequente-
mente para justificar a violência.

7.  É possível afirmarmos que uma pessoa não tem cultura? Justifique sua
resposta.
Resposta: Não, pois somos parte de uma espécie que necessita de um sistema de
símbolos para compreender a própria realidade e dar sentido às nossas vivências.
Construímos, assim, um conjunto que forma nossa identidade cultural e permite
que possamos reconhecer aqueles que compartilham do mesmo sistema que nós
e os grupos que compartilham de um sistema diferente.

Capítulo 2

1.  Por que é possível afirmar que o ser humano é um ser social?
Resposta: Porque o ser humano tem a necessidade de se organizar em grupos
sociais. É por meio dessa integração social que construímos cultura e criamos nos-
sa identidade cultural.

106 • capítulo 5
2.  Explique o que é socialização.
Resposta: Socialização é a assimilação de hábitos característicos do seu grupo so-
cial, todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma
comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo contínuo que
nunca se dá por terminado, realizando-se através da comunicação, sendo inicialmen-
te pela “imitação” para se tornar mais sociável. O processo de socialização inicia-se
após o nascimento, e através, primeiramente, da família ou outros agentes próximos
da escola, dos meios de comunicação de massas e dos grupos de referência que
são compostos pelas nossas bandas favoritas, atores, atletas, super-heróis, etc. A so-
cialização é o processo através do qual o indivíduo se integra no grupo em que nas-
ceu adquirindo os seus hábitos e valores característicos. É através da socialização
que o indivíduo pode desenvolver a sua personalidade e ser admitido na sociedade.

3.  Qual a relação da socialização com a manutenção da ordem social?


Resposta: ao internalizar a cultura de um grupo social no processo de socialização,
o sujeito adquire as regras que envolvem aquela determinada sociedade. Sendo
assim, para que a sociedade se estruture, é preciso que existam regras de convi-
vência que norteiem a vida em grupo, para que não haja violência interna, e para que
o grupo se organize contra a violência externa, ou seja, de outros grupos sociais.

4.  Como se forma a personalidade individual?


Resposta: A noção de que a socialização é um processo indissociável da transfor-
mação do homem em um ser social é amplamente aceita pelas teorias das ciências
humanas. A influência desse processo na formação da personalidade individual,
entretanto, é ponto de discórdia entre os pesquisadores. Para alguns, o meio social
exerce poder determinante na personalidade e formação dos indivíduos. É daqui
a noção de que o indivíduo é produto do seu meio. Assim, um meio violento irá
produzir necessariamente indivíduos violentos. Outras perspectivas, entretanto,
apontam que há outros fatores, como pré-disposições biológicas, por exemplo, que
contribuem decisivamente para a formação da personalidade individual. Para essa
corrente se o meio social representasse o único condicionante da personalidade
humana, então, em um meio violento, todos os indivíduos seriam necessariamente
violentos. Ou, ainda, não haveria diferença entre irmãos criados dentro de um mes-
mo grupo. Há, ainda, outra corrente que considera que a personalidade humana
é formada por fatores múltiplos que interferem de forma e graus variados e sob
diversas combinações na formação individual.

capítulo 5 • 107
5.  Por que a família é considerada a agente primária de socialização?
Resposta: A família é considerada a agente primária de socialização, pois:
• a família é responsável por transmitir as primeiras regras e hábitos sociais
que tornarão o indivíduo um ser social;
• por meio dessa transmissão dos primeiros sistemas simbólicos a identifica-
ção do indivíduo com seu meio social vai sendo construída, fato essencial
para a manutenção de qualquer sociedade;
• religião, afeto, personalidade, moral, gostos são primeiramente construídas
pela família;
• ao mesmo tempo, cabe à família a perpetuação da diversidade social, cultural
e genética;
• a família é responsável ainda, por garantir a proteção e assistência.

6.  Indique alguns agentes socializadores da sociedade moderna.


Resposta: TV, rádio, internet.

7.  Explique a importância dos meios de comunicação como agentes so-


cializadores.
Resposta: Na sociedade contemporânea muito se tem discutido sobre o papel dos
meios de comunicação de massa como agente socializador, espe-cialmente, meios
como o cinema e a TV, uma vez que por meio deles aprendemos uma série de pa-
drões de conduta, modos de agir, hábitos, padrões de vestimenta, uso da linguagem
e, também, uma série de valores. Acrescenta-se, ainda, que em sociedades como
a brasileira, por exemplo, a televisão é um meio predominante, quando não único,
de acesso às pro-duções artísticas e culturais para muitas famílias. Como parte da
discussão do papel da mídia como agente socializador no mundo moderno, o pensa-
dor francês Edgard Morin aponta o papel das mídias na construção dos sonhos, do
inconsciente por meio da criação de mitos.

8.  Defina o conceito de habitus, na perspectiva de Bourdieu.


Resposta: Habitus é a forma pela qual interiorizamos as exterioridades sociais e,
ao mesmo tempo, exteriorizamos as interioridades. Isto é, revela como os sujeitos
sociais são construídos a partir de uma relação constante entre indivíduo e socie-
dade; mundo subjetivo e objetivo. Essa formação se dá pelas experiências que
vivenciamos e se revelam nas práticas cotidianas, nas formas de pensar e agir. O
campo é um espaço social estruturado, por onde as ações dos diversos grupos se

108 • capítulo 5
realizam. Por exemplo: o campo econômico, politico, cultural, social, educacional,
médico, jornalista, etc. É uma espécie de microcosmos dentro da organização so-
cial mais ampla.

Capítulo 3

1.  Como surge a noção de Indústria Cultural?


Resposta: O conceito de indústria cultural foi utilizado pela primeira vez por dois
filósofos alemães, Theodor W. Adorno e Max Hockeimer, em 1947, na obra “Dialé-
tica do Iluminismo”. Theodor e Max eram dois professores judeus do Instituto de
Pesquisas Sociais da Universidade de Frankfurt, que fugindo do nazismo em 1933,
emigraram para os EUA e aí permaneceram vivendo em um período muito impor-
tante deste país. a origem desse conceito, Indústria Cultural, é, de um lado, o nazis-
mo, claramente explicitado em uma frase de Adorno e Horkheimer que impressiona
muito: “O rádio é a voz do Führer”; e, de outro, a sociedade de massa americana e
sua cultura. Trata-se de uma sociedade que eles aprenderam a conhecer a partir
de 1933 e que nunca deixou de representar o desprezo que intelectuais europeus
exilados tinham pelos Estados Unidos, que se traduzia no horror pela cultura de
uma sociedade que, de certa forma, trazia uma série de elementos completamente
desconhecidos na Alemanha do mesmo período.

2.  Defina cultura de massa.


Resposta: A cultura feita em série, industrialmente para um grande numero, passa a
ser vista não como um instrumento de crítica e conhecimento, mas como produto tro-
cável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa.

3.  Defina cultura popular.


Resposta: A cultura popular é aquela que é contraposta à cultura erudita ou de
elite. São, portanto, classificações que dialogam, em alguma medida, com o sistema
pelo qual uma determinada sociedade está dividida. Popular se relacionaria ao povo,
enquanto erudito faz relação à cultura da elite.

4.  O que é subcultura?


Resposta: subcultura é a cultura de um grupo que se insere em uma sociedade
maior. Sendo assim, subculturas são aquelas culturas dos grupos, e que, normal-
mente, surgem entre os jovens. Quando o determinado grupo determina elementos

capítulo 5 • 109
culturais que o diferencia dos demais, temos uma subcultura. Isso acontece porque
é impossível pensar em uma cultura homogênea em uma sociedade ampla. As
subculturas são marcas pluriculturais da sociedade.

Capítulo 4

1.  Diferencie o conhecimento filosófico do conhecimento científico.


Resposta: Podemos bem entender a ciência como um senso comum mais refina-
do. Isto, pois todos os problemas que motivam o senso comum a elaborar algumas
ideias são os mesmos que motivam os cientistas a elaborar suas teorias – a preocu-
pação com tais problemas e o modo como elaboram as teorias é que diferem muito.
O conhecimento elaborado pela ciência passa sempre pela razão. Ou seja, não
pode simplesmente ser aceito o que é visto, mas sim aquilo que pode ser explicado
pela razão. Ou seja, sem a racionalidade não se faz ciência. Mas isso também não
exclui a crença ou a imaginação. A ciência trata da verdade como aquilo que pode
ser observado; porém que pode responder a um entendimento científico anterior
– além disso, o observado deve ser uma experiência repetível. Não se faz ciência
com o conhecimento de algo que ocorre apenas uma única vez – é a repetição da
ocorrência em situações semelhantes à original (e que se encaixe em uma teoria
anterior) que pode trazer a verdade à luz. Assim nascem as teorias científicas. Pode,
sim, nascer uma teoria que não obedeça a nada anterior; mas, daí, já falamos da
novidade plena de uma teoria – ela que servirá para explicar outros fenômenos.
Nossa sociedade vive hoje a era da técnica e da ciência, situação na qual tudo o
que é comprovadamente científico ganha sempre mais prestígio. A filosofia é um
tipo de conhecimento que, também, como a ciência, toma a razão por base para
seu entendimento do mundo. Mas filosofia não é ciência; a atividade do filosofar é
anterior à atividade científica. O que possibilitou o nascimento da ciência ocidental,
como conhecemos hoje, deve-se ao surgimento e desenvolvimento da filosofia ao
longo dos séculos. Os primeiros pensadores não eram unicamente filósofos, mas
também matemáticos, físicos, astrônomos, poetas, etc.; isto, pois o conhecimento
ainda não tinha se desenvolvido nem se dividido em diversas áreas. Ao longo dos
séculos, o conhecimento foi se subdividindo e as diversas ciências foram surgindo,
cada uma construindo seu corpo de conteúdo. A filosofia, porém, não desaparece,
pois há algo de bem específico que apenas a ela compete conhecer: o problema
da própria existência como um todo – enquanto cada ciência estuda a realidade

110 • capítulo 5
apenas em suas partes (cada ciência conhece apenas uma região da realidade, por
exemplo, a física não trata dos objetos da química, nem a história trata dos objetos
da engenharia, etc.). O conhecimento da filosofia busca ser global, preocupando-se
com os objetos em sua completude; dizemos que é o conhecimento que busca ser
globalizante, querendo entender o que são as coisas, e não apenas como funcio-
nam as coisas. O que os pensadores buscam é saber a verdade da existência como
um todo. Filosofia é a perene busca pela verdade.

2.  De que modo a ciência pode ser entendida como um senso comum
mais refinado.
Resposta: Podemos bem entender a ciência como um senso comum mais refina-
do. Isto, pois todos os problemas que motivam o senso comum a elaborar algumas
ideias são os mesmos que motivam os cientistas a elaborar suas teorias – a preocu-
pação com tais problemas e o modo como elaboram as teorias é que diferem muito.

3.  Por que o estudo das ciências humanas se mostra, de certo modo, como
algo mais complicado que o estudo das ciências exatas?
Resposta: Estudar ciências humanas é algo mais difícil que estudar outros tipos
de ciências; dois motivos claramente simples são: 1) o fato de que o objeto das
humanidades é algo incompleto e fugidio, transformando-se a cada instante e tam-
bém 2) o fato de que o sujeito de conhecimento se identifica com o objeto, já que
o homem está nos dois lados da relação.

4.  O que é e qual a importância do método científico?


Resposta: MÉTODO – Tem-se um método quando se segue um determinado
caminho, para alcançar um certo fim, ou posto de antemão como tal. Este fim pode
ser o caminho ou pode ser também um fim humano ou vital; por exemplo, a felici-
dade. O método contrapõe-se à sorte e ao acaso, pois o método é, antes de mais,
uma ordem manifestada num conjunto de regras. (MORA, 1978, p.186). A ciência
busca encontrar a verdade; ter um método significa seguir um caminho estruturado
para tal intento. Imagine, por exemplo, se cada cientista quisesse sair por aí reali-
zando qualquer pesquisa de qualquer modo – como seria o desenvolvimento do
conhecimento científico? Possivelmente a alguma descoberta se chegaria, porém
a falta de organização não contribuiria grandemente e o processo seria moroso. O
que fazer, então? O melhor foi estabelecer um caminho que seja único para que se
pesquise cientificamente.

capítulo 5 • 111
5.  Sobre o raciocínio indutivo, responda:
a) Por que ele é importante para o progresso do conhecimento científico?
Resposta: Observar exatamente o que ocorre e, a partir disso, realizar experiências
semelhantes ao observado devem ser a base de toda produção científica. De forma
regrada, é possível fazer com que a natureza seja testada afim de os cientistas po-
derem apreender e registrar a verdade do mundo. É através do raciocínio indutivo
que a ciência pode, então, chegar a suas conclusões.

b) Qual a complicação de seu uso especificamente nas ciências humanas?


Resposta: Os fenômenos humanos resistem a qualquer forma de enquadramento
fechado, ou seja, apresentam complexidade tal que não se sujeitam a simplifica-
ções – não há constância nos fenômenos humanos do mesmo modo como há nos
fenômenos naturais. O método científico deve, por sua vez, proporcionar experi-
ências diversas (testes) a partir das quais seja possível pensar uma generalização.

Capítulo 5

1.  Como você define o processo de globalização?


Resposta: Globalização é um conjunto de transformações na ordem política e
econômica mundial visíveis desde o final do século XX. Trata-se de um fenô-
meno que criou pontos em comum na vertente econômica, social, cultural e po-
lítica, e que consequentemente tornou o mundo interligado, uma Aldeia Global.

2.  Explique as dimensões da globalização.


Resposta: A globalização é um processo multidimensional através do qual pes-
soas, governos e empresas trocam ideias, realizam transações financeiras e
comerciais e difundem aspectos culturais à escala planetária.
Dimensão Económica: Transnacionalização da produção e das práticas comer-
ciais.
Dimensão Política: Acordos interestatais.
Dimensão Jurídica: desregulação dos mercados de trabalho, serviços comer-
ciais e de capitais.
Dimensão Social: Afirmação de uma nova classe capitalista transnacional.
Dimensão Demográfica: Intensificação dos fluxos migratórios internacionais.

112 • capítulo 5
Dimensão Religiosa: Expansão do islamismo e de novas formas de religiosida-
de proporcionadas pela crescente multietnicídade e multiculturalidade.
3.  Por que podemos afirmar que a globalização é um processo contraditório?
Resposta: Como muitos outros fenômenos de elevada complexidade, a globa-
lização apresenta pontos positivos e negativos. A globalização foi importante no
combate à inflação e ajudou a economia ao facilitar a entrada de produtos importa-
dos. O consumidor teve acesso a produtos importados de melhor qualidade e mais
baratos, assim como produtos nacionais mais acessíveis e de melhor qualidade.
Outra vantagem é que a globalização atrai investimentos de outros países, traz de-
senvolvimento tecnológico, melhora o relacionamento com outros países, potencia
as trocas comerciais internacionais, e abre as portas para diferentes culturas. Por
outro lado, uma das maiores desvantagens da globalização é a concentração da
riqueza. A maior parte do dinheiro fica nos países mais desenvolvidos e apenas
25% dos investimentos internacionais vão para as nações em desenvolvimento, o
que faz disparar o número de pessoas que vivem em extrema pobreza. com menos
de 1 dólar por dia. Alguns economistas afirmam que nas últimas décadas, a globali-
zação e a revolução tecnológica e científica (que são responsáveis pela automação
da produção) são as principais causas do aumento do desemprego. A globalização
também pode desvalorizar a cultura nacional de um determinado país, quando paí-
ses mais ricos se instalam em países mais pobres, explorando a matéria-prima e se
aproveitando da mão de obra barata.

4.  É possível afirmar que a globalização possui apenas a face homoge-nei-


zadora?
Resposta: Ainda que os processos de globalização desenvolvam-se simulta-nea-
mente e reciprocamente pelo mundo afora, também produzem desen-volvimentos
desiguais, desencontros. No mesmo curso de integração e homogeneização, de-
senvolve-se a fragmentação e a contradição. O mesmo vasto processo de globa-
lização do mundo é um vasto processo de pluralização dos mundos. O que cria a
ilusão de homogeneização e integração é o fato indiscutível da ocidentalização e
do capitalismo.

capítulo 5 • 113
5.  Como você relaciona a ideia de multiculturalismo com a globalização?
Resposta: O multiculturalismo só é possível porque há a globalização, pois o mul-
ticulturalismo surge no bojo do processo de globalização, quando diversas culturas
se tocam e possam a conviver no mesmo espaço, seja ele geográfico, como gran-
des metrópoles, seja ele o espaço virtual, como a internet, que nos abriu a possibi-
lidade de interagirmos com as mais diversas pessoas, numa aldeia global, em um
mundo sem fronteiras.

114 • capítulo 5