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“ UMA PAIXÃO FATAL “

by B.M.

Ouviu-se o elevador estacar e em seguida o som da porta a bater. Percebia-se um rumor de


vozes, aproximando-se pelo corredor.
- Afinal o que é feito da mamã? - indagou a criança, assim que a porta de casa, se abriu.
- Não sei, filhota - respondeu o adulto que a acompanhava, fechando a porta, nas suas costas,
sem ruído - Ainda hoje não a vi...
A miúda, desfazendo-se da mochila com os livros, dirigiu-se apressada para a cozinha, uma
dessas kitchnettes modernas, que comunicam através de um balcão com a sala e empoleirando-se
num banco, abriu as portas do armário, começando a espalhar sobre a bancada tudo o que
necessitava para o lanche. O pai, deixando o casaco sobre uma cadeira, dirigiu-se lentamente ao
frigorífico de onde extraiu uma cerveja, de lata, que levou à boca, depois de abrir. A criança,
espalhando apressadamente montes de
pasta de chocolate sobre uma fatia de pão, insistiu:
- Mas ó papá, é muito estranho ela não me ter ido buscar à escola. A professora ficou muito
admirada. Quando tu chegaste já todas as meninas tinham ido embora.
- Eu sei filhota. Ela falou comigo - respondeu o pai, passando a mão pelos olhos, fatigado.
- Quem? A mãe? - perguntou a miúda, excitada, introduzindo um grande naco de pão, na
boca.
- Não querida. A professora. Ela telefonou a informar-me que a mamã não tinha aparecido
até aquela hora. Tive que explicar-lhe que um contratempo inesperado, fizera com que nos
desencontrássemos e o papá tinha-se esquecido.
- Mas qual contra, contra...? – insistiu a garota, atarefando-se noutra fatia, enorme.
- Contratempo amor. É um imprevisto, uma chatice qualquer que a pessoa não está a espera.
Mas querida, não chateies agora. Não vês que o papá está arrumado? Vai para o teu quarto brincar
um bocadinho. E não esqueças os trabalhos de casa.
- Tá bem papá, mas tens que me ajudar com os problemas de matemática.
- OK querida. Mais tarde - respondeu ele, observando-a com ternura, enquanto corria ligeira,
pelo corredor. Ouviu-se a porta a fechar, com estrondo. Esfregando os olhos, Artur dirigiu-se sem
pressas para a secretária da mulher, num dos extremos da sala e ligou o computador.
Passado um longo bocado, em que consultou uma série de sites, tomando alguns
apontamentos ocasionais, levantou-se e após deter-se uns momentos à escuta, junto à porta do
quarto da filha, dirigiu-se sem ruído até uma mesinha, perto da entrada, onde repousava o telefone,
ao lado de um enorme cinzeiro, que ambos utilizavam para colocar as chaves, à chegada a casa.
Apenas as suas ali repousavam. O molho de chaves, que incluíam as de casa e do carro de Amélia,
primavam pela ausência.
Digitou um número e aguardou pacientemente uma série de toques, até que uma voz
feminina respondeu, do outro lado:
- Estoou? - ecoou a voz esganiçada, ligeiramente cantada, da sua mãe.
- Olá mãe. Sou eu. Desculpe incomodá-la a esta hora, mas é pra saber se a Amélia está aí
convosco e se for o caso, se ela pretende jantar também?
- Nãao querido, ainda hoje não a vi. De resto, há já meia uma dúzia de dias que ela não diz
nada cá pra casa. Estava mesmo para telefonar pra vocês, para saber notícias. Há alguma novidade?
- Não mãe, não se preocupe. Não é nada de especial. Naturalmente foi ela que teve qualquer
emergência, algum trabalho urgente, ficou a fazer serão e esqueceu-se de telefonar a deixar-me
recado. Sabe como ela é distraída. Vou agora ligar à Nídia, a mãe conhece, aquela colega dela lá do
atelier e esclarecer já tudo. Vai ver que não passa disso. Thau velhota. Um beijinho para si e não se
esqueça de dar um abraço por mim ao pai.
- Tá bem Artur. Mas não te esqueças de nos dizer qualquer coisa depois. Para nós ficarmos
descansados. Está bem filho?
Contudo Artur já tinha desligado o telefone.
Mais tarde, depois de ter servido o jantar e lavado a loiça, que deixara a escorrer sobre o
balcão da cozinha, atarefava-se a ultimar a correcção dos trabalhos de casa da criança, enquanto esta
se divertia com os bonecos animados, na televisão. Após uns momentos, desviando o olhar do écran,
a garota mirou o pai longamente e inquiriu:
- Mas ó papá, afinal a mãezinha não volta para casa, esta noite?
- Não sei amor. Que queres tu que eu te diga? – respondeu ele de má catadura.
- Quero que me digas onde é que ela está! – gritou a miúda, enervada. E continuou:
- Vocês zangaram-se outra vez? Ouvi-vos a discutir, ontem, muito tempo.
- Não te preocupes querida - respondeu ele, paciente, passando-lhe a mão pelo cabelo fino,
loiro, como o da mãe - Amanhã, quando acordares, vais ver que já estará tudo resolvido.
- Prometes?
- Prometo.
Dando um beijinho carinhoso à criança, que ela correspondeu de olhos fechados, pegou-lhe
em seguida ao colo e dirigiram-se assim abraçados, para o quarto dela. Despiu a filha com gestos
pausados, vestiu-lhe o pijama e estendendo-a na cama ajeitou-lhe a coberta. Passou-lhe ambas as
mãos pelo rosto, com ternura. Ela sorriu, franzindo o narizinho, numa careta meiga e jogou-lhe os
braços ao pescoço.
- Lê-me uma história – pediu, com vozinha de mimo.
- Vá lá amor, não chateies o pai. Já não tens idade para histórias de bebés.
- Mas eu quero papá! - exigiu a miúda - A mãe lê-me sempre um conto, antes de dormir.
- Mentirosa - sorriu-se o pai, passando-lhe de novo uma das mãos pela face. Em seguida,
debruçando-se, poisou-lhe um beijo sobre a testa e erguendo o corpo com um gemido de cansaço,
despediu-se:
- Thau amor. Dorme bem. Sonhos cor de rosa.
- Até manhã papá - respondeu ela já sonolenta.
Fechou a luz, encostou a porta, deixando uma nesga entreaberta e meio cambaleante dirigiu-
se para o seu quarto. A cama de casal estava ainda toda desarrumada, como ele a deixara de manhã.
Um cheiro morno de ar parado exalava dos lençóis. Bocejou ruidosamente e espreguiçou-se. Depois
despiu-se à pressa. Mal pousou a cabeça no travesseiro, adormeceu.

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