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Dossier Saramago
Março 31, 2012
tags: ideias, ideias e obra, Saramago
Há uns tempos atrás, andava eu a reunir o material que tinha sobre José Saramago e cheguei
rapidamente à conclusão de que tinha o fundamental – as obras que ele publicou, claro está. No
entanto, eu queria também saber o que ele tinha dito, sobre ele mesmo e sobre o que escreveu, nas
inúmeras entrevistas que deu. Aconteceu então que encontrei na Fnac o livro «José Saramago nas
suas palavras» que é uma compilação de entrevistas dadas pelo autor e de reportagens sobre ele nos
vários cantos do mundo; pensei que era mesmo de um livro como este que eu estava a precisar. O
livro tem 503 páginas (sem contar com as páginas das referências bibliográficas) e a edição e
seleção das entrevistas de Saramago foi realizada por Fernando Gómez Aguilera.
Foi deste livro, «José Saramago nas suas palavras», edições Caminho, 2010, que retirei os
excertos que apresento aqui e que resultam de uma escolha que fiz para «retratar» o escritor, entre
centenas de outros textos igualmente interessantes. Mas impunha-se uma seleção e é essa que vou
partilhar aqui. Organizei os excertos que escolhi por ordem alfabética e por datas, de acordo com as
ideias que me interessavam; assim rapidamente encontro o que procuro; no meu computador gravei
esta compilação com o título de Dossier Saramago, daí o título deste post que pode parecer
pretensioso; contudo, para mim, é apenas um instrumento de trabalho.
Autoretrato
«Sou uma pessoa com dois defeitos graves: sou um melancólico e um sarcástico. (…)» 1984
«Mas apercebo-me de que não aguento muito bem a solidão» 1994
«É certo que faço prevalecer a razão. Mas sou uma pessoa muito sensível aos sentimentos, às
emoções, embora possa não parecer.» 1996
«A tristeza que você vê em mim é causada pelo irracionalismo, pelos fanatismos que se disseminam
pelo mundo.» 1996
«Se tenho algum motivo de vaidade é ter sempre dito o que penso em qualquer sítio.» 1998
«A minha timidez vem da infância. Tem raízes antigas. Uma delas é a minha gaguez.» 1998
«Vivemos para tentar dizer quem somos. (…) Acho que não sabemos quem somos. O que uma
pessoa faz, no fundo, é muito mais importante do que aquilo que sabemos sobre nós próprios.»
2000
«Há duas coisas na vida que não consigo suportar todos os dias. Uma é viver sem saber onde
estamos. (…) A outra é o sentimento de não ter podido fazer alguma coisa para que o mundo
mudasse.» 2000
«Eu sou uma pessoa pacífica, sem demagogia nem estratégia. Digo exactamente o que penso. E
faço-o de forma simples, sem retórica. As pessoas sabem (…) que sou honesto, não tento captar em
convencer ninguém. Parece que a honestidade não se usa muito nos tempos actuais.» 2004
«Eu sou um céptico profissional. Vivemos num mundo de mentiras sistemáticas.» 2007
«A pergunta que faço é porque é que eu me hei-de calar quando acontece alguma coisa que
mereceria um comentário mais ou menos ácido ou mais ou menos violento. (…) Estamos numa
forma de apatia que parece que se tornou congénita e sinto-me obrigado a dizer o que penso sobre
aquilo que me parece importante.» 2008
«(…) Amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a
vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. (…)» 2008
Amor
«Eu penso que o sentimento é como a Natureza. Não podemos, em nome da experimentação, da
frieza científica, da objectividade e de todas essas coisas, expulsar o sentimeto das nossas
preocupações e das obras que vamos escrevendo. O sentimento estará sempre na moda, porque
homem e mulher sempre sentirão amor. Não se pode matar o amor. Por isso ele tem uma presença
tão importante nos meus romances.» 1986
«(…) Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é
uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem
ideias que não vão nesse sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização
total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu
esse mistério.» 1990
«O outro é uma complementaridade que nos torna a nós maiores, mais inteiros, mais autênticos.
Essa é a minha própria vivência» 1997
«Penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.» 1998
Azinhaga
«Minha aldeia era rodeada de olivais, com oliveiras antigas de troncos enormes. Elas
desapareceram. Senti-me como se me tivessem roubado a infância. (…) E essa mudança radical na
paisagem foi, para mim, uma espécie de golpe no coração. (…) A gente, na verdade, habita a
memória. A aldeia em que nasci só existe em minha memória. (…)» p.30 1996
Blimunda
«Essa senhora |Blimunda| fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim… Foi no
processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me com uma força que, a
partir de certa altura, me limitei a… acompanhar. Aquele sentimento pleno de personagem que se
faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma
história de amor sem palavras de amor… Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as
dizer… E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas…Julgo que isso resulta da
personagem feminina. É ela quem impõe as regras do jogo… Porquê? Porque é assim na vida…A
mulher é o motor do homem. Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são
homens que têm dúvidas, são personagens masculinos com complexos…As mulheres, não.» 1991
Cegueira
«A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos à frente.» 2009
Cinema
«Amarcord é provavelmente o filme que levaria comigo para uma ilha deserta. Não basta dizer que
gosto da obra de Fellini. É mais correcto dizer que me apaixona.» 2007
Comunismo
«O cepticismo não é resignação. Eu nunca me resignarei. Cada vez me sinto mais como um
comunista libertário.» 2008
Corpo
O corpo é uma condição do espírito. Não sei o que é o espírito. Em que momento entrou o espírito
no corpo, eu não sei. (…)» 2000
Demagogia
«Tenho um horror visceral à demagogia, fico arrepiado com tudo o que tenha a ver com isso» 1982
Deus
«Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio
nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia.» 1991
«(…) Se este planeta fosse habitado só por animais, e poderia acontecer – quando os dinossauros
existiam, o homem não estava cá -, então não haveria ninguém para dizer: «Deus existe». Chegou o
momento em que alguém disse: «Deus existe», por termos sempre de morrer, pela esperança de que
algo mais possa acontecer, de que algo a que chamamos ou que passámos a chamar espírito ou alma
possa sobreviver. E a partir daí pode armar-se toda a construção teológica.» 2000
Ensaio sobre a Cegueira
«Ensaio sobre a Cegueira é uma espécie de imago mundi, uma imagem do mundo em que vivemos:
um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Mas dirão:
«Também há gente boa». Pois há, mas o mundo não vai nessa direcção. Há pessoas humanizáveis,
pessoas que se vão humanizando por um esforço de supressão de egoísmos. Mas o mundo no seu
conjunto não vai nessa direcção.» 1995
Escrever
«Tenho que confessar, muito sinceramente, que escrever não me dá prazer. Pode dar-me prazer ter
escrito, o que é outra coisa; agora, o chamado prazer da escrita, sinceramente não o sinto – embora
também nunca tenha tido uma explicação que me diga em que consiste esse prazer. Muita gente fala
do prazer da escrita, mas nunca nnguém nos disse que esse prazer se manifesta desta ou daquela
maneira.» 1998
Escritor(es)
«O escritor é um homem do seu tempo ou não é. O que escreve será sempre acção política ou
omissão.» 1982
«A minha impressão, ainda hoje, é a de que fui eu, autor, assumido pelas minhas personagens,
assumido, tomado, possuído por elas, como se as criaturas pudessem, afinal de contas, criar o
criador. Desconfio que podem, para não dizer que é essa a minha convicção.» 1983
«Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do acto de escrever.» 1993
«A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina é que formam o corpo desse
esqueleto.» 1997
«|Os meus escritores de referência são| Montaigne, Cervantes, o padre António Vieira, Gogol e
Kafka. O padre António Vieira era um jesuíta do século XVII. Nunca se escreveu na língua
portuguesa com tanta beleza como ele fez.» 1998
«Provavelmente não sou um romancista; provavelmente eu sou um ensaísta que precisa de escrever
romances porque não sabe escrever ensaios.» 1998
«Se há um escritor do século XX por quem tenho veneração, esse é Kafka, e reivindico ser
kafkiano. Kafka disse que um livro tem de ser um machado que corta o mar gelado da nossa
consciência; tomo isto como um programa de trabalho. O estranho seria um escritor como ele não
ter exercido nenhuma influência.» 2001
«|Não escrevo| por amor, mas por desassossego. Escrevo porque não gosto do mundo em que vivo.»
2003
Espírito
«Eu sou materialista… (…) Não acredito nessas supostas espiritualidades que colocam os ideais de
vida ou a satisfação dos desejos de cada um a distâncias inalcançáveis» 2008
Ética
«O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto
não transcende para o colectivo. Já andamos há dois mil anos a dizer isso de nos amarmos uns aos
outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudar isso por respeitarmo-nos uns aos outros, para
ver se assim tem maior eficácia. Porque o amor não é suficiente.» 2001
«Há um problema ético grave que não parece estar a caminho de ser resolvido: depois da Segunda
Guerra Mundial discutia-se na Europa sobre progresso tecnológico e progresso moral, se podiam
avançar a par um do outro. Não foi assim, pelo contrário, o progresso tecnológico disparou a alturas
inconcebíveis e o chamado progresso moral deixou de ser, pura e simplesmente, progresso e entrou
em regressão.» 2008
Estilo
«Se usasse constantemente sinais gráficos de pontuação seria como se estivesse a introduzir
obstáculos ao livre fluir desse grande rio que é a linguagem do romance, como se estivesse a travar
o seu curso. No fundo, é como se escrever fosse narrar. Claro que tudo isto é sempre subjectivo e
podem ser encontradas muitas outras razões para justificar esta técnica. Estas, no entanto, são as
minhas e não me parecem de todo más.» 1982
«António Vieira é uma dívida que reivindico. E mesmo que me digam que tal influência não se nota
assim tanto na minha própria linguagem, sei que, profundamente, é o verbo vieiriano que vai
ressoando no meu cérebro enquanto escrevo. Por um pouco lhe chamaria arquétipo. (…)» 1983
«Sou um escritor barroco e a minha frase avança numa espécie de linha ciclóide. Não vai em linha
recta.» 1984
«Eu sou o mais realista dos escritores, não falem em realismo mágico ou fantástico. Considero-me o
mais realista dos escritores: o modo como eu uso esse realismo é que não tem nada que ver,
evidentemente, com as expressões naturalistas do século passado.» 1989
«No meu processo narrativo adopto os «mecanismos» do discurso oral, em que também a
pontuação não existe. A fala compõe-se de sons e pausas, nada mais. O leitor dos meus livros
deverá ler como se estivesse a ouvir dentro da sua cabeça uma voz dizendo o que está escrito.»
1995
«O meu estilo, para lhe chamarmos assim, sempre foi muito digressivo. Sou incapaz de narrar uma
coisa em linha recta (…) Se houver um antepassado directo meu na literatura portuguesa, esse é um
poeta, dramaturgo e romacista do século XIX que se chamou Almeida Garrett. O meu gosto pela
digressão recebi-o desse autor.» 2003
«Eu penso que de uma maneira ou de outra |a ironia|, agressiva, activa, mais ou menos directa, está
em tudo o que escrevo.» 2005
Fatalismo
«Talvez eu tenha um sentido fatalista da vida. Mesmo quando era novo, eu dizia a mim próprio que
aquilo que fosse para mim viria parar-me às mãos. Não tenho de ir à procura, é só estar atento.»
1993
Felicidade
«A felicidade é só uma invenção para tornar a vida mais suportável» 1986
«Eu não gosto de falar de felicidade, mas sim de harmonia: viver em harmonia com a nossa própria
consciência, com o nosso meio envolvente, com a pessoa de quem se gosta, com os amigos. A
harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade não, a felicidade é egoísta.» 1998
«A felicidade consiste em dar passos na direcção de si próprio e ver o que se é» 2008
História
«Gosto muito de livros de História. O que sempre me irritou muito foi o romance histórico…» 1986
«Eu vejo o tempo como um harmónio. Assim com este pode ser estendido ou encolhido, os tempos
podem tornar-se contíguos uns com os outros. É como se 1720 tivesse sido ontem, agora mesmo, ali
naquele salão.» 1983
«(…) A conclusão, certa ou errada, a que eu cheguei é que, em rigor, a história é uma ficção. Porque
sendo uma selecção de factos organizados de certa maneira para tornar o passado coerente, é
também a construção de uma ficção.» 1989
«(…) Os historiadores apresentam uma realidade cronológica, linear, lógica. Mas a verdade é que se
trata de uma montagem, fundada sobre um ponto de vista. A História é escrita sob um prisma
masculino. Se fosse feita pelas mulheres seria diferente. Enfim, há uma História dos que têm voz e
outra, não contada, dos que a não têm.» 1989
«Eu entendo a História num sentido sincrónico, onde tudo acontece simultaneamente. (…) Não se
trata de fugir ao presente. Para mim, tudo o que aconteceu está a acontecer. (…)» 1994
«Eu penso que não se pode falar de História genuína, porque isso significaria que essa História
genuína estaria a comunicar a verdade, ou uma verdade. Mas há um problema: a verdade não existe.
Existem verdades parciais.» 2002
Homem português
«Há na obra de Pessoa um retrato bastante claro e completo do homem português, com as suas
contradições, o misticismo um tanto mórbido que é o nosso, esta capacidade de esperar, que não é
mais do que um desejo de adiar. A esperança é uma atitude activa, mas nos portugueses é uma
forma cómoda de projectar para um futuro cada vez mais distante o que deveríamos fazer agora.»
1985
«Nós, portugueses, smos facilmente sentimentais. Temos sentimentos com demasiada facilidade, o
que não significa que sejamos capazes de grandes sentimentos. E são os grandes sentimentos, e não
os sentimentalismos, que nos exaltam, que nos fazem acreditar.» 1996
Iberismo
«Vou pela Península Ibérica como se fosse a minha casa» 1995
«Primeiro sou português, segundo sou ibérico, e só em terceiro lugar, e quando me apetece, sou
europeu» 1996
Igreja
«O problema da Igreja é que precisa da morte para viver. Sem a morte não poderia haver Igreja
porque não haveria ressurreição. As religiões cristãs alimentam-se da morte. (…)» 2005
«A Igreja tentou encontrar uma explicação para a criação do mundo, e desde então que defende essa
ideia – com violência. É uma intolerância criminosa, como a Inquisição a queimar pessoas que são
vistas como diferentes. O novo Papa (Joseph Ratzinger, Bent XVI) quer que os dogmas rígidos
sejam respeitados e não questionados. Sou contra isso. Não podemos aceitar a verdade vinda de
outras pessoas. Deveremos ser sempre capazes de questionar estas verdades.» 2008
Inferno
«Como se pode ser optimista quando tudo isto é um estendal de sangue e lágrimas? Nem sequer
vale a pena que nos ameacem com o inferno, porque inferno já o temos. O inferno é isto.» 2008
Intuição
«(…) Isso a que nós chamamos intuição, no meu entender, não é mais que o resultado desse
trabalho subterrâneo que às vezes sobe e aparece. Chamamos intuição a isso, a algo que não nos
passava pela cabeça e não sabemos porquê aparece de improviso. (…) O que acontece é que não o
percepcionámos, não é aquilo a que eu chamo o pensamento activo, (…) A imaginação talvez tenha
a ver com isto.» 2002
Inveja
«(…) e o que mais prejudica as relações humanas e as torna difíceis e complicadas é a inveja.» 2009
Ironia
«Eu defino-a, a ironia, como uma máscara de dor. É uma defesa que nós, os que somos gente frágil,
arrastamos.» 1987
Jorge de Sena
«Esta grande admiração pessoal tem a ver por ele ser o tipo de pessoa que eu aprecio: frontal. Às
vezes mesmo violento na expressão, basta recordar o célebre discurso da Guarda em que ele deita
água gelada nas fervuras patrióticas (da Revol de Abril) que se esperavam e que aconteceram
realmente. (…)» 2009
Lanzarote
«Talvez o facto de viver em Lanzarote tenha influenciado e estilo da minha escrita, que se tornou
mais austero, disciplinado e, por isso, talvez mais profundo. É como se, ao simplificar a escrita, me
permitisse avançar mais para dentro. É claro que a ilha que Pilar e eu escolhemos para viver tem
responsabilidade nisso tudo.» 1998
Ler/ Leituras
«Começar a ler foi para mim como entrar numa floresta pela primeira vez e encontrar de repente
todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazemos isso, o que nos deslumbra é o
conjunto. Não dizemos: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro em que eu entrava
apreciava-o como uma coisa única.» 1998
Lisboa
«Lisboa é na minha obra um pequeno universo pelo qual vou circulando» 1987
«A adesão a Lisboa começa pela vida literária. Foi com O Ano da Morte de Ricardo Reis (…) foi
uma espécie de imposição da própria cidade. Lisboa aparece na Jangada de pedra e agora no Cerco
de Lisboa. Sem o ter decidido acabei por me transformar numa espécie de autor de Lisboa, o que até
para mim é surpreendente» 1989
«Não. Eu não sou um escritor de Lisboa! O rótulo foi-me dado pela escrita do romance O Ano da
Morte … que é o que eu gosto mais (…) O meu tema não é Lisboa. E, além disso, a cidade que
aparece em Ricardo Reis não é a Lisboa real, mas sim a da memória. (…)» 1994
Literatura
«Incluir a literatura entre os agentes da transformação social é uma reflexão ingénua e idealista.»
1993.
«Para mim, este século que termina define-se na literatura em três nomes: Fernando Pessoa, Jorge
Luís Borges e Franz Kafka.» 1998
Memória(s)
«Nós vivemos num lugar como pode ser a aldeia onde nasci, mas no fundo habitamos numa
memória. (…) Nós mudamos, o lugar muda e parece que, logicamente, a imagem que temos deveria
ir mudando porque nós vamos mudando (…) mas apercebemo-nos, se pensarmos nisso, de que
mantemos uma imagem, como uma fotografia, que ficou dentro de nós, e que todas as imagens que
vêm depois não chegam a apagar esse tempo, que pode ser o da nossa infância, o da nossa
adolescência, ou pode ser o da nossa mãe.» 1998
«O caminho de ferro ocupou uma posição relevante nos meus sonhos de criança. Lembro-me de que
o que mais me fascinava era a figura do maquinista. (…)» 1982
«Posso ter esquecido uma série de outras coisas, mas as mais simples ficaram: a lareira em casa dos
meus avós, os passeios no campo, o banho nos rios, os porcos, tudo isso, tudo, tudo, tudo.»1996
Memorial do Convento
«Para escrever este romance, cuja acção se situa entre 1711 e 1739, a primeira exigência é um um
conhecimento tido por suficiente dessa mesma época. Isso significa que se tenha de dar um
mergulho nesse século através da leitura de documentos. Durante muitos meses precisei de ler e
quase de falar como então se falava. Olhei muito para a pintura da época e ouvi muita música (…)
tive de consultar e de decifrar documentos da época, de preocupar-me com aspectos económicos e
sociais, com a questão do Santo Ofício, não tanto para vir dizê-lo, mas como se quisesse senti-lo.»
1982
«Penso que |Memorial do Convento| reflecte o povo que somos e as preocupações que ainda
temos.» 1982
Mistério
«Isso que chamamos mistério é, simplesmente, o que não se sabe. A partir do momento em que há
uma explicação científica, ou lógica simplesmente, deixa de ser mistério.» 2008
Morte
«A nossa única defesa contra a morte é o amor.» 2005
«Sabemos que a morte é uma chatice, claro, e no caso dos escritores é uma dupla chatice. O escritor
morre e a sua obra, geralmente, entra numa espécie de nuvem negra.» 2008
Mulher
«As minhas personagens mais fortes são todas mulheres. Não quer dizer que em alguns casos o
homem não fique próximo delas. Dizer que são mais fortes não significa grande coisa, mas são
aquelas que têm um poder tansformador. Não é que venham dizer que vêm transformar, é a sua
própria presença, o que fazem e o que dizem que mostra que com o aparecimento delas alguma
coisa vai mudar.» 2009
Mundo
«Para mim o mundo é uma espécie de enigma constantemente renovado. Cada vez que o olho estou
sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito mais para me dizer do que aquilo que
sou capaz de entender. (…)» 1983
Narrador
|O meu narrador| adopta todos os pontos de vista possíveis, pode estar em todos os lugares e,
sobretudo, habita o tempo todo. O narrador não prev~e o futuro, mas já sabe o que acontecerá no
futuro da acção. O narrador narra, joga, organiza todos os factos da sua efabulação e sabe aquilo
que as suas personagens ignoram (…) Usa esse saber de um modo que lhe é exclusivo. As
personagens não partilham desse conhecimento, porque não podem. Nos meus romances aparecem
de forma simultânea os comportamentos das personagens e o conhecimento que o narrador já possui
do que lhes acontecerá.» 1986
«Toda a obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor. O autor é um pequeno mundo entre
outros pequenos mundos. A sua experiência existencial, os seus pensamentos, os seus sentimentos
estão lá.» 2001, p. 239
Natureza
«(…) Eu vivi uma relação com a natureza que se deu naturalmente: um canto, uma árvore, o rio.
Coisas que são o próprio mundo. Não é a natureza abstracta: é a cobra, o sapo… Não tem
importância nenhuma…serpentes, lagartos…que importância têm? Para muitos, se calhar, nenhuma.
Mas, para mim, têm toda.» 2006
«(…) a natureza não é uma simples paisagem que se oferece aos olhos, mas uma espécie de
comunhão com todo o mineral, vegetal e animal que me rodeia. Uma comunhão que passa por todos
os meus sentidos, ao ponto de muitas ter a impressão de me encontrar não do lado de fora mas do
lado de dentro. Enquanto observo a natureza, sinro que ela me observa.» 2007
Panteísmo
«Quando nos Cadernos de Lanzarote me interrogo onde acabam os meus cães e onde começo, ou
onde acabo eu e onde começam eles, no fundo tem, não sei, muito a ver com uma espécie de
sentimento panteísta de que não falámos (…) 1998
Paraíso
«Penso que, para voltar a falar do paraíso, eu só consideraria um paraíso aceitável se pudesse
encontrar lá os animais, e mais concretamente os cães.» 2004
Pessimismo
«Gostaria de me encontrar com Voltaire e dizer-lhe que ele tinha razão com a sua opinião céptica e
pessimista do género humano. Dir-se-ia que teve razão e que muitos anos depois não mudámos
nada, que há motivos para pensar que, se ele vivesse no século XX, teria ainda muito mais razão.»
1998
Portugal
«Um país como Portugal, e não é o único nesta situação, que não tem uma ideia própria de futuro
para toda a colectividade, vive numa situação de total dependência. Não temos mais ideias do que
aquelas que nos dizem que devemos ter. A União Europeia dita-nos o que devemos fazer em todos
os campos da vida. Encaminhamo-nos para a pior das mortes: a morte por falta de vontade, por
abdicação. Esta renúncia é também a morte da cultura. Por isso creio que um país morto, como
Portugal, não pode fazer uma cultura viva.» 1994
«Gosto da minha terra, mas deixei de a idealizar. E mesmo que não queiramos, a educação que
temos é de tal ordem, mais o ensino que recebemos na escola, mais o «matraquear» da comunicação
social, seja ela de que tipo for, sobre os supostos valores e méritos que nos distinguem, tudo isso
acaba, seja qual for o país, por introduzir uma ideia (não entrando na guerra de saber se somos
melhores que os outros), que é a de que fomos realmente muito bons. Porque nos dizem que fomos
bons missionários, fomos bons soldados, tudo isso nos é apresentado por uma lição autoritária de
História que nos impõe uma espécie de idealização da pátria; e, de facto, isso eu perdi.» 1998
«Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de
que o vento sopra. (…) Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de
prosperidade. Aparência, aparência, aparência – e nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está
uma ideia de futuro para Portugal? (…)» 2003
Poemas
Os Poemas Possíveis, 1966
Pensar/ Pensamento
«Eu tenho uma tese nada científica sobre o pensamento. Há um pensamento activo, isto é, eu estou
a pensar numa coisa e, portanto, posso, dentro de cinco minutos, mais ou menos, reproduzir o que
estou a pensar; mas há outro pensamento subterrâneo que trabalha por sua conta, isto é, que tem
muito pouco a ver com o que está a acontecer. (…)» 2002
«Independentemente da ideologia que professemos, há uma característica humana que devemos
partilhar todos: é a faculdade de pensar. O pensamento devia constituir uma emanação necessária e
fatal do ser humano. Pascal dizia que somos uma cana açoitada por todos os ventos, mas uma cana
que pensa. Eu acrescentaria que somos canas pensantes, mas não pensamos de forma isolada, mas
sim como parte de um canavial. O pensamento nunca pode ser autista.» 2001
«Acho que na sociedade actual falta-nos filosofia. Filosofia com espaço, lugar, método de reflexão,
que não pode ter um objectivo determinado, como a ciência, que avaça para satisfazer objectivos.
Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não
vamos a parte nenhuma.» 2008
Princípios
«(…) Uma pessoa está prestes a afogar-se, mas há uma tábua a que se agarra. É a tábua dos
princípios. Tudo o resto pode desmoronar-se, mas agarrado a ela, o naúfrago chegará a uma praia. E
depois com essa tábua poderá construir outro barco, evitando cometer os erros de antes. Com esse
barco cehagará a outro porto.» 2003
«Uma pessoa tem convicções e vive com elas. Se as abandona o que é que resta? Nada. (…) Pelo
menos, posso dizer a mim mesmo que não me deixei contaminar.» 2007
Ricardo Reis
«O primeiro heterónimo de Pessoa que eu li foi Ricardo Reis, aos 19 anos. E devo dizer que a
poesia de Ricardo Reis é realmente fascinante. É um mundo neoclássico de rigor poético que
encanta qualquer um. Mas eu encontrei nela algo que, desde muito novo, me causou uma impressão
forte, muito desagradável, de rejeição. Uma frase que me marcou e determinou grande parte da
minha literatura: «Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo». 1998
Razão
«Ou a razão, no homem, não faz mais que dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo
indubitavelmente um animal entre os animais, é também indubitavelmente o mais irracional de
todos eles. Vou-me inclinando cada vez mais para a segunda hipótese, não por eu ser morbidamente
propenso a filósofos pessimistas, mas sim porque o espectáculo do mundo é, na minha fraca
opinião, e de todos os pontos de vista, uma demonstração explícita e evidente daquilo a que chamo
a irracionalidade humana» 2007
Relativismo
«Não sou niilista, sou simplesmente relativista. (…) o niilismo é a filosofia da preguiça ou do nada,
o relativismo é a filosofia do desejo e da acção. Os que dizem que sou niilista não sabem ler (…)»
2004
Religião
«Sou um ateu com uma atitude religiosa e vivo muito em paz» 1986
«Penso que para se ser um ateu coerente faz falta um alto grau de religiosidade. O ateísmo não é
compatível com uma postura religiosa. Nem se trata de substituir Deus pela humanidade. É mais um
sentimento de uma grandeza imensa que tem a ver com o Universo. E isto é suficiente, porque ainda
que eu não coloque Deus nesse Universo, a minha posição é o que chamamos de transcendente (…)
O que me transcende é a matéria, a Terra, toda ela, com os seus mares e multidões. E a minha
religiosidade começa, (…) na relação que tenho com o meu país. 1989
«Sou um espírito profundamente religioso. (…) No sentido etimológico de religião, tomada como
aquilo que liga, o que sinto é uma grande ligação a tudo (…)» 1991
«Não acredito em Deus e nunca tive crise religiosa. Mas não posso ignorar que, mesmo não sendo
crente, a minha mentalidade é cristã.» 1994
«não digo que a marca do cristianismo desapareceu do meu cérebro. Não omito a minha formação,
como prova o Evangelho segundo Jesus Cristo. Nele está presente o cristianismo na sua expressão
católica. Posso estar fora da Igreja, mas não do mundo que a Igreja criou.» 1995
«Eu sou ateu, mas sempre me senti atraído pelo fenómeno religioso. Interessa-me a religião como
instituição de poder que se exerce sobre as almas e os corpos.» 2001
Realização dos sonhos da humanidade
«Duvidei sempre que a realização dos sonhos da humanidade coincidisse com o meu tempo de vida.
Não cultivo o optimismo histórico, sou um céptico. Gostava de não o ser, mas a toda a hora recebo
razões do mundo para o ser e para o ser agravadamente com os anos.» 1989
Responsabilidade colectiva
«Talvez eu tenha uma ideia um pouco doentia de um sentido da responsabilidade, como se fosse
minha uma responsabilidade colectiva. (…) E por detrás de nós existe uma massa de água que nos
empurra e nós não somos ninguém sem essa quantidade de água. (…) Então, este sentimento da
maré que nos empurra tem a ver um pouco com o sentido colectivo da cultura e da história.» 1989
Sabedoria
«(…) Se há alguma sabedoria na minha vida, é saber esperar.» 1993
«A sabedoria consiste, no fundo, em ter uma relação pacífica com o que está fora de nós, com a
natureza. Para o meu avô bastava-lhe saber o nome das árvores, dos animais e ter uma ideia
aproximada do tempo. Vivia-se com 400 ou 500 palavras. Talvez tenhamos de reconhecer que a
sabedoria se contém nessas poucas palavras (…) às vezes, as palavras fazem com que nos
detenhamos nelas.» 2003
Saramago
«Minha família tinha a alcunha de Saramago, que é o nome de uma planta silvestre, que dá uma
florzinha com quatro pétalas e cresce pelos cantos, quase sempre esquecida.» 1996
Ser humano
«Há uma personagem |a rapariga dos óculos escuros| no meu livro |Ensaio sobre a Cegueira| que
pronuncia as palavras-chave: «dentro de nós há uma coisa que não tem nome. É isso que somos.» O
que precisamos é procurar dar um nome a essa coisa: talvez, simplesmente, lhe possamos chamar
«humanidade». 1996
«Eu acho que dentro de nós há um espesso sistema de corredores e de portas fechadas. Nós próprios
não abrimos todas as portas, porque suspeitamos que o que há do outro lado não será agradável de
ver (…). Vivemos numa espécie de alarme em relação a nós mesmos, que talvez seja não querermos
saber quem somos na realidade.» 1998
«Somos matéria e nada mais. Uma parte dessa matéria foi capaz de criar consciência. Mas tudo o
que somos é cérebro. É lá que está tudo.» 2003
«Muita gente diz-me que eu sou pessimista; mas não é verdade, é o mundo que é péssimo. O ser
humano limita-se na actualidade a «ter» coisas, mas a humanidade esqueceu-se de «ser». Ser dá
muito mais trabalho: pensar, duvidar, interrogar-se sobre si mesmo…» 2006
Solidão
«Costuma dizer-se que a solidão é enriquecedora, mas isso depende directamente da possibilidade
de se deixar de estar sozinho»
«Há uma solidão ontológica – o ser está aí -, que nos diz que somos ilhas, talvez um arquipélago,
mas ilhas de qualquer modo. Nas ilhas de um arquipélago, pode-se estabelecer comunicação,
pontes, correios, mas a ilha está ali, em frente de outra ilha. Talvez a comparação seja fácil, banal.
As pessoas vivem com essa solidão sem se aperceberem, ou apercebendo-se dela de vez em
quando.» 2003
Sonhos
«Os sonhos são e, nos sonhos, não há firmeza, dizia a minha avó Josefa.» 2007
Tolerância (Intolerância)
«Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e permitir que ele
seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de
igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Sobre a intolerância já fizemos muitas
reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar
uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.» 1993
Vida
«Desde o 25 de novembro, data em que fui classificado como contra-revolucionário pelo Conselho
da revolução, vivo de traduções. (…) Foram elas que me serviram de almoço e de jantar.» 1980
«(…) A vida não pensa. Nós vivemos no caos. O que se passa é que vivemos num espaço limitado
dentro de outro espaço que escapa à nossa capacidade de compreensão.» 2008