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MATURANA, Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

Livro que reuú ne textos e falas de Humberto Maturana, organizada por Cristina Magro e Victor Paredes. A primeira parte
transcreve duas confereê ncias de Maturana na Universidad de La Frontera, em Temuco, no Chile. Os capíútulos seguintes
transcrevem textos publicados por Maturana em perioú dicos.
APRESENTAÇÃO
“De 1950 para caú , o mundo acadeê mico e intelectual participou de um feú rtil debate desencadeado pelo amplo projeto das
Cieê ncias Cognitivas, que acabou por transbordar as fronteiras da academia e influenciar amplamente outros domíúnios,
como a arte e o mundo dos negoú cios. Esse projeto caracterizou-se por uma forte unificaçaã o disciplinar inspirada nas leis
da natureza, que fez com que, nele, a idealizaçaã o e a abstraçaã o do objeto de estudo fossem vistas como indispensaú veis.
Sua instauraçaã o se deu mediante o compromisso teoú rico de se aceitar que, para entender a mente humana, em
particular a cogniçaã o e a linguagem, era necessaú ria e suficiente a postulaçaã o de níúveis de anaú lise abstratos com
caracteríústicas computacionais, autoê nomos, separados dos domíúnios bioloú gico e cultural e tambeú m independentes entre
si, o que haveria de descortinar a esseê ncia mesma desses fenoê menos. Na eú poca, o maciço apoio aà s pesquisas de cunho
tecnoloú gico e computacional para as investigaçoã es na aú rea visava sobretudo ao desenvolvimento de tecnologia
automatizada para aplicaçoã es diversas.” P.7
“Na neurofisiologia, na imunologia, na neuropsicologia, na geneú tica, em todos os domíúnios nos quais seus fenoê menos de
interesse de algum modo puderam ser formulados em termos cognitivos, os cientistas se aplicaram em implementar os
preceitos do cognitivismo, um modelo explicitamente concebido a partir das cieê ncias da natureza – e naã o das cieê ncias
do homem.” P. 7-8
“As pressoã es advindas das tentativas de atender aà ambiçaã o de uma cieê ncia uú nica nos moldes delineados pelas Cieê ncias
Cognitivas acabaram por expor fragilidades irreparaú veis do projeto. Nesse contexto, foram feitas propostas alternativas
com inspiraçaã o distinta da do cognitivismo, como o conexionismo. Aleú m disso, reflexoã es que antecederam o advento do
cognitivismo e seus desdobramentos posteriores passaram a ser reavaliadas, como eú o caso das teorias de auto-
organizaçaã o e a teoria da autopoiese, que reapareceram como alternativas relevantes para alguns dos impasses teoú ricos
que conhecemos hoje.” P. 8
“[...] um redirecionamento das investigaçoã es em diversas aú reas participantes daquele projeto produziu reflexoã es
teoú ricas e epistemoloú gicas que possibilitaram um salto qualitativo na redescriçaã o das relaçoã es entre a biologia humana,
a linguagem, a cogniçaã o e os fenoê menos ditos mentais e psicoloú gicos em geral – como a razaã o, a conscieê ncia e a emoçaã o.
Essa reorientaçaã o apontou para a necessidade de se levar em conta a experieê ncia dos seres humanos como seres
histoú ricos e contingentes que vivem na linguagem, o que naã o era possíúvel dada a perspectiva formal abstrata assumida
nos primeiros anos das Cieê ncias Cognitivas, em funçaã o dos pressupostos fundamentais das cieê ncias naturais,
habitualmente ligadas aà busca ou aà postulaçaã o de leis a priori ou princíúpios de necessidade que fazem parte da
existeê ncia de algo.” P. 8
“A consideraçaã o da fenomenologia bioloú gica, a tomada de nossa experieê ncia enquanto seres humanos como um foco do
qual nossas explicaçoã es naã o devem se desviar, a conceituaçaã o da linguagem e da cogniçaã o como atividades que
observamos no espaço de interaçoã es em que vivemos, e naã o como propriedades intríúnsecas do humano, saã o aspectos
comuns a esses estudos.” P. 9
“Na Biologia do Conhecer naã o haú a preservaçaã o e a busca das condiçoã es a priori estabelecidas nesses termos. [...] A
autonomia e a identidade dos seres vivos saã o uma questaã o central para esse modelo. Essas caracteríústicas saã o tratadas
aqui como resultantes de um modo de organizaçaã o peculiar aos seres vivos – a organizaçaã o autopoieú tica –, que eú
operacionalmente fechada aà informaçaã o ou a instruçoã es do meio, com o qual todo ser vivo estaú em permanente
congrueê ncia e muú tua modulaçaã o.” P. 11
“Maturana entoa estabelece uma níútida distinçaã o entre teorias comprometidas com a explicaçaã o das coereê ncias da
experieê ncia e teorias comprometidas com a manutençaã o de princíúpios explicativos.” P. 13
“Deixamos aqui, portanto, o convite de Humberto Maturana para compreendermos o conhecer, atentando para nossa
experieê ncia cotidiana como seres bioloú gicos que (con)vivem na linguagem, e para todas as implicaçoã es que essa
perspectiva traz para nossa compreensaã o do que chamamos conhecer e agir no mundo, incluindo aíú a construçaã o de um
futuro melhor.” P. 14

BIOLOGIA DO CONHECER E EPISTEMOLOGIA


Observações experimentais
“[...] eu, como bioú logo, interessei-me pelo estudo do sistema nervoso e dos fenoê menos da percepçaã o, em particular. Isto
eú , interessei-me por como vemos, como eú isso de captar objetos, distingui-los e manipulaú -los.” P. 15
- segue-se com o exemplo das experieê ncias com as salamandras, que teê m a capacidade de regenerar o nervo oú ptico. Ao
retirar seu olho e recoloca-lo, girando seu olho 180 graus, a salamandra deixa de conseguir mirar no mosquito (passa a
tentar pegaú -lo atraú s de sua cabeça);
- segue-se com o exemplo, no caso do homem, das sombras coloridas, cujo fenoê meno acontece na percepçaã o humana, e
naã o no “mundo fora do homem”;
“O experimento da rotaçaã o do olho da salamandra indica que o ato de lançar a líúngua na captura de um bichinho resulta
de uma correlaçaã o da atividade da retina com o sistema motor, e naã o de um ato de apontar para algo externo. No caso
das sombras coloridas, o espaço das distinçoã es cromaú ticas eú visto surgindo de um espaço de distinçoã es de correlaçoã es
internas, em circunstaê ncias nas quais naã o eú o externo o que determina a experieê ncia. O sistema nervoso funciona com
correlaçoã es internas. Novamente, a pergunta eú : como eú , entaã o, que normalmente eu me encontro num mundo ordenado,
que posso manipular, no qual naã o tropeço a cada instante, e no qual a maior parte do tempo naã o cometo erros na
companhia dos demais no que diz respeito aà s determinaçoã es cromaú ticas? Como eú que isso acontece?” p. 21
“Para distinguir um verde de outro verde e dizer que um eú uma ilusaã o cromaú tica e o outro naã o, eú preciso fazer refereê ncia
a uma outra coisa que naã o eú a experieê ncia: eú preciso fazer refereê ncia aà situaçaã o de composiçaã o do sistema luminoso
todo para dizer que, no caso das sombras coloridas, soú haú luz branca e que, portanto, a visaã o do verde eú uma ilusaã o
cromaú tica.” P. 22
“Naã o podermos distinguir entre ilusaã o e percepçaã o na experieê ncia eú uma condiçaã o constitutiva dos seres vivos. E tanto eú
assim que, inclusive, temos palavras que implicam esta incapacidade de distinçaã o, e estas saã o erro e mentira.” P. 23
- a mentira eú quando eu digo algo que sei que naã o eú vaú lido;
- o erro eú um comentaú rio a posteriori sobre uma experieê ncia que se vive como vaú lida (se naã o a viveu como vaú lida, entaã o
eú uma mentira);

Reflexões epistemológicas
- afirma que para explicar o fenoê meno do conhecer eú necessaú rio explicar o ser humano, e propoã e tomar como ponto de
partida o observador observando e o observar;
“[...] o ser humano eú observador na experieê ncia, ou no suceder do viver na linguagem. [...] A explicaçaã o se daú na
linguagem. O discurso que explica algo daú -se na linguagem. [...] noú s, seres humanos, existimos na linguagem.” P. 25
[...] normalmente se pensa que explicar refere-se a como a coisa eú , independentemente da pessoa. Mas se paramos para
ver o que acontece, descobrimos que o explicar e a explicaçaã o teê m a ver com aquele que aceita a explicaçaã o.” P. 27
“De fato, haú tantos explicares diferentes quantos modos de escutar e aceitar reformulaçoã es da experieê ncia.” P. 27
- o autor define dois caminhos distintos para o explicar: o caminho da objetividade sem pareê nteses e o caminho da
objetividade entre pareê nteses:
objetividade sem parênteses objetividade entre parênteses
objetividade a seco caminho explicativo da objetividade
a existeê ncia eú independente do observador; assumo que a existeê ncia depende do observador; o maú ximo que eu
posso fazer refereê ncia a algo independente de mim; posso fazer eú descrever as caracteríústicas da conscieê ncia;
uma afirmaçaã o cognitiva eú vaú lida porque faz refereê ncia a tenho que explicar como faço o que faço;
uma realidade independente do observador; uma afirmaçaã o cognitiva eú vaú lida pelas coereê ncias
tolera outras refereê ncias aà realidade; operacionais que a constituem;
domíúnio das ontologias transcendentes; respeita outras respostas, pois compreende a natureza
bioloú gica que promove diferentes formas de conhecer;
domíúnio das ontologias constitutivas;

“Quero dizer o seguinte: vivemos em uma linguagem de objetos; falamos de objetos. Isso eu naã o posso desfazer, naã o
posso nem explicar. Mas reconheço, sim, que naã o tenho nenhum fundamento para supor que possa fazer refereê ncia a
seres que existiam independentemente de mim. Reconheço que a existeê ncia depende do que eu faço. Ponho a
objetividade entre pareê nteses para indicar isso, e ao mesmo tempo aceito que tenho que explicar o objeto, tenho que
explicar como surge o objeto. Uso uma linguagem de objetos, falo de substantivos. Se voceê s quiserem colocar isso de
outra forma: falo do observador, da experieê ncia, da linguagem; todos saã o seres, entes. Falo deles, lido com seres. Como eú
que lido com seres se na experieê ncia naã o posso distinguir entre ilusaã o e percepçaã o? Como se explica isso em
circunstaê ncias nas quais naã o posso supor que tenho a capacidade de me referir a esses seres independentes de mim?” p.
32
“No caminho da objetividade entre pareê nteses, meu escutar eú diferente, porque aqui escuto reformulaçoã es da
experieê ncia, com elementos da experieê ncia, que eu aceito. Quer dizer, escuto com o criteú rio de aceitaçaã o de
reformulaçaã o da experieê ncia com elementos da experieê ncia.” P. 32
“A objetividade entre pareê nteses naã o significa subjetividade, significa apenas ‘assumo que naã o posso fazer refereê ncia a
entidades independentes de mim para construir meu explicar’.” P. 33
“Cada vez que eu digo: ‘Isto eú assim, objetivamente falando’, o que estou dizendo eú : ‘todos voceê s teê m que fazer o que eu
digo, porque a validade do que eu digo naã o depende de mim – eú proú pria daquilo que eu indico. Se voceê s naã o veem, estaã o
limitados.’ Profissionalmente; emocionalmente... estaã o limitados.” P. 34
“Nesse outro caminho explicativo, o da objetividade entre pareê nteses, a situaçaã o eú diferente. EÉ diferente porque naã o
posso pretender um acesso privilegiado no explicar, pois sei que, como ser humano, como ser vivo, naã o posso distinguir
entre ilusaã o e percepçaã o. Desse modo, qualquer afirmaçaã o minha eú vaú lida no contexto das coereê ncias que a constituem
como vaú lida.” P. 34
(na objetividade entre pareê nteses) “A realidade eú uma proposiçaã o explicativa.” P. 35
“Na objetividade entre pareê nteses haú tantas realidades quantos domíúnios explicativos, todas legíútimas. Elas naã o saã o
formas diferentes da mesma realidade, naã o saã o visoã es distintas da mesma realidade. Naã o! Haú tantas realidades – todas
diferentes, mas igualmente legíútimas – quantos domíúnios de coereê ncias operacionais explicativas, quantos modos de
reformular a experieê ncia, quantos domíúnios cognitivos pudermos trazer aà maã o.” P. 36
“[...] se tenho uma discordaê ncia com outra pessoa, essa outra pessoa estaú num domíúnio de realidade diferente do meu. EÉ
taã o legíútimo quanto o meu, que eú diferente. Pode ser que naã o me agrade, mas naã o me agradar eú um ato responsaú vel de
minha predileçaã o, naã o eú um ato de negaçaã o da legitimidade desse outro domíúnio de realidade.” P. 36
(no domíúnio da objetividade entre pareê nteses) “[...] a negaçaã o do outro [...] eú necessariamente responsaú vel. Eu nego o
outro porque naã o me agrada o domíúnio da realidade em que estaú , e naã o porque esteja equivocado. Isso eú de fundamental
importaê ncia no domíúnio das relaçoã es humanas.” P. 37
“Ser ecumeê nico quer dizer naã o importar que o outro pense de maneira diferente, porque sempre podemos criar um
espaço no qual as diferenças naã o entrem em consideraçaã o.” P. 39
“No caminho explicativo da objetividade entre pareê nteses, nossa corporalidade eú nossa possibilidade, porque nos
damos conta de que aquilo que podemos fazer, podemos fazer na medida em que o fenoê meno do conhecer eú um
fenoê meno do vivo.” P. 40
Domínios ontológicos
- o domíúnio das ontologias constitutivas faz refereê ncia aà s condiçoã es de constituiçaã o daquilo de que falamos;
“Chomsky eú o modelo mais claro do sistema de descriçaã o das regularidades da linguagem [Maturana o trata como sendo
do caminho da objetividade sem pareê nteses]. A escola de Jacobson estaú mais voltada para o caminho da objetividade
entre pareê nteses, porque trata a linguagem de um modo mais proú ximo do espaço das coordenaçoã es de açaã o [...].” p. 44
“[...] as emoçoã es surgem como disposiçoã es corporais que especificam domíúnios de açaã o. E isso eú compreensíúvel
biologicamente. As emoçoã es saã o apreciaçoã es do observador sobre a dinaê mica corporal do outro que especifica um
domíúnio de açaã o. Nessas circunstaê ncias, nada ocorre nos animais que naã o esteja fundado numa emoçaã o.” P. 45
“Eu penso que nem todas as relaçoã es humanas saã o relaçoã es sociais. Penso que haú diferentes tipos de relaçoã es e
interaçoã es humanas, dependendo da emoçaã o que as fundamenta.” P. 46
- o autor identifica as relaçoã es sociais e as relaçoã es de trabalho: as relaçoã es sociais saã o baseadas no amor, na aceitaçaã o
do outro, enquanto as relaçoã es de trabalho se caracterizam pela hierarquia, pela autoridade;
“Eu digo que quando algueú m diz isto, estaú se referindo a relaçoã es humanas fundadas sobre uma emoçaã o fundamental
que eú a aceitaçaã o muú tua, a da aceitaçaã o do outro na conviveê ncia, e para essa emoçaã o temos uma palavra, uma palavra
importante, que eú amor. [...] Uso esta palavra, primeiro, porque a encontramos cotidianamente. Noú s falamos de amor
toda vez que nos encontramos numa situaçaã o na qual as pessoas, junto com outras pessoas, em sua relaçaã o com os
objetos, se conduzem aceitando o outro como tal, junto de si.” P. 47
“[...] o social eú uma dinaê mica de relaçoã es humanas que se funda na aceitaçaã o muú tua. Se naã o haú aceitaçaã o muú tua e se naã o
haú aceitaçaã o no outro, e se naã o haú espaço de abertura para que o outro exista junto de si, naã o haú fenoê meno social. As
relaçoã es de trabalho naã o saã o sociais. As relaçoã es de autoridade naã o saã o relaçoã es sociais. Os sistemas hieraú rquicos, como
um exeú rcito, por exemplo, naã o saã o sistemas sociais: saã o uma maquinaria de um tipo no qual cada pessoa deve fazer algo,
mas naã o saã o um sistema social.” P. 47
“Ainda, digo tambeú m que na medida em que as emoçoã es fundam os espaços de açaã o. Sim, naã o haú nenhuma atividade
humana que naã o esteja fundada, sustentada por uma emoçaã o, nem mesmo os sistemas racionais, porque todo sistema
racional, aleú m disso, se constitui como um sistema de coereê ncias operacionais fundado num conjunto de premissas
aceitas a priori. E essa aceitaçaã o a priori desse conjunto de premissas eú o espaço emocional. E quando se muda a
emoçaã o, tambeú m se muda o sistema racional.” P. 47
“Naã o haú preocupaçaã o pelo outro se o outro naã o pertence ao domíúnio de aceitaçaã o no qual se estaú , o domíúnio social no
qual se estaú .” P. 48
“Por isso eú que uma argumentaçaã o sobre o respeito, a eú tica, os direitos humanos naã o convence a ningueú m que jaú naã o
esteja convencido. Porque naã o eú a razaã o que justifica a preocupaçaã o pelo outro, mas eú a emoçaã o. Se estou na emoçaã o de
aceitaçaã o do outro, o que lhe acontece tem importaê ncia e presença para mim. [...] Mas se estas pessoas naã o pertencem
ao meu espaço de aceitaçaã o muú tua, naã o pertencem ao domíúnio social no qual estou, o que lhes aconteça naã o me toca.” P.
49
“[...] tambeú m haú eminentes neurofisiologias como John Eccles, que propoã e que na face interna do hemisfeú rio cerebral, na
aú rea somaú tica suplementar, existem ceú lulas que se conectam com a conscieê ncia universal. Algo assim como o prana
hindu.” P. 63
- o autor diz que eú possíúvel mostrar como surgem os fenoê menos da conscieê ncia ao se mostrar como surge a linguagem;
“Eu naã o posso dizer que a fisiologia explica a conduta, mas posso dizer que, sob tais e tais condiçoã es fisioloú gicas, o
resultado eú a conduta.” P. 64
“A hora naã o estaú no reloú gio. A hora estaú na relaçaã o do observador com o reloú gio observado.
Da mesma maneira, o mirar da salamandra estaú no espaço de disfunçaã o do observador, porque a salamandra estaú
fazendo uma correlaçaã o interna.” P. 65
“Noú s naã o nos aproximamos da descriçaã o de uma realidade em si sob nenhuma circunstaê ncia, e sim configuramos
realidades.” P. 68

Determinismo estrutural e linguagem


“Haú algo em nossa conotaçaã o sobre a linguagem, ou sobre o estar na linguagem, que tem a ver com uma associaçaã o com
a histoú ria individual — naã o eú plenamente instintivo. Poreú m, mais ainda, se supomos que um conjunto de animais, de
pessoas, estaú na linguagem, o que supomos eú naã o soú que coordenam sua açaã o, mas que, aleú m disso, estaã o no espaço da
reflexaã o. Eu digo que se pode abstrair de todo este conjunto de circunstaê ncias que o estar na linguagem eú um operar em
coordenaçoã es de coordenaçoã es de açaã o, Naã o eú meramente coordenaçaã o de açaã o, mas coordenaçaã o de coordenaçoã es de
açaã o.” P. 27
“O acordo envolve a condiçaã o explíúcita da coincideê ncia na açaã o sobre algo. Colocamo-nos de acordo, quer dizer,
deixamos explíúcito — dito — aquilo a respeito de que vamos coincidir na açaã o ou com respeito ao qual vamos nos
coordenar na açaã o. Isso eú um acordo. O consenso, entretanto, naã o precisa ser explíúcito. Quando se diz: "Chegou-se a um
consenso", o que se estaú dizendo eú que se chegou a uma coordenaçaã o de açaã o como resultado da conversaçaã o e que naã o
se tem nada mais a dizer. Naã o eú necessaú rio nem mesmo tornaú -lo explíúcito. De modo que no consenso naã o haú uma
explicitaçaã o da coordenaçaã o de açaã o aà qual se faz refereê ncia, mas haú uma clara sinalizaçaã o de que eú o resultado de estar
juntos, o resultado de um conversar.” P. 73
“A diferença entre instinto — ou comportamento instintivo — e conduta aprendida estaú na histoú ria. Naã o estaú no proú prio
comportamento. Naã o eú possíúvel distinguir, na conduta, uma conduta instintiva de uma aprendida, porque a distinçaã o
pertence aà histoú ria. Ela faz refereê ncia aà s circunstaê ncias sob as quais se deram as condiçoã es que fazem possíúveis esses
comportamentos. Se essas condutas resultam de uma histoú ria particular, de modo que naã o teriam acontecido se essa
histoú ria particular naã o houvesse acontecido, fala-se de condutas ou comportamentos aprendidos. Se essa conduta
houvesse se produzido, ou as condiçoã es corporais que tornam possíúvel esse comportamento houvessem surgido de
qualquer modo, independentemente da histoú ria individual do organismo, fala-se de condutas instintivas. De modo que
os comportamentos consensuais pertencem ao domíúnio das condutas aprendidas.” P. 73-74
“[...] os comportamentos consensuais saã o condutas que se estabelecem na ontogenia, na histoú ria individual dos
organismos como resultado do curso particular da ontogenia, e que naã o se haveriam estabelecido se essa ontogenia, se
esse curso particular naã o houvesse ocorrido. As coordenaçoã es consensuais de comportamentos resultam da conviveê ncia
das transformaçoã es dos participantes na conviveê ncia, e naã o haveriam se produzido se naã o se houvesse produzido essa
histoú ria de conviveê ncia. Entaã o, se eu digo isso, a linguagem, o operar na linguagem, consiste em operar em coordenaçoã es
consensuais de condutas de coordenaçoã es consensuais de condutas.” P. 74
- repetiçaã o: a = a'; a = a'; a = a'
- recursaã o: a = a'; a = a''; a = a'''
“De modo que coordenaçoã es de condutas de coordenaçoã es de condutas seriam uma recursaã o e naã o uma repetiçaã o.” P. 74
- mecanismos: sistemas que teê m caracteríústicas que dependem de como estaã o feitos;
“[...] se queremos explicar a linguagem como fenoê meno bioloú gico, o que temos que mostrar eú de que maneira ela surge,
de que modo na histoú ria de interaçoã es dos seres vivos essa recursaã o venha a ter lugar. E naã o soú isso: precisamos mostrar
tambeú m como a linguagem se origina na histoú ria dos hominíúdeos.” P. 76
“Os sistemas determinados estruturalmente saã o sistemas nos quais as interaçoã es desencadeiam mudanças que estaã o
determinadas neles mesmos.” P.76 (exemplo do dedo que liga o gravador)
“EÉ constitutivo do espaço das explicaçoã es cientíúficas que nele se manejem apenas e exclusivamente sistemas
determinados estruturalmente. Aleú m disso, na vida cotidiana, estamos imersos na experieê ncia de nos movermos com
sistemas determinados estruturalmente.” P. 76
“[...] noú s, os seres vivos, somos sistemas determinados estruturalmente, e o toque de Midas naã o funciona conosco. A
cada um de noú s acontece algo nas interaçoã es que diz respeito a noú s mesmos, e naã o com o outro. E o que voceê s escutam
do que digo tem a ver com voceê s e naã o comigo. Eu sou maravilhosamente irresponsaú vel sobre o que voceê s escutam, mas
sou totalmente responsaú vel sobre o que eu digo.” P. 78
“A histoú ria de um ser vivo eú uma histoú ria de interaçoã es que desencadeiam nele mudanças estruturais: se naã o haú
encontro, naã o haú interaçaã o, e se haú encontro, sempre haú um desencadear, uma mudança estrutural no sistema. A
mudança pode ser grande ou pequena, naã o importa, mas desencadeia-se nele uma mudança estrutural. De modo que
uma histoú ria de interaçoã es recorrentes eú uma histoú ria de desencadeamentos estruturais, de mudanças estruturais
muú tuas entre o meio e o ser vivo, e o ser vivo e o meio.” P. 78
“ A histoú ria de interaçoã es de um ser vivo no meio dura necessariamente enquanto houver interaçoã es e enquanto se
conservem duas condiçoã es: a organizaçaã o do ser vivo e a correspondeê ncia com o meio.” P. 79
- organizaçaã o: faz refereê ncia aà s relaçoã es entre componentes que definem a identidade de classe de um sistema. As
relaçoã es entre componentes que definem a identidade de classe do objeto aquecedor eú a organizaçaã o "aquecedor"; as
relaçoã es entre componentes que definem a identidade de classe de uma mesa eú a organizaçaã o "mesa";
- estrutura: os componentes mais as relaçoã es entre eles, que realizem uma unidade particular;
“A estrutura tem que satisfazer as relaçoã es da organizaçaã o, mas a organizaçaã o naã o faz refereê ncia aos componentes. A
estrutura, sim. Ao mesmo tempo, voceê s iraã o notar que, no momento em que mudar a organizaçaã o de um sistema ou de
uma unidade composta, esta deixa de existir. A organizaçaã o eú necessariamente uma invariante.” P. 79-80
“Se a organizaçaã o define a identidade de classe de uma unidade composta ou de um sistema, no momento em que
mudar a organizaçaã o, muda a identidade de classe — o sistema passa a ser outra coisa. A morte eú a perda da
organizaçaã o autopoieú tica, eú a perda da organizaçaã o proú pria da vida.” P. 80
- a organizaçaã o se perde se houver mudanças estruturais nas quais ela naã o se conserva; ela se realiza na estrutura; pode
haver mudanças estruturais sem perda de organizaçaã o; qualquer mudança estrutural com perda de organizaçaã o eú uma
desintegraçaã o;
“[a] distinçaã o entre organizaçaã o e estrutura permite indicar claramente o que eú invariante, constitutivamente invariante
num sistema, e o que pode mudar. E, ao mesmo tempo, permite ver que, sendo a estrutura variaú vel, ou tendo um espaço
de variabilidade possíúvel, pode haver mudanças estruturais com conservaçaã o ou sem conservaçaã o de organizaçaã o.” P. 80
“ [...] a ontogenia ou histoú ria individual de qualquer ser vivo necessariamente transcorre sob condiçoã es de conservaçaã o
de organizaçaã o, porque no momento em que naã o se conserva a organizaçaã o, ele morre.” P. 81
“[...] todas as mudanças estruturais que acontecem num ser vivo, desde o momento de sua concepçaã o ateú o momento de
sua morte, saã o mudanças estruturais com conservaçaã o de organizaçaã o.” P. 81
“[...] a estrutura do sistema determina o que admite como perturbaçaã o. EÉ a estrutura do sistema que determina que
configuraçoã es estruturais admite no encontro. EÉ a estrutura do fotorreceptor que determina a absorçaã o de um foú ton, e
naã o eú o foú ton que determina o que acontece ao fotorreceptor. EÉ a estrutura do oú rgaã o sensorial que determina o que
admite como perturbaçaã o, e essas interaçoã es que a estrutura admite podem acontecer com conservaçaã o de organizaçaã o
— e seriam perturbaçoã es — ou sem conservaçaã o de organizaçaã o — e seriam interaçoã es destrutivas.” P. 81-82
“De modo que a histoú ria de um ser vivo, a histoú ria individual de um ser vivo, necessariamente transcorre sob condiçoã es
de conservaçaã o de sua correspondeê ncia com o meio, entendendo-se por correspondeê ncia com o meio o encontrar-se
nele apenas sob perturbaçoã es.” P. 82
“Se se rompe a correspondeê ncia com o meio, rompe-se a relaçaã o de adaptaçaã o, e o organismo morre.” P. 82

Deriva natural e a constituição do humano


“Organismo e meio vaã o mudando juntos, uma vez que se desliza na vida em congrueê ncia com o meio. De modo que naã o
eú acidental o fato de que um sistema tenha determinada configuraçaã o estrutural em suas circunstaê ncias: eú o resulta do
de uma ontogenia, de uma histoú ria individual, com conservaçaã o de organizaçaã o e adaptaçaã o. Organismo e meio vaã o
sempre juntos. O que se produz aqui eú uma histoú ria de mudança estrutural do organismo e uma histoú ria de mudança
estrutural do meio, que saã o congruentes. Essa congrueê ncia, portanto, naã o eú surpreendente, eú necessaú ria. Mas naã o eú
necessaú ria porque tenha que ser assim; eú necessaú ria no sentido de que naã o poderia haver sido de outro modo: eú o
resultado de uma certa histoú ria. Existe uma palavra para este fenoê meno, uma palavra que noú s usamos com um certo
desdeú m, ou para fazer uma conotaçaã o depreciativa: a palavra deriva. “ p. 84
- deriva: curso que se produz, momento a momento, nas interaçoã es do sistema e suas circunstaê ncias;
- diz-se que algo ou algueú m estaú aà deriva quando este se encontra em condiçoã es de dizer que naã o tem como controlar
seu rumo;
“[...] o curso que o bote segue naã o eú qualquer um, eú um curso que se configura, momento a momento, no encontro entre
as ondas, o vento e o bote. Esse sistema bote-ondas-vento eú um sistema determinista dentro da especificaçaã o das
caracteríústicas do vento, das ondas e do bote — isso eú o que configura o determinismo neste caso. Mas o curso que
segue o bote naã o eú qualquer um e se configura, momento a momento, no encontro do sistema com suas circunstaê ncias.
A histoú ria de mudança estrutural de um organismo em interaçoã es com o meio eú uma deriva — uma deriva estrutural. A
ontogenia de um ser vivo eú uma deriva estrutural, na qual as mudanças estruturais que ocorrem saã o contingentes com
as interaçoã es com o meio. Naã o saã o determinadas pelas circunstaê ncias do meio, mas saã o contingentes com elas, porque o
meio apenas desencadeia no ser vivo mudanças estruturais. E vice-versa: o meio muda de maneira contingente com as
interaçoã es com o organismo [...].” p. 85
“Suponhamos dois organismos em interaçoã es recorrentes. O que eu disse a respeito das mudanças estruturais na deriva
estrutural de um organismo no meio, implicando um meio inerte, aplica-se aqui de modo exatamente igual. Quer dizer:
o meio de A vai ser B e C; o meio de B vai ser A e C, e o meio de C vai ser A e B. O que quero dizer com isto? Que na
ontogenia de A, enquanto houver interaçoã es recorrentes, A vai seguir uma deriva estrutural contingente com suas
interaçoã es com B e C. E vai mudar de uma maneira congruente com B e C, e o mesmo vai acontecer a B e a C. Ou seja, o
que vai acontecer eú algo assim: A, B e C iraã o mudar de uma maneira congruente sob condiçoã es de conservaçaã o de
organizaçaã o e adaptaçaã o de cada um deles. Em que momento isso vai acabar? No momento em que A e B se separarem,
mesmo que A e B se desintegrem, ou quando A e B se desintegrarem. Mas enquanto as interaçoã es recorrentes
ocorrerem — e aqui vem o que nos interessa — o observador poderaú dizer o que veê como resultado da histoú ria destas
interaçoã es recorrentes. Lembrem-se de que, para o observador, o que acontece no interior de cada um desses seres
vivos eú sua fisiologia, e o que acontece nas interaçoã es com o meio eú sua conduta ou comportamento.” P.87-88
“Entaã o vejam que, no momento em que nessa histoú ria se veê uma recursaã o nas coordenaçoã es de comportamentos — ou
seja, no momento em que haú coordenaçoã es consensuais de comportamentos de coordenaçoã es consensuais de condutas
— nesse instante surge a linguagem.” P. 89-90
“Se naã o haú interaçoã es recorrentes, se esta histoú ria naã o ocorre, se haú um encontro e separaçaã o, naã o haú um espaço
operacional para que eventualmente se deê uma recursaã o nas coordenaçoã es de condutas.” P. 90 (e, portanto, naã o haú
linguagem estabelecida)
“Para que se deê essa histoú ria de interaçoã es recorrentes tem que haver uma emoçaã o, quer dizer, uma disposiçaã o
estrutural inicial que torna possíúvel a recorreê ncia das interaçoã es. [...] A interaçaã o inicial desencadeia uma mudança
estrutural tal que abre espaço para uma segunda interaçaã o e assim sucessivamente [...]. Dessa emoçaã o falamos
anteriormente, quando eu dizia que para que haja interaçoã es recorrentes tem que haver uma disposiçaã o estrutural que
aceite o outro na conviveê ncia.” P. 90
- para que a estrutura de interaçaã o funcione, eú necessaú rio que o outro receba a interaçaã o inicial com disposiçaã o a
interagir de novo, e naã o somente com disposiçoã es passivas;
“Chamamos de insetos sociais aqueles que vivem em comunidade, compartilham alimentos, alimentam-se mutuamente,
naã o se atacam entre si e, continuamente, constituem espaços de conviveê ncia e se aceitam na conviveê ncia.” P. 91
“Notem que, na medida em que a linguagem eú uma recursaã o das coordenaçoã es de açaã o, as palavras saã o noú s no fluir das
coordenaçoã es de açaã o. Nela naã o haú síúmbolos — os síúmbolos naã o entram nisso. O síúmbolo eú uma reflexaã o que um
observador faz sobre relaçoã es no curso do funcionamento na linguagem. A linguagem tem a ver com as coordenaçoã es de
açaã o. Ela ocorre no espaço de interaçoã es, e por isso as palavras teê m a ver com as açoã es.” P. 92
“O significado eú uma reflexaã o do observador, e naã o um elemento na linguagem ou no funcionamento da linguagem. O
significado eú uma mera refereê ncia.” P. 92
“[...] quando se fala de inteligeê ncia, na verdade se estaú referindo aà capacidade de estabelecer consenso, de poder ir em
co-deriva, em domíúnios de consenso com outros seres, A resoluçaã o de problemas eú posterior a esta capacidade de
estabelecer consenso. E a capacidade de estabelecer consenso eú fundamental na linguagem.” P. 94
“Notem que a histoú ria evolutiva eú uma histoú ria de deriva com conservaçaã o de um modo de vida.” P.95 (de uma
organizaçaã o)
“[...] as diferentes espeú cies estaã o definidas por um modo de vida que se conserva.” P. 95
“O interessante eú que, cada vez que se define um espaço de conservaçaã o, define-se tambeú m um espaço de variabilidade
possíúvel. Isto eú universal e se relaciona, entre outras coisas, com o que eu dizia sobre organizaçaã o e estrutura dos
sistemas. Se conservo a condiçaã o "mesa" da mesa, posso fazer muitas coisas: posso encurtar-lhe as pernas, posso fixar
nela uma luminaú ria. Posso fazer tudo isso com minha mesa enquanto se conservar a organizaçaã o "mesa". Na histoú ria
dos seres vivos, a evoluçaã o eú uma histoú ria de conservaçoã es. A evoluçaã o eú um fenoê meno conservador, e o que se conserva
eú um fenoú tipo ontogeú nico: um modo de vida que eú um modo de transformaçaã o a partir de uma ceú lula inicial ateú o adulto,
na eú poca reprodutiva. No momento em que se especifica uma linhagem, o que se especifica eú um fenoú tipo ontogeú nico.
Mas ao mesmo tempo em que se especifica um fenoú tipo ontogeú nico, que se conserva um modo de vida, haú um espaço de
variabilidade possíúvel. Todo o resto pode variar, dentro de certos limites que teê m a ver com a estrutura. Haú um momento
em que essas variaçoã es podem dar origem a outro fenoú tipo ontogeú nico que se conserva, e nesse instante surge outra
linhagem, na qual se conservam talvez os mesmos elementos iniciais aleú m de alguma outra coisa diferente. No entanto,
o que vai se conservar e, portanto, constituir esta outra linhagem eú outro fenoú tipo ontogeú nico.” P. 96
“A histoú ria dos hominíúdeos, que eventualmente tem seu presente no Homo sapiens, eú uma histoú ria de vida de grupos
pequenos em interaçoã es recorrentes, na conviveê ncia em grupos pequenos coletores de graã os, de nozes, de sementes —
e sabemos isso pelas caracteríústicas da arcada dentaú ria. Eram caçadores ocasionais que compartilhavam alimentos.
Nesta histoú ria, compartilhar alimentos eú fundamental, porque isto de poder passar algo a outro naã o eú uma coisa taã o
simples. Se voceê s forem ao zooloú gico e olharem a frequeê ncia com que os animais passam coisas um ao outro, vaã o ver
que isto eú muito raro entre eles. Certamente haú animais que compartilham. Alguns caã es selvagens da AÉ frica, por
exemplo, fazem acampamentos onde permanecem os velhos e as feê meas que estaã o com crias, e os machos e as feê meas
que naã o teê m crias saem para caçar. Caçam, comem, voltam ao acampamento, regurgitam alimento e compartilham seu
alimento com todos: com as crias, com as feê meas, com os velhos... Aíú existe um compartilhar. Mas isto naã o eú frequente,
claro. Haú insetos ou artroú podes que, na relaçaã o sexual, compartilham algo, carregam algo como um presente para
estabelecer um espaço de encontro. Esse "para estabelecer" eú um modo de dizer, como resultado disso. Haú um modo de
vida que acontece aíú. O que quero dizer, entaã o, eú que, quando se compartilha, acontecem certas coisas que naã o
acontecem se naã o haú um compartilhar.
Noú s temos a biologia do compartilhar, e isso se nota na vida cotidiana. Nota-se de vaú rias maneiras: noú s nos sentimos
muito bem comendo juntos e conversando — mas naã o eú somente aíú que se nota. Nota-se quando nos pedem algo. Se
voceê s vaã o pela rua e algueú m lhes pede algo, o que fazem? Prestem atençaã o que muitas vezes o que se faz eú fingir que naã o
se viu a pessoa que estaú mendigando. Algueú m finge que naã o viu porque viu, claro — se naã o tivesse visto naã o fingiria que
naã o viu. Mas... acontece que estava taã o envolvido em seus pensamentos que naã o viu o outro. Mentira. Viu, mas naã o quer
encontrar o olhar, porque no momento em que encontrar o olhar, estaú pego. Se olhamos o outro que pede, estamos
pegos, naã o podemos negar o pedido. Ficamos ruborizados se naã o temos o que dar, ou entaã o damos. O compartilhar eú em
noú s um elemento que pertence aà nossa biologia, naã o pertence aà cultura. Pelo contraú rio, vivemos atualmente uma cultura
que nega o compartilhar, porque estamos supostamente mergulhados na maravilha da competiçaã o.” P. 97
- o autor faz refereê ncia aà nossa biologia enquanto animais coletores: nos sentimos bem quando vamos ao campo e
colhemos amoras, assim como tambeú m nos sentimos bem quando vamos ao supermercado e “colhemos” produtos;
“[...] o eê xito do supermercado, diria eu, naã o tem a ver com a cultura, mas com a biologia: eú o prazer que se tem em
mover-se nesse espaço, que eú o paraíúso onde tudo estaú aà maã o.” P. 98
“A agricultura, por exemplo, eú uma conservaçaã o da condiçaã o de coletores, naã o apenas porque plantas cultivaú veis
correspondem a plantas silvestres que se coletava. O que fizemos foi transformar o campo natural de coleta num campo
artificial de coleta. Conserva-se entaã o a condiçaã o de coleta, do compartilhar alimentos, da conviveê ncia em grupos
pequenos em um encontro sensual, ou seja, no toque muú tuo — algo parecido com o que voceê s veem nos macaquinhos,
que se tocam, catam pulgas uns nos outros, tiram casquinhas.” P. 98
“[...] toda a transformaçaã o do corpo humano estaú ligada [...] com uma conviveê ncia em cooperaçaã o. Isto eú ainda mais
evidente no corpo feminino em particular e tem a ver com o nascimento de bebeê s cada vez menos adiantados no
desenvolvimento e portanto menos capazes de se sustentarem a si mesmos.” P. 99 (isso tem a ver com o que estaú no
livro da Haviland – Princíúpios de antropologia – que diz que no processo evolutivo, enquanto se tornava ereta, a mulher
passou a ter uma estrutura oú ssea com ancas mais estreitas – e que aquelas que sobreviveram foram capazes de dar aà luz
a bebeê s cada vez mais prematuros)
“Entaã o, noú s pertencemos a uma linhagem na qual se conserva o viver em grupos pequenos em interaçoã es recorrentes,
na sensualidade. Notem que a sensualidade eú ainda mais importante do que parece, porque a posiçaã o bíúpede traz como
consequeê ncia que o encontro sexual seja frontal. Os casais se encontram cara a cara, e o encontro com o outro, cara a
cara, eú completamente diferente do encontro que se veê , por exemplo, nos chimpanzeú s, em que a feê mea eú aproximada por
traú s, pelo macho. Tudo isto modifica a dinaê mica de interaçoã es e faz do encontro sexual um fenoê meno pessoal.
Inevitavelmente, encontra-se com o outro numa expressaã o diferente, porque encontra-se com todos os aspectos de
expressividade emocional que se referem ao olhar, ao rosto, ao gesto. Daíú temos, nesta histoú ria, uma conservaçaã o desse
encontro com variaçoã es na expressividade facial.” P. 99
“Somos animais neoteê nicos — ou seja, animais nos quais haú uma prolongaçaã o do períúodo infantil.” P. 99
“Na conservaçaã o desta histoú ria haú espaço para interaçoã es recorrentes, para consensualidade e para recursaã o na
consensualidade. Nesta histoú ria, surge a linguagem, e ela surge como consequeê ncia do compartilhar no toque sensual,
na colaboraçaã o, na criaçaã o, na vida em grupos pequenos.” P. 100
“Notem que, nas interaçoã es, o que existe eú um desencadear de transformaçoã es estruturais recíúprocas no encontro, de
modo que a linguagem tem a ver com o toque. Cada vez que eu digo algo, eu os toco. Naã o os toco com meus dedos, mas
com ondas sonoras que desencadeiam em voceê s mudanças estruturais que teê m a ver com voceê s. EÉ uma expansaã o, por
assim dizer, do acariciar-se muú tuo numa conviveê ncia de interaçoã es recorrentes sensuais. Vejam que todos sabemos que
isto eú assim: todas as maã es sabem que, quando sua filha tem quinze anos, elas teê m que lhe explicar que as doces
palavras dos jovens saã o perigosas. Por queê ? Porque palavras doces mudam nossos hormoê nios, mudam nossa fisiologia,
ou seja, noú s nos acariciamos com palavras. Prestem atençaã o para o fato de que as metaú foras que usamos para nos referir
ao fluir de um discurso saã o todas taú cteis: "palavras suaves", "palavras macias", "palavras aú speras", "palavras duras", "seu
discurso me tocou". As que se referem ao conteuú do saã o visuais: "foi transparente", "brilhante", "luú cido", "claro". Que
diferença interessante! Essa diferença naã o eú trivial e naã o eú trivial porque, efetivamente, com as palavras noú s nos
tocamos. As palavras constituem encontros que desencadeiam mudanças estruturais em noú s e mudam nossa fisiologia.”
P. 100-101
“Entaã o, naã o sabemos quando começa a linguagem. Mas sabemos que, nesse momento, o ceú rebro humano tem
caracteríústicas tais que a linguagem pode se estabelecer na criança nas interaçoã es com a maã e ou com o pai, ou com os
membros adultos de sua famíúlia, de uma maneira extraordinariamente raú pida e de uma perfeiçaã o normal extrema.
Desse modo, temos um ceú rebro de animais que gera linguagem.” P. 101
“Entaã o, nosso ceú rebro eú um ceú rebro que estaú relacionado com a histoú ria da linguagem, na conservaçaã o de um modo de
vida que envolve coleta, caça ocasional tambeú m centrada na coleta, no compartilhar alimentos, na conviveê ncia
recorrente na sensualidade, nas coordenaçoã es de açaã o. No momento em que a linguagem surge das recorreê ncias das
coordenaçoã es de açaã o, da recursaã o nas coordenaçoã es de açaã o, isso começa a se conservar e isso eú nossa linhagem.” P.
101
“[...] a emoçaã o fundamental na histoú ria dos hominíúdeos eú o amor.” P. 102
“A aceitaçaã o do outro eú aceitaçaã o do outro no presente — naã o eú aceitaçaã o num sentido geneú rico, universal.” P. 102 (naã o eú
um estar e naã o-estar)
“Entaã o a aceitaçaã o do outro eú operacional, eú um estar com o outro aíú, no presente. Eu digo que isto eú central nesta
histoú ria e que, sem esta histoú ria, sem uma histoú ria desta natureza, este fenoê meno de interaçoã es recorrentes naã o poderia
haver acontecido e naã o haveria surgido a linguagem.” P. 102-103
“Noú s, seres humanos, existimos em dois domíúnios. Existimos como seres humanos no domíúnio da linguagem: eú na
linguagem, nas coordenaçoã es de açaã o que acontece isso da conversaçaã o, do discurso, da reflexaã o, da poesia. Mas eú na
fisiologia que acontece a base absolutamente invisíúvel, a partir da qual surge o que surge na linguagem, nas
coordenaçoã es de açaã o. Mas na medida em que isso eú invisíúvel, naã o eú comparaú vel aà linguagem, naã o eú do mesmo tipo —
pertence a outro espaço.” P. 104-105
“Mas como a linguagem naã o saã o as verbalizaçoã es, mas eú o fluir na recursaã o das coordenaçoã es consensuais de
comportamento, haú muito mais dimensoã es que a verbalizaçaã o. No entanto, no soliloquio ou na conversaçaã o com o outro
— inicialmente na conversaçaã o com outro, jaú que o soliloquio eú resultado disto — eú onde surgem os objetos, onde
surgem todas as entidades que podemos apontar e manejar. Antes da linguagem naã o haú objeto. Isto soa terríúvel porque
estou dizendo: antes da origem da linguagem dos seres vivos naã o haú objeto, naã o haú aú rvores, naã o haú plantas, naã o haú
ceú lulas, naã o haú moleú culas, naã o haú aú tomos. Nada existe porque a existeê ncia eú trazida aà maã o pelo observador. No momento
em que surge a linguagem, surgem os objetos. Como? Como noú s, como entroncamentos no espaço de coordenaçoã es de
açaã o.” P. 105
“Mas sempre nos movemos [...] neste jogo de que na linguagem interagimos de modo que, como resultado da interaçaã o,
se produzem no outro e em noú s mudanças estruturais aà s quais somos constitutivamente cegos. Noú s naã o vemos as
mudanças estruturais que estaã o se produzindo no sistema nervoso como resultado de nossas interaçoã es na linguagem.
Mas como resultado dessas mudanças estruturais, nosso modo de encontro com o outro muda. E esta eú a forma como o
devir de nossa estrutura se faz contingente ao discurso, ao estar na linguagem.
De modo que nosso estar na linguagem, nosso conversar, tem consequeê ncias em nossa fisiologia, e o que acontece em
nossa fisiologia tem consequeê ncias em nosso conversar.” P. 105-106
“[...] a reflexaã o sobre si mesmo, essa reflexaã o como fenoê meno naã o pode acontecer fora da linguagem. E naã o pode
acontecer fora da linguagem porque sem linguagem naã o existe um espaço operacional que permita a distinçaã o do
dentro e do fora, que permita a operaçaã o "reflexaã o". Entaã o, eú na linguagem que surge o eu. Mas ao mesmo tempo, ao
operar na linguagem as fisiologias mudam, e muda o fluir na linguagem. E eú daíú que surge a poesia. A poesia surge desta
base invisíúvel que eú diferente do que ocorre na linguagem, mas que tem consequeê ncias no linguajar.” P. 106
“[...] concordo com Wittgenstein quando ele diz: ‘Aquilo do qual naã o podemos falar, ou a respeito do qual naã o podemos
falar, temos que permanecer em sileê ncio.’ Eu diria: ‘Daquilo de que naã o podemos falar, naã o podemos falar.’ Nesse
sentido, o que estou dizendo naã o eú uma refereê ncia a distintos modos de acesso aà realidade ou de indicaçaã o da realidade.
As diferentes realidades que aqui surgem naã o saã o diferentes modos de refereê ncia aà realidade. Naã o, a realidade naã o
existe, quer dizer, naã o haú modo de trazeê -la aà maã o — portanto, naã o posso falar dela. E eú por isso que fora da linguagem
nada existe. Mas a linguagem naã o eú uma fantasia discursiva: eú o espaço de coordenaçoã es de açaã o, e o que fazemos na
linguagem, na explicaçaã o, tem a ver com a experieê ncia. A experieê ncia nos acontece, nos encontramos nela e nos
encontramos na linguagem, e em seguida explicamos o que fazemos.” P. 106-107
- se algueú m quer conhecer bem um domíúnio da realidade, a uú nica maneira de fazeê -lo eú ter o conhecimento completo de
suas coereê ncias operacionais;
“[...] a aprendizagem tem a ver com o modo de vida. A palavra aprendizagem vem de apreender, quer dizer, pegar, ou
captar algo. No entanto, de acordo com o que eu lhes disse, a aprendizagem naã o eú a captaçaã o de nada: eú o transformar-
se em um meio particular de interaçoã es recorrentes.” P. 108-109
“[...] a aprendizagem tem a ver com viver esse domíúnio [o do qual uma pessoa passa a fazer parte, por exemplo, ao
entrar em uma universidade]. Parte do viver esse domíúnio pode estar no discurso, mas essencialmente tem que estar
nas coordenaçoã es de açaã o que constituem esse domíúnio.” P. 109
“Evocamos o discurso teoú rico para desvalorizar o discurso praú tico, ou evocamos o praú tico para desvalorizar o teoú rico.
Naã o podemos fazer isso, porque ambos saã o necessaú rios. Ambos participam e estaã o sempre presentes, porque nossa
estrutura vai se modificando com os dois.
Em um sentido estrito, para o suceder do viver naã o precisamos de explicaçoã es, mas as explicaçoã es mudam o suceder do
nosso viver — entaã o naã o saã o triviais.” P. 108
- eú necessaú rio dar-se conta de quando estamos gerando um espaço de negaçaã o;
“O amor naã o tem nada de especial, eú cotidiano, eú taã o inevitaú vel que quando eu quero manter uma luta tenho que treinar
os participantes da luta a negar o amor.” P. 111
“Os oponentes requerem um discurso que continuamente negue o outro. Porque se naã o o negam, se naã o estaã o no
discurso que o nega, encontram-se um com o outro, e a biologia eú mais forte.” P. 111
“[...] o destino dos esforços eú o destino dos esforços, porque os esforços definem o domíúnio de conservaçaã o de relaçoã es
no qual a pessoa quer se mover.” P. 111
“[...] noú s temos propoú sitos, porque vivemos um mundo em que especificamos na linguagem domíúnios de relaçoã es que
queremos conservar invariantes.” P. 114
“O espaço de capacidade consensual que se requer para estar na linguagem eú de tal magnitude que todos os seres
humanos, na linguagem, saã o igualmente inteligentes, com diferentes habilidades e sobretudo com diferentes emoçoã es.
Algueú m que se sente satisfeito sendo profissionalmente um engenheiro estaú na engenharia em funçaã o do prazer que
tem em estar na engenharia, ou sofre porque tem uma histoú ria que o meteu na engenharia enquanto preferia estar em
uma outra coisa. Mas pensemos nas pessoas que estaã o em atividades que naã o saã o contraditoú rias com suas emoçoã es:
estaã o ali porque eú disso que gostam. Outra pessoa pode estar em outra parte, fazendo outra coisa. Esta diferença de
estar aqui ou ali naã o depende da inteligeê ncia, depende da emoçaã o.” P. 114-115
“E frequentemente, quando a dinaê mica emocional da criança naã o coincide com a nossa, noú s a relegamos, a negamos, a
consideramos burra, porque seu interesse, sua paixaã o, estaú em outra parte.” P.115
“Todos os espaços de açoã es humanas fundam-se em emoçoã es. Todo sistema racional se funda na aceitaçaã o de certas
premissas a priori.” P. 115
“Naã o existe o fenoê meno da competiçaã o sadia. A competiçaã o eú sempre, constitutivamente, antissocial. [...] os economistas,
os socioú logos dizem que a competiçaã o eú necessaú ria para haver diversidade. Isso naã o eú correto. A diversidade surge da
diversidade de interesses, da colaboraçaã o em mudanças de pergunta. EÉ outra coisa.” P. 116
“Nas relaçoã es de trabalho, o humano do outro eú uma impertineê ncia.” P. 117
“A palavra conspiraçaã o vem de coinspiraçaã o. Ou seja, podemos fazer coisas juntos, mas o elemento fundamental que nos
une no fazer coisas juntos eú uma coinspiraçaã o na aceitaçaã o muú tua. E nesse caso, o outro tem presença.” P. 117
“[...] nem todas as comunidades humanas saã o comunidades sociais. Saã o misturas, saã o redes de sistemas: sistemas
sociais, sistemas de trabalho, qualquer coisa...” p. 117
“A relaçaã o de poder se daú somente na obedieê ncia, e a obedieê ncia implica sempre uma negaçaã o do outro e de si mesmo. O
aceitar a obedieê ncia implica uma negaçaã o do outro e de si mesmo.” P.117
“E digo que eú fundamental fazer esta distinçaã o porque parte de nossos problemas em entender o que acontece com as
comunidades humanas estaú em naã o entender os diferentes tipos de sistemas que configuramos, pois fazemos parte de
sistemas sociais, de sistemas de trabalho, de sistemas hieraú rquicos.
Aleú m disso, estes sistemas saã o fluidos.” P. 118
- o orador compara a teoria de Maturana com a teoria neokantiana, e diz ser muito semelhante aà visaã o que tem Kelsen,
filoú sofo do Direito; cita tambeú m Olof Diltingabe; informa que Maturana estudou em universidades das quais saíúram
Kafka, Mahler, Freud, Einstein e Max Planck;
“O que ocorre eú que, normalmente, estamos na objetividade sem pareê nteses. Temos discursos de aceitaçaã o, ou melhor
dizendo, temos discursos de toleraê ncia na suposiçaã o de que isso de ser tolerante eú uma coisa muito boa.” P. 124
“[...] se eú certo que queremos uma conviveê ncia na aceitaçaã o do outro, temos que levar em conta quais saã o as condiçoã es
bioloú gicas, em uú ltima instaê ncia, que tornam possíúvel essa conviveê ncia.
Uma das condiçoã es que a tornam possíúvel eú a presença de meios de subsisteê ncia. Entaã o, naã o haveraú nunca a
possibilidade de conviveê ncia na aceitaçaã o muú tua em circunstaê ncias nas quais estimulamos a competiçaã o, em
circunstaê ncias que geram situaçoã es que resultam na privaçaã o de outros [...].” p. 124-125
“A responsabilidade estaú em assumir se queremos ou naã o as consequeê ncias do que fazemos. Nisso estaú a
responsabilidade. E a liberdade tambeú m.” P. 126
- o orador faz refereê ncia aà dada importaê ncia da linguagem, em geral, e tambeú m das diferentes líúnguas – naturais ou
artificiais –, em particular da que se manifesta nos discursos humanos; entende que, segundo Maturana, a linguagem
surge como um fenoê meno particular na conviveê ncia, e depois disso surge a simbolizaçaã o;
“Eu digo que a simbolizaçaã o eú secundaú ria aà linguagem, porque o que estou dizendo eú que o síúmbolo eú uma relaçaã o que
um observador estabelece no operar na linguagem. De modo que se vejo dois seres em coordenaçaã o de açaã o na
linguagem, ou seja, na recursaã o das coordenaçoã es de açaã o, enquanto observador posso dizer: "Ah, olha! Cada vez que A
faz tal coisa, B faz tal coisa." Posso tratar a conduta de A como um síúmbolo para as consequü eê ncias da conduta de B, por
exemplo. EÉ nesse sentido que o síúmbolo eú secundaú rio — pertence aà reflexaã o. Vejamos um exemplo. Eu me encontro com
uma cultura que tem uma líúngua diferente da minha — e a tem porque eú diferente, tem um espaço de conviveê ncia
diferente, um domíúnio de coordenaçoã es de açaã o diferente. Quando pergunto: "O que significa tal coisa?" (podendo ser
um gesto, um signo, uma palavra), normalmente me encontro com a seguinte situaçaã o: em muitos casos naã o existe
reflexaã o sobre aquilo que perguntamos, e a outra pessoa tem que parar para pensar, tem que inventar uma histoú ria que
relacione essa palavra ou esse gesto com o contexto total do mover-se naquela cultura, ou com um contexto que num
momento determinado parece adequado a esta pessoa. Entaã o, a simbolizaçaã o, o síúmbolo, surge sempre como uma
reflexaã o sobre o fluir das coordenaçoã es de açaã o na linguagem.” P. 127
“Pergunta: Em que medida isto permitiria a criaçaã o de espaços de aceitaçaã o?
Maturana: Por exemplo, se eu visito uma cultura diferente, posso me encontrar nela de duas maneiras. Posso dizer:
"Caramba, como estaã o atrasados! Ainda naã o fazem isso, ainda naã o fazem aquilo." Quer dizer, eu me encontro nesse
aê mbito fazendo uma avaliaçaã o em funçaã o de algo que considero ser intríúnsecamente mais valioso, ou valido, e este
outro, naã o. Nesse caso, naã o tenho um espaço de conviveê ncia. Se naã o o tenho, estou em um espaço de negaçaã o. Melhor
dizendo, tenho um espaço de conviveê ncia que naã o eú social porque eú um espaço de negaçaã o. A uú nica coisa que posso
fazer neste caso eú sair da objetividade sem pareê nteses e entrar na objetividade entre pareê nteses e colocar-me na
aceitaçaã o do outro e da conviveê ncia com o outro na aceitaçaã o muú tua, na qual seu mundo eú legíútimo, e esperar que, se for
aceito nesse mundo, talvez consiga fazer parte dele. AÀ medida que conseguir fazer parte desse mundo e naã o deixar de
fazer parte do meu, vou fazer uma interseçaã o de dois mundos que me permite fazer uma reflexaã o a partir de um sobre o
outro. AÀ s vezes, isso pode ser feito. Mas eu tenho que aceitar como algo primaú rio a legitimidade do outro.” P. 127-128
“[...] todo aquele que vai ensinar algo a outro estaú negando o outro. EÉ diferente se ele vem, e se na conviveê ncia acontecer
de ele ser capaz de fazer certas coisas que os outros consideram satisfatoú rias e as incorporam — isso eú completamente
diferente.” P. 128
“Na objetividade entre pareê nteses naã o haú submissaã o. A uú nica coisa que pode acontecer aqui eú a seduçaã o. Aquele que
pensa que a seduçaã o envolve submissaã o naã o atentou para as emoçoã es da seduçaã o. Quando na seduçaã o haú emoçaã o de
negaçaã o de si mesmo significa que naã o haú seduçaã o, significa que haú submissaã o. Na seduçaã o o que ocorre eú : na dinaê mica
do encontro, o outro aceita ou incorpora o outro domíúnio como parte sua e passa a esse domíúnio sem negar a si mesmo.
Essa eú a diferença, nas relaçoã es humanas, entre seduçaã o e violaçaã o. Elas naã o saã o a mesma coisa.” P. 129
“Na submissaã o haú sempre instabilidade. Toda concordaê ncia de comportamento que surge na submissaã o eú instaú vel,
porque estaú fundada na negaçaã o de si mesmo e, portanto, na frustraçaã o e no sofrimento. [...]Sob a submissaã o, a projeçaã o
de estabilidade eú muito baixa, porque taã o logo se suprima a pressaã o, ou as açoã es, ou as circunstaê ncias sob as quais eu
me considero obrigado a me submeter, saio da submissaã o.” P. 130
“O conhecimento eú uma apreciaçaã o de um observador sobre a conduta do outro, que pode ser ele mesmo. No momento
em que se veê isto desta forma, por um lado, descobre-se que o conhecimento eú sempre adquirido na conviveê ncia.
Descobre-se que se aprende a ser de uma ou outra maneira na conviveê ncia com outros seres humanos. Por outro lado,
descobre-se que o conhecimento tem a ver com as açoã es. Tem a ver com açoã es consideradas adequadas em um domíúnio
particular. Desse modo, se quero que algueú m adquira conhecimento em um certo espaço, o que tenho que fazer eú
convidaú -lo a viver em um certo domíúnio; se ele aceita, teraú esse conhecimento.” P.131
“O discurso racional que naã o seduz emocionalmente naã o muda o espaço do outro.” P.132

CIENCIA E VIDA COTIDIANA


A ontologia das explicações científicas
Introdução
“Embora etimologicamente a palavra ciência signifique o mesmo que a palavra conhecimento, ela tem sido usada na
histoú ria do pensamento ocidental para fazer refereê ncia a qualquer conhecimento cuja validade possa ser defendida em
bases metodoloú gicas, independentemente do domíúnio fenomeê nico no qual eú proposto. Hoje em dia, entretanto, isto tem
mudado progressivamente, e a palavra ciência eú agora mais frequentemente usada para fazer refereê ncia apenas ao
conhecimento validado atraveú s de um meú todo particular, que eú o meú todo cientíúfico.” P.133
O observador e o observar
”Observar eú o que noú s, observadores, fazemos ao distinguir na linguagem os diferentes tipos de entidades que trazemos
aà maã o como objetos de nossas descriçoã es, explicaçoã es e reflexoã es no curso de nossa participaçaã o nas diferentes
conversaçoã es em que estamos envolvidos no decorrer de nossas vidas cotidianas, independentemente do domíúnio
operacional em que acontecem.” P.134
As emoções
“As emoçoã es saã o disposiçoã es corporais dinaê micas que especificam os domíúnios de açoã es nos quais os animais, em geral,
e noú s seres humanos, em particular, operamos num instante. [...] Em outras palavras, eú a emoçaã o sob a qual agimos num
instante, num domíúnio operacional, que define o que fazemos naquele momento como uma açaã o de um tipo particular
naquele domíúnio operacional. Por este motivo, se queremos compreender qualquer atividade humana, devemos atentar
para a emoçaã o que define o domíúnio de açoã es no qual aquela atividade acontece e, no processo, aprender a ver quais
açoã es saã o desejadas naquela emoçaã o.” P.138
A linguagem
“Se vemos duas pessoas a uma distaê ncia taã o grande que naã o podemos ouvi-las, e queremos, posteriormente, poder
afirmar se elas estavam ou naã o falando uma com a outra, observamos o curso de suas interaçoã es, procurando
coordenaçoã es consensuais de coordenaçoã es consensuais de açoã es sob formas facilmente reconhecíúveis como pedidos e
promessas, indicaçoã es para açoã es, resposta a perguntas, ou queixas. Em outras palavras, quando buscamos determinar
se duas ou mais pessoas estaã o ou naã o interagindo na linguagem, naã o apenas procuramos suas coordenaçoã es
consensuais de açoã es, mas tambeú m uma dinaê mica de recursaã o em suas coordenaçoã es consensuais de açoã es. Isto eú ,
procuramos a ocorreê ncia de coordenaçoã es consensuais de coordenaçoã es consensuais de açoã es como operaçoã es num
domíúnio aprendido e naã o instintivo de coordenaçoã es de açoã es.” P.138-139
“[...] afirmo que a linguagem acontece quando duas ou mais pessoas em interaçoã es recorrentes operam atraveú s de suas
interaçoã es numa rede de coordenaçoã es cruzadas, recursivas, consensuais de coordenaçoã es consensuais de açoã es, e que
tudo o que noú s seres humanos fazemos, fazemos em nossa operaçaã o em tal rede como diferentes maneiras de nela
funcionar.” P.139
“[a linguagem] naã o acontece no corpo dos participantes, porque acontece no fluxo de suas coordenaçoã es consensuais de
coordenaçoã es consensuais de açoã es;” p.140
“[...] embora a linguagem naã o aconteça nos corpos daqueles que estaã o na linguagem, o curso das mudanças corporais
daqueles que interagem na linguagem entrelaça-se com o curso de suas coordenaçoã es de açoã es, e o curso de suas
coordenaçoã es de açoã es entrelaça-se com o curso de suas mudanças corporais, ao surgirem estas no fluxo de seu
linguajar;’ p.140
O cientista
“A emoçaã o fundamental que especifica o domíúnio de açoã es no qual a cieê ncia acontece como uma atividade humana eú a
curiosidade, sob a forma do desejo ou paixaã o pelo explicar. Aleú m disso, o que constitui a cieê ncia como um tipo particular
de explicaçaã o eú o criteú rio de validaçaã o que noú s cientistas usamos, explíúcita ou implicitamente, para aceitarmos nossas
explicaçoã es como explicaçoã es cientíúficas ao praticarmos a cieê ncia sob a paixaã o do explicar.” P.142
O critério de validação das explicações científicas
“[...] podemos perceber que aceitamos uma dada reformulaçaã o do fenoê meno a ser explicado como uma explicaçaã o
cientíúfica apenas se ela for apresentada como uma de quatro operaçoã es inter-relacionadas, que devemos efetuar
satisfatoriamente em nosso domíúnio de experieê ncias, para validar nossas explicaçoã es ao operarmos como cientistas.”
P.143-144
“Estas quatro operaçoã es saã o as seguintes:
i) A apresentaçaã o da experieê ncia (o fenoê meno) a ser explicada em termos daquilo que um observador-padraã o deve fazer
em seu domíúnio de experieê ncias (sua praú xis de viver) para experienciaú -la.
ii) A reformulaçaã o da experieê ncia (o fenoê meno) a ser explicada sob a forma de um mecanismo gerativo que, se realizado
por um observador-padraã o em seu domíúnio de experieê ncias, lhe permite, como um resultado ou consequeê ncia de sua
operaçaã o, ter em seu domíúnio de experieê ncias a experieê ncia a ser explicada como apresentada no ponto (i).
iii) A deduçaã o, a partir da operaçaã o do mecanismo gerativo proposto em (ii), assim como de todas as coereê ncias
operacionais do domíúnio de experieê ncias de um observador-padraã o a ele vinculado, de outras experieê ncias que um
observador-padraã o deveria ter atraveú s da aplicaçaã o daquelas coereê ncias operacionais e das operaçoã es que ele ou ela
deve realizar em seu domíúnio de experieê ncias para teê -las.
iv) A experieê ncia, por um observador-padraã o, das experieê ncias (dos fenoê menos) deduzidos em (iii) atraveú s da
realizaçaã o, em seu domíúnio de experieê ncias, das operaçoã es tambeú m deduzidas em (iii).” P.144
“O observador naã o encontra um problema ou fenoê meno a ser explicado fora dele ou dela mesma, mas, ao contraú rio, ele
ou ela constitui um problema ou fenoê meno em seu domíúnio de experieê ncias ao encontrar-se numa pergunta que deseja
responder.” P.150
“[...] uma vez que compreender uma dada experieê ncia eú um operar ciente das circunstaê ncias que a geram, e uma vez que
tudo em uma explicaçaã o cientíúfica ocorre no domíúnio de experieê ncias do observador-padraã o como sua operaçaã o efetiva
nele, as teorias cientíúficas podem surgir apenas como livres criaçoã es de nossa operaçaã o enquanto observadores-padraê o,
podendo tomar somente a forma de reformulaçoã es de nossas experieê ncias com elementos de nossas experieê ncias que,
de fato, constituem nossa compreensaã o de nosso domíúnio de experieê ncias, quando o vivemos atraveú s de nossas
explicaçoã es cientíúficas.” P.151
A ciência como um domínio cognitivo
“O uso do criteú rio de validaçaã o das explicaçoã es cientíúficas define e constitui as explicaçoã es cientíúficas. O uso de
explicaçoã es cientíúficas para validar uma afirmaçaã o faz desta uma afirmaçaã o cientíúfica. O uso de explicaçoã es cientíúficas
pelos membros de uma comunidade de observadores-padraã o, para direta ou indiretamente validar todas as suas
afirmaçoã es, define e constitui a cieê ncia como um domíúnio cognitivo que define como uma comunidade cientíúfica a
comunidade daqueles observadores que as usam. Portanto, ontologicamente, nesta forma de constituiçaã o como
domíúnio cognitivo, a cieê ncia naã o eú diferente de outros domíúnios cognitivos, porque eú definida e constituíúda como todos
os domíúnios cognitivos saã o, isto eú , como um domíúnio de açoã es definido por um criteú rio de validaçaã o ou aceitabilidade,
usado por um observador ou pelos membros de uma comunidade de observadores para aceitar aquelas açoã es como
vaú lidas num domíúnio de açoã es definido por esse mesmo criteú rio de aceitabilidade.” P.154
“Neste aspecto, a cieê ncia naã o eú diferente de nenhum outro domíúnio cognitivo, jaú que todos os domíúnios cognitivos saã o,
por constituiçaã o, vaú lidos apenas na comunidade especíúfica dos observadores que aceitam o criteú rio de validaçaã o de
açoã es adequadas que define tal comunidade.” P.155
“Como seres humanos, criamos com nossas açoã es em nosso domíúnio de experieê ncias os mundos que vivemos, quando
os vivenciamos em nosso domíúnio de experieê ncias enquanto seres humanos, e nos movemos nos mundos que criamos
mudando nossos interesses e nossas perguntas, no fluir do nosso emocionar.” P.156-157
“Nossas emoçoã es naã o entram na validaçaã o de nossas explicaçoã es cientíúficas, mas o que explicamos surge atraveú s do
nosso emocionar como um interesse que naã o queremos ignorar, explicando o que queremos explicar, e o explicamos
cientificamente, porque gostamos de explicar dessa maneira.” P.157
“As noçoã es de progresso, de responsabilidade social e eú tica naã o se aplicam aà cieê ncia como um domíúnio cognitivo.
Realmente, a cieê ncia, como qualquer outro domíúnio cognitivo, eú operacional em sua constituiçaã o, e enquanto tal eú livre
de valores. As noçoã es de progresso, responsabilidade social e eú tica aplicam-se aà s açoã es humanas e, portanto, ao que noú s,
cientistas, artistas, tecnoú logos ou qualquer outro tipo de pessoas, podemos ser, desejar e fazer como seres humanos.
Noú s, seres humanos, operamos e existimos como uma interseçaã o de nossas condiçoã es de observadores (em
conversaçoã es) e seres vivos, e como tais somos seres multidimensionais, verdadeiros noú s de uma rede cruzada dinaê mica
de discursos e emoçoã es que continuamente nos movem de um domíúnio de açoã es a outro, num fluxo contíúnuo de muitas
conversaçoã es variaú veis. Consequentemente, noú s, cientistas, praticamos a cieê ncia como uma maneira de viver sob uma
das numerosas emoçoã es que nos constituem em nosso viver como seres humanos emocionais normais, isco eú , sob a
paixaã o ou desejo do explicar. Contudo, a aú rea de nosso domíúnio de experieê ncias que escolhemos a cada momento para
investigar, explicar, ou analisar como cientistas, ou que usos escolhemos dar aos resultados de nossas atividades
cientíúficas, dependem de outras emoçoã es que aparecem em noú s no curso de nossas vidas. Havendo o conhecimento
cientíúfico, podemos usaú -lo para qualquer propoú sito que possamos querer como nossos desejos, paixoã es, medos ou
intençoã es, surgidos em noú s com o fluir de nosso linguajar e emocionar. Ao acontecer isto, começamos a agir, digamos,
como tecnoú logos, empresaú rios, artistas, trapaceiros, políúticos, e assim por diante, quando aparece algum de nossos
outros interesses humanos ao nos envolvermos com açoã es teú cnicas, produtivas, esteú ticas, pessoalmente vantajosas, ou
sociais.
EÉ neste contexto que as noçoã es de progresso, eú tica e responsabilidade social adquirem presença. Assim, a noçaã o de
progresso tem a ver com o que noú s consideramos melhor ou desejamos que aconteça na vida humana. A noçaã o de
responsabilidade social tem a ver com nossa conscieê ncia de querermos ou naã o as consequeê ncias de nossas açoã es. E a
noçaã o de eú tica tem a ver com nosso interesse pelas consequeê ncias de nossas açoã es na vida de outros seres humanos que
aceitamos em coexisteê ncia conosco. Aleú m disso, as noçoã es de progresso, eú tica e responsabilidade naã o pertencem aà
cieê ncia como domíúnio cognitivo, mas se aplicam a noú s, cientistas, como seres humanos porque tudo o que fazemos nos
envolve e tambeú m envolve as comunidades humanas e naã o humanas de seres vivos a que pertencemos e que nos
sustentam em nossas atividades.” 159-160
“Eu naã o falei de verdade como lei natural, e, de fato, isto naã o foi acidental. Habitualmente utilizamos as noçoã es de
verdade e natureza para, explíúcita ou implicitamente, conotar uma realidade independente do que fazemos como
observadores, seja como uma refereê ncia pela qual validamos nossas afirmaçoã es, ou como um argumento que lhes daú
universalidade. A partir de tudo o que eu disse, entretanto, fica evidente que a cieê ncia naã o tem nada a ver com a noçaã o
de verdade, que eú independente do criteú rio de validaçaã o que constitui uma afirmaçaã o ou explicaçaã o cientíúfica como
vaú lida no domíúnio cognitivo constituíúdo pelo criteú rio de validaçaã o das explicaçoã es cientíúficas. Ao mesmo tempo, a noçaã o
de verdade relativa tampouco se aplica aã cieê ncia, porque tal noçaã o eú vaú lida apenas em refereê ncia a uma verdade
absoluta. Em outras palavras, a dicotomia entre verdades absolutas e relativas naã o se aplica aà cieê ncia, porque tudo o que
se pode dizer na cieê ncia, quando se alega que uma afirmaçaã o eú cientificamente verdadeira, eú que ela eú uma explicaçaã o
cientíúfica. Algo semelhante acontece com a noçaã o de natureza. Uma vez que o observador naã o pode fazer nenhuma
afirmaçaã o cognitiva sobre algo independente de sua operaçaã o como sistema vivo, a noçaã o de natureza pode referir-se
apenas ao que o observador faz (na linguagem) como um ser humano explicando suas experieê ncias como tal, e, por isso,
ela naã o pode se referir a nada supostamente independente do que o observador faz.” P.161
“Agir de acordo com nossa conscieê ncia de nossa contíúnua constituiçaã o da natureza atraveú s de nossas explicaçoã es da
nossa experieê ncia, estando conscientes da natureza constitutiva da natureza, eú nossa maior responsabilidade como
seres humanos em geral e cientistas em particular.” P.162
“[...] tudo nos acontece como distinçoã es que fazemos na linguagem, nas conversaçoã es que vivemos, cegos aà dinaê mica de
estados de nossa corporalidade atraveú s da qual elas surgem. Como resultado, quanto mais complexa e rica for nossa
dinaê mica de estados (incluindo a dinaê mica de estados de nosso sistema nervoso, eú claro), mais inesperada seraú nossa
participaçaã o nas conversaçoã es em que estamos envolvidos e mais criativos seremos aos olhos do surpreso espectador. E
quanto mais complexa e multidimensional for nossa vida, mais inovadoras, estranhas e inesperadas pareceraã o nossas
açoã es e distinçoã es na linguagem, para aqueles com quem vivemos sem compartilhar todas as nossas conversaçoã es.”
P.163
“Inovaçoã es na cieê ncia, portanto, constituem novas dimensoã es de coereê ncias operacionais no domíúnio de experieê ncias
dos observadores-padraã o, mas naã o revelam nenhuma realidade independente escondida.” 164
Conclusão
“A experieê ncia humana naã o tem conteuú do. Em nossa experieê ncia, noú s naã o encontramos coisas, objetos ou a natureza
como entidades independentes, como nos parece na simplicidade da vida cotidiana. Noú s vivemos na experieê ncia, na
praú xis de viver de seres humanos no fluir de sermos sistemas vivos na linguagem, como algo que acontece em noú s e a
noú s aà medida que linguajamos.” P.164
“Os objetos, a conscieê ncia, a autorreflexaã o, o self, a natureza, a realidade, e assim por diante, tudo o que noú s, seres
humanos, fazemos e somos acontece na linguagem como distinçoã es ou como explicaçoã es na linguagem do nosso estar
na linguagem.” P.165
“Na verdade, o fato de que, por existir na linguagem, nosso domíúnio experiencial seja um domíúnio fechado do qual naã o
saíúmos e naã o podemos sair aparece como uma limitaçaã o apenas se pensamos que podemos nos referir a uma realidade
independente.” P.165
“Em nossa cultura ocidental moderna, falamos de cieê ncia e tecnologia como fontes de bem-estar humano. Entretanto,
normalmente naã o eú o bem-estar humano que nos leva a valorizar a cieê ncia e a tecnologia, mas saã o as possibilidades de
dominaçaã o, de controle sobre a natureza e de abundaê ncia ilimitada que elas parecem oferecer. Lutamos com uma
natureza hostil, alegamos e procuramos pelo conhecimento cientíúfico em busca de um instrumento que nos permita
controlaú -la e manipulaú -la, mais do que compreendeê -la. Tambeú m falamos de progresso na cieê ncia e tecnologia em termos
de controle e dominaçaã o e naã o em termos de compreensaã o e coexisteê ncia responsaú vel. As noçoã es de controle e
dominaçaã o implicam na negaçaã o do que eú controlado e dominado, bem como em colocaú -lo como algo diferente e
independente de noú s mesmos.” P.167
“Tudo o que distinguimos, noú s distinguimos na linguagem; tudo o que experienciamos, noú s experienciamos ao
distinguirmos na linguagem nossa experieê ncia. Que isto seja assim, entretanto, naã o eú um problema para noú s em nosso
viver, simplesmente acontece em noú s e a noú s, ao distinguirmos nossas experieê ncias. A experieê ncia, o acontecimento do
viver, naã o eú um problema para noú s — nossos problemas surgem com nossas explicaçoã es de nossas experieê ncias e as
exigeê ncias que elas nos impoã em, e impoã em aos outros seres humanos com quem coexistimos.” P.167-168
“Noú s seres humanos vivemos um mundo de explicaçoã es e descriçoã es, na linguagem, de nossas experieê ncias ao lhes
darmos origem na linguagem, e ateú nos matamos uns aos outros defendendo nossas explicaçoã es quando discordamos a
respeito delas.” P.168
“O que a cieê ncia e o treinamento para ser um cientista naã o nos fornecem eú sabedoria. A cieê ncia moderna surgiu em uma
cultura que valoriza a apropriaçaã o e a riqueza, que trata o conhecimento como uma fonte de poder, que aprecia o
crescimento e o controle, que respeita hierarquias de dominaçaã o, que valoriza a apareê ncia e o sucesso, que perdeu de
vista a sabedoria e naã o faz nada para cultivaú -la. Noú s, cientistas, em nosso empenho de fazermos o que mais gostamos,
isto eú , a investigaçaã o cientíúfica, frequentemente somos víútimas de paixoã es, desejos e intençoã es da nossa cultura, e
pensamos que a expansaã o da cieê ncia justifica tudo, tornando-nos cegos para a sabedoria e para como ela eú ensinada.”
169
“A sabedoria desenvolve-se no respeito pelos outros, no reconhecimento de que o poder surge pela submissaã o e perda
de dignidade, no reconhecimento de que o amor eú a emoçaã o que constitui a coexisteê ncia social, a honestidade e a
confiança, e no reconhecimento de que o mundo que vivemos eú sempre, e inevitavelmente, um afazer nosso.” P.170
Resumo
“Ao assumirmos que a cieê ncia, como domíúnio cognitivo constituíúdo atraveú s da aplicaçaã o do criteú rio de validaçaã o das
explicaçoã es cientíúficas, naã o lida com a verdade ou a realidade num sentido transcendente, mas apenas com a explicaçaã o
da experieê ncia humana no domíúnio das experieê ncias humanas, muitas questoã es desaparecem ou perdem inteiramente
seu caraú ter, e novas compreensoã es saã o possíúveis.” P.170
- afirma a sistematizaçaã o como um processo de explicaçaã o cientíúfica;

TEORIAS CIENTÍFICAS E FILOSÓFICAS


As explicações
“[...] uma explicaçaã o eú uma reformulaçaã o de uma experieê ncia aceita como tal por um observador (que pode ser a mesma
pessoa que a propoê s), de acordo com certos criteú rios de aceitabilidade adotados por ele ou ela. Uma reformulaçaã o
proposta como uma explicaçaã o para uma dada situaçaã o (fenoê meno, experieê ncia) que naã o seja aceita como tal, naã o eú uma
explicaçaã o. Portanto, nada eú uma explicaçaã o em si mesmo, e eú a pessoa que aceita uma resposta explicativa quem
especifica a resposta como uma explicaçaã o.” P.174
“[...] em termos gerais podemos dizer que diferentes tipos de explicaçoã es esclarecem diferentes tipos de experieê ncias,
em diferentes domíúnios fenomeê nicos [...].”
As teorias
“Uma teoria eú um sistema explicativo que correlaciona muitos fenoê menos (experieê ncias) de outra forma aparentemente
naã o correlacionados. Esse sistema eú proposto como um domíúnio de explicaçoã es coerentes, tecidas junto com alguns fios
conceituais que definem a natureza de sua conectividade interna e a extensaã o de sua aplicabilidade gerativa no domíúnio
das açoã es humanas. Como tal, uma teoria eú vaú lida para aqueles que aceitam tanto o criteú rio de validaçaã o das explicaçoã es
que isso requer quanto o criteú rio de conectividade interna que a torna um sistema conceitual plenamente coerente.
Devido a essa forma de constituiçaã o das teorias, haú tantos tipos diferentes de teorias quantos tipos diferentes de
combinaçoã es entre criteú rios explicativos, e diferentes criteú rios para conectividade conceitual interna, usados na geraçaã o
de sistemas explicativos.” P. 175-176
“Os cientistas saã o constitutivamente livres para mudar noçoã es explicativas, conceitos e paradigmas no processo de gerar
suas explicaçoã es e teorias cientíúficas, porque o que eles devem conservar saã o os fenoê menos ou experieê ncias a serem
explicados. Os filoú sofos devem constitutivamente conservar alguns princíúpios, valores ou o acesso a algum resultado
desejado e, portanto, conservar noçoã es explicativas, conceitos e paradigmas, no processo de gerar suas explicaçoã es e
teorias filosoú ficas. O resultado geral eú que, nas teorias cientíúficas, a forma de explicar ajusta-se aà conservaçaã o dos
fenoê menos ou experieê ncias a serem explicados, e nas teorias filosoú ficas a forma de explicar ajusta-se aà conservaçaã o dos
princíúpios, valores e resultados desejados a serem conservados por elas, e nelas.” P.178
Consequências
“Na medida em que o uso do criteú rio de validaçaã o de explicaçoã es cientíúficas e da conservaçaã o da atençaã o nos fenoê menos
ou experieê ncias a serem explicados saã o caracteríústicas constitutivas do operar do cientista no processo de geraçaã o de
uma teoria cientíúfica, o cientista estaú livre de qualquer pressaã o para resguardar ou conservar qualquer princíúpio
particular ou valor, ou de qualquer pressaã o para obter qualquer resultado particular. Aleú m disso, o cientista trairaú sua
tarefa e falharaú logo de iníúcio se ele ou ela subordinar seu afazer aà conservaçaã o de qualquer princíúpio ou valor, ou ao
desejo de obter qualquer resultado particular. Em outras palavras, o objetivo constitutivo de uma teoria cientíúfica eú
explicar, e naã o resguardar ou proteger, qualquer princíúpio ou valor, ou obter qualquer resultado desejado.” P.178
“Teorias filosoú ficas saã o geralmente propostas com a intençaã o ou desejo de fornecer um sistema de explicaçoã es para as
experieê ncias humanas que proteja algumas crenças ou justifique certos tipos de açoã es no domíúnio de relaçoã es e açoã es
daqueles que as aceitam.” P.180
Reflexões finais
“Noú s, seres humanos, somos seres multidimensionais na linguagem. Em decorreê ncia disso, ningueú m eú exclusivamente
um cientista ou um filoú sofo, e todos noú s somos as duas coisas em momentos diferentes de nossas tentativas de explicar
e entender nossas experieê ncias e o mundo que vivemos atraveú s delas, ou de nosso desejo de coereê ncia em nossas
relaçoã es. Entaã o noú s somos cientistas, mesmo sem nos darmos conta, quando queremos explicar nossas experieê ncias
cotidianas usando o criteú rio de validaçaã o de explicaçoã es cientíúficas ao viveê -las como algo dado em nossa vida cotidiana.
Ao mesmo tempo, somos filoú sofos quando refletimos sobre nossos afazeres e sobre nosso explicar, na tentativa de
entender o que fazemos.” P.181
“O que eú uma fonte de problemas nas relaçoã es humanas eú nosso uso de teorias filosoú ficas ou cientíúficas para justificar
nossa tentativa de forçar os outros a fazerem o que eles naã o querem fazer, sob a alegaçaã o de que nossas teorias provam
que estamos corretos ou que conhecemos a verdade, enquanto eles estaã o errados ou saã o ignorantes.” P.181
“O fato de as teorias filosoú ficas terem sido usadas na histoú ria da coexisteê ncia humana para justificar açoã es de dominaçaã o
e controle, fontes de grandes sofrimentos infringidos pelos seres humanos uns aos outros e aà natureza, eú o resultado de
vivermos numa cultura, a cultura patriarcal aà qual pertencemos, constituíúda em torno da praú tica da apropriaçaã o, da
autoridade, da obedieê ncia e da submissaã o, na crença de que a existeê ncia eú uma guerra contíúnua que pode ser vencida
apenas atraveú s da dominaçaã o e do controle.” P.182-183
“Uma nova vida requer um novo comportamento. Se algueú m naã o permite aos seres humanos a possibilidade de mudar
atraveú s da reflexaã o e aceita a legitimidade da dominaçaã o e do controle no domíúnio da coexisteê ncia humana e conhece a
verdade, entaã o, por que naã o usar uma teoria filosoú fica, que eú em si mesma um domíúnio de exigeê ncias imperativas, para
justificar o controle do comportamento do outro para o seu proú prio bem-estar e com a intençaã o de ajudar o nascimento
de um novo tipo de seres humanos?” p.183
“Atraveú s da justificaçaã o filosoú fica da necessidade de um novo tipo de ser humano para gerar justiça social, remos
aquiescido sem remorso com a destruiçaã o dos seres humanos que naã o concordam conosco. Afirmo que o bem-estar da
humanidade naã o precisa de um novo tipo de ser humano. Tudo o que eú preciso eú agirmos responsavelmente em nossa
condiçaã o de seres humanos, isto eú , conscientes de nossos desejos, das consequeê ncias de nossas açoã es, e sem a
apropriaçaã o da verdade. Hoje, agir dessa maneira em nossa cultura exige, dentre outras coisas, que noú s, filoú sofos e
cientistas, tornemo-nos filoú sofos e cientistas responsaú veis.” P.183
- Martin Heidegger conserva simultaneamente a transcendentalidade e a historicidade dos seres humanos e a
objetividade do ser que aparece na distinçaã o;
- Karl Popper conserva a realidade objetiva, a despeito de sua inacessibilidade;
- Plataã o conserva as hierarquias e a autoridade;
- Teilhard de Chardin conserva a presença de Deus em face da contíúnua mudança da natureza;

METADESIGN
Os sistemas vivos
As condições de existência
“Os sistemas vivos saã o sistemas determinados estruturalmente, ou seja, saã o sistemas tais que tudo o que lhes acontece a
qualquer momento depende de sua estrutura — que eú como eles saã o feitos a cada instante. Os sistemas determinados
estruturalmente saã o sistemas tais que qualquer agente que incida sobre eles apenas desencadeia neles mudanças
estruturais determinadas neles proú prios.” P.188
“[...]a partir de nosso viver cotidiano sabemos tambeú m que, ao escutarmos algueú m, o que ouvimos eú um acontecer
interno a noú s, e naã o o que o outro diz, embora o que ouvimos seja desencadeado por ele ou ela.” P 188
“Naã o haú duú vida de que gostaríúamos que o outro ouvisse o que dizemos, mas isso naã o acontece, a menos que venhamos
interagindo recursivamente um com o outro por um períúodo suficientemente longo para nos tornarmos
estruturalmente congruentes, resultando em sermos capazes de comportamento coerente no conversar um com o
outro. Quando isso acontece, dizemos que compreendemos um ao outro.” P. 188-189
“Sistemas vivos saã o sistemas autopoieú ticos moleculares. Enquanto sistemas moleculares, os sistemas vivos saã o abertos
ao fluxo de mateú ria e energia. Enquanto sistemas autopoieú ticos, sistemas vivos saã o sistemas fechados em sua dinaê mica
de estados, no sentido de que eles saã o vivos apenas enquanto todas as suas mudanças estruturais forem mudanças
estruturais que conservam sua autopoiese.” P. 189
Domínios de existência
“Os sistemas vivos existem em dois domíúnios operacionais: o domíúnio de sua composiçaã o, que eú onde sua autopoiese
existe e de fato opera como uma rede fechada de produçoã es moleculares, e o domíúnio ou meio no qual eles surgem e
existem como totalidades em interaçoã es recursivas. O primeiro eú o domíúnio no qual o observador os veê em sua anatomia
e fisiologia, e o segundo eú onde o observador os distingue como organismos ou sistemas vivos. Esses dois domíúnios naã o
se intersectam, e naã o podem ser deduzidos um do outro, apesar da composiçaã o do sistema vivo, enquanto um sistema
autopoieú tico, por sua constituiçaã o como uma totalidade delimitada ou singular, tornar possíúvel o outro enquanto um
domíúnio no qual ele opera como tal totalidade ou entidade discreta. Ou seja, uma vez que os dois domíúnios de existeê ncia
dos sistemas vivos (ou das entidades compostas em geral) naã o se intersectam, naã o haú entre eles nenhuma relaçaã o
causal [...].” p. 190
“Nessas circunstaê ncias, o que eú fundamental notar, depois de tudo o que eu disse em relaçaã o aà existeê ncia dos sistemas
vivos, eú que tudo o que ocorre em ou com um sistema vivo eú operacionalmente subordinado aà conservaçaã o do modo de
viver que o define e o realiza no domíúnio no qual ele funciona como um todo ou uma totalidade. Ou, em outras palavras,
a corporalidade, que eú onde a autopoiese do sistema vivo de fato ocorre, eú a condiçaã o de possibilidade do sistema vivo,
mas o modo de sua constituiçaã o e realizaçaã o contíúnua eú em si continuamente modulada pelo fluir do viver do sistema
vivo no domíúnio no qual ele funciona como uma totalidade. [...] Portanto, a corporalidade e o modo de funcionar como
uma totalidade saã o intríúnseca e dinamicamente entrelaçados. De modo que nenhum deles eú possíúvel sem o outro, e
ambos se modulam mutuamente no fluir do viver. O corpo se transforma de acordo com o modo do sistema vivo
(organismo) funcionar como um todo, e o modo do organismo funcionar como um todo depende da maneira pela qual
funciona a corporalidade.” P. 191
O meio
“O meio, enquanto o espaço no qual um sistema funciona como um todo, tem uma dinaê mica estrutural independente da
dinaê mica estrutural dos sistemas que ele conteú m, apesar de ser modulado pelos seus encontros com eles. Portanto, o
meio e os sistemas que ele conteú m estaã o em mudanças estruturais contíúnuas, cada um de acordo com sua proú pria
dinaê mica estrutura!, e cada um modulado pelas mudanças estruturais que eles desencadeiam um no outro atraveú s de
seus encontros recursivos. Nessas circunstaê ncias, todos os sistemas que interagem com um sistema vivo constituem seu
meio. Aleú m disso, de acordo com a dinaê mica recursiva das interaçoã es recíúprocas acima descritas, todos os sistemas em
interaçoã es recursivas mudam juntos, congruentemente.” P. 192
Os seres humanos
O linguajar
“A linguagem eú um modo de viver juntos num fluir de coordenaçaã o consensual de coordenaçoã es consensuais de
comportamentos, e eú como tal um domíúnio de coordenaçoã es de coordenaçoã es de açoã es. Assim, tudo o que noú s seres
humanos fazemos, noú s fazemos na linguagem. Entaã o, os objetos surgem na linguagem como modos de coordenaçaã o de
nossos afazeres na linguagem; os diferentes mundos que vivemos surgem na linguagem como diferentes domíúnios de
afazeres nas coordenaçoã es de nossos afazeres na linguagem; os diferentes domíúnios de afazeres que vivemos como
diferentes tipos de atividades humanas, sejam eles concretos ou abstratos, manipulaú veis ou imaginados, praú ticos ou
teoú ricos, ocorrem como domíúnios de coordenaçoã es consensuais de coordenaçoã es de açoã es em diferentes domíúnios de
açoã es que surgem em nosso viver na linguagem. Assim, o linguajar eú nosso modo de existir como seres humanos.” P.
192-193
“[...] no curso de nossa histoú ria vivemos na conservaçaã o de cada mundo que vivemos como se ele fosse a proú pria base de
nossa existeê ncia, e assim fazemos numa dinaê mica de conservaçaã o, cujo resultado eú que todos noú s começamos a mudar
em torno da maneira de viver conservada que o mundo conservado implica.
Mas o que necessitamos para permanecermos seres humanos naã o eú muito diferente nos diferentes mundos que
vivemos. A diferença eú no tipo de ser humano que nos tornamos em cada um deles, porque nos tornamos um tipo ou
outro de ser de acordo com a maneira como vivemos.” P. 194-195
IDENTIDADE
“A identidade de um sistema, isto eú , o que define um sistema como um sistema de um tipo particular, naã o eú uma
caracteríústica intríúnseca a ele. A identidade de um sistema eú constituíúda e conservada como uma maneira de funcionar
como um todo nas interaçoã es recursivas do sistema no meio que o conteú m.” P. 195
“Em noú s, seres humanos, a cultura em que vivemos constitui o meio no qual somos realizados como seres humanos, e
nos transformamos em nossas corporalidades no curso da histoú ria de nossa cultura, de acordo com a identidade
humana que surge e que eú conservada nessa cultura. Mas, ao mesmo tempo, como seres humanos que vivem em
conversaçoã es, somos seres reflexivos que podem se tornar conscientes da forma que vivem e do tipo de seres humanos
que se tornam. E ao nos tornarmos conscientes, podemos escolher o curso que nosso viver segue de acordo com nossas
prefereê ncias esteú ticas, e vivemos de uma forma ou de outra conforme a identidade humana que conservamos. Desse
modo, nossa identidade humana eú tanto constituíúda quanto conservada numa dinaê mica sisteê mica definida pela rede de
conversaçoã es da cultura que vivemos. Portanto, podemos ser Homo sapiens sapiens, Homo sapiens amans, Homo
sapiens aggressans ou Homo sapiens arroggans, de acordo com a cultura que vivemos e conservamos em nosso viver,
mas ao mesmo tempo podemos deixar de ser seres humanos de um tipo ou de outro ao mudarmos de cultura,
dependendo da configuraçaã o de emoçoã es que daú aà cultura que vivemos seu caraú ter particular.” P.195-196
Emoções e racionalidade
“[...] usamos diferentes tecnologias como diferentes domíúnios de coereê ncias operacionais conforme o que queremos
obter com nosso agir, isto eú , usamos diferentes tecnologias de acordo com nossas prefereê ncias ou desejos. Portanto, saã o
nossas emoçoã es que guiam nosso viver tecnoloú gico, naã o a tecnologia em si mesma, ainda que falemos como se a
tecnologia determinasse nosso agir, independentemente de nossos desejos. Afirmo que podemos ver isto na histoú ria
tecnoloú gica de nossos ancestrais. Realmente, afirmo que, se formos cuidadosos, poderemos ver que diferentes
procedimentos tecnoloú gicos foram usados por nossos ancestrais ao longo de milhares de anos, e que as mudanças
tecnoloú gicas que fizeram estavam relacionadas a mudanças em seus desejos, em seu gosto ou suas prefereê ncias
esteú ticas, independentemente de como sua forma de viver tenha mudado a partir daíú.” P.197
“[...] o sistema nervoso naã o funciona com informaçaã o sobre o meio ou com representaçoã es deste. Tudo o que o sistema
nervoso faz como componente do organismo eú gerar nele correlaçoã es senso-efetoras que daraã o origem ao
comportamento do organismo no curso de suas interaçoã es com o meio. Aleú m disso, as correlaçoã es senso-efetoras que o
sistema nervoso gera modificam o fluir da atividade das mudanças do sistema nervoso, e o fluir da atividade do sistema
nervoso muda aà medida que muda sua estrutura.” P. 199-200
“Chamo esta dinaê mica histoú rica de mudanças estruturais coerentes do organismo e do meio, bem como sua condiçaã o de
congrueê ncia dinaê mica estrutural, de acoplamento estrutural.” P. 200-201
“[...] devido aà natureza do acoplamento estrutural entre organismo e meio, qualquer dimensaã o de interaçaã o estrutural
do organismo e do meio, que se acopla com o fluir de mudanças estruturais do sistema nervoso, pode tornar-se uma
dimensaã o sensorial, e uma expansaã o do espaço comportamental do organismo.” P. 77201
Tecnologia e realidade
A tecnologia
“A tecnologia eú uma operaçaã o em conformidade com as coereê ncias estruturais de diferentes domíúnios de açoã es nas
quais uma pessoa pode participar como ser humano.” P.203
“Naã o haú duú vida de que enquanto sistemas determinados estruturalmente existimos em nossa dinaê mica estrutural. Naã o
haú duú vida de que enquanto sistemas determinados estruturalmente existimos em contíúnua mudança estrutural e nossa
estrutura pode ser manipulada intencionalmente com vistas a algumas consequeê ncias pretendidas em nosso viver.” P.
205
“Assim, uma vez que nossas emoçoã es especificam o domíúnio relacional no qual instamos a cada instante, eú nosso
emocionar — e naã o nossa razaã o — que define o curso do nosso viver individual, bem como o curso de nossa histoú ria
cultural.” P. 206
“Este papel central das emoçoã es na definiçaã o do curso da histoú ria naã o eú peculiar a noú s como seres culturais. Na verdade,
eú a natureza do processo evolutivo acontecer isto na constituiçaã o de linhagens atraveú s da conservaçaã o reprodutiva de
modos de viver que saã o de fato definidos pelas prefereê ncias relacionais ou escolhas dos organismos.” P. 206
“A evoluçaã o bioloú gica naã o estaú entrando numa nova fase com o crescimento da tecnologia e da cieê ncia, mas a evoluçaã o
dos seres humanos estaú seguindo um curso cada vez mais definido por aquilo que escolhemos fazer face aos prazeres e
medos que vivemos em nosso gostar ou naã o gostar daquilo que produzimos atraveú s da cieê ncia e da tecnologia. EÉ por isto
que a pergunta pelo que queremos eú a pergunta central, e naã o a pergunta sobre a tecnologia ou a realidade.” P. 206
Realidade
“A noçaã o de realidade estaú mudando, mas naã o nosso viver com relaçaã o a ela. A realidade eú uma proposiçaã o que usamos
como uma noçaã o explicativa para explicar nossas experieê ncias. Aleú m disso, a usamos de modos diferentes de acordo
como nossas emoçoã es. EÉ por isso que haú diferentes noçoã es de realidade em diferentes culturas ou em diferentes
momentos da histoú ria. Ainda, vivemos do mesmo modo, enquanto fundamento da validade de nossa experieê ncia, aquilo
que cono-tamos com a palavra real quando naã o a estamos usando como um argumento. Ou seja, vivemos o "real" como
a presença de nossa experieê ncia. Eu vi... eu ouvi... eu toquei... De fato, eú por isso que afirmo que eú uma condiçaã o
fundamental em nossa existeê ncia como sistemas determinados estruturalmente naã o podermos distinguir, na proú pria
experieê ncia, entre o que chamamos de nossa percepçaã o do viver cotidiano e ilusaã o. A distinçaã o entre percepçaã o e ilusaã o
eú feita a posteriori, desva-lorizando-se uma experieê ncia em relaçaã o a uma outra aceita como vaú lida, sem saber se mais
tarde ela seraú ou nao desvalorizada em relaçaã o a alguma outra. Na verdade, eú por isso que as realidades virtuais saã o
chamadas realidades.” P 206-207
Expansões da realidade básica
“Em virtude de seu funcionamento como uma rede fechada de relaçoã es variaú veis de atividades, o sistema nervoso naã o
tem limitaçoã es intríúnsecas para lidar com a expansaã o da realidade baú sica do organismo que ele integra. Nem tem
qualquer limitaçaã o para lidar com dimensoã es sensoriais inusitadas, que podem surgir nas vidas dos organismos se seus
domíúnios de interaçoã es se expandirem como uma consequeê ncia de alguma mudança estrutural no meio.” P. 208-209
“[...] se o modo de viver que define a identidade de classe de um sistema vivo particular naã o eú conservado, o sistema vivo
desaparece como um sistema vivo daquele tipo, e um novo aparece num novo espaço relacional.” P. 209
Desejos e responsabilidades
“Noú s, seres humanos, sempre fazemos o que queremos, mesmo quando dizemos que somos forçados a fazer algo que
naã o queremos. O que acontece nesse uú ltimo caso eú que queremos as consequeê ncias que iraã o se dar se fizermos o que
dizemos que naã o queremos fazer. Isto eú assim porque nossos desejos, conscientes e inconscientes, determinam o curso
de nossas vidas e o curso de nossa histoú ria humana, O que conservamos, o que desejamos conservar em nosso viver, eú o
que determina o que podemos e o que naã o podemos mudar em nossas vidas. Ao mesmo tempo, eú por isso que
frequentemente naã o queremos refletir sobre nossos desejos. Se naã o vemos nossos desejos, podemos viver sem nos
sentirmos responsaú veis pela maior pane das consequeê ncias do que fazemos.
Os artistas, poetas da vida cotidiana, saã o algumas dessas pessoas que podem estar, e frequentemente estaã o, conscientes
do curso que a existeê ncia humana estaú seguindo. Isto eú particularmente evidente nos escritores de ficçaã o cientíúfica, que
revelam um futuro que surge de suas extrapolaçoã es das coereê ncias de nosso presente relacional. Ao mesmo tempo, os
artistas podem estar, e frequentemente estaã o, conscientes daquilo que estaú faltando em nossas relaçoã es humanas atuais,
tais como o amor, a honestidade, a responsabilidade social e o respeito muú tuo — mas os trabalhos nos quais eles
revelam ou evocam o que veem saã o frequentemente desprezados como sendo utopia. Mas, em ambos os casos, naã o eú o
meio que eú central para o trabalho dos artistas, e sim o que eles querem fazer. O meio eú sempre um domíúnio de
possibilidades que podem ser usadas com maior ou menor conhecimento do que pode ser feito com elas, mas eú sempre
uma questaã o de dedicaçaã o e esteú tica algueú m conseguir ou naã o usaú -las como deseja. O que me interessa, todavia, eú o
objetivo, o emocionar que o artista quer evocar.” P. 212-213
Reflexões
“A tecnologia naã o eú a soluçaã o para os problemas humanos, porque os problemas humanos pertencem ao domíúnio
emocional, na medida em que eles saã o conflitos em nosso viver relacional que surgem quando temos desejos que levam
a açoã es contraditoú rias. EÉ o tipo de ser humano, Homo sapiens amans, Homo sapiens aggressans ou Homo sapiens
arrogans, no momento em que tivermos acesso a uma nova tecnologia, seja como usuaú rios ou observadores, o que iraú
determinar como a utilizaremos ou o que veremos nela.” P. 213
“Cada cultura eú definida por uma configuraçaã o particular de emocionar, que guia as açoã es de seus membros, e eú
conservada por essas açoã es e pelo aprendizado, da configuraçaã o do emocionar que a define, por parte das crianças. Se a
dinaê mica sisteê mica de constituiçaã o e conservaçaã o de uma cultura eú quebrada, a cultura se acaba.” P. 213-214
“As culturas saã o redes fechadas de conversaçoã es, conservadas geraçaã o apoú s geraçaã o atraveú s do aprendizado das
crianças que nelas vivem. Como tais, as culturas mudam se mudar a rede fechada de conversaçoã es que as crianças
aprendem enquanto vivem nela, e uma nova rede fechada de conversaçoã es começar a ser conservada geraçaã o apoú s
geraçaã o atraveú s de seu viver. Pode-se dizer que, em termos sisteê micos gerais, o que eú conservado em um sistema ou nas
relaçoã es entre os membros de um grupo de sistemas eú o que determina o que pode ou naã o mudar no sistema ou no
grupo de sistemas.” P. 215
“A internet, com toda a sua riqueza como uma rede, naã o eú algo basicamente diferente de outros sistemas de interaçoã es
que facilitam o uso de bibliotecas e museus. Sem duú vida, a interconectividade atingida atraveú s da internet eú muito maior
do que a que vivemos haú cem ou cinquü enta anos atraveú s do teleú grafo, do raú dio ou do telefone. Todavia, noú s ainda
fazemos com a internet nada mais nada menos do que o que desejamos no domíúnio das opçoã es que ela oferece, e se
nossos desejos naã o mudarem, nada muda de fato, porque continuamos a viver atraveú s da mesma configuraçaã o de açoã es
(de emocionar) que costumamos viver, Certamente, eu hoje sei mais sobre o que eú dito e sobre o que estaú ocorrendo no
domíúnio da globalizaçaã o do fluxo de informaçaã o, mas naã o eú a informaçaã o que constitui a realidade que vivemos. A
realidade que vivemos surge momento apoú s momento atraveú s da configuraçaã o das emoçoã es que vivemos, e que
conservamos com nosso viver instante apoú s instante. Mas se sabemos disso, se sabemos que a realidade que vivemos
surge atraveú s de nosso emocionar, e sabemos que sabemos, devemos ser capazes de agir de acordo com a conscieê ncia
de nosso querer ou naã o querer a realidade que estamos trazendo aà maã o no nosso viver. Ou seja, devemos nos tornar
responsaú veis por aquilo que fazemos.” P. 215-216
Notas
- Roman Jakobson (1896-1982), linguista e críútico literaú rio russo-americano. Seu primeiro trabalho, em linguíústica
estruturalista, contribuiu para o desenvolvimento da Escola de Praga da Linguíústica, que argumentava em favor de uma
eê nfase histoú rica no estudo dos sons da fala. Jakobson participou de algumas das Confereê ncias Macy de ciberneú tica, e
desenvolveu um modelo da comunicaçaã o humana;
- Karl von Frisch (1886-1982), zooú logo vienense. Preê mio Nobel de Medicina em 1973 por suas descobertas relativas aà
organizaçaã o e elicitaçaã o de padroã es individuais e sociais de comportamento. Seu trabalho pioneiro em percepçaã o
quíúmica e visual dos peixes e abelhas levou-o a descrever detalhadamente o modo como as abelhas se orientam e se
comunicam;