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09/01/2018 Escritos à mesa: O Demônio da Teoria: mímeses e literatura.

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Escritos à mesa

quinta-feira, 26 de maio de 2011 Minha lista de blogs

O Demônio da Teoria: mímeses e sites interessantes


literatura. http://teismo.net/quebrandoneoateism
o/
A mimèsis foi o termo mais usual desde a poética de Aristóteles, para referir-se à http://espectivas.wordpress.com/
relação entre literatura e realidade. No capítulo III O mundo do livro o demônio da
teoria, de Antoine Compagnon, estabelece-se um panorama sobre as discussões que
se sucederam, sobretudo, pelos teóricos da literatura, sobre a relação literatura e Seguidores
referência. Seguidores (15)

A maioria dos teóricos, ao longo da história da teoria literária, defenderam a


autonomia da literatura em detrimento a uma possível representação da realidade,
isto é, a forma era privilegiada e unicamente considerada como a própria estrutura da
literatura. A referência a uma exterioridade seria uma “ilusão”, tendo, pois, a literatura
Lizete
uma auto-referência, um diálogo a que só pertencia, meramente, ao texto enquanto
tal.
Seguir

Esse é o aspecto central, do qual Antoine Compagnon se baseia para defender uma
posição mimética, na qual a literatura não somente alude ao texto em si, mas que
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dela há uma relação com a realidade.
► 2014 (2)
A primeira discussão sobre essa noção de auto-referência é analisada sob as
► 2013 (1)
influências da lingüística estruturalista de Saussure, da qual foi determinada toda

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base autotélica, posteriormente usada pelos teóricos formalistas do estruturalismo e o ► 2012 (6)
pós-estruturalismo. Esse conceito lingüístico baseava-se, estritamente, em um estudo
▼ 2011 (9)
semiótico, cuja relação entre signos, (e não mais entre palavra e coisa), se
► Dezembro (1)
sobrepunha a mimèsis. A noção Saussuriana dos signos lingüísticos, como uma
constituição arbitrária entre um significante e significado, foi tomada a partir de uma ► Novembro (1)
interpretação equivocada por alguns teóricos como Barthes e Jackobson, que lhes
► Setembro (1)
permitiu uma adequação e base para afirmação de que a literatura fala dela mesma e
não de outra coisa, seja pela “intertextualidade” ou pelo “dialogismo”. ► Agosto (2)

► Julho (3)
Antoine compagnon divide a discussão que se sucede em dois grupos antagônicos:
▼ Maio (1)
o primeiro, diz respeito aos principais teóricos que são contra a noção mimética da
O Demônio da Teoria: mímeses
literatura; o segundo, àqueles que são a favor de uma literatura mimética, da qual se e literatura.
reflete para algo exterior, propriamente fora da expressão, da forma como referência
única. O ponto de partida se dá, portanto, através da interpretação mimética da
poética de Aristóteles, interpretação pela qual Antoine compagnon demonstra não ser
a única, mas a mais comumente aceita. De um lado, Barthes alega que a mimèsis é Quem sou eu
repressiva, por estar ligada a doxa, ou seja, aquilo que remete ao senso comum, à Evandro Souza.
construção social e à ideologia. Por outro lado Jackobson fundando os seis fatores da
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comunicação (emissão, mensagem, destinatário, contexto, código e contato), e entre
completo
as seis funções da linguagem, duas especialmente solicitadas (função referencial e
função poética), determinava que na literatura haveria uma função que se referia
(função poética) a ela mesma.

Para compreender, precisamente, o que levou ao aprisionamento da literatura a si


própria, pelos teóricos da literatura, era necessário, portanto, remontar a poética de
Aristóteles. Em Aristóteles a mimèsis expressava a relação de verossimilhança ao
sentido natural, enquanto para Barthes, a mimèsis foi interpretada em relação ao
sentido cultural, à doxa, ou seja, a opnião, àquilo que é senso comum ou ideologia.
Para Platão, a mimèsis é subversiva, pois a arte como tal, poderia comprometer a
ordem social, a organização da polis. No entanto, Antoine Compagnon discorre sobre
algumas alterações no sentido da palavra mimèsis quanto ao seu uso, estabelecida
pelo próprio Aristóteles na poética, ou seja, o drama e a epopéia, antes opostas pela
diègesis, (narrativa) passa agora a se opor em termos de representação da história,
tido como discurso direto e exposição da história ou discusso indireto. A mimèsis,
pois, passa a ser a representação das ações humanas, cabendo a ela, tanto na
epopéia quanto no drama, o muthos, a história, que era técnica no sentido
propriamente da construção da narrativa.

Essa interpretação, empregada por Antoine compagnon, apresentava a mimèsis


como uma análise que se prestigiava propriamente da linguagem enquanto forma,
estrutura do estudo da história e da técnica da narrativa enquanto tal. Em suma, a
concepção diversa e pouco comum determinada por Antoine Compagnon favorecia,
em geral a noção antimimética, pois o campo semântico era totalmente excluído da
análise.

Mais adiante a ambigüidade entre mimèsis, tida como imitação natural ou cultural,
era um problema apontado desde os teóricos da doutrina clássica, que resolveram
determinar a mimèsis como imitação da natureza, por analogia à tradição literária
clássica, que era a de imitar as obras, que eram consideradas grandes modelos
literários.

Ademais, Antoine compagnon atenta para a interpretação do termo doxa, tomado


pelos teóricos como sendo próprio o verossímil, o qual é construído, pela opnião ou
pela ideologia. Essa linha de pensamento foi seguida pela maioria dos teóricos
marxistas, cuja noção da referência da realidade se restringia, meramente, à
ideologia, à convenção. Essa concepção, como se observa, reduzia a linguagem à
ideologia. A noção marxista da referencialidade como convenção, impor-nos-ia a uma
luta ininterrupta de convenções, cujas manifestações seriam apenas a expressão
legítima da luta de classes. Essa e outras questões contribuíam no auxílio de análises
frágeis e equivocadas, que permeavam com radicalismo a teoria literária.

Toda a discussão que se segue em sua obra, baseada na crítica da auto-ilusão,


proposto, sobretudo no artigo O Efeito de Real de Barthes, renegava a literatura ao
isolamento, não referindo a realidade senão a ela mesma, mediante signos,

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determinando a “ilusão referencial” como uma espécie de prisão. Essa noção, tal qual
expressa por Barthes, elimina quaisquer possibilidades de distinção do leitor entre
ficção e realidade. Compagnon, entretanto, demonstra alguns vestígios de viabilidade,
mediante autores como Bakhtine, cuja noção de “dialogismo” apresentava uma
abertura a uma referência fora da literatura, estabelecendo o conjunto social como um
reflexo do conjunto textual. Um outro teórico chamado Rifaterre, afirmava que a língua
correspondia a uma unidade significativa, contudo, essa unidade correspondia
apenas à linguagem cotidiana; isolando, assim, o texto literário, cuja unidade
significativa era a própria forma poética, denominada de significância. Nos dois casos,
vimos que tanto em Bakhtine, quanto em Rifaterre, o referencial a algum traço
mimético perde espaço para o isolamento do texto.

Para refutar a concepção estruturalista, Compagnon busca em autores como


Northrop Frye, os componentes necessários para que pudesse, definitivamente,
reconhecer a natureza mimética da literatura como processo constitutivo e legítimo da
mesma. A partir da defesa mimética, há, portanto, a ressalva das três noções
poéticas propostas por Northrop: O muthos (a história, intriga), a dianoia (intenção,
tema ou pensamento), e anagnôrisis (reconhecimento). Contudo, Northrop não
especifica sobre o que exatamente se refere à intenção ou pensamento, nem se a
intenção condiz à intenção do autor ou a intenção “auto-sugestiva” do texto. Frye
indica, pois, que a função da mimèsis não é, restritamente, cópia, mas uma
construção de fatos que pode ser revelada por meio dos acontecimentos da narrativa,
pela nossa inteligibilidade. Neste aspecto o texto conduzir-nos-ia ao reconhecimento
(anagnorisis), daquilo a que o texto faz referência.

Frye se pauta na noção de reconhecimento para propor, a partir de uma análise da


tragédia de Édipo, que a literatura revela um reconhecimento, pelo qual se adquire a
consciência da sua condição através do herói. Esse reconhecimento foi estabelecido
como um reconhecimento “interior” (que é revelado pelo herói), ao passo que haveria
um reconhecimento “exterior”, cuja apreensão seria feita pelo leitor, daquilo que
poderia ter sido se houvesse um caminho ou história inversa a da narrativa trágica.
No entanto, Compagnon mantém a discussão apenas sobre o foco da ambigüidade
do reconhecimento, se esse reconhecimento seria de fato apreendido por uma
apropriação do leitor ou um resultado da estrutura da literatura. Não há, entretanto,
uma contestação sobre a validade do reconhecimento, se fosse aplicado aos outros
gêneros como o romance e a prosa.

O muthos, portanto, recebe um destaque maior e passa a ser, assim como a


mimèsis, não mais uma operação, mas a própria estrutura, onde a intriga torna-se a
própria representação das ações humanas. Desses conceitos, a mimèsis é
apresentada, não como uma cópia da realidade, mas como uma configuração que se
relaciona com a nossa inteligibilidade, cuja ação do tempo e a dimensão renovam as
leituras, as novas interpretações, dando dinamicidade, reconhecimento, e abrangendo
conhecimentos que se sobrepõem ao que é comum.

Postado por Evandro Souza. às 13:29

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