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Desde o século XVI, duas correntes filosóficas se enfrentavam na Europa: de

um lado o Empirismo Britânico; de outro, o Racionalismo da filosofia


continental.
A tradição do Empirismo negava a importância da metafísica e também da
existência de ideias inatas no ser humano. Era um modelo indutivo (método
científico que obtém conclusões gerais a partir de premissas individuais), que
diz que nascemos sem conhecimento e que o adquirimos a partir de
experimentos, na qual o ponto de partida para realizá-los seria a observação e
constatação de fatos particulares para logo depois haver a experiência e então,
verificar a hipótese. Ou seja, para eles todo o conhecimento tinha origem nos
sentidos e na experiência, o que nada mais é do que o antigo ensinamento de
Aristóteles.
Já o Racionalismo dava importância à metafísica e afirmava a existência das
ideias inatas no homem. Era um modelo dedutivo (método científico de
raciocínio lógico que faz uso da dedução para obter uma conclusão a respeito
de determinadas premissas), na qual o conhecimento é obtido através da
razão, partindo da hipótese até chegar na verificação da realidade.

Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão e fundador da “Filosofia Crítica” foi


um dos principais pensadores do período moderno da filosofia, e dedicou-se a
entender e resolver a confusão e debates em relação a natureza do nosso
conhecimento. Nesse momento de conflito entre essas duas corrente, Kant,
simplesmente ultrapassou este antigo debate e afirmou que ambos estavam
certos e errados ao mesmo tempo. Para ele, as ideias inatas existem sim, só
que Kant prefere o termo a priori, mas esse a priori necessita da experiência
para confirmar-se. A matemática, por exemplo, é totalmente a priori, não teve
origem na experiência. Nem mesmo nossas ideias morais.

Antes deste pensamento, na fase pré-crítica, Kant era um Racionalista


Dogmático (acreditava que apenas a razão levava ao conhecimento). Isso
fortemente se constata por causa de sua influência de Leibniz e Wolff,
sobretudo no contexto alemão de sua época. O trabalho de despertá-lo do
dogmatismo coube à leitura de David Hume. O ceticismo humeano abalou Kant
que tentava uma defesa do racionalismo contra o empirismo cético. Dessa
forma, Immanuel Kant notou que as questões levantadas pelos empiristas
levaram-no a elaborar o seu racionalismo crítico (ou criticismo, que é a posição
metodológica que mistura o método racionalista e o método empirista) na
intenção de superar a rivalidade existente entre o racionalismo e o empirismo.

A ideia crítica de Kant só aparece em 1781, com a Crítica da razão pura. Sua
filosofia é fruto de um longo processo de elaboração e o que o conduziu a essa
idéia não foi, entretanto, as rejeições à metafísica clássica, mas o fato de
possuir a consciência da incerteza dessas conclusões e a fraqueza dos
argumentos ao qual a metafísica estava embasada. Na Crítica da razão pura,
ele vai criticar a possibilidade de atingir o conhecimento simples e pura apenas
por observação. Isso porque, a ideia pode ser uma imaginação, pode não ser
cem por cento conhecimento. Ele tratou de fundamentar o conhecimento
humano e fixar seus limites. Diante da questão, “Qual é o verdadeiro valor dos
nossos conhecimentos?” Kant colocou a razão num tribunal para julgar o que
pode ser conhecido legitimamente e que tipo de conhecimento não tem
fundamento.

Portanto, para ele o conhecimento deve constar de juízos universais, da


mesma maneira que deriva da experiência sensível. Para sustentar essa
contradição, Kant explicou que o conhecimento é constituído de matéria e
forma ao mesmo tempo . “A matéria dos nossos conhecimentos são as
próprias coisas e a forma somos nós mesmos”. A experiência que vem de fora
(a posteriori) é a matéria do conhecimento, na qual os empiristas concordam. E
a da forma seria o conhecimento que vem de nós (a priori).

É importante frisar que diferentemente do conhecimento provável de Hume, o


conhecimento de Kant era categórico. Ou seja, era necessário sensibilidade
(acontecimentos) e entendimento para obtê-lo. Pela primeira são nos dado os
objetos, e pela segunda esses objetos são pensados. Assim podemos dizer
que o nosso conhecimento é formado com a contribuição das intuições que são
fornecidas pela nossa sensibilidade. Contudo, essas intuições precisam ser
articuladas por esquemas a priori que são constitutivos da própria racionalidade
humana, da própria condição do conhecimento. Isto significa que o
conhecimento é adquirido, em parte pela experiência da ralação entre o sujeito
e o objeto, e em parte por algo que é produzido pelo próprio sujeito. O
conhecimento então, para Kant, não é reprodução passiva de um objeto por
meio do sujeito, mas construção ativa do objeto por parte do sujeito.

Só a sensibilidade nos fornece intuições com as quais o entendimento trabalha.


Assim, uma definição mais primária de conhecimento em Kant é “dar forma a
uma matéria dada.” Mas Kant vai mais além e introduz o conceito de intuição
pura, ou seja, forma pura da sensibilidade. Essas intuições puras são o espaço
e o tempo. Resta-nos então, entendermos o que significam esses conceitos.

Primeiramente é importante esclarecer o que significa, no pensamento


kantiano, intuir. Para o autor, a intuição é a visão direta e imediata de um objeto
de pensamento atualmente presente ao espírito e apreendido em sua realidade
individual. Nesse sentido, toda intuição é sempre sensível. Dessa forma,
podemos dizer que conhecer é primeiramente intuir.

Os conceitos de tempo e espaço são de vital importância na teoria do


conhecimento em Kant pois, para ele, nada fora do espaço e do tempo pode
ser conhecido. Sendo, espaço e tempo, formas a priori que já existem no
sujeito e servem para organizar as coisas, porém isso não significa que sejam
apenas aparências, são “algo realmente dado”. Mas, como o seu conhecer
depende do modo de intuição do sujeito na relação com o objeto, distingue-se
o seu fenômeno daquilo que ele é em si.
A coisa em si está para além da experiência possível. A estrutura da
sensibilidade não permite ao sujeito chegar à coisa em si, mas apenas ao
fenômeno. Este sim é produto de uma experiência possível, ele é o que aparece
do objeto ao sujeito. Essa distinção ente a coisa em si (essência) e o fenômeno
não se dá no objeto, mas sempre na relação entre o sujeito e o objeto no
processo do conhecimento.

Outros dois conceitos importantes na teoria do conhecimento em Kant são a


matéria e a forma. Em linhas gerais, aquilo que depende da sensação que
próprio sujeito tem do objeto constitui a matéria do conhecimento. O que
depende do sujeito constitui a forma do conhecimento. Por isso podemos afirmar:
“conhecer é dar forma à matéria dada.”

Já o entendimento é ato de pensar ou produzir conceitos. E assim como na


faculdade da sensibilidade, Kant identificou formas a priori, que são as
categorias. Entre 12 categorias, é possível destacar três: a substância, a
causalidade e a existência. Quando observamos a natureza e afirmamos que
uma coisa “é isto”, “tal coisa é causa de outra” ou “isto existe”, temos, de um
lado, coisas percebíveis pelo sentido, isto é respectivamente as categorias de
substância, de causalidade, de existência. Essas categorias não vêm de
experiência, mas são postas pelo próprio sujeito.

Com sua teoria, Kant garante que o conhecimento científico é universal e


necessário. No entanto, trata-se do conhecimento fenomênico, isto é, restrito
aos fenômenos, aos quais temos acesso pelos sentidos e pelo entendimento.
Poderíamos, porém, conhecer a coisa em si (o noumenon)?
Ao dizer conhecimento científico, Kant quer dizer a matemática, a física e a
astronomia (por exemplo), que são verdades de valor universal e necessário.
Em outras palavras, esses conhecimentos são reconhecidos como verdadeiros
para todas as pessoas, não há dúvidas.
Sendo indubitáveis, os conhecimentos científicos "quebraram" a teoria do
ceticismo, ou seja, é provado que existe uma verdade inquestionável.
NO ENTANTO, os conhecimentos científicos (verdades confirmadas) são
restritas aos fenômenos (temos acesso por meio dos sentidos e pelo
entendimento), e não ao conhecimento da real essência da coisa, a coisa em si
(noumenon). “Coisa em si” são as ideias da razão para as quais a experiência
não nos dá o conteúdo necessário, é a essência. Dessa forma, não há como
conhecer a coisa em si pois o conhecimento humano limita-se ao campo da
experiência. Como o ser humano sempre busca ir além do que ele conhece por
experiência, Kant analisou cada uma das ideias Metafísicas, que chamou de
antinomia (argumentos contraditórios que se opõem em tese e antítese).
A conclusão de Kant então, foi que é impossível o conhecimento metafísico.
Por isso, devemos evitar afirmar ou negar qualquer coisa a respeito dessas
realidades.

Em um de suas obras, A Crítica da razão pura, Kant analisou o mundo ético


recolocando algumas questões da liberdade humano, da imortalidade da alma
e da existência de Deus, que podem apenas serem pensadas e não
conhecidas efetivamente. A nossa razão, portanto, não consegue
objetivamente conhecer os objetos que correspondam aos conceitos pensados:
"Deus", "alma imortal" e "liberdade". Sendo impossível obter o conhecimento
real da metafísica, Kant se voltará para a razão prática. Kant vê a necessidade
de ultrapassar o uso reflexivo e intelectual que fazemos da razão para uma
razão que também tenha um uso prático. A isto Kant chamou de "razão
prática". Portanto se não é dado conhecermos estes três conceitos
intelectualmente e para não aceitá-los dogmaticamente, é necessário os
justificar e os fundamentar através da razão prática. É inerente a razão prática
admitir a realidade da liberdade, da alma imortal e de Deus. Disse Kant: "Fui
obrigado, portanto, a suprimir o saber para dar lugar à fé". Mas nesta frase a
"fé" pressupõe uma fundamentação pela razão prática e não pela revelação e
crença.

Kant foi um dos pais da chamada “Revolução Copernicana” na filosofia: Um


antropocentrismo radical, nele personificado no seu Idealismo Transcendental.
Essa expressão remete a Copérnico, que contrariou a teoria geocêntrica ao
apresentar a hipótese da Terra girando em torno do Sol. Desse mesmo modo,
Kant contestou a metafísica anterior segundo a qual o conhecimento se
regulava pelos objetos para afirmar que, ao contrário, são os objetos que
devem regular-se pelo nosso conhecimento, só existe se o sujeito os percebe.
Então, sem sujeito não há objeto. Da mesma forma, o espaço e o tempo não
existem fora do sujeito, pois não existe a possibilidade de saltarmos para fora
do tempo, digamos assim. A partir desses fatos, a mente humana passa a ter
uma importância muito ampliada, pois não somos jogados em um mundo de
objetos sensíveis, mas são as coisas que passam a girar ao redor de nós, pois
sem uma mente para reconhecê-los, os mesmos não existiriam.

Da crítica feita por Kant à metafísica, surgiram duas linhas divergentes que
orientaram o pensamento dos filósofos do século XIX:

1. A primeira, representada pelos materialistas (Feuerbach) e positivistas


(Comte). Para Comte, a ciência (o saber positivo) é a forma mais
adequada de conhecimento. Para Feuerbach a matéria é anterior ao
espiritual e o determina. Posteriormente, os materialistas dialéticos Karl
Marx e Friedrich Engels incorporaram ao materialismo de Feuerback a
noção hegeliana de dialética. Para Comte, a ciência (o saber positivo) é
a forma mais adequada de conhecimento.
2. A segunda, dos idealistas, que levaram às últimas consequências a
capacidade que Kant atribuía à razão de impor formas a priori ao
conteúdo dado pela experiência.

Entretanto, acabou percebendo que era necessário a vivência/experiência para


então refletir com a razão.