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Universidade Federal do Maranhão

Programa de Pós Graduação


Mestrado em Direito e Instituições do Sistema de Justiça

Disciplina: Liberalismo Político e Instituições de Justiça


Obra: A Sociedade aberta e seus Inimigos (2º Volume) – Karl Popper

A PROFECIA DE MARX

Capítulo 18 – O Advento do Socialismo.

O método adotado por Marx é o historicismo econômico, em que cada


sistema social particular deve destruir-se a si mesmo, porque deve criar as forças que
produzem o período histórico seguinte. No feudalismo, por exemplo, já existiam as
características do capitalismo.

E quais seriam as forças fundamentais ou essenciais que destruirão ou


transformarão o capitalismo? Foi o que procurou Marx em O Capital, com a análise das
forças econômicas fundamentais do capitalismo e sua influência sobre as relações entre
as classes.

Popper sistematiza o pensamento de Marx em três passos.

No primeiro passo, Marx analisa o método da produção capitalista,


defendendo que há uma tendência entre o aumento da produtividade do trabalho e a
acumulação dos meios de produção. Essa acumulação resultará no acréscimo da riqueza
da burguesia (classe dirigente), e da miséria dos trabalhadores (classe governada).

No segundo passo, Marx entende que com exceção da pequena burguesia e


da imensa classe trabalhadora, as demais classes tendem a desaparecer ou a se tornarem
insignificantes. A tensão entre burguesia e classe trabalhadora é cada vez maior,
resultando em uma revolução social.

No terceiro passo, após a vitória final dos trabalhadores sobre a classe


burguesa, haverá uma sociedade sem classes e sem exploração, isto é, o socialismo.

Popper inverte a análise dos passos para criticá-los.

Em relação ao terceiro passo, o autor até admite que numa luta de classes,
só os trabalhadores poderiam vencer, pois caso a pequena burguesia prosperasse, ela
deixaria de existir, pois a burguesia depende da classe trabalhadora para sua existência,
mas não o contrário.

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Entretanto, discorda que eventual vitória da classe trabalhadora resultaria


em uma sociedade sem classe, principalmente porque a unidade e a solidariedade de
uma classe é parte da consciência de classe, que existe enquanto há a tensão na luta de
classes. Ou seja, a classe trabalhadora existe enquanto existir uma classe inimiga
burguesa. Portanto, o mais provável de acontecer é que mesmo o proletariado ganhando
a luta, alguns revolucionários assumirão o poder, formando uma espécie de aristocracia
ou burocracia.

Além disso, não há necessariamente uma solidariedade entre os oprimidos,


pois pode haver a busca de interesses próprios e sempre há grupos menos afortunados.

Popper afirma que ninguém conseguiu provar que o socialismo ou


comunismo é o único sucessor possível do capitalismo. Pelo contrário, os fatos
históricos vão justamente de encontro a essa previsão. Na verdade, o próprio
capitalismo evoluiu, com a maior intervenção do Estado, especialmente em questões
sociais. Portanto, sequer existe hoje o capitalismo previsto por Marx. As democracias
modernas acabaram implantando vários pontos do Programa Comunista de Marx.

Popper critica Marx por só fazer a previsão de dois mundos alternativos: um


capitalismo ruim e um socialista bom, e considerando a experiência russa, ressalta que o
marxismo defendia que revolução proletária deveria ter sido o resultado final da
industrialização, e não o contrário, e que deveria ter surgido primeiro em países
altamente industrializados, e não rurais como a Rússia.

Capítulo 19 – A Revolução Social

Popper trata, então, do segundo passo, especialmente da premissa de Marx


de que no capitalismo há um aumento da riqueza de uma burguesia numericamente em
declínio e da miséria de uma classe trabalhadora crescente, e que as outras classes,
como a classe média (pequena burguesia e capitalistas mais fracos), tende a desaparecer.
No caso da classe média, por exemplo, incorporar-se-ia ao proletariado.

Popper continua sua crítica a Marx de não levar em consideração outros


desenvolvimentos possíveis. Marx não leva em consideração, por exemplo, as
peculiaridades dos trabalhadores rurais, que não necessariamente se fundirão aos
trabalhadores urbanos. Da mesma forma, o crescimento da miséria não acarretará
necessariamente uma maior solidariedade entre os oprimidos:

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Assim, em oposição à profecia de Marx, que insiste em que se deve


desenvolver uma nítida divisão entre as duas classes, verificamos que
segundo suas próprias suposições as seguintes estruturas de classe poder-se-
ão desenvolver: 1) burguesia; 2) grandes proprietários de terras, 3) outros
proprietários de terras; 4) trabalhadores rurais; 5) nova classe media; 6)
trabalhadores industriais; 7) proletariado-ralé. (Qualquer outra combinação
dessas classes pode, naturalmente, desenvolver-se também). E verificamos,
mais ainda, que tal desenvolvimento têm possibilidades de minar a unidade
dos trabalhadores industriais. (p. 155)

Sobre a Revolução Social, trata-se de um conceito histórico da transição do


capitalismo para o socialismo:

A revolução social é uma tentativa de um proletariado amplamente unido


para conquistar completo poder político, empreendida com a firme resolução
de não hesitar ante a violência, se a violência for necessária para alcançar
esse alvo, e de resistir a qualquer esforço de seus adversários para
reconquista da influência política. (p. 157)

Para Popper, é justificável a revolução violenta somente no caso de


implantar uma verdadeira democracia, e não algo vago como “governo do povo”: “Em
outras palavras, o uso da violência só é justificado sob uma tirania que torne
impossíveis as reformas sem violência, e deve ter um só alvo, isto é, alcançar um estado
de coisas que torne possíveis as reformas sem violência”. (p. 158)

A outra possibilidade de uso da violência que Popper admite é a defesa da


democracia de qualquer ataque (dentro ou fora do Estado) contra a Constituição
democrática e o uso de métodos democráticos.

Para Popper, a violência é um dos aspectos mais criticáveis na teoria de


Marx. É possível distinguir duas alas marxistas de acordo com a intepretação da
revolução social: uma ala radical e uma ala moderada. A ala mais radical considera que
todo governo de classe é uma ditadura, portanto, a classe trabalhadora estaria autorizada
a empregar a violência. Já a ala moderada entende que é possível a implantação do
socialismo por meio de reformas pacíficas e graduais em uma democracia.

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Entretanto, mesmo a ala moderada afirma que a classe dirigente seria


contrária a essas reformas e usaria para tanto da violência. Nesse ponto, a classe
trabalhadora estaria, então, autorizada a também fazer uso da violência.

Considerando que Marx adotou no final da vida a posição mais moderada,


Popper afirma que uma interpretação evolucionária da “revolução social” destrói todo o
pensamento marxista.

Para Popper, o marxismo apresenta duas ambiguidades, especialmente


exploradas pela ala moderada: a primeira é a atitude ambígua em relação à violência e a
segunda o significado da “conquista do poder político pelo proletariado”.

Parte dos marxistas é contra de democracia, e acreditava que a ascensão dos


fascistas representava a última etapa da burguesia. Logo, ficaram inertes quando tal
grupo assumiu o poder.

Capítulo 20 – O Capitalismo e Seu Destino

Para o marxismo, o capitalismo opera sob contradições internas que


levariam a sua queda.

Partindo da premissa de que o capitalismo ocasiona o crescimento da


riqueza em poucas mãos e da miséria, baseado nas leis de competição e da acumulação
dos meios de produção, Popper critica especialmente a segunda premissa, de que o
capitalismo provoca o aumento da miséria.

Para Marx, a miséria crescente envolve a exploração crescente dos


trabalhadores empregados, não só em número (exército de reserva industrial), como
também em intensidade. O mecanismo da produção capitalista produz sempre
população excedente – chamado exército industrial de reserva – que necessita para
conservar baixos os salários dos operários que emprega:

Com isto quero referir-me à doutrina de Marx sobre que gira toda a
argumentação profética, a saber, a doutrina de que o capitalismo não pode de
modo algum permitir que diminua a miséria dos trabalhadores, visto que o
mecanismo da acumulação capitalista conserva o capitalista sob forte
pressão econômica que ele é obrigado a transmitir aos trabalhadores, se não

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quiser sucumbir. Eis porque os capitalistas não podem transigir, eis porque
não podem aceitar qualquer exigência importante dos trabalhadores, ainda
que desejasse fazê-lo; eis porque “o capitalismo não pode ser reformado, só
podendo ser destruído”. (p. 175)

Popper até concorda com a tendência de acúmulo e concentração de riqueza,


mas discorda de que essa riqueza tende a se concentrar em poucas mãos, pois isso só
aconteceria inevitavelmente em um capitalismo irrestrito.

Popper considera a teoria do valor e da mais-valia de Marx um dos aspectos


menos importantes em sua teoria, pois a teoria de Marx não basta para explicar a
exploração. Por outro lado, as suposições adicionais necessárias a tal explicação
mostram-se suficientes, como as leis da oferta e da procura, mostrando-se assim
redundante, essencialista e metafísica a teoria do valor.

Quanto às crises cíclicas do capitalismo, Popper pontua que Marx sempre


investigou um capitalismo irrestrito e nunca considerou o intervencionismo, portanto,
“nunca investigou a possibilidade de uma interferência sistemática no ciclo dos
negócios e muito menos apresentou uma prova de sua impossibilidade” (p. 189).

Marx, em suma, errou em suas profecias, pois considerou unicamente a


realidade do capitalismo irrestrito:

O terrível quadro que Marx traça da economia de seu tempo não é senão
demasiado verdadeiro. Mas sua lei de que a miséria deve crescer juntamente
com a acumulação não se sustenta. Os meios de produção se têm acumulado
e a produtividade do trabalho tem aumentado desde seus dias, a uma
extensão que mesmo ele dificilmente teria considerado possível. Mas o
trabalho infantil, as horas de tarefa, a agonia da fadiga e a precariedade da
existência do trabalhador não aumentaram; tudo isso declinou. (p. 193)

Capítulo 21 – Uma Avaliação da Profecia

Os argumentos que alicerçam a profecia de Marx não são válidos, apesar de


sua análise descritiva sociológica e econômica ter sido certeira.

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Marx também acertou na tendência de acumulação dos meios de produção e


no aumento da produtividade do trabalho, além de sua concepção de ciclo de negócios e
que a associação dos trabalhadores culminaria na derrocada do capitalismo, ainda que
fosse apenas o capitalismo irrestrito.

Popper, entretanto, afirma que as profecias corretas de Marx não são


decorrentes de seu método historicista, mas dos métodos de análise institucional: “Marx
apenas teve êxito enquanto analisou instituições e suas funções”. Em uma das críticas
mais contundentes, Popper afirma que as profecias de Marx são como uma fé religiosa.

A ÉTICA DE MARX

Capítulo 22 – A Teoria Moral do Historicismo

Marx condena moralmente o capitalismo, pois acredita que se assemelhava


à escravidão. O Capital seria um tratado de ética social. Apesar de defender em certa
medida um ativismo, em que os homens devem provar-se por meio de ações, o seu
historicismo acaba por contrariar o ativismo, pois defende à submissão de todos a forças
irracionais da história:

Essa teoria da moralidade pode ser caracterizada como historicista porque


sustenta que todas as categorias morais são dependentes da situação
histórica; é ela costumeiramente descrita como relativismo histórico no
campo da ética. (p. 209)

Popper critica por fim o entendimento de que a decisão fundamental em


favor de um dos sistemas morais ou contra eles não é por si só uma decisão moral, mas
apenas um predição histórica científica (determinismo sociológico), pois a decisão
fundamental não pode ser derivada de qualquer conhecimento futuro.

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