Você está na página 1de 17
2004 Histórias de Sucesso Experiências Empreendedoras

2004

Histórias de Sucesso

Experiências Empreendedoras

2004 Histórias de Sucesso Experiências Empreendedoras

COPYRIGHT © 2004, SEBRAE – SERVIÇO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É permitida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio, desde que divulgadas as fontes.

SEBRAE – Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

Presidente do Conselho Deliberativo Nacional Armando Monteiro Neto

Diretor-Presidente

Silvano Gianni

Diretor de Administração e Finanças Paulo Tarciso Okamotto

Diretor Técnico Luiz Carlos Barboza

Gerente da Unidade de Estratégias e Diretrizes Gustavo Henrique de Faria Morelli

Coordenação do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso Renata Barbosa de Araújo Duarte

Comitê Gestor do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso Cezar Kirszenblatt, SEBRAE/RJ; Daniela Almeida Teixeira, SEBRAE/MG; Mara Regina Veit, SEBRAE/MG; Renata Maurício Macedo Cabral, SEBRAE/RJ; Rosana Carla de Figueiredo Lima, SEBRAE Nacional

Orientação Metodológica Daniela Abrantes Serpa – M.Sc., Sandra Regina H. Mariano – D.Sc., Verônica Feder Mayer – M.Sc.

Diagramação

Adesign

Produção Editorial Buscato Informação Corporativa

D812h

Histórias de sucesso: experiências empreendedoras / Organizado por Renata Barbosa de Araújo Duarte – Brasília: Sebrae, 2004.

412 p. : il. – (Casos de Sucesso, v.2)

Publicação originada do projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso do Sistema Sebrae. ISBN 85-7333-386-3

1. Empreendedorismo 2. Estudo de caso 3. Agronegócio 4. Extrativismo 5. Indústria, comércio e serviço I. Duarte, Renata Barbosa de Araújo II. Série

CDU 65.016:001.87

BRASÍLIA SEPN – Quadra 515, Bloco C, Loja 32 – Asa Norte 70.770-900 – Brasília Tel.: (61) 348-7100 – Fax: (61) 347-4120 www.sebrae.com.br

PROJETO DESENVOLVENDO CASOS DE SUCESSO

OBJETIVO

O Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso foi concebido em 2002 a partir das prioridades

estratégicas do Sistema SEBRAE com a finalidade de disseminar na própria organização, nas instituições de ensino e na sociedade as melhores práticas de empreendedorismo individual e coletivo observadas no âmbito de atuação do SEBRAE e de seus parceiros, estimulando sua multiplicação e fortalecendo a Gestão do Conhecimento do SEBRAE.

METODOLOGIA “DESENVOLVENDO CASOS DE SUCESSO”

A metodologia adotada pelo projeto é uma adaptação do consagrado método de estudos

de caso aplicado em Babson College e Harvard Business School, que se baseia na história real de um protagonista, que, em dado contexto, se encontra diante de um problema ou de um dilema que precisa ser solucionado. Esse método estimula o empreendedor, o aluno ou a instituição parceira a vivenciar uma situação real, convidando-o a assumir a perspectiva do protagonista.

O LIVRO HISTÓRIAS DE SUCESSO – Edição 2004 Esse trabalho é o resultado de uma das ações do projeto Desenvolvendo Casos de Su- cesso, elaborado por colaboradores do Sistema SEBRAE, consultores e professores de ins- tituições de ensino parceiras. Esta edição é composta por três volumes, em que se descrevem 76 estudos de casos de empreendedorismo, divididos por área temática:

• Volume 1 – Artesanato, Turismo e Cultura, Empreendedorismo Social e Cidadania.

• Volume 2 – Agronegócios e Extrativismo, Indústria, Comércio e Serviço.

• Volume 3 – Difusão Tecnológica, Soluções Tecnológicas, Inovação, Empreendedorismo e Inovação.

DISSEMINAÇÃO DOS CASOS DE SUCESSO DO SEBRAE

O site Casos de Sucesso do SEBRAE (www.casosdesucesso.sebrae.com.br) visa divulgar as

experiências geradas a partir das diversas situações apresentadas nos casos, bem como suas soluções, tornando-as ao alcance dos meios empresariais e acadêmicos.

O site apresenta todos os estudos de caso das edições 2003 e 2004, organizados por área de

conhecimento, região, municípios, palavras-chave e contém, ainda, vídeos, fotos, artigos de jornal, que ajudam a compreender o cenário onde os casos se passam. Oferece também um manual com orientações para instrutores, professores e alunos de como utilizar o estudo de caso na sala de aula. As experiências relatadas ilustram iniciativas criativas e empreendedoras no enfrentamento de problemas tipicamente brasileiros, podendo inspirar a disseminação e aplicação dessas soluções em contextos similares. Esses estudos estão em sintonia com a crescente importância que os pequenos negócios vêm adquirindo como promotores do desenvolvimento e da geração de emprego e renda no Brasil. Boa leitura e aprendizado!

Gustavo Morelli

Gerente da Unidade de Estratégias e Diretrizes

Renata Barbosa de Araújo Duarte

Coordenadora do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso

HISTÓRIAS DE SUCESSO – EXPERIÊNCIAS EMPREENDEDORAS

EDIÇÃO 2004

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO

INTRODUÇÃO

“Mulher de fibra, sim, sinhô!”

PARAÍBA MUNICÍPIO: MONTEIRO

E ntre os 31 municípios que compõem a região do Cariri paraibano, a cidade de Monteiro se destaca por ser um pólo regional, embora sua

economia e suas características territoriais sejam bastante comuns a todos

os outros municípios vizinhos. Com baixa densidade empresarial, a maioria dos empregos existentes naquela cidade estava concentrada nas repartições públicas. Em 1998, uma mulher de pouca instrução e quase nenhum capital acre- ditou em seu potencial empreendedor e ousou iniciar um pequeno negó- cio que foi capaz não só de gerar oportunidades de trabalho para si e para outras pessoas de sua comunidade, mas também de ser uma referência de empreendimento bem-sucedido numa região onde havia poucas perspec- tivas para a criação de negócios competitivos e sustentáveis. Alcançar o êxito, no entanto, não foi tarefa fácil. A falta de habilidades gerenciais e de crédito e o pouco know-how adquirido para confeccionar moda íntima de qualidade eram apenas alguns dos obstáculos a serem superados. Nada impediu, porém, que Dulcimar Alves Pinheiro desse os primeiros passos.

Augusto Wagner AugustoWagner

EMPRESÁRIA CIMAR EM SUA PRONTA ENTREGA

SUPERVISÃO DA PRODUÇÃO DA EMPRESA

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO – SEBRAE/PB

VOLTANDO NO TEMPO

M onteiro, cidade de fortes traços culturais, da música e da poesia, das rendeiras de Renascença e das paisagens típicas do semi-árido nor- destino, não apresentava indicadores sociais e econômicos animadores naquele ano 1998. O IDH do município era de 0,449 – considerado bai- xo pelas Nações Unidas – e refletia a média dos baixos índices de educa- ção, saúde e renda de sua população, em grande parte situada na zona

urbana por força da migração rural. Distante 306 quilômetros da capital do Estado, João Pessoa, sua popu- lação registrava cerca de 27 mil habitantes, distribuídos em 986 km 2 , o que caracterizava Monteiro como o maior município paraibano em extensão territorial. Desde meados da década de 1970, sua taxa de urbanização mantinha-se crescente, o que se justificava pelo processo de descapitali- zação do pequeno produtor rural diante dos longos períodos de estiagem

e pela desestruturação das culturas do algodão e do sisal, atividades de peso econômico naqueles tempos. Tratando de economia local, em 1998 as atividades agrícolas tinham pouca relevância e apresentavam baixo padrão produtivo. Isso porque o

regime pluvial daquela região era escasso e sujeito a secas periódicas. Já

a pecuária de pequeno porte, particularmente a criação de caprinos e ovi-

nos, vinha encontrando condições mais favoráveis de sustentabilidade devido à maior resistência e adaptabilidade desses animais àquele hábitat. Quanto ao comércio, este respondia pela geração de boa parte do pro- duto e dos postos de trabalho municipais, em especial o comércio vare- jista. Mercearias, mercadinhos e lojas de confecções eram os ramos que somavam maior número de estabelecimentos. E, ainda, os serviços, igualmente expressivos, tinham importância vin- culada ao setor público que, na falência do setor primário, passou a ser a principal fonte de emprego e de estímulo às atividades produtivas dos nú- cleos urbanos. Já em 2000, o funcionalismo público municipal era respon- sável por cerca de 60% dos empregos formais 1 . A dependência do setor público na zona urbana, aliada à dependência das aposentadorias por parte de muitas famílias (pelo menos 80% das re- sidentes na zona rural), demonstrava o quadro de fragilidade e estagnação da economia local.

INDÚSTRIA

Já o setor industrial se apresentava incipiente, constituído basicamente por pequenas indústrias de bens não-duráveis de consumo. Na realidade, as atividades industriais (especialmente as caracterizadas por maiores exi- gências tecnológicas e de capital) continuavam sendo atraídas pelos espa- ços regionais de maior dinamismo econômico, como Campina Grande, distante 180 quilômetros, e a própria capital do Estado. Dentro do segmento industrial, despontavam as microempresas de ves- tuário, representadas por associações e empreendimentos informais de cunho familiar, que somavam, na época, cerca de 12 unidades 2 . No entanto, montar uma indústria de confecções de moda íntima, como fez a costureira monteirense Dulcimar Alves Pinheiro, a princípio pareceu um risco muito alto. Havia, de fato, um ambiente externo favorável do ponto de vista de mercado, por não existir concorrência direta dentro da cidade, nem em cidades circunvizinhas, mas faltavam crédito e apoio institucional. Então sua própria ousadia e determinação foram propulsoras da iniciativa. Ela relembrava desta forma: “Tinha passado por outras experiências profis- sionais e até tentei a vida em São Paulo. Mas foi com uma irmã, que mora no Rio Grande do Norte, que recebi algumas instruções para confeccionar peças íntimas, e decidi investir no ramo em Monteiro, onde nasci. A diferen- ça entre mim e ela é que eu ousei ser uma empreendedora de verdade”.

COMEÇO DIFÍCIL

C omo a maioria de seus conterrâneos, Cimar, como é conhecida, nas- ceu em um lar de poucos recursos. Desde cedo precisou trabalhar

para ajudar a família e seguiu a profissão da mãe: costureira. Começou fa- bricando o que as pessoas da cidade chamavam de “modinha” – produ- ções esporádicas como uniformes escolares, fantasias de Carnaval, entre outros vestuários – mas, em pouco tempo, percebeu que esta não era a

melhor pedida de negócio. Em 1997, não fugindo à regra do que muitos nordestinos acreditam ser a “salvação da lavoura”, tentou a vida em São Paulo com o marido e dois filhos. Foi um período muito difícil: trabalhou numa fábrica de vidros, foi faxineira e sofreu o drama do desemprego. Mas as desilusões não abateram os ânimos, e uma carona acabou conduzindo a família até Na- tal, no Rio Grande do Norte. Foi lá que Dulcimar recebeu as primeiras

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO – SEBRAE/PB

orientações sobre como confeccionar calcinhas e sutiãs com uma irmã, que lá residia e já se aventurava nessa atividade. Percebendo que essa era uma boa chance não só de montar o pró- prio negócio, mas também de conquistar uma oportunidade digna de trabalho no lugar em que nascera, no ano seguinte, já de volta a Mon- teiro, Cimar conseguiu duas máquinas de costura emprestadas e um em- préstimo de R$ 200,00. Com pouca infra-estrutura, mas com muita coragem e força de vontade, Cimar começava a erguer a microempresa Suerda Moda Íntima. No princípio, ela e mais outras duas costureiras compunham o quadro de pessoal da empresa e desenvolviam suas ati- vidades num quarto que ficava no quintal da casa, alugada. Os clientes eram pessoas próximas, que elas iam conquistando gradativamente: fa- miliares, amigos, vizinhos. A produção de calcinhas e sutiãs não chega- va a 500 peças por mês. Para apresentar uma produção de qualidade, era preciso dominar os se- gredos de um bom acabamento e possuir maquinário apropriado. Desmon-

tar e montar novamente peças de outras marcas famosas, como ela fazia, não era um exercício suficientemente capaz de garantir produtos com se- gurança e perfeição. Algumas peças começaram a apresentar defeitos, o que comprometia a pretensão de credibilidade do pequeno negócio.

O pequeno lucro que começava a surgir não apontava para grandes

perspectivas, até porque não havia capital de giro suficiente para aumen- tar a escala de produção. Com um ano de funcionamento informal, eram sete costureiras, mil peças produzidas por mês e a garantia de um merca- do local com possibilidades de expansão para outros Estados. Todavia, a

distribuição era feita de maneira aleatória. A Suerda Moda Íntima ainda apresentava problemas no fluxo e no pla- nejamento da produção; havia desperdício; o ambiente de trabalho era

mal-organizado e mal-iluminado, o que acarretava baixos índices de pro- dutividade e comprometimento da qualidade do produto final.

O tino empresarial já indicava para a produção de peças com detalhes

em renda como diferencial, mas também não havia orientação segura quanto ao mercado e design, tampouco para a formação de um preço de venda competitivo. Uma outra dificuldade, porém, era considerada a mais crítica e não fugia à regra dos milhares de pequenos negócios abertos todos os anos no País: a falta de crédito. Para ela, naquele momento, era preciso bus- car ajuda, urgente.

INDÚSTRIA

Só “

a um maior abandonado Cazuza

um pouquinho de proteção, ”

Havia poucos meses que uma agência do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) se instalara em Monteiro, e então Dul- cimar foi em busca de apoio. O técnico João Bosco da Silva, também coordenador da agência, foi quem prestou a primeira assistência à em- presa. Depois de ser esclarecida que o SEBRAE não era de instituição financeira, ela foi orientada a se capacitar, antes de tomar qualquer em- préstimo bancário. João Bosco revelou: “No dia-a-dia de trabalho, a gente acaba ganhando ‘olho clínico’ para identificar empreendedores em potencial, e não preci- sou muito para descobrir que a empresa de Cimar tinha tudo para ser bem-sucedida. Faltava-lhe apenas apoio em termos de capacitação empre- sarial e quanto aos aspectos produtivos, design e mercado”. Dulcimar acabou participando de alguns treinamentos, a exemplo do Brasil Empreendedor e o Saber Empreender. O Saber Empreender é um produto do SEBRAE, com carga horária de 24 horas, que instiga o partici- pante a identificar suas características empreendedoras, e, ao simular a criação de uma empresa, ele acaba exercitando suas habilidades geren- ciais na prática. Mas foi com o Brasil Empreendedor, um programa de crédito orienta- do, executado numa parceria entre SEBRAE, governo federal e instituições financeiras, que a empresária pôde encaminhar seu projeto de viabilida- de econômica ao banco. O programa tinha carga horária de 16 horas, focado em orientação ao crédito e o empresário ainda ganhava a oportu- nidade de receber consultorias para a elaboração do projeto. Depois de sentir na pele a necessidade e a importância de se capacitar para gerir melhor seu empreendimento, Cimar teve seu projeto de financia- mento no valor de R$ 14 mil aprovado pelo Banco do Nordeste. Foi quando ela pôde adquirir matéria-prima (oriunda do Centro-Sul do País), máquinas e construir um galpão, onde se instalou com suas, então, 12 funcionárias. Em 1999, teve a oportunidade de participar da Feira de Negócios de Monteiro, sua primeira experiência em eventos. Organizada pelo SEBRAE, tinha como objetivo dar destaque aos pequenos negócios locais mais pro- missores. Apesar de ter sido uma feira de pequeno porte, o saldo foi mui- to positivo, pois a presença da empresa e a aceitação do seu produto

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO – SEBRAE/PB

chamaram a atenção da comunidade e surpreenderam as pessoas mais pró- ximas, que conheciam de perto a trajetória da costureira “de fundo de quin- tal”. Essa foi a primeira entre tantas outras feiras, mostras e exposições de que a empresa participaria para divulgar seus produtos. Em 16 de junho de 2000, nascia, formalmente, a Suerda Moda Íntima, e sua proprietária, Dulcimar Alves Pinheiro, já pagava seus empregados de acordo com salários previstos em lei para a categoria. O nome era uma ho- menagem à filha, chamada Suerda.

MUDANDO PARA MELHOR

A capacidade empreendedora da empresária e o potencial do produto apresentado pela Suerda Moda Íntima já tinham sido atestados pelo

SEBRAE. Mas, para consolidar a empresa e imprimir saltos qualitativos à sua produção, era preciso promover algumas intervenções focalizadas em gargalos identificados no empreendimento. Para tanto, no início de 2001, o SEBRAE intermediou parcerias, e o Senai foi a instituição escolhida para elaborar um diagnóstico da situação da empresa antes da promoção das melhorias. A Suerda Moda Íntima dispunha de 14 funcionários ligados diretamente ao setor produtivo, contando com 11 máquinas e uma produção de 3,2 mil conjuntos de calcinhas e sutiãs. Foi preciso racionalizar o processo produtivo, por meio do estudo de layout, implantar técnicas de planejamento e controle de produção e ade- quar a modelagem das peças aos padrões técnicos. Todo esse trabalho foi possível com o Programa de Apoio Tecnológico às Micro e Pequenas Em- presas (Patme). O Patme é coordenado pelo SEBRAE e visa à elevação do patamar tec- nológico da empresa. Oferece consultoria em melhoria de produtos, mé- todos de gestão e de processos produtivos e elaboração de plano de negócios. Para que as consultorias possam ser realizadas, o SEBRAE viabilizou parcerias com Centros Tecnológicos, Universidades, Instituições de Pes- quisa e Desenvolvimento Tecnológico, Incubadoras de Empresas ou La- boratórios credenciados pelo Inmetro, para que por meio de seus profissionais especializados, possam prestar o serviço desejado pelo clien- te/empresário. O Patme pode custear até 70% do projeto, ficando o res- tante sob responsabilidade da empresa assistida.

INDÚSTRIA

No caso da Suerda Moda Íntima, coube ao Senai, por meio da consulto- ra Marinilza Braga, acompanhar o trabalho com a empresa e, com o apoio de uma equipe de profissionais especializados, orientar a empresária a estabelecer etapas de produção mais sistematizadas, obedecendo a uma seqüência lógica, de forma que se evitassem desperdícios e se otimizasse o processo produtivo. Segundo ela: “Para aperfeiçoar o processo produtivo, tentou-se implantar as chamadas células de produção, que compõem o la- yout, para que houvesse maior economia de tempo e de materiais”. Outras intervenções foram feitas a fim de adequar a modelagem já exis- tente, promovendo as alterações necessárias de acordo com o padrão téc- nico estabelecido. Partindo da modelagem básica já desenvolvida por Dulcimar e suas funcionárias, propuseram-se a adaptação e a diversificação dos modelos, para que novos produtos fossem apresentados ao mercado. Todo esse conjunto de ações foi empreendido num período de quatro meses. Na realidade, promover todas essas ações não significou a imediata adesão da empresária. Embora ela não tenha dificultado a realização da

consultoria – até porque havia um investimento financeiro nesse trabalho –,

a consultora que supervisionou o trabalho sentiu um pouco de resistência de Dulcimar quanto às adaptações de modelagem e à aplicabilidade dos controles de produção. O conhecimento tácito, ou seja, todo o aprendizado gerado em anos de trabalho, mesmo que em alguns momentos conduzisse a algumas

falhas, por vezes chegou a dificultar a implantação das melhorias. No fim,

a própria empresária soube encontrar o equilíbrio entre as recomendações

dos especialistas e suas próprias práticas de costureira. Também no caso dessa consultoria, deve-se dizer que uma das inter- venções não pôde ser cumprida à risca. Em virtude do pequeno ambien- te ocupado pela empresa, a distribuição das células de produção ficou comprometida. Então veio, pela segunda vez, a hora da mudança: a empresa se transferiu para um imóvel maior – desta vez próprio –, com condições para abrigar, de maneira satisfatória, uma loja, o escritório, a fábrica e sua casa (no primeiro andar). A mudança gerou um impacto muito po- sitivo para a empresa, pela maior visibilidade que ela ganhou (locali- zação na principal avenida da cidade), pela contratação de mais funcionários e, em pouco tempo, pelos efeitos desejados por todos:

maior produtividade e eficácia e, conseqüentemente, maiores ganhos fi- nanceiros para a empresa.

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO – SEBRAE/PB

Dulcimar ampliou seus negócios e montou uma pronta-entrega em João Pessoa e Campina Grande e, nas demais cidades do entorno de Monteiro, contava com o suporte de cerca de 50 revendedoras. Essa

rede de apoio ela foi conquistando aos poucos, cadastrando pessoas interessadas e buscando referências profissionais, para só então cre- denciá-las.

A marca Suerda, gradativamente, foi ganhando cada vez mais reco-

nhecimento, recebendo indicações para participar de feiras de negócios de grande porte, a exemplo da Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit), em São Paulo. Com boas perspectivas de negócio, Dulcimar ampliou a linha de pro-

dutos oferecidos: passou a confeccionar lingeries e camisolas, com de- talhes em rendas, compondo uma linha de produtos mais refinados. As peças foram destaque em desfiles de moda realizados em Monteiro e Campina Grande. Em um deles, ocorrido durante a programação da I Feira de Agronegócios do Semi-Árido Nordestino, em junho de 2004, em Monteiro, a empresa ganhou muito em divulgação, com a presença da mídia televisiva estadual. Como as vendas cresciam progressivamente, a empresa aumentou o número de funcionários (25) para atender o mercado em expansão. A participação em feiras nacionais (Fenit e Rodada de Negócios de Forta- leza) ampliou a rede de contatos da empresa e acabou abrindo possi- bilidades de negócios em outras cidades do País.

MELHORANDO PARA MUDAR

D a concepção de um pequeno negócio de moda íntima até a empre- sa que participa de um evento referência nacional em confecções, já

era possível perceber um avanço significativo. Tratava-se da trajetória de uma costureira que residia numa cidade pobre economicamente, não pos-

suía nem o primário completo, não dispunha de capital próprio para fi-

nanciar seu empreendimento e não tinha, a princípio, habilidade gerencial suficiente para conduzir um negócio.

A própria empresária reconheceu: “Eu acho que, no começo, eu corri

alguns riscos. Mas depois de um tempo senti que não havia dificuldades

que me impedissem de correr atrás do meu objetivo. E aí produzia cada vez mais, porque sabia que era capaz de vender”.

INDÚSTRIA

Com a realização da primeira consultoria pelo Patme, sua auto-estima de empresária aumentou, e ela percebeu que, definitivamente, para con- tinuar vendo sua empresa progredir, era preciso evoluir continuamente, ou seja, seguir à risca todos os métodos e processos que tivessem como finalidade a melhoria da qualidade dos seus produtos, do atendimento e do processo fabril.

Para dar prosseguimento às intervenções de aperfeiçoamento empresa- rial, Dulcimar solicitou, em 2002, a realização de mais uma consultoria. Des- sa vez, a justificativa para a solicitação do projeto se baseava no layout da fábrica, que continuava inadequado, no balanceamento da produção, na qualificação de mão-de-obra e na ausência de uma supervisão de produção.

O apoio nesse segundo Patme veio do consultor pernambucano Carlos

Alberto da Silva, com vasta experiência no setor industrial de vestuário. Se-

gundo ele, a empresa expandia sua produção rapidamente, mas o processo produtivo não acompanhava o ritmo de crescimento de forma adequada. De acordo com o diagnóstico realizado, a empresa ainda apresentava produção

inferior à capacidade instalada e ausência de reuniões sobre qualidade, or- ganização administrativa e industrial por falta de conhecimentos técnicos.

O trabalho se desenvolveu durante quatro meses e procurou estabe-

lecer indicadores de resultados para mensurar os efeitos das metodolo- gias implantadas. A produtividade geral da empresa no período aumentou cerca de 20% (a produção de 12,7 mil peças mês cresceu para 15,5 mil), a produtividade por pessoa também passou de 25,4 peças para

28 por funcionário, o tempo de produção foi otimizado e cada funcio-

nário já não gastava mais de 21 minutos para produzir cada peça, e sim

18 minutos.

Todos esses indicadores contribuíram para a contratação de mais dois funcionários (de 25 passou para 27 empregados na fábrica) e para uma me- lhoria geral em termos de qualidade e velocidade na entrega do produto.

CONCLUSÃO

P or muitos anos, a região do Cariri paraibano apresentou estagnação eco- nômica. Em 2004, seu déficit social ainda era alto, e as políticas públicas

até então implementadas não tinham sido capazes de reverter seus princi- pais problemas estruturais e de ordem produtiva – entre eles, a convivência com as secas e a geração de trabalho e renda no campo e nas cidades.

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO – SEBRAE/PB

A trajetória da empresa Suerda Moda Íntima, que tem muito a percor-

rer, traz à tona diversos aspectos a serem considerados. Uma empresa que nasceu com três costureiras e que, após tantas dificuldades enfrentadas, passou a empregar 43 funcionários, gerando empregos indiretos para qua- se 200 pessoas, em uma cidade localizada numa das regiões mais caren- tes do País, é um exemplo a ser multiplicado. Apesar de se caracterizar como microempresa, a Suerda Moda Íntima passou a ter impacto significativo na cidade e na região. Segundo o IBGE, em 2000, havia apenas três empresas locais que geravam entre 30

e 49 empregos formais no município 3 . Ou seja, se a cada ano fossem

criadas empresas de porte semelhante ao da Suerda Moda Íntima no mu- nicípio, seria possível não apenas minimizar o problema da falta de tra-

balho, como também aumentar a arrecadação de um município bastante dependente dos cofres de programas públicos estaduais e federais.

A média de pessoas ocupadas (assalariadas ou não) nas empresas atuan-

tes no município, segundo a mesma pesquisa do IBGE, era de 4,88 em 2000. Ou seja, a Suerda Moda Íntima empregava número bastante superior (43) e era responsável por quase 4% do total de empregos do município. Não que a concentração de postos de trabalho em poucas empresas seja um dado positivo. Mas empresas potencialmente geradoras de tra- balho e emprego devem ser apoiadas e estimuladas como vetor de de- senvolvimento em qualquer localidade, especialmente nas cidades mais carentes. Quanto à Suerda Moda Íntima, em 2004, além da loja matriz em Monteiro, a empresa já possuía filiais em João Pessoa e Campina Grande

e representações em Recife e Natal, além de abastecer duas grandes lo- jas em São Paulo. Naquele mesmo ano, sua produção girava em torno de 30 mil peças por mês.

O grau de maturidade da empresa era bastante satisfatório, tendo

em vista as etapas já vencidas (quatro anos de empresa informal, quatro de formal), o nível de crescimento de vendas de cada ano (cer- ca de 20%), o aumento da mão-de-obra empregada, o avanço na quali- dade do produto ofertado, o constante aperfeiçoamento gerencial e de produção, buscando sempre inovações.

As perspectivas de continuidade e ampliação do espectro de atuação

da empresa eram boas, já que os momentos mais críticos da empresa

INDÚSTRIA

(início), quando a capitalização era muito menor, foram superados com muita persistência, dedicação e ousadia. Com o apoio do SEBRAE, há cerca de cinco anos o acesso ao mer-

cado foi ampliado, em decorrência da participação em feiras estaduais e nacionais e rodadas de negócios, o que garantiu expansão e confiança do mercado consumidor. Capacitações também entraram de vez na agenda da empresária e de suas funcionárias, a exemplo do Empretec, um seminário voltado para empresários e futuros empreendedores, executado em todo o Brasil pelo SEBRAE em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desen- volvimento (PNUD) e com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores (MRE).

O desafio da exportação já havia batido em sua porta, quando partici-

pou de uma rodada de negócios na cidade de Fortaleza, no Ceará, em 2002. Houve um contato com empresários da Argentina, que ficaram bas- tante interessados no seu produto, mas a falta de experiência e o próprio receio da empresária em lidar com eles acabou frustrando essa primeira aproximação com os negócios internacionais. Recursos extras vieram por meio de financiamentos, já quitados, e, em 2004, pela cessão em comodato de um prédio pela prefeitura para a am- pliação da fábrica – a reforma seria financiada pela Companhia de Indus- trialização do Estado da Paraíba (Cinep). Essa mudança de espaço da fábrica era mais um motivador para a ampliação do empreendimento. No entanto, é preciso considerar que, até então, nenhuma outra em- presa no ramo havia se instalado na cidade ou disputava mercado com ela, situação que não poderia ser descartada. Outras posturas de Cimar também precisavam ser mais bem trabalhadas, pois a empresária mui- tas vezes perdia tempo supervisionando o chão de fábrica, em vez de estar se preocupando com aspectos de mercado.

O técnico e coordenador da agência do SEBRAE em Monteiro ques-

tionava: “Como Cimar também era costureira, em certos momentos ela esquecia que era ‘a empresária’, a ‘dona do negócio’. E, como empre- sária, ela não podia estar mais se preocupando tanto com problemas da fábrica, e sim da empresa como um todo; a manutenção e amplia- ção do seu mercado consumidor e a criação de novos produtos, novas modelagens”. Nesse sentido, Cimar ainda não tinha conseguido manter um(a) su- pervisor(a) para cumprir aquelas atribuições que não cabiam mais a ela

MODA ÍNTIMA: EMPREENDEDORISMO NO CARIRI PARAIBANO – SEBRAE/PB

assumir (ela alegava a falta de mão-de-obra qualificada). Seus dois fi- lhos estavam envolvidos com trabalhos da empresa, mas não assumiram esse papel. Primar pela inovação, porém, mantinha-se como uma forte caracte- rística da empresa. Apesar da ênfase em produção de calcinhas e su- tiãs, há três anos ela vinha investindo na produção de camisolas, pijamas, lingerie e pretendia, ainda em 2004, iniciar a confecção de cuecas. Outra perspectiva promissora era trabalhar com peças em al- godão colorido, tecnologia que vinha sendo desenvolvida na região, além de criar o segundo turno de trabalho (noite) para atender à de- manda crescente. Outro aspecto interessante é que, apesar de ser uma empresa de con- fecções composta em sua grande maioria por mulheres, Cimar não des- cartava a mão-de-obra masculina e já contava com quatro costureiros. A empresária Dulcimar encontrou na produção de moda íntima uma oportunidade de ocupar um espaço no mercado onde não havia con- correntes e ofereceu produtos de qualidade a preços inferiores aos de outras marcas. Empreendimentos como a Suerda Moda Íntima são exemplos con- cretos de que é possível gerar trabalho e renda em municípios pobres, em curto e médio prazo, desde que haja um ambiente favorável a seu nascimento e perpetuação e estímulo à capacidade empreendedora das pessoas. Então, receitas de sucesso existem? Para a empresária Cimar, não, mas “determinação e coragem são os ingredientes que não podem faltar”.

INDÚSTRIA

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO

• Quais as principais dificuldades encontradas por pequenos empreendi- mentos em sua fase inicial de atividades?

• A partir da identificação das dificuldades listadas na questão anterior descreva as ações desenvolvidas para sanar cada uma delas.

• Que ações diferentes das executadas pela Suerda Moda Íntima pode-

riam ter sido feitas para que a empresa pudesse, em menos tempo, obter

os mesmos resultados alcançados?

• Qual o papel das parcerias em torno do desenvolvimento de empresas como a apresentada no caso?

BIBLIOGRAFIA

FIEP, SESI, SENAI, GEL. Cadastro industrial. Paraíba, 1997.

IBGE. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>.

PRO CARIRI. Programa de Desenvolvimento Regional Integrado e Susten- tável do Cariri Paraibano. João Pessoa, SEBRAE/PB, 2000.

PROGRAMA DE EMPREGO E RENDA (PRODER). Monteiro. SEBRAE/PB. João Pessoa: SEBRAE/PB, 1997. (Série Diagnósticos Socioeconômicos).

AGRADECIMENTOS

Diretoria Executiva do SEBRAE/PB: Antônio Felinto Neto, Marcus Antonio Guedes Vasconcelos Fonseca, Pedro Aurélio Mendes de Brito.

Coordenação Técnica: João Bosco da Silva.

Colaboração: João Bosco da Silva, SEBRAE/PB; Dulcimar Alves Pinheiro, Suerda Moda Íntima; Marinilza Braga, consultora do Senai; Carlos Alberto da Silva, consultor; Arturo Rodrigues Felinto, Universidade Federal da Paraíba (UFPB).