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Quem somos?

Necessidades,
anseios e a imagem de Deus no homem.
Edward Welch

Quais são as suas necessidades? A resposta depen­ largue do meu pé”. O que queremos dizer com “ne­
de de quem está fazendo a pergunta e do momento cessitar”?
em que ela é feita. Se você estivesse perdido no Nosso primeiro passo é esclarecer o uso desta
deserto e morrendo de sede, responderia: “Água”. Se palavra tão popular. Em seguida, um exame mais
o seu pastor fizesse esta pergunta durante um sermão, profundo e uma reflexão bíblica nos conduzirão a um
e especialmente se ele dissesse: “Qual é a sua necessi­ dos temas mais críticos do aconselhamento: a imagem
dade rea lT \ você provavelmente responderia: “Je­ de Deus no homem. Como disse Emil Brunner, “A
sus”. Mas se você fizer essa pergunta no seu escritó­ doutrina da imagem de Deus determina o destino de
rio, durante um aconselhamento, as respostas podem toda teologia”. Podemos acrescentar que as diferen­
variar: respeito, amor, compreensão, alguém que me ças entre vários modelos de aconselhamento suposta­
escute, auto-estima, crianças obedientes, segurança, mente bíblicos, sejam elas profundas ou superficiais,
controle, excitação... A lista é limitada apenas pela também encontram aqui a sua origem. “De que as
imaginação humana.
pessoas necessitam?” A compreensão plena só pode
Bem-vindo à palavra necessidade, um dos termos
ser alcançada se pudermos responder a uma outra
mais confusos da nossa língua e usado por todos nós.
pergunta: “O que significa ser uma pessoa?”. Em
É uma das primeiras palavras do vocabulário infantil,
primeiro lugar, examinaremos a “linguagem da neces­
como descendente direta de “eu quero”. E tem um
sidade” como recurso introdutório ao estudo da
campo semântico amplo e ambíguo, podendo expres­
doutrina da imagem de Deus no homem.
sar idéias em nada relacionadas entre si. Por exemplo,
“eu necessito de férias” é uma forma cultural para
dizer que estamos cansados da rotina diária do traba­ O uso popular da palavra necessidade
lho. “Eu necessito do respeito da minha esposa” Vamos começar com algumas definições. O uso da
revela a crença de que você estará psicologicamente palavra necessidade como forma exagerada para falar
deficitário se essa necessidade não for suprida. “Eu em desejos é bastante comum. Necessidade expressa
necessito de água” expressa uma necessidade biológi­ o fato de você realmente querer alguma coisa, embora
ca real que, quando negada, resulta de modo concre­ saiba que pode viver sem ela. Dentro dessa categoria,
to em saúde precária ou morte. “Eu necessito de você ouvirá comentários como “eu necessito de uma
sexo” geralmente expressa um coração lascivo, mas barra de chocolate”, “eu necessito de férias” ou “eu
que engana a si mesmo pensando estar pedindo necessito de sexo”. E interessante perceber que o pré-
apenas o suprimento de uma necessidade biológica. requisito para essas necessidades é um conhecimento
Alguns significados são quase neutros: uma esposa prévio do objeto ou atividade desejados. Por exem­
diz a seu marido: “necessitamos de um litro de leite e plo, uma pessoa só dirá “eu necessito de uma barra de
um pão de forma”. Outros, trazem maiores implica­ chocolate” se já tiver experimentado chocolate algu­
ções— o marido retruca: “eu necessito de que você ma vez. Se você falar a respeito da necessidade de
chocolate com pessoas que nunca comeram chocola­
Tradução e adaptação de Who are we? Needs, longings, te, elas não reconhecerão como “necessidade”. Seme­
and the image o f God in man. ? lhantemente, pessoas expressarão a necessidade de
Publicado originalmente em The Journal o f Biblical sexo se conhecerem pela experiência uma relação
Counseling. Glenside, Pa., v. 13 n. 1, Fall 1994. p. 25-38. sexual ou a excitação sexual por meio de pornografia.

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Aqueles que não mantiveram relações sexuais nem recebido, pelo menos no mundo ocidental, uma
foram expostos a uma cultura altamente sexualizada acolhida entusiasta. Afirma-se assim como temos
não definirão a sua expectativa na área sexual como certas necessidades biológicas que precisam ser
uma “necessidade”. Estas pessoas podem almejar por supridas para não morrermos fisicamente, temos
relações sexuais no casamento, mas é menos provável também necessidades psicológicas que precisam ser
que falem da experiência sexual como necessidade. satisfeitas para não nos tomarmos psicologicamente
Necessidade como hipérbole para desejo é pro­ famintos e debilitados, e começarmos a agir mal. Em
vavelmente a definição mais comum do termo, mas há outras palavras, felicidade, estabilidade psicológica e
uma amplitude de significados mesmo aqui. Por um comportamento social construtivo dependem da
lado, necessidade é às vezes uma maneira caprichosa satisfação dessas-necessidades. A lista das supostas
para expressar um desejo. Por outro lado, a idéia se necessidades psicológicas pode ser longa, mas geral­
sobrepõe à de necessidades biológicas, um segundo mente contém desejos vinculados a como avaliamos a
sentido para a palavra. Necessidades biológicas, cuja nós mesmos ou ao que obtemos por meio do relacio­
satisfação é necessária para a continuidade da vida namento com outros: significado, aceitação, respeito,
física, representam o uso mais direto da palavra admiração, amor, pertencer, auto-estima, e assim por
necessidade. Necessitamos de água e comida. Na diante. Essas necessidades, provavelmente, se encai­
maioria dos climas, precisamos também de abrigo e xam melhor em algum lugar entre a necessidade
roupas. Se essas necessidades não são supridas, como hipérbole para desejo e a necessidade como
morremos. Necessidades biológicas passa a ser uma hipérbole para subsistência. Mas no uso popular,
categoria confusa somente quando empurramos para elas estão certamente em expansão como categoria
dentro dela a categoria de necessidade como desejo} própria: necessidade como hipérbole para um senti­
Por exemplo, “eu necessito de uma cerveja” tem do de bem-estar psicológico e social.
passado da categoria de necessidade como hipérbole Há pelo menos mais um campo semântico para a
para desejo para a categoria de necessidade biológi­ palavra necessidade. Esta quarta categoria tem uma
ca. Isto é, álcool não é mais um agente de satisfação longa história: necessidades espirituais. Necessitamos
para um desejo que resulta de experiência, prática e de justiça e santidade. Necessitamos de perdão e
lascívia; a necessidade de álcool é vista como um poder para mudar. Necessitamos de Jesus. Necessita­
impulso biológico quase irresistível. Considere tam­ mos de Sua graça redentora e sustentadora para
bém a expressão popular “eu necessito de sexo”. podermos viver. Somos pessoas desesperadas e
Quando ela se movimenta da categoria de desejo para necessitadas— quer o saibamos ou não. Somos com­
a categoria de necessidade biológica, presumimos pletamente incapazes de pagar a Deus o preço dos
que sexo seja uma necessidade biológica quase nossos pecados e, por nós mesmos, somos incapazes
idêntica à de água e comida. A racionalização-consis­ de seguir os Seus mandamentos. De fato, a essência
te no fato de considerar o autocontrole sexual como da fé é a consciência de que temos necessidade de
contrário à natureza, por se tratar de uma necessidade Deus e dependemos dEle: “Bem-aventurados os
biológica. Neste caso, a única opção é praticar sexo humildes de espírito” (Mt. 5:3).
seguro. Abstinência não é apenas antiquada, mas Essa categoria bíblica distinta, necessidade de
biologicamente insustentável diante de nossa necessi­ bênçãos objetivas por parte de Deus, é supre­
dade. ma—ela faz com que todas as demais sejam relativas.
Desejos exagerados e necessidades biológicas não Mas à semelhança das necessidades biológicas a
esgotam as definições de necessidade. Necessidades categoria de necessidades espirituais tem sido muito
psicológicas, uma terceira definição, são uma inova­ esticada em uso contemporâneo. De um lado do
ção relativamente recente na linguagem das necessi­ espectro, está a necessidade objetiva e contínua de
dades. A idéia de necessidades intra-psíquicas e perdão dos pecados e de outras bênçãos da redenção.
psicossociais vem da psicologia do século XX e tem Mas de outro lado, a categoria de necessidades espiri­
tuais tem se sobreposto à categoria de necessidades
psicológicas, agora redefinidas como necessidades
1 Ou quando necessidades biológicas tomam-se absolutas espirituais. Psicólogos seculares definem as necessi­
e ocupam o lugar do nosso relacionamento com Deus dades psicológicas como aquelas a serem satisfeitas
(veja Mateus 6:32-33, 10:28). Deveríamos chamar esta por meio de relacionamentos, restruturação cognitiva,
categoria de necessidades como hipérbole para subsistên­ realizações apropriadas, experiências de auto-atuali-
cia.
Aconselhamento Bíblico 43
zação. E atualmente, muitos cristãos crêem que essas gicas. Mas a questão é que independentemente do
necessidades intra-psíquicas e psicossociais devem ser quanto estas experiências possam ser comuns, as
satisfeitas no relacionamento com Cristo. As necessi­ supostas necessidades que elas revelam são difíceis de
dades espirituais mais tradicionais, relacionadas à localizar na Bíblia. Folheie o índice de qualquer
redenção, têm sido esticadas para incluir a necessida­ texto teológico tradicional, e você não encontrará as
de de auto estima, amor e significado. necessidades psicológicas. O único lugar em que elas
podem ser encontradas é na história da psicologia
secular, com empréstimos ocasionais da biologia e
medicina.
A medicina tem uma longa história a esse respeito.
Por exemplo, desenvolvemos doenças quando deter­
minadas necessidades do nosso corpo não são satisfe­
itas. O corpo necessita de alimento. Mais especifica­
mente, necessita de determinados tipos de alimento.
Insuficiência de vitamina C causou escorbuto em
muitos marinheiros. Insuficiência de cálcio faz com
que os ossos fiquem fracos e frágeis. A boa saúde
depende de atender às necessidades do corpo. A
Bíblia reconhece este tipo de necessidades especial­
mente em Mateus 6.25-34. No que concerne à ali­
mentação e vestuário, “vosso Pai celeste sabe que
necessitais de todas estas coisas” (Mt. 6: 32).
O modelo de necessidades deficitárias, que funcio­
nou tão bem para a medicina, foi mais tarde aplicado
à psicologia. Entre os que tomaram esta metáfora por
empréstimo, Freud é o mais conhecido. Seu treina­
Uma breve história das necessidades mento na medicina lhe deu conhecimento das neces­
Dentro do campo semântico amplo que reúne os sidades ligadas ao funcionamento do corpo, e foi
significados populares da palavra necessidade, quero preciso apenas uma leve cutucada para que ele apli­
limitar a minha discussão às necessidades psicológi­ casse a mesma teoria ao processo psicológico. Embo­
cas e à sua interseção com necessidades espirituais. ra Freud não tenha usado estes mesmos termos, ele
Com certeza, a discussão das fronteiras cada vez mais tem sido considerado o pai da “necessidade de ex­
indefinidas entre necessidades como desejo e necessi­ pressão sexual” e da “necessidade de pais permissi­
dades biológicas é um tema crítico para a igreja. Mas vos”. As linhas básicas de seu modelo refletem essen­
ele tem sido tratado em abordagens bíblicas do alcoo­ cialmente uma visão deficitária do ser humano neces­
lismo e da homossexualidade2, enquanto o estudo das sitado.
necessidades psicológicas tem sido negligenciado. Os primeiros behavoristas, como Dollard e Miller,
Parece que esta categoria de necessidades entrou tomaram por empréstimo as idéias de Freud. Eles
no pensamento cristão contemporâneo sem qualquer ampliaram o modelo behaviorita de resposta a estímu­
consulta bíblica prévia. É uma intrusão compreensí­ los com a noção de que temos impulsos básicos que
vel, considerando que necessidades psicológicas é nos motivam, especialmente associados a comida e
uma experiência quase universal. Afinal, como você sexo. Estes impulsos primários podem estar associa­
se sente quando é decepcionado por um amigo, dos a uma variedade de experiências interiores, resul­
criticado injustamente ou manipulado por alguém? As tando em uma série complexa de necessidades psico­
reações que estas experiências provocam em você são lógicas que gritam por satisfação.
consideradas manifestações de necessidades psicoló­ Mas quem de fato deu popularidade às necessida­
des psicológicas foi Abraham Maslow. Sua teoria de
auto-atualização diz que temos, desde o nascimento,
2BAHNSEN, Greg. Homosexuality: a biblical view. Grand uma hierarquia de necessidades. De acordo com
Rapids, Mich.: Baker, 19878.
Maslow, as necessidades mais básicas são as bioló-
WELCH, Edward. Addictive behavior. Grand Rapids,
gi-cas e de segurança. Quando essas necessidades são
Mich.: Baker, 1995.

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satisfeitas, podemos passar para a satisfação das remos procurar amor em algum outro lugar. Todo
necessidades psicológicas básicas: necessidade de tipo de pecado e dor pode resultar de necessidades
pertencer e amar, necessidade de ser estimado por psicológicas não satisfeitas.
outros e necessidade de auto-estima. Escritores famosos no movimento cristão de
O que faz com que as pessoas fiquem recuperação emocional têm admitido as necessidades
neuróticas? Minha resposta...era, resumida­ psicológicas e ajudado a firmá-las como um guia
mente, que neurose parecia ser em seu interpretativo para as experiências da vida. Por exem­
âmago, a princípio, uma doença resultante plo, Sandra Wilson em seu livro, Released from
de uma deficiência: ela surgia a partir da shame {Liberta da vergonha), afirma em poucas
privação de certas satisfações que eu deno­ palavras aquilo que muitas pessoas sentem: feridas do
minei necessidades, no mesmo sentido que passado colocam em evidência as nossas necessidades
água, aminoácidos e cálcio são necessida­ psicológicas.
des—isto é, sua ausência provoca doenças. Quando criança, Sara foi emocional­
A maioria das neuroses envolviam... dese­ mente abandonada pelos pais, e ela apren­
jos insatisfeitos de segurança, pertencer, deu a abrir mão de sua necessidade legítima
identificação, relacionamentos íntimos e de companheirismo, encorajamento e con­
amorosos, respeito e prestígio.3 forto.... O problema é que temer e negar
Estas três principais escolas de pensamento da necessidades e sentimentos naturais do ser
psicologia secular focalizam a experiência da necessi­ humano nos impede de sermos tudo quanto
dade. Embora cada uma delas tenha estabelecido um Deus tencionou que fôssemos. Mas como
conceito diferente para necessidades (ou estímulos), podemos ser mais verdadeiros, mais plena­
elas concordam em três pontos básicos: (1) necessi­ mente humanos? Comecemos por nos
dades psicológicas existem, (2) elas são uma parte apropriar daquelas necessidades dolorosas
essencial do ser humano, e (3) quando não são supri­ não supridas e a experimentar as emoções
das, resultam em algum tipo de patologia. A esses que as acompanham.4
pontos essenciais podemos somar mais uma caracte­ Em termos mais bíblicos, essa ilustração mostra
rística da teoria das necessidades psicológicas defici­ que a família de Sara pecou contra ela, e que as
tárias: elas são distintamente ocidentais. Teorias das feridas não saram com rapidez. Mas será que Deus a
necessidades podem prosperar apenas em um contex­ criou com certas necessidades psicológicas de com­
to em que a ênfase está no indivíduo e não na comu­ panheirismo, encorajamento e conforto? Parece que
Deus nos criou desta maneira. Parece haver tamanha
nidade, e onde o consumismo é um meio de vida. Se
evidência a favor das necessidades psicológicas, que
você perguntar a um asiático ou africano a respeito de
talvez nem questionemos se elas foram descobertas
suas necessidades psicológicas, ele não vai nem
por psicólogos que não conheciam nada da Palavra
mesmo entender a pergunta!
de Deus. Por que cremos que as Escrituras se mantêm
À medida que a noção de necessidades psicológi­
relativamente caladas a respeito destes aspectos
cas adentrou a cultura ocidental, muitos cristãos supostamente centrais da condição humana?
foram imediatamente atraídos a ela. De fato, ela O livro evangélico Love Gone Wrong {Amor
parece rastrear o caminho para as experiências da Desviado) também reconhece tais necessidades.
vida e, especialmente com Freud e Maslow, oferecer As catástrofes que levam à vulnerabili­
uma explicação para as experiências do homem mais dade emocional geralmente abalam nos­
profunda que aquela até então extraída da Bíblia. Por so senso de segurança e significado. O
exemplo, uma esposa sofredora e carente de amor psicólogo Larry Crabb propõe que estas
pode ter seu senso de necessidade legitimado e expli­ são nossas duas necessidades emociona­
cado pela adaptação de teorias psicológicas— neces­ is principais. Elas podem ser tão fortes
sidade de amor é uma das necessidades mais profun­ quanto nossas necessidades biológicas
das com que Deus a criou. É possível, finalmente, de alimento e sono.5
compreender que fomos criados com necessidade de
amor e que se esta não for satisfeita por meio de
pessoas significativas, estaremos em déficit e precisa- 4 WILSON, Sandra. Released from shame. Downers
Groove, 111.: InterVarsity, 1990. p. 110.
2
MASLOW, Abraham. Toward a psychology o f being. 5 WHITEMAN, Tom, PETERSEN, Randy. Love gone
2nd ed. New York: Van Nostrand, 1968. p. 21. wrong. Nashville: Thomas Nelson, 1994. p. 90.
Aconselhamento Bíblico 45
As influentes Clinicas Minirth e Meier concordam As boas novas para necessidades psicológicas é que
na existência de necessidades psicológicas ou de Cristo nos confere identidade, significado, respeito e
relacionamentos que têm base bíblica e raiz biológica. valor pessoal. Ele nos faz sentir bem a nosso respeito.
Love is a Choice (O Amor é uma Escolha) declara Mas isto é de fato o evangelho? Será que o evange­
de modo claro: lho, em seu sentido real, não nos alivia da preocupa­
...temos necessidade .de receber amor. É ção com nossa própria pessoa, equipando-nos para
uma necessidade dada por Deus e que nas­ que nos preocupemos com amar a Deus e ao próxi­
ce com cada criança. Ela é legítima e precisa mo? É possível que a busca de valor pessoal ou
ser satisfeita do berço até o túmulo. Se significado seja um alvo mal orientado em sua essên­
crianças são privadas de amor— se esta cia? Deveríamos fazer outras perguntas como, por
necessidade básica de amor não for satis­
exemplo, “Porque estou tão interessado em mim
feita— elas carregam as cicatrizes para o
mesmo?”
resto da vida.6
Antes de desenvolver a fundo esta questão, preci­
Em seguida, os autores oferecem uma metáfora para
samos identificar mais uma etapa da história das
o ser humano. No mais profundo do homem há um
teorias das necessidades relevante para o presente.
tanque que necessita ser enchido de amor. Somos
Atualmente, as necessidades psicológicas são seria­
tanques que se sentem vazios.
mente questionadas no meio secular. A adoção da
A igreja evangélica anda lado a lado com os
noção de necessidades e vazio interior não é vista
teóricos seculares até este ponto, e depois acrescenta
como saudável nem para o indivíduo nem para a
à teoria de Maslow uma mudança significativa. O
cultura. Por exemplo, a mídia critica as teorias que
ponto de vista evangélico popular, à semelhança do
falam em necessidades identificando-as como justifi­
secular, é que os problemas surgem devido a necessi­
cativas teóricas para o egoísmo implacável de nossa
dades de relacionamento não satisfeitas. Todavia, a
cultura e a vitimização crônica. Muitos observaram
forma como estas necessidades são satisfeitas é distin­
que se é verdade que temos a forma de um tanque,
tamente evangélica. Em lugar de procurar outro
então somos recipientes passivos em vez de intérpre­
relacionamento ou algum tipo de amor próprio para
tes ativos e atores responsáveis em nosso mundo. A
satisfazer estas necessidades, os teóricos cristãos
culpa nunca é nossa porque toda patologia é resulta­
mostram que Cristo pode satisfazê-las. Cristo oferece
do de relacionamentos passados deficitários. No
amor incondicional e um senso de significado; Cristo
mínimo, diz a mídia, isto cria um caos no sistema
satisfaz nossa necessidade de companheirismo, apoio
judiciário. “Não vai demorar muito até que a senten­
e conforto.
ça compulsória para um crime violento seja um abra­
A principio, isto parece plausível biblicamente.
ço.”7 A imprensa acadêmica também está desafiando
Cristo é um amigo; Deus é um Pai amoroso; crentes
a adoção do tanque vazio como definição atual para
experimentam um senso de significado e confiança
o homem. Em um artigo significativo no American
por conhecer o amor de Deus. Isto faz com que Cristo
Psychologist (Psicólogo Americano) , Philip Cush-
seja a resposta para nossos problemas. Mas desde
man argumenta que o s e lf vazio é um produto peri­
que estas necessidades continuam sem base bíblica,
devemos parar para considerar a possível existência goso de uma cultura que quer ser satisfeita física e
de uma outra explicação bíblica para a sensação de materialmente.8 Os culpados, aponta Cushman, são
os psicólogos e a indústria publicitária. Ambos procu­
vazio. A experiência é verdadeira, mas encaixá-la em
ram criar um sentido de necessidade para vender seus
necessidades constitucionais e psicológicas pode estar
errado. produtos. Além do mais, a venda das necessidades
psicológicas resultou em uma geração de indivíduos
Avalie, por exemplo, alguns frutos deste modelo
vazios, frágeis e deprimidos.
psicológico evangélico. Essencialmente, ele cria dois
Este breve panorama histórico do desenvolvimen­
evangelhos diferentes: um para necessidades espiritu­
to das teorias das necessidades mostra que elas surgi­
ais e outro para necessidades psicológicas. As boas
ram mais de uma cultura afável que de uma predispo­
novas para necessidades espirituais é que nossos
pecados estão perdoados, somos adotados como
filhos de Deus mediante a fé e recebemos vida eterna.
The Economist, February 26, 199, p. 15.
6 HEMFELT, Robert, MINIRTH, Frank, MEIER, Paul. 8 CUSHMAN, Philip. Why the self is empty. American
Love is a choise. Nashville: Thomas Nelson, 1989. p. 34. Psychologist, May, 1990, p. 599.

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sição dada por Deus. Elas podem existir confortavel­ humano. Alma passa a ser uma categoria em branco a
mente apenas em uma cultura orientada para o ser preenchida com constructos da psicologia. Assim
indivíduo mais que para o grupo, para vitimização como a medicina tem contribuído com muitos deta­
mais que responsabilidade, e para consumir mais que lhes para a categoria corpo, também a psicologia
produzir. Se isto for verdade, nossa tarefa ainda secular pode agora contribuir para o entendimento da
consiste em explicar biblicamente a experiência da categoria alma. A pergunta, porém, é: será que temos
necessidade, mas não há premência em localizá-las uma alma distinta do espírito?
no ato criativo de Deus, visto não serem necessaria­
mente inerentes ao ser humano. A imagem de Deus no homem. Uma segunda
categoria bíblica usada como pano de fundo para as
A teologia das necessidades: uma experiência em necessidades psicológicas é a imagem de Deus no
busca da categoria bíblica homem. Esta é a doutrina central para a compreensão
Conquanto existam críticas no meio evangélico à da pessoa. Se as necessidades psicológicas não pude­
categoria “necessidades psicológicas”,9 a noção tem rem ser identificadas aqui, então não são necessidades
persistido. Uma razão é que a maioria das pessoas dadas por Deus na criação.
sentem este senso de necessidade, e é difícil argumen­ Larry Crabb é o teórico cristão que estabeleceu a
tar com o que as pessoas sentem. Outra razão é que ligação mais clara e explícita entre o nosso sentido de
muitos cristãos acreditam que a teoria das necessida­
necessidades psicológicas e o fato de sermos criados
des já foi provada biblicamente. Sabem que não é
à imagem de Deus. Ele está plenamente ciente de que
possível encontrar “necessidades psicológicas” na
se vamos considerar a experiência da necessidade
concordância bíblica, ou em textos teológicos, mas
acreditam que essas necessidades podem ser inferidas como parte da essência humana, ela deve estar funda­
de categorias bíblicas de destaque: a pessoas como mentada na compreensão bíblica da imagem de Deus
corpo, alma e espírito e a pessoa criada à imagem de no homem. Enunciando a questão com muita clareza
Deus. em seu livros De Dentro para Fora e Como Compre­
ender as Pessoas,{0 Crabb afirma que a imagem de
A pessoa como três substâncias. Uma visão
Deus no homem tem a ver com o que é semelhante
tricotômica do homem foi a primeira categoria apa­
entre Deus e o homem. E o que é semelhante, segun­
rentemente bíblica escolhida para carregar o peso das
do Crabb, é que Deus é uma pessoa e nós também
necessidades psicológicas. Basicamente, essa visão
diz que a pessoa consiste de três partes ou substânci­ somos pessoas. Ser uma pessoa significa ter anseios
as: o corpo, a alma e o espírito. A idéias comum é que profundos por relacionamento: “Todos temos um
o corpo físico tem necessidades físicas, a alma tem anseio que Deus colocou em nós quando nos criou:
necessidades psicológicas e o espírito tem necessida­ gozar relacionamentos livres de tensões, caracteriza­
des espirituais, de modo que a pessoa que tem neces­ dos por uma tem a aceitação mútua e por oportunida­
sidades físicas vai ao médico, aquela que tem neces­ des de sermos importantes para outrem”1.1
sidades psicológicas vai ao psicólogo, e a que tem Anseios profundos, no modelo de Crabb, são a
necessidades espirituais vai ao pastor. Essas três essência que define tanto Deus como o homem. Por
categorias oferecem um encaixe perfeito para a defini­ sua vez, esses anseios são definidos como uma expe­
ção popular de necessidades. riência subjetiva que é mais profunda que a emoção.
No entanto, embora a fórmula básica pareça É uma paixão por relacionamento. Quanto a Deus,
simples e bíblica, ela está cheia de implicações pro­ significa que Ele existe em relacionamento harmonio­
blemáticas. Basicamente, ela tem dado permissão à so consigo mesmo—Pai, Filho e Espírito Santo.
psicologia secular para formatar um terço do ser

10CRABB, Lawrence J. Jr. Como compreender as


9 Por exemplo, Tony Walters apresentou uma primeira pessoas. São Paulo: Vida, 1998.
crítica a ser seriamente considerada em Need: the New
CRABB, Lawrence J. Jr. De dentro para fora. Venda
Religion (Downers Grove, 111.: InterVarsity, 1986). Uma
Nova, MG: Betânia, 1992.
crítica secular desafiadora foi apresentada por Wallach &
Wallach em Psychology’s Sanction for Selfishness (San 11CRABB, Lawrence J. Jr. De dentro para fora. Venda
Francisco: W. H. Freeman, 1983). Nova, MG: Betânia, 1992.p 60.
Aconselhamento Bíblico 47
Também significa que Ele “anseia pela restauração do
relacionamento com Seu povo”.12 Quanto a nós, esse
anseio é mais passivo. Ele significa que “cada um de
nós deseja fervorosamente que alguém nos veja da
forma exata como somos, com todos os nossos defei­
tos, e ainda nos aceite”.13
A esse anseio por amor e aceitação, Crabb adicio­
na uma segunda necessidade básica. Nós também
ansiamos por fazer uma diferença no mundo. Temos,
de acordo com Crabb, uma “sede por impacto”. Isso
é definido como “um desejo de ser adequado para
uma tarefa significativa, um desejo de saber que Pecado: Dependência:
somos capazes de dominar o nosso mundo e fazer satisfazer nosos satisfazer nossos
algo valioso, e fazê-lo bem”.14 Crabb não esclarece anseios/necessidades anseios/necessidades
com pessoas e objetos em Cristo
como esta sede de impacto encontra semelhança em
Deus nem procura oferecer uma base bíblica. Na falta
de apoio exegético, este aspecto da imagem de Deus
Figura 2. O modelo da imagem como relacionamento
no homem ganhou menor evidência nos trabalhos
teóricos posteriores de Crabb. No final, anseio por Quando esse modelo é avaliado à luz da nossa
relacionamento foi o único sobrevivente, de modo experiência de vida, ele parece fazer pleno sentido. À
que a imagem de Deus no homem resumiu-se ao fato semelhança de outros modelos influentes no aconse­
de que as pessoas são criadas para estabelecer relaci­ lhamento, ele parece “funcionar”. Todavia, ele tem
onamento e anseiam por relacionamento. Se este numerosas implicações que não estão obvias à primei­
anseio não for satisfeito, seremos tanques vazios. ra vista. Por exemplo, esse modelo faz uma declara­
Os anseios básicos são a explicação principal para ção forte a respeito de nosso problema mais profun­
do: ele consiste de anseios e não de pecado. Mais
os sentimentos e o comportamento do homem. Como
adiante, o modelo afirma que a intenção mais profun­
lidar com os anseios é a pergunta fundamental da
da do evangelho é satisfazer necessidades psicológi­
existência humana. De acordo com Crabb, responde­
cas. O “âmago oco” de anseios passa a ser nosso
mos a esta pergunta de duas maneiras. As pessoas problema básico, e não o pecado. A conclusão lógica
agem independentemente de Deus e buscam satisfa­ é que Cristo, em primeiro lugar, é um supridor de
ção por conta própria em outros objetos ou pessoas, necessidades (para nossas necessidades mais profun­
ou olham para Cristo em atitude dependente e encon­ das) e depois, secundariamente, um redentor (para as
tram nEle satisfação para seus anseios de relaciona­ formas erradas como reagimos à nossas necessidades
mento (veja figura 2). Este é o modelo básico da mais profundas).
imagem de Deus no homem que Como Compreender Os relacionamentos humanos também são afetados
as Pessoas ensina, e provê a estrutura teórica para o por esse fundamento teórico. Por exemplo, o casa­
mento e outros relacionamentos passam a ser uma
modelo de aconselhamento de Crabb. É também a
forma de satisfação mútua para necessidades psicoló­
teologia que está no alicerce de muito do que aconte­
gicas. Com certeza, Crabb mostra que as pessoas não
ce no aconselhamento cristão contemporâneo. são capazes por si mesmas de satisfazer aquilo que
somente Deus pode satisfazer, de forma que não
temos a responsabilidade plena de satisfazer os ansei­
os de outrem. Ainda assim, a estrutura básica do
12 casamento consiste de duas pessoas psicologicamente
CRABB, Lawrence J. Jr. Como compreender as pessoas.
necessitadas que se satisfazem mutuamente como
São Paulo: Vida, 1998. p. 106.
expressão da satisfação mais perfeita oferecida por
13 Idem, p. 127 Deus. Isso parece calhar bem na experiência do
casamento, e também parece se ajustar à perspectiva
14 Idem, p. 129

48 Aconselhamento Bíblico
bíblica de amor. Pessoas devem amar porque outros A pessoa como dualidade. A visão tricotômica tem
precisam de amor. origem na existência de diferentes nuanças de signifi­
No entanto, é possível que sejamos chamados a cado para os termos espírito e alma. Como muitas
amar não tanto porque outras pessoas estão vazias e outras palavras, estas duas têm limites vagos. Elas não
necessitam de amor, mas porque amor é uma das são palavras técnicas como elétron, mas são mais
maneiras de imitarmos a Cristo, revelar a Sua Pessoa semelhantes à palavra necessidade, derivando muito
pelo nosso viver e glorificar a Deus? É também possí­ de seu significado do contexto. A questão, todavia, é
vel que o centro de gravidade de um relacionamento se estas nuanças de significado são suficientes para
baseado em necessidades seja eu mesmo, e não Deus, indicar que há duas substâncias distintas criadas por
como deveria ser se fôssemos levar a sério nossa Deus. Ou será que espírito e alma (como coração,
identidade como possuidores da imagem de Deus? mente, consciência) não são perspectivas ligeiramente
Abaixo do compromisso de amar aos outros, e da diferentes do homem interior imaterial (2 Co. 4:16)?
gratidão a Deus por Ele satisfazer nossas necessidades Um número considerável de passagens bíblicas
em Cristo, está um âmago de anseios desesperados indicam que o homem é melhor entendido como duas
que focalizam essencialmente o eu. O foco enfatizado substâncias—material e imaterial— “que formam uma
é minha necessidade, e não a perfeição de Deus, cuja unidade embora possuam a capacidade de se sepa­
imagem eu fui criado para refletir. A diferença pode rar”.17 De acordo com esta posição, espírito e alma
parecer sutil, mas estas teorias apontam para pessoas têm ênfases diferentes, mas são essencialmente duas
mais que para Deus. Isso certamente não quer dizer perspectivas intercambiáveis para a parte imaterial do
que Crabb e outros teóricos cristãos não estejam homem. Por exemplo, Mateus 10:28 diz que o ho­
interessados na glória de Deus. Mas significa que suas mem é composto de duas substâncias, corpo material
teorias, devido ao entendimento deficiente da imagem e alma imaterial: “Não temais os que matam o corpo
de Deus no homem, não esclarecem que o cristão [substância material] e não podem matar a alma
deve fixar os olhos em Deus por Quem Ele é, e não [substância imaterial]. 1 Coríntios 7:34 também diz
simplesmente em busca de alguém que esteja à sua que somos formados de duas substâncias—material e
disposição para satisfazer minhas necessidades. imaterial—mas elas são identificadas como corpo e
A teoria da imagem como relacionamento encon­ espírito, e não como corpo e alma. Tiago 2:26 é
tra pouco apoio exegético. Nem Como Compreender consistente com esta dualidade e usa os termos corpo
as Pessoas nem outra qualquer discussão evangélica e espírito: “o corpo sem espírito é morto”.
desta versão da imagem de Deus no homem conseguiu As duas passagens citadas com maior freqüência
estabelecer um fundamento bíblico claro. Pelo con­ para a visão tricotômica são Hebreus 4:12 e 1 Tessa-
trário, como o próprio Crabb admite, essa categoria lonicenses 5:23. Hebreus 4:12 afirma: “ Porque a
teológica tão crucial é desenvolvida a partir de infe­ palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do
rências nas Escrituras. Falando sobre os anseios com que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao
que fomos criados, Crabb diz: “As Escrituras, contu­ ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é
do, parecem não dizer nada a respeito”.15 E devido a apta para discernir os pensamentos e propósitos do
esta falta de apoio exegético que é essencial reexami­ coração”. Alguns acreditam que o texto esteja se
narmos o tema bíblico da imagem de Deus no ho­ referindo a dissecar o homem em partes. Ou seja, se a
mem. Palavra de Deus pode separar a alma do espírito,
então estamos diante de duas substâncias distintas.
Um exame bíblico das necessidades Mas se a intenção da passagem é falar tecnicamente
Em contraste com a perspectiva tricotômica do sobre as partes que constituem o homem, então ela
homem16 e um entendimento da imagem de Deus no cita pelo menos quatro substâncias que fazem parte
homem baseado em necessidades, há alternativas que do todo: alma, espírito, corpo e coração; e o coração
descansam em um fundamento exegético sólido. ainda poderia ser dividido em pensamentos e propó­
sitos. Parece mais correto dizer que esta passagem
afirma que Palavra de Deus penetra nos aspectos
15 Idem, p. 125. indivisíveis do homem. Ela alcança o mais profundo

16 Nem todos os teólogos que sustentam a visão tricotômi­


ca forçam uma distinção técnica e precisa entre alma e 17 GUNDRY, Robert. Soma in biblical theology. Cam­
espírito. bridge: Cambridge University Press, 1976.
Aconselhamento Bíblico 49
do ser humano. Ela penetra no interior da substância O prazer maior de Deus está em Si mesmo.18 Isso
do homem, não entre substâncias, fatiando em peda­ pode parecer estranho a princípio, mas como podería­
ços distintos. O fato de se fazer referência ao homem mos esperar que Deus fosse consumido com qualquer
interior como alma, espírito e coração é um recurso coisa que não Sua própria perfeição e santidade? O
poético comum para enfatizar que o homem é consi­ alvo de Deus é a própria glória, e a glória de Deus é o
derado como um todo. Por exemplo, Marcos 12:30 próprio Deus. Ele quer magnificar o Seu grande
indica que devemos amar a Deus “de todo o coração, nome. “Porque dele, e por meio dele, e para ele são
de toda a alma, de todo o entendimento e de toda a todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.
força”. O acúmulo de termos é usado para expressar Amém!” (Rm. 11:36)
inteireza. É uma maneira forte de enfatizar que amar Perceba, desde já, a diferença entre o que acaba­
a Deus é uma resposta do homem por inteiro. mos de dizer e aquilo que ouvimos e lemos sobre a
Talvez o máximo que a Bíblia pode dizer sobre a imagem de Deus definida em termos de anseios. Na
distinção entre alma e espírito é que alma enfatiza a psicologia das necessidades, a expressão de louvor a
pessoa em sua existência fraca, terrena, e espírito Deus tem base naquilo que Ele fez por mim. Mas a
destaca nossa vida como derivada de Deus. Nenhum Bíblia diz que, embora Deus mereça agradecimento
dos termos afirma que temos necessidades psicológi­ humilde por aquilo que Ele fez por mim, Ele é digno
cas e moralmente neutras. Em vez disso, elas são de louvor simplesmente porque Ele é Deus. Nossos
palavras que se sobrepõem referindo-se ao homem pensamentos devem descansar naturalmente no
interior, o aspecto imaterial do ser humano ou da grande “Deus da glória”(At.7:2), e não em nossos
pessoa que vive diante do Deus Santo. anseios pessoais. Vista e entendida de maneira corre­
ta, esta glória é consumidora. Os israelitas não irrom­
A imagem de Deus no homem. Um entendimento
peram em cânticos porque seus anseios foram satisfei­
bíblico da doutrina da imagem de Deus no homem
tos; eles exaltaram a Deus simplesmente porque Ele
igualmente se distancia do entendimento baseado em
é exaltado: “Ó SENHOR, quem é como tu entre os
necessidades. A compreensão apropriada da imagem
deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade,
de Deus nos ensina a ver o homem, em sua verdadeira
terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?”
essência, como um ser que vive diante de Deus e
(Ex. 15:11).
para Deus. Os seres humanos não são definidos
Olhe por um momento para esta glória. Ela é
basicamente como pessoas que anseiam por relacio­
arrasadora. Veja-a em sua grandeza acima de todos os
namento.
maiores e mais poderosos reis da terra, em Seus sinais
Para estabelecer uma base exegética sólida, consi­
extraordinários diante de Faraó e Seu controle até
deraremos duas perguntas cruciais feita por Crabb:
mesmo sobre a sanidade de Nabucodonozor. O trono
“Quem é Deus” e “Como o homem se assemelha a
de Deus está acima de todos os demais. Isaías ficou
Deus?”. Imagem tem a ver com semelhança, produto,
assombrado diante da grande glória de Deus (Is. 6). E
ou analogia (p. ex., Gn. 5:3), de modo que qualquer
a visão da Sua glória registrada por Ezequiel (Ez. 1)
doutrina da imagem de Deus precisa considerar o
e o apóstolo João (Ap. 4) é espantosa, quase impossí­
conhecimento de Deus e o conhecimento do homem.
vel de ser descrita. Sempre que Deus apareceu a Seu
Somente após adquirir um correto entendimento de
povo, foi em glória. Sua glória enche toda a terra
Deus é que podemos começar a perguntar “Quem é o
(Nm. 14:21). Até mesmo a criação faz eco ao clamor
homem?”. Como João Calvino disse, “homem algum
celeste de “glória” (SI. 8, 148, 150). Quando Deus
pode fazer um exame de si mesmo sem ter que imedi­
apareceu aos israelitas murmuradores, “eis que a
atamente se voltar para a contemplação do Deus em
glória do Se n h o r apareceu na nuvem” (Êx. 16:10)—
quem ele vive e se move”. Olharemos primeiro para
um brilho que era intenso como o fogo e vital como o
quem Deus é, e depois para como o homem se asse­
sol. Quando o tabernáculo foi levantado, “Moisés
melha a Ele.
não podia entrar na tenda da congregação, porque a
nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR
Quem é Deus e qual a Sua paixão?
enchia o tabernáculo” (Êx. 40:35). Agora que esse
Deus e Seu reino, em resumo, dizem respeito a
Deus. O Pai se compraz no Filho. O Filho está absor­
18
to no Pai e não quer nada a não ser a vontade do Pai. Uma abordagem útil a respeito deste tema encontra-se
no livro de John Piper The Pleasures o f God (Multnomah:
Multnomah Press, 1991).

50 Aconselhamento Bíblico
tabernáculo tomou forma humana na pessoa de ensinando pessoas egoístas a amar a Ele e a outrem.
Cristo, e à medida que nós refletimos Sua glória, o Olhe mais uma vez para a santidade gloriosa de
maior desejo de Deus é que esta glória seja conheci­ Deus. Ela é expressa não apenas por cenas imponen­
da por toda a terra. tes que retratam Seu trono, mas também é comunica­
Vários termos são usados quase que de modo da por figuras mais familiares. Por exemplo, Ele é o
permutável com glória: santidade, honra, brilho, Seu noivo amoroso que espera a noiva imaculada. Ele é
grande nome, beleza, esplendor, e majestade. O o anfitrião que convida a todos para o banquete, mas
principal entre estes é santidade. A santidade glorio­ espera que os participantes vistam as roupas que
sa de Deus resume Sua Pessoa. O Santo dos Santos lhes foram dadas. Ele é o redentor que redime Sião
é o lugar de Sua presença. O livro de Levítico é um com justiça (Is. 1:27). Ele é o juiz sobre toda a terra,
livro de santidade, e resume a tarefa do homem e Seu próprio Filho fez-se advogado de Seu povo
dentro da aliança como “sereis santos, porque eu sou inglório. Ele é o pai, a mãe, o filho submisso, o
santo”(Lv. 11:44). Um olhar de relance na sala do servo sofredor, amigo, pastor, oleiro, e assim por
trono é acompanhado inevitavelmente pelo ressoar diante. Certamente, imagens e retratos de Deus estão
do coro: “Santo, santo, santo é o Se n h o r dos Exér­ por toda parte na Bíblia, e cada retrato é uma expres­
citos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is. 6:3). são de Sua santidade gloriosa.
Essa gloriosa santidade imponente certamente Essas fotos instantâneas que Deus nos dá de Si
expressa a natureza transcendente de Deus, deixando mesmo é muito mais que uma acomodação da Sua
óbvio que Ele é único e sem par, e enfatizando que Pessoa à linguagem humana. Deus não está usando
Ele é intocável e distinto de Suas criaturas. Todavia, o nosso entendimento da palavra servo para dizer
Sua alteridade transcendente não captura completa­ que Ele é semelhante a um servo. Não, Deus é o
mente Sua santidade gloriosa. Embora seja verdade servo, o marido, o pai, o irmão e o amigo. Qualquer
que Deus é incomparável e deve ser temido, Sua semelhança com o mundo criado deve-se simples­
santidade gloriosa é manifestada em atos poderosos mente à glória de Deus derramada na criação e nas
criaturas. Toda vez que você reconhecer essas ima­
de envolvimento íntimo com Seu povo. De modo
gens em outras pessoas, embora distorcidas, elas são
bem concreto, as duas expressões principais desse
um tênue reflexo do original. Eu sou um pai porque
envolvimento íntimo e diário de Deus com Seu povo
Deus é um pai. Eu sou um trabalhador porque Deus
são Seu amor e Sua justiça.1 Deus é gracioso e
é o trabalhador original (figura 3).
compassivo, lento para se irar e abundante em amor,
mas Ele também não deixa o culpado sem punição
(Ex. 34:6). O Novo Testamento é a história do amor
encarnado, mas Jesus também reivindicou para Si
um ministério de justiça e julgamento. Diante disso,
Paulo pede que consideremos “a bondade e a severi­
dade de Deus” (Rm. 11:22).
Seria possível considerar anseio por relaciona­
mento como um dos atributos centrais de Deus,
como se Deus tivesse um déficit a ser preenchido
nesta área? Esta idéia distancia-se do retrato bíblico
do Deus da glória, e motiva a ortodoxia a se preocu­
par em defender a verdade da auto-existência de
Deus. Em lugar de ansiar por relacionamento, na
busca de conseguir algo que O possa satisfazer,
Deus opera ativamente nos relacionamentos arruina­
dos pelo pecado humano. A atividade do Deus de
amor reconcilia e restaura estes relacionamentos,

1 Richard Loverace, em seu livro Renewal (Downer Grove, Figura 3. Um resumo dos atributos de Deus
111.: InterVarsity, 1985), usa amor e justiça como resumo
dos atributos de Deus.
Aconselhamento Bíblico 51
Todos estes retratos se juntam em um único quan­ tomados de um brilho que não desvanece. “E todos
do presenciamos a santidade gloriosa em Jesus Cristo, nós, com o rosto desvendado, contemplando, como
a imagem da glória de Deus (Hb. 13:1). “E o Verbo por espelho, a glória do Senhor, somos transforma­
se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de dos, de glória em glória, na sua própria imagem, como
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigéni­ pelo Senhor, o Espírito” (2Co. 3:18).
to do Pai.” (Jo. 1:14) Ele é chamado “o Santo de Isso significa que a essência da imagem de Deus
Deus” (Mc. 1:24; Jo. 6:69). Sua paixão, como era de no homem está em nos alegrarmos na presença de
se esperar, foi a glória do Pai, e não um anseio por Deus, amarmos a Ele acima de tudo mais, e vivermos
relacionamento abstrato. Por exemplo, antes da para a glória de Deus, não para a nossa. À medida
crucificação, Sua oração foi: “Pai, glorifica o Teu que aprendemos a amar a Deus e ao próximo pela
nome” (Jo. 12:28). Em Sua oração, pouco antes de graça, expressamos a imagem gloriosa de Deus. O
ser preso, Jesus pediu a Seu “Pai justo” (Jo. 17:25) centro de gravidade no universo de Deus é Sua santi­
que glorificasse o Filho para que este, por sua vez, dade gloriosa—não os nossos anseios. E a pergunta
pudesse glorificar o Pai. O desejo mais profundo do mais básica da existência humana passa a ser “Como
coração de Jesus era a glória de Seu Santo Pai, e esse posso glorificar a Deus?”, em lugar de “Como meus
desejo foi expresso em amor e justiça. Este é Aquele anseios serão satisfeitos?”. Essas diferenças produzem
em quem devemos fixar os olhos em busca de sermos um cabo de guerra no nosso coração: um lado atrai-
possuidores da imagem do Deus Altíssimo. nos constantemente para Deus como servos da Sua
vontade; o outro, para longe de Deus como servos de
Quem é o homem? nossos anseios.
Munido de um entendimento de Deus, a pergunta Uma diferença óbvia entre a imagem como neces­
“Quem é o homem?” passa a ser perfeitamente viável. sidade de relacionamento e a imagem como reflexo
Como o homem se assemelha ao Deus Criador? O de glória está em onde situamos a própria imagem. A
objeto da maior afeição de Deus é Ele mesmo: o Pai, teoria das necessidades diz que a imagem de Deus no
o Filho e o Espírito. Como resultado deste grande homem é um lugar dentro do próprio homem. É um
amor pela Sua glória, Deus quer que a Sua glória ponto— um âmago oco—passivo e facilmente prejudi-
encha toda a terra. O homem é semelhante a Deus no cável. Mas a imagem como promotora ativa de glória
sentido de que o objeto de suas afeições deve ser define o homem como um ser ativo, que glorifica a
Deus, assim como o próprio Deus se agrada nEle Deus ou a si mesmo. Neste sentido, a imagem de
mesmo. Isso é expresso mediante uma paixão por Deus no homem é um verbo. Fé, o meio pelo qual
proclamar a glória de Deus. Devemos fazer o Seu refletimos a imagem, é expressa pela nossa maneira de
nome famoso, ou seja, santificá-10 ao redor do mun­ viver, em vários sinônimos: imitar a Deus (Ef. 5:1),
do; devemos declarar a vinda do Seu reino glorioso. representar a Deus (2 Co. 5:20), espelhar ou refletir a
Como diz o Catecismo de Westminster, o fim princi­ glória de Deus (Ex. 34:29-35), amar a Deus, e viver
pal do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para de acordo com a Sua vontade. Sempre que estas
sempre. expressões de ação aparecem nas Escrituras, atrás
Em lugar de um tanque de amor ou um âmago delas está a doutrina da imagem de Deus no homem.
oco, a imagem mais precisa é aquela de Moisés lite­ Será que anseio por relacionamento é de fato um
ralmente refletindo a glória de Deus (Ex. 34:29-32). dos atributos centrais do homem, como se tivéssemos
Moisés estava radiante porque fora convidado à um déficit a ser preenchido no que diz respeito a
presença de Deus e presenciara a santidade gloriosa necessidades? Assim como vimos que isso não é
de Deus bem como fora protegido dela. Porquanto verdadeiro com relação a Deus, também não é verda­
isso possa parecer maravilhoso, Deus fez os possuido­ deiro para o homem criado à imagem de Deus. A
res renovados da Sua imagem ainda mais gloriosos verdade bíblica é que todas as pessoas já existem em
que Moisés. O povo de Deus certamente ainda depen­ relacionamento com Deus e o próximo: maus relacio­
de de Sua presença ser possuidor da Sua glória, mas namentos. Estes relacionamentos são maus por uma
a Sua presença não é mais dada por meio de teofanias razão específica: pecado e distorção da imagem de
ocasionais nem é dependente do tabernáculo. O povo Deus. A Bíblia conduz nossa atenção para a causa, e
de Deus entra hoje em Sua presença pela fé. O Espíri­ não para o resultado ou para nosso desejo de que o
to Santo vem habitar em nós pela fé e, como resulta­ resultado fosse diferente. Podemos ansiar por gozar
do, podemos nos tornar cada vez mais radiantes, de relacionamentos livres de tensão e cheios de

52 Aconselhamento Bíblico
profunda aceitação amorosa. Mas a preocupação prazer na presença de Deus, amar e glorificar a
com este anseio afasta-nos da questão principal: será Deus. Esse amor era expresso no cuidado para com
que nós mesmos amamos, aceitamos a outrem e a criação, na reprodução e na obediência à ordem de
somos pacificadores? Jesus resumiu a questão cen­ não comer da árvore proibida. Mas refletir a imagem
tral da vida humana não em uma declaração sobre de Deus é algo que não podemos fazer sozinhos, é
nossos anseios, mas nos dois Grandes Mandamentos. algo que compartilhamos com outros. Ela não está
Estes mostram exatamente como fracassamos em completa em uma única pessoa que não Deus. Em
refletir a imagem de Deus. Mas Jesus, o possuidor um sentido prático, a ordem de Deus para reprodu­
perfeito da imagem de Deus, encarnou o amor a zir, como meio de Lhe dar glória, não podia ser
Deus e ao próximo quando suportou relacionamen­ cumprida por um único indivíduo. Por isso Deus
tos desgastantes, traição e atrocidades nas mãos de criou o homem e a mulher à Sua imagem.
homens, e finalmente o cálice da ira de Deus. Jesus
exemplificou a imagem renovada de Deus, mas não
o fez buscando em Deus a satisfação de anseios
instintivos por relacionamento e aceitação. Pelo
contrário, Ele o fez mediante a fé, preenchendo as Fé: refletir, confiar,
condições para ser aceito. Hoje somos aceitos pela obedecer, honrar,
graça, porque Ele foi aceito, e somos transformados imitar, representar
progressivamente pela graça para sermos semelhan­
tes a Ele na fé e obediência.
Quando o fato de sermos possuidores da imagem
Amor Justiça
de Deus determina nossa maneira de viver, em lugar
de determinar aquilo que queremos receber, chega­
mos diretamente ao coração das Escrituras: “a fé
atua pelo amor” (Gl. 5:6). Os possuidores da ima­ Pai, Amigo, Irmão,
gem de Deus expressam-se em atos sinceros de Mestre, Sustentador,
Protetor, Oleiro, Amor
obediência, aparentemente pequenos, mas que têm Justiça
Orifice, Agricultor...
implicações eternas. Os possuidores da imagem de
Deus amam a Deus e ao próximo. Esta é a idéia
básica: a glória de Deus é manifestada por meio de Como pai, amigo,
atos concretos de amor e justiça, e como possuidores irmão, mestre,
da Sua imagem devemos imitar a Deus em amor e sustentador, protetor,
justiça. oleiro, orifice, agricultor,
servo, filho...
Como podemos expressar amor e justiça? Imitan­
do, em nome de Cristo, os vários retratos de Deus Figura 4. Relacionamento e semelhanças
fornecidos nas Escrituras. Um pai que, por Cristo, entre o Deus o homem
joga futebol com seus filhos está refletindo a ima­
gem de Deus que investe tempo em Seu povo. Um Necessitamos uns dos outros, mas não parà
filho que arruma a mesa ou lava a louça do jantar em satisfazer necessidades psicológicas deficitárias.
obediência a Cristo está refletindo a imagem do Precisamos uns dos outros porque a ordem para se
Deus servo, e glorificando a Deus. Um trabalhador reproduzir e exercer mordomia sobre a criação, bem
que cumpre sua tarefa no mundo com o desejo de como sua companheira neotestamentária— a Grande
servir a Cristo está refletindo a imagem do Filho que Comissão— não pode ser cumprida por uma pessoa
trabalhou por nós (figura 4). sozinha. Necessitamos de outros para nos ajudarmos
M unidos de um entendimento bíblico do que “uns aos outros” a crescer à imagem de Deus. A
significa refletir a imagem de Deus, podemos glória de Deus é manifestada em sua plenitude pelo
identificá-la agora em toda a Escritura. A Bíblia corpo e não apenas pelo indivíduo. Necessitamos de
passa a ser a história da imagem de Deus desfigura­ missionários, mães, pais, pastores, professores de
da e mais tarde renovada. Em Gênesis 1, o homem é escola dominical e zeladores para que a igreja funci­
chamado a glorificar a Deus ou representá-lO, refle­ one de acordo com o propósito de Deus (1 Co.
tindo a Sua imagem ao administrar o reino e se 12:12-27). Possuidores da imagem de Deus não são
reproduzir. A necessidade central de Adão era ter ursos solitários.

Aconselhamento Bíblico 53
A história das Escrituras fala de imagem caída. Quando certo filme cristão sugeriu que um adoles­
Embora o homem continue a ser possuidor da ima­ cente pode ser atraído a Cristo pela isca de notas
gem de Deus, a desobediência de Adão resultou em melhores após a conversão, não estaria fazendo um
mudanças fundamentais. A direção do coração huma­ apelo às paixões em lugar de apontar para o perdão
no se voltou de Deus para si mesmo. No jardim, o de Cristo para aquelas paixões? O evangelismo dos
homem começou a repetir um refrão que persistirá até israelitas nunca chamou os vizinhos idólatras à adora­
a volta de Cristo: “Eu QUERO”. “Eu quero glória ção do Deus verdadeiro porque Yahweh proporciona­
para mim, em lugar de dar toda a glória a Deus.” ria melhores colheitas que seus ídolos. Na Palavra de
“Amarei meus desejos pessoais, em lugar de amar a Deus, as pessoas eram chamadas, e são chamadas, a
Deus.” Essa disposição é conhecida como idolatria, e se voltarem de seus ídolos porque a idolatria é con­
definida como um negócio insensato: renunciamos a trária a Deus.
nosso status de possuidores da imagem de Deus e Muito embora desde Adão o homem procure
trocamos a glória de Deus pela imagem de criaturas satisfazer os próprios desejos em lugar de obedecer a
(Jr. 2:11. Os. 4:7, Rm. 1:21-25). Deus, Deus ainda tenciona glorificar a Si mesmo, e
Até aqui, a Bíblia parece se manter calada sobre isso é exatamente o que Ele fez no Antigo Testamen­
as necessidades psicológicas. Ela diz que dependemos to. O fato do homem ter perdido o status de possui­
de Deus para todas as coisas, mas mantém silêncio dor da imagem de Deus resultou, na verdade, em
quanto aos anseios por amor e significado. Será que o maior glória para Deus. Deus recolheu os destroços,
“EU QUERO” de Adão teria sido a primeira expres­ escolheu para Si homens que foram chamados pelo
são de necessidades psicológicas? Será que a origem Seu nome—como Sete, Noé e Abraão— e destes fez
dos anseios psicológicos está na recusa de amar a surgir uma nação chamada a ser representante dEle
Deus e receber o Seu amor? Será que, a partir de como possuidora da Sua imagem :“Santos sereis,
Adão, o ímpeto da vida humana não começou a se porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou santo” (Lv.
mover para dentro, em direção aos desejos do eu, em 19:2).
lugar de para fora, em direção a desejar conhecer e Como prévia daquilo que haveria de vir, Deus
fazer a vontade de Deus? Não queremos dizer com escolheu sacerdotes de entre o povo para que O
isso que o pecado original consistiu em gostar de ser representassem servindo exclusivamente diante dEle
amado. Certamente não foi. E também não queremos no tabernáculo. No entanto, à semelhança de Adão e
dizer que a ferida profunda que resulta de uma expe­ Eva, os sacerdotes estavam nus e envergonhados
riência de rejeição é algo errado. Não é. Encontrar diante de Deus. Eles necessitavam da cobertura de
prazer em receber amor e ter satisfação quando da Deus para ministrar em Sua presença. Deus fez então
execução de um trabalho são dádivas boas, e ficar vestes que em nada deviam a trajes reais. Estas vestes
ferido quando outros pecam contra nós é como conferiram-lhes “glória e ornamento” (Ex. 28:2) e
deveríamos reagir. Mas como toda idolatria, a ques­ incluíam, entre outros itens que refletiam a imagem
tão não é tanto o que desejamos, mas o quanto o de Deus, “uma lâmina de ouro puro gravada à manei­
desejamos e porque. ra de gravuras de sinetes: Santidade ao S e n h o r” (Ê x .
Anseios têm muito a ver com cobiça. Elevar nosso 28:36).
desejo de amor, impacto ou outros prazeres a ponto No Novo Testamento, em Cristo, estas vestes estão
de serem necessidades é gritar: “EU QUERO. Eu disponíveis a todos. Elas são dadas livremente, mas
preciso ter. Meus desejos são o alicerce do meu mun­ precisam ser usadas. Elas são essenciais para glorifi­
do”. Estes anseios não existiriam se estivéssemos car a Deus. Elas também instituem o povo de Deus
dispostos a amar a Deus e não a nós mesmos. Uma como “ raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo
resposta bíblica a estas paixões é arrependimento, e de propriedade exclusiva de Deus (IPe. 2:9), além de
não a busca de satisfação, mesmo que um senso que desempenham o papel de bonitas vestes nupciais
temporário de satisfação possa ser aparentemente que o povo de Deus vestirá na consumação dos
encontrado em Cristo. Digo “temporário” porque as tempos, quando Ele tiver completado o processo de
paixões nunca podem ser completamente satisfeitas, renovação da imagem.
e porque o Cristo verdadeiro está trabalhando para No Novo Testamento, os livros que tratam com
destruir os anseios ardentes, em lugar de satisfazê-los. maior profundidade da doutrina da imagem de Deus
O tanque de necessidades psicológicas deve ser no homem são Romanos e Efésios. Romanos 1:18-23
quebrado, em lugar de enchido. é o texto clássico do Novo Testamento que resume a

54 Aconselhamento Bíblico
imagem desfigurada. Ele mostra que todos necessidade psicológica sejam um ressoar distante do
nós— crentes e descrentes— conhecemos a Deus conhecimento universal de Deus e de Sua santidade
(1:21). Conhecemos a natureza divina de Deus e seus de acordo com Romanos l.O u seja, nós de fato
decretos justos, mas seguimos a ídolos em lugar de estamos vazios diante de Deus, mas visto se tratar de
viver para a glória de Deus. A conseqüência é que uma verdade tão assustadora, preferimos que ela seja
todos os possuidores da imagem ficam aquém da reprimida e experimentada como uma necessidade de
glória que teriam se confiassem apenas em Deus relacionamento com pessoas (necessidades psicológi­
(3:23). O apóstolo Paulo contrapõe a este cenário a ca) e não com Deus (necessidade espiritual). De
graça de Deus, que dá vida. O resultado é que somos acordo com esta perspectiva, a preocupação com a
feitos Sua descendência. baixa auto-estima é mais precisamente um eco distan­
O livro de Efésios também se detém nesta doutri­ te da lei de Deus que diz que, por nós mesmos, não
na. Ele mostra que fomos adotados “para louvor da estamos à altura da lei de Deus.
glória de sua graça” (1:6) e “somos feitura dele, Outras explicações para este vazio têm origem no
criados em Cristo Jesus para boas obras” (2:10). fato de vivermos em um mundo pecaminoso que está
Espelhamos a Cristo com maior clareza quando há debaixo de maldição, e onde outros pecam contra
unidade entre o povo de Deus (2:19-22). Somos nós. Por exemplo, quando um cônjuge morre, o vazio
descendência de Deus (3:15). Podemos andar na é uma reação bíblica apropriada. Algo belo foi remo­
escuridão, vivendo por nós mesmos, ou podemos vido da vida (necessidade como desejo). Há um
andar na luz (4:17ss). Deus está criando em nós um grande senso de perda. Esse vazio, todavia, é conse­
“novo homem, criado segundo Deus, em justiça e qüência da maldição estampando-se em nossa psique,
retidão procedentes da verdade” (4:24). Como isso e não o resultado de termos sido criados com anseios
acontece? Deus nos deu vida em Cristo, e agora nós psicológicos.
O imitamos (5:1) com passos fiéis de obediência E quanto à crença comum de que temos um cora­
diária, tais como falar a verdade, trabalhar diligente­ ção com a forma exata de Deus, que pode ser saciado
mente, falar palavras que edificam, amar a esposa, apenas por Deus? É certamente uma verdade. Mas o
submeter-se ao marido e obedecer aos pais. vazio, neste caso, é uma expressão de que necessita­
mos da justiça de Deus para substituir nossa condição
Necessidades revisadas espiritual deficitária. Ainda mais, o senso de vazio
Então, qual é a nossa necessidade real? As Escrituras lembra-nos de que não temos nenhuma capacidade
dizem, em algum lugar, que necessitamos de relacio­ para reparar nossos próprios pecados. Não encontra­
namento para satisfazer anseios? Elas dizem que mos nada em nós mesmos que alcance a retidão de
temos um anseio por significado e valor dado por Deus. Todavia, quando nos voltamos do pecado para
Deusl Não. As Escrituras mostram que necessitamos Cristo, há um senso de satisfação divina que nos faz
de Deus, mas necessitamos dEle como imagem que transbordantes— mais que cheios— do amor de Cris­
devemos refletir, necessitamos dEle porque temos to. Qual é a nossa verdadeira necessidade? Necessita­
necessidades espirituais, e necessitamos dEle para o mos ser atingidos pela a glória de Deus, ser cativados
próprio fôlego de vida. As Escrituras também mos­ por Seu amor, e ser fiéis à medida que andamos em
tram que necessitamos uns dos outros, mas não para obediência a Ele, mesmo no sofrimento.
preencher um vazio de criação. Necessitamos uns dos
outros para refletir a glória de Deus, visto que a Aconselhando possuidores da imagem de Deus
comissão que Ele deu a Seu povo deve ser cumprida Que diferença prática faz a idéia de que a imagem
corporativamente. de Deus no homem expressa-se por glorificarmos
E então, por que muitas pessoas se sentem vazias? ativamente a Ele? Na criação de filhos, significa
De onde vêm estas necessidades? Existem algumas dirigir-se à consciência da criança (o conhecimento
possibilidades bíblicas. A maneira bíblica mais óbvia inato de Deus e do certo e errado) mais que a um
de reestruturar a noção popular de necessidades é que senso de anseios insatisfeitos. Quando você chama
os anseios ou necessidades, especialmente necessida­ seus filhos à obediência, você quer atingir o mais
des psicológicas, podem ser um eufemismo para profundo do seu coração e lembrar que eles estão
paixões e idolatria. Anseios podem revelar uma servindo a Cristo, e não a si mesmos. Aos adolescen­
preocupação excessiva com o eu e seus desejos. tes apontamos a grandeza de Deus e as necessidades
Também é possível que o vazio e o senso de espirituais, em lugar de apontar a maneira como Jesus

Aconselhamento Bíblico 55
pode satisfazer a cobiça por significado. No aconse­ ‘De que você necessita?’ de uma maneira diferente—
lhamento, levamos as pessoas a necessitar menos e ‘O que controla a sua vida?’ ou até ‘Em quem ou o
amar mais. Em lugar de identificar os anseios e espe­ que você deposita a sua confiança?’”.
rar que Cristo os satisfaça, alguns desses anseios são Gradualmente, à medida que Nancy começa a
mortificados. perceber que o problema principal está em decidir em
Nancy é uma esposa de 25 anos, mãe de duas quem ela irá confiar, sua necessidade de marido
crianças. Ela conviveu com um pai que costumava pode ser identificada com o termo bíblico temor ao
estar bêbado e uma mãe que ignorava suas súplicas homem. À semelhança de muitos outros crentes,
quando o pai a tratava com crueldade. Nancy cresceu Nancy deixou que pessoas controlassem a sua vida.
sentindo-se sem valor e vazia. Ela procurou aconse­ Ela passou a temer as pessoas, colocando em pessoas
lhamento por achar que seu marido não estava satisfa­ a sua esperança. Além do mais, como em todo temor
zendo as suas necessidades; em conseqüência, ela se ao homem, havia em Nancy uma forte preocupação
expressava alternadamente em ira e depressão. consigo mesma. Ela confiava em outros porque enten­
Sem dúvida, é triste presenciar uma história de dia que tinham poder para lhe dar aquilo que ela
crueldade e negligência na própria família, e Nancy queria. Mais uma vez, vemos aqui a sutileza da psico­
precisava entender o que Deus diz àqueles que foram logia das necessidades, promovendo que pessoas se
prejudicados por outrem. Mas se o senso de falta de voltem para si mesmas. Necessitamos de pessoas
valor e vazio levou Nancy a crer na idéia de que devido àquilo que queremos. Tememos ao homem
interiormente ela tinha o formato de um tanque vazio porque esperamos que outros nos satisfaçam.
de amor, então ela precisava também ser reformatada Temor ao homem não tem origem em uma necessi­
em outro tipo de recipiente— uma abordagem fiel às dade com a qual fomos criados. Temor ao homem
Escrituras e também capaz de aliviar seu sofrimento. vem de nosso próprio pecado. Consiste em adorar a
Uma razão porque os cristãos respondem positiva­ outros para nosso benefício pessoal. Uma vez estabe­
mente à psicologia das necessidades é porque ela leva lecida esta questão, a resposta é mais do que simples­
a sério a dor. Mas trata-se de uma perspectiva que, na mente voltar-se para Cristo para a satisfação de neces­
verdade, agrava a dor. Ela intensifica a complexidade sidades. Isso seria fazer de Jesus um ídolo pessoal a
da questão, afirmando que os pecados de outrem não serviço de nossos propósitos. A resposta é, em prime­
apenas ferem profundamente, mas também nos pri­ iro lugar, permitir que Deus quebre nossos desejos
vam da satisfação de uma necessidade—um direito egoístas e nos ensine o que significa temer somente a
necessário à vida. Ser ferido profundamente já é duro Ele. A pergunta não é mais “Onde posso encontrar
o suficiente, mas quando acreditamos que o pecado valor pessoal?”, mas “Por que estou tão preocupado
cometido contra nós é quase que um tiro mortal que comigo mesmo?”A pergunta não é : “Como Deus
danifica o âmago do nosso ser, a dor é intensificada. pode satisfazer minhas necessidades?”, mas “Como
Por exemplo, se alguém nos rouba uma jóia preciosa, posso ocupar-me com a glória de Cristo a ponto de
é muito triste; mas se aquela jóia era o único recurso esquecer as necessidades que sinto?”.
financeiro para a aposentaria, então a perda sentida é A esta altura, uma passagem bíblica como Jeremi­
muito maior. Uma das primeiras tarefas do aconselha­ as 17:5-10 pode resumir a experiência de Nancy. Ela
mento é fazer distinção entre a dor real e a dor ampli­ mostra que temor ao homem é uma maldição que nos
ada por nossas paixões e anseios. O resultado será faz sentir necessitados ou vazios. A alternativa, a
uma tristeza natural, piedosa.20 confiança em Deus, é uma bênção que conduz à vida
Considerando com Nancy aquilo que Deus diz aos e à plenitude. A causa desse vazio, todavia, é que
que sofrem, a pergunta pode ser “De que você necessi­ “enganoso é o coração, mais do que todas as coi-
ta?”. No contexto de Nancy, a resposta mais provável sas”(17:9) e não “o coração é necessitado e precisa
seria: “Necessito de que meu marido me escute e ser satisfeito”.
satisfaça minhas necessidades emocionais”. Uma Nossa tarefa consiste em aprender a temer a Deus.
outra pergunta pode vir a seguir: “Nancy, você já É preciso mostrar a Nancy que seu marido, embora
percebeu que tendemos a ser controlados pelas coisas possa ter errado para com ela, é também um de seus
de que necessitamos? Talvez fosse melhor perguntar deuses. Ela o escolheu para satisfazer os seus desejos.
A resposta de Nancy a Deus deve ser voltar as costas
a estes desejos egoístas e saber que Ele é muito maior
20Veja o artigo do mesmo autor Exaltar a dor? Ignorar a
que qualquer outro deus forjado pelo homem. A
dor? O que fazer com o sofrimento?

56 Aconselhamento Bíblico
resposta é olhar para os retratos de Deus na Bíblia até Um retrato menos popular, mas igualmente fre­
estar completamente dominada por Sua majestade. qüente nas Escrituras, é o de “servo” ou “escravo”.
Nancy precisa também aprender a amar seu marido, Embora livres em Cristo, os filhos de Deus são Seus
refletindo a Pessoa de Deus, à medida que responde servos. Nossa liberdade consiste em não estarmos
à Sua graça. mais sob o domínio de Satanás e de nossos desejos
Você tem um versículo favorito que fale a respeito descontrolados. Agora somos livres para servir a
de Deus? Considere passagens como Isaías 6, Ezequi- Deus. A característica desta figura é que ela pode
el 1 ou o livro de Apocalipse. Você pode pedir a simplificar a vida que foi complicada quando os
Nancy para começar a ler as Escrituras com esta impulsos assumiram o comando. A pergunta é: “Qual
pergunta em mente: “Como posso ver a glória de o meu dever para com o Deus que me amou?” No
Deus na Bíblia?”. Bons livros devocionais podem caso de Nancy, seu dever inclui várias coisas. Como
ajudar. Livros como a coleção de Crônicas de Nár- fruto de amor, ela pode fazer o bem a seu marido,
nia de C. S. Lewis também podem contribuir para um falar com seu marido se ele errar para com ela, identi­
conhecimento mais nítido de Deus. Às vezes, desco­ ficar as traves em seu próprio olho antes de apontar
brir nossas necessidades mais profundas por meio do ao marido os argueiros no olho dele, obedecer de
estudo e uso das orações das Escrituras também pode coração a Deus gozando do companheirismo de seu
exaltar a Cristo e acabar com o senso de necessidades marido. Seja qual for a expressão que o serviço amo­
psicológicas. Por exemplo, a oração do Senhor come­ roso possa assumir, Nancy deve manter os olhos
ça pedindo que o nome de Deus seja glorificado e postos nAquele que a serviu (Jo. 13:1-7).
santificado. Ela mostra que nossa necessidade mais Finalmente, um dos maiores privilégios de aconse­
profunda é ter um coração ardente pelo reino de lhar Nancy é abençoá-la em nome de Cristo dizendo-
Deus. Talvez Nancy possa criar o hábito de orar lhe que “o amor de Deus é derramado em nosso
sinceramente o Pai Nosso e outras orações das Escri­ coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”
turas. (Rm. 5:5). Isso pode parecer estranho se considerar­
Nancy também precisa entender a sua verdadeira mos que estamos rejeitando a noção de tanque de
forma. A figura do tanque vazio deve ser eliminada, amor sustentada pela psicologia das necessidades.
embora os anseios por amor provavelmente ainda Será que as Escrituras estão dizendo que, afinal de
venham à tona muitas vezes, e precisa ser substituída contas, somos tanques de amor? Não é certo impor­
por figuras bíblicas de possuidores da imagem de mos a noção de necessidades psicológicas ao texto de
Deus. Há muitos destes retratos nas Escrituras, inclu­ Romanos 5:5. Embora o autor tenha em vista a metá­
indo as figuras de amigo, sábio, profeta, sacerdote, fora de um recipiente, estamos diante de um recipien­
rei, cônjuge. Algumas podem calhar melhor que te com necessidades espirituais e não psicológicas. O
outras, dependendo da pessoa, mas há uma grande contexto esclarece a natureza específica desse amor:
quantidade de figuras repetidas ao longo das Escritu­ “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco
ras que nos contam algo sobre nós mesmos, nossa pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós
tarefa ou nosso Deus. A principal é “cristão”— um ainda pecadores” (Rm. 5:8). Quando reconhecemos
símbolo para “filho de Deus”. O cristão abriu mão de que as pessoas chegam a Deus na forma de pecadores
seu nome e assumiu o nome de Cristo. Sua identidade desesperadamente necessitados de graça, como conse­
está intimamente ligada à de Jesus, e Seu propósito é lheiros vamos procurar “inundar” o aconselhado com
fazer o nome de Cristo afamado. (Este era o propósito o amor de Cristo. Esta deve ser nossa maior alegria:
da adoção entre os romanos). À medida que Deus derramar o amor de Deus sobre aqueles que estão
adota Seus filhos e eles passam a levar Seu nome, não espiritualmente sedentos. Afinal, daremos grande
há razão para se orgulhar de si mesmo, mas há plena glória ao nome de Cristo. “Portanto, quer comais,
razão para se orgulhar e encontrar grande prazer no quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo
amor dAquele que deu a nós o Seu nome. para a glória de Deus” (ICo. 10:31).

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