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Desde o século XIX que “intervenção militar” é prática frequente no Brasil | Jornalistas Livres 27/02/18 10(45

Desde o século XIX


que “intervenção
militar” é prática
frequente no Brasil
Um exercício de história comparada para mostrar
as especificidades da atual presença do Exército
no Rio de Janeiro

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23
FEVEREIRO,
2018
Desde o século
XIX que
“intervenção
militar” é prática
frequente…

por Jornalistas Livres 23 fevereiro, 2018 23


FEVEREIRO,
2018
Ensaio de Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da Secretário de
História na Universidade Federal da Bahia Doria reafirma
intenção de
extinguir
Aqui neste ensaio, quero apresentar uma síntese das cobradores de

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Desde o século XIX que “intervenção militar” é prática frequente no Brasil | Jornalistas Livres 27/02/18 10(45

intervenções militares que ao longo da história republicana ônibus

desestabilizaram o sistema político brasileiro. Meu objetivo 22


principal é utilizar este exercício de história comparada para FEVEREIRO,
2018
mostrar as especificidades da atual intervenção, dessa que está Estaria a
acontecendo no Rio de Janeiro. O conhecimento histórico é corrupção
brasileira em
sempre útil à vida. queda?

Bom, começo meu exercício de síntese histórica em 1889, com a 22


proclamação da República. FEVEREIRO,
2018
O QUE O
A intervenção militar liderada pelo Marechal Deodoro da CARNAVAL NOS
Fonseca que em 15 de novembro de 1889 destituiu o gabinete INSPIRA?

ministerial chefiado pelo Visconde de Ouro Preto a princípio não 22


era um golpe militar republicano. A intervenção somente se FEVEREIRO,
2018
tornou um golpe militar republicano no dia seguinte, quando o Ataque à
Imperador D. Pedro II convidou o político gaúcho Silveira Martins disciplina da UnB
sobre golpe de
para ser o novo chefe de governo. 2016 gera…

Ao que parece, Silveira Martins era um desafeto pessoal de 22


Deodoro da Fonseca, que, contrariado, cedeu ao assédio de FEVEREIRO,
2018
republicanos civis como Quintino Bocaiuva. De republicano, Mulheres
Deodoro não tinha nada, muito pelo contrário, pois ele devotava ativistas
assumem ECO-
grande respeito ao velho Imperador. O que aconteceu UFRJ
naquela tarde de 15 de novembro foi o desfecho de uma
22
década de conflitos. FEVEREIRO,
2018
Parte do oficialato do Exército e os políticos civis brigaram Agressão
machista a
durante toda a década de 1880, num ciclo de conflitos que
deputada por
costumamos chamar de “questão militar”. Os militares se outro
parlamentar
achavam moralmente superiores aos políticos civis, já que
causa revolta
poucos anos antes tinham “salvado a pátria” na Guerra do entre…
Paraguai. Já os políticos civis, como sempre acontece, tinham
21 FEVEREIRO,
medo dos militares, pois sabem como é, né? Mílico quando se 2018
mete a fazer política sempre vem armado. MBL tenta
esconder
parceiro
É importante destacar que nesse período o Exército tinha duas envolvido em

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agendas corporativas: a busca por mais prestígio institucional, e, atentado e


fraude milionária
pra isso, os militares frequentemente evocavam memórias da
Guerra do Paraguai, representando a si mesmos como messias 21 FEVEREIRO,
2018
da nação. A outra agenda consistia num projeto político Governo mete a
inspirado na filosofia positivista, que seduzia uma parcela mais reforma no saco

jovem dos oficiais do Exército, liderados por um sujeito chamado


21 FEVEREIRO,
Benjamin Constant. 2018
Jandira Feghali
Saltamos trinta anos, chegamos na década de 1920 e (PCdoB)
questiona
encontramos mais uma vez os militares em conflito com os ministro da
políticos civis, novamente atuando como um ator de Defesa sobre
últimas
desestabilização do sistema político. operações no…

Temos aqui o movimento que aprendemos a chamar de


Tenentismo.

A bibliografia especializada já desmatou uma Amazônia inteira


problematizando a natureza do movimento e a origem social dos
militares envolvidos, quase todos jovens oficiais, chamados na
época de “tenentes”. Fundamental para o argumento que estou
desenvolvendo é que os tenentes afirmavam que o sistema
político da época (a Primeira República) era corrupto e se diziam
os moralizadores da nação.

Acabou que em 1929 aconteceu uma racha no pacto oligárquico


que então governava o Brasil e os tenentes emprestaram suas
armas ao movimento político que ficou conhecido como “Aliança
Liberal”. Era um movimento bastante plural. Vários grupos
reunidos.

O que reunia essa gente toda era a existência de um


inimigo em comum: o Partido Republicano Paulista
Paulista, a
principal força política da Primeira República.

Foi assim que a aliança liberal apresentou a candidatura de


Getúlio Vargas às eleições de 1930. Na época a eleição era toda

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zoada, não tinha justiça eleitoral, os votos eram abertos. Getúlio


acabou perdendo, mas não aceitou a derrota e a aliança liberal
tomou o poder na marra, contando com o apoio de parte dos
tenentes.

Mais um salto e pousamos em meados da década de 1960, em


mais uma intervenção militar na política.

Desde 1949 existia no Brasil uma instituição chamada Escola


Superior de Guerra, dedicada aos “altos estudos políticos e
estratégicos” que funcionava como centro de formulação de uma
doutrina político-militar. Numa cena internacional marcada pela
polarização ideológica da Guerra Fria, essa doutrina ganhou
contornos anticomunistas.

Isso fez com que ao longo da década de 1950, uma parte


considerável do oficialato militar tenha se aproximado da UDN.
É que nesse momento, a UDN, sob a liderança do político
fluminense Carlos Lacerda, tornou-se a principal porta-voz do
anticomunismo no sistema político-partidário brasileiro.

Desde o final do Estado Novo, em 1945, a UDN construía sua


identidade política em oposição ao trabalhismo getulista, que no
começo tinha uma relação muito conflituosa com os comunistas.
Porém, quando, já nos anos 1950, ficou claro que João Goulart
herdaria o capital político de Getúlio, aconteceu uma
importante mudança na ideologia trabalhista, que passou
a ter vínculos mais estreitos com os comunistas.

Basta lembrar que na época o PCB estava na ilegalidade e o PTB


contribuía para a “lavagem ideológica” dos políticos comunistas,
que disputavam as eleições pela legenda trabalhista, mas na
prática representavam os interesses do partido comunista. Isso
não quer dizer que Jango e o PTB fossem comunistas. Quer dizer
apenas que mantiveram uma relação de intenso diálogo com o
comunismo brasileiro. Brigaram muito também.

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Nos anos 1950, portanto, a UDN tornou-se a


representação do anticomunismo e do anti-trabalhismo
anti-trabalhismo, o
que atraiu quadros importantes do oficialato das forças armadas,
que estavam sendo formados na ESG, numa doutrina
anticomunista.

Quando o governo do Presidente João Goulart propôs o


programa das “reformas de base”, a ação foi considerada ousada
demais por essa aliança UDN/Militares e interpretada como um
prelúdio para revolução comunista no Brasil. O golpe civil-militar
de 1964, então, teve o saneamento ideológico do sistema
político como primeiro objetivo, o que na prática significava tirar
lideranças trabalhistas e comunistas do jogo.

Depois do golpe, a aliança entre a UDN e os militares fez água e


o próprio Carlos Lacerda sentiu o coturno dos milicos no lombo.
Pra utilizar as palavras de Dom Casmurro: “Que a terra lhe seja
leve”.

Resumindo o que foi dito até aqui:

Tivemos três intervenções militares efetivas na política


brasileira ao longo da história republicana
republicana: a intervenção
que proclamou a República nos anos 1880, a intervenção que
ajudou a derrubar a Primeira República na década de 1920 e a
intervenção que golpeou a República Popular em meados dos
anos 1960. Cada uma dessas intervenções possui suas
singularidades, mas acho que não é loucura afirmar a existência
de um certo padrão, caracterizado por três aspectos: a presença
de uma doutrina militar inspirando os milicos, a presença de um
projeto específico para as forças armadas e a intervenção sendo
efetivada contra o governo instituído.

Nenhum destes três elementos podem ser encontrados na atual


intervenção do governo federal na segurança pública do Rio de
Janeiro, porque, simplesmente, não se trata de uma intervenção

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militar. Isso não quer dizer que a ação do governo golpista seja
legítima, pois nada que um governo golpista faça pode ser
considerado legítimo.MORADIA POLÍTICA DIREITOS HUMANOS

É natural que 21 anos de ditadura traumatizem uma


sociedade, mas precisamos
CULTURA parar EDUCAÇÃO
de ler 2018 com a lente
de 1964
1964. São duas experiências completamente diferentes. O
Brasil não está sob intervenção militar, tampouco vive uma
ditadura militar. Trata-se de uma intervenção organizada pelo b a
poder instituído, que convocou os militares, que não possuem r x
doutrina e nem projeto corporativo. ,

Não, definitivamente não; não temos no Brasil de hoje


uma intervenção militar, para o desgosto das viúvas da
ditadura e para a desilusão da esquerda romântica, que
idealizando a “resistência” parece sonhar com uma
ditadura para chamar de sua. É que nos últimos trinta anos a
vida foi muito chata, monótona.

Fato mesmo é que o Brasil vive sob o governo de um presidente


golpista que usurpou o poder num golpe de Estado efetivado
pela aliança entre parte do sistema político, setores do Judiciário
e a mídia hegemônica, com o apoio, é claro, do neoliberalismo
internacional.

Desde que chegou ao poder, Michel Temer só fez se


defender das denúncias de corrupção e atacar o Estado
brasileiro
brasileiro, que há oitenta anos é um agente provedor de
direitos sociais para os setores mais vulneráveis da nossa
população.

É certo que não aconteceram grandes mobilizações contra o


golpe e contra o governo ilegítimo de Temer, mas todas as
pesquisas de opinião mostram o golpista como o presidente mais
impopular e odiado da história do Brasil. Isso é um sinal de que
as pessoas estão reagindo ao golpe, à sua maneira, mas estão

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reagindo.

Sem apoio popular, com seu capital político desgastado após as


duas denúncias apresentadas por Rodrigo Janot, Michel Temer
se agarrou à agenda da reforma da previdência, que é a menina
dos olhos do neoliberalismo nacional e internacional.

Conforme o tempo foi passando e as eleições se aproximando, a


aprovação da reforma da previdência foi se tornando um projeto
cada vez mais improvável, eu diria até mesmo impossível.
Aposentadoria e seguridade social são elementos sagrados no
imaginário do povo brasileiro. Nenhum parlamentar quer
colocar sua assinatura num projeto tão impopular nas vésperas
das eleições.

Temer se tornou, com isso, um cadáver político, apodrecendo em


praça pública. A intervenção federal na segurança pública
do Rio de Janeiro foi uma ousada cartada de Michel
Temer, buscando uma agenda positiva que vitaminasse
seu final de governo
governo. Como a segurança pública é percebida
por parte considerável da sociedade brasileira como o grande o
problema da nação, o faro político de Temer identificou
facilmente o tema com mais potencial para a tal agenda
positiva.

Como o Rio de Janeiro é a capital mais famosa do país, o


“tambor do Brasil”, as terras fluminenses foram escolhidas como
palco para a encenação política, ainda que quando comparadas
com outros Estados não apresentem os piores índices de
segurança pública.

É que o interesse do governo golpista não é resolver o problema


da segurança pública. O objetivo é fortalecer Michel Temer para
as eleições, visando uma candidatura com alguma viabilidade
ou, no mínimo, transformá-lo num cabo eleitoral relevante. Não
acredito que a farsa da intervenção terá o efeito desejado. O

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tempo é curto e a impopularidade de Temer é muito alta.

Pra concluir, o que estou querendo dizer é:

É mais importante para o campo progressista brasileiro


pensar com cuidado os impactos políticos dessa
intervenção federal no Rio de Janeiro do que ficar
remoendo antigos traumas, falando em intervenção
militar e em ditadura militar.

Talvez estejamos diante do tema mais espinhoso dos últimos


anos. Não precisa ser um gênio pra saber que a intervenção é
uma farsa e que não resolverá o problema. Mas ainda assim, com
todas essas ressalvas, não podemos ignorar que a população
está assustada, acuada, desesperada e que tanques e homens de
verde armados nas ruas aumentam a sensação de segurança.
Não estou falando que essa sensação seja correta. Só estou
dizendo que ela existe e que não podemos desconsiderar o que
as pessoas pensam e sentem. Não se faz política sem povo.

Não dá pra, simplesmente, sair por aí dizendo “somos contra a


intervenção”. Esse debate precisa ser feito com muito cuidado.
Por isso, é importante entender, à luz da história do Brasil, que
não se trata de uma intervenção militar, que não vivemos uma
ditadura militar. Hoje, temos outros problemas, tão graves
quanto. Hoje, estamos vivendo sob um golpe de Estado
que está tentando se reinventar para as eleições. É isso
que precisamos mostrar pra nossa gente. É esse lobo em pele de
cordeiro que precisamos desnudar.

Desde o século XIX que “intervenção militar” é prática frequente


na história do Brasil.

Jornalistas Livres
Mídia democrática, plural, em rede, pela diversidade e defesa
implacável dos direitos humanos.

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e defesa implacável dos direitos humanos.

UM COMENTÁRIO

realista@hotmail.com 23 fevereiro 2018 at 21:44


Comente

QUE INTERVENÇÃO MILITAR HÁ AGORA ? A INTERVENÇÃO É


FEDERAL, LIMITADA, COM PRAZO E COM O AUXÍLIO DO
EXÉRCITO APENAS NA SEGURANÇA PÚBLICA.

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