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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES


DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

EDUARDO SOUSA DOS SANTOS

CONHECENDO A REALIDADE: Trabalho Infantil e Estratégias para


seu Enfrentamento

JOÃO PESSOA – PB
Junho de 2017
EDUARDO SOUSA DOS SANTOS

CONHECENDO A REALIDADE: Trabalho Infantil e Estratégias para


seu Enfrentamento

Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) a ser


apresentado como requisito para obtenção do título de
Bacharel do curso de graduação em Serviço Social, do
Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA),
da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Marlene de Melo Barboza Araújo

JOÃO PESSOA – PB
Junho de 2017
AGRADECIMENTOS

Primeiramente, gostaria de agradecer à Deus por me proporcionar o dom do


viver e me guiar por todos os caminhos, pois sem ele, essa trajetória que hoje termina,
não seria a mesma. Sigo com fé e com a certeza de que estou no caminho certo e
que ele nunca me abandonará.

Dedico este trabalho, agradecendo por todo o esforço tido comigo e com meu
irmão, à minha mãe, Regina Célia Sousa dos Santos, Mulher guerreira, mãe solteira,
que se doou ao máximo para criar e ser uma referência de ética, amizade,
cumplicidade e principalmente, de amor para os seus filhos. Por sempre ter me
incentivado nos estudos. Por sempre ter acreditado no meu potencial. Por sempre ter
me amado incondicionalmente. Obrigado por tudo, mãe. Lhe amo para todo o sempre!

À minha avó materna, Maria Alice Cunha de Sousa, Mulher batalhadora, que
apesar das dificuldades vividas, nunca deixou que o seu sorriso desaparecesse. Pois
sem ela, eu não seria a pessoa que sou hoje, um homem integro, honesto, de bom
coração e que sempre busca o melhor nas pessoas. Obrigado por ter me criado tão
bem, vó. Lhe amo hoje, amanhã e sempre.

Agradeço imensamente ao meu pai, Lucival Leite dos Santos (in memorian),
homem que apesar dos momentos difíceis que viveu ao lado de sua família, nunca
deixou que seus filhos desacreditassem num futuro melhor, sempre buscando
aconselhar, nos guiando para o caminho do bem e nos incentivando a sermos pessoas
honestas, integras, amorosas, amigas, companheiras etc. Obrigado por tudo, meu pai.
Infelizmente não posso lhe abraçar, mas sei que o senhor sempre estará junto de mim.
Lhe amo eternamente.

À minha tia, que é “apenas” minha madrinha, mas que considero uma mãe,
Mércia Urquisa Herculano, Mulher guerreira, batalhadora, sinônimo de amizade, de
cumplicidade e principalmente, de amor. Por sempre está me incentivando a estudar,
a ser melhor a cada dia que passa. Obrigado por cada conselho, por cada abraço, por
cada gesto de carinho. Lhe amo muito, tia.

À minha família materna (Cunha de Sousa), por ter me dado uma boa base de
educação, de respeito e de amor para com o próximo. Por cada momento vivido ao
lado de vocês. Amo todos.
À minha família paterna (Leite dos Santos), na pessoa de minha avó, Maria
Terezinha por sempre ter me incentivado na busca pela minha felicidade, por sempre
se preocupar com meu bem-estar e com o bem-estar do meu irmão e por também ter
me proporcionado uma boa base de educação, respeito e amor para com o próximo.
Amo vocês.

Agradeço na pessoa de Dona Socorro, Mulher cheia de vida, de alegria, de


perseverança, à minha terceira família, a família Urquisa/Urquiza Herculano, que me
acolheu de uma forma tão linda, demonstrando toda amizade, toda cumplicidade e
todo amor que uma família pode representar na vida de uma pessoa. Obrigado por
tudo, amo vocês.

À Patrícia S. da Silva, pessoa de extrema importância na minha vida, que


apesar de não compartilharmos mais da mesma história, sempre se fará presente na
minha memória e no meu coração. Pois sem ela e sem tudo o que vivemos, eu não
teria aprendido a ser mais responsável, mais maduro, mais sensato. Obrigado por
cada madrugada ao teu lado, pelas taças de vinho que tomamos juntos, pelos sorrisos,
pelos choros, pelos conselhos. Enfim, obrigado por ter me amado. Sempre estarei
torcendo por você. Te amei e te amarei para todo o sempre!

À minhas amigas, Patrícia S. da Silva, Larissa Cabral, Danubia do Carmo,


Francisca Yáskara, Juliana Heloiza, Lohanna Lima e Garinalda Cirilo, por terem
sido a minha fortaleza nesses quase quatro anos de curso. Por cada tarde ao lado de
vocês, pelos conselhos e puxões de orelha recebidos, pelo amor incondicional que
nos uniu e fez com que nossa amizade se perdura aos momentos difíceis que
passamos juntos. Obrigado por fazerem parte da minha vida, da minha história e é
como a música de Thiaguinho fala “Nada vai nos separar, a amizade é tudo! ”. Amarei
vocês por toda eternidade.

À Anna Paula, Milena Mathias, Naquécia Fernandes, Jaciara Lima, Ilka


Tatiana, Cecília Nobrega, por terem me acolhido tão bem e terem feito das minhas
quartas, dias menos tensos na preparação do TCC. Obrigado por cada conversa, por
cada conselho, por cada puxão de orelha, vocês foram de extrema importância para
que esse trabalho tivesse um fim. Amo muito todas vocês.

A todos os professores do curso de graduação em Serviço Social, por cada


ensinamento passado, por me fazer entender que o Serviço Social, para além de
defender e buscar viabilizar direitos, é uma profissão de extrema importância, pois
impulsiona o pensamento crítico que temos acerca das relações sociais, fazendo com
que busquemos a realidade dos fatos e a partir desta, intervir de maneira correta na
realidade social. Sem vocês, esse estudo não teria acontecido. Obrigado por tudo!

Reconheço e agradeço imensamente, à minha orientadora, Marlene de Melo


Barboza Araújo, Mulher de um coração lindo e profissional extremamente capaz. Ter
sido um de seus orientandos, me deu a possibilidade de tentar me superar a cada dia
que passava. Sua forma de incentivo, sempre foi algo que valorizei e que levarei
comigo por toda vida. Sei que não fui o mais exemplar, o mais competente ou mais
feroz na busca pelo tão sonhado título de bacharel em Serviço Social, mas sempre
busquei não lhe decepcionar, pois sei o quanto você se esforça para passar o seu
conhecimento a aqueles que passam por você como alunos e/ou orientandos.
Obrigado, do fundo do meu coração, por não ter desistido de mim, pelos conselhos
dados, você foi e sempre será, um dos pilares na minha formação acadêmica!

À minha supervisora no campo de estágio, Maria Senharinha Soares


Ramalho, exemplo de ser humano, Mulher e profissional, por ter me acolhido tão bem
e me proporcionado novas descobertas, um novo modo de olhar a atuação do
Assistente Social. Ter sido supervisionado por você, foi uma vivência que nunca
esquecerei e que levarei comigo para todo o sempre. Obrigado por cada conselho
dado, por cada incentivo, por cada momento que passei e que se Deus quiser, ainda
passarei, ao seu lado. Saiba que você se tornou alguém muito importante para mim.
Um grande beijo!

À todas as pessoas que trabalham no Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos


da UFPB, por terem me acolhido bem, por toda simpatia dada a mim. Estagiar no
NCDH, foi um processo de suma importância para que eu entendesse e valorizasse o
quão necessário é a luta pelo respeito aos direitos humanos. Sigam trabalhando com
seriedade, vocês possuem um papel importante na sociedade. Obrigado por tudo.

À todas as pessoas que fazem parte do FEPETI/PB, por terem me recebido


com todo respeito e atenção. Ter me inserido no Fórum, foi algo que abriu meus olhos
na busca pelo caminho a ser seguido na minha vida profissional. Sem o FEPETI/PB,
esse estudo jamais teria sido concluído. Obrigado por me proporcionarem novas
possibilidades. Em pouco tempo estarei de volta. Abraço a todos.
À minha banca, por me proporcionar este dia tão importante na vida de um
futuro profissional. Sei o quanto vocês se esforçam para contribuir e melhorar o estudo
que foi feito com tanto trabalho e dedicação. Obrigado por tudo!

Agradeço à minha amiga, Rany Felix, por todo carinho dado, pelas
recomendações, por ter me aguentado pedindo ajuda nos ajustes desse estudo. Ter
lhe conhecido, foi uma dádiva do senhor meu Deus. Obrigado por tudo, viu. Te gosto
muito!

Por fim, agradeço à todas as pessoas que estiveram/estão presentes nessa


jornada que se encerra hoje, por toda contribuição dada para que eu seguisse
batalhando na conquista dos meus sonhos. Vocês foram e são, muito importantes na
minha história. Obrigado por tudo.
“Deus me enviou à terra com uma missão.
Só Ele pode me deter, os homens nunca poderão. ”

Bob Marley.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABEPSS - Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social


CEDCA – Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente
CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas
CNSS – Conselho Nacional de Serviço Social
CEPETI – Comissão Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil
DEMEC – Delegacia Regional do Ministério da Educação e Cultura
DNCr – Departamento Nacional da Criança
DRT/PB – Delegacia Regional do Trabalho na Paraíba
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
FAMUP – Federação das Associações dos Municípios da Paraíba
FEPETI/PB – Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao
Trabalhador Adolescente na Paraíba
FNPETI – Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil
FETAG – Federação dos Trabalhadores em Agricultura
FUNABEM – Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor
GIETI – Grupo Interestadual de Eliminação do Trabalho Infantil
INAM – Instituto Nacional de Assistência ao Menor
IPEC – Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil no Brasil
IPPETI – Instituto Paraibano de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil
MNMMR – Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua
NCDH/UFPB – Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Universidade Federal da Paraíba
OIT – Organização Internacional do Trabalho
ONU – Organização das Nações Unidas
PAI – Programa de Ações Integradas
PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
PNBEM – Política Nacional do Bem-Estar do Menor
SAM – Serviço de Assistência ao Menor
SAS – Secretaria de Assistência Social
SEC – Secretaria de Educação e Cultura
SEPLAN – Secretaria Estadual de Planejamento
SETRAS – Secretaria Estadual do Trabalho e Ação Social
SCFV – Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos
UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância
RESUMO

O presente trabalho, tem como objeto de pesquisa a problemática do trabalho infantil e as


estratégias de enfrentamento. O objetivo principal do presente estudo, é o de abordar,
mesmo que brevemente, o enfrentamento ao trabalho infantil no âmbito brasileiro até os
dias atuais, dando enfoque à atuação do Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do
Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente na Paraíba (FEPETI/PB). Vale
salientar, que o contexto histórico de evolução da problemática, demonstra que a condição
peculiar da população infanto-juvenil não garante efetiva concretização da normativa legal,
pois a realidade mostra-se como um universo de exploração e desrespeito para com as leis
de proteção à infância e juventude. Portanto, trata-se de uma pesquisa predominantemente
bibliográfica de abordagem qualitativa, traçando um panorama histórico de evolução da
problemática em questão, seguido de discussão acerca da legislação referente à proteção
de crianças e adolescentes e tecendo breves comentários sobre as políticas públicas de
enfrentamento ao trabalho infantil presentes na atualidade, evidenciando a importante
contribuição do FEPETI/PB no âmbito estadual. Por fim, faz-se uma breve reflexão sobre a
preocupante realidade de exploração do trabalho infantil ainda existente, destacando a
importância do trabalho articulado no enfrentamento à problemática e na concretização de
direitos resguardados na normativa legal de proteção à crianças e adolescentes.

Palavras-chave: trabalho infantil; enfrentamento; FEPETI/PB.


ABSTRACT

The present work has the objective of research on the problem of child labor and coping
strategies. The main objective of this study is to address, even briefly, the confrontation of child
labor in the Brazilian context up to the present day, focusing on the performance of the State
Forum on Prevention and Eradication of Child Labor and Protection of Adolescent Workers in
Paraíba (FEPETI / PB). It is important to note that the historical context of the evolution of the
problem demonstrates that the peculiar condition of the child and youth population does not
guarantee effective implementation of legal norms, since reality appears as a universe of
exploitation and disrespect for Childhood and youth. Therefore, it is a predominantly
bibliographical research with a qualitative approach, tracing a historical panorama of the
evolution of the problematic in question, followed by discussion about the legislation regarding
the protection of children and adolescents and making brief comments on the public politics of
confrontation to the work Present, evidencing the important contribution of FEPETI / PB at the
state level. Finally, a brief reflection is made on the worrying reality of the exploitation of child
labor that still exists, highlighting the importance of articulated work in confronting the problem
and in the realization of rights protected by the legal regulations for the protection of children
and adolescents.

Keywords: child labour; coping; FEPETI/PB


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO -------------------------------------------------------------------------------------------------- 15

CAPÍTULO 1 – O FENÔMENO DO TRABALHO INFANTIL: Aspectos Históricos-


Conceituais ------------------------------------------------------------------------------------------------------ 21
1.1 – ESBOÇO HISTÓRICO DO TRABALHO INFANTIL --------------------------------------------- 21
1.2 – BREVE HISTÓRICO DO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL ------------------------------ 26

CAPÍTULO 2 – O MARCO LEGAL INTERNACIONAL E NACIONAL DOS DIREITOS DA


CRIANÇA E ADOLESCENTE ------------------------------------------------------------------------------- 39
2.1 – O MARCO LEGAL INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DAS
CRIANÇAS E ADOLESCENTES --------------------------------------------------------------------------- 39
2.2 – O MARCO LEGAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DAS CRIANÇAS E
ADOLESCENTES NO BRASIL ------------------------------------------------------------------------------ 48

CAPÍTULO 3 – AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENFRENTAMENTO AO TRABALHO


INFANTIL --------------------------------------------------------------------------------------------------------- 56
3.1 – BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE POLÍTICAS PÚBLICAS ---
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 56
3.2 – A POLÍTICA DE ENFRENTAMENTO AO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL --------- 57
3.3 – A POLÍTICA DE ENFRENTAMENTO AO TRABALHO INFANTIL NA PARAÍBA ------- 64
3.4 – O FÓRUM ESTADUAL DE PREVENÇÃO E ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL
E PROTEÇÃO AO TRABALHADOR ADOLESCENTE NA PARAÍBA (FEPETI/PB): Análise de
sua atuação à luz de alguns referenciais e da experiência de Estágio Supervisionado
Obrigatório -------------------------------------------------------------------------------------------------------- 66

CONSIDERAÇÕES FINAIS ---------------------------------------------------------------------------------- 73


REFERÊNCIAS ------------------------------------------------------------------------------------------------- 77
15

INTRODUÇÃO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo descrever


sobre o trabalho infantil no Brasil, enfocando a atuação do Fórum Estadual de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente
na Paraíba (FEPETI/PB), à luz da pesquisa bibliográfica e da experiência de Estágio
Supervisionado Curricular Obrigatório, realizado no Núcleo de Cidadania e Direitos
Humanos da Universidade Federal da Paraíba (NCDH/UFPB), no período de março
de 2015 a junho de 2016.

Com base na revisão da literatura especializada sobre essa temática, parte-se


do pressuposto de que o trabalho infantil deve se compreender como um fenômeno
complexo e de difícil enfrentamento, pois está inserido num contexto histórico-social
em âmbito mundial, que envolve múltiplas determinações e profundamente marcadas
pelas desigualdades de classe, gênero, raça/etnia e geração.

No Brasil, no plano do direito constitucional, a questão da idade para inserção


no mercado de trabalho é bem antiga. A Constituição de 1934, por exemplo, já
estabelecia a idade de 14 anos para admissão no trabalho embora tenha preservado
como possibilidade, por meio da autorização judicial1, à admissão de adolescentes
abaixo dessa faixa etária. Nessa trajetória, há que se registrar avanços constitucionais
em relação a proteção social a infância e a adolescência no Brasil, Assim, em
decorrência da luta política protagonizada no âmbito dos direitos humanos em nível
internacional e por diversos atores sociais da sociedade civil brasileira, a Constituição
Federal de 1988, proíbe o trabalho noturno e perigoso ou insalubre a qualquer pessoa
abaixo de 18 anos de idade, assim como a qualquer atividade de trabalho à
adolescentes menores de 14 anos, salvo na condição de aprendiz (artigo 70, XXXIII).

Além desse direito constitucional, merece destaque nestas breves notas


introdutórias, a promulgação a Lei Federal nº 8.069 de 13 de julho de 1990, que cria
o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que em seu artigo 4º determina que:

É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público,


assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida,
à saúde, a alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização,

1
Conforme Decreto de nº 17.943 de 1927.
16

à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e


comunitária.

No que tange especificamente ao trabalho infantil, assim como previsto na


Carta Magna de 1988, o Estatuto é claro em relação a prevenção e a proteção ao
trabalho dos menores de 18 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente fala sobre
isso nos seguintes termos: “é proibido qualquer trabalho a menores de dezesseis anos
de idade, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos” (ECA, artigo 60).
Noutras palavras, a legislação atual brasileira determina que não pode haver trabalho
infantil e, como tal, crianças e adolescentes não podem ser exploradas e que a
proteção ao trabalho à adolescentes (de ambos os sexos) deve ser regulada por
legislação especial. Enfim, preconiza que crianças e adolescentes têm o direito à
proteção integral dos direitos humanos, e no caso que a proteção ao trabalho à
adolescentes (de ambos os sexos) deve ser regulada por legislação especial.

Em termos conceituais, já é consensual na literatura especializada e na


legislação internacional que o trabalho infantil pode ser definido como sendo toda e
qualquer configuração de trabalho exercido por crianças e adolescentes, abaixo da
idade mínima legal permitida para o trabalho, conforme a legislação de cada país
(ALBERTO, 2000, 2002; FALEIROS, 2011; LIRA, 2016).

Partindo desse entendimento, no estado da Paraíba, pesquisadores de


diferentes áreas do conhecimento têm se debruçado sobre essa problemática do
trabalho infantil, ou como diz a autora Maria de Fátima Pereira Alberto (2002) em sua
tese de doutorado, “sobre o trabalho precoce”. Nas palavras de Alberto, Moreira et al
(2003), na Paraíba, “vários estudos e pesquisas foram vêm sendo produzidos dando
conta das condições de trabalho de crianças e adolescentes no campo e na cidade e
dos efeitos do trabalho precoce sobre a escolaridade e a saúde física mental” (p. 87).
Tal afirmativa, portanto, torna-se urgente a necessidade da produção de pesquisas e
do conhecimento sobre essa dura e cruel realidade, ainda presente em todo o mundo,
no Brasil e, em particular no estado da Paraíba.

Segundo o Ministério do Trabalho, 46.984 ações de fiscalização no Brasil


retiraram 63.846 crianças e adolescentes da situação entre 2006 e 2015. Dados
17

retirados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) apontam que entre
2014 e 2015 houve redução 18,2% no número de ocorrências do trabalho infantil na
faixa etária de 5 a 17 anos. Em 2015, 2,7 milhões de crianças trabalhavam. Já em
2014, eram 3,3 milhões.

De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a meta de


erradicação das piores formas foi reagendada para 2020 e a de todas as formas de
trabalho infantil para 2025, em acordo firmado com a comunidade internacional na
OIT, no âmbito dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Chegados a esse ponto, é importante mencionar que o interesse pelo tema e a


escolha por essa temática com vistas a realização a minha monografia emergiu
durante a experiência de Estágio Supervisionado Curricular, realizado no Núcleo de
Cidadania e Direitos Humanos, no período de março de 2015 a junho de 2016,
corresponde aos semestres letivos 2015.1 e 2015.2, da Universidade Federal da
Paraíba – UFPB.

De acordo com a Política Nacional de Estágio da Associação Brasileira de


Ensino e Pesquisa em Serviço Social (PNE/ABEPSS, 2008), o Estágio
Supervisionado compõe uma etapa de fundamental importância na formação
profissional em Serviço Social, pois proporciona ao estudante o conhecimento ou uma
aproximação de situações concretas da realidade social ou do real em cena; assim
como, oportuniza a observação sistemática de como se materializa as três dimensões
que conformação a formação em Serviço Social: teórico-metodológico, ético-política
e técnico-operativo. Dito de outra forma e nas palavras da ABEPSS, o Estágio
Supervisionado Curricular no Curso de Serviço Social possibilita as (os) estudantes,
entre outros aspectos,

o estabelecimento de relações mediatas entre os conhecimentos


teórico-metodológicos, e o trabalho profissional, a capacidade técnico-
operativa e o desenvolvimento de competências necessárias ao
exercício da profissão, bem como o reconhecimento da ação
profissional com as classes trabalhadoras, neste contexto político-
econômico-cultural sob a hegemonia do capital (ABEPSS, 2010, p. 14).
18

Considerando esses importantes elementos da formação profissional em


Serviço Social, ou melhor, ciente de que o Estágio Supervisionado Curricular
Obrigatório é parte integrante e fundamental na formação profissional em Serviço
Social, durante a prática do Estágio Supervisionado é preciso estar atento a essas
três importantes dimensões, recomendas nas Diretrizes Curriculares para o Curso de
Serviço Social (ABEPESS, 1996): teórico-metodológico, ético-político e técnico-
operativo. Nesse período de inserção no campo de estágio, tive a oportunidade de
conhecer mais de perto as principais demandas e atividades realizadas pelo Núcleo
de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB, acompanhar e observar o fazer
profissional da/do Assistente Social no âmbito do NCDH, mais especificamente da
minha supervisora de campo, Maria Senharinha Soares Ramalho.

A escolha por essa temática, portanto, se deu a partir das observações


sistemáticas e das desenvolvidas durante o Estágio Supervisionado Obrigatório,
realizado no NCDH. Sob a orientação da supervisora de campo, destaco um maior
envolvimento em duas atividades importantes a saber: no Grupo Temático, Direitos
Humanos, Crianças e Adolescentes, e no Fórum Estadual de Prevenção e
Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente na Paraíba
– FEPETI/PB. Nesse percurso as orientações práticas-pedagógicas e as reflexões
teóricas realizadas respectivamente pela supervisora de campo e pela supervisora
acadêmica, a Profa. Dra. Luziana Ramalho, foram fundamentais para definição dos
objetivos do presente Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.

Ademais, considero importante destacar que, sob a supervisão da Assistente


Social do NCDH2, a minha participação ativa nas reuniões colegiadas do FEPETI,
foram fundamentais para escolha desse eixo temático como objeto de estudo e
definição de duas importantes questões norteadoras desse trabalho, a saber: Afinal,
o que significa trabalho infantil? Quais os elementos presentes na produção e
reprodução do trabalho no Brasil? Qual a relevância histórica e política do FEPETI em
âmbito nacional? E por fim, identificar e compreender como vem se dando a atuação
do FEPETI na prevenção do trabalho infantil e na proteção ao trabalho de
adolescentes no estado da Paraíba.

2
E na época também Coordenadora do FEPETI/PB.
19

Em termos metodológicos, cabe anotar, inicialmente, que o presente trabalho


é resultado de uma pesquisa exploratória do tipo bibliográfica, cuja abordagem é
eminentemente qualitativa.
Sobre a pesquisa exploratória, alguns especialistas em metodologia afirmam
que a pesquisa tipo exploratória tem como característica principal o interesse do
pesquisador em debruçar-se sobre algo ainda pouco estudado, ou por interesse de
afinidade com a realidade em cena. Além disso, busca observar, descrever e
investigar sua natureza (POLIT, BECH E HUNGLER, 2004). Com relação à pesquisa
bibliográfica Gil (2002, p.44), “a pesquisa bibliográfica, é desenvolvida com base em
material já elaborado constituído principalmente de livros e artigos científicos”.

Sobre a perspectiva da abordagem qualitativa Maria Cecília Minayo (2001) em


seu estudo sobre Pesquisa Social: teoria, método e criatividade, afirma essa
abordagem trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças,
valores, e estando ancorada nas relações humanas dificilmente a abordagem terá
primazia, embora considere sua importância e relevância. Nas palavras de Minayo,

Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que


não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de
significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que
corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos
e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização
de variáveis (MINAYO, 1994, p 21-22).

Sobre os procedimentos metodológicos para a realização do presente estudo,


percorreu-se o seguinte caminho: Inicialmente foi feito um levantamento do estado da
arte concernente ao tema e objeto em pauta, através de visitas em bibliotecas,
pesquisa na internet e sites que tratam do tema. No segundo momento, tratou-se de
fazer a revisão da literatura selecionada, e a partir daí, proceder com outras atividades
que pudessem apreender melhor o acabou teórico a ser utilizado na compreensão da
temática em estudo. Nessa direção, as principais atividades foram: leituras,
fichamentos, sínteses críticas etc., não só, também revisitamos o diário de campo do
Estágio Supervisionado I e II, objetivando extrair principais registros em torno do
FEPETI: definição, finalidades, e as principais ações desenvolvidas no âmbito do
estado da Paraíba.
20

Por fim, cabe ressaltar a relevância do presente estudo em dois sentidos: Sob
o ponto de vista acadêmico espera-se responder os questionamentos norteadores do
presente estudo, e desse modo, contribuir com alguns elementos histórico-conceituai
em torno do fenômeno do trabalho infantil. Sob o ponto da intervenção social, espera-
se contribuir com subsídios teórico-práticos que possam nortear a pratica social de
diferentes atores que compõem o Sistema de Garantia de Direitos, com vistas ao
fortalecimento da rede de proteção social de crianças e adolescente, e em particular
na luta política de enfrentamento do trabalho infantil no Brasil e na Paraíba.

Para concluir e seguindo as exigências de estruturação do trabalho


monográfico de conclusão de curso, a nível de graduação da Universidade Federal da
Paraíba, o presente trabalho está metodologicamente estruturado da seguinte forma:
em três capítulos, além desta introdução e das considerações finais.

No capítulo I, são traçadas considerações gerais em torno do fenômeno do


trabalho infantil, enfocando aspectos históricos-conceituais, políticos e sociais,
enfocando o diálogo entre autores e autoras selecionados para discussão do tema em
pauta. O capítulo seguinte, traz um panorama do marco legal-conceitual, em nível
internacional e nacional em torno dos direitos humanos de crianças e adolescente,
enfocando sobremaneira a legislação direcionada a prevenção do trabalho infantil e a
proteção ao trabalhador adolescente. No terceiro capítulo, são apresentadas e
discutidas as principais políticas de prevenção e erradicação do trabalho infantil. No
Brasil, com enfoque especial no estado da Paraíba, além de traçar um panorama geral
sobre a atuação do FEPETI na Paraíba. Finalmente, são feitas breves considerações
finais enfocando os principais problemas identificado na pesquisa bibliográfica, assim
como avanços e possibilidade. Não só, também são indicadas as principais ações
desenvolvidas pelo FEPETI, avanços e desafios da luta política de enfrentamento ao
trabalho infantil no estado da Paraíba. A problemática do trabalho a respeito da
situação das crianças e adolescentes ocupadas na Paraíba e da eficácia das políticas
de erradicação do trabalho infantil.
21

CAPÍTULO I

O FENÔMENO DO TRABALHO INFANTIL: Aspectos Históricos-Conceituais

No decorrer do presente capítulo, abordaremos alguns pontos relativos ao


conceito de trabalho infantil e da evolução deste na sociedade, colocando-o como um
grave problema social a ser erradicado não apenas pelo Estado, mas também pela
sociedade civil. Para tanto, faremos uma breve explanação do percurso histórico de
manutenção da problemática em questão, remetendo à Revolução Industrial como
processo de intensificação da exploração de crianças e adolescentes no mundo do
trabalho.

Ainda nesta sessão, discorreremos sobre a exploração de mão de obra infanto-


juvenil no âmbito brasileiro, desde o período escravagista até os dias atuais, buscando
compreender o processo de preocupante evolução da problemática do trabalho
infantil. Em linhas gerais, essa será a discussão inicial do presente trabalho.

1.1 – ESBOÇO HISTÓRICO DO TRABALHO INFANTIL

Para que possamos entender à problemática do trabalho infantil e suas formas


de penetrar na sociedade, faz-se necessário conceituar este, que pode ser definido
como atividades econômicas e/ou de sobrevivência, com ou sem finalidade de lucro,
remuneradas ou não, tais como o trabalho infantil doméstico e o trabalho infantil no
âmbito familiar. De acordo com Haim Grunspun (2000):

A designação tradicional de trabalho infantil era aplicada para a prática


de empregar crianças em fábricas. Atualmente significa o emprego de
crianças de forma genérica, especialmente em trabalho que possa
interferir com sua educação ou colocar em perigo sua saúde
(GRUNSPUN, 2000, p. 14).

Maria Aurenice Rodrigues e Antônia Jesuíta Lima (2007) ao tratarem à


problemática do trabalho infantil, o definem como:

[...] atividades impróprias à sua condição peculiar de desenvolvimento,


geralmente acima de sua capacidade física, intelectual e moral, sob
condições de risco e com o agravante de afastá-la da escola e da
22

possibilidade de acesso a informações e conhecimentos que lhe


permitam a inserção na sociedade e no mercado de trabalho no devido
tempo, como cidadão e de forma crítica e participativa, auferindo dos
frutos das riquezas produzidas socialmente (RODRIGUES e LIMA,
2007, p. 59).

Segundo as autoras, a exploração da mão de obra infanto-juvenil faz parte de


uma estratégia das forças dominantes para,

[..] intervir nas famílias proletárias, para que adotassem o padrão


burguês, o que propiciava o controle dos seus membros,
principalmente as crianças, tidas como uma ameaça à sociedade
devido a uma latente rebeldia, e à promiscuidade, até porque a classe
trabalhadora era considerada indecente e associada à criminalidade e
a transmissão de doenças (RODRIGUES e LIMA, 2007, p. 64).

De acordo com Maria Adriana da Silva Torres (2011), a exploração do trabalho


infantil está intimamente ligado às relações sociais e ao modo de produção capitalista.
Nessa perspectiva, a autora coloca que,

A exploração do trabalho infantil está relacionada as relações sociais


e ao modo de produção capitalista, que degrada o homem. Desse
modo, desumaniza o ser social desde cedo, em decorrência de sua
imersão em relações de trabalho precárias e penosas, reprodutoras
do legado da pobreza, por isso mesmo interditadas pela legislação
social (TORRES, 2011, p. 64).

A proibição do trabalho infantil, decorre de tratados internacionais no âmbito


dos direitos humanos, da legislação internacional trabalhista preconizada pela
Organização Internacional do Trabalho (OIT) e, sobretudo da legislação
constitucional, que erigiu o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos
pilares do Estado Democrático de Direito.

No âmbito da Organização Internacional do Trabalho, a Convenção de nº 138


de 1973 do referido órgão, estabelece em seu artigo 2°, parágrafo 3º, que, “A idade
mínima fixada em cumprimento do disposto no parágrafo 1 do presente artigo, não
deverá ser inferior à idade em que cessa a obrigação escolar, ou em todo caso, a
quinze anos”.
23

Ainda na perspectiva de enfrentar a exploração de mão de obra infanto-juvenil,


a Convenção de nº 182 da OIT, no ano 1999, estabelece em seu artigo 3º, uma lista
com as chamadas “pioras formas de trabalho infantil” abrangendo:

a) todas as formas de escravidão ou práticas análogas à escravidão,


tais como a venda e tráfico de crianças, a servidão por dívidas e a
condição de servo, e o trabalho forçado ou obrigatório, inclusive o
recrutamento forçado ou obrigatório de crianças para serem utilizadas
em conflitos armados;
b) a utilização, o recrutamento ou a oferta de crianças para a
prostituição, a produção de pornografia ou atuações pornográficas;
c) a utilização, recrutamento ou a oferta de crianças para a realização
para a realização de atividades ilícitas, em particular a produção e o
tráfico de entorpecentes, tais com definidos nos tratados
internacionais pertinentes; e,
d) o trabalho que, por sua natureza ou pelas condições em que é
realizado, é suscetível de prejudicar a saúde, a segurança ou a moral
das crianças (OIT, 1999).

Tomando como parâmetro as Convenções de nº 138 e 182 da OIT, o Fundo


das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), define o trabalho infantil como sendo:

Toda forma de trabalho abaixo dos 12 anos de idade, em qualquer


atividade econômica; qualquer trabalho entre 12 e 14 anos que seja
trabalho duro; e todo o tipo de trabalho abaixo dos 18 anos
enquadrado pela Organização Internacional do Trabalho nas "piores
formas de trabalho infantil" (TRABALHO INFANTIL, 2017).

Na legislação brasileira, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) pauta em


seus artigos 402º e 403º, que o trabalho infantil é aquele exercido por crianças e
adolescentes que possuem menos de dezoito anos, proibindo atividades laborais aos
menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, com devido registro na
carteira profissional, a partir dos quatorze anos de idade.

Diante do que foi exposto, nota-se que delimitar o trabalho infantil é algo que
está intimamente ligado à questão da idade, sendo esta, um fator de oscilação que
atravessou vários momentos da humanidade, tendo como fatores o contexto histórico,
a condição de trabalho de cada época, etc., estes evidenciados no decorrer do
capítulo.
24

Analisar historicamente a evolução do trabalho infantil torna-se um instrumento


de suma importância na busca de ações que possam reduzir significativamente o
número de crianças e jovens inseridos tão precocemente no competitivo universo do
mercado de trabalho.

É importante lembrar, que o trabalho infantil apresenta uma série de fatores que
podem distingui-lo, levando em consideração os padrões de evolução e
desenvolvimento das sociedades, a geografia e a cultura existem em cada período da
história.

Erotilde Ribeiro MInharro (2003), em seu estudo intitulado a Criança e o


Adolescente no Direito do Trabalho, observa entre outros aspectos,

[...] que mesmo antes de Cristo verificava-se a existência de proteção


as crianças e aos adolescentes que trabalhavam como aprendizes.
Infere-se assim, que desde as épocas mais remotas já havia a
utilização da mão-de-obra infantil (MINHARRO, 2003, p. 15).

Nota-se, que a exploração de mão de obra infanto-juvenil é um problema que


vem acompanhando a Humanidade em sua evolução e progresso. A problemática do
trabalho infantil ao longo de sua evolução histórica, esteve intimamente ligada a
posição social afetando predominantemente a vida de famílias pobres.

Com as progressivas transformações no mundo do trabalho e tentando seguir


o ritmo acelerado para atender a alta demanda de produção, esta mão de obra passou
a ser usada com mais frequência. Segundo Grunspun (2000), em grande parte da
história da humanidade as crianças realizavam atividades de trabalho sem quaisquer
distinções entre elas e os adultos que faziam parte do seu núcleo de convivência.

Ainda de acordo com Grunspun (2000), só com o advento da Revolução


Industrial que a exploração de crianças e adolescentes no mercado de trabalho dentro
das fábricas intensificou-se, tornando-se um grave problema social. Pois, uma vez que
o espaço fabril era concebido em oposição às ruas, o entendimento de que o trabalho
era uma forma de resguardar crianças e adolescentes do crime e da marginalidade, e
que por isso estes deveriam trabalhar, era tido como essencial para o
desenvolvimento econômico e social do sistema de produção vigente.

Assim como relata Enotilde Ribeiro Minharro (2003), foi a partir,


25

da revolução industrial que a utilização da mão-de-obra infanto-juvenil


passou a ganhar força. O Estado, impregnado pelos ideais do
liberalismo, abstinha-se de dar um tratamento tuitivo aos pequenos
que se sujeitavam a jornadas extenuantes, trabalhos insalubres e
condições de vida inumanas (MINHARRO, 2003, p. 21).

É interessante salientarmos, que o início da Revolução Industrial e a


consequente implementação de linhas de montagem e utilização de máquinas,
possibilitou que crianças e adolescentes sem qualquer qualificação profissional e
economicamente necessitadas, operacionalizassem tais instrumentos.

Ao notarem que a população infanto-juvenil poderia ser mais ágil e de menor


custo benefício em relação aos trabalhadores de mais idades que já vinham no
incessante desgaste da sua força de trabalho, os capitalistas começaram a viabilizar
a contratação desta população, visando a intensificação do processo de produção e
consequentemente do lucro obtido.

Sobre tal fato, Sabrina Cassol e Roseane Porto destacam que,

Com a explosão da revolução industrial a situação infanto-juvenil


piorou muito, pois aqueles serviços que anteriormente eram feitos por
artesões e que exigiam uma certa técnica, passaram a ser efetuados
por máquinas, que poderiam ser manejadas por qualquer pessoa, até
mesmo por crianças, sem que a qualidade do produto fosse
modificada (CASSOL e PORTO, 2007, p. 3).

Entretanto, Ismael Francisco de Souza (2006), relata que as consequências


desta realidade de exploração da mão de obra infanto-juvenil tornaram-se visíveis e,

No final do século XIX algumas vozes que se organizavam passam a


denunciar a exploração do trabalho de crianças e demonstram suas
consequências, tais como os altos índices de mortalidade infantil,
doenças e prejuízos ao desenvolvimento físico e mental de um grande
contingente de crianças, que não tinham mais condições de sequer
reproduzir a força de trabalho. Como resultado deste processo surge,
ainda no século XIX, as primeiras leis que proíbem o trabalho de
crianças estabelecendo limites de idade mínima para o trabalho. Em
1919 é criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com a
atribuição de estabelecer garantias mínimas ao trabalhador e,
também, evitar a exploração do trabalho de crianças (SOUZA, 2006).
26

A partir desse momento, diversos países no mundo começaram a estabelecer


uma série de garantias contra a exploração do trabalho infantil, além de cuidar para
que aqueles que trabalhavam por expressa autorização da lei, tivessem seus direitos
resguardados, de modo a assegurar-lhe o direito ao convívio familiar, ao estudo, à
vida social e à saúde.

Apesar da tardia proposição de uma política voltada para o enfrentamento do


trabalho desenvolvido por crianças e adolescentes, essa não é uma situação tão
recente na humanidade. Como pudemos notar, o trabalho infantil sempre esteve
presente na forma de organização das sociedades.

No Brasil, por exemplo, essa problemática se consolida desde os tempos de


colônia. Diante o processo de organização da sociedade brasileira a partir da chegada
da família, para a manutenção de todo luxo e conforto de uma verdadeira corte, muitas
crianças oriundas de famílias de escravos foram submetidas a um processo de
exploração. A seguir, breves comentários acerca do processo de evolução do trabalho
infantil no Brasil.

1.2 – BREVE HISTÓRICO DO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL

Abordar a temática da exploração do trabalho de crianças e adolescentes no


Brasil requer muita atenção, tendo em vista que essa realidade não só ocorreu na
antiguidade, mas estende-se até os dias de atuais. Sendo assim, é importante realizar,
ainda que brevemente, uma incursão histórica capaz de situar o problema do trabalho
infantil no contexto brasileiro.

Nesse trajeto, vários pesquisadores e pesquisadoras sobre a história social da


infância Brasil têm buscado demonstrar como o Estado e a Sociedade Brasileira tratou
as crianças e adolescentes em situação de pobreza, conforme veremos algumas
dessas considerações a partir de agora.

De acordo com Mary Del Priore (2000),

O Brasil tem uma longa história de exploração da mão-de-obra infantil.


As crianças pobres sempre trabalharam. Para quem? Para seus
donos, no caso das crianças escravas da Colônia e do Império; para
27

os “capitalistas” do início da industrialização, como ocorreu com as


crianças órfãs, abandonadas ou desvalidas a partir do final do século
XIX; para os grandes proprietários de terras como boias-frias; nas
unidades domésticas de produção artesanal ou agrícola; nas casas de
família; e finalmente nas ruas, para manterem a si e as suas famílias
(DEL PRIORE, 2000, p. 376).

Grunspun (2000) assinala que a exploração da mão de obra infanto-juvenil no


Brasil, tornou-se evidente nos tempos de escravidão. Para o autor,

[...] as crianças sempre foram exploradas, mas como a escravatura


cobria o trabalho com adultos e crianças, as crianças órfãs e pobres
eram recrutadas para o trabalho das fazendas e das casas grandes
dos “Senhores”, onde eram exploradas e abusadas mais do que os
filhos dos escravos que valiam dinheiro [...] Antes da extinção da
escravatura, nenhuma criança recebia algum ganho pelo trabalho que
executava (GRUNSPUN, 2000, p. 51-52).

Em 1888, é assinada a Lei Aurea, acabando com a escravidão no Brasil tanto


de adultos como de crianças. Com o advento da abolição, os escravos ganharam a
sua liberdade, mas, sem possuir terras e uma profissão, muitas vezes ficavam nas
mãos dos seus antigos senhores agora como empregados. Conforme destaca Maria
Ligia de Malta Farias (2003):

Para substituir o trabalho escravo, fazendeiros recrutavam crianças


pobres e órfãs para a lida no campo. Famílias inteiras de libertos
formavam a população de mão-de-obra desempregada e miserável,
aglomerada nos centros urbanos. No mesmo período, a crise
comercial do café brasileiro, em decorrência da desvalorização e
retração do mercado mundial, devastou a economia do país,
provocando desemprego, aumento da violência e da criminalidade (em
especial a criminalidade infantil), migração rural, dentre outros
problemas sociais (FARIAS, 2003, p. 59).

Diante o amadurecimento do processo de industrialização e do crescente


número de imigrantes europeus, no final do século XIX, ocorreu no Brasil, um aumento
substancial de mão de obra de pobres imigrantes e que foram absorvidos na indústria
sem qualquer distinção entre adultos e crianças.

De acordo a pesquisadora Irene Rizzini (2004), a partir de 1894, a indústria


têxtil foi a que mais demandou da força de trabalho de crianças e adolescentes no
Brasil. Já que para eles, as crianças e adolescentes tinham mãos pequenas e ágeis,
28

corpo obediente e pouco exigente, além do baixo custo financeiro, do regime


disciplinar mais rigoroso, da falta de proteção ou benefícios, da não organização e
reivindicação por parte de instituições de classe, como por exemplo, os sindicatos.
Assim sendo, possuíam muitas obrigações e pouquíssimos direitos.

Em resposta a está situação, foi instituído o Decreto nº 1.313 de 27 de janeiro


de 1891, que dispunha sobre o trabalho de crianças e adolescentes nas fábricas.
Conforme Nilson de Oliveira Nascimento (2003) destaca,

O Decreto n. 1.313/1891 consagrava aos menores os seguintes


direitos: a) proibia o emprego de menores de doze anos no trabalho;
b) limitava a duração da jornada de trabalho; c) autorizava a
contratação de menores aprendizes a partir dos oito anos; d) proibia o
menor de exercer determinados tipos de trabalho, considerados
perigosos à saúde (NASCIMENTO, 2003, p. 54).

Entretanto, só em 1927 com advento do Decreto nº 17.943 no dia 12 de


outubro, que instituiu o Código de Menores, é que o Brasil desperta para a proteção
de suas crianças e adolescentes, consolidando as leis de assistência e proteção aos
menores. O Código de 1927 é extremamente minucioso, contendo 231 artigos. Para
Ismael Francisco de Souza e Maria Palma Souza (2010),

O Código de Menores serviu de instrumento para subjugar crianças


sob o rótulo da ‘menoridade’, conforme sua condição social,
considerando como abandonada aquelas com idade inferior a dezoito
anos, que não tivesse quem os cuidasse, ou, mesmo na companhia
dos pais, tutor ou outra pessoa responsável, tivessem tais práticas
contrárias à moral e bons costumes, promovendo uma espécie de
educação orientada para civilização da infância, e pretendendo evitar
a delinquência e os maus-tratos contra criança (SOUZA; SOUZA,
2010, p. 23).

Ainda de acordo com Souza e Souza (2010), o Código de Menores de 1927,


apesar de tentar prevenir que jovens das camadas mais pobres e abandonados
entrassem para delinquência, apoiando uma tradição de promoção ao trabalho, traz,
em seu artigo nº 102, o veto para o trabalho de crianças abaixo de 12 anos, salvo,
para aqueles com idade superior a 12 anos e inferior a 14 anos era permitido o
trabalho, desde que obtivesse certificado de escolaridade primária.

Segundo Vicente de Paula Faleiros (2009), “[...] a lei, aliás, não proíbe o
trabalho de menores, mas limita a idade e as horas de trabalho. Ou seja, a estratégia
29

de manutenção das crianças no trabalho é a prática que contraria o discurso da


proteção [...]”.

Em 1930, após assumir o governo pela revolução, Getúlio Vargas trouxe em


seu discurso, promessas em defesa do proletariado e a criação do Ministério do
Trabalho. Entretanto, só em 1932 com a edição do Decreto de nº 22.042, medidas
efetivas foram tomadas para estabelecer uma certa proteção à população infanto-
juvenil. O Decreto nº 22.042, fixou a idade mínima de 14 anos para o ingresso nas
fábricas e proibiu a utilização de força de trabalho de menores abaixo dos 16 anos
nas minas, sendo obrigatório para admissão, certidão de idade, autorização dos pais
ou responsáveis, atestado médico de capacidade física e mental, e prova de que a
criança sabia ler, escrever e contar.

A primeira Constituição a inserir em seu texto normas sobre direitos sociais e


trabalhistas foi a Constituição de 1934. Esta, representou um marco para a classe
trabalhadora. Segundo Edson Passetti (1999),

Inicialmente, com o Decreto nº 16.272, de 20 de novembro de 1923,


surge o regulamento de proteção aos menores abandonados e
delinquentes, reconhecendo a situação de pobreza como geradora de
crianças abandonadas e jovens delinquentes. Logo depois, em 1927,
aparece o Código de Menores regulamentando o trabalho infantil até
que, com a Constituição de 1934, determinou-se a proibição ao
trabalho dos menores de 14 anos sem permissão judicial (PASSETTI,
1999, p. 354).

Em seu artigo 121º, a Constituição tratou de vetar o trabalho aos menores de


14 anos, trabalhos noturnos aos menores de 16 anos e em indústrias insalubres aos
menores de 18 anos de idade.

Durante o governo Vargas, a situação de crianças e adolescentes que


precisavam da tutela do Estado, era encarada como consequência da pobreza
existente em grande parte do território brasileiro. Segundo Irma Rizzini (2009),

[...] Vargas, expressava as grandes preocupações das elites da época


com relação à assistência à infância, tais como a utilização de critérios
científicos no atendimento, a aliança entre os setores público e
privado, a defesa da nacionalidade, a vergonhosa mortalidade infantil
das cidades brasileiras e a formação de uma raça sadia, de cidadãos
úteis (RIZZINI, 2009, p. 247).
30

Em 1937 uma nova Constituição é promulgada, e no que diz respeito ao


trabalho infantil, foi mantido o limite de 14 anos de idade para a proibição do uso de
mão de obra infanto-juvenil, como também reforçou a necessidade de uma estratégia
de encaminhamento de crianças pobres para o mercado de trabalho, ao destacar o
ensino pré-vocacional e profissional como primeiro dever do Estado para com crianças
e adolescentes de famílias advindas da pobreza.

Desta maneira, o Estado procurou atender, através do fortalecimento de uma


política de assistência social aos chamados “menores”, a população que se
encontrava em situação de desajustamento social. Para tanto, possibilitou a criação
de diversos órgãos federais com representações estaduais e municipais, para que
estes pudessem desenvolver uma política voltada à crianças e adolescentes.

Um dos primeiros órgãos criados para garantir assistência e proteção para


crianças e adolescentes, foi o Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS), este
instituído em 1938 com o objetivo de suprir deficiências e sofrimentos causados pelo
estado de pobreza. Já em 1940, o Departamento Nacional da Criança (DNCr) foi
criado e tinha por objetivo a combinação de orientações higienistas com campanhas
educativas, serviços médicos e assistência privada, atendendo às necessidades de
hospitais e orfanatos.

Sendo assim, no início da década de 1940, inaugurou-se uma política mais


nítida de proteção e assistência à infância, com o surgimento de órgãos federais
especializados nesse atendimento, inclusive criando duas categorias específicas: a
criança e o “menor”. De acordo com Irma Rizzini, em 1941, por iniciativa do governo
federal que via necessidade em criar um órgão que centralizasse a assistência ao
“menor”, foi instituído o Serviço de Assistência ao Menor (SAM).

De acordo com Mariana Ferreira Garcia (2009),

O Serviço Nacional de Assistência a Menores (SAM), em 1941, ficou


focado mais as questões de ordem social, relacionada à repressão do
que a assistência propriamente dita. Tinha como competência orientar
e fiscalizar educandários particulares, investigar os menores para fins
de internamento e ajustamento social, proceder exames médico-psico-
pedagógicos, abrigar, distribuir os menores pelos estabelecimentos,
promover e incentivar a iniciativa particular de assistência a estudar as
causas do abandono. O termo internato era utilizado para todas as
instituições de acolhimento provisório ou permanente e tinha uma
conotação de isolamento e fechamento.
31

Com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) em 1943, instituída pelo


Decreto-lei de nº 5.452 de 1º de maio, nota-se um grande avanço no trato com os
trabalhadores. No que se refere ao trabalho infantil, a CLT, dentre seus artigos, veda
o trabalho aos menores de 14 de idade, cria a categoria de menor trabalhador para os
jovens de 14 a 18 anos de idade e estabelece que aqueles jovens que trabalhassem
deveriam ganhar um quantitativo de metade do salário de um trabalhador comum.

Em 1945, no governo Dutra, a política de atendimento à infância e juventude


segue dando enfoque ao que vinha sendo discutido no período anterior. Com uma
nova Constituição promulgada em 1946, a assistência à população infanto-juvenil
segue vinculada ao Departamento Nacional da Criança, mantendo o caráter
assistencialista. E sobre o trabalho infantil, esta mantém a proibição do trabalho aos
menores de 14 anos de idade. Segundo Juliana Paganini (2011),

A Constituição de 1946, trata de flexibilizar os dispositivos em relação


à idade mínima para o trabalho, no sentido que atribuí aos juízes o
poder de autorizar sua realização abaixo dos limites de idade mínima,
aumentando para dezesseis anos o trabalho noturno.
Percebe-se que o judiciário tinha o poder supremo, pois poderia
conforme sua conveniência decidir de forma oposta à estabelecida em
lei, utilizando da vida de crianças como um jogo ou brincadeira, sem
se importar com as reais consequências que o trabalho poderia trazer
a estas (PAGANINI, 2011, p. 06).

Na década de 1950, algumas das instituições que abrigavam meninos e


meninas abandonadas, são denunciadas por desvio de dinheiro e outras atividades
impróprias e que prejudicavam o pleno desenvolvimento da população infanto-juvenil,
dentre estas, a exploração de mão de obra de crianças e adolescentes em serviços
da própria instituição. Com isso, parte do governo e da sociedade civil começam por
criticar as formas com que as instituições vinham realizando seu trabalho, fazendo
com que o sistema vigente fosse reavaliado e modificado.

O SAM, que tinha por objetivo orientar e fiscalizar as instituições que abrigavam
os jovens infratores, determinando se estes seriam internados e reajustados à
sociedade, foi substituído pelo Instituto Nacional de Assistência ao Menor (INAM) que
em sua gênese, tinha por finalidade buscar uma nova forma de ampliar a organização
social para a proteção da infância, mas que fracassou e passou por uma reformulação
32

em suas normas administrativas e atuações, dando lugar a Política Nacional do Bem


Estar do Menor (PNBEM), instituída em 1964, tendo por finalidade a extinção das
práticas repressivas trazidas desde o Código de Menores.

Em 1964, no contexto de Ditadura Militar que interrompeu por mais de 20 anos


o avanço do processo democrático no Brasil, o país passou a vivenciar um período
caracterizado pela fragilidade democrática, que através de intervenção autoritária e
centralizadora por parte do Estado, perseguiu, censurou e reprimiu por meio da
tortura, aqueles que eram contrários ao regime militar.

No que diz respeito ao tratamento desprendido à infância e juventude, o Estado,


visando transformar o tratamento coercitivo dado pelo Código de 1927 em um
atendimento que pudesse possibilitar a realização de ações com o intuito de suprir as
necessidades básicas do chamado ‘menor’ e dá suporte na formulação e
implementação da PNBEM, foi criada em 1964, a chamada Fundação Nacional do
Bem-Estar do Menor (FUNABEM).

Esta, voltava-se para a população infanto-juvenil que não era acolhida pelas
condições de bem-estar e que por consequência disso, poderiam inserir-se em um
processo de marginalização. A FUNABEM possibilitou a criação de vários
instrumentos, tais como: programas nas comunidades, aparato jurídico e instituições
de internação, ampliando assim, o atendimento à crianças e adolescentes.

Entretanto, assim como pontua Garcia (2009),

A FUNABEM, que pretendia ser o contraponto ao antigo sistema, o


SAM, lentamente passa a expressar a herança simbólica (estereótipos
presentes no imaginário da sociedade quanto ao atendimento aos
adolescentes autores de atos infracionais ou em situação de
abandono) associada a esse organismo. Tal efeito devia-se ao fato de
ter herdado do SAM os bens (prédios, equipamentos), bem como o
pessoal, com esses a cultura organizacional, consequentemente,
mantendo os mesmos métodos de atendimento (GARCIA, 2009, p.
14).

Dessa forma, a prática exercida pela FUNABEM seguiu o contexto repressivo


e autoritário presente no regime militar, configurando-se como mecanismo de controle
social e tendo como objetivo retirar crianças e adolescentes em situação de rua, das
vias públicas, através da prática do internamento desenvolvida em nome da
segurança nacional.
33

No ano de 1967, o então Presidente Castello Branco, outorga uma nova


Constituição confirmando e institucionalizando o regime militar e suas diretrizes de
atuação. No âmbito da proteção à infância e juventude, a nova Constituição, apesar
de mantido o estudo gratuito para o ensino primário e a proibição do trabalho insalubre
e do trabalho noturno para menores de idade, o limite de idade para o trabalho foi
reduzido de 14 para 12 anos de idade, sem equiparação de salário por idade.

Em março de 1967, já sob o comando do Marechal Arthur da Costa e Silva, o


Estado brasileiro, no que concerne a política de assistência à crianças e adolescentes,
tratou de rebaixar a idade de responsabilidade penal para os 16 anos. E em abril do
mesmo ano, o governo estabeleceu o Sistema de Provisório de Menores da
FUNABEM, que visava recolher crianças e adolescentes abandonados e infratores.

Durante a década de 1970, preocupados com os problemas sociais que a


situação da infância e adolescência desvalida poderia gerar, o governo brasileiro,
através de discussões entre representantes de diferentes estados, propôs uma
revisão ao Código de Menores visando reformular leis e desenvolver uma política que
pudesse ser mais eficaz na assistência à população infanto-juvenil.

No que diz respeito ao trabalho de crianças e adolescentes, o governo, por


meio do Decreto n. 66.280 de 27 de fevereiro de 1970, dispôs sobre as condições de
trabalho de menores de 12 a 14 anos idade, considerando serviços de natureza leve
aqueles não exercidos nas indústrias e no ramo dos transportes. Nota-se, que todos
os esforços eram para manter crianças e adolescentes ocupados, os inserindo
precocemente no mundo do trabalho.

Segundo Garcia (2009), no campo legal, contrariando o panorama político


desde 1964, em 1979 é estabelecido, através da Lei 6.697 de 10 de outubro de 1979,
um “novo” Código de Menores mediante o caráter tutelar da legislação e a ideia de
criminalização da pobreza. No que consiste ao trabalho infantil, o Código de 1979
apenas ratifica, em seu artigo 83º, que no âmbito da proteção à exploração da
população infanto-juvenil no mundo do trabalho, todo o trabalho de proteção à criança
e adolescente seria regulado a partir de uma legislação especial, no caso, a
Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
34

Desta forma, a concepção de infância estava pautada na pretensão de superar


o modelo correcional e repressivo para um modelo assistencialista. Este concebendo
crianças e adolescentes como um composto de carências, sociais e culturais.

Entretanto, o novo Código continuou reforçando a ideia de “situação irregular”


da população infanto-juvenil que se encontravam em estado de pobreza. Seu objetivo
era o de vigiar e encontrar formas de readequar crianças e adolescentes à sociedade.
Assim como assinala Garcia (2009),

No Código de Menores de 1979 a criança era julgada em situação


irregular. Os menores em situação irregular passam a ser objeto da
norma, por apresentarem uma “patologia social” e por não se
ajustarem ao padrão social estabelecido (GARCIA, 2009, p. 15).

Sendo assim, a doutrina da “situação irregular” coloca a situação de proteção


à crianças e adolescentes em função da ideologia de segurança nacional, daí serem
legitimando as práticas de recolhimento desses “menores”, chamado de privação da
liberdade. Esta doutrina reforça que a situação irregular não é a do Estado, que neste
período age de forma autoritária, mas dos próprios sujeitos criados em famílias
desestruturadas.

Entretanto, ao retirar crianças e adolescentes do seio familiar com o intuito de


reinseri-los na sociedade através de medidas educativas e disciplinares, o Estado
brasileiro assegura assim, que a “situação irregular” de crianças e adolescente acabou
tornando-se um grave problema social.

Portanto, ao tornar a problemática da infância e juventude uma expressão da


questão social, a situação de crianças e adolescentes que estavam a margem da
sociedade passou a ser tratada com mais cuidado, não só pelo Estado, mas também
pela sociedade e principalmente pelos movimentos sociais, buscando uma melhor
articulação para concretizar os direitos da população infanto-juvenil.

Neste contexto, surgem instituições e entidades, ligadas a movimentos sociais,


a igrejas e a sindicatos para fazerem um atendimento diferente às crianças carentes.
A forma de atendimento dado por essas entidades vai pressionar o poder público, que
passará a rever sua forma de atendimento. Como destaca Garcia (2009),

Assim a sociedade e os profissionais que atuavam na área da infância


e da juventude se reuniram em encontros, oficinas e palestras,
35

iniciando um período reflexivo, com novas concepções que marcaram


e permitiram o amadurecimento coletivo, visando à elaboração de uma
normativa que abandonasse o caráter tutelar dado à criança e
adolescente vigente até o momento, frente a comemoração do
vigésimo aniversário da declaração dos direitos da criança da ONU.
Neste período muitas lideranças emergiram, grupos representativos
se encontraram e se reconheceram. De todos os atores envolvidos, o
mais importante foi o movimento social, o qual convocou liberou e uniu
os demais protagonistas em torno de suas estratégias em relação ao
atendimento, a promoção e a defesa dos direitos da criança e do
adolescente (GARCIA, 2009, p. 15).

Dessa articulação, surgiu o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua


(MNMMR), financiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), pela
FUNABEM e pela Secretaria de Assistência Social (SAS). O movimento contribuiu
para o enfraquecimento do Código de Menores e consequentemente sua extinção,
pois o mesmo buscava de um lado, à defesa dos direitos da criança e adolescente
junto a diversos seguimentos da sociedade, sobretudo aos que tomam decisões
relacionadas a área. De outro, contribuir na organização e formação de meninos e
meninas para que tivessem cada vez mais força para serem agentes da própria defesa
dos seus direitos.

O início da década de 80 reservou uma nova perspectiva no que consiste a


discussão sobre a situação da infância e juventude no Brasil, pois a sociedade e o
governo brasileiro começaram a passar por um processo de redemocratização,
trazendo à tona, um debate acerca do respeito à cidadania e aos direitos. Sobre a
conjuntura política e social existente no Brasil até o presente momento, compreende-
se como sendo:

[...] um clima de efervescência com o processo de transição político-


democrática, com o (novo) sindicalismo, com o movimento das
“Diretas Já”, com o movimento pela anistia e com lutas por direitos
trabalhistas, sociais, políticos e civis. A política brasileira, nos meados
dessa década, tinha como marco a Nova República, que intencionava
o exercício da democracia, da cidadania e da regulamentação do
Estado de direito. [...] Como reflexo deste contexto, no campo da
infância ocorreu uma ampla mobilização nacional, com repercussão
internacional, que visava à defesa dos direitos de crianças e
adolescentes e lutava por mudanças no Código de Menores, na
mentalidade social e nas práticas judiciais e sociais dos órgãos do
Estado que implementavam a política destinada a esse segmento
(SILVA, 2005, p. 31-32).
36

Como pudemos perceber, no Brasil, o trabalho infantil até a década de 80 não


era tido como algo negativo para a sociedade brasileira, mas sim como forma de
solução para integrar a criança e o adolescente à sociedade. Para a elite brasileira, o
trabalho exercido por crianças e adolescentes, era uma forma de prevenir atos de
vadiagem e delinquência, enquanto que para os pobres era uma maneira de
sobrevivência. Neste sentido, Carvalho (2000) considera que:

As elites brasileiras pouco colaboraram na modificação deste valor


cultural. Ao contrário, pouco valorizou a educação dos pobres. Numa
perspectiva tutelar, prescindindo de trabalhadores mais qualificados –
num cenário de pouca competitividade – não se comprometeram, nem
investiram num projeto nacional da cidadania pela via da educação. É
assim que, para os pobres, o trabalho precoce virou sina justificada
como modo privilegiado de formação e inclusão social das camadas
populares (CARVALHO, 2000, p. 14).

Em 1988, com a promulgação de uma nova Constituição Federal, nota-se um


avanço na área social, pois ela introduz um novo modelo de gestão das políticas
sociais. Através dos movimentos sociais que batalhavam pelos direitos de cidadania
para as crianças e adolescentes, foi inserido na Constituição de 1988,
especificamente no artigo 227º, a absoluta prioridade para a população infanto-juvenil,
protegendo-os de qualquer forma de abuso e preconceito. Em seu artigo 227º, a
Constituição define:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à


criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito
à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda
forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade
e opressão (BRASIL, 1988, p. 144).

No que se refere ao trabalho infantil, a redação original da Constituição, em seu


artigo 7º, inciso XXXIII, estabeleceu o veto ao trabalho de meninos e meninas abaixo
dos 14 anos, salvo na condição de aprendiz, além de ratificar a proibição ao trabalho
perigoso, insalubre e noturno à menores de 18 anos de idade. Mais tarde, através da
Emenda Constitucional nº 20/1998 que alterou o artigo 7º, inciso XXXIII, a idade
mínima de admissão para o trabalho, foi elevada para 16 anos e a 14 anos de idade,
para o trabalho em regime de aprendizagem. De acordo com Oris de Oliveira,
37

Enganam-se aqueles que veem nas normas jurídicas que definem as


idades mínimas apenas seus aspectos negativos. Elas resguardam
outros valores, outros direitos e tem especial relevância porque
assinalam um marco importante: abaixo da idade mínima o trabalho
deve ser eliminado. Preserva-se assim, O DIREITO DE SER
CRIANÇA, direito ao lazer, à educação, à pré-escola, direito à ser
usufruído por toda a população infanto-juvenil e, não apenas, por uma
minoria privilegiada (OLIVEIRA, 1994, p. 8).

A Constituição de 1988 representou um marco no trato para com a população


infanto-juvenil. Como um instrumento de universalização de direitos, ela acolheu a
doutrina da “proteção integral”, consubstanciada em documentos internacionais, tais
como: Declaração dos Direitos da Criança (1959) e Convenção Internacional dos
Direitos da Criança (1989), ambas adotadas pela Organização das Nações Unidas
(ONU).

Sobre o paradigma da proteção integral adotado pela Constituição de 1988,


Graziela Zocal destaca, que:

Esta conquista, somada à Convenção sobre o Direito da Criança da


ONU, de novembro de 1989, criaram as pré-condições para que o
Brasil pudesse dispor de um Estatuto da Criança e do Adolescente, o
ECA. Estas medidas romperam com a estrutura do Código de
Menores de 1979, e, a partir de julho de 1990, através da lei 8.069 de
13 de julho de 1990, foi permitido que o ordenamento jurídico brasileiro
rompesse com a doutrina da situação irregular e publicasse os direitos
da criança e do adolescente (ZOCAL, 2013, p. 05).

Sendo uma Lei Complementar, o ECA acrescentou alguns pontos no que diz
respeito à profissionalização e à proteção da criança e adolescente, destacando o
aspecto de pessoa em desenvolvimento e de sujeito de direitos. Para Maria de Fátima
Pereira Alberto, Tercália Suassuna Vaz Lira e José Wilson de Lima,

No Brasil o movimento em torno da erradicação do trabalho infantil é


fruto de uma nova concepção de criança que vem sendo constituída
no curso da sociedade brasileira que tem seu marco na luta dos
movimentos sociais, na década de 1980, que culminou numa Nova
Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Nessa nova concepção, a criança e o adolescente são tidos como
sujeitos de direitos e reconhecidos como prioridade absoluta
(ALBERTO; LIRA; LIMA, 2011, p. 388).
38

Assim, a sociedade, o poder público e a família são responsáveis pela


execução, controle e cumprimento dos direitos e deveres estabelecidos no ECA.
Faleiros (2009) relata que este novo paradigma reconhece a criança e o adolescente
como cidadãos e garante a efetivação de seus direitos. Além disso, garante à criança
e ao adolescente a absoluta prioridade no acesso às políticas sociais,
independentemente de estar privado ou não de liberdade.

Percebe-se que a história do tratamento dado à crianças e aos adolescentes é


pontilhada por circunstâncias onde esta população é vista ora merecedora de direitos,
ora de repressão. Diante esse breve apanhado acerca da historicidade da exploração
infanto-juvenil no mundo do trabalho e de que maneira o Estado agiu na proteção à
infância e juventude, nota-se que apesar de todo esforço desprendido para proteger
os direitos da população infanto-juvenil, ainda hoje existe uma quantidade enorme de
crianças e adolescentes inseridos no mercado de trabalho e que de forma irregular
estão submetidos ao trabalho precoce ou inapropriado para a fase de
desenvolvimento em que se encontram.

A partir desse fato, o trabalho infantil começou então, a ser questionado e


encarado como um problema público a ser superado. E no decorrer do próximo
capítulo, abordaremos brevemente, a normativa de leis e regulamentos, onde não
somente o Brasil passou a enfrentar tal prática, mas também as instituições
internacionais como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que implantou
uma série de Resoluções e Recomendações através de Convenções que foram
apresentadas aos demais países, a fim de enfrentar a mão de obra exploratória de
crianças e adolescentes.
39

CAPÍTULO 2

O MARCO LEGAL INTERNACIONAL E NACIONAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA


E ADOLESCENTE

No presente capítulo, faremos um levantamento da normativa legal


internacional e nacional, tecendo breves comentários acerca da evolução no
cumprimento do dever do Estado, da sociedade e da família na proposição de uma
política que possibilitasse o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Ainda nesta sessão, breves apontamentos a partir do texto legislativo referente


ao trabalho infantil e proteção ao trabalho do adolescente, a fim de fazer uma reflexão
do aparato legal de proteção à população infanto-juvenil, evidenciando a importância
deste no processo de enfrentamento à problemática do trabalho infantil.

2.1 – O MARCO LEGAL INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS DE


CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Dando continuidade à discussão, sobre o tratamento realizado em favor da


população infanto-juvenil, vale destacar, que a proteção à criança e ao adolescente
nos dispositivos internacionais e nacionais, evidencia a preocupação e o interesse da
comunidade internacional e nacional em proteger crianças e adolescentes de qualquer
forma de abuso e exploração, lhes dando a possibilidade de um crescimento digno e
saudável, conferindo direitos relacionados à saúde, à educação, à cultura e ao lazer.

Após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, apoiada pela Conferência da Paz


pelo Tratado de Versalhes, surge a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que
tratou de normatizar as questões relacionadas ao trabalho e editou sucessivas
Convenções para limitar o acesso da população infanto-juvenil ao mercado de
trabalho. Sobre a OIT, Ricardo Tadeu Marques da Fonseca observa que:

A preocupação desta instituição internacional foi de universalizar as


regras mínimas concernentes ao trabalho através de suas
Convenções internacionais, incorporando a evolução legislativa, até
então existente, bem ainda os princípios de dignificação do trabalho
humano. Sempre buscou proteger o desenvolvimento saudável dos
jovens trabalhadores, assim como a sua escolaridade como valor
preponderante em relação ao trabalho (FONSECA, 2000).
40

Com base nas considerações de Fonseca, é possível afirmar que a OIT, tinha
como norte de suas ações, a busca pela paz mundial através da justiça social, tratando
de melhorar as condições de trabalho dos jovens e garantindo os direitos dos menos
desfavorecidos, especialmente das crianças e adolescentes vítimas de exploração de
mão de obra.

Em seu preâmbulo, o texto constitutivo da Organização define as finalidades


essenciais para a existência de uma ação legislativa eficaz no plano internacional do
trabalho. Sobre o texto expresso no preâmbulo constitutivo da OIT, Adalberto Martins
(2002) relata, que:

O preâmbulo da Constituição da OIT reforça a ideia de que o direito


internacional do trabalho se justifica em face de aspectos sociais
(assegurar bases sólidas para a paz universal), humanitários
(preocupação com a existência de condições dignas de trabalho) e
econômicos (o fato de que a concorrência internacional dificulta a
melhoria das condições sociais em nível interno) e justifica a existência
do próprio órgão (MARTINS, 2002, p. 40).

Em relação ao trabalho infantil, as principais diretrizes da OIT versam sobre o


limite à idade mínima de aceitação ao trabalho, trabalho proibidos, assim como a
vedação ao trabalho noturno, ao direito de orientação e formação profissional através
da aprendizagem em escolas técnicas, dentre outras.

Entretanto, os instrumentos criados pela Organização não foram de pronto bem


recepcionados pelos países signatários da OIT, inclusive pelo Brasil, que somente a
partir de 1930 passou a ratificar de forma mais incisiva, as recomendações feitas nas
Convenções editadas pela Organização, adequando assim, a sua política de proteção
às crianças e adolescentes vítimas da exploração de mão obra à normativa
internacional de enfrentamento ao trabalho infantil.

A grande transformação no tratamento dado à proteção dos direitos das


crianças e adolescentes ocorreu no mundo ocidental, no século XX, quando vários
mecanismos internacionais trataram sobre os direitos da criança e do adolescente,
discutindo-se a vulnerabilidade em razão de seu desenvolvimento incompleto.
41

Um dos primeiros mecanismos de proteção à infância e juventude, veio em


1924, em assembleia da Liga das Nações3, que aprovou a Declaração de Genebra
dos Direitos da Criança. De acordo com Anderson Pereira de Andrade, a Declaração
de Genebra,

Assentava as bases para o reconhecimento e proteção dos direitos da


infância, além de cristalizar mudanças em relação à concepção sobre
autonomia e os direitos da criança e do adolescente. (...) trazia à luz o
importante conceito denominado interesse superior da criança, mais
tarde retomado e desenvolvido pela Convenção de 1989 (ANDRADE,
2000, p. 11).

Ainda com relação a Declaração de Genebra, Maria Regina Fay de Azambuja


destaca que o texto,

[...] composto de cinco artigos, embora sem caráter coercitivo, foi o


marco inicial, em nível internacional, na luta pelos direitos da infância.
No documento, foi ressaltada a necessidade de ser oferecida à criança
uma proteção especial (AZAMBUJA, 2004, p. 45).

Entretanto, assim como assinala Sérgio Augusto Guedes Pereira Souza (2001,
p. 58), a Declaração de Genebra, por não possuir força vinculativa aos estados, não
conseguiu adquirir amplo reconhecimento pelos países. Diante deste fato, Sofia Vilela
de Morais e Silva (2009) relata, que “Apenas com a Declaração Universal dos Direitos
do Homem, 1948, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, verifica-se a
evolução na percepção sobre a proteção à criança”.

Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é reconhecidamente um dos


mais importantes documentos na proteção aos direitos humanos. Esta surgiu num

3
Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a partir do décimo quarto dos catorze Célebres Pontos do
presidente norte-americano Woodrow Wilson, que embasaram o armistício de 1918, surgiu a Liga das
Nações. Tal entidade pretendia transformar o delineamento das relações internacionais construído até
então e, desta forma, fomentar a paz mundial e acautelar a recorrência dos desentendimentos que
promoveram a mortandade naquela recente contenda em solo europeu (CUNHA; MIGON; VAZ; 2014, p.
318).
42

contexto de violação proposital das regras do direito internacional e direitos humanos,


ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial.

Elaborada e aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU) através do


Decreto nº 217, de 10 de dezembro de 1948, a Declaração teve como fundamento a
dignidade da pessoa humana e nasceu como um código de conduta mundial, com um
padrão de proteção dos direitos humanos, bastando ser pessoa para reivindicar a
proteção desses. De acordo com Flávia Piovesan,

a Declaração de 1948 inova a gramática dos direitos humanos, ao


introduzir a chamada concepção contemporânea de direitos humanos,
marcada pela universalidade e indivisibilidade destes direitos.
Universalidade porque clama pela extensão universal dos direitos
humanos, sob a crença de que a condição de pessoa é o requisito
único para a titularidade de direitos, considerando o ser humano como
um ser essencialmente moral, dotado de unicidade existencial e
dignidade. Indivisibilidade porque a garantia dos direitos civis e
políticos é condição para a observância dos direitos sociais,
econômicos e culturais e vice-versa. Quando um deles é violado, os
demais também o são. Os direitos humanos compõem, assim, uma
unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, capaz de
conjugar o catálogo de direitos civis e políticos ao catálogo de direitos
sociais, econômicos e culturais (PIOVESAN, 2006, p. 18).

Retomando os ideais da Revolução Francesa, a Declaração Universal dos


Direitos Humanos vem com o intuito de representar a histórica manifestação para o
reconhecimento dos valores supremos da igualdade, da liberdade e fraternidade entre
os homens. Norberto Bobbio (1992), em seu estudo a Era dos Direitos, afirma que
“pela primeira vez, um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre
e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos
homens que vive na Terra” (BOBBIO, 1992, p. 28).

Em seu artigo 25º, a Declaração trata indiretamente de direitos relacionados à


população infanto-juvenil, estabelecendo que “a maternidade e a infância têm direito
à cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora de
matrimônio, gozarão da mesma proteção especial”. Pautada na Declaração, a
doutrina da proteção integral representou um grande avanço no fortalecimento e
amadurecimento da política de proteção à crianças e adolescentes.

Neste contexto, os direitos de crianças e adolescentes ganham um efetivo


apoio de organismos internacionais por meio do trabalho exercido pela Organização
43

das Nações Unidas (ONU), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF),
da Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura (UNESCO) e da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), que através da elaboração de tratados
e convenções internacionais de caráter universal, possibilitaram um desenvolvimento
da política de proteção à infância e juventude. Silva (2009) destaca, que:
O arcabouçou valorativo construído pela Declaração Universal dos
Direitos Humanos serviu de fundamento para a elaboração da
Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1959, que deu o
passo inicial para a fixação da doutrina da Proteção Integral da
Criança, a qual prega, em síntese, o interesse superior da criança
(SILVA, 2009, p. 40).

Declaração Universal dos Direitos da Criança (1959)

O ano de 1959 representa um dos momentos emblemáticos para o avanço das


conquistas relacionadas a infância. Em 20 de novembro de 1959, em Assembleia
Geral, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a Declaração Universal dos
Direitos da Criança. Nela, a ONU reafirmava a importância de se garantir a
universalidade, objetividade e igualdade na consideração de questões relativas aos
direitos da criança e do adolescente.

A Declaração de 1959 foi o marco para o amadurecimento de um novo


paradigma de proteção envolvendo a população infanto-juvenil, quando reconheceu e
elevou a criança e o adolescente como sujeitos de direitos em nível internacional. Ou
seja, a criança passa a ser considerada, pela primeira vez na história, prioridade
absoluta e sujeito de direito. Esses direitos, que devem ser respeitados, são
declarados em dez princípios:
Princípio I – À igualdade, sem distinção de raça, religião ou
nacionalidade.
*A criança desfrutará de todos os direitos enunciados nesta
Declaração. Estes direitos serão outorgados a todas as crianças, sem
qualquer exceção, distinção ou discriminação por motivos de raça, cor,
sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de outra natureza,
nacionalidade ou origem social, posição econômica, nascimento ou
outra condição, seja inerente à própria criança ou à sua família.

Princípio II – Direito à especial proteção para o seu desenvolvimento


físico, mental e social.
*A criança gozará de proteção especial e disporá de oportunidade e
serviços a serem estabelecidos em lei e por outros meios, de modo
que possa desenvolver-se física, mental, moral, espiritual e
44

socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições


de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a
consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior
da criança.

Princípio III – Direito a um nome e a uma nacionalidade.


*A criança tem direito, desde o seu nascimento, a um nome e a uma
nacionalidade.

Princípio IV – Direito a alimentação, moradia e assistência médica


adequadas para a criança e a mãe.
*A criança deve gozar dos benefícios da previdência social. Terá
direito de crescer e desenvolver-se com boa saúde; para essa
finalidade deverão ser proporcionados tanto a ela, quanto à sua mãe,
cuidados especiais, incluindo-se a alimentação pré e pós-natal. A
criança terá direito de desfrutar de alimentação, moradia, lazer e
serviços médicos adequados.

Princípio V - Direito à educação e a cuidados especiais para a criança


física ou mentalmente deficiente.
*A criança física ou mentalmente deficiente ou aquela que sofre de
algum impedimento social deve receber o tratamento, a educação e
os cuidados especiais que requeira o seu caso particular.

Princípio VI - Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da


sociedade.
*A criança necessita de amor e compreensão, para o desenvolvimento
pleno e harmonioso de sua personalidade; sempre que possível,
deverá crescer com o amparo e sob a responsabilidade de seus pais,
mas, em qualquer caso, em um ambiente de afeto e segurança moral
e material; salvo circunstâncias excepcionais, não se deverá separar
a criança de tenra idade de sua mãe. A sociedade e as autoridades
públicas terão a obrigação de cuidar especialmente do menor
abandonado ou daqueles que careçam de meios adequados de
subsistência. Convém que se concedam subsídios governamentais,
ou de outra espécie, para a manutenção dos filhos de famílias
numerosas.

Princípio VII - Direito à educação gratuita e ao lazer infantil.


*O interesse superior da criança deverá ser o interesse diretor
daqueles que têm a responsabilidade por sua educação e orientação;
tal responsabilidade incumbe, em primeira instância, a seus pais.
*A criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras os quais
deverão estar dirigidos para educação; a sociedade e as autoridades
públicas se esforçarão para promover o exercício deste direito.
*A criança tem direito a receber educação escolar, a qual será gratuita
e obrigatória, ao menos nas etapas elementares. Dar-se-á à criança
uma educação que favoreça sua cultura geral e lhe permita - em
condições de igualdade de oportunidades - desenvolver suas aptidões
e sua individualidade, seu senso de responsabilidade social e moral.
Chegando a ser um membro útil à sociedade.

Princípio VIII - Direito a ser socorrido em primeiro lugar, em caso de


catástrofes.
45

*A criança deve - em todas as circunstâncias - figurar entre os


primeiros a receber proteção e auxílio.

Princípio IX - Direito a ser protegido contra o abandono e a exploração


no trabalho.
*A criança deve ser protegida contra toda forma de abandono,
crueldade e exploração. Não será objeto de nenhum tipo de tráfico.
*Não se deverá permitir que a criança trabalhe antes de uma idade
mínima adequada; em caso algum será permitido que a criança se
dedique, ou a ela se imponha, qualquer ocupação ou emprego que
possa prejudicar sua saúde ou sua educação, ou impedir seu
desenvolvimento físico, mental ou moral.

Princípio X - Direito a crescer dentro de um espírito de solidariedade,


compreensão, amizade e justiça entre os povos.

*A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar


a discriminação racial, religiosa, ou de qualquer outra índole. Deve ser
educada dentro de um espírito de compreensão, tolerância, amizade
entre os povos, paz e fraternidade universais e com plena consciência
de que deve consagrar suas energias e aptidões ao serviço de seus
semelhantes (UNICEF, 1959).

A Declaração enfatiza a importância de se intensificar esforços nacionais para


a promoção do respeito dos direitos da criança à sobrevivência, proteção,
desenvolvimento e participação. A exploração e o abuso de crianças deveriam ser
ativamente combatidos, atacando-se suas causas. Assim como assinala Souza,

A comunidade internacional demonstrou ter ciência de que o respeito


aos direitos humanos começa com a maneira pela qual a sociedade
trata as suas crianças. Uma sociedade que respeite os direitos da
criança dará liberdade e dignidade aos jovens, criando as condições
em que possam desenvolver todas as suas potencialidades e
preparar-se para uma vida adulta plena e satisfatória (SOUZA, 2002).

Surge assim, a doutrina da proteção integral. A criança e o adolescente deixam


de ser objetos de interesse, passando à sujeitos de direito e tendo acesso irrestrito e
privilegiado à Justiça. De acordo com Silva (2009, p. 40), “Essa teoria ganha força e
plena aceitação com a aprovação da Convenção Internacional sobre os Direitos da
Criança [...]”. Entretanto, Wilson Donizeti Liberati e Fabio Muller Dutra Dias ressaltam,
que:

Três décadas foram necessárias para que a comunidade internacional


viesse a adotar, em novembro de 1989, a Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança, que consagrou, por um lado, a
46

doutrina da proteção integral e de prioridade absoluta aos direitos da


criança, e, por outro, o respeito aos direitos civis, políticos,
econômicos, sociais e culturais da criança (LIBERATI; DIAS, 2006, p.
58).

Fundada nos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)


e neste instrumento dos Direitos da Criança (1959) a Conferência Mundial sobre os
Direitos Humanos promoveu em 1989 a Convenção das Nações Unidas sobre os
Direitos da Criança.

Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (1989)

A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança é o instrumento de


valorização dos direitos humanos mais aceito na história da humanidade, sendo
ratificado por 192 países. Trata-se de um mecanismo internacional decorrente da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, a partir de uma proposta da Polônia,
dirigida à ONU, em 1978.

No ano de 1979, através de um grupo de discussão, formado por quarenta e


três países, de caráter interdisciplinar que tinham como objetivo traçar os princípios
comuns à população infantil. Deu-se origem, em 1989, a Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança que apresentou as obrigações dos Estados para
com a infância. Segundo Carmem Lúcia Sussel Mariano,

[...] a Convenção foi acolhida e divulgada com grande euforia por


ativistas e organizações de defesa dos direitos das crianças como o
emblema de uma mudança paradigmática no enfoque da sociedade
internacional em relação aos direitos e ao estatuto da criança,
mormente por reconhecer as crianças à condição de sujeitos de
direitos (MARIANO, 2010, p. 22).

A partir da Convenção – Decreto n.º 99.710, adotada pela Organização das


Nações Unidas em 1989 e vigente a partir de 1990, o tratamento dado à criança e ao
adolescente pela legislação dos países signatários passou a ter novos parâmetros.
47

Entre os princípios estabelecidos pela Convenção, destacamos a proteção integral da


criança, o princípio do interesse maior e o direito à convivência familiar e comunitária.

Vale destacar, que ao ratificarem o que estava posto na Convenção, os países


tornaram-se obrigados por lei, a tomar todas as medidas adequadas para dar
assistência aos pais ou responsáveis no cumprimento das obrigações para com suas
crianças. Dentre os direitos previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança,
estão:

[...] o direito à vida e à proteção contra a pena capital; o direito a ter


uma nacionalidade; a proteção ante a separação dos pais; o direito de
deixar qualquer país e de entrar em seu próprio país; o direito de entrar
e sair ele qualquer Estado-parte para fins de reunificação familiar; a
proteção para não ser levada ilicitamente ao exterior; a proteção de
seus interesses no caso de adoção; a liberdade de pensamento,
consciência e religião; o direito ao acesso a serviços de saúde,
devendo o Estado reduzir a mortalidade infantil e abolir práticas
tradicionais prejudiciais à saúde; o direito a um nível adequado de vida
e segurança social; o direito à educação, devendo os Estados
oferecerem educação primária compulsória e gratuita; a proteção
contra a exploração econômica, com a fixação de idade mínima para
admissão em emprego; a proteção contra o envolvimento na
produção, tráfico e uso de drogas e substâncias psicotrópicas; a
proteção contra a exploração e o abuso sexual (PIOVESAN, 2003, p.
279).

Nota-se que a Convenção Sobre os Direitos da Criança de 1989 é muito


abrangente, ela possui, em sua gênese, todas as áreas tradicionalmente definidas
como direitos humanos, tais como: civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. E
ao ratificarem esta como norte para a proteção da população infanto-juvenil, os
Estados-partes comprometem-se a defender e acolher a criança e o adolescente de
todas as formas de discriminação, assegurando-lhe assistência apropriada. Do
contrário as suas disposições não passariam de letras mortas.

Nesse sentido, de acordo com a Declaração de Viena, ao tratar sobre os


tratados de direitos humanos:

[...] urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da


Criança e a sua efetiva implementação por todos os Estados-partes,
mediante a adoção de todas as medidas legislativas, administrativas
e de outra natureza que se façam necessárias, bem como mediante a
alocação do máximo possível de recursos disponíveis (PIOVESAN,
2003, p. 280).
48

Diante do que foi exposto, os mecanismos e programas nacionais de defesa e


proteção da infância precisam ser fortalecidos, principalmente no que se refere à
proteção da população infanto-juvenil afetadas pela pobreza. Nesse sentido, a defesa
da não exploração de crianças e adolescentes no mercado de trabalho, obedece aos
preceitos internacionais dos direitos humanos.

2.2 – O MARCO LEGAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DE


CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO BRASIL

Diversos questionamentos sobre a Política Nacional de Bem-Estar, o Código


de Menores, agregada à abertura democrática retomada a partir da década de 1980,
influenciada pelos debates internacionais em torno dos direitos humanos das crianças,
mobilizaram a sociedade brasileira em busca da inclusão das pessoas de zero a
dezoito anos na categoria de sujeitos de direitos.

Em 1988, com a promulgação de uma nova Constituição, Azambuja (2004)


destaca que o Código de Menores de 1979, filiado à doutrina da situação irregular,
“tornou-se ultrapassado, iniciando um período de discussão e de mobilização social
na busca de uma nova legislação que privilegiasse as conquistas constitucionais de
proteção integral e de atendimento prioritário à infância” (AZAMBUJA, 2004, p. 52).

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 trouxe para o


ordenamento jurídico brasileiro a concepção de proteção integral de crianças e
adolescentes disposta nos mais variados dispositivos internacionais à qual o Brasil
passou a ratificar. Desta maneira, revoga o tratamento mínimo desprendido à
população infanto-juvenil, modificando o pensamento atrelado à doutrina da situação
irregular e alertando para sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

Já em 1990, cooptando as diretivas inscritas na Convenção dos Direitos da


Criança, é aprovada a Lei Federal n. 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), tendo por base a “proteção integral” e a universalização dos direitos infantis e
juvenis, objetivando incluir crianças e adolescentes na órbita da cidadania. O Estatuto
da Criança e do Adolescente, promulgado em 13 de julho de 1990, substituiu a
49

repressiva doutrina do Código de Menores de 1979, e instaurou novas referências


políticas, jurídicas e sociais, ao definir em seu artigo terceiro, que:

A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais


inerentes a pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que
trata esta lei, assegurando-lhes, por lei ou por outros meios, todas as
oportunidades e facilidades, a fim de lhes facilitar o desenvolvimento
físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e
dignidade (BRASIL, 1990, art. 3).

Assim, a sociedade, o poder público e a família são responsáveis pela


execução, controle e cumprimento dos direitos e deveres estabelecidos no ECA.
Faleiros (2009) relata que este novo paradigma reconhece a criança e o adolescente
como cidadãos e garante a efetivação de seus direitos. Além disso, garante à criança
e ao adolescente a absoluta prioridade no acesso às políticas sociais,
independentemente de estar privado ou não de liberdade.

A Constituição Federal Brasileira de 1988

O atual texto constitucional brasileiro, estabeleceu uma nova dinâmica na


história do país, sendo “a mais extensa e consagradora declaração de direitos do
constitucionalismo brasileiro” (MORAES, 1999, p. 78) de acordo com Alexandre de
Moraes. Denominada de Constituição Cidadã por Ulysses Guimarães, então
Presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

A Constituição Federal de 1988 traz para o âmbito jurídico brasileiro, um novo


paradigma de proteção da infância e juventude, baseado na total proteção integral dos
direitos infanto-juvenis. Segundo Tânia da Silva Pereira (2000, p. 14), “a proteção,
com prioridade absoluta, não é mais obrigação exclusiva da família e do Estado: é um
dever social”.

De acordo com Munir Cury, Paulo Afonso Garrido de Paula e Jurandir Norberto
Marçura,

Ao romper definitivamente com a doutrina da situação irregular; até,


então admitida pelo Código de Menores (Lei 6.697, de 10.10.79), e
50

estabelecer como diretriz básica e única no atendimento de crianças


e adolescentes a doutrina de proteção integral, o legislador pátrio agiu
de forma coerente com o texto constitucional de 1988 e documentos
internacionais aprovados com amplo consenso da comunidade das
nações (CURY, PAULA & MARÇURA, 2002, p. 16).

Após a Emenda Constitucional n°. 20 de 15 de dezembro de 1998 foi


acrescentado, ao artigo 7° da nova Constituição, o inciso XXX III, que trata da
proibição ao trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito anos,
estipulando a idade mínima de dezesseis anos para o trabalho, e a partir dos quatorze
anos, salvo na condição de aprendiz. Tal alteração, foi de encontro ao que estava
posto na Convenção n°. 138 de 1973 da OIT, que foi ratificada pelo Brasil somente
em 2002. A Convenção n° 138 define a imposição de uma idade mínima para o
emprego ou trabalho levando em consideração, dentre outros fatores, a escolaridade
obrigatória e a proteção à saúde e à segurança da criança.

Nota-se, que a Constituição de 1988 concebeu a doutrina da proteção integral


da criança e adolescente em total consonância com as recomendações e dispositivos
internacionais até então vigentes, assegurando tratamento especial à população
infanto-juvenil. Entretanto, Josiane Rose Petry Veronese ressalta que:

Apesar de toda a inovação no que tange à assistência, proteção,


atendimento e defesa dos direitos da criança e do adolescente,
constantes na Constituição Federal, estes não poderiam se efetivar se
não regulamentados em lei ordinária. Se assim não fosse, a
Constituição nada mais seria do que uma bela, mas ineficaz carta de
intenções (Veronese, 1999, p. 47).

Desta forma, levando em consideração as novas normas constitucionais


estabelecidas a partir de 1988, que trouxeram um novo paradigma em relação à
proteção da população infanto-juvenil, tornou-se necessária a elaboração de um
instrumento legal para regulamentar a efetivação dos direitos fundamentais de
crianças e adolescentes. Nascia assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA).

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – Lei nº. 8.069/90


51

Conforme dissemos no Capítulo anterior, o Estatuto da Criança e do


Adolescente nasce em um contexto histórico em que o Brasil, internacionalmente,
ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança e nacionalmente, promulgou a
Constituição Democrática de 1988. De acordo com Wilson Donizeti Liberati (2006, p.
16), “o novo instrumento legal volta-se para o desenvolvimento da população jovem
do país, garantindo proteção especial àquele segmento considerado pessoal e
socialmente mais sensível”.

O ECA acabou por regulamentar os dispositivos constitucionais em favor da


infância e juventude, concebendo a criança e o adolescente como sujeitos de direito,
sustentando o interesse maior em favor desta população, estabelecendo regras de
tutela e proteção. Segundo Antônio Carlos Gomes da Costa,

De fato, a concepção sustentadora do Estatuto é a chamada Doutrina


da Proteção Integral, defendida pela ONU com base na Declaração
Universal dos Direitos da Criança. Essa doutrina o valor intrínseco da
criança como ser humano; a necessidade de especial respeito à sua
condição de pessoa em desenvolvimento; o valor prospectivo da
infância e da juventude, como portadoras da continuidade do seu
povo, da sua família e da espécie humana e o reconhecimento de sua
vulnerabilidade, o que tornas as crianças e os adolescentes
merecedores de proteção integral por parte da família, da sociedade e
do Estado, o qual deverá atuar por meio de políticas específicas para
o atendimento, a promoção e a defesa de seus direitos (COSTA, 1992,
p. 19).

Em seu artigo 2º, O ECA estabelece que a criança é aquela pessoa até doze
anos de idade incompletos e, adolescente, aquela pessoa entre doze e dezoito anos
de idade. Tânia da Silva Pereira destaca que o único objetivo desta distinção era,

Dar tratamento especial às pessoas em fase peculiar de


desenvolvimento, em razão da maior ou menor maturidade, a exemplo
das medidas socioeducativas, atribuídas apenas a maiores de 12 anos
na prática do ato infracional, enquanto aos menores desta idade se
aplicam as medidas específicas de proteção (PEREIRA, 1996, p. 34).

No que diz respeito ao trabalho infantil, o Estatuto reserva o capítulo V do Título


II para tratar da regulamentação à profissionalização e proteção da infância e
juventude em relação à sua entrada no mercado de trabalho.
52

Do artigo 60º ao artigo 69º, o ECA trata sobre a idade mínima para o trabalho,
da aprendizagem como princípio no processo de profissionalização, do trabalho do
menor portador de deficiência, dos tipos de trabalhos vedados à população infanto-
juvenil e por fim, reiterando à necessidade de respeito à condição peculiar de pessoa
em desenvolvimento e de capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho.

Conforme destacam André Viana Custódio e Josiane Rose Petry Veronese,

O artigo 60º estabelece o limite de idade mínima básica, atualizado


pela Emenda Constitucional 20, de 15 de dezembro de 1998,
determinando que “é proibido qualquer trabalho a menores de
dezesseis anos de idade, salvo na condição de aprendiz”
(CUSTÓDIO; VERONESE, 2009, p. 124).

Em seu artigo 61º, o ECA trata da legislação trabalhista do seguinte modo: “a


proteção ao trabalho dos adolescentes é regulada por legislação especial, sem
prejuízo do disposto nesta lei” (BRASIL, 1990). Para Custódio e Veronese (2009, p.
124), “A legislação trabalhista tem o mérito de fixar o conteúdo dos limites de idade
mínima para o trabalho estabelecidos na Constituição da República Federativa do
Brasil e do Estatuto da Criança e Adolescente”.

Com base na necessidade da construção de alternativas que possibilitassem a


promoção social da população infantil juvenil por meio de uma educação de qualidade,
o artigo 62º do referido Estatuto destaca que “considera-se aprendizagem a formação
técnico-profissional ministrada conforme as diretrizes e bases da legislação da
educação em vigor” (BRASIL, 1990). Segundo Oris de Oliveira,

Na visão ampla em que o artigo 62 do ECA coloca a aprendizagem,


entre esta e a educação não há uma dicotomia. Pelo contrário,
inserindo-se no processo educacional e na educação permanente,
continuada, ela é uma das primeiras etapas de um processo que deve
perdurar e sempre aperfeiçoar-se durante toda a vida do cidadão
(OLIVEIRA, 1994, p. 199).

No que diz respeito ao artigo 63º do ECA, Patrícia Calmon Rangel e Keley
Kristiane Vago Cristo destacam, que:
53

Deve-se observar ainda, o artigo 63 do ECA, que enuncia os princípios


da formação técnico profissional, assegurando a garantia de acesso e
frequência obrigatória ao ensino regular; determinando que a atividade
desenvolvida seja compatível com o desenvolvimento do adolescente
e que haja horário especial para o exercício das atividades, justamente
para não haver prejuízos ao aprendizado escolar (RANGEL; CRISTO,
2004, p. 89).

Quanto ao adolescente empregado, o ECA estabelece em seu art. 64: “Ao


adolescente até quatorze anos de idade, é assegurada bolsa de aprendizagem”
(BRASIL, 1990). Entretanto, João Roberto Elias destaca que existe uma contradição
no referido artigo. Para o autor, o artigo 64º do ECA,

Está em dissonância com a nova dicção constitucional introduzida pela


Emenda de nº 20, de 15/12/98 [...] A aprendizagem regular, formal,
agora, somente poderá começar aos 14 (quatorze) anos de idade.
Assim o artigo 64 do ECA resta sem eficácia (ELIAS, 2004, p. 73).

Em relação ao trabalho de adolescentes com idade superior a quatorze anos,


o ECA define no seu art. 65: “Ao adolescente aprendiz, maior de quatorze anos, são
assegurados os direitos trabalhistas e previdenciários” (BRASIL, 1990). Ricardo
Tadeu Marques da Fonseca, acentua que:

O aprendiz que se submeter, portanto, a processos de aprendizagem


empresarial será protegido com direitos trabalhistas e previdenciários.
Rompe-se, deste modo, definitivamente, com o chamado trabalho
assistencial que perdurou no Brasil por décadas. Não mais se admite
a ideia de que qualquer trabalho é preferível ao abandono das ruas
(CURY, 2006, p. 225).

No artigo 66º do Estatuto, “ao adolescente portador de deficiência é assegurado


trabalho protegido” (BRASIL, 1990). O artigo vem propor a integração do adolescente
portador de deficiência na comunidade e a superação de sua própria deficiência,
evitando a marginalização. Já no artigo 67º, o ECA, em relação ao adolescente
aprendiz, em regime familiar de trabalho, aluno de escola técnica, assistido ou não
por um programa governamental, destaca que:
54

[...] é vedado trabalho: I- noturno, realizado entre as 22 horas de um


dia, e as cinco horas do dia seguinte; II- perigoso, insalubre ou penoso;
III- realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu
desenvolvimento físico, psíquico, moral e social; IV- realizado em
horários e locais que não permitam a frequência à escola (BRASIL,
1990).

De acordo com Karlla Patrícia Souza,

É bem verdade que as proibições contidas neste dispositivo já se


encontravam previstas na CF e na CLT. Todavia, enquanto a norma
constitucional contida no art. 7º e as normas da CLT tratam dos
empregados com vínculo empregatício, o ECA é abrangente
protegendo aquelas situações que não se enquadram dentro de um
regime de emprego, como é o caso do regime familiar, excluído da
proteção celetista, do aluno de escola técnica e dos assistidos ou não
por entidades governamentais (SOUZA, 2001, p. 141).

O artigo 68º do ECA contempla as considerações da proteção integral do


trabalho, pois promove a condição peculiar de crianças e adolescentes como pessoas
em desenvolvimento. Essa condição é colocada como um dos aspectos destacados
no artigo 69º do referido Estatuto, que também dispõe:

Art. 69. O adolescente tem direito à profissionalização e à proteção no


trabalho, observados os seguintes aspectos, entre outros: I- respeito
à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento; II- Capacitação
profissional adequada ao mercado de trabalho (BRASIL, 1990).

Em termos legislativos, o Estatuto da Criança e Adolescente constitui-se em


uma das leis mais avançadas do mundo prevendo os direitos fundamentais de
crianças e adolescentes com base na doutrina da proteção integral, no intuito de
efetivar o disposto no artigo 227 da Constituição Federal. Nesse sentido, o ECA
estabelece no artigo 86 que “a política de atendimento dos direitos da criança e do
adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e
55

não-governamentais, da união, dos Estados, do distrito federal e dos municípios”


(BRASIL, 1990).

Entretanto, de acordo com Caio Silveira, Carlos Amaral e Débora Campineiro


(2000), a problemática do trabalho infantil, por ser complexa, só será eliminada ou
minimizada com a implementação de forma articulada, de ações no campo da
fiscalização e repressão do trabalho de crianças e adolescentes, contemplando as
diversas dimensões e fatores deste problema.
Com efeito, propostas para enfrentar o trabalho infantil vêm sendo formuladas
principalmente no campo das políticas públicas. Nessa direção, abordaremos a seguir,
as estratégias que vêm sendo colocadas em prática para o enfrentamento do trabalho
infantil no Brasil e, em particular no estado na Paraíba.
56

CAPÍTULO 3

AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENFRENTAMENTO AO TRABALHO INFANTIL

Nesta sessão, abordaremos em síntese, algumas das políticas públicas


empregadas pelo governo brasileiro a fim de enfrentar e erradicar o trabalho infantil,
visando compreender a importância destas no âmbito do sistema de garantia de
direitos das crianças e adolescentes.

Ainda no presente capítulo, faremos uma breve análise da importante


contribuição do Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e
Proteção ao Trabalhador Adolescente na Paraíba, dando enfoque à sua atuação no
processo de articulação em rede no trabalho de conscientização e prevenção à
exploração de mão de obra infanto-juvenil no estado da Paraíba.

3.1 – BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE POLÍTICAS


PÚBLICAS

Considerando que a efetivação da proteção integral dos direitos de crianças e


adolescentes passa fundamentalmente pela implementação de políticas públicas, cuja
primazia é dever do Estado por meio dos diversos poderes públicos constituídos,
vamos pontuar, de modo muito sintético, o que se entende por políticas públicas.

Em linhas gerais, as políticas públicas podem ser descritas como um conjunto


de programas e atividades que norteiam ações do poder público, desenvolvidas pelo
Estado. Essas diretrizes buscam garantir e assegurar determinados direitos previstos
na Constituição e em leis, de forma difusa ou para certo seguimento social, cultural,
étnico ou econômico, em âmbito federal, estadual e municipal. Segundo Potyara
Amazoneida Pereira Pereira (2002),

Política Pública significa, portanto, ação coletiva que tem por função
concretizar direitos sociais demandados pela sociedade e previstos
nas leis. Ou, em outros termos, os direitos declarados e garantidos nas
leis só têm aplicabilidade por meio de políticas públicas
correspondentes, as quais, por sua vez, operacionalizam-se mediante
programas, projetos e serviços (PEREIRA, 2002, p. 223).
57

Entre as mais variadas políticas públicas que estão inseridas nesse conjunto
de ações e programas, encontra-se a política de erradicação do trabalho infantil. Nela,
estão voltadas ações de prevenção, identificação e proteção de crianças e
adolescentes em situação de trabalho, visando identificar as causas do problema.

A política de enfrentamento ao trabalho infantil vem evoluindo ao longo dos


anos. Ela vai desde a incessante luta pela proibição legal do trabalho de crianças e
adolescentes até programas combinados de transferência de renda e incentivos à
demanda por educação. O Brasil se comprometeu ante a comunidade internacional a
reduzir as piores formas de trabalho infantil até 2016 e todo o trabalho infantil até 2020
(OIT, 2010).

O enfrentamento à problemática do trabalho infantil é realizado a partir da


proteção jurídica prevista nas convenções das organizações internacionais e no
ordenamento jurídico interno de cada país.

Através do ordenamento jurídico internacional e nacional é previsto a proteção


integral de direitos das crianças e adolescentes, cabendo ao Estado e tendo o apoio
da sociedade civil, a instituição de políticas públicas de enfrentamento ao trabalho
infantil, que deverão ser realizadas de forma planejada e intersetorial, visando à
erradicação do mesmo em âmbito nacional.

Diante desse desafio, é que se iniciou, a partir de 1990, a formulação de


políticas públicas que tendem a combater as desigualdades sociais, na qual, pode ser
classificada como uma das principais causas da entrada precoce de meninos e
meninas no mundo do trabalho. Portanto, a seguir, serão apresentadas algumas das
políticas públicas de enfrentamento ao trabalho infantil, que foram e estão sendo
implementadas em âmbito nacional, com enfoque no estado da Paraíba.

3.2 – A POLÍTICA DE ENFRENTAMENTO AO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL

Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil no Brasil – IPEC

Em 1991, através de um acordo financeiro firmado entre a Organização


Internacional do Trabalho e o Governo da Alemanha, surgiu o Programa Internacional
para a Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC), tendo como norte, ofertar globalmente,
de maneira permanente e efetiva, mecanismos que pudessem erradicar o trabalho
58

executado por crianças abaixo da idade mínima para o trabalho, dando atenção
especial aos jovens até os 18 anos de idade.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, o IPEC,

Trata-se de um programa mundial de cooperação técnica contra o


trabalho infantil, contando com o apoio financeiro de 22 países
doadores, cujo objetivo é estimular, orientar e apoiar iniciativas
nacionais na formulação de políticas e ações diretas que coíbam a
exploração da infância. O IPEC visa a erradicação progressiva do
trabalho infantil mediante o fortalecimento das capacidades nacionais
e do incentivo à mobilização mundial para o enfrentamento da
questão. Promove o desenvolvimento e a aplicação de legislação
protetora e apoia organizações parceiras na implementação de
medidas destinadas a prevenir o trabalho infantil, a retirar crianças de
trabalhos perigosos e a oferecer alternativas imediatas, como medida
transitória para a erradicação do trabalho infantil (OIT, 2001, p. 8).

No Brasil, o Programa foi adotado a partir de 1992, articulando parceiros do


setor público e privado com vistas a implementar ações de enfrentamento ao trabalho
infantil no país. O IPEC veio com o intuito de fortalecer as primeiras mobilizações
voltadas à proteção da criança e adolescente que estava inserida no mercado
trabalho, por meio de mecanismos de capacitação do governo e da sociedade, para
que estes pudessem ter uma melhor compreensão dos efeitos perversos do trabalho
infantil na vida da população infanto-juvenil.

No início, o IPEC concentrou suas ações no universo de crianças e


adolescentes, que tanto no setor informal e formal, trabalhavam na agricultura, na
produção industrial, no comércio e na prestação de serviços, dando prioridades
aquelas crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Desde então,
vários programas governamentais e ações de instituições privadas, públicas e não
governamentais foram sendo implementados e acompanhados pela Organização
Internacional do Trabalho.

Depois da ratificação das Convenções 138 e 182 da OIT e da constituição dos


Fóruns Nacional e Estaduais de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil a partir
de 1994, o Estado, em conjunto com a sociedade civil, tratou de elevar a proteção dos
direitos de meninos e meninas em situação de trabalho infantil, elaborando um
conjunto de ações que pudessem enfrentar com eficácia a exploração de mão de obra
infanto-juvenil existente desde a escravidão.
59

O Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil – FNPETI

A partir de novembro de 1994, o Governo Federal juntamente com setores da


sociedade civil, apoiados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do
Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), criam o Fórum Nacional de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI).

Para alguns especialistas na área da infância, a exemplo de Juliana Paganini


(2011) é precisamente a partir desse período que o Brasil sinaliza para um novo
direcionamento político no que diz respeito ao enfrentamento do trabalho infantil. Ou
dito de outra maneira e nas palavras de Paganini (2011, p. 7), “o Brasil então
começaria a viver uma experiência singular para a prevenção e erradicação do
trabalho precoce com a criação do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do
Trabalho Infantil” (2011, p. 7).

Já que de acordo com Edson Passetti (1999),

[...] se constatava que no Brasil havia uma importante lacuna:


carecíamos de uma instância que tivesse por objetivo a articulação de
diferentes setores da sociedade que tinham estratégias, movimentos
comuns, evitando, assim, a duplicação de forças, o que poderia
inclusive dividir o esforço de erradicar o trabalho infantil (PASSETTI,
1999, p. 270).

Dando prosseguimento ao debate, cabe agora pontuar brevemente o que é


Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil. O FNPETI é um
espaço autônomo, não-governamental e permanente que possibilita a articulação e a
mobilização de agentes institucionais que estejam envolvidos com políticas e
programas de enfrentamento à exploração de mão de obra infanto-juvenil.

Para André Viana Custódio e Josiane Rose Petry Veronese (2007, p. 220) o
Fórum “tinha por objetivo a união da sociedade e do poder público, como um espaço
aberto de discussão, articulação e busca de alternativas para tão complexo tema”. Os
autores ainda ressaltam, que:

Quando iniciou suas atividades, o Fórum Nacional de Prevenção e


Erradicação do Trabalho Infantil, estabeleceu como objetivos: a)
elaborar e socializar estratégias de atuação na prevenção e
erradicação do trabalho infantil; b) promover por parte dos
60

empregadores, empregados e respectivas associações uma


mobilização com vistas ao estabelecimento por negociações coletivas,
regras que determinem a eliminação do trabalho infantil; c) conjugar
esforços (integralizando-os) com os diversos atores e áreas na defesa
dos direitos da criança e do adolescente; d) influir nos meios de
comunicação de massa com o objetivo de sensibilizar a sociedade e
instâncias de poder, dando visibilidade ao problema do trabalho
infantil; e) criar e manter um banco de dados que contenha e divulgue
informações e todas as pessoas envolvidas com o assunto e, com isto,
facilitar e orientar a implantação de políticas de erradicação do
trabalho infantil em todo o território nacional (CUSTÓDIO;
VERONESE, 2007, p. 223).

Desta forma, é notória a importância do Fórum Nacional como instrumento


articulador de ações no plano do enfrentamento ao trabalho infantil no Brasil. Este,
através da promoção de eventos, debates, capacitações sobre como planejar e
operacionalizar ações de enfrentamento à problemática em questão, avalia as
atividades operacionalizadas, analisando a eficácia destas na diminuição ou não da
exploração de mão de obra infanto-juvenil. Assim como ressalta Maria Edlene Costa
Lins (2004),

No que diz respeito à política nacional de abolição do trabalho infantil,


o Brasil vem avançando graças à ação do Fórum Nacional de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, entidade criada em
novembro de 1994, com o apoio da OIT e do UNICEF, com a
importante missão de atuar como uma instância aglutinadora e
articuladora dos agentes sociais institucionais envolvidos em políticas
e programas que atuam na formulação de medidas que previnam e
erradiquem o trabalho infantil no país, e que atuem, principalmente,
em situações de exposição da saúde e integridade física e moral das
crianças e, em especial, na exploração infantil em suas formas mais
intoleráveis (LINS, 2004, p. 29).

Portanto, levando em consideração o trabalho intersetorial e articulado


desprendido pelo Fórum Nacional, verifica-se que o mesmo permitiu que as entidades
que o compõem evoluíssem no que diz respeito à consolidação de uma política de
enfrentamento à problemática do trabalho infantil, efetivando programas que tentam
evitar que crianças e adolescentes sejam submetidos a tal prática. Dentre tais
programas, é importante mencionarmos o Programa de Ações Integradas (PAI) e o
Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) os quais, falaremos a seguir.
61

Programa de Ações Integradas – PAI

As primeiras ações concretas no que consiste o efetivo enfrentamento ao


trabalho infantil no Brasil, foram desencadeadas nos primeiros anos da década de 90,
com a constatação da grave situação de crianças e adolescentes que trabalhavam
nas carvoarias e na colheita de erva-mate, nos diversos municípios do estado de Mato
Grosso do Sul. Como resposta às várias denúncias envolvendo crianças e
adolescentes em situação de trabalho, o governo de Mato Grosso do Sul iniciou uma
ostensiva onda de ações que pudessem identificar os focos de trabalho infantil dentro
do estado, bem como suas condições de trabalho, tendo como intuito a erradicação
do mesmo à nível estadual.

Com importante contribuição nas ações de enfrentamento ao trabalho infantil


no estado de Mato Grosso do Sul e nos demais estados do país, o FNPETI juntamente
com ações articuladas pela OIT e UNICEF, propiciou um momento de
amadurecimento da política nacional de combate ao trabalho infantil. Em 1995, numa
articulação do FNPETI com o governo estadual de Mato Grosso do Sul, foi criado o
Programa de Ações Integradas (PAI) para a eliminação do trabalho infantil nas
carvoarias do referido estado.

O PAI, que posteriormente foi estendido a outras regiões do Brasil, contava


com ações articuladas entre governo e sociedade civil, no âmbito da política da saúde,
educação, na promoção social e dentre outras. Seu objetivo principal era o de
erradicar o trabalho de crianças e adolescentes e propiciar uma melhoria das
condições de vida daquelas famílias que faziam parte do Programa.

O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI

Após o registro de denúncias envolvendo trabalho infantil e até mesmo trabalho


escravo exercido por crianças e adolescentes, o governo, em parceria com diversos
setores das instâncias estaduais e municipais, juntamente do auxílio da sociedade
civil organizada, lança, em 1996 no estado do Mato Grosso do Sul, o Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil (PETI).
62

Vale destacar que o PETI, através da sua variada gama de ações, com o intuito
de resguardar os direitos de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil,
é um programa de natureza intersetorial e intergovernamental que acarreta na
associação, por parte das três esferas de governo, visando um trabalho articulado
para criação de um conjunto de ações governamentais e não governamentais,
focadas no processo de enfrentamento ao trabalho infantil a fim de erradicá-lo. Assim
como assinala a pesquisadora Maria de Fátima Pereira Alberto,

O PETI foi criado no Brasil em 1996 a partir do Fórum Nacional de


Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI). Trata-se de
política pública da área social, tendo como público alvo crianças e
adolescentes em situação de trabalho. Objetiva a retirada do trabalho,
a inserção em atividades socioeducativas, ofertadas no contra-turno
da escola. Além disso, objetiva a formação e geração de renda para
as famílias desses educandos (ALBERTO et al, 2011, p. 198).

Segundo Geraldo Di Giovanni (2004, p. 39), “o PETI de início apresentou uma


extensão limitada”. E de acordo com Ináia Maria Moreira de Carvalho, foi,

Com o apoio da OIT e do Unicef, o programa começou a operar em


Mato Grosso do Sul, onde denúncias apontavam a existência de 2.500
crianças trabalhando na produção de carvão vegetal e vivendo em
condições inaceitáveis. Pouco depois ele se estendeu aos Estados de
Pernambuco e da Bahia, privilegiando, respectivamente, a zona
canavieira e a região do sisal (CARVALHO, 2004, p. 50-51).

Entretanto, desde 1996 o PETI se fortaleceu e através de um trabalho exercido


de forma articulado com as demais políticas de assistência à crianças e adolescentes,
proporcionalizou ações de transferência de renda, além do trabalho social com as
famílias e ofertando atividades socioeducativas para a população encontrada em
situação de trabalho infanto-juvenil. Não obstante, o Programa por meio de suas
articulações, passou a realizar pesquisas sobre o trabalho infantil, a programar
eventos para a sensibilização da sociedade sobre a questão e a editar publicações
institucionais sobre o tema.

Em 1998, o PETI foi expandido, contemplando regiões citrícolas do Sergipe,


um garimpo de Rondônia, e canaviais do Rio de Janeiro. Já em 1999, o programa teve
63

mais uma ampliação, agora abrangendo não apenas as atividades de trabalho


elencadas nas piores formas de trabalho infantil, mas também, atividades de comércio
ambulante, catadores de reciclagem dentre outras; o tempo de permanência, que
anteriormente era ilimitado, passou a ser de no máximo quatro anos por criança e
adolescente. De acordo com Carvalho (2004), no início dos anos 2000, o PETI,

já atendia a cerca de 140 mil crianças e adolescentes no país. Em


2001, houve um grande aumento e, em 2002 esse número chegou a
810.769, beneficiando 2.590 municípios em todos os Estados da
Federação. Priorizando o atendimento às famílias com uma renda per
capita de até meio salário mínimo, ou seja, que vivem em situação de
extrema pobreza [...] (CARVALHO, 2004, p. 51).

No ano de 2005, o governo federal, através do Ministério de Desenvolvimento


Social e Combate à Fome, editou a Portaria de nº. 666, de 28 de dezembro e integrou
o PETI ao Programa Bolsa Família (PBF). Esta integração veio com o objetivo de
melhorar a qualidade dos serviços ofertados pelos dois programas, aprimorando o
processo de gestão de ambos, incluindo todas as famílias atendidas em cadastro
único, chamado CadÚnico.

Com isso, possibilitou-se a ampliação do atendimento das crianças e


adolescentes do PETI, incluindo crianças menores de seis anos e estendendo as
ações socioeducativas e de convivência do Programa, para as crianças do PBF em
situação de trabalho. Não obstante, universalizou o PBF para as famílias que
atendessem seus critérios e elegibilidade.

Em maio de 2015, através da Resolução nº 08 de 2013, do Conselho Nacional


de Assistência Social (CNAS), as ações estratégicas desprendidas pelo PETI passam
por um processo de reordenamento. Tal reformulação partiu de uma avaliação acerca
da nova configuração do trabalho infantil no Brasil e dos avanços estruturais da política
de erradicação do trabalho infantil.

Esta avaliação mostrou uma diminuição do trabalho infantil no mercado formal,


haja visto a evolução das leis que possibilitaram uma maior fiscalização. Entretanto,
notou-se um agravamento no uso de mão de obra infanto-juvenil no mercado informal
e no âmbito da produção familiar, tais como o trabalho doméstico e o trabalho de
agricultura familiar. De acordo com Maria Senharinha Soares Ramalho (2015),
64

Um dos eixos da resolução é o de identificação de crianças e


adolescentes em situação de trabalho infantil, onde desenvolverá
ações de busca ativa, realizadas pelas equipes técnicas do SUAS de
forma articulada com as demais políticas públicas. A Resolução
aponta no Art. 10 que: “as ações estratégicas dos eixos serão
executadas de forma descentralizada, respeitada as atribuições de
cada ente, por meio da conjugação de esforços entre União, Estados,
Distrito Federal e Municípios, com participação da sociedade civil”
(RAMALHO, 2015, p. 59).

Dessa forma, é importante salientar que a atualização do PETI passa por


fortalecer a gestão e o trabalho articulado do sistema de garantia de direitos das
crianças e adolescentes, ao prever a realização de ações estratégicas para enfrentar
o trabalho infantil, possibilitando a aprimoramento destas quanto à transferência de
renda e o trabalho social exercido em favor da criança e sua família. Ao fazer uma
análise da importância do PETI no enfrentamento ao trabalho infantil no Brasil.
Carvalho (2008) destaca que o Programa,

[...] propiciou a retirada imediata de milhares de crianças e


adolescentes de ocupações penosas e degradantes, sua permanência
na escola e uma melhoria nas suas condições de subsistência (ainda
que reduzida e temporária), resgatando sua dignidade e sua infância
[...] (CARVALHO, 2008, p. 554).

Nesse contexto, tornou-se necessário a construção de uma agenda intersetorial


que articule políticas, como saúde, educação, esporte, cultura, entre outras para
somar esforços na identificação e atendimento das crianças e adolescentes retirados
da situação de trabalho. A seguir, trataremos da política de enfrentamento ao trabalho
infantil no âmbito do estado da Paraíba.

3.3 – A POLÍTICA DE ENFRENTAMENTO AO TRABALHO INFANTIL NA PARAÍBA

Como dissemos na introdução deste trabalho, no estado da Paraíba,


pesquisadores de diferentes campos do saber têm se debruçado sobre essa
problemática do trabalho infantil, ou como diz a autora Maria de Fátima Pereira Alberto
(2002), “sobre o trabalho precoce”. Para Alberto et al (2003), no âmbito do estado da
Paraíba, “vários estudos e pesquisas vêm sendo produzidos dando conta das
65

condições de trabalho de crianças e adolescentes no campo e na cidade e dos efeitos


do trabalho precoce sobre a escolaridade e a saúde física mental” (p. 87).

Nessa direção, Ramalho (2015) destaca que a partir de 1995, com a articulação
entre a Delegacia Regional do Trabalho (DRT/PB), o Escritório de Representação da
Secretaria de Assistência Social (SAS) do Ministério da Previdência e Assistência
Social (MPAS), governo e sociedade civil reiniciaram as atividades de mobilização do
Grupo Interinstitucional para a Erradicação do Trabalho Infantil (GIETI), dando início
à ações que possibilitassem, de acordo com as orientações da Coordenação Nacional
de Combate ao Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente do Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE), a implementação de um programa de erradicação do
trabalho infantil na Paraíba. Assim como menciona a autora,

Dessa articulação, organizou-se um grupo formado por 42 entidades


que passou a se chamar GIETI, coordenado pela DRT/PB, que se
reuniu por dois anos e elaborou um Plano de Ações Integradas para o
Combate ao Trabalho Infantil (RAMALHO, 2015, p. 62).

Entretanto, apesar de ter aproximado os vários agentes de proteção dos


direitos de crianças e adolescentes, na articulação e mobilização de ações que
pudessem viabilizar a implementação de um programa de enfrentamento à exploração
de mão de obra infanto-juvenil, o GIETI não conseguiu o apoio e aglutinação efetiva
da maioria dos órgãos que faziam parte do governo do estado, situação essa que
levou à sua extinção no ano de 1997.

Segundo observa Ramalho (2015), em março de 1998 a DRT/PB e a Secretaria


de Assistência Social (SAS), visando a implementação do PETI no estado da Paraíba
e de acordo com diagnósticos realizados pela DRT no período de 1996-1998,
organizaram um grupo composto pela DRT, SAS, Secretaria Estadual do Trabalho e
Ação Social (SETRAS), Secretaria Estadual de Planejamento (SEPLAN), Secretaria
de Educação e Cultura (SEC), Delegacia Regional do Ministério da Educação e
Cultura (DEMEC), Federação dos Trabalhadores em Agricultura (FETAG), Federação
das Associações dos Municípios da Paraíba (FAMUP) e o Conselho Estadual dos
Direitos da Criança e do Adolescente (CEDCA).

Ficando sob coordenação da Secretaria de Assistência Social (SAS), este


grupo, além de elencar as atividades canavieiras e sisaleiras como prioritárias para a
66

implantação do PETI na Paraíba, em outubro do mesmo ano, elaborou e encaminhou


à SAS, um projeto que contemplou inicialmente os municípios de Barra de Santa
Rosa, Picuí, Pocinhos (produtores de sisal), Mamanguape, Mari, Rio Tinto, Cruz do
Espírito Santo, Itapororoca e Pedras de Fogo (produtores de cana-de-açúcar). Ainda
de acordo com a autora, “Também em outubro de 1998, a Comissão Estadual de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (CEPETI) foi oficializada, pelo Governo
do Estado, composta pelos membros da comissão provisória [...]” (RAMALHO, 2015,
p. 63)

Em dezembro do mesmo ano, o projeto do PETI foi aprovado para o


atendimento a 3000 crianças e adolescentes, entretanto, sua operacionalização só foi
iniciada em junho de 1999. A seguir, discorremos sobre o processo de surgimento do
Fórum Estadual de Prevenção de Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao
Trabalhador Adolescente na Paraíba (FEPETI/PB), evidenciando sua importante
contribuição no enfrentamento ao trabalho infantil no estado.

3.4 – O FÓRUM ESTADUAL DE PREVENÇÃO E ERRADICAÇÃO DO TRABALHO


INFANTIL E PROTEÇÃO AO TRABALHADOR ADOLESCENTE NA PARAÍBA
(FEPETI/PB): Análise de sua atuação à luz de alguns referenciais e da
experiência de Estágio Supervisionado Obrigatório

Conforme registra alguns autores de autoras, logo após a implantação do


Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) e diante da necessidade de se
combater a fundo a questão do trabalho infantil no estado:

[...] as entidades governamentais e não governamentais sentiram a


necessidade de se articular para criar um fórum a exemplo dos demais
estados da federação e em consonância com a orientação do Fórum
Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI),
onde os membros não apenas se ocupassem do acompanhamento do
PETI, mas, que tratassem das questões relativas à prevenção e
combate ao trabalho infantil e dos direitos do adolescente, com relação
à profissionalização e ao trabalho (ALBERTO; RAMALHO; SILVA,
2011, p. 28).

Segundo Ramalho (2015), visando fortalecer o enfrentamento à exploração de


mão de obra infanto-juvenil, com ações voltadas para a elaboração de uma política
67

estadual de erradicação do trabalho infantil mais eficaz, preservando os direitos de


crianças e adolescentes paraibanos, em 13 de dezembro de 2000, no auditório do
Tribunal Regional do Trabalho (TRT), as entidades fundadoras assinaram a ata de
compromisso, dando origem ao Fórum de Prevenção e Erradicação do Trabalho
Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente na Paraíba (FEPETI/PB).

Assim, como tão bem sinaliza Lins (2004, p. 20), o FEPETI/PB “se constitui em
um espaço permanente e interinstitucional de articulação comprometida com a
erradicação do trabalho infantil e com a proteção e garantia dos direitos do
adolescente no trabalho”. Ainda de acordo com a autora,

Com composição quadripartite, envolvendo em torno de 52


organizações governamentais e não-governamentais, públicas e
privadas, empenhadas com a temática, o Fórum tem como objetivo
geral contribuir para a construção e implementação de uma Política
Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção
do Trabalho do Adolescente (LINS, 2004, p. 20).

O FEPETI/PB tem trazido para as discussões realizadas no âmbito do sistema


de proteção à infância e juventude, a questão do trabalho infantil na sociedade. Para
aqueles que compõe o Fórum, discutir e problematizar essa temática são de extrema
importância para que possamos enfrentar com mais efetividade a exploração de mão
de obra infanto-juvenil, tendo em vista as violações de direitos que as crianças e
adolescentes têm sofrido e, consequentemente, o comprometimento desfavorável no
desenvolvimento integral desses sujeitos que estão em formação.

Nas palavras de Jamison Max Medeiros Miranda (2014, p. 35), “No âmbito
estadual, ao longo de sua existência o FEPETI/PB vem se mostrando bastante
atuante, se colocando como peça fundamental no combate ao trabalho infantil no
estado”. Uma de suas finalidades passa por articular instituições que estejam
inseridas na rede de proteção à infância e juventude, visando ações de prevenção e
enfrentamento à problemática do trabalho infantil, entendendo este como o que é
executado por crianças e adolescentes com idade inferior à permitida por lei, bem
como proteção ao trabalhador adolescente na Paraíba.

O Fórum ainda possui como finalidades, seguindo o seu regimento (2014), a


colaboração com o poder público e entidades de proteção à criança e ao adolescente,
no cumprimento da legislação trabalhista, bem como das normas regulamentares de
68

saúde e segurança no trabalho; A discussão de problemas, a análise de fatos, visando


a promoção de ações relacionadas a esta problemática; O incentivo e apoio à
realização de estudos relacionados ao tema; Divulgar normas de proteção ao trabalho
do adolescente e de subsídios e documentos legais, através de boletins informativos,
circulares, seminários e outros eventos; Receber denúncias sobre o trabalho de
crianças e adolescentes, com o compromisso de encaminhá-las e acompanhá-las
junto aos órgãos competentes; E promover ações visando sensibilizar e conscientizar
a sociedade sobre os malefícios do trabalho realizado precocemente e fora dos
parâmetros legais.

Dentre as mais variadas ações que o Fórum articulou, organizou e ajudou na


operacionalização no âmbito do enfrentamento ao trabalho infantil na Paraíba nos
últimos anos, Miranda (2014) aponta que vale a pena ressaltar,

[...] o Projeto Catavento que objetivava combater as piores formas de


trabalho infantil. Este projeto teve como alvo cinco municípios sendo
eles: João Pessoa, Santa Rita, Princesa Isabel, Patos e Guarabira, foi
financiado pela própria OIT, teve início em agosto de 2004 e durou por
24 meses. A organização executora foi a Casa Pequeno Davi e teve
como elemento articulador o FEPETI/PB (MIRANDA, 2014, p. 35).

Ao longo dos seus 16 anos de atuação, é notável a contribuição do Fórum no


enfrentamento ao trabalho infantil na Paraíba e no Nordeste. Assim como destaca
Ramalho (2015), o FEPETI/PB tem desenvolvido,

[...] um trabalho de sensibilização e combate ao trabalho infantil em


articulação com as entidades que o compõem através de várias ações,
como: seminários estadual e municipais; campanhas publicitárias;
campanhas no dia 12 de Junho – Dia Mundial e Nacional de Combate
ao Trabalho Infantil; [...]; implementação em articulação com a
Prefeitura Municipal de João Pessoa, Superintendência Regional de
Trabalho e Emprego na Paraíba, Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial e Universidade Federal da Paraíba, do Projeto Integrado de
Aprendizagem Profissional para atender adolescentes egressos do
PETI; realização da Caravana do Nordeste contra o Trabalho Infantil
– Agenda da Paraíba; além de contribuir com a elaboração do Plano
Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção
ao Adolescente Trabalhador da Paraíba e do município de João
Pessoa (RAMALHO, 2015, p. 64-65).

A partir das leituras realizadas e acompanhando as reuniões de avaliação e


planejamento das atividades do Fórum, foi possível constatar, que uma das que mais
69

possuem impacto no âmbito da sensibilização e enfrentamento à exploração de mão


de obra infanto-juvenil na Paraíba, é o projeto de interiorização das ações do
FEPETI/PB. Ou seja, atividades antes concentradas em sua maioria na cidade de
João Pessoa, passam a contemplar cidades do interior paraibano que possuem alto
índice de trabalho infantil. Um dos principais objetivos deste projeto, é o de passar
para a sociedade em geral, os malefícios que o trabalho infantil traz para vida de
crianças e adolescentes, alertando aos órgãos competentes, na busca pelo
cumprimento efetivo da política de erradicação do trabalho infantil.

Para os órgãos que fazem parte do Fórum, essas atividades de sensibilização


no enfrentamento ao trabalho infantil, fazem com que a sociedade civil e o poder
público, tenham um melhor entendimento acerca dos prejuízos causados pela
exploração de mão de obra infanto-juvenil e até mesmo do que se trata o trabalho
infantil, pois muitas vezes, por falta de conhecimento sobre a temática, a população
acaba não visualizando determinada ação como sendo uma atividade que está
explorando a criança e adolescente.

Outra ação bem-sucedida no qual o Fórum e seus membros destacam


importância, é o envolvimento de crianças e adolescentes, tornando-os protagonistas
nas discussões realizadas dentro das ações desenvolvidas. Essa ação vai de
encontro ao que está posto no Plano Decenal de Prevenção e Enfrentamento do
Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente do Estado da Paraíba,
destacando que o exercício do protagonismo é um aprendizado que precisa ser
estimulado desde a mais tenra idade, pois:

[...] Crianças e adolescentes são sujeitos de direitos, todavia a prática


dos adultos familiares, cuidadores, ainda está muito aquém do real
estímulo à participação. Falar sobre temas da política e dos direitos de
crianças e adolescentes não os torna superiores, os traz para o mundo
da colaboração, da participação. Estas práticas precisam estar
presentes em todos os espaços de discussão e convivência dessa
faixa etária e é um desafio a ser perseguido (PARAÍBA, 2015, p. 34).

No que diz respeito à aproximação e interligação entre governo e sociedade


civil e organizada no trabalho desenvolvido pelo Fórum ao longo dos seus 16 anos de
atuação, é importante destacar o empenho dos membros para a concretização das
ações planejadas, pois, por funcionar como um amplo espaço de discussão,
70

proposição e encaminhamentos de ações voltadas à problemática do trabalho infantil,


o Fórum possibilita um maior intercâmbio entre as entidades ligadas à temática.

O trabalho articulado e intersetorial entre instituições, governo e sociedade,


acaba por contribuir com uma nova perspectiva de proteção dos direitos das crianças
e adolescentes. Além do quê, dá um maior respaldo para as instâncias de proteção
que fomentam o trabalho em rede, que possuem como norte à formação de sujeitos
coletivos e protagonistas, preocupados na construção de uma sociedade consciente,
que possa contribuir com pensamentos e atitudes coerentes, no enfrentamento ao
trabalho infantil e na busca de uma sociedade sem injustiças sociais.

Entretanto, apesar do FEPETI exercer um papel importante de instituição


aglutinadora de órgãos que se comprometam com o debate e o enfrentamento ao
trabalho infantil, notou-se, nas discussões presentes em reuniões e eventos do Fórum,
que ainda existe uma fragilidade na eficiência das ações de enfrentamento ao trabalho
infantil, haja visto o agravamento da utilização de crianças e adolescentes nas regiões
mais pobres, uma causa econômica e cultural, que faz com que as famílias introduzam
seus filhos o mais cedo possível no mundo do trabalho, pois para muitos, o trabalho
ajuda a torná-los mais responsáveis, fazendo com que eles possam contribuir para o
sustento de suas famílias.

Uma outra dificuldade e que acaba indo de encontro com a pouca efetividade
das ações de enfrentamento, é a questão da omissão por parte do Estado em dá um
maior e melhor suporte para que crianças e adolescentes não sejam inseridos de
forma precoce no mercado de trabalho. Assim, é recomendável buscar a integração
dos diferentes níveis de governo, garantindo a intersetorialidade das políticas e dos
programas que tenham a criança e suas famílias como destinatários, e concretizando
o que está posto nos Planos Estadual e Municipais de Erradicação do Trabalho
Infantil.

Atualmente o Fórum é composto por 35 entidades que de maneira articulada,


veem realizando vários eventos de sensibilização e esclarecimentos à população e
aos que estão na rede de proteção à infância e juventude, sobre os prejuízos trazidos
pelo trabalho infantil para as crianças, adolescentes, família e sociedade.

Na avaliação feita pelos membros do Fórum, nesses quase 17 anos de atuação


os desafios não foram e não são poucos e um dos principais é a manutenção da
71

articulação com as entidades que compõem o Fórum, com o propósito de erradicar o


trabalho infantil, como também compor os núcleos regionais para multiplicação de
informações e para desenvolver ações em todo o estado.

Entretanto, para aqueles que compõe o FEPETI/PB, os desafios tornam-se


menores perto do compromisso com o direito de meninas e meninos paraibanos.
Sendo assim, dar continuidade a ações planejadas anteriormente, foram e ainda são,
as perspectivas para o decorrer do ano de 2017 e para os próximos anos,
especialmente o Projeto “Interiorizando Ações para Garantir Direito”. Este projeto tem
como objetivo, disseminar as ações do FEPETI pelo Estado, possibilitando a
participação dos municípios nas reuniões ordinárias e extraordinárias do Fórum,
visando fortalecer o combate ao trabalho infantil no Estado da Paraíba através da
articulação dos diversos atores.

Sendo assim, com base nas discussões presenciadas nas reuniões do Fórum,
ao analisarmos mais precisamente, apesar dos impasses no processo de prevenção
e erradicação do trabalho infantil, podemos destacar que o FEPETI/PB possui uma
importância inestimável e uma necessidade concreta para todos os municípios do
Estado, seja no combate imediato ao trabalho infantil através da defesa dos direitos
humanos de crianças e adolescentes, seja no fortalecimento da democracia
participativa e controle social.

Depois de inúmeras discussões e verificando a necessidade de um novo


instrumento que pudesse colaborar no combate à problemática do trabalho infantil no
Estado, foi criado como forma de apoiar o FEPETI na organização, articulação e apoio
em suas ações de enfrentamento ao trabalho infantil, o Instituto Paraibano de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (IPPETI).

Este, tem como finalidade maior, dar apoio técnico-financeiro ao FEPETI,


podendo obter cooperação técnica e financeira junto a órgãos e entidades nacionais
e internacionais, visando a implementar ações, estudos, pesquisas, projetos e
programas referentes à erradicação do trabalho infantil e proteção ao trabalhador
adolescente e temas afins; celebrar convênios, acordos e outros instrumentos
jurídicos com pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, nacionais ou
internacionais.
72

Com base no exposto, breves anotações finais sobre a problemática do


trabalho infantil e a atuação do FEPETI/PB. Além de outros aspectos, a questão
cultural ainda se constituir como grande para erradicação do trabalho infantil no Brasil
e na Paraíba, em particular. Mais do que nunca se faz necessário uma desconstrução
da valorização do trabalho infantil, fazendo com que ocorra uma mudança dos
conceitos de que o trabalho infantil é bom e apontado como única alternativa para a
criança e adolescente pobre.

Outra ação é o investimento na educação, na formação dos profissionais para


identificar e denunciar os casos de trabalho infantil que tenha conhecimento. Na
Paraíba, depois de várias discussões, o Plano Estadual foi publicado, este
representando um grande avanço na política de enfrentamento ao trabalho infantil.
73

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho infantil é um tema bastante complexo de ser estudado, pois muitas


vezes a falta de conhecimento das situações em que é permitido ou não o trabalho
infanto-juvenil, nos faz pensar e agir de maneira a comprometer o crescimento e
desenvolvimento saudável de nossas crianças e adolescentes. Um dos principais
pensamentos que possibilitam uma leitura equivocada acerca do trabalho infantil, é o
de que o trabalho, além de dignificar o homem e possibilitar o afastamento deste do
mundo do crime, também é necessário para que famílias na linha da pobreza possam
suprir suas necessidades com a ajuda de seus filhos nos afazeres laborais.

Pois, de acordo com as leituras, é notável que uma das principais causas que
levam ao trabalho infantil é a situação de miséria de inúmeras famílias, tanto à nível
internacional, como à nível nacional. Entretanto, para grande parte dos estudiosos que
trabalham com a temática, além de prejudicar o desenvolvimento físico, psicológico e
social de crianças e adolescentes, este pensamento ainda abre precedentes para que
a exploração de mão de obra infanto-juvenil como saída para aqueles que estão em
situação de infração, acaba criando e normalizando uma onda de preconceitos,
desaguando na negação de direitos por parte da classe dominante para com a classe
trabalhadora.

Ao finalizar o presente trabalho, chamo atenção, mediante análise da evolução


histórica do trabalho infantil, para o fato de que apesar do mesmo ser um problema
muito antigo e que acompanha a evolução da humanidade em seus progressos, o
Estado demorou a percebê-lo como um grave problema social. Pois, a falta de
consciência crítica na visualização e discussão das mais variadas formas expressivas
da questão social, fez e faz com que a problemática do trabalho infantil passe muitas
vezes desapercebida aos olhos da sociedade e órgãos de proteção à infância e
juventude.

Diante o diagnóstico tardio de que era necessário proteger crianças e


adolescentes, o Estado, juntamente a órgãos de defesa dos direitos humanos, lançou
mão de fundamentos, princípios e regras do Direito de Crianças e Adolescentes, com
o intuito de fomentar e amadurecer uma política de proteção à população infanto-
juvenil e consequentemente de enfrentamento ao trabalho infantil.
74

De acordo com os estudiosos, a articulação entre Estado e sociedade é de


suma importância na concretização e efetivação de uma política de proteção à
crianças e adolescentes e de enfrentamento à problemática do trabalho infantil.
Apesar de ser dever do Estado viabilizar mecanismos e formas que contribuam no
desenvolvimento pleno e digno da população infanto-juvenil, também cabe a todos os
cidadãos, estarem atentos e cobrarem a plena efetivação das estratégias em defesa
de nossas crianças e adolescentes.

Ainda sobre as ferramentas que possibilitaram um amadurecimento e evolução


da proteção à crianças e adolescentes, no âmbito brasileiro, o processo de
concretização de uma política que favorecesse à população jovem do país, foi ainda
mais tardio e demorado. Só a partir de 1988, com a instituição de uma nova
Constituição e a adoção do princípio da proteção integral de crianças e adolescentes,
com o intuito de dá prioridade à proteção da população infanto-juvenil, garantindo o
pleno desenvolvimento de sua personalidade.

Mais uma vez ratificada após a implementação do ECA, a proteção integral de


crianças e adolescentes possibilitou que a política de atendimento à infância e
juventude no Brasil tivesse um salto na importância de suas atividades, tornando-se
evidente a preocupação do Estado e da sociedade para com o futuro da população
mais jovem do país.

No ano de 1994, surgiram as primeiras movimentações de enfrentamento ao


trabalho infantil com vistas a erradicá-lo. Entretanto, apesar de todo suporte que as
normas jurídicas trouxeram para defender os direitos de crianças e adolescentes, vale
destacar, que a solução do problema demanda muito mais do que normas
disciplinadoras e fiscalizadoras. O trabalho infantil é um problema que só será
solucionado a partir de um empenho mais efetivo por parte dos vários setores da
sociedade, tais como: Estado, empregadores, trabalhadores e suas organizações,
organizações da sociedade civil, etc. na criação e efetivação de políticas públicas e
mecanismos de combate ao trabalho infantil.

Na Paraíba, o enfrentamento à problemática do trabalho infantil vem sendo


realizado desde os anos de 1995. Em análise da contribuição do Fórum Estadual de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente
na Paraíba, pudemos constatar mediante discussões de avaliação, que as ações
75

advindas do FEPETI/PB, têm colocado o Fórum como um mecanismo fundamental na


articulação de atividades de mobilização dos diversos atores que compõem a equipe
de enfrentamento ao trabalho infantil em todo o estado. Afinal os avanços alcançados
também são o resultado das deliberações ocorridas no Fórum, fato que evidencia a
sua importância neste cenário.

É notável, que as ações de prevenção e erradicação do trabalho infantil,


adotadas e operacionalizadas nos programas sociais oferecidos pelo governo, nas
atividades desprendidas por organizações não governamentais e nas articulações
feitas pelo setor privado, demonstram uma crescente preocupação do setor público e
privado, com a problemática do trabalho infantil.

Porém, acompanhando os diálogos daqueles que estão envolvidos e


trabalhando de forma incessante com a política de erradicação do trabalho infantil,
apesar dos avanços alcançados na identificação e desnaturalização desta
problemática, a ineficácia das políticas públicas seguida pela alta incidência do
trabalho infantil e a descaracterização da política de enfrentamento à problemática,
mostraram-se como os principais fatores que dificultam um avanço mais consistente
do estado, nesse processo de enfrentamento e proibição da atividade laboral infanto-
juvenil.

Sendo assim, olhando para o cenário atual, a situação ideal ainda é muito
aquém do que se espera para quem busca uma real eficácia no que diz respeito ao
tratamento mais digno para com aqueles que merecem prioridade. Novos desafios e
novas questões surgem ao mesmo tempo em que velhas problemáticas não foram
totalmente superadas, fazendo com que estas, dificultem ainda mais o combate ao
trabalho infantil, carecendo de novas e urgentes formas de enfrentamento.

De acordo com informações obtidas nas discussões realizadas nas reuniões


do FEPETI/PB e em eventos sobre a temática, numa tentativa de projeção futura dos
impactos do trabalho de enfrentamento à exploração de mão de obra infanto-juvenil,
os agentes sociais envolvidos com a temática, mostraram uma preocupação para com
a política voltada à população infanto-juvenil, pois, além de não se ter uma política de
erradicação do trabalho infantil consolidada, os planos de enfrentamento à
problemática não estão conseguindo dar conta do que foi planejado.
76

Diante das leituras, informações e vivência dentro da política de prevenção e


erradicação do trabalho infantil, finalizo este trabalho com a convicção de que no atual
contexto político, econômico e social presente em nosso país, torna-se impossível
erradicar a exploração infanto-juvenil no mundo do trabalho, visto que a mesma tem
origem ligada ao sistema capitalista de produção.

Porém, para que possamos ao menos minimizar os casos de exploração do


trabalho infantil e os efeitos perversos que o mesmo traz para vida de milhares de
crianças e adolescentes, é necessário o trabalho articulado e intersetorial entre todas
as esferas de governo e sociedade. Nota-se, que a luta contra o trabalho infantil não
será vencida enquanto todos os atores sociais não se articularem, ou seja, somente
quando o poder público, a sociedade civil, as famílias que experimentam esta
situação, os profissionais e entidades que atuam na área da infância e particularmente
o assistente social se mobilizarem em prol do enfrentamento à exploração de nossas
crianças e da devolução de sua infância subtraída, teremos resultados mais eficazes
no futuro.
77

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