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UNIVERSIDADE DE FORTALEZA – UNIFOR

CENTRO DE CIÊNCIAS TECNOLÓGICAS


CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL

FRANCISCO MEIRA BARBOSA FILHO

ACIDENTE DE TRABALHO NA CONSTRUÇÃO CIVIL:


análise entre os custos de prevenção em contraponto com
os custos de condenações judiciais

FORTALEZA

2016
FRANCISCO MEIRA BARBOSA FILHO

ACIDENTE DE TRABALHO NA CONSTRUÇÃO CIVIL:


análise entre os custos de prevenção em contraponto com
os custos de condenações judiciais

Trabalho de conclusão de curso


apresentado a banca examinadora, como
requisito parcial obtenção do título de
graduado em Engenharia Civil.
Área de concentração: Segurança do
trabalho.

Orientador: Profº. M.sc. Raphael Pires de


Souza.

FORTALEZA

2016
AGRADECIMENTOS

A Deus, o grande arquiteto do universo, que, na sua infinita bondade, me


proporcionou força e sabedoria nessa caminhada por mais uma graduação.
Ao meu amado pai, Francisco Meira Barbosa (in memoriam), o meu
melhor amigo. Sei que está comigo nesta vitória e muito orgulhoso dessa minha
conquista.
À minha mãe, Iracema Silva Meira Barbosa, exemplo de amor e entrega.
À minha esposa, Débora Rodrigues Nogueira Meira Barbosa, pela
dedicação diária de amor e companheirismo.
Ao meu filho, Francisco Meira Barbosa Neto, que nasceu recentemente, a
maior alegria da minha vida. Meu filho, você chegou e mudou tudo. Hoje, olho para o
horizonte de maneira diferente. Te amo.
Ao professor Raphael Pires de Souza por sua indispensável orientação
neste trabalho.
E a todos os amigos que fiz durante o curso e que tornaram essa
trajetória mais alegre: João Abílio, José Amilton, Vinícius Lima, Pedro Feitosa,
Layane Gadelha, Suélen Batista e Renato Carvalho.
RESUMO

A prevenção de acidentes é um tema bastante pertinente na indústria da construção


civil, pois traz incontáveis benefícios frente aos inúmeros prejuízos decorrentes de
eventuais acidentes de trabalho. Neste sentido, as empresas que não investem
nesta área expõem seus trabalhadores aos riscos constantes nas obras de
construção civil e poderão sofrer os impactos financeiros decorrentes de um
acidente de trabalho, dentre eles indenizações em ações trabalhistas movidas pelos
trabalhadores acidentados ou por seus familiares. O propósito deste trabalho é
comparar os benefícios de se investir em saúde e segurança do trabalhador frente
aos elevados custos das indenizações trabalhistas por acidente de trabalho quando
constatada a falta de adequação da empresa às normas de segurança. A
metodologia utilizada foi um levantamento bibliográfico das Normas
Regulamentadoras (NRs) e da legislação trabalhista. Para o estudo de caso, foi
realizado um levantamento real dos custos investidos em prevenção e segurança,
em uma obra localizada no município de Fortaleza/CE. Em seguida, foram
apresentadas algumas condenações trabalhistas por acidente de trabalho, do mais
leve ao mais grave, comparando, em cada caso, os valores dos custos investidos
em prevenção de acidentes levantados na empresa em análise. Por fim, ficou
demonstrado, através desta análise comparativa, que a prevenção de acidentes se
torna mais eficaz para a construção civil, na medida em que favorece a saúde e
integridade física do trabalhador e reduz gastos elevados com acidente de trabalho,
em especial indenizações em ações trabalhistas, que é o foco do presente trabalho.

Palavras-chave: Construção Civil. Prevenção. Segurança. Acidente de trabalho.


Indenização.
ABSTRACT

The prevention of accidents is a very relevant issue in the construction industry,


because it brings countless benefits in the face of numerous damages resulting from
possible work accidents. In this sense, companies that do not invest in this area
expose their workers to the constant risks in construction works and may suffer the
financial impacts resulting from an accident at work, among them indemnities in labor
lawsuits filed by injured workers or their relatives. The purpose of this study is to
compare the benefits of investing in worker’s health and safety in the face of the high
costs of worker’s compensation for accidents at work, when the company's lack of
compliance with safety standards was verified. The methodology used was a
bibliographical survey of the Regulatory Norms (NRs) and the labor legislation. For
the case study, a real survey of the costs invested in prevention and safety was
carried out in a construction located in the city of Fortaleza/CE. Then, a number of
labor convictions for work accidents were presented, from the lightest to the most
serious, comparing, in each case, the values of the costs invested in accident
prevention raised in the company analyzed. Finally, it was demonstrated, through this
comparative analysis, that accident prevention becomes more effective for civil
construction, as it favors the health and physical integrity of the worker and reduces
high expenses with accidents at work, especially indemnities in labor lawsuits, which
is the focus of this work.

Keywords: Civil Construction. Prevention. Safety. Work accident. Indemnity.


LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Dimensionamento do SESMT ............................................................... 23


Quadro 2 – Dimensionamento do SESMT ............................................................... 24
Quadro 3 – Dimensionamento da CIPA ................................................................... 26
Quadro 4 – Principais recomendações nos serviços específicos da NR 18 ............. 31
Quadro 5 – Dimensionamento do SESMT ............................................................... 39
Quadro 6 – Dimensionamento do CIPA ................................................................... 40
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Equipamentos de proteção individual ..................................................................... 28


LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Custos do investimento da empresa em prevenção de acidentes .......... 42


Gráfico 2 – Comparativo prevenção x indenização / Doença Ocupacional ............... 45
Gráfico 3 – Comparativo prevenção x indenização / Acidente corriqueiro ................. 48
Gráfico 4 – Comparativo prevenção x indenização / Acidente com invalidez
permanente .................................................................................................. 50
Gráfico 5 – Comparativo prevenção x indenização / Acidente com resultado morte 52
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Custos do investimento da empresa em prevenção de acidentes ............. 42


LISTA DE SIGLAS

ASO – Atestado de Saúde Ocupacional

CAT – Comunicação de Acidente do Trabalho

CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes

CNAE – Classificação Nacional de Atividades Econômicas

CLT – Consolidação das Leis do Trabalho

EPC – Equipamento de Proteção Coletiva

EPI – Equipamento de Proteção Individual

INSS – Instituto Nacional do Seguro Social

MPT – Ministério Público do Trabalho

MTE – Ministério do Trabalho e Emprego

NR – Norma Regulamentadora

PCMAT – Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da


Construção

PCMSO – Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional

PIB – Produto Interno Bruto

SESMT – Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do


Trabalho

SRT – Superintendência Regional do Trabalho e Emprego


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 13
1.1 Justificativa do tema ............................................................................................... 14
1.2 Objetivos ................................................................................................................... 15
1.2.1 Objetivo geral .......................................................................................................... 15
1.2.2 Objetivos Específicos ............................................................................................. 15
1.3 Metodologia .............................................................................................................. 16
1.4 Estrutura do trabalho .............................................................................................. 16
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................................................. 18
2.1 Definição legal de acidente de trabalho .............................................................. 18
2.2 Normas regulamentadoras vigentes de controle de acidentes de trabalho
na construção civil .................................................................................................. 20
2.2.1 NR 1 – Disposições Gerais.................................................................................... 20
2.2.2 NR 4 - Serviços especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina
do Trabalho – SESMT ............................................................................................ 21
2.2.3 NR 5 – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA ......................... 23
2.2.4 NR 6 – Equipamentos de Proteção Individual (EPI) ........................................... 26
2.2.5 NR 7 – Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional - PCMSO .......... 27
2.2.6 NR 18 – Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da
Construção............................................................................................................... 29
2.2.7 NR 35 – Trabalho em altura .................................................................................. 32
2.2.8 A responsabilidade civil da construtora em caso de acidente de trabalho ....... 33
3 ESTUDO DE CASO ..................................................................................................... 37
3.1 Custos de prevenção de acidentes em uma obra ............................................. 37
3.1.1 Apresentação geral da empresa e da obra em análise ...................................... 37
3.1.2 Custos investidos em segurança do trabalho ...................................................... 39
3.2 Casos de condenações trabalhistas por acidentes de trabalho .................... 42
3.2.1 Doença ocupacional ............................................................................................... 42
3.2.2 Acidente corriqueiro ............................................................................................... 44
3.2.3 Acidente grave com invalidez permanente .......................................................... 47
3.2.4 Acidentes com resultado morte ............................................................................. 49
3.2.5 Danos Morais coletivos .......................................................................................... 51

4 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES .................................................................... 54

REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 56
1 INTRODUÇÃO

A construção civil é um dos setores mais expressivos da economia


brasileira. Possui uma grande capacidade de geração de emprego e tem uma
participação muito forte na composição do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Todavia, esta imensa capacidade de absorver mão de obra traz consigo


muita responsabilidade, haja vista suas implicações no aumento dos riscos de
acidentes por falta de controle da segurança do ambiente de trabalho, do processo
produtivo e da capacitação dos colaboradores.

Em decorrências das construções, milhões de trabalhadores perderam


suas vidas ao longo da história ou ficaram inválidos permanentemente para o labor.
Segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social (AEPS), Seção IV – Acidentes
de trabalho, no ano de 2014 foi registrado, no Brasil, 704.136 acidentes de trabalho,
sendo 59.734 apenas na construção civil. Por esta estatística, verifica-se que a
indústria da construção civil é um dos ramos de atividade com o maior número de
acidentes de trabalho.

O fato é que muitos acidentes poderiam ser evitados se as empresas


tivessem implantadas em suas obras programas de segurança voltados para
investimentos em aparatos de segurança e treinamento de seus colaboradores.

A questão mais curiosa que vem à mente de quem começa a estudar este
tema é a seguinte: Como morrem tantos trabalhadores na construção civil se existe
uma norma específica, com força de lei, que rege a segurança nesse ramo desde o
final dos anos 1970? Mangas, Gómez e Thedim-Costa (2008) afirmam que o
reconhecimento dessa constrangedora realidade está expresso no fato de existir
uma norma específica, a NR-18, que regulamenta a Segurança e Medicina do
Trabalho na Construção Civil, todavia Saurin, Lantelme e Formoso (2000), em
estudo multicêntrico, com o objetivo de aperfeiçoamento da norma, apontam que
apenas 50% dos canteiros de obra atendem aos preceitos da segurança do trabalho.
Isso mostra que há o flagrante descumprimento, por parte das construtoras, das
normas atinentes à segurança.
14

Muitos empresários têm o pensamento equivocado de que investir em


segurança do trabalho é um gasto desnecessário. Na realidade, estes custos trazem
uma economia a médio e longo prazo, pois evitam as dispendiosas despesas com
acidentes e o desgaste da relação empregado-empregador.

De fato, as empresas que não investem nesta área expõem seus


trabalhadores aos riscos constantes nas obras de construção civil e, em algum
momento, sofrerão com as inconveniências de um acidente de trabalho em suas
dependências. Como consequência desta eventual negligência, a empresa terá
prejuízos com o acidente, como por exemplo: despesas médicas com o acidentado,
contratação de mão de obra temporária, possíveis prejuízos materiais no canteiro de
obras e indenizações em ações trabalhistas, sendo que estas últimas costumam ser
bastante onerosas para a empresa, podendo levar, muitas vezes, organizações à
falência, devido aos seus altos custos.

Por fim, verifica-se que, na maioria dos casos, os investimentos em


segurança são menores que os gastos que envolvem os acidentes de trabalho, além
de trazer outros benefícios, na medida em que aperfeiçoa a realização das
atividades, possibilitando uma rotina de trabalho mais organizada. Dessa forma,
além de evitar acidentes, trará à empresa uma redução de outros custos e, como
consequência, uma margem maior de lucratividade, uma vez que terá mais
produtividade.

1.1 Justificativa do tema

Dada à importância da indústria da construção civil e sua capacidade de


empregabilidade, é de extrema relevância que as construtoras primem por garantir a
segurança dos colaboradores no desempenho de suas atividades.

De forma genérica, os canteiros de obra de construção civil oferecem


sempre bastante perigo aos seus operários. Para minimizar esses riscos, se fazem
necessários investimentos em segurança, tanto em aparatos como em capacitação e
mão de obra especializada, trabalhando harmonicamente.

Numa obra, o engenheiro civil é um profissional que exerce liderança sob


os demais no desempenho de suas funções. Por isso, é de primordial importância
15

que o mesmo tenha a instrução necessária para gerir sua obra de forma segura,
sempre orientando seus colaboradores para o uso correto dos equipamentos de
segurança, de forma a conscientizá-los para os benefícios que essas ações de
prevenção proporcionam.

Neste sentido, é relevante que o acadêmico do curso de engenharia civil


conheça os riscos a que os trabalhadores estão expostos nas obras e se
aprofundem na temática da segurança do trabalho, mais especificamente na
verificação dos custos envolvidos.

Desse modo, o presente tema é retratado sob a ótica dos custos do


investimento de uma empresa em segurança, na forma preventiva, em contraponto
com os possíveis gastos que esta empresa poderia vir a arcar em uma condenação
trabalhista em caso de acidente de trabalho.

O estudo se justifica pela existência de súbitos prejuízos financeiros


suportados pelas empresas condenadas judicialmente por não estarem adequadas
às normas de segurança.

1.2 Objetivos

1.2.1 Objetivo geral

Realizar um estudo comparativo acerca dos custos que uma construtora


adequada às normas despende preventivamente em segurança do trabalho, em
contraponto aos custos financeiros enfrentados por empresas em condenações
judiciais trabalhistas por acidente de trabalho, por não estarem adequadas às
normas de segurança.

1.2.2 Objetivos Específicos

 Realizar um estudo acerca das normas regulamentadoras de controle de


acidente de trabalho na área da construção civil vigentes;
 Verificar a responsabilidade civil do empregador em caso de acidente de
trabalho;
16

 Elencar os custos de prevenção em segurança do trabalho a partir de dados


reais captados em uma obra.
 Analisar os prejuízos financeiros de construtoras que não seguem as
determinações das normas regulamentadoras de segurança do trabalho,
condenadas judicialmente por acidentes de trabalho ocorridos em suas
construções.

1.3 Metodologia

A metodologia aplicada neste trabalho é composta de uma revisão


bibliográfica com base nas Normas Regulamentadoras (NR), legislação trabalhista
brasileira, livros, estatísticas e anuários de acidentes, para mostrar a necessidade de
prevenção de acidentes no trabalho.

Para o estudo de caso, foi realizado primeiramente um levantamento de


dados reais do investimento que uma empresa da construção civil realizou em uma
de suas obras. Em segundo momento foram levantados dados do valor de
indenizações em processos trabalhistas por acidente de trabalho.

A partir dos dados adquiridos através da pesquisa foi possível analisar os


benefícios do investimento em prevenção de acidentes de trabalho na construção
civil, bem como comparar com os elevados valores das indenizações trabalhistas por
acidente de trabalho.

1.4 Estrutura do trabalho

O capítulo 1 apresenta a proposta do estudo, definindo e contextualizando


o tema a ser tratado, ou seja, uma análise comparativa dos investimentos em
prevenção de acidentes frente aos custos de indenizações trabalhistas por acidente
de trabalho.

O capítulo 2 apresenta a fundamentação teórica com base nas normas


regulamentadoras (NR) e legislação trabalhista vigente, demonstrando as
17

responsabilidades dos empregadores na adequação dos ambientes de trabalho para


torna-los mais seguros.

O Capítulo 3 traz a exposição dos dados reais levantados para compor o


estudo comparativo dos valores investidos por uma empresa em prevenção de
acidentes em contraponto com os custos de alguns casos de indenizações
trabalhistas por acidente de trabalho.

Por fim, o capítulo 4 apresenta as devidas conclusões e recomendações


finais acerca do estudo.
18

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Este capítulo aborda a definição legal de acidente de trabalho para efeitos


do estudo, as normas regulamentadoras voltadas para a prevenção de acidentes de
trabalho no ramo da Construção Civil e a responsabilidade civil da construtora em
caso de acidente de trabalho.

2.1 Definição legal de acidente de trabalho

Inicialmente, para melhor abordar o tema, cumpre analisar o conceito de


acidente de trabalho previsto na legislação. O dispositivo legal que traz esta
definição encontra-se na Lei nº 8.213/91, no caput do artigo 19:

Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a


serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do
trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei,
provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a
perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o
trabalho.

O referido artigo traz consigo a definição do acidente de trabalho típico,


que envolve todo aquele acidente que o trabalhador sofre no exercício de suas
funções pela empresa, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que
possam lhe resultar em morte ou em perda ou redução, permanente ou temporária,
da capacidade para o trabalho.

No mesmo diploma legal, em seu artigo 20, a lei, por determinação


expressa, estende a definição de acidente de trabalho:

Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo anterior,


as seguintes entidades mórbidas:
I - doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo
exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da
respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência
Social;
II - doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em
função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se
relacione diretamente, constante da relação mencionada no inciso I.
§ 1º Não são consideradas como doença do trabalho:
a) a doença degenerativa;
b) a inerente a grupo etário;
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c) a que não produza incapacidade laborativa;


d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que
ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de
exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho.
§ 2º Em caso excepcional, constatando-se que a doença não incluída na
relação prevista nos incisos I e II deste artigo resultou das condições
especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona
diretamente, a Previdência Social deve considerá-la acidente do trabalho.

Assim, conforme se verifica na leitura do artigo 20 da Lei nº 8.213/91,


também são considerados acidentes de trabalho as doenças profissionais
produzidas ou desencadeadas pelo exercício do trabalho peculiar a determinada
atividade e constante da relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e Previdência
Social, bem como a doença do trabalho adquirida em função de condições especiais
do trabalho realizado e que se relacione diretamente com ele, devendo também
constar na mencionada relação do Ministério do Trabalho e Previdência Social.

Por último, a lei determina ainda que são considerados acidentes de


trabalho, por equiparação, os constantes no artigo 21 da Lei nº 8.213/91:

Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta


Lei:
I - o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única,
haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou
perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija
atenção médica para a sua recuperação;
II - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho, em
consequência de:
a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou
companheiro de trabalho;
b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa
relacionada ao trabalho;
c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de
companheiro de trabalho;
d) ato de pessoa privada do uso da razão;
e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou
decorrentes de força maior;
III - a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no
exercício de sua atividade;
IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de
trabalho:
a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da
empresa;
b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar
prejuízo ou proporcionar proveito;
c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando
financiada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão-
de-obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive
veículo de propriedade do segurado;
d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela,
qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do
segurado.
20

§ 1º Nos períodos destinados a refeição ou descanso, ou por ocasião da


satisfação de outras necessidades fisiológicas, no local do trabalho ou
durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho.
§ 2º Não é considerada agravação ou complicação de acidente do trabalho
a lesão que, resultante de acidente de outra origem, se associe ou se
superponha às consequências do anterior.

Analisando detalhadamente o conteúdo da Lei nº 8.213/91, observa-se


que a definição de acidente de trabalho é abrangente, pois verifica-se que ela pode
se subdividir em três tipos distintos, quais sejam: o acidente de trabalho típico, as
doenças ocupacionais e os acidentes por equiparação.

2.2 Normas regulamentadoras vigentes de controle de acidentes de trabalho na


construção civil

A legislação brasileira relativa à segurança e acidentes do trabalho


concentra-se nas normas regulamentadoras, conhecidas como NR. No total são 36
normas regulamentadoras, porém, para efeito do nosso estudo, cujo foco é o
acidente de trabalho na construção civil irá destacar apenas as normas atinentes a
esta área no que concerne à presente temática.

Assim, merecem destaque nesse estudo as normas NR 1, NR 4, NR 5,


NR 6, NR 7, NR 18 e NR 35

2.2.1 NR 1 – Disposições Gerais

A primeira norma regulamentadora refere-se à disposição geral das


normas regulamentadoras. Nela, há a determinação para que as normas
regulamentadoras sejam de observância obrigatória pelas empresas privadas e
públicas, pelos órgãos públicos da administração direta e indireta, bem como pelos
órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário, que possuam empregados regidos pela
Consolidação das Leis do Trabalho – CLT.

Essa norma elenca as responsabilidades do empregador para com a


segurança do empregado. Assim sendo:
21

1.7 Cabe ao empregador: (Alteração dada pela Portaria n.º 06, de 09/03/83)
a) cumprir e fazer cumprir as disposições legais e regulamentares sobre
segurança e medicina do trabalho;
b) elaborar ordens de serviço sobre segurança e saúde no trabalho, dando
ciência aos empregados por comunicados, cartazes ou meios eletrônicos;
(Alteração dada pela Portaria n.º 84, de 04/03/09)
Obs.: Com a alteração dada pela Portaria n.º 84, de 04/03/09, todos os
incisos (I, II, III, IV, V e VI) desta alínea foram revogados.
c) informar aos trabalhadores: (Alteração dada pela Portaria n.º 03, de
07/02/88)
I. os riscos profissionais que possam originar-se nos locais de trabalho;
II. os meios para prevenir e limitar tais riscos e as medidas adotadas pela
empresa;
III. os resultados dos exames médicos e de exames complementares de
diagnóstico aos quais os próprios trabalhadores forem submetidos;
IV. os resultados das avaliações ambientais realizadas nos locais de
trabalho.
d) permitir que representantes dos trabalhadores acompanhem a
fiscalização dos preceitos legais e regulamentares sobre segurança e
medicina do trabalho; (Alteração dada pela Portaria n.º 03, de 07/02/88)
e) determinar procedimentos que devem ser adotados em caso de acidente
ou doença relacionada ao trabalho. (Inserção dada pela Portaria n.º 84, de
04/03/09)

Em síntese, o item 1.7 preceitua que o empregador fica incumbido de


cumprir as disposições regulamentares das NRs, oferecendo segurança ao
trabalhador no desempenho de suas atividades, bem como com o dever de informar
aos trabalhadores dos riscos profissionais que possam se originar nos locais de
trabalho, além de prevenir e limitar esses riscos, adotando as medidas necessárias.

2.2.2 NR 4 - Serviços especializados em Engenharia de Segurança e em


Medicina do Trabalho – SESMT

A NR 4 estabelece que as empresas privadas e públicas, que possuam


empregados regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT, devem
promover a saúde e proteger a integridade do trabalhador no local de trabalho
através da manutenção de Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e
Medicina do Trabalho – SESMT.

Desse modo, o SESMT se constitui em um grupo de profissionais


especializados em Segurança do Trabalho que atuam no gerenciamento de riscos
no ambiente de trabalho, buscando promover a saúde e proteger a integridade do
trabalhador. Os profissionais que podem compor o SESMT são: Engenheiros de
22

Segurança do Trabalho, Técnicos de Segurança do Trabalho, Médico do Trabalho,


Enfermeiro do Trabalho e Auxiliar de Enfermagem do Trabalho.

A quantidade de profissionais destas categorias que irá compor o SESMT


de determinada empresa depende do número de funcionários da empresa e do grau
de risco da atividade. Assim, para realizar o dimensionamento do SEMST é
necessária a consulta aos Quadros I e II da NR4.

O Quadro I relaciona as atividades conforme seu grau de risco. Este


quadro possui o conteúdo muito extenso, portanto na figura abaixo apresenta-se
apenas o início deste quadro para que seja possível compreender o
dimensionamento do SESMIT.

Quadro 1 – Dimensionamento do SESMT

Fonte: Norma Regulamentadora 04, MTE (2014).

Em seguida, sabendo o grau de risco da atividade, consulta-se o Quadro


II da NR 4:
23

Quadro 2 – Dimensionamento do SESMT

Fonte: Norma Regulamentadora 04, MTE (2014).

O SESMT é composto por profissionais capacitados da empresa, que


buscam eliminar os riscos do ambiente de trabalho, atuando no âmbito de sua
competência da seguinte forma: determinando a utilização de equipamentos de
proteção individuais, colaborando nos projetos de instalações físicas, mantendo uma
relação permanente com a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes),
promovendo a conscientização dos trabalhadores para a prevenção de acidentes de
trabalho, entre outras atividades constantes no item 4.12 da NR 4.

2.2.3 NR 5 – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA

A CIPA é uma ferramenta muito importante que foi desenvolvida com a


finalidade de garantir um ambiente de trabalho seguro, prevenindo acidentes e
doenças ocupacionais. Ela foi criada a partir de uma recomendação da Organização
Mundial do Trabalho – OIT, em 1921, e é obrigatória no Brasil por força legal do
artigo 163 da Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT, sendo regida pela NR 5.
24

Assim, a CIPA é obrigatória em todos os locais de trabalho que tenham


mais de 20 funcionários, sejam empresas públicas, privadas e até mesmo em
instituições beneficentes e filantrópicas.

Conforme a norma, A CIPA deve ser composta por representantes eleitos


pelos empregados e outros indicados pelo empregador. O participante da CIPA
ganha estabilidade no emprego por todo o seu mandato e permanece com a
estabilidade por mais um ano após seu término. Dessa maneira, o participante
empregado atua com mais liberdade frente às exigências que precisa fazer ao
empregador.

A CIPA atua identificando os possíveis riscos de acidente no local de


trabalho, mapeando os locais que apresentam riscos e desenvolvendo planos de
ação para não haver acidentes. Além disso, os cipeiros, como são chamados
popularmente os membros que integram o grupo da CIPA, desenvolvem entre os
funcionários uma cultura de prevenção de acidentes e cuidados com a saúde,
demonstrando as vantagens que isso proporciona, conscientizando-os do uso dos
equipamentos de proteção individuais (EPI) e demais cuidados em geral com a
saúde e a segurança. As atribuições dos cipeiros encontram-se listadas no item 5.16
da NR 5, consoante adiante se vê:

5.16 A CIPA terá por atribuição:


a) identificar os riscos do processo de trabalho, e elaborar o mapa de riscos,
com a participação do maior número de trabalhadores, com assessoria do
SESMT, onde houver;
b) elaborar plano de trabalho que possibilite a ação preventiva na solução
de problemas de segurança e saúde no trabalho;
c) participar da implementação e do controle da qualidade das medidas de
prevenção necessárias, bem como da avaliação das prioridades de ação
nos locais de trabalho;
d) realizar, periodicamente, verificações nos ambientes e condições de
trabalho visando a identificação de situações que venham a trazer riscos
para a segurança e saúde dos trabalhadores;
e) realizar, a cada reunião, avaliação do cumprimento das metas fixadas em
seu plano de trabalho e discutir as situações de risco que foram
identificadas;
f) divulgar aos trabalhadores informações relativas à segurança e saúde no
trabalho;
g) participar, com o SESMT, onde houver, das discussões promovidas pelo
empregador, para avaliar os impactos de alterações no ambiente e processo
de trabalho relacionados à segurança e saúde dos trabalhadores;
h) requerer ao SESMT, quando houver, ou ao empregador, a paralisação de
máquina ou setor onde considere haver risco grave e iminente à segurança
e saúde dos trabalhadores;
25

i) colaborar no desenvolvimento e implementação do PCMSO e PPRA e de


outros programas relacionados à segurança e saúde no trabalho;
j) divulgar e promover o cumprimento das Normas Regulamentadoras, bem
como cláusulas de acordos e convenções coletivas de trabalho, relativas à
segurança e saúde no trabalho;
l) participar, em conjunto com o SESMT, onde houver, ou com o
empregador, da análise das causas das doenças e acidentes de trabalho e
propor medidas de solução dos problemas identificados;
m) requisitar ao empregador e analisar as informações sobre questões que
tenham interferido na segurança e saúde dos trabalhadores;
n) requisitar à empresa as cópias das CAT emitidas;
o) promover, anualmente, em conjunto com o SESMT, onde houver, a
Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho – SIPAT;
p) participar, anualmente, em conjunto com a empresa, de Campanhas de
Prevenção da AIDS.

O dimensionamento da CIPA varia de acordo com a atividade da


empresa e o número de colaboradores, conforme se verifica no Quadro I desta NR.

Quadro 3 – Dimensionamento da CIPA

Fonte: Norma Regulamentadora 5, MTE (2011).

É possível observar que a CIPA busca proporcionar bem-estar no


ambiente de trabalho. Apesar disso, existem empresas que deixam de instalar a
CIPA, passando a atuar ilegalmente, por estarem em desconformidade com a
legislação que obriga a sua criação, ficando, assim, sujeitas à autuação do Ministério
do Trabalho e Emprego e mais vulneráveis à ocorrência de acidentes.
26

2.2.4 NR 6 – Equipamentos de Proteção Individual (EPI)

Segundo a NR 6, o EPI é todo dispositivo ou produto de uso individual por


parte do trabalhador, com a finalidade de protegê-lo dos riscos que atentam contra a
sua saúde e segurança no seu trabalho.

A NR 6 regulamenta atribuições legais às quais as empresas precisam


adequar os EPIs para fornecê-los aos empregados, visando diminuir a exposição de
riscos à saúde.

Assim, para garantir a saúde e a integridade física do trabalhador, a NR 6


determina que a empresa é obrigada a fornecer gratuitamente aos empregados os
EPI adequados ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento.

Para que a empresa possa entregar o EPI para ser utilizado pelo
trabalhador, é necessário que ele possua a indicação do Certificado de aprovação
(CA), estando assim adequado pelo órgão nacional competente em matéria de
segurança e saúde do trabalho, o MTE. Além disso, as empresas fornecedoras de
EPI deverão estar registradas no Departamento de Segurança e Saúde do Trabalho.

Além do fornecimento deste material de segurança para os trabalhadores,


a empresa está incumbida ainda de realizar o treinamento deles para o uso,
armazenamento e conservação dos EPI, tendo também que realizar sua
manutenção periódica e substituí-los quando danificados.

Por outro lado, o empregado fica obrigado a utilizar o equipamento,


sempre com a finalidade a que se destina, se responsabilizando também por seu
armazenamento e conservação e devendo comunicar à empresa quando o
equipamento sofrer alguma alteração que o torne impróprio para o uso.

Os tipos de EPI variam conforme os riscos e ameaças que cada


segmento de atividade apresente contra a saúde do trabalhador. Sendo assim, os
tipos de EPI mais utilizados na construção civil são, por exemplo: capacetes,
protetores auditivos, máscaras, óculos de proteção visual, luvas, botas, cintos de
segurança, dentro outros.
27

Figura 1 – Equipamentos de Proteção Individual

Fonte: http://extinlaudo.com.br/home/epi

2.2.5 NR 7 – Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional - PCMSO

A NR 7, em seu item 7.1.1, estabelece:

7.1.1 Esta Norma Regulamentadora - NR estabelece a obrigatoriedade de


elaboração e implementação, por parte de todos os empregadores e
instituições que admitam trabalhadores como empregados, do Programa de
Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO, com o objetivo de
promoção e preservação da saúde do conjunto dos seus trabalhadores.

Dessa forma, a obrigatoriedade de implementação do PCMSO, instituída


pela NR 7, objetiva promover e preservar a saúde do trabalhador. Logo, o PCMSO
28

tem caráter prevencionista, de rastreamento e diagnóstico precoce referente aos


agravos relacionados à saúde no trabalho.

Com isso, verifica-se que o PCMSO atua detectando eventuais riscos


ocupacionais e doenças relacionadas às atividades laborais, promovendo ações que
buscam evitá-las.

Quem elabora o PCMSO é o médico do trabalho. Ele é responsável por


realizar os exames médicos previstos no item 7.4.1 da NR 7, quais sejam: exames
admissionais, periódicos, de retorno ao trabalho, de mudança de função,
demissionais e exames complementares, conforme a necessidade, a ser definida
pelo médico do trabalho. Após cada um desses exames, o médico do trabalho emite
o Atestado de Saúde Ocupacional – ASO, que deverá conter, no mínimo, as
informações previstas no item 7.4.4.3 da NR 7.

7.4.4.3 O ASO deverá conter no mínimo:


a) nome completo do trabalhador, o número de registro de sua identidade e
sua função;
b) os riscos ocupacionais específicos existentes, ou a ausência deles, na
atividade do empregado, conforme instruções técnicas expedidas pela
Secretaria de Segurança e Saúde no Trabalho-SSST;
c) indicação dos procedimentos médicos a que foi submetido o trabalhador,
incluindo os exames complementares e a data em que foram realizados;
d) o nome do médico coordenador, quando houver, com respectivo CRM;
e) definição de apto ou inapto para a função específica que o trabalhador vai
exercer, exerce ou exerceu;
f) nome do médico encarregado do exame e endereço ou forma de contato;
g) data e assinatura do médico encarregado do exame e carimbo contendo
seu número de inscrição no Conselho Regional de Medicina.

Todas as empresas devem criar o seu PCMSO, independentemente do


número de funcionários e do grau de risco da atividade. A empresa que não
implantar esse programa está sujeita à aplicação de multa pelo agente de inspeção
do trabalho da Superintendência Regional do Trabalho – SRT, com valores
estabelecidos por outra norma regulamentadora, a NR 28. Na elaboração do
PCMSO deve ser realizado um plano de atividades para o período de um ano, logo,
a periodicidade de sua revisão é anual.
29

2.2.6 NR 18 – Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da


Construção

A NR 18 é considerada a norma regulamentadora mais importante da


indústria da construção civil. É uma norma que está vinculada às condições e
ambiente de trabalho, tendo por objetivo o que descreve em seu item 18.1.1:

18.1.1 Esta Norma Regulamentadora - NR estabelece diretrizes de ordem


administrativa, de planejamento e de organização, que objetivam a
implementação de medidas de controle e sistemas preventivos de
segurança nos processos, nas condições e no meio ambiente de trabalho
na Indústria da Construção.

Percebe-se que esta NR, objetivando garantir a saúde dos trabalhadores,


define atribuições e responsabilidades às pessoas que administram as empresas,
regulamenta os mais variados tipos de serviço, traz normas aplicáveis às áreas de
vivência dos colaboradores nos ambientes de trabalho e, até mesmo, normas
específicas para escavações, demolições, soldagens, proteção contra incêndio e
trabalho em altura, entre outros.

A NR 18 determina que seja obrigatória a elaboração do Programa de


Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção – PCMAT em
todo estabelecimento que contenha 20 funcionários ou mais. Esse programa visa
garantir, através de ações preventivas, a saúde e a integridade física de todas as
pessoas que atuam direta ou indiretamente nas obras: os funcionários, terceirizados,
fornecedores, visitantes, etc.

O PCMAT deve ser elaborado por profissional legalmente habilitado na


área de segurança do trabalho e deve ser integrado pela documentação descrita no
item 18.3.4 da NR 18.

18.3.4 Integram o PCMAT:


a) memorial sobre condições e meio ambiente de trabalho nas atividades e
operações, levando-se em consideração riscos de acidentes e de doenças
do trabalho e suas respectivas medidas preventivas;
b) projeto de execução das proteções coletivas em conformidade com as
etapas de execução da obra;
c) especificação técnica das proteções coletivas e individuais a serem
utilizadas;
d) cronograma de implantação das medidas preventivas definidas no
PCMAT em conformidade com as etapas de execução da obra;
30

e) layout inicial e atualizado do canteiro de obras e/ou frente de trabalho,


contemplando, inclusive, previsão de dimensionamento das áreas de
vivência;
f) programa educativo contemplando a temática de prevenção de acidentes
e doenças do trabalho, com sua carga horária.

A indústria da construção civil é conhecida como um ramo de atividade


que apresenta uma particularidade relacionada ao local de execução das atividades,
ou seja: o fato de estar sempre mudando de lugar quando termina uma obra e se
inicia outra. Por isso, é muito comum a instalação de alojamento e áreas de vivência
provisórias nos canteiros de obra. Para garantir o bem estar do trabalhador, a NR 18
em seu item 18.4.1, estabelece as instalações mínimas que a obra deve dispor:

18.4.1 Os canteiros de obras devem dispor de:


a) instalações sanitárias;
b) vestiário;
c) alojamento;
d) local de refeições;
e) cozinha, quando houver preparo de refeições;
f) lavanderia;
g) área de lazer;
h) ambulatório, quando se tratar de frentes de trabalho com 50 (cinquenta)
ou mais trabalhadores.

A obrigatoriedade dos alojamentos, lavanderias e áreas de lazer


relacionado no item citado acima se dá apenas quando os trabalhadores
permanecerem alojados nas obras.

Essas instalações de alojamentos e áreas de vivência devem estar


constantemente limpas, organizadas e com as vias de circulação livres. Os entulhos
e sobras de materiais remanescentes da obra devem ser regularmente coletados.

A NR 18 regulamenta, ainda, diversos serviços específicos na área da


construção civil. Tais como:

Quadro 4 – Descrição das principais recomendações dos serviços específicos constantes na


NR 18

ÍTEM/SERVIÇO PRINCIPAIS RECOMENDAÇÕES DOS SERVIÇOS


Antes de se iniciar a demolição, as linhas de energia, água, inflamáveis líquidos,
18.5 Demolição canalizações de esgoto, dentre outros, devem ser desligadas, protegidas,
retiradas ou isoladas. As demolições devem ser programas e dirigidas por
profissional legalmente habilitado.
31

18.6 Escavações, A área deve ser previamente limpa; Garantir a estabilidade dos taludes
Fundações e superiores a 1,25m e as escavações devem dispor de escadas ou rampas
Desmonte de próximas aos postos de trabalho, a fim de permitir em caso de emergência a
Rochas saída rápida dos trabalhadores. Haver responsável técnico legalmente
habilitado. Edificações vizinhas e estruturas que possam ser afetadas pela
escavação devem ser escoradas.

As atividades de carpintaria somente podem ser realizadas por trabalhador


18.7 Carpintaria qualificado nos termos da NR operando com os necessários dispositivos de
segurança para os equipamentos, máquinas e operadores.
18.8 Armações As armações de pilares, vigas e outras estruturas verticais devem ser apoiadas
de Aço para evitar tombamento e desmoronamento. Este item aborda ainda todas as
medidas mínimas necessárias para o manuseio, transporte, armazenamentos
de vergalhões de aço.

Apresenta os cuidados na execução de formas e desformas, também a


18.9 Estrutura de necessidade de suporte e escoras. Proteção dos itens como vibradores.
Concreto Caçambas transportadores devem ter dispositivos de segurança para impedir o
descarregamento acidental.

18.10 Estruturas Aborda os cuidados necessários para montagem e soldagem das estruturas
Metálicas metálicas e os cuidados com os itens menores como rebites e parafusos.
18.11 Operações Além de exigir profissionais habilitados, faz-se necessário uma série de
de Soldagem e medidas para evitar acidentes, pois são equipamentos que são sensíveis a
Corte a Quente substancias inflamáveis.
18.12 Escadas, Mostra o dimensionamento, a construção, além de uma recomendação de
Rampas e orientação as trabalhadores sobre regras de utilização segura, uma vez que
Passarelas são utilizadas para acesso a diversos locais.
18.3 Medidas de Faz-se obrigatório a proteção coletiva onde houverem riscos de queda de
Proteção contra trabalhadores ou materiais, além de fornecer as características das proteções
Quedas de Altura necessárias como plataformas e telas.

Fonte: Adaptado da Norma Regulamentadora 18, MTE (2015).

Adicionalmente, a NR 18, visando garantir a execução das atividades com


segurança, estabelece que todos os empregados recebam treinamentos
admissionais e periódicos.

Os treinamentos admissionais devem ser ministrados dentro do horário da


jornada de trabalho, com duração mínima de 6 horas e antes do colaborador iniciar
suas atividades na empresa. Os assuntos abordados nesses treinamentos são, por
exemplo: informações sobre o uso adequado do EPI e do EPC, riscos inerentes à
sua função e condições e meio ambiente do trabalho. Os treinamentos periódicos
são ministrados conforme sua necessidade ou quando a obra inicia uma nova fase.

Nesse diapasão, verifica-se, através desse breve resumo da NR18, que o


PCMAT é um programa bem estruturado. Portanto, é importante que, ao iniciar uma
32

obra, os profissionais envolvidos tenham conhecimento de seu conteúdo e o


apliquem na gestão de segurança da construção.

2.2.7 NR 35 – Trabalho em altura

A NR 35 aborda os procedimentos mínimos necessários para proteção


dos trabalhos em altura, estabelecendo medidas de proteção que envolve o
planejamento, a organização e a execução das atividades. A norma, por meio
dessas ações, visa garantir a segurança e a saúde dos empregados, terceirizados e
todos aqueles que atuam, direta ou indiretamente, no desenvolvimento das
atividades, assegurando, ainda, a proteção dos transeuntes que caminham nas
proximidades.

O item 35.1.2 desta norma define que: “considera-se trabalho em altura


toda atividade executada acima de 2,00m (dois metros) do nível inferior, onde haja
risco de queda.”

O empregador é responsável pela implementação de todas as medidas


que tenham o objetivo de garantir as proteções estabelecidas por esta norma. Neste
sentido, deve o empregador verificar os riscos no local de trabalho, fazendo uma
constante supervisão, realizar treinamentos periódicos para os funcionários que
prestam serviços em altura, fornecer os EPIs e EPCs adequados para o
desempenho dessas atividades, dentre outras medidas. A NR 35, em seu item
35.2.1, relaciona as responsabilidades do empregador referentes ao trabalho em
altura:

35.2.1 Cabe ao empregador:


a) garantir a implementação das medidas de proteção estabelecidas nesta
Norma;
b) assegurar a realização da Análise de Risco - AR e, quando aplicável, a
emissão da Permissão de Trabalho - PT;
c) desenvolver procedimento operacional para as atividades rotineiras de
trabalho em altura;
d) assegurar a realização de avaliação prévia das condições no local do
trabalho em altura, pelo estudo, planejamento e implementação das ações e
das medidas complementares de segurança aplicáveis;
e) adotar as providências necessárias para acompanhar o cumprimento das
medidas de proteção estabelecidas nesta Norma pelas empresas
contratadas;
f) garantir aos trabalhadores informações atualizadas sobre os riscos e as
medidas de controle;
33

g) garantir que qualquer trabalho em altura só se inicie depois de adotadas


as medidas de proteção definidas nesta Norma;
h) assegurar a suspensão dos trabalhos em altura quando verificar situação
ou condição de risco não prevista, cuja eliminação ou neutralização imediata
não seja possível;
i) estabelecer uma sistemática de autorização dos trabalhadores para
trabalho em altura;
j) assegurar que todo trabalho em altura seja realizado sob supervisão, cuja
forma será definida pela análise de riscos de acordo com as peculiaridades
da atividade;
k) assegurar a organização e o arquivamento da documentação prevista
nesta Norma.

Segundo o MTE, 40% dos acidentes de trabalho no Brasil estão


relacionados a quedas de profissionais no exercício do trabalho em altura. Logo,
uma das principais causas de morte de funcionários em obras de construção civil se
deve aos acidentes envolvendo quedas em altura, de pessoas e de materiais.

Todavia, os riscos de trabalhos em altura são evidentes e podem ser


minimizados se as medidas preventivas forem implantadas. Por esta razão, a NR 35
assume um papel de suma importância na prevenção de acidentes.

2.2.8 A responsabilidade civil da construtora em caso de acidente de trabalho

Após esta breve abordagem das normas regulamentadoras aplicadas à


indústria da construção civil, percebe-se que os empregadores têm inúmeras
responsabilidades com a saúde e a integridade física de seus empregados.

É notório, nos dias atuais, que o setor da construção civil é um dos


principais responsáveis pelo elevado número de acidentes no Brasil. Isso acontece,
principalmente, porque muitos empresários desrespeitam a legislação, tornando o
ambiente de trabalho mais propenso à ocorrência de acidentes de trabalho.

Essa vulnerabilidade torna as empresas desse ramo suscetíveis de serem


acionadas judicialmente por acidentes, pois toda vítima de acidente de trabalho ou
doença ocupacional tem direito a uma indenização civil, a ser paga pelo
empregador.
Ao longo da história do desenvolvimento da legislação trabalhista, e com
a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), durante o governo Vargas,
se desenvolveram os entendimentos norteadores do direito do trabalho e o princípio
34

protetivo ao trabalhador, que é considerado hipossuficiente (vulnerável) na relação


de trabalho entre ele e a empresa.

Com base nessa legislação do trabalho, os tribunais trabalhistas


brasileiros pacificaram o entendimento sobre em quem recai a responsabilidade
derivada de acidente de trabalho em construções.

O Código Civil Brasileiro, em seu art. 186, contempla o instituto da


responsabilidade civil, determinando que “aquele que, por ação ou omissão
voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda
que exclusivamente moral, comete ato ilícito”, cabendo o dever de repará-lo.

Verifica-se neste dispositivo legal a composição dos elementos


constitutivos da responsabilidade civil subjetiva, regra geral no Brasil. Nela, é
imprescindível auferir a culpa do empregador para que ele seja responsabilizado
pelo evento danoso.

Todavia, no setor da indústria da construção civil se adota a


responsabilidade civil objetiva, eis que a construção civil está enquadrada como
atividade de risco. A normatização determina que seja aplicada a responsabilidade
objetiva quando a atividade do causador do dano, por sua natureza, implicar risco
para o direito de outrem. É o que os estudiosos chamam de Teoria do Risco, a
responsabilidade pelo risco da atividade que, por si só, expõe ao perigo a vida de
outros. Neste sentido, o artigo 927 do Código Civil Brasileiro estabelece:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem,
fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente
de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade
normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza,
risco para os direitos de outrem.

As atividades do setor da construção civil são consideradas de risco de


acordo com o anexo V do Decreto nº 3.048/99. Numa escala de risco que varia de 1
a 4, a construção civil possui grau de risco “3”. O grau de risco de atividades também
podem ser verificados no quadro I da NR 4. Dessa maneira, torna-se aplicável o
artigo 927 do Código Civil à construção civil.
35

A partir da leitura do artigo em análise, compreende-se que a


responsabilidade objetiva independe da culpa, ou seja, para que o empregador seja
responsabilizado se faz necessária apenas à comprovação da ação ou omissão, do
dano e do nexo causal existente entre estes. Dessa forma, havendo um acidente
com direta relação com a atividade executada pelo empregado, a responsabilidade
poderá ser atribuída ao empregador.

Desse modo leciona Carlos Roberto Gonçalves:

Uma das teorias que procura justificar a responsabilidade objetiva é a teoria


do risco. Para essa teoria, toda pessoa que exerce alguma atividade cria um
risco de dano para terceiros. E deve ser obrigada a repará-lo, ainda que sua
conduta seja isenta de culpa. A responsabilidade civil desloca-se da noção
de culpa para a idéia de risco, ora encarada como “risco-proveito”, que se
funda no princípio segundo o qual é reparável o dano causado a outrem em
consequência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi
emolumentum, ibi ônus); ora mais genericamente como “risco-criado”, a que
se subordina todo aquele que, sem indagação de culpa expuser alguém a
suportá-lo.

Neste sentido, é pacífico o entendimento nos tribunais trabalhistas, em


especial no Tribunal Superior do Trabalho, de que a responsabilidade civil é objetiva
nos casos de acidente de trabalho, por compreenderem que a empresa deve arcar
com os riscos da atividade que desempenha.

Isso mostra que o trabalhador está salvaguardado, pela teoria da


responsabilidade objetiva, por qualquer acidente que lhe ocorra no canteiro de obra,
não necessitando que se comprove a culpa de seu empregador para ser indenizado,
pois os critérios que compõe a responsabilidade nestes casos são o ato comisso ou
omissivo, a existência do dano e o nexo de causalidade.

Há situações em que a responsabilidade do empregador é afastada pela


inexistência de um ou mais desses elementos que constituem a responsabilidade,
como a culpa exclusiva da vítima, o fato de terceiro, a força maior, o caso fortuito, o
estado de necessidade, a legítima defesa e o exercício regular de direito.

Comprovado o acidente de trabalho e a responsabilidade da empresa,


haverá na justiça a condenação ao pagamento de indenização por danos morais e
materiais. Caso isso ocorra, o acidente de trabalho pode representar um prejuízo
muito elevado para a empresa.
36

Em casos de morte, além dos danos morais, os dependentes ainda


poderão cobrar judicialmente os danos emergentes e os lucros cessantes. Danos
emergentes são os gastos imediatos com o acidente, como tratamento médico,
remoção do corpo da vítima e despesas com funeral. Lucros cessantes são aqueles
que consideram a expectativa de vida do trabalhador caso não houvesse falecido no
acidente. Supõe-se que a morte do trabalhador fez diminuir a renda dos
dependentes. Logo, esses lucros cessantes, devem ser pagos na forma de pensão
para a família.

Por todo o exposto, recomenda-se que os empregadores cumpram


fielmente todas as normas do ordenamento jurídico, para que não sejam
responsabilizados por danos ocorridos à saúde e à integridade física dos
trabalhadores.
37

3 ESTUDO DE CASO

Nesse capítulo, inicialmente, serão apresentados dados de custos gerais


e reais que a construtora escolhida para esse estudo investiu em segurança do
trabalho numa determinada obra.

Em seguida, serão apresentados os custos de condenações trabalhistas


que construtoras tiveram de arcar por acidente de um dos seus funcionários.
Oportunamente, em cada caso, serão analisados, comparativamente, os custos de
prevenção da empresa em estudo no item 3.1 em contraponto com os custos de
condenações trabalhistas suportados por outras empresas descritas no item 3.2.

3.1 Custos de prevenção de acidentes em uma obra

3.1.1 Apresentação geral da empresa e da obra em análise

Para a elaboração da análise comparativa propostas nesse trabalho, no


mês de outubro do presente ano, foram colhidos dados de custos investidos em
segurança do trabalho por uma grande construtora de Fortaleza/CE, em uma de
suas obras, localizada no bairro Novo Mondubim. A construtora, através de seu
engenheiro, forneceu gentilmente esses dados, porém sua razão social não será
divulgada.

A obra conta com 6 blocos de apartamentos. Cada bloco possui 40


apartamentos, totalizando 240 apartamentos em todo o condomínio. A obra segue
os moldes das unidades habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida do
Governo Federal

Na visita à referida obra, primeiramente ficou constatado, através dos


dados coletados, que a obra está em conformidade com o SESMT – Serviço
Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho.

Segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), a


referida construtora, especificada como de “Construção de Edifícios”, possui o CNAE
41.20-4/00. Com esta informação, determina-se o Grau de Risco (GR) da atividade
38

desenvolvida pela empresa, consultando-se o código de CNAE no Quadro I da NR 4.


E então, com esta verificação, ficou identificado que a empresa possui o Grau de
Risco 3.

Com base no grau de risco e no número de funcionários da empresa,


determina-se o dimensionamento do SESMT. Isso significa que será fixado o
número mínimo de profissionais especializados do SESMT que deverão estar
sempre presentes, atuando na empresa. Estes são os profissionais que podem
compor o SEMST: Técnico em Segurança do Trabalho, Engenheiro de Segurança
do Trabalho, Auxiliar de Enfermagem do Trabalho, Enfermeiro do Trabalho e Médico
do Trabalho.

O dimensionamento do SESMT se faz através da consulta ao Quadro II


da NR 4. Para a construção deste condomínio, a construtora, que desempenha
atividade de Grau de Risco 3, mantém, há cerca de 3 anos, uma média de 80 a 100
colaboradores, com um técnico em segurança do trabalho durante todo o
expediente. Portanto, a partir dessas informações, o quadro deve ser consultado:

Quadro 5 – Dimensionamento do SESMT

Fonte: Norma Regulamentadora 04, MTE (2014).


39

Verifica-se, portanto, que a empresa está com uma adequação melhor


que a mínima exigida pela NR 4, pois o dimensionamento apresentado não exige um
profissional especializado constantemente na obra. Todavia, a empresa, prezando
pela segurança dos trabalhadores, preferiu investir em um técnico de segurança,
pois considera que o seu número de trabalhadores é considerável e bem próximo do
limite em que a norma exige um profissional especializado presente na obra.

Observou-se, também, que a empresa possui uma Comissão Interna de


Prevenção de Acidentes, em conformidade com o dimensionamento regulado no
Quadro II da NR 5:

Quadro 6: Dimensionamento da CIPA.


Nºde Empregados
no Estabelecimento 0 20 30 51 81 101 121 141 301 501 1001 2501
GRUPOS a a a a a a a a a a a a
N° de Membros 19 29 50 80 100 120 140 300 500 1000 2500 5000
da CIPA
Efetivos 3 3 4 4 4 4 6 9 12
C-18a
Suplentes 3 3 3 3 3 4 5 7 9
Fonte: Quadro II Adaptado da NR 5, MTE (2011).

Novamente, a empresa se enquadra no que prescreve a NR 18, no que


se refere à obrigatoriedade da elaboração do PCMAT. A norma determina a
elaboração e implementação do PCMAT nos estabelecimentos da indústria da
construção civil com 20 ou mais trabalhadores. Tendo em vista que a empresa
possui um número de colaboradores maior que esse e possui o PCMAT implantado,
encontra-se, assim, adequada à norma.

3.1.2 Custos investidos em segurança do trabalho

Ficou claro, no item anterior, que a empresa em estudo atua regularmente


no que diz respeito à existência dos programas de prevenção e segurança, no
desempenho de suas atividades. Todavia, as normas regulamentadoras trazem,
ainda, outras exigências aos empregadores com relação à proteção ao trabalhador.

De maneira geral, as normas exigem o uso de Equipamentos de Proteção


Individuais, Equipamentos de Proteção Coletivos, Treinamentos gerais e específicos
40

baseados nas funções dos trabalhadores, exames médicos admissionais e


periódicos, dentre outros.

Nesse sentido, foi observado que a empresa atende a essas exigências


legais, na medida em que foram considerados seus investimentos em prevenção,
planejamento de recursos e incentivos para evitar acidentes.

Os Equipamentos de Proteção verificados na empresa foram:

 Equipamentos de proteção individuais:


 Capacete
 Bota
 Luva
 Óculos
 Máscara
 Protetor Auricular
 Cinto tipo paraquedista com talabarte
 Trava-quedas

 Equipamentos de proteção coletivos:


 Guarda corpo nas janelas, varandas e vãos abertos em geral
com altura menor que 1,20m.
 Guarda corpo em volta de todo o bloco em substituição às
bandejas, pois conforme a NR 18, item 18.13.6, as bandejas
são obrigatórias apenas em obras com mais de 4 pavimentos.
 Linhas de viga com corda do tipo capa tripla.
 Utilização de cobertas em madeira forradas com folhas de
zinco nas áreas de circulação onde há risco de quedas de
material.

Ademais, a empresa fornece aos trabalhadores os treinamentos e exames


admissionais, periódicos e demissionais que a legislação exige. Todo esse conjunto
de ações e equipamentos de proteção à saúde e à integridade física do trabalhador
faz parte da rotina da construção.
41

Com isso, a partir dos dados financeiros de custos dessas medidas de


segurança fornecidos pela empresa, foi possível realizar o presente estudo. Os
custos relacionados na tabela 1 compreendem os gastos desde o início da obra até
a data da coleta de dados. Por sua vez, no gráfico 1, cada um dos custos da tabela 1
estão apresentados de forma percentual em relação ao custo total.

Tabela 1 – Custos do investimento da empresa em prevenção de acidentes

INVESTIMENTOS CUSTOS 2014/2015/2016


EPI 72.459,05
FARDAMENTO 39.802,54
EPC 25.526,45
PCMAT 4.200,00
SALÁRIO TÉCNICO 79.031,04
PCMSO/EXAMES MÉDICOS 54.150,05
TREINAMENTOS 4.394,00
PALESTRAS 1.652,53
MANUTENÇÕES PREVENTIVAS 1.337,50
TOTAL 282.553,16
Fonte: Autor, 2016.

Gráfico 1 - Custos do investimento da empresa em prevenção de acidentes

Fonte: Autor, 2016.


42

Analisando a tabela 1 e o gráfico 1, percebe-se que alguns itens possuem


maior relevância no conjunto de investimento em segurança da empresa. No caso
do salário do Técnico, isso acontece por estarmos considerando 3 anos de salário
deste profissional. Por outro lado, no caso dos EPIs, isso ocorre devido à alta
demanda de equipamentos necessários para cada um dos trabalhadores.

Fica evidente que os custos de prevenção são, na realidade, um


investimento que o empresário realiza, na medida em que traz diversos benefícios à
empresa, haja vista que o ambiente de trabalho fica mais seguro, torna o
colaborador mais confiante e produtivo e diminui eventuais acidentes, que trazem
graves prejuízos à empresa.

3.2 Casos de condenações trabalhistas por acidentes de trabalho

Serão relacionados agora alguns casos de condenações judiciais


trabalhistas por acidente de trabalho.

3.2.1 Doença ocupacional

Tribunal Regional do Trabalho da 22ª Região – TRT/PI


Processo nº: 0082589-15-2014.5.22.0004

Um pedreiro prestou serviços à construtora NPJ Construções Ltda,


durante o período de um ano e três meses, e, após esse período, foi dispensado.
Inconformado e doente na ocasião de sua demissão ingressou na Justiça
Trabalhista do Estado do Piauí requerendo, além das verbas rescisórias a que tinha
direito, as indenizações por danos materiais e morais, sob a alegação de ter
contraído uma grave doença ocupacional, em decorrência de sua exaustiva rotina de
trabalho nas obras da construtora.

O pedreiro, no período em que trabalhou na construtora, trabalhava


usando uma máquina conhecida como “martelete”. O uso dessa ferramenta causou
graves danos à sua coluna vertebral e incapacidade temporária para exercer a
profissão.
43

No processo trabalhista, o empregado juntou aos autos um laudo médico


que atesta que a doença foi adquirida durante o período de vigência do contrato de
trabalho com a construtora. De acordo com esse laudo médico, o trabalhador sofria
com dolorosas compressões de nervo da coluna vertebral, que se agravavam
diariamente, até mesmo quando executava os mínimos esforços nas atividades
cotidianas.

A empresa contra-argumentou, alegando que no período em que o


empregado esteve na empresa, ele não trabalhou apenas com o uso do instrumento
martelete. Afirmou que o trabalhador desempenhou diversas atividades distintas na
empresa e, com isso, fez uso do martelete apenas algumas vezes.

A construtora afirmou, ainda, que o trabalhador recebeu o treinamento


adequado para o uso da ferramenta e que forneceu todos os equipamentos de
segurança necessários para a sua utilização, como óculos, máscara, protetor
auricular, luva, capacete e bota.

Todavia, o relator do processo no TRT, desembargador Manoel Edilson


Cardoso, decidiu a ação judicial em favor do trabalhador, fundamentando sua
decisão nos laudos periciais. Ele concluiu que houve uma relação de “causa x efeito”
entre o uso do martelete e a doença do operário. Com isso, além das verbas
rescisórias, acrescentou o pagamento de R$130.000,00 (cento e trinta mil reais) por
danos morais e materiais ao trabalhador.

Verifica-se que a construtora realizou o treinamento do funcionário e


forneceu adequadamente os equipamentos de proteção para o mesmo
desempenhar suas atividades, mas, por outro lado, deixou de realizar os exames
médicos necessários no trabalhador. Conforme o estudo teórico, a NR 7 aponta a
obrigação do empregador de realizar esses exames. Nesse sentido, percebe-se que
se a construtora tivesse realizado os exames médicos necessários, possivelmente a
doença teria sido detectada antecipadamente ao seu agravamento e, com isso, o
trabalhador teria deixado de postular na justiça essa indenização.

Ademais, para concluir a abordagem deste caso, observa-se o quanto


essa condenação foi dispendiosa para a empresa, frente aos investimentos que
poderia ter realizado com exames médicos mais apurados.
44

Analisando-se comparativamente os custos com prevenção de acidentes


da empresa em estudo (tabela 01), vemos que esta indenização de R$130.000,00
(cento e trinta mil reais), suportada pela NPJ Construções Ltda, para apenas um
trabalhador, custou mais que o dobro de todo o valor investido em PCMSO e
exames no período de três anos de suas atividades para todos os trabalhadores,
que equivaleu a R$54.150,05 (cinquenta e quatro mil cento e cinquenta reais e cinco
centavos).

Por esta avaliação deste primeiro caso, percebe-se que gastos com
prevenção, segurança e saúde do trabalhador, tornam-se menos onerosos que com
condenações trabalhistas.

Gráfico 2 – Comparativo prevenção x indenização / Doença Ocupacional

Fonte: Autor, 2016.

3.2.2 Acidente corriqueiro

Tribunal Regional do Trabalho da 22ª Região – TRT/PI


Processo nº: 0000832-42.2013.5.22.0001
45

Será apresentado neste subitem, o caso de um acidente decorrente de


uma situação corriqueira nas obras, mas que geralmente seus riscos passam
despercebidos.
Um trabalhador da construtora JAS Construções, que exercia a função de
serviços gerais, tendo como principal atribuição a carga e descarga de sacos de
cimento sofreu um acidente quando um colega de trabalho arremessou, de cima do
caminhão, um saco de cimento que caiu em suas costas.

Nesse momento, sentiu uma forte dor e comunicou à gerente da obra, que
não deu a devida importância ao fato. Consequentemente, no dia seguinte, ainda
sentindo dores, teve de voltar a trabalhar na função habitual quando,
momentaneamente, perdeu o movimento das pernas, não conseguindo se levantar.

Foram constatados, através de exames, transtornos de discos lombares e


de outros discos com radiculopatia, além de degeneração especificada de disco
intervertebral, com distúrbio da marcha e sensibilidade apendicular.

A partir disso, o trabalhador, sem qualquer auxílio da construtora, realizou


cirurgia para excisão da hérnia, porém, mesmo depois do procedimento cirúrgico,
ficou incapacitado permanentemente para o retorno às atividades.

Por esse motivo, requereu na justiça indenizações por danos morais e


materiais. Em primeira instância, não obteve êxito, pois a magistrada da 1ª Vara do
Trabalho de Teresina acolheu o entendimento da defesa, que, por sua vez, negou a
ocorrência de qualquer acidente e alegou que a patologia acometida ao reclamante
constitui doença degenerativa, que faz parte do processo de envelhecimento
humano, não restando nexo de causalidade com o acidente.

Inconformado com a sentença, o trabalhador recorreu ao TRT22, onde


obteve êxito. A desembargadora relatora do processo reconheceu que o trabalhador
tinha a doença degenerativa na coluna, todavia observou que o tipo de trabalho
agravou sua doença. Isso ficou comprovado através de perícia, que concluiu que a
atividade desenvolvida pelo trabalhador contribuiu para o surgimento das patologias
diagnosticadas.
46

Nesse sentido, a desembargadora considerou que houve nexo de


causalidade entre a patologia do trabalhador e a atividade desenvolvida na empresa,
restando, assim, a culpa da construtora no agravamento da doença. A
desembargadora considerou, por fim, que a empresa concorreu para o agravamento
da doença furtando-se de realizar exames que pudessem detectar a doença e tomar
as precauções necessárias para preservar a integridade física do trabalhador.

A empresa JAS Construções foi condenada pelo Tribunal Regional do


Trabalho da 22ª Região a pagar R$56.655,00 (cinquenta e seis mil, seiscentos e
cinquenta e cinco reais) de indenização por danos morais e materiais.

Percebe-se que o valor desta indenização é maior que o valor do


investimento da empresa em estudo (tabela 1), em exames médicos e em PCMSO,
que somam R$54.150,05 (cinquenta e quatro mil cento e cinquenta reais e cinco
centavos). Conclui-se, mais uma vez, que é menos dispendioso financeiramente
para a empresa acompanhar com proximidade a saúde e a integridade física dos
trabalhadores que arriscar e não dar a importância devida a todas as ocorrências de
acidente na obra, inclusive as mais simples, pois, no primeiro momento, pode não
ser possível vislumbrar a gravidade do acidente.

Conforme narrado inicialmente, evidencia-se neste caso a ocorrência de


um acidente de trabalho ocorrido em uma situação corriqueira e comum em muitas
obras: a descarga de cimento, em que um trabalhador arremessa os sacos do alto
de um caminhão e outro os recebe no solo.

Este é um exemplo, dentre tantos outros que existem, de atividades


corriqueiras executadas de forma inadequada, mas que o costume no ramo da
construção civil tornou “normais”. Neste cenário, não se imaginava que em uma
simples descarga de cimento ocorresse um acidente de trabalho que geraria prejuízo
de R$56.655,00 (cinquenta e seis mil, seiscentos e cinquenta e cinco reais) à
empresa.

Da análise deste caso, percebe-se a importância de existir nas obras


profissionais especializados, que atuem eliminando os riscos e promovendo a
segurança e a conscientização dos colaboradores.
47

Gráfico 3 – Comparativo prevenção x indenização / Acidente corriqueiro

Fonte: Autor, 2016.

3.2.3 Acidente grave com invalidez permanente

Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região – TRT/MG


Processo nº: 0001797-74.2011.5.03.0112 RO

Um trabalhador sofreu um acidente na obra, quando, ao operar um


guincho, um tijolo caiu do quinto andar da construção, atingindo sua cabeça. O
acidente trouxe graves sequelas à vida do trabalhador, que ficou totalmente
incapacitado para o trabalho e necessitando de cadeira de rodas para se locomover.

Em virtude disso, ingressou na justiça com uma ação trabalhista,


requestando a condenação da construtora ao pagamento de danos de três ordens:
morais, materiais e estéticos.

Observou-se, no decorrer do processo, que o acidente de trabalho


ocorreu por culpa da construtora, que deixou de observar as normas de segurança
do trabalho, sobretudo a NR 18, no que diz respeito às barreiras de proteção contra
quedas de materiais.
48

No processo, que tramitou na 33ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte/ES,


a magistrada solicitou perícia médica, que constatou que o empregado havia sido
vítima de um acidente de trabalho típico, apresentando sequelas permanentes de
traumatismo crânio-encefálico, que o deixaram totalmente incapacitado para o
trabalho, amargando, ainda, prejuízos estéticos.

A construtora argumentou que a nova condição do empregado não possui


nexo de causalidade com o trabalho executado e que o quadro do trabalhador foi
agravado por cirurgia inadequada. Todavia, a magistrada não acolheu tais
argumentos, por entender que o fato ocorreu justamente no momento em que o
operador de guincho executava atividades em benefício da empresa e o médico
perito avaliou o procedimento cirúrgico como adequado à situação do trabalhador e
bem sucedido.

Para agravar ainda mais a situação da empresa, uma das testemunhas


levada a juízo pelo trabalhador, afirmou que nunca um engenheiro ou técnico de
segurança do trabalho estiveram presentes no local de trabalho. Com isso, a
magistrada percebeu que, além do descumprimento à NR 18, houve também o
descaso com a NR 4, que obriga as empresas públicas, privadas e órgãos da
administração direta e indireta, que possuam empregados regidos pela CLT, a
manterem serviços especializados em engenharia de segurança e em medicina do
trabalho, o SEMST, para promover ações de saúde e proteção à integridade física
dos trabalhadores nos locais de serviço.

Com esses fundamentos, a magistrada condenou a empresa a pagar


R$300.000,00 (trezentos mil reais) a título de indenização por danos morais e
materiais. Somado a isso, foi condenada, ainda, a pagar, a título de danos estéticos,
o valor de R$450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) mensais, referentes aos gastos
com fisioterapia, até haver melhoras em seu quadro de saúde.

Um valor alto como o desta condenação trazem um impacto financeiro


considerável para a empresa. Muitas empresas encerrariam suas atividades diante
de tamanho prejuízo.

A construtora do caso em questão foi condenada por ter deixado de


proceder com a aplicação de duas normas em sua obra: A NR 18, por não ter
49

isolado as áreas com risco de quedas de materiais e a NR 4, por não ter implantado
o SESMT.
A partir dos dados colhidos na empresa em estudo (tabela 1), o somatório
da implantação dessas duas normas foi de R$90.415,68 (noventa mil, quatrocentos
e quinze reais e sessenta e oito centavos), valor este muito inferior à indenização de
R$300.000,00 (trezentos mil reais). O valor desta indenização foi maior, até mesmo,
que o somatório de todos os itens e programas de segurança implantado na
empresa, que somaram o total de R$289.737,80 (duzentos e oitenta e nove mil,
setecentos e trinta e sete reais e oitenta centavos).

Gráfico 4 – Comparativo prevenção x indenização / Acidente com invalidez permanente

Fonte: Autor, 2016.

3.2.4 Acidentes com resultado morte

Tribunal Regional do Trabalho da 14ª Região – TRT/RO-AC


Processo nº: 0000626-88.2012.5.14.0032

Um trabalhador, que laborava para a empresa M.L. Construtora e


Empreendedora Ltda sofreu acidente de trabalho enquanto operava uma máquina
50

de Usina de Asfalto, vindo a falecer. Em razão disso, sua companheira ingressou na


justiça trabalhista postulando danos morais e materiais.

Com base na instrução processual, constatou-se que o acidente teve


como causa as condições insuficientes da máquina em proteger o trabalhador do
acesso à sua parte interior, por barreiras capazes de conter os empregados e evitar
acidentes graves, como o que ocorreu. Outrossim, restou comprovado no processo
que os trabalhadores operavam essas máquinas sem quaisquer treinamentos
oferecidos pela empresa.

Com esse fundamento, a referida empresa foi condenada pela 2ª Vara do


Trabalho de Ariquemes, interior de Rondônia, ao pagamento de R$361.708,48
(trezentos e sessenta e um mil, setecentos e oito reais e quarenta e oito centavos)
por danos morais e materiais. Somado a isso, a empresa ficou obrigada ao
pagamento de R$3.000,00 (três mil reais) referente a honorários periciais, além das
custas processuais, no valor de R$7.234,17 (sete mil duzentos e trinta e quatro reais
e dezessete centavos). O valor total da condenação foi de R$371.942,65 (trezentos
e setenta e um mil novecentos e quarenta e dois reais e sessenta e cinco centavos).

Trata-se de uma indenização com valor bastante elevado, que a


construtora poderia ter evitado se tivesse realizado as análises de risco pertinentes
na obra e capacitado os trabalhadores com os treinamentos necessários.

Fazendo uma nova análise comparativa dos gastos preventivos investidos


pela empresa, descritos na tabela 1 do item 3.1.2 deste trabalho, atesta-se, mais
uma vez, a necessidade de priorizar a prevenção no ambiente laboral. Aquela
empresa investiu, no período de três anos, apenas R$4.394,00 (quatro mil, trezentos
e noventa e quatro reais) em treinamentos e, no total, investiu R$289.737,80
(duzentos e oitenta e nove mil, setecentos e trinta e sete reais e oitenta centavos)
em segurança, valor este consideravelmente inferior ao da indenização de apenas
um trabalhador.
51

Gráfico 5 – Comparativo prevenção x indenização / Acidente com resultado morte

Fonte: Autor, 2016.

3.2.5 Danos Morais coletivos

Algumas empresas, mesmo após a ocorrência de trágicos acidentes em


suas obras, persistem em descumprir o que estabelecem as normas de segurança,
apesar da fiscalização das Superintendências Regionais do Trabalho (SRTs).

Nestes casos, o Ministério Público do Trabalho (MPT) aciona Ações Civis


Públicas contra essas empresas. Estas ações judiciais, apesar de não amenizarem o
sofrimento dos trabalhadores acidentados e de suas famílias, servem como um
instrumento de punição pedagógico às empresas que não cumprem com suas
obrigações de manter o ambiente de trabalho seguro.

Dessa forma, compreende-se que, além das ações trabalhistas por


acidentes de trabalho acionadas pelos trabalhadores acidentados ou por suas
famílias em caso de morte, empresas irregulares enfrentam ainda ações judiciais
movidas pelo Ministério Público do Trabalho. Essas ações costumam ter os valores
de indenizações ainda mais elevados que aquelas, gerando impactos financeiros
bem maiores para as empresas. Abaixo serão mostrados dois exemplos:
52

3.2.5.1 Processo nº: 0000501-17.2012.5.05.0018 – TRT 5ª Região/Bahia

O Ministério Público do Trabalho ingressou com Ação Civil Pública contra


a Construtora Segura, acusando-a de negligência no cumprimento de normas de
segurança no ambiente de trabalho, que resultou em uma tragédia, a morte de 9
operários em 2011.

Os operários trabalhavam na construção do edifício Comercial II, uma


torre de 103 metros de altura, com 299 salas, localizada na Rua Saturnino Segura,
Pituba, Salvador/BA. O acidente ocorreu após o elevador da marca Hércules, que
transportava os operários, despencar de uma altura de aproximadamente 80 metros.

A construtora foi condenada pela 18ª Vara do Trabalho de Salvador a


pagar R$400.000,00 (quatrocentos mil reais) de indenização por danos morais
coletivos, além de multa no valor de R$1.000,00 (hum mil reais) em caso de novos
descumprimentos de algum dos 29 itens de normas de segurança listadas na
sentença condenatória.

Todavia, os procuradores do Ministério Público do Trabalho ficaram


inconformados com o valor da condenação, pois ele representa apenas 4% do valor
pleiteado a título de indenização, que foi de R$10.000.000,00 (dez milhões de reais).
O valor desta condenação, segundo os procuradores, representa a quantia
indenizatória para um acidente de trabalho corriqueiro e, neste caso, ocorreu uma
tragédia que ocasionou a morte de nove operários, devendo o valor de a
indenização ter sido bem superior. Os procuradores destacaram que esses casos
exigem condenações proporcionais aos impactos sociais dos acidentes de trabalho,
a fim de servirem de referencial e contribuírem para a mudança da mentalidade do
setor da construção civil no que se refere às condições de saúde e segurança nos
canteiros de obras.

O valor da indenização foi destinado, em metade, ao Fundo de Amparo ao


Trabalhador (FAT) e a outra metade ao Sindicato dos Trabalhadores da Construção
Civil (Sintracom).
53

3.2.5.2 Processo nº: 0001537-80.2012.5.10.0010 – TRT10ª Região/DF e Tocantins

Este caso se tornou bastante conhecido, pois foi veiculado nos jornais de
todo o país. Trata-se de um acidente sofrido por um operário na obra do Estádio
Mané Garrincha, em Brasília, construído para a Copa do Mundo de 2014, que
aconteceu aqui no Brasil. Em decorrência do acidente, o operário veio a falecer.

Esta obra, construída pelo Consórcio Brasília (Andrade Gutierrez


Engenharia S/A e Via Engenharia S/A), foi autuada 67 vezes pela Superintendência
Regional do Trabalho por irregularidades no meio ambiente de trabalho. Dois meses
após o acidente fatal, outros cinco trabalhadores se acidentaram com a queda de
uma viga.

O somatório desses fatos levou o Ministério Público do Trabalho a


ingressar com uma Ação Civil Pública contra o Consórcio. Como resultado desta
ação, a 2ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de Brasília condenou a empresa
a pagar R$10.000.000,00 (dez milhões de reais) de indenização. Ficou decidido
também que este valor fosse destinado às entidades de interesse social, auditadas e
fiscalizadas pela Promotoria de Justiça de Tutela das Fundações e entidades de
interesse social do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.
54

4 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

O propósito desse trabalho foi comparar os custos com prevenção de


acidentes de trabalho em uma obra de construção civil frente aos custos de uma
condenação trabalhista por acidente de trabalho em decorrência do descumprimento
da empregadora em relação às normas de segurança.

Conforme apresentado no estudo teórico das normas regulamentadoras,


a legislação obriga as empresas a gerir um ambiente de trabalho seguro para a
saúde e integridade física dos seus colaboradores. Dessa maneira, cabe a estas
empresas, além de fornecerem os equipamentos de proteção específicos para cada
tipo de serviço, fiscalizar o uso destes, fornecer os treinamentos previstos nas
normas, fazer análises dos riscos constantes nas obras, contratar profissionais
especializados em segurança, realizar exames nos trabalhadores, dentro outras
obrigações.

A não observância destas medidas protetivas por parte das empresas


torna os ambientes de trabalho mais suscetíveis à ocorrência de acidentes. Quando
isso acontece, gera-se uma série de despesas ao empregador, dentre elas, as
indenizações judiciárias, que costumam ser as mais onerosas para as empresas
nestes casos.

Neste sentido, o estudo de caso procurou demonstrar que os elevados


custos destas indenizações judiciárias por acidente de trabalho são, quase sempre,
bem maiores que os investimentos que as empresas gastam para se adequarem à
legislação de segurança implantando os programas e itens de segurança que ela
determina.

Para isso, foi realizada uma captação de dados reais dos investimentos
que uma construtora realizou em segurança ao longo dos seus três anos de obra até
o momento. A partir desses dados, foi possível realizar uma análise comparativa
com os custos suportados por empresas condenadas a pagar indenizações
trabalhistas por acidente de trabalho.

Estes processos judiciais foram abordados de maneira gradativa em


relação à gravidade do acidente, ou seja, do mais simples para o mais grave:
55

doença ocupacional, acidente corriqueiro, acidente com invalidez permanente e


acidente com resultado morte. Foi ressaltado ainda que as empresas que
reiteradamente descumprem as normas de segurança mesmo após acidentes e
autuações das superintendências regionais do trabalho podem ainda ter de pagar
indenizações de cunho pedagógico por danos morais coletivos em ações civis
públicas movidas pelo Ministério Público do Trabalho.

A partir dos valores de investimento em segurança captados em campo


na primeira empresa e com os valores das indenizações por acidentes de trabalho
pesquisadas, foi possível, em cada caso, realizar esse estudo comparativo e concluir
que, embora não seja barato investir em segurança, o custo compensa, pois a
reparação dos danos ao acidentado é mais onerosa do que a prevenção.

No competitivo mercado da construção civil os empresários e profissionais


atuam com esforços constantes em diminuir custos e ampliar os lucros. Com efeito,
é inevitável o avanço neste setor da conscientização de que a prevenção em
acidentes não é um custo qualquer, e sim um investimento.

Por fim, é de extrema importância ressaltar a relevância desse


investimento na questão humana. Ao longo da história, os acidentes de trabalho
acumularam inúmeras tragédias familiares decorrentes das mortes, mutilações e
doenças. É plausível perceber que esse quadro, que já foi pior, está evoluindo.
Portanto, se espera que cada profissional atue como um agente social no avanço da
cultura de prevenção.
56

REFERÊNCIAS

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Previdência Social, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF,
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57

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