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23/11/2017 Judith Butler escreve sobre sua teoria de gênero e o ataque sofrido no Brasil - 19/11/2017 - Ilustríssima - Folha de S.

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ilustríssima clube de leitura folha revolução russa,

Judith Butler escreve sobre sua teoria leia também

de gênero e o ataque sofrido no Brasil Em Paris, artistas feministas


discutem espaço doméstico e homem-
Moacyr Lopes Junior - 09.set.2015/Folhapress caçador

Judeu vê filmes nazistas para testar Laços de Sangue


seus limites de liberdade de discurso - A História
Secreta do PCC
Sem medo de fazer gênero: entrevista A verdadeira história
com a filósofa Judith Butler da facção contada
por uma das maiores
autoridades do Brasil

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A filósofa norte-americana Judith Butler REPORTAGEM

Como funciona a engrenagem das


JUDITH BUTLER
ilustração CAMILE SPROESSER notícias falsas no Brasil
tradução CLARA ALLAIN ENSAIO FILOSÓFICO

19/11/2017 02h00 - Atualizado em 21/11/2017 às 16h48 E se o erro e a fabulação revelarem-se


Erramos: esse conteúdo foi alterado tão essenciais quanto a verdade?

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IDEOLOGIA DA DESESPERANÇA
RESUMO A filósofa norte-americana Judith Butler Trump, os nerds do 4chan e a nova
escreve sobre sua recente passagem pelo Brasil. Ela direita dos Estados Unidos
comenta os ataques que sofreu, explica sua teoria de
gênero e procura entender o ódio dirigido a um
pensamento que defende a dignidade e os direitos
sexuais e que condena a violência contra mulheres e
pessoas trans.

Desde o começo, a oposição à minha presença no Brasil esteve envolta em


uma fantasia. Um abaixo-assinado pedia ao Sesc Pompeia que cancelasse uma
palestra que eu nunca iria ministrar. A palestra imaginária, ao que parece,
seria sobre "gênero", embora o seminário planejado fosse dedicado ao tema MONETIZAÇÃO DA ATENÇÃO
"Os fins da democracia" ("The ends of democracy").
Sereias digitais, vício em tecnologia e
dicas para uso saudável da internet
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml 1/9
23/11/2017 Judith Butler escreve sobre sua teoria de gênero e o ataque sofrido no Brasil - 19/11/2017 - Ilustríssima - Folha de S.Paulo
Ou seja, havia desde o início uma palestra imaginada ao invés de um revolução russa
seminário real, e a ideia de que eu faria uma apresentação, embora eu
estivesse na realidade organizando um evento internacional sobre populismo,
autoritarismo e a atual preocupação de que a democracia esteja sob ataque.

Não sei ao certo que poder foi conferido à palestra sobre gênero que se
imaginou que eu daria. Deve ter sido uma palestra muito poderosa, já que,
aparentemente, ela ameaçou a família, a moral e até mesmo a nação.

Protesto contra Judith Butler em São Paulo 1 de 11


TV FOLHA

Bruno Santos/Folhapress Documentário fictício imagina


como seria se Stálin proibisse xadrez
Especial traz vídeos sobre os 100 anos da revolução

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Para aqueles que se opuseram à minha presença no Brasil, "Judith Butler"


EM ILUSTRÍSSIMA
significava apenas a proponente de uma ideologia de gênero, a suposta
fundadora desse ponto de vista absurdo e nefasto, alguém —aparentemente— + LIDAS + COMENTADAS ÚLTIMAS

que não acredita em restrições sexuais, cuja teoria destrói ensinamentos Judith Butler escreve sobre sua teoria
bíblicos e contesta fatos científicos. 1 de gênero e o ataque sofrido no Brasil

Como tudo isso aconteceu e o que isso significa?


Ecstasy e LSD podem virar remédio

A TEORIA
2 contra distúrbios psíquicos em breve

Consideremos o que eu de fato escrevi e no que de fato acredito e Hitler e a poderosa engrenagem nazista

comparemos isso com a ficção interessante e nociva que deixou tanta gente 3 de saquear obras de arte

alarmada.
"O Mundo Sitiado" e a resposta literária
No final de 1989, quase 30 anos atrás, publiquei um livro intitulado "Gender 4 à circunstância histórica

Trouble" (lançado em português em 2003 como "Problemas de Gênero:


Feminismo e Subversão da Identidade", Civilização Brasileira), no qual Temer é o presidente mais eficiente na
propus uma descrição do caráter performativo do gênero. O que isso 5 relação com o Congresso desde 1995

significa?

A cada um de nós é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que


somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas
maneiras.
Homo Deus
Às vezes, com a atribuição do gênero, um conjunto de expectativas é
Yuval Noah Harari
transmitido: esta é uma menina, então ela vai, quando crescer, assumir o
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papel tradicional da mulher na família e no trabalho; este é um menino, então
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ele assumirá uma posição previsível na sociedade como homem.
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No entanto, muitas pessoas sofrem dificuldades com sua atribuição —são
pessoas que não querem atender aquelas expectativas, e a percepção que têm
de si próprias difere da atribuição social que lhes foi dada. Bob Dylan - História,
Discografia, Fotos e
Documentos
A dúvida que surge com essa situação é a seguinte: em que medida jovens e
Brian Southall
adultos são livres para construir o significado de sua atribuição de gênero?
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Eles nascem na sociedade, mas também são atores sociais e podem trabalhar Por: R$ 119,90
dentro das normas sociais para moldar suas vidas de maneira que sejam mais Comprar

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml 2/9
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vivíveis.

E instituições sociais, incluindo instituições religiosas, escolas e serviços


sociais e psicológicos, também deveriam ter capacidade de apoiar essas
pessoas em seu processo de descobrir como viver melhor com seu corpo,
buscar realizar seus desejos e criar relações que lhes sejam proveitosas.

Algumas pessoas vivem em paz com o gênero que lhes foi atribuído, mas
Box Filme Noir (Vol. 9)
outras sofrem quando são obrigadas a se conformar com normas sociais que (DVD)
anulam o senso mais profundo de quem são e quem desejam ser. Para essas Vários
pessoas é uma necessidade urgente criar as condições para uma vida possível
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de viver.
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LIBERDADE E NATUREZA

Assim, em primeiro lugar e acima de tudo, "Problemas de Gênero" buscou Belchior


afirmar a complexidade de nossos desejos e identificações de gênero e se Jotabê Medeiros
juntar àqueles integrantes do movimento LGBTQ moderno que acreditavam De: R$ 49,90
que uma das liberdades fundamentais que precisam ser respeitadas é a Por: R$ 37,90
liberdade de expressão de gênero.
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O livro negou a existência de uma diferença natural entre os sexos? De


maneira nenhuma, embora destaque a existência de paradigmas científicos
Cinema Faroeste (Vol.
divergentes para determinar as diferenças entre os sexos e observe que alguns 5) (DVD)
corpos possuem atributos mistos que dificultam sua classificação.
Robert Ryan

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Também afirmei que a sexualidade humana assume formas diferentes e que
não devemos presumir que o fato de sabermos o gênero de uma pessoa nos dá Por: R$ 79,90

qualquer pista sobre sua orientação sexual. Um homem masculino pode ser Comprar

heterossexual ou gay, e o mesmo raciocínio se aplica a uma mulher


masculina.

Nossas ideias de masculino e feminino OUTROS TEXTOS DESTA EDIÇÃO


variam de acordo com a cultura, e
esses termos não possuem significados
fixos. Eles são dimensões culturais de
nossas vidas que assumem formas
diferentes e renovadas no decorrer da
história e, como atores históricos, nós
temos alguma liberdade para Judeu vê filmes nazistas para testar seus
determinar esses significados. limites de liberdade de discurso

Foto de menino afogado levou repórter à Síria


Mas o objetivo dessa teoria era gerar para cobrir crise dos refugiados
mais liberdade e aceitação para a gama
Leia texto nunca publicado de Décio Pignatari,
ampla de identificações de gênero e expoente da poesia concreta
desejos que constitui nossa
Preso durante peça na ditadura, Celso
complexidade como seres humanos.
Frateschi lembra encontro com algoz

Esse trabalho, e muito do que


desenvolvi depois, também foi dedicado à crítica e à condenação da violação e
da violência corporais.

Além disso, a liberdade de buscar uma expressão de gênero ou de viver como


lésbica, gay, bissexual, trans ou queer (essa lista não é exaustiva) só pode ser
garantida em uma sociedade que se recusa a aceitar a violência contra
mulheres e pessoas trans, que se recusa a aceitar a discriminação com base no
gênero e que se recusa a transformar em doentes e aviltar as pessoas que
abraçaram essas categorias no intuito de viverem uma vida mais vivível, com
mais dignidade, alegria e liberdade.

Meu compromisso é me opor às ofensas que diminuam as chances de alguém


viver com alegria e dignidade. Assim, sou inequivocamente contra o estupro,
o assédio e a violência sexual e contra todas as formas de exploração de
crianças.

Liberdade não é —nunca é— a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a
outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como
livre —ela se torna uma ação lesiva.

VIOLÊNCIA DE GÊNERO

De fato, algo que me preocupa é a frequência com que pessoas que não se
enquadram nas normas de gênero e nas expectativas heterossexuais são

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml 3/9
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assediadas, agredidas e assassinadas.

As estatísticas sobre feminicídio ilustram o ponto. Mulheres que não são


suficientemente subservientes são obrigadas a pagar por isso com a vida.

Pessoas trans e travestis que desejam apenas a liberdade de movimentar-se


no mundo público como são e desejam ser sofrem frequentemente ataques
físicos são mortas.
Camile Sproesser

Ilustração de Camile Sproesser para a Ilustríssima

Mães correm o risco de perder seus filhos se eles saírem do armário; muitas
pessoas ainda perdem seus empregos e a relação com seus familiares quando
saem do armário. O sofrimento social e psicológico decorrente do ostracismo
e condenação social é enorme.

A injustiça radical do feminicídio deveria ser universalmente condenada, e as


transformações sociais profundas que possam tornar esse crime impensável
precisam ser fomentadas e levadas adiante por movimentos sociais e
instituições que se recusam a permitir que pessoas sejam mortas devido a seu
gênero e sua sexualidade.

No Brasil, uma mulher é assassinada a cada duas horas. A tortura e o


assassinato recente de Dandara dos Santos, em Fortaleza, foi apenas um
exemplo explícito da matança generalizada de pessoas trans no Brasil, uma
matança que valeu ao Brasil a fama de ser o país mais conhecido pelo
assassinato de pessoas LGBT.

São esses os males sociais inequívocos e atrocidades aos quais me oponho, e


meu livro —bem como o movimento queer no qual ele se insere— procura
promover um mundo sem sofrimento e violência desse tipo.

IDEOLOGIA

A teoria da performatividade de gênero busca entender a formação de gênero


e subsidiar a ideia de que a expressão de gênero é um direito e uma liberdade
fundamentais. Não é uma "ideologia".

Em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto


ilusório quanto dogmático, algo que "tomou conta" do pensamento das
pessoas de uma maneira acrítica.

Meu ponto de vista, entretanto, é crítico, pois questiona o tipo de premissa


que as pessoas adotam como certas em seu cotidiano, e as premissas que os
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serviços médicos e sociais adotam em relação ao que deve ser visto como uma
família ou considerado uma vida patológica ou anormal.

Quantos de nós ainda acreditamos que o sexo biológico determina os papéis


sociais que devemos desempenhar? Quantos de nós ainda sustentamos que os
significados de masculino e feminino são determinados pelas instituições da
família heterossexual e da ideia de nação que impõe uma noção conjugal do
casamento e da família?

Famílias queers e travestis adotam outras formas de convívio íntimo,


afinidade e apoio. Mães solteiras têm laços de afinidade diferentes. A mesma
coisa se dá com famílias mistas, nas quais as pessoas se casam novamente ou
se juntam com famílias, criando amálgamas muito diferentes daqueles vistos
em estruturas familiares tradicionais.

Encontramos apoio e afeto através de muitas formas sociais, incluindo a


família, mas a família é também uma formação histórica: sua estrutura e seu
significado mudam ao longo do tempo e do espaço. Se deixamos de afirmar
isso, deixamos de afirmar a complexidade e a riqueza da existência humana.

IGREJA

A ideia de gênero como ideologia foi introduzida por Joseph Ratzinger em


1997, antes de ele se tornar o papa Bento 16. O trabalho acadêmico de Richard
Miskolci e Maximiliano Campana1 acompanha a recepção desse conceito em
diversos documentos do Vaticano.

Em 2010, o argentino Jorge Scala lançou um livro intitulado "La Ideologia de


Género", que foi traduzido ao português por uma editora católica
[Katechesis]. Esse pode ter sido um ponto de virada para as recepções de
"gênero" no Brasil e na América Latina.

De acordo com a caricatura feita por Scala, aqueles que trabalham com gênero
negam as diferenças naturais entre os sexos e pensam que a sexualidade deve
ser livre de qualquer restrição. Aqueles que se desviam da norma do
casamento heterossexual são considerados indivíduos que rejeitam todas as
normas.

Vista por essa lente, a teoria de gênero não só nega as diferenças biológicas
como gera um perigo moral.

No aeroporto de Congonhas, em São Paulo, uma das mulheres que me


confrontaram começou a gritar coisas sobre pedofilia. Por que isso? É possível
que ela pense que homens gays são pedófilos e que o movimento em favor dos
direitos LGBTQI nada mais é do que propaganda pró-pedofilia.

Então fiquei pensando: por que um movimento a favor da dignidade e dos


direitos sexuais e contra a violência e a exploração sexual é acusado de
defender pedofilia se, nos últimos anos, é a Igreja Católica que vem sendo
exposta como abrigo de pedófilos, protegendo-os contra processos e sanções,
ao mesmo tempo em que não protege suas centenas de vítimas?

Será possível que a chamada ideologia de gênero tenha virado um espectro


simbólico de caos e predação sexual precisamente para desviar as atenções da
exploração sexual e corrupção moral no interior da Igreja Católica, uma
situação que abalou profundamente sua autoridade moral?

Será que precisamos compreender como funciona "projeção" para


compreendermos como uma teoria de gênero pôde ser transformada em
"ideologia diabólica"?

BRUXAS

Talvez aqueles que queimaram uma efígie minha como bruxa e defensora dos
trans não sabiam que aquelas que eram chamadas de bruxas e queimadas
vivas eram mulheres cujas crenças não se enquadravam nos dogmas aceitos
pela Igreja Católica.

Ao longo da história, atribuíram-se às bruxas poderes que elas jamais


poderiam, de fato, ter; elas viraram bodes expiatórios cuja morte deveria,
supostamente, purificar a comunidade da corrupção moral e sexual.

Considerava-se que essas mulheres tinham cometido heresia, que adoravam o


diabo e tinham trazido o mal à comunidade em lugares como Salem (EUA),
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml 5/9
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em Baden-Baden (Alemanha), nos Alpes Ocidentais (Áustria) e na Inglaterra.
Com muita frequência esse "mal" era representado pela libertinagem.

O fantasma dessas mulheres como o demônio ou seus representantes


encontra, hoje, eco na "diabólica" ideologia de gênero. E, no entanto, a tortura
e o assassinato dessas mulheres por séculos como bruxas representaram um
esforço para reprimir vozes dissidentes, aquelas que questionavam certos
dogmas da religião.

Quem pôs fim a esse tipo de perseguição, crueldade e assassinato foram


pessoas sensatas de dentro da Igreja Católica, que insistiram que a queima de
bruxas não representava os verdadeiros valores cristãos. Afinal, queimar
bruxas era uma forma de feminicídio executado em nome de uma moralidade
e ortodoxia.

Embora eu não seja estudiosa do cristianismo, entendo que uma de suas


grandes contribuições tenha sido a doutrina do amor e do apreço pela
preciosidade da vida —muito longe do veneno da caça às bruxas.

DEMOCRACIA

Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído
ilesa, fiquei horrorizada com a ação.

Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas


feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior
liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na
qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais
e de gênero seja abominada.

Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem


aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das
mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis
serem protegidos contra violência e assassinato.

Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de


encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar,
criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou
forma de amar não fere ninguém.

Essa é a visão do arcebispo Justin Welby, da Inglaterra, que destacou


recentemente o direito dos jovens explorarem sua identidade de gênero,
apoiando uma atitude mais aberta e acolhedora em relação a papéis de gênero
na sociedade.

Essa abertura ética é importante para uma democracia que inclua a liberdade
de expressão de gênero como uma das liberdades democráticas fundamentais,
que enxergue a igualdade das mulheres como peça essencial de um
compromisso democrático com a igualdade e que considere a discriminação, o
assédio e o assassinato como fatores que enfraquecem qualquer política que
tenha aspirações democráticas.

Talvez o foco em "gênero" não tenha sido, no final, um desvio da pergunta de


nosso seminário: quais são os fins da democracia?

Quando violência e ódio se tornam instrumentos da política e da moral


religiosa, então a democracia é ameaçada por aqueles que pretendem rasgar o
tecido social, punir as diferenças e sabotar os vínculos sociais necessários
para sustentar nossa convivência aqui na Terra.

Eu vou me lembrar do Brasil por todas as pessoas generosas e atenciosas,


religiosas ou não, que agiram para bloquear os ataques e barrar o ódio.

São elas que parecem saber que o "fim" da democracia é manter acesa a
esperança por uma vida comum não violenta e o compromisso com a
igualdade e a liberdade, um sistema no qual a intolerância não se transforma
em simples tolerância, mas é superada pela afirmação corajosa de nossas
diferenças.

Então todos começaremos a viver, a respirar e a nos mover com mais


facilidade e alegria —é esse o objetivo maior da corajosa luta democrática que
tenho orgulho de integrar: nos tornarmos livres, sermos tratados como iguais
e vivermos juntos sem violência.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml 6/9
23/11/2017 Judith Butler escreve sobre sua teoria de gênero e o ataque sofrido no Brasil - 19/11/2017 - Ilustríssima - Folha de S.Paulo
1. "'Ideologia de Gênero': notas para a genealogia de um pânico moral contemporâneo", artigo de Richard
Miskolci e Maximiliano Campana, previsto para ser publicado na edição de setembro/dezembro da revista
"Sociedade e Estado", vol. 32, nº 3, 2017.

JUDITH BUTLER, 61, referência nos estudos de gênero e teoria queer, é codiretora do programa de teoria
crítica da Universidade da Califórnia em Berkeley. Lança o livro "Caminhos Divergentes: Judaicidade e
Crítica do Sionismo" pela Boitempo.

CAMILE SPROESSER, 32, é artista plástica.

CLARA ALLAIN é tradutora.

+ ERRAMOS: O conteúdo desta página foi alterado para refletir o abaixo


21/11/2017 16h48 A referência bibliográfica citada originalmente ao final do artigo de
Judith Butler estava errada. O texto já foi corrigido.

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comentários Ver todos os comentários (36)

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maria gouvea (19/11/2017 13h08) há 3 dias 10 4 Denunciar COMPARTILHAR

Gratidão Judith Butler, pela generosidade do texto, pelo exemplo de intelectual que discute,
expõe idéias, não se furta ao debate e respeita o outro, dialogando com seus argumentos, ainda
que absurdos...
O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

Responder

ALEXANDRE MATONE (19/11/2017 12h12) há 3 dias 7 5 Denunciar COMPARTILHAR

O silêncio de Judith Butler quanto ao sofrimento que é imposto aos grupos que supostamente
defende - ou deveria estar defendendo, por coerência - em países como Arábia Saudita, Irã,
Síria e nos Territórios Palestinos Autônomos, diz sobre ela mais do que as vãs palavras que
profere contra o único País da região que confere a esses mesmos grupos a liberdade que por
aqui veio apregoar. Incoerência e ódio!
O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

Responder

ALEXANDRE MATONE (19/11/2017 08h45) há 4 dias 7 6 Denunciar COMPARTILHAR

Talvez, Judith Butler considera que sua "judaicidade" se expressa quando ela vai, com sua
namorada, comer um guefilte-fish, em um restaurante "kosher-style". Mas há algo de muito
errado em alguém que acha que 99,9% dos problemas do Oriente Médio são causados por um
País que compraz 0,01% do território do mesmo; e talvez 85% dos problemas que afligem a
humanidade. Ainda mais, considerando que 60% da população deste País é autóctone do
Oriente Médio, pois são judeus expulsos de países árabes.
O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

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