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ENTREVISTA COM O FILÓSOFO MICHEL ONFRAY

O filósofo francês Michel Onfray veio ao Fronteiras do Pensamento São Paulo 2012
para falar sobre ateísmo, Freud e psicanálise, temas de seu trabalho mais polêmico: Le
crépuscule d'un idole, l'affabulation freudienne (O crepúsculo de um ídolo, a fábula
freudiana), sem tradução prevista por aqui. No livro, lançado em 2010, Onfray combate
a visão de que a psicanálise seria uma ciência. Para o filósofo, ela se aproxima mais de
uma religião e "cura tanto quanto homeopatia", sendo "tão científica quanto a ufologia".
Em entrevista ao Fronteiras, Onfray discute a veracidade e os métodos das teorias que
embasaram a psicanálise. Trazendo dados e fatos apresentados no livro, Onfray aponta
aqueles que considera equívocos no pensamento de Freud e experiências pessoais do
austríaco que poderiam ter distorcido seu pensamento sobre o mundo e sobre os
homens.
Fronteiras do Pensamento: Em seu livro, Le souci des plaisirs (2008), você fala de
Freud logo no início com palavras bastante elogiosas, sem uma atitude crítica para
com ele. Já em seu livro mais recente, Le crépuscule d'une idole, Freud aparece
como um mito, uma lenda, se é que não coisa pior. Por que essa reconsideração tão
radical em apenas dois anos?
Michel Onfray: Já no início de meu livro sobre Freud, afirmo que fui vítima do mito
freudiano, pois se ensina Freud no colégio, na universidade (eu mesmo dei cursos sobre
ele), e havia lido as obras de Freud — não todas, mas em número razoável — e, quando
o lemos, temos a tendência de acreditar nele, até porque, em geral, não fazemos uma
investigação epistemológica sobre sua disciplina, a psicanálise. Mas, na verdade,
quando analisei Freud para a minha Contra-história da filosofia, empreguei o método
que sempre utilizo quando estudo um autor: leio toda sua obra, as biografias
disponíveis, toda sua correspondência, e, ao fazer isso, percebi que tinha sido enganado.
Então, em Le souci des plaisirs, cito apenas um texto de Freud — o qual defenderia
ainda hoje, pois me parece estar em contradição com o restante de sua obra —, pois ali
ele afirma que a repressão da sexualidade gera a neurose. Sigo inteiramente de acordo
com isso. Nossa civilização judaico-cristã produz neuroses de maneira considerável.
Em suma, acho que, se alguém lesse esse livro sem saber que é de Freud, poderia muito
bem pensar que é de (Wilhelm) Reich ou de um freudiano-marxista. Na verdade, ali
Freud reconhece que a civilização muda e depois passa a defender que ela não pode
mudar. Eu poderia dizer que é ele quem muda, passando a achar que o pessimismo é a
verdade do mundo, sobretudo depois de descobrir a pulsão de morte nos anos 20 e
assumir a defesa da tese de que não é possível mudar a sociedade.
Fronteiras do Pensamento: E como sua crítica atual ao pensamento de Freud se
encaixa no projeto hedonista que caracteriza sua filosofia?
Michel Onfray: Bem, escrevi uma espécie de continuação (Apostille au crépuscule:
pour une psychanalyse non freudienne, 2010), que talvez incorpore como um apêndice,
um posfácio, enfim, em que defendo que é possível construir uma psicanálise pós-
freudiana, uma psicanálise existencial. É possível partir de Sartre e de sua filosofia
existencial, como também é possível partir da etiologia e da neurologia, e com isso
construir um outro tipo de psicanálise que possa ser efetiva e curar, e não manter a
patologia, como faz a psicanálise freudiana. A psicanálise freudiana mantém o
indivíduo em sua lenda.
Ao propor uma outra psicanálise, que incorpore o inconsciente pessoal à História —
coisa que Freud jamais fez —, creio que é possível aproximar essa psicanálise
existencial não freudiana do hedonismo. Para Freud, a História não existe, como
também não existem as classes e outras tantas condições sociais contingentes —, elas
sequer são um problema. Se você está desempregado, vive em condições miseráveis e
com uma família para sustentar, é um pouco óbvio que você tenha problemas sexuais —
mas não para Freud. Freud explicaria isso à luz do complexo de Édipo etc. É por isso
que alguém como Reich vai destacar o papel da História, chamando atenção para a
necessidade de incorporar isso à análise.

Fronteiras do Pensamento: Você insiste, e fez questão de frisar isso em sua


conferência no Fronteiras do Pensamento, que Freud não é um homem de razão,
mas um homem de fé. Em que consiste essa fé freudiana?
Michel Onfray: Freud toma seus desejos por realidade. Postula que o inconsciente
existe; postula que no inconsciente há a horda primitiva, que há o complexo de Édipo,
que há a violação da primeira mulher; e simplesmente nos diz: "é assim". Não "é assim
para mim", mas "para todos". É a nossa realidade. Mas não é assim que um filósofo, um
pensador, enfim, procede. A simples universalização de sua própria máxima a partir de
uma intuição pessoal e subjetiva não é suficiente para fazer um filósofo. Isso é fé.
Se você pegar uma biografia de Maomé vai ver que é assim que as coisas se passam: o
arcanjo Gabriel lhe aparece e lhe diz que era preciso escrever o Alcorão e pronto, ali
está a verdade. E não se discute a verdade, pois foi ditada pelo arcanjo Gabriel que, por
sua vez, era enviado de Deus. Freud passa um pouco essa impressão, parece ser alguém
que escreve ditado por uma espécie de bom espírito que lhe faz ver a verdade universal.
Assim, ele nos anuncia que no inconsciente existe o complexo de Édipo, que é uma
verdade, filogeneticamente transmissível, e pouco importam as provas, simplesmente é
preciso acreditar.

Em um texto seu sobre a técnica psicanalítica, ele chega mesmo a dizer em certo
momento que a psicanálise somente produz seus efeitos se nela acreditarmos. É preciso
ter fé. Basta lembrar o que diz Moisés: o mágico produz seus efeitos a partir do
momento em que acreditamos na mágica. Portanto, o que temos é de fato um
pensamento mágico que produz efeitos, mas de modo algum por ser uma ciência, mas
sim porque há uma espécie de adesão, de fé — e um filósofo não pode nos exigir isso.

Fronteiras do Pensamento: Sua conferência concentrou-se fortemente na biografia


de Freud e em sua correspondência, sobretudo com Fliess. Você acha que é
possível, de fato, desconstruir a teoria freudiana a partir desse tipo de
consideração a respeito da personalidade de Freud, de certas circunstâncias
particulares que estão na origem de princípios da teoria, certas confissões que
encontramos na correspondência? Isso basta?
Michel Onfray: Sim, na medida em que a biografia nos permite saber que Freud
mentiu. Quando ele, por um lado, confessa em sua correspondência privada que a
psicanálise não funciona, que não cura, que é um "branqueamento de negros" — ou
seja, que seu xamanismo é uma farsa — e, por outro, em seus textos, gaba-se de ter
curado esta e aquela paciente, essas informações são poderosas para desconstruir a
teoria. Quando Freud nos fala de como propôs a teoria da psicanálise, nos fala da
sublimação, que é a renúncia da vida sexual que supõe que nossa libido encontra-se
desviada, desejando um objeto que seja socialmente aceitável, e conclui afirmando que
renunciou, ele mesmo, à vida sexual (implicitamente: com sua mulher), para concentrar
sua libido na pesquisa que vai resultar nesta ciência que é a psicanálise. Quando vemos
sua biografia, de fato ele não mantinha mais relações sexuais com sua mulher — mas
sim com sua cunhada.Certo, pode-se dizer que se está revolvendo o lixo da história;
alguns argumentam que a vida privada de Freud não interessa; outros, que é falso que
ele tenha dormido com a cunhada, que ninguém nunca viu isso acontecer. O fato é que
há historiadores que fizeram esse trabalho de pesquisa, que constataram que em suas
viagens de férias Freud ficava no mesmo quarto de sua cunhada, dormindo na mesma
cama.
Ora, não se trata aqui de fazer papel de polícia da vida pessoal e sexual de Freud, nada
disso. O ponto é que a teoria da sublimação, tal como exposta por ele, é uma mentira:
não houve renúncia da sexualidade coisa nenhuma, não houve direcionamento da libido
para a elaboração da teoria psicanalítica, Freud manteve sua vida sexual, só que com sua
cunhada, não com sua esposa.

Em suma, não se pode afirmar — e menos ainda como Freud o faz, valendo-se de
exemplo — que a renúncia da vida sexual vai gerar, de fato, a sublimação. É falso que,
se a libido não está direcionada à vida sexual, ela se encontra na vida intelectual. É
simplesmente falso. E assim para muitos outros aspectos da teoria, que se desconstrói a
partir de uma biografia que demonstra que Freud mente, que falsifica, que inventa, que
diz que certas coisas se passaram quando isso não foi o caso.

Em sua correspondência, ele afirma que trabalhou em "x" casos clínicos, casos de
neuroses obsessivas, se não me engano, 23 casos; contudo, ele tinha, à época, seis
pacientes. Seis não é o mesmo que 23, e nada consta que fossem todos os seis casos de
neurose obsessiva. Quer dizer, ele inventa casos. Com seu talento literário, ele associa
coisas ouvidas aqui e ali e transforma-as na história de um indivíduo que, quando vê
aquilo, certamente não se reconhece no que vê.

Tome-se o caso do Pequeno Hans, a história do cavalo, da fobia de ser mordido, do


bigode do pai, da fobia da castração etc. A certa altura, o Pequeno Hans afirma que não
era nada daquilo, que apenas vira, quando ainda menino, um cavalo cair perto dele na
rua e que isso obviamente provocara uma impressão muito forte, como seria o caso com
qualquer menino. Não há por que imaginar que, quando se tem medo da mordida de um
cavalo, trata-se de medo do bigode do pai ou que, quando se tem fobia de cavalo, trata-
se da fobia da castração, porque a figura do pai está obrigatoriamente sempre em uma
lógica da castração.

Quando Freud fala que tratou do menino, anos mais tarde o Pequeno Hans negará,
dizendo que não fora tratado coisa nenhuma, que apenas tivera, na infância, essa fobia
de cavalos porque lhe ocorrera certo episódio na rua, e que essa fobia desapareceu com
o tempo. É por isso que acredito que a biografia permite-nos desconstruir a teoria.

Fronteiras do Pensamento: A crítica epistemológica não pode dispensar a crítica


biográfica.
Michel Onfray: Exato. Toda a análise deve buscar ser completa, levando em conta
todos os elementos disponíveis: biografia, correspondência, todas as obras e todas as
fontes possíveis de informação. Ao fim e ao cabo, podemos dizer que há teorias que são
sólidas, outras não.