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Copyright © 2004 by Flo Menezes Direitos reservados © protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.1998. E proibida a reprodugio total ou parcial sem autorizagio, por escrito, da editora. Dados Internacionais de Catalogagio na Publicagao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Menezes, Flo A aciistica musical em palavras sons / Flo Menezes. - Cotia, SP: Atelié Editorial, 2003. Biliografia. ISBN 85-7480-216-6 1. Musica — Acistica e fisica 2. Mdsica — Estudo ¢ ensino 3. Som I. Titulo, 03-6827 CDD-781.23 indices para catélogo sistemstico: 1. Actstica musical 781.23 2, Mdsica: Acdstica 781.23 Direitos reservados & ‘Areut Eprorta Rua Manoel Pereira Leite, 15 6709-280 - Granja Viana - Cotia - SP Telefax: (11) 4612-9666 wwwatelie.com.br atelie_editorial@vol.com.br 2004 Printed in Brazil Foi feito depésito legal SUMARIO Prefacio ..... ee 13 1._O Som no Munpo: Sua Esséncia £ SEUS ITINERARIOS. 9 F P ca 5 1.2. 1.1.1. Vibragdes dos sons e harmonia das esferas 1.1.2. Elementos discretos da vibragio: perfodo e freqiiéncia .. 20 1.1.3. Tipos de som: som senoidal, som tonico (ou composto), som complexo (ou mistura) e rufdo; periodicidade eaperiodicidade .. . 1.1.4. Amplitude da onda sonora . 1.15. Regime estacionério e transitérios (ou transientes) ... 29 1.1.6. Envelope dinimico ou curva de envelope........... 30 1 Fase da onda........ a 33 1.1.8. Andlise de sons compostos (harmGnicos) e de sons complexos (inarménicos) A Transmissdo dos Sons ¢ seus Efeitos na Percepgio ..... 43 1.2.1, Ondas SOnOraS NO AE. ose pee ene 43 . Comprimento e pressao de uma onda sonora. . . A velocidade do som e efeitos da temperatura _. . Comprimento de onda, freqiiéncia e velocidade.... . 1.2.5, A ressonancia e seus itinerfrios.................. Pe Reflexio e absorgio.. 1.2.7. Difragdo_........ 1.29.Interferénciss ..............11.0011101210.. 5S 1.2.10. Backman relagdes de fase e seus efeitos no 1.2.11. |. 0" Dl anecsconscresescccescrosess OF 2.3.3._A teoria da localizagao das freqiiéncias ........... 8 2.3.4._A teoria temporal de discriminagao das freqiiéncias.._ 78 4. Sons Criados pelo Proprio Ouvido. 2.4.1. Sons de combinagio . 2.4.1.1. O som dij 3. Arriputos (PARAMETROS) BAsicos Do OBsero SONORO.... . 3.1. Quantos Pariimetros Possuio Som?.................... 9 3.2.1.0 porqué da supremacia da altura sonora.......... 96 3.2.2. A natureza subjetiva da altura........ . 3.2.3. A relagio entre a altura e a freqiiéncia............ 9 32.4.0 toda di ‘dos i 1 101 ~ 3.2.5.A relaciio entre a altura e a amplitude ........... 103 3.2.6. A percepgao individualizada dos harm6nicos de umsom ténico 106, 3.2.7. A percepgao da altura fundamental de um som tdnico: fusdo, rastreamento de fundamental e modelo harménico 0... 0 8 FLo MENEZES: Copyrighted material 3.2.8.Croma e peso das alturas; sons paradoxais...... us 3.2.9. Harménicos dominantes na percepgdo da altura “quase-formantes” 3.2.10. Discriminagao das alturas . 3.2.11. Altura e ouvido absoluto 3.2.12. Notagdes das alturas . 3.2.13. Localizagio freqiiencial das misturas e dos rufdos: massa, perfis, modulagdo de timbre e outros : 5 5 6 . 121 124 126 3.3._A Intensidade 133 3.3.1. Pressdo e energia das ondas sonoras ............ 134 3.3.2. Intensidade e nervos auditivos 35 3.4. 3.3.3. Intensidade e poténcia sonora de instrumentos MUSICAIS eee 17 3.3.4. Fonte sonora isotrépica 3.3.5. A escala musical dinémica (volumes) . 3.3.6. O decibel (dB). 3.3.7. Execugdes ao ar livre; gradagtes em dB . . 3.3.8. Nivel de intensidade, soma de intensidades e nivel de 3.3.10. Contorno igualitério de volume: fon ............. 153 3.3.11. A resposta dinamica do ouvido para os sons graves ._ 154 3.3.12. A escala de volumes em sones ¢ aunidade mel... 156 3.3.13, Mascaramemto.... 2.0.60 e ce eee ee eee ee ees 3.3.13.1. Limiar de mascaramento . . 3.3.13.2. Mascaramento parcial . .. -. 161 3.3.13.3._Mascaramento de sons t6nicos e medigao das intensidades J. 163 3.3.14. Niveis sonoros na pratica musical ............... 165 3.3.15. A mudanga minima perceptivel em intensidade .... 168 3.3.16, Sons excessivamente fortes, danos ao ouvido eo fen6meno da adaptagdo............... A Duragio 3.4.1. A “flecha do tempo” em miisica ¢ a relativa 3.4.2. As anamorfoses temporais € a percepgao dos 177 3.4.3. A constante de tempo do ouvido A AcUsTICA MUSICAL EM PALAvRAs & SONS 9 3.4.4. Limiar temporal de discriminagao dos eventos sonoros e espessura do 3.4.5. Limiar temporal de reconhecibilidade das alturas e dos fimbres RS 3.4.6. O som e seus retardos: reverberagio, “efeito Haas”, delay © COCO... cece cece cence ee eeeeeees 184 3.4.7. Percepgiio logaritmica e discriminagao das duragées . ._ 186 3.4.8. A espessura do “Agora” 3.4.9. _A Unidade do Tempo Musical: retrospectiva histérica e 3.5. A Resultante Enigmitica: o Timbre 3.5.1. Da definigao classica 4 nogao atual de timbre ..... 35...F “ectaciondrjas” 201 3.5.3. O espectro harménico.......................- 202 3.5.4. Espectros harmGnicos em salas reverberantes ..... 204 3.5.5. Dimensdes e representagao do timbre; a questio das escalas de timbre... 0.1... esses eee eee ene. 205 3.5.6. Klangfarbenmelodien (melodias de timbres) € muisica espectral .....................- 02. 207 3.5.7. Formantes; reconhecibilidade das vogais e das palavras; triangulos vocdlico e consonantal........ 209 3.5.8. Espectros médios prolongados . 219 3.5.9. Transientes ou transitérios e a importancia dos 3.5.10. A nogio de grao sonore ... 222 3.5.11. Individuagio timbrica de sons e da fala .......... 225 3.5.12. Outros fatores cruciais na caracterizagao timbrica.. 228 3.5.13. Vibratos e a nogiio de flutuagdo (allure) sonora... 229 3.5.14. O chorus effect 231 4, A OrGANIZACAO CARDINAL DAS ALTURAS: AFINACOES EESCALAS .. . 233 4.1. A Histéria das Escalas e o Advento do Temperamento Igual ..._ 234 4.1.1. Escala, afinagdo e temperamento 234 4.1.2. Escala pitagérica .. . 236 4.1.3. Cents 243 4.1.6. Escala justa ou gama de Zarlino . . 251 4.1.7. O temperamento igual .. 260 4.2. O Temperamento Igual na Pritica Musical e a Afinagio das Oitavas .6 eee eee eee eee eee eee ee 268 10 FLo MENEZES 4.2.1. A entonagio na performance ...............055 268 4.2.2. O standard de altura 4.2.3. Outros “temperamentos” contemporaneos . Bibliografia Basica Indice Remissivo.....................e see eeeeee sees eee 279 Indice Onoméstico ........ 0.00. eee e cesses eee eeeeee esses 285 Contetido das Faixas doCD. ww. 289 A AcUsTICA MUSICAL EM PALAVRAS E SONS i PREFACIO Este livro trata, grosso modo, de questées da fisica actistica, mas nao foi escrito por um fisico, matemitico ou acstico. Foi, ao contrdrio, escrito por um compositor. E distante j4 a época em que numa mesma pessoa poderiam agregar- se fungdes e atividades tio distintas. A nossa era é de especificidade, de dedicagio e concentragao maximas em objetos bem circunscritos e delinea- dos do saber ou, no caso das artes, mais precisamente da estética. Mas 0s entrecruzamentos sdo inevitdveis, e a intersegao das artes con- temporfineas com as novas tecnologias e com os instrumentos de anilise, medigZo ¢ especulagdo das ciéncias é inelutdvel ¢ até mesmo imprescindi- vel para a criagiio de obras substanciais. No caso especffico da composigio, 0 objeto principal com o qual o miisico se defronta é objeto também de uma ciéncia especffica, precisa- mente da aciistica propriamente dita, e isto é, de certa forma, um privilégio tanto para o misico quanto para o amante da misica. Pois que se a lingua- gem musical é, como bem pontuava Arnold Schoenberg, incondicionalmen- te atrelada ao seu desenvolvimento técnico — na atualidade tanto quanto ao longo da histéria do fazer musical -, é vantagem para o misico, ¢ em especial para o compositor, que a inter-relagao da musica com a fisica actistica seja mais acirrada do que a das artes pldsticas com a fisica que destina seus esforgos na compreensao e andlise dos fenémenos relacionados & dtica, Destes aspectos diferenciadores de nossa abordagem origina-se a de- signagdo adjetiva de seu titulo: actistica musical. A rigor, uma tal termino- logia € tao questionavel quanto falar de “psicoactistica”. Em toda aborda- gem histérica das questées actisticas, jamais os fendmenos diretamente correlacionados 4 percepgaio humana dos espectros sonoros deixou de ter lugar de honra, e todo estudo da actistica compreende, necessariamente, questdes eminentemente “psicoacisticas”. De forma semelhante, seria redundante ou talvez presungoso — segundo o Angulo a partir do qual se vé a questo — adjetivar a abordagem actistica como sendo, em certo sentido, “musical”, Mas nossa abordagem é voltada, sobretudo, ao mtisico e ao amante da musica, mais ainda, ao amante dos sons — incluindo af, obvia- mente, o proprio fisico acdstico, o qual poderé nutrir algum interesse pela Jeitura de nosso trabalho, desprovido todavia, propositalmente, de compli- cadas férmulas e de detalhadas enunciag6es matemiaticas —, constituindo algo que seria muito mais préximo do que Pierre Schaeffer, pai da musique concréte (primeira forma de misica eletroactistica), teria designado por acoulogie (“aculogia”), a qual teria por objeto de estudo os mecanismos da escuta e seu campo perceptivo, bem como as propriedades dos objetos sonoros, constituindo as bases daquilo que o inventor da miisica concreta designara por solfejo experimental. Nossa abordagem, porém, deu prefe- réncia a uma designag’o menos estranha ao leitor comum — afinal, quem haveria de supor do que se trata um livro sobre “aculogia’’? -, além de eleger como pontos igualmente indispensdveis de seu percurso aspectos que costumeiramente fazem parte da abordagem tedrica e tipicamente aciistica do universo dos sons, aos quais j4 nos referimos de algum modo, e que foram abordados por Schaeffer — em que pesem o inestimdvel valor € 0 pioneirismo de sua proposta — apenas en passant, quando nao de forma bastante insipiente. E preciso salientar, nesse contexto, a proposital exclusio, no percurso da escrita, de questdes acerca das particularidades actisticas das diversas famflias instrumentais. Poderiamos mesmo, nesse contexto, questionar a organizagao de grande parte dos tratados de actistica a esse respeito: por que somente delas e no de outras “familias” instrumentais, generalizando, como 0 fez brilhantemente Schaeffer, o conceito mesmo de “instrumento”? A mesma exclusao ocorre em relago aos tipos de microfones ou apare- lhos eletr6nicos especfficos (mais apropriados a uma abordagem circuns- crita a técnicas de estiidio), ou até mesmo aos procedimentos tipicos da composic¢io eletroaciistica (tais como filtragens, processos de sintese, de espacializacio dos sons etc., que deveriam ser abordados, a nosso ver ~ como alias eu mesmo jé procurei fazer —, por trabalhos que relacionassem tais recursos com a prépria estética da composigao, sem a qual tornam-se esvaziados de sentido). Sob tal Angulo, este trabalho se diferencia, pois, de A AcUSTICA MUSICAL EM PALAVRAS & SONS 15 abordagens puramente actisticas dos fendmenos sonoros, da mesma forma que pontua sua diversidade frente as abordagens exclusivamente estéticas do som, ainda que estas possam embasar suas investigagdes em certos conceitos da actistica (tal como o fizeram notadamente Schaeffer e, poste- tiormente, Frangois Bayle ou Denis Smalley). Assim é que, se nosso traba- tho se distingue, por um lado, dos tratados de actistica pelo crivo perceptivo mais condizente com a estética da composi¢4o musical, nem por isso nossa visio deixa de constituir, por outro lado, um livro que trata das questdes actisticas propriamente ditas, imbufdas, porém, de sdlida discussao estéti- co-musical (nas quais fazemos mengio inclusive a intimeros termos schaeffe- rianos — nao a todos, porém fazendo uso dos que de fato se inserem na perspectiva de um entrecruzamento entre a actistica e a composigiio —, ao mesmo tempo em que propomos objetivamente uma redefinigao terminol6- gica de alguns deles). Trata-se sim, em suma, de um livro de actistica, porém de actistica musical. E pontuando com precisao a especificidade de sua abordagem, ele ndo deixa de querer se distinguir, em prol da fluéncia e visando sobretu- do ao interesse e ao fluxo da leitura, de todos os livros sobre actistica que conhecemos. Ao contrario do que ocorre na literatura corrente sobre 0 assunto, optamos pela omissio quase que permanente das referéncias pre- cisas as fontes das informagGes aqui presentes — com excegiio das eventuais referéncias dos exemplos graficos reproduzidos ao longo do texto -, as quais foram expostas, porém, com a maxima objetividade, seriedade e cientificidade possivel, referéncias estas que, nos tratados que discorrem sobre © assunto, tornam aqueles volumes de leitura amarrada, excessiva- mente referencial e pouco fluente, As referéncias bibliograficas ao final do volume devem satisfazer 0 leitor curioso ¢ critico no que tange & veracida- de cientifica das informagées aqui veiculadas. Evitou-se, assim, qualquer nota de rodapé ou qualquer citagdo, em prol de uma total fluéncia da expo- sigdo tedrica, Ainda que a exposig’o cronoldgica de boa parte dos concei- tos da fisica actstica tenha se norteado pelos principais livros do ramo — dentre os quais vale aqui ressaltar, em particular, tanto o excelente livro de Campbell & Greated (1987: The Musician's Guide to Acoustics), a0 qual 0 leitor deve se reportar caso deseje aprofundar seus conhecimentos espe- cificos de actistica, e no qual se baseou consideravelmente 0 itinerdrio da abordagem aqui delineada sobre os conceitos actisticos propriamente ditos, quanto os ja histéricos livros de Barbour (1953: Tuning and Temperament — A Historical Survey) e de Backus (1968: The Acoustical Foundations of Music), bastante titeis em suas exposigdes acerca das escalas e afina- gdes —, 0 presente trabalho constitui um recorte essencialmente musical, diriamos mesmo composicional das questdes actisticas. Pois se os con- ceitos de actistica que embasam nossa abordagem siio ja de uso cientifico 16 FLo Menezes comum, 0s conceitos estéticos encontram por vezes aqui, ao contrario, sua primeira formulagao, como, por exemplo, quando revisitamos e revisamos a terminologia de Schaeffer com relag3o & “massa t6nica” (para a qual propomos fisdo ténica), introduzindo a nogdo inovadora de modulagdo de timbre. Mas mesmo ai, o leitor no terd dificuldade em detectar a proveniéncia de tal ou qual conceito — cujas referéncias, nesses casos (ao contrério das nogdes mais “neutras” da actistica), so sempre pontuadas com suficiente clareza -, tomando plena consciéncia da evolucio estética das nogdes aqui abordadas e de como nossa abordagem em particular se insere no contexto hist6rico. Esta fluéncia do texto, no entanto, é por assim dizer “contrabalangada” pelas eventuais interrupgdes que o leitor é convidado a fazer no decurso de sua leitura, nao para certificar-se das referéncias cientificas acerca dos conceitos actisticos abordados, mas antes para abrir espago a experimen- tacdo de sua escuta. Ao contrério da grande maioria dos volumes sobre actistica que conhecemos, o presente livro, que se quer como tratado da escuta, no poderia deixar de ser acompanhado por um CD com exemplos sonoros de boa parte dos fendmenos actistico-musicais discutidos, ilustran- do as palavras escritas com sons ao mesmo tempo em que induzindo o leitor a tornar-se um /eitor-ouvinte, algo bastante inovador ou ao menos deveras incomum — arriscamo-nos a dizer — nesse Ambito de atuagio ted- rica, atitude esta que faz eco 4 magnifica iniciativa de Schaeffer nos anos 60, quando publicou seu Solfége de l’Objet Sonore (1967) para ilustrar sonoramente seu Traité des Objets Musicaux (1966). Daf entao o sentido total e polissémico do titulo: uma acstica musical em palavras e sons, pois que se no decurso de nosso trabalho a percepgaio actistica da fala e dos fendmenos concernentes a linguagem verbal (irma de sangue da linguagem musical) ganha por vezes destaque, fazendo jus a esta significativa drea de atuagdo da expressio lingiiistica humana e ao papel que lhe é conferido no contexto da misica contemporanea, ao mes- mo tempo em que instituindo com seu enfoque uma discussdo quase que correlata e de certo modo independente do universo dos “sons” propria- mente ditos, nossa exposigio se di, simultaneamente, por meio da palavra escrita e do som exemplificado em sua mais tang{vel realidade: 0 ato con- creto, porém ao mesmo tempo de tao alto grau de abstragiio, em que con- siste a escuta. A Acustica Musicat EM PaLavras & SONS 17