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Reabilitação
Neuropsicológica Pediátrica
Paediatric neuropsychological rehabilitation

Flávia Heloísa
dos Santos

Universidade
Estadual Paulista Assis
Artigo

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 450-461


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PSICOLOGIA CIÊNCIA E
PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 450-461

Resumo: A neuropsicologia investiga a expressão comportamental das


disfunções cerebrais, isto é, a interação entre estruturas cerebrais preservadas
e prejudicadas e as funções cognitivas, tais como linguagem, memória,
atenção e outras. A neuropsicologia pediátrica possui especificidades:
maturação, estratégias cognitivas, ensino formal e cultura, e características
intrínsecas à reorganização cerebral. O objetivo da reabilitação
neuropsicológica é estabelecer estratégias para adaptação de funções
cognitivas afetadas em relação às demandas do ambiente da criança. A
reabilitação cognitiva pediátrica auxilia crianças com deficiência mental,
epilepsia, traumatismo craniencefálico, síndromes autísticas, tumores
cerebrais, paralisia cerebral, etc. Programas de reabilitação neuropsicológica
podem ser voltados para dificuldades acadêmicas ou para funções cognitivas.
A investigação da efetividade de programas de reabilitação depende de
diversos fatores. O neuropsicólogo deve contribuir para o desenvolvimento
de novas estratégias de reabilitação cognitiva, ser qualificado para o uso das
mesmas e partilhar, com a equipe interdisciplinar, as técnicas e experiências
efetivas.
Palavras-chave: neuropsicologia do desenvolvimento, reabilitação cognitiva,
criança.

Abstract: Neuropsychology investigates behavioural expression of cerebral


dysfunctions, i. e., the interaction between preserved and impaired brain
structures and cognitive functions such as language, memory, attention and
others. Paediatric neuropsychology has specificities: maturation, cognitive
strategies, school and cultural learning, and intrinsic characteristics related to
brain reorganisation. The objective of neuropsychological rehabilitation in
children is to establish strategies to adapt impaired cognitive functions in
contrast to environmental demands. Pediatric cognitive rehabilitation helps
children with learning disabilities, epilepsy, traumatic brain injury, autistic
syndrome, brain tumours, cerebral palsy, etc. The investigation of the
rehabilitation program effectiveness depends on many factors. The
neuropsychologist must contribute to develop new strategies of cognitive
rehabilitation, be qualified to use them and share with the interdisciplinary
staff the effective techniques and experiences.
Key words: developmental neuropsychology, cognitive rehabilitation, children.
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Reabilitação Neuropsicológica Pediátrica

Neuropsicologia é a ciência dedicada ao demonstra a importância e o perfil da


estudo da expressão comportamental das avaliação neuropsicológica em diversas
disfunções cerebrais (Lezak, 1995). O patologias (para revisão histórica da
enfoque central é a interação entre estruturas neuropsicologia, ver Kristensen, Almeida e
cerebrais prejudicadas e preservadas e Gomes, 2001).
funções cognitivas, tais como linguagem,
memória, atenção, entre outras, (Nassif, Um marco recente foi a Resolução nº 002/
Andrade e Santos, 2003). A neuropsicologia 2004, do Conselho Federal de Psicologia, que
tem colaborado amplamente para a evolução regulamentou a prática da neuropsicologia no
efetiva das neurociências, na medida em que Brasil - diagnóstico, acompanhamento,
instrumentaliza outras áreas de investigação, tratamento e pesquisa das funções cognitivas,
como neuroquímica, neuroimagem, etc. das emoções e do comportamento - como
(Andrade e Santos, 2004). especialidade em Psicologia.

Embora a neuropsicologia seja um ramo de O objetivo deste artigo é descrever a


conhecimento interdisciplinar, a avaliação metodologia empregada na reabilitação
neuropsicológica é tipicamente realizada pelo
neuropsicológica pediátrica, enfatizando
psicólogo (Lefèvre, 1989), que deve
aspectos de interesse do neuropsicólogo e
especializar-se no entendimento da dinâmica
informações relevantes para os demais
do funcionamento cerebral e cognitivo (da
profissionais da área da reabilitação, como
criança ao idoso) e dos aspectos transculturais
terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas,
(Nassif, Andrade e Santos, 2003). A avaliação
fonoaudiólogos e comunidade médica, em
neuropsicológica contribui para o diagnóstico,
especial, pediatras e neurologistas.
prognóstico e reabilitação de funções
cognitivas, podendo ser fundamental para
A recuperação de funções cognitivas depende
diagnóstico diferencial (exemplo: entre um
tanto de plasticidade neural - habilidade do
quadro de depressão e demência), na
cérebro de recuperar uma função através de
avaliação da efetividade de um tratamento
proliferação neural, migração e interações
medicamentoso, na determinação de riscos
sinápticas - quanto de plasticidade funcional
e benefícios neurocirúrgicos, no abuso de
- grau de recuperação possível de uma função
substâncias e em muitas outras circunstâncias
através de estratégias de comportamento
clínicas (Nassif, Andrade e Santos, 2003).
alteradas (McCoy et al., 1997). As habilidades
do paciente para formular, planejar e
A neuropsicologia brasileira surgiu nos anos
50, tendo como um dos pioneiros o médico implementar comportamentos intencionais,
Antônio Frederico Branco Lefèvre (1916- ou seja, atenção seletiva para estímulos,
1981), autor do primeiro tratado brasileiro processamento e retenção de informação,
de neurologia infantil e organizador do exame compreensão de situações problemáticas e
neurológico evolutivo (ENE) (Lefèvre, 1972), habilidade para comunicar-se são objetos da
cujas atividades como pesquisador e docente avaliação neuropsicológica com vistas à
nortearam os primeiros estudos de funções reabilitação (McCoy et al., 1997).
cognitivas em crianças. Nos anos 80, a
psicóloga Beatriz Lefèvre publicou o livro As avaliações neuropsicológicas, tal como as
Neuropsicologia Infantil (Lefèvre, 1989), que avaliações neurológicas antes do ENE,

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utilizavam, em crianças, instrumentos ensino formal e cultura, bem como, no caso


desenvolvidos para adultos. A psicologia de lesões cerebrais, características intrínsecas
contribuiu para o desenvolvimento de testes à reorganização cerebral (Santos, 2002).
cognitivos ponderados para idade e Portanto, a recuperação é primeiramente
escolaridade (Hartlage e Long, 1997). Nos determinada pela idade, localização neural e
últimos anos, tem aumentado a produção de função envolvida, mas também por fatores
dados normativos brasileiros para instrumentos como patologia bilateral, presença de
de avaliação neuropsicológica infantil (por convulsões, estágio de desenvolvimento da
exemplo, Brito et al., 1998; Pompéia, função cognitiva, entre outros (Hartlage e
Miranda e Bueno, 2003; Santos e Bueno, Long , 1997). Para ilustrar essas
2003) (para ilustrar uma bateria peculiaridades, são ressaltadas, a seguir,
neuropsicológica adequada para crianças algumas diferenças entre a neuropsicologia
brasileiras, ver Costa et al., 2004). pediátrica e a de adultos.

A investigação neuropsicológica em crianças, Na criança, a queixa, muitas vezes, não se


adultos e idosos pode ser feita por baterias relaciona à existência de uma lesão cerebral,
fixas (por exemplo, WISC-III) para e, sim, à identificação, descrição e
investigação global de funções cognitivas, tratamento da excepcionalidade (da
como atenção, memória, linguagem, entre deficiência mental à superdotação) ou de
outras, ou flexíveis, em que o examinador dificuldades de aprendizagem (Hartlage e
seleciona alguns testes para investigação Long, 1997). Em desordens como atraso no
aprofundada de uma função específica desenvolvimento neuropsicomotor, por
(Bernstein e Waber, 1997). A escolha da exemplo, os correlatos neurais são, por vezes,
bateria dependerá do objetivo da avaliação, inexistentes (Bernstein e Waber, 1997).
da queixa e dos achados propriamente ditos.
Tanto a anamnese quanto a observação
Enquanto, na avaliação do adulto, certos
rigorosa do comportamento infantil podem
comportamentos podem indicar alterações
acrescentar informações relevantes (Lefèvre,
neurológicas, um mesmo sinal na criança
1989). Essas informações retratam o
pode apresentar um substrato neural distinto
comportamento cotidiano da criança, e
ou, como já mencionado, não ser indicativo
podem, portanto, facilitar a compreensão da
de um dano cerebral estrutural (Bernstein e
família acerca dos resultados da avaliação e
Waber, 1997).
fortalecer tanto a participação da mesma no
programa de reabilitação quanto a escolha de
No infante, as lesões podem ser congênitas
estratégias.
(pré, peri ou neonatais), comprometendo a
Entretanto, peculiaridades da infância em formação de uma dada função cognitiva.
relação a outras fases do desenvolvimento Assim, a intervenção pediátrica destina-se,
humano devem ser consideradas. Cérebros muitas vezes, à habilitação de funções não
imaturos são regidos por princípios próprios, desenvolvidas, daí o termo ‘(re)habilitar’, em
os quais são influenciados por maturação contraposição à recuperação de funções
cerebral, evolução no uso de estratégias afetadas tardiamente em adultos por lesões
cognitivas, a aquisição de conhecimentos via adquiridas.
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Essa especificidade indica que o para amenizar ou compensar as funções


neuropsicólogo pediátrico precisa integrar afetadas (McCoy et al, 1997). Tais estratégias,
princípios do desenvolvimento cerebral e porém, não devem ser um fim em si mesmas,
Quando uma cognitivo bem como estabelecer relações mas refletir a generalização do aprendizado
criança apresenta
dificuldades entre o comportamento observado e o para as situações cotidianas, promovendo
decorrentes de desempenho no contexto em que a criança independência e autonomia do paciente frente
ineficiência ou
inabilidade para se encontra (Santos, 2004). Também é às demandas de seu ambiente (Santos, 2004).
processar necessário que o neuropsicólogo estabeleça
informações, para
interagir com o predições sobre o futuro da criança. Os níveis São quatro as principais abordagens
meio, é de predição decorrentes de uma avaliação (approaches) de reabilitação cognitiva:
fundamental que
haja o neuropsicológica variam de acordo com a psicométrica, automatização, biológica e
acompanhamento experiência do profissional (Hartlage e Long, comportamental. Programas de reabilitação
de um
neuropsicólogo 1997). É fundamental que predições levem baseados nessas abordagens podem ser
para avaliar, em consideração os fatores sociais, voltados para dificuldades acadêmicas, como
contextualizar e re-
habilitar esses econômicos e culturais (Santos, 2004). leitura, escrita, entre outras, ou para funções
déficits cognitivos, cognitivas, tais como memória, atenção,
propiciando
condições para Quando uma criança apresenta dificuldades habilidades vísuo-espaciais, etc. (para revisão
que a criança se decorrentes de ineficiência ou inabilidade das abordagens, ver Santos, 2004).
desenvolva em seu
ambiente e para processar informações, para interagir
minimizando o com o meio, é fundamental que haja o A escolha do enfoque, em geral, é
efeito de
dificuldades futuras acompanhamento de um neuropsicólogo personalizada, isto é, levará em consideração
para avaliar, contextualizar e re-habilitar esses as características individuais de cada paciente,
Santos
déficits cognitivos, propiciando condições suas potencialidades e limitações específicas.
para que a criança se desenvolva em seu No entanto, dentre as diversas estratégias de
ambiente e minimizando o efeito de tratamento, destacam-se aquelas apoiadas no
dificuldades futuras (Santos, 2004). auto-monitoramento, auto-controle e meta-
cognição para o treino cognitivo de funções
O objetivo da reabilitação cognitiva é corrigir cognitivas e gerenciamento dos ambientes
ou atenuar os efeitos de déficits cognitivos escolar e familiar. O uso dessas estratégias
genéricos, de forma que os pacientes tem demonstrado que, quando a percepção
encontrem meios adequados e alternativos sobre as alterações cognitivas e
para alcançar metas funcionais específicas comportamentais é ampliada, os pacientes
(Ben-Yishay, 1981). O sucesso de um compreendem melhor suas próprias
programa de reabilitação cognitiva consiste dificuldades e são mais motivados para o
na reintegração do paciente junto ao seu tratamento e ativos na própria reabilitação
ambiente social e profissional, no caso da (Prigatano, 1997). Essas estratégias tornam-
criança, a reinserção escolar (McCoy et al, se mais efetivas quando inseridas em um
1997). modelo de reabilitação que integre as
múltiplas necessidades do paciente.
A reabilitação cognitiva pediátrica envolve a
re-aprendizagem de habilidades cognitivas e O modelo holístico, ou ‘comunidade
a elaboração de estratégias de tratamento terapêutica’, surgiu na década de 70, e

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caracterizou-se por um conjunto de atividades holísticas. Os últimos estágios, aceitação e


intensivamente aplicadas que incluíam identidade, requerem do paciente a
atendimento em grupo, psicoterapia, treino incorporação de suas experiências (positivas
cognitivo, grupos com familiares e equipe, e negativas) dentro de um auto-conceito,
além de reorientação vocacional. Há relatos planejamento de ações futuras baseadas em
brasileiros de experiências de reabilitação estratégias aprendidas para deliberar e tomar
cognitiva bem sucedidas em pacientes adultos decisões, podendo orientar e auxiliar pares
com lesões adquiridas utilizando o modelo em situações similares (Fletcher-Janzen e
holístico (por exemplo Bolognani et al., 2000; Kade, 1997).
Gouveia et al., 2000; Gouveia et al., 2001).
Os estágios clínicos são elementos unificadores
Uma década depois, seus expressivos que permitem aos profissionais de diferentes
Em cada estágio,
idealizadores, Ben-Yishay, de Israel, e Diller, especialidades comunicar e avaliar
a equipe pode
dos EUA, também dedicaram especial atenção acuradamente o progresso dos pacientes a avaliar o progresso
à população pediátrica, desenhando o modelo qualquer tempo. Em cada estágio, a equipe do paciente e
pode predizer o
do neurodesenvolvimento, que se caracteriza pode avaliar o progresso do paciente e pode estágio
pelo ajustamento de estágios cognitivos à predizer o estágio subseqüente, deliberando subseqüente,
deliberando sobre
representação de estágios clínicos da sobre a proposta adequada e incluindo a proposta
reabilitação, a saber: recomendações e comedimentos coerentes adequada e
incluindo
com as estratégias de compensatórias a serem recomendações e
O modelo do neurodesenvolvimento foi adotadas e o nível de controle do paciente comedimentos
coerentes com as
formulado para: 1) utilizar o valor heurístico frente às mesmas. A vantagem do modelo do estratégias de
dos estágios clínico-cognitivos; 2) expandir o neurodesenvolvimento, portanto, é oferecer compensatórias a
serem adotadas e
modelo neuropsicológico para incluir questões um significado para avaliações quantificáveis da o nível de controle
pediátricas; 3) incorporar elementos evolução do paciente e da efetividade de do paciente frente
às mesmas.
psicoterapêuticos holísticos no paradigma de programas de reabilitação pediátrica (Fletcher-
reabilitação; 4) sustentar uma equipe Janzen e Kade, 1997).
interdisciplinar como componente efetivo da
reabilitação. Uma recente experiência de reabilitação
holística foi realizada na Finlândia (Honkinen
A equipe interdisciplinar é a estrutura de et al., 2003). O programa é destinado a
assistência do paciente durante os seis crianças de diferentes estágios de
estágios clínicos da reabilitação (Fletcher- recuperação e de desenvolvimento bem
Janzen e Kade, 1997). Os dois primeiros como a seus familiares. Encontros intensivos,
estágios, respectivamente engajamento e nos quais são oferecidos aconselhamento,
consciência, visam orientar o paciente para a informações sobre as lesões cerebrais,
dificuldade da tarefa, apresentar limites e treinamento e vídeos para uso domiciliar,
expectativas e estabelecer a parceria entre o atividades recreativas e culturais (teatro, artes
paciente e a equipe. Os estágios plásticas, música, atividades ao ar livre, etc)
intermediários, domínio e controle, envolvem complementam a reabilitação multidisciplinar
o aprendizado de estratégias compensatórias diária. Embora um estudo aleatoriamente
que são individualizadas para cada paciente controlado seja necessário, tal abordagem
e um começo de generalização das estratégias parece ampliar a consciência da criança frente
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as suas limitações e à participação familiar alguns testes, daí a necessidade de mais versões
na recuperação. de cada tarefa empregada.

Um marco da neuropsicologia pediátrica nos O modelo fenomenológico de intervenção


anos 90 foram os modelos integrados de caracteriza-se pela observação e descrição de
avaliação e reabilitação neuropsicológica. fatores que interferem com a aprendizagem e
Esses modelos são discutidos a seguir: desempenho acadêmico da criança em
ambiente escolar ou domiciliar. A ênfase está
O modelo de intervenção REHABIT (Reitan no reconhecimento e intervenção sobre
Evaluation of Hemispheric Abilities and Brain problemas de aprendizagem, e não na causa
Improvement Training) toma como referência do prejuízo ocorrido, que pode ser devido a
os sistemas hierárquicos do funcionamento fatores do desenvolvimento cerebral ou
cerebral (Reitan e Wolfson, 1985). Primeiro, psicossocial (Levine, 1993).
funções críticas para um processamento geral
são treinadas: atenção, concentração e A intervenção leva em consideração a
memória; segundo, são treinadas funções observação direta do comportamento, por
necessárias para o processamento orientado exemplo, na dificuldade que uma criança
pela lateralização, isto é, funções verbais apresente para planejar e organizar o seu tempo
mediadas pelo hemisfério esquerdo e funções de estudo ou na dificuldade para memorizar
de natureza vísuo-espacial servidas pelo uma informação enquanto estuda para uma
hemisfério direito. O nível de processamento prova. As avaliações incluem as esferas
superior inclui abstração, formação de educacional, comportamento afetivo,
conceitos e análises lógicas. A estrutura do desenvolvimento cognitivo e aspectos clínicos,
programa REHABIT integra teoria, avaliação e envolvem a participação de familiares,
e treinamento, sendo adequado para professores, equipe interdisciplinar e outros
planejamento educacional individualizado de diagnósticos especializados (Levine, 1993).
crianças com lesões cerebrais avaliadas pela
bateria neuropsicológica Halstead-Reitan. Teeter (1997) ressalta a utilidade desse modelo
para avaliação, intervenção e gerenciamento em
Esse modelo apresenta duas vantagens: 1) a diferentes desordens. Embora o modelo possa,
intervenção respeita a hierarquia operacional a princípio, ser considerado uma conduta
do encéfalo (funções críticas, lateralizadas e invasiva, na medida em que profissionais
de processamento superior), e, portanto, freqüentam os ambientes familiar e escolar da
facilita o processo de reorganização funcional
criança, esse fator é convertido em vantagem
e cerebral; 2) habilidades preservadas são
na medida em que as medidas adotadas
acompanhadas e, em conseqüência,
assumem um caráter ecológico e centrado nas
estimuladas, o que contribui para a
dificuldades específicas da criança relacionadas
automatização das mesmas. Por outro lado,
ao contexto escolar.
duas desvantagens devem ser consideradas:
1) a bateria Halstead-Reitan não é validada O modelo de intervenção DNRR
para a população brasileira; 2) avaliações (Developmental Neuropsychological
consecutivas podem refletir o efeito de Remediation / Rehabilitation) foi desenvolvido
aprendizagem pelo desempenho repetido de em atenção às dificuldades de aprendizagem,

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isto é, de linguagem falada e ou escrita, tratamento de dificuldades de aprendizagem,


coordenação, autocontrole e atenção. O cuja estrutura permite a identificação de
DNRR supõe sete passos. No primeiro, o perfil fatores críticos úteis também para o desenho
neuropsicológico é traçado; a seguir, esse perfil de intervenções em outras desordens. Seu
é contrastado com as demandas do ambiente grande mérito está na constante reavaliação
(comportamento, nível acadêmico, aspectos da evolução do paciente.
psicossociais). No terceiro passo, são feitas
predições quanto aos déficits passíveis de De fato, progresso acadêmico, atividades
recuperação a curto ou longo prazo mediante diárias e ajustamento emocional devem ser
a intervenção, levando em conta os recursos regularmente avaliados, pois o curso clínico
da família, comunidade e ambiente na criança se modifica tanto pela recuperação
psicossocial. O passo seguinte é o plano de espontânea das funções cerebrais quanto
tratamento e sua respectiva monitoração. No pela continuidade de mudanças próprias do
sexto passo, o plano de tratamento é desenvolvimento. Dada essa natureza
reajustado em função da monitoração. O dinâmica da recuperação, o programa de
sétimo passo é a reavaliação neuropsicológica reabilitação pediátrica precisa ser revisto e
para modificar e clarificar o plano de modificado com maior freqüência do que em
intervenção (Rourke, 1994). adultos (McCoy et al., 1997). Além disso, as
intervenções adotadas devem corresponder
Segundo Teeter (1997), o DNRR é um às peculiaridades de desordens neurológicas
paradigma integrado para avaliação e específicas, conforme ilustra a tabela 1.

Tabela 1 - Tratamento de reabilitação das principais desordens neurológicas


Desordens Estratégias
Hiperatividade e déficit de atenção Treinamento de atenção, peer tutoring (em casa e
na escola: atenção ao alvo, completar o trabalho,
disciplina e interações sociais) e gerenciamento de
contingências.
Síndromes autísticas Técnicas para modificação de comportamento
estereotipado e melhora da comunicação, tratamento
medicamentoso.
Convulsivas/epilepsia Tratamento medicamentoso, tratamento
neurocirúrgico em casos refratários, treino cognitivo
mnemônico.
Traumatismo craniencefálico Parcerias entre escola e família são utilizadas em
associação aos planos individuais de intervenção e
estratégias compensatórias para melhorar o
desempenho acadêmico e comportamental.
Tumores cerebrais Radiação, quimioterapia e intervenções cirúrgicas.
Estratégias compensatórias para dificuldades
acadêmicas, em funções executivas e no ajuste
psicossocial.
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O tratamento medicamentoso de sintomas neurologia, psiquiatria, fisiatria,


residuais pela administração de fonoaudiologia, fisioterapia e terapia
antidepressivos, anticonvulsivantes, ocupacional, entre outras especialidades,
anxiolíticos e anti-histamínicos em pacientes interagem constantemente com a
Muitas lacunas,
porém, existem com lesões cerebrais deve ser neuropsicologia. Por exemplo, crianças com
quanto ao treino lesões adquiridas e adultos jovens se
constantemente monitorado, pois efeitos
cognitivo, as quais
refletem a colaterais, como sedação, confusão e beneficiam da mobilização e estimulação para
inexistência de recuperação da consciência, a chamada
pesquisas
prejuízos de memória podem influir em
conclusivas quanto ambos, avaliação neuropsicológica e neurorreabilitação (Eilander, 2003). No caso
às estratégias mais de lesões congênitas, grupos de estimulação
adequadas a
reabilitação cognitiva (Prigatano, 1987). Por
certas patologias. essa razão, o diálogo entre os médicos e o neuropsicomotora precoce e de

neuropsicólogo a esse respeito é essencial. psicopedagogia contribuem para o


desenvolvimento de habilidades necessárias
para a interação com o meio. Quanto mais
A avaliação funcional, isto é, das atividades
cedo o pediatra e/ou neurologista encaminhar
de vida diária e autonomia, também deve
o paciente para programas de reabilitação
ser considerada. Sabe-se, nos dias de hoje,
cognitiva, maiores serão as oportunidades de
que a melhora atribuída para a reabilitação
a criança e sua família receberem atendimento
neuropsicológica pode ser separada do
e orientação especializados, o que propiciará
progresso no funcionamento, que ocorre
a estimulação adequada de suas capacidades
espontaneamente. Pacientes com
intelectuais.
traumatismo craniencefálico (TCE)
apresentam uma recuperação mais rápida nos
Muitas lacunas, porém, existem quanto ao
primeiros 6 meses após o insulto, mas podem
treino cognitivo, as quais refletem a
continuar lentamente a recuperar-se até 24
inexistência de pesquisas conclusivas quanto
meses pós-lesão (Bond, 1975). De fato,
às estratégias mais adequadas a certas
ganhos progressivos em independência
patologias. Fatores como heterogeneidade de
pessoal, doméstica e comunitária ocorrem localização das lesões cerebrais, idades de
cerca de 5 anos pós-lesão, alcançando, insultos, déficits específicos e dificuldades
porém, um plateau no nível funcional ou de pré-mórbidas precisam ser consideradas na
atividade cognitiva após um interstício de dez realização de estudos comparativos entre
anos. Os pacientes se mostram mais técnicas e estratégias para investigação da
conscientes do impacto cognitivo e dos efetividade de programas de reabilitação
problemas de comportamento na vida (Santos, 2004). Esses aspectos fazem da
cotidiana, porém aspectos emocionais reabilitação neuropsicológica pediátrica um
(ansiedade, depressão e isolamento social) campo de atuação, formação e pesquisa
permanecem freqüentes (Olver et al., 2003). carente de investimentos. Os estudos
multicêntricos se apresentam como a
É importante dizer que a maioria dos metodologia mais adequada para responder
pacientes necessita de reabilitação de outras a inúmeras questões diante da velocidade
funções, além das cognitivas, e em diferentes com que os avanços nas neurociências estão
fases de seu acometimento. Assim, se dando.

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No Brasil, a Rede Sarah de Hospitais de comparações entre etapas de treinamento


Reabilitação realizou um estudo no qual cognitivo (Olesen, Westerberg e Klingberg,
crianças com TCE foram aleatoriamente 2004). A participação do neuropsicólogo é
distribuídas em dois grupos de intervenção. fundamental, tanto na elaboração dos
O primeiro foi tratado diariamente pela paradigmas cognitivos empregados em
equipe hospitalar, e o segundo recebeu neuroimagem funcional quanto na
atendimento domiciliar por membros da interpretação do valor clínico dos resultados
família que foram previamente treinados e obtidos.
monitorados para realizarem exercícios de
estimulação motora e cognitiva. A comparação Em resumo, a reabilitação neuropsicológica
entre a avaliação basal e os escores, após um pediátrica é um campo de atuação recente
ano em medidas como a Escala Wechsler de no Brasil e, portanto, ávido por investimentos
em formação, atuação e pesquisa científica.
Inteligência, revelaram melhores resultados
Programas de reabilitação cognitiva objetivam
para crianças cuja família participou
o restauro funcional e o estabelecimento de
ativamente do tratamento (Braga, 2003).
estratégias compensatórias para funções
cognitivas afetadas em relação às demandas
Experiências recentes têm incentivado
do ambiente familiar e escolar da criança
atividades como jardinagem, música e arte à
portadora de desordens neurológicas.
reabilitação. Também tendem à expansão o
Requerem a colaboração interdisciplinar de
uso da teleconferência para que as famílias
profissionais da área de saúde. Apesar das
recebam em casa orientação dos profissionais
limitações das estratégias compensatórias, o
de reabilitação a qualquer tempo (Tam et al.,
impacto da reabilitação neuropsicológica
2003) e de treinamento vocacional para
quanto à adaptação do paciente ao seu meio
escolha ou retorno às atividades educacionais
é evidente. Perspectivas futuras se direcionam
e profissionais (Lindstedt, Rosqvist e para o uso de técnicas de neuroimagem
Svennungsson, 2003). funcional tanto para compreensão dos
mecanismos subjacentes aos fenômenos
O futuro da reabilitação neuropsicológica plásticos cerebrais como para avaliação dos
encontra-se relacionado aos estudos de programas de reabilitação cognitiva
neuroimagem funcional; assim, além dos implantados.
profissionais já mencionados, também os
neurorradiologistas contribuirão para a Como conclusão, o neuropsicólogo deve
avaliação dos programas de reabilitação contribuir para o desenvolvimento de novas
cognitiva implantados. O uso da imagem por estratégias de reabilitação cognitiva, qualificar-
ressonância magnética funcional (IRMf), entre se para o uso das mesmas e partilhar, com a
outras técnicas, em amostras pediátricas, tem equipe interdisciplinar, as técnicas e
aumentado progressivamente para a experiências efetivas. É de suma importância,
localização de funções críticas (Logan, 1999), porém, que as atividades implementadas pela
avaliação de correlatos neurais da plasticidade família, escola, e todos os profissionais
cerebral (Hertz-Pannier et al., 2000), para envolvidos na reabilitação neuropsicológica
estabelecimento da relação entre função e respeitem a natureza lúdica da criança, em
estrutura no decorrer do desenvolvimento outras palavras, nesta “cirandinha, vamos
cognitivo cerebral (Nelson et al., 2000) e para todos cirandar”!
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Reabilitação Neuropsicológica Pediátrica

Flávia Heloísa Dos Santos -

Psicóloga, Especialista em Psicologia da Infância pela Universidade Federal de São


Paulo - UNIFESP, Doutora em Ciências (UNIFESP) e pesquisadora do Departamento de
Psicobiologia da UNIFESP, professora do Departamento de Psicologia da Universidade
Estadual Paulista - UNESP/Assis.
Universidade Estadual Paulista – UNESP
Departamento de Psicologia Experimental
Avenida Dom Antônio 2100 - Parque Universitário
19806-173, Assis – SP, BRASIL
E-mail: flaviahs@assis.unesp.br

Recebido 01/07/04 Aprovado 00/00/00

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