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Educação Unisinos

17(2):164-172, maio/agosto 2013


© 2013 by Unisinos - doi: 10.4013/edu.2013.172.09

O diálogo como modo de ser da experiência


estética e da educação em Hans-Georg Gadamer

Dialogue as a way of being of aesthetic experience


and training in Hans-Georg Gadamer

Clenio Lago
cleniolago@yahoo.com.br

Resumo: Num contexto de crise paradigmática, em que não somente a ideia de verdade e os
ideais educacionais entram em crise, a própria razão, concebida no racionalismo clássico como
autossuficiente, é convidada a colocar-se na escuta do outro, situação em que a experiência
estética, antes relegada a segundo plano, emerge como essa possibilidade de escuta. Assim,
em um mundo marcado por inúmeros desafios, dentre eles o desafio da diversidade, da
instrumentalização do mundo da vida pela racionalidade técnico/instrumental, a experiência
assume tanto a conotação de experimento, gerando a ideia de total controle nos processos
educativos, quanto à conotação de vivência, gerando a ideia de pura efemeridade, vale explorar
a compreensão de experiência estética em Gadamer e o modo de ser desta. Esse filósofo (com
profunda percepção dos limites da experiência científica, quanto aos limites da vivência bem
como do significado da experiência estética neste contexto), aborda a experiência estética
desde a dimensão ontológica da obra de arte. Evidencia que a experiência da arte, ao lado da
experiência filosófica, constitui-se em uma alternativa capaz de fazer frente aos desmandos
da razão instrumental, ao empobrecimento da experiência. Portanto, concebe a experiência
estética, no âmbito da crítica à distinção estética, como diálogo, cuja estrutura pressupõe o
jogo do perguntar e do responder no que cada um é convocado. Este artigo apresenta o diálogo
como modo de ser da experiência estética e da educação como autoformação.

Palavras-chave: Gadamer, experiência estética, diálogo e formação.

Abstract: In a context of paradigmatic crisis, where not only the idea of truth and the
educational ideals are going through a crisis, reason itself, conceived in classical rationalism
as self-sufficient, is invited to listen to the other, and in this situation aesthetic experience,
previously relegated to the background, emerges as this possibility of listening. Thus, in
a world characterized by numerous challenges, among them the challenge of diversity, of
instrumentalization of the life world by technical/instrumental rationality, experience takes
on both the connotation of experiment generating the idea of total control in the educational
processes and the connotation of experience generating the idea of pure ephemerality, it is
worth exploring the understanding of aesthetic experience in Gadamer and its way of being.
This philosopher, with a deep sense of the limits of scientific experience, regarding the limits
of experience and the meaning of aesthetic experience in this context, addresses aesthetic
experience starting from the ontological dimension of the artwork. He demonstrates that the
experience of art, alongside philosophical experience, constitutes an alternative capable of
tackling the excesses of instrumental reason, the impoverishment of experience. So he conceives
aesthetic experience, within the critique of aesthetic distinction, as a dialogue, whose structure
implies the asking and answering game in which each one is called upon. This article presents
dialogue as a way of being of aesthetic experience and of education as self-formation.

Key words: Gadamer, aesthetic experience, dialogue and education.


O diálogo como modo de ser da experiência estética e da educação em Hans-Georg Gadamer

Introdução ela os limites do sujeito moderno,


mundo” do “esquecimento do ser”, o
os limites de suas certezas, conse- niilismo predito por Nietzsche, será que
Com a crise do mundo medie- quentemente, os limites do ideal devemos ficar olhando atrás do último
val, consequentemente, do ideal de de homem racional, sob o qual se brilho de sol que se pôs no céu noturno,
homem divino, “[o] grande desafio estruturaram o mundo e a educação em vez de voltar-nos e procurar olhar
é encontrar no próprio homem o ocidental modernos. Buscando res- para as primeiras cintilações de seu
fundamento para a nova ordem ponder a esses desafios evidencia- retorno? (Gadamer, 2005, p. 25).
epistemológica, política e cultural” dos, a exemplo da ruptura da meta-
(Nodari, 1999, p. 23). Assim, a física, alguns caminhos promissores Sem ficar reclamando dos últimos
modernidade, que nasce em meio foram trilhados,1 dentre os quais lampejos da razão pura e nem per-
ao vazio deixado pelo medievo, destacamos o pensamento filosófico dido na pura vontade, Gadamer pro-
tomando por referência os exemplos de Hans-Georg Gadamer. Este, des- cura, frente à ruptura da metafísica,
bem-sucedidos da física newtoniana, de a fundamentação ontológica da através do fundamento ontológico
estrutura o método científico em obra de arte, busca articular tradição da obra de arte, resgatar o valor da
que o conhecimento verdadeiro é o e contingência, abrindo novas pers- tradição, articulando experiência es-
conhecimento testado, provado com pectivas, a fim de evidenciar o papel tética e formação, ao mesmo tempo
base em experimentos controlados. da dimensão estética na formação. em que apresenta a Hermenêutica
Esse modelo passa a servir de base Para tal sinalizamos o diálogo como Filosófica como fator corretivo.
não só às ciências naturais, mas modo de ser da experiência estética “Ela lança luz sobre o ponto de vista
também às ciências humanas e dará e sua significação para a educação, moderno do fazer, do produzir, da
suporte à estética no âmbito da dis- em meio à pluralidade de valores, construção, plantados sobre pressu-
tinção estética. Nesse novo contexto, ao empobrecimento da experiência postos necessários, sob os quais ele
em que o sujeito do conhecimento e ao imperativo instrumentalista do próprio se encontra. Isso delimita es-
deve aparecer no processo com sua discurso cientificista na educação. pecialmente a posição do filósofo no
universalidade, deixando de lado Sua proposta emerge prospectiva, mundo moderno” (Gadamer, 2005,
suas particularidades, a contingên- também para o campo educacional, p. 25), pois nesse processo o ser do
cia, ou no mínimo subordinando- especialmente por colocar o diálogo sujeito que conhece também entra
as à razão, forja-se a razão como no centro de seu pensamento (Gacki, em jogo, o que expõe os limites do
instrumento capaz de gerar certeza. 2006), capaz de ultrapassar a reifi- “método” científico, “[...] mas não o
Assim, a razão que nasce reflexiva, cação dos ideais. da ciência” (Gadamer, 2005, p. 631).
com o passar do tempo, transforma- Gadamer parte da convicção de que
se em instrumento de conhecimento O projeto gadameriano o fenômeno que se efetiva na compre-
e de controle, provocando a perda da ensão, desde a dimensão ontológica,
autonomia dos indivíduos, na medi- O projeto gadameriano se efe- impregna e perpassa não somente as
da em que concebe a experiência na tiva em meio à crise do paradigma ciências do espírito, mas também o
perspectiva do experimento. ocidental, buscando articular uma terreno da ciência como um todo, à
Mas os efeitos históricos da resposta aos desafios da ruptura da medida que esta resiste à tentativa de
razão pretensamente pura e neutra, metafísica e ao empobrecimento da ser transformada em uma metodologia
aos poucos, mostram-se não tão experiência. No início de Verdade e científica, como instrumentalização.
razoáveis, ao ser evidenciado que o método I (2005), Gadamer se per- Assim, em Verdade e método I, Ga-
conhecimento não é neutro, inclusi- gunta ante a ruptura da metafísica: damer evidencia o propósito de “[...]
ve que os limites do monismo meto- rastrear por toda a parte a experiência
dológico são incapazes de dar conta O que significa o fim da metafísica, da verdade, que ultrapassa o campo de
do conhecimento, abrindo espaço à enquanto ciência? O que significa controle da metodologia científica, e
experiência estética como elemento o seu finalizar em ciência? Se a ci- indagar por sua própria legitimação
ência se elevar até uma tecnocracia
formativo. Assim, entra em crise a onde quer que se encontre” (Gadamer,
total, cobrindo o céu com a “noite do
razão moderna, revelando-se com 2005, p. 29-30).

1
Hermann, no livro Autocriação e horizonte comum, sintetiza alguns dos caminhos mais importantes já trilhados quanto à tematização da estética,
165
quando diz: “Não só em Schiller, mas também em Schelling, Schopenhauer e Nietzsche, a arte e a experiência estética se apresentam como
possibilidade de expressar e articular aqueles âmbitos da realidade que desde Kant são mantidos apenas sob o entendimento conceitual e o discurso
racional” (Hermann, 2010, p. 32).

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Após o diagnóstico dos limites tatando que, na estética clássica, a abstrai-se de si mesma. Não faz a
do paradigma cientificista que gerou experiência estética efetiva-se pela experiência estética.
o esquecimento do ser, conforme predominância da harmonia e tota-
sinaliza Heidegger (1995), Gada- lidade do objeto; e na modernidade, A “distinção estética”, que atua como
mer (2005) destaca a compreensão pela ênfase no sujeito. Na primeira consciência estética, produz para
como uma experiência superior si mesma uma existência exterior
situação, o belo só é como pro-
própria. Comprova sua produtivida-
capaz de revelar a verdade da obra priedade do objeto e a experiência de, na medida em que prepara para
de arte, e com isso a possibilidade depende do objeto. Na segunda, a a simultaneidade os seus próprios
de evidenciar a verdade para além experiência estética efetiva-se desde lugares, a “biblioteca universal” no
do método científico. Isso eviden- a subjetividade, em que o belo é em âmbito da literatura, o museu ou tea-
cia que a verdade se revela como relação ao sujeito, ou desde a pura tro permanente, a sala de concertos,
dimensão ontológica fundamental objetividade do espírito. No discurso etc. (Gadamer, 2005, p. 137).
do ser, efetivando-se, no horizonte pós-moderno, a experiência estética
da experiência histórica, como é marcada pela fluidez da experi- E essa consciência, que tudo
consciência efeitual2. Portanto, a ência vivencial. A primeira postura abstrai, abstrai-se até de si mesma,
verdade da obra de arte emerge não inviabiliza o diálogo profundo, à na subjetividade, abstendo-se da
como artifício de técnica, mas como medida que separa sujeito do objeto experiência genuína da arte, da ex-
essência na compreensão, o que e dá centralidade ao objeto; a segun- periência de si; não entra em jogo.
confere importância filosófica à arte. da, à medida que enfatiza o sujeito; Gadamer afirma que tal abordagem
Assim, “[...] ao lado da experiência a terceira, à medida que, pela arte não garante, suficientemente, o
da filosofia, a experiência da arte é vivencial, tudo dilui, desde a verdade alcance da verdade, porque passa
a mais clara advertência para que do sujeito até a do objeto. ao lado do sentido mais originário
a consciência científica reconheça da experiência da obra de arte que
seus limites, pois o ser daquele que Distinção estética é revelar o ser em devir. Enfim, a
conhece também entra em jogo” constatação de Gadamer é que o
(Gadamer, 2005, p. 31). Para além da centralidade do Ocidente instituiu-se no caminho do
A verdade pode ser alcançada gênio e da totalidade do espírito, monismo metodológico concebendo
tanto pela experiência filosófica destaca a verdadeira obra em si, a experiência como experimento
quanto pela experiência da arte, pois como “[...] aquilo a que sempre e a educação como um processo
conformam, em si, a disciplina do se volta à vivência estética [...]” técnico-instrumental. Contrapondo-
perguntar e do responder, capaz de (Gadamer, 2005, p. 135), e chama a se a este senso, Gadamer (2005, p.
trazer à tona a verdade, antes velada, atenção para o fato de que a consci- 116-117), indica que
devolvendo-a ao perguntar da capa- ência estética, “[...] essa capacidade
cidade investigativa. O que Gadamer de distinguir a intenção estética de A experiência estética não é apenas
uma espécie de vivência ao lado de
busca é compreender a verdade para tudo que não é estético” (Gadamer,
outras, mas representa a forma de
além do monismo metodológico, no 2005, p. 135), impede a experiência ser da própria vivência. [...] Uma
horizonte da experiência da obra de estética em toda a sua intensidade. vivência estética contém sempre
arte, como forma de liberar o pergun- Assim sendo, a consciência que a experiência de um todo infinito.
tar do universalismo estrutural do mé- julga abstrair da obra de arte todas E seu significado é infinito justamen-
todo científico que aceita “Ninguém” as condições de acesso a esta (de te porque não se conecta com outras
como sujeito, o sujeito abstrato.3 como a obra se apresenta a nós, coisas na unidade de um processo
aberto de experiência, mas representa
Nesse sentido, revisa o lugar sua funcionalidade e significado
imediatamente o todo.
histórico ocupado pela arte, cons- de conteúdo) e, ou tudo esteticiza,

2
“[...] é um momento da realização da própria compreensão [...] A consciência efeitual é em primeiro lugar a consciência da situação hermenêutica”
(Gadamer, 2005, p. 398-399). É a consciência que se efetiva como histórica. “Ser histórico quer dizer não se esgotar nunca no saber-se” (Gadamer,
2005, p. 399).
3
Ao se referirem ao sujeito moderno, Horkheimer e Adorno revisam a trajetória de Ulisses em Odisseia e abordam duas estratégias importantes de
Ulisses: uma, sobre a passagem pelo vale das sereias, na viagem metafórica de Ulisses a Ítaca, em que Ulisses ordena que os marinheiros tampem
166 com cera os ouvidos para não ouvirem o canto das sereias e que ele próprio seja amarrado ao mastro do navio para não sucumbir aos assédios
das sereias; a outra é quando, astutamente, Ulisses decide passar a noite na terra dos ciclopes e se apresenta como Udeis, que significa ninguém.
Após embriagá-lo e Polifemo estar adormecido, Ulisses fura-lhe o olho. Ferido, Polifemo, urra de dor, clamando ajuda aos outros ciclopes. Mas como
grita “Ninguém me feriu”, os outros ciclopes voltam a dormir. Assim, Ulisses, mais uma vez, realiza a sua façanha. Dessa forma, a crítica de Adorno
e Horkheimer esboça a estrutura da razão ocidental que se institui como soberana e astuta (Mattos, 1993).

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O diálogo como modo de ser da experiência estética e da educação em Hans-Georg Gadamer

Sendo a experiência estética uma Na essência da experiência crevem o preenchimento do espaço


vivência pela qual aprendemos, pode estética, está o movimento de vai- lúdico” (Gadamer, 2005, p. 160).
liberar a formação da lógica raciona- vém, tão central, que não se fixa Nelas, o movimento efetiva-se regra-
lista e lançar luzes ante a pluralidade em nenhum alvo, nem no sujeito, do como um acontecer temporal4 que
ética e o empobrecimento da experi- nem no objeto e sim no espírito do faz com que o homem alcance a sua
ência gerado pela instrumentalização. jogo enquanto acontecer dinâmi- própria autorrepresentação, na medi-
Por outro lado, Gadamer busca salvar co. O jogo é em si um acontecer, da em que joga. Dessa forma, o que
o conceito de obra que a estética uma realidade possível de ser há de mais primordial é o próprio
mais progressista tenta eliminar pelo experimentada como conjugação jogo, em que a obra de arte revela
conceito de vivência, de pura energia dos elementos em movimento e algo a cada um, joga, singularmente,
através da experiência intersubjetiva não como comunhão misteriosa com cada um.
possível no contraponto com a tradi- e/ou sintética dos objetos ou dos Assim, “na experiência da obra de
ção, com o outro. sujeitos. A própria estrutura or- arte vemos uma genuína experiência,
denadora do jogo faz com que o que não deixa inalterado aquele que
Se es de la opinión que lo impor- jogador se abandone ao jogo, co- a faz, e perguntamos pelo modo de
tante no es una obra que le deje al locando em risco a própria subje-
‘consumidor’ la distancia de la con- ser daquilo que é assim experimen-
tividade, uma vez que “todo jogar tado” (Gadamer, 2005, p. 153). Mas,
templación y del deleite, sino el acto
de un encuentro único, el impacto é um ser-jogado” (Gadamer, 2005, se a obra de arte diz algo a cada um
que se recibe. Creo, sin embargo, p. 160, grifo do autor). Ressalta- ao ponto de gerar transformação em
que hay razones hermenéuticas para mos, entretanto, que é, sobretudo, o configuração5, o que ela nos revela?
decir que la obra sigue la obra. Esto movimento constitutivo do vaivém Se essa experiência revela o ser que
es, toda configuración que sea real- do jogo que lhe confere sentido, se efetiva no jogo como jogo, o ser
mente identificable, de tal modo que revelando-o como modo de ser da
utilicemos para ella expresiones tales em devir, que tipo de relação esta-
arte. E o sentido mais originário do belecemos com a obra? Enfim, qual
como ‘bella’, ‘sólida’, ‘elocuente’,
jogar é o que se expressa, na forma a estrutura da experiência estética?
es ya, desde el momento en que es
caracterizada así, érgon, una obra medial, como movimento.
(Gadamer, 2006, p. 143-144). A estrutura da
É sobretudo desse sentido medial do
jogo que resulta a referência ao ser experiência
Sua postura filosófica não so-
da obra de arte. Na medida em que
mente salvaguarda a obra de arte, existe sem finalidade, sem intenção e [...] toda experiência pressupõe a
como também a experiência estética inclusive sem esforço, e enquanto um estrutura da pergunta. Não se fazem
compreendida como ontológica, jogo que sempre se renova, a natureza experiências sem a atividade do
pois a obra de arte é, para Gadamer, pode aparecer como um modelo da perguntar (Gadamer, 2005, p. 473).
ser-aí, e enquanto tal, diz algo a arte (Gadamer, 2005, p. 159).
cada um, na medida em que quem A pergunta constitui a base da
faz a experiência da arte é levado Embora sejamos levados a optar experiência. Necessariamente, pres-
a confrontar-se consigo mesmo. por esta ou aquela possibilidade que supõe negação, frustração, o viger do
Às vezes, tal experiência configura vai se delineando, quando jogamos, outro que se efetiva como pergunta.
estranhamento e desestruturação do desfrutamos de uma liberdade de A fim de que a experiência possa se
habitual; às vezes, encantamento ao decisão, evitando decisões que nos revelar positiva é preciso colocar em
ponto de evidenciar que “no es sólo coajam. Isso, porque é o jogo que suspenso, em jogo o já sabido, arris-
el ‘ese eres tu’ que se descubre en un mantém o jogador como possibili- car-se. Nos colocar em jogo. Nesse
horror de alegre y terrible. También dade, como acontecer. O jogo possui sentido, pela pergunta, o interrogado
nos dice: ‘!Has de cambiar tu vida!’” espírito próprio, cuja essência “[...] é colocado sob uma determinada
(Gadamer, 2006, p. 62). são as regras e disposições que pres- direção, é indiciado a responder em

4
“O espaço lúdico em que se desenrola o jogo é mensurado a partir de dentro pelo próprio jogo e limita-se muito mais pela disposição que determina
o movimento do jogo do que por aquilo contra o que se choca, isto é, os limites do espaço livre que restringem o movimento a partir de fora”
(Gadamer, 2005, p. 161).
5
Diferentemente do que ocorre quando algo se modifica, a transformação em configuração “[...] significa que algo se torna uma outra coisa, de
167
uma só vez e como um todo, de maneira que essa outra coisa em que se transformou passa a constituir o seu verdadeiro ser, em face do qual o
seu ser anterior é nulo. [...] a transformação em configuração significa que aquilo que era antes não é mais” (Gadamer, 2005, p. 166). Pois, “[...]
aquilo que se modifica permanece e continua sendo o mesmo. Mesmo que se modifique totalmente, modifica-se algo nele” (Gadamer, 2005, p. 166).

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uma dada perspectiva, porque a per- que o perguntar pela coisa mesma universal, mas como um modo de ser
gunta rompe, de certo modo, o ser do evidencia o ser em devir. No caso efeitual. Nesse sentido, as palavras
interrogado, colocando em suspenso do humano, o humano como projeto. de Gadamer são bem ilustrativas,
a realidade, o próprio ser. É como se a Por conseguinte, o sentido do que quando afirma que
pergunta rompesse o círculo vicioso. é correto deve, necessariamente,
E, sem destruir o círculo, oxigena-o, corresponder à orientação traçada A experiência só se atualiza nas ob-
reconfigura-o, transforma-o em cír- pela pergunta, acima de tudo, pela servações individuais. Não se pode
conhecê-la numa universalidade pré-
culo virtuoso6, produtivo. coisa perguntada na indicação da
via. É nesse sentido que a experiência
Para usar a expressão gadame- pergunta. Mas sabemos que uma per- permanece fundamentalmente aberta
riana, a experiência do perguntar e gunta não é pergunta se se constituir para toda e qualquer nova experiência
do ter que responder em uma dada apenas como puro conteúdo ou como – não só no sentido geral da correção
direção provoca uma transformação pura forma.8 É preciso que se efetive dos erros, mas porque a experiência
em configuração de quem dela parti- como conjugação entre conteúdo e está essencialmente dependente de
cipa. Mas para que isso aconteça, é forma numa dada direção. Portanto, constante confirmação, e na ausência
dessa confirmação ela se converte
necessário que haja intencionalidade intencionalmente colocada desde um
necessariamente noutra experiência
na pergunta. Assim, o que interpela o horizonte.9 Do contrário, não ostenta diferente (Gadamer, 2005, p. 460).
ser é a direção da pergunta que exige abertura e decisibilidade, perde-se
uma resposta, pois, no seu sentido no vazio. O mesmo acontece com Gadamer proporciona, com seus
profundo, coloca em suspenso o a resposta; ela necessita articular estudos, a compreensão de que a
interrogado, convocando-o. Dessa conteúdo e forma, de maneira in- experiência, que traz em sua estru-
forma, o sentido do perguntar é tencional, tendo por referência o tura o jogo de pergunta e resposta,
colocar em aberto, em suspenso a horizonte da pergunta. efetiva-se como diálogo, como
coisa, ela mesma, equilibrando os É no jogo estrutural do perguntar acontecer singular “[...] em que o
prós e os contras. Porém, não pro- e do responder que a experiência homem se torna consciente de sua fi-
vocando movimento de resposta, se efetiva como diálogo profundo, nitude” (Gadamer, 2005, p. 467). Na
não se configura o jogo, visto que a visto que “a dialética da experiência experiência, a própria consciência
experiência em sua totalidade é um tem sua consumação, não num saber se configura como histórica, como
jogo que depende de uma resposta concludente, mas nessa abertura à consciência efeitual, ultrapassando
para realizar-se em plenitude e con- experiência que é posta em funcio- a distinção estética, ou seja, a pura
verter-se em nova pergunta. E essa namento pela própria experiência” consciência e a pura sensibilidade.
realização somente ocorre à medida (Gadamer, 2005, p. 465). A experi- Assim, a verdadeira consciência, a
que o sentido da resposta plenifica ência, todavia, não é uma experiên- consciência efeitual, sabe-se expe-
a pergunta, gerando possibilidades, cia do âmbito puramente particular riência de alteridade, do outro e do
novas perguntas.7 Abrindo-se em um e/ou da pura abstração, e sim, por passado em si mesma, sabe-se como
novo perguntar, a resposta à pergunta ser ontológica, é singular. Por isso, projeto, como acontecer histórico.
anterior constitui a perspectiva, já participa tanto do particular como do Isso é possível pela experiência

6
“Embora possa ser tolerado, o círculo não deve ser degradado a círculo vicioso. Ele esconde uma possibilidade positiva do conhecimento mais originário,
que, evidentemente, só será compreendida de modo adequado quando ficar claro que a tarefa primordial, constante e definitiva da interpretação
continua sendo não permitir que a posição prévia, a visão prévia e a concepção prévia (Vorhabe, Vorsicht, Vorbegriff) lhe sejam impostas por intuições
ou noções populares. Sua tarefa é, antes, assegurar o tema científico, elaborando esses conceitos a partir da coisa, ela mesma (Gadamer, 2005, p. 355).
7
“La dialéctica de pregunta y respuesta consiste en que, en verdad, cada pregunta vuelve a ser ella misma una respuesta que motiva una nueva
pregunta. De este modo, el proceso de preguntar y responder apunta a la estructura fundamental de la comunicación humana, la constitución
originaria del diálogo. Ella es el fenómeno nuclear del comprender humano” (Gadamer, 2006, p. 187).
8
De outra forma, a própria obra de arte só é obra na articulação entre o impulso formal e o impulso sensível. O impulso lúdico “[...] aspira a superar
o tempo no tempo e combinar ao ser absoluto o devir, a modificação à identidade” (Schiller, 1991, p. 86). Conjuga e regra o impulso físico e moral, na
medida em que torna contingente tanto a nossa disposição material quanto a nossa disposição formal, uma vez que o homem não é exclusivamente
matéria e nem exclusivamente espírito, mas a conjugação de ambos na e pela razão. Assim, a beleza para Schiller configura-se como a efetivação
plena da humanidade possível pelo impulso lúdico.
9
Horizonte é entendido, aqui, nos termos de Husserl e também de Heidegger, como um halo que se abre revelando o ser-aí. “Horizonte é o âmbito
de visão que abarca e encerra tudo o que pode ser visto a partir de um determinado ponto” (Gadamer, 2005, p. 399). É antes de tudo algo no qual
trilhamos nosso caminho e que conosco faz caminho. Isso implica dizer que o horizonte do presente não se faz à margem do passado, mas como
168 passado, em perspectiva. “Não existe um horizonte do presente por si mesmo, assim como não existem horizontes históricos a serem conquistados.
Antes, compreender é sempre o processo de fusão desses horizontes presumivelmente dados por si mesmos. [...] A vigência da tradição é o lugar
onde essa fusão se dá constantemente, pois nela o velho e o novo sempre crescem juntos para uma validez vital, sem que um e outro cheguem a
se destacar explícita e mutuamente” (Gadamer, 2005, p. 404-405, a ênfase é nossa). Nesse sentido, “uma pergunta sem horizonte acaba no vazio”
(Gadamer, 2005, p. 475).

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O diálogo como modo de ser da experiência estética e da educação em Hans-Georg Gadamer

estética, que, colocando em jogo o compreendido é linguagem” (Gada-


não se oferece livre e indeterminada à
ser de cada um, e de modo bem parti- interpretação que vem da disposição
mer, 2005, p. 612, grifo do original).
cular, possibilita a autocompreensão, de ânimo, mas nos interpela com sig- E justamente, porque é alteridade,
de onde decorre a formação como nificados bem determinados. E o que revela o não ser daquilo que sou, ao
autoformação. Isso porque, há de maravilhoso e misterioso na mesmo tempo, minha completude
arte é que essa interpretação determi- e incompletude chamando ao diá-
[...] todo aquele que faz a experiência nada não representa um grilhão para logo, ao devir como possibilidade.
da obra de arte acolhe em si a plenitu- nosso ânimo, mas justamente abre o Por ser interpeladora, a arte exige
de dessa experiência, e isto significa, espaço de jogo da liberdade lúdica de
de nós participação, provocando na
acolhe-a no todo de sua autocompre- nossa capacidade de conhecimento
(Gadamer, 2005, p. 94). articulação entre passado e futuro,
ensão, onde a obra significa algo para
ele. Penso até que a realização efetiva no presente, a experiência estética
da compreensão que abarca, desse Toda linguagem da arte é exigente como ser-aí, como consciência efei-
modo, também a experiência da obra e interpeladora, porque é direta, tual. Assim, “con cada presente, no
de arte ultrapassa todo historicismo intencional em seu modo singular sólo se abre un horizonte de futuro,
no âmbito da experiência estética sino que se hace jugar al horizonte
de ser. Não se oferece de forma li-
(Gadamer, 2005, p. 16-17). del pasado. Sin embargo, es menos
vre, desinteressada e indeterminada
à interpretação, mas como ser-aí memoria y recuerdo retrospectivo
Mas é importante ter claro que as que experiencia presente” (Gadamer,
atinge a disposição de ânimo com
perguntas e as respostas efetivam-se 2006, p. 282). Por assim dizer, o
o seu modo de ser na medida em
como linguagem articulada ontolo- que há de comum é a vida própria
que emerge numa dada perspectiva,
gicamente revelando o modo de ser que a obra traz em si pela criação,
como fenômeno. Assim, ao ressaltar
da arte e o modo de ser da educação: o instante criador10 e a capacidade
dados aspectos e suprimir outros,
o diálogo. interpelativa de se fazer reconhecer:
a obra atinge-nos, revelando o ser
como possibilidade a nós e aos a autocriação pela autoformação.
A linguagem da arte Da linguagem não escapamos,
outros. Dessa forma, “[...] todo o
encontro com a linguagem da arte não nos abstraímos. É nela que
Mas o verdadeiro acontecer só se
torna possível pelo fato de a palavra é o encontro com um acontecimento existimos, que somos. Isso implica
que chega a nós como tradição e que inacabado, sendo ela mesma parte aceitar que “[...] não se pode olhar o
devemos ouvir nos atinge realmente, desse acontecimento” (Gadamer, universo da linguagem de cima para
como se fosse dirigida a nós e se 2005, p. 151, grifo do original). Ou baixo, pois não existe nenhum lugar
referisse a nós mesmos (Gadamer, seja, a linguagem da obra de arte fora da experiência de mundo que se
2005, p. 595-596). dá na linguagem, a partir donde fosse
depende do seu modo de ser e, por
isso, nos afeta, o que também ocorre possível converter-se a si mesmo em
Embora a arte se constitua em com os humanos. objeto” (Gadamer, 2005, p. 584).
diferentes modos de ser, todas as A linguagem da arte nos interpela, Assim, ter linguagem é ter mundo,
artes têm em comum o fato de, com provoca, na medida em que, como porque “o caráter de linguagem
seu modo de ser, com sua linguagem, o ser-aí em manifestação, lança-nos desse vir à palavra é o mesmo que
interpelar, provocar o encontro com no jogo, em diálogo profundo com a o da experiência humana de mundo
o inacabado. Assim, a experiência obra, com o outro. Mas por que a lin- como tal” (Gadamer, 2005, p. 589).
estética evidencia o ser como possi- guagem da arte interpela? Porque é o É a própria experiência que se efeti-
bilidade, como devir, no fio condutor ser-aí em manifestação que, enquan- va como experiência da linguagem,
da linguagem. Isso porque to modo de ser, é mensagem que nos na linguagem, na medida em que
alcança, interroga, porque enquanto possibilita dizer o mundo, perguntar,
[...] a linguagem da arte é uma lingua-
tal somos linguagem. Aqui tem lugar realizar a experiência. Ela, a lingua-
gem exigente e interpeladora. A arte
a famosa frase: “O ser que pode ser gem, também é a própria experiência

10
“El uso de la palabra ‘creativo’ resulta característico de esto. Retiene la resonancia del concepto religioso de creación, que no era un hacer en el
sentido del artesano. En el principio era el verbo, el verbum creans. Apunta en la misma dirección otro hecho semántico enlazado con la palabra
‘obra’. Encontramos primero esta palabra en el entorno de lo que en griego se llama técnica, techné. No se quiere decir con ello el hacer y producir
mismo, sino la capacidad espiritual de idear, planear, bosquejar; en suma, el saber que dirige el hacer. En este contexto, puede decirse siempre que
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el producir lleva a cabo una obra, el érgon” (Gadamer, 2006, p. 285-286). Diferentemente do artesão, o artista produz algo em si e está somente
para ser contemplado. “Lo expone, o quisiera verlo expuesto, y eso es todo” (Gadamer, 2006, p. 286). A obra é convincente por si e produz uma
impressão permanente, “[...] como la obra de un instante creador” (Gadamer, 2006, p. 286).

volume 17, número 2, maio • agosto 2013


Clenio Lago

de encontrar a palavra capaz de a linguagem da arte é um acontecer A pertença mútua significa sempre
tornar visível o que é real, acima inconcluso, o que nos remete ao di- e ao mesmo tempo poder ouvir uns
da consciência individual de cada álogo, à verdade como histórica, ao aos outros” (Gadamer, 2005, p. 472).
um. “[...] na linguagem é o próprio ser humano como projeto inacabado, Exige o reconhecimento de que o
mundo que se representa” (Gadamer, ao desafio da autoformação em que outro, a tradição, o eu, o presente te-
2005, p. 581). Por isso, educar é educar-se. nham algo a dizer. Mais do que isso,
que nenhum indivíduo, em sua sub-
cada palavra irrompe de um centro O diálogo como modo jetividade, contém a verdade, e sim
(Mitte) e se relaciona com um todo, de ser da experiência que a verdade emerge no jogo, como
e só é palavra em virtude disso. Cada histórica. Por isso “[...] a capacidade
palavra faz ressoar o conjunto da lín-
estética
constante de voltar ao diálogo, isto
gua a que pertence, e deixa aparecer o
El encuentro con una gran obra de é, de ouvir o outro, parece-me ser
conjunto da concepção de mundo que
arte es siempre, diría yo, como un di- a verdadeira elevação do homem a
lhe subjaz. Por isso, como acontecer
álogo fecundo, un preguntar y un res- sua humanidade” (Gadamer, 2004,
de seu momento, cada palavra deixa
ponder, o un ser preguntado y tener p. 251). Ou seja, é a capacidade de
que se torne presente também o não
que responder; un diálogo verdadero,
dito, ao qual se refere respondendo e efetivar-se no acontecer do ser como
del cual algo ha salido y ‘permanece’
indicando. A ocasionalidade do falar possibilidade pelo reconhecimento.
(Gadamer, 2006, p. 193).
humano não é uma imperfeição even- Podemos afirmar que o diálogo
tual de sua capacidade expressiva. É, se efetiva como o jogo de perguntas
antes, a expressão lógica da virtua- Assim, considerando que a es-
e respostas, pois tem imbricado em
lidade viva do falar que, sem poder trutura da experiência é o jogo do
dizê-lo inteiramente, põe em jogo
seu ser a estrutura do perguntar e do
perguntar e do responder que se
todo um conjunto de sentido. Todo responder. Enquanto tal, o jogo é o
efetiva na linguagem interpeladora
o falar humano é finito no sentido modo de ser da experiência estética
da arte, sua dimensão ontológica
de que abriga em si uma infinitude em sua dimensão ontológica. Por
não somente emerge com o retorno
de sentido a ser desenvolvida e in- isso, ultrapassa a subjetividade de
terpretada (Gadamer, 2005, p. 591). às coisas mesmas, mas é no próprio
cada jogador e ganha vida própria,
acontecer da palavra que, como liberando o ser como devir, visto não
Temos com Gadamer que o diálogo, faz-se o sentido. Por isso, ter um telos definido. É no espírito
fundamento mais determinante do a experiência é também a experiên- do diálogo como jogo que
fenômeno hermenêutico é, preci- cia da linguagem e se efetiva como
samente, “[...] a finitude de nossa diálogo no horizonte do perguntar [...] a experiência se instaura como
experiência histórica” (Gadamer, e do responder. À medida que vai um acontecer que não tem dono e
2005, p. 590) expressa na lingua- colocando à prova os argumentos, que a importância particular dessa
as respostas e a própria pergunta, a ou daquela observação como tal não
gem, lugar onde não somente se
realidade se revela em perspectiva é decisiva para sua instauração, mas
reproduz a estruturação do ser, diz-se que tudo acaba se ordenando de um
o ser, mas se efetiva como ser. Nesse e a verdade emerge como histórica.
modo que não pode ser compreendi-
sentido, a linguagem representa, “Opondo-se à rigidez das opiniões, o do. A imagem mantém essa peculiar
ao mesmo tempo, a experiência da perguntar põe em suspenso o assunto abertura onde se adquire a experiên-
finitude e da infinitude. É tempora- com suas possibilidades” (Gadamer, cia, nisto ou naquilo, de repente, de
lidade, exatamente, porque existe 2005, p. 479) conferindo espírito improviso, e, no entanto, não sem
uma infinitude de estruturações próprio ao diálogo. preparação; esta continua válida até
Mas, a fim de que o diálogo se que apareça outra experiência nova,
da linguagem humana que vem à
determinante, não somente para isto
fala em decorrência do fato de a efetive, é necessário reconhecimento ou para aquilo mas para tudo que
língua estar em constante formação mútuo, participação dos envolvidos, seja desse gênero (Gadamer, 2005,
e desenvolvimento como espírito abertura por parte dos que parti- p. 461).
humano em meio as experiências. cipam ou venham a participar do
E esse jogo articular entre finitude diálogo. De maneira fundamental, os Dessa forma, em função do fato
e infinitude é o modo de ser próprio participantes devem estar dispostos de a experiência não ter, previa-
da linguagem, o meio pelo qual o ser a deixar valer algo contra si, e isso mente, um ou outro fator decisivo,
170 humano se efetiva como experiência a obra de arte cumpre. “Sem essa somente se efetiva quando coloca em
histórica, como efeitualidade e tem abertura mútua, tampouco pode jogo, de modo particular, o modo de
seu ser. Enfim, todo o encontro com existir verdadeiro vínculo humano. ser de quem participa, desde o viger

Educação Unisinos
O diálogo como modo de ser da experiência estética e da educação em Hans-Georg Gadamer

do outro e do eu. Por conseguinte, o de a estética ampliar nossa compre-


consequência ela a pensa, como
que vem à tona no devir do jogo, da vimos, como a descontinuidade de vi-
ensão e nos colocar diante do outro.
experiência é o ser como possibilida- vências. Mas nós consideramos essa [...] A experiência da arte nos abre
de, é o ser-aí, visto que o jogo sem- consequência inaceitável (Gadamer, um mundo, um horizonte, uma am-
pre ultrapassa a pura subjetividade 2005, p. 152-153). pliação de nossa autocompreensão,
e a pura objetividade, efetivando-se justamente porque ela revela o ser”.
como compreensão. Assim, a experiência estética Promove a autoformação, na medi-
enquanto ontológica é formativa da em que possibilita a experiência
A formação como na medida em que é autoformativa. profunda de si, de quem a realiza,
autoformação pelo Portanto, é uma experiência que na relação consigo, com o outro e
diálogo exige “reconhecer no estranho o que com o mundo, pela promoção e ins-
é próprio, familiarizar-se com ele, talação do jogo dialógico. Acontece
[...] todo aquele que faz a experiência eis o movimento fundamental do dessa forma, por pressupor uma dada
da obra de arte acolhe em si a pleni- espírito, cujo ser é apenas o retorno abertura e receptividade a novas
tude dessa experiência, [...] acolhe-a a si mesmo a partir do ser-outro” ideias, a novas possibilidades, mas
no todo de sua autocompreensão, também uma certa identidade. Para
(Gadamer, 2005, p. 50). Isso mostra
onde a obra significa algo para ele
os limites das pretensões das racio- Gadamer, significa que quem entra
(Gadamer, 2005, p. 16-17).
nalidades técnicas em educação, ou em jogo com a obra é convocado ao
seja, a de formar um ser específico, ser como devir, à possibilidade de
Como a experiência estética
previamente planejado. transformar-se em outro. Contudo, é
humana consiste em ser “[...] un en-
No jogo intersubjetivo, a forma- importante destacar que a plenitude
cuentro consigo mismo” (Gadamer,
ção requer o retorno a si e não o alhe- da experiência estética como auto-
2006, p. 60) descobrindo-se em devir
amento total ou a pura subjetivação formação somente é possível de ser
na sua finitude, ela constitui-se na
que constituem a distinção estética. atingida no jogo intersubjetivo que
possibilidade da grandeza humana,
Requer que “[...] aquele que faz a ocorre no viger do outro e do eu,
um meio capaz de possibilitar a hu-
experiência da obra de arte acolhe pelo diálogo. É na experiência que
manidade no homem. Por isso, como
em si a plenitude dessa experiência, fazemos com a obra, mas também
a obra de arte diz algo a cada um, que fazemos entre nós, com o mun-
e isto significa, acolhe-a no todo de
defendemos, com base nos argumen- do, no mundo que pode se efetivar
sua autocompreensão, onde a obra
tos de Gadamer, que a essência do significa algo para ele” (Gadamer, a formação como autoformação, na
processo formativo está em colocar 2005, p. 16-17). Dessa forma, na sua mais alta acepção.
o modo de ser das pessoas em jogo, experiência estética, o ser humano As proposições de Gadamer so-
levando-as a confrontar-se consigo experimenta-se a si mesmo como bre a obra de arte como jogo, cujo
mesmas pelo diálogo profundo. ser de relação em relação. Ao mesmo modo de ser é o diálogo, remetem,
A experiência estética rompe tempo em que a experiência estética essencialmente, à articulação entre
a formalidade, libera a lógica das recoloca o problema da finitude experiência estética e formação
relações rigidamente estruturadas e como uma das condições do ser, pos- evidenciando o humano como um
faz jus ao ser esquecido, recolocando sibilita a compreensão da realidade acontecer originário. Neste aconte-
a pergunta pelo devir, pois como um acontecer temporal em cer, o jogo de perguntas e respostas
que a finalidade da educação emerge é central, pois o seu sentido mais
a experiência da arte reconhece, de como um telos em redefinição. originário é o que se expressa na
si mesma, que não consegue apre-
Por conseguinte, a verdadeira forma medial como linguagem. Isso
ender num conhecimento definitivo
a verdade consumada daquilo que
experiência, aquela na qual o ho- implica afirmar que a subjetividade
experimenta. Por assim dizer, aqui mem se torna consciente de sua se estabelece no próprio jogo e não
não existe nenhum progresso absolu- finitude e se efetiva como humano na consciência dos jogadores, muito
to e nenhum esgotamento definitivo é a “[...] experiência da própria menos no comportamento destes,
daquilo que se encontra numa obra historicidade” (Gadamer, 2005, pois o jogo configura-se como diálo-
de arte. A experiência da arte sabe p. 467), porque nos ensina a reco- go profundo entre os diferentes mo-
disso por si mesma. Mesmo assim nhecer o real, à medida que retoma o dos de ser, sendo de grande impor-
importa não aceitar simplesmente verdadeiro ser. Conforme Hermann tância o jogo que se estabelece nos 171
o que a consciência estética pensa
(2005, p. 39-40), “de modo notável, ambientes escolares, familiares, en-
ser sua experiência, pois em última
[Gadamer] aponta a possibilidade tre outros. Assim, falar de formação

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Clenio Lago

é falar de formação humana em meio de formação como autoformação por meio da experiência da obra de
a processos intersubjetivos, em que em que educar é educar-se, processo arte, possibilitou o acesso à verdade
os sujeitos fazem a experiência de possível no âmbito do jogo inter- como uma verdade histórica. De
finitude no jogo com a obra, com o subjetivo. Assim, no diálogo que outra forma, mediante a experiên-
outro, consigo e com o mundo, no tem suas exigências específicas, o cia estética, viabilizou uma melhor
mundo. É assumir a formação como modo de ser dos participantes entra compreensão do fenômeno educativo
autoformação, situação em que não em jogo e a realidade se efetiva como um processo autoformativo
há propriamente alguém que ensina como acontecer que não tem um ontológico capaz de efetivar o ser
e alguém que propriamente aprende fim previamente definido, mas o como devir.
numa relação de causa e efeito, mas fim vai sendo delineado no espírito
um aprendizado singular no jogo co- do jogo. Portanto, o diálogo que Referências
mum. Aprendizado este ou formação permite a presença dos participantes
esta que depende muito do espírito como modo de ser instala um círcu- GACKI, S.R. S. 2006. Perspectiva do diálogo
em Gadamer: a questão do método. Cad-
do jogo instalado e promovido lo virtuoso, capaz de ultrapassar o
ernos IHU, 4(16):1-26.
nos ambientes educacionais, tendo abismo estrutural das epistemologias
GADAMER, H.-G. 2005. Verdade e método I:
como regras o reconhecimento da tradicionais, que no âmbito da arte traços fundamentais de uma hermenêutica
diferença, a inter-relação respeitosa Gadamer denominou como distinção filosófica. 7ª ed., Petrópolis/São Paulo,
não autoritária, a disposição para estética. Em sentido mais pontual, Vozes/Editora Universitária São Fran-
o diálogo e a consciência efeitual. as contribuições de Gadamer possi- cisco, 631p.
Assim estes ambientes, dentre eles bilitam uma maior compreensão da GADAMER, H.-G. 2004. Verdade e método
as escolas, deveriam garantir e pro- experiência estética na formação, II: complemento e índice. 2ª ed., Petrópo-
lis/São Paulo, Vozes/Editora Universitária
mover o ser como devir, em sua mais ao mesmo tempo em que chamam
São Francisco, 621 p.
alta acepção, pelo jogo dialógico no atenção para a necessidade de efe-
GADAMER, H.-G. 2006. Estética y her-
solo comum da linguagem. tivar os processos educativos para menéutica. 3ª ed., Madrid, Espanha,
além da estrutura habitual de ensino/ Tecnos, 307 p.
Considerações finais aprendizagem, da relação profes- HERMANN, N. 2005. Ética e estética: uma
sor/aluno. Conclama os ambientes relação quase esquecida. Porto Alegre,
O pensamento gadameriano reco- educacionais formais tais como as EDIPUCRS, 119 p.
loca, de forma magistral, a pergunta escolas, bem como os responsáveis HERMANN, N. 2010. Autocriação e hori-
pelo sentido da formação em meio zonte comum: ensaios sobre a educação
diretos por estas, a assegurar e pro-
ético-estética. Ijuí, Unijuí, 171 p.
a um contexto em que a formação mover experiências dialógicas.
HEIDEGGER, M. 1995. Ser e tempo.
está alocada a um racionalismo Enfim, a compreensão profunda Petrópolis, Vozes, 372 p.
que proporciona a vinculação da da experiência estética, possível me- MATTOS, O. 1993. Escola de Frankfurt:
formação à possibilidade de formar diante a experiência da obra de arte, luzes e sombras do iluminismo. São Paulo,
um ser desejável mediante o uso de cujo modo de ser é o jogo dialógico, Moderna, 127 p.
racionalidades técnicas. Ao mesmo colocou em xeque a distinção esté- NODARI, P.C. 1999. A emergência do individ-
tempo, representa uma possibilidade tica, teoria que separa a consciência ualismo moderno no pensamento de John
de ultrapassar tal postura mediante a Locke. Porto Alegre, EDIPUCRS, 176 p.
estética da experiência da obra de
SCHILLER, F. 1991. Cartas sobre a educa-
experiência estética como experiên- arte, abstraindo-se até de si mesma.
ção estética da humanidade. São Paulo,
cia ontológica. Tornou visível a dimensão ontológica EPU, 151 p.
Seu argumento permite evi- da obra de arte libertando a educação
denciar o significado profundo da da ideia de verdade absoluta ou do Submetido: 01/10/2011
experiência estética nos processos puro perspectivismo, à medida que, Aceito: 18/02/2013

Clenio Lago
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172 Catarina
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