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Filosofia – 11º Ano

Lógica Informal

Argumentos não Dedutivos


e Falácias Informais
Prof. Daniela Morais
«Os argumentos são essenciais porque constituem uma forma de tentarmos descobrir quais os melhores
pontos de vista. Nem todos os pontos de vista são iguais. Algumas conclusões podem ser defendidas com
boas razões e outras com razões menos boas. (…) Precisamos, por isso, de apresentar argumentos para
sustentar diferentes conclusões e, depois, avaliar tais argumentos para ver se são realmente bons. (…) Um
argumento é uma forma de investigação. Uma vez chegados a uma conclusão, os argumentos são a forma
pela qual a explicamos e defendemos. Um bom argumento (…) oferece razões e dados suficientes para que
as outras pessoas possam formar a sua própria opinião. Ter opiniões fortes não é um erro. O erro é não ter
mais nada.»
Anthony Weston, A Arte de Argumentar
1 Argumentos não Dedutivos

Quais são os principais argumentos não dedutivos?


Argumentos não Dedutivos

Generalização
Indutivos
Previsão
Por Analogia
A determinação da sua validade implica
inspecionar o conteúdo do argumento.
De Autoridade
Essa validade é não dedutiva, pois a
verdade das premissas torna apenas
provável (e não necessária) a verdade da
conclusão.
2 Argumentos Indutivos

Argumentos Indutivos
Um argumento diz-se indutivo quando algo que está para além do conteúdo das premissas é de alguma
forma apoiado por elas ou é provável em consequência destas.

1. Argumento Indutivo por Generalização


«Alguns S são P.
Logo, todos os S são P.»
Exemplo:
Suponhamos a proposição particular «Todos os corvos observados até agora são pretos.»
Se todos os corvos observados até agora são pretos,
então induz-se que
As inferências indutivas são sempre
extrapolações: a conclusão ultrapassa as
premissas, no sentido em que a verdade
conjunta das premissas não garante a
Todos os corvos são pretos.
verdade da conclusão.
Corvos Observados
(amostra)
É sempre logicamente possível, mesmo
Generalização quando é improvável, que as premissas
Particular (tipo de indução) Universal sejam verdadeiras e a conclusão falsa.
2 Argumentos Indutivos
Para distinguir facilmente um argumento indutivo por generalização de um
2. Argumento Indutivo por Previsão argumento indutivo por previsão é necessário não esquecer que nos
primeiros as premissas são menos gerais do que a conclusão, enquanto que
«Alguns S foram sempre P. nos segundos as premissas são casos observados no passado e a conclusão é
um caso particular futuro.
Logo, todos os S serão P.»
Força dos Argumentos Indutivos
As previsões são argumentos indutivos Para garantirmos que os argumentos indutivos são fortes, isto é,
em que as premissas são casos para acautelarmos que o vínculo que une premissas e conclusão
observados no passado e a conclusão é está baseado num forte grau de probabilidade:
um caso particular projetado no futuro.
• A amostra deve ser ampla.

• A amostra deve ser relevante e representativa do universo em questão.


Exemplo • A amostra não deve omitir informação relevante.

Previsão São argumentos bons, ou fortes, aqueles em que a conclusão tem um bom

Até hoje não foram observados lobos que suporte de justificação que torna altamente improvável que a conclusão
não fossem carnívoros. Logo, o próximo venha a revelar-se falsa.
lobo que observarmos será carnívoro. São argumentos maus, ou fracos, aqueles em que a probabilidade da
conclusão ser verdadeira é reduzida.
2 Argumentos Indutivos

Exemplo de um mau argumento indutivo por generalização:

«-Hoje é a sexta noite em que estamos juntos. Demo-nos muito bem. Não
há dúvida que formamos um bom par.
Polly: Como podes afirmar isso baseado em apenas cinco encontros?»

in M. Sulman, As Calcinhas Cor de Rosa do Capitão

«Uma vez que tu não sabes falar chinês, a Leonor não sabe falar chinês e a
Maria não sabe falar chinês, posso concluir que ninguém nesta turma sabe
falar chinês.»
2 Argumentos Indutivos

Exemplo de um mau argumento indutivo por generalização:

Alguns muçulmanos são terroristas. Logo, Alguns negros são criminosos. Alguns sem-abrigo são ladrões.
todos os muçulmanos são terroristas. Logo, todos os negros são criminosos. Logo, todos os sem-abrigo são ladrões.
3 Argumentos por Analogia

Argumentos por Analogia


Um argumento por analogia estabelece uma comparação entre duas realidades, comparação essa
baseada em caraterísticas comuns.

Se duas coisas são semelhantes, sob alguns aspetos, e uma delas tem uma dada caraterística então
conclui-se que, muito provavelmente, a outra também terá essa mesma caraterística.

Exemplo:
Um batalhão é como uma equipa de Um batalhão é como uma equipa de
futebol. Os soldados, tal como os jogadores futebol. Os soldados, tal como os jogadores
de futebol, têm de evidenciar espírito de de futebol, têm de evidenciar espírito de Premissas

Argumentar por
equipa, resistência física, disciplina, etc. equipa, resistência física, disciplina, etc. verdadeiras

analogia é Além disso, os soldados de um batalhão Além disso, os soldados de um batalhão


argumentar que, uma têm de obedecer às ordens do têm de saber manejar uma ar de fogo.
vez que A e B são
idênticos em alguns
comandante. Logo, podemos concluir que, Logo, podemos concluir que, muito
aspetos conhecidos, muito provavelmente, os jogadores de uma provavelmente, os jogadores de uma Conclusão
então sê-lo-ão equipa de futebol têm de obedecer às equipa de futebol têm de saber manejar falsa
também noutros.
ordens do seu treinador. uma arma de fogo.
Bom Mau
Argumento Argumento
3 Argumentos por Analogia

Força dos Argumentos por Analogia


Argumentar por analogia pode parecer, à
primeira vista, uma forma de raciocínio
segura, mas para que um argumento por
analogia possa ser considerado forte
devemos poder responder
afirmativamente às duas primeiras
perguntas do conjunto que se segue e
negativamente à terceira.

• As semelhanças apontadas são


relevantes para a conclusão?

• A comparação tem por base um


número razoável de semelhanças?

• Não haverá diferenças importantes


entre o que está a ser comparado?
3 Argumentos por Analogia
Exemplo de um mau argumento por analogia:

https://www.youtube.com/watch?v=po0jY4WvCIc
4 Argumentos de Autoridade

Argumentos de Autoridade
Um argumento de autoridade é um argumento baseado na opinião de uma figura de autoridade na matéria em questão.

«Alguém [figura de autoridade] disse que P.


Logo, P é verdade.»

Força dos Argumentos de Autoridade


A maior parte do conhecimento que temos de física, matemática, história,
economia ou qualquer outra área baseia-se no trabalho e opinião de
especialistas. Os argumentos de autoridade resultam desta necessidade de
nos apoiarmos nos especialistas. Por isso, bom argumento de autoridade
tem de obedecer às seguintes regras:

1) A autoridade invocada tem de ser um especialista da matéria em causa;


A Amnistia Internacional, organização 2) Os especialistas da matéria em causa não podem discordar
significativamente entre si quanto à afirmação em causa.
não governamental de defesa dos
3) Só podemos aceitar a conclusão de um argumento de autoridade se não
direitos humanos, afirma que alguns existirem outros argumentos mais fortes ou de força igual a favor da
presos são torturados no México. conclusão contrária.
Logo, alguns presos são torturados no 4) Os especialistas da matéria em causa, no seu todo, não podem ter fortes
México. interesses pessoais na afirmação em causa.
4 Argumentos de Autoridade

Exemplo de um bom argumento de autoridade:

Para que um argumento de autoridade possa ser considerado forte:

• As fontes devem ser citadas;


• As fontes devem ser qualificadas na matéria em questão;
• As fontes devem ser imparciais;
• Deverá existir acordo relativo à informação.

«De acordo com dados da UNICEF, 3.3 milhões de crianças


na Síria não têm acesso à educação. Assim sendo,
podemos concluir que mais de metade das crianças sírias
não frequentam uma escola.»

Exemplo de um mau argumento de autoridade:


https://www.youtube.com/watch?v=tV8Hi47I9NQ
https://www.youtube.com/watch?v=M7YkZtERIDM

FALÁCIA DO APELO À AUTORIDADE


5 Falácias Informais

As falácias formais são erros de raciocínio que dependem do conteúdo ou matéria do


argumento.

Generalização Falsa Apelo à


Precipitada Analogia Autoridade

Petição de Falso Apelo à


Princípio Dilema Ignorância

Bola de Boneco de
Ad Hominem
ou Contra o Homem Neve Palha
ou Derrapagem ou Espantalho
5 Falácias Informais

Também conhecida como raciocínio circular, ocorre nos argumentos cuja conclusão
Petição de já está contida nas premissas, isto é, quando usamos como prova aquilo que
Princípio estamos a tentar provar.

Exemplo: 1. «O polícia multou-me porque não gosta de mim. E a prova de que ele não gosta de mim é ter-me multado.»

2. «Não falta ninguém uma vez que está cá toda a gente.»

3.« Uma pessoa odeia pessoas de outras raças porque é racista.»

4. «Fumar é nocivo porque faz mal à saúde.»


5 Falácias Informais

A falácia do falso dilema ocorre quando o argumento apresenta só as alternativas


Falso Dilema que interessam ao orador, embora haja de facto mais, que são omitidas.

Exemplo:
1. «Se não estás connosco, estás contra nós.»
2. «Os livros da Biblioteca de Alexandria ou contêm os princípios do Alcorão ou não. Se contêm os princípios do Alcorão, são supérfluos e
devem ser queimados. Se não contêm os princípios do Alcorão, são nocivos e, se são nocivos, devem ser queimados. Portanto, os livros da
Biblioteca de Alexandria devem ser queimados.»
Califa Omar, que após ter conquistado Alexandria, cerca de 642 d.C., mandou incendiar a sua biblioteca.
5 Falácias Informais

O argumentum ad ignorantiam ocorre quando alguém defende que determinada


Apelo à Ignorância afirmação deve ser verdadeira só porque não há provas em contrário ou, ao
invés, deve ser falsa porque ninguém conseguiu provar a sua veracidade.

Exemplo:
1. «Nunca ninguém provou que Deus não existe. Logo, Deus existe.»
2. «Não há provas da existência de vida noutros planetas. Logo, os extraterrestres não existem.»
.
5 Falácias Informais

Ocorre quando, em vez de apresentar razões pertinentes contra uma opinião expressa
Ad Hominem por alguém, se ataca a pessoa que a defende. Assim, o argumento é rejeitado com base
ou Contra o Homem em qualquer dado sobre o respetivo autor, irrelevante para o que se pretende provar,
como a sua religião, condição moral ou ideias políticas.
Exemplo:
1. «Einstein criou a teoria da relatividade. Ora, ele era judeu e socialista. Logo, a teoria é falsa.»
2. «Nietzsche morreu louco. Assim sendo, não podemos confiar em nenhuma das suas obras.»

https://www.youtube.com/
watch?v=mWQBO9MyM-M
5 Falácias Informais

Ocorre quando se pretende mostrar que uma determinada proposição é inaceitável


Bola de porque aceitá-la arrastaria um conjunto de implicações com um resultado final
Neve inaceitável. Na verdade, é improvável que se registe a cadeia de implicações ou
ou Derrapagem
consequências referidas.

Exemplo:
1. «Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é
difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu
dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te
vires para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as
dívidas.»
2. «Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não
demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e
então começaremos a restringir todos os nossos direitos.
Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não
devemos banir as armas automáticas.» https://www.youtube.com/watch?v=kIv3m2gMgUU
5 Falácias Informais

Ocorre quando alguém, num debate, substitui, intencionalmente ou não, a posição do


Boneco de adversário por uma versão diferente e, por isso, errada, do argumento. Assim, em vez de
Palha refutar o argumento do opositor, ataca-se um argumento diferente, tendenciosamente
ou Espantalho
interpretado, e geralmente mais fraco do que aquele que foi realmente defendido.

Exemplo: Quando, em 1858, Charles


Darwin publicou o livro A
«João: Estou contra o acordo
Origem das Espécies houve um
ortográfico pois a meu ver a língua aceso debate entre os
defensores e os adversários
não deveria sofrer alterações
das suas ideias. Estes
impostas por um decreto. caricaturaram a ideia de que
os seres humanos e outros
Ricardo: Como podes dizer uma
primatas evoluíram a partir
coisa dessas? Então, segundo o teu de um antepassado comum
dizendo “Darwin afirma que
ponto de vista, a língua nunca pode
descendemos do macaco” e
evoluir?!» eram frequentes ironias
como “talvez os avós de Darwin
fossem macacos, os meus não”.