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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS
RIBEIRÃO PRETO
DEDIC-DISCIPLINA: DIDÁTICA GERAL
Profª Drª. Elaine
DOCENTE RESPONSÁVEL:
Assolini
elainefdoc@ffclrp.usp.br

CONCEITOS E TERMINOLOGIA

A diferenciação conceitual e terminológica se faz necessária


quando entramos no terreno da PEDAGOGIA e da DIDÁTICA.

 Educação: corresponde ao processo de


desenvolvimento individual da personalidade humana
visando o desenvolvimento de qualidades físicas,
mentais e morais e estéticas na sua relação com o meio
social. Percebe-se a amplitude da educação ao observar
que na educação se estabelece uma verdadeira
concepção e relação com o mundo quanto à idéias,
valores, ideologia, ação, política, moral, enfim educação
significa se preparar para a vida e viver.
 Ensino: envolve as ações, os métodos, os meios e a
criação de um ambiente e condições para passar
conhecimentos, estimular habilidades, gerar e mudar
atitudes.
 Instrução: refere-se ao conjunto de ações voltadas
para a formação intelectual e técnica das pessoas
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desenvolvendo capacidades e habilidades a partir de


conhecimentos sistematizados para este fim. O ensino é
concebido para dar instrução ao indivíduo.
 Pedagogia: é a área do conhecimento humano que se
preocupa em estudar e desenvolver a educação em uma
determinada sociedade, investigando e aprofundando
suas finalidades e efeitos, para que o processo de
formação dos indivíduos seja compatível com uma vida
social saudável e justa. Logo, a Pedagogia estuda e
pesquisa a educação, o ensino, a instrução e todos os
aspectos associados. A Pedagogia pode ser dividida em

subáreas do conhecimento como Teoria da

Educação, Didática, Organização Escolar e

História da Educação.

 Didática: compreende uma parte da pedagogia e


preocupa-se com os fundamentos e as condições e as
formas de aplicação da instrução de ensino. A didática
estuda a técnica de ensino em todos os seus aspectos
práticos e operacionais. Em uma definição mais simples
e romântica podemos afirmar que a didática é a arte e a
ciência de ensinar.
 Disciplina ou matéria: abrange um ramo do
conhecimento organizado, com generalizações próprias
para a exceção dos fatos relacionados e que possui um
método próprio de investigação. Exemplos: sociologia,
pedagogia, patologia, cálculo, etc.
 Área de estudo: conjunto de matérias caracterizadas
pela integração de conteúdos afins. Exemplos: Estudos
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Sociais envolvendo Geografia, História e outras


disciplinas; Estomatologia envolve todas as disciplinas
relacionadas à identificação e tratamento das doenças
presentes na boca.
 Currículo escolar: deriva da palavra latina curriculum
e significa percurso, carreira, curso, arte de correr.
Classicamente significa a relação da disciplina com seus
programas organizados de forma lógica e seqüencial,
distribuídas num período de tempo requerido para a
formação do indivíduo, em determinada área do
conhecimento humano. Ás vezes, o aluno requer a
relação de disciplinas do seu curso e conceitos obtidos,
recebendo o nome de histórico escolar.
 Programa: consiste no detalhamento do currículo
conforme a necessidade. Na rotina diária, programa
refere-se ao conteúdo ordenado seqüencialmente a ser
ministrado em uma dada disciplina. O programa acaba
sendo uma parte do currículo escolar.
 Unidade de ensino: caracteriza-se por um conjunto
lógico de aulas e atividades referentes a um tema
abrangente ou de temas distintos com pontos em
comum. A unidade de ensino está no contexto de um
programa de disciplina ou de algumas disciplinas de uma
mesma área de estudo.

O PLANEJAMENTO DIDÁTICO

E AS PERGUNTAS-CHAVES
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Planejar significa estudar, assumir uma atitude séria e curiosa


diante de um problema ou situação. O planejamento é uma
necessidade em todos os campos de atividade humana. O país, o
estado e o município têm um planejamento educacional, bem como
a universidade e a faculdade no contexto de seu projeto político-
pedagógico.
Na prática docente, o planejamento é uma constante e para
ser verdadeiro, deve ser textualizado. Para facilitar o planejamento
de sua disciplina, curso, unidade de ensino ou a aula, de forma
ordenada, responda por escrito às cinco perguntas-chaves de um
planejamento didático.
1 - O que pretendo alcançar? Ou quais são os meus
objetivos?
2 – Em quanto tempo pretendo alcançar? Ou qual a carga
horária necessária em cada etapa?
3 – O que posso fazer para alcançar o pretendido? Ou quais
as estratégias e métodos que posso utilizar?
4 - Quais os recursos necessários e disponíveis que posso
utilizar?
5 – O que e como analisar a situação a fim de verificar se o
que pretendo foi alcançado? Ou como promover a avaliação para
verificar se os objetivos foram alcançados?
O planejamento é o antídoto da rotina e da improvisação. O planejamento pode
ser denominado e caracterizado por plano de disciplina, plano de curso, plano de
unidade e plano de aula.

PLANEJANDO A MATÉRIA: PLANO DE DISCIPLINA

Ao começar uma disciplina ou curso devemos refletir: Para


que? Por que? Para quem? Quando? Como? Onde?
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Freqüentemente observa-se a referência equivocada aos


termos cursos e disciplinas como sinônimos; em outros casos
refere-se a cursos como atividades isoladas constituídas por um
conjunto de atividades, principalmente aulas teóricas, e
eventualmente práticas, desenvolvidas em um dado número de
horas contínuas ou divididas em algumas semanas ou meses.
Nesses casos, também está implicada a necessidade de um plano
de curso, sinônimo de planejamento didático.
Feitas as reflexões iniciais por escrito, vamos imaginar que a
disciplina a se planejada seja direcionada para o curso de
graduação de uma faculdade. Neste caso, todas as diretrizes do
projeto político-pedagógico da escola devem ser respeitadas e
valorizadas, afinal o conjunto determinou estas orientações,
inclusive os membros da disciplina em questão. Por exemplo, a
disciplina deve estar de acordo com o perfil profissional que a
escola queira formar para a sociedade.
A equipe de professores estabelece o conteúdo programático
a ser desenvolvido e a metodologia a ser utilizada. Faz-se muito
importante contextualizar a disciplina: o que os alunos já
aprenderam anteriormente, o que estarão aprendendo
simultaneamente e o que irão ainda aprender. A disciplina deve
estar planejada em relação ao conjunto e não em função de si
mesma ou de acordo com o pensamento único de seus
professores. A primeira etapa de um planejamento didático é o
conhecimento da realidade e isto inclui o ambiente escolar e
comunitário, as aspirações, as frustrações, as necessidades e as
possibilidades dos alunos.
Em algumas situações, como em cursos de pós-graduação
principalmente, pode-se ter lugar uma experiência muito
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interessante. No primeiro dia de aula, depois de uma breve


explanação e apresentação de todos verbalizando o nome e
origem, o professor lança a seguinte pergunta: o que vocês
esperam da disciplina ou curso? Quais são as suas expectativas?
Um outro professor ou mesmo um dos alunos vai anotando tópico a
tópico as manifestações espontâneas ou induzidas.
Após esta coleta de expectativas, o professor faz uma
explanação comentando os aspectos mencionados e explica que
alguns eventuais itens serão mais ou menos abordados e alguns
outros incluídos, mas que irá procurar atendê-las sempre que
possível, explicando que todos têm seus limites, inclusive os
membros da equipe de trabalho.
A metodologia das aulas e das atividades discentes pode e
deve ser discutida, coletando sugestões e expectativas. Deve-se
levantar quais os recurso audiovisuais mais aceitos, os mais
rejeitados, o tipo de aula mais interessante, enfim levantar o que
seria mais agradável aos alunos no primeiro momento.
Passa-se à fase de discussão sobre como podemos avaliar o
desenvolvimento da disciplina e o desempenho dos participantes,
coletando-se sugestões e expectativas quanto a estas avaliações.
Alguns tópicos como algum tipo de avaliação considerado muito
importante pela equipe pode não ficar em aberto e ser determinado
como algum muito importante e não passível de mudança, o mesmo
ocorrendo com algum tipo de avaliação que a equipe de
professores não compreende como adequada e não admite aplicá-
la.
Para a próxima aula, avisa-se, serão fornecidos os manuais
da disciplina com todas as informações, inclusive sugeridas e
consideradas pertinentes. Essa experiência surte muito efeito
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prático entre os participantes, pois os participantes sentem-se como


verdadeiros participes e sócios da disciplina, o que favorece muito o
trabalho, facilitando a aprendizagem.
Os roteiros e manuais a serem distribuídos como parte do
planejamento, devem ser muito bem escritos, utilizando vernáculo
apropriado e sem erros de digitação. A bibliografia deve seguir as
normas técnicas padronizadas e recomendadas pela universidade,
sempre com todos os dados para possibilitar o resgate por parte do
aluno.
Para ser aplicada esta forma de iniciar uma disciplina, o
professor e sua equipe devem ter um grande entrosamento e
abertura para novas idéias. Normalmente, o produto final do plano
de curso, não vai diferir em muito o previamente estabelecido pelos
professores, mas o grau de participação e interação passa a ser
consideravelmente maior.

ELABORAÇÃO DO PLANO DE DISCIPLINA

O plano de disciplina representa a previsão das atividades


docentes e discente, a estratégia de sua efetivação, bem como a
programação estabelecida.
O plano de disciplina deve ter os seguintes elementos
constituintes:
1 – Os créditos da escola, do departamento, do curso, da
disciplina, o(s) nome(s) do(s) professor(es), técnicos, local e data.
2 – Carga horária, dias de aula, período compreendido e
número de créditos.
3 – Objetivos: devem ser explicitados minuciosamente e
contextualizados no projeto político pedagógico da escola. Os
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objetivos incluídos no projeto político pedagógico estão


relacionados a proposições gerais e decorre de uma filosofia de
educação com base na sociedade e nos processos de
aprendizagem; estes tipos de objetivos são denominados de

objetivos educacionais ou gerais.


A textualização dos objetivos de uma disciplina ou curso torna
mais provável a existência de uma coerência com estratégias e a
avaliação. São objetivos que vão nortear a escolha de métodos,
materiais e situações de ensino, bem como a forma e instrumentos
de avaliação do aprendizado pelos alunos; estes tipos de objetivos

são denominados de objetivos instrucionais ou específicos


e estão mais diretamente ligados à atividade do professor em sala
de aula.

Ao formular os objetivos, o professor deve perguntar: o que o


aluno pode aprender e devemos responder quais os
conhecimentos, habilidades e atitudes. Usando-se destes
referenciais, os objetivos em um plano de ensino, como no caso de
uma disciplina, podem ser:
 Informativo: quando visa repassar aspectos teóricos e
práticos que fundamentem uma especialidade ou área
do conhecimento. Enquadram-se nesta categoria:
informações, conceitos, princípios, aplicações, teorias,
interpretações, estudos, pesquisas, debates, etc. Estes

tipos de objetivo estão sob o domínio cognitivo que


se refere à razão, inteligência e memória.
 Relacionados à automação: quando procurarão
desenvolver habilidades e técnicas; trata-se do que o
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aluno deve aprender e fazer desenvolvendo suas


capacidades intelectuais, afetivas, psíquicas e motoras.
Exemplos: organizar seu próprio estudo, coletar e
organizar dados, dominar e usar os órgãos dos sentidos
e movimentos no desenvolvimento de alguma ação
motora, como esculpir. Este tipo de objetivo está sob o

domínio psicomotor que se refere às habilidades


para manipular e instrumentalizar, como no manuseio de
material, aparelhos e máquinas.
 Formativos: quando o conteúdo refere-se a mudança
de aquisição de certos comportamentos, como a
curiosidade científica, capacidade analítica e crítica,
perseverança, solidariedade, trabalho em grupo,
tolerância com o diferente, além de postura quanto a
aspectos sociais, éticos e morais envolvidos. Este tipo de

objetivo está sob o domínio afetivo que se refere aos


valores, atitudes, apreciações e interesses.
 Conteúdo Programático ou Programa: explicitar
os aspectos teóricos e práticos fundamentais da
disciplina e demonstrar sua funcionalidade, atualidade,
valor social, inter-relação com outras disciplinas e
possíveis aplicações profissionais. Não deve ser tão
sucinto, mas também não detalhista em excesso;
 Atividades: descrição das atividades discentes como
trabalhos, atividades laboratoriais, seminários, palestras,
debates, levantamentos bibliográficos, publicações, etc.
Deve vir acompanhada das regras e orientações
concernentes a cada atividade;
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 Outras atividades: estágios, excursões, congressos,


jornadas, simpósios, etc.;
 Aspectos físicos: local das aulas, laboratório
utilizado, material e recurso audiovisuais disponíveis,
etc.;
 Avaliação: explicitação detalhada dos critérios de
avaliação;
 Bibliografia, filmografia, periódicos, sites e outras
fontes de informação.

O seguimento do planejamento sugerido reflete diretamente


na credibilidade da equipe entre os participantes. Um turma passa
para a outra, informações sobre cada equipe, disciplina e professor
individualmente. A aplicação séria de um planejamento também
implica em uma inteligente flexibilidade.

PLANO DE UNIDADE

No desenvolvimento de um determinado conteúdo


programático pode se dividi-lo em unidade de ensino caracterizada
por um conjunto lógico de aulas e atividades referentes a um tema
abrangente ou de temas distintos com pontos em comum. As
atividades didáticas serão coerentes entre si na abordagem e
interação do assunto, bem como no estímulo a habilidades afins a
serem desenvolvidas, o mesmo ocorrendo com a avaliação.
O planejamento didático de uma unidade de ensino ou plano
de unidade segue os mesmos princípios e critérios de um plano de
disciplina, mas limitando-se a uma parte do programa proposto,
embora com os mesmos elementos constituintes.
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PLANO DE AULA

O plano de aula deve ser idealizado após uma reflexão. Por


que? Para que? Como? Onde? Quando? Para quem? Aos as
respostas por escrito, podemos elaborar o plano de aula, que pode
se transformar em um roteiro de aula.
O plano de aula ou roteiro deve ter os seguintes constituintes:
1 – Os créditos da escola, do departamento, do curso e da
disciplina e o nome do professor.
2 – O título da unidade em que se insere a aula;
3 – O título da aula;
4 – A duração da aula;
5 – Os objetivos da aula. Reveja sobre os objetivos no plano
de curso anteriormente mencionado;
6 – As partes da aula em tópicos sobre o conteúdo dividido
em introdução, corpo da aula e conclusão final.
* Introdução: pode ser uma frase mostrando
a importância do tema a ser tratado.
* Corpo da aula ou parte principal: deverá
revelar os tópicos do conteúdo a serem
abordados.
* Conclusão final: fechar o assunto de
forma interessante revelando a
aplicabilidade do conhecimento. O ideal
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será utilizar-se de uma frase ou um


parágrafo.
7 – Métodos e técnicas utilizados na aula e respectivos
materiais didáticos. Privilegiar atividades que estimulem a
criatividade, a tolerância com os diferentes, como nos trabalhos em
grupo e a participação de todos os alunos;
8 – Avaliação do aprendizado: informar como será feita a
avaliação da aula e do aprendizado por parte dos alunos.
9 – Bibliografia, periódicos, filmografia, sites e outras fontes
de informações.

Não deve ser utilizado o termo “referências bibliográficas”,


pois não foram referidas no roteiro; este tópico é para indicações de
sugestões de bibliografia básica para estudo e leitura
complementar. Um detalhe importante: a bibliografia deve ser
apresentada com todos os dados possíveis de acordo com as
normas técnicas recomendadas para trabalhos científicos.

PLANO DE AULA PRÁTICA

Quanto a aula prática, o plano de aula não difere em muito,


mas sim a sua aplicação. Nos planos ou roteiro de aulas práticas os
constituintes são os mesmos, mas no seu conteúdo e
desenvolvimento, o professor deve se preocupar com:
 Estimular e predispor o estudante a executar o trabalho
com ânimo e interesse;
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 Demonstrar a tarefa a ser executada, explicando e


ilustrando cada fase de maneira ordenada, calma e
paciente;
 Acompanhar a execução, animando-o, levando-o a refletir
sobre cada passo e desenvolver a autocrítica. Depois,
reduzir gradativamente o acompanhamento.
 Verificar os resultados do trabalho, criticando as tarefas,
solicitando explicações, induzindo à correção dos erros e
checando o desenvolvimento da autocrítica e da
capacidade de decidir.

O PLANEJAMENTO DIDÁTICO

E O CONTEXTO ATUAL DO ALUNO E DO PROFESSOR

No estabelecimento dos objetivos perguntou-se o que os


alunos podem aprender e a resposta foi conhecimentos, habilidades
e atitudes. Em um planejamento didático no contexto atual do
mundo, devemos relevar que não é mais possível repassar
conhecimentos como prioridade de ensino.
Na sala de aula, deve-se priorizar o desenvolvimento de
habilidades de busca, de resgate, de manipulação, de interpretação
e de aplicação de conhecimentos e informações armazenados nas
bibliotecas e bancos de dados. Neste processo, deve-se preocupar
com as palavras e exemplos, bem como com o repassar de atitudes
e posturas.

Elaine Assolini
-fevereiro de 2016-