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I.

ENTRE LOBO E CÃO


DISSOLUÇÃO
Escurece, e não me seduz A chegada da noite é uma visão recorrente nos poemas de
tatear sequer uma lâmpada. Drummond. Em Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, essa
Pois que aprouve ao dia findar, imagem já comparece, mas como uma metáfora da
aceito a noite. assombrosa noite que era o contexto histórico da época. Esse
anoitecer “mais noite que a noite” de Sentimento do Mundo ou
E com ela aceito que brote de outros poemas encontram (ainda que sem grandes
uma ordem outra de seres idealizações) uma esperança de um amanhecer, que em geral,
e coisas não figuradas. seria o fim das injustiças, do nazismo, da guerra, etc.
Braços cruzados.
Já aqui em Dissolução, assim como em outros poemas do livro,
Vazio de quanto amávamos, sobretudo em Opaco e A Máquina do Mundo (e muito no
mais vasto é o céu. Povoações poema “Habilitação para a Noite” de Fazendeiro do Ar), é uma
surgem do vácuo. sombria “aceitação” da noite, ou seja, parece indicar o
Habito alguma?
desengano ou a falta de perspectivas do eu em relação à
E nem destaco minha pele realidade, uma atitude resignada (aceito a noite). A noite liga
da confluente escuridão. de tal maneira exterioridade à interioridade do eu lírico a ponto
Um fim unânime concentra-se dele não poder destacar sua pela da “confluente escuridão”.
e pousa no ar. Hesitando.
Além do desengano, é possível pensar nessa noite como
E aquele agressivo espírito metáfora para o envelhecimento ou senectude do eu lírico,
que o dia carreia consigo, outro tema recorrente no livro, como em “A Ingaia Ciência”.
já não oprime. Assim a paz, Um significado não excluí o outro. Diferentemente de A Rosa
destroçada. do Povo, agora, o eu lírico vai ver essa noite de “braços
cruzados”, ou seja, uma atitude de imobilismo, de entrega.
Vai durar mil anos, ou Não se trata, também, de evasão, de fuga para idealização
extinguir-se na cor do galo? (Imaginação. Falsa demente, já te desprezo).
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre. A rosa de “Dissolução” é definitiva, é a “rosa das trevas” e
não mais a esperança e a própria poesia de A Rosa do Povo. A
Imaginação, falsa demente, rosa aqui é pobre, ou seja, sem horizonte, eliminando por
já te desprezo. E tu, palavra. completo qualquer “amanhecer” que seria anunciado para
No mundo, perene trânsito, depois da escuridão dos poemas de A Rosa do Povo.
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.

Compare-se o poema acima com o trecho de Veja o Poema “Habilitação para a noite”, poema
“A Máquina do Mundo”: inaugura do livro “Fazendeiro do Ar” (1954)
“se misturasse ao som de meus sapatos “Vai-me a vista assim baixando
que era pausado e seco; e aves pairassem ou a terra perde o lume?
no céu de chumbo, e suas formas pretas Dos cem prismas de uma joia,
quantos há que não presumo.
pausadamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes Entre perfumes rastreio
e de meu próprio ser desenganado” esse bafo de cozinha.
Outra noite vem descendo
Outro poema do livro que apresenta a com seu bico de rapina.
imagem da noite é “Opaco”:
E não quero ser dobrado
“Noite. Certo
nem por astros nem por deuses,
muitos são os astros.
polícia estrita do nada.
Mas o edifício
barra-me a vista.” Quero de mim a sentença
como, até o fim, o desgaste
de suportar o meu rosto.”
REMISSÃO Primeiro dos nove sonetos de Claro Enigma, Remissão
Tua memória, pasto de poesia, (significa Perdão; Absolvição; Indulgência) começa com
tua poesia, pasto dos vulgares, uma referência metalinguística (tua memória, pasto de
vão se engastando numa coisa fria poesia, tua poesia, pasto dos vulgares) e assim como
a que tu chamas: vida, e seus pesares. “Dissolução” apresenta incredulidade do poeta em
relação à própria existência se estende à poesia e à
Mas, pesares de quê? perguntaria, memória, pois, mesmo se ambas tentam substantivar a
se esse travo de angústia nos cantares, experiência humana pela organização narrativa das
se o que dorme na base da elegia vivências, nenhuma delas resiste ao efeito deletério que
vai correndo e secando pelos ares, o tempo imprime nos seres. Mais que condicionar o fluxo
de vida, o tempo evapora toda descrição da vivência. No
e nada resta, mesmo, do que escreves poema “Remissão”, o poeta constata a perda
e te forçou ao exílio das palavras,
inevitável imposta pelo tempo e desdenha da
senão contentamento de escrever,
tentativa de preservação inerente ao poema e à
enquanto o tempo, em suas formas breves memória: “nada resta, mesmo, do que escreves,
ou longas, que sutil interpretavas, senão contentamento de escrever”
se evapora no fundo do teu ser?
Trata-se de um soneto em versos decassílabos com
esquema de rimas ABAB ABAB CDE CDE. Várias
palavras no poema lembram o próprio trabalho poético:
“cantares”, “elegia”, “engastando”, formas breves ou
longas” (que pode ser o ritmo do poema) etc.

Um dos poemas mais famosos do livro. Para entender o


A INGAIA CIÊNCIA poema é necessário que se conheça a intertextualidade
do título: a Gaia Ciência (o conhecimento alegre) era o
A madureza, essa terrível prenda nome dado à arte poética na cultura provençal. Também
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela, foi um conceito apropriado por Nietzche como título de
todo sabor gratuito de oferenda um de seus livros de filosofia.
sob a glacialidade de uma estela,
Ao incorporar o prefixo -in na palavra “gaia”, ocorre a
a madureza vê, posto que a venda inversão do sentido: de alegre e jovial, portanto temos a
interrompa a surpresa da janela, ciência desagradável, ou seja, a madureza é o saber
o círculo vazio, onde se estenda, que dá desprazer, a madureza é a “terrível prenda” (o
e que o mundo converte numa cela. presente terrível), trata-se da maturidade e da
compreensão do mundo trazida pela maturidade, o
A madureza sabe o preço exato
ingrato ou desagradável saber que vem com a
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência velhice.

Veja-se a visão pessimista que o poema traz associado


e nem contra si mesma. O agudo olfato,
a esse saber da maturidade: tira-nos o sabor gratuito
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
de oferenda, sob a glacialidade (frieza) de uma estela
se destroem no sonho da existência.
(lápide, ou seja, proximidade com a morte); a
madureza vê um círculo vazio e o mundo convertido
Outro soneto de feição clássica: versos numa cela, já que nos colocou uma venda e nos
decassílabos, em sua maioria heroicos (com interrompeu a surpresa da janela (a novidade); a
exceção do primeiro que é sáfico), com madureza (perceba a anáfora no início das três
esquema de rimas ABAB ABAB CDE CDE primeiras estrofes) sabe o preço exato dos amores,
dos ódios, ou seja, sabe tudo, e sabendo tudo, não nos
Existem vários enjambements (sobretudo da deixa amar, sentir coisas boas ou ruins, sabe tudo e
3ª para a 4ª estrofe) , inversões sintáticas nada podemos contra seu saber e ela contra si mesma.
como em “agulho olhar”, “agudo olfato”, Nos tercetos, a madureza é substituída pelos termos
“terrível prenda”. “agudo olfato, agudo olhar e a mão livre de encantos” e
termina confirmando o andamento pessimista e
O poema também é composto por várias
conformado do poema “se destroem no sonho da
aliterações ( /d/, /t/, /g/, /p/, criando uma
existência”.
sonoridade difícil, árida, nada melodiosa.
Neste poema, tem-se uma intertextualidade com sua
LEGADO própria obra ao citar em seu desfecho: “uma pedra
que havia em meio do caminho” (retomando o famoso
Que lembrança darei ao país que me deu
verso de “tinha uma pedra no meio do caminho” de “No
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
meio do caminho” de Alguma Poesia.) O verso também
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri. já aparecera em A Rosa do Povo, no poema de abertura
da obra “Consideração do poema” (“uma pedra no meio
E mereço esperar mais do que os outros, eu? do caminho, ou apenas um rastro, não importa”).
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
“Legado” também se liga, como “Remissão” e “A ingaia
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se. ciência”, aos temas ligados ao tempo, à poesia e à
maturidade ou senectude. Mais propriamente, o título
Não deixarei de mim nenhum canto radioso, do poema se refere a qual seria o legado deixado
uma voz matinal palpitando na bruma por sua poesia, e, invertendo a noção clássica de
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. que a poesia tem o poder de dar perenidade
(eternidade) aos momentos passageiros da vida, de
De tudo quanto foi meu passo caprichoso tornar durável tudo que o tempo destrói, o “legado” de
na vida, restará, pois o resto se esfuma, Drummond seria apenas “uma pedra que havia em meio
uma pedra que havia em meio do caminho. do caminho” (referindo-se ao seu poema, muito
polêmico e conhecido, e também referindo-se ao
obstáculo que simboliza a pedra), em outras palavras,
Trata-se de um soneto em versos alexandrinos o poema “desidealiza” o tema da poesia como
com rimas ABAB ABAB CDE CDE, contendo eternização de sua obra.
várias rimas ricas e enjambements bem ao Orfeu é na mitologia grega o deus que apresenta o
gosto do parnasianismo. É famosa a crítica de poder encantatório da poesia e da música, no poema,
Haroldo de Campos sobre esse poema, Orfeu parece duvidar da capacidade de sua poesia de
censurando Drummond por ter reescrito a encantar ou cativar os “monstros atuais”, e fica a “vagar
famosa “pedra modernista” em “polida e castiça taciturno entre o talvez e o si”.
chave-de-ouro”, referindo-se ao modo
parnasiano como o poema é escrito. Porém, No poema fala uma voz que mal se ouve na escuridão,
Francisco Achcar explica que não se trata de “uma voz matinal palpitando na bruma”. Dessa forma o
“neoclassicismo ingênuo” a releitura do poema, poeta demonstra ter certeza da ineficiência de sua
mas sim, trata-se de uma “ironia estilística”, ou poesia. A única lembrança que pode legar ao seu país,
seja, Drummond teria usado deliberadamente não é nenhum “canto radioso”, que “arranque de alguém
irônico do modelo parnasiano (métrica, rima, secreto espinho”, é a pedra em meio ao caminho, já que
vocabulário, etc.) o “resto se esfuma”.
CONFISSÃO Logo na abertura temos uma intertextualidade com o
mandamento sagrado: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”,
Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna. daí em diante constata-se que o “penitente” não fez nada para
Só proferi algumas palavras, ajudar seu semelhante, a não ser “proferir algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa. melodiosas, tarde, ao voltar de festa”, o que remete a sua poesia
(social talvez, e ainda, fora de hora, tardia, e ainda assim com
Dei sem dar e beijei sem beijo. um pouco de desdém por chamar de “melodiosas”).
(Cego é talvez quem esconde os olhos Lembrando que no poema “Sentimento do mundo” do livro
embaixo do catre.) E na meia-luz homônimo, temos um pedido de desculpas por essa omissão e por
tesouros fanam-se, os mais excelentes. esse atraso. Porém, “Confissão” não é um pedido de desculpas, é
tão só uma acusação, sem enfeites, a contradição “Dei sem dar e
Do que restou, como compor um homem beijei sem beijo” mostra bem a aparência em detrimento da
e tudo que ele implica de suave,
essência, assim como o restante da 2ª estrofe. Sua punição é a
de concordâncias vegetais, murmúrios
própria confissão de desamor, inclusive consigo mesmo: “Não
de riso, entrega, amor e piedade?
amei bastante sequer a mim mesmo/ contudo próximo. Não amei
Não amei bastante sequer a mim mesmo, ninguém.” (lembrando versos de Paul Valéry e a ironia do “amar o
contudo próximo. Não amei ninguém. próximo”). O eu lírico diz ter amado apenas “aquele pássaro azul e
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – doido” (metáfora de sonho, de um ideal de liberdade distante,
que se esfacelou na asa do avião. talvez referência ao seu engajamento social da época anterior),
mas que contudo se choca contra um avião, ou seja, se esfacelou
ao encontrar-se com a realidade, uma amarga ironia.

PERGUNTAS EM FORMA DE CAVALO-MARINHO

Que metro serve


para medir-nos? Com essas perguntas breves e incisivas, Carlos Drummond de Andrade
Que forma é nossa compôs as duas primeiras estrofes de seu poema “Perguntas em forma de
e que conteúdo? cavalo-marinho”, incitando o leitor a pensar não apenas nos sentidos da
existência humana, mas também no que constitui o próprio poema,
Contemos algo? tomado como um organismo vivo, feito de medidas, formas, sentidos
Somos contidos? intrínsecos e extrínsecos, sempre em estado de movimento.
Dão-nos um nome? Cada uma das perguntas acima revela a inquietação do poeta em relação
Estamos vivos? ao Ser. Na tentativa de revelar-se, o eu lírico descreve cada uma de suas
incertezas. Todas estas reunidas dão a medida do vazio que mais
A que aspiramos? linguagem, mais poesia irá tentar preencher. Às perguntas “Que metro
Que possuímos? serve para medir-nos?”; “Que forma é nossa e que conteúdo?”;
Que relembramos? “Contemos algo?”; “Somos contidos?”; “Dão-nos um nome?”, ou seja,
Onde jazemos? temos “tentativas de respostas” em outros poemas.

Trata-se de um poema de interrogação existencial, muito comum da obra


(Nunca se finda em questão, mas também metalinguístico a partir do título “perguntas em
nem se criara. forma de cavalo-marinho”, além disso a primeira estrofe utiliza termos
Mistério é o tempo muito comuns para se referir a poesia: metro (medida dos versos), forma,
inigualável.) conteúdo.

Os versos são tetrassílabos e estão dispostos em quatro quadras (quatro


estrofes de quatro versos), o poema também parece fazer um movimento,
alternando versos maiores e menores, embora todos tenham a mesma
medida de quatro sílabas poéticas. A forma do cavalo-marinho talvez
sugira a forma de um ponto de interrogação.
OS ANIMAIS DO PRESÉPIO
Salve, reino animal: Tercetos com versos de 6 sílabas poéticas (hexassílabos) e
todo o peso celeste versos brancos (sem rima)
suportas no teu ermo.
Alguns paradoxos: “suporta o peso celeste”, “carga terrestre
Toda a carga terrestre como se fosse feita de vento”
carregas como se
fosse feita de vento. Depois da apóstrofe “reino animal” o poema é constituído de
anáforas, dirigida aos interlocutores (os animais) “teus”, “tuas”
Teus cascos lacerados
na lixa do caminho O eu lírico demonstra certa admiração, simpatia pelos
e tuas cartilagens animais, e chega a se identificar com alguns deles por alguns
aspectos.
e teu rude focinho
e tua cauda zonza,
teu pelo matizado,

tua escama furtiva,


as cores com que iludes
teu negrume geral,

Teu voo limitado,


teu rastro melancólico,
tua pobre verônica

em mim, que nem pastor


soube ser, ou serei,
se incorporam num sopro.

Para tocar o extremo


da minha natureza,
limito-me: sou burro.

Para trazer ao feno


o senso da escultura,
concentro-me: sou boi.

A vária condição
por onde se atropela
essa ânsia de explicar-me

agora se apascenta
à sombra do galpão
neste sinal: sou anjo.
SONETILHO DO FALSO FERNANDO PESSOA
Um das intertextualidades mais famosas do livro.
Onde nasci, morri Sonetilho seria um soneto pela metade, um soneto
Onde morri, existo. pequeno, condensado, por se tratarem de versos
E das peles que visto hexassílabos (6 seis poéticas), que seriam a metade
muitas há que não vi. dos versos alexandrinos de um soneto “completo”.

Sem mim como sem ti Em “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, parece-


posso durar. Desisto nos que a construção em oxímoros e negações tem
de tudo quanto é misto por objetivo recompor a linguagem poética de
e que odiei ou senti. Fernando Pessoa, em que a questão das oposições
ser/não ser; existir/não existir nos fazem lembrar de
Nem Fausto nem Mefisto, uma das condições abordadas acerca da poética de
à deusa que se ri Fernando Pessoa que é a da heteronímia, ou seja,
deste nosso oaristo, em que medida, existiram os heterônimos ou ainda,
de que modo devemos abordar essas personalidades
eis-me a dizer: assisto
da obra pessoana.
além, nenhum, aqui
mas não sou eu, nem isto. Assim o “falso Fernando Pessoa” é a condição
drummondiana que assim se apresenta para colocar
em discussão a existência, e mais do que isso, o
Aqui podemos ter ideia de um poema de sentir/ não sentir, tópico importante do conceito de
Fernando Pessoa (ele mesmo), de Sensacionismo em Pessoa é reconsiderado no
Mensagem, “Ulysses”, para ver a imitação poema de Drummond: “Desisto / de tudo quanto é
de Drummond: misto / do que odiei ou senti”. Assim, no verso “E das
peles que visto”, como não ver a referência ao
O Mito é o nada que é tudo. processo heteronímico pessoano, mais latente
O mesmo sol que abre os céus ainda no verso seguinte; “muitas há que não vi”. Mas
É um mito brilhante e mudo que o fato de não ver, não implica em não existir:
- O corpo morto de deus, “Sem mim como sem ti / posso durar”.
Vivo e desnudo.
Esse passado que se contrapõe ao presente nos
Este, que aqui aportou, quartetos evoca uma existência terminada, daí o
Foi por não ser existindo. pretérito perfeito, a ação acabada no passado: “Onde
Sem existir nos bastou. nasci, morri.” Essa morte se transforma em
Por não ter vindo foi vindo
permanência, ou seja, o que permanece para o
E nos criou.
presente é a lembrança, a memória: “Onde morri,
Assim a lenda se escorre existo”. Drummond, nesse sentido, parece
A entrar na realidade. reconhecer a existência de uma memória coletiva
E a fecundá-la decorre. que não se restringe apenas ao âmbito concreto
Em baixo, a vida, metade de sua existência, ou de outro modo, podemos
De nada, morre. lembrar do inconsciente coletivo ao modo junguiano,
em que os mitos compõem a fundamentação dessa
Repare nos paradoxos do poema (grifados) memória coletiva: “E das peles que visto / muitas há
que não vi”.
Outro exemplo típico da poesia pessoana:
Assim como em Fernando Pessoa (ortônimo) tem-se
Não sei quantas almas tenho. um conjunto muito forte de oxímoros no poema: nasci
Cada momento mudei. x morri; morri x existo; assisto (moro aqui) x além
Continuamente me estranho. (ausente, longe); nenhum x aqui; não sou eu (sujeito)
Nunca me vi nem acabei. x nem isto (objeto).
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma. Fausto e Mefisto: Dr. Fausto (de Goethe) personagem
Quem vê é só o que vê, que cedeu a alma ao diabo (Mefistófeles, forma
Quem sente não é quem é, abreviada, Mefisto; novamente uma contradição:
“Nem Fausto nem Mefisto”
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
(...)
UM BOI VÊ OS HOMENS
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rosto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isso se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós ?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água;
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Poema em versos livres, um dos poucos do livro. O boi quem é o narrador do poema, que são seus
pensamentos a respeito do homem. O boi simboliza a paciência, a sabedoria, a resignação é como um filósofo,
olhar do boi é simpático, compreensivo, embora perplexo. (a postura de filósofo lembra Sete de Ouros, de “O
Burrinho Pedrês” e mais ainda “Conversa de Bois” (de Sagarana de Guimarães Rosa), um filósofo que
interpreta os homens. Os homens, para o boi observador, é um ser desestruturado, que não consegue ouvir a
natureza, ou seja, não entram em comunhão com a natureza, ficam tristes e se tornam cruéis, são arrogantes,
vivem isolados em si, melancólicos, não conseguem se organizar “em forma calmas” (de viver em paz). Apesar
de se colocar no lugar de um boi, o eu lírico continua a sua especulação sobre a existência. Os versos livres e
longos se adaptam perfeitamente ao tom de “monólogo interior de boi” que pensa observando os homens,
portanto, sem métrica ou rimas. Há uma ligeira ligação com “Os animais do presépio” pelo tema.

MEMÓRIA Memória é um dos poemas mais conhecidos de Drummond e um dos mais


importantes do livro, pois resume a ideia paradoxal do “amar, depois de
Amar o perdido perder”.(verso final de “Perguntas”). É, também, tema presente em Fernando
deixa confundido Pessoa, o tema da memória, como em Pobre Velha Música (Com que ânsia tão
este coração. raiva/ Quero aquele outrora! /E eu era feliz? Não sei: / Fui-o outrora agora.)

Nada pode o olvido O poema nos diz que “amar o perdido”, ou seja, o que já não existe, o que já se
contra o sem sentido foi, o passado, deixando assim o “coração” (os sentimentos) confuso, pois como
apelo do Não. podemos amar algo que não existe mais? O “Não” (substantivado e alegorizado)
é o próprio nada, a própria ausência, contra o qual nada pode o esquecimento (o
As coisas tangíveis olvido), uma vez que esse “Não” persiste na memória. Assim as coisas
tornam-se insensíveis tangíveis, ou seja, o mundo sensível, o presente, tornam-se insensíveis, ou seja,
à palma da mão.
não pode ser sentido, por esse apelo da memória. A última estrofe reforça a ideia
Mas as coisas findas, de que o passado, as “coisas findas” permanecerão.
muito mais que lindas, O poema tem 4 estrofes de 3 versos, e os versos são redondilhos menores ou
essas ficarão. heptassílabos (5 sílabas poéticas), as rimas são AAB, AAB, CCB, DDB.
A TELA CONTEMPLADA
Quinto soneto do livro, em versos decassílabos (heroicos na
Pintor da soledade nos vestíbulos maioria). A partir do título pode-se perceber uma aproximação
de mármore e losango, onde as colunas com a pintura, típica da poesia parnasiana, não só pelo
se deploram silentes, sem que as pombas preciosismo do poema, quanto pela criação de ambientes
venham trazer um pouco do seu ruflo; suntuosos (mármores, colunas, torres), porém sem
qualquer vestígio de vida (sem o ruflo das pombas); o eu
traça das finas torres consumidas lírico lamenta a condição do tu (o próprio poeta) imerso no
no vazio mais branco e na insolvência silêncio e na solidão, criador de uma arte suntuosa, mas vã.
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove, O poeta é o “criador de mitos que sufocam” (sentimentos,
lirismo), esses mitos se “constelam no charco” (contradição,
ó criador de mitos que sufocam, lembra imobilismo e morte) e recuam para “a noite”,
desperdiçando a terra, e já recuam lembrando o clima de “Dissolução” e de todo o livro. Nele
para a noite, e no charco se constelam, (no pintor da soledade, o poeta) flui um “sangue vago” e nas
“suas pupilas, sob o tédio, a vida é um suspiro sem paixão”. O
por teus condutos flui um sangue vago,
poema, apesar do clima suntuoso, de lembrar a “arte pela
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
arte” dos parnasianos, pelos vocábulos raros, pela forma
é a vida um suspiro sem paixão.
perfeita, é construído por um clima de contradições, de
negação e de vazio.

Soledade: estado de quem está ou se sente só; solidão; lugar ermo, deserto, solitário; retiro.

SER
O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,


objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo


(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz


faz-se por si mesmo.

Referência ao filho recém-nascido que Drummond perdeu em 1926, mas o filho perpetua-se no afeto
e na memória, “ele corre na brisa, sem carne, sem nome”, “o filho que não fiz faz-se por si mesmo”.

O poema é feito por estrofes de 4 versos (quadras) e uma última, que serve de conclusão, de dois
versos (dístico), os versos são variam entre 5 e 6 seis sílabas poéticas.
CONTEMPLAÇÃO NO BANCO

O coração pulverizado range


sob o peso nervoso ou retardado ou tímido
que não deixa marca na alameda, mas deixa
essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,
espiralante.

Tantos pisam este chão que ele talvez


um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que ai se elabora, calcária, sanguínea ?

Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,


não é longo mentar uma flor, e permitido
correr por cima do estreito rio presente,
construir de bruma nosso arco-íris.

Nossos donos temporais ainda não devassaram


o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.

Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar


nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,
e olho para os pés dos homens, e cismo.

Escultura de ar, minhas mãos


te modelam nua e abstrata
para o homem que não serei.

Ele talvez compreenda com todo o corpo,


para além da região minúscula do espírito,
a razão de ser, o ímpeto, a confusa
distribuição, em mim, de seda e péssimo.

II

Nalgum lugar faz-se esse homem…


Contra a vontade dos pais ele nasce,
contra a astúcia da medicina ele cresce,
e ama, contra a amargura da política.

Não lhe convém o débil nome de filho,


pois só a nós mesmos podemos gerar,
e esse nega, sorrindo, a escura fonte.

Irmão lhe chamaria, mas irmão


por quê, se a vida nova
se nutre de outros sais, que não sabemos?

Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,


na vasta integração das formas puras,
sublime arrolamento de contrários
enlaçados por fim.

Meu retrato futuro, como te amo,


e mineralmente te pressinto, e sinto
quanto estás longe de nosso vão desenho
e de nossas roucas onomatopeias…
III

Vejo-te nas ervas pisadas.


O jornal, que aí pousa, mente.

Descubro-te ausente nas esquinas


mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.

Chamar-te visão seria


malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.

Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares


que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.

Dissolvendo a cortina de palavras,


tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.

Triste é não ter um verso maior que os literários,


é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.

O poema lembra a paisagem urbana comum de A Rosa do Povo, e também, a temática da utopia, mas de
forma diferente de A Rosa do Povo, provando que o livro não rejeita qualquer assunto como os temas de
natureza social, porém visto por outra luz (J. Gledson).

Segundo A. Cândido, o poema também lembra a tradição da poesia meditativa, (vínculo entre a reflexão e
o lugar, como faziam os neoclássicos e os pré-românticos).

Na primeira estrofe o eu vê no chão batido brotar (através da imaginação) uma “quem sabe a flor que ai se
elabora, calcária, sanguínea ?”, “estampa vaga no ar”. Diferentemente, em seu livro anterior, a “flor” era a
própria “rosa do povo” que se concretiza em “A Flor e a Náusea”, a ponto de nascer e romper o
asfalto. Já nesse poema, ele diz que não a sabe cantar “Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei
cantar”, ou seja, não se trata da mesma flor (o socialismo ou comunismo do livro anterior).

Há, como dizem os versos anteriores, um “estoque de manhãs que vem no sangue”, ou seja, a capacidade
de sonhar é do ser humano. A partir da segunda estrofe, esse sonho parece ser, na verdade, um novo
homem, um homem do futuro (que ainda não existe), mas que o poeta pressente, diferente de tudo que
existe, embora o poeta saiba que não estará aqui para ver esse sonho realizado.

Finalmente, ele conclui que nem a linguagem é capaz de descrever essa “visão” (Triste é não ter um verso
maior que os literários/ é não compor um verso novo, desorbitado, /para envolver tua efígie lunar, ó quimera
/que sobes do chão batido e da relva pobre). Ou seja, é preciso uma mudança no homem antes de
pensar uma nova ordem social. (V. Camilo)

Mentar: trazer à mente, à memória de (alguém ou de si mesmo); recordar(-se), relembrar(-se).

Malaxado: Amassado, amolecido

Diluculares: luminosidade do amanhecer; aurora, ou seja, novas

Soledade: estado de quem está ou se sente só; solidão; lugar ermo, deserto, solitário; retiro.
SONHO DE UM SONHO Sonhei que meu sonho vinha
com a realidade mesma.
Sonhei que estava sonhando Sonhei que o sonho se forma
e que no meu sonho havia não do que desejaríamos
outro sonho esculpido. ou de quanto silenciamos
Os três sonhos sobrepostos em meio a ervas crescidas,
dir-se-iam apenas elos mas do que vigia e fulge
de uma infindável cadeia em cada ardente palavra
de mitos organizados proferida sem malícia,
em derredor de um pobre eu. aberta como uma flor
Eu que, mal de mim!, sonhava. se entreabre: radiosamente.

Sonhava que no meu sonho Sonhei que o sonho existia


retinha uma zona lúcida não dentro, fora de nós,
para concretar o fluido e era toca-lo e colhe-lo,
como abstrair o maciço. e sem demora sorve-lo,
Sonhava que estava alerta, gasta-lo sem vão receio
e mais do que alerta, lúdico, de que um dia se gastara.
e receptivo, e magnético, Sonhei certo espelho límpido
e em torno a mima se dispunham com a propriedade mágica
possibilidades claras, de refletir o melhor,
e, plástico, o ouro do tempo sem azedume ou frieza
vinha cingir-me e dourar-me por tudo que fosse obscuro,
para todo o sempre, para mas antes o iluminando,
um sempre que ambicionava mansamente convertendo
mas de todo o ser temia... em fonte mesma de luz.
Ai de mim! que mal sonhava. Obscuridade! Cansaço!
Oclusão de formas meigas!
Sonhei que os entes cativos Ó terra sobre diamantes!
dessa livre disciplina Já vos libertais, sementes,
plenamente floresciam germinando à superfície
permutando no universo deste solo resgatado!
uma dileta substância
e um desejo apaziguado Sonhava, ai de mim, sonhando
de ser um ser com milhares, Que não sonhara... Mas via
pois o centro era eu de tudo Na treva em frente a meu sonho,
como era cada um dos raios Nas paredes degradadas,
desfechados para longe, Na fumaça, na impostura,
alcançando além da terra No riso mau, na inclemência,
ignota região lunar, Na fúria contra os tranquilos,
na perturbadora rota Na estreita clausura física,
que antigos não palmilharam Do desamor à verdade,
mas ficou traçada em branco Na ausência de todo amor,
nos mais velhos portulanos Eu via, ai de mim, sentia
e no pó dos marinheiros Que o sonho era sonho, e falso.
afogados em mar alto.

O poema se inicia com a ideia de que há três sonhos sobrepostos, deixando o poema com um tom de labirinto a ser
desvendado. O “sonho” que o eu lírico “sonhava” (e que “retinha uma zona lúcida”, ou seja, estava consciente do seu
sonho, como que em vigília ou acordado, portanto um sonho que poderia ser real ou que o poeta acreditava nele), esse
sonho “esculpido” novamente lembra o sonho de “A Rosa do Povo”, o sonho da utopia, como se pode notar pelas imagens
seguintes: floresciam, radiosamente, realidade, toca-lo, colhe-lo, límpido, iluminado, luz, diamantes, germinando, e
principalmente, que esse sonho acontecia “Sonhei que o sonho existia/ não dentro, fora de nós”. Porém, bem de acordo
com a totalidade de Claro Enigma, os versos “Ai de mim”, não deixam o eu lírico cair em “novas ilusões”, principalmente
como se vê na última estrofe do poema, quando o poeta diz que “sonhava, sonhando que não sonhara”: as imagens
anteriores do “sonho bom” se dissolvem e se transformam, em imagens de desengano: a treva, paredes degradadas, a
fumaça, o riso mau, a fúria, o desamor, clausura, a ausência de todo amor, enfim, “ai de mim”, o eu lírico sentia (sabia) que
“o sonho era sonho e falso”.

Pode-se notar, também, duas antíteses: as imagens claras no sonho da utopia e as imagens escuras da realidade, e das
imagens mais bucólicas do sonho e as imagens mais urbanas da realidade.

Assim, “Sonho de um sonho” confirma a trajetória que vai da utopia social da fase anterior até o momento da desilusão que
embasa Claro Enigma, quando o sonho se desfaz em ilusão e falsidade.

Portulano: [Marinha] Carta naval (marítima) utilizada pelas pessoas que navegavam pelo mar Mediterrâneo na
Antiguidade.
CANTIGA DE ENGANAR miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
O mundo não vale o mundo, absurdas figurações.
meu bem. O mundo não tem sentido.
Eu plantei um pé-de-sono, O mundo e suas canções
brotaram vinte roseiras. de timbre mais comovido
Se me cortei nelas todas estão calados, e a fala
e se todas me tingiram que de uma para outra sala
de um vago sangue jorrado ouvimos em certo instante
ao capricho dos espinhos, é silêncio que faz eco
não foi culpa de ninguém. e que volta a ser silêncio
O mundo, no negrume circundante.
meu bem, Silêncio: que quer dizer?
não vale Que diz a boca do mundo?
a pena, e a face serena Meu bem, o mundo é fechado,
vale a face torturada. se não for antes vazio.
Há muito aprendi a rir, O mundo é talvez: e é só.
de quê? de mim? ou de nada? Talvez nem seja talvez.
O mundo, valer não vale. O mundo não vale a pena,
Tal como sombra no vale, mas a pena não existe.
a vida baixa... e se sobe Meu bem, façamos de conta
algum som deste declive, de sofrer e de olvidar,
não é grito de pastor de lembrar e de fruir,
convocando seu rebanho. de escolher nossas lembranças
Não é flauta, não é canto e revertê-las, acaso
de amoroso desencanto. se lembrem demais em nós.
Não é suspiro de grilo, Façamos, meu bem, de conta
voz noturna de correntes, - mas a conta não existe -
não é mãe chamando filho, que é tudo como se fosse,
não é silvo de serpentes ou que, se fora, não era.
esquecidas de morder Meu bem, usemos palavras.
como abstratas ao luar. Façamos mundos: ideias.
Não é choro de criança Deixemos o mundo aos outros
para um homem se formar. já que o querem gastar.
Tampouco a respiração Meu bem, sejamos fortíssimos
de soldados e de enfermos, - mas a força não existe -
de meninos internados e na mais pura mentira
ou de freiras em clausura. do mundo que se desmente,
Não são grupos submergidos recortemos nossa imagem,
nas geleiras do entressonho mais ilusória que tudo,
e que deixam desprender-se, pois haverá maior falso
menos que a simples palavra, que imaginar-se alguém vivo,
menos que a folha no outono, como se um sonho pudesse
a partícula sonora dar-nos o gosto do sonho?
que a vida contém, e a morte Mas o sonho não existe.
contém, o mero registro Meu bem, assim acordados,
de energia concentrada. assim lúcidos, severos,
Não é nem isto, nem nada. ou assim abandonados,
É som que precede a música, deixando-nos à deriva
sobrante dos desencontros levar na palma do tempo
e dos encontros fortuitos, - mas o tempo não existe -,
dos malencontros e das sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

O poema parece, de início, remeter ao sonho da utopia (plantei um pé-de-sono, brotaram vinte roseiras), novamente temos a
alusão a “rosa”, de “A Rosa do Povo” (ao seja, a utopia social), porém, o eu lírico afirma “que se cortou”. Temos, portanto, o
tema do desengano. Durante todo o poema dirige-se ao um interlocutor “meu bem”, e através de repetições e poucas
variações, o poeta reitera a ideia de que o mundo não vale a pena (não tem sentido, é vazio ou vacuidade, é fechado, é de
incertezas, ou seja, de completa desvalorização do mundo.

A ideia bíblica de que o mundo é “vale de sombras”, e de que dele não sai o menor som (e se sobe /algum som deste declive,/
não é grito de pastor), haverá aí uma anáfora de negação dos sons (“Não é...) negando que seja som de vida, de amor, de
lamento, de sofrimento, etc (“não é isto, nem nada”). Depois da constatação do silêncio do mundo (do vazio, do desengano), o
eu do poema passa a convidar o “meu bem” para um “faz de conta”, mas sabendo que essa postura não é uma conformidade
com o mundo “nem ilusório, nem real”, é um mundo ideal, que fica evidenciado nos versos: “sejamos como se fôramos/ num
mundo que fosse: o Mundo.” (a troca da letra minúscula pela maiúscula), lembrando que a Cantiga é de “enganar”.

Nesse poema, Drummond tem a clareza dos limites do mundo, da realidade e da ilusão, do que é real e do que é convenção,
configurando-se numa sequência de afirmações e negações do que acabara de afirmar. Estamos no produtivo terreno do
paradoxo, pois, apesar de ser uma “cantiga de enganar”, o eu lírico está sempre querendo desvendar os mistérios e desfazer
os enganos como “O mundo é talvez: e é só. / Talvez nem seja talvez./ O mundo não vale a pena, /mas a pena não existe.”. A
utopia já se apresenta no próprio poeta que tendo o dom de iludir, deseja revelar a realidade sem fantasia, pelo desengano.
OFICINA IRRITADA O tema de “Oficina Irritada” é a própria poesia, a poesia
Eu quero compor um soneto duro contemplada, ou a metapoesia. Considerado por alguns, o
como poeta algum ousara escrever. poema mais metalinguístico de Claro Enigma, até pelo fato
Eu quero pintar um soneto escuro, do título do livro aparecer no último verso deste poema.
seco, abafado, difícil de ler. Neste poema, o trabalho poético (a oficina, como lembram os
poemas parnasianos pela sua confecção cuidadosa) está irritado
Quero que meu soneto, no futuro, (ou seja, o fazer poético não procura ser agradável). Neste
não desperte em ninguém nenhum prazer. poema, Drummond se utiliza da violência e da agressão como
E que, no seu maligno ar imaturo, estratégia de composição e de relação com o leitor.
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.
O poeta parece querer “causar dor” traduzida na imagem do
Esse meu verbo antipático e impuro “tendão de Vênus sob o pedicuro”, no choque das imagens
há de pungir, há de fazer sofrer, sublimes e grotescas e sobretudo no hermetismo
tendão de Vênus sob o pedicuro. (dificuldade, explicitada no 4º verso) que o poeta busca no seu
poema. Essa dificuldade não se refere somente ao conteúdo, às
Ninguém o lembrará: tiro no muro, imagens “difíceis” do “cão mijando no caos” ou do “tiro no muro”,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
mas também pela composição rítmica do poema: um soneto feio:
claro enigma, se deixa surpreender.
escuro, seco, abafado e difícil de ler. De fato, a sonoridade deste
poema é difícil, feia, fazendo com que o leitor estranhe ao fazer a
leitura do soneto, normalmente tão rítmico. Os versos desse
soneto não são (todos) ou sáficos ou heroicos, como de costume
nos sonetos tradicionais, o esquema de rima desse poema é
ABAB ABAB ABA AAB (o que também não é nada comum nos
sonetos, continuar com as mesmas rimas nos tercetos).

Concluindo, parece que o poeta consegue seu intento de fazer


um “soneto duro”, pois a sua irritação, embora submetida a uma
disciplina rigorosa, parece ter sido alcançada pelas imagens
difíceis e sádicas do poema, pela sua recusa de comunhão com
o leitor, como quis o poeta: “Não desperte em ninguém nenhum
prazer”, “há de fazer sofrer” e “Ninguém o lembrará”.

Nota: Acturo ou Arturo (ou Ícaro): é a estrela mais brilhante na


constelação de Boieiro (mito de Boieiro: O Boieiro é Arcas, cuja
mãe Callisto foi transformada por Juno em um urso, que no céu é
representado pela Ursa Maior . Enquanto caçava, Arcas
aproximou-se de sua mãe e, sem saber que esta havia se
transformado em ursa, perseguiu-a até o templo de Júpiter onde
a matou e mais tarde, foi ele mesmo morto pelos guardiões do
templo. Júpiter apiedado de tal situação, levou mãe e filho para
os céus, através as constelações do Boieiro e da Ursa Maior.

Existe outro relato que diz que o Boieiro é Icarius, que foi morto
por alguns pastores que ele havia embebedado com o vinho que
ganhara de Bacho. Em consideração à tristeza de sua filha
Erigone e de seu cão, Maera, Júpiter colocou o pai no céu
enquanto o Boieiro, ao lado da filha enquanto a constelação da
Virgem e seu cão, enquanto o Cão Menor.
OPACO
“Opaco” é um dos poemas mais concisos do livro. Novamente, desde o
Noite. Certo primeiro verso, o clima da “Noite” é instaurada, como em “Dissolução” e
muitos são os astros. outros poemas do livro. O eu lírico se depara com a impossibilidade de
Mas o edifício ver as coisas que existem no céu, apesar de saber que não há nada
barra-me a vista. escrito no céu, ao menos, queria vê-lo, mas como em todas as estrofes
“o edifício barra-me a vista”, ou seja, impossibilita a visão do eu lírico.
Quis interpretá-lo. Porém, na última estrofe, há uma constatação: não é o edifício que barra
Valeu? Hoje a sua vista, mas sim, Não, não me barra/ A vista. A vista se barra/ a si
barra-me (há luar) a vista.
mesma”. Assim, novamente tem-se o clima de negação presente no livro,
da presença do “nada”.
Nada escrito no céu,
sei. Outra possibilidade de leitura de “Opaco”: o edifício, emblema por
Mas queria vê-lo. excelência da cidade moderna, ergue-se como elemento que, por impedir
O edifício barra-me
a atividade lúdica e emotiva de deleite, como a contemplação extática e,
a vista.
por que não dizê-lo, lírica da natureza. Assim, percebe-se, logo de início,
Zumbido que o poema é tecido em torno de duas imagens que se opõem: o
de besouro. Motor edifício e o luar. Para ser mais exato, essa oposição é apresentada a
arfando. O edifício barra-me partir da noção de obstáculo - a renitente pedra no meio do caminho -
a vista. que se levanta ante a procura do olhar do poeta. Os olhos buscam a luz
da lua, mas o edifício tolda a visão, impede a percepção da claridade.
Assim ao luar é mais humilde.
Por ele é que sei do luar. O poema constrói um dilema: será sobre o edifício ou sobre o luar que o
Não, não me barra poema está indagando? Aparentemente, seria sobre o luar, mas aos
A vista. A vista se barra poucos, percebe-se que o poeta está, provavelmente, falando do edifício,
a si mesma. concluindo que não é ele que barra sua vista, mas a própria vista barra a
si mesma.
ASPIRAÇÃO
Já não queria a maternal adoração
que afinal nos exaure, e resplandece em pânico,
tampouco o sentimento de um achado precioso
como o de Catarina Kippenberg aos pés de Rilke.

E não queria o amor, sob disfarces tontos


da mesma ninfa desolada no seu ermo
e a constante procura de sede e não de linfa,
e não queria também a simples rosa do sexo,

abscôndita, sem nexo, nas hospedadas do vento,


como ainda não quero a amizade geométrica
de almas que se elegeram numa seara orgulhosa,
imbricamento, talvez? de carências melancólicas.

Aspiro antes à fiel indiferença


mas pausada bastante para sustentar a vida
e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante,
capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios.

No poema “Perguntas em forma de cavalo-marinho”, ele se indaga sobre a própria existência, sobre o
intuito e validade da mesma: “Estamos vivos? A que aspiramos?, que possuímos?, que relembramos?...”;
no poema “Memória”, declara seu amor pelo perdido: “...amar o perdido deixa confundido este coração...”,
como se aquilo que justificasse a existência estivesse depositado em outro tempo, outro espaço;

O poema “Aspiração”, que encerra a primeira parte do livro (Entre cão e lobo), admite a insuficiência
do reconhecimento, do amor, da amizade: “Aspiro antes à fiel indiferença, mas pausada bastante para
sustentar a vida e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante, capaz de sugerir o fim sem a injustiça
dos prêmios”, na tentativa de, sendo indiferente, a toda forma de querer talvez, encontrar aquilo que
procurava.

No poema, há a citação do poeta Rilke: Rainer Maria Rilke, (República Tcheca, 4 de dezembro de 1875 —
Suíça, 29 de dezembo de 1926) foi um poeta de língua alemã do século XX. Escreveu também poemas em
francês.

Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a
união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de "espaço cósmico interior".

Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com


questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX.

Sua obra foi influenciada pelo Expressionismo e influenciou muitos autores e intelectuais de diversas partes
do mundo.
Podemos iniciar a análise do pelo próprio título do
II. NOTÍCIAS AMOROSAS poema, que nos serve como um roteiro de leitura:
se trata, aqui, de amar (verbo) e não amor
AMAR (substantivo), ou seja, indica a ação de amar,
Que pode uma criatura senão, logo, precisa de um objeto. Temos tal percepção
entre criaturas, amar? logo no início do poema, no trecho “QUE PODE
amar e esquecer, amar e malamar, uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”. Em
amar, desamar, amar? seguida, ele faz uso de contradições (“amar e
sempre, e até de olhos vidrados, amar? esquecer / amar e malamar, / ama, desamar,
amar”), como que ilustrando o que acontece, no
Que pode, pergunto, o ser amoroso, que diz respeito ao amor, na vida, não importando
sozinho, em rotação universal, senão como esse amor se desenvolve (“sempre, e até de
rodar também, e amar? olhos vidrados, amar?). Nesta primeira estrofe, o
amar o que o mar traz à praia, eu-lírico questiona o que mais além de amar,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, estando no meio de criaturas, é possível de se
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? fazer. Com o termo “criaturas”, podemos entender
que ele não se refere apenas a pessoas como
Amar solenemente as palmas do deserto, objeto do verbo amar, mas, sim, todas as coisas
o que é entrega ou adoração expectante, existentes, mesmo que se ame errado (“amar e
e amar o inóspito, o áspero, malamar”), mesmo que você ame e esqueça
um vaso sem flor, um chão de ferro, (“amar e esquecer”) e mesmo que você desame o
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. que havia amado (“amar, desamar, amar”).
A segunda estrofe tem início, também, com um
Este o nosso destino: amor sem conta, questionamento: “Que pode, pergunto, o ser
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, amoroso, / sozinho, em rotação universal, senão /
doação ilimitada a uma completa ingratidão, rodar também, e amar?”. No trecho “rodar
e na concha vazia do amor a procura medrosa, também, e amar?” podemos ver o sentido de se
paciente, de mais e mais amor. entregar, não lutar contra a maré, e isto se
confirma no trecho seguinte, “amar o que o mar
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa traz a praia”: aceitar o que a vida der (retomando a
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. noção de criaturas, não se restringindo).

O eu lírico continua a questionar: “amar o que o mar traz à praia, / o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, /
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?”. Neste trecho temos uma ambiguidade: amar o que o próprio amor
sepulta ou o que o mar sepulta? Afinal, podemos ver no mar como um lugar de transição, as coisas vêm e voltam
para o mar. O mar pode ser significar a vida, mas, também, a morte. Nesta estrofe, o eu lírico coloca em dúvida o
que é de fato amor (é sal que vem da brisa marinha), necessidade de amor (a precisão do amor) ou apenas a
sua vontade (a simples ânsia).
A terceira estrofe começa com o verso “Amar solenemente as palmas do deserto, (palmas do deserto são fontes
de alimento para beduínos e animais do deserto, são das palmas do deserto que se retiram as tâmaras). Então,
neste trecho do poema, podemos inferir: mesmo quando a criatura em questão é vazia (deserto), ela tem algo a
oferecer, significando a entrega total (você não espera algo em troca, mas sabe que o deserto possui oasis): “o
que é entrega ou adoração expectante”. E esta ideia se segue na estrofe: “e amar o inóspito, o áspero, / um vaso
sem flor, um chão vazio, / e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina”.
Na quarta estrofe, este ritmo se quebra, a ideia que se seguia até agora, se rompe. Aqui, o eu lírico parece se dar
conta de que apenas ama um desejo: o desejo de amar. E que este é o destino, como se não houvesse outra
saída senão amar e não receber amor, amar apenas o vazio. Afinal, é preciso que haja o vazio para que coisas
sejam e, para tanto, é preciso desejar. Mas à medida que se deseja e se alcança o desejo, o vazio aumenta, pois
desejamos mais. Podemos perceber esta ideia no trecho “doação ilimitada a uma completa ingratidão, / e na
concha vazia do amor a procura medrosa, / paciente, de mais e mais amor”: para o eu lírico, o amor é uma
concha vazia, em que você só deseja e não encontra nada e, mesmo sabendo que é vazia, que do amor não se
tira nada, não nos cansamos de buscar, de desejar o amor. Retomando a ideia do mar, é no mar que as conchas
são feitas, simbolizando vida, porém, as conchas são vazias, delas não tiramos nada, a não ser o eco do mar: o
eu lírico apenas vê o desejo do amor, seu eco.
A quinta estrofe funciona como uma confirmação das ideias desenvolvidas na estrofe anterior (“Amar a nossa
falta mesma de amor, e na secura nossa / amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”). O eu lírico, de
fato, ama a falta que o amor faz, ama o vazio que o desejo de amar causa, como vemos em “amar a água
implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”.
ENTRE O SER E AS COISAS
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

Às almas, não, as almas vão pairando,


e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.

N′água e na pedra amor deixa gravados


seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados


sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.

O soneto "Entre o Ser e as Coisas" o amor que encanta o universo e o faz sofrer é, numa imagem
melancolicamente crepuscular, “uma fogueira a arder no dia findo”;

O primeiro verso é composto de aliterações: /n/; /m/; /d/ e paronomásias: “onda”, “onde”, “ando”

O poema é um soneto em versos decassílabos e esquema de rimas ABAB ABAB CDD CEE

Segundo Affonso Romana de Sant’anna: “o aspecto antitético do sentimento amoroso representa-se através
de imagens marinhas. (...) a água, substância da vida, é também substância da morte, e a tradição literária,
ao empregar a imagem aquática, sempre quis essancializar os paradoxos do amor. A água, elemento onde,
segundo as muitas mitologias, surgem os heróis, a vida, os guerreiros, é o elemento que carreia os homens
mortos, símbolos passageiros e instáveis. Está na própria origem do mito de Narciso a indicação de que a
beleza e o amor pousam sobre um frágil e inapreensível elemento. O amor se confunde com a imagem do
mar, a aparência se constrói a partir da realidade. Por isso, na poesia de Drummond os vocábulos mar-amar
se perfazem num jogo que ultrapassa o simples efeito musical ou na paixão pelas antíteses. O mar é antítese
do amor. Ele é instável, é destruidor como o tempo. Mas aí a sua dialética: ele é também fonte de vida e o
poeta se esforça por aprender a “amar o que o mar traz a praia” (do poema anterior: “Amar”). E é na
instabilidade do mar (tempo) que ele procura o amor. “Onda e amor, onde amor, ando indagando”.

Referência ao poema de Oswald de Andrade: “amor humor”

E aos poemas de Manuel Bandeira “A Onda” e a “Arte de Amar” (Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma./ A alma é que estraga o amor./ Só em Deus ela pode encontrar satisfação./ Não noutra
alma./ Só em Deus - ou fora do mundo./As almas são incomunicáveis./ Deixa o teu corpo entender-se com
outro corpo./ Porque os corpos se entendem, mas as almas não.)
TARDE DE MAIO
Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,


colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,


já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.


Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Neste belo poema que em sua forma de cavalgamento (enjambement) que nos reforça a ideia de movimento
e a que se quer carregar o amor, simbolizado por essa “chama não perceptível” e “devastadora”, como um
talismã da sorte, para manter a chama mesmo com os membros despedaçados, disjecta membra (esta
expressão latina de Horácio, que se refere aos membros do poeta despedaçado ou aos próprios
fragmentos de um poema ou obra literária). Assim averiguamos novamente a ideia fixa da dissolução, que
dito anteriormente perpassa todo Claro enigma, como imagem iterada de restos, de fragmentos, de resíduos
do poeta e de sua poesia, como nos últimos versos do poema “e condenadas, no solo ardente, porções de
minh’alma” oca, sem fruto, estéril “nunca antes nem nunca” medida como parâmetro de grandeza. O poeta
se utiliza da figura da repetição de advérbios de negação, “nunca” duplamente e “nem” para enfatizar a não
aferição desta alma vazia.

O poema se refere, metaforicamente, ao amor na madureza (tarde) e ao outono (maio): “Outono é a estação
em que ocorrem tais crises,/ e em maio, tantas vezes, morremos”. O poema que evoca a lembrança de uma
experiência amorosa trágica ligada a um contexto apocalíptico (rubor dos incêndios) e ao outono que está
associado a declínio, esterilidade, melancolia e morte. Segundo a lógica das estações, depois virá a
primavera, mas essa é “fictícia” pois a renovação não abolirá as marcas do sofrimento do outono, lembrando
o tema da madureza.

O poema tem um ritmo grave, é construído em versos livres, em 4 estrofes de 9 versos, e tem um
andamento elegíaco, ou seja, de um lamento fúnebre, portanto é um tipo de elegia amorosa.
FRAGA E SOMBRA
A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje


que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,


sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo


instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.

Outro soneto do livro, com versos decassílabos e esquema de rima ABAB ABAB CDC DEE

O título do poema traz elementos opostos de concretude e abstração, mas que ao mesmo tempo fazem
parte de uma única composição, a natureza, em que a sombra existe a partir da existência da fraga
(penhasco, pedra), e a última aparece no jogo de claro e escuro. Ou seja, o título é uma dialética, uma
oposição, onde um não exclui o outro, são opostos que se completam.

A mesma “noite” que é metáfora recorrente em Claro enigma e na obra drummondiana, e com sua chegada
o peso do sentimento de opressão “A sombra azul da tarde nos confrange/ Baixa severa a luz crepuscular”.
Na segunda estrofe, o passar da noite e chegada do dia “O alfanje que sono e sonho ceifa devagar mal se
desenha, fino ante a falange” num encalvagamento que dá pela forma a sensação de passar do tempo, e ao
finalizar o poema na última estrofe expressa o desejo de liberdade ao “sob o profundo instinto de existir,
outra mais pura vontade de anular a criatura”.

Os dois primeiros quartetos têm invocações sensíveis, fortes do som e de cor. A Fraga, a pedra, nos
remete a Claudio Manoel da Costa, poeta árcade, mineiro como Drummond e que também tinha na
Penha/Pedra tema recorrente. O padrão clássico da estrutura do poema e a escolha de temas universais e
voltados para a natureza, todos são elementos utilizados por poetas árcades. O espetáculo do mundo
transformando o mundo natural em poema: o homem tocando o mundo. O eu-lírico está emparedado diante
da “Fraga”, que é um morro escarpado e a sombra da do sol que se põe trazendo a noite e com ela toda
força da “noite” na tradição poética, como a escuridão, e todos os sentimentos obscuros como melancolia e
desengano. A simbologia da noite, escuridão, tema reaparece periodicamente em poemas de Drummond
como nos trechos de versos de “Dissolução” citado anteriormente: E nem destaco minha pele/ da confluente
escuridão./ Um fim unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando”. Neste trecho do poema “Dissolução”,
a “noite” e o poeta são um só ser, mal se distingue a pele da noite, como se o eu lírico diluído na noite e em
tudo que ela representa na poética drummondiana, como os sentimentos de opressão, “noite” que se
corporifica com densidade, que pesa e pousa no ar. Esta “noite” também retorna em “Fraga e Sombra” no
verso; /Música breve, noite longa” (lembrando: “Vita brevis, ars longa” traduzido do latim ao português: A
vida é curta, a arte é longa. É um aforismo em latim que tem sua origem nos escritos do arquiteto e médico
grego Hipócrates mas que foi popularizada pelo poeta romano Sêneca). Neste verso a “música” como a
metáfora da própria arte que tem seu caráter efêmero e a “noite” longa com toda a simbologia dita
anteriormente. E novamente as oposições: breve e longa, música e noite. Primeiro a oposição temporal
entre breve e longa e depois “música” como algo leve e que traz sentimentos luminosos e esta e “noite” sua
carga de sentimentos pesados. O poema é composto por esses oximoros, assim como o livro e seu próprio
título Claro enigma, também um paradoxo.

Confrange: vem do verbo confranger. O mesmo que: aflige, agrilhoa, angustia, atormenta, oprime.

Alfanje: Sabre, tipo de espada, cuja lâmina pequena e larga possui um fio na parte convexa da curva.
Gadanha; foice usada para derrubar matas.

Falange: na Grécia antiga, corpo de infantaria espartano e macedônio; qualquer corpo de tropas.
CANÇÃO PARA UM ÁLBUM DE MOÇA
Bom dia: eu dizia a moça
que de longe sorria.
Bom dia: mas da distância
ela nem respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava,
de noite como de dia,
bem longe do meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom-dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas,
sobre o vale e a serrania,
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
O tempo é talvez ingrato
e funda a melancolia
para que justifique
o meu absurdo bom-dia.
Nem a moça põe reparo,
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne desto bom-dia.
Bom dia: repito à tarde,
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor do meu dia,
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.
Bom dia: apenas um eco
na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe,
não sente, alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denúncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
ao meu bom-dia: bom dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!

Uma diferente modulação do tema é "Canção Para Álbum de Moça", que exprime o desencontro amoroso
com algum desapontamento esperançado; poema única estrofe em versos redondilhos maiores que
conferem a “canção” um caráter popular, cantante como uma cantiga folclórica; as rimas são nos
versos pares em /ia/ (toantes).

O eu lírico divide seu “bom dia” a uma moça distante e espera uma resposta dela. No entanto, a moça
permanece indiferente. O amor tímido está envolto em um estado de escuridão, prenunciado pela imagem
da noite.
RAPTO
Se uma águia fende os ares e arrebata
esse que é forma pura e que é suspiro
de terrenas delícias combinadas;
e se essa forma pura, degradando-se,
mais perfeita se eleva, pois atinge
a tortura do embate, no arremate
de uma exaustão suavíssima, tributo
com que se paga o voo mais cortante;
se, por amor de uma ave, ei-la recusa
o pasto natural aberto aos homens,
e pela via hermética e defesa
vai demandando o cândido alimento
que a alma faminta implora até o extremo;
se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
esquivo e refolhado, cinza em núpcias,
e tudo é triste sob o céu flamante
(que o pecado cristão, ora jungido
ao mistério pagão, mais o alanceia),
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.

O poema Rapto se refere ao rapto de Ganimedes, o mais belo dos mortais, por Zeus disfarçado de
águia.
A primeira parte do poema descreve o rapto: “Se uma águia fende os ares e arrebata/ esse que é forma pura
e que é suspiro/ de terrenas delícias combinadas”. A partir do verso: “se esses raptos terríveis se repetem/ já
nos campos e já pelas noturnas / portas de pérola dúbia das boates”, o poema diz que ocorre a repetição do
mito, ou seja, o pecado cristão ou mistério pagão do amor homossexual, a “outra forma de amar no acerbo
(ácido, azedo) amor”.

Portanto, Rapto é um poema que trata de um dos temas caros ao livro, os mitos que sufocam, como em
outros poemas, mas também da forma de amor que existe na natureza, esse amor da natureza ambígua
e reticente, a outra forma de amar.

Ganímedes ou Ganimedes na mitologia grega, era um príncipe de Troia, por quem Zeus se apaixonou. Ele
era filho de Tros e Calírroe. Nas imediações de Troia, o jovem cuidava dos rebanhos do pai, quando foi
avistado por Zeus. Atordoado com a beleza do mortal, Zeus transformou-se em uma águia e raptou-o,
possuindo-o em pleno voo. Ele passou a ser o copeiro dos deuses, Homero relata: Ganímedes foi o mais
encantador nascido da raça dos mortais, e, portanto, o deus pegou-o para si, para servir vinho a Zeus, por
causa de sua beleza, então ele pode estar entre os imortais”. Ganimedes foi levado ao Olimpo e, apesar do
ódio de Hera, substituiu a deusa Hebe e passou a servir o néctar aos deuses, bebida que oferece a
imortalidade, derramando, depois, os restos sobre a terra, servindo aos homens. Em homenagem ao
belíssimo jovem, Zeus colocou-o na constelação de Aquário.
CAMPO DE FLORES
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos


e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia


e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra


imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa


a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso


para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece


na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,


há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

“Deus me deu um amor no tempo de madureza,/quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.” Esse
amor é tal como fruto maduro, pronto para comer ou já apodrecido, por não colhido, na árvore frondosa da
vida. E o poeta ainda agradece a Deus e ao Diabo, pelo bem e pelo mal, que esse amor em tempos de
madureza podem lhes oferecer, é o “amor crepuscular” (que lembra o poema “Tarde de Maio”). Em “Campo
de Flores” há uma relação antitética (Deus x Diabo; imagens de luz e trevas: “radioso” x “penumbra”, “sou e não
sou, mas sou”), ou seja, o eu lírico está consciente das contradições inerentes ao homem e ao amor, mas aceita
a precariedade de sua situação e constata que “amanhecem de novo as antigas manhãs”. Assim, nesse “amor
crepuscular” o amor se apresenta como o elemento a partir da qual ele atinge a claridade do intemporal “para
fora do tempo arrasto meus despojos / e estou vivo na luz que baixa e me confunde”.
III. O MENINO E OS HOMENS
A UM VARÃO QUE ACABA DE NASCER
Chegas, e um mundo vai-se
que nunca se apiede
como animal ferido,
e se furte a viver
arqueja. Nem aponta
em nossa companhia.
um forma sensível,
Este é de resto o mal
pois já sabemos todos
superior a todos:
que custa a modelar-se
a todos como a tudo
uma raiz, um broto.
estamos presos. E
E contudo vens tarde.
se tentas arrancar
Todos vêm tarde. A terra
o espinho de teu flanco,
anda morrendo sempre,
a dor em ti rebate
e a vida, se persiste,
a do espinho arrancado.
passa descompassada,
Nosso amor se mutila
e nosso andar é lento,
a cada instante. A cada
curto nosso respiro,
instante agonizamos
e logo repousamos
ou agoniza alguém
e renascemos logo.
sob o carinho nosso
(Renascemos? talvez)
Ah, libertar-se, lá
Crepita uma fogueira
onde as almas se espelhem
que não aquece. Longe.
na mesma frigidez
Todos vêm cedo, todos
de seu retrato, plenas!
chegam fora do tempo,
É sonho, sonho. Ilhados,
antes, depois. Durante,
pendentes, circunstantes,
quais os que aportam? Quem
na fome e na procura
respirou o momento,
de um eu imaginário
vislumbrando a paisagem
e que, sendo outro, aplaque
de coração presente?
todo este ser em ser,
Quem amou e viveu?
adoramos aquilo
Quem sofreu de verdade?
que é nossa perda. E morte
Como saber que foi
e evasão e vigília
nossa aventura, e não
e negação do ser
outra, que nos legaram?
com dissolver-se em outro
No escuro prosseguimos.
transmutam-se em moeda
Num vale de onde a luz
e resgate do eterno.
se exilou, e no entanto
Para amar sem motivo
basta cerrar os olhos
e motivar o amor
para que nele trema,
na sua desrazão,
remoto e matinal,
Pedro, vieste ao mundo.
o crepúsculo. Sombra!
Chamo-te meu irmão.
Sombra e riso, que importa?
Estendem os mais sábios
a mão, e no ar ignoto
o roteiro decifram, O poema faz parte do tema “cantar de amigos”. Neste caso, o
e é às vezes um eco, poema faz uma homenagem (ainda que dentro do clima
outras, a caça esquiva, sombrio do livro) ao nascimento do “varão”, Pedro, que acabara
que desafia, e salva-se. de nascer, para alguns críticos, trata-se do neto de Drummond
E a corrente, atravessa-a, que nascera em Buenos Aires, filho de sua filha Maria Luísa.
mais que o veleiro impróprio,
certa cumplicidade O título dessa parte, “O menino e os homens” refere-se aos
entre nosso corpo e água. homens que serão homenageados, portanto, o menino pode ser
Os metais, as madeiras o próprio poeta (ou trata-se do menino desse primeiro poema).
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada Os outros homenageados são: Manuel Bandeira em “O
é tão rude bastante Chamado”, Mário Quintana em “Quintana’s Bar” e Mário de
Andrade, no aniversário de cinco anos de sua morte em
“Aniversário”.
O CHAMADO A referência a permite entender que “O Chamado” é uma
Na rua escura o velho poeta homenagem a Manuel Bandeira, autor de “Vou me embora
(lume de minha mocidade) pra Pasárgarda”. Drummond já havia reconhecido em
já não criava, simples criatura outro poema (“Ode ao cinquentenário do poeta brasileiro”,
exposta aos ventos da cidade. de Sentimento do mundo. Bandeira é chamado de “lume”
e qualificado como “desgarrado / na caótica noite urbana”.
Ao vê-lo curvo e desgarrado Em outras palavras: capaz de se manter à parte dessa
na caótica noite urbana, escuridão que se abateu não só sobre Claro enigma, mas
o que senti, não alegria, sobre o mundo que esse livro aborda. A grandiosidade
era, talvez, carência humana. está em atender ao seu destino, em ir para a sua
Pasárgada.
E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo) E tal invocação a que Bandeira responde está ligada à
para onde vai — a que angra serena, aceitação calma do destino, que pode ser também
a que Pasárgada, a que abrigo? entendida como a aceitação serena da morte. Se se
lembrar que muitas vezes o que se elogia em alguém é o
A palavra oscila no espaço que no fundo se deseja para si, torna-se plausível
um momento. Eis que, sibilino,
entender que Drummond acaba implicitamente
entre as aparências sem rumo,
expressando o desejo de possuir a mesma disposição de
responde o poeta: Ao meu destino.
Bandeira em aceitar o destino, mesmo sendo a morte: “Eis
E foi-se para onde a intuição, que, sibilino, / entre as aparências sem rumo, / responde o
o amor, o risco desejado poeta: Ao meu destino.”
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.

QUINTANA’S BAR
Num bar fechado há muitos, muitos anos, e cujas portas de aço bruscamente se descerram, encontro, quem eu
nunca vira, o poeta Mario Quintana.
Tão simples reconhecê-lo, toda identificação é vã. Em algum lugar - coxilha? montanha? vai rorejando a
manhã.
Na total desincorporação das coisas antigas, perdura um elemento mágico: estrela-do-mar - ou Aldebarã?,
tamanquinhos, menina correndo com o arco. E corre com pés de lã.
Falando em voz baixa nos entendemos, eu de olhos cúmplices, ele com seu talismã. Assim me fascinavam
outrora as feitiçarias da preta, na cozinha de picumã.
Na conspiração da madrugada, erra solitário - dissolve-se o bar - o poeta Quintana. Seu olhar devassa o
nevoeiro, cada vez mais densa é a bruma de antanho.
Uma teia tecendo, e sem trabalho de aranha. Falo de amigos que envelheceram ou que sumiram na semente
de avelã.
Agora voamos sobre os tetos, à garupa da bruxa estranha. Para iludirmos a fome que não temos pintamos
uma romã.
E já os homens sem província, despetala-se a flor aldeã. O poeta aponta-me casas: a de Rimbaud, a de
Blake e a gruta camoniana.
As amadas do poeta, lá embaixo, na curva do rio, ordenham-se em lenta pavana, e uma a uma, gotas ácidas,
desaparecem no poema. É há tantos anos, será ontem, foi amanhã? Signos criptográficos ficam gravados no céu
eterno – ou na mesa de um bar abolido, enquanto debruçado sobre o mármore, silenciosamente viaja o poeta Mario
Quintana.

Único poema em prosa do livro. Homenagem ao poeta Mario Quintana. Várias referências intertextuais, tanto
aos poemas de Mario Quintana, quanto a outros poetas (Rimbaud, Blake, Camões)

O poema se inicia com um paradoxo: o eu lírico encontra o poeta que nunca vira, dentro de um bar que estava
fechado. Como em outros poemas, nesse também ocorre alusão a uma constelação, agora é “Aldebarã”.

Apesar de escrito em prosa, trata-se de um dos poemas mais “musicais” do livro, principalmente pelas rimas em
“ã” (de manhã, romã, avelã, picumã, lã, aldeã, entre outras, talvez para rimar com o nome do poeta: Quintana.
ANIVERSÁRIO
Os cinco anos de tua morte Homenagem ao poeta Mário de Andrade, portanto se trata
esculpiram já uma criança. de um aniversário de morte: “Os cinco anos de tua morte/
Moldada em éter, de tal sorte, esculpiram já uma criança.”
ela é fulva e no dia avança.
As palavras “malasártico, / Macunaima” referem-se a obras
Este menino malasártico, de Mario de Andrade, além da citação do piano e de Mozart,
Macunaima de novo porte, uma vez que Mario de Andrade era pianista.
escreve cartas no ar fantástico
para compensar tua morte. Nova referência a uma constelação, agora a Ursa Maior,
talvez a imagem de Macunaíma que se transformou na Ursa
Com todos os dentes, feliz, Maior no final dessa obra.
Lá de um mundo sem sul nem norte,
de teu inesgotável país,
ris. Alegria ou puro esporte?

Ris, irmão, assim cristalino


(Mozart aberto em pianoforte)
o redondo, claro, apolíneo
riso de quem conhece a morte.

Não adianta, vê, te prantearmos. ...


Tudo sabes, sem que isso importe
em cinismo, pena, sarcasmo.
E, deserto, ficas mais forte.

Giras na Ursa Maior,


acaso, solitário, em meio à coorte,
sem, nas pupilas, flor ou vaso.
Mas o jardim é teu, da morte.

Se de nosso nada possuímos


salvo o apaixonado transporte
— vida é paixão —, contigo rimos,
expectantes, em frente a Porta!
IV. SELO DE MINAS
EVOCAÇÃO MARIANA
A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.
Havia poucas flores. Eram flores de horta.
Sob a luz fraca, na sombra esculpida
(quais as imagens e quais os fiéis?)
ficávamos.

Do padre cansado o murmúrio de reza


subia às tábuas do forro,
batia no púlpito seco,
entranhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso,
perdia-se.
Não, não se perdia...
Desatava-se do coro a música deliciosa
(que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)
e dessa música surgiam meninas – a alvura mesma –
cantando.

De seu peso terrestre a nave libertada,


como do tempo atroz imunes nossas almas,
flutuávamos
no canto matinal, sobre a treva do vale.

“Selo de Minas” tem reunidos cinco poemas em torno do tema Minas Gerais: o primeiro deles “Evocação
Mariana” trata sobre a “evocação” dos devotos de Maria e também faz referência à cidade de Mariana (que
fica próximo a Ouro Preto.

Nele, o poeta descreve o sentimento religioso no interior de uma “igreja grande e pobre”, de onde
“desatava-se do coro a música deliciosa” e assim, o eu lírico envolto por um êxtase sagrado flutua “no canto
matinal sobre a treva do vale”.

Apesar do clima “pobre”, “humilde”, “com poucas flores”, “luz fraca”, e ainda de antiguidade, o clima místico
e quase celeste é invocado pelo “incenso”, pela “luz e sombra”, “ “imagens”, (quais as imagens e quais os
fiéis?), pela música do coro e das meninas, fazendo com que no final do poema, tudo faça com que acabe
por “flutuar” : “De seu peso terrestre a nave libertada,/ como do tempo atroz imunes nossas almas, /
flutuávamos”, como se por um instante, as almas se libertassem do peso do tempo.

O poema é uma grande sinestesia composto por elementos visuais, olfativos, auditivos, como no verso: “a
alvura mesma – cantando”.
ESTAMPAS DE VILA RICA
I - CARMO
Não calques o jardim III - MERCÊS DE CIMA
nem assustes o pássaro. Pequena prostituta em frente a Mercês de Cima.
Um e outro pertencem Dádiva de corpo na tarde cristã.
aos mortos do Carmo. Anjos saídos da portada
Não bebas nesta fonte e nenhum Aleijadinho para recolhê-los.
nem toques nos altares.
Todas estas são prendas IV - HOTEL TOFFOLO
dos mortos do Carmo. E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Quer nos azulejos Como se não houvesse outras fomes
ou no ouro da talha, e outros alimentos.
olha: o que está vivo Como se a cidade não servisse seu pão
são mortos do Carmo. de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
II - SÃO FRANCISCO DE ASSIS e só pretendemos a mesa.
Senhor, não mereço isto. Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as
Não creio em vós para vos amar. Escrituras.
Trouxestes-me a São Francisco Tudo se come, tudo se comunica,
e me fazeis vosso escravo. tudo, no coração, é ceia.
Não entrarei, Senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
Vossas flores e querubins V - MUSEU DA INCONFIDÊNCIA
são matéria de muito amar. São palavras no chão
Dai-me, Senhor, a só beleza e memória nos autos.
destes ornatos. E não a alma. As casas inda restam,
Pressente-se dor de homem, os amores, mais não.
paralela à das cinco chagas. E restam poucas roupas,
Mas entro e, Senhor, me perco sobrepeliz de pároco,
na rósea nave triunfal. a vara de um juiz,
Por que tanto baixar o céu? anjos, púrpuras, ecos.
Por que esta nova cilada? Macia flor de olvido,
Senhor, os púlpitos mudos sem aroma governas
entretanto me sorriem. o tempo ingovernável.
Mais que vossa igreja, esta Muros pranteiam. Só.
sabe a voz de me embalar.
Perdão, Senhor, por não amar-vos. Toda história é remorso.

Os cinco poemas tratam de lugares e imagens de Ouro Preto: A primeira estampa é “Carmo”, poema que reverencia “os
mortos do Carmo”, trata de uma reflexão sobre a vida e a morte, sobretudo a permanência “dos mortos do Carmo” e tudo a
sua volta “jardim”, “pássaro”, “fonte”, “altares”, “azulejo” e “talha”. Tudo que “está vivo” pertence aos “mortos do Carmo”, ou
seja, o poema nos reporta a um passado morto, observamos novamente a recorrência do tema sobre o passado que
permanece. A segunda estampa é “São Francisco de Assis”, homenageia a Igreja de São Francisco de Assis, arquitetura
de Aleijadinho e o famoso teto de Mestre Ataíde, que aborda, ao mesmo tempo, a contradição de coexistir no eu-lírico tanto
o sentimento religioso quanto a culpa de negar a fé religiosa. O remorso fica claro no verso “Senhor não mereço isso./ Não
creio em vós para vos amar./Trouxeste-me a São Francisco/ e me fazes vosso escravo”, aludindo a contradição entre a
beleza do lugar e culpa do poeta de não ser cristão. A terceira estampa “Mercês de Cima” é uma quadrinha irônica, ao
estilo poema piada de Oswald de Andrade, que era um dos companheiros nessa viagem às cidades históricas mineiras. Um
comentário sobre a convivência do sagrado e do profano, ao descrever uma bela prostituta em frente à igreja como uma
“dádiva de corpo na tarde cristã. A quarta estampa “Hotel Toffolo” local de encontro de poetas, de artistas na cidade, ideal
para saciar “outras fomes”, já que o “repasto é interior” e deste banquete afetivo o poeta extrai sua poesia “tudo, no coração
é ceia”. A última estampa “Museu da Inconfidência” relata a história dos inconfidentes mineiros, ao mesmo tempo em que
descreve o acervo pobre com poucas peças ali expostas, como vestígios de uma história que está prestes a ser esquecida
como nos versos: “Macia flor do olvido, /sem aroma governas/ o tempo ingovernável” como se o esquecimento fosse
suavizado e amenizasse as dores do passado, Mas, o museu não cumpre sua função. Contrariando, assim, a destinação de
todo museu, que é a preservação da memória artística e/ou histórica nacional contra a ação destruidora do tempo, o da
Inconfidência, pelo menos nos termos em que é descrito por Drummond, vem marcado pela dispersão, pela carência, pelo
depauperamento, em suma, pelo esquecimento. Todavia são os “muros” que “pranteam” pelo fim trágico dos inconfidentes
que tornam viva a memória sobre os fatos que ali ocorreram, e que não deixam suavizar essas dores. Mas, é o verso final
do poema “Toda história é remorso” que resume o sentimento que sintetiza o caderno, a “culpa histórica” agregada ao
tempo corrosivo não permite que as lembranças caiam no esquecimento.
MORTE DAS CASAS DE OURO PRETO
Sobre o tempo, sobre a taipa, O chão começa a chamar
a chuva escorre. As paredes as formas estruturadas enquanto se espalham outras
que viram morrer os homens, faz tanto tempo. Convoca-as em polvorentas partículas
que viram fugir o ouro, a serem terra outra vez. sem a vermos fenecer.
que viram finar-se o reino, Que se incorporem as árvores Ai, como morrem as casas!
que viram, reviram, viram, hoje vigas! Volte o pó Como se deixam morrer!
já não veem. Também morrem. a ser pó pelas estradas! E descascadas e secas,
ei-las sumindo-se no ar.
Assim plantadas no outeiro, A chuva desce, às canadas.
menos rudes que orgulhosas Como chove, como pinga Sobre a cidade concentro
na sua pobreza branca, no país das remembranças! o olhar experimentado,
azul e rosa e zarcão, Como bate, como fere, esse agudo olhar afiado
ai, pareciam eternas! como transpassa a medula, de quem é douto do assunto.
Não eram. E cai a chuva como punge, como lanha (Quantos perdi me ensinaram.)
sobre rótula e portão. o fino dardo da chuva Vejo a coisa pegajosa,
vai circunvoando na calma.
Vai-se a rótula crivando mineira, sobre as colinas!
como a renda consumida Minhas casas fustigadas, Não basta ver morte de homem
de um vestido funerário. minhas paredes zurzidas, para conhecê-la bem.
E ruindo se vai a porta. minhas esteiras de forro, Mil outras brotam em nós,
Só a chuva monorrítmica meus cachorros de beiral, à nossa roda, no chão.
sobre a noite, sobre a história meus poços de telha-vã A morte baixou dos ermos,
goteja. Morrem as casas. estão úmidos e humildes. gavião molhado. Seu bico
vai lavrando o paredão
Morrem severas. É tempo Lá vão, enxurrada abaixo,
de fatigar-se a memória as velhas casas honradas e dissolvendo a cidade.
por muito servir ao homem, em que se amou e pariu, Sobre a ponte, sobre a pedra,
e de o barro dissolver-se. em que se guardou moeda sobre a cambraia de Nize,
Nem parecia, na serra, e no frio se bebeu. uma colcha de neblina
que as coisas sempre cambiam Vão no vento, na caliça, (já não é a chuva forte)
de si, em si. Hoje, vão-se. no morcego, vão na geada, me conta por que mistério
o amor se banha na morte.

Em “Morte das Casas de Ouro Preto” é a cidade que se desfaz, a cidade símbolo de uma Minas enriquecida;

O poema é todo em redondilhas maiores, dispostos em doze estrofes de sete versos (sétimas). O poeta apropriou-
se da consoante linguodental /t formando aliterações no primeiro verso, que lembram o início da chuva imitando
sons de pingos esparsos e as anáforas se repetem como o ritmo monorrítmico dessa “chuva alegórica” que
percorre todo o poema.

Ao mesmo tempo, essa chuva é a metáfora da morte, da corrosão, do fim, da aniquilação dessas casas que
simbolizam o Brasil colonial, nossa herança patriarcal. A sintaxe calcada no enjambement dá o movimento
contínuo ao poema assim como a chuva que não para de cair sobre “as paredes” dessas “casas”. A “chuva
monorrítmica”, com a mesma melodia e frequência, esfacela a arquitetura das “casas” e “vai-se a rótula” e “vai a porta”. E
a anáfora “sobre a noite, sobre a história” a repetição enfatiza a continuidade da chuva e a consequente corrosão
arquitetônica.

Novamente a metáfora da “noite”, recorrente na obra do poeta mineiro, agora aparece associada à história,
“noite” que pode significar obscuridade, ignorância, desconhecimento sobre a história que tende à dissipação, ao
esquecimento. Assim “Morrem as casas”, lentamente como a história, no ritmo do gotejar da chuva. Diante da aniquilação
das casas de Ouro Preto, o eu lírico passa a refletir sobre a morte, em meio a “polvorentas partículas”, aliterações em /p/
que expressam sonoridade explosiva, quando tudo volta a ser “pó.

Na última estrofe, a dissolução é descrita já no primeiro verso “dissolvendo a cidade reforça a imagem devastadora da
enxurrada e a reflexão do eu-lírico sobre a dissolução da história das “Casas de Ouro Preto”. A sequência finalizada pela
significativa imagem que emana do verso “sobre a cambraia de Nize”, que nos remete a um bordado fino e a “Nize o
nome (anagramático) de uma musa do lirismo da Arcádia, cara a Cláudio Manoel da Costa. Essa citação é impregnada
de historicidade sendo um símbolo da Arcádia. O poeta metaforiza o céu como “uma colcha de neblina”, imagem do
fim do temporal e a chuva agora é chuvisco, e fica a pergunta do eu-lírico “me conta por que mistério/ o amor se banha na
morte”. Não poderíamos supor que as mortes, as perdas, aumentam o amor porque amor é vida e o contrário da morte?

Rótula: sinônimo de gelosia [Do italiano gelosia] 1.grade de fasquias de madeira cruzadas intervaladamente, que ocupa o
vão de uma janela; rótula.2. janela de rótula. ;

Canadas que significa antiga medida de capacidade equivalente a 2622 litros;

Remembrança, embora sinônimo de lembrança, o termo não é usual, mas foi o escolhido por ser uma palavra antiga, de
um português arcaico. Que intensifica a ideia de um passado histórico que permanece no presente.
CANTO NEGRO

À beira do negro poço Entre as moitas e coágulos


Debruço-me, nada alcanço De letárgica bacia
Decerto perdi os olhos Onde a gente se pasmava
Que tinha quando criança Se perdia, se afogava
E depois se ressarcia
Decerto os perdi, com eles
É que te encarava, preto Bacia negra, o clarão
Gravura de cama e padre Que súbito entremostravas
Talhada em pele, no medo Ilumina toda a vida
E por sobre a vida entreabre
Ai, preto, que ris em mim Um coalho fixo lunar
Nesta roupinha de luto Neste amarelo descor
E nesta noite sem causa Das posses de todo dia
Com saudade das ambacas Sol preto sobre água fria
Que nunca vi, e aonde fui
Num cabelo no sovaco Vejo os garotos na escola
Preto-branco-branco-preto
Preto que vivi, chupando Vejo pés pretos e uns brancos
Já não sei que seios moles Dentes de marfim mordente
Mais claros no busto preto O alvor do riso escondendo
No longo corredor preto Outra negridão maior
Entre volutas de preto O negro central, o negro
Cachimbo em preta cozinha Que enegrece teu negrume
E que nada mais resume
Já não sei onde te escondes Além dessa solitude
Que não me encontro nas tuas Que do branco vai ao preto
Dobras de manto mortal E do preto volta pleno
Já não sei, negro, em que vaso De soluços e resmungos
Que vão ou que labirinto Como um rancor de si mesmo...
De mim, te esquivas a mim
E zombas desta gelada Como um rancor de si mesmo,
Calma vã de suíça e de alma Vem do preto essa ternura,
Em que me pranteio, branco Essa onda amarga, esse bafo
Brinco, bronco, triste blau a rodar pelas calçadas,
De neutro brasão escócio... famélica voz perdida
Meu preto, o bom era o nosso Numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
O mau era o nosso, e amávamos Esse estar e não estar,
A comum essência triste Esse não estar já sendo,
Numa visguenta doçura Esse ir como esse refluir,
De vulva negro-amaranto Dançar de umbigo, litúrgico,
Barata! Que vosso preço Sofrer, brunir bem a roupa
Ó corpos de antigamente Que só um anjo vestira,
Somente estava no dom Se é que os anjos se mirassem,
De vós mesmos ao desejo Essa nostálgica rara
Num entregar-se sem pejo De um país antes dos outros,
De terra pisada Antes do mito e do sol
Amada, Onde as coisas nem de brancas
Talvez não, mas que cobiça Fossem chamadas, lançando-se
Tu me despertavas, linha Definitivas eternas
Que subindo pele artelho Coisas bem antes dos homens,
Enovelando-se no joelho
Dava ao mistério das coxas À beira do negro poço
Uma ardente pulcritude Debruço-me; e nele vejo,
Uma graça, uma virtude Agora que não sou moço
Que nem sei como acabava Um passarinho e um desejo.

“Canto negro” como o próprio título sugere é uma ode à negritude, canto que homenageia os negros e a cultura afro-
brasileira. Em seus versos, para realçar a questão da cor, o poeta cria um jogo de claro e escuro, em que predomina a
repetição dos termos “negro”, “preto”. O universo semântico em torno da luz e da obscuridade: “pele”, “luto”, “noite”,
“branco”, “negro-amaranto”, “clarão”, “ilumina”, “lunar”, “descor”, “preto-brancobranco-preto”, “marfim”, “alvor”, “negridão”,
“enegrece”, “negrume”, “breu”, “brunir”, “sol” 88 e “brancas”. E nesse jogo de cores, de luz e escuridão, o eu-lírico recorda
a convivência, nem sempre cordial, entre brancos e negros. Nos versos do “Canto negro” observamos a epístrofe com o
termo “preto” para dar ênfase à memória escurecida pelo tempo. Eis que ressurge a imagem da figura da mãe de leite, a
negra que amamentou o “menino doentio”, prática muito comum no Brasil rural, resquício de nossa história colonial e
escravocrata.
OS BENS E O SANGUE
I

"Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847


nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanesia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor letra
estes nomes q em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e treta:
ESMERIL PISSARRÃO
CANDONGA CONCEIÇÃO
E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo o snr Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não fôr vendido, por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,
que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e
[rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
LAVRA DA PACIÊNCIA
LAVRINHA DE CUBAS
ITABIRUÇU

II
Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo Em “Os bens e o sangue” o poeta dá voz a seus
um menino inda não nado antepassados que anteveem o futuro do “menino” inapto
(e melhor não fora nado) aos costumes mineiros e predizem a dissolução dos bens e
que de nada lhe daremos do destino de seu descendente, ambos, irremediavelmente,
sua parte de nonada votados à perda.
e que nada, porém nada Este poema tem oito estrofes, a primeira tem a forma de um
o há de ter desenganado. documento/contrato, em que são vendidas as lavras, as
E nossa rica fazenda terras, os bens. Lavra, palavra derivada de lavrar, significa
já presto se desfazendo lugar onde se extrai ouro e diamante. Lavrar do latim
vai-se em sal cristalizando laborare, ‘trabalhar’,1. sulcar a terra.2. desenhar em
na porta de sua casa bordados. 3.explorar minas. 4.exarar por escrito, redigir. 5.
ou até na ponta da asa gastar, desgastar, corroer. Esta multiplicidade semântica do
de seu nariz fino e frágil, verbo “lavrar”, que além de ter o sentido explorar mina, tem
de sua alma fina e frágil, tantos outros significados, como “desgastar”, e “corroer”
de sua certeza frágil que indicam a corrosão do tempo e da própria paisagem da
frágil frágil frágil frágil região devido à escavação das minas. “Lavrar” tem ainda o
mas que por frágil é ágil, sentido de redigir, escrever. Esse último significado está
e na sua mala-sorte sugerido pela forma do poema que é como se fosse um
se rirá êle da morte. contrato de compra e venda, um documento lavrado em
cartório. Assim, o termo “lavra” adquire todas essas
III nuances e reforçam a ideia do desgaste do tempo, da
Este figura em nosso história e de certa maneira resume a poética de Drummond
pensamento secreto. especialmente em Claro enigma.
Num magoado alvoroço A anáfora do termo “lavras por matas, lavras por títulos,
o queremos marcado lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas” intensifica a
a nos negar; depois ideia da desvalorização das minas e, que se não vendidas
de sua negação permutavam-se por qualquer coisa sejam “mulas” ou
nos buscará. Em tudo “mulatas.
será pelo contrário
seu fado extraordinário.
Vergonha da família
que de nobre se humilha A afirmação “trocar é o nosso fraco e lucrar esse é o
na sua malincônica nosso forte” deixa transparecer um gesto impetuoso
tristura meio cômica, dos antepassados ao se desfazerem das posses, sem
dulciamara nux-vomica. pensar na consequente derrocada dos bens da
IV família e do futuro de seus descendentes “Mais que
Este hemos por bem todos deserdamos/ deste modo oblíquo modo/ um
reduzir à simples menino ainda não dado”. Estes versos da segunda
condição ninguém. estrofe do poema destituem de bens esse “menino
Não lavrará campo. doentio”.
Tirará sustento Percebemos o uso de termos típicos do português
de algum mel nojento. arcaico, sobretudo na utilização do “q”, ao que parece
Há de ser violento ter sido inspiração em documentos antigos. Essa
sem ter movimento. linguagem arcaica concede autenticidade a um
Sofrerá tormenta documento esgarçado pelo tempo e, sobretudo
no melhor momento. escrito em “papel azul Bath”. Esta forma de
Não se sujeitando documento/ contrato é a configuração dada pelo
a um poder celeste poeta à primeira estrofe, destacando sua
ei-lo senão quando historicidade.
de nudez se veste,
roga à escuridão Em outro trecho, a estrofe V, a poesia soa como uma
abrir-se em clarão. praga ao representar a previsão do futuro do
Este será tonto descendente da família. Essa praga em versos curtos
e amará no vinho em que é utilizada a anáfora com a repetição do
um novo equilíbrio verbo “vai” no tempo futuro, sublinha a previsão de
e seu passo tíbio um destino sombrio para “o menino”, que é o próprio
sairá na cola poeta. E ao mesmo tempo, pressagia o desgosto que
de nenhum caminho. ele dará à sua família, já aí antevendo um possível
V remorso, que se configurará como um traço forte da
— Não judie com o menino obra Drummondiana.
compadre.
— Não torça tanto o pepino, Os versos soam como um vaticínio do qual não se
major. pode fugir. E no final da estrofe a praga é de certa
— Assim vai crescer mofino, maneira atenuada, pois no futuro fará bem ao
sinhô! “menino” ter passado por todos esses percalços. Fica
— Pedimos pelo menino porque pedir é nosso destino. então configurada a rogação da praga, como castigo
Pedimos pelo menino porque vamos acalentá-lo. bem dado ao “menino doentio” que “não lavrará
Pedimos pelo menino porque já se ouve planger o sino campo” e “Tirará sustento de algum mel nojento”, e de
do tombo que êle levar quando monte a cavalo. fato o “menino” “vai muito chorar”.
— Vai cair do cavalo
de cabeça no valo. Na sexta estrofe, a história é contada com a
Vai ter catapora tendência para a queda, o declínio, a decadência, o
amarelão e gálico fim. Destacamos o primeiro verso “Os urubus no
vai errar o caminho telhado” que se configuram como um presságio
vai quebrar o pescoço da morte, a espreitarem a carniça, que seria a
vai deitar-se no espinho sobra; como também pode ser a companhia
fazer tanta besteira inglesa que se alimentará dos restos do ouro e do
e dar tanto desgosto ferro.
que nem a vida inteira
dava para contar.
E vai muito chorar.
(A praga que te rogo
para teu bem será.)

VI
Os urubus no telhado:
E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo
e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada
e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro
taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios,
e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas;
e a besta Belisa renderá os arrogantes corcéis da monarquia,
e a vaca Belisa dará leite no curral vazio para o menino doentio,
e o menino crescerá sombrio, e os antepassados no cemitério
se rirão se rirão porque os mortos não choram.
VII Curiosidade:
Ó monstros lajos e andridos que me perseguis com vossas barganhas O poema "Os bens e o sangue", de
sobre meu berço imaturo e de minhas minas me expulsais. Drummond - foi publicado pela revista
Os parentes que eu amo expiraram solteiros. Anhembi, de S. Paulo (n.° 2, fevereiro de
Os parentes que eu tenho não circulam em mim. 1951), precedido da seguinte nota:
Meu sangue é dos que não negociaram, minha alma é dos pretos, "Embora persuadido de que não cabe
minha carne dos palhaços, minha fome das nuvens, explicação para um poema, além da que
e não tenho outro amor a não ser o dos doidos. ele mesmo traz consigo, o autor julga
conveniente informar quanto à gênese
Onde estás, capitão, onde estás, João Francisco,
desta composição.
do alto de tua serra eu te sinto sozinho Resultou ela da leitura de um maço de
e sem filhos e netos interrompes a linha documentos de compra e venda de datas
que veio dar a mim neste chão esgotado. de ouro no nordeste de Minas Gerais,
Salva-me, capitão, de um passado voraz. operações essas realizadas, em meados
Livra-me, capitão, da conjura dos mortos. do século XIX. Simultaneamente, certo
Inclui-me entre os que não são, sendo filhos de ti. número de proprietários, integrantes da
E no fundo da mina, ó capitão, me esconde. mesma família, resolveu dispor de tais
bens, havidos por meio de herança ou de
casamento. Até então, permaneciam sob
VIII
domínio do mesmo grupo familial os
— Ó meu, ó nosso filho de cem anos depois, terrenos auríferos descobertos em 1781,
que não sabes viver nem conheces os bois na serra de Itabira, pelo capitão João
pelos seus nomes tradicionais. .. nem suas cores Francisco de Andrade, que os transmitira
marcadas em padrões eternos desde o Egito. a um seu sobrinho e sócio, o major Lage.
Ó filho pobre, e descorçoado, e finito, Diz Eschwege que as lavras de João
ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais Francisco, em 1814, produziam mais de 3
com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos mil oitavas de ouro. A exploração
para tristeza nossa e consumação das eras, declinou com o tempo, e por volta de
1850 vemos os donos se desfazerem de
para o fim de tudo que foi grande!
jazidas e benfeitorias.
Ó desejado, Não se procure em dicionário o
ó poeta de uma poesia que se furta e se expande significado de lajos e andridos, palavras
à maneira de um lado de pez e resíduos letais... existentes no contexto, e que são meras
És nosso fim natural e somos teu adubo, variações de nomes de famílias da
tua explicação e tua mais singela virtude. . . região. O nome Belisa, dado a animais,
Pois carecia que um de nós nos recusasse consta de inventário da época."
para melhor servir-nos. Face a face No texto existem várias vezes a letra “q”
te contemplamos, e é teu esse primeiro isolada, além de outras grafias não
usuais. Estava assim no original
e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro".
impresso.

Novamente o poeta usa o recurso da anáfora agora com o conectivo “e” que se repete por nove vezes iniciando
quase todas as orações coordenadas, numa sequência de verbos no futuro, que contam uma história do
passado, mas como um presságio e novamente com o tom do vaticínio. As orações coordenadas dão a ideia
de um desenrolar de acontecimentos históricos que tendem ao fim, à dissolução e ao declínio da história. O
verso “por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada”, sugere a queda, a decadência da região. Assim como o
ciclo do ouro se esgota, o ciclo do ferro se inicia e depois se consome nos versos “secado o ouro escorrerá
ferro, e secos morros de ferros taparão o vale sinistro”; será dessas minas exploradas que ficam as sobras, as
marcas na paisagem. E “irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas”, irão e virão, últimos e
primeiros, termos contrários que produzem dialética a história. Este é um momento de modernização e de
mudanças nas relações de exploração da força de trabalho no Brasil. Essa história, que o poema conta, não é
apenas individual, ou restrita a um clã. Ela aponta para e comenta várias etapas da modernização brasileira. E
por fim os mortos, os antepassados se rirão do destino do “menino doentio”, como uma praga que com
sarcasmo perdura pela eternidade. Contra essa praga, o “menino” nos versos da sétima estrofe implora
“Salva-me, capitão, de um passado voraz./Livra-me, capitão, da conjura dos mortos.” Esses dois versos
resumem toda a estrofe que é, toda ela, um pedido de socorro ao seu antepassado capitão João Francisco,
numa súplica para quebrar essa praga de um “passado voraz” que parece o querer devorar vivo.
O vocativo “ó” é repetido por sete vezes e reforça o convite para um diálogo com esse “filho de cem anos
depois”, aquele que não “conhece os bois pelos seus nomes tradicionais”, o filho desejado que
testemunhou a história de perdas de “tudo que foi grande”.
E desse mundo que se foi, restou a poesia que “se furta e se expande à maneira de um lago de pez e resíduos
letais...”, versos que confirmam a ideia de poesia feita de dissolução, de fim, ou pior de “resíduos letais” que
evocam e provocam a morte. E os antepassados que se tornam adubo para o poeta, ou seja, matéria–prima
para sua poesia, que vem pelo “sangue” do qual o poeta é o “fim natural” e trágico. Recebe, como um
“Selo de Minas”, um “úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro” em que fica a última borra
marcando como um travo a poesia deste filho.
V. LÁBIOS CERRADOS
CONVIVIO
Cada dia que passa incorporo mais esta verdade, de que eles não vivem senão em nós
e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão débil.
Fora de nós é que talvez deixaram de viver, para o que se chama tempo.
E essa eternidade negativa não nos desola.
Pouco e mal que eles vivam, dentro de nós, é vida não obstante.
E já não enfrentamos a morte, de sempre trazê-la conosco.

Mas, como estão longe, ao mesmo tempo que nosso atuais habitantes
e nossos hóspedes e nossos tecidos e a circulação nossa!
A mais tênue forma exterior nos atinge.
O próximo existe. O pássaro existe,
E eles também existem, mas que oblíquos! e mesmo sorrindo, que disfarçados...

Há que renunciar a toda procura.


Não os encontraríamos, ao encontrá-los.
Ter e não ter em nós um vaso sagrado,
um depósito, uma presença contínua,
esta é nossa condição, enquanto,
sem condição, transitamos
e julgamos amar
e calamo-nos.

Ou talvez existamos somente neles, que são omissos, e nossa existência,


apenas uma forma impura de silêncio, que preferiram.

Os versos de “Convívio” afirmam a presença dos antepassados que mesmo estando mortos permanecem
vivos. É a chamada presença/ausência dos mortos. Os versos em enjambement dão continuidade ao período
iniciado no primeiro verso até o final do terceiro, destacando a ideia de fluidez e permanência da ancestralidade.
Esse circuito, aparentemente interminável da forma do poema parece insinuar o ciclo ininterrupto da vida e da
morte, assim como o próprio tempo: “Fora de nós é que talvez deixaram de viver, para o que se chama tempo.”
Vemos aí alguns temas relevantes para Drummond, o tempo, a vida, a morte, pouca ou nenhuma certeza e mais
perguntas. Ele nos remete, aos outros poemas de “Lábios cerrados”, ao tema dos antepassados, aqueles
que, mortos, já não podem mais falar, mas ganham voz nos versos do poeta. A família, os laços de sangue
são constantes assuntos da poética de Drummond. E, assim, o passado permanece vivo no presente.

PERMANÊNCIA

Agora me lembra um, antes me lembrava outro.


Dia virá em que nenhum será lembrado.
Então no mesmo esquecimento se fundirão.
Mais uma vez a carne unida, e as bodas
cumprindo-se em si mesma, como ontem e sempre.

Pois eterno é o amor que une e separa, e eterno o fim


(já começara, antes de ser), e somos eternos,
frágeis, nebulosos, tartamudos, frustrados: eternos.
E o esquecimento ainda é memória, e lagoas de sono
selam em seu negrume o que amamos e fomos um dia,
ou nunca fomos, e contudo arde em nós
à maneira da chama que dorme nos paus de lenha jogados no galpão.

“Permanência” é um poema constituído em torno de paradoxos: “o esquecimento ainda é memória”; “eterno é fim
(que já começara antes do ser”; “e contudo arde em nós / à maneira da chama que dorme nos paus de lenha
jogados no galpão.” Trata-se da “permanência” do ser na memória: assim como “Convívio” atesta a persistência
irrevogável dos mortos na memória, “Permanência” afirma a força do esquecimento, que ainda é, paradoxalmente,
uma espécie de “memória”. Essa ideia está presente em vários poemas de Drummond.
PERGUNTAS
Numa incerta hora fria de atingir qualquer porto,
perguntei ao fantasma propícios a naufrágio
que força nos prendia, mais que à navegação;
ele a mim, que presumo nos frios alcantis
estar livre de tudo, de meu serro natal,
eu a ele, gasoso, desde muito derruído,
todavia palpável em acordar memórias
na sombra que projeta de vaqueiros e vozes,
sobre meu ser inteiro: magras reses, caminhos
um ao outro, cativos onde a bosta de vaca
desse mesmo princípio é o único ornamento,
ou desse mesmo enigma e o coqueiro-de-espinho
que distrai ou concentra desolado se alteia.
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço Perguntei-lhe por fim
uma angústia do tempo. a razão sem razão
de me inclinar aflito
Perguntei-lhe em seguida sobre restos de restos,
o segredo de nosso de onde nenhum alento
convívio sem contato, vem refrescar a febre
de estarmos ali quedos, desse repensamento:
eu em face do espelho, sobre esse chão de ruínas
e o espelho devolvendo imóveis, militares
uma diversa imagem, na sua rigidez
mas sempre evocativa que o orvalho matutino
do primeiro retrato já não banha ou conforta.
que compõe de si mesma
a alma predestinada No voo que desfere,
a um tipo de aventura silente e melancólico,
terrestre, cotidiana. rumo da eternidade
ele apenas responde
Perguntei-lhe depois (se acaso é responder
por que tanto insistia a mistérios, somar-lhes
nos mares mais exíguos um mistério mais alto):
em distribuir navios
desse calado irreal, Amar depois de perder.
sem rota ou pensamento

“Perguntas” cuja primeira estrofe, abaixo citada, é uma longa proposta de questionamentos. A estrofe é
composta de um período com dezesseis versos encavalgados, num infindável questionamento sobre o tempo,
o ciclo da vida e da morte. O diálogo com o fantasma que pode ser o do seu pai, pois este é tema recorrente.
Os dois estão presos um ao outro pelo “enigma” da existência, da morte e de tantas questões obscuras e sem
respostas, como são os mistérios da vida. Segundo Camilo, “como no hamletiano ‘viagem da família’ onde a
culpa parece responder pelo silêncio ressentido do fantasma paterno diante das insistentes indagações do filho
que, ao fim e ao cabo, sente-se, entretanto, perdoado por ele” (CAMILO, 2001, p.263) E na quarta estrofe o
poeta questiona porque essa aflição em vasculhar os fragmentos de sua alma feita em pedaços. São de fato os
restos que constituem a poesia em estado de “dissolução” de Claro enigma, aquele fragmento, migalha que se
materializou e aos olhos do poeta é o próprio mundo que o cerca composto destes destroços que tanto “dói”. É
o fantasma do pai, principalmente, figura forte na sua história e também representativa do sistema patriarcal de
raízes rurais e mineiras. E o fantasma responde finalmente: “ele apenas responde/ (se acaso é responder/ a
mistérios, somar-lhes/ um mistério mais alto): / Amar depois de perder.” E a resposta do fantasma é outro
mistério, por que “amar depois de perder”? A recorrente perda drummondiana, a perda do pai, seu lastro,
sua memória, seu DNA. O poema de Drummond é feito de perdas, de culpas, de ressentimentos. Por isso
“amar depois de perder”: família, terra natal, pedras, fragas, penhascos que o compõem. Talvez essa
resistência calcária em amar seja uma forma de sobreviver e, assim, recompor seus cacos. E ainda continuar a
conviver com as eternas perdas. Lembra outros poemas dessa mesma parte “Lábios Cerrados”, “Memória”
(“amar o perdido”) e a “Morte das Casas de Ouro Preto”.
CARTA
Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repouse
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.

“Carta” como em outros poemas da parte “Lábios Cerrados” também trata do tempo, do amor e da memória.
Novamente estamos em torno de indagações e paradoxos: “Vai-se tornando o tempo/ estranhamente longo /à
medida que encurta.”; “o sono é um dormir acordado”; “quando só há lembrança,/ ainda menos, pó,/ menos
ainda, nada,/ nada de nada em tudo,/ em mim mais do que em tudo” (nesta gradação temos uma das
constantes do livro: “o nada de nada em tudo, mais em mim que em tudo”, ainda assim, esse nada é tudo, que
está vivo no poeta. O tempo é matéria sempre presente O que ontem disparava,/ desbordado alazão,/ hoje se
paralisa/ em esfinge de mármore; o “perder para amar” de “Perguntas” se faz novamente presente neste
poema, ainda mais melancólico: “e não vale acordar / quem acaso repouse/ na colina sem árvores”.
ENCONTRO O poema trata de um encontro, nos sonhos do
poeta, com o pai morto (pai que já aparecera
Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga, em outros poemas da obra de Drummond e de
sinto logo meu pai e nele ponho Claro Enigma, por exemplo em “Os bens e o
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. sangue” e aparecerá, principalmente, no poema
seguinte “A Mesa”, uma grande homenagem
Está morto, que importa? Inda madruga aos 90 do pai se estivesse vivo).
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga O poema, além de ter como tema principal a
suor algum, na calma de meu sonho. lembrança do pai morto, traz vários temas
caros ao livro: a noite, a morte, o tempo, a
Oh meu pai arquiteto e fazendeiro! infância e a terra natal e a memória.
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas Trata-se do último soneto do livro em versos
decassílabos com esquema de rima ABAB
por um rio que corre o tempo inteiro, BABA CDE CDE
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

A MESA
E não gostavas de festa... à incontinência dos netos, E nem falta a irmã que foi
Ó velho, que festa grande sabendo que toda carne mais cedo que os outros e era
hoje te faria a gente. aspira à degradação, rosa de nome e nascera
E teus filhos que não bebem mas numa via de fogo em dia tal como o de hoje
e o que gosta de beber, e sob um arco sexual, para enfeitar tua data.
em torno da mesa larga, tossias. Hem, hem. meninos, Seu nome sabe a camélia,
largavam as tristes dietas, não sejam bobos. Meninos? e sendo uma rosa-amélia,
esqueciam seus fricotes, Uns marmanjos cinquentões, flor muito mais delicada
e tudo era farra honesta calvos, vividos, usados, que qualquer das rosas-rosa,
acabando em confidencia. mas resguardando no peito viveu bem mais do que o nome,
Ai, velho, ouvirias coisas essa alvura de garoto, porém no íntimo claustrava
de arrepiar teus noventa. essa fuga para o mato, a rosa esparsa. A teu lado,
E dai, não te assustávamos, essa gula defendida vê: recobrou-se-lhe o viço.
porque, com riso na boca, e o desejo muito simples Aqui sentou-se o mais velho.
e a nédia galinha, o vinho de pedir à mãe que cosa, Tipo do manso, do sonso,
português de boa pinta, mais do que nossa camisa, não servia para padre,
e mais o que alguém faria nossa alma frouxa, rasgada... amava casos bandalhos;
de mil coisas naturais Ai, grande jantar mineiro depois o tempo fez dele
e fartamente poria que seria esse.. Comíamos, o que faz de qualquer um;
em mil terrinas da China, e comer abria fome, e à medida que envelhece,
já logo te insinuávamos e comida era pretexto. vai estranhamente sendo
que era tudo brincadeira. E nem mesmo precisávamos retrato seu sem ser tu,
Pois sim. Teu olho cansado, ter apetite, que as coisas de sorte que se o diviso
mas afeito a ler no campo deixavam-se espostejar, de repente, sem anúncio,
uma lonjura de léguas, e amanhã é que eram elas. és tu que me reapareces
e na lonjura uma rês Nunca desdenhe o tutu. noutro velho de sessenta.
perdida no azul azul, Vá lá mais um torresminho. Este outro aqui é doutor,
entrava-nos alma a dentro E quanto ao peru? Farofa o bacharel da família,
e via essa lama podre há de ser acompanhada mas suas letras mais doutas
e com pesar nos fitava de uma boa cachacinha, são as escritas no sangue,
e com ira amaldiçoava não desfazendo em cerveja, ou sobre a casca das árvores
e com doçura perdoava essa grande camarada. Sabe o nome da florzinha
(perdoar é rito de pais, Ind’outro dia... Comer e não esquece o da fruta
quando não seja de amantes). guarda tamanha importância mais rara que se prepara
E, pois, todo nos perdoando, que só o prato revele num casamento genético.
por dentro te regalavas o melhor, o mais humano Mora nele a nostalgia,
de ter filhos assim. . . Puxa, dos seres em sua treva? citadino, do ar agreste,
grandissíssimos safados, Beber é pois tão sagrado e, camponês, do letrado.
me saíram bem melhor que só bebido meu mano Então vira patriarca.
que as encomendas. De resto, me desata seu queixume, Mais adiante vês aquele
filho de peixe... Calavas, abrindo-me sua palma? que de ti herdou a dura
com agudo sobrecenho Sorver, papar: que comida vontade, o duro estoicismo.
interrogavas em ti mais cheirosa, mais profunda Mas, não quis te repetir.
uma lembrança saudosa no seu tronco luso-árabe, Achou não valer a pena
e não de todo remota, e que bebida mais santa reproduzir sobre a terra
e rindo por dentro e vendo que a todos nos une em um o que a terra engolirá.
que lançaras uma ponte tal centímano glutão, Amou. E ama. E amará.
dos passos loucos do avô parlapatão e bonzão! Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois, opa! que não foi brinquedo, Agora a mesa repleta
um contrato, entre bocejos mas os caminhos do amor, está maior do que a casa.
e quatro pés de chinelo. só amor sabe trilhá-los. Falamos de boca cheia,
Feroz a um breve contacto, Tão ralo prazer te dei, xingamo-nos mutuamente,
à segunda vista, seco, nenhum, talvez... ou senão, rimos, ai, de arrebentar,
à terceira vista, lhano, esperança de prazer, esquecemos o respeito
dir-se-ia que ele tem medo é, pode ser que te desse terrível, inibidor,
de ser, fatalmente, humano. a neutra satisfação e toda a alegria nossa,
Dir-se-ia que ele tem raiva, de alguém sentir que seu filho, ressecada em tantos negros
mas que mel transcende a raiva, de tão inútil, seria bródios comemorativos
e que sábios, ardilosos sequer um sujeito ruim. (não convém lembrar agora),
recursos de se enganar Não sou um sujeito ruim. os gestos acumulados
quanto a si mesmo: exercita Descansa, se o suspeitavas, de efusão fraterna, atados
uma força que não sabe mas não sou lá essas coisas. (não convém lembrar agora),
chamar-se, apenas, bondade. Alguns afetos recortam as fina-e-meigas palavras
Esta calou-se. Não quis o meu coração chateado. que ditas naquele tempo
manter com palavras novas Se me chateio? demais. teriam mudado a vida
o colóquio subterrâneo Esse é meu mal. Não herdei (não convém mudar agora),
que num sussurro percorre de ti essa balda. Bem, vem tudo à mesa e se espalha
a gente mais desatada. não me olhes tão longo tempo, qual inédita vitualha.
Calou-se, não te aborreças. que há muitos a ver ainda. Oh que ceia mais celeste
Se tanto assim a querias, Há oito. E todos minúsculos, e que gozo mais do chão!
algo nela inda te quer, todos frustrados. Que flora Quem preparou? que inconteste
à maneira atravessada mais triste fomos achar vocação de sacrifício
que é própria de nosso jeito. para ornamento de mesa! pôs a mesa, teve os filhos?
(Não ser feliz tudo explica.) Qual nada. De tão remotos, quem se apagou? quem pagou
Bem sei como são penosos de tão puros e esquecidos a pena deste trabalho?
esses lances de família, no chão que suga e transforma, quem foi a mão invisível
e discutir neste instante são anjos. Que luminosos! que traçou este arabesco
seria matar a festa, Que raios de amor radiam, de flor em torno ao pudim,
matando-te — não se morre e em meio a vagos cristais, como se traça uma auréola?
uma só vez, nem de vez. o cristal deles retine, quem tem auréola? quem não
Restam sempre muitas vidas reverbera a própria sombra. a tem, pois que, sendo de ouro,
para serem consumidas São anjos que se dignaram cuida logo em reparti-la,
na razão dos desencontros participar do banquete, e se pensa melhor faz?
de nosso sangue nos corpos alisar o tamborete, quem senta do lado esquerdo,
por onde vai dividido. viver vida de menino. assim curvada? que branca,
Ficam sempre muitas mortes São anjos; e mal sabias mas que branca mais que branca
para serem longamente que uni mortal devolve a Deus tarja de cabelos brancos
reencarnadas noutro morto. algo de sua divina retira a cor das laranjas,
Mas estamos todos vivos. substância aérea e sensível, anula o pó do café,
E mais que vivos, alegres. se tem um filho e se o perde. cassa o brilho aos serafins?
Estamos todos como éramos Conta: quatorze na mesa. quem é toda luz e é branca?
antes de ser, e ninguém Ou trinta? serão cinquenta, Decerto não pressentias
dirá que ficou faltando que sei? se chegam mais outros, como o branco pode ser
algum dos teus. Por exemplo: uma carne cada dia uma tinta mais diversa
ali ao canto da mesa, multiplicada, cruzada da mesma brancura... Alvura
não por humilde, talvez a outras carnes de amor. elaborada na ausência
por ser o rei dos vaidosos São cinquenta pecadores, de ti, mas ficou perfeita,
e se pelar por incômodas se pecado é ter nascido concreta, fria, lunar.
posições de tipo gauche, e provar, entre pecados, Como pode nossa festa
ali me vês tu. Que tal? os que nos foram legados. ser de um só que não de dois?
Fica tranquilo: trabalho. A procissão de teus netos, Os dois ora estais reunidos
Afinal, a boa vida alongando-se em bisnetos, numa aliança bem maior
ficou apenas: a vida veio pedir tua bênção que o simples elo da terra.
(e nem era assim tão boa e comer de teu jantar. Estais juntos nesta mesa
e nem se fez muito má). "Repara um pouquinho nesta, de madeira mais de lei
Pois ele sou eu. Repara: no queixo, no olhar, no gesto, que qualquer lei da república.
tenho todos os defeitos e na consciência profunda Estais acima de nós,
que não farejei em ti, e na graça menineira, acima deste jantar
e nem os tenho que tinhas, e dize, depois de tudo, para o qual vos convocamos
quanto mais as qualidades. se não é, entre meus erros, por muito —enfim — vos querermos
Não importa: sou teu filho uma imprevista verdade. e, amando, nos iludirmos
com ser uma negativa Esta é minha explicação, junto da mesa
maneira de te afirmar. meu verso melhor ou único, vazia.
Lá que brigamos, brigamos, meu tudo enchendo meu nada.
O poema “A mesa” é o último do caderno “Os lábios cerrados”, e fecha esta parte do livro de maneira
magistral.

O poema, à primeira leitura, parece ser apenas uma homenagem do poeta a seu pai, já morto, e que se
acaso estivesse vivo estaria comemorando seus noventa anos. No entanto, Drummond reúne a todos
os familiares vivos e mortos nesta mesa, fazendo uma fusão de tempos distintos num mesmo espaço. O
poema é composto por trezentas e quarenta redondilhas maiores, ou seja, versos com sete sílabas
poéticas, em uma única estrofe. E o último verso isolado com uma só palavra “vazia”, para adjetivar a
“mesa”, esse elemento símbolo da família, que, no final, estava “vazia”.

A cena descrita no poema é virtual, uma vez que seu pai, “Carlos de Paula Andrade morreu em 1931, vinte
anos antes de completar os noventa anos aludidos no poema, nela tudo é ilusório e o poeta transita pelos
tempos verbais: futuro do pretérito que se alterna com o pretérito imperfeito, algumas vezes o poeta
faz uso do presente realizando um jogo com o tempo. O uso de recursos linguísticos como as anáforas e
os dêiticos, a primeira se refere a pressupostos já de conhecimento do emissor e do seu interlocutor,
como no verso “e não gostavas de festa” e o uso da segunda pessoa como recurso dêitico, que
conduz à presentificação, pois estabelece um diálogo no tempo presente. Nesse ambiente “cordial” tudo
que é narrado se desenvolve em torno da “mesa”, alegoria do convívio do “homem cordial”.

Todos em volta da “mesa”: os mortos e os vivos a comemorar uma data que não chegou a existir. O poeta usa
elementos anafóricos e dêiticos para transitar entre o passado e presente. E evoca ao pai e a mãe para
participar da “mesa” como também a irmã “que já se foi”. No poema “A mesa” a força da autoridade patriarcal é
evidenciada sem ser, no entanto, apresentada de modo explícito. O que revela tal força são os versos
dedicados à figura paterna, os quais expressam uma relação de poder do pai sobre os filhos, como um deus
enfurecido e onipresente que está em todos os lugares e tudo pode antever. A figura paterna é aquela que
tudo vê. E toma conta do gado e da alma dos filhos, que “entrava-nos alma adentro/ via a lama podre” de seus
descendentes, e “amaldiçoava” e “perdoava”. Pai que representa o papel de chefe da família patriarcal,
fazendeiro, o símbolo do “homem cordial”.

E a mãe é descrita nos versos como a que tudo fazia parecer mágica, fazia, mas não aparecia, estava por traz
de todas as produções das comidas e também exerce o papel da mãe que cuida dos filhos “marmanjos
cinquentões”. A representação da mãe dona-de-casa, a mãe “cordial”, papel tradicional da família mineira,
porque não dizer da brasileira. E que nunca deixa de dar colo aos filhos, “cosendo” a “alma frouxa e rasgada”,
mulher com poder de reestabelecer a paz na alma destroçada dos filhos. Mas um poder invisível, silencioso,
mas que permanece presente mesmo estando morta.

E o poeta continua descrevendo de forma afetiva, “cordial”, cada um dos seus, estejam vivos ou mortos. Entre
os irmãos, primeiro a irmã falecida. Por isso a reunião da família, entre mortos e vivos sugere uma tentativa de
recuperar esse tempo perdido. Depois, continuando as apresentações, é a vez do irmão mais velho, e o poeta
continua a narrar um a um, o próximo o irmão doutor e amante da natureza que “Então vira patriarca.” Como
uma sina dá-se a continuidade do patriarcado, assim perdura o laço familiar que a todos une ou desune. E
descreve o irmão rebelde que tem o comportamento mais parecido com o pai, mas rebelou-se. Descreve a
irmã que se calou, mas que “algo nela ainda te quer, / à maneira atravessada.” E chega então a descrever a si
próprio “ali ao canto da mesa”.

Fica claro nos versos finais que o poema é dedicado aos pais, e que a lei da madeira da mesa, símbolo da
família, é mais forte que a lei da “república”. Novamente observa-se a tendência do “homem cordial”, quando a
esfera privada passa dos seus limites e adentra na esfera pública, para o eu-lírico a lei da família é maior que a
do Estado.
VI. A MÁQUINA DO MUNDO "A Máquina do Mundo", sexta parte do livro, é também
título de um dos dois poemas dessa seção final; o outro é
A MÁQUINA DO MUNDO "Relógio do Rosário". São dos mais grandiosos e
E como eu palmilhasse vagamente profundos exemplos do lirismo filosófico-existencial do
uma estrada de Minas, pedregosa, poeta.
e no fecho da tarde um sino rouco
O primeiro desses poemas toma seu motivo de Camões: a
se misturasse ao som de meus sapatos imagem da máquina do mundo que é dado a Vasco da
que era pausado e seco; e aves pairassem Gama contemplar do alto da Ilha dos Amores (Os
no céu de chumbo, e suas formas pretas Lusíadas,canto X). Na epopéia camoniana, o episódio
ocorre em ambiente erótico, em meio aos encantos da
pausadamente se fossem diluindo "ilha namorada" e de Tétis, soberana das ninfas: o herói
na escuridão maior, vinda dos montes português, como prêmio por sua conquista, é elevado à
e de meu próprio ser desenganado, compreensão da mecânica do universo — um
conhecimento antes exclusivo dos deuses.
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava O poema de Drummond é escrito em tercetos (32 ao
e só de o ter pensado se carpia. todo) que, embora não-rimados como os de Dante,
lembram a Divina Comédia, por seu andamento
Abriu-se majestosa e circunspecta, narrativo, sua gravidade e seu conteúdo cósmico-
sem emitir um som que fosse impuro existencial.
nem um clarão maior que o tolerável
Nele, a "máquina do mundo" se abre para um
pelas pupilas gastas na inspeção desenganado transeunte, numa estrada pétrea, em
contínua e dolorosa do deserto, meio a trevas do mundo e da alma: “E como eu
e pela mente exausta de mentar palmilhasse vagamente / uma estrada de Minas,
pedregosa, / e no fecho da tarde um sino ronco”
toda uma realidade que transcende O poema começa, muito significativamente, com “e”. Essa
a própria imagem sua debuxada conjunção coordena todo o texto a algo anterior, insere-o
no rosto do mistério, nos abismos. numa sequência, na continuação de algo (a experiência
anterior, a vida até o momento do acontecimento
Abriu-se em calma pura, e convidando narrado no poema). Depois da ampla série dessas
quantos sentidos e intuições restavam orações subordinadas introduzidas por como (veros 1-9),
a quem de os ter usado os já perdera a oração principal ("a máquina do mundo se entreabriu",
verso 10) aparece iluminada pela expectativa suspensa
e nem desejaria recobrá-los, por longo tempo.
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
Essa abertura estabelece o tom sombrio e apresenta o
convidando-os a todos, em coorte, material temático desenvolvido no poema. Aqui
a se aplicarem sobre o pasto inédito também estamos "no meio do cantinho", e o caminho é
da natureza mítica das coisas, pedregoso, e a paisagem é a da terra natal (verso 2).

assim me disse, embora voz alguma O caminhante é lento, seus passos são marcados pelo
ou sopro ou eco ou simples percussão desengano de quem já abandonou a ilusão de poder
atestasse que alguém, sobre a montanha, decifrar a máquina do mundo, isto é, compreender o
sentido íntimo da vida, de tudo. O sujeito e o ambiente
a outro alguém, noturno e miserável, em volta se associam (o som do "sino rouco", que introduz
em colóquio se estava dirigindo: a noite, se mistura ao som dos sapatos do caminhante,
"O que procuraste em ti ou fora de "pausados e secos") e tudo participa de um espetáculo de
dissolução nas trevas (as aves se diluem na "escuridão
teu ser restrito e nunca se mostrou,
maior", que vem de fora e de dentro do sujeito).
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo, debuxada:Fazer o debuxo de, delinear, esboçar.Figurado:
Idear, imaginar, pintar na fantasia.
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência mentar:. trazer à mente, à memória de (alguém ou de si
sublime e formidável, mas hermética, mesmo); recordar(-se), relembrar(-se); fazer menção de;
ementar, mencionar, relembrar.
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular, Périplo: viagem de circum-navegação em torno de um
que nem concebes mais, pois tão esquivo país, de um continente; figurado. viagem turística de longa
duração.
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla, Coorte: cada uma das dez unidades de uma legião do
abre teu peito para agasalhá-lo." exército romano; força armada; tropa.
As mais soberbas pontes e edifícios,
O simples fato de ter pensado alguma vez em
o que nas oficinas se elabora,
compreender, penetrar ("romper") a máquina do mundo
o que pensado foi e logo atinge
torna-se agora motivo de lamento ("se carpia"); e é para
distância superior ao pensamento, esse desenganado, a vagar sem destino preciso
os recursos da terra dominados, ("vagamente"), que a esplêndida máquina se oferece.
e as paixões e os impulsos e os tormentos Apesar de grandiosa e grave, a máquina do mundo se
apresenta com completa suavidade: nenhum som
e tudo que define o ser terrestre dissonante, nenhum brilho mais forte, que pudesse
ou se prolonga até nos animais perturbar os sentidos do sujeito, já esgotados na vã
e chega às plantas para se embeber tentativa de compreender "toda uma realidade"
desértica, que supera a mais extrema e estranha
no sono rancoroso dos minérios, imagem que se possa esboçar dela. A máquina se abre,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar pois, em "pura calma", e se oferece àquele que já havia
na estranha ordem geométrica de tudo,
renunciado a seu projeto de "total explicação da vida".
e o absurdo original e seus enigmas, E o que a máquina oferece a seus sentidos é nada
suas verdades altas mais que tantos menos que a visão da "natureza mítica das coisas",
monumentos erguidos à verdade; que por um instante, num "relance", é vislumbrada
pelo caminhante. Essa visão instantânea de "tudo"
e a memória dos deuses, e o solene
(as obras e as paixões dos homens, toda a natureza,
sentimento da morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa, o mistério da vida, a "memória dos deuses", o
"sentimento de morte") é um vislumbre do "reino
tudo se apresentou nesse relance augusto" que a máquina oferece ao caminhante.
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana. Essa visão instantânea de "tudo" (as obras e as paixões
dos homens, toda a natureza, o mistério da vida, a
Mas, como eu relutasse em responder "memória dos deuses", o "sentimento de morte") é um
a tal apelo assim maravilhoso, vislumbre do "reino augusto" que a máquina oferece ao
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio, caminhante. (Num conto famoso, "El Aleph", de Jorge
Luis Borges, o Aleph é, como a máquina de Drummond,
a esperança mais mínima — esse anelo um ponto luminoso, mágico, em que o mundo todo está
de ver desvanecida a treva espessa presente.)
que entre os raios do sol inda se filtra;
O poema de Drummond se encerra com a recusa da
como defuntas crenças convocadas revelação mística (a percepção da "natureza mítica
presto e fremente não se produzissem das coisas") que a "máquina do mundo" oferece. A
a de novo tingir a neutra face revelação oferecida àquele que, por toda a vida, se
esgotara a procurá-la, é revelação dada (o poeta a
que vou pelos caminhos demonstrando, chama "dom tardio"), não conquistada. Ela perde seu
e como se outro ser, não mais aquele atrativo, é desprezada. Embora repelida, negada, a
habitante de mim há tantos anos,
máquina do mundo não é abolida; a rejeição do
sujeito não a destrói, mas a abala, pois, como
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava humilhada, ela "se foi miudamente recompondo".
semelhante a essas flores reticentes (Francisco Achcar)

Fremente: que freme, que agita; agitado, trêmulo;


em si mesmas abertas e fechadas;
fig. provido de emoção; apaixonado, vibrante.
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo, Presto: que se faz com rapidez; ligeiro, prestes.
baixei os olhos, incurioso, lasso, Despiciendo: que deve ser desprezado por inútil,
desdenhando colher a coisa oferta errôneo etc.; merecedor de desdém; desprezível,
que se abria gratuita a meu engenho. desdenhável.

A treva mais estrita já pousara Lasso: fatigado, esgotado (por trabalho excessivo do
sobre a estrada de Minas, pedregosa, corpo ou da mente); cansado.
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,


enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
RELÓGIO DO ROSÁRIO "Relógio do Rosário", poema que fecha Claro Enigma e é
composto de 22 dísticos rimados, também faz pensar em Dante
Era tão claro o dia, mas a treva,
— pela concretude, pelo recorte preciso da imagem, pela
do som baixando, em seu baixar me leva
economia geral da linguagem.
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
Esse poema também é ambientado no escuro — apesar do dia
decifro o choro pânico do mundo,
luminoso. O toque dos sinos traz as sombras:
“Era tão claro o dia, mas a treva, /do som baixando, em seu baixar
que se entrelaça no meu próprio choro,
me leva / pelo âmago de tudo, e no mais fundo
e compomos os dois um vasto coro.
decifro o choro pânico do mundo, / que se entrelaça no meu
próprio choro, /e compomos os dois um vasto coro.”
Oh dor individual, afrodisíaco
O amor, que na Divina Comédia é celebrado como o motor do
selo gravado em plano dionisíaco,
mundo, ;"que move o Sol e as outras estrelas", tem aqui
consideração diferente, irmanado no espetáculo universal da
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
dor: “Não é pois todo amor alvo divino, / e mais aguda seta que o
em qualquer um mostrando o ser deserto,
destino?/ Não é motor de tudo e nossa única / fonte de luz, na luz
de sua túnica? / O amor elide a face... Ele murmura
dor primeira e geral, esparramada,
algo que foge, e e brisa e fala impura. / O amor não nos explica. E
nutrindo-se do sal do próprio nada,
nada basta, / nada e de natureza assim tão casta”
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa, A meditação, a "decifração do choro pânico do mundo, dura o que
dura o toque do sino e se encerra com o silêncio e a volta da
prelibando o momento bom de doer,
claridade azul. Claro Enigma, fazendo justiça ao oximoro do
a invocá-lo, se custa a aparecer,
título, encerra-se com a dissolução da sombra em imagens
dor de tudo e de todos, dor sem nome, admiráveis da volta da luz e da cor: “Mas na dourada praça do
ativa mesmo se a memória some, Rosário, / foi-se, no som, a sombra. O columbário / já cinza se
concentra, pó de tumbas, / já se permite azul, risco de
dor do rei e da roca, dor da cousa pombas”.
indistinta e universa, onde repousa
Nesse fecho, é admirável a exploração, constante em Drummond,
tão habitual e rica de pungência da polissemia da palavra columbário, valendo ela por duas
como um fruto maduro, uma vivência, imagens: conjunto de nichos que guardam cinzas funerárias (daí
"pó de tumbas", que também podem se referir aos restos mortais
dor dos bichos, oclusa nos focinhos, dos parentes que ficam dentro da Igreja do Rosário em Itabira, ou
nas caudas titilantes, nos arminhos, seja, a terra do poeta) e pombal (daí "risco de pombas"). Além da
rima imperfeita, a única do poema e a última: “tumbas / pombas”
dor do espaço e do caos e das esferas, (Francisco Achcar)
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Elide: Eliminar; fazer com que desapareça por completo
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino? Columbário: O mesmo que pombal.; Câmara sepulcral entre os
antigos romanos; Compartimento dotado de nichos onde são
Não é motor de tudo e nossa única conservadas as cinzas das pessoas incineradas.
fonte de luz, na luz de sua túnica?
Para Vagner Camilo, as bases do poema de Drummond são,
O amor elide a face… Ele murmura principalmente: Arthur Schopenhauer (conhecido pela sua obra
algo que foge, e é brisa, e fala impura. principal "O mundo como vontade e representação" (1818), em
que ele caracteriza o mundo fenomenal como o produto de uma
O amor não nos explica. E nada basta, cega, insaciável e maligna vontade metafísica. A partir
nada é de natureza assim tão casta
do idealismo transcendental de Kant, Schopenhauer desenvolveu
um sistema metafísico ateu e ético que tem sido descrito como
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência. uma manifestação exemplar de pessimismo filosófico: “dor de tudo
e de todos, dor sem nome,/ ativa mesmo se a memória some,/ dor
Nem existir é mais que um exercício do rei e da roca, dor da cousa (...) dor dos bichos, oclusa nos
de pesquisar de vida um vago indício, focinhos,/ nas caudas titilantes, nos arminhos,/ dor do espaço e do
caos e das esferas,/ do tempo que há de vir, das velhas eras! “ E
a provar a nós mesmos que, vivendo, Friedrich Nietzsche (Suas ideias-chave incluíam a crítica à
estamos para doer, estamos doendo. dicotomia apolíneo/dionisíaca: “Oh dor individual, afrodisíaco/ selo
gravado em plano dionisíaco”, o perspectivismo, a vontade de
Mas, na dourada praça do Rosário, poder, a "morte de Deus”, “Novo Homem” e eterno retorno). Outra
foi-se, no som, a sombra. O columbário intertextualidade do poema é com A Divina Comédia, como já dito
e com um poema de Valéry (o poeta da epígrafe do livro), poema
já cinza se concentra, pó de tumbas,
chamado “Cemitière Marin” (Cemitério pelo mar).
já se permite azul, risco de pombas.