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CADERNOS DE CULTURA
CULTURA RELIGIOSA 1

O Fenômeno Religioso
Prof. Josimar Azevedo*
Adaptação: Prof. José Ruiz

1. A Religião como fenômeno universal

Já no terceiro milênio, em um mundo tão modificado pelas conquistas da modernidade, a


religiosidade, a mística e a religião com todas as suas formas de expressão, continuam a
mostrar a sua relevância na auto-compreensão do ser humano, no processo de construção do
mundo e na interpretação da vida como um todo. Não é sem razão que a religião, como um
fenômeno que atinge a totalidade da vida humana, enquanto expressão cultural, social, ou
mesmo nos mistérios de sua interioridade, tem sido considerada como um fenômeno universal
e de expressivo interesse científico.
O mundo globalizado e pluralizado, em que vivemos, tem introduzido novas questões para
a pauta das atenções da humanidade. No interior dos desafios de ordem política e econômica,
como a fome, a paz e a sustentabilidade ecológica, entre outros, está a religião, envolvida em
novo dinamismo, articulando, de forma diversa, sentidos radicais que vão determinando os
rumos da existência humana.
A religião é um fenômeno universal! Não são poucos os testemunhos de estudiosos que
nos confrontam esta realidade:
- “Não há povo, por mais primitivo que seja, em que não se veja a religião” (Antropólogo
Bronislaw Malinowski);
- “Se encontram no passado, e se encontram até hoje sociedades humanas que não
possuem ciência, nem artes, nem filosofia. Mas nunca existiu sociedade sem religião”
(Pensador fancês Henri Bergson);
- “A religião (...) até épocas recentes era encontrada universalmente em todas as
sociedades humanas de que temos registro” (Sociólogo Thomas O’Dea);
- “O homem desenvolveu uma atividade religiosa desde a sua primeira aparição no
cenário da história e que todas as tribos e todas as populações, de qualquer nível
cultural, cultivaram alguma forma de religião” (Pesquisador Batista Mondin. Citado em
SIMÕES, Cultura, p. 11-12)
A religião, ao longo de sua história, tem sido a grande companheira da humanidade,
tirando-a de sua solidão no universo, oferecendo uma orientação global, dando sentido às
coisas, criando valores e normas, gerando solidariedade, construindo a realidade a fundo, a
partir de um sentido último e definitivo. Neste sentido, a religião, é a organização mais
ancestral e sistemática da dimensão utópica inerente ao ser humano, que aposta que o mundo
não está definitivamente perdido, mas que se orienta para uma comunhão plena entre homem
e mulher, ser humano e natureza, Deus e a humanidade. (BOFF, Ecologia, p. 63).

A religião como transcendência do mundo

“A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra
este mundo que pode ser descrito e explicado pela ciência. A descrição científica, ao se
manter rigorosamente dentro dos limites da realidade instaurada, sacraliza a ordem
estabelecida de coisas. A religião, ao contrário, é a voz de uma consciência que não pode
encontrar descanso no mundo, tal como ele é, e que tem como seu projeto transcendê-lo”
(ALVES, R. O enigma da religião, p. 25, Citado em: BOFF, Ecologia, p. 63-64).

Todavia, os propósitos da religião podem ser orientados para caminhos diversos. A história
da humanidade, também, está profundamente marcada por experiências negativas de
violência, etnocentrismos, autoritarismos, patriarcalismos, preconceitos, feitos em nome da
religião. Atualmente, muitos dos conflitos mundiais estão fundamentados no fanatismo e
fundamentalismo religiosos; basta lembrar os recentes acontecimentos que ficaram conhecidos

O Prof. Josimar é teólogo, professor na PUC MINAS


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como “11 de setembro”, a “Guerra do Iraque” e o terrorismo ainda em curso. A religião,
ainda, tem servido como fundamento de projetos políticos e econômicos deshumanizantes, que
têm conduzido parte da humanidade para a fome, o abandono e a exclusão.
Desta forma, o fenômeno religioso, tão antigo quanto a humanidade, se apresenta como
uma realidade sempre atual e desafiante. Refletir sobre ele, significa buscar entender a teia de
relações vitais na qual ele se constrói e se entende, identificar os elementos dessa construção,
suas possíveis representações, codificações, interesses e significados. Tal conhecimento é de
fundamental importância, pois permite:

1. Evitar a absolutização da própria experiência religiosa como sendo a única ou a


melhor;
2. Perceber a relatividade da experiência pessoal em relação às multiplicidade e
diversidade de experiências humanas, percebendo criticamente seus limites e
possibilidades;
3. Sintonizar o ideal com a problemática real, o ideal religioso articulado com a
complexidade da vida quotidiana;
4. Ampliar os horizontes de compreensão de si mesmo, do homem, da mulher, da
natureza, da sociedade e do mundo;
5. Perceber, com seriedade, os condicionamentos de uma cultura na linguagem, no
agir e em todo o modo de ser, entendendo-a no contexto das muitas culturas;
6. Tomar consciência, no contexto da sociedade globalizada, da parcialidade de
toda experiência e da necessidade das interações entre o particular e o
universal;
7. Perceber as várias formas de aproximação do fenômeno religioso, de dentro, a
partir da fé e de fora, a partir das ciências;
8. Pensar o fenômeno religioso, de forma interdisciplinar, dentro do entrelaçado
das relações sócio-culturais, identificando seus conflitos, limites e possibilidades;
9. Desmitificar os preconceitos para poder possibilitar o diálogo com o diferente;
10. Construir um saber crítico sobre a religiosidade, a mística e suas múltiplas
expressões no concreto da história.

ATIVIDADE.

1. Religião, humanidade, ciência, valores... tem andado juntos ao longo da história, mas
nem sempre na mesma direção.
Em sua opinião, como tem sido essa “companhia”? Justifique.

2. Conhecer o Fenômeno Religioso é de fundamental importância, pois nos permite


(re)descobrir novos valores e atitudes.
Indique algum desses valores que podem aparecer quando o Fenômeno Religioso é
abordado e estudado de maneira científica.

Leia, pense, comente:

“Não é recomendado absolutizar um determinado aspecto da realidade, pois então, a


pessoa se torna literalmente cega para os outros aspectos”. (KUNG, H. O principio de todas
as coisas. Petrópolis. Vozes 2011 p.57)

“Há muito tempo que o progresso científico deixou de ser necessariamente progresso
humano”. (Idem. P.60)

O que se contrapõe à fé é a des-com-fiança. O contrário da razão é a ignorância.


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2. A Religião como um fenômeno humano

O homem é o único capaz da manifestação Religiosa

“Dentre os seres vivos sobre a terra, é o homem o único capaz da manifestação


religiosa. Essa capacidade é constitutiva do ser humano, como o são a racionalidade, a
vontade e a liberdade. Por isso todo homem tem em si a capacidade de
autotranscendência religiosa. As mais diversas pesquisas etnológicas e antropológicas
constatam traços de manifestação religiosa em todos os grupos humanos, desde os
mais primitivos aos mais civilizados. O homem se percebe superior à universalidade das
coisas (apesar de algumas vezes, por não impostar bem sua manifestação, fazer de
certas coisas ou de outros homens superiores a si), e não se contenta com o anonimato
entre os outros seres animais. Penetrando no íntimo mais recôndito de si mesmo atinge
a própria profundidade real: sua grandeza. Esta mesma constatação, porém, evidencia
seu limite: existe algo além de si próprio. A dor, a morte, a solidariedade e a utopia
ocultam e desvelam outras dimensões em seu coração inquieto” (HELCION,
Religiosidade, p. 11)

O ser humano é um ser que não se contenta em viver enclausurado dentro dos limites
da história, da vida física, do perceptível e compreensível, ele sempre se projeta inquietamente
para o mais, para o maior, para o além. A sensação de incompletude, de carência que lhe
assola a existência o tempo inteiro, o remete, constantemente, na busca do eterno e
definitivo. Esta abertura radical, essa projeção infinita do ser humano é o que caracteriza,
antropologicamente, sua religiosidade.

A Religiosidade é, portanto, uma atitude dinâmica de abertura efetiva da pessoa ao


sentido fundamental, radical de sua existência – seja qual for o modo como este sentido é
percebido, a ponto de tornar-se a orientação básica de sua vida. Parte das perguntas: de onde
vim? Qual a razão de existir? Para onde vou? unindo passado, presente e futuro. É uma atitude
pessoal de protesto do ser com relação ao mundo que ele integra, buscando respostas,
soluções existenciais que o extrapolem. Neste sentido, apresenta-se como a dimensão mais
profunda da vida, como a matriz de todas, capaz de projetar o ser humano para além dos
limites, suprir sua ignorância em relação à existência, transcendê-lo e determinar seu modo de
intervenção na história.

A religiosidade, como dimensão constitutiva de todo ser humano, é anterior à


religião. O ser humano é histórico, por isso, sua religiosidade é exteriorizada dentro de
sistemas formais (ritos, mitos, doutrinas, mistérios, celebrações, reuniões, comunidades,
tradições, etc.), próprios de seu espaço cultural. Esta maneira de viver a religiosidade, no
colorido conjuntural das épocas e dos lugares, profundamente marcada pelas circunstâncias
históricas, é o que constitui a grande diversidade e pluralidade das religiões. As religiões são
as respostas, no plural, das perguntas humanas pelo sentido, codificando seus mais nobres
desejos, anseios e expectativas, suas mais sofridas angústias e suas mais profundas
esperanças.

“Rezar significa sentir que o sentido de mundo está fora do mundo”. (WITTGENSTEIN. In:
TERRIN, Aldo. Introdução ao estudo comparado das religiões)
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Simbolismo religioso

“O simbolismo acha-se intimamente unido ao mito em toda religião, e é um elemento


capital e universal em que trabalha intensamente a pesquisa científica moderna. Na
mentalidade e na psicologia religiosa, sobretudo do Oriente, tem simplesmente lugar
primacial. Uma dicotomia fundamental caracteriza o universo: uma parte das coisas, as
sensíveis, simbolizam; ao passo que as outras, as divinas, são simbolizadas (...).
Mas é preciso compreender o simbolismo num sentido bem realista. Não se trata, com
efeito, em muitos casos, de simples reminiscência intencional, mas como que de uma
composição real, de um simbiose, de um e de outro lado, como no direito e no avesso
dum tecido. Então o lado sensível não se limita a simbolizar, mas evoca o lado
misterioso e invisível que se acha muito além das aparências” (SHLESINGER, Hugo et
PORTO, Humberto. As religiões ontem e hoje. São Paulo, Paulinas, 1982, p. 251)

Para viabilizar toda essa experiência que as religiões comportam, o ser humano cria
símbolos. Ele tem necessidade dos símbolos para a sua orientação e ordenação do mundo em
que vive. O símbolo é um nexo que une a manifestação terrena e o sagrado que nela se
manifesta, constituindo uma única experiência. As religiões, portanto, ao nascerem da
transparência das manifestações humanas, do quotidiano para a realidade última, apresentam-
se, em sua expressão e comunicação, de forma obrigatoriamente simbólica.
O simbolismo religioso abrange especialmente as palavras religiosas (linguagem
sagrada: latim, sânscrito, etc.), objetos visíveis (representação visual do sagrado), ações
(ritual), músicas, danças, etc. Os símbolos têm um grande papel em todas as atividades
religiosas. Não há religião sem símbolos. Tudo pode tornar-se símbolo quando há um
significado que vai além daquilo que a pessoa vê, ouve, sente, cheira ou toca. É próprio do
símbolo expressar significados que não podem ser percebidos diretamente pelos sentidos.
Todavia, toda linguagem simbólica está estreitamente relacionada com seu contexto, a partir
de onde ela se faz entender em seu significado.
O símbolo, portanto, é sinal que combina dois aspectos da realidade: objetivo (mundo
exterior dos seres e objetos) e subjetivo (mundo interior de sua experiência). Os símbolos
são marcos de orientação, formulações de sentido que o homem utiliza para identificar,
explicar e ordenar suas experiências internas e as que o mundo exterior nele provoca. O
símbolo possui dois componentes: vivencial, pré-racional (com suas raízes no mundo interior
das emoções, na camada psíquica do inconsciente) e racional: pertencente à camada da
consciência reflexa. A união de ambos os componentes constitui o símbolo.
Em síntese, podemos definir o símbolo como a formulação figurada de uma experiência
humana, com o fim de lhe atribuir sentido no interior do mundo. Entre os dois elementos
constitutivos do símbolo, podemos encontrar o significante (a imagem ou realidade em que o
símbolo se encarna) e o significado (a experiência expressada).
A partir desses pressupostos entendemos a Religião como relegere (reler), ou seja, é
preciso aprender a decodificar o fenômeno religioso presente em cada contexto. Wittengstein
define a religião como um abajur que ilumina bem um determinado lugar e emite pouca luz
para outro contexto. Desta forma, não há uma definição que esgote o sentido da religião. Em
sua estrutura simbólica, a religião apresenta-se sempre revestida de um dinamismo originário,
que faz e refaz seu significado constantemente. É algo vivo, em constante processo de
construção, subordinado à complexidade das possibilidades do ser humano conceber o
universo inteiro como algo humanamente significativo.

Como fenômeno humano, as religiões estão subordinadas as condições de


possibilidades da história, encontrando aí suas riquezas, limites e definições. Por isso não
convém falar de religião, mas de religiões, para expressar sua pluralidade de formas e
complexidade de interpretações.
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3. Dimensões da Religião

“Religião é a realização socioindividual (em doutrina, costume, freqüentemente ritos) de


uma relação do homem com algo que o transcende e a seu mundo, ou que abrange
todo o mundo, que se desdobra dentro de uma tradição e de uma comunidade. É a
realização de uma relação do homem com uma realidade verdadeira e suprema, seja
ela compreendida da maneira que for (Deus, o Absoluto, Nirvana, Shûyatâ, Tao).
Tradição e comunidade são dimensões básicas para todas as grandes religiões:
doutrina, costumes e ritos são suas funções básicas; transcendência (para cima ou para
dentro, no espaço e/ou no tempo, como salvação, iluminação ou libertação) é sua
preocupação básica” (H. Küng, Introdução: o debate sobre o conceito de religião, in
Concilium 1986/1, n. 203. Pp. 5-10; aqui p. 8. In: LIBANIO, A religião, p. 91).

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Religião como relacionamento pessoal do homem com Deus

“Forma concreta, visível e social, de relacionamento pessoal e comunitário do homem


com Deus. Conjunto sistemático de ritos, costumes, atos e palavras culturais, relações
humanas, patrimônio escriturístico e sapiencial. No caso concreto, significa a religião
um todo de homens fiéis a mesma crença, dados a idênticos atos de culto e concordes
no procedimento moral. Importa distinguir entre a religião como dimensão interior do
homem (religio subiectiva) e a religião como instituição externa exprimimdo-se em
crenças e práticas pessoais ou coletivas (religio obiectiva)” (SHLESINGER, Hugo et
PORTO, Humberto. As religiões ontem e hoje. São Paulo, Paulinas, 1982, p. 251).

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A religião pode, ainda, ser definida a partir de seu objeto (religião como crença em
seres sobrenaturais: Deus, deuses, espíritos etc.), ou a partir de sua função (Religião como
um instrumento para resolver problemas existenciais, legitimar a ordem social, proteger a
pessoa contra a angústia etc.
Desta forma, a complexidade da religião, permite que ela seja compreendida de muitas
formas:

- Como a instituição de um sistema de ritos, práticas, doutrinas, constituições,


organizações, tradições, mitos, artes que possibilitam a re-ligação com o mundo divino;
- Como a indicação do caminho da razão, da experiência humana para religar-se com o
divino;
- Como a configuração de um sistema de representação, de orientação, de
normatividade;
- Como a tradução de uma realidade objetiva, uma tradição acumulada e vivida por uma
comunidade;
- Como a expressão visível da relação com o sagrado;
- Como a expressão histórica da relação salvífica entre Deus e a humanidade.

Todas as definições de religião propostas mostram que religião é algo que não se
conforma dentro de uma definição. Assim como não existe a religião perfeita, também não
existe uma definição perfeita. A definição se presta ao serviço de ser mais útil que verdadeira,
por que ela é um instrumento de trabalho e não a finalidade da pesquisa. Toda e qualquer
definição possui uma subjetividade inerente que a determina.

ATIVIDADE

1. Identifique alguns elementos que não podem faltar numa visão de Religião.
2. Tente uma definição –mesmo que parcial, de Religião.
3. Escreva um breve texto relacionando os conceitos de Religiosidade, Cultura e
Religião. Qual é a função do símbolo nessa relação?
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“As religiões são a expressão cultural da experiência de encontro com o mistério divino. A
resposta a esse encontro é dada pela fé. A fé é a atitude de acolhida de Deus (...). Quando é
traduzida concretamente, esta experiência de fé assume categorias culturais. Nasce a religião
como conjunto de experiências de fé, seja no âmbito da compreensão (credos e doutrinas),
seja no campo das práticas (ética), seja nas expressões simbólicas e rituais (liturgia), seja na
dimensão estética (arte sacra, igrejas, monumentos, músicas, etc.)”. (BOFF, L. Ecologia, grito
da terra, grito dos pobres.p.293)

4. A Religião como fenômeno cultural

As manifestações religiosas foram se estruturando, no decorrer da história da


humanidade, no interior das diferentes culturas. Não há época nem espaços humanos sem
religião. A religião sempre esteve presente na história da humanidade sob as formas mais
distintas. Ela é patrimônio antropológico de base. Malinowski, já observava, tal como citado
acima, que não existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religião e magia, bem
como sem atitudes científicas ou ciência, mesmo que se lhes fossem negada esta capacidade.
Desta forma, a religião como fenômeno universal é também um fenômeno cultural, ou seja,
todos os elementos materiais que a compõe estão profundamente enraizados na
totalidade da experiência humana, mediada pelas diferentes culturas. Só aí podemos
compreendê-los.

Religião como expressão cultural

“Toda experiência religiosa se exprime mediante um código cultural. Ela é parte da


cultura; vem influenciada pela cultura ambiente e influencia a cultura. Já E.
Durkheim mostrou como a religião não se esgota na expressão do rito, do culto e da
doutrina (Les formes élémentarires, p. 611-5). Ela produz também uma cosmologia,
quer dizer, um discurso sobre o mundo. Não se trata de fazer ciência, porque este não
é o sentido da religião, mas de projetar uma imagem global do mundo que mostre sua
religação com a divindade. Cada cosmologia representa, a seu modo, Deus e o sentido
globalizador, integrador e sacramental do mundo”. (BOFF, Ecologia, p. 65);

O conceito cultura

“O conceito ‘cultura’ nos diz respeito ao sentido da produção material, da conduta e


‘administração’ social e da criação e/ou interpretação intelectual, artística e espiritual
dos grupos humanos. Ao criar coisas, o homem pode forjar um sentido. Este significado
é historicamente elaborado e transmitido. É embutido em sistemas de símbolos e
representações, administrados em instituições coletivas de longa memória. (SUESS,
Culturas e Evangelização, p. 46-47)

A relação entre religião cultura advém do próprio significado do termo “culto”, que
estabelece uma ligação entre os dois campos. No latim, quer dizer, para os camponeses da
Roma antiga, cultura agri não significava apenas trabalhar na lavoura, mas também cultus
agri, uma postura religiosa em face dos doadores dos frutos da terra e das suas forças
telúricas. Esta unidade cultural-religiosa está presente no trato que os povos indígenas ainda
hoje dispensam à sua terra. Consideram-na “terra-mãe”, Patcha Mama, divindade fiel e
generosa, e não um mero objeto socioeconômico.
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Reconstrução das origens da humanidade (natureza x cultura)

As tentativas de reconstrução histórica das primeiras culturas e religiões, por


pesquisadores, tarefa que não logrou êxito, têm possibilitado, contudo, a verificação de suas
primeiras articulações na memória mítica dos povos.

“Para entender a questão das culturas, os cientistas sociais tentaram reconstruir a


passagem dos “naturais” para os “culturais” a partir das origens da humanidade.
Nas origens do homem se encontrariam também as da cultura e da religião. Mas a
reconstrução das origens revelou-se cada vez mais impossível. As diferentes hipóteses
sobre as origens da humanidade – a origem humana a partir da palavra (Monod), do
parentesco (Lévi-Strauss) ou da produção (Marx) – representam antes chaves de
leitura complementares que reconstruções históricas. Também os etnólogos não
conseguiram avançar além da barreira do som de hipóteses. Nem o animismo (E.
Tylor), nem o totemimsmo (E. Dukheim, S. Freud), nem o dinamismo (Van Gennep)
conseguiram esclarecer a origem da totalidade dos fenômenos religiosos para a
reconstrução histórica das religiões “primitivas” ou de uma proto-religião. O que as
descrições da etnografia e da história das religiões mostram é uma multiplicidade de
religiões, que corresponde a uma multiplicidade das culturas, ao mesmo tempo
interdependentes e independentes entre si”. (SUESS, Culturas e Evangelização, p. 48-
49);

A relação entre cultura e religião é dinâmica e mútuo implicativa. Parafraseando


Otto Maduro, ao tratar da relação entre religião e sociedade, podemos dizer que ela se dá em
três posições: a cultura exerce, com suas estruturas, enorme influência sobre a religião; por
sua vez, a religião influencia também a cultura; e, além disso, cada uma dessas instâncias
conserva um grau de autonomia em relação à outra.

ATIVIDADE

1. Leitura complementar:
TERRIN, Aldo. Introdução ao estudo comparado das Religiões. São Paulo 2003.
Cap 3: Teorias sobre a origem das religiões.

5. Dessacralização da natureza

“Thomas KUHN em seu livro sobre a “Estrutura das revoluções científicas”


confere dois sentidos à palavra paradigma. O primeiro tem a ver com “toda uma
constelação de opiniões, valores e métodos participados pelos membros de uma
determinada sociedade”, fundando um sistema disciplinado mediante o qual esta
sociedade se orienta a si mesa e organiza o conjunto de suas relações. O segundo, mais
estrito, significa “os exemplos de referência, as soluções concretas de problemas, tidas
como e havidas como exemplares e que subsituem as regras explicitas na solução dos
demais problemas da ciência normal”.
Paradigma como uma maneira organizada, sistemática e coerente de nos
relacionarmos com nós mesmos e com tudo o resto á nossa volta. Trata-se de modelos
e padrões de apreciação, de explicação e de ação sobre a realidade circundante”.
(BOFF, L. Ecologia, grito da terra, grito dos pobres. P.27)

“Na história das religiões, observa-se uma progressiva retirada dos seres divinos da
natureza para o além. Esta “transcendentalização” desarticulou a antiga síntese entre
natureza, cultura e religião. A conquista da autonomia humana em face das
contingências da natureza também é um dado religioso. Para se libertar desta natureza
arbitrária, do destino cego e da programação natural, o homem tinha de dessacralizar
esta natureza externa e interna (consciência). O Deus soberano, pessoal e
transcendente do judeu-cristianismo é criador dessa natureza, não o seu inquilino. O
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processo de dessacralização da natureza, porém, está na raiz do processo de
secularização. Em diferentes vertentes deste processo de secularização, Deus não só
deixou de ser habitante da natureza. Deixou de ser também o seu criador. No ateísmo
prático e programático deixou até de existir”. (SUESS, Culturas e Evangelização, p. 42)

Historicamente, o processo de dessacralização da natureza, que se deu em larga escala


no interior da modernidade, deu origem a outro processo, o da secularização, hostil às
religiões, o que possibilitou a progressiva emancipação do campo cultural do campo religioso,
principalmente pela crescente complexidade das respectivas sociedades. Contudo, esta
emancipação, possibilitou também, cada vez mais, que uma religião possa ser vivida em várias
culturas e que uma cultura possa fornecer as mediações materiais, institucionais e simbólicas
para diferentes religiões. Uma religião monoteísta, por exemplo, pode coexistir com um resto
cultural específico de várias culturas complexas. Nestas condições, as mudanças culturais não
significam, necessariamente, a destruição da religião, como as mudanças religiosas não
significam, automaticamente, a destruição cultural. (SUESS, Culturas e Evangelização, p. 43-
44);

Transversalidade das culturas e das religiões

“Nenhuma cultura, nenhuma religião são entidades fechadas. Pelas culturas, os seres
humanos constroem os meios de habitar o mundo, segundo as modalidades de uma
riqueza e inventividade extraordinária; esse esforço, na base da cultura, lhe é comum.
Em todas as partes e sempre a humanidade encontrou e encontra os mesmos
problemas de sobrevivência, do sentido da diferença dos sexos, da seqüência de
gerações, do sofrimento, da morte. As respostas, os desafios fundamentais e as
interrogações são os mesmo. Eis o que funda certa transversalidade entre as culturas,
uma possibilidade de compreendermo-nos nas nossas próprias diferenças” (P. Valadier,
La mondialisation et les cultures, in Études n. 3955, novembre, 2001, p. 512. Citado
em: LIBANIO, A religião, p. 150).

O sujeito da cultura é o mesmo da religião. É o mesmo ser humano que atravessa


todas as culturas, levantando as mesmas perguntas sobre o sentido da vida, da dor, do
sofrimento, da morte. É de fundamental importância considerar que a expressão concreta do
religioso e do místico passa pela diferença das culturas. Tal consciência permite que se evite
uma aproximação superficial e abstrata e se perceba os limites inerentes a cada expressão
religiosa cultural, bem como a contribuição específica que se pode esperar dela.

Atividade: Historicamente parece plausível pensar que a religião se desenvolveu


melhor em sociedades pré-científicas, assim caberia pensar que o homem culto precisa
libertar-se da religião. É possível conciliar cultura e religião? Pode um homem/mulher
cultos serem religiosos?

6. A Religião como fenômeno social

Compreender que o fenômeno religioso é contextual é aceitar que os fatores sociais o


provocam, o alimentam, lhe dão inteligibilidade. Neste contexto, é preciso explicitar alguns
elementos fundamentais que caracterizam a relação entre religião e sociedade. Como ponto de
partida, vale para esta relação o que foi dito acima da relação entre cultura e religião, ou seja,
que é dinâmica e mútuo implicativa.
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Relação dialética ser humano e sociedade

“Toda sociedade humana é um empreendimento de construção do mundo. A religião


ocupa um lugar destacado nesse empreendimento... A sociedade é um fenômeno
dialético por ser um produto humano, e nada mais que um produto humano, que no
entanto retroage continuamente sobre o seu produtor. A sociedade é um produto do
homem. Não pode haver realidade social sem o homem. Pode-se também afirmar, no
entanto, que o homem é produto da sociedade”. (P. Berger, O dossel sagrado.
Elementos para uma teoria sociológica da religião, São Paulo, Paulinas, 1985, p. 15.
Citado em: LIBANIO, A religião, p. 111).

A religião, historicamente, teve e tem uma participação significativa no processo de


construção da sociedade, influenciando seus rumos, por vezes seguindo por caminhos nem
sempre produtivos para o desenvolvimento da humanidade. É do conhecimento de todos as
mazelas históricas, ainda atuais, feitas em nome da religião. Todavia, tem se apresentado,
institucionalmente ou não, como uma referência crítica para a organização social,
influenciando, com sua perspectiva humanitária, a consolidação dos valores, oferecendo, de
forma particular, os fundamentos últimos para a determinação dos princípios éticos
fundamentais da convivência humana.

Relações mútuas mas não iguais

“Hoje há clareza suficiente para saber como as relações são mútuas, mas não iguais no
tempo, no espaço e nas questões. Há momentos, há lugares, há temas em que a
religião influencia mais a sociedade. Há outros em que o braço da balança inclina-se
para a sociedade”. Dito de maneira simplificadíssima, na Idade Média a religião
influenciava mais a vida da sociedade do que por ela era influenciada. E na
modernidade inverte-se o processo. A economia, a política, a cultura modernas
impactam tão profundamente a religião, a ponto de teóricos interpretá-la como mera
ressonância da sociedade. Se antes se dizia que cada religião era seu povo, depois
valeu o aforismo ‘omnis regio, ibi religio’ – ‘cada região, sua religião’”. (LIBANIO, A
religião, p. 46)

Por muito tempo, os estudos, principalmente sociológicos, que se ocupavam da tarefa


de observar a relação sociedade-religião, evidenciavam unicamente as influências da primeira
sobre a segunda. Ora, uma análise que só consegue perceber as influências da sociedade
sobre a religião, apresenta-se, de início, comprometida e quando absolutizada, torna-se falsa
por desconhecer o papel da religião na sociedade, bem como sua autonomia. A teoria
marxista rígida, que afirma que a religião não passa de uma superestrutura determinada
pela infra-estrutura econômica, é um exemplo clássico dessa leitura parcial. O mesmo vale
para as leituras que pensavam a religião imune dos processos sociais, salvaguardada da
contaminação das impurezas históricas da sociedade. Tal realidade nunca foi possível e tal
compreensão, além de não ter valor algum, não é mais aceita.

É fato, os limites, conflitos e possibilidades da sociedade refletem dentro da religião e


vice-versa. A religião, no seu processo de organização, se apropria do socialmente disponível.
A sociedade, por sua vez, em seu processo de construção, é profundamente influenciada pelas
perspectivas e orientações oriundas da religião. Desta forma, todo e qualquer agir da religião
deve levar em consideração as condições sociais reais. Por outro lado, toda e qualquer
intervenção na sociedade deve, necessariamente, considerar o dinamismo da religião em seu
interior.

Todavia, a sociedade não é a religião e a religião não é a sociedade. Não há uma


relação de identificação. A religião e a sociedade guardam sua autonomia. Se uma fosse puro
reflexo da outra a religião já não seria religião com suas regras, com sua lei interna, com suas
reivindicações e propostas, com suas demandas e ofertas e, da mesma forma, a sociedade. O
espaço da autonomia varia de acordo com o momento histórico e o lugar, obedecendo o jogo
das força no entrelaçado das relações.
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A autonomia da religião em relação à sociedade consiste na sua religiosidade, que não é


uma simples produção do meio, mas a afirmação de uma orientação ontológica fundamental
na existência humana, um dinamismo que a faz aberta e voltada para o Absoluto, o
Transcendente. Essa raiz ontológica entrelaça-se com o contexto, assumindo uma forma
concreta, mas não se fundamenta nela. Essa reserva originária da religião é o que define, em
última instância, sua identidade, o que lhe dá a consistência e a preserva em situações
adversas. Essa autonomia, no entanto, varia de religião para religião.

A autonomia de ambas as esferas, quando levada a bom termo, se absolutismos e


atropelamentos, possibilita uma ação interativa, necessária e produtiva. A ação da sociedade
sobre a religião permite manter-lhe sintonizada com as expectativas humanas e seus projetos
concretos, tornando-a companheira no quotidiano da vida. A religião, por sua vez, ao fazer das
relações sociais, políticas, econômicas e culturais seu campo de atuação, assumindo os
conflitos próprios dessa opção, sintoniza os projetos históricos com as mais nobres aspirações
da humanidade, suas mais profundas esperanças, seu sentido fundamental e radical, sua
vocação última e definitiva, superando a condição de ópio do povo ou reprodução da
hegemonia dominante, assumindo-se como uma força revolucionária. (LIBANIO, A religião, p.
114).

ATIVIDADE

1. A sociedade é um produto humano. É o ser humano um produto social?


2. Qual é a influência da Religião na construção de uma sociedade, e vice-versa?
3. Indique alguns pontos positivos / negativos dessa mútua influência.

7. A ciência ou Deus? (ou a relação Razão x Fé)

“Durante mais ou menos dois milênios, acreditou-se, com fundamento nas afirmações
bíblicas, que o universo fora criado em sete dias e que essa criação datava de cerca de
4.000 a.C. Ora, hoje os astrofísicos calculam em cerca de quinze bilhões de anos de
idade do nosso universo, e são mais ou menos capazes de reconstruir as principais
fases dessa história, a partir do “big bang” inicial, que se supõe ter sido o “começo” do
mundo. Passou-se do fixismo ao transformismo; de um mundo terminado e estável,
a um universo em expansão e em constante evolução. Portanto, aparentemente há uma
grande distância entre essas descobertas prodigiosas e as duas narrativas bíblicas da
criação do mundo, que nos mostram, por exemplo, Deus modelando a terra como um
oleiro trabalha a argila, ou “operando” Adão para tirar dele uma costela e poder formar
Eva! Infelizmente, durante muito tempo, quiseram tomar essas imagens – aliás, ricas
de significação em outro nível – por verdades científicas... o que elas absolutamente
não eram. Esse lamentável engano contribuiu para formar, na mente de inúmeros não-
crentes – e de certos crentes constrangidos em sua fé, por esse fato -, a convicção de
que não se podia aceitar ao mesmo tempo o que afirmava a ciência e o que dizia a
Bíblia. E, portanto, que não era possível crer simultaneamente na ciência e em Deus!”
(MORIN, Dominique. Para falar de Deus. São Paulo, Loyola, 1993, p. 39);

Afinal, historicamente, nem a Igreja nem a ciência lograram êxito em suas pretensões
funestas. Hoje se tenta superar tal momento, principalmente depois do doloroso caso Galileu e
dos problemas da evolução pós-Darwin, a partir da consciência de que a realidade é muito
mais complexa do que se acreditara no momento em que o positivismo triunfante atacava
com violência uma Igreja imobilizada no conservadorismo e na desconfiança. Na verdade, cada
vez mais se foi evidenciando que, não apenas a ciência não contradizia a confissão do Deus da
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Revelação cristã, mas que as vezes até poderia levar a ele. Desta forma, pauta-se por uma
compreensão hermenêutico-crítica de ambas as partes.

“Inacreditável, nada na teologia ou na metafísica se aproxima do Big-bang. Se esta


descrição da origem do cosmos fosse proveniente da Bíblia ou do Alcorão, em vez de ser
proveniente do Massachusetts Institute of Technology, certamente haveria de ser tratada
como um mito fabuloso. (KUNG, H. O princípio de todas as coisas. P 70-71)

Nova abertura entre religião e ciência

“É possível fechar os olhos para o fato de que o relacionamento entre ciência e religião
melhoram lentamente, apesar da desconfiança recíproca persistente? Estamos
caminhando na direção de uma nova abertura... É entre os físicos que a coisa é mais
surpreendente: muitos vêem hoje como é insuficiente a imagem do mundo e a
concepção materialista e positivista da realidade; como é relativo também o seu
método mesmo. É precisamente entre os físicos que não se vêem mais, na atualidade,
senão poucos ateus militantes, ainda que haja um bom número de agnósticos. A
invenção da bomba atômica mas, cada vez mais, também os resultados negativos do
progresso científico e técnico em geral, suscitaram, em primeiro lugar entre os físicos
nucleares, a questão da responsabilidade na ação científica e técnica e, por sua vez, o
questionamento sobre o sentido que se há de procurar, sobre a escala de valores, sobre
os modelos que se seguirão e - para encontrar-lhes um fundamento – sobre a religião”
(H. KÜNG, Dieu existe-t-il?, Seuil, 1981, p. 640. Citado em: MORIN, Dominique. Para
falar de Deus. São Paulo, Loyola, 1993, p. 57);

Do lado da ciência, não só os resultados científicos negativos, mas principalmente as


prodigiosas descoberta científicas modernas, que trouxeram nova luz para compreender
sempre mais a complexidade propriamente inimaginável do universo, recolocando a questão
da origem e sentido da existência, possibilitaram maior abertura para o diálogo com a religião.
Do lado da religião, de forma particular da Igreja católica, maior abertura foi
conquistada pelo Concílio Vaticano II, que estimulou uma aproximação positiva da
modernidade e de todas as suas conquistas.
O postulado indicado na relação da religião com a cultura e a sociedade, vale também
aqui na relação com a ciência, ou seja, é uma relação dinâmica e mútua implicativa. As
religiões, enquanto instituições, e as ciências estabelecem entre si mútua crítica. As ciências
criticam a religião no que ela ainda conserva de concepção animista, mágica, pré-científica da
realidade; aponta para os riscos da alienação e para as confusões entre ação de Deus e
eventos puramente naturais. A religião, por sua vez, alerta as ciências à não se perderem na
desumanidade, na ideologia, além de questionar muitas de suas pretensões e de seus
pressupostos (LIBANIO, A religião, p. 199).
Ciência e religião também influenciam-se mutuamente. As ciências decidem muito
sobre a organização das instituições e os comportamentos religiosos, conduzindo-os sempre
para novas possibilidades de articulação e entendimento. Basta verificar as alterações
possibilitadas, neste campo, pelas descobertas científicas como a eletricidade, os meios de
transportes, os meios de comunicação eletrônica entre outros. Um dos exemplos mais claros
disso são as chamadas “igrejas eletrônicas”. Em algumas situações esta acolhida positiva da
ciência pela religião é transformada em verdadeiro fascínio, desdobrando-se em uma assunção
acrítica das afirmações científicas e, às vezes, ainda, em buscas alucinantes pela constatação
científica de toda e qualquer experiência religiosa.
Por outro lado, as religiões, também têm oferecido a sua contribuição às ciências. I.
Prigogine e I. Stengers em A nova aliança: metamorfose da ciência, entre outros, têm
apontado para a importância de sua visão de mundo na construção do novo paradigma
científico, o que tem possibilitado verdadeira aliança da religião, sobretudo com a astrofísica, a
cosmologia moderna e a teoria quântica. F. Euvé, também, ao estabelecer os princípios
fundamentais dessa nova aproximação global, holística e ecumênica, criada pelas novas
ciências, indica características que respondem muito bem às exigências das religiões.
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Caminha-se na linha da unidade em vez da oposição clássica que distinguia, separava,
delimitava. Propugna uma fusão entre sujeito e objeto. (LIBANIO, A religião, p. 200-201).

Nova cosmologia

“A partir dos anos 20, com a teoria da relatividade de Eistein, com a física quântica de
Bohr, com o princípio de indeterminabilidade de Heisenberg, com as contribuições da
física teórica de I. Pringogine e I. Stengers, bem como com as conquistas da psicologia
do profundo (S Freud e C. G. Jung), da psicologia transpessoal (A. Maslow, P. Weil), da
biogenética, da cibernética e da ecologia profunda surgiu uma nova cosmologia. Passa-
se rapidamente das era industrial a era da comunicação e do gerenciamento da
complexidade, transita-se de um mundo “materialista” (orientado na produção de bens
materiais) para um mundo “pós-materialista” e espiritual (interessado na integração do
cotidiano com místico). Diante dessa realidade, a síntese desempenha uma função
mais primordial que a análise, a visão holística e orgânica deve completar a visão
setorializada das ciências. Importa articular as duas maneiras de viver e de ler o
mundo, a do homem e a da mulher. Por isso, a nova cosmologia incorpora fortes
elementos femininos, já que ela, culturalmente, vinha marcada de modo quase
exclusivo por elementos masculinos”. (BOFF, Ecologia, p. 64-65);

Todavia, ambas realidades, religião e ciência, não se identificam; salvaguardam sua


autonomia. Mesmo que a ciência, em algumas circunstâncias históricas, tenha reivindicado
para si as funções da religião, a ciência não é a religião. Da mesma forma a religião, diante do
fascínio causado pelas conquistas da ciência, não pode permitir o enclausuramento de suas
experiências e afirmações nas amarras da verdade científica. O reconhecimento das fronteiras
e os distanciamentos práticos e metodológicos não só é importante mas necessário.

Concluindo, todo esforço na relação religião e ciência deve concentrar-se na postura de


abertura, diálogo crítico e mútua colaboração. Neste sentido é significativo o esforço de
trabalhos interdisciplinares entre representantes de instituições religiosas, teólogos e cientistas
no intuito de encontrar uma interface entre avanços científicos e doutrinas religiosas. Na
academia isso tem significado, na prática, o estabelecimento de centros de saber
(departamentos em universidades e institutos e centros independentes), periódicos com um
corpo editorial e assessores multidisciplinares, reuniões locais e internacionais (como os
Congressos da Sociedade de Teologia e Ciência da Religião – SOTER, no Brasil, e as
conferências bienais organizadas pela Sociedade Européia para o Estudo da Ciência e da
Teologia) e, o mais importante, o estabelecimento de grupos especializados dedicados à
pesquisas diversas, de interesse comum, estudos históricos, de questões epistemológicas,
morais ou, mesmo, aquelas mais propriamente ontológicas (CRUZ, Eduardo R, Revanche do
sagrado, Parte II: a ciência. In: VV.AA. Interfaces do Sagrado em véspera de milênio. p. 38).

ATIVIDADE

1- Historicamente, as relações Ciência x Religião (Razão x Fé) passaram por etapas


diferentes. Identifique alguma delas, justifique os motivos e as conseqüências
que provocaram essas relações.

2- Pesquise sobre o Paradigma da Industrialização (setorialização, segmentação) que


deu passo ao Paradigma da Comunicação -Cognição (holístico).
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Bibliografia

LIBANIO, J. B. A religião no início do milênio. São Paulo: Loyola, 2002.

BOFF, L. Ecologia, mundialização e espiritualidade. São Paulo: Editora Ática. 1993.

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MALINOWSKI, B. Magic, Science and Religion, New York, doubleday Books, 1948, p. 17

BERGSON, H. As duas fontes da moral e da religião. Rio de Janeiro, Zahar, 1978, p. 85.

O’DEA, Th. Sociologia da religião. São Paulo: Pioneira, 1969.

MONDIN, B. O homem, quem é ele?. São Paulo: Paulinas, 1980.

SIMÕES, Jorge. Cultura religiosa. O Homem e o Fenômeno Religioso. São Paulo: Loyola, 1994.

RIBEIRO, Helcion. Religiosidade popular, na teologia lationo-americana. São Paulo: Paulinas,


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MADURO, Otto. Religião e luta de classes: quadro teórico para a análise de suas inter-relações
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KÜNG, H. Introdução: o debate sobre o conceito de religião, in Concilium 1986/1, n. 203.

SUESS, P. (org.). Culturas e Evangelização. São Paulo: Loyola, 1991.

MORIN, Dominique. Para falar de Deus. São Paulo: Loyola, 1993.

VV.AA. Interfaces do Sagrado em véspera de milênio. São Paulo: CRE PUC-SP – OLHO dágua,
1996, p. 38);

AURÉLIO – Século XXI (Dicionário virtual).