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M. H. ABRAMS O ESPELHO E A LAMPADA: TEORIA ROMANTICA E TRADIGAO CRITICA Tradugao Alzira Vieira Allegro Revisio técnica Carlos Eduardo Ordelas Berriel g@ editora unesp 50 mH. aBeaMs sal Poetry (Sobre o conceito de poesia unive Poetry on New Plan [A arte da poesia em um novo plano} Essays on Poetry andl Music [Ensaios sobre poesia e primeiros Discourses (Diseursos), de Siy Joshua Reynolds. Coloque esses junto aes da poesia eda arte da geracio romntice: os Preficiose evaria, e as palestras hakespeatianas de Coleridge, “On Poetry in General” [Sobre poesia em g ‘outros ensaios de He em seguida acre saios de J. 8. Mi [Palesteas sobre poesia), de John Keble, ¢ je Leigh Hunt, Qualquer que sejaa continuidade {de certos termas e tSpicos entre membros individuais das duas épocas e por mais jcas e doutrinais que dividam os importantes que sejam as diferencas metot ‘membros dentro de um nico grupo, uma inovagio decisiva separa a critica na EradeWordsworth da critica na Erade Johnson. O poeta deslocou-se para ocen- tro do sistema critica e assumiu muitas das prerrogativas que haviam sido pr cadas por seus leitores: a natureza do mundo em que ele se encontrava eos precei- 40s e exemplos herdados de sua arte postica A IMITAGAO E O ESPELHO lowor a Shakespeare: eu teatro éocspetho da vida, Sarl folnson Eo espectador, noo vida, qu arte realmente expel rear Wilde Ezsaspalovios so nti emetféricas Bo que ocare com a ‘aioria das palavres ~ Nao hi o que fazer! Perey Shelly No décimoliveo d’A Ri tureza da poesia ¢ imediatan ‘cama ou uma mesa verdadeira trabalha dea rm, 0 artista tem outra maneira ~ mais f Scrates se propée a explicar a verdadeira na- ‘oduz uma analogia. Aquele que faz uma ne ‘com as ideias dessas coisas. Po- = de fazer essas ¢ todas as outras ‘Qual essa mar Una maneiea ripida ef ‘vezes um expelho ~em pouco espace de tempo seria possivel fazer, no espelho, 0 0 firmamento ea Terra e vocé préptio, e outras anima e plantas e todas as 0 cojeas das quas estamos falando agora! 1 Republic, 596 52 Masses E a pattir das propriedades de tais imagens obtidas através do espetho, Platio continua a desenvolver varias consequéncias pouco elogiosas acerca do cariter © do valor de arte. Essando é umailustragdo fortuita, pois em seus escritos Plato alude repetidas ‘vezes a analogia do refletor, seja ele um espelho, a gua ou outros daqueles simu- lactos menos perfeitos das coisas a que denominamos sombras. Estas ele usa para cesclarecer as inter-relagdes de tudo que hi no universo: das coisas ~ naturais ou attficiais ~ com seus protétipos, ou ideias; e das imitagées de coisas aquelas pertencentes as artes, com os seus modelos no mundo dos sentides. De maneira geval, seria possivel dizer que Plato introduai o refletor apenas para ilustrar um conceito acabado da naturezada arte edo cosmo, ea principal quest@o aser levantada € seo exemplo € apropriado. Contudlo, ha outra questio pritica e importante: ndo apenas “Quéo adequada é a analogia como canceito?”, mas "Em ‘que medida esse conceito pode ter sido gerado a partir da analogia?” Aarte é como um espelho ‘Tradicionalmente, a tarefe de anilise da natureza e fungio da metéfora tem sido atribuida ao estudioso da retérica eao eriticode literatura. A metéfora,entre- tanto, viva ou moribunda, é um elemento inseparavel de todo discurso, inclusive do discurso cuja finalidade ndo é nem persuasiva nem estética, mas descritiva e informativa, Os sistemas metafisicos em particular sto intrinsecamente metafo- +icos, e, em um livro publicado recentemente, Stephen C. Pepper distingue cada tuma das principais vsbes de mundo como sendo ima espécie de sinédoque pro- ." Respicere exemplar vitae morumgue jubebo” mes], como um conselho para ‘mente empirica do cologizaram a ideia ‘Reynolds nos fornece um exemplo interessante. Falando do alto de sua eloguén- cia na peroragio a um discurso celebrando a mudanga da Royal Academy para Somerset Place ele diz: "A beleza que buscamos é geral e intelectual; € uma ideia que subsi jou e a mio jamais 2 expres- 70 Mn. sonens como evidéncia clo “platonismo” de Reynolds. O préprio Reynolds, contudo, deixa claro que o idioma transcendental é para ele apenas uma maneira laudatéria de falar, ndo para ser tomado literalmente. Em seu Terceito Discurso, ele cita Proc, mente coma passagem-modelo de Cicero, cerca da Ideia de beleza namen- «em seguida, com muito cuidado, leva seus alunos a uma interpretagdo que essasafirmages com uma filosofa empirica. "Admiragio intensa”, diz aramente promove conhecimento”, Deveros considera, edevemos louvar aquela forya de expressio vivida, que éne sensa de mais completa \cessa beleza nao deve ico procedimento para Sua propria posigdo €que “essa grande perfeigio ik ser procuradas no azul infinito, mas na terra”. O encontré-la dda mesma espécie tem em comum”, o que resulteré em "uma ideia abstrata de suas formas mais prfeitas do.que qualquer o I de ideias formar o conceito da obra de arte como um espelho invertido de modo a refletir aspectos da mente do artista; ocasionalmente, ela fi transposta em declaragBes caracterizando a artecomo uma forma de expressioou de comunicagio, Reynolds, por exemplo, chegou a afirmar: "A imitacio € 0 meio ¢ nao o fim da arte; ela é empregada pelo Escultor como linguagem por meio da qual suas sentadas A mente do expectador"* Port, sejam essasideiasconsideradas 4 cas de aquétipos transcendentais,sejam, como no caso de Reynolds, efinidas como abstracio de elementos andlogos de uma classe de itens clasman- ‘ém sua base terica na natureza do universo exterior. Tomada dentro de seu con texto, essa afirmagio de Reynolds esti muito distante das doutrinas mais espect ficas da geragio subsequente decritcos, no sentido de que oconteidoc origem interna e suas influtncias modeladoras nfo so as Ideas ou os principios informando a estrutura césmica, mas as forgasinerentes as emoges, aos desejose to crescente procesto imaginative do prépeio artista ANALOGISMOS ROMANTICOS ENTRE ARTE E MENTE ~ Eun dise?~comentou Flask~ sim, ndo rd demorer mito a cabeya dessa lea extard depondurada do ado opsto 4 da cach [Nao se pasou muito tempo, eo que Flask havi. confirma. Como acres ante, o Pequod ‘repentinamente na depo da casa da cachaote,« age com ‘contrapeso de amas os caberas, «quilhanecuperou 0 io, o que, arate, damandou enorme eforgo. Dssa quando, de wm lado, ltamont larentve, Melville, Moby Dick mato espontaneo de sentimentos intensos.” A meti~ fora de Wordeworth, “transbordamento”, suyere a analoga fisica subja sumreceptaculo uma nascente ou fontenatural, talvez~ do qual transborda dua. Esse recipienteé, ser dvida, poeta; os materiais de um poem provém de den~ tro endo consistem expressamente nem de objetos nem de ages, mas dos senti- smentosfluidos do proprio poeta. Uma teoria coerente de poesia que tenha como pontode pattda ese tipo de analoyia, em vex da im tos, Agora, adirego aponta parao de atengao esti na relagdo dos elementos da obra com o seu estado men suugesto, su ‘que adindmica do transborda- ‘mento € inerente ao poeta e,talvez fade seu controle. O préptio Wordsworth ncorou sua teoria no mundo exterior ao manter que "Sempre me empenbel em “Poesia é 0 transbo: 72 ww. apeanes cobservar constantemente meu assunto”, ¢ declarou que a emogia era recolhida cm tranquilidade e que @ espontaneidade do seu transbordamento era apenas a ‘recompensa de um processo prévio de pensamento deliberado, Ele concluiuatam- bém que, jd que esse pensamento encontrou e tor a conexio dos sentimentos do poeta com assuntos r mens, 0 bordamento final s6 pode aleancar um “propésito digna” com relacio ao pt do poeta. As consequénciaslatentes extremas no analogismo central que Words \worth estimulou na Inglaterra ~a eliminagao, para tados os propssitos priticos, das condigdes do mundo dado, os requisitas do piblica, eo toe arte conscientes como determinantes essenciais de um poema~ nao su nnaquele pais sendo trés décadas mais tarde, com criticas como Keble, Ca John Stuart lee Metéforas de expresso Repetidasasserges romanticas acerca da porsia ou da arte em geral giram em ‘tomo de uma metéfora que, como “transbordamento', significeo int formado em exterior. O mais frequente desses termos foi “expresso «em contextos que indicavam uma atualizagio do significado da riz ex-presus, de ex-premere ~ "espremer”, “pressionar para fora". Conforme es Schlegel em 1801, fazendo referéncia a OesrEMNOEALIMPADA 73 catarse pessoal, que ele ope mimese de Aristételes, como ela fora tradicional mente interpretada retaem palavras, maisadequadamenteem palavras met dominante, ou sentimentosinconteolavels, jo pra- sia a esincla da posse... Express, samentetransmite uma noo ce inadequada do que pretende o Essas definigées, corventes na década de 1830, harmonizam-se no sentido de ‘que a poesia expeessa emogko; mas, anteriormente, naquele mesmo século, havia uma variedade de opinides quanto a que elementos mentais sio mais precisamen- te externalizados em um poema. A definigdo comum das belas artes, escreveu 1818), € que todas el poesia, expressam propésitos i tos, que tém aua origem na mente humana escrevera Hazlitt no ano anterior, “expressando amiisicada mente”. "Shelley afir- ‘ava que “poesia, em sentido geral, pode ser definida como 's expresso da ima- ‘ginagio"’ eno mesmoano (1821), Byron queixou-sea Tom Moore: "Nunca con: sigo fazer as pessoas entenderem que poesia é a expressdo de uma paixdo arden Finalmente, Leigh Hunt con que, como observou David Masson, ida com base no principio de nfo omitir nada que qualquer um gostasse de ver incluido” Poesia (para citar adefi- nigio de Hunt apenas em parte) é"aarticulacdo de uma paixio pela verdade, be- leza e poder, incorporando isto pela fantasia e modulando sua inguagem com base no principio de variedade na uni formidade”.” lustrando suas concepeGes pela imag 4 Resenha de Lif of Sot, de Lockhart (1838) in Oxcainal Paps ond Revieus (Oxford Lon tes, 1877), 96,8, 74 wn somes Os contemporineos de Wordsworth foram inventores férteis de outros ter ‘mos paralelos a “transbordamento” e “expressfo”, e, com frequéncia, o mesmo ‘autor nos apresenta uma variedade dessas alternativas. Para Mil, por exemplo(e cada um desses termos poderia ser di ‘um estado ou estados da sensibilidade humana”, ¢ também “dos pensamentos e palavras erm que a emogio incorpora espontancamente asi mesma”! Siy Walter Scott inlui esta tina metsfora em uma descrigdorara entre os principas riti- cos da €poca, porque, ao caractriza arte como comunicagZo, ela equiparao pi blico a pressdo dos sentimentos do préprio artista como uma causa da produgio ica. O pintor, oorador eo poeta, cada um tem o desejo de cstimular no leitor, ouvinteouespectador uma riqueza desentimenta semelhanteaquela, ‘que existiaem seu préprio peito, antes de ser corporifcada por seu li ta Boobjetodo artista, em suma... comunicar da melhor manera quecorese palevras posdem fa sas sensagBes sublimes que ditaram sua prépria composigio.!2 Tipicamente, Byron prefere metiforas mais ousadas, vigorosas opulentas ‘Thus to their extreme verge the pasions brought Dash into paetry, whichis but pasion." Em um nivel ainda mais titinico, Byron introduz um vuledo como analogia; poesia “é a lava da imaginagdo, cuja erupedo impede um terremoto”."*E é tam- bem Byron quem oferece o interessante paralelo entre a criagio poética e o nasci- _mento de uma crianga, originando uma progénie postica ao mesmo tempo sepa- ‘rivel ecombinada com oespiritoesentimentos do poeta-pai (ou seria poeta- mac 11 What 12 Exayon the 15 Dow Jus, 1 Carta Mise Barly Busy, 208,203, 225, OeSPELHOE ALAMPADA 75 Tis to create, and in reating live A Being more intense, that we endow With form out fancy, gining 2s we give -we image, even as Ido now. Intenso, que talhe © como agora estou a fazer— ppensamento ¢ do sentimento humanos’* Muitas vezes, orefletor € invertido e representa um estado da mente maisdo queanatureza externa, Assim disse H cia perfeita da imagem ¢ das palavras com os sentimentos que pos- Essa versio suimos....que gera uma instanténes ‘satisfacdo do pensaments fa mesma forma, corrente na critica dos ‘nei essas montanhas que desejo copiar, mas meu e pl {que me conduz neste exato momento”.* 19 Sherali Deutsche No 76 Ma. HaBRaMs A utilizagio da pintura pare poesis ~, to difundida no século XVIII, quase desaparece na critica principal do periodo roméntico; as comparagées entre poesia e pintura que sobreviveram sio fortuitas ou, como no casodo espelho, mostram a tela revertidaa fim de refletira substncia interior do poeta.!*No lugar da pintura, €a musica que se tomna arte frequentemente apontada como a que tem profunda afinidade com a poesia; se tum quadro parece a coisa mais préxima de uma imagem-espelio do mundo ex- temo, misica, entre todas as artes, € a mais remota; exceto no ecoar passagens programétics, ela nfo duplica aspectos da natureza sens pode dizer, em qualquer sentido dbvio, ue ela se refira a qualquer stuagio fora de si mesma, Como resultado, a musica foi a primeira das ates a ser geralmente considerada como de natureza nfo mi década de 1790, a misica veloa sera sito e da emogao, constituindo propria vibragéo ea quididade da paixéo tornada publica. A miisiea, escreveu Wackenroder, "mostra-nes tadas os movimentos de nosso espitito, descorporificado" * Data utilidade da misica para definire tsar a natureza da poesia, sobretudo da lirica, mas também da poesia em geral ando essa veio a ser concebida como um modo de expresso, Friedrich Schlegel 1e mais imediatamente expressiva do espi- cera da opinio de que quando Siménides, em uma famosa frase, caracterizou a poesia como um quadro que fal foi somente porque a poesia de sua época era sempre acompanhada de misica, e por isso pareceu supérfluo pare cle nos lem: brar que poesia era também uma espécie cle masica espi “Ba Ha uma nova conexdo aponta o grau em quea miisica subs ‘eaconcomitante reversio do posicionamento, que passou do uni ia e poesia “admite-se universalmente... io irmis g6 armisica, dentre todas as artes, a que mais intimamente se aproxima a pintura como o patente mais proxi ‘naquele aspecto de seu efeito que se ocupa em penetrar ~ e trazer & OESPEHOEALAMPADA 77 ‘As passagens citadas até 0 momento sugerem que poetizar ¢ una atividade inerentes ao poeta. No menos caracte- Fistco da teoriaromntica é um conjunto de analogias alterativas sugerindo que ‘ poesia € uma interagao, o eeito combinado do interior edo exterior, da mente e objeto, da paixio edas percepgbes do sentido, Dessa forma, Shelley ilustra sua definigioinicial de poesia como “expressdo da imaginagio”,fazendo referéncia a, aharpaeica, Athanasius Kircher reivin Para nosso caso presente, 6aénfase ques rtéricos sempre colocaram no papel das emogées na arte da pet les af ‘mou que instigar as emogées dos ouvintes é um dos suasio, Cicero defi rés objetivos do orador como sendo " mar e seduzir o pablico” e acrescentou que o orador deve, ele prépri uum estado de arrebatamento se pretende evocar emogdes em seus ouvi “nenhuma mente é tao suscetivel ao poder da eloguéncia @ ponto de ca tensidade, a menos que o orador esteja ele préprio, tomado de ardor tengo de persuadir, Horacio substituiu prazer ou prove ceito da demonstragiio € evocaao do sentimento do campo da retérica para o da posta: Non satis est pulchra esse pormata: dulla unto Etquocumgue volentanimum auditors agunto, sivis me flere, dalendum est Primum isi tb sty aviaaconselhadoo poeta prt esreoeALineao® 107 “Se desejais que eu chore, tereis que me mostrar vossa dor primero” ~a0 re- dor dessa maxima, muitas vezes amalgamada (sobretudo quando se tratava de wagdes de Aristételes acerca de evocagio e purgagao da pie- io neoclissica da elemento emo- ja, Nenhum leitor de qualquer outra Epoca exigiv da poesia mais emogio, ou emogio mais violenta ~ e no apenas 0 a, mas 0 mais judicioso dos leitores também, O elogio que Johnson, suas pincehadus poderosas presidem a Verdade gravada ada] ‘peta paix in ica interpretagdo neocldssica, contuda, nio se considerava eflivio es- lento no poeta como condigao indispensavel para a criagio de poesia © poeta ~ infetia-se—cultiva um estado apropriado de sentimento dentro de si mesmo como um das diferentes meios 20s quais ele recorre para sensibilizar scusleitores. Conforme Boileau expressava o principio, a patio precisa “chercher le coewy, 'échauife et le remus” [buscar o coragio, aquecé-lo e como Lesecre est 'abord de plate et de toucher; Inventez des ressorts qui pussent m’attacher [O segredo é primero agradar ecomov Invente meios que possam me envel 7-8; "Lifeof Cowley", Lives 108 wn. aanans E, para esse fim, 0 poetaera acon va evocar; "Pour me vento € a esséncia da poesia, mas a mancira como Carlyle empre- jraciano revela a reversio na énfase ¢ a subst pela espontaneidade. A superioridade de lentro dee; no em respostaa qualquer apelo. ddeou de interesse, mas porque se coragi Esse €0 grande segredo para se encontrar seduz.econvence os outrosseduza econvengs primeitoasimesmo. A resea de Horicio, Si is me flere, aplica-se em um sentido mais amplo do que oliteal® Longino e os longinianos Algo semelhante ao que ocorre no século: ‘0. a0 deslocamente do pii- blico para ceder lugar ao autor como o termo face] de referéncia pode ser encon- traclo em um retérico classico, Longino ~o exemplar ea fonte de muitos elemen. tos aracteristicos da teoria romantica, Seu tratado, sem duivida, nfose preocupava especificamente com a poesi entre verso e prosa; sublimidade pode ser Platio, no Livro do Génesis e em um: opo- és —linguagem figurada, diecio re as quais so mais uma questio de arte. Desses cinco el devem ter p relagio quela mediocridade impecavel que pode ser obtida apenas pelaarte. Aci OESPENOEALAMPADA 109 treasfontesda mais nobredo que made tudo, as emogées sio objetode consideragio fundamen’ sublimidade, pois “eu afirmaria com confianga que nao! aquele da paixio genuina, em seu lugar exato, quando cla explodeem um rasgode sna as palavrasddoorador transbordan- entusiasmo selvagem e, por assim di tesde deli ‘Uma eonspicua tendéncia de Longino, portanto, édeslocar-se da qualidade cde uma obra pare. sua génese nos poderes eno estado da mente, do pensamel «das emogies do autor. Além disso, mesmo que a linguagem Figurads sea, de ‘maneira geral, uma questéo de arte, Longino atribui um uso particularmente 395 a08 estimulos da paixdo no orador ‘ousado e frequente de met natureza das paixdes, em seu impeto veemente... exi ete indispensiveis". A qui ‘como absolut sigfo ou arranjo das palavras, & culacio elevada e de paixéo”; e "por meio da combinagao e variagao de seus pré: prios tons, procura introduzir na mente daqueles que estéo presentes « emorgo ‘que afeta o oradoe”,” Em iiltima anilise, portanto, a qualidade suprema dk idade & 0 eco de obra acaba sendo a qui ‘uma alma superior" * 3s, Longino prenunciou os tornariam familiares na critica romantica. Sua dependéncia do éxtase em det _mento da andlise como critério de exceléncia anunciou a substivuigdo do procedi idade. Confor- ‘mento ans de que apenas o fragmento intenso e necessariamente breve € quintesséncia da poesia teve sua origem na énfese que Longino colocou no arrebatamento resul tanteda revelagio luminosa, da imagem demolidora ou da explosio atordoante da paixdo, Nele encontramos, além do mais, a origem de uma nova forma de critica aplicada, poisos criticos do século XVIUI reconheciam Longino, quando falavam dele, como “ele proprio aquele grande Sublime que ele del 9 Faz-se necessiio apenas subs m0 spiritual doimpressionismo: 110 tH. abRans triunfo desua perspectiva somente tenha ocort perdido seu prest cconsonncia de seu tratado com a tradigdo roma a razio por que rmiitos estudiosos modernos da critica que consideram Aristételes esquemé Horacio mundanoe os retéricos insignificantes, espondem @ Longino como mulante e “modern Ocexemplo dos até que Robortello 0 publicou em 1$54; e mesmo depois que a tradugao de Boileau, em 1674, em suas varias edigSes, havia acrescentado Longino ao legado sgeral da critica clissica, os novos termos e expressdes continuaram por urn longo tempoaseracomodados dentro da estrutura da teoria mimética e pragmitica sem, ‘afetar seu plano geral. Porém, os primeiros e poucos eriticos que, graces aos seus interesses literérios especiais, imitavam Longino, voltando-se para as aptidées ‘mentais e emocionais do autor como uma importante fonte de efeitos posticos, -demonstraram imediatamente as possibilidades subversivas dasideias longinianas, John Dennis, o“Senhor Tremendo Longino” da farsa Three Hours after Mar: riage (Trés horas apés as nipcias), foi o primeiro inglés cuja teoria. ‘rou o impacto de Peri Hypsous nos fundamentos bésicos em dettimento dos de- talhes. Conforme apresentada em ensaios escritosna virada do século, a est do sistema de Dennis ¢ bastante tradicional. Em The Advancement and ‘mais tarde, Dennis faz uma ilustrativa declaragio da estrutura neocléssica de re- fecéncia critica issemosacima que, como a Poesia é uma Arte, ela deve possuir um certo props sito,edevehaver os Meios spropriados pa jresse propénito, cesses Meios sio também chamados de Regra... Poesia 6, entio, uma Arte pela qual um Poetaestimala | Paixdo (e por essa raza expec 0s Sento), 2 fim desatisfazere melhor deletare reformar a Ment Conihecimento, oesreHoEALineeson 111 Em suarenitentedefesa das regeas tradicionaisfundadas nas necossidades pre idas do pablico, Dennisé mais conservador do que muitos augustanos, eas inferncias de regras particulars so rigidamentesilogisticas;portanto: “Pols se 0 propsito da Comédia € agradar e esse propésito deve ser atingido por meio do Ridiculum, entioo Ridiculum deve englobi-las integralmente”." E na expansio daquele elemento de sua definigzo que identifica 0 meio (que Je chama de “o Instrumento") de imitagdo como um “Discurso entemecedor ¢ abundante”, que Dennis elabora os conceitos derivados de Longino, o que coloca pressio sobre a estrutura pragmatica par ele constr ddamentejustificada como uma forma de comover o| prazer ¢0 fim derradviro da instruedo. Entretanto, nas discussdes posteriores de ‘9 elemento emocional torna-se uma partedesproporcional de um poema, A paixio, afirma ele, discerne sua propria Natureza e Caréter. "Portanto”, ele acrescenta, provavelmente ecoando o.coment on Education” [Carta sobre educacio), "Poesia ¢ Poesia, porque é mais Ardentee Sensual do que rosa’ Para Dennis, como para muitos criticos do século XIX, & idade,distingue poesia deve ica da Poesia, ,consequen Ecomavente ele éProssico... Poi rma como no pode existr a Pintura. E embora 0 Poeta e o Pintor descrevam Agio, eles devem descrevé-la com Paixdo...€ is aixio houver, melhor seri Poesia ea Pintura..!° quant (© que Dennis fez foi elaborar sobre Peri Hypsous, tornando as emogées, para Longino haviam sido apenas uma das virias fontes da singular qualidade da ssublimidade, a indispensével ~ quase suficiente —fonte e marca de toda poesia, Longino, insiste Dennis, equivocou-se quando disse "que Grandeza é, mutes 1,336, 224 quer Paixdo"; sublimidade "jamais existe sem Pando Ar- dente", eessafonte nica, de ato, “acomoda todas as Fontes de Sublimidade que Longino estabeleceu ‘Namesma linha de forrmulagdes de Dennis, virios outros concetoslonginianos aproximam-se de elementos proeminentes da teoria romantica, Génio e painéo slo assunto da “Natureza”, néo da arte; alinguagem figurada & considerada “a Linguagem natural das Paixdes”; © metro “pode ser considerado tanto 0 Pai como o Filho da Paixio". Em consequénci, as qualidades de um grande poema zevelam algo do autor, pois quanto maiores foram as “Paixdes Ardentes.. mais elas evelam a Vastidgo da Alma ea Exe 1 teotia das paixdes de Dennis. Nao ha, entre {de que Wordsworth tenha lido Dennis antes da Preficio de 1800, como também rio ha motivo para supor que ele o tenha feito, pois haveria previsdes muito mais proximas das doutrinas de Wordsworth antes do final do século XVI Dennis, um entusiasta de temas religiosos em poesia, mostrou que Li disse: Faga-se. 1m critico cuja preocupardo espect fez-sea uz", Em meados do século X’ fica era com poesia religiosa voltou-se para Longino como sew modelo, e com re- sultados ainda mais interessantes, Em 1753, 0 bispo Lot Spence na Catedra de Poesia em Oxford, publicou sob 0 Sacred Poetry of the Hebre da Biblia divergia flagrantemente de muitos dos c preceitos greco-romanos, mas, ao mesmo tempo, derponsteou gue Opinion oF Wi OesPeINOE AUMPADR 113, agio de sus grandeza como literatura e também como cove io raz qualquer exemplo do géneroépico.e,confarme Lowrth aponta, somente os Cinticos de Salomio eo livro de J podem ser consi: derados uma aproximasio, mesmo que rudimen cat 08 Profetas, 0s Salmos e outros textos bibl muito a dizer a respeito de tépicos comuns como enredo, personagens 0 cional arte da poesia. Sua preocupagio dominante é com coma fonte desses elementos nas concepgies e paixGes dos escritores religiosos, [Em sua discussioda qualidade especial doestilo hebraico, Lowth propde uma inguagem da razio e poesia como gio de Wordsworth, de que " Poesia é paixo”,o oposto de “Factual, ou Ciéncia". Camo veremos no C: " Variedades da teoria romantica: Shelley, Hazlitt, Keble e outros”, essa no final, levou a uma divisio de todo e qualquer discurso em duas categorias: ‘plodem em uma torrente desardenada, expressando o conflito interior... Em summa, a 1220 fala lteralmenta as paixsesfalam poeticamente. A mente, agitada por qualquer ‘paixdo que seja, ermanecefixa sobre o objeto que a instigou; ¢ por estar ansiosa por nose satisfaz com uma de cexata, mas adota uma ma nica de descrover agradivel as suas préprias sensagdes, espléndida ou angustiante, {jocosa ou desagradvel, visto que as paixdesnaturalmente se inclinam aamplificagBes; 1+ expandem e exegeram ce maneirafabulosa 0 que quer que habite a mente, ¢ se sxpressi-lo em texmos que os retéricos “detalharam com tanta pompa, atribuindo @ arte aquilo que, aci made tudo, deve-se apenas tio somente a natureza”.”" avin anunciado sua adeslo & visio de que a poesia te ace derradeiro, e prazer como 0 meio pelo qual aquele fim pode ser 114 wm aprans efetivamente aleangado”."” Ademais, esses criticos esto certos quando afirmam. «poesia ¢imitagio: "Diem que poesia consist de imitaio:o que quer que a mente humana possa conceber, é funcio da poesia it Contudo, ambas as Proposes, de acordo com Loweth, hatnonieam-se com sa viso de ques poe. sia “deriva soa prépriaexsténca das emogGes mais intensas da mente”. E por issoquede odesas formes dei cra, amainefetivaeaquelaque, como “a grande maioriada posi sacra" refletendo questdes externas, mas as afeiges do proprio poeta Visto que o intelecto humano sentealegria natural diante de cade espécie. taco, aq imager, que se mani festa eretrata aque a eel cxbe e conhece em si outeas Enguanto Lowth exemplifica @ tendéncia bastante comum em sua época de enfatizara representagio da paixio, mais do que de pessoas ou agses, eleé aadmiravel por conceber o poema como um espelho que, em vez derefletira natus reza,reflete os cantos mais recénditos da mente do poeta, Nao € 0 chamado ent siasmo dos primeitos poetas, pergunta ele, um “estilo e uma expresso... manifes- ‘tandoa verdadteira imagem de uma mente sobremaneira agitada, quando, porassim dizer, as avenidas secretas, os recessos da alma si escancarados; quando as con- ceepedes mais intimas so reveladas?”, Essa autorrevelagio é um: poesia hebraica, "em parte, pelo menos, seni em sua totalidade”, Com feequincia, em verde dss secretos do autor, ela os ex- visto pablica; eo véu, por assim dizer, ao ser subitamente removido, revela corn > seusimpulsos repentines, suas mani Jaros sentiment festagdes precipitadase suas inconstincies. Essa énfase na agitagao intensa, nos sentimentes secretos, ne autorrevela- explorar com tanta profundida- portanto, descobriemos que Keble foi o Unico critico roméntico importante a fazer frequentes OGSPEWHOEALANADA 115, tou homenagem especial "aquela incomparivel sé- tras sobre a poesia sacra dos hebreus, de seu predecessor na Citedra de Oxford. A linha que vai de Lowth a Keble é direta, assim como a linha que vai de Low 0 tedlogo que iria alterar profundamente as doutcinas con- vencionais sobrea natureza da poesia — Johann Gottfried Herder, que reconhe- ceu sua dependéncia das palestras de Lowth em seu liveo Vom Geist der ebraischen Poesie [Do espirito da poesia hebraica], publicado em 1782. Linguagem primitiva e poesia primitiva Na época de Wordsworth, era procedimento de rotina, quando se carac zava a poesia, fazer referéncia & sua suposta origem nos clamores inflamados e, portanto, naturalment 8 figurativos do homem primitivo, Tal erenga deslocou a conjetura de Aristételes de que a poesia se desenvolveu a partir do lumano da imitagio, bem como da opinido pragmatica de que a poesia para tomar seus ensinamentos civis e morais mais pala~ téveis e mais memoraveis. A teoria de que a poesia se engendrou na emogio e, mais especificamente, na emosio religiosa, hava sido proposta por John Dennis idem 1704. “A religito, a principio produziu (poesia), como uma Causa produz seu Efeito.. pois as Maravilhas da Religido naturalmente langaram-nas sobre grandes Paixdes, e estas naturalmente langaram-nas sobre a Harmonia a Lin- surada”.® Uma teoria se Iida pelo bispo Lawth. A nogio, conforme Steel postulou em seu quinquagésimo primei- roartigo publicado no The Guardian, de que "os primeiros poetas foram encon- ‘geralmente incorporada a antiga crenga da inspiracio divina e inianos da importancia da paixdo ~ esteve muito em voga guagem fonte independent [Em sua maior parte, a teoria linguistica herdada dos antigos enfatizava a relagio 3s ¢ coisas — quer essa relaglo proviesse da natureza ou de convenes ribuia a origem da linguagem a um edita divina, ou & invengio 116 Mn. aarams deliberada de um herdi da cultura, owa um acordo social racional.“*A grande exce ‘do éadoutrina dos epicuristas, conformea conhecemos a partirdo extraordinétio