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PEQUENO

MANUAL DO
PROFESSOR
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2. Pode utilizar o conteúdo desta Cartilha nas Reuniões Pedagógicas visando
orientar melhor e instrumentalizar todos os Professores.
3. Pode utilizar o conteúdo para rever as práticas da Sua Escola e implementar
as melhorias nos processos pedagógicos e na preparação das suas aulas.

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Apresentação

A
Se pudéssemos classificar as qualidades humanas que nos permitiram vencer

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a guerra pela sobrevivência, em primeiro lugar estaria, logicamente, a capaci-
dade de pensar, refletir. Ela nos permitiu desenvolver uma característica única
entre as espécies vivas: a adaptabilidade.

Chegamos até aqui porque soubemos nos adaptar aos mais diferentes hábitats.
Como Darwin afirmou: “Apenas os mais ágeis e aptos sobrevivem e vencem,
não necessariamente os mais fortes.”

E é essa maravilhosa chance de se adaptar que você, professor, deve agarrar


com toda a sua força. Pare e analise sua carreira, pense há quanto tempo você
não faz um curso de aprimoramento ou apenas adota uma nova forma de re-
passar o conteúdo. Ficar parado no tempo, sem “evoluir”, traz grandes riscos
para a sua carreira e seus alunos. Pois como eles estarão preparados para entrar
no mercado de trabalho, se o seu mestre não está antenado às novidades e não
pode instruí-los a como se comportar nesse mundo tão globalizado?

Ao enfrentar o desafio de se tornar o mais ágil e apto de sua espécie, você dei-
xará para trás velhos padrões e, conseqüentemente, se destacará em seu meio.
Enfim, conseguirá se sobressair não apenas como educador, mas, sim, como um
verdadeiro mestre nota 10.

2
3

ATITUDE
PREPARANDO-SE PARA O SUCESSO
Duas vizinhas, amigas de infância, mesma idade. Freqüenta- ços, tornando seu perfil diversificado para conseguir compor
ram a mesma escola, tiveram os primeiros namoradinhos mais a tão sonhada aula-espetáculo. E este material vem ajudá-lo
ou menos na mesma época, vestibular no mesmo ano, forma- nessa tarefa. A seguir, identificamos as qualidades necessá-
ram-se professoras juntas. Após alguns anos, uma é a preferi- rias para seu sucesso e damos diversas orientações de como
da dos alunos, ganha bem. A outra... é apenas mais uma. cultivá-las.

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A diferença entre as duas pode ser justamente a diferença. ATITUDE É TUDO!
Aquele algo a mais em suas aulas. Às vezes, é um jeito, uma
postura, algo que não se aprende na faculdade. Que elementos sua aula precisa ter para ser considerada um
verdadeiro espetáculo por seus alunos? E o mais importante,
É uma aula diferente. É um pequeno espetáculo que se dá como você, professor, deve conduzir suas explicações para
para os alunos, tornando a disciplina ainda mais interessante. alcançar esse feito?
Isso aumenta a participação em sala de aula e, no final das
contas, eleva – e muito – as suas oportunidades de trabalho. Além de reunir novos elementos em suas aulas, você deve
incorporar novas atitudes a sua profissão. O sucesso de suas
No final das aulas, quem não gostaria de escutar os alunos ações dentro da sala de aula está diretamente ligado à maneira
comentando uns com os outros: “Nossa! Essa aula foi nota como você encara a profissão e seus alunos. Sem algumas
10, você não acha?” Conseguir essa reação envolve uma série atitudes específicas, a meta de tornar-se um professor inesque-
de fatores e muito planejamento de sua apresentação. cível, com aulas memoráveis, fica distante.

Ao entrar em sala sua postura tem de ser persuasiva, criativa, A maioria dessas qualidades podem ser encontradas em gran-
motivadora e de liderança, características, essas, essenciais e des comunicadores. Não seria fantástico levar toda a criati-
que devem ser trabalhadas para se alcançar o sucesso profis- vidade que Serginho Groisman implantou em seu programa 4
sional e de suas aulas. para sua classe? Ou fazer um superplanejamento de aula,
assim como Marília Gabriela faz, antecipadamente, com suas
Portanto, assim como um prédio precisa ter alicerces sólidos entrevistas?
para sustentar a construção, você deve desenvolver esses tra-
Todos estes grandes profissionais de comunicação possuem logo foi convidado a integrar a equipe de profissionais do
características importantíssimas que o ajudarão, e muito, a SBT e em 1999 foi chamado pela Globo.
se tornar um professor nota 10. Quem mais indicado para
você se espelhar do que estes excelentes apresentadores? Você pode estar se perguntando: “O que eu tenho a ver com
Faça como eles e transforme a sala de aula em seu palco – e ele?” É simples. Assim como Groisman, o educador deve ter
brilhe! Entretanto, acompanhe alguns detalhes que você deve criatividade e bolar algo novo, que desperte a atenção de seu
aprimorar antes de se tornar um superprofessor. público (alunos), aumentando sua audiência.
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E esse jogo em busca de pontos no IBOPE não se limita


CRIATIVIDADE apenas a televisão. Se não existir elementos que atraiam a
atenção dos estudantes para sua aula, eles simplesmente “tro-
CRIANDO É QUE SE APRENDE carão de canal”.

A criatividade, de acordo com o consultor em Desenvolvi- Cabe a você não deixar que isso aconteça. É seu dever evitar
mento Humano e palestrante Rubens Queiroz de Almeida, diz que eles dispersem e mudem o foco de interesse. As novelas
respeito a criar coisas novas ou descobrir maneiras diferentes têm uma lição a ensinar sobre isso. Caso os índices de retorno
de fazer tarefas antigas. Reinventar. E é essa a grande ques- apresentem baixa resposta ocorre, de imediato, uma mudança
tão! na “casa”. Os responsáveis pela programação correm contra
o tempo e tentam diminuir o prejuízo mudando o diretor da
O professor, assim como a borboleta, precisa deixar seu ca- novela. Afinal, que outro tipo de atitude eles teriam? Mudar a
sulo e se reinventar. Dar mais cor e movimento a suas aulas. audiência está fora de questão, então, a resposta é reinventar e
Pode ser uma forma diferente de se vestir, um elemento novo mudar algumas peças do tabuleiro!
na sala de aula ou, ainda, uma maneira diversificada de intera-
gir com os alunos. Portanto, encare isso como um alerta. Se a turma começar a
demonstrar um baixo desempenho, de quem você acha que o
5 Veja o exemplo do apresentador Serginho Groisman. Quando diretor irá cobrar uma posição? Do professor ou da classe?
trabalhava para a TV Cultura, no programa Matéria Prima,
ele inventou um novo formato em que a platéia participava Já que sua “audiência” detém todo esse poder e está sedenta
ativamente das discussões. A inovação agradou tanto que ele por novidades, adapte-se. Leve ousadia para a sala. Ousadia
ao experimentar uma linguagem diferenciada de ensino, ou- Força da juventude
sadia ao buscar mais interação de seus estudantes durante as
explicações, ousadia ao levantar assuntos polêmicos, estimu- O fato de a criatividade ser cada vez mais exigida no mercado
lando a discussão e a criação de novas idéias. já é um motivo mais do que suficiente para você desenvolver
a sua, mas o professor tem uma razão a mais: alunos são o
Porém, tenha a consciência de que o sucesso dessas ações não maior depósito de energia criativa que se conhece.
acontecem do dia para a noite e exigem que você, educador,
abandone a zona de conforto. Imagine se Groisman tives- Gilda Lück, professora do Colégio Dom Bosco de Curitiba, e

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se mantido o formato de programa que os telespectadores mestre em Educação pelo Lesley College de Boston (EUA),
estavam acostumados. Será que ele estaria gozando de todo o conta que, certa vez, um aluno levou uma borboleta para uma
prestígio que possui hoje? aula de Matemática. A turma ficou entusiasmada com o inseto
e logo todos depositaram sua atenção nele. A professora foi
O mesmo acontece com suas aulas. Sem criatividade, elas ríspida e falou para o aluno que deixasse a borboleta de lado,
obedecerão ao velho protocolo escolar, ficarão na surdina, pois a aula era de Matemática e não de Biologia.
sem nenhum destaque ou algo especial que chame a atenção
dos seus pupilos. Faça como o grande comunicador, não se Segundo a pedagoga, esse é um exemplo de professora que não
conforme, mude esse quadro. utilizou a empolgação da turma a seu favor. Com um pouco de
criatividade, ela poderia ter usado a borboleta como um instru-
Veja algumas dicas dos seus colegas de profissão que, de uma mento pedagógico e, assim, despertado o interesse da classe.
forma diferente, envolvem seus alunos com ótimas perfor-
mances. Cantam, interpretam, recitam poesias e até usam Outro exemplo: os professores do Colégio Maxi, de Londrina
adereços coloridos para chamar a atenção. (PR), mostraram que, para eles, criatividade não é problema
e, sim, uma grande solução. Tiveram a brilhante idéia de usar
Cada um, a seu estilo, está dando o máximo de si para se latinhas de refrigerante para decorar o ginásio no qual acon-
transformar no educador nota 10. Claro que não existe uma teceu a II Bienal Cultural, um evento promovido pela escola
forma única do professor ser criativo. Acima de tudo, é preci- com a participação de seus alunos. O resultado foi duplamen- 6
so preservar e respeitar o estilo e o perfil de cada um. te satisfatório, pois, além de conseguir um efeito fascinante,
as latinhas foram doadas para uma instituição de caridade que
as trocou por três novos computadores.
Práticas de cada estudante, os diferentes modos de observação e de
Além de despertar seu poder de inovação, você também tem captação da mensagem.
a responsabilidade de não deixar que esse sentimento dimi-
nua em seus alunos.
MOTIVAÇÃO
Gilda Lück afirma que no dia-a-dia da sala de aula o mais
eficaz é propiciar um ambiente criativo. Algumas dicas: NÃO DEIXE A VIDA TE LEVAR
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Adivinhação. Reserve cinco minutos da sua aula para Quando falamos de ensino, um dos fatores mais importantes é
um jogo de adivinhação. Além de resolver problemas de a motivação de seus alunos. Ou seja, além de ensinar criativa-
indisciplina, aquece a mente do aluno para a observação e mente, é preciso que eles queiram aprender.
criação.
Conseguir isso é uma tarefa que qualquer professor almeja.
Relaxamento. Mentalizar por alguns minutos situações Hoje você se espanta com o fato de seus alunos decorarem o
tranqüilas, como andar em um bosque, escutar o barulho do nome de mais de 150 personagens de video games japone-
mar ou banhar-se em uma cachoeira, preparam o intelecto ses. Mas faça um teste: procure um colega mais experiente e
das pessoas para a criação. pergunte sobre a escalação do Santos de 1962. Ele, provavel-
mente, vai tê-la na ponta da língua. Agora, faça uma pergunta
Atividades artísticas. Enriqueça sua aula com música, escolar que não tenha a ver com a matéria dele, por exemplo,
esculturas, dobraduras, formação de figuras de papel e de se ele leciona Química, pergunte sobre Geografia. Mudam
novas palavras através da composição de formas geomé- os personagens, mudam as modas entre os alunos, porém,
tricas. dificilmente o interesse pelo estudo sai do final da fila das
prioridades dos estudantes.
Jogo de log. Essa é uma técnica mais conhecida nos Esta-
07 Dificilmente, então, pode-se jogar toda a responsabilidade de
dos Unidos e Europa. Funciona assim: um pouco antes de
10 estudantes desmotivados na força atual da mídia. Tampouco
terminar sua aula, peça para um aluno escrever tudo o que
assimilou. Com isso, é possível observar as peculiaridades adianta transferir a culpa para o governo, a sociedade ou aos
pais.
Quando se fala em motivação de alunos, existem duas certe- uma boa surpresa, de uma aula animada, com um professor
zas básicas: você não motiva ninguém e grande parte de suas motivado e que incentiva seus estudantes.
ações em sala de aula influenciam a motivação de seus alunos
(para melhor ou pior). Vale tudo nessa hora! Chacrinha começou uma brincadeira de
jogar bacalhau nas pessoas. Sua intenção: divertir e chamar
Essas afirmações podem parecer conflitantes, mas não são. A a atenção da audiência. Claro que você não irá jogar comida
motivação é algo que depende da vontade de cada um. É um nos estudantes, mas a idéia é brincar, inovar e deixar seus
processo íntimo e individual. O que você pode fazer é criar o alunos curiosos, com vontade de ir para as aulas e descobrir a

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ambiente ideal para que seus pupilos se motivem. surpresa que você preparou.

Se lembrarmos dos grandes comunicadores que teriam Segundo a professora e escritora norte-americana Barbara
essa característica, com certeza, citaríamos como exemplo McCombs, “os alunos sentem e reagem a todos os aspectos
José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha. O Velho de um professor: quem são, como falam, o quão confortáveis
Guerreiro, com todo seu bom humor e alegria, conquistou eles se sentem em sala de aula”. Ou seja, quanto mais estímu-
um público fiel, e até hoje é lembrado por seu carisma. Claro los positivos os estudantes encontrarem, melhor se identifica-
que, além do profissionalismo, era inegável que o apresen- rão com você e com a matéria.
tador desempenhava sua função com prazer. Sua motivação
em fazer o trabalho contagiava todos à sua volta, inclusive os Você quer mais motivos para começar a adaptar sua postura e
espectadores. sua forma de se comunicar com a classe? E lembre-se de uma
grande dica que o Velho Guerreiro nos deixou: “Quem não se
E é exatamente isso que você, professor, deve fazer se quiser comunica, se trumbica!”
motivar sua turma. Quem não gostaria de, assim como Cha-
crinha, ser lembrado por muitos e muitos anos?
O que motiva seu aluno?
Essa postura diferenciada se transforma em um ingrediente
a mais. Aproxime e encante seus alunos que são nada mais, A motivação de um aluno passa naturalmente pelo desejo dele 08
nada menos, que seu público. Um público que está sentado em aprender o que está sendo mostrado. E aí está a chave para
ali a sua frente, esperando ser surpreendido e aprender o a solução do problema. Por trás do desejo – ou da falta dele
conteúdo de uma maneira não convencional. Todos gostam de – de aprender algo estão vários motivos, experiências pas-
sadas e expectativas futuras. E, mesmo que você tenha dois motivá-los. Ninguém pode motivar outra pessoa. O máximo
estudantes com exatamente o mesmo grau de concentração, a que alguém pode fazer é criar um ambiente propício para que
razão para eles prestarem atenção varia. os alunos automotivem-se. Eles aprenderão o que você espera
que eles aprendam. E você pode mostrar o que espera deles de
Alguns são internamente motivados. Gostam de estudar por- várias maneiras.
que sabem que é para seu bem e gostam da sensação que as
descobertas produzem. Para outros, a recompensa é externa. Práticas
Eles estudam para obter alguma coisa, uma recompensa, ou
1 Sala de aula
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para evitar algo de ruim.


Os alunos devem ver a sala de aula como um ambiente
agradável, acolhedor, parecido o mais próximo possível da
Essa motivação vem de várias fontes. A criança vai construin-
sua própria casa. Como se consegue isso? Uma mão de tinta
do-a durante toda sua vida, observando e escutando outras
faz milagres. Sério! Móveis adequados e sem sujeira, ambien-
pessoas (especialmente pais e professores). Os pais da criança
te claro e bem iluminado, essas são condições mínimas de
devem saber lidar com a curiosidade natural dos filhos, res-
trabalho. Algumas escolas podem não lhe oferecer isso, mas
pondendo as perguntas (mesmo as mais embaraçosas, engra-
ainda assim você pode fazer algo:
çadas ou impróprias), encorajando as explorações e, de um
modo geral, tentando mostrar-lhes mais do mundo.
- Mantenha o chão da sala sempre limpo.
Uma criança criada dessa forma receberá a mensagem de que
- Procure ter duas lixeiras, uma em cada canto da sala. Ra-
aprender é divertido – e dificilmente trará problemas para
você. Outras podem crescer em um ambiente que favorece zão: a lei do menor esforço. Seus alunos terão uma escolha
a autonomia, competência e o respeito próprio, aceitando do menor caminho para apontar lápis, jogar papéis fora,
melhor os desafios inerentes da escola. etc. E não o farão embaixo das carteiras.

- Procure certificar-se de que o quadro-negro (ou verde)


O que você pode fazer? Se você não pode fazer nada quanto
09 esteja limpo quando os alunos entrarem na sala.
à bagagem que seus alunos trazem, você pode fazer muito
a partir do momento em que eles entram na sua sala pela
- Trate todos com respeito. Eles devolverão o tratamento.
primeira vez. Sua atitude, seus procedimentos e suas metas
são o que mais conta. Mesmo assim, você não vai conseguir
2 Lição de casa
Bom, você não pode evitar. Eles também não. Então,
o melhor é chegar a um acordo sobre provas, pesquisas e
ensinando a algo que eles vêem todo dia na rua ou que
possam usar.

exercícios de casa: - Resultado imediato. Procure fazer pequenos testes que


valham um ponto para a prova do mês. Corrija-os rapi-
- Logo no começo do ano, coloque as regras na mesa. damente e dê os resultados. Assim, seus alunos vêem, na
Diga como você vai trabalhar e respeite o que você disse. hora, o quanto o esforço deles significou e o que precisa
Procure manter um padrão. Um professor que passa um ser mudado para a prova principal.

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ou dois exercícios para casa todo dia tende a ser mais
respeitado do que um que, às vezes, passa cinco, às vezes,
não passa nada. Os seres humanos, em geral, só gostam
de suspense no cinema.
3 Papo-cabeça
Por que seus alunos devem estudar? Lá pelo 7ª, 8ª ano,
uma resposta já começa a se formar na cabeça de alguns:
“Para passar no vestibular.” Essa idéia é até estimulada por
- Além disso, seus alunos também têm outros compromis- algumas escolas, que anunciam – com orgulho – que um de
sos. Se eles souberem que todo dia devem esperar um seus alunos do 9º ano passou no vestibular da PUC de São
pequeno volume de tarefas de você, se souberem que a João do Fim do Mundo.
cada dois meses terão de entregar um trabalho, eles po-
derão ajustar suas agendas fazendo o que se espera deles, Só que essa é uma meta muito distante, e que apavora mais
e estudar de maneira mais sistematizada. Assim, você do que estimula (“Será que eu vou passar?”). E, se não for o
demonstra um grande respeito por seus estudantes. vestibular, será a próxima série. Procure mudar o foco deles:

- Varie o nível de dificuldade. Há sempre aqueles que - Faça com que se concentrem no que estão fazendo. No
demoram um pouco mais para entender o assunto. Um aprendizado. O medo de reprovar desvia a atenção, parali-
exercício ou pergunta mais fácil não prejudica os mais sa seus alunos.
adiantados e permite que os outros cheguem ao mesmo
10
nível. - Faça com que eles voltem a se interessar pelo que é
aprendido. E uma forma segura de fazer isso é através do
- Contextualize. Sempre que possível, ligue o que você está humor. A História, por exemplo, está cheia de passagens
engraçadas, as quais podem ser usadas em outras maté-
rias. Quer coisa melhor para fixar as conversões de pesos
PERSUASÃO
e medidas do que contar a história do surgimento da O PODER DO CONVENCIMENTO
escala Fahrenheit?

- Ensiná-los a estudar. Técnicas de memorização, horários O que você entende por persuasão? Segundo o dicionário Au-
rígidos, alimentação, como destacar os pontos importan- rélio, o ato de persuadir compreende “levar a crer ou aceitar”.
tes, prestar atenção na aula. Tudo isso faz uma diferença É um processo sutil, no qual vários fatores como aspectos
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enorme à medida que eles vejam que falharam em um culturais, credibilidade do interlocutor, gestos e linguagem
teste não por incompetência, mas porque não estavam empregada, influenciam a outra parte.
fazendo a coisa certa.
Dominando suas regras e sabendo empregá-las de maneira
- Fazer com que entendam que tudo é um investimento. eficiente, a persuasão se transforma em uma característica
Ficar pensando em passar de ano, em fazer o vestibular, é imprescindível para que você transforme sua aula em algo
perda de tempo. Eles devem pensar no que são bons, no fantástico e sua sala em um palco iluminado.
que gostam, e se esforçar para tirar da escola o máximo
possível. Só assim poderão realizar todas as suas possibi- E falando em brilho, nada mais justo do que pegarmos como
lidades. referência para essa qualidade o versátil Arnaldo Jabor. Ele
esteve ligado a esse mundo do show, do espetáculo, antes de
entrar para o jornalismo. Foi técnico de som, crítico de teatro,
escreveu roteiros e dirigiu filmes. Em 1991, deixou os palcos
4 Controle
Deixe que eles assumam o controle da própria aprendi-
zagem. Ou seja, abuse das perguntas e consultas à sua turma,
para investir em sua carreira de comunicador.

deixando que eles escolham e opinem sobre assuntos como Essa vivência que o ambiente teatral e cinematográfico pro-
datas de prova, visitas, formação de equipes de trabalho, porcionou a Jabor contribuiu diretamente para a formação de
11 entre outras. Quanto mais sentirem que a voz deles, e a opi- uma de suas características marcantes, tanto na TV quanto em
4 nião, é ouvida, mais eles se interessarão pelo estudo. seus artigos: ele não se limita apenas a passar o recado, ele
incorpora o texto, coloca emoção em suas palavras e faz dos
assuntos geralmente complicados, temas interessantes e claros do público, que no seu caso são os estudantes.
num piscar de olhos.
Então, como você vai persuadi-los sem entender o que lhes
Ao vê-lo “em cena”, percebemos o quanto suas atitudes e chama a atenção ou o que consideram importante para suas
seu discurso são persuasivos, chamam a atenção do público e vidas? Sem esse feedback é complicado adaptar sua mensa-
cativam os telespectadores e leitores a buscarem mais infor- gem e também sua postura para obter bons resultados.
mações sobre o assunto tratado.
Práticas

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Jabor também consegue unir durante suas explicações argu-
mentos convincentes, uma dose de entusiasmo e conhecimen- - Abra seus ouvidos. Escute o que seus estudantes têm a di-
to de causa. Com todos esses recursos, fica quase impossível zer, descubra suas expectativas em relação ao seu trabalho
não ser persuasivo. e o que eles gostariam de ver em suas aulas.

E você, professor, não gostaria de incorporar essa caracte- - Faça das metáforas e exemplos práticos grandes aliados
rística? Persuadir seus estudantes a participarem mais das no momento de ensinar termos difíceis. Por exemplo, para
aulas ou ainda absorverem o conteúdo necessário para sua explicar sobre o tabagismo para aquela turma de adolescen-
formação pedagógica? Para isso, você deve ter paciência e tes que acha que fumar é o máximo, use uma experiência
persistência, pois sem isso fica difícil construir um discurso prática para demonstrar os efeitos negativos que essa droga
que desperte confiança e guie seus estudantes. Afinal, não foi causa ao corpo humano. Será muito mais impactante do que
do dia para a noite que o jornalista acumulou conhecimento você ficar de pé, parado, divagando sobre consequências.
e conseguiu desenvolver um jeito todo especial e único de
se comunicar. Foram necessários muitos estudos, pesquisa e - Induza seus alunos a participarem mais das aulas, fazen-
análise para chegar aos padrões que presenciamos hoje. do-os complementar suas idéias durante a exposição do
assunto.
Outro fator que contribui para o sucesso de seu discurso é 12
que o jornalista sabe muito bem para quem está falando. Ele - Para persuadi-los a obedecerem suas ordens, nada melhor
adapta a linguagem, traduz termos complicados e deixa a ex- do que uma boa conversa em um tom baixo de comando e
plicação clara e objetiva. E esse é um dos grandes segredos da olho no olho.
persuasão. Descobrir as características, necessidades e o perfil
- Quando a turma estiver muito alvoroçada, com conversas e usa todas essas informações para planejar e conduzir bem
paralelas, use a técnica do silêncio. Fique na frente da uma entrevista, você deve passar por todas essas etapas quan-
turma de cara amarrada sem falar nada, ou desenvolva um do estiver preparando suas argumentações para saber quando
grito de guerra peculiar. Por exemplo: “Paz e amor, silên- usar os recursos disponíveis.
cio por favor.”
Lembre-se de que não adianta nada chegar na frente de seus
- Se você quiser convencer os estudantes a fazer um trabalho alunos e promover um verdadeiro “fuzuê”, colocar músi-
específico e eles responderem que não sabem o que fazer, ca, passar filmes, se você não traçou um plano de aula que
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responda: “Vocês não sabem ainda, mas vão aprender” ou definisse um fim para essas atividades. Pense como seria um
desafie-os dizendo algo como “Mostre-me que vocês são desastre se Marília Gabriela não “estudasse” seu interlocutor
capazes de fazer essa tarefa”. e ficasse fazendo perguntas superficiais, usando dos efeitos
especiais que a televisão oferece só para encher lingüiça?
Você concorda que, além de perder a audiência, ela perderia
PLANEJAMENTO credibilidade. Por isso a importância de planejar, pensar o que
será feito e exposto durante aquele momento.
PENSE PRIMEIRO, AJA DEPOIS
Para o professor funciona exatamente igual. Todos desejam
Para dar aquela tão sonhada aula-show o professor nota 10 uma aula-show, perfeita, mas não basta sonhar com ela. É pre-
tem de assumir diversos papéis. Além de ser um bom apre- ciso planejá-la para que ela vire uma realidade aproveitável
sentador, comunicador e persuasivo, é preciso – muitas vezes para os estudantes.
– assumir a posição de um jornalista.
O professor Jorge Luiz Malkomes Muniz divide a preocupa-
Isso mesmo! Uma das características desses profissionais, ção com o planejamento sem conhecimento da turma em dois
como Marília Gabriela, é levantar o máximo de dados pos- níveis. Primeiro, afirma que deve ser feito um planejamento
síveis antes de suas entrevistas. Esse processo de pesquisar, geral: analisar todo o material empregado em suas aulas, fatos
13 organizar e planejar o andamento da aula também deve fazer próximos à realidade do aluno e reconhecimento da comu-
6 parte de sua rotina. nidade na qual a escola se insere. A partir desse diagnóstico,
segue o próximo passo, no qual monta-se o conteúdo que se
Assim como a jornalista vasculha a vida de seus entrevistados deseja aplicar, sempre muito prático e voltado à realidade que
cerca o estudante. “Muitas novidades, atualidades, para que o nova. Você pode dar parte da aula para seu cônjuge e pedir
aluno sinta-se constantemente interessado em comparecer às a opinião dele. Na maioria das vezes, esse treinamento
aulas”, completa. vai ser interrompido por brincadeiras e gargalhadas, mas
tentem de novo – vocês acabam acertando.
A professora Maria José Zoppi Campane é outra defensora da
utilização das vivências do cotidiano local. Ela também alerta - Ao final, você não terá um espetáculo complemente fe-
que é preciso dar especial atenção à administração do tempo, chado, pronto. Uma aula está sempre aberta a melhorias e
pois o educador lida com diferentes tipos de estudantes. “É ajustes, até porque cada classe é única. Anote a experiência

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preciso planejar uma atividade para diagnosticar qual conteú- que impressionou mais os seus alunos, que foi um sucesso
do deve ser trabalhado com os possíveis alunos que vierem de em participação, para usá-la como inspiração no futuro.
outra instituição”, destaca, “e acrescentar atividades praze- Assinale também os pontos que não funcionaram muito
rosas, buscando o equilíbrio e o envolvimento do meu aluno bem para poder reestruturá-los nas próximas práticas. Seja
com a minha disciplina”. flexível.

Enfim, planejar é essencial para o sucesso de suas aulas. Ao


pular esse passo, você estará correndo grandes riscos de jogar
por água abaixo sua credibilidade e confiança, conquistadas
LIDERANÇA
EM BUSCA DE TALENTOS
Onde estão os líderes? Aquelas pessoas que fazem a diferen-
ça em suas escolas e comunidades, que vão além do que se
Práticas espera deles, que unem duas qualidades importantíssimas:
competência (suas habilidades e experiências) e autenticidade
- Antes de tudo, separe o conteúdo e o material que você vai (sua identidade, atitude e características)?
precisar na aula imaginada. Como você terá tempo, pode
pesquisar materiais mais baratos e simples sem prejudicar Muito se fala sobre liderança. São dezenas de livros, dicas e 14
o resultado final. Só é proibido descuidar do conteúdo. orientações que prometem transformá-lo, de repente, em uma
pessoa supercarismática, capaz de liderar um espetáculo de
- Faça uma simulação de sua aula. Controle o tempo neces- aula que prenda a atenção dos alunos e os incentive a parti-
sário para expor o assunto ou para explicar uma atividade
cipar das atividades. Porém, desenvolver essa característica estão, no mínimo, muito nervosos, com toda a energia típica
leva tempo e não é tão simples quanto parece, principalmente de sua idade e ainda, estão acostumados a toda interatividade
em sala de aula. que a tecnologia oferece. Alunos que não poderão se esforçar
mais a não ser que você se dedique a entendê-los melhor e,
Diversas experiências acumuladas durante nossas vidas em certos casos, mudar seus “hábitos de pensamento”.
contribuem para a construção de um grande líder. Jô Soares
é um belo exemplo. O apresentador já fez de tudo um pouco. Liderar, então, não é e nunca foi trabalhar apenas com
Durante os anos 60, esteve envolvido com artistas plásticos de números. Tampouco se resume em entrar em uma sala cheia
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um movimento classificado Underground e atualmente se di- de gente e gritar “vamos lá, pessoal!” entre outras frases
vide entre vários “papéis”: escritor, humorista e apresentador. motivadoras. Liderar é ser capaz de extrair o melhor de cada
aluno. Fazer com que cada um, com sua habilidade específi-
Enfim, podemos considerar Jô uma pessoa eclética, que lidou ca, contribua com a aula. É despertar os interesses e guiar os
com várias situações durante sua vida profissional. Toda essa estudantes a descobrir seus talentos. No meio desse processo,
experiência e vivência fazem a diferença na hora de comandar com certeza, crises e tensões surgirão. Contudo, como todo
seu programa e sua equipe. Ele sabe que em seu meio, está bom líder, você não deve se abater, mas, sim, encarar a situa-
lidando com outros profissionais, os quais possuem personali- ção como um desafio a ser vencido.
dades distintas e que devem ser tratados de maneira única.
O que vemos, de segunda a sexta à noite, no programa do
Encontramos esse mesmo dilema dentro da sala de aula. Jô, ilustra bem o conceito anterior. O apresentador diverte,
O educador precisa liderar uma equipe que é formada por informa e entretém o público, porém, isso só acontece porque
cidadãos diferentes e que possuem pontos de vista singulares. ele sabe como orientar e estimular os profissionais que estão à
Assim como o Jô não pode chegar nos estúdios e exigir um sua volta a participarem do show. Ele consegue que cada um,
desempenho perfeito e padronizado de seus colaboradores, com todo seu talento, contribua para o espetáculo.
você, professor, também deve estar preparado para lidar com
os altos e baixos de seus alunos. Portanto, professor nota 10, faça dos 40 minutos de aula um
15 momento de descontração e aprendizagem. Exerça seu poder
É por isso que exercer esse papel de liderança vai além de de liderança para despertar o potencial de cada estudante,
discursos, como: “Se você se esforçar mais, vai conseguir fazendo deles os coadjuvantes de sua aula-show.
passar.” Geralmente, você está lidando com estudantes que
Trabalhe para ser líder Para desenvolver esses líderes completos, vale tudo. Por
exemplo, o professor Robert Lengel, da Universidade do
Os grandes líderes trabalham em quatro áreas diferentes: Texas (Estados Unidos), criou – e está tendo muito suces-
visão, realidade, ética e coragem. Sem uma delas, qualquer so – o curso Jornada para a Liderança. Ao entrar na sala de
plano de trabalho ou técnica de modificação vai por água aula, você pode encontrar alunos discutindo livros. Livros de
abaixo. Uma não funciona sem a outra. Veja: ficção mesmo, romances, policiais, e não de Administração
Visão – É a arte de pensar grande, criar coisas novas, de de Empresas ou Pedagogia, como era de se esperar. Talvez até
antecipar o que vai acontecer. E, mais importante, um tendo uma lição básica de Aikidô, a arte marcial que ensina

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líder visionário sabe reconhecer o potencial criativo de sua a usar a força do seu oponente contra ele. Ou ainda encontrar
equipe. os estudantes ouvindo uma palestra de um pianista clássico.
Segundo o professor Lengel, todas essas aulas não convencio-
Realidade – Conseguir ver o mundo como ele é e não
nais mudam a maneira pela qual os estudantes vêem o mundo.
como nós gostaríamos que ele fosse. Lida com parâme-
tros do dia-a-dia, fatos e números. Ela não tem ilusões, vê
limites e tem pouca paciência para especulações. Práticas
Ética – Como você lida com os valores humanos básicos O inesperado, por si só, é um fator fundamental para de-
de amor, integridade e sentido. Essa dimensão da lideran- senvolver a liderança: “As organizações vencedoras serão
ça é única no sentido de que não pode ser manejada com aquelas cujos líderes consigam reagir facilmente a qualquer
técnicas de motivação (prazer ou medo). É tudo uma ques- situação à sua volta”, afirma.
tão de princípios individuais, os quais devem ser usados
em benefício do grupo.
Porém, você pode desenvolver a sua liderança em sala de aula
Coragem – É a vontade de colocar a máquina para e com seus colegas. Acompanhe:
rodar, de fazer acontecer.
1.Reflita – Reflexão é a arte de escutar a sua voz interior
O desafio de liderança é fazer com que todas essas caracterís-
para sacadas sobre uma determinada questão e acessar uma
ticas coexistam em você ao mesmo tempo. E o mais impor- 16
inteligência que vai além da lógica, dos conhecimentos
tante, fazer dessas qualidades, grandes aliadas para transfor- pessoais e experiências.
mar suas aulas em momentos mágicos e de um aprendizado
divertido e eficaz.
Escrever um diário com suas opiniões a respeito de seu 3. Entenda – Estabeleça contatos mais humanos entre
trabalho e de suas qualidades e defeitos é muito útil no seus estudantes. Porém, isso é algo difícil de ser consegui-
desenvolvimento de sua liderança, pois um líder que sabe do, a princípio. Por exemplo, dependendo do aluno, seus
refletir faz com que seus alunos realmente escutem o que trabalhos e redações sempre são olhados com suspeita. De
estão dizendo. vez em quando, olhe a questão através do ponto de vista de
Frases simples, como “Desenvolva sua idéia”, “Pode seus estudantes e procure entender suas razões. Eles irão
explicar melhor esse aspecto de seu pensamento?” e outras se sentir mais respeitados e valorizados por você. Um dos
principais atributos da liderança é a capacidade de lidar
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expressões similares, também fazem com que seus alunos


acabem aprendendo por si próprios. Um bom líder sabe com diferentes opiniões e visões que, a princípio, parecem
escutar, mais do que falar. excludentes: “Como posso me dedicar integralmente a meu
trabalho e a minha família?”, “Eu sou uma diretora ou uma
amiga?”. Converse, estabeleça valores, discuta o que é
mais importante a cada momento de seu dia.
2. Explore – Ajude os outros a se aventurarem pelo des-
conhecido. Você já faz isso todos os dias com seus alunos.
Defina uma meta com a qual os seus estudantes possam
trabalhar.
Muitas vezes, vocês estarão pisando em terreno totalmente
inexplorado. E isso pode ser feito, por exemplo, com uma
maneira nova de ensinar através de passeios e visitas. Nes-
sas horas, é papel do líder ser uma bússola para os outros
integrantes do time, que são seus alunos. Ele deve apontar
a direção correta quando o pessoal começar a se desviar do
trajeto (e sempre vão haver desvios nessas condições). O
17 líder também deve ter a consciência e a coragem de dizer
17 “não sei” quando não tiver a resposta. Isso ensinará a seus
0 pupilos a desenvolverem por si só suas idéias.
PREPARAÇÃO
PESSOAL
QUEM QUER, CORRE ATRÁS Após uma série de argumentações, o gestor interrompe nova-
mente e finaliza:
Imagine a seguinte situação: começo do ano, volta às aulas, os
professores são convidados a participarem da famosa semana — Muito bem, todos estão certos. Na verdade, esse profes-
pedagógica. sor nota 10 é a reunião dessa série de qualidades. Mas para
alcançar esse objetivo, é importante dar o primeiro passo.
Ao se deparar com todos os educadores novamente reunidos, Ou seja, reconhecer a necessidade de desenvolver as carac-
o gestor decide abrir o encontro com um questionamento. terísticas citadas.

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— Quem aqui gostaria de ser um professor nota 10? Essa historinha ilustra bem o que acontece dentro de muitas
instituições no começo do ano, durante as semanas de treina-
A maioria, como é de se esperar, levanta a mão. Então, o mento com os professores. A vontade de se aprimorar profis-
administrador continua: sionalmente existe, porém, em certos casos, esse plano vai
sendo preterido quando começa a correria do dia-a-dia.
— Interessante. Mas o que vocês consideram um professor
nota 10? Tanto professores como gestores alegam que as variadas ati-
vidades que exercem na escola tomam tanto tempo que acaba
O mestre em Matemática, sentado lá no canto da sala, respon- não sobrando um espaço na agenda para fazer o tal aprimora-
de: mento.

— Para ser nota 10, o educador precisa ter carisma. O problema é que esse discurso, muitas vezes, esconde o
receio que educadores e administradores têm em assumir uma
Nisso, a orientadora educacional emenda: nova postura. Uma posição mais ousada, que exija deles o
abandono da zona de conforto que vinham trabalhando até
— Preparo também é importante. – E um grupinho do meio então.
19
opina:
Se realmente essa vontade de se tornar um mestre exemplar
— Sem persuasão e criatividade o negócio não funciona. existir, os professores deverão trabalhar com mais afinco as
qualidades e atitudes vistas no capítulo anterior (criatividade,
motivação, persuasão, planejamento e liderança) e, juntamen- Ao se conhecer melhor, saber realmente quais são seus ob-
te com elas, cultivar alguns gestos que fazem toda a diferença, jetivos, fica mais fácil para o professor estabelecer o cami-
como: nho que deve seguir para a realização dessas metas, e ainda
identificar quais pontos precisam ser ajustados ou aperfeiço-
ados. Fique atento às dicas que reunimos para você ascender
- Possuir uma atitude naturalmente positiva e
profissionalmente.
animada.
- Saber pensar e decidir.
Arrumando a casa
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- Saber ouvir, e não apenas falar.


- Aceitar críticas. Antes de querer mudar tudo em sua carreira, é necessário mu-
dar por dentro. Altere sua maneira de ver o mundo, colégio,
- Estar sempre aprendendo e se atualizando. alunos. Desenvolva:
- Possuir boa aparência profissional.
Liderança – Antes de liderar os outros, um profes-
O conjunto dessas ações, aliadas a paixão por ensinar, com
1 sor de sucesso deve concentrar-se em liderar a si
mesmo. Tomar consciência de que ele não trabalha para
certeza resultará em um desempenho acima da média. Ao
uma empresa ou outra pessoa. Trabalha para si mesmo,
demonstrar o afinco e apreço por sua profissão, você automa-
sua própria satisfação pessoal e profissional. E desenvol-
ticamente contagia todos a sua volta e estimula os estudantes
ver uma liderança pessoal requer:
a participarem e se envolverem com o assunto ensinado.
Auto-análise: concentre-se no que você é bom, nas
EM BUSCA DO SUCESSO áreas em que você pode se destacar. Uma pós-graduação,
mestrado, qualquer um pode ter. Mas existem determina-
Como vimos até aqui, entrar para o hall de professores que fi- das habilidades e, principalmente, a maneira como você
cam eternizados na memória dos alunos exige muito esforço e transforma essas habilidades em ação que são únicas.
20 dedicação. O tão almejado sucesso profissional vem atrelado a Descubra o horário do dia no qual você rende mais, a sua
4 uma mudança de postura que, muitas vezes, provoca questio- maneira preferida de trabalhar.
namentos internos e demanda um planejamento a longo prazo
de realizações profissionais e pessoais.
Objetivos claros: todo mundo quer chegar lá. Mas você Criatividade – Correndo o risco de decepcionar
já parou para analisar, friamente, onde é esse “lá”? Saiba
o que você quer, e o que é necessário para alcançar esse
3 algumas pessoas, criatividade não é a panacéia para
todos os males da vida profissional. Tampouco é a peça-
objetivo. É como ter um mapa e uma bússola. Sem eles, chave que impulsiona carreiras para frente. É, sim, mais
sua carreira fica à deriva. uma ferramenta que você deve desenvolver. Leia muito,
aprenda outra Língua, vá até a padaria por um caminho
Tempo é só o começo: os grandes professores sabem que diferente. Tudo isso ajuda.

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administrar o tempo é só o começo da estrada. É neces-
sário planejar sua carreira. Pense no que você gostaria
que constasse em seu currículo, o que é importante para a Abaixo a Síndrome de Garfield – Muitos profis-
empresa nos próximos seis meses. 4 sionais imitam, semana após semana, o gato laranja
dos quadrinhos: toca o despertador e a primeira coisa que
falam é “odeio segundas-feiras”. Se esta é sua atitude,
cuidado. Alguma coisa definitivamente está errada em seu
trabalho. Um professor de sucesso, antes de tudo, tem um
Curiosidade – Alguém curioso está sempre atrás
2 das respostas. Está sempre disposto a aprender e a se
aprimorar. O professor de sucesso sabe que a carreira per-
orgulho saudável de seu trabalho.

tence a ele. Então, não espere que cursos sejam ofereci- A instituição de ensino
dos. Busque livros, palestras, aperfeiçoamento. E falta de
dinheiro não é desculpa. Muitas dessas ações não reque- Nove entre dez escolas se definem como “uma grande família”.
rem que você invista um tostão. Você pode, por exemplo, A analogia não poderia ser mais correta. Em ambos os casos,
conversar com pessoas de outras empresas e setores da você é obrigado a conviver com a pessoa fofoqueira, com aque-
economia, todos têm algo a ensinar. Bibliotecas e sites le sujeito que só aparece duas vezes por ano e, mesmo assim,
também fornecem muito conteúdo. É só procurar. para pedir dinheiro, com aquele neto do patriarca que parece 21
poder tudo, entre outras pessoas. Em ambos os casos também
existem pessoas que se destacam. Que são um sucesso em suas
relações profissionais e familiares. Acompanhe:
Comece pelo começo – Em qualquer atividade, nada Network – A grande maioria das oportunidades de
5 é mais importante que a primeira impressão. Certo,
você já causou uma primeira impressão em seus colegas
6 ensino e parcerias não aparece nos jornais e na televi-

e chefes, e não tem uma segunda chance. Mas cada tarefa


que você desenvolve também causa uma primeira impres- são. Acontecem dentro de uma rede de conhecidos. Pessoas
são. Portanto, mostre iniciativa, dê o primeiro passo. Ouse que se conhecem e se ajudam mutuamente. Se você ainda
fazer, assumir as tarefas espinhosas da sua instituição. não desenvolveu sua rede de contatos, comece agora:
Algumas dicas:
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- Mostre-se. Ofereça-se para dar palestras, freqüente clubes


- Só assuma uma tarefa nova se estiver desempenhando suas e reuniões diversas com o objetivo de firmar seu nome
funções atuais bem. Isso aumenta a confiança da diretoria e como o de um especialista em determinada área.
dos colegas em você.
- Descubra quais áreas você não domina e precisa conhecer.
- Nada pelo social. Organizar a pelada do fim de semana, as Então, procure um especialista. Relacione-se com essa
vaquinhas dos aniversários ou o chá de bebê da sua chefe pessoa.
podem ser atividades divertidas, mas não trazem nenhuma
recompensa para sua carreira. Ao contrário, ocupam tempo -
e espaço de sua mente que poderiam ser dedicados a desen- Lembre-se de que uma rede é uma eterna troca: se você
volver algo que faça sua empresa ganhar dinheiro. quer que as pessoas ofereçam algo para você, ofereça algo
de valor antes.
Amplie sua visão – Os professores sem futuro so-
- O que importa para a escola. Vale tanto para grandes
instituições como para pequenas: elas, freqüentemente,
esquecem o motivo pelo qual abrem as portas todas as ma-
7 frem da visão de túnel. Vêem o mundo apenas por seu
ponto de vista, uma vez que a opinião de todas as outras
nhãs. A burocracia interna e o “status-quo” tornam-se mais pessoas está, por definição, errada.
importantes do que atender bem os alunos, desenvolver um
22
serviço de qualidade. Aprenda a distinguir o que é impor- Um educador de sucesso vê a situação com diversos olhos.
tante e o que leva a empresa para frente. Ele imagina o que colegas, alunos e pais acham e esperam
de uma ação. Assim, ele enxerga muito mais do que uma
solução. Treine essa habilidade ouvindo os outros atenta- Na verdade, somos seres emocionais. Aquele que toma as
mente. Descubra como pensam, o que é importante para decisões na escola usa números, impressões, palpites e, de
cada pessoa com a qual você lida. noite, pergunta para a esposa:

— Acho que o Darmo pode ser nosso novo coordenador, o


Faça seu emprego – Ao contrário do que parece, a que você acha?
8 maioria das funções se adapta ao redor das pessoas
que as ocupam, e não o contrário. Por mais estudado que — Bom, nas duas vezes que falei com ele por telefone ele

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seja um organograma, ninguém vai ocupar o seu quadra- me pareceu...
dinho da mesma maneira que seu antecessor e sucessor.
Sem entrar no mérito de melhor ou pior, cada professor é Então, use bem cada momento que você passa com a
diferente do outro. diretoria. Pergunte o que eles acham de sua performance, o
que você pode fazer para melhorar. Construa um relaciona-
Se você sabe quais são suas qualidades principais (já ouviu mento baseado na responsabilidade. Mostre que você pode
isso em algum lugar, não?) e sabe do que a escola precisa, aprender e mudar com a experiência e novos desafios.
faça uma proposta de novas atribuições e tarefas ao diretor-
geral e seus colegas. Essa é a maneira mais fácil (e praze-
rosa) de ser bem-sucedido.
PROFESSOR-VENDEDOR

Racional e emocional – Chegue cedo, trabalhe duro Ao escolher trilhar o caminho de um professor nota 10, você
9 e você vai ser promovido/receber um aumento. Isso
só aconteceria em um mundo totalmente cartesiano, onde
perceberá quantas técnicas e orientações estão disponíveis
para a realização de seu objetivo. Uma delas é espelhar-se na
máquinas tomassem decisões. Basta aplicar uma fórmula rotina e hábitos de outros profissionais e extrair dicas para
e prova-se matematicamente que o professor Darmo deve serem adaptadas para sua sala de aula.
ser promovido a coordenador e a Dona Suzana merece um 23
aumento de 13,57%. Comece a prestar atenção nas pessoas que você convive. Por
exemplo, você já parou para pensar como é o dia-a-dia de um
vendedor? Antes de comercializar seu produto ou serviço, ele
precisa ganhar a confiança do cliente. Precisa que o cliente Cuide também de sua aparência. Não é preciso vestir terninho
acredite em tudo o que vai ser dito dali para frente, que o veja ou gravata todos os dias, mas suas roupas devem estar limpas
como alguém que está ali para resolver seus problemas. Tudo e em ordem. Nada pior do que entrar em sala com um guarda-
isso em apenas alguns segundos. pó com botão faltando ou desfiando.

A partir daí, o bom vendedor lança mão de diversas técnicas Pode parecer que não, mas os alunos reparam nesses detalhes.
para ajudar o comprador a decidir pela melhor opção e fechar Imagine-se entrando em um banco cuja gerente usa um sapato
o negócio rapidamente. E ainda deixar a pessoa satisfeita o estragado e roupa amassada. Você não confiaria seu dinheiro a
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suficiente para poder voltar outra hora e vender de novo. esse pessoal, certo? Então, por que seus alunos iriam confiar o
futuro e a carreira deles a um professor em semelhante
Olhando bem, isso não é diferente de seu trabalho, professor. situação?
Você também tem poucos segundos para conseguir a empatia
dos alunos, tem algo a “vender” (a importância de sua disci- A imagem do professor deve refletir o que os alunos recebe-
plina/do estudo em geral), e deve deixar a turma motivada o rão no ano, a importância da matéria para eles. Se o educador
suficiente para que esperem a próxima aula com alegria. Veja não se preocupar com a maneira pela qual se apresenta em
o que você pode aprender com eles. sala de aula, os estudantes não se preocuparão em participar
da aula.
Venda sua imagem
Seja autêntico
Vendedores, assim como professores, têm poucos segundos
para se apresentar a seus clientes ou alunos. E, para compli- Todos os bons vendedores sabem que improvisar ou mentir
car, isso é feito sem palavras. É a maneira como se chega na a respeito de um produto/serviço é uma receita para o desas-
sala, como se olha nos olhos da pessoa, o sorriso, a postura tre. Ele pode até imaginar que fechou a venda aquele dia e o
relaxada e confiante. assunto está encerrado. Só que, no dia seguinte, o cliente vai
24 para o Procon, liga para a empresa reclamando e pedindo o
8 Procure ser natural e prestar atenção em seus alunos. Nesse dinheiro de volta e, pior, vai relatar o fato para todos os seus
momento, você aprenderá mais sobre sua aula do que se fizes- conhecidos.
se uma enquete entre os estudantes.
Assim, o vendedor perde a venda, perde o cliente e ganha Esse segundo vendedor colocou logo as cartas na mesa, disse
dezenas e dezenas de pessoas que não vão querer nem saber o que a cliente pode esperar dele e como irão trabalhar dali
o que ele vende. Uma das grandes lições dos vendedores: a para frente.
melhor propaganda é a boca a boca. A pior, também. Caso
um aluno tenha alguma reclamação legítima contra você ou Da mesma forma, você deve lecionar com as armas que
sua escola, pode ter certeza de que a informação vai circular domina, enquanto desenvolve as outras (existe sempre um
por seus parentes e amigos. São famílias inteiras que podem ponto em que precisamos melhorar, algo a mais que pode
começar a reclamar de você e de sua instituição de ensino. ser aprendido). Seja autêntico em sala de aula, seus alunos

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agradecerão.
Tão importante quanto ser autêntico com relação ao produto,
é o ser em relação a si mesmo. Um vendedor nunca pretende
ser o que não é. Ele utiliza as características pessoais que do- Conheça as pessoas
mina a cada situação, enquanto desenvolve as outras habilida-
des necessárias. Até porque não existe outra alternativa. Se há uma coisa que todos os bons vendedores sabem, é que
cada ser humano ferve a uma diferente temperatura. Em ou-
Um cliente, assim como um aluno, percebe quando o pro- tras palavras, não há duas pessoas iguais no mundo. Lógico,
fessor não está sendo totalmente honesto. Imagine-se na algumas características são comuns, permitindo que eles
frente de um vendedor que hesita, gagueja, solta um número separem os clientes em tipos, em grupos com características
qualquer que não se sabe ao certo se é real ou inventado, se similares. Mais ou menos da mesma forma que você sabe que
contradiz. Certamente, é alguém que não vai vender ou que pode esperar determinados comportamentos da turma do fun-
vai ser passado para trás nas negociações. dão e certas atitudes da garota que senta na primeira carteira.

Compare isso com o vendedor que diz algo como: “Olha, Contudo, esses grupos estão longe de serem homogêneos em
apesar de eu estar há apenas um mês na empresa, posso todas as suas características. Existem diferenças que o vende-
esclarecer qualquer dúvida que a senhora possa ter em relação dor sabe identificar e usar a seu favor. Alguns exemplos:
ao nosso produto e, se for preciso, podemos trabalhar juntos, 25
a senhora, meu supervisor e eu, para encontrarmos a melhor - Use o nome da pessoa com freqüência. Alguém já disse
solução para suas necessidades.” que o próprio nome é o som mais bonito de qualquer Lín-
gua. Os bons vendedores sabem disso, tanto que uma das
primeiras coisas que perguntam é o nome do cliente. Para as vantagens de realizar o negócio naquele momento. O
os professores isso é um pouco mais difícil, uma vez que professor também deve repetir para seus alunos as razões
em cada sala há por volta de 30 nomes a serem memoriza- que eles deram para querer aprender a matéria e os inte-
dos. Alguns educadores fazem seus alunos improvisarem resses de cada um. Utilizar os motivos de cada aluno para
espécies de crachás nas primeiras semanas de aula até que reforçar um ou outro ponto da aula faz com que o interesse
ele decore o nome de todos. É uma estratégia válida. pela matéria dispare.

-Primeiro, faça as perguntas. Um sapato não é só um sapato.


Nada de segredos
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É preciso saber em que oportunidade o cliente pretende


usá-lo, se é para uma ocasião especial, se é para o dia-a-
dia, com o que ele pretende usar, se vai ficar mais sentado Frente a um grupo de possíveis compradores, o vendedor
ou em pé, ou se vai caminhar muito com aquele calçado. está preparado para responder a qualquer pergunta. Além
Também é necessário saber que cor, estilo, marca o cliente da imagem de profissionalismo, ele precisa passar para seus
prefere. Só então o bom vendedor mostra o sapato, com clientes a idéia de que ele não tem nada a esconder, que não
segurança. Com as informações do cliente, ele sabe que vai há nenhum segredo ou “pegadinha” naquele produto.
mostrar o sapato certo e a venda está praticamente garan-
tida. Da mesma forma, seus alunos. O que eles preferem Se ele precisar falar sobre outros assuntos para ajudar na ven-
fazer em classe? O que cada um pretende fazer com a da de um produto, ele fala, sem problemas. E, sempre que for
informação que você está passando? Quais os valores que possível, vai citar uma estatística ou número. Nesse momento,
trazem de casa? Saber esses dados de cada um de seus alu- a informação deixa de ser apenas a opinião dele, vendedor, e
nos é garantia de uma boa aula. Você não precisa perguntar passa a ser algo científico, com grande credibilidade.
a todos, de uma só vez. Dilua a coleta de informações,
gaste semanas se for preciso; pergunte durante bate-papos Nessa proibição de segredos está embutida a preocupação
descompromissados entre seus alunos. Vai ser mais fácil com a ética. O bom vendedor nunca fala mal de seu concor-
conseguir respostas elaboradas e que reflitam melhor a rente. A razão é a mesma daquele conto de Nelson Rodrigues,
26 realidade. em que o sujeito não passa um dia sem alertar a noiva sobre
um conhecido de ambos, segundo ele, o mais perfeito cana-
- Utilize a própria informação que o cliente lhe dá a seu lha. E assim a futura esposa vai ouvindo as mais tenebrosas
favor. Isso significa repetir para ele, com todas as palavras, histórias... até que um dia termina o noivado e manda um bi-
lhete ao ex-noivo: você falou tanto naquele sujeito que eu me rá-lo de lá para cá, fazer testes. Só, então, comprar. O vende-
apaixonei por ele. O vendedor não fala mal da concorrência. dor de qualidade sabe que pode controlar o ritmo da negocia-
Geralmente, se o cliente traz o nome do competidor à baila, a ção até mesmo com o silêncio. Ele deixa o possível cliente se
resposta vem nos termos: “Sim, realmente, os produtos deles expressar, dizer o que está sentindo e como vê aquela compra.
são muito bons, mas nós somos superiores nos seguintes Algumas dicas:
pontos...”
- Faça perguntas que exijam uma resposta complexa. Por
Assim como o vendedor, o professor não deve fazer campa- exemplo “como você percebe esse momento da história”

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nhas “terroristas” contra este ou aquele educador ou institui- ou “onde você acha que essa equação pode ser aplicada”.
ção de ensino. Destaque a sua qualidade, as suas aulas, o que Evite perguntar “você entende” ou “você pode imaginar”,
a sua escola faz de melhor que ninguém mais faz. pois são perguntas que podem ser respondidas com sim ou
não. Deixe que seus estudantes se expressem e, de quebra,
E esteja pronto para sair do plano de aula sempre que os alu- ensinem uns aos outros.
nos o desejarem. Cada vez mais seus alunos recebem inúme-
ros dados, para os quais precisam de explicação. Dependendo - Não responda logo de cara. Após o aluno formular uma
da idade, não está muito claro o que é realidade e o que é questão ou uma resposta, permaneça alguns segundos em
ficção. Assim, o desenho japonês da moda pode ser conside- silêncio. Isso dará a ele a oportunidade de concluir seu
rado tão importante quanto a crise na segurança das grandes raciocínio, se assim o desejar. A seguir, repita a afirmação
cidades; fatos como guerras e flutuação de preços precisam dele para que toda a sala possa ouvir e você e seu aluno
ser embasados em coisas palpáveis, do universo do aluno, tenham a certeza de falar a mesma Língua.
para que ele possa medir e quantificar a informação.
- Use uma escala. Em vez de perguntar se os alunos enten-
deram a matéria, pergunte o quanto eles entenderam do
Dê espaço para seu cliente assunto em uma escala de zero a dez. Se eles responderem
qualquer nota menor que dez, emende: “Ótimo. O que falta
Já falamos que os bons vendedores primeiro escutam para para chegarmos a dez?” 27
depois falar. Só que eles continuam escutando e escutando
durante todo o processo. É necessário deixar espaço para os
clientes expressarem suas opiniões, pegarem no produto, revi-
Simplifique AJUDE SEUS ALUNOS A
Existe uma história famosa de vendas, ocorrida em uma em- ALCANÇAREM O SUCESSO
presa norte-americana de telefones que pretendia que as pes- Por Heloísa Lück
soas instalassem mais extensões em seus quartos (isso foi bem
antes dos celulares e telefones sem fio). Os gerentes então Você já ouviu falar ou leu algum trabalho dizendo que a
contrataram dezenas de vendedores e passaram uma semana maneira como pensamos sobre a realidade é fator de-
treinando-os. Eles foram expostos aos princípios da telefonia, terminante sobre o que nela acontece? Pois, falando-se
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de transmissão de dados, os milagres do impulso eletrônico, especificamente em educação, Benjamin Bloom, em seu
como funciona uma extensão, a ergonomia dos modelos dis- livro Características humanas e aprendizagem escolar,
poníveis e mais uma tonelada de aspectos técnicos. identificou que a ótica do professor é um dos principais
determinantes do sucesso do aluno na escola.
Aí, os vendedores foram à rua vender. No final do primeiro
dia, percebeu-se que um deles havia vendido muito mais do Todos sabem que bons resultados não acontecem por
que os outros. Disparado na frente, com uma baita comissão milagre ou por acaso, mas por força de uma ação orienta-
garantida. O gerente correu felicitá-lo, e perguntou como da por uma crença de que ela produzirá bons resultados.
conseguira isso. Ele estava mencionando a qualidade da É bom lembrar que essa crença não corresponde a um
reprodução de voz, os impulsos eletrônicos, a ergonomia da... desejo ou a uma vontade de que as coisas aconteçam sem
“Nada disso” – disse o vendedor – “eu só lembro ao pessoal o nosso esforço. Ela representa, sim, uma atitude mental
que o inverno está chegando e como é ruim levantar no meio que tem por base o entendimento de que somos capazes
da noite para atender ao telefone na sala. Aí, eles compram a de modificar as situações que nos rodeiam e nos afetam e
extensão rapidinho.” de que podemos fazer alguma coisa para alcançar nossos
ideais.
É isso, professor. Concentre-se no que os alunos consideram
mais conveniente, no que tem valor para eles. Existem vários Trazendo novamente a questão para a nossa ação profis-
28 sional como professores, responda: o que acontece quan-
fatores dentro de sua profissão dos quais você se orgulha, e
32 do julgamos natural que alguns alunos aprendam mais do
com razão, mas deixe-os de lado um pouco durante a aula. O
que importa é o que seus alunos desejam, e só. que os outros? Que muitos não gostam de estudar? Que
uns alunos são tão desinteressados que não têm condições Dessa forma, o professor conduz uns para o sucesso e
de aprender? outros para o fracasso. É difícil admitir isso, mas é uma
realidade, e admiti-lo é o ponto de partida para o desen-
Orientados por essa predisposição mental, nossa atuação volvimento de nosso sucesso profissional como professo-
ajusta-se a esse julgamento e, no final, é esse mesmo res.
resultado que obtemos, corroborando o nosso pensamen-
to: “Eu não disse? Esse aluno não tinha condições de Fazer um esforço por mudar o nosso enfoque, a nossa
aprender.” É essa atitude, aliás, que constitui um fenô- perspectiva é, portanto, a condição básica para que use-

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meno muito comum na escola, denominado de “profecia mos a avaliação da aprendizagem dos nossos alunos de
auto-realizadora”, isto é, a predição do futuro que traz em modo que esses tenham sucesso na escola, que aprendam
si mesma as condições de se realizar e que condiciona a o máximo o que a escola tem a lhes ensinar, para que
sua realização. realizemos o que Benjamin Bloom (1981, p. XI e XII)
identificou:
E, muitas vezes, não é isso que fazemos na escola? Quan-
do vamos ler trabalhos dos nossos alunos, afirmamos que “Todos os alunos tornam-se bastante semelhantes em
vamos “corrigi-los”, uma afirmação que indica uma busca relação à capacidade de aprender, ritmo de aprendizagem
de erros. Partimos de 10 e vamos tirando pontos. Não é à e motivação posterior, quando lhe são propiciadas condi-
toa que os alunos, em geral, e afinal, acabem aprendendo ções favoráveis de aprendizagem.”
tão pouco ou apenas o suficiente para passar.
“Todos os alunos aprendem com sucesso o que a escola
Os professores que refletem sobre sua prática se dão con- lhes deve ensinar, quando os professores acreditam que
ta de que, depois de ler um trabalho e dar-lhe uma nota, podem fazê-lo e criam as estimulações e orientações
ao verificar o nome do aluno, procuram ajustar essa nota adequadas para isso.”
à sua expectativa de rendimento do aluno, procurando
erros ou acertos para justificar um aumento ou rebaixa- “Quando o professor altera positivamente suas expecta- 29
mento da nota. tivas em relação ao desempenho de seus alunos, passa a
agir de forma mais favorável à estimulação de sua apren-
dizagem e o aluno passa a aprender mais e melhor.”
Precisamos nos dar conta de que nossas expectativas e
orientações estão contribuindo fortemente para a crista-
lização de que basta estudar o suficiente para passar, o
VOZ DO PROFESSOR
importante é tirar nota. Em vez de criarmos uma cultura Por Eny Regina B. Neves Pereira
em que o importante é aprender, aprender é a maior rique-
za da vida, aprendemos para conhecer o mundo e a nós A voz desempenha um papel fundamental durante o processo
mesmos no mundo. de comunicação. Para que o som produzido no aparelho fona-
dor seja de boa qualidade e emitido sem dificuldade ou des-
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Heloísa Lück - Doutora em Educação, consultora e promotora de conforto para o falante, é necessário que todas as estruturas
programas e cursos de capacitação profissional em Educação. envolvidas em sua produção funcionem de forma harmoniosa.
Diretora do CEDHAP – Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado
(fone: 3336 4242). A fonação ou voz é produzida pelo fluxo de ar passando entre
as pregas vocais, fazendo com que elas vibrem e seja ampli-
Referências Bibliográficas ficado pelas cavidades de ressonância. Quando estamos em
silêncio, as pregas vocais estão abertas para que possamos
BLOOM, Benjamin S. Características humanas e aprendizagem
respirar e, ao falarmos, elas se fecham, vibram e a voz é emi-
escolar: uma concepção revolucionária para o ensino. Porto Alegre:
Globo, 1981
tida. Vejam as figuras:

30
4
Muitos são os profissionais que usam a voz como instrumen- A voz grave (grossa) pode trazer um aspecto de professor
to de trabalho. O professor é um deles, que precisa da voz enérgico e autoritário. Já o educador que possui uma voz
para exercer sua profissão. O mau uso da voz se refere a falar aguda (fina) transmite ser uma pessoa submissa, dependente,
excessivamente, alto e rápido, gritar, usá-la muito aguda ou infantil ou frágil.
muito grave sem ter preparação adequada. O aparecimento
de rouquidão, cansaço vocal, ardume e/ou dor na garganta, Se você tem algum desses aspectos vocais procure:
pigarro e falta de ar são sinais de patologias que acometem a
laringe e podem estar relacionadas ao uso abusivo da voz em -Emitir frases curtas, com mais inflexões, isto é, mais

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condições desfavoráveis. melodia.
- Use de uma articulação bem definida, sem exageros.
Existem mecanismos básicos empregados para uma boa qua-
lidade vocal. Precisamos nos ater ao tipo de voz que estamos - Dê ênfase em determinadas palavras sem aumentar a
usando, pois ela identifica-se com a nossa personalidade, é o intensidade ou volume.
nosso “cartão de visita”. Uma voz com intensidade elevada - Abuse da ressonância, usando os sons nasais e
(falar alto), demonstra franqueza, energia, autoritarismo; o fa- orais demonstrando clareza na emissão.
lante com intensidade reduzida (falar baixo), parece ter pouca - Esteja, o máximo que conseguir, relaxado, sem tensão
experiência nas relações pessoais, timidez ou medo. Por isso, principalmente na região cervical.
há necessidade de um certo equilíbrio na intensidade vocal a - Faça uso da respiração diafragmática e não do ar
fim de trazer a sensação de convicção do que se quer passar
de reserva que prejudica as pregas vocais.
para o aluno e domínio da voz.

Uma voz com articulação precisa, sem exagero, transmite, O professor deve se lembrar da importância de fazer a higiene
clareza de idéias e pensamentos, favorecendo o processo de vocal, tendo alguns cuidados especiais do tipo:
comunicação na classe.
Alimentação: deve ser composta de alimentos leves, ver-
O ritmo ou velocidade de fala lenta sugere monotonia, cansaço duras e frutas, uma vez que esses ajudam na boa digestão, 31
e faz com que não haja interesse no que está sendo exposto. evitando refluxo gastroesofágico ou má digestão. Evite
Com velocidade acelerada, demonstra ansiedade ou nervosis- o uso de chocolates e leites no momento que antecede
mo, o que trará aos alunos uma conseqüência desfavorável. o uso profissional da voz porque aumentam a secreção.
Durante o período entre as aulas, recomenda-se o consu- ouvir. Esse fator rende ao professor um desgaste vocal
mo de maçã ou a ingestão de sucos cítricos, pois possuem muito maior.
propriedades adstringentes, o que auxilia na limpeza da
boca e faringe, no excesso da secreção, obtendo, assim, Gripes e alergias: durante gripes fortes e crises alérgicas, é
uma melhor qualidade vocal. freqüente o aparecimento de quadros de rouquidão. Isso
ocorre porque há um inchaço das mucosas que revestem o
Alimentar-se de refeições pesadas acaba atrapalhando a trato respiratório. Vocalizar excessivamente sobre o tecido
boa performance do professor, uma vez que isto impede a inchado pode ser extremamente prejudicial, causando
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movimentação livre do diafragma, dificultando a fonação. danos irreversíveis à mucosa que reveste as pregas vocais.
Atividades em grupo, provas de aproveitamento ou ativi-
Bebidas gaseificadas e geladas: o gás interfere na diges- dades individuais que não exijam tanto do professor o uso
tão e prejudica o apoio diafragmático, ou seja, evite usar da voz tornam-se necessárias nessas situações.
antes das aulas, pois ele favorece a flatulência (gástrica
ou intestinal), prejudicando o controle da voz. E o consu- Os indivíduos alérgicos e que usam a voz profissionalmen-
mo de líquido gelado pode causar danos vocais devido à te devem seguir as orientações médicas. Evitar contato
mudança de temperatura ao deglutir. com substâncias alergênicas também é recomendado a fim
de reduzir ou espaçar o aparecimento das crises.
Ambientes refrigerados: algumas pessoas são muito
sensíveis ao ar-condicionado, isso porque o resfriamento Pigarrear: o ato de pigarrear constitui outra forma de
do ar realizado através da retirada da umidade do meio abuso vocal. A prática constante desse procedimento pro-
ambiente resseca também a mucosa do trato vocal. A duz um choque mecânico entre as pregas vocais causando
movimentação da mucosa durante o ciclo vibratório de- um aumento na produção de muco como mecanismo de
pende diretamente de uma boa lubrificação, comprometida defesa, o que se torna um ciclo e um hábito.
devido ao uso do ar-condicionado.
Cigarro: a fumaça age nas pregas vocais, essa reação é
32 Competição sonora ou grito: a competição sonora, o manifestada por uma descarga intensa de muco, gerando
66 “barulho dos alunos”, é uma situação bastante comum. parada na movimentação ciliar do tecido que envolve as
Quando se está em um local barulhento, há uma tendência pregas, fazendo surgir um depósito de secreção e pro-
natural dos educadores elevarem a voz para se fazerem vocando o pigarro. A toxina deposita-se diretamente nas
pregas vocais, as quais funcionam como verdadeiros Todas as manhãs ou no período que antecede o uso profissio-
aparadores de impurezas, favorecendo as diversas lesões, nal da voz, deve-se fazer os seguintes exercícios:
como edemas, pólipos, nódulos e câncer.
Exercícios de respiração profunda
Álcool: essa substância é responsável pela anestesia das
pregas vocais. O professor que usar essa droga e logo (alternando nariz e boca).
depois for dar uma aula vai estar causando uma grande Alongamento da coluna.
lesão no aparelho fonador. O mesmo acontece com o uso Alongamento de pescoço e ombros.

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indiscriminado de sprays, pastilhas, balas, etc. Se for uti- Alongamento dos músculos da face.
lizá-los, deve-se fazer quando for dormir para não causar
danos às pregas vocais. Exercício de vibração de ponta de língua e lábios. É bem
simples e consiste apenas em imitar o barulho do telefo-
Hidratação: é indicada para a prevenção e tratamento dos ne (“trrrrrrrrriiimmmm”).
distúrbios da voz por permitir que a vibração das pregas Exercício de ressonância – mastigando o som do “m”.
vocais ocorra de modo livre e com o atrito reduzido. Imagine que você está mastigando algo e ao mesmo
tempo emita um som de “Hummmmmm”.
Orientações:
Quando estiver no final de sua jornada de trabalho, prefira
falar baixo, não sussurrando, e devagar. Fique em silêncio, se Desaquecimento vocal
possível, por um tempo.
O desaquecimento vocal favorece o retorno ao ajuste fonoar-
Durma bem e descanse o seu corpo. ticulatório da voz coloquial. Você deve estar se perguntando
o que significa isso. É o seguinte, quando o professor está
Aquecimento vocal dando aula, ele imposta mais sua voz para ser ouvido pelos
seus alunos. O desaquecimento ajuda a acalmar sua voz e
fazer com que ela volte a seu estado “normal”. 33
As pregas vocais são músculos, por isso há necessidade de
aquecê-las. Esse detalhe evita sobrecarga, o uso inadequado
Após o uso profissional da voz, recomenda-se fazer os seguin-
da voz ou um caso de fadiga.
tes exercícios:
-Ficar em silêncio total por 5 minutos para que ocorra o
repouso. EM BUSCA DE UMA VOZ PERFEITA
- Exercício de vibração de ponta de língua em escala A voz revela muito sobre seu estado de espírito. A entonação,
descendente (procurando sempre a região grave) – imite o o volume e a intensidade do discurso não transmitem apenas
barulho do telefone, mas dessa vez com a voz mais grossa. o conteúdo, mas também suas emoções. Assim como os olhos
são a janela da alma, a voz é o espelho da sua personalidade.
- Massagem na laringe:
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Movimentos de deslocação lateral. Com o dedo indi- Para se alcançar uma boa voz, certos pontos precisam ser
cador e o dedão massageie, delicadamente, os anéis do trabalhados. A respiração é um deles. É ela quem ajuda a
pescoço, de um lado para o outro. equilibrar a ressonância produzida durante o processo de
formação das palavras.
Movimentos circulares. Esse exercício é muito parecido
com o anterior. Só que em vez de fazer movimentos de
A altura da voz também precisa ser controlada. O volume
uma lado para o outro nos anéis do pescoço, você deve
da fala, se não for adequado, agride a garganta (no caso do
massageá-los com movimentos circulares.
professor falar muito alto ou irritar seus alunos se ele explicar
Movimentos descendentes. Desça em linha reta massa- a matéria quase sussurrando).
geando os anéis do pescoço.
A intensidade da voz é outro detalhe importante. Ela não pode
Aproveite todas essas dicas e orientações para cuidar melhor de ser nem muito grave e nem muito fina. Se o educador abusar
um de seu bens mais preciosos, sua voz. Se você estiver apre- da fala grave pode parecer autoritário e fechado a novas idéias
sentando quadros de rouquidão com freqüência e há mais de 10 e opiniões. Uma vocalização mais fina transmite a sensação de
dias, sem causa evidente, procure um médico otorrinolaringolo- pessoa infantil, insegura e que não está certa de sua ações ou
gista ou um fonoaudiólogo para uma avaliação vocal. palavras.

34 *Professora Ms. Eny Regina Bóia Neves Pereira – Fonoaudióloga, Além desses fatores, temos ainda a articulação das palavras.
8 mestre na área de Pediatria pela Faculdade de Medicina da UNESP de Ela consiste na maneira como se mexe a boca durante a fala.
Botucatu/ SP, doutoranda na área de Bases da Cirurgia, em Voz Profis- Se feita de maneira correta, resulta em um discurso claro e
sional, pela Faculdade de Medicina da UNESP de Botucatu/ SP e docente
sem ruídos. Pessoas que não abrem muito a boca para pro-
da Universidade do Sagrado Coração – Bauru/SP.
nunciar as palavras indicam ser tímidas, acanhadas. Já quem outros detalhes de sua personalidade. Leia e faça uma auto-
articula exageradamente passa a sensação de falsidade e análise, assim você poderá ajustar certos detalhes de sua fala
exibicionismo. e potencializar sua qualidades.

Assim, para que sua voz seja agradável é preciso que você • Voz fina e fraca – Revela uma pessoa submissa e
tenha sempre em mente o bom senso – uma articulação, inten- dependente.
sidade e volume de voz equilibrados.
• Voz forte e grave – Mostra um indivíduo enérgico
e autoritário.

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Tipos de voz • Voz arrastada e fraca – Demonstra que a pessoa
está triste, melancólica.
A voz é como um impressão digital. Cada pessoa vocaliza as • Voz aguda e forte – Transmite alegria, ânimo e
palavras de maneira única e não existe outro indivíduo capaz desinibição.
de imitá-la fielmente. Segundo pesquisas, existem mais de
• Voz alta e grave – Indica uma pessoa franca, cheia
120 tipos de vozes. Elas podem ser aveludadas, melodiosas
de energia e que fala o que pensa.
ou oscilantes. Acompanhe mais alguns exemplos e a sensação
que elas provocam em seus ouvintes: • Voz baixa e oscilante – Pode significar uma pes-
soa tímida e receosa.
• Voz rouca – Pode transmitir cansaço, esgotamento, estres- • Voz alta e rápida – Passa a sensação de indivíduos
se, fadiga ou seriedade. tensos, atrapalhados, ansiosos e confusos.
• Voz trêmula – Significa medo, fragilidade e indecisão.
Identificar e trabalhar para amenizar os pontos fracos de sua
• Voz monótona – Indica pessoa cansativa, desinteressante voz é uma das tarefas que você, professor, deve executar em
e repetitiva. busca da aula perfeita. Conhecendo e controlando sua ento-
• Voz infantilizada – Demonstra uma pessoa ingênua, sem nação e vocalização será possível adequar seu discurso e usar
maturidade e insegura. sua voz da melhor forma possível para dar ênfase aos princi- 35
pais pontos do conteúdo.
Além de sua voz, que por si só transmite diversas emoções,
a combinação de intensidade e volume diferenciados revela
Exercícios de relaxamento Articulação das consoantes
Existem diversas práticas que contribuem para o desenvolvi- Para a sonorização de certos fonemas, alguns órgãos de nosso
mento da fala e a melhora na impostação da voz. Pratique-os corpo entram em ação e outros são deixados de lado. Ter a
regularmente e você e seus alunos notarão a diferença. percepção de como esse processo funciona contribui para a
sonorização correta das palavras. Conheça algumas articula-
-Ao acordar, não pule rápido da cama e sai correndo para
ções e o esquema de pronúncia das consoantes.
sua aula. Levante devagar, se espreguice e boceje 10 ve-
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zes. Esses movimentos ajudam a dispersar o muco que foi


acumulado na garganta durante o sono. Articulação bilabial – As partes do corpo envolvidas duran-
te a sonorização são os lábios. Preste atenção em como a
-Faça um alongamento corporal ao chegar em casa depois pronúncia das consoantes P/B/M ocorre entre eles.
de suas aulas.
Articulação linguodental – Exige que os lábios fiquem
entreabertos e a língua tocando os dentes. As consoantes
pronunciadas dessa forma são o T, D e N.
PRONÚNCIA E ARTICULAÇÃO
Articulação labiodental – A pronúncia ocorre com os den-
Um discurso claro e inteligível exige que a pronúncia e a ar- tes superiores, tocando o lábio inferior. As consoantes que
ticulação das palavras sejam perfeitas. Qualquer distúrbio ou respeitam essa sonorização são F e o V.
deslize durante a fala de certas sílabas distorce o significado
e prejudica o entendimento da mensagem. O professor, como Exercícios de articulação
está sendo avaliado 24 horas por seus alunos, colegas de pro-
fissão e superiores, precisa mais do que ninguém de uma fala Articular corretamente as palavras requer o esforço de vários
e uma articulação impecáveis. Como você conseguirá ser um órgãos do corpo, entre eles os lábios, a mandíbula e a língua.
professor nota 10 falando empolado ou comendo as palavras? Para fortalecer o tonos muscular dessas partes especificamen-
Como seus alunos entenderão a matéria, se não compreen- te, segue uma série de exercícios que devem ser praticados
36
40 dem o que você fala? Observe com atenção a articulação das regularmente. Se você sentir algum desconforto durante a prá-
consoantes e melhore seu discurso. tica dos movimentos, interrompa imediatamente os exercícios
e procure um médico.
Lábios Articulação das palavras
1. Conte, lentamente, de um a cem fazendo movimentos
Além dos exercícios que ajudam na articulação das palavras,
exagerados com a boca, com bicos e sorrisos forçados
podemos usar brincadeiras como os trava-línguas para alcan-
durante a sonorização dos números.
çar nosso objetivo. Escolhemos algumas dessas pegadinhas
2. Com a boca fechada e os lábios unidos, movimente-os para você ir treinando. Tente falar rápido e procure não errar.
de um lado para o outro, lentamente, 10 vezes. Caso isso aconteça, comece de novo o texto.

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Língua
1. Paga o pato, dorme o gato,
Foge o rato, paga o gato,
1. Coloque a língua para fora vagarosamente e em seguida Dorme o rato, foge o pato,
recolha-a rapidamente para dentro da boca. Depois de
Paga o rato, dorme o pato,
fazer esse movimento 10 vezes, inverta. Coloque a língua
para fora rapidamente e a recolha lentamente. Foge o gato.
2. Abra a boca e bote a língua para fora. Faça movimentos
circulares cerca de 10 vezes. 2. É crocogrilo? É cocodrilo?
É cocrodilo? É cocodilho?
3. Repita o exercício anterior, só que com a língua dentro
da boca. É corcodilho? É crocrodilo?
É cocordilo? É jacaré?
Será que ninguém acerta
Palato
O nome do crocodilo mané?
1. Boceje diversas vezes com a boca bem aberta e depois
repita o mesmo movimento com a boca fechada.
2. Emita durante um minuto o famoso “ahhhhhhhhh”
3.Num ninho de mafagafos tinham três mafagafinhos. 37
Quem os desamafagafizar,
(tão usado na meditação). Não use o ar reserva durante a bom desamafagafizador será.
sonorização.
EXPRESSÃO CORPORAL
COMUNICANDO COM O CORPO
Todo o nosso corpo fala. A posição dos pés e das pernas, o e só depois pronunciamos as palavras. Por isso, o gesto vem
movimento do tronco, dos braços, das mãos e dos dedos, a antes da palavra ou junto com ela, e não depois. Recomen-
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postura dos ombros, o balanço da cabeça, cada gesto possui damos, sempre, não falar com as mãos nos bolsos, com os
um significado próprio que encerra em si uma mensagem. braços atrás das costas, cruzados ou apoiados, entre outros.

Pesquisas apontam que a linguagem corporal é responsável Você também deve adaptar seus gestos de acordo com o
por cerca de 55% do processo de comunicação interpessoal. número de estudantes que a turma comporta. Classes grandes
Esses recados que você transmite com o corpo, mesmo sem exigem movimentos mais enfáticos, “exagerados”, para que
querer, são outros pontos que devem ser pensados e trabalha- todos possam vê-lo. Mas tenha bom senso. Já turmas menores
dos de maneira correta. não precisam desses movimentos tão amplos.

As mensagens sublimares afetam seus alunos tanto quanto as A posição das pernas: as pernas têm um significado especial
palavras e seus gestos mostram se você está ou não prepara- para a estética da postura. Você irá se sentir melhor se manti-
do ou com vontade de dar aquela aula. Para esses casos, não ver uma atitude correta, plantado sobre as duas pernas, dando
há recursos visuais que façam qualquer momento tornar-se um bom equilíbrio ao corpo. Procure também deixá-las cerca
agradável. Sem a motivação necessária, você desperdiçará de 20 centímetros afastadas uma da outra e lembre-se de que
seu tempo, o tempo dos estudantes e fará da aula um teatro, ao ficar parado não é recomendável fazer movimentos com as
no qual o professor interpreta um personagem sem emoção e pernas. Esse gesto dará a impressão que você está impaciente
sem conteúdo. e inseguro. Evite também:
38
42 - Procurar um ponto de apoio para se encostar. Ao fazer isso,
A naturalidade do gesto: a gesticulação obedece a um pro- naturalmente, você deixará uma das pernas arqueadas para
cesso natural. Pensamos na mensagem ao mesmo tempo que trás.
informamos ao corpo o movimento a ser executado. Ele reage
- Jogar o peso do seu corpo em cima de uma perna só. você simplesmente se encosta e cruza os braços. Situação
desagradável, não?
- Balançar os pés ou ficar freneticamente batendo-os no
chão. Além de fazer barulho, você estará distraindo os
A posição das mãos: se você for uma pessoa agitada, que
alunos e chamando a atenção para os seus movimentos.
gesticula bastante com as mãos durante uma conversa, não
tente mudar esse jeito dentro da sala de aula. Seja natural.
A posição dos braços: ao andar no meio da sala, seus braços
devem balançar naturalmente. Se você estiver explicando a
Caso você use bastante as mãos, procure empregá-las para
matéria, levante-os acima da linha da cintura e mantenha suas

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ressaltar os pontos mais importantes da matéria. Você pode
mãos semi-abertas. Sincronize seus movimentos de acordo
criar um gesto específico que avise seus alunos sobre a abor-
com a ênfase que você deseja dar a certos pontos. Evite os
dagem de um tema importante.
seguintes gestos durante suas aulas:
- Colocar seus braços para trás. Transmite a impressão de Outra dica é procurar manter as mãos entre a cintura e os
que você está supervisionando seus alunos. Se você adotar ombros. Gestos com as mãos muito próximas ao rosto são
essa postura, parecerá mais inspetor do que professor. um perigo, pois além de você correr o risco de se bater, esses
- Ao deixar as mãos sobre a barriga, suas explicações serão movimentos distraem os alunos.
encaradas mais como sermões religiosos.
- Mãos na cintura lembram técnicos de futebol ou sargentos. Como vimos, as mãos podem se tornar mais um recurso para
Com certeza, você não quer parecer com nenhuma dessas chamar a atenção dos estudantes. Acompanhe algumas orien-
figuras. tações de como usá-las durante suas aulas.
- Deixar as mãos dentro dos bolsos remete à displicência, - Ao deixar sua mão aberta com a palma voltada para cima,
falta de vontade. Você passará a sensação de que não está você transmite receptividade, doação.
nem aí para a aula ou para os alunos. -O gesto contrário, deixando as palmas voltadas para baixo,
- Braços cruzados transmitem a mensagem de uma pessoa significa repulsa e rejeição.
na defensiva, que está fechada para comunicação. Esse - Se você quiser acalmar sua turma e pedir silêncio e coope- 39
simples gesto revela se seu interlocutor está disposto a ração, mantenha a mão aberta, com a palma voltada para
escutar o que você tem a dizer. Imagine se você solicita a baixo e faça movimentos subindo e descendo.
opinião de um aluno e, na hora em que ele vai responder, - Ao deixar as mãos abertas, estendidas para frente e com as
palmas voltadas para cima, mostra que você está solicitan- tra que você pode estar refletindo sobre um assunto ou tendo
do a colaboração dos alunos. alguma idéia.
- Se você ficar girando uma mão sobre a outra, na frente do
corpo, você estará transmitindo a mensagem de que está b) Sorria – Um ato simples que pode fazer toda a diferença,
enroscado em algum conceito ou tema. se vier acompanhado de um animado “Bom dia” ou “Boa tar-
de”. Nada mais acolhedor e estimulante para seus estudantes
A posição da cabeça: ela deve guardar equilíbrio com o que ter um professor motivado e que entra na sala com um
restante do corpo. Quando inclinada constantemente para um sorriso sincero no rosto. Esse gesto cria um ambiente favorá-
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dos lados, excessivamente alta ou baixa, quebra a elegância vel e agradável para o início de sua aula.
da postura.
c) Olhos – “Os olhos são a janela da alma”, quem nunca
A comunicação do semblante: o semblante talvez seja a ouviu essa frase? Assim como os demais membros de nosso
parte mais expressiva de todo o corpo. O queixo, a boca, as corpo transmitem mensagens subliminares, os olhos tam-
faces, o nariz, os olhos, a sobrancelha e a testa trabalham bém possuem esse incrível dom de revelar os sentimentos
isoladamente, ou em conjunto, para demonstrar idéias e da pessoa. Por meio deles, podemos saber se os alunos estão
sentimentos transmitidos pelas palavras ou mesmo sem a atentos ao conteúdo ou se já dispersaram a atenção.
existência delas.
O olhar serve como um termômetro, dando um retorno
O conhecimento de todo o jogo fisionômico, a certeza de estar imediato sobre o que suas palavras causam nos estudantes.
demonstrando no semblante exatamente o que deseja, dá a Assim, quando você desejar medir esse “nível de interesse”,
quem fala confiança e convicção ao se apresentar. Confira preste atenção se os alunos estão com os olhos vivos, abertos
outros detalhes que fazem toda diferença na comunicação e iluminados. Caso contrário, comece a pensar em mudar sua
não-verbal: estratégia de apresentação.

a) Boca – O movimento que fazemos com os lábios também Use algum elemento surpresa para chamar a atenção ao con-
40
revela nossas emoções. Quando eles empurram levemente o teúdo. Por isso, é importante que você assuma uma posição
4
superior, podem expressar mágoa ou frustração. Ao deixar a na sala que permita a visualização de todos os estudantes,
boca semi-aberta, você pode transmitir a seus alunos ansieda- para acompanhar as reações deles.
de, expectativa, apreensão. Morder o canto da boca demons-
Comunicação não-verbal dentro da rão a relaxar, e sempre que você for para o local da intera-
sala de aula ção já começarão a imaginar algumas questões.

Espaço, a fronteira inicial. Para alguns professores, a sala de Caso você tenha pouco espaço disponível em sua sala de
aula limita-se a 2 metros à frente do quadro-negro. A partir aula, substitua esses “cantos” por gestos, como abrir os
daí, é território dos alunos, conforme afirma um Tratado de braços de certa maneira seguido de um “Bom. Perguntas?”.
Tordesilhas imaginário auto-aplicado. Com o passar do tempo, você não precisará falar mais

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nada, basta o gesto.
Outros, circulam pela sala, encostam-se na parede do fundo e
de lá dão suas aulas. Os alunos têm duas opções: ou permane- De vez em quando, mude a disposição das carteiras ou
cem voltados para o quadro-negro, só ouvindo o que o educa- dos alunos. O simples fato de sentar em outro lugar já
dor tem a dizer, ou torcem-se para visualizar o professor. muda toda a perspectiva do aluno em sua aula. Ele passa
a prestar atenção a novas coisas, vê a matéria de maneira
E há ainda aqueles que caminham entre as fileiras de alunos diferente. Isso também ajuda sua turma a se conhecer me-
como um militar em revista à tropa. lhor, ajudando a acabar com as panelinhas.

Todos esses são estilos que podem ser melhorados, conforme Circule pela sala de aula, com movimentos calmos e
a situação. Algumas dicas: tranqüilos. Cuidado para não ficar muito tempo parado ao
lado de um mesmo aluno. Geralmente, como os intervalos
Crie âncoras visuais para seus alunos. Desde o primeiro dia entre as filas de carteiras são apertados, sua proximidade
de aula, defina determinado canto da sala para assuntos física pode incomodar. Assim, ande entre duas fileiras um
leves e piadas, outro para falar sobre a matéria, um para dia, entre outras duas em outra ocasião, e assim por diante.
interação direta com os alunos.
Pense na sala como um todo. Você dá aula tanto para
Você não precisa dizer nada para eles, apenas se movimen- o pessoal da primeira fila como para a turma do fundão. 41
tar para aquele ponto da sala de aula toda vez que desejar Faça contato visual com alunos que sentam em locais
tomar uma ação específica. Assim, sempre que os alunos o diferentes. Na hora de mostrar algo, faça-o tanto à altura
virem caminhando para a posição descontraída já começa- de sua cabeça, para que o pessoal de trás veja, como um
pouco abaixo da altura de seu peito, para o pessoal das pode causar desde dores até invalidez após alguns anos.
três primeiras carteiras. Então, a primeira regra é não se permitir ficar muito tempo
em uma mesma posição. Se estiver mais de uma hora sentado,
levante-se. Se estiver há mais de uma hora parado, em pé,
Erros a serem evitados ande um pouco. Acompanhe outras dicas.
Eis aqui algumas posturas que devem ser evitadas durante
suas aulas: .Quando estiver sentado, procure não ficar com os ombros
. Ficar parado em um ponto, apoiando-se de lado. A men- caídos. O encosto reto da cadeira ajuda a manter a coluna
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sagem oculta que esse professor passa é “estou chateado ereta, evitando dores nas costas.
e preferia estar em outro lugar”. Solução: quando estiver . Nunca suba escadas com a coluna inclinada para a frente.
parado, mantenha seu peso uniformemente equilibrado e Suba com a coluna ereta e o pé completamente apoiado no
os quadris nivelados. chão.
. Encostado em uma estante ou parede. A mensagem é “es- . Para erguer qualquer objeto do chão, o correto é flexionar
tou cansado demais para ficar em pé” ou “não quero nem os joelhos e manter a coluna ereta (o peso deve ficar o
me incomodar em dar essa aula”. Solução: evite apoiar-se mais próximo possível do tronco).
ou o faça por períodos muito curtos. . Não durma de bruços. Prefira dormir de lado ou de barriga
. Sentado à mesa onde estão suas anotações. O que tal edu- para cima.
cador diz é: “Não preciso fazer nenhum esforço aqui, pois . Não carregue, em nenhuma hipótese, peso na cabeça. O
sou mais importante do que vocês.” Solução: a não ser ideal é dividir o peso proporcionalmente para os dois
em determinados momentos (como chamada e correção lados do corpo.
de provas), fique em pé. . Preste bastante atenção às condições do piso antes de
carregar qualquer peso para evitar tropeções, escorregões
Saúde também conta e torções.
42
6 Além da postura que o ajuda a ensinar, existe aquela que evita Para evitar esses e demais problemas que podem afetar seu
problemas no futuro. Seu corpo pode começar a reclamar desempenho, fique atento à sua postura e a seus movimentos
mais cedo do que imagina. Má-postura ao sentar ou caminhar diários. Às vezes, pequenas correções fazem uma grande
diferença em sua qualidade de vida, o que reflete diretamente 2° passo: em pé, flexione e estenda (de forma moderada) os
em seu desempenho em sala de aula. joelhos. É como se você estivesse dando pequenos chutes
no ar. Isso irá aquecer e lubrificar a articulação do joelho.
Trabalhe para que nenhum desses inconvenientes atrapalhem
seu objetivo de ser um professor nota 10. Existem exercícios 3° passo: ainda em pé, coloque as mãos na cintura e realize
simples que podem corrigir sua postura, aquecer seu corpo movimentos circulares. Imagine que você está brincando
para as aulas e ainda ajudá-lo a relaxar depois de um dia can- com um bambolê. Faça esse exercício cerca de 10 vezes
sativo de trabalho. Siga atentamente as orientações abaixo e sendo 5 vezes no sentido horário e 5 vezes no sentido anti-

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prepare-se fisicamente para se tornar um show de professor. horário.

4° passo: com os joelhos semiflexionados, gire o seu troco


HORA DO EXERCÍCIO, PESSOAL! transversalmente 6 vezes. Esse movimento consiste em
girar seu corpo para esquerda e depois para direita, de modo
Aquecimento para iniciar as aulas que você enxergue o que tem por trás de suas costas. Para
alinhar a coluna e seus ombros, você pode realizar esse
É uma forma de começar as aulas com as articulações mais exercício segurando o cabo de uma vassoura.
soltas e adequadamente lubrificadas, evitando aqueles
estalos desagradáveis. Lembre-se de que uma boa base para 5° passo: flexione levemente o joelho, estenda um dos bra-
qualquer movimento consiste em manter os joelhos semifle- ços próximo a cabeça e coloque o outro na cintura. Desça o
xionados e o abdômen contraído. tronco lateralmente, com o braço esticado 5 vezes para
direita e outras 5 para a esquerda.
Aquecimento dos membros inferiores:
Aquecimento dos membros superiores:
1° passo: sentado em uma cadeira confortável, realize
movimentos circulares com os pés, aquecendo a articulação 6° passo: com os braços relaxados, gire-os para frente 5
43
do tornozelo. Faça esse exercício cerca de 10 vezes, sendo 5 vezes e para trás outras 5 vezes.
movimentos no sentido horário e 5 no sentido anti-horário.
7° passo: faça o mesmo com os ombros. 1° passo: escolha um lugar bem tranqüilo da sua casa,
não muito iluminado e pouco barulhento.
8° passo: flexione e estenda sucessivamente os cotovelos.
Repita essa prática cerca de 10 vezes. 2° passo: sente no chão, cruze as pernas (posição de
índio), feche os olhos, mantenha a coluna reta e respire
9° passo: realize movimentos circulares com os punhos. 5 profundamente 3 vezes.
vezes no sentido horário e 5 vezes no sentido anti-horário.
3° passo: flexione uma das pernas e estenda a outra.
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10° passo: abra e feche as mãos de forma sucessiva, faça-o Desça devagar com o tronco (o quanto puder) até tocar
10 vezes. Em seguida “sacuda-as” soltando bem as articula- o pé da perna estendida. Fique nessa posição de 20 a 30
ções dos punhos e dedos. segundos. Repita o mesmo com a outra perna.

11° passo: realize movimentos circulares (de forma suave) 4° passo: deite no chão, flexione e abrace suas pernas,
com o pescoço – 5 vezes no sentido horário e 5 vezes no deixando a região lombar relaxada e encostada no chão.
sentido anti-horário. Segure nesta posição cerca de 30 segundos.

Seguindo esses passos, você terá mais disposição para 5° passo: ainda deitado e com as pernas flexionadas, gire
entrar em sala de aula e realizar seus movimentos de forma o tronco lateralmente de forma que os joelhos encostem
mais ampla e motivada. no chão, e volte sua cabeça para o lado oposto. Permaneça
nesta posição cerca de 30 segundos. Repita o movimento
trocando o lado.
Alongamento para relaxamento
após as aulas 6° passo: fique em pé com os joelhos levemente flexio-
nados, flexione o tronco para frente deixando os braços
44 Para facilitar o trabalho do alongamento, e não esquecer relaxados e próximo aos pés. Fique nesta posição cerca de
8 nenhum grupo muscular, é interessante começá-lo dos pés 15 segundos. Em seguida, suba seu tronco bem devagar,
para a cabeça ou vice-versa. de modo que sinta a sua coluna “desenrolar”.
7° passo: em pé e com os joelhos semiflexionados, entre-
lace os seus dedos e “empurre-os” para frente (na altura
dos ombros). Flexione seu pescoço para frente, deixando
suas costas bem “arredondadas”. Mantenha essa posição
entre 15 e 20 segundos.

8° passo: faça o mesmo movimento, agora com os braços


para trás, de modo que seu peitoral fique bem aberto.

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9° passo: com os dedos ainda entrelaçados, estique os bra-
ços para cima da cabeça. Você sentirá o seu tronco sendo
alongado.

10° passo: posicione seu braço esquerdo para trás do


tronco. Enquanto isso, a mão direita exerce uma pequena
tração na cabeça, de forma que o pescoço flexione late-
ralmente para a direita. Segure nesta posição aproxima-
damente 20 segundos. Faça o mesmo com o outro lado e
para frente.

Observações: realize os movimentos dentro do seu limite


e de forma lenta! Não abuse da sua musculatura. Às vezes,
em um movimento rápido, você pode se machucar.

45
PREPARAÇÃO
DIDÁTICA
nas, onde os professores perceberam alguns fatos: primeiro,
ADAPTAÇÃO E PROGRESSO: os jovens estão loucos para criar uma empresa na Internet. Se-
NÃO FIQUE FORA DESSA gundo, essas empresas, geralmente, rendem uma fortuna, nem
que seja somente na Bolsa de Valores. Terceiro, esses jovens
O mundo globalizado e o avanço da tecnologia vem trazendo (seus alunos) têm muitas idéias, mas – via de regra – pouco
para a sala de aula um elemento novo a ser descoberto, deci- dinheiro; e, como são alunos, confiam no professor e levam a
frado e atendido: o seu aluno. ele várias dúvidas. Somando tudo isso, cria-se um novo tipo
de professor, que leciona para seus alunos durante um período

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As mudanças que os tempos modernos nos impõem refletem e no outro trabalha nas empresas deles, esperando fazer di-
diretamente na formação da personalidade e, principalmente, nheiro, tanto com as ações da companhia como com o salário.
na forma como seus estudantes interagem com você e com Essa posição dupla levanta tantas dúvidas éticas que algumas
sua disciplina. universidades, como a Harvard, por exemplo, já proibiram
seus professores de trabalharem com/para seus alunos.
Se até valores sólidos e princípios morais que perduraram
décadas estão caindo por terra, imagine como os estudan- São desafios que surgem no dia-a-dia e para os quais você
tes atuais encaram a “velha sala de aula” e suas antiquadas precisa estar preparado, pois a qualquer momento uma
regras. Para essa turminha, o modo de absorver conhecimento situação inusitada pode acontecer e um professor nota 10
vai muito além do quadro-negro e dos slides narrados. Existe deve saber como lidar com esses imprevistos, principalmen-
uma necessidade imensa de interatividade, e quando essa “rei- te, quando essas emergências envolvem um comportamento
vindicação oculta” não é atendida, eles simplesmente mudam diferenciado dos estudantes.
de canal e concentram suas atenções em outras coisas, como
conversas paralelas.
Esse tal de bicho-gente
Todos sabem que já não há mais espaço para o professor
ultrapassado, que entra na sala, papagueia a matéria do dia e Quem trabalha em fazendas está sempre sujeito a contratem-
sai. Nesse cenário, o professor finge que ensina e os alunos pos – vai que chove demais ou a estiagem castiga as planta- 47
fingem que aprendem. Porém, está surgindo um outro pro- ções. Além disso, há o perigo de doenças, insetos, colheita de
blema, o do professor avançado demais. Tal fenômeno está má qualidade, entre outras. Quem mexe com computadores,
ocorrendo, principalmente, nas universidades norte-america- então, deve saber que vez ou outra as coisas podem não dar
certo.
Nunca se sabe quando essas máquinas vão pifar, fazendo com Outros aspectos importantes
que dias de trabalho sejam perdidos tentando descobrir,
afinal, o que é essa tal de “operação ilegal” que foi executada. na hora de lidar com as pessoas

Você, professor, lida com gente. Pessoas são infinitamente Somos todos diferentes. Nem todos aprendem da mesma
mais complexas do que plantações e máquinas. Ainda mais maneira. Nesse sentido, há basicamente três tipos de alunos:
quando elas estão formando sua personalidade e conceitos os auditivos (que absorvem melhor o que ouvem), os visuais
sobre o mundo. Existem professores que são melhores do (que prestam mais atenção no que vêem) e os sinestésicos
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que outros nesse aspecto. Porém, de acordo com o jornalista (cujo ponto forte de aprendizagem é o que é feito e experi-
e membro do conselho editorial do jornal Folha de S. Paulo, mentado). Toda classe de aula tem representantes dos três
Gilberto Dimenstein, destacam-se os poucos que entendem grupos. Você pode identificá-los pelos gestos (olhares mais ou
que o professor não atua apenas sobre o aluno, mas sobre toda menos fixos, movimentos de cabeça colocando o ouvido em
sua família e comunidade. evidência, etc.) e pelas expressões usadas (“do jeito que eu
vejo isso...”, “escuta aqui”, “juntando essas informações ...”).
Nesse aspecto, as reuniões com os pais ganham nova impor-
tância. Mais do que falar, você deve ouvir, descobrir o que Procure atender a todos em suas aulas. Escreva (nem que apenas
é importante para aquele bairro ou região. Pesquisar e usar os pontos principais da matéria) no quadro para auxiliar os
exemplos do cotidiano de seus alunos em suas matérias, não visuais, abuse dos exercícios e da formação de imagens mentais
importa qual seja. E ainda há outras coisas que você pode para os sinestésicos. O melhor de cada um. Nunca duvide da
fazer pela vizinhança, conforme ensina Dimenstein: “A escola capacidade de seus alunos de alcançar qualquer sonho. Gandhi,
deve ser um local de encontro de toda a comunidade, inclu- Martin Luther King e Nelson Mandela sabiam disso. Sabiam que
sive nos finais de semana, para eventos culturais e esporti- todas as pessoas tinham a capacidade de fazer parte de alguma
vos. Incrível que, em todo o País, bairros sem nenhum lazer coisa grande. O papel de um professor é fazer com que os alunos
tenham fechadas as quadras dos colégios.” Converse com a tenham consciência dessa responsabilidade e partam para a ação.
direção a respeito. Como se consegue isso? Cada pessoa é movida por uma coisa
48 diferente. Mas poucas coisas são tão contagiantes como o entu-
4 siasmo. Fale, emocione-se mesmo com um tema em sala de aula.
Se você conseguir contagiar apenas dois alunos, esse entusiasmo
será passado rapidamente para o resto da turma.
Eterno aprendiz. De acordo com o jornalista Gilberto Di- a mexer com essas maquininhas é fundamental. Segundo o
menstein, a situação nas universidades do Brasil assusta. grupo Catho, especializado em recursos humanos (www.
catho.com.br), os profissionais de sucesso devem dedicar de
“Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, então, 10% a 25% do seu tempo a aprender a lidar com a Infor-
não é um ato, mas um hábito.” mática & Companhia S.A. Porém, existe algo igualmente
importante: aprender a trabalhar com o futuro. Os brasilei-
“Você não gerencia pessoas, você gerencia coisas. Pessoas, ros, em particular, não são acostumados a planejar, a pensar
você lidera.” no futuro. Onde você pretende estar daqui a alguns meses

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ou anos e o que é necessário para chegar lá? Planejar isso
Não pense em revolucionar o ensino. Melhore suas aulas aos com freqüência é fundamental para o desenvolvimento da
poucos, e constantemente. Os resultados são melhores. carreira. Não basta apenas investir em máquinas modernas
e velozes, mas é fundamental aprender a usar todas as suas
Apenas 28% dos futuros médicos, por exemplo, lêem um potencialidades.
livro não-escolar durante o ano; o restante, nem isso. Só 40%
dos estudantes de Direito, Administração e Economia con- Compartilhar conhecimento. Você não está, não deve e não
sultam o jornal todos os dias. A média para todos os cursos pode ficar sozinho. Agregue-se, busque companhia, viva em
é de 23%. Não é de se admirar que os cursos universitários grupo. Conte o que sabe, ouça o que as pessoas sabem. Divi-
sejam criticados e percam sua importância em vários setores. da, compartilhe, some. É a única maneira de se desenvolver
Para você, professor, esta é uma grande oportunidade. Não corretamente. Todo mundo tem algo a ensinar e a aprender.
pare nunca de estudar, de se desenvolver profissionalmente. Portanto, saia e procure seus professores e alunos.
Quanto mais você fizer isso, mais abrirá oportunidades em
sua carreira. Além disso, a melhor maneira de estimular seus Informação de campo. Mesmo que a direção não tenha
alunos a fazerem alguma coisa é através do exemplo. Mostre este costume, faça enquetes rápidas sobre seu desempenho
a eles o prazer de estudar por conta própria. Ser um eterno em sala de aula entre seus alunos (para facilitar, diga que
aprendiz também significa: eles podem responder anonimamente e saia da sala enquan-
to preenchem a cédula). Esse é o melhor termômetro para 49
Dedicar-se a aprender novas tecnologias. Cada vez mais seu serviço. Você pode fazer isso informalmente, também,
o professor estará mais em contato com computadores, vi- “entrevistando” alguns alunos sobre assuntos não relaciona-
deoconferência, celulares, entre outras novidades. Aprender dos à aula, e permitindo que eles o entrevistem.
Kaisen! Tal aperfeiçoamento contínuo tem duas grandes vantagens:

1
Essa é uma palavrinha japonesa que andou na moda há alguns É facilmente mensurável. Se você muda toda uma
anos. E, assim como tudo o que está na moda, ela desapareceu metodologia de aula de uma hora para outra, consegui-
dos noticiários logo em seguida. É uma pena, porque kaisen rá dois resultados possíveis: funciona ou não. Porém,
não é um modismo ou uma forma mágica de ganhar dinheiro a nova metodologia é feita de dezenas de pequenos
ou melhorar profissionalmente. É uma atitude perante a vida. detalhes. Pode ser que apenas um deles tenha sido o
motivo da rejeição. Como você vai saber? Mudando
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A grosso modo, kaisen significa aperfeiçoamento contínuo. aos poucos, você pode sentir a reação de seus alunos,
Nós somos acostumados, desde cedo, com a idéia de revolu- adaptar-se às necessidades deles e da escola.
ções. Se alguma coisa está errada, joga-se tudo fora e come-

2
ça-se do zero, de novo. Pense bem, não é esse o discurso de Você não chega ao fundo do poço. No sistema tradi-
todos os políticos? É algo também presente em quase todas cional, é necessário que as coisas comecem a dar muito
as empresas. Afinal, é preciso “mostrar serviço”, e qual é a errado para se tomar uma atitude. Através do kaisen
maneira melhor do que fazer algo radicalmente diferente do procura-se evitar isso: o aperfeiçoamento contínuo faz
que fez o ocupante anterior do cargo? com que as coisas continuem funcionando e melho-
rando sempre. É como aquele ditado, “se não estiver
Por isso, a idéia de kaisen talvez nos pareça um pouco estra- quebrado, não mexa”. Bem, quebrado não está, mas
nha. Afinal, ele não lida com grandes e repentinas mudanças. pode precisar de uma limpeza, um pouco de óleo, um
Procura aperfeiçoar as coisas um pouquinho a cada dia. Entrar retoque na pintura aqui e ali...
na sala de aula com um sorriso, mudar a ordem na explicação
de determinada matéria, fazer a chamada cinco minutos antes Outras lições de kaisen
ou depois... são pequenas coisas que fazem uma diferença
maior do que se imagina, ainda mais se somadas umas às • Não vale apenas para seu emprego. O aperfeiçoamento
outras.
50 contínuo funciona muito bem com seu lado pessoal. Você
6 pode buscar uma melhor qualidade de vida, de diversão,
de relacionamentos, entre outras, melhorando um pouqui-
nho de cada vez. Acredite, funciona melhor do que decidir
parar de fumar ou fazer dieta toda segunda-feira (decisões espaço no qual alguém se sente compelido e estimulado a
que duram até quinta-feira, no máximo). aprender, organizar-se para sistematizar as informações e
respeita quem pode ajudá-lo a navegar pelo conhecimento.
• Concentre-se no processo, e não nas pessoas. Se uma boa
parte de sua sala de aula está indo mal em sua matéria, Pegue-se o mais indisciplinado e tresloucado roqueiro,
talvez a culpa não seja da bagunça da turma do fundão. que detestava ir à escola – e, no caso dele, talvez com boas
Quem sabe você possa fazer algo para chamar a atenção e razões – ali ele não encontraria espaço para seus dons e
garantir a participação deles nas aulas. Bem, o espírito do sonhos.

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kaisen vai tentando pequenas mudanças até descobrir o que
funciona melhor em cada situação. Imagine-se um médico. Mas a paixão pela música faz dele um ser com um grau
Um paciente vai até você reclamando de dor de cabeça. máximo de disciplina. Basta ver quantas horas ele, absorto
Você receita duas aspirinas. Ele vai para casa contente, o do mundo e compenetrado nas cordas, gasta aprendendo a
problema está resolvido. No dia seguinte ele volta, ainda tocar melhor a guitarra, para o desgosto dos vizinhos.”
com dor de cabeça. Você receita o mesmo remédio, e assim
os dias passam. Ou, então, você pode examinar o paciente A lição está aí. Faça de sua sala de aula um ambiente que
e descobrir por que ele está com aquela dor de cabeça. É favoreça a aprendizagem. Considere (e existem muitas outras
mais demorado fazer os exames do que tomar os analgési- coisas que podem ser feitas):
cos – mas você resolve o problema de uma vez por todas.
• Mudar a disposição das carteiras.
• Estimular a participação dos alunos através de discussões
Disciplina e trabalhos em grupo dentro da sala de aula.
• Fazer perguntas constantes.
Veja o que escreveu o jornalista Gilberto Dimenstein em seu • Trazer visitantes ou vídeos à sala de aula.
artigo “O Professor é uma Vítima”, publicado na Folha de S. • Manter as instalações limpas e bem iluminadas.
Paulo, no dia 6 de março: • Favorecer a criação de atividades extraclasse. Um grupo
que se junta para estudar e fazer as lições, por exemplo. 51
“Para ser funcional, o aprendizado exige, necessariamen-
te, disciplina – não aquela disciplina burra e autoritária
de quem impõe silêncio, obediência, servilidade. Mas o
O peso dos pais adiantou tudo isso? Elas vivem em uma espécie de redoma, e
muitas não sabem lidar com o fracasso nem com a emoção.
Principalmente em colégios particulares, um dos motivos da
indisciplina é a visão do professor como um ser subalterno. Qual é o nosso papel como educadores em tudo isso? A edu-
Afinal, os pais estão pagando. Seus filhos imitam essa visão cação também está em crise. Não produzimos mais pensado-
distorcida em sala de aula. Combata isso posicionando-se cla- res, apenas “acumuladores” de conhecimento. Nossos alunos
ramente como um profissional competente e que está ali para perderam o prazer de aprender.
ajudar os alunos a alcançarem seus objetivos. Esse posicio-
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namento é construído diariamente, através de sua aparência, Nós, professores, precisamos nos tornar fascinantes para
gestos e palavras. Leva-se algum tempo para construir essa desenvolvermos eficientemente a personalidade dos nossos
imagem, e é muito fácil perdê-la. Zele por ela ao máximo. alunos. Precisamos incorporar hábitos que contribuam para
desenvolver seres humanos inteligentes e felizes, capazes de
sobreviver em um mundo cada vez mais estressante.
Aja e persista
A seguir, vamos conhecer os sete hábitos dos bons professores
Você é o único responsável por melhorar sua carreira profis- e dos professores fascinantes, segundo Augusto Cury, autor
sional. Ninguém pode tomar essa decisão por você. Dedique- do livro Pais brilhantes, professores fascinantes, Editora
se a buscar ferramentas e conhecimentos para se posicionar Sextante.
melhor no grupo, no mercado de trabalho, na sua vida social e
pessoal. A pessoa melhor é um profissional melhor.
1 Bons professores são eloqüentes; professores fascinantes
conhecem o funcionamento da mente. Para os professores
fascinantes, um aluno não é apenas mais um número na sala
A ARTE DE SER UM PROFISSIONAL de aula, mas um ser humano complexo com necessidades úni-
cas. Professores com essa característica conseguem construir
NOTA 10 COM UMA AULA FASCINANTE uma ponte entre as informações que transmitem e o dia-a-dia
52 dos alunos.
Nossas crianças e adolescentes têm tudo o que não tivemos:
muitos brinquedos, roupas, viagens, computador, Internet, au- Mas o que acontece hoje? Nossos alunos estão alienados,
las de idiomas, balé, natação. A intenção foi boa, mas do que sem concentração, ansiosos. Freqüentemente, o professor
precisa gritar para obter o mínimo de atenção. Por que isso? rem com as contradições da vida. Eduque com emoção. As
Por causa do excesso de estímulo que a TV produz em nossas escolas não estão conseguindo educar a emoção. Elas estão
crianças. São mais de 60 personagens por hora com as mais gerando jovens insensíveis, hipersensíveis ou alienados.
diferentes personalidades, competindo diretamente com a Precisamos formar seres que tenham uma emoção rica, prote-
imagem de pais e professores. Isso gera a SPA – Síndrome do gida e integrada.
Pensamento Acelerado. É como uma droga: seus portadores
precisam de cada vez mais estímulo. Eles se agitam na cadei-
ra, têm conversas paralelas, não se concentram. 4 Bons professores usam a memória como depósito de
informações; professores fascinantes usam-na como su-

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porte na arte de pensar. O objetivo fundamental dos professo-
Precisamos de um novo modelo de educação. Temos de desco- res fascinantes é ensinar os alunos a serem pensadores e não
brir ferramentas capazes de transformar a sala de aula em um repetidores de informações. Deveríamos valorizar qualquer
oásis e não numa fonte de estresse. Tenham paciência com seus raciocínio esquemático, qualquer idéia organizada, mesmo
alunos. Eles não têm culpa dessa agressividade, alienação e que estivessem completamente errados em relação à matéria
agitação em sala de aula. Há uma esperança no caos. Aguarde! dada. Isso valoriza pensadores. Os alunos que vão mal nas
provas hoje poderão se tornar excelentes cientistas, executi-

2 Bons professores possuem metodologia; professores


fascinantes possuem sensibilidade. Seja um professor
vos e profissionais no futuro.

fascinante: fale com uma voz que expresse emoção. Mude de


tonalidade enquanto fala. Assim, você estimulará a concentra-
ção e aliviará a SPA de seus alunos. Faça-os viajarem sem sair
5 Bons professores são mestres temporários; professores
fascinantes são mestres inesquecíveis. Um bom profes-
sor é admirado, um professor fascinante é amado. Suas lições
do lugar. Seja um mestre da sensibilidade. Não deixe que as de vida marcam para sempre os solos conscientes e incons-
atitudes impensadas de seus alunos roubem sua tranqüilidade. cientes dos seus alunos. As sementes por ele lançadas jamais
Procure acolher seus alunos e compreendê-los – mesmo os serão destruídas. Não se cale sobre sua história, transmita
mais difíceis! suas experiências de vida. As informações são arquivadas na
memória, as experiências são cravadas no coração!

3 Bons professores educam a inteligência lógica; professo- 53


res fascinantes educam a emoção. Estimule seus alunos “Damos valor ao mercado de petróleo, de carros, de compu-
a pensarem antes de reagir, a não terem medo, a serem líderes tadores, mas não percebemos que o mercado da inteligência
C
de si mesmos, autores de suas próprias histórias, a trabalha- está falindo.”
6 Bons professores corrigem comportamentos; professores
fascinantes resolvem conflitos em sala de aula. Certa
vez, alguns alunos conversavam no fundo da sala. A professo-
Professores fascinantes formam empreendedores. Formam jo-
vens que não têm medo de falhar e que não desistem perante
as dificuldades.
ra pediu silêncio, mas eles continuaram. Ela então chamou a
atenção do aluno que falava mais alto. Ele respondeu: “Você Nossa tarefa é urgente. Se não reconstruirmos a educação, as
não manda em mim! Eu pago para você trabalhar!” O clima sociedades modernas se tornarão um grande hospital psiquiá-
ficou tenso. Ao invés de gritar ou expulsar o aluno, a profes- trico. As estatísticas demonstram que o normal é ser estressado
sora ficou em silêncio. E depois, contou-lhes uma história e o anormal é ser saudável. Há esperança? Sim. Vamos cultivar
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sobre crianças judias que foram presas em campos de con- a emoção e expandir a inteligência de nossos jovens.
centração nazista. Contou-lhes de seu sofrimento pela vida
horrível que tinham, presas e separadas de seus pais. Depois
disso, olhou para a classe e disse: “Vocês têm escola, amigos, APRENDA COM OUTROS PROFISSIONAIS
pais e professores que os amam. Comem, vivem e se vestem
bem. Será que estão valorizando tudo isso?” Ela não precisou Além de um professor nota 10 ter de se preocupar com seus
chamar a atenção do aluno que a ofendera. Sabia que isso não alunos, em como eles absorvem o conhecimento, quais são
adiantaria. Ela queria levá-lo a ser um pensador. Ele, depois suas personalidades, como se sentem no ambiente escolar, ele
disso, nunca mais foi o mesmo. Compreendeu que tinha tudo também deve pensar em sua carreira e nas formas de aprimo-
e não valorizava isso. Aprenda a dar “tapas com luva de peli- rá-la.
ca” no coração de quem você ama. Acorde seus alunos para a
vida. Apesar do ofício de professor ser único, ele não está dissocia-
do e distante da rotina de outros profissionais. Existem várias

7 Bons professores educam para uma profissão; pro- habilidades que você pode aprender com as demais ocupações
fessores fascinantes educam para a vida. Professores e usar dentro da sala de aula para se destacar. Já vimos no tre-
fascinantes são revolucionários. Seus alunos adquirem um cho “Professor-vendedor” como esse processo pode ser útil.
bem extraordinário: consciência crítica. Por isso, não são Veja o que mais você tem a aprender.
54 manipulados nem chantageados. Eles sabem o que querem. O
0 professor fascinante é promotor da auto-estima. Dá atenção
especial aos alunos tímidos e desprezados. Mostra-lhes sua
capacidade interior.
Diagnosticar como um médico pessoal, como evitar epidemias e outras medidas profiláticas.
Você deve gerenciar sua sala de aula de maneira que os pro-
Ninguém entra em um consultório médico e encontra a receita blemas não apareçam. Troque idéias com seus alunos, abuse
já pronta, esperando. Um sintoma como febre ou dor de das discussões e trabalhos em grupo, surpreenda-os com
cabeça pode ter inúmeras causas. E descobrir o mal que aflige exercícios diferentes. Faça cada aula ser especial.
cada pessoa é só parte do processo. Alguns pacientes são
alérgicos a este ou àquele medicamento, etc. Planejar como um arquiteto

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Da mesma forma, na sua classe, o comportamento de um Certo, o primeiro lugar onde Brasília apareceu foi num
aluno pode ter diferentes causas. O que funciona com um rabisco em um guardanapo. Mas se ficasse só nesse primeiro
estudante é ineficaz com outro e dá resultados medianos em insight, hoje teríamos outro tipo de capital, bem diferente do
um terceiro. Como descobrir que remédio, que técnica educa- plano de Niemayer. Você pode sonhar com o tipo de aula que
cional, funciona melhor? Da mesma maneira que os médicos desejar, entretanto, é preciso planejar para que ela vire uma
fazem: primeiro estude, informe-se, descubra o que os outros realidade aproveitável para seus alunos. Algumas dicas:
professores fazem em cada caso. Em seguida, examine cada . Antes de tudo, separe o conteúdo e o material que você vai
aluno. Não com estetoscópio e aquela luzinha de ouvido, mas precisar na aula imaginada. Aqui, o professor tem uma
com perguntas e observando o comportamento apresentado no vantagem sobre o arquiteto: pode pesquisar materiais mais
dia-a-dia. baratos e simples sem prejudicar o resultado final. Só é
proibido descuidar do conteúdo.
E você ainda pode fazer algo a mais que um médico: pode tes-
. Assim como são construídas maquetes por arquitetos e
tar diversas técnicas de ensino e gerenciamento de sala de aula
engenheiros, você também deve fazer uma simulação de
até encontrar a que melhor funciona em cada situação e aluno.
sua aula. Controle o tempo necessário para expor o assunto
Sem risco nenhum para o paciente – digo, estudante –, você
ou para explicar uma atividade nova. Você pode dar parte
pode avaliar diversas maneiras de se conseguir os melhores
da aula para seu cônjuge e pedir a opinião dele. Na maio-
resultados e o melhor aprendizado em sala de aula.
ria das vezes, esse treinamento vai ser interrompido por 55
brincadeiras e gargalhadas, mas tentem de novo que vocês
O médico também luta para que as pessoas não precisem tan-
acabam acertando. Ao final, você não terá uma obra pronta.
to dele, divulgando cuidados básicos de higiene e alimentação
Ao contrário de se projetar e construir uma casa, uma aula
está sempre aberta a melhorias e ajustes, até porque cada çoam e que novos interesses e questões aparecem na mente de
classe é única. Seja flexível. seus alunos.

Treinar e se desenvolver é, portanto, necessário para que suas


Treinar como os melhores esportistas aulas permaneçam tão boas quanto sempre foram. A partir
daí, parte-se para o aprimoramento pessoal. Algumas dicas
Certa vez, o norte-americano Michael Jordan explicou seu para você:
sucesso no basquete. Ele afirmava que existiam jogadores que
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arremessavam melhor, que tinham mais fôlego e que eram .Separe algum tempo a cada semana para seus “treinos”, e
mais rápidos. Só que ninguém treinava tanto quanto ele. Da considere essas horas um compromisso tão sério quanto
mesma forma, no começo desse ano, o piloto alemão Michael qualquer outro. Discipline-se.
Schumacher pediu desculpas à família, pegou seu avião e foi .Tenha um objetivo claro para cada seção de treino. Você
até à pista da equipe Ferrari, onde se desenrolou um diálogo pode praticar, entre outras coisas, sua entonação de voz, me-
mais ou menos assim: mória, capacidade de escutar e concentração (por exemplo,
pegue um CD, ouça uma música, desligue e tente reproduzir
— Ué, Michael, o que você está fazendo aqui? Você deveria a letra), habilidades na construção de apresentações multi-
estar de férias. mídia, interar-se sobre novas descobertas e técnicas de sua
disciplina, praticar seu marketing pessoal, buscar novas
— Pois é, mas eu não agüento ficar sem treinar. Ajusta o ban- maneiras de apresentar o conteúdo programático.
co e os pedais do carro para mim que eu vou dar umas voltas. .Cuide também da sua saúde. Uma alimentação balanceada
e alguns exercícios físicos lhe darão mais energia na sala de
Os melhores sabem da importância de treinar sempre. Sabem aula, o que acabará por contagiar seus alunos.
que há sempre uma maneira de fazer melhor ou, no mínimo,
continuar a fazer tão bem quanto sempre foi feito.
Defenda seus ideais como um advogado
56 Aqueles que não dedicam um tempo por semana para seu
56 aperfeiçoamento profissional não permanecem no mesmo lu- Alguém já definiu um julgamento como sendo um show onde
2 gar, estão andando para trás. Cada semestre dando as mesmas os jurados se reúnem para decidir qual advogado foi o melhor.
aulas é um semestre em que os outros professores se aperfei- E como cada lado se esforça para ser escolhido o melhor, cada
vírgula do depoimento, cada fato, é estudado e reestudado. Respeite como um psicólogo ou sacerdote
Versões de acontecimentos são apresentadas com uma paixão
de emocionar qualquer um. Seus alunos têm por você uma grande admiração e, não raro,
o procuram com dúvidas e problemas de ordem pessoal. Veja
Esse deve ser o espírito por trás de suas aulas. Um compro- essas situações da mesma maneira com que sua turma as vê:
metimento com o que é ensinado, que contagia a todos seus
alunos. E não se trata de aulas cheias de frases motivacionais . Se você não puder ajudá-los, explique isso e encaminhe-
vazias, gritos e piruetas. Defender, assumir sua matéria, exige os a quem pode. Mas não os deixe sem resposta.

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conhecimento profundo, extrair de cada fato e número algo
que interesse seus alunos. . Ouça, antes de tudo. Um psicólogo não vai julgar um pa-
ciente assim, à primeira vista. Vai atrás dos problemas
Estude, treine. E conheça as pessoas para quem você vai falar. que ele apresenta, suas raízes e permite que ele mesmo
Caso lecione para o público superior, apele para casos prá- veja a solução. Aja da mesma forma.
ticos que eles estejam vendo no dia-a-dia. Alunos do ensino
médio e das últimas séries do ensino fundamental preocupam- .Respeite os sentimentos de seus alunos. O que é contado
se com tendências, com o que eles encontrarão no mercado de em confidência deve ser relatado, no máximo, para
trabalho. Antes disso, a questão básica é entender os princí- pessoas mais capacitadas para cuidar do caso.
pios do mundo em que vivemos.
.Esteja sempre presente, mas atente à sua posição na
Ao conhecer seus alunos e sua matéria, você está pronto para sala de aula. Mostrar-se acessível não significa abdicar
entrar em sala e deixar sua paixão pelo ensino fluir. E ela de toda a autoridade de um educador. Conheça seus
aparece, seja em voz baixa e controlada, seja em atuações co- limites e os da sua turma.
piadas de um tribunal. Um professor realmente comprometido
com o que ensina mostra tal emoção de maneiras sutis, mas . Apaixone-se por suas idéias como um advogado e esteja
que são percebidas por todos. sempre pronto como um bombeiro.
57
Escreva e fale como um jornalista conceitos de meses atrás, e os apliquem em conjunto com a
matéria atual.
Uma das regras básicas para escrever uma reportagem é pas-
sar a informação completa. O que aconteceu, quando, onde, Esteja pronto como um bombeiro
quem estava envolvido e como. Sem esses eventos tem-se, no
lugar de uma notícia, no máximo, uma fofoca. Nunca se sabe quando um incêndio vai acontecer, assim
como nunca se sabe quando um aluno aparecerá com uma
Na sua sala de aula vale o mesmo princípio. Cada matéria, pergunta mais complexa ou desafiadora. Para ambos os casos,
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cada informação que você fornece a seus alunos, deve estar a solução é estar preparado. Leia muito, conheça a fundo sua
fortemente baseada em fatos, dados, em algo que seus alunos matéria. Além disso, se interesse por outras áreas. É comum
compreendam. É um erro iniciar cada aula como se aquele a pergunta de um estudante derivar para um assunto com-
assunto fosse estanque, sem ligação com nenhuma outra coisa pletamente diferente do que você leciona. Aliás, não apenas
e sem influência com nada no futuro. Faça cada disciplina ser comum, mas em tempos de interdisciplinaridade, desejável.
tão importante e memorável como aquelas matérias de jornal
que derrubam políticos. E ainda: Então, nada de dizer para seus alunos perguntarem aquilo
para a professora de Matemática. Quando o desejo pelo co-
Ofereça âncoras - Os jornais sempre conectam as notícias nhecimento acontece, esteja pronto para utilizá-lo.
com fatos conhecidos dos leitores. Assim, ao falar sobre o
primeiro livro de um autor, ofereça uma pequena biografia: Outra coisa que se aprende com os bombeiros é a facilidade
Jandira Pinhais é educadora há tantos anos, fundou tal insti- de encontrar o que é importante. Uma casa pode estar em cha-
tuição, um de seus alunos foi o vice-governador e por aí vai. mas, e o que eles fazem? Concentram-se em alguns pontos da
Com isso, desperta-se a atenção do leitor. Da mesma forma, construção enquanto outros ficam jogando água nos prédios
ligue a sua matéria a algo conhecido de seus alunos. vizinhos. A decisão vem de diversos fatores: para onde sopra
o vento, em qual direção existem mais objetos inflamáveis,
Não permita que eles esqueçam - Um dos grandes papéis como evitar que o incêndio se espalhe, entre outros. Eles
58
da imprensa é fazer com que os grandes escândalos tenham também não se impressionam com o tamanho das chamas,
4
um acompanhamento e que os culpados sejam julgados. Para apontam as mangueiras e extintores para o chão para o que,
o professor, é vital fazer com que os alunos se lembrem dos de fato, está pegando fogo.
Identifique o que é importante, o que realmente está por trás Evite também a formação de panelinhas, formando grupos
de uma pergunta ou preocupação de seus alunos. Faça pergun- diferentes: apele para ordem alfabética, de fileiras, ordem
tas do tipo “que você quer dizer com...?”, “por que você acha alfabética de sobrenome, entre outras. Afinal, muitos técnicos
isso?”, “como assim?”. são chamados de “professor”, não são?

Preste atenção nas respostas, e só então ataque o verdadeiro


problema. Essa técnica é, talvez, mais útil ainda com colegas
e superiores. Ela permite que você descubra exatamente o que ENSINANDO A OUSAR

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é preciso que seja feito, e qual mensagem está sendo passada. Por Tom Coelho

Use os diferentes talentos como um A cada minuto de nossas vidas estamos sempre assumindo
dois papéis: o de professor e o de aluno. Dependendo do
técnico de futebol momento, do tema, do interlocutor, colocamos um ou outro
véu. E num diálogo realmente edificante, chegamos mesmo
Olhe para um time de futebol. São 11 pessoas com talentos a utilizar a ambos.
diferentes. Alguns são bons para cabecear, outros para chutar,
outros sabem correr bastante. O técnico precisa identificar Porém, via de regra, somos maus professores. Maus porque
esses talentos e utilizá-los da melhor maneira possível para o pregamos a mediocridade, inibimos a audácia, coibimos
bem de todo o time. o risco, desestimulamos a galhardia. Ser medíocre é ser
comum, mediano, modesto, despretensioso. Ser medíocre
Na sua classe também existem alunos com qualidades e talen- é estar seguro, ainda que não se esteja bem. Ser medíocre
tos individuais. O objetivo é que todos cheguem ao conheci- é fruto natural de nossa cultura ibérica e de nossa tradição
mento com a sua ajuda. católica.
E, da mesma forma que em um time de futebol, todos se Empregados sem empregos
ajudam, os alunos devem apoiar uns aos outros. Fortaleça o
sentido de equipe. Trabalhos em grupo devem ser usados sem 59
Nossas escolas de ensino fundamental privilegiam uma
medo em sua sala. É preciso que cada aluno descubra as qua- alfabetização metódica, padronizada, enquadrando as
lidades do colega, que podem ser (aliás, é melhor que sejam) crianças num plano bidimensional. São ao menos oito anos
diferentes das dele próprio.
de estudos sem incentivo à criatividade e à ousadia. Depois, jogos de futebol ou quando somos agraciados com alguma
quem pode gasta uma soma considerável num terapeuta ou façanha num evento esportivo. Foi-se embora o culto ao
num curso de especialização para instruir seu filho a traçar patriotismo e ao amor ao verde-amarelo. Foi-se também a
linhas curvas e não apenas retas, a misturar cores quentes e oportunidade de se ministrar um pouco de ética e responsa-
frias, a experimentar outras formas geométricas, a unir nove bilidade social.
pontos alinhados três a três com apenas quatro retas.
Mediocridade ensinada
O ensino médio, por sua vez, produz exércitos dotados de
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baionetas com as quais assinalarão “x” dentre cinco alterna- Nossa mediocridade ensinada acaba permeada em nossas
tivas possíveis para, aí sim, ingressando no chamado ensino vidas sem que nos apercebamos disso. Nossas empresas
superior, compor uma legião de empregados para um mun- tornam-se medíocres porque não têm o gene do empreende-
do sem empregos. A própria estrutura de ensino promove a dorismo, em especial o empreendedorismo de oportunida-
subserviência, seja por intermédio do método expositivo de de, aquele que gera valor, que produz riqueza, que semeia
aulas, seja através do respeito incólume às hierarquias, seja empregos qualificados e de forma sustentada. Falta-nos a
por meio dos trabalhos de conclusão ou estágios supervi- ousadia para adotar novas práticas, da remuneração variável
sionados, sempre focalizados em grandes empresas e com ao horário flexível, da gestão compartilhada à participação
conteúdo discutível. nos resultados.

Nosso modelo de ensino não instiga o pensar. História é Nossa mediocridade ensinada congela nossos ímpetos
para ser decorada, e não entendida. Matemática é para se corporativos, impedem-nos de investir em nossas próprias
aprender por tentativa e erro, e não por tentativa e acerto. idéias, de acreditar em nossos mais castos ou ambiciosos
Português tem muitas regras, não se sabe para quê, não é sonhos. O risco, palavra derivada do italiano antigo risicare
“mano”? e que significa nada menos do que “ousar”, deixa de ser
uma opção, deixa de ser um destino.
Abolimos as aulas de Educação Moral e Cívica porque
60
remetiam à lembrança dos tempos da ditadura, em vez de Nossa mediocridade ensinada se mostra presente em nossas
modernizarmos seu programa. O resultado é que hoje não vidas pessoais, exacerbando nossa timidez, trazendo con-
se sabe mais cantar o Hino Nacional, o qual só é ouvido em sigo a hesitação por uma palavra, por um beijo, por uma
conquista mútua. Tempera relações sem usar sal ou pimen- de satisfazer estatísticas, empenhados em reduzir índices de
ta, adota a monotonia e culpa a rotina. Observe como nunca evasão e elevar taxas de escolaridade. Mas podemos optar
somos medíocres no início de um namoro, da troca de olha- pela pílula vermelha, e incentivar a escola democrática,
res ao flerte, do perfume das flores ao sabor dos bombons. substituir a forma desinteressante e desatrelada da realidade
Tudo isso até o primeiro beijo, o único de fato verdadeiro, de educar pelo estímulo à curiosidade, encorajar o aprendi-
pois dele derivam muitos outros até os finalmente protoco- zado ao invés do ensino porque ousadia é uma forma de ser
lares, como a nota cinco necessária para se passar de ano. e não de saber.

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* Tom Coelho - Formação em Economia pela FEA/USP, Publicidade
Pílula azul ou vermelha? pela ESPM/SP, especialização em Marketing pela Madia Marketing
School e em Qualidade de Vida no Trabalho pela USP, é consultor,
Vivemos em uma nação na qual, mesmo após mais de meio professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Con-
século, a terra ainda devolve com fartura tudo o que nela sulting e Diretor Estadual do NJE/Ciesp. Contatos através do e-mail
tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br.
se planta. Não somos vitimados por catástrofes naturais.
Somos dotados de grande simpatia e predisposição ao traba-
lho. Então, por que sermos medíocres?

O que nos impede de reproduzir em larga escala a criativi-


dade de nossa publicidade, a inteligência de nosso design,
a beleza de nossa moda, a eficiência de nossa agroindústria
de soja, a ousadia de milhões de pessoas que teimam em se
manter vivas com um punhado de reais ao longo de todo
um mês?

Ou a vida é uma aventura ousada, ou não é nada. Do contrá-


61
rio, não vivemos, apenas vegetamos. À luz de um ícone
criado no filme “Matrix”, podemos tomar a pílula azul,
esquecer tudo isso, e tratar o ensino com objetivo exclusivo
você falar por 40 minutos, estática e monocordicamente, à
INSTRUMENTAIS frente de seus estudantes.

DE COMUNICAÇÃO Conheça as diversas ferramentas que você tem à disposição e


saiba como tirar o melhor proveito delas.

Existem inúmeros recursos que podem ser utilizados para dar


mais vida e ritmo a suas aulas. Você, professor, pode escolher
COMPUTADOR
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alguns dias do ano e deixar o quadro-negro de lado, incorpo- O FENÔMENO DE NOSSA ERA
rando novos elementos em suas explanações. Por Viviane M. Penteado Garbeli

Opções não faltam com o avanço da tecnologia. A cada dia Se a sua escola ainda não aderiu às novas tecnologias, não se
surge um novo software educacional ou uma maneira diferen- apavore, ainda há tempo. Não muito, é verdade, mas como
te de empregar o nosso velho e conhecido jornal. O impor- diz aquele velho ditado chinês: “O melhor momento para se
tante é pesquisar e ser criativo para perceber quais elementos plantar uma árvore foi há 20 anos. O segundo melhor momen-
de nosso cotidiano podem ser levados para a sala de aula e to é hoje.”
contribuir para o ensino diferenciado e divertido.
Atualmente, a discussão é sobre se devemos ou não utilizar
Inventar, ousar, sair do padrão. Na hora de colocar a mão na o computador no ambiente educacional. A preocupação, no
massa e empregar novos recursos, é preciso unir todas essas entanto, deve estar centrada em como utilizá-lo da melhor
características a mais um detalhe: foco. Também não adianta maneira possível em nossas aulas.
armar todo um show, usar vídeos, músicas e Internet, mas não
conseguir transmitir o conteúdo. Esses instrumentos servem Sabemos que as inovações tecnológicas têm invadido os dife-
como apoio a seus apontamentos. rentes setores da sociedade; e a escola, como parte integrante
dessa sociedade, não pode se furtar a aderi-las.
62 Não cabe a essas ferramentas, isoladamente, ensinarem a
matéria. Para ser um professor nota 10 você precisa dominar Então, o fator principal é fazer com que a escola seja um am-
muito bem o assunto e saber o momento adequado de aplicá- biente rico em inovações, trazendo o mundo para dentro dos
los. Senão, eles se tornarão tão ineficazes e entediantes quanto muros, criando ambientes interativos, dinâmicos e atraentes.
Isso é possível por meio de diferentes recursos. Dentre eles, o liando o aluno na busca de novas informações e na elaboração
computador se destaca, visto que grande parte dos nossos alu- de um produto final.
nos têm acesso ao mesmo de inúmeras formas: por meio de
brincadeiras ou trabalhos acadêmicos em casa ou na escola. Tal metodologia tem trazido muitos benefícios. Através dela,
o professor pode desenvolver diferentes habilidades no aluno
Computando – Cabe a nós, professores, procurarmos subsí- e, em conseqüência disso, inúmeras outras competências.
dios para tornar nossas aulas mais interessantes e produtivas,
na medida em que o computador estimula a criatividade e o Como funciona – A razão para o sucesso desse método é

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poder de sedução junto ao aluno. fácil de ser compreendida. Ele torna a aprendizagem ativa,
interessante e significativa para o aluno, provocando uma
Temos visto um aumento considerável no desenvolvimen- mudança substancial na forma de trabalho em sala de aula,
to de habilidades e competências em inúmeros alunos que ultrapassando o ensino tradicional por meio de recursos mais
freqüentam diferentes níveis educacionais, estimulados pela modernos e interativos.
utilização da informática como recurso didático. Porém, isso
não significa que o computador seja uma panacéia milagrosa Vamos analisar passo a passo
contra todos os males da educação. Ele não transforma aulas
pouco atraentes ou mal montadas em algo interessante. essa técnica

Colocar um computador na sala de aula não é muito diferente 1. Aquecimento ou preparação


do que colocar um quadro-negro ou um retroprojetor. Todo Caracterizado pela apresentação do conteúdo ao aluno. Isso
recurso deve ser utilizado dentro de uma concepção inovado- pode ocorrer de diversas formas: através de uma história, dra-
ra, dinâmica e criativa. matização, pesquisa ou explanação simples. Professor, você
deve levar em conta o seu estilo de dar aula e a idade de seus
A metodologia que acreditamos ser a mais acertada é a de discentes para escolher a forma de introduzir o assunto.
projetos, na qual o professor age como um mediador do
Aqui, o aprendiz inicia sua pesquisa sobre o assunto a ser 63
processo e o aluno participa de forma dinâmica e interativa na
construção de seu conhecimento. Nessa maneira de ensinar, o desenvolvido e passa a produzir, ainda que de forma tímida,
computador é utilizado como recurso didático valioso, auxi- seus primeiros ensaios sobre o assunto a ser trabalhado.
Alguns alunos terão dificuldade maior em fazer um trabalho 3. Apreciação ou avaliação
por contra própria – eles podem não estar acostumados a tal Quando se processa a avaliação do trabalho realizado e sua
autonomia. Insista. realimentação com novas informações, o produto final passa
a ser objeto de aprendizagem do aluno. O professor pode, e
2. Desenvolvimento ou produção deve, avaliar não só o resultado final, mas também as diversas
Fase em que ocorre a elaboração propriamente dita, na qual etapas de desenvolvimento – desde a maneira como a pes-
a pesquisa se efetiva e a produção individual ou coletiva se quisa foi conduzida, como sua participação em aula (ativo,
transforma em trabalho final. Nesse momento, pode ocorrer distante, autoritário, etc.). Contudo, o mais importante é o que
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um trabalho multidisciplinar, no qual um conteúdo pesqui- essa metodologia significa para o estudante.
sado vem exigir do aluno conhecimentos obtidos em outras
disciplinas, para que o trabalho tenha sua finalização de forma Uma coisa é responder dez questões em uma prova, após
adequada e de modo que possa ser explorado de diversas decorar páginas e páginas. Outra, bem diferente, é correr atrás
formas. da informação e produzir uma revistinha, matéria de jornal ou
um site com ela. É muito mais gratificante, e demonstra muito
Assim, além da matéria em si, podem entrar temas diversos, mais o conteúdo aprendido.
como a correta grafia e passagem de idéias (Língua Portu-
guesa) ou o trabalho montado de forma a proporcionar uma A seguir, uma lista de itens que devem estar definidos e provi-
leitura agradável, tentando cobrar isso em uma pesquisa denciados antes de se implantar a metodologia por projeto em
manuscrita (Educação Artística). suas aulas:

Explore todos os recursos do computador. Por que, em vez de


montar as páginas para serem impressas, não montar um site
PLANEJAMENTO DA AULA
na Internet sobre o assunto? Dissecar o tema produzindo links
Número de aulas Quantas aulas você tem
e colocar ilustrações de forma a atrair o internauta é muito di- disponível para aquele conteúdo?
ferente de produzir um texto escrito. Dessa forma, a informá-
64 tica vai ampliando o leque de opções de assuntos pertinentes à Área Quais disciplinas estão
0 matéria do educador. envolvidas?
Assunto Qual assunto será trabalhado? POWERPOINT
PROJETANDO CRIATIVIDADE
Objetivos Qual objetivo meu aluno Por Adelaide Marques
deve atingir?
Há cada vez mais computadores disponíveis nas salas de aula.
Recursos Quais recursos serão utilizados? Além disso, os portáteis estão se popularizando. Com tudo
Onde eles estão disponíveis? isso, não é de se admirar que muitos professores estejam utili-

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zando o programa PowerPoint em suas aulas para incrementá-
Estratégias Quais atividades irei trabalhar las e torná-las mais criativas.
com meus alunos?
É. “Páuer-póinte”, aquele programa que permite que você
Avaliação Qual o produto final a ser
crie apresentações em slides animados e os projete na sala
elaborado? O que irei considerar?
de aula. Existem outros programas similares, mas esse é o
mais comum. Veja, a seguir, algumas dicas para usá-lo com
Como você percebe, utilizar a metodologia do projeto dá mais eficiência.
trabalho do que as técnicas tradicionais de ensino e também
pode assustar alguns professores. Afinal, você “solta” os 1 - Lute pela abertura. Quem tem computador sabe: geral-
alunos, não tem mais o controle absoluto sobre o quê, como mente, o trabalho feito em uma máquina não é reconhecido por
e quando eles aprendem. Mas, no final das contas, a taxa de outra. A apresentação está lá, no disquete, e ninguém consegue
aprendizagem é bem maior. E é dessa maneira que seus alu- abri-la. Pensando nisso, a Microsoft, fabricante do software,
nos irão trabalhar daqui a pouco. criou um leitor de PowerPoint. Esse programinha permite que
você exiba apresentações feitas em PowerPoint em qualquer
O futuro agradece os professores que ousarem mudar hoje. computador fabricado nos últimos cinco anos. Você pode con-
seguir mais informações no site www.microsoft.com.br.
65
2 - O Português do computador. O programa conta com um
corretor ortográfico – com todas as vantagens e desvantagens
que isso traz. Ele evita que você cometa alguns erros, mas
também costuma retirar alguns acentos e fazer alterações à Softwares educacionais
revelia. Ou seja, conserta alguns erros e cria outros. Preste
atenção nisso na hora de montar sua aula. Com a evolução cada vez mais rápida da tecnologia, a escola,
como instituição responsável pela educação e formação do
3 - Atração total. Se usado corretamente, os programas de aluno, não poderia ficar à margem e não se adaptar aos novos
apresentação de slides podem cativar a atenção de seus alu- métodos. Entre tantas opções de modernas tecnologias ofe-
nos. Usar corretamente pode ser traduzido como cuidado com recidas para a educação, os softwares educacionais têm sido
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os excessos. O programa permite que você crie dezenas de muito utilizados, pois oferecem um aprendizado interativo e
efeitos: as letras do título vão descendo aos poucos ou entram procuram fixar conteúdos curriculares através de simulações
dançando um sambinha; um slide vai lentamente se fundindo de situações do dia-a-dia. Há softwares para todas as idades e
no outro ou abrem como uma cortina, e por aí vai. De vez níveis, atingindo desde a pré-escola até o ensino superior.
em quando, é interessante utilizar esses efeitos. Mas, em
excesso, podem cansar seus alunos ou criar uma expectativa O Sistema Educacional Expoente vê a informática como uma
errada. Eles ficam esperando para ver como o próximo slide importante ferramenta pedagógica, um recurso a mais que o
irá surgir, em vez de prestar atenção em seu conteúdo. Tome professor usa para suas aulas. Eli Gonçalves, supervisora do
especial cuidado com as acrobacias visuais que vão contra setor de capacitação, afirma que o software é um recurso que
a natureza dos estudantes. Lemos da esquerda para a direita enriquece o conteúdo normal das aulas, além de ajudar a fixar
e de cima para baixo, e é com essa ordem que nos sentimos conceitos.
confortáveis.
Outra questão a considerar, segundo Eli, é a capacitação do
4 - Vírus e outros problemas. Computadores costumam professor: “Ele tem de estar apto para usar adequadamente a
encrencar e travar sem nenhum motivo aparente. Também tecnologia e aqui no Expoente nós fazemos esse treinamento
sofrem ataques de vírus. Portanto, por mais tempo que você com vários cursos, entre eles alguns específicos voltados para
invista montando sua aula em PowerPoint, tenha sempre uma a área tecnológica.”
66 aula tradicional preparada para qualquer emergência.
Os softwares educacionais têm de ter um diferencial, e nesse
ponto os de simulação são muito importantes porque possi-
bilitam ao aluno uma experiência que, sem a tecnologia, não
seria possível. Segundo Regina Rodrigues, gerente de projetos Cuidados ao adquirir um software:
educacionais do Positivo Informática, “o aprendizado com o
software é muito mais motivador, o aluno gosta da tecnologia.  Observar a faixa etária.
Para a boa formação do aluno, esse contato com a tecnologia é  Analisar o conteúdo.
fundamental”.  É essencial que permita que o aluno crie.
 Não pode ser muito poluído.
No Colégio Bom Jesus, de Curitiba, existe o chamado Apoio  Tem de despertar curiosidade e pensamento crítico.
Virtual, em que os professores elaboram, todo bimestre, o  As instruções têm de estar muito claras.

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conteúdo que será trabalhado na sala de aula. Em seguida, a
equipe de informática cria diversas atividades interativas em
cima desse conteúdo pedagógico elaborado pelos educadores. Projeto Digitando o Futuro
No Colégio Objetivo, de São Paulo, os softwares educacionais A Prefeitura Municipal de Curitiba, por meio da Secreta-
são utilizados em três níveis: ria Municipal de Educação, está desenvolvendo o Projeto
• Apostilas com CD, só para alunos da Rede Objetivo. Digitando o Futuro. Entre outras ações, como levar a Internet
à população, o projeto prevê a implantação de tecnologia da
• Softwares específicos, os quais o usuário usa como com-
informática em toda a rede municipal. Isso inclui a montagem
plemento ou atividade extracurricular.
do laboratório com softwares educacionais, capacitação dos
• Sala de aula do futuro com computadores em rede especia- professores e suporte técnico.
lizada, na qual o professor tem uma lousa de toque e um
projetor de vídeo. Segundo Eloina Gomes da Costa, pedagoga responsável pelo
Também já foram desenvolvidos no Objetivo alguns progra- serviço de novas tecnologias da Secretaria Municipal de Edu-
mas em terceira dimensão estereoscópica. cação, o diferencial do projeto está na norma descentralizada
de soluções, ou seja, cada escola estuda as suas necessidades
Ao adquirir um software, muitos cuidados devem ser tomados: e, através de seus professores e pais de alunos, escolhe a
“Se o software for melhor do que o papel, o vídeo, o livro ou opção que mais se encaixa na proposta. 67
o slide deve ser comprado. Se não for, é bobagem”, declara
Almir Brandão, diretor do Centro de Tecnologia e Pesquisa do
Objetivo.
Vantagens de se usar um software educacional: co, o magistério tem sido uma das profissões que menos tem
tirado proveito dos recursos disponíveis”. Segundo Kalinke,
. O conteúdo é passado de modo mais dinâmico. a maioria dos professores brasileiros ainda tem um grau de
. O aluno não cansa, se comparado com aulas tradicionais. envolvimento muito pequeno com a informática, assim como
. É possível a visualização da matéria e, por conseqüência, faltam recursos, treinamento, equipamento – o que acaba atra-
uma melhor assimilação do conteúdo. sando ainda mais a utilização dessas inovações na escola.
. O software tem imagem, movimento, cores, som, recursos
multimídia que completam o aprendizado. Precisamos mudar esse cenário! E, além de se apropriar da
Pequeno Manual do Professor

. Proporciona o desenvolvimento psicomotor. tecnologia, o professor precisa também saber como utilizar
. Desperta a sensibilidade e a criatividade. com sabedoria seus recursos. A Internet é, sem dúvida, uma
das ferramentas com maiores possibilidades de agregar valor
e destacar a importância do mestre. E tem mais: o professor
INTERNET que não quiser comprometer-se com a grande rede vai dispor
de informações e fontes cada vez mais pobres em relação aos
NÃO FIQUE DE FORA DESSA, PROFESSOR! colegas que a utilizam. Então, não fique de fora!

Os avanços da tecnologia estão sendo utilizados por todos


os ramos do conhecimento. Tudo é muito rápido – estamos O uso da Internet na sala de aula
vivendo em uma época de amplo acesso à informação. Recur-
Abaixo estão os 12 aspectos da utilização da Internet que
sos, como computadores, Internet, TV a cabo, DVD e CD-
podem trazer ganhos pedagógicos, segundo Sanmya Feitosa
Rom estão por aí, disponíveis a quem quiser usar. Governos e
Tajra em seu livro Informática na educação: novas ferramentas
iniciativa privada estão em pleno trabalho para a democratiza-
pedagógicas para o professor da atualidade (Editora Érica):
ção do uso de tudo isso. É uma tendência irreversível!
01. Acessibilidade a fontes diversas de assuntos para
Com todo esse mundo de informações disponíveis, nossos
pesquisas.
68 alunos estão cada vez mais atualizados, informados e interes-
02. Páginas educacionais específicas para a pesquisa escolar.
sados no que há de novo. E você, como está reagindo a tudo
03. Páginas para busca de softwares.
isso? Marco Aurélio Kalinke, autor do livro Internet na edu-
04. Comunicação e interação com outras escolas.
cação, afirma que “a despeito de todo esse avanço tecnológi-
05. Estímulo para pesquisar a partir de temas diretores podem beneficiar-se de instrumentos como e-mail,
previamente definidos ou da curiosidade dos chat, MSN entre outros. Tudo muito rápido, eficaz e de custo
próprios alunos. relativamente baixo.
06. Desenvolvimento de uma nova forma de
Sobre esse aspecto da comunicação, Kalinke nos lembra
comunicação e socialização.
de que, “por computador, os alunos podem conversar com
07. Estímulo à escrita e à leitura.
outros, em localidades remotas. Podem participar de jogos,
08. Estímulo à curiosidade.
gincanas on-line e atividades programadas, as quais geram
09. Estímulo ao raciocínio lógico.
mudanças significativas na sua forma de entender o mundo e

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10. Desenvolvimento da autonomia.
a realidade que os cerca”.
11. Aprendizado individualizado.
12. Troca de experiências entre professores, entre Um exemplo interessante que ele nos dá em seu livro é o
alunos e entre professores e alunos. ambiente de aprendizagem colaborativa Eureka, que pode ser
utilizado para cursos a distância via web ou como sala de aula
Outros aspectos positivos citados por Kalinke são a interação virtual para complementar as atividades desenvolvidas nas
que a Internet permite, a agilidade de comunicação, a possi- salas de aula tradicionais.
bilidade de publicação de materiais e a facilidade de acesso à
informação. Vejamos: Publicação de materiais – Por meio da Internet, podemos
valorizar a produção de nossos alunos. Com a possibilidade
Interação – A Internet é formidável para tornar o processo de publicarmos seus trabalhos e projetos na web, abre-se uma
educacional mais dinâmico. A possibilidade do aluno traçar nova perspectiva de divulgação dessa produção, podendo
seu próprio caminho de aprendizagem é uma dessas vanta- atingir um grande número de pessoas, fazendo-se conhecer,
gens. Pode-se chegar a resultados semelhantes de aprendizado assim, o trabalho desenvolvido nas escolas. Abre-se aí a pos-
através de caminhos diferentes (personalizados pelos próprios sibilidade de se estabelecer um diálogo com a comunidade,
alunos). Agregando-se imagem, som e animações ao processo, seja ela composta por acadêmicos ou apenas os habitantes do
fica ainda mais interessante. bairro. Projetos que antes ficavam restritos à divulgação da
Feira de Ciências, agora ficam à disposição da comunidade 69
Comunicação – Um quesito bastante importante na defesa por tempo indeterminado, tornando-se parte da história da sua
do uso da Internet na escola é a facilidade de comunicação região, o que pode servir de grande estímulo aos alunos para
que ela permite entre os participantes do processo educacio- que dêem o seu melhor na hora de produzir seus trabalhos.
nal. Não somente alunos e professores, mas também pais e
Acesso à informação – A Internet é, essencialmente, uma teúdo sobre qualquer assunto e ainda ser bastante fácil de ser
fonte de pesquisa. É um ambiente ideal para se obter e se realizada.
trocar informação. Kalinke, citando A. Sobral em seu livro
Internet na escola: o que é, como se faz (Edições Loyola), nos Entretanto, atenção: a Internet não pode ser a única fonte de
dá algumas características da pesquisa na Internet que justifi- pesquisa na escola. Ela deve ser considerada como mais uma
cam seu uso no processo educacional: ferramenta disponível de investigação.
.Oferece um número praticamente ilimitado de recursos.
Agora, vamos à prática...
Pequeno Manual do Professor

.- Requer uma palavra-chave para pesquisar e não tem,


ao contrário da biblioteca, uma organização precisa. Para ser bem aproveitada, a Internet exige que os professores
-Promove o esforço pessoal de pesquisa. orientem seu uso aos estudantes. Se faz necessário que você
indique aos seus alunos sites e links para que se organize,
-Não resulta de um esforço de reunir todas as informações
direcione e qualifique os trabalhos e atividades.
relevantes: cada site determina qual material apresentar, o
que pode deixar alguns assuntos em segundo plano. Para isso, fique de olho em indicações de sites e links em
-O formato eletrônico dos dados facilita sua obtenção. revistas, jornais e programas de televisão. A maneira mais
rápida de se encontrar algo é através das máquinas de busca.
Facilita a descoberta de múltiplos pontos de vista sobre
-
Mas você sabe o que é isso?
um mesmo assunto.
-É facilmente atualizável, podendo conter as informações “Máquinas de busca são sistemas que têm por objetivo en-
mais recentes. contrar informação de interesse dos usuários na world wide
web. Em termos gerais, elas coletam continuamente os dados
- Requer que se desenvolva uma boa capacidade de selecio-
disponíveis na web e montam uma grande base de dados,
nar aquilo que se precisa, evitando o supérfluo.
que é processada para aumentar a rapidez na recuperação de
Não parte, dada sua generalidade, das necessidades espe- informação. Sem as máquinas de busca, seria praticamente
70
cíficas dos usuários. impossível encontrar informação na Internet, uma vez que há
mais de um bilhão de páginas espalhadas em todo o mundo.”
Por ter um enorme volume de informações, a Internet é uma
vastíssima fonte de pesquisa, com a vantagem de trazer con- (Fonte: TodoBR – www.todobr.com.br)
As máquinas de busca mais conhecidas são: Critérios Sim Não
Critérios relativos a aspectos construtivistas
• Google (www.google.com.br)
• Cadê? (www.cade.com.br) O site disponibiliza ferramentas de interação?
• Altavista (www.altavista.com.br) O site trata o erro como possibilidade de
• RadarUol (www.radaruol.com.br) uma nova abordagem da questão?
• Yahoo!Brasil (www.yahoo.com.br) O site é um ambiente dinâmico?

Pequeno Manual do Professor


O site disponibiliza ferramentas e tecnologias
Para indicar aos seus alunos sites que usarão em seus tra- que permitem modelagens e simulações?
balhos, é necessário que você faça uma análise pedagógica,
levando em conta os aspectos educacionais e não apenas os Critérios relativos a aspectos ergonômicos
aspectos visuais, de conteúdo e de navegabilidade. O site apresenta boa legibilidade?

Kalinke aborda alguns critérios para se fazer essa análise O site disponibiliza documentação?
usando as teorias construtivistas e ergonômicas. Seria pratica- O site possui boa navegabilidade?
mente impossível resumir esses critérios em poucas palavras,
portanto, se você quer realmente se aprofundar nesse assunto,
vale a pena ler o livro.
WEBQUEST:
A INTERNET NA MEDIDA CERTA
Mas, para ajudá-lo a fazer uma análise rápida e eficiente –
porém, não totalmente conclusiva – dos sites que indicará aos Uma técnica de ensino, desenvolvida em 1995 pelo profes-
seus alunos, Kalinke criou um check-list que pode ser sor norte-americano Bernie Dodge, está sendo usada aqui no
utilizado para verificar se um site apresenta seu conteúdo Brasil por diversas escolas e universidades para estimular o
privilegiando uma abordagem pedagógica construti- vista e processo educacional. 71
ergonomicamente adequada. Vamos à lista:
Denominada WebQuest, a metodologia é simples de ser usa-
da, não necessita de softwares específicos, apenas um com-
putador conectado à Internet. O professor define um tema, al- prática os conhecimentos adquiridos, possibilitando a visuali-
guns objetivos e em seguida a “tarefa”, além de sugerir alguns zação da teoria na vida real”.
links interessantes e importantes sobre o assunto proposto. A
atividade deve motivar a pesquisa, e tanto o material inicial Objetivos – Além de ser uma atividade simples, a qual pode
como os resultados devem ser publicados na Internet. ser usada da pré-escola até a pós-graduação, a WebQuest
envolve e compromete alunos e professores no uso da Internet
Assim, os alunos utilizam a Internet já com um objetivo pre- voltado para o processo educacional, pensamento crítico e
estabelecido, assimilam melhor o conteúdo sem desperdiçar protagonismo juvenil, e ainda proporciona os seguintes dife-
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o tempo com pesquisas vagas nem se afastam do objetivo ini- renciais:


cial. Aqui no Brasil, a WebQuest começou a ser utilizada pela
Escola do Futuro da USP – Universidade de São Paulo e já se  educação sintonizada com a atualidade;
espalhou por várias escolas paulistanas, de Minas Gerais, Bra-  aprendizagem cooperativa;
sília e Santa Catarina. A universidade Mackenzie, por exem-  desenvolve habilidades cognitivas;
plo, já inclui a WebQuest no seu curso de pós-graduação.  transforma informações/incentiva a criatividade;
 favorece o desenvolvimento do trabalho de professores;
Segundo o coordenador técnico educacional do projeto na  é uma forma de intercâmbio e cooperação docente.
Escola do Futuro, Jarbas Barato, a WebQuest é interessante
porque faz com que o aluno transforme informações, decodifi- Receptividade – Por ser um processo de fácil adaptação a
cando a informação retirada da Internet para aplicá-la depois. cada escola e também a cada disciplina, a WebQuest teve
“Na rede existe muita informação, mas não um bom método uma boa aceitação por parte dos alunos. “Os alunos gostam
para trabalhar com ela. A WebQuest tem essa proposta, o que muito, ficam muito animados. Na verdade, a atividade tem um
chamou a atenção de muita gente”, comenta Jarbas. caráter muito motivador”, comenta Valdenice. Segundo ela,
com os professores a história foi um pouco diferente: “Apesar
O colégio Dante Alighieri, de São Paulo, foi um dos pioneiros de hoje gostarem muito do método, no começo foi um pouco
a usar a WebQuest. Para Valdenice Cerqueira, coordenadora difícil a aceitação, mas agora eles perceberam o potencial da
72 do departamento de informática, “a metodologia dá um con- metodologia, e temos alguns professores já realizando muitas
forto aos professores, além do grande alcance pedagógico. Os WebQuests.”
alunos pesquisam com a garantia de bons resultados porque
têm objetivos a serem alcançados, além de colocarem em A professora do colégio João XXIII de São Paulo, Juliana
Barella, há algum tempo também utiliza o método com os Como montar uma WebQuest – Para criar uma WebQuest
seus alunos e diz que os resultados são animadores: “Os que seja completa e eficiente, siga os passos a seguir:
alunos gostam bastante e aproveitam muito mais a atividade
do que se fosse no método tradicional, em papel. Eles gostam . Introdução (que contenha algumas informações de fundo).
de navegar e fazer pesquisas na web, e a minha intenção é
. Uma tarefa.
mostrar que a rede não é só para bater papo, mas, sim, um
local para pesquisa e aperfeiçoamento.” . Um conjunto de fontes de informações necessárias à exe-
cução da tarefa; uma descrição do processo que os alunos

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Desenvolvimento – O colégio Dante Alighieri começou com devem utilizar para realizá-la, dividido em passos clara-
uma WebQuest em sua página na Internet e hoje tem mais mente descritos.
de dez já desenvolvidas. “Tentamos fazer com que cada uma . Orientações para organizar as informações adquiridas, que
trabalhe em paralelo com o que os alunos estejam aprendendo podem ser em forma de questões ou como direções para
em sala de aula”, conta Valdenice. Segundo ela, o desenvol- completar quadros organizacionais.
vimento dá um certo trabalho, pois requer do professor muito . Avaliação.
tempo para pesquisar, selecionar os sites e propor uma tarefa . Conclusão que termine a pesquisa e mostre aos alunos o
inusitada, que chame a atenção dos alunos. “Aqui no colégio
que eles aprenderam.
fazemos oficinas em que um grupo de professores aprende
desde a história, a essência da WebQuest, e no final cada um
constrói o seu esquema dessa ferramenta. Depois a prática é
que leva à excelência”, explica. MÍDIA
“O coração da WebQuest é a tarefa proposta”, diz Jarbas, e SEUS ALUNOS TÊM FOME DE QUÊ?
acrescenta que a tarefa deve ser desenvolvida por professores
e não por catedráticos. “Ela é muito mais uma proposta didá- Ligue a televisão, abra o jornal. Você vê diversas matérias
tica do que de informática. Se o professor dominar o assunto voltadas às crianças e adolescentes. Tais reportagens podem
a ser abordado, com certeza, vai desenvolver uma boa tarefa.” lhe ajudar muito em sala de aula. Afinal, são – via de regra 73
De acordo com ele, o principal ponto a ser observado é que a – resultados de pesquisas que mostram quais assuntos preo-
tarefa deve ser autêntica, ou seja, os alunos devem pesquisar e cupam o jovem brasileiro. Ou seja, informação que sua classe
transformar conteúdos que possam existir fora da escola. quer saber.
Ao utilizar esses retratos do cotidiano junto à matéria tra- Ayrton Senna e a Agência de Notícias dos Direitos da Criança
dicional, o professor pode atrair ainda mais o interesse dos (ANDI) pesquisaram vários veículos de mídia do Brasil para
discentes. descobrir o que eles estão falando para seus alunos.

Sem frescuras – Tão importante quanto o que interessa aos A grande maioria das revistas e suplementos voltados às
jovens é a forma pela qual essa informação lhes é passada. crianças e adolescentes tem a arte como carro-chefe. Segundo
Nunca uma geração teve tanto acesso à informação como a os três institutos responsáveis, em 1999 foram publicadas
atual. O surgimento vertiginoso de novas tecnologias também 9.870 matérias voltadas aos jovens no Brasil. Dessas, 2.010
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deu a eles um poder inédito. Como seus pais dificilmente falavam de arte, o que vale dizer lançamentos de cinema,
entendem de MP3, Napster, Shareware e outras palavras CD’s, festivais de rock, bandas de pagode e companhia. O se-
esquisitas, os adolescentes percebem esse mundo como sendo gundo lugar contou com apenas 781 reportagens. Aqui temos
deles. Então, o que esse pessoal medieval (mais de 25 anos) uma boa e uma má notícia: a má é a diferença quantitativa
quer ensinar a eles? A nova geração tem massa crítica sufi- entre os dois e a boa é que o segundo colocado é a educação.
ciente para desafiar os adultos pela supremacia cultural, social
e mercadológica. Querem saber – E quando se examinam quais os assuntos
que interessam aos jovens, nota-se uma diferença maior
O mundo da publicidade já entendeu o recado. Os anúncios
ainda. Em entrevistas feitas pelos institutos de pesquisa, eles
voltados aos jovens agora se concentram na realidade pura do
responderam que querem saber mais sobre:
cotidiano. Nada de belas modelos ou cenários futuristas. Eles
querem ver a realidade como ela realmente é, sem glamour ou 1. Profissão. Esse assunto está sempre presente e dispara
idealizações. Da mesma maneira, sua sala. Eles esperam que na preferência dos estudantes que se aproximam do vesti-
você diga onde a matéria se encaixa na realidade deles, que bular. Os adolescentes ressaltaram que querem muita infor-
muda rapidamente e a cada dia. mação sobre o mercado de trabalho, vestibular e profissões.

Aqui fica a primeira lição para você: nunca pare de se atua- 2. Projetos sociais e protagonismo. Eles querem mais
lizar. Leia muito para descobrir quais as preocupações deles matérias sobre jovens que se destacam em várias áreas, em
74 naquele momento. especial a social. Os protagonistas juvenis geram identi-
0
ficação do grupo e têm um potencial inspirador para uma
Os jovens na mídia – A Organização Educacional, Cien- postura mais atuante.
tífica e Cultural das Nações Unidas (Unesco), o Instituto
3. Atualidades. Os jovens também consideram que é de interessar um maior número de discípulos, você também
função da mídia contribuir para sua formação abordando aumenta o leque de opções deles.
assuntos como política, educação, drogas, preservação do
meio ambiente, sexo e acontecimentos atuais. O grande Onde encontrar a informação – A pesquisa da Unesco,
leque de assuntos desejados pressupõe uma visão do jovem ANDI e Instituto Ayrton Senna procurou mostrar também
como um “ser inteligente”, e não como um “ser problema”. quais são os veículos que publicam as informações mais
relevantes e úteis para os jovens. Entre 31 suplementos de
4. Sexualidade. Eles querem muita informação sobre esse jornais e revistas pesquisados, os três primeiros colocados em

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assunto, ainda mais quando ligados à saúde. conteúdo foram:

Como usar esses dados – Como você notou, seus alunos que- 1º. Gabarito, suplemento do jornal Estado de Minas.
rem entender, rapidamente, o mundo que os cerca. Não tenha 2º. Tribuna Teen, página do jornal Tribuna de Alagoas.
medo, portanto, de levar-lhes recortes de jornais e revistas, 3º. Adolescência/Demais, página do jornal OPovo, do Ceará.
reportagens relevantes. De vez em quando, abra sua aula para
discussões, ligando sua matéria com assuntos recentes. Se considerarmos apenas publicações de circulação nacional,
mais fáceis de serem encontradas (e usadas em suas aulas), a
Outra possibilidade é escolher um “assunto do mês”. Faça página X-Tudo, do Correio Braziliense, levou vantagem. Seu
uma votação entre seus alunos para saber o que mais os está conteúdo foi considerado, no geral, como o 6º melhor. Depois
preocupando naquele mês e peça para que façam uma peque- vem o suplemento FolhaTeen, da Folha de S. Paulo (13º
na pesquisa nos jornais e revistas sobre o tema. No final do lugar), o Zap!, d’O Estado de S. Paulo (17°) e o suplemento
mês, pode ser formado um painel sobre o assunto. Zerou, do jornal gaúcho Zero Hora (2º lugar).

Ligue sua matéria a profissões. Se você leciona Matemática, Na telinha – A pesquisa também procurou programas de
por exemplo, diga que aquilo que está sendo ensinado será televisão que fossem relevantes aos jovens. Por uma triste
muito útil para engenheiros, estatísticos, entre outros. Faça coincidência, os mais votados (Programa Livre, com Sergi-
uma rápida explanação sobre a área de trabalho de cada nho Groisman; Altos Papos, quadro do programa Fantástico; 75
profissão. Vá além do esperado, cite um grande número de Barraco MTV) foram cancelados. O negócio é contar mesmo
profissões. No caso da Matemática, você pode mostrar como com a mídia escrita para levar o mundo à sua classe.
mágicos e pintores usam os números. Dessa maneira, além
Como usar a mídia Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef e pelo
Instituto Ayrton Senna.
A professora de Português entra na sala de aula e faz um pedi-
do que pega a todos de surpresa: Conteúdo na tela – Nesse fórum foi apresentada uma pes-
quisa feita pelas entidades participantes sobre o jornalismo
— Quero que vocês assistam à televisão hoje, prestando aten- educacional no Brasil. Ou seja, matérias referentes às escolas,
ção a um comercial qualquer. professores e alunos. Os números assustam. Segundo a pes-
quisa, no biênio 97-98, 83% do material veiculado em rádio,
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Imagine o susto da turma. Afinal de contas, todos os profes- TV e mídia impressa vieram de órgãos oficiais (MEC e de
sores passaram o ano alertando para os malefícios da telinha. diversas secretarias de ensino).
No dia seguinte, a mesma professora completa o pedido:
Em 1999, o panorama melhorou, e muito. O governo foi
— Agora façam uma redação descrevendo o comercial que responsável por 31,56% do material analisado. Pouco mais
assistiram. de 68% restante veio diretamente das redações da imprensa
comum, o que significa mais confiabilidade, independência e
Descrição, interpretação de imagens e roteiro, identificação de imparcialidade (bem, certos veículos escolhem para qual lado
mensagens. Quem diria que um filme publicitário de poucos serão imparciais, mas isso não vem ao caso). Dessas matérias,
segundos pudesse conter tanta informação? a maioria é dedicada ao ensino superior.

A mídia oferece material inesgotável para os professores Partindo para a ação – Ainda há muito o que fazer pela edu-
enriquecerem suas aulas. Todas as páginas de um jornal ou cação na mídia. Quanto mais destaque o setor receber, mais
revista podem ensinar algo. Até mesmo a página da previsão os professores ganham (valorização profissional, exposição,
do tempo pode ser utilizada para ensinar médias aritméticas troca de idéias, entre outras vantagens). Veja o que você pode
e topografia. O bom e velho rádio também é útil no ensino de fazer:
Línguas, identificação de diferentes sotaques, ritmos e lições
76
de Física.
2
Porém, a mídia pode ser ainda mais útil para a educação. Essa
foi a conclusão apresentada em um recente fórum promovido
pela Agência de Notícias do Direito da Criança (ANDI), pelo
1. Faça a sua matéria. Nenhum repórter cria uma notícia As transformações são muito rápidas e a tecnologia acaba
do nada. Seu trabalho é contar o que está acontecendo. Isto difundindo as informações e levando as imagens para dentro
é, alguém tem de chegar até ele, contar uma experiência, da casa das pessoas em tempo real. Em sala de aula, a coisa
fazer uma denúncia, oferecer material. Por isso, mãos à não pode ser diferente.
obra. Consiga os endereços de órgãos de imprensa locais e
informe-os sobre o que você e sua escola estão fazendo de É sabido que os meios de comunicação de massa bombar-
bom e diferente. Escreva artigos e submeta-os à publicação. deiam as novas gerações com uma contundência sem prece-
dentes, e é através deles que os estudantes acessam a realida-

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2. Cuidado com o conteúdo. Concentre-se em matérias de. Embora muitas escolas continuem se mostrando reticentes
que contenham experiências positivas e soluções alter- para integrar em seu seio novas tecnologias, temendo perder o
nativas que você desenvolveu. Entrar em contato com a controle educativo, tais avanços têm se mostrado mais efica-
imprensa “para ver o que acontece”, sem dados sólidos zes do que deveriam fora do âmbito escolar.
para mostrar, é perda de tempo. Imagine o ponto de vista
do leitor. O que interessa para a maioria das pessoas, a nova Na Espanha, um estudo sobre a incidência dos meios de
pintura do prédio da escola, por exemplo? comunicação de massa sobre os adolescentes, realizado pela
Revista Opinión Pública, revela que 80% da informação assi-
3. Seja receptivo. Pode ser um pouco frustrante, porém, a milada por eles entre 12 e 15 anos eram transmitidos através
grande maioria das entrevistas é feita por carta, e-mail ou dos meios de comunicação de massa e da interação social, e
telefone, o que não diminui sua importância. Procure res- somente 20% através da escola.
ponder de maneira clara e direta, evitando jargões e temas
pouco conhecidos pelo público em geral. O uso do audiovisual em sala de aula nasce com a vocação
de servir à uma educação em estéreo, buscando uma parceria
entre a escola, a sociedade e os meios de comunicação de
VÍDEO massa. Essa formulação pedagógica procura atingir o aluno
como um todo, tentando preencher as possibilidades expres-
A IMAGEM QUE SENSIBILIZA sivas dos meios audiovisuais e facilitando a coerência entre a 77
sensibilidade do aluno, a especificidade do meio e a evolução
A cada 60 segundos alguma coisa muda no mundo. Morre do sistema social.
um idoso, nasce uma criança, divulga-se uma descoberta.
A educação em estéreo pode transformar a escola, não em atraente e interessante, exercendo, muitas vezes, as funções
um centro de ensino, mas de aprendizagem, desde que alguns informativa, motivadora, expressiva, avaliadora, investigati-
critérios de coerência para a utilização didática do vídeo va, lúdica e metalingüística.
sejam respeitados. Para isso, é preciso, antes de mais nada,
conscientizar-se dos seguintes fatores: No entanto, vale observar que uma comunicação eficaz exige
. uma adequada utilização didática do vídeo exige uma mu- que as condições técnicas da sala de projeção sejam adequa-
dança nas estruturas pedagógicas; das. A seguir, algumas delas:
. o vídeo não substitui o professor, porém, impõe mudanças . o ideal é que os alunos não precisem se deslocar da sua sala
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em sua função pedagógica; de aula para assistir a um vídeo;


. uma adequada utilização didática do vídeo exige dos pro- . o ângulo visual máximo permitido para uma visão aceitável
fessores uma formação específica; da televisão é de 45 graus em relação à perpendicularidade
da tela;
. o uso didático do vídeo não substitui os demais meios au-
diovisuais, porém, modifica sua função; . a fita ou DVD já deve estar no ponto certo para a projeção;
. o uso didático do vídeo não deve anular a experiência direta . o vídeo ou DVD deve ser testado pelo professor antes da
dos alunos; projeção, para evitar perda de tempo;
. a tecnologia do vídeo é ambivalente. Sua eficácia educativa . o tempo de duração da projeção não deve ser muito longo,
dependerá de como é feito o uso dela; para evitar que os alunos desviem a atenção ou fiquem com
sono;
. com freqüência, no uso didático do vídeo, o mais importan-
te deve ser o processo em si; . o professor deve evitar falar durante a projeção para que os
alunos se concentrem e extraiam o máximo de conhecimen-
. o vídeo deve ser entendido como uma forma de expressão
to do material que será passado.
específica, autônoma e independente;
. quanto mais tecnologia for posta na mão dos alunos maior a A didática a ser utilizada depois das projeções faz parte do
eficácia do uso didático do vídeo. plano de aula e dos objetivos específicos de cada professor.
78 O mais importante nesse contexto é que o vídeo projetado
4 Não restam dúvidas de que um vídeo bem utilizado torna- cumpra o objetivo social e tenha tudo a ver com o conteúdo a
se educativo, cumprindo o objetivo de tornar a aula mais ser assimilado pelos alunos.
A cada ano é notável o número de títulos didáticos que são dos cineastas mais populares do Brasil e da América Latina,
produzidos por editoras e produtoras. Além dos documen- diretor do filme Deus é Brasileiro, e que traz no seu currícu-
tários prontos exibidos pelas televisões abertas e fechadas, lo sucessos como Xica da Silva, Tieta do Agreste, Bye Bye
ainda há um universo todo particular de produções educativas Brasil e Orfeu, confidenciou que o seu interesse pelo cinema
disponíveis para compra e aluguel. Vale conferir! aconteceu ainda quando criança, embora a escola não tenha
tido a menor participação no processo. “Minha inclinação
pela arte e pelo cinema vieram mais de atividades extracur-
CINEMA riculares, do contato de amigos e companheiros de colégio e
faculdade que se interessavam pelo mesmo assunto que eu.”

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APRENDENDO...
NO ESCURINHO DO CINEMA? Diegues acredita que o cinema seja um veículo importantís-
simo de educação, nos sentidos lato e restrito do termo. “Se
tomarmos o cinema como a base inicial do que hoje chama-
Em épocas de tantos avanços tecnológicos e muita informa-
mos de audiovisual, vamos compreender que o conhecimento
ção disponível, parece complicado dar uma boa aula apenas
no século XX foi marcado por essa diferença essencial: o
falando, falando, falando... Apesar da fala ser uma das mais
ensinamento, a aquisição de conhecimento através de imagens
antigas expressões da comunicação humana, sozinha hoje
e sons sincronizados”, explica. Para ele, o cinema mundial e o
ela se apresenta pouco sedutora, mas aliada a bons parceiros,
cinema brasileiro deveriam ser estudados no colégio, como a
como recursos audiovisuais (cinema, vídeo, Internet, televi-
literatura. “Nosso cinema, apesar de sua inconstância cíclica,
são) pode ser a grande saída para uma aula espetacular.
é um dos mais antigos do mundo. Nesses 100 anos, já acon-
teceram momentos cinematográficos de alto nível artístico e
Muitas vezes, é difícil fazer “casar” o tema do dia com um
cultural, dos quais devemos nos orgulhar muito.”
filme ou mesmo um trecho dele, mas é fato que, independente
da idade, os alunos aceitam o desafio do cinema em sala como
um entretenimento pedagógico, e levam as lições para casa Como escolher o melhor filme?
como aprendizado de vida. 79
O professor João Luís Machado, articulista do site Planeta
Estranho imaginar que grandes mestres do cinema nacional Educação, acredita que a maior dificuldade entre os professo-
e internacional aprenderam muitas coisas, do cinema e da res está na escolha dos títulos. Ele aconselha a ter em mente
vida, assistindo a bons e maus filmes. Carlos Diegues, 62, um cada passo da aula, os tópicos que estarão sendo discutidos,
os temas complementares que irão auxiliá-lo na explicação,
quais outros recursos (além do filme ou filmes que pretende
MÚSICA
utilizar) poderão implementar o trabalho, que estratégias A MELODIA QUE DITA O APRENDIZADO
devem ser usadas para dinamizar o rendimento, com que Por Edílson A. Chaves
ações individuais o professor deve contar para fazer os alunos
se interessarem pelo assunto, além dos melhores textos que Faça uma pesquisa rápida entre seus colegas, professor: quan-
possam ser oferecidos para discutir o tema da aula. tos ouvem música enquanto trabalham em casa, corrigindo
provas, por exemplo? A grande maioria, com certeza. Talvez
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“A partir do momento em que você tenha feito um bom pla- até mesmo você tenha esse hábito.
nejamento de suas atividades e esteja totalmente ‘por dentro’ Seus alunos também fazem suas lições, em seus quartos, com
de como sua aula se desenvolverá e dos tópicos primordiais a um CD ou rádio ligado ao lado. Alguns professores e pais de
serem abordados, ficará mais fácil encontrar filmes que pos- alunos reclamam disso, mas se é algo que normalmente faze-
sam ser utilizados como recurso complementar e enriquece- mos, torna-se difícil proibir ou culpar o Sepultura, a Britney
dor das atividades”, afirma Machado. Ele acredita que tendo Spears ou Justin Timberlake pelo baixo rendimento escolar
visualizado os caminhos, feito os mapas que o conduzirão dos alunos.
nessa empreitada, tudo pode ficar muito mais fácil. E finaliza,
enfatizando a importância de acompanhar os lançamentos Vantagens em alto e bom som – O uso correto da música
de filmes nos cinemas e nas locadoras de vídeos, nos jornais pode dar bons resultados em sua sala de aula. Tanto pode aju-
de circulação diária e nas revistas semanais de informação, dar na concentração como no relaxamento de seus discípulos.
através da Internet e de comentários de colegas. “Prestem Por exemplo, você acha que as salas de operação são silencio-
atenção em títulos que possam contribuir com as aulas de sas como nos filmes? A maioria dos cirurgiões tem suas músi-
Geografia, Literatura, Português, História ou qualquer uma cas e artistas preferidos que são colocados para tocar durante
das matérias de sua agenda escolar. Comentem a respeito de todo o procedimento. Com isso, eles conseguem evitar que a
filmes ou tramas que tenham visto e que tenham relação com mente divague e se concentram mais no trabalho.
os assuntos trabalhados nas aulas. Confira o material sugerido
80 e prepare-se para utilizá-lo.” Outras vantagens foram encontradas pelo psicoterapeuta
búlgaro Georgi Losanov. Na década de 70, ele descobriu que
a música barroca incentivava o lado direito do cérebro e a
absorção de conhecimentos.
A partir desse estudo, os alemães orientais desenvolveram um . O som será ligado apenas durante a resolução de exercí-
método em que canções barrocas eram usadas como fundo cios, discussões em grupo e atividades similares. Nunca
em treinamentos. Dessa maneira, eles afirmavam estimular o durante as explanações do professor. Dessa maneira, evi-
lado direito do cérebro e acelerar a aprendizagem. Ao mesmo tam-se distrações durante o aprendizado.
tempo, os sons harmoniosos fazem com que as pessoas se
. Não permita nenhum preconceito com relação a gêneros
divirtam, aprendendo naturalmente, sem pressões.
musicais, nem a predominância de um só estilo de músi-
ca. Imponha limites, como: “Não, essa semana já ouvi-
Você também pode usar todas as vantagens da música em sua
mos rock demais. Alguém tem um CD diferente?” Se for

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sala de aula utilizando-a de diversas maneiras. Ela pode assu-
necessário, leve você alguns CD’s para a sala. Assim, você
mir o papel de prêmio para uma classe participava e discipli-
estará auxiliando a descobrir outros estilos e compositores
nada e até ser o ponto de partida da aula.
que a classe talvez não tivesse acesso.
Música de fundo – Está cada vez mais difícil perceber se . Deixe absolutamente claro: nas aulas em que houver algum
os alunos levam ou não um rádio para a classe, pois esses problema (indisciplina, desinteresse, conversas paralelas,
equipamentos estão cada vez menores. E a ameaça não vem entre outros) a música estará suspensa.
só dos pequenos receptores.
A música é a matéria – Canções também podem ser usadas
A Internet nos trouxe o formato de música MP3, que pode ser para ensinar um determinado tópico ou disciplina. É o que
gravada diretamente em chips, dispensando fitas e CD’s. Foi nos informa o professor Edilson A. Chaves. Ele alerta que a
o bastante para que uma empresa japonesa desenvolvesse um música deve ser usada sempre como ponto de partida dentro
relógio de pulso com um toca-MP3 embutido. Ou seja, seus do conteúdo a ser estudado.
alunos podem levar a música preferida para a sala de aula
dentro do relógio. Segundo o professor, deve-se evitar usar a música só para
ilustrar o assunto, pois dessa maneira sua aula se empobrece-
Como proibir está cada vez mais complicado, então a saída rá e seus alunos não darão muita importância nas próximas
é usar a música como um atrativo para sua aula. É simples: oportunidades ao uso das canções. As letras de música podem 81
consiga um aparelho de som portátil e peça para seus alunos ser utilizadas em qualquer matéria. Como exemplo, veja a
se responsabilizarem pelas fitas ou CD’s. A seguir, exponha as utilização de “Marvin”, passo a passo, para lecionar sobre o
regras para a turma: êxodo rural e a luta pela terra.
Marvin No ritmo da moda de viola
1. Distribua a letra da música para cada aluno.
É possível observar que nos últimos anos têm sido bastan-
2. Execute a música em sala. Se possível, faça-os cantar na te comum a utilização da canção, seja como fonte para a
segunda execução. pesquisa histórica, seja como recurso didático para o ensino
3. Faça perguntas e sugira pesquisas de acordo com a letra. das ciências humanas em geral. Mas percebemos também
No nosso exemplo, essas poderiam ser: que grande parte das pesquisas foram concentradas em temas
• Na letra da canção podemos observar uma insinuação de como a Bossa Nova, Tropicalismo e a Jovem Guarda. Entre-
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que a vida se repete e tudo parece ser vontade de Deus. tanto, o gênero caipira, que também pertence às origens da
Anote no caderno o trecho que confirma isso. Em segui- música brasileira, simplesmente não é destacado nos livros di-
da, faça o seu comentário a respeito dessa postura. dáticos ou utilizado por professores. As músicas nem mesmo
• Faça uma relação entre a infância de um adolescente de são citadas como fontes históricas ou mesmo como crônicas
13 anos que mora no campo, na cidade e um que mora do cotidiano.
na rua (“Deus, era em nome da fome que eu roubava”).
Quais as expectativas de vida de cada um em relação ao A música caipira, se analisada com o respeito que merece e
futuro? dentro de um contexto histórico, apresenta um caráter nar-
• Podem ser feitas também pesquisas com integrantes do rativo das dificuldades do homem rural na cidade grande e a
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), negação desse fato e dos valores urbanos frente aos do sertão.
por exemplo. Seria muito importante que os professores explorassem as
representações contidas nesse gênero, associando-o com a
Existem outras maneiras de você enriquecer suas aulas com realidade vivida pelo migrante em seu novo espaço de vida, a
som. Que tal um concurso de paródias, usando temas de suas cidade.
aulas? Ou um exercício de repentistas? Após explicar rapida-
mente o que é esse ritmo nordestino, você daria um exercício Portanto, a tarefa do professor em seu cotidiano é a de superar
para seus alunos, que responderiam de forma rimada, como a visão simplista, buscando aliar o estudo de documentos his-
82 em um repente. Todas as vantagens que a música pode trazer tóricos às letras de canções que traduzam parte da memória da
a seus alunos estão a seu alcance. Só depende de sua criativi- história do Brasil, esquecida ou relegada ao esquecimento. A
dade. música caipira faz parte da memória, está dentro de um con-
texto que expressa as angústias do homem do campo frente à locomover e na “caxa” de esmola, que na verdade é o lucro
sua nova realidade – que é a urbana – e deixar esse momento da empresa. Outros temas recorrentes são inflação e mudança
cair na escuridão seria uma grave perda cultural/pedagógica. de governo, como nos indica a letra da música “A coisa ficou
bonita” de Tião Carreiro e Lourival dos Santos:
Abaixo um exemplo de como trabalhar com uma música
caipira. “Sofria sem esperança a população aflita
A inflação furava o povo com sua espada esquisita
Dentro desse contexto, o estudo das canções servirá como um Caiu do céu um governo trazendo força infinita

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elemento de análise e compreensão da realidade vivida. Den- O preço foi congelado quase ninguém acredita
tre os temas cantados nas modas e músicas caipira/sertaneja, O Brasil de ponta a ponta ... de alegria pula e grita.
muitos deles carregam críticas a governos, apreciações sobre Presidente do pé-quente chegou na hora bendita
os problemas do cotidiano, como é o caso da música “Moda A Coisa que tava feia agora ficou bonita.
do bonde camarão” antes denominada “Bonde camarão”, Presidente e seus ministros capricharam na escrita
composta por Mariano da Silva e Cornélio Pires, em que um Pacotão veio bonito, vejam só a cor da fita
caipira, ao chegar na cidade de São Paulo, descreve as carac- Amarelo, verde e branco azul bandeira que agita
terísticas dos bondes modernos: O sofrimento de um povo, meu governo agora evita
Quem anda dentro da seda respeita quem veste chita.”
“Aqui em São Paulo o que mais me amola
(...)
É esses bonde que nem gaiola.
A letra é uma referência direta ao novo governo da era pós-
Cheguei, abriro a portinhola,
ditadura militar, implantada a partir de eleições indiretas
Levei um tranco e quebrei a viola. com a eleição de Tancredo Neves, porém, esse não chegou a
Inda puis dinheiro na caxa de esmola”. governar, vindo a falecer tempos depois. Quem assumiu foi
seu vice, José Sarney (1985-1990), que recebia um País com
graves problemas sociais. 83
Essa música revela, num primeiro momento, a recusa do
caipira em entender o capitalismo na sua forma mais original, A esperança, portanto, estava no combate à inflação que veio
a de exploração, e isso se revela no uso da máquina para se com o Plano Cruzado, cujas medidas de maior destaque estão
presentes na letra: congelamento dos preços das mercadorias, Nesse sentido, entende-se que a função do professor, e em
reajuste automático dos salários, “aumentando” o poder de especial o de História, está relacionada à criação de um
compra. Comparando o ano de 1986 (ano da produção da ambiente propício ao aluno para que esse possa ter subsídios
música) com o de 1982, quando os mesmos compositores necessários à construção do conhecimento, buscando tam-
haviam escrito outra canção denominada “A coisa tá feia”, bém incorporar sua experiência ao conteúdo curricular, assim
realmente a letra fazia sentido, mas com o passar do tem- como compartilhando, dentro do ambiente da sala de aula, os
po a inflação voltou a subir gerando o caos e a revolta da diversos “conhecimentos” existentes.
população brasileira, como descreve a letra “Perplexo” da
Pequeno Manual do Professor

banda Paralamas do Sucesso, que durante o governo Sarney Dicas:


fez músicas comprometidas com as questões sociais. Nesse
momento houve ainda um ressurgimento do rock brasileiro, 1. Divida as aulas em momentos. Ex.: 1° momento: trabalhar
chamado de BRock. textos literários que tratem do tema que pretende explorar.
2° momento: solicitar aos alunos que pesquisem vários
(...) compositores e entre esses insira aqueles que vai trabalhar.
“Mandaram avisar Dessa forma, quando for trabalhar com as canções, os
Que agora tudo mudou alunos já conhecem parte da história do compositor.
Eu quis acreditar/outra mudança chegou 2. Primeiro execute a música sem a letra. Depois, peça aos
Fim da censura, do dinheiro, muda nome, corta zero alunos que identifiquem as idéias principais (faça um
Entra na fila de outra fila para pagar miniplenário).
Quero entender, quero entender, quero entender
Tudo o que eu posso e o que eu não posso” 3. Aproveite as palavras do miniplenário, distribua a letra
para todos os alunos (caso não seja possível, projete em
Assim, justifica-se o uso da música como elemento repleto um retroprojetor para toda a turma). Execute novamente
de histórias dentro de um contexto político e social, capaz a canção. Nesse momento, o professor poderá fazer uma
de colocar o aluno em relação com dado momento histórico, leitura do texto contextualizando-o para que os alunos
84 assim como estimular o questionamento de uma possível possam compreender as palavras.
0 manipulação exercida por grupos dominantes sobre o ato do
esquecimento da cultura do outro. 4. Se der tempo, o professor pode abrir um debate para
revelar questões que os alunos perceberam: além do som
(viola), o que as músicas revelaram? Qual a importância Isso é apenas a ponta do iceberg. Através da leitura, o ser
dessa música no cenário nacional? Essas melodias podem humano consegue se transportar para o desconhecido, ex-
ser consideradas documentos históricos? Por quê? Qual o plorá-lo, decifrar os sentimentos e emoções que o cercam ou
tempo histórico que as canções estão relatando? acrescentar vida ao sabor da existência. Vivenciar experiên-
cias tão reais que propiciem e solidifiquem os conhecimentos
* Edílson A. Chaves – Professor de História, palestrante e mestrando
significativos de seu processo de aprendizagem.
em Educação pela UFPR trabalhando com o título “A música caipira em
aulas de história: questões e possibilidades”. Por isso, é dever de toda escola e professores proporcionarem

Pequeno Manual do Professor


ao educando momentos que possam despertar nele o gosto
pela leitura, de amor ao livro, da consciência da importância
LIVROS de se adquirir o hábito de ler. O aluno deve perceber que a
PÁGINA A PÁGINA leitura é o instrumento-chave para alcançar as competências
necessárias à uma vida de qualidade, produtividade e realiza-
Por Gilda Lück
ção.
Além de vídeos, Internet e computador, o professor conta
ainda com mais um recurso para incrementar suas aulas. A Além disso, do hábito de leitura dependem outros elos no pro-
grande sacada é saber como utilizá-lo, já que este item está cesso de educação. Sem ler, o aluno não sabe pesquisar, não
presente na realidade escolar há muito tempo. O livro é figura sabe resumir, nem resgatar a idéia principal do texto, analisar,
batida para a maioria de seus estudantes, mas fazer da leitura criticar, julgar, posicionar-se.
algo prazeroso e divertido faz toda a diferença para conquistar
o interesse de seus estudantes. A grande questão é como despertar esse gosto em seus dis-
cípulos. Pensando nisso, apresentamos o projeto de leitura
A leitura nunca se fez tão necessária nos bancos escolares. De a seguir. Ele foi montado, a princípio, para as classes de 1ª
um lado, há o aumento nas fontes de pesquisa e uma crescente a 4ª série do ensino fundamental, mas você pode adaptá-lo e
preferência pelo construtivismo. De outro, vemos o abandono aplicá-lo em qualquer nível (superior, inclusive).
85
do vestibular em favor de novas formas de avaliação para
admitir um aluno na faculdade. Só se sai bem nesses testes Para todos – Não pense que ele só interessa ao professor de
alternativos quem tiver por hábito se atualizar lendo jornais, Português ou Literatura. Todas as matérias do currículo exi-
livros e revistas. gem que o aluno possa interpretar corretamente um texto, seja
ele um enunciado de uma equação matemática ou a descrição . interligar e acessar temas atuais de leitura conforme o
do relevo de um país. É inclusive um dos pressupostos dos currículo;
novos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN): todos de- . disponibilizar material de leitura em sala de aula.
vem ter domínio sobra a Língua oral e escrita, tendo em vista
sua autonomia e participação social.
E tudo mais que possa atrair o aluno para a leitura. Para isso,
vale tudo, até tratar o livro didático com um pouco menos de
Também segundo o PCN, o material didático continua a ser
“respeito”. O discente deve olhar para ele como olha para um
de extrema importância, mas não é o único recurso. É funda-
brinquedo, roupa ou CD favorito. Algumas dicas para você
Pequeno Manual do Professor

mental que os alunos tenham acesso e saibam lidar com uma


conseguir essa aproximação:
constante variedade de obras de apoio e literatura, além de
outros tipos de textos: jornais, revistas, documentos, etc.

Estimular a leitura é fazer com que seus alunos compreendam


1. Tire da estante – Crianças gostam de encontrar livros
em todos os tipos de lugares. Colocá-los nos mais di-
versos locais irá deixá-los curiosos e interessados nas publica-
melhor o que estão aprendendo na escola, em particular, e o
ções. Alguns exemplos:
que acontece no mundo, em geral. É entregar ao discípulo um
horizonte totalmente novo. E essa deve ser a missão de todos Livros e revistas sobre animais em uma gaiola ou pequena
dentro de uma instituição de ensino. jaula.
Em uma bandeja.
A parte do professor – Algumas condutas de ensino e de ati- Um móbile de livros em um canto da sala.
vidades devem fazer parte do contexto diário da sala de aula:
Livros de histórias em uma caixa.
. ler em voz alta para os alunos;
Em (sobre) um instrumento musical, disponha livros que
. usar a literatura como forma de recreação, prêmio e des- apresentem músicas e rimas.
contração;
Livros sobre brincadeiras e aventuras podem estar sobre
. acostumar os alunos a ler silenciosamente todos os dias um caminhão de brinquedo.
86 por, no mínimo, 20 minutos;
Quando o assunto é o mar e seus habitantes, eles podem
2 . criar jornais, publicações, murais de avisos e recados; estar na boca de um tubarão de feltro ou em uma concha.
. interligar os hábitos de ler, ouvir, falar e escrever; E todas as demais idéias que você possa criar.
Para classes mais adiantadas, facilite o acesso ao material
impresso. Ponha-o em uma pilha no meio da sala, faça ele
circular de mão em mão, etc.
5 Destaque os livros recomendados e seus analisadores
Abra um espaço no mural da sua sala e coloque o nome
de seus alunos. Ao lado, cole um envelope no qual se colo-
cará o nome do livro ou livros recomendados, e o por quê.
A imaginação deve ser usada para que o ambiente favoreça o Incentive a participação de todos, perguntando o que o aluno
interesse pela leitura. É preciso ser um inventor para ler bem. leu que poderia interessar a seus colegas. Se quiser, divida em
dois setores: um geral (vale qualquer livro ou revista) e outro

2 O livro escondido será o escolhido – Esconda livros e específico à sua matéria. Esse mural também permite que

Pequeno Manual do Professor


revistas sobre o assunto de estudo da unidade em foco você verifique se os estudantes sabem apreciar a leitura com a
e motive os alunos na busca. Use frases como: “Vamos ver mente aberta, analisando, criticando, exercendo a habilidade
quem consegue achar o livro escondido?” Quando o acharem, de sintetizar a idéia por trás da publicação.
o professor deve ler algumas passagens para motivar o inte-
resse na obra e usá-lo como base na matéria que será exposta.
6 Criar livros de livros – Livros individuais ou coletivos
podem ser criados sempre que uma obra for lida (por

3 A sacola secreta – O mistério que envolve a descoberta


é o maior motivador. Tenha uma sacola do tipo da Mary
Poppins, com alguns livros bem interessantes. Ao final da
você ou pelos estudantes). A atividade poderá ser feita em
capítulos, sendo registrada quase como um diário, vinculan-
do o desenvolvimento de valores, como responsabilidade e
C
aula, diga algo como: “O que será que tem na minha sacola
hoje?” Leia algumas páginas dos livros ou empreste-os como
perseverança. Aproveite também para observar a diferença de
estilos entre os integrantes de sua classe e talentos individu-
prêmio a determinados alunos. ais. Escrever tais livros oferece ao discente um caminho para
responder, analisar e apreciar a literatura.

4 Comitê bibliotecário cooperativo – Os alunos adoram


ter responsabilidades em sala de aula. Seis deles podem
ser nomeados responsáveis pelos livros da classe, organizan-
Você também pode pedir que eles escrevam um capítulo a
mais no livro. Ou seja, depois do final, o que acontece com os
do-os por autores ou assunto, verificando se estão bem cuida- personagens? Entretanto, essa fase não funciona muito bem
dos, etc. Classes mais adiantadas poderão até sugerir novas em Hamlet e outros do gênero, por absoluta falta de persona- 87
aquisições, incluindo idéias de como conseguir dinheiro para gens vivos no final.
comprar a obra (vaquinha, rifa, etc.).
7 Troca de tesouros – Uma caixa de sapato ou camisa
decorada pelo aluno poderá abrigar seus tesouros preferi-
dos na área da leitura. O livro que ganhou no aniversário,
Porém, antes de iniciar esse projeto, o coordenador deve veri-
ficar se ele tem as características necessárias para que o plano
tenha êxito. Ou seja, se ele possui:
o recorte do jornal que fala a respeito de seu time. Cabe ao  o hábito de ler;
professor propiciar momentos de apresentação, apreciação e
troca desse material.  criatividade e imaginação;
 sensibilidade de percepção nas destrezas e
Uma caixa grande de papelão decorada por todos os estu- dificuldades dos professores envolvidos no projeto;
Pequeno Manual do Professor

dantes pode conter os livros pessoais prediletos de cada um  crença e propagação do valor do hábito da leitura;
(devidamente nomeados e acrescidos da sigla “v.v.” – vai e  conhecimento de métodos e técnicas para o desenvolvi-
volta) para manuseio e leitura de todo o grupo. Dessa forma,  mento do hábito da leitura.
você estará também desenvolvendo valores, como união,
amizade e respeito. Possibilitando a troca de um livro, revista A partir daí, é hora de colocar a mão na massa.
ou história escrita pelo próprio aluno, você começa a construir
o conhecimento coletivo. Conteúdos procedimentais – Há muitos caminhos para
implantar um programa de desenvolvimento de leitura com
A vez do coordenador – O coordenador é a chave desse pro- sucesso, mas todos dependem da capacidade de focar em ler,
jeto de leitura. Dele partirão as idéias fundamentais, a seleção pensar, escrever e criar. Sua atenção também deve estar volta-
de outras atividades, a análise e escolhas definitivas de tipos da para o atendimento específico de necessidades individuais
de livros e atividades extras. O seu trabalho se fundamentará com a finalidade de orientar os procedimentos de sala de aula
em três eixos básicos: e pessoais (seus, professor) para atingir o equilíbrio necessá-
1. o desenvolvimento de leitores, escritores e pensadores rio a cada etapa e seu nível de exigência.
proativos;
E há outras ações que o coordenador pode tomar:
2. a organização do programa de leitura no cotidiano do
88 processo ensino-aprendizagem;
4 Parcerias com livrarias – Deve-se encorajar os alunos
3. o fornecimento de estratégias educacionais que ajudarão a conhecer, freqüentar e apreciar o ambiente e consumir
os alunos a alcançar a excelência. livros. Isso faz parte da formação de um bom leitor. Fale
com donos de livrarias para que abram espaços e dispo-
nibilizem livros a fim de que aconteça uma aula diferente Visitando editoras – Dê ao aluno a oportunidade de perce-
sobre um tema escolhido dentro do currículo. A freqüência ber como o livro ou revista surge. Desde a pesquisa original
poderá ser mensal e o professor trabalhará outros valores, até a impressão, enfatizando que, além de cultural, uma
como o respeito à propriedade alheia, diferentes estruturas publicação também é um produto comercial como outro
de comportamento em espaços específicos, o “saber pedir”, qualquer. Isso é trazer significado ao ensino, como pede a
esperar, compartilhar, etc. nova Lei de Diretrizes e Bases do Ensino (LDB). Portanto,
visitas programadas a gráficas e editoras, encontros com a
Seus alunos são reconhecidamente grandes consumidores esfera do mercado propriamente dito, enriquecerão todo o
na área de leitura. Muitas livrarias já começam a facilitar o

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processo.
acesso deles, criando assim novos consumidores e alimen-
tando o hábito pela leitura.
Revistas, gibis e companhia – O hábito de colecionar
“Não ligo se o escritor é leviano ou denso, nem me importa revistas e identificar-se com seus heróis pode ser um passo
se o livro é pequeno ou imenso. Eu gosto é de autor que só para fazer o mesmo com livros. O imediatismo visual da
pensa o que eu penso.” época atual apresenta-se como um ponto desfavorável à
criação do hábito de freqüentar bibliotecas. Então, todos os
Vamos ler para você – Espaços devem ser abertos para recursos possíveis são válidos para despertar o interesse de
que alunos de determinada série participem de atividades nossos jovens. A criação da “Revista Mania”, por exemplo.
de leitura, jograis, teatro com outras séries, grupos de pais e Através dela, uma vez por mês a biblioteca abriria suas
escolas, creches, asilos e orfanatos. portas para leituras, trocas e manuseio de revistas. Desde as
mais acadêmicas até os gibis.
Concurso de capas – Cada série promoverá suas escolhas
dentre os livros coletivos que criaram. Devem desenvolver
capas e outros elementos para o livro, exercitando os valo- Veja o que chegou – Apresente e alardeie as novas aqui-
res de estética, sensibilidade, harmonia, beleza, originalida- sições da biblioteca. Isso despertará o interesse e mostrará
de, etc. Para classes mais adiantadas, é um ótimo exercício que aquele espaço poderá ser vivo e dinâmico.
de computação diagramar e imprimir um livro. 89
O dia do autor – Determine datas específicas nas quais au-
É inegável que a leitura melhora fundamentalmente o ser
tores serão lembrados, comentados, lidos e homenageados
humano. Desde que, claro, ele seja alfabetizado.
através de cartazes e murais.
Autor também é gente – Tenha informações sobre os necessárias algumas recomendações para o uso da cor em
autores vivos que possibilitem o contato sempre que os projeções gráficas de computadores. Estabelecer regras ge-
professores desejarem. rais ou específicas para seu uso é difícil devido à diversidade
de fatores que a influenciam. Todavia, a seguir enumero
E a direção? – Ela não pode ficar de fora na implantação algumas recomendações:
do projeto de leitura no colégio. Cabe a ela analisá-lo,
realimentando-o com suas idéias experientes e sugestões
criativas, autorizando a compra de novos livros e convites a As cores em uma apresentação multimídia não devem
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profissionais da área. Pode também entrar em contato com ser selecionadas separadamente e, sim, dentro de um
livrarias e editoras, formando os projetos de parcerias e contexto geral. A aparência de um slide pode ser alterada
visitas. quando outros slides são abertos na mesma tela.

Devem ser respeitadas as diferenças culturais e fisiológi-


Gilda Lück – Mestre em Educação pelo Lesley University (EUA) e dou- cas entre os indivíduos. Pessoas idosas têm uma sensi-
tora em Engenharia da Produção.
bilidade reduzida para cores, o que, por sua vez, pode
requerer o uso de cores mais brilhantes.

USO DA COR EM APRESENTAÇÕES Evite o uso do azul e do vermelho simultaneamente. Eles


têm diferentes profundidades de foco e esse processo é
MULTIMÍDIA fatigante para o olho humano.
Por Aldrin Santana
As cores devem satisfazer as propostas da apresentação.
O uso das cores em uma apresentação, em geral, desperta Elas não devem ser utilizadas indiscriminadamente,
sensações psicológicas, afetivas, fisiológicas, materiais e somente como elemento decorativo.
sinestésicas.
Use um grupo limitado de cores. Desse modo, os slides
90 Quando usada indiscriminadamente, a cor pode ter um efeito de uma mesma apresentação estarão mais propensos a
negativo ou de distração. Isso pode afetar, não somente a terem um “padrão” consistente.
reação do usuário em relação à apresentação, mas a produti-
vidade, pois se torna difícil focalizar na tarefa. Por isso, são
Empregue a cor como uma forma de informação adicional É recomendável o uso de uma cor neutra para fundos. As
ou aumentada. Evite confiar nela como o único meio de cores neutras (por exemplo, cinza-claro) aumentam a visi-
expressar um valor ou uma função particular. bilidade das outras cores.

Aplique esse recurso para realçar ao invés de usar subli- Limite-se a aplicar entre duas e cinco cores em suas apre-
nhado (e use sublinhado ao invés de itens piscando). sentações. É melhor ser conservador nessas horas. Para os
novatos, o uso de quatro cores distintas é mais apropriado.
Sempre que possível, evite usar cores muito quentes, tais Essa quantidade permite espaço extra na memória de curto

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como rosa e magenta. Essas tonalidades parecem pulsar na tempo.
tela e ficam difíceis de focalizar.
Use um código de cores consistente e familiar, com refe-
Não use várias cores em uma única apresentação. Isso rências apropriadas. As denotações comuns no ocidente
distrai a atenção do espectador e causa a perda de foco na são as seguintes:
atividade principal.
• Vermelho: pare, perigo, quente, fogo
Sobre um fundo escuro, recomenda-se o uso da cor verde • Amarelo: cuidado, devagar, teste
para o texto. O verde está no meio do espectro solar e o • Verde: ande, O.K., livre, vegetação, segurança
comprimento de onda que produz a sensação do verde é o
• Azul: frio, água, calmo, céu
ponto mais alto de sensibilidade do olho humano.
• Cores quentes: ação, resposta requerida, proximidade
Utilize cores brilhantes e contrastantes com cautela. Esses • Cores frias: status, informação de fundo, distância
elementos atraem a atenção do usuário e o seu emprego
• Cinzas, branco e azul: neutralidade
deve ser reservado para áreas importantes, caso contrário,
o espectador pode achar mais difícil saber para onde olhar
e ficar confuso.

Eleja cores monocromáticas para o texto sempre que for 91


possível. Elas são mais nítidas, aumentando a legibilidade
e visibilidade do texto.
É necessário o uso da mesma cor para agrupar elementos
relacionados. Também é importante ser consistente no
agrupamento das tonalidades. Não use uma cor particular
para um elemento que não esteja relacionado com outro.

Projete primeiramente em preto e branco e, então, adicio-


ne a cor, pois ela aumenta o processamento cognitivo e
visual de uma informação.
Pequeno Manual do Professor

Cabe enfatizar que cada cor possui a sua função. Assim,


o professor precisa saber dosá-las e misturá-las para que
possam contribuir com a elevação da apresentação. As cores
quentes sempre devem ser usadas em menor escala e mis-
turadas às demais cores frias. Assim, o equilíbrio entre a
vitalidade e a tranqüilidade fica estabelecido.

Aldrin Santana – Licenciado em Arte, especialista em Computação


Gráfica e mestre em Comunicação e Cultura. Atualmente, leciona na
Faculdade de Macapá – FAMA, Faculdade de Tecnologia do Amapá
– CETE e E. E. Mª do Carmo Viana dos Anjos - SEED-AP.

92
10
PROFESSOR NOTA
10 NA PRÁTICA
Professor nota 10 na prática HPRÁTICA 1
Com certeza, uma das características mais requisitadas para
que um educador se transforme em um professor nota 10 e, A busca de métodos não-convencionais
conseqüentemente, faça de sua aula um momento fascinante para lecionar Física, Química,
para seus alunos, é a criatividade na hora de expor o conteú-
do.
Matemática e até Inglês

Já existem muitos mestres que conseguem exercitar essa

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qualidade com louvor e estão obtendo resultados fantásticos. O motor ronca, o giro sobe. Em volta dele, várias crianças
Para ajudar você a seguir o mesmo caminho, reunimos uma vêem ali, rente ao chão, mais do que um motor, quatro rodas e
série de sugestões que vão mudar a sua forma de lecionar as um chassi tubular. Elas vêem um conjunto de reações quí-
disciplinas. micas, de noções de física, combustão, ação e reação, leis de
movimento, inércia. Todas essas teorias postas em prática por
Que tal você se espelhar nessas experiências bem-sucedidas suas próprias mãos em um kart montado por eles.
e começar a sua pequena revolução em busca de um ensino
inovador? Foi essa a idéia que o engenheiro mecânico automobilístico
Wagner Fernandes levou às escolas, aproveitando o incentivo
do governo de São Paulo (o projeto Escola da Família). Ele
juntou toda sua experiência e conhecimento com o material
didático que possuía e apresentou a idéia a escolas da região.
A Escola Estadual Professora Blanca Zwicker gostou da idéia
e foi em frente.

94
Ensinar de tudo – Wagner destaca que a beleza de dar uma
aula com um kart, montagem e desmontagem de motores é a
HPRÁTICA 2
quantidade de assuntos que são tratados nas aulas. “Começo A busca de métodos não-convencionais
trabalhando com os motores, depois de uns três meses, passo para lecionar Língua Portuguesa
para o kart”, diz Wagner. “E nisso, ensino de tudo.” De tudo,
mesmo. Veja: Elaborar o conteúdo, pesquisar, buscar informações atuais e
desenvolver exercícios. São normalmente esses os passos para
• Combustão, triângulo de fogo – Química preparar as aulas. Porém, os professores de Português têm
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• Cálculo de cilindrada, volume de motor – Matemática uma tarefa a mais: os exemplos, aquelas frases para expli-
• Suspensão, torque – Física car sujeito, crase, conjunções, pronomes e tudo que envolve
• Kart, slicks, pole position – Inglês nosso idioma.
E mais trajetória, tangência, por que uma roda esterca mais Muitos educadores não dão grande importância a isso, usam
do que a outra... a lista de assuntos que podem ser tratados é nomes comuns, verbos e situações aleatórias. O professor
interminável. Mas o que vale mesmo, segundo Wagner, é o in- Wellington Borges Costa pensa diferente. “Acho que a gente
teresse de seus alunos. “Certa vez, uns alunos meus desmon- precisa ter um capricho com os exemplos, que não podem se
taram o motor da Kombi do pai e me ligaram pedindo ajuda limitar a frases pobres”, explica. O professor Wella, como é
para montar de novo”, conta. Você conhece outro exemplo de mais conhecido entre seus alunos do cursinho pré-vestibular
alunos arranjando lição de casa para fazer? Positivo, em Curitiba, utiliza música para lecionar. Ele exem-
plifica as matérias com canções de Chico Buarque, Caetano
Veloso, Cazuza e tantos outros ícones da música popular
brasileira. Além de aprender Português, os estudantes têm um
contato maior com a cultura e história do Brasil, conhecem
a trilha sonora e os fatos que marcaram o País. “Os alunos
95 acabam descobrindo os pais e ouvem os discos deles”, conta
Wella, enfatizando, ainda, a importância de aproximar a famí-
lia em todo esse contexto.
“Conhecer nossa cultura é conhecer o próprio caráter do
Brasil, a brasilidade.” A música sempre esteve presente na
HPRÁTICA 3
vida do professor Wella e foi por causa dessa paixão que A busca de métodos não-convencionais
ele conheceu sua esposa e parceira em diversos projetos, para lecionar Matemática
Luciana Salles Worms, professora de Geopolítica. Os dois,
que sempre buscaram na música uma saída criativa para as
Ninguém é obrigado a participar. E mesmo não valendo nota,
aulas, elaboraram um livro para contar a História do Brasil
já são mais de 200 estudantes de várias idades que participam
do Século XX. Através de 176 canções populares, Luciana e
das aulas de dança que acontecem na Escola Estadual

Pequeno Manual do Professor


Wellington retratam desde a República Velha e a política do
Washington Alves Natel, em São Paulo. As turmas, da 5ª série
café-com-leite ao impeachment de Fernando Collor, as duas
do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, são dividi-
eleições de Fernando Henrique Cardoso e temas atuais, como
das e a atividade extraclasse acontece duas vezes por semana,
globalização, AIDS e a questão agrária. Brasil do Século XX
depois da aula.
ao Pé da Letra da Canção Popular ganhou o prêmio Jabuti
2003 na categoria “livro didático para ensino fundamental e
Ao perceber que os alunos sofriam um certo bloqueio com a
médio”. “Os vestibulares exigem cada vez mais que o estu-
matéria, o professor ficou incomodado, porque o rendimento
dante entenda a época e os fatos, e não decore datas, nomes e
dos estudantes era péssimo e eles não conseguiam assimilar o
características”, diz o professor Wella, ciente do compromisso
conteúdo. Diante das dificuldades que os alunos tinham com a
que tem ao ensinar seus alunos.
disciplina, Tolentino decidiu inovar e utilizar outros métodos
de ensino, pois precisava encontrar um jeito de fazer com que
eles aprendessem e prestassem atenção.

Os passos de dança de salão formaram a combinação perfei-


ta. “Para dançar, eles precisam de concentração, raciocínio
lógico, reflexo e noção de tempo e espaço, e a partir disso, em
sala de aula, associam aos exercícios de Matemática”, conta 96
o professor. O método é simples, basta ter vontade de ensi-
nar e aprender. São 18 ritmos diferentes: forró, bolero, salsa,
samba, entre outros.
Jackson coloca o “som na caixa” e fica lá na frente, orien- HPRÁTICA 4
tando a turma – “Um passo para direita, giro de 180 graus...”
Importante: não tem nada de dizer ao aluno que é para dar A busca de métodos não-convencionais
uma volta inteira, e sim, 360 graus. para lecionar Física
A receptividade tem sido tamanha e o retorno tão fantástico
Facilitar o entendimento da Física mostrando, ao vivo e a
que Jackson não se preocupa com as horas a mais que fica na
cores, como e por que os fenômenos acontecem. E melhor,
escola sem ser remunerado. “Os alunos melhoraram 50% e os
gastando pouco dinheiro. O professor Luis Carlos Ferrer, que
Pequeno Manual do Professor

bloqueios em relação à disciplina estão sendo superados aos


leciona na Escola Comunitária de Campinas, Anglo de São
poucos.” Mas o trabalho é rigoroso, porque os resultados não
Paulo e Campinas, utiliza o método “saber fazer” em suas
aparecem da noite para o dia. “São necessários, pelo menos,
aulas de Física. Com sucatas e materiais reciclados, os alunos
três meses de aula para perceber a mudança tanto nas notas
– com a ajuda do professor – montam os “equipamentos”
quanto no comportamento”, lembra o professor, que está
necessários para assimilarem o conteúdo.
preparando um gráfico comparativo entre os alunos que estão
participando das aulas de dança e os que ainda não se interes-
Trabalhando com sucata desde a década de 70, o professor
saram pela nova maneira de aprender Matemática.
empolgou-se mais ainda em aproveitar materiais reciclados
em sala de aula depois de fazer alguns cursos com o profes-
Dicas do professor Jackson Tolentino para ensinar Matemática
sor Rodolpho Caniato e ler os livros escritos por ele. “Fiquei
através da dança: ainda mais entusiasmado, e a cada experiência discutida com
. Meia volta – 180 graus colegas, aperfeiçoava detalhes e criava novas situações”,
conta Ferrer.
. Volta completa – 360 graus
. Corpo reto – ângulo de 90 graus Usando duas latinhas de alumínio, uma pintada de branco e a
. Direita e esquerda
outra de preto, um abajur e um termômetro, é possível ensinar
97 calorimetria. Os alunos vão conseguir entender o motivo da
. Simetria – ao mudar de lado, respeitar o espaço do colega diferença de temperatura da lata branca para a preta. E assim
. Noções de área – quantos alunos cabem na
as perguntas surgem: qual lata reflete mais luz? Por quê?
Dessa forma, os alunos aprenderam fazendo. Outro exemplo
quadra ou na sala de aula
citado pelo professor é a simplicidade na explicação sobre
máquinas. “Com uma régua, algumas roldanas e um barbante,
HPRÁTICA 5
podemos conversar sobre máquinas simples.” A busca de métodos não-convencionais
para lecionar Química
Na verdade, o objetivo do professor é, a partir das aulas prá-
ticas, discutir novos conceitos. “Aprender não é o suficiente,
Evitar a famosa “decoreba” e trabalhar com o raciocínio, além
é importante que o aluno interaja com os livros. Uma coisa é
de aliar o conteúdo da matéria com o que acontece no dia-a-
colocar na lousa, outra é ele fazer, errar, procurar alternativas
dia. A vontade de aproximar os alunos da realidade e fazer

Pequeno Manual do Professor


e respostas. Isso sim o leva à aprendizagem.”
com que eles tirem suas próprias conclusões fez com que a
professora Luciana Taddei, que atua no magistério há mais
Para aplicar essas aulas é preciso recorrer ao que tem pró-
de 20 anos, buscasse alternativas para ensinar a disciplina de
ximo à realidade dos alunos, pois eles, além de montarem o
Química. “Com o suporte do pessoal que faz parte do grupo
equipamento, procuram o material que irão usar. “Essa busca
de pesquisas em ensino de Química da USP, resolvi ousar
pelo conhecimento, o saber fazer, é a peça fundamental para
e comecei a ensinar alguns conceitos de química através da
o ensino. Produzir algo é importante, senão o conteúdo fica
produção de vinho”, conta Luciana.
infértil”, completa o professor.
Como os livros não davam todas as dicas, a professora fez
A energia potencial elástica, energia potencial gravitacional e
pesquisas e procurou alguns especialistas na fabricação
energia cibernética também podem ser explicadas na prática,
artesanal do vinho. Os próprios estudantes do 2º ano do
e o material usado é simples. Você vai utilizar uma ripa de
ensino médio participam de toda a produção da bebida, desde
madeira, alguns elásticos e uma bolinha de gude.
amassar as uvas com as mãos até o engarrafamento. Durante
esse processo, eles aprendem a teoria na prática e os conceitos
de decantação, fermentação, rendimento, densidade, tempera-
tura e pressão são assimilados facilmente. Eles percebem que,
se algo for alterado, como a temperatura, o resultado também
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será outro. “Como os alunos vivem dizendo que os cálculos
de química são chatos, essa é uma forma deles aprenderem e
entenderem, sem precisar decorar.”
Para participar dessa aula os estudantes vestem avental branco
e luvas de plástico, e o trabalho é realizado dentro do labo- H PRÁTICA 6
ratório de Química da Escola Lourenço Castanho, em São A busca de métodos não-convencionais
Paulo. Todo o passo-a-passo da fabricação do vinho dura mais para lecionar Geografia
de um mês. “Com esse tipo de atividade, o aluno se vê em
uma posição que permite que ele tire as próprias conclusões”, Explicar as questões do Oriente Médio vestido de palestino,
afirma Luciana. abordar a industrialização brasileira com roupa de operário
e uma marmita na mão, em aulas que começam às dez horas
Pequeno Manual do Professor

Depois de pronto, o vinho foi levado a um especialista para da noite e se estendem até as seis da manhã. Essa é a maneira
ser analisado. Os resultados não poderiam ser melhores. que o professor Maurinto Reis dos Santos utiliza para ensi-
Além de terem produzido a bebida corretamente, os alunos nar Geografia aos seus alunos de 3º ano e cursinhos de Porto
melhoraram as notas das provas. Segundo a professora, que Alegre e Florianópolis.
aplica esse método há três anos, “as dificuldades em relação à
matéria agora são bem menores”. O “Bailão”, como são chamadas as aulas, reúne conhecimento
e diversão. Os alunos aprendem o tema que está sendo abor-
Os alunos não experimentaram a bebida depois de pronta, dado e depois, por volta das três da manhã, se divertem com
por dois motivos: primeiro porque ainda não têm idade para música e dança. “É uma aula lúdica, diferenciada, que integra
consumir bebida alcoólica e segundo porque é apenas uma e aproxima os alunos”, comenta o professor.
experiência e o produto não está apropriado para o consumo.
Tudo começou há oito anos, quando um grupo de alunos
solicitou aulas durante a madrugada. Ele atendeu ao pedido e
levou um violão e um chapéu de nordestino para descontrair.
Outros alunos ficaram sabendo e começaram a pedir aulas as-
sim. O sucesso foi tanto que ele já teve de organizar aulas em
um ginásio para mais de cinco mil pessoas, mas garante que
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o aprendizado é melhor em turmas menores. Hoje ele utiliza
o método esporadicamente, em média uma vez por mês, para
não tornar a aula uma rotina.
O professor Maurinto leva para a sala de aula músicas que
tratam de êxodo rural, violência e preconceitos para contextua-
HPRÁTICA 7
lizar com os temas trabalhados. “Acho que o currículo escolar A busca de métodos não-convencionais
está muito distante da realidade do aluno. Ele aprende os tipos para lecionar História
de solo da China e não faz idéia do nome da terra que tem em
casa”, diz. A idéia de valorizar o conhecimento dos alunos repetentes
fez com que a professora Adriana Toledo Sievert utilizasse
O professor destaca que essas ações são fundamentais em a capoeira para ensinar a História do Brasil. “Havia muita

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matérias como a Geografia, porque permitem ao aluno com- resistência por parte desses alunos, que já estavam se sentindo
preender os fatos e não partir para a “decoreba”. Para ele, rotulados pela escola e pela família. Reagiam com agressivi-
valorizar a Geografia é pensar politicamente a educação. “Se dade e influenciavam outras crianças, que também precisavam
não pensar de forma diferenciada, vou continuar dando a mes- resgatar sua auto-estima por fatores emocionais e por dificul-
ma aulinha que o meu professor deu há anos”, acrescenta. “Eu dades reais”, conta Adriana.
sempre acreditei que educar é seduzir. Só educa quem seduz,
tanto em casa, na escola ou no trabalho. Se não confiarem em Como muitos deles se negavam a realizar as atividades pro-
mim, não vão ouvir o que tenho a dizer.” postas em sala de aula, foi necessário buscar outro caminho
para estabelecer um canal de comunicação e ganhar a confian-
ça dos alunos, que já estavam estudando pela segunda vez o
Dicas para aplicar a idéia do professor Maurinto em sua
mesmo conteúdo. A professora, então, procurou conhecer os
aula:
gostos da classe e percebeu uma grande afinidade do grupo de
estudantes com a expressão musical.
Utilize um palco pequeno, na própria sala, e use alguns
adereços. “Não ensaio nada, faço tudo espontaneamente. O Três alunos da turma da 3ª série do ensino fundamental da
aluno sabe que o professor não é músico ou ator. O impor- Escola Básica Municipal Alberto Stein, em Blumenau, Santa
tante é mexer com a fantasia do aluno ao mesmo tempo que Catarina (dois deles repetentes), praticavam capoeira e a
está trabalhando um assunto sério. Ele vai muito entusias- professora propôs a eles que mostrassem aos colegas o que
mado para esse tipo de aula porque sabe que vai ver algo aprendiam na academia. No dia seguinte, eles levaram para 100
diferente”, explica o professor Maurinto. a sala de aula CDs, roupas brancas e organizaram uma roda,
em que jogaram, explicaram os movimentos e mostraram seu
gingado e suas habilidades.
Esse foi o início de um novo vínculo entre todos. Uma grande
oportunidade de resgatar a história dos negros no Brasil e
HPRÁTICA 8
realizar uma grande pesquisa, pois a história da capoeira é A busca de métodos não-convencionais
marcada pela influência negra e indígena. Os conteúdos ensi- para lecionar Biologia
nados foram a escravidão, riqueza cultural, costumes, religião,
miscigenação, música popular brasileira, a história do líder Despertar o interesse dos alunos por temas atuais e polêmicos
negro Zumbi e outros personagens. nem sempre é uma tarefa fácil. Quando se trata de economia,
política ou biotecnologia, então, nem se fala... Duas insti-
Pequeno Manual do Professor

As aulas, sempre animadas, foram integradas com a arte e par- tuições de São Paulo utilizaram uma maneira diferente para
tiam da história da literatura infantil, como o livro O berimbau, estimular os estudantes a discutirem a questão dos alimentos
de Raquel Coelho, ou de canções de Dorival Caymmi, Caetano transgênicos.
e Gil. Os resultados foram aparecendo aos poucos. Percebeu-se
nesses alunos maior concentração, coordenação motora, paci- Amparadas pelo Enlaces-Brasil, uma organização não-gover-
ência e dedicação diante das atividades. Houve grande melhora namental que desenvolve e coordena ações de aprendizagem
nos trabalhos de equipe em que se repartem tarefas segundo via Internet, as escolas estaduais Professora Beatriz de Qua-
regras elaboradas pelo próprio grupo, escutam mais uns aos ou- dros Leme e Professora Luiza Hidaka desenvolveram o tema:
tros e controlam um pouco melhor o barulho e volume da voz alimentos transgênicos – heróis ou vilões? “Cada instituição
para não desconcentrar os colegas, afinal, a capoeira precisa de teve uma classe participante. Os alunos foram divididos em
concentração e ajuda mútua do grupo. “Esse método de ensino três grupos: contra, a favor e produção e consumo”, conta a
já faz parte da minha visão de mundo e educação”, completa professora de Biologia e uma das coordenadoras do método
a professora, que agora sempre que vai ensinar a História do usado, Analice Delorence Di Santo.
Brasil utilizando a prática da capoeira.
Outra educadora, e também integrante da coordenação, a
professora Márcia Morales, escreveu a história do Zé para que
os alunos compreendessem melhor o assunto. O personagem é
101 um plantador de batatas que descobriu a tecnologia dos
transgênicos e passou a utilizar em sua produção. Os estudan-
tes analisaram sites e outras fontes, como jornais e revistas,
para pesquisar e entender o tema. Foram abertas contas de
e-mail para que durante oito semanas os envolvidos trocassem
Aproveite a idéia em suas aulas:
mensagens pela Internet para discutir as questões envolvi-
das. “O resultado foi gratificante. Os alunos debateram o seu
ponto de vista e geraram uma polêmica enriquecedora”, diz a . Escolha temas atuais e estimule os alunos a pesquisa-
rem em jornais, revistas e sites. Promova debates para
professora Analice. Para finalizar a discussão, a história do Zé
que sejam levantadas todas as questões do assunto,
teve continuidade e deixou no ar algumas perguntas.
desde a parte técnica até opiniões contra e a favor,
assim os estudantes desenvolvem o senso crítico.
No final do período de estudos, o grupo que era contra os

Pequeno Manual do Professor


alimentos transgênicos convenceu toda a classe da escola
Professora Beatriz de Quadros Leme da mesma opinião. E o . Entre em contato com outras escolas para realizar
parcerias, incentivar a interatividade e aumentar o
objetivo do método utilizado, que era mostrar aos alunos os
círculo de relacionamento dos seus alunos.
avanços biotecnológicos para que compreendessem o tema e
pudessem traçar um paralelo entre a fome e a biotecnologia,
foi alcançado. As professoras conseguiram aguçar o interesse
dos alunos e eles tiveram boas lições de Biologia.

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