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LADINO

a) JUSTIFICAÇÃO DO TÍTULO DO CONTO


Miguel Torga deu o título de LADINO porque neste conto a personagem principal, que é um
pardal, chama-se Ladino. “Ladino” significa antes de tudo astuto, manhoso e sabido,
características que encontramos no pardal de Torga. Manhoso, porque em pequeno e antes de
ser “matulão, homem feito” era a mãe que o alimentava e em adulto vive com muitas
precauções, procurando “safar-se” sem se preocupar com os outros.
b) IDENTIFICAÇÃO DA MENSAGEM DO CONTO
O autor transmite uma mensagem que alerta o leitor para as pessoas que têm a mesma
personalidade do pardal Ladino, há que ter cuidado com os egoístas, os hipócritas, os cínicos,
os oportunistas. Torga deixa-nos o recado de que há muitas pessoas deste género na
sociedade: sob aparências inocentes, escondem-se por vezes feios caracteres.
c) IDENTIFICAÇÃO DA CRÍTICA SOCIAL
A crítica social que podemos ver neste conto vai de encontro ao que já foi dita na alínea
anterior. Critica-se nitidamente os que vivem como o pardal Ladino que veem primeiro o seu
umbigo e passam por cima dos outros sem escrúpulos: "primeiro eu, segundo eu, terceiro eu".
d) IDENTIFICAÇÃO DA ATUALIDADE DO CONTO (da mensagem, da crítica...)
A mensagem que o autor nos transmite neste conto é atual porque a sociedade em que
vivemos é muitas vezes falsa, hipócrita, corrupta. Utilizando a metáfora de um pequeno
pardal, à primeira vista um pássaro inocente e ingénuo, Miguel Torga mostra a verdadeira face
de certos seres humanos que nos rodeiam. As aparências iludem, ontem como hoje!
e) ESQUEMATIZAÇÃO DAS IDEIAS DO CONTO
f) IDENTIFICAÇÃO DA ANTROPOMORFIZAÇÃO NO CONTO

Encontramos, neste conto, vários momentos de em que o protagonista animal Ladino


comporta-se e tem características de um ser humano:

- Egoísta, só pensa em si e no seu bem-estar; vê os outros a passar fome, mas ele não se
incomoda com isso e sabe como se alimentar, mesmo em tempo de crise: “Enchia primeiro o
papo e, depois, a palitar os dentes, fazia coro com a pobreza.” (p.45)

- Hipócrita, dá lições de moral aos outros, mas não as aplica a si mesmo: “-Uma calamidade,
realmente. Mas vocês não tomam juízo! É cada ninhada, que parecem ratas! [...]Solteirão
impenitente, tinha, no capítulo de saias, uma crónica de pôr os cabelos em pé. Tudo lhe servia,
novas, velhas, casadas ou solteiras. Mas, quando aparecia geração, os outros é que eram
sempre os pais da criança.” (p.45)

- Cínico, faz-se desentendido quando a conversa não lhe agrada: “- Quando é esse funeral, ti
Ladino?

Mas o velho raposão, em vez de se dar por achado, respondeu muito a sério, como se fizesse
um exame de consciência:

- Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o milho em Trás-
os-Montes.” (p.46)

TEXTO ORDENADO

Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre
Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham andado. O piolho, o frio e o costeio não
poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.

Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida. Mas não
queiram saber... Quase que foi preciso um pára-quedas.

E pousou. Muito ao de leve, delicadamente, pousou no meio daquela matulagem toda, que se
desunhava ao redor duma meda de centeio.

E tanto fazia a Ti Maria do Carmo pôr espantalho no painço, como não. Ladino, desde que não
lhe acenassem com convite para arrozada numa panela, aos saltinhos ia enchendo a barriga.
Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito, como quem fuma um cigarro.

E o farsante quase que chorava também. Quisesse ele, e a infeliz resolvia num abrir e fechar de
olhos a crise que a apavorava. Pois sim! Olha lá que o safado ensinasse como se ia ao
galinheiro comer os restos!... Enchia primeiro o papo e, depois, a palitar os dentes, fazia coro
com a pobreza

Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o milho em Trás-os-
Montes.
a) JUSTIFICAÇÃO DO TÍTULO DO CONTO

b) IDENTIFICAÇÃO DA MENSAGEM DO CONTO

c) IDENTIFICAÇÃO DA CRÍTICA SOCIAL

d) IDENTIFICAÇÃO DA ATUALIDADE DO CONTO (da mensagem, da crítica...)

FAZ O ESQUEMA DAS IDEIAS


Ordena o texto

Grande bicho, aquele Ladino, o pardal!

- Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o milho em Trás-
os-Montes.” (p.46)

Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham
andado. O piolho, o frio e o costeio não poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.

E o farsante quase que chorava também. Quisesse ele, e a infeliz resolvia num abrir e fechar de
olhos a crise que a apavorava. Pois sim! Olha lá que o safado ensinasse como se ia ao
galinheiro comer os restos!... Enchia primeiro o papo e, depois, a palitar os dentes, fazia coro
com a pobreza

Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida. Mas não
queiram saber... Quase que foi preciso um pára-quedas.

E tanto fazia a Ti Maria do Carmo pôr espantalho no painço, como não. Ladino, desde que não
lhe acenassem com convite para arrozada numa panela, aos saltinhos ia enchendo a barriga.
Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito, como quem fuma um cigarro.

E pousou. Muito ao de leve, delicadamente, pousou no meio daquela matulagem toda, que se
desunhava ao redor duma meda de centeio.

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