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A (in)sinceridade em Dora

A (in)sinceridade em Dora

Luiz Carlos Mabilde*, Porto Alegre.

Transcorridos mais de cem anos de sua publicação, o caso Dora faz jus a
sua notoriedade devido a peculiaridades e idiossincrasias. O autor elege
discutir o que lhe parece basilar para sua singular perenidade: a misteriosa
e intrincada mescla de fatores adversos ao tratamento, os quais
determinaram sua precoce interrupção. São destacados alguns pontos
do conhecido caso, inclusive dos sonhos, como forma de o autor especular
sobre razões implícitas nas questões do sigilo, ponderar sobre problemas
técnicos de Freud e conjecturar a respeito da origem sexual da hostilidade
e sintomas em Dora. Autores como Fonagy e Laplanche são utilizados
como apoios às teses do artigo, o qual finaliza questionando a posição de
Lacan sobre o erro admitido por Freud que o levou à descoberta da
transferência.

Palavras-chave: Freud, tratamento psicanalítico, caso Dora, histeria,


conflito psíquico, sexualidade, trauma, identificação, transferência, sigilo.

* Psicanalista. Membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

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Luiz Carlos Mabilde

Introdução

Embora fragmento de uma análise, parece que o caso Dora estava fadado a
se tornar célebre, pois Freud (1905 [1901]) hesitou, demorou, modificou, retardou
muito sua publicação. E, de fato, o artigo virou um marco da técnica psicanalítica
e trouxe fama à jovem paciente, tratada por apenas três meses.
Dora tinha somente dezoito anos, mas, ao procurar seu futuro analista, já
sofria como gente grande. Não fosse a dura realidade dos sintomas, eu duvidaria
que a orgulhosa paciente tivesse aceitado se tratar. Não por acaso, ela abandonou
o tratamento tão logo pôde. Sem dúvida, o caso virou referência em virtude da
descoberta da transferência. Esta foi uma descoberta incidental? Ou, considerando
a interrupção do tratamento, a teoria da transferência constituiu a forma pela qual
Freud justificou seu fracasso terapêutico?
Não é difícil imaginar Freud, recém transposto o século XIX, enfrentando
dificuldades resistenciais sem maiores recursos técnicos. Ademais, Dora, se
instigante, era também irritante – desagradável segundo Jones (1953) – uma vez
que sua (in)sinceridade, traduzida em distância e frieza, impunha fantástico
obstáculo à abordagem freudiana. A intenção dele era reconstruir a história de sua
doença. A dela era impedi-lo.
Sabemos, hoje, graças aos percalços de Freud, que a repressão, uma vez
transformada em resistência transferencial, tornava Dora indiferente aos esforços
de Freud em fazê-la colaborar com o tratamento.
Além disso – em termos de transferência – pergunto-me: Como Freud
poderia lidar com algo que ele ainda não havia descoberto? As intrincadas
questões do sigilo – um verdadeiro mistério, segundo Jones (1953) – suas causas
e repercussões constituem outros aspectos interessantes do caso, não apenas porque
representam contribuições à técnica, mas também por ensejar especulações sobre
a verdadeira participação do casal K no universo sexual de Dora. São, pois, meus
objetivos:
1) rever, brevemente, o caso em si, destacando alguns pontos para posterior
discussão sobre a técnica utilizada e seus desdobramentos;
2) discutir as questões de sigilo no caso Dora;
3) ampliar e contrapor entendimentos sobre as posições de Freud e Lacan
em relação ao erro técnico ocorrido no caso Dora.

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O caso clínico

O caso é bem conhecido, razão pela qual, por um lado, cabe apenas destacar
alguns pontos cruciais da história pessoal, familiar e psicopatológica da paciente;
por outro lado, chamar a atenção para determinados fragmentos da trama ou drama
que tenham a ver com os objetivos deste artigo.
Não parece haver dúvidas sobre o motivo pelo qual o artigo levou quatro
anos para ser publicado: sigilo! Tanto da parte do editor quanto do próprio Freud
há claras declarações do problema, assim como existe, inclusive, a informação
explícita do motivo da recusa da primeira revista para qual o artigo foi enviado:
quebra de discrição. É claro que as indiscretas revelações sexuais, contidas no
caso clínico, devem ter jogado papel importante, afinal o próprio Freud previa
acusações contra ele por fornecer informações de pacientes que não deveriam ser
reveladas.
Mas teria havido só isso? Haveria problemas em revelar intimidades de
pacientes se estes não pudessem ser identificados? De mais a mais, é simplesmente
inexplicável por que Freud ofereceu o artigo a outro periódico depois que já tinha
sido aceito. Se não bastasse, guardou-o por quatro anos! Além disso, Freud tinha
extrema habilidade em alterar o material de modo a impedir a identificação do
paciente.
Minha suposição é que não só os personagens poderiam ser identificados,
assim como a história real conteria algo ainda mais contundente: além de Herr K,
o próprio pai também esteve interessado sexualmente em Dora. E, nesse caso,
Freud levou muito tempo para achar a maneira certa de disfarçá-lo. Essa seria a
explicação de tantas dificuldades na publicação do caso. Além do mais, existem
determinadas contradições expressas na sua narrativa, assim como intrínsecos e
sutis elementos sugestivos do que seria o envolvimento de seu pai. Voltarei a esse
ponto adiante.
De qualquer modo, essa especulação não altera outra conjectura que faço
sobre o caso: seja por Herr K ou por ambos os homens, parece-me um caso de
abuso sexual cujo início teria ocorrido antes dos sete anos de idade da paciente.
Quer dizer, corresponderia à teoria da sedução restrita (superestrutura) de Freud,
cujo adulto é o agressor, ocorrendo na infância ante a passividade (despreparo) da
criança e abrangendo um encadeamento de cenas.
Laplanche (1987) procurou ampliá-la com novas teorizações em uma
espécie de modelo tripartido: 1) aspecto temporal (sedução infantil), cujo agente
é o pai da paciente histérica e está presente na noção de a posteriori, o trauma em
dois tempos; 2) aspecto tópico (sedução precoce): nesse caso, a mãe é o agente da

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sedução e ocorre mais cedo; 3) aspecto tradutivo (sedução originária): refere-se


às ideias de significantes enigmáticos (tradutivos) e de seduções opacas, adquirindo
propriedades sedutoras somente porque se ligam ou se veiculam ao enigmático.
Este tipo de sedução seria inerente – e estruturante – a todos os bebês, em função
de eles não portarem condições para decifrar as mensagens sexuais enigmáticas
(na higiene, por exemplo) da mãe.
Dora era muito bonita, sagaz, inteligente e de sensualidade provocante.
Com esta última expressão eu estou me referindo à curiosidade, à condição de
detetive ou mesmo à atração que Dora exerce sobre todos que a desafiam naquilo
que ela tem de mais agudo: a sua (in)sinceridade sexual. Aliás, é da experiência
de todo analista a perplexidade e frustração causada pelas (in)sinceras respostas
dadas pelo caráter histérico às interpretações, sobretudo precipitadas, sobre
dependência e transferência erótica.
Forma-se um dilema técnico na mente do analista: por um lado, ele recebe
sonhos, deslocamentos para pessoas adjacentes, associações em que,
inequivocamente, há claros indícios de uma transferência já formada. O analista
os interpreta, e o que ocorre? Nada! A paciente simplesmente os ignora e prova
isso por meio de cruel indiferença afetiva! Fria e impassível, a paciente descarta
interpretação e analista de uma só vez. O que ocorreu? O que fazer?
Bem, o que aconteceu é que, no caso do sonho, ele é um dos desvios por
onde se pode fugir à repressão e um dos principais meios empregados pelo método
indireto de representação na mente. Cabe, portanto, redimensionar a técnica no
sentido de privilegiar a resistência à conscientização da transferência em detrimento
do seu conteúdo. Hoje é bem fácil afirmar isso.
Retomando Dora, um possível trauma psíquico infantil pode ser cogitado
antes dos seus sete anos de idade, pois foi nessa época que começou prolongada
enurese noturna. Sem solução – por falta de efetiva repressão ou abolição do fator
excitatório externo – tal trauma teria gerado outro sintoma (dispneia) quando
Dora tinha oito anos, assim como outros surgiram na sequência de sua vida clínica.
Dois fatos chamam atenção aqui.
Primeiro, Freud não fazer qualquer conexão entre sintomas, doença do pai
e a grande aproximação deles em decorrência da enfermidade. Note-se que esta
ocorreu aos seis anos de Dora, sua dedicação a ele tem início aí e seus sintomas
vêm logo a seguir. Em segundo lugar há um período de quatro anos sem novos
sintomas. Mas, aos doze, ela começa com enxaqueca e tosse nervosa.
Novamente, é chamativo Freud não ter lembrado de que houve fatos
similares: o descolamento de retina de seu pai (e tratamento em quarto escuro),
aos dez anos e, aos doze, seu pai apresenta crise confusional, paralisias e

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perturbações mentais. Tais fatos podem ser encarados como possíveis situações
de reaproximação entre pai e filha, seguidos de novos sintomas. É claro que Freud
conhecia tais implicações. No próprio texto, ele é taxativo a respeito:

Desde então tenho visto uma grande quantidade de casos de histeria... Em


nenhum deles deixei de descobrir os determinantes psicológicos que foram
postulados nos Estudos, ou seja, um trauma psíquico, um conflito de afetos
e – fator adicional que apresentei em publicações posteriores – um distúrbio
na esfera da sexualidade (1905 [1901], p. 22).

Freud liga tais fatos, mas o faz tão somente aludindo ao complexo edípico
de Dora, na esfera psíquica do desejo deslocada para Herr K, etc. Assim sendo,
ressurge minha pergunta: Por que Freud não ligou tais elementos – de sua equação
etiológica – aos diretos personagens em questão?
Acredito que o idílio e traumas (sexuais) de Dora foram totalmente
atribuídos a Herr K como forma de viabilizar a publicação do caso clínico. Dá
essa impressão, porque é exatamente Herr K, na sequencia da história, quem
aparece, romanticamente, caminhando com ela, junto ao lago onde foi abordada.
Não parece uma cena comum – ainda mais naquela época – a de uma moça de
apenas dezesseis anos, andando com seu vizinho adulto, só os dois, com tamanha
intimidade. Além disso, dois anos antes, já ocorrera um beijo na boca da paciente
dado pelo mesmo personagem do lago (p. 26). E eu perguntaria: Apesar deste
precedente sexual, Dora se exporia a uma nova e possível abordagem? E outra
questão: Caso a indignação de Dora fosse apenas com o senhor K – do qual se
afastara aos dezesseis anos – por que – aos dezoito – pensaria em se matar?
Quais seriam mesmo os objetos de sua ira?

O primeiro sonho

“Uma casa estava em chamas. Meu pai encontrava-se de pé ao lado de


minha cama e me despertou. Vesti-me rapidamente... Mamãe queria salvar sua
caixa de joias... descemos apressadamente as escadas...” (Freud, 1905 [1901],
p. 61).
Era um sonho de repetição e estão em cena Dora e seu pai. O sonho mostra
a fuga de Dora de ser consumida pela avalanche sexual e salvar seus genitais. Ela
já o tivera por três vezes em L (cena do lago) e, agora, em Viena, o sonho havia
retornado. Qualquer que seja o ângulo enfocado ou os personagens eleitos, o

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sonho é inequívoco quanto a sua natureza sexual, edípica e traumática. Este último
aspecto corresponde à amplitude que o conceito adquirira na obra de Freud: abuso
real ou desejo sexual conflitoso vivido pelo sujeito da ação psíquica como trauma.
Embora Freud interprete que o pai de Dora represente o senhor K, é
interessante notar outras interpretações suas do mesmo sonho, as quais também
poderiam ser interpretadas em relação ao seu pai, como agente da ação psíquica:
“E se alguma coisa acontecer será culpa de papai” (grifos meus).
“Por esse motivo – no sonho – você escolheu uma situação que expressa o
oposto – um perigo do qual seu pai a está salvando” (p. 66, grifos meus).
Freud analisa o sonho com interesse e minúcia incrível próprio de quem
recém escrevera A interpretação dos sonhos (1900) e já começara a escrever os
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Disseca-o, insiste com Dora
sobre detalhes, pressiona por conclusões, como se estivesse querendo provar suas
teorias. Prova-as? Sim, mas se percebe sua inquietude e pressão em empregar
tanto teoria quanto técnicas recentemente conquistadas.

O segundo sonho

Eu caminhava a esmo por uma cidade desconhecida... Cheguei a uma casa


onde eu morava, fui para meu quarto e encontrei uma carta de mamãe...
Esta dizia... que papai estava doente, agora está morto e você pode voltar...
Dirigi-me então para a estação... Vi uma floresta espessa e nela penetrei,
encontrando um homem... Ele se ofereceu para me acompanhar, mas
recusei... Vi a estação a minha frente, mas não conseguia alcançá-la... Tive
a ansiedade que se experimenta nos sonhos quando não se consegue mover...
A seguir, estava em casa. Devo ter viajado nesse meio tempo... A criada
respondeu que mamãe e os outros já estavam no cemitério (Freud, 1905
[1901], p. 91).

Trata-se de um sonho longo e com muitos detalhes, os quais são,


admiravelmente, isolados, associados e elucidados. Forma uma verdadeira aula
de como se deve analisar um sonho. Reflete:
1) uma fantasia de vingança contra seu pai;
2) uma fantasia de defloração;
3) uma fantasia de parto;
4) amor pela senhora K.
Os três primeiros itens não se constituíram em problemas junto aos

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psicanalistas. O quarto, é claro, tem tudo a ver com a controvérsia engendrada


por Lacan, o que discutirei adiante. Mas vale a pena – um pouco mais – deter-me
no primeiro item. Não parece haver dúvida quanto ao caráter vingativo de Dora
contra seu pai, afinal, no sonho, ele é simplesmente morto por ela. Também parece
natural Freud conectar tecnicamente a carta de Dora, ameaçando suicídio, com a
carta do segundo sonho. O que, de novo, causa-me estranheza é o fato de Freud
não haver feito qualquer conjectura – a não ser pelo ingrediente da frustração
edípica – sobre algum motivo mais intenso para a magnitude (assassinato!)
agressiva de Dora.
Na hipótese de Freud, no que se refere à primeira carta, Dora pretenderia
dar um susto no seu pai devido aos seus ciúmes em relação à senhora K. Porém,
na do segundo sonho, Freud não estabelece qualquer ligação entre a dramática
vingança e algo talvez sofrido passivamente por Dora: qualquer coisa na direção
do que Freud lhe dissera sobre a agressão sexual sofrida na cena do lago: “Até
hoje você suporta as consequências” (Ibid., p. 101).
O fato mais forte contra possível interesse sexual por parte do pai, além de
Herr K, seria o fato de o primeiro ser impotente. No entanto, chama a atenção que
Freud fixa como razão da vingança de Dora contra Herr K (bofetada) a infeliz
alegação dele para o beijo: “Eu nada recebo da minha mulher” (Ibid., p. 103).
Ocorre que esta frase é idêntica à usada por seu pai para justificar a Dora
sua atitude sexual para com a senhora K (p. 103). Além disso, se o pai de Dora
teve sífilis, tal dado não leva a pensar num perfil de homem impotente. E Freud o
declarou curado da enfermidade (p. 17).

A (re)descoberta da transferência

No pós-escrito, Freud justifica as omissões do trabalho e, pela primeira


vez, caracteriza a transferência como um fator terapêutico importante no processo
analítico.
É interessante notar que Freud dá a entender no texto, por assim dizer, não
ter ignorado a existência da transferência de Dora, mas, sim, ter se descuidado,
imaginando que ainda teria bastante tempo para lidar com ela.
Considerando-se o conhecimento (em sentido ligeiramente diferente) e a
amplitude com que se ocupara da transferência em Projeto para uma psicologia
científica (Freud, 1950 [1895]), Interpretação de sonhos (Freud,1900), A
psicoterapia da histeria (Freud, 1895) e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade
(Freud, 1905), pode-se concordar com ele no sentido pretendido de não ignorá-la

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como um simples deslocamento (Mabilde, 2013, p. 73). No entanto, tanto ele a


ignorou que foi totalmente surpreendido pela atuação de Dora.
Somente quando se dispôs a escrever o caso e consultar suas anotações foi
que se deu conta do fenômeno (Quinodoz, 2007, p. 83). Daí em diante, sua
proverbial capacidade de admitir imprecisões ou equívocos e transformá-los em
avanços teóricos brilhou novamente: o obstáculo virou instrumento! Mas, como
indagação, me ocorre: O que fez Freud ignorá-la? Eu diria que a causa foi algo
muito semelhante ao que determinou Dora a abandonar o tratamento.
Molestada frequente e precocemente, qualquer criança curva-se perante a
imposição externa criando falsa estrutura. Feito isso, sua sorte e a de seus objetos
estão seladas. Dora jurou vingança contra objetos sedutores, cooptativos e
intrusivos. Como tal tornou-se cega e completamente (in)sincera, escondendo
suas dores, sexualidade e objetivos vingativos.
Minha hipótese é que Freud – em seu compromisso irrevogável consigo
mesmo em provar suas teorias – tornou-se cego para a prática clínica que o ensinara.
Ele queria basicamente, confirmar suas teorias sobre a origem sexual dos sintomas
histéricos e o papel dos sonhos como reveladores dos conflitos inconscientes.
Assim sendo, pareceu seduzido e sedutor para com Dora em virtude dessa
perspectiva em mente. A seguir cooptou-a a contar sua história de um modo
persuasivo e tópico. Lugar por lugar, anatomia por anatomia, sintoma por sintoma.
Imagino o que sentiu Freud ao ouvir o primeiro sonho de sua paciente.
Teria sido alguma coisa do tipo: – Aí está tudo o que eu já descobrira, a ser
ratificado pelo meu método de análise de sonhos, e agora vou agir!? Analisou
símbolo por símbolo, ato por ato. De insistente, passou a intrusivo, buscando
reconstruir o passado traumático esquecido de Dora. É nesse sentido
(arrependimento) que entendo sua comovente honestidade ao revelar (e nos
ensinar) seus erros técnicos. Mas quando os percebeu, era tarde demais, Dora já
partira triunfante.
A propósito, Fonagy (1999) produziu interessante trabalho sobre esse
particular problema, qual seja o de perseguir tecnicamente a reconstrução como
a única forma de obter mudança psíquica. Este autor desafia o papel da repressão,
da recuperação da memória reprimida e o valor da reconstrução como técnica
realmente eficaz. Considera a metáfora arqueológica de trazer a ideia reprimida à
tona como uma técnica enganosa ou mesmo inadequada. Vai mais longe ao afirmar
que quem enfocar a recuperação da memória como técnica persegue um falso
deus.
Para ele, as memórias autobiográficas não eclodem como memórias
declarativas à luz da reconstrução, tal como se fossem réplicas da experiência

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real. Elas – por estarem defensivamente distorcidas em função de desejos, fantasias


e circunstâncias do sujeito e objetos – pertencem à esfera da memória procedural,
não declarativa, não expressa por palavras e existem até sem associações ou
representações. Em nenhum sentido memórias trazidas pela reconstrução podem
ser pensadas como provas de apoio à verdade histórica.
Por este motivo, Fonagy (1999) argumenta em favor da técnica da
transferência em detrimento da reconstrução. Não por desprezar estas últimas, ou
por entender que mudança psíquica corresponderia à mudança das relações
objetais, mas sim porque acredita ser a transferência o meio eficaz de a análise
acessar as memórias procedurais (grifos meus).
Em minha opinião, isso foi o que não aconteceu com Freud ao tratar Dora.
Sua obsessiva busca por reconstruções levou-o a um afastamento completo dos
elementos relacionais nas sessões, que poderiam ter ajudado a esclarecer sintomas
e cenas traumáticas de um modo menos descritivo e mais favorável à continuidade
da análise. Sobre o que foi escrito por Freud a posteriori, cabem ainda dois últimos
registros. Como se sabe, muitos anos depois de escrever o caso, Freud descobriu
e comunicou o que constituiria seu segundo erro técnico: haver ignorado o amor
reprimido e homossexual de Dora por Frau K. Tal equívoco teria ocorrido devido
à restrita direção de uma transferência vertical masculina que fizera dos estados
amorosos de Dora: seu pai, Herr K e o próprio Freud. E ainda que este último não
se nomeasse na transferência (primeiro erro), fizera-o implicitamente na condução
da análise, criando assim o alegado ponto cego em relação a Frau K.
Embora eu esteja de acordo que o amor homossexual poderia estar
encoberto, dificultando o amor heterossexual de Dora (e dos histéricos em geral)
– e isto constituiu nova magistral descoberta de Freud – considero discutível seu
valor clínico em Dora. Vinte anos depois, afirmar que este seria (e não outro) o
dolo imposto a Dora e a razão de sua desgraça dá a impressão de uma interposição
teórica – à luz de novos conhecimentos adquiridos, por exemplo, com A
psicogênese de um caso de homossexualidade feminina (Freud, 1920) – do que
propriamente a identificação do conflito nuclear da paciente. Neste caso de 1920,
o que encontramos é justamente uma jovem fixada na mãe, que, uma vez
decepcionada com o pai ao constatar a gravidez de sua mãe, busca companhias
sexuais femininas como forma de se vingar do pai e retomar a mãe para si (Freud,
1920, p. 195-198).
Convém lembrar, a propósito, que, em 1903, Dora casou e teve um filho.
Em 1923 ela teve crises de angústia e sentimentos de perseguição em relação aos
homens (grifos meus). Depois disso viveu em Viena até 1930 e tornou-se grande
amiga de Peppina Zezenka, nada mais, nada menos do que Frau K! Finalmente,

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emigrou para os Estados Unidos, vindo a falecer em Nova York em 1945


(Quinodoz, 2007, p. 82).
Acredito que seus amores por sua protetora era um dos conflitos dela (como
está claro pelos seus ciúmes), mas, talvez, não a causa central, a menos que Dora
também tivesse sido molestada por mulheres (mãe, senhora K, governanta) e não
apenas por disputá-las com seus rivais.

Lacan, a inversão dialética e o caso Dora

É realmente interessante como Lacan (1951), ao raciocinar com base numa


relação quaternária, examina o caso Dora. Segundo este autor, Dora chegou a
Freud para denunciar o abuso sofrido, mas negado por todos. Ele ouve a história
dos dois casais, a inversão amorosa de um conjuge com outro e a indignação de
Dora para com a desordem criada. Freud acreditou nela e assim fundou a
transferência positiva de Dora porque se estabeleceu a dialética da verdade, aquela
que se atém à palavra do analisado (Lacan, 1955, p. 108).
No entanto, o problema desta análise foi com a transferência negativa. Lacan
(1951, p. 41) declara: “Freud – provavelmente por estar identificado com Herr K
e talvez um pouco enamorado por Dora – insistiu que ela estava apaixonada por
Herr K” (conforme meu comentário anterior sobre transferência vertical
masculina). E diz, em outro artigo (Lacan, 1953, p. 41), que Freud tentou modelar
o ego de Dora, achando que ela deveria se apaixonar por um homem, o que criou
uma resistência negativa transferencial como resposta raivosa às dificuldades
impostas ao tratamento feitas pelo próprio Freud.
Lacan (1951, p. 96) transforma a autocrítica de Freud em uma crítica mais
abrangente. Ele não taxa como simples erro de Freud não haver percebido e
interpretado a transferência de Herr K para si. Por conduzir a análise pela técnica
das transferências, no deslocamento do pai de Dora para Herr K (o grifo é meu),
é que Freud foi incapaz de fazer a devida inversão dialética, a qual confrontaria a
tese de Dora (Herr K) com sua antítese (senhora K).
Nesse sentido, para Lacan (1951, p. 216), “a Psicanálise é uma experiência
dialética” e a transferência somente surge por interrupção desta última, na medida
em que o analista deixa de oferecer a antítese adequada ao relato da paciente
(tese). “A transferência, deste modo, constitui-se em uma resistência, uma
resistência do analista, ao não conseguir propor a retificação do sujeito com o
real, a fim de reconstruir sua vida como historicidade” (Ibid., p. 216).

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Para Lacan (Ibid., p. 218-221), Freud acertou ao fazer a primeira inversão


dialética: E qual a sua própria parte na desordem da qual você se queixa?
Igualmente, ele esteve correto na segunda inversão: Qual o verdadeiro motivo de
seus ciúmes em relação ao seu pai?. No entanto, fracassou na terceira ao não
fazer a pergunta que inverteria a tese de Dora (do caso do pai com a senhora K
para sua paixão por ela): O que é para você a senhora K? (p. 93).
Em minha opinião, é bastante discutível esta posição de Lacan em relação
à transferência. Eu começaria perguntando: O que é inversão dialética? Seguindo
Hegel, Lacan (1963) responderia: – A dialética é uma etapa necessária para se
fazer brecha nesse mundo dito de positividade. Para ele, portanto, Freud foi
positivista, empirista, sua meta era a objetivação de certas propriedades de Dora
(Você está apaixonada por Herr K!), esquecendo-se de propor um curso dialético
à direção da análise. Prova disso foi recorrer à (falta da interpretação da)
transferência para justificar o abandono do tratamento.
Como se observa, para Lacan (1951)

a transferência – enquanto entidade – é inteiramente relativa à


contratransferência, esta última compreendida como a soma dos
preconceitos, das paixões, dos embaraços e até mesmo da informação
insuficiente do analista, num dado momento, do processo dialético (p. 224).

Daí a falha.
O que me parece crucial entender, entretanto, na proposição freudiana da
interpretação da transferência é, exatamente, vê-la como um recurso técnico dentro
do processo dialético. Isto é, já que o que impediria o analista de construir a
inversão é a contratransferência patológica ou a não remoção da resistência à
transferência, Freud, ao transmutar a transferência de obstáculo em instrumento,
encontrou uma forma (dialética) de vivenciar a tese, assim como, a partir dela, ter
melhores condições de fazer a inversão.
Exemplificando com o próprio caso Dora, em primeiro lugar, a interpretação
transferencial atualizaria ostensivamente a tese: Você está me vendo como o Herr
K. E descentralizaria a contratransferência e a resistência transferencial: E, por
isso, resolveu fugir daqui. Em segundo lugar, ela (a interpretação transferencial)
faria a antítese ou inversão: Já que não sou eu quem você quer. E, por último,
levaria à síntese: Porque você ama Frau K, que não molestou você.

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Considerações finais

Freud (1900) inicia uma revolução do tipo copernicana pelo conceito de


inconsciente dinâmico, o qual implica na decisiva descentralização do homem
em função de outra coisa em nós, da radical alteridade aí estabelecida. No entanto,
a originalidade de Freud não está tanto na transformação operada por ele em
relação à noção já existente de inconsciente, mas muito mais na relação
estabelecida entre o inconsciente e a outra pessoa (alteridade). Claro que aqui
estou falando da teoria da sedução, da qual a alteridade do inconsciente é tributária.
E foi por meio dela que Freud compreendeu e conseguiu tratar os seus primeiros
casos de histeria, mas a abandonou por ter ficado preso no nível factual, não
percebendo que sua descoberta não era o inconsciente em si, mas sua dimensão
de alteridade.
Do lado de Lacan (1951, p. 88), o desdobramento dessa revolução passa
justamente pelo papel atribuído ao outro (alteridade) na constituição do sujeito:
“A experiência psicanalítica se desenrola inteiramente nessa relação sujeito a
sujeito”. Porém, seu projeto também acaba se desviando da rota, na medida em
que este outro concreto (sujeito como alteridade) se dissolve, progressivamente,
pelo grande outro, nos meandros da linguagem e do simbólico (grifos meus).
Deixou, assim, de constituir alteridade, retornando – tal como fez Freud – ao
objeto (interno) como uma representação do desejo do sujeito e não mais como
sujeição do sujeito a outro sujeito!
É Laplanche (1992) que retoma o caminho originário de Freud, pois, para
ele, a outra coisa – que é o inconsciente – só se mantém em sua alteridade radical
pela outra pessoa, ou seja, pela sedução (grifos meus). E esta não depende,
exclusivamente, da ação sexual perversa e ativa de um adulto contra uma criança
indefesa, nem do nível fantasioso do desejo sexual da mesma. É interessante
notar que o próprio Freud (1931, p. 273; 1933 p. 149) havia dado um grande
passo – muitos anos antes de Laplanche – no sentido de identificar outro nível de
sedução, exatamente, nos cuidados maternos dispensados à criança.
Nesse contexto, Freud fala de uma realidade efetiva de prazer sexual, mas
não mais em termos da realidade factual do abuso, mas sim da efetividade do
prazer do corpo ou das zonas erógenas, pois as meninas recebem suas primeiras e
mais fortes sensações genitais quando estão sendo limpas pela mãe. Aqui, portanto,
a fantasia toca o chão da realidade, pois foi realmente a mãe quem despertou
sensações prazerosas genitais. Mas, já decepcionado com sua hipótese inicial,
Freud não conseguiu valorizar esse segundo nível de sedução, que Laplanche
chama de precoce ou infantil.

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A (in)sinceridade em Dora

Dora, conforme antes salientei, parece-me um exemplo sincrético das duas


teorias. Sua precoce sexualidade, por um lado, e sua hostilidade, por outro, para
com os primitivos objetos e seus representantes, evidencia a conjunção de fatores
inerentes às seduções supracitadas. Se a efetividade da primeira a despertou para
a vida e a beleza (revivida com a senhora K), a da segunda a condenou a uma
espécie de morte sexual, aos sintomas e à vingança contra os abusadores.
Freud acreditou que a perdeu pelo notável detalhe da transferência não
interpretada. Porém, ao forçá-la de volta às origens de seus conflitos e com seus
objetos, deu-lhe perspectivas de reavaliá-los, casar e ter um filho. Por vinte anos,
até suas crises de angústia, teve uma qualidade de vida aparentemente melhor.
Quanto às questões de sigilo, talvez um dia sejam mais bem esclarecidas
ou simplesmente desfeitas. Isso poderá acontecer ao se abrirem – em datas pré-
indicadas – as (misteriosas) caixas lacradas de Freud, cujos conteúdos contêm
material de seus pacientes. Qualquer que seja esse resultado ou sobre qual seria o
curso do tratamento de Dora, caso Freud interpretasse a transferência, a psicanálise
segue sendo uma contínua investigação da funcionalidade íntima do ser humano.
Nesse sentido ela é uma só.

Abstract

The (in)sincerity in Dora


After over one hundred years of its publication, Dora’s case study lives up to its
reputation due to its singularities and idiosyncrasies. The author discusses what
seems fundamental to its unique continuity: the mysterious and intricate mix of
adverse factors to the treatment, which determined its early termination. Some
points of the well-known case are highlighted, including the dreams, as ways for
the author to speculate on the implicit reasons on confidentiality issues, to ponder
over Freud’s technical problems, and to conjecture about the origin of the sexual
hostility and symptoms in Dora. Authors such as Fonagy and Laplanche are used
to support the thesis of this article, which ends questioning Lacan’s position about
the mistake admitted by Freud, which led him to the discovery of transference.

Keywords: Freud, psychoanalytic treatment, Dora’s case study, hysteria, psychic


conflict, sexuality, trauma, identification, transference, confidentiality.

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Luiz Carlos Mabilde

Resumen

La (in)sinceridad en Dora
Después de más de cien años de su publicación, el caso Dora hace honor a su
reputación debido a peculiaridades e idiosincrasias. El autor habla de lo que parece
fundamental para su singular continuidad: la mezcla misteriosa y compleja de
factores adversos al tratamiento, lo que determinó su terminación anticipada.
Algunos puntos se destacan del conocido caso, incluso los sueños, como una
manera para que el autor especule sobre las razones implícitas en cuestiones de
confidencialidad, pondere los problemas técnicos de Freud, y que conjeture sobre
el origen de la hostilidad sexual y de los síntomas de Dora. Autores como Fonagy
y Laplanche se utilizan como apoyo a las tesis del artículo, que termina
cuestionando la posición de Lacan sobre el error admitido por Freud que llevó al
descubrimiento de la transferencia.

Palabras clave: Freud, tratamiento psicoanalítico, caso Dora, la histeria, el conflicto


psíquico, la sexualidad, el trauma, la identificación, la transferencia, la
confidencialidad.

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A (in)sinceridade em Dora

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Recebido em 06/06/2015
Aceito em 27/07/2015

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