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Portugal Cinzento

Crónica de Letícia Oliveira

Quando passeio de carro, não sendo eu a condutora, gosto de olhar pela


janela a admirar a paisagem e a imaginar os diferentes cenários do que
aconteceu num passado anterior a mim. Este ano, quando chegou o
momento de atravessar o país de Norte a Sul, os pensamentos foram outros.

A viagem foi em meados de Outubro, uma semana depois do Domingo


fatídico em que dezenas de pessoas conheceram o seu fim. Escusado será
dizer que, ao contrário das paisagens idílicas que o meu inconsciente
esperava, a realidade sobrepôs-se à ilusão. Os cenários da época medieval e
moderna geralmente construídos na minha cabeça foram substituídos por
outros de uma cor mais negra e de um tom mais triste.

Onde antes via enormes arvoredos, vi plantas frágeis. Onde antes via montes
verdejantes, vi um mundo sem cor, flora destruída e cinzas em meu redor.
Onde antes via vida, vi apenas a sombra que ficou, e a morte que pairava em
redor. Nos pinhais do Rei Lavrador, que outrora alimentaram o sonho da
descoberta, agora fica apenas o pesadelo, a memória do que fomos e do que
ansiávamos ser, e o fulgor baço da terra que é Portugal a entristecer.

Fomos uma terra de esperança, de sonho e de conquista, onde as árvores


ondulavam ao vento da Descoberta. Fomos uma terra de esmeralda e
topázio, com florestas de encantar e um mar sem fim que, tal como as
dificuldades vividas ao longo dos séculos, conseguimos ultrapassar. Fomos
terra de lutadores como Viriato, sonhadores como D. Afonso Henriques,
poetas como Camões, esperançosos como D. Pedro V, solucionadores como
D. José. Agora, a nossa floresta está morta, o nosso mar está vazio, em vez
da correção dos erros e do ultrapassar das dificuldades, temos luto que
perdura, em vez de ações, temos lutas e discussões, em vez de figuras
lutadoras e sonhadoras, temos personalidades inertes que esperam pelo
retorno do Encoberto. Das nossas cores, o verde foi-se, restando apenas o
cinzento do fumo e do nevoeiro em que se tornou Portugal.

Agora, já se passou um mês dos incêndios de Outubro, e quatro voaram


desde Pedrógão incandescente, e a viagem de Dante pelos confins da Terra
continua. Se o Inferno e paraíso ardente correspondeu à época dos
incêndios, estaremos agora no Purgatório, com as almas das vítimas e as
cinzas do fogo ardente a pairar entre nós? Será que alguma vez retornaremos
ao paraíso verde e vivo que Portugal foi um dia? E quando escaparemos nós
do nevoeiro que nos rodeia?

18-11-2017