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ÍNDIOS

NO BRASIL
Marilena de Souza Chaui
Luís Donisete Benzi Grupioni (Org.)
Laymert Garcia dos Santos
Lúcia Bettencourt
Ana Maria de M. Belluzzo
Maria Sylvia Porto Alegre
Aracy Lopes da Silva
Lúcia Hussak van Velthem
Ruth Maria Fonini Monserrat
John Monteiro
Dominique Tilkin Gallois
Berta G. Ribeiro
Isabelle Vidal Giannini
Carlos Frederico Marés de Souza Filho
Washington Novaes
Lux Boelitz Vidal
Ornar Ribeiro Thomaz
Gerôncio Albuquerque Rocha
Priscila Siqueira
Catálogo índios no Brasil
1. edição: 1992, Secretaria Municipal de Cultura de São
Paulo.
2. edição: 1994, Ministério da Educação e do Desporto.
Copyright cedido pela SMC-SP.

Organização
Luís Donisete Benzi Grupioni

Preparação dos originais:


Maria Valéria Ribeiro Sostena (Coordenação),
Dalva Elias Thomas Silva,
Irany Santos,
Maria Cristina Martins,
Maria das Graças de Souza Sá,
Maria de Fátima Rozales Rodero,
Rejane de Cássia Barbosa da Nóbrega.

Revisão
Ana Lúcia Coelho,
Maria Silvia Mattos Silveira Manzano,
Maria Silvia Pires Oberg.

Pesquisa iconográfica:
Luís Donisete Benzi Grupioni

Projeto gráfico:
Inspirado no trabalho de Moema Cavalcanti para o livro
História dos índios no Brasil, organizado por Manuela Car-
neiro da Cunha e publicado em 1992 pela Companhia das
Letras/FAPESP/SMC-SP

Capa:
Máscara Mehináku coletada por Heloisa Fenelon Costa,
1970, UFRJ/UNB.

Distribuição
Assessoria de Educação Escolar Indígena
Ministério da Educação e do Desporto
Esplanada dos Ministérios
Bloco L - Sala 610
70.047-900 - Brasília - D.F.

Mari — Grupo de Educação Indígena/USP


Cidade Universitária
Caixa Postal 8.105
05508-900 - São Paulo - SP.

Brasília, 1994

305.8981 índios no Brasil / organizado por Luís Do-


nisete Benzi Grupioni. Brasília: Ministério da
Educação e do Desporto, 1994.
1. índios da América do Sul — Brasil —
Aspectos sociológicos.
5 0 0 Anos - Caminhos da Memória,
Trilhas do Futuro

Mariíena de Souza Chaui

Quem lê os primeiros relatos sobre o ros navegantes estão convencidos de que


Novo Mundo - diários e cartas de Colom- aportaram no Paraíso Terrestre e descre-
bo, Vespúcio, Caminha, Las Casas - ob- vem as criaturas belas e inocentes que vi-
serva que a descrição dos nativos da terra veriam nas cercanias paradisíacas. A esta
obedece a um padrão sempre igual: são construção imaginária veio acrescentar-se,
seres belos, fortes, livres, "sem fé, sem rei mais tarde, a que identificava òs nativos
e sem lei". As descrições de Vespúcio, mais com as 10 tribos perdidas de Israel e que,
do que as dos outros, são de deslumbra- encontradas, ofereciam o primeiro e seguro
mento, particularmente quando se referem sinal de que se aproximava o Tempo do
aos homens jovens e às mulheres. A ima- Fim, a restauração do Reino de Deus na
gem dos "índios" não é casual: os primei- Terra. Quando, no século XVIII, fazendo
a crítica iluminista da civilização e anun- da cultura moderna (isto é, do capitalismo).
ciando o romantismo, Rousseau construiu No presente, os índios seriam apenas uma
a figura do bom-selvagem, apenas concluiu realidade empírica com a qual é difícil li-
um caminho aberto no final do século XV. dar em termos económicos, políticos e so-
Contraposta à imagem boa e bela dos ciais. Donde a ideia de "Reserva Indíge-
nativos, a ação da conquista ergueu uma na", espaço onde se conservam
outra, avesso e negação da primeira. Ago- espécimens e resíduos.
ra, os "índios" são traiçoeiros, bárbaros, in- A Exposição "índios no Brasil: Alteri-
dolentes, pagãos, imprestáveis e perigosos. dade, Diversidade e Diálogo Cultural" pro-
Postos sob o signo da barbárie, deveriam curou uma perspectiva crítica face à dupla
ser escravizados, evangelizados e, quando tradição do bom e mau selvagem e à ideo-
necessário, exterminados. logia do passado como único tempo que
Durante os últimos 500 anos, a Amé- resta aos povos indígenas. Procurou o plu-
rica não cessou de oscilar entre as duas ral - índios - em lugar do singular "o índio"
imagens brancas dos índios e, nos dois ca- (inexistente). Procurou o presente - as na-
sos, as gentes e as culturas só puderam ções indígenas fazem parte do presente
aparecer filtradas pelas lentes da bondade brasileiro e as lutas em torno da demarca-
ou da barbárie originária. Cegos e surdos ção e exploração das terras indígenas é a
para a diferença cultural (no sentido am- prova contundente dessa presença atual.
plo deste termo), os pós-colombinos e pós- Procurou a diferença de culturas: o olhar
cabralinos realizaram a obra da dominação, do branco sobre a alteridade, reduzindo-
mesmo quando julgaram que faziam o -a, na maioria das vezes, à identidade (os
contrário, desejosos de aumentar o reba- índios como antepassados arcaicos dos bra-
nho do povo de Deus ou os cidadãos da sileiros ocidentais); o olhar dos índios so-
sociedade moderna. bre os brancos, olhar de desconcerto, es-
Entre os efeitos dessa obra - coloniza- panto, temor e cólera; os olhares dos índios
ção, evangelização, escravidão, aculturação, entre si, isto é, a pluralidade de línguas, his-
extermínio - destaca-se um: a certeza de tórias, culturas. E deixou abertas as trilhas
que os povos indígenas pertencem ao pas- do futuro: diálogo ? destruição ? aprendi-
sado das Américas e ao passado do Bra- zado recíproco ?
sil. Passado, aqui, assume três sentidos.
Passado cronológico: os povos indígenas Talvez a resposta inicial a estas pergun-
são resíduo ou remanescente em fase de tas se encontre no abaixo-assinado de mi-
extinção como outras espécieis naturais. lhares de crianças, jovens e adultos, diri-
Passado ideológico: os povos indígenas gidos à Presidência da República, exigindo
desapareceram ou estão desaparecendo, a demarcação das terras indígenas, o res-
vencidos pelo progresso da civilização que peito à autonomia político-cultural das na-
não puderam acompanhar. Passado sim- ções indígenas e o convite para que as dis-
bólico: os povos indígenas são apenas a cussões e decisões sobre os problemas
memória da boa sociedade perdida, da ecológicos passem pelo crivo da moderni-
harmonia desfeita entre homem e nature- dade indígena que nos tem muito a
za, anterior à cisão que marca o advento ensinar.