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pretende dar à composição, organização das ideias sobre o tema, escolha

do vocabulário adequado e concatenação das ideias segundo as regras


linguísticas e gramaticais.

Para adquirir um estilo próprio e eficaz é conveniente ler e estudar os


grandes mestres do idioma, clássicos e contemporâneos; redigir frequen-
temente, para familiarizar-se com o processo e adquirir facilidade de
1) Objetivo
expressão; e ser escrupuloso na correção da composição, retificando o
Elaboração de texto com correção, clareza e objetividade, que conte-
que não saiu bem na primeira tentativa. É importante também realizar um
nha no mínimo 20 (vinte) e no máximo 30 (trinta) linhas, com assunto,
exame atento da realidade a ser retratada e dos eventos a que o texto se
tema e modalidade específicos, expressos na proposta constante da folha
refere, sejam eles concretos, emocionais ou filosóficos. O romancista, o
de prova. A produção textual deve respeitar, integralmente, as caracterís-
cientista, o burocrata, o legislador, o educador, o jornalista, o biógrafo,
ticas da modalidade textual proposta e a linguagem utilizada deve estar de
todos pretendem comunicar por escrito, a um público real, um conteúdo
acordo com os padrões da norma culta da língua portuguesa.
que quase sempre demanda pesquisa, leitura e observação minuciosa de
fatos empíricos. A capacidade de observar os dados e apresentá-los de
2) Conteúdo
maneira própria e individual determina o grau de criatividade do escritor.
As modalidades de texto (descrição, narrativa e dissertação); os tipos
de descrição; características da descrição; os tipos de narrativa; caracte-
Para que haja eficácia na transmissão da mensagem, é preciso ter
rísticas da narrativa; o interesse humano; narrativa e descrição; os tipos
em mente o perfil do leitor a quem o texto se dirige, quanto a faixa etária,
de discurso (direto, indireto e indireto livre); os tipos de dissertação; a
nível cultural e escolar e interesse específico pelo assunto. Assim, um
linguagem retórica; figuras de linguagem; narrativa e dissertação.
mesmo tema deverá ser apresentado diferentemente ao público infantil,
juvenil ou adulto; com formação universitária ou de nível técnico; leigo ou
3) Critérios de correção
especializado. As diferenças hão de determinar o vocabulário empregado,
a) Narrativa: seleção de elementos significativos e sugestivos; coe-
a extensão do texto, o nível de complexidade das informações, o enfoque
rência; movimento; coesão da linguagem; criatividade. Serão ob-
e a condução do tema principal a assuntos correlatos.
servados, ainda, o respeito integral à modalidade textual propos-
ta, a seleção lexical (linguagem), o atendimento à norma culta da
Organização das ideias. O texto artístico é em geral construído a par-
língua, a correção gramatical e a apresentação do texto (caligrafi-
tir de regras e técnicas particulares, definidas de acordo com o gosto e a
a, margens e limpeza).
habilidade do autor. Já o texto objetivo, que pretende antes de mais nada
b) Dissertação: assunto e tema; coerência nos parágrafos (argu-
transmitir informação, deve fazê-lo o mais claramente possível, evitando
mentação); criatividade (persuasão); coesão na linguagem. Serão
palavras e construções de sentido ambíguo.
observados, ainda, o respeito integral à modalidade textual pro-
Para escrever bem, é preciso ter ideias e saber concatená-las. Entre-
posta, a seleção lexical (linguagem), o atendimento à norma culta
vistas com especialistas ou a leitura de textos a respeito do tema aborda-
da língua, a correção gramatical e a apresentação do texto (cali-
do são bons recursos para obter informações e formar juízos a respeito do
grafia, margens e limpeza).
assunto sobre o qual se pretende escrever. A observação dos fatos, a
experiência e a reflexão sobre seu conteúdo podem produzir conhecimen-
4) Correção da redação
to suficiente para a formação de ideias e valores a respeito do mundo
Não terá a parte discursiva de Português (redação) corrigida, o candi-
circundante.
dato que apresentar o texto de sua Redação:
a) com fuga total ao tema proposto na Parte Discursiva de Portu-
É importante evitar, no entanto, que a massa de informações se dis-
guês;
perse, o que esvaziaria de conteúdo a redação. Para solucionar esse
b) em modalidade textual diferente da pedida na Parte Discursiva de
problema, pode-se fazer um roteiro de itens com o que se pretende escre-
Português;
ver sobre o tema, tomando nota livremente das ideias que ele suscita. O
c) ilegível, isto é, que não pode ser lido;
passo seguinte consiste em organizar essas ideias e encadeá-las segun-
d) em linguagem e/ou texto incompreensível, isto é, o vocabulário
do a relação que se estabelece entre elas.
não pode ser compreendido;
e) em forma de poema ou outra que não em prosa;
Vocabulário e estilo. Embora quase todas as palavras tenham sinôni-
f) em texto com menos de 20 (vinte) ou mais de 30 (trinta) linhas;
mos, dois termos quase nunca têm exatamente o mesmo significado. Há
g) com marcas ou rasuras que possam identificar o candidato na Fo-
sutilezas que recomendam o emprego de uma ou outra palavra, de acordo
lha de Redação; e
com o que se pretende comunicar. Quanto maior o vocabulário que o
h) redigido sem a utilização de caneta esferográfica de tinta azul ou
indivíduo domina para redigir um texto, mais fácil será a tarefa de comuni-
preta.
car a vasta gama de sentimentos e percepções que determinado tema ou
objeto lhe sugere.
2) Conteúdo:
As modalidades de texto (descrição, narrativa e disserta- Como regras gerais, consagradas pelo uso, deve-se evitar arcaísmos
ção); os tipos de descrição; características da descrição; os e neologismos e dar preferência ao vocabulário corrente, além de evitar
tipos de narrativa; características da narrativa; o interesse cacofonias (junção de vocábulos que produz sentido estranho à ideia
humano; narrativa e descrição; os tipos de discurso (direto, original, como em "boca dela") e rimas involuntárias (como na frase, "a
indireto e indireto livre); os tipos de dissertação; a linguagem audição e a compreensão são fatores indissociáveis na educação infan-
retórica; figuras de linguagem; narrativa e dissertação. til"). O uso repetitivo de palavras e expressões empobrece a escrita e,
para evitá-lo, devem ser escolhidos termos equivalentes.
Redação
A obediência ao padrão culto da língua, regido por normas gramati-
A linguagem escrita tem identidade própria e não pretende ser mera
cais, linguísticas e de grafia, garante a eficácia da comunicação. Uma
reprodução da linguagem oral. Ao redigir, o indivíduo conta unicamente
frase gramaticalmente incorreta, sintaticamente mal estruturada e grafada
com o significado e a sonoridade das palavras para transmitir conteúdos
com erros é, antes de tudo, uma mensagem ininteligível, que não atinge o
complexos, estimular a imaginação do leitor, promover associação de
objetivo de transmitir as opiniões e ideias de seu autor.
ideias e ativar registros lógicos, sensoriais e emocionais da memória.
Tipos de redação. Todas as formas de expressão escrita podem ser
Redação é o ato de exprimir ideias, por escrito, de forma clara e or-
classificadas em formas literárias -- como as descrições e narrações, e
ganizada. O ponto de partida para redigir bem é o conhecimento da gra-
nelas o poema, a fábula, o conto e o romance, entre outros -- e não-
mática do idioma e do tema sobre o qual se escreve. Um bom roteiro de
literárias, como as dissertações e redações técnicas.
redação deve contemplar os seguintes passos: escolha da forma que se
Redação (Prova Discursiva) 1
Descrição. Descrever é representar um objeto (cena, animal, pessoa, dio e a consequente destruição do colégio.
lugar, coisa etc.) por meio de palavras. Para ser eficaz, a apresentação
das características do objeto descrito deve explorar os cinco sentidos O Ambiente
humanos -- visão, audição, tato, olfato e paladar --, já que é por intermédio O ambiente é o espaço por onde circulam personagens e se desenro-
deles que o ser humano toma contato com o ambiente. la o enredo. Em alguns casos, é de importância tão fundamental que se
transforma em personagem, como no caso do colégio interno em O Ate-
A descrição resulta, portanto, da capacidade que o indivíduo tem de neu, de Raul Pompéia, e da habitação coletiva em O cortiço, de Aluísio
perceber o mundo que o cerca. Quanto maior for sua sensibilidade, mais Azevedo.
rica será a descrição. Por meio da percepção sensorial, o autor registra
suas impressões sobre os objetos, quanto ao aroma, cor, sabor, textura O Tempo
ou sonoridade, e as transmite para o leitor. Observe, no fragmento de O Ateneu, como o tempo é um elemento
importante: "Eu tinha onze anos", afirma o personagem-narrador (perceba
Narração. O relato de um fato, real ou imaginário, é denominado nar- a expressividade do pronome pessoal e do verbo no pretérito). Fica carac-
ração. Pode seguir o tempo cronológico, de acordo com a ordem de terizada, assim, uma narrativa de caráter memorialista, ou seja, o tempo
sucessão dos acontecimentos, ou o tempo psicológico, em que se privile- da ação é anterior ao tempo da narração. O personagem-narrador na sua
giam alguns eventos para atrair a atenção do leitor. A escolha do narrador, vida adulta narra fatos acontecidos durante a sua pré-adolescência.
ou ponto de vista, pode recair sobre o protagonista da história, um obser-
vador neutro, alguém que participou do acontecimento de forma secundá- As Personagens
ria ou ainda um espectador onisciente, que supostamente esteve presente Os seres que atuam, isto é, que vivem o enredo, são as personagens.
em todos os lugares, conhece todos os personagens, suas ideias e senti- Em geral a personagem bem construída representa uma individualidade,
mentos. apresentando, inclusive, traços psicológicos distintos. Há personagens
que não representam individualidades, mas sim tipos humanos, identifica-
A apresentação dos personagens pode ser feita pelo narrador, quan- dos antes pela profissão, pelo comportamento, pela classe social, enfim,
do é chamada de direta, ou pelas próprias ações e comportamentos por algum traço distintivo comum a todos os indivíduos dessa categoria. E
deste, quando é dita indireta. As falas também podem ser apresentadas há também personagens cujos traços de personalidade ou padrões de
de três formas: (1) discurso direto, em que o narrador transcreve de forma comportamento são extremamente acentuados (às vezes tocando o
exata a fala do personagem; (2) discurso indireto, no qual o narrador conta ridículo); nesses casos, muito comuns em novelas de televisão, por e-
o que o personagem disse, lançando mão dos verbos chamados dicendi xemplo, temos personagens caricaturais.
ou de elocução, que indicam quem está com a palavra, como por exemplo
"disse", "perguntou", "afirmou" etc.; e (3) discurso indireto livre, em que se A personagem Sérgio, do romance O Ateneu, constitui-se numa indi-
misturam os dois tipos anteriores. vidualidade, ou seja, numa figura humana complexa que vive conflitos
com o mundo exterior e consigo mesmo. Já o diretor do colégio, o Dr.
O conjunto dos acontecimentos em que os personagens se envolvem Aristarco, embora não seja uma caricatura, apresenta alguns traços de
chama-se enredo. Pode ser linear, segundo a sucessão cronológica dos personagem caricatura.
fatos, ou não-linear, quando há cortes na sequência dos acontecimentos.
É comumente dividido em exposição, complicação, clímax e desfecho. O Nome das Personagens
É interessante observar como os bons escritores se preocupam com
Dissertação. A exposição de ideias a respeito de um tema, com base a relação personagem/nome próprio. Veja Graciliano Ramos, em Vida
em raciocínios e argumentações, é chamada dissertação. Nela, o objetivo secas: Vitória é o nome de uma nordestina que alimenta pequenos so-
do autor é discutir um tema e defender sua posição a respeito dele. Por nhos, nunca concretizados; Baleia é o nome de uma cachorra que morre
essa razão, a coerência entre as ideias e a clareza na forma de expressão em consequência da seca, em pleno sertão nordestino.
são elementos fundamentais.
Machado de Assis é outro exemplo brilhante; em Dom Casmurro, o
A organização lógica da dissertação determina sua divisão em intro- personagem-narrador chama-se Bento e tem sua vida em grande parte
dução, parte em que se apresenta o tema a ser discutido; desenvolvimen- determinada pela carolice da mãe, que queria torná-lo padre.
to, em que se expõem os argumentos e ideias sobre o assunto, funda-
mentando-se com fatos, exemplos, testemunhos e provas o que se quer Lima Barreto também trabalha muito bem o nome dos seus persona-
demonstrar; e conclusão, na qual se faz o desfecho da redação, com a gens: Clara do Anjos é uma rapariga negra que é engravidada e abando-
finalidade de reforçar a ideia inicial. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil nada por um rapaz branco; Isaías Caminha é um escrivão (lembra-se do
Publicações Ltda. Pero Vaz ?); Quaresma é um ingênuo nacionalista que morre às mãos de
um ditador.
ELEMENTOS DA NARRATIVA
No romance O Ateneu, o diretor autocrático e majestático, responsá-
Introdução vel por um ensino conservador e ultrapassado, é significativamente bati-
A narração é um relato centrado num fato ou acontecimento; há per- zado de Aristarco (de áristos, "ótimo" + arqué, "governo", ou seja, o bom
sonagens a atuar e um narrador que relata a ação. O tempo e o ambiente governo, com toda ironia possível). Conclusão: ao ler bons autores ou
(ou cenário) são outros elementos importantes na estrutura da narração. mesmo ao criar personagens, preste atenção aos nomes.

O Enredo Em Quincas Borba temos um narrador omnisciente. Veja como o nar-


O enredo, ou trama, ou intriga, é, podemos dizer, o esqueleto da nar- rador "lê" os sentimentos, os desejos e mesmo o jogo de cena da perso-
rativa, aquilo que dá sustentação à história, ou seja, é o desenrolar dos nagem; sabemos, por exemplo, que Rubião mirava disfarçadamente a
acontecimentos. Geralmente, o enredo está centrado num conflito, res- bandeja, que amava de coração os metais nobres. O narrador conhece as
ponsável pelo nível de tensão da narrativa; podemos ter um conflito entre prováveis opções de Rubião: a preferência pela bandeja de prata aos
o homem e o meio natural (como ocorre em alguns romances modernis- bustos de bronze.
tas), entre o homem e o meio social, até chegarmos a narrativas que
colocam o homem contra si próprio (como ocorre em romances introspec- Narração na 3ª Pessoa e narrador omnisciente e omnipresente
tivos). O narrador omnisciente ou omnipresente é uma espécie de testemu-
nha invisível de tudo o que acontece, em todos os lugares e em todos os
Em O Ateneu o enredo desenvolve-se a partir da entrada do menino momentos; ele não só se preocupa em dizer o que as personagens fazem
Sérgio, aos onze anos de idade, no colégio interno. Colocado diante de ou falam, mas também traduz o que pensam e sentem. Portanto, ele tenta
um mundo diferente, sem estar preparado para isso, o menino vivência passar para o leitor as emoções, os pensamentos e os sentimentos das
uma série de experiências e acontecimentos que culminam com o incên- personagens.

Redação (Prova Discursiva) 2


Nas narrações em terceira pessoa, o narrador está fora dos aconte- subtema pode igualmente dar lugar a um maior detalhe (os diferentes
cimentos; podemos dizer que ele paira acima de tudo e de todos. Esta tipos de flor, as suas cores, a sua beleza, o seu perfume...).
situação permite ao narrador saber de tudo, do passado e do futuro, das
emoções e pensamentos dos personagens. Daí dizer-se omnisciente. Em trabalho recente, Hamon (1981) mostra que o descritivo tem ca-
racterísticas próprias e não apenas a função de auxiliar a narrativa,
Texto Descritivo chegando a apontar aspectos linguísticos da descrição: frequência de
Vamos abordar o texto descritivo, sob o ponto de vista da sua produ- imagens, de analogias, adjetivos, formas adjetivas do verbo, termos
ção e funcionamento discursivo, com base na ideia de que um texto se técnicos... Além disso, o autor ressalta a função utilitária desempenhada
define pela sua finalidade situacional - todo o ato de linguagem tem uma pela descrição face a qualquer tipo de texto do qual faz parte: "descrever
intencionalidade e submete-se a condições particulares de produção, o para completar, descrever para ensinar, descrever para significar, descre-
que exige do falante da língua determinadas estratégias de construção ver para arquivar, descrever para classificar, descrever para prestar
textual. Em cada texto, portanto, podem combinar-se diferentes recursos contas, descrever para explicar."
(narrativos, descritivos, dissertativos), em função do tipo de interação que
se estabelece entre os interlocutores. Nesse contexto teórico, o texto No texto dissertativo, por exemplo, a descrição funciona como uma
descritivo identifica-se por ter a descrição como estratégia predominante. maneira de comentar ou detalhar os argumentos contra ou a favor de
determinada tese defendida pelo autor. Assim, para analisar o problema
Inserindo-se numa abordagem mais geral sobre os mecanismos de da evasão escolar, podemos utilizar como estratégia argumentativa a
elaboração textual, com base nos conceitos de coesão e coerência, o descrição detalhada de salas vazias, corredores vazios, estudantes des-
trabalho pedagógico de leitura e produção do texto de base descritiva motivados, repetência.
deve partir dos seguintes pontos:
a) O texto de base descritiva tem como objetivo oferecer ao leitor Numa descrição, quer literária, quer técnica, o ponto de vista do autor
/ouvinte a oportunidade de visualizar o cenário onde uma ação se interfere na produção do texto. O ponto de vista consiste não apenas na
desenvolve e as personagens que dela participam; posição física do observador, mas também na sua atitude, na sua predis-
b) A descrição está presente no nosso dia-a-dia, tanto na ficção (nos posição afetiva em face do objeto a ser descrito. Desta forma, existe o
romances, nas novelas, nos contos, nos poemas) como em ou- ponto de vista físico e o ponto de vista mental.
tros tipos de textos (nas obras técnico-científicas, nas enciclopé- a) Ponto de vista físico
dias, nas propagandas, nos textos de jornais e revistas); b) É a perspectiva que o observador tem do objeto; pode determinar
c) A descrição pode ter uma finalidade subsidiária na construção de a ordem na enumeração dos pormenores significativos. Enquanto
outros tipos de texto, funcionando como um plano de fundo, o uma fotografia ou uma tela apresentam o objeto de uma só vez,
que explica e situa a ação (na narração) ou que comenta e justifi- a descrição apresenta-o progressivamente, detalhe por detalhe,
ca a argumentação; levando o leitor a combinar impressões isoladas para formar uma
d) Existem características linguísticas próprias do texto de base imagem unificada. Por esse motivo, os detalhes não são todos
descritiva, que o diferenciam de outros tipos de textos; apresentados num único período, mas pouco a pouco, para que
e) Os advérbios de lugar são elementos essenciais para a coesão e o leitor, associando-os, interligando-os, possa compor a imagem
a coerência do texto de base descritiva, permitindo a localização que faz do objeto da descrição.
espacial dos cenários e personagens descritos; Observamos e percebemos com todos os sentidos, não apenas
f) O texto descritivo detém-se sobre objetos e seres considerados com os olhos. Por isso, informações a respeito de ruídos, chei-
na sua simultaneidade, e os tempos verbais mais frequentes são ros, sensações tácteis são importantes num texto descritivo, de-
o presente do indicativo no comentário e o pretérito imperfeito do pendendo da intenção comunicativa.
indicativo no relato. c) Outro fator importante diz respeito à ordem de apresentação dos
detalhes.
O que é um texto descritivo
Segundo Othon M. Garcia (1973), "Descrição é a representação ver- Texto - Trecho de conversa informal (entrevista)
bal de um objeto sensível (ser, coisa, paisagem), através da indicação dos "Vamos ver. Bom, a sala tem forma de ele, apesar de não ser grande,
seus aspectos mais característicos, dos pormenores que o individualizam, né, dá dois ambientes perfeitamente separados. O primeiro ambiente da
que o distinguem." sala de estar tem um sofá forrado de couro, uma forração verde, as almo-
fadas verdes, ladeado com duas mesinhas de mármore, abajur, um qua-
Descrever não é enumerar o maior número possível de detalhes, mas dro, reprodução de Van Gogh. Em frente tem uma mesinha de mármore e
assinalar os traços mais singulares, mais salientes; é fazer ressaltar do em frente a esta mesa e portanto defronte do sofá tem um estrado com
conjunto uma impressão dominante e singular. Dependendo da intenção almofadas areia, o aparelho de som, um baú preto. À esquerda desse
do autor, varia o grau de exatidão e minúcia na descrição. estrado há uma televisão enorme, horrorosa, depois há em frente à televi-
são duas poltroninhas vermelhas de jacarandá e aí termina o primeiro
Diferentemente da narração, que faz uma história progredir, a descri- ambiente. Depois então no outro, no alongamento da sala há uma mesa
ção faz interrupções na história, para apresentar melhor um personagem, grande com seis cadeiras com um abajur em cima, um abajur vermelho. A
um lugar, um objeto, enfim, o que o autor julgar necessário para dar mais sala é toda pintadinha de branco ..."
consistência ao texto. Pode também ter a finalidade de ambientar a histó-
ria, mostrando primeiro o cenário, como acontece no texto abaixo: Comentário sobre o texto
"Ao lado do meu prédio construíram um enorme edifício de aparta- Neste trecho da entrevista, a informante descreve a sala, nomeando
mentos. Onde antes eram cinco românticas casinhas geminadas, hoje as peças que compõem os dois ambientes, reproduzidos numa sequência
instalaram-se mais de 20 andares. Da minha sala vejo a varandas (estilo bem organizada. A localização da mobília é fornecida por meio de diver-
mediterrâneo) do novo monstro. Devem distar uns 30 metros, não mais. sas expressões de lugar, como em frente, defronte, à esquerda, em cima,
E foi numa dessas varandas que o fato se deu." que ajudam a imaginar com clareza a distribuição espacial. Há uma preo-
(Mário Prata. 100 Crônicas. São Paulo, Cartaz Editorial, 1997) cupação da informante em fazer o nosso olhar percorrer a sala, dando os
detalhes por meio das cores (verde, areia, preto, vermelhas), do tamanho
A descrição tem sido normalmente considerada como uma expansão ( televisão enorme, poltroninhas, mesinhas, sala pintadinha). É também
da narrativa. Sob esse ponto de vista, uma descrição resulta frequente- interessante observar que essa informante deixa transparecer as suas
mente da combinação de um ou vários personagens com um cenário, um impressões pessoais, como por exemplo ao usar o adjetivo horrorosa,
meio, uma paisagem, uma coleção de objetos. Esse cenário desencadeia para falar da televisão e pintadinha, no diminutivo, referindo-se
o aparecimento de uma série de subtemas, de unidades constitutivas que com carinho à sua sala de estar e de jantar.
estão em relação metonímica de inclusão: a descrição de um jardim (tema
principal introdutor) pode desencadear a enumeração das diversas flores, b) ponto de vista mental ou psicológico
canteiros, árvores, utensílios, etc., que constituem esse jardim. Cada A descrição pode ser apresentada de modo a manifestar uma impres-

Redação (Prova Discursiva) 3


são pessoal, uma interpretação do objeto. A simpatia ou antipatia do aí você entrava na sala da frente; dali tinha um corredor comprido de
observador pode resultar em imagens bastante diferenciadas do mesmo onde saíam três portas; no final do corredor tinha a cozinha, depois tinha
objeto. Deste ponto de vista, dois tipos de descrição podem ocorrer: a uma escadinha que ia dar no quintal e atrás ainda tinha um galpão, que
objetiva e a subjetiva. era o lugar da bagunça ..." (Entrevista gravada para o Projeto
NURC/RJ)
A descrição objetiva, também chamada realista, é a descrição exata, "A ordem dos detalhes é, pois, muito importante. Não se faz a descri-
dimensional. Os detalhes não se diluem, pelo contrário, destacam-se ção de uma casa de maneira desordenada; ponha-se o autor na posição
nítidos em forma, cor, peso, tamanho, cheiro, etc. Este tipo de descrição de quem dela se aproxima pela primeira vez; comece de fora para dentro
pode ser encontrado em textos literários de intenção realista (por exemplo, à medida que vai caminhando na sua direção e percebendo pouco a
em Euclides da Cunha, Eça de Queiroz, Flaubert, Zola), enquanto em pouco os seus traços mais característicos com um simples correr d'olhos:
textos não-Literários (técnicos e científicos), a descrição subjetiva reflete primeiro, a visão do conjunto, depois a fachada, a cor das paredes, as
o estado de espírito do observador, as suas preferências. Isto faz com que janelas e portas, anotando alguma singularidade expressiva, algo que dê
veja apenas o que quer ou pensa ver e não o que está para ser visto. O ao leitor uma ideia do seu estilo, da época da construção. Mas não se
resultado dessa descrição é uma imagem vaga, diluída, nebulosa, como esqueça de que percebemos ou observamos com todos os sentidos, e
os quadros impressionistas do fim do século passado. É uma descrição não apenas com os olhos. Haverá sons, ruídos, cheiros, sensações de
em que predomina a conotação. calor, vultos que passam, mil acidentes, enfim, que evitarão que se torne a
"Ao descrever um determinado ser, tendemos sempre a acentuar al- descrição uma fotografia pálida daquela riqueza de impressões que os
guns aspectos, de acordo com a reação que esse ser provoca em nós. Ao sentidos atentos podem colher. Continue o observador: entre na casa,
enfatizar tais aspectos, corremos o risco de acentuar qualidades negativas examine a primeira peça, a posição dos móveis, a claridade ou obscurida-
ou positivas. Mesmo usando a linguagem científica, que é imparcial, a de do ambiente, destaque o que lhe chame de pronto a atenção (um
tarefa de descrever objetivamente é bastante difícil. móvel antigo, uma goteira, um vão de parede, uma massa no reboco, um
cão sonolento...). Continue assim gradativamente. Seria absurdo começar
Apesar dessa dificuldade, podemos atingir um grau satisfatório de im- pela fachada, passar à cozinha, voltar à sala de visitas, sair para o quintal,
parcialidade se nos tornarmos conscientes dos sentimentos favoráveis ou regressar a um dos quartos, olhar depois para o telhado, ou notar que as
desfavoráveis que as coisas podem provocar em nós. A consciência disso paredes de fora estão descaiadas. Quase sempre a direção em que
habilitar-nos-á a confrontar e equilibrar os julgamentos favoráveis ou se caminha, ou se poderia normalmente caminhar rumo ao objeto serve
desfavoráveis. de roteiro, impõe uma ordem natural para a indicação dos seus pormeno-
res."
Um bom exercício consiste em fazer dois levantamentos sobre a coi-
sa que queremos descrever: o primeiro, contendo características tenden- Fica evidente que esse "passeio" pelo cenário, feito como se tivésse-
tes a enfatizar aspectos positivos; o segundo, a enfatizar aspectos negati- mos nas mãos uma câmara cinematográfica, registrando os detalhes e
vos. compondo com eles um todo, deve obedecer a um roteiro coerente,
evitando idas e vindas desconexas, que certamente perturbam a organi-
Características linguísticas da descrição zação espacial e prejudicam a coerência do texto descritivo.
O enunciado narrativo, por ter a representação de um acontecimento,
fazer-transformador, é marcado pela temporalidade, na relação situação Textos descritivos
inicial e situação final, enquanto que o enunciado descritivo, não tendo Conforme o objetivo a alcançar, a descrição pode ser não-literária ou
transformação, é atemporal. literária. Na descrição não-literária, há maior preocupação com a exatidão
dos detalhes e a precisão vocabular. Por ser objetiva, há predominância
Na dimensão linguística, destacam-se marcas sintático-semânticas da denotação.
encontradas no texto que vão facilitar a compreensão:
Textos descritivos não-literários
Predominância de verbos de estado, situação ou indicadores de pro- A descrição técnica é um tipo de descrição objetiva: ela recria o objeto
priedades, atitudes, qualidades, usados principalmente no presente e no usando uma linguagem científica, precisa. Esse tipo de texto é usado para
imperfeito do indicativo (ser, estar, haver, situar-se, existir, ficar). descrever aparelhos, o seu funcionamento, as peças que os compõem,
para descrever experiências, processos, etc.
Ênfase na adjetivação para melhor caracterizar o que é descrito;
Exemplo:
Exemplo: a) Folheto de propaganda de carro
"Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num  Conforto interno - É impossível falar de conforto sem incluir o es-
colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, paço interno. Os seus interiores são amplos, acomodando tran-
vasta e polida, um pouco amolgado no alto; tingia os cabelos que de uma quilamente passageiros e bagagens. O Passat e o Passat Variant
orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso possuem direção hidráulica e ar condicionado de elevada capaci-
dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode; tinha- dade, proporcionando a climatização perfeita do ambiente.
o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava  Porta-malas - O compartimento de bagagens possui capacidade
as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes de 465 litros, que pode ser ampliada para até 1500 litros, com o
muito despegadas do crânio. "(Eça de Queiroz - O Primo Basílio) encosto do banco traseiro rebaixado.
 Tanque - O tanque de combustível é confeccionado em plástico
Emprego de figuras (metáforas, metonímias, comparações, sinestesi- reciclável e posicionado entre as rodas traseiras, para evitar a de-
as). formação em caso de colisão.
Exemplos:
"Era o Sr. Lemos um velho de pequena estatura, não muito gordo, Textos descritivos literários
mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo rechon- Na descrição literária predomina o aspecto subjetivo, com ênfase no
chudo, tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante que lhe dava petulância conjunto de associações conotativas que podem ser exploradas a partir de
de rapaz e casava perfeitamente com os olhinhos de azougue." (José de descrições de pessoas; cenários, paisagens, espaço; ambientes; situa-
Alencar - Senhora) ções e coisas. Vale lembrar que textos descritivos também podem ocorrer
tanto em prosa como em verso.
Uso de advérbios de localização espacial.
Exemplo: Descrição de pessoas
"Até os onze anos, eu morei numa casa, uma casa velha, e essa casa A descrição de personagem pode ser feita na primeira ou terceira
era assim: na frente, uma grade de ferro; depois você entrava tinha um pessoa. No primeiro caso, fica claro que o personagem faz parte da
jardinzinho; no final tinha uma escadinha que devia ter uns cinco degraus; história; no segundo, a descrição é feita pelo narrador, que, ele próprio,

Redação (Prova Discursiva) 4


pode fazer ou não parte da história. mes sociais; de ruídos, odores, sabores e impressões tácteis." Enquanto a
definição generaliza, a descrição individualiza, isto porque, quando defini-
Texto - Retrato de Mônica mos, estamos a tratar de classes, de espécies e, quando descrevemos,
Mônica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultanea- estamos a detalhar indivíduos de uma espécie.
mente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga
Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer Definições de futebol
ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos Texto extraído de uma publicidade - encontramos aqui uma interes-
jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda sante definição do futebol, feita de uma maneira bastante diferente daque-
gente, toda gente gostar dela, colecionar colheres do século XVII, jogar la que está nos dicionários.
golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar
de pintura abstrata, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar Futebol é bola na rede. Festa. Grito de golo. Não só. Não mais. No
sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e Brasil de hoje, futebol é a reunião da família, a redenção da Pátria, a união
ser muito séria. dos povos. Futebol é saúde, amizade, solidariedade, saber vencer. Fute-
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mônica. bol é arte, cultura, educação. Futebol é balé, samba, capoeira. Futebol é
Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre do ioga ou da pintura fonte de riqueza. Futebol é competição leal. Esta é a profissão de fé da
abstrata. ***. Porque a *** tem o compromisso de estar ao lado do torcedor e do
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma dis- cidadão brasileiro. Sempre.
ciplina rigorosa e contente. Pode-se dizer que Mônica trabalha de sol a Enciclopédia e Dicionário Koogan/Houaiss
sol.
De fato, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que Desporto no qual 22 jogadores, divididos em dois conjuntos, se esfor-
possui, Mônica teve de renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à çam por fazer entrar uma bola de couro na baliza do conjunto contrário,
santidade. sem intervenção das mãos. (As primeiras regras foram elaboradas em
Texto - Calisto Elói 1860).

Calisto Elói, naquele tempo, orçava por quarenta e quatro anos. Não A diferença entre descrição, narração e dissertação
era desajeitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes e compleição, como Esquema da narração
dizem, afidalgada. A sensível e dissimétrica saliência do abdômen devia- Tipos de redação ou composição
se ao uso destemperado da carne de porcos e outros alimentos intumes- Tudo o que se escreve recebe o nome genérico de redação (ou com-
centes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram adelga- posição). Existem três tipos de redação: descrição, narração e disserta-
çando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões do ção. É importante que perceba a diferença entre elas. Leia, primeiramen-
rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das ventas e te, as seguintes definições:
o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de repul-
são. (Camilo Castelo Branco, A queda dum anjo) Descrição
É o tipo de redação na qual se apontam as características que com-
Comentário sobre a descrição de pessoas põem um determinado objeto, pessoa, ambiente ou paisagem.
A descrição de pessoas pode ser feita a partir das características físi-
cas, com predomínio da objetividade, ou das características psicológicas, Exemplo:
com predomínio da subjetividade. Muitas vezes, o autor, propositadamen- A sua estatura era alta e seu corpo, esbelto. A pele morena refletia o
te, faz uma caricatura do personagem, acentuando os seus traços físicos sol dos trópicos. Os olhos negros e amendoados espalhavam a luz interior
ou comportamentais. de sua alegria de viver e jovialidade. Os traços bem desenhados compu-
nham uma fisionomia calma, que mais parecia uma pintura.
Os personagens podem ser apresentados diretamente, isto é, num
determinado momento da história, e neste caso a narrativa é momentane- Narração
amente interrompida. Podem, por outro lado, ser apresentados indireta- É a modalidade de redação na qual contamos um ou mais fatos que
mente, por meio de dados, como comportamentos, traços físicos, opini- ocorreram em determinado tempo e lugar, envolvendo certas persona-
ões, que vão sendo indicados passo a passo, ao longo da narrativa. gens.

Texto - Trecho de "A Relíquia" (Eça de Queiroz) Exemplo:


"Estávamos sobre a pedra do Calvário. Numa noite chuvosa do mês de Agosto, Paulo e o irmão caminhavam
Em torno, a capela que a abriga, resplandecia com um luxo sensual e pela rua mal-iluminada que conduzia à sua residência. Subitamente foram
pagão. No teto azul-ferrete brilhavam sóis de prata, signos do Zodíaco, abordados por um homem estranho. Pararam, atemorizados, e tentaram
estrelas, asas de anjos, flores de púrpura; e, dentre este fausto sideral, saber o que o homem queria, receosos de que se tratasse de um assalto.
pendiam de correntes de pérolas os velhos símbolos da fecundidade, os Era, entretanto, somente um bêbado que tentava encontrar, com dificul-
ovos de avestruz, ovos sacros de Astarté e Baco de ouro. [...] Globos dade, o caminho de sua casa.
espelhados, pousando sobre peanhas de ébano, refletiam as jóias dos
retábulos, a refulgência das paredes revestidas de jaspe, de nácar e de Dissertação
ágata. E no chão, no meio deste clarão, precioso de pedraria e luz, emer- É o tipo de composição na qual expomos ideias gerais, seguidas da
gindo dentre as lajes de mármore branco, destacava um bocado de rocha apresentação de argumentos que as comprovem.
bruta e brava, com uma fenda alargada e polida por longos séculos de
beijos e afagos beatos." Exemplo:
Tem havido muitos debates sobre a eficiência do sistema educacio-
Considerações Finais nal. Argumentam alguns que ele deve ter por objetivo despertar no estu-
Um enunciado descritivo, portanto, é um enunciado de ser. A descri- dante a capacidade de absorver informações dos mais diferentes tipos e
ção não é um objeto literário por princípio, embora esteja sempre presente relacioná-las com a realidade circundante. Um sistema de ensino voltado
nos textos de ficção, ela encontra-se nos dicionários, na publicidade, nos para a compreensão dos problemas socio-econômicos e que despertasse
textos científicos. no aluno a curiosidade científica seria por demais desejável.

Há autores que apresentam a definição como um tipo de texto descri- Não há como confundir estes três tipos de redação. Enquanto a des-
tivo. Para Othon M.Garcia (1973), "a definição é uma fórmula verbal crição aponta os elementos que caracterizam os seres, objetos, ambientes
através da qual se exprime a essência de uma coisa (ser, objeto, ideia)", e paisagens, a narração implica uma ideia de ação, movimento empreen-
enquanto "a descrição consiste na enumeração de caracteres próprios dido pelos personagens da história. Já a dissertação assume um caráter
dos seres (animados e inanimados), coisas, cenários, ambientes e costu- totalmente diferenciado, na medida em que não fala de pessoas ou fatos

Redação (Prova Discursiva) 5


específicos, mas analisa certos assuntos que são abordados de modo narração que pode ser utilizado para contar qualquer fato. Ele propõe-se
impessoal. situar os elementos da narração em diferentes parágrafos, de modo a
orientá-lo sobre como organizar adequadamente a sua composição.
A NARRAÇÃO
Tipos de narrador Esquema de narração
Narrar é contar um ou mais fatos que ocorreram com determinadas 1º Parágrafo: Explicar que fato será narrado. Determinar o tempo e
personagens, em local e tempo definidos. Por outras palavras, é contar o lugar INTRODUÇÃO
uma história, que pode ser real ou imaginária. 2º Parágrafo: Causa do fato e apresentação das personagens. DE-
SENVOLVIMENTO
Quando vai redigir uma história, a primeira decisão que deve tomar é 3º Parágrafo: Modo como tudo aconteceu (detalhadamente).
se você vai ou não fazer parte da narrativa. Tanto é possível contar uma 4º Parágrafo: Consequências do fato. CONCLUSÃO
história que ocorreu com outras pessoas como narrar fatos acontecidos
consigo. Essa decisão determinará o tipo de narrador a ser utilizado na OBSERVAÇÕES:
sua composição. Este pode ser, basicamente, de dois tipos: 1. É bom lembrar que, embora o elemento Personagens tenha sido
1. Narrador de 1ª pessoa: é aquele que participa da ação, ou seja, citado somente no 2º parágrafo (onde são apresentados com
que se inclui na narrativa. mais detalhes), eles aparecem no decorrer de toda a narração,
Trata-se do narrador-personagem. 1. Narrador de 1ª pessoa: é aquele uma vez que são os desencadeadores da sequência narrativa.
que participa da ação, ou seja, que se inclui na narrativa. Trata-se do 2. O elemento Causa pode ou não existir na sua narração. Há fatos
narrador-personagem. que decorrem de causa específica (por exemplo, um atropela-
mento pode ter como causa o descuido de um peão ao atraves-
Exemplo: sar a rua sem olhar). Existe, em contrapartida, um número ilimita-
Andava pela rua quando de repente tropecei num pacote embrulhado do de fatos dos quais não precisamos explicar as causas, por se-
em jornais. Agarrei-o vagarosamente, abri-o e vi, surpreso, que lá havia rem evidentes (por exemplo, uma viagem de férias, um assalto a
uma grande quantia em dinheiro. um banco, etc.).
3. três elementos mencionados na Introdução, ou seja, fato, tempo e
2. Narrador de 3ª pessoa: é aquele que não participa da ação, ou se- lugar, não precisam necessariamente aparecer nesta ordem. Po-
ja, não se inclui na narrativa. Temos então o narrador-observador. 2. demos especificar, no início, o tempo e o local, para depois enun-
Narrador de 3ª pessoa: é aquele que não participa da ação, ou seja, não ciar o fato que será narrado.
se inclui na narrativa. Temos então o narrador-observador.
Utilizando esse recurso, pode narrar qualquer fato, desde os inciden-
Exemplo: tes que são noticiados nos jornais com o título de ocorrências policiais
João andava pela rua quando de repente tropeçou num pacote em- (assaltos, atropelamentos, raptos, incêndios, colisões e outros) até fatos
brulhado em jornais. Agarrou-o vagarosamente, abriu-o e viu, surpreso, corriqueiros, como viagens de férias, festas de adeptos de futebol, come-
que lá havia uma grande quantia em dinheiro. morações de aniversário, quedas e acontecimentos inesperados ou fora
do comum, bem como quaisquer outros.
OBSERVAÇÃO:
Em textos que apresentam o narrador de 1.ª pessoa, ele não precisa É importante ressaltar que o esquema apresentado é apenas uma
ser necessariamente a personagem principal; pode ser somente alguém sugestão de como se pode organizar uma narração. Temos inteira liber-
que, estando no local dos acontecimentos, os presenciou. dade para nos basearmos nele ou não. Mostra-se apenas uma das várias
possibilidades existentes de se estruturarem textos narrativos. Caso se
Exemplo: deseje, poderá inverter-se a ordem de todos os elementos e fazer qual-
Estava parado na paragem do autocarro, quando vi, a meu lado, um quer outra modificação que se ache conveniente, sem prejuízo do enten-
rapaz que caminhava lentamente pela rua. Ele tropeçou num pacote dimento do que se quer transmitir. O fundamental é conseguir-se contar
embrulhado em jornais. Observei que ele o agarrou com todo o cuidado, uma história de modo satisfatório.
abriu-o e viu, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro.
A narração objetiva
Elementos da narração Observe-se agora um exemplo de narração sobre um incêndio, criado
Depois de escolher o tipo de narrador que vai utilizar, é necessário a- com o auxílio do esquema estudado. Lembre-se de que, antes de come-
inda conhecer os elementos básicos de qualquer narração. çar a escrever, é preciso escolher o tipo de narrador. Optamos pelo narra-
dor de 3ª pessoa.
Todo o texto narrativo conta um FATO que se passa em determinado
TEMPO e LUGAR. A narração só existe na medida em que há ação; esta O incêndio
ação é praticada pelos PERSONAGENS. Ocorreu um pequeno incêndio na noite de ontem, num apartamento
de propriedade do Sr. António Pedro.
Um fato, em geral, acontece por uma determinada CAUSA e desenro-
la-se envolvendo certas circunstâncias que o caracterizam. É necessário, No local habitavam o proprietário, a sua esposa e os seus dois filhos.
portanto, mencionar o MODO como tudo aconteceu detalhadamente, isto Todos eles, na hora em que o fogo começou, tinham saído de casa e
é, de que maneira o fato ocorreu. Um acontecimento pode provocar estavam a jantar num restaurante situado em frente ao edifício. A causa
CONSEQUÊNCIAS, as quais devem ser observadas. do incêndio foi um curto circuito ocorrido no sistema elétrico do velho
apartamento.
Assim, os elementos básicos do texto narrativo são:
1. FATO (o que se vai narrar); O fogo começou num dos quartos que, por sorte, ficava na frente do
2. TEMPO (quando o fato ocorreu); prédio. O porteiro do restaurante, conhecido da família, avistou-o e ime-
3. LUGAR (onde o fato se deu); diatamente foi chamar o Sr. António. Ele, rapidamente, ligou para os
4. PERSONAGENS (quem participou do ocorrido ou o observou); Bombeiros.
5. CAUSA (motivo que determinou a ocorrência);
6. MODO (como se deu o fato); Embora não tivessem demorado a chegar, os bombeiros não conse-
7. CONSEQUÊNCIAS. guiram impedir que o quarto e a sala ao lado fossem inteiramente destruí-
dos pelas chamas. Não obstante o prejuízo, a família consolou-se com o
Uma vez conhecidos esses elementos, resta saber como organizá-los fato de aquele incidente não ter tomado maiores proporções, atingindo os
para elaborar uma narração. Dependendo do fato a ser narrado, há inú- apartamentos vizinhos.
meras formas de dispô-los. Todavia, apresentaremos um esquema de

Redação (Prova Discursiva) 6


Vamos observar as características desta narração. O narrador está na vem a ser a base desenvolvida e sistematizada pela retórica escolar.
3ª pessoa, pois não toma parte na história; não é nem membro da família,
nem o porteiro do restaurante, nem um dos bombeiros e muito menos Retórica é a arte de exprimir-se bem pela palavra, ou seja, de utilizar
alguém que passava pela rua na qual se situava o prédio. Outra caracte- todos os recursos da linguagem com o objetivo de provocar determinado
rística que deve ser destacada é o fato de a história ter sido narrada com efeito no ouvinte. A premissa básica da retórica é que todo discurso é feito
objetividade: o narrador limitou-se a contar os fatos sem deixar que os com a intenção de alterar uma situação determinada. A retórica escolar
seus sentimentos, as suas emoções transparecessem no decorrer da tem sentido mais restrito: é a arte do discurso partidário, exercida princi-
narrativa. palmente nos tribunais. Como disciplina ensinada e aprendida, a retórica
apresenta um sistema de formas de pensamento e de linguagem, que
Este tipo de composição denomina-se narração objetiva. É o que cos- devem ser conscientemente utilizadas.
tuma aparecer nas "ocorrências policiais" dos jornais, nas quais os redato-
res apenas dão conta dos fatos, sem se deixar envolver emocionalmente Evolução histórica. A arte da retórica nasceu na Sicília, em meados
com o que estão a noticiar. Este tipo de narração apresenta um cunho do século V a.C., quando a política dos tiranos deu lugar à democracia.
impessoal e direto. No mundo grego, a oratória veio a ser uma necessidade fundamental do
cidadão, que teria de defender seus direitos nas assembléias. Pouco a
A narração subjetiva pouco, começaram a surgir profissionais da retórica -- os primeiros advo-
Existe também um outro tipo de composição chamado narração sub- gados -- que ainda não representavam seus clientes na tribuna, mas
jetiva. Nela os fatos são apresentados levando-se em conta as emoções, orientavam seus discursos, quando não os escreviam totalmente, obri-
os sentimentos envolvidos na história. Nota-se claramente a posição gando os clientes a decorá-los, para realizar uma exposição correta e
sensível e emocional do narrador ao relatar os acontecimentos. O fato não obter o ganho da causa.
é narrado de modo frio e impessoal, pelo contrário, são ressaltados os
efeitos psicológicos que os acontecimentos desencadeiam nas persona- Os primeiros profissionais retores de que há notícia são dois sicilianos
gens. É, portanto, o oposto da narração objetiva. de Siracusa, Córax e Tísias, que, no ano de 460 a.C., definiram-na como
a arte da persuasão e começaram a sistematizar as regras do discurso
Daremos agora um exemplo de narração subjetiva, elaborada tam- forense, para o qual prescreveram três seções: provímion, "proêmio",
bém com o auxílio do esquema de narração. Escolhemos o narrador de agones, "pleito" e epílogos, "epílogo".
1.ª pessoa. Esta escolha é perfeitamente justificável, visto que, participan-
do da ação, ele envolve-se emocionalmente com maior facilidade na No mesmo século, os sofistas foram responsáveis por um grande im-
história. Isso não significa, porém, que uma narração subjetiva requeira pulso na evolução da retórica. Consideravam que, sendo a verdade relati-
sempre um narrador em 1. va, poderia depender da forma do discurso no qual fosse apresentada.
Criaram então escolas de retórica, que passaram a ser frequentadas pelas
Com a fúria de um vendaval pessoas que tinham necessidade de falar em público. Platão não compar-
Numa certa manhã acordei entediada. Estava nas minhas férias esco- tilhava das ideias dos sofistas e postulava a existência de uma verdade
lares do mês de Agosto. Não pudera viajar. Fui ao portão e avistei, três absoluta, inquestionável. Portanto, a linguagem seria fundamentalmente
quarteirões ao longe, a movimentação de uma feira livre. um meio de expressão dessa verdade e das leis da moral.

Não tinha nada para fazer, e isso estava a matar-me de aborrecimen- Aristóteles é o autor do mais importante tratado da antiguidade sobre
to. Embora soubesse que uma feira livre não constitui exatamente o o tema. Em sua Retórica, estabeleceu como qualidades máximas para o
melhor divertimento do qual um ser humano pode dispor, fui andando, a estilo a clareza e a adequação dos meios de expressão ao assunto e ao
passos lentos, em direção daquelas barracas. Não esperava ver nada de momento do discurso. Relacionou os métodos de persuasão do júri e da
original, ou mesmo interessante. Como é triste o tédio! Logo que me assembléia e classificou-os em três categorias: os que induzem atitude
aproximei, vi uma senhora alta, extremamente gorda, discutindo com um favorável à pessoa do orador, os que produzem emoção e os argumentos
feirante. lógicos e exemplos. Concordou com Platão quanto aos aspectos morais
da retórica e distinguiu três tipos de discurso: deliberativo, para ser pro-
O homem, dono da barraca de tomates, tentava em vão acalmar a nunciado nas assembléias políticas; forense, para ser ouvido no tribunal; e
nervosa senhora. Não sei por que brigavam, mas sei o que vi: a mulher, epidíctico, ou demonstrativo, tais como panegíricos, homenagens fúne-
imensamente gorda, mais do que gorda (monstruosa), erguia os seus bres etc. Cada tipo de discurso se estruturava segundo regras próprias
enormes braços e, com os punhos cerrados, gritava contra o feirante. para efetuar a persuasão.
Comecei a assustar-me, com medo de que ela destruísse a barraca (e
talvez o próprio homem) devido à sua fúria incontrolável. Ela ia gritando A Roma republicana adotou a teoria aristotélica e em seu sistema le-
empolgando-se com a sua raiva crescente e ficando cada vez mais ver- gislativo e judicial atribuía grande importância à oratória, disciplina básica
melha, como os tomates, ou até mais. em seu sistema de educação. A prática da retórica decaiu no período
imperial, em consequência da perda das liberdades civis. Os maiores
De repente, no auge de sua ira, avançou contra o homem já atemori- oradores romanos foram Cícero, no século I a.C., e Quintiliano, um século
zado e, tropeçando em alguns tomates podres que estavam no chão, caiu, depois. A retórica romana elaborou as práticas gregas e desenvolveu um
tombou, mergulhou, esborrachou-se no asfalto, para o divertimento do processo de composição do discurso em cinco fases: a invenção, escolha
pequeno público que, assim como eu, assistiu àquela cena incomum. das ideias apropriadas; a disposição, maneira de ordená-las; a elocução,
que se referia ao uso de um estilo apropriado; a memorização; e, final-
OBSERVAÇÃO: mente, a pronunciação. A retórica se estruturava assim como uma técnica
A narração pode ter a extensão que convier. Pode aumentá-la ou di- mecanicista de construção do discurso.
minuí-la, suprimindo detalhes menos importantes. Lembre-se: quando um
determinado parágrafo ficar muito extenso, pode dividi-lo em dois. Desta- O declínio do Império Romano levou ao desaparecimento dos foros
camos, mais uma vez, que o esquema dado é uma orientação geral e não públicos e a retórica civil praticamente se restringiu à elaboração dos
precisa ser necessariamente seguido; ele pode sofrer variações referentes panegíricos dos imperadores. A retórica foi também praticada pelos teólo-
ao número de parágrafos ou à ordem de disposição dos elementos narra- gos cristãos, que, quanto ao conteúdo, seguiam com fidelidade as doutri-
tivos. nas ditadas pela igreja, embora imitassem o estilo dos autores clássicos.
Fonte: http://lportuguesa.malha.net/content/view/27/1/ Por volta do século XVI, era aplicada à redação de cartas. Sob a influência
do humanista francês Petrus Ramus foi reduzida principalmente a ques-
Retórica tões de estilo e se tornou uma coleção de figuras de linguagem. A partir
Existe uma retórica natural, assimilada empiricamente junto com a de então ganhou a fama de ser mera ornamentação formal, sem conteú-
linguagem. É um patrimônio coletivo, embora não inteiramente consciente, do. Foi relegada às escolas para ensino do latim e permaneceu por três
de todos os membros de uma sociedade falante. Essa retórica natural séculos sem maiores alterações.

Redação (Prova Discursiva) 7


Retórica moderna. As transformações registradas na teoria do conhe- Figuras de sintaxe. Quando se busca maior expressividade, muitas
cimento, iniciadas após o Renascimento com René Descartes e John vezes usam-se lacunas, superabundâncias e desvios nas estruturas da
Locke, superaram algumas das ideias da retórica clássica. Nietzsche e frase. Nesse caso, a coesão gramatical dá lugar à coesão significativa. Os
filósofos contemporâneos como Thomas Kuhn já não consideram a lin- processos que ocorrem nessas particularidades de construção da frase
guagem como simples espelho da realidade e expressão da verdade chamam-se figuras de sintaxe. As mais empregadas são a elipse, o
absoluta, mas, pelo contrário, acreditam que atua como um filtro que zeugma, o anacoluto, o pleonasmo e o hipérbato.
condiciona a percepção.
Na elipse ocorre a omissão de termos, facilmente depreendidos do
Devido a essas mudanças na epistemologia, a retórica clássica forne- contexto geral ou da situação ("Sei que [tu] me compreendes."). Zeugma é
ce um modelo capcioso para os estudiosos da linguagem enquanto comu- uma forma de elipse que consiste em fazer participar de dois ou mais
nicação ou transmissão de conhecimento. A verdade não é mais definida enunciados um termo expresso em apenas um deles ("Eu vou de carro,
como ideia prefixada que a linguagem apresenta de forma atraente, mas você [vai] de bicicleta."). O anacoluto consiste na quebra da estrutura
como ideia relativa a uma perspectiva que é intrínseca à própria lingua- regular da frase, interrompida por outra estrutura, geralmente depois de
gem. Pensadores do pós-estruturalismo, que vêem a linguagem como uma pausa ("Quem o feio ama, bonito lhe parece."). O pleonasmo é a
estrutura cultural preexistente, que condiciona o indivíduo, pretendem repetição do conteúdo significativo de um termo, para realçar a ideia ou
fazer o exame retórico inclusive de outras formas de discurso relacionadas evitar ambiguidade ("Vi com estes olhos!"). Hipérbato é a inversão da
à linguagem. ordem normal das palavras na oração, ou das orações no período, com
finalidade expressiva, como na abertura do Hino Nacional Brasileiro:
Tornam-se objeto desse estudo o cinema, a televisão, a publicidade, "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / de um povo heróico o brado
o mercado financeiro, os partidos políticos e os sistemas educacionais, retumbante. ("As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumban-
estruturas produtoras de discurso e intrinsecamente retóricas, já que te de um povo heróico.") ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações
instituídas para persuadir e provocar resultados específicos. Outros retóri- Ltda.
cos modernos compreendem toda comunicação linguística como argu-
mentação e advogam que a análise e a interpretação do discurso sejam Metaplasmo
baseadas em um entendimento da reação e da situação social da audiên- As palavras, tanto no tempo quanto no espaço, estão sujeitas a alte-
cia. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. rações fonéticas, que chegam por vezes a desfigurá-las. Só se admite que
a palavra "cheio" era, em sua origem latina, o vocábulo plenus, porque leis
Figuras de Linguagem fonéticas e documentos provam essa identidade.
Consideradas pelos autores clássicos gregos e romanos como inte-
grantes da arte da retórica, de grande importância literária, as figuras de Metaplasmo é a alteração fonética que ocorre na evolução dos fone-
linguagem contribuem também para a evolução da língua. mas, dos vocábulos e até das frases. Os metaplasmos que dizem respeito
aos fonemas são vários. Na transformação do latim em português alguns
Figuras de linguagem são maneiras de falar diferentes do cotidiano foram frequentíssimos, como o abrandamento, a queda, a simplificação e
comum, com o fim de chamar a atenção por meio de expressões mais a vocalização.
vivas. Visa também dar relevo ao valor autônomo do signo linguístico, o
que é característica própria da linguagem literária. As figuras podem ser No caso do abrandamento, as consoantes fortes (proferidas sem voz)
de dicção (ou metaplasmos), quando dizem respeito à própria articulação tendem a ser proferidas com voz, quando intervocálicas (lupus > lobo,
dos vocábulos; de palavra (ou tropos), quando envolvem a significação defensa > defesa). Na queda, as consoantes brandas tendem a desaparer
dos termos empregados; de pensamento, que ocorre todas as vezes que na mesma posição (luna > lua, gelare > gear). Excetuam-se m, r, e por
se apresenta caprichosamente a linguagem espiritual; ou de construção, vezes g (amare > amar, legere > ler, regere > reger). O b, excetuando-se
quando é conseguida por meios sintáticos. também, muda-se em v (debere > dever).

Metaplasmos. Todas as figuras que acrescentam, suprimem, permu- Ocorre a simplificação quando as consoantes geminadas reduzem-se
tam ou transpõem fonemas nas palavras são metaplasmos. Assim, por a singelas (bucca > boca, caballus > cavalo). O atual digrama ss não
exemplo, mui em vez de muito; enamorado, em vez de namorado; cuido- constitui exceção, porque pronunciado simplesmente como ç (passus >
so, em vez de cuidadoso; desvario, em vez de desvairo. passo). Quanto ao rr, para muitos conserva a geminação, na pronúncia
trilada, como no castelhano (terra > terra); para outros os dois erres se
Figuras de palavras. As principais figuras de palavras são a metáfora, simplificam num r uvular, muito próximo do r grasseyé francês.
a metonímia e o eufemismo. Recurso essencial na poesia, a metáfora é a
transferência de um termo para outro campo semântico, por uma compa- Consiste a vocalização na troca das consoantes finais de sílabas inte-
ração subentendida (como por exemplo quando se chama uma pessoa riores em i, ou u: (acceptus > aceito, absente > ausente). Muitos brasilei-
astuta de "águia"). A metonímia consiste em designar um objeto por meio ros estendem isso ao l, como em "sol", que proferem "çóu", criando um
de um termo designativo de outro objeto, que tem com o primeiro uma ditongo que não existe em português.
dentre várias relações: (1) de causa e efeito (trabalho, por obra); (2) de
continente e conteúdo (garrafa, por bebida); (3) lugar e produto (porto, por Os vocábulos revelam, em sua evolução, metaplasmos que se classi-
vinho do Porto); (4) matéria e objeto (cobre, por moeda de cobre); (5) ficam como de aumento, de diminuição, e de troca. Como exemplos de
concreto e abstrato (bandeira, por pátria); (6) autor e obra (um Portinari, acréscimos anotam-se os fonemas que se agregam às antigas formas.
por um quadro pintado por Portinari); (7) a parte pelo todo (vela, por Em "estrela" há um e inicial, e mais um r, que não havia no originário
embarcação). O eufemismo é a expressão que suaviza o significado stella. Observem-se essas evoluções: foresta > floresta, ante > antes.
inconveniente de outra, como chamar uma pessoa estúpida de "pouco "Brata", oriundo de blatta, diz-se atualmente "barata". Decréscimos são
inteligente", ou "descuidado", ao invés de "grosseiro". supressões como as observadas na transformação de episcopus em
"bispo". Ou em amat > ama, polypus > polvo, enamorar > namorar.
Figuras de construção e de pensamento. Tanto as figuras de constru-
ção quanto as de pensamento são às vezes englobadas como "figuras Apontam-se trocas em certas transformações. Note-se a posição do r
literárias". As primeiras são: assindetismo (falta de conectivos), sindetismo em: pigritia > preguiça, crepare > quebrar, rabia > raiva. Os acentos
(abuso de conectivos), redundância (ou pleonasmo), reticência (ou inter- também se deslocam às vezes, deslizando para a frente (produção), como
rupção), transposição (ou anástrofe, isto é, a subversão da ordem habitual em júdice > juiz, ou antecipando-se (correpção), como em amassémus >
dos termos). As principais figuras de pensamento são a comparação (ou amássemos. A crase (ou fusão) é um caso particular de diminuição,
imagem), a antítese (ou realce de pensamentos contraditórios), a grada- característico aliás da língua portuguesa, e consiste em se reduzirem duas
ção, a hipérbole (ou exagero, como na frase: "Já lhe disse milhares de ou três vogais consecutivas a uma só: avoo > avô, avoa > avó, aa > à,
vezes"), a lítotes (ou diminuição, por humildade ou escárnio, como quando maior > mor, põer > pôr. A crase é também normal em casos como "casa
se diz que alguém "não é nada tolo", para indicar que é esperto). amarela" (káz ãmáréla).

Redação (Prova Discursiva) 8


Os metaplasmos são, em literatura, principalmente na poesia, figuras somente uma esperança.
de dicção. Os poetas apelam para as supressões, para as crases, para os
hiatos, como para recursos de valor estilístico. A um poeta é lícito dizer no POLISSÍNDETO = é a repetição de uma conjunção. Por exemplo: E
Brasil: "E o rosto of'rece a ósculos vendidos" (Gonçalves Dias). Quando rola, e rebola, como uma bola.
Bilac versifica: "Brenha rude, o luar beija à noite uma ossada" dá ao
encontro u-a um tratamento diferente daquele que lhe notamos adiante ANACOLUTO = consiste na interrupção do esquema sintático inicial
em: "Contra esse adarve bruto em vão rodavam "no ar". No ar reduzido a da frase, que termina por outro esquema sintático. Por exemplo: Este, o
um ditongo constitui uma sinérese. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil rei que têm não foi nascido príncipe(Camões).
Publicações Ltda.
ONOMATOPÉIA = consiste no uso de palavras que imitam o som ou
FIGURAS DE ESTILO a voz natural dos seres. Graças a seu valor descritivo, é também excelen-
METÁFORA = significa transposição. Consiste no uso de uma palavra te subsídio da linguagem afetiva. Por exemplo: Os sinos bimbalhavam
ou expressão em outro sentido que não o próprio, fundamentando-se na ruidosamente.
íntima relação de semelhança entre coisas e fatos. A metáfora é sempre
uma imagem, isto é, representação mental de uma realidade sensível. É RETICÊNCIA = consiste na proposital suspensão do pensamento,
uma espécie de comparação latente ou abreviada. Por exemplo: Paulo é quando se julga o silêncio mais expressivo que as palavras. Por exemplo:
um touro. Nós dois … e, entre nós dois, implacável e forte.

COMPARAÇÃO = consiste em comparar dois termos, em que vêm SILEPSE = concordância ideológica. A concordância não é feita com
expressos termos comparativos, constituindo-se em intermediário entre o o elemento gramatical expresso, mas sim com a ideia, com o sentido real.
sentido próprio e o figurado. Por exemplo: Paulo é forte como um touro.
A silepse pode ser: de gênero = Vossa Majestade mostrou-se genero-
METONÍMIA = significa mudança de nome. Consiste na troca de um so. (V.Majestade = feminino e generoso = masculino); de número = O
nome por outro com o qual esteja em íntima relação por uma circunstân- povo lhe pediram que ficasse. (o povo = singular e pediram = plural); de
cia, de modo que um implique o outro. Há metonímia quando se emprega: pessoa = Os brasileiros somos nós.(os brasileiros = 3ª pessoa e somos =
 o efeito pela causa = Sócrates tomou a morte(= o veneno). 1ª pessoa).
 a causa pelo efeito = Vivo do meu trabalho(= do produto de meu
trabalho). ANTÍTESE = consiste na exposição de uma ideia através de concei-
 o autor pela obra = Eu li Castro Alves(= a obra de Castro Alves). tos ou pensamentos opostos, quer fazendo confrontos, quer associando-
 o continente pelo conteúdo = Traga-me um copo d’água(= a água os. Por exemplo: Buscas a vida, e eu a morte; procuras a luz, e eu as
do copo). trevas.
 a marca pelo produto = Comprei um gol(= carro).
 o conteúdo pelo continente = As ondas fustigavam a areia(= a IRONIA = consiste no uso de uma expressão, pela qual dizemos o
praia). contrário do que pensamos com intenção sarcástica e entonação apropri-
 o instrumento pela pessoa = Ele é um bom garfo(= comilão). ada. Por exemplo: A excelente D. Celeste era mestra na arte de judiar dos
alunos.
 o sinal pela coisa significada = A cruz dominará o Oriente(= Cris-
tianismo).
EUFEMISMO = consiste no uso de uma expressão em sentido figura-
 o lugar pelo produto = Ele só fuma Havana(= cigarro da cidade de
do para suavizar, atenuar uma expressão rude ou desagradável. Por
Havana).
exemplo: Ficou rico por meios ilícitos(= roubou).
SINÉDOQUE = consiste em alcançar ou restringir a significação pró-
HIPÉRBOLE = consiste em exagerar a realidade, a fim de impressio-
pria de uma palavra. É o emprego do mais pelo menos ou vice-versa, isto
nar o espírito de quem ouve. Por exemplo: Ele se afogava num dilúvio de
é, a troca de um nome pelo outro de modo que um contenha o outro.
cartas.
 a parte pelo todo = No horizonte surgia uma vela(= um navio).
 o todo pela parte = O mundo é egoísta(= os homens). PROSOPOPÉIA = consiste na personificação de coisas e evocação
 o singular pelo plural = O homem é mortal(= os homens). de deuses ou de mortos. Por exemplo: As estrelas disseram-me: aqui
 a espécie pelo gênero = Ganhei o pão com o suor do rosto(= ali- estamos.
mento).
 o indivíduo pela classe = Ele é um Atenas(= cidade culta). ANTONOMÁSIA = substituição de um nome próprio por um nome
 a espécie pelo indivíduo = No entender do Apóstolo…(São Pau- comum, por uma apelido ou por um título que tornou a pessoa conhecida.
lo). Por exemplo: O Mártir da Inconfidência (para Tiradentes).
 a matéria pelo instrumento = Ela possui lindos bronzes(= objetos).
 o abstrato pelo concreto = A audácia vencerá(= os audaciosos). PERÍFRASE = rodeio de palavras, circunlóquio: por exemplo: A mais
antiga das profissões (a prostituição).
CATACRESE = é o desvio da significação de uma palavra por outra,
ante a inexistência de vocábulo apropriado. Origina-se da semelhança SINESTESIA = figura que se baseia na soma de sensações percebi-
formal entre dois objetos, dois seres. É uma metáfora estereotipada. Por das por diferentes órgãos dos sentidos. Por exemplo: A ondulação sonora
exemplo: Dente de alho; pernas da mesa. e táctil entrava pelos meus ouvidos.

ELIPSE = é a omissão de um termo da frase facilmente subentendido. PARADOXO = expressão contraditória. Por exemplo: Ia divina, num
Por exemplo: "Na terra tanta guerra, tanto engano, tanta necessidade simples vestido roxo, que a vestia como se a despisse(Raul Pompéia).
aborrecida, no mar tanta tormenta e tanto engano"(Camões). Os casos
mais comuns são de verbos(ser e haver), a conjunção integrante(que), a APÓSTROFE = é uma invocação, um chamado emotivo. Por exem-
preposição(de) das orações subordinadas substantivas indiretas e com- plo: Deuses impassíveis… Por que é que nos criastes?(Antero de Quen-
pletivas nominais, sujeito oculto. tal).

ZEUGMA = é a omissão de um termo já expresso anteriormente na GRADAÇÃO = é a disposição das ideias numa ordem gradativa. Por
frase. Por exemplo: Nem ele entende a nós, nem nós a ele. exemplo: Homens simples, fortes, bravos… hoje míseros escravos sem
ar, sem luz, sem razão…(Castro Alves).
PLEONASMO = consiste na repetição de uma mesma ideia por meio
de vocábulos ou expressões diferentes. Por exemplo: Resta-me a mim ASSÍNDETO = é a ausência de conectivos numa sequência de frases.

Redação (Prova Discursiva) 9


Por exemplo: Destrançou os cabelos, soltou-os, trançou-os de novo(Pedro
Rabelo).
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HIPÉRBATO = é uma inversão dos termos da frase, uma alteração na _______________________________________________________
ordem direta. Por exemplo: Já da morte o palor me cobre o rosto (Álvares
de Azevedo). _______________________________________________________
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ANÁFORA = é a repetição de um termo no início das frases ou ver-
sos. Por exemplo: Tem mais sombra no encontro que na espera. Tem _______________________________________________________
mais samba a maldade que a ferida (Chico Buarque de Holanda).
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ALITERAÇÃO = é a repetição de sons consonantais iguais ou seme- _______________________________________________________
lhantes. Por exemplo: E as cantilenas de serenos sons amenos fogem
fluidas, fluindo à fina flor dos fenos(Eugênio de Castro). _______________________________________________________
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ASSONÂNCIA = é a repetição de sons vocálicos iguais ou semelhan-
tes. Por exemplo: Até amanhã, sou Ana da cama, da cana, fulana, saca- _______________________________________________________
na(Chico Buarque de Holanda).
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PARANOMÁSIA = é o encontro de duas palavras muito semelhantes _______________________________________________________
quanto à forma. Por exemplo: Ser capaz, como um rio, (…) de lavar do
límpido a mágoa da mancha(Thiago de Mello). _______________________________________________________
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Fonte: http://www.micropic.com.br/noronha/grama_fig.htm
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Redação (Prova Discursiva) 10