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O CALCULO
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NEUROTICO
DO GOZO

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©by autor
1 ª edição: maio de 2002

EDITORES
Manoel Tosta Berlinck
Maria Cristina Rios Magalhães
CAPA
Ediara Rios
PRODUÇÃO EDITORIAL
Araide Sanches

Catalogação na Fonte do Depto. Nacional do Livro

D919c
Dunker, Christian Ingo Lenz
O cálculo neurótico do gozo / Christian Ingo Lenz
Dunker - São Paulo: Escuta, 2002.
232 p. ; 14x21 cm.

ISBN 85-7137-193-8

1. Sexo (Psicologia). 2. Neuroses. I. Título

CDD-155.3

Editora Escuta Ltda.


Rua Dr. Homem de Mello, 351
05007-001 São Paulo, SP
Telefax: (11) 3865-8950 / 3675-1190 / 3672-8345
e-mail: escuta@uol.com.br

acervo
Para Mathias, Nathalia e Cris
. . . pois não há saber sem amor.
AGRADECIMENTOS

Considero o presente trabalho uma obra coletiva apesar


de ter um único autor. São inúmeras as vozes e escutas com as
quais pude contar ao longo de sua elaboração e que quero
agradecer. Meus orientandos, alunos de iniciação científica e do
mestrado em psicologia, especialmente Tati, Fuad Neto, Pau­
la, Gonçalo e Paulo que me ajudaram com fontes e comentários
preciosos. Os professores da Universidade São Marcos, especial­
mente Consuelo, Daniel, Marisa, Ricardo e Ciampa que foram
companheiros e amigos com quem pude dividir momentos di­
fíceis durante a redação do texto. No Fórum de Psicanálise de
São Paulo e no Fórum do Campo Lacaniano, alguns capítulos
deste livro foram apresentados e discutidos preliminarmente.
Quero agradecer o acolhimento de muitos, nessas ocasiões, e
também a presença, nesse período, de Dominique, Ângela e
Mauro que à sua maneira permitiram o reinvestimento neces­
sário para a conclusão deste livro. Por vários e "impublicáveis"
motivos quero agradecer a meus queridos amigos do consultó­
rio Conrado, Gui, Bia, Ana Laura e Michele que estiveram pre­
sentes nos embates crítico-metapsicológicos, além de Álvaro,
João e Lu nos momentos de incerteza aguda. Devo muito ain­
da a Alfredo e Contardo que me escutaram em aspectos clíni­
cos do projeto e aos professores Luiz Carlos e Luís Cláudio que
muito me ensinaram acerca da convivência precária, mas pos­
sível, entre psicanálise e universidade. Ana Cristina, Mathias e
Nathalia ... obrigado.
À Coorpesq da Unimarco que custeou horas necessárias
para a realização desta pesquisa.
SUMÁRIO

PREFÁCIO, Angela Vorcaro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ...... 7

INTRODUÇÃO ...........................................................................•...... 11

PARTE 1
Gozo E TEORIA DO VALOR

0 PROBLEMA DOS CONCEITOS ECONÔMICOS DE FREUD A LACAN ....... 21

As RAÍZES DA NOÇÃO DE GOZO EM LACAN ..•...•..........••................... 29

O gozo na matriz lingüística ............................................... 30


O gozo na matriz ético-jurídica .......................................... 42
O gozo na matriz econômico-política ................................ 54
O gozo na matriz lógico-formal ........................................ 61

A FALTA E O EXCESSO: MODULAÇÕES DO GOZO EM UM


C/!<50 DE HISTERIA .......................................................•.....•.............. 67

0 CÁLCULO NEURÓTICO DO GOZO ....................•..•.••......................... 77

Sacrifício, restituição e resto ................................................ 80


A crise de gozo ...................................................................... 88

A DIMENSÃO QUANTITATIVA NA PSICOPATOLOGIA PSICANALITICA ..... 97

PARTE II
DA ESTRUTURA AO SINTOMA

DESENCADEAMENTO DA NEUROSE: UM FALSO PROBLEMA? ............... 111

A NOÇÃO FREUDIANA DE VERSAGUNG E O GOZO COMO PARASITA ... 123


PRODUÇÃO, SUSTENTAÇÃO E FRACASSO DE SINTOMAS ...................... 133

Sintoma e identificação ...................................................... 138


Sintomas transitórios, típicos e individuais .................... 141
A sustentação do sintoma na família ............................... 147
Fantasma e traço de gozo .................................................. 150

PARTE Ili
QUADROS CLÍNICOS

NEUROSE DE CARÁTER ••............... ···············•·································· 157

NEUROSE TRAUMÁTICA •..•.•.............................•......................•....... 173

NEUROSE DE DESTINO ......................................................•............. 183

NEUROSES ATUAIS: NEURASTENIA E NEUROSE DE ANGÚSTIA ............ 191

NEUROSE NARCÍSICA ••................................................................... 203

ALÉM DO CÁLCULO: A SUPLÊNCIA .................................................. 215


PREFÁCIO

As modalidades de cálculo de gozo que este livro nos con­


vida a estimar oferecem-nos a possibilidade de abordar cifra­
mentos que os sujeitos efetuam singularmente e dão mostras
da generosidade com que Christian Dunker nos apresenta o
que se calcula para discernir a própria condição do sujeito.
Este livro trata do que se mantém enigmático na comple­
xidade do sujeito, partindo da via trilhada por Freud. Afinal,
um dos modos pelos quais Freud se esforça por nos apresentar
o sujeito - essa insistência exterior ao saber por que imprevis­
ta e ao mesmo tempo repetitiva - é fazer a lista das inúmeras
situações nas quais o domínio intelectual do mundo implica
ditar universalidades organizadoras do caos. Mas, diz Freud,
se tal trabalho simplifica os fenômenos, em contrapartida tam­
bém os falseia, especialmente quando dizem respeito a proces­
sos de t ransmutação. Nosso interesse por mudanças
qualitativas seria, segundo Freud, responsável por nosso des­
cuido: omitimos o ordinário imperfeitamente consumado e as
alterações apenas parciais. Enfim, Freud lembra que os fenô­
menos residuais e as pendências parciais sempre insistem por­
que nenhuma transmutação acontece de modo integral: "Uma
vez que algo nasceu para a vida, sabe afirmar-se com tenacida­
de" . 1 Essa observação de Freud adquire neste livro todo o seu
valor. Ela é o que Christian Dunker nos propõe enfrentar.

1. Freud, S. (1937). Análisis terminable e interminable. OC. Buenos Aires:


Amorrortu, 1976, p. 232. v. XXIII.
8 CHRISTIAN INGO LENZ OUNKER

Que saber insabido é esse, tão tenaz, que "sabe afirmar­


se"? Essa interrogação cinzela, no percurso traçado por Chris­
tian Dunker, aquilo que o termo cálculo condensa por meio da
reordenação da clínica, lida com as considerações de tantos
outros autores que lançaram luz sobre os resíduos cintilantes
que testemunham presença e insistência subjetivas.
Referindo-se ao Evangelho segundo São Mateus, o Lacan
do Avesso da Psicanálise cita os lírios do campo, que podem ser
imaginados como um corpo inteiramente entregue ao gozo:
cada etapa de seu crescimento idêntica a uma sensação sem
forma; gozo de planta, a que nada escapa. São Mateus, efetiva­
mente, descreve o usufruto pleno da vida sem qualquer cálcu­
lo, considerando-a assegurada por Deus, tal como a natureza.
O desagradável é que nada sabemos do gozo de planta. Lacan
introduz os lírios do campo para distinguir nossa dificuldade
em saber sobre gozo(... nem Salomão, com toda a sua glória...).
Nada sabemos do gozo porque, diz ele, faltando significante, não
há distância entre o gozo e o corpo. É nessa perspectiva que nos
servimos da noção de instinto que dissolve nossa dificuldade,
à medida que, afirma Lacan, o instinto traz a implicação de um
"saber do qual não se é capaz de dizer o que isso quer, mas que
se presume que tenha como resultado que a vida subsista."
Como o instinto, o gozo é limitado por processos que chama­
mos de naturais por estarem fora do discurso, e dos quais, por­
tanto, nada sabemos.
Entretanto, se a medida de nossa impossibilidade de
enunciar o gozo deve-se ao fato de sermos efeitos da lingua­
gem - e, portanto, condenados, necessariamente, a modalida­
des de· gozo parcial-, é a -própria linguagem que permite
formular hipóteses lógicas sobre as modalidades pelas quais o
ser vivo é adquirido pela linguagem a ponto de essa aquisição
produzir sujeito. Isso resume a importância e a atualidade ex­
pressas nas páginas deste livro.
Com o mesmo vigor com que Christian Dunker trata os
mistérios do sujeito formulados por Freud, podemos encontrar
em suas páginas, efetivamente, uma leitura. O que faz deste tra­
balho um ato de ler é que ele tão bem nos ensina a ler e, nessa
transmissão de um saber-Jazer com a linguagem em que nos
PREFÁCIO 9

contamos, a distinguir essa inscrição do sujeito, corno exclusão


que coagula o saber, na repetição de cálculos própria à sua con­
dição de contador. De fato, se o gozo é impossível, é pela even­
tualidade de o sujeito posicionar-se corno contador que um
gozo entra em ação. Tal acidente permite esse uso específico da
linguagem que suporta a sustentação mítica de equivaler-se a
si mesmo.
Nessa falha chamada sujeito, os efeitos da ligação discur­
siva operam, induzindo e determinando um cálculo, cujo tra­
ballw de contar articula o saber. Como o sujeito que o si mesmo
representa não é unívoco, algo fica oculto e determina a errân­
cia do cálculo em que o funcionamento da linguagem se de­
monstra pela retroatividade em que ela manifesta que é falta, e
não êxito. A linguagem é repetição que se relaciona, pelo cálculo,
aos confins do saber, meio de gozo.
O sujeito, diferentemente da planta, tem urna economia. Na
busca de gozo ele repete seu traço que nunca é o mesmo, por­
que nunca está só: o traço só comparece escandido pelo signi­
ficante. Assim, a repetição presentifica a ordem da linguagem,
porque o saber ultrapassa a lei do prazer. O saber se debulha,
se enumera, se detalha, e o rosário se desfia sozinho, fazendo
do sujeito um empregado da linguagem. Na repetição, o saber
é o meio do gozo, ao mesmo tempo em que produz perda de gozo. No
lugar dessa perda, introduzida pela repetição, aparece o que está
além do princípio do prazer: a repetição, mais-de-gozar a recuperar.
A partir do instante em que se encontra aparelhado com a
linguagem, o sujeito visa um saber sobre o gozo. Mas ele só o
perde, mais um pouco, porque o cálculo o esquadrinha em sig­
nificante, infletindo-o na língua. Não é surpreendente que,
então, o sujeito faça do saber o meio de gozo possível, retiran­
do da perda de gozo, que o saber implica, o possível de gozo,
através de urna economia de repetição? Através de um cálcu­
lo da sua mais valia, que, corno diz Lacan, é traço de cinzel do
discurso, impresso a cada repetição, nas modalidades pelas
quais ele pode simular o gozo absoluto no gozo possível.
É essa outra ordem de saber que Christian Dunker expõe,
a partir do que só urna excelência clínica poderia permitir, dis­
tinguindo modalidades de cálculo pelas quais o sujeito, via
10 CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

discurso, opera o jogo de gozo que secciona libido e natureza.


Mas interessa notar, ainda, o estilo em que esse autor mostra
saber-fazer, singularizando a vigência freudiana da extensão
da clínica, para fazer a teoria trabalhar e operar. Tal cálculo,
surpreendente, é o maior ensinamento de método deste livro.

Angela Vorcaro
INTRODUÇÃO

Na elaboração desta pesquisa procurei rever um conjun­


to de práticas discursivas que levaram a um certo esgotamen­
to da criatividade conceitua! e ao fechamento complacente da
interlocução científica, na tradição psicanalítica inaugurada por
Lacan. Cito alguns exemplos: o uso do texto de Lacan como
mero argumento de autoridade, o achatamento do texto de
Freud de forma a fazê-lo confessar apenas o que interessava
comprovar como já sabido, a recusa deliberada ao trabalho crí­
tico construtivo e a soberba indiferença com relação ao que se
produz em campos institucionalmente vizinhos ou mesmo ao
que vem sendo feito em outras tradições dentro da psicanáli­
se. Soma-se a isso uma espécie de horror a ser compreendido
e o cultivo de certas formas retóricas facilitadoras que sofreram
o desgaste esperado de um estilo, quando este torna-se um gê­
nero. Tais práticas, há muito apontadas pelas mais variadas
fontes, exigem, de fato, uma mudança de atitude, ao risco de
uma sectarização ainda maior da psicanálise. Uma mudança
que implique retorno ao texto, em confronto e reconhecimen­
to de sua disparidade e contradição com teses freudianas, além
de uma abertura aos interessantes avanços da psicanálise não
lacaniana.
Neste sentido estabeleci algumas condições que deveria
cumprir na redação deste estudo e agora, ao seu fim, noto que
nem sempre permaneci tão fiel a tais condições quanto gosta­
ria. Mas isso caberá também ao leitor julgar. Pretendi, antes de
tudo, falar sobre clínica. Contar algumas passagens, narrar
fragmentos de casos, transmitir não só exemplos e ilustrações,
12 CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

mas isolar aspectos que não me pareciam encontrar um corre­


lato teórico muito estável. Falar sobre a clínica enfatizando a
dimensão intensiva· desta experiência, valorizando aquilo que
nem sempre está em primeiro plano na chamada escuta estru­
tural, ou seja, a dimensão de força dramática ou trágica do so­
frimento neurótico.
Mas o que significa falar sobre clínica? Como transmitir,
pensar e pôr à prova este campo tão heterogêneo e sujeito a
idiossincrasias onde temos sempre o sentimento de que o es­
sencial escapa por entre as tentativas de representá-lo? Neste
quesito adotei uma estratégia híbrida. Combinar fragmentos de
casos com a regularidade clínica que estes poderiam apresen­
tar, procurando sempre manter uma certa diversidade de fon­
tes para enriquecer ou questionar seu poder descritivo. A idéia
é manter-se entre dois extremos: de um lado, a formalização
conceitual, cujo ápice talvez seja o materna; de outro, o puro
relato clínico, quase anedótico, cujo ápice talvez seja o poema.
Essa atitude retoma aspectos que discuti anteriormente 1 quanto
ao valor das descrições clínicas, uma vez advertidas contra um
certo realismo ingênuo que por vezes as atravessa. Isso signi­
ficou retomar e valorizar certos quadros clínicos, descritos clas­
sicamente, por Freud o u não, e que enc o ntraram pouca
receptividade na tradição lacaniana: neuroses atuais, neuroses
de caráter, neuroses traumáticas e, por fim, os quadros de bor­
da (borderline) ou também chamados casos-limites.
Admito com isso que o quadro clínico - assim como uma
tela de pintura - é sempre mais rico do que a sua combinató­
ria composicional, do que a estrutura de sua perspectiva ou do
que a sua técnica de mistura de cores. O quadro clínico é uma
possibilidade relativamente genérica da estrutura clínica. En­
tendo, nesta medida, que é preciso introduzir um terceiro nível
psicopatológico entre o sintoma e a estrutura, para lidar com
tais quadros. Poder-se-ia dizer que este corresponderia ao ní­
vel do funcionamento psíquico. Prefiro delimitá-lo com a noção
de gozo e de variações possíveis de seu cálculo.

1. Dunker, C.l.L. Tempo e linguagem na psicose da criança. 1996. 280p. Tese


(Doutorado em Psicologia Experimental). Instituto de Psicologia da USP.
I NT R O D U Ç ÃO 13

O objetivo deste livro é mostrar que a noção de cálculo


neurótico do gozo pode ter alguma utilidade na clínica e na
pesquisa psicanalítica que considere a singularidade de agru­
pamentos sintomáticos e algumas condições subjetivas adjacen­
tes. Tal noção não será explicitada rigorosamente antes das
análises que proponho. Ela será construída ao longo da apre­
ciação dos problemas tratados.
Inicialmente procurei detalhar, especialmente na primei­
ra parte, que a noção de cálculo do gozo possui uma conver­
gência possível com algumas acepções e usos da noção de gozo
que encontramos em Lacan. 2 Mais especificamente, apontei
para a idéia de que o gozo é a referência para o cálculo do va­
lor e de que este cálculo está exposto a certos paradoxos que o
tornam imperfeitamente realizável. Isso servirá de preparação
para a tese, desenvolvida nos capítulos subseqüentes,· de que
certos sintomas neuróticos podem ser compreendido como mo­
dulações deste cálculo.
Boa parte da psiquiatria, e do senso comum de nossa épo­
ca, afirmam que os sintomas constituem um prejuízo psíquico
ao sujeito. O sintoma pode limitar, constranger e empobrecer
a vida do neurótico É a.lgo qve está em excesso e que. portan­
to, deveria ser sumariamente eliminado, controlado ou ameni­
zado. Isso deve ser feito, na medida do possível, de modo
permanente, pela transformação das causas que o produzem.
A dissolução de sintomas sempre foi considerada a prin­
cipal tarefa terapêutica a ser enfrentada pela psicanálise. Mas
coube a Freud mostrar que os sintomas não são mero desajus­
te, nem excesso que pode impunemente ser abreviado. Decor­
ren tement e , a psicanálise não é apenas uma prática de
eliminação de sintomas. De fato, estes representam um obstá­
culo ao amor, ao trabalho e uma fonte a mais de infelicidade,
além daquelas que a existência, por si só, impõe. Nada toma
mais tempo e é mais oneroso ao neurótico do que sua dedica­
ção aos sintomas.

2. Para aqueles lei tores menos interessados nos aspectos concei tuais da
noção de gozo em Lacan, recomendo que iniciem a leitura p elo tercei­
ro ca p ítulo.
14 C H R I S T I A N INGO LENZ Ü U NKER

Outro ponto elementar para a questão é de que os sinto­


mas possuem sentido e função. Como conseqüência dessa tese,
devemos estar dispostos a apreender o sintoma como efeito de
um laborioso trabalho de construção psíquica e, igualmente,
como uma espécie de "forma de vida" . Constituir um sintoma
é uma tarefa árdua para o sujeito e disso depende uma parte
do valor que a partir de então este passa a ter. O sintoma não
é, portanto, apenas um problema, mas uma solução, uma res­
posta, por vezes precária, para conflitos que constituem o pró­
prio sujeito e localizam o ser em sua ex-sistência. O sintoma,
neste último sentido, pode assumir a função de uma espécie de
religião particular, mas também de uma obra de arte à procu­
ra de um destinatário.
Há, portanto, esta dupla face: a do prej uízo, da contra
vontade e a do sintoma como uma espécie de obra de arte.
Nela pode-se notar em suas ranhuras e aparas os restos e as
marcas do esforço levado a cabo na sua construção . Obra de
arte que faz persistir e representar seu autor e ao mesmo tem­
po o nega em sua destituição subjetiva. Obra que perdeu sua
função social preservando em seu núcleo rígido apenas a satis­
fação de sua própria continuidade. Essa comparação com a
obra a ser decifrada em seu sentido e rearticulada em sua fun­
ção social permite entender porque mn sintoma não é propria­
mente cura d o , na acepção médica d o termo, por uma
psicanálise. Melhor seria dizer que ele cai, é encostado, entra
em desuso ou perde sua importância. Freud empregava o ter­
mo Losung, solução ou dissolução para se referir a isso. Disso­
lução deste fragmento petrificado de gozo que se encontra em
seu interior.
Assim como a obra de arte, o sintoma tem um destinatá­
rio, constituindo em seu incomum arranjo de linguagem um
enigma capaz de estranhar a seu próprio autor. Assim como o
sintoma, a obra de arte é algo completamente sem sentido, inú­
til do ponto de vista da razão calculante, instrmnental e fundo-:
nal hegemônica em nossa época.
A pergunta que pretendo investigar diz respeito ao valor
do sintoma. Valor tão difícil de calcular quanto o de uma obra
de arte. Valor cujo cálculo coloca em jogo a mais paradoxal for-
INTRO D U Ç ÃO 15

ma de satisfação que a experiência psicanalítica trouxe à luz: o


gozo.
A expressão cálculo costuma remeter à realização de urna
medida ou a um conjunto de operações sobre números e sím­
bolos algébricos na matemática ou na lógica. O termo calculus
referia-se originariamente a uma pequena pedrinha utilizada
para marcar tais operações, como as que se vê nos ábacos orien­
tais. Uma pedra que acabou por metaforizar e condensar o con­
j unto das operações que ela permitia realizar. É nesse sentido
de condensado ou precipitado que o termo cálculo aparece ain­
da no vocabulário da medicina. Esta pedra de gozo é o que
Lacan apontava como crucial na análise do sintoma.
Mais difícil é entender como cálculo ganhou a conotação
de conjectura, estimativa, que no sentido figurado indica ain­
da "sentimento de cobiça e interesse" . 3 Como a imparcialida­
de, aparentemente contida na idéia de cálculo matemático, se
conjugaria aos sucedâneos menos nobres da vontade? Nisso se
expressa uma ambigüidade moderna abrigada no termo. A ra­
zão calculadora é capaz de nos oferecer garantia e previsibili­
dade sobre o futuro, capaz de domesticar o infinito e regular de
forma planetária as trocas simbólicas humanas, mas ao mesmo
tempo o termo é revestido de suspeita quanto à sua extensão.
Qual o limite do que pode ser calculado?
Para falarmos em cálculo, mesmo na acepção genérica que
pretendo, é necessário supor três condições. A primeira é o que
se pode chamar de ciframento, ou seja, estabelecer os represen­
tantes daquilo que se pretende representar. Tais representan­
tes podem ser numéricos, algébricos ou matemáticos, podem
ser simplesmente palavras, sinais ou marcas.
A segunda condição implica estabelecer as regras de opera­
ção entre estes representantes, ou seja, circunscrever os tipos de
trocas, identidades e relações que esses elementos admitem
entre si. Tais relações podem se reduzir a regras de substituição,
o modo de uma gramática, o modo das regras que constituem

3. Ferreira, A. Buarque de. Novo Dicionário Aurélio da Líng ua Portuguesa .


Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1 996.
16 C H R I S TIAN I NG O LENZ DUNKER

ou regúlam um jogo. As regras de transformação pressupõem um


universo cifrável, fazem uma segunda borda do cálculo.
A terceira condição é que se possa abstrair, pelo cálculo,
um valor ou produto daquilo que se calculou. Por exemplo, na
matemática fala-se em função e argumento (regras de operação),
em variáveis (ciframento), mas também há ainda o valor. Temos
aqui uma espécie de raiz do processo. O cálculo nos leva de um
ponto ao outro, que presumivelmente já se encontrava prescri­
to pelo primeiro. Ele não introduz nada novo.
Sucede que se aplicamos tais categorias à produção do
sintoma neurótico veremos que este nos surge como uma espé­
cie de paradoxo ou contradição relativo ao valor. Um valor que
parece imperfeitamente redutível à sua regra de formação.
Como Freud mostrou vivamente, o sintoma possui um valor
do qual o neurótico não quer se livrar. Um valor do qual se
desconhece o percurso de produção e as regras de seu cifra­
mento.
O argumento central deste estudo é que, no que toca ao
gozo, o cálculo em questão responde bem às duas primeiras
condições: ele é capaz de ser cifrado e é capaz de ser exposto
a uma economia de trocas. No entanto, quanto à terceira, o que
se obtém é uma inconsistência quanto ao seu produto ou valor.
O gozo não cessa de não se inscrever no sintoma porque seu
valor representa um paradoxo para o sujeito. 4
A idéia de algo que resiste a inscrever-se plenamente na
razão regida pelo cálculo não é nova. Historicamente diversos
valores foram e são candidatos a baluartes neste anteparo ao
cálculo: o homem, a vida, a liberdade, são alguns exemplos
mais conhecidos. São termos que representam valores intrínse­
cos ou imanentes para os quais as operações de ciframento, tro­
ca e uso não deveriam ser aplicadas. O homem, por exemplo,
não deve ser pensado como possuindo um valor, mas apenas
dignidade.
A modernidade está em associação direta com uma série
de impasses éticos, estéticos e epistêmicos onde a noção de cál-

4. Correa, I. A psicanálise e seus paradoxos. Salvador: Ágalma, 2001 .


INTRO DUÇÃO 17

culo se revela i m p rópria ou paradoxal. Como mos trou


Bauman,5 uma contradição constitutiva da modernidade reside
na pretensão de discriminação, cálculo e organização que se
impuseram às sociedades ocidentais. Mas o sucesso de tal pro­
jeto historicamente se associou à produção de mais ambigüida­
de, indiscriminação e barbárie. Atenção - não se está afirmando
que o cálculo por si e em si seja contracivilizatório, mas que a
extrapolação de seu âmbito e o exagero de suas pretensões têm
sérias conseqüências sociais. É só quando a ambigüidade é re­
cebida como sintoma, e só quando o sintoma torna-se um mal
a ser erradicado por novas forças e estraté gias de
desambiguação6 que nos arriscamos a tornarmo-nos "infeliz­
mente saudáveis" . Analogamente é como se por um excesso de
precisão, por um ultrapassamento do limite ao gozo, que cer­
tos grupos sintomáticos são desencadeados no interior da neu­
rose. É nesse tipo de movimento, onde quanto mais se luta
contra algo, mais isso se acirra e insiste, que pretendo isolar o
cálculo neurótico do gozo. Quanto mais o gozo se cifra, menor
valor este tem. Inversamente, quanto maior seu valor menor
sua possibilidade de inscrição.
Entendo, desta maneira, que o sintoma pode e deve ser
escutado como a realização inconsciente deste cálculo parado­
xal próprio à neurose. Ele pode ser escutado em conjunto com
aquilo que faz estrutura, assim como em uma audição musical
pode-se estar atento ao ritmo, à melodia e ao volume simulta­
neamente. Escutar as operações de ciframento, intercâmbio e
valorização que estão envolvidas no cálculo supõe dar alguma
atenção às modulações de intensidade, força ou investimento
que são trazidas pela fala do paciente, mais especificamente na
expressão de seu sofrimento. Argumento, com isso, que a clí­
nica que pretenda tratar o gozo deve acolher, de alguma forma,
suas variações quantitativas e não apenas qualitativas.

5. Bauman, Z. Modern idade e a111biva lê11cia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


1999.
6. Ha roche, C . Fazer, dizer, q uerer, dizer. São Paulo: Hucitec, 1992.
PARTE 1

Gozo E TEO R I A DO VALO R


Ü P R O B LEM A D O S C ONCEITOS
ECONÔ M I C O S DE F REU D A LACAN

O primeiro resultado da nova ciência (cartesiana) foi o de cortar o real


em duas metades, quantidade e qualidade, das quais uma foi
entregue aos corpos e outra às almas.
Bergson

Uma crítica usualmente levantada contra a leitura lacania­


na de Freud diz respeito ao pouco peso conferido aos afetos e
por extensão ao que Freud chamava de ponto de vista econô­
mico em psicanálise. Se percorrermos um texto kleiniano ou
winnicottiano e o compararmos a um escrito inspirado no en­
sino de Lacan, uma curiosa diferença estilística salta aos olhos.
No primeiro caso o texto costuma estar repleto de expressões
quantitativas tais corno "muito", "pouco", "maciçamente", "in­
tensamente", e assim por diante. Surge a impressão de que
sempre se está a falar de diferenças dispostas segundo uma
continuidade, de acordo com uma gradação, onde a combina­
ção, a mistura e a co-presença de processos e dimensões é a tô­
nica. No caso lacaniano se dá o oposto: tudo é uma questão de
qualidades, diferenças irredutíveis, descontinuidades e ruptu­
ras. Tal diferença estilística replica, superficialmente, a impor­
tância assumida pelo ponto de vista econômico no primeiro
caso e a suspeita do qual ele é cercado na segunda situação.
A crítica de que Lacan abandonou o ponto de vista econô­
mico é imprecisa. Aspectos sumamente dependentes das con­
siderações econômicas em Freud receberam atenção sistemáti-
22 CHRI S T I AN INGO LENZ DUNKER

ca de Lacan, vale citar sua interpretação das teses sobre o nar­


cisismo, nos termos do estádio do espelho e da concepção de
imaginário; sua teoria da angústia, ainda não inteiramente exa­
minada; além da controversa teoria da sexuação.
Poder-se-ia objetar então que o abandono do ponto de vis­
ta econômico não é temático mas trai a inspiração metodológi­
ca freudiana de considerar, por exemplo, a libido como uma
espécie de "energia psíquica de natureza sexual" . Energia cuja
quantidade não pode ser medida mas que em sua distribuição,
deriva, concentração ou dispersão, determina o funcionamen­
to psíquico. A imagem freudiana da libido como um rio cauda­
loso, de fonte constante, procurando caminhos por onde escoar
e encontrando resistências e transbordamentos em sua trajetó­
ria, é uma imagem que valoriza a força, a exigência, o impul­
so, não apenas qualidades diferenciais neutras . A imagem do
rio pressupõe a existência primária da água como substância
dotada de realidade material. O que está em jogo aqui é saber
se a libido é um conceito que reflete uma realidade semelhan­
te à de um neurotransmissor, por exemplo, onde seus aspectos
quantitativos podem ser calculados com exatidão.
Nesse caso a crítica se concentra em torno da recusa laca­
niana em considerar o elemento quantitativo, contido na acep­
ção original, oferecendo em troca uma perspectiva epistemoló­
gica formalista. Mas quando Lacan critica a adoção da energia
como elemento primário para pensar o psiquismo, ele o faz
tendo em vista a ingenuidade metafísica que nela se encerra. A
energia não é um fato primário na constituição da realidade
psíquica, mas uma suposição sobre a eficácia deste sistema, a
chamada realidade como Wirklichkeit. Isso porque a energia só
interessa ao aparelho psíquico na medida em que estabelece,
para ele, um princípio elementar de trocas e equivalências.
Freud foi levado pela noção energética a forjar uma noção
que se deve usar na análise de modo comparável à da energia.
É uma noção que, assim como a da energia, é inteiramente abs­
trata, e que consiste nu:ma simples petição de princípio, desti­
nada a p ermitir um certo jogo de pensamento. Ela permite
unicamente expor - e ainda assim de forma virtual - uma equi­
valência, a existência de uma medida comum, entre manifesta-
G o z o E TEO RIA DO VALO R 23

ções que se apresentam como qualitativamente muito distintas.


Trata-se da noção de libido. 1
Nessa passagem fica claro como Lacan lê o ponto de vis­
ta econômico freudiano, no que toca a noção de libido, isto é,
como um artifício de método e não como um a priori ontológi­
co. A energia só passa a ser levada em conta quando responde
a três condições : (a) quando ela pode ser medida no interior de
um sistema simbólico, (b) quando ela não é um sucedâneo da
realidade natural, (c) quando se torna necessária para justificar
a realidade eficaz ( Wirklichkeit) do sistema. Vê-se assim que a
tese da anterioridade do simbólico em relação ao imaginário
não versa sobre a concepção do ser mas sobre como se pode
apreendê-lo.
De fato há muitos ganhos a cons iderar neste giro anti­
essencialista, nesta crítica da metafísica fisicalista, prisioneira
do contexto científico no qual se desenvolveu a obra de Freud
e de uma parcela substancial de seus continuadores. No entan­
to este movimento crítico redundou, paralelamente, na conde­
nação ao ostracismo de certos temas clínicos freudianos, por
parte da tradição lacaniana que se seguiu.
O ensino de Lacan parece caminhar de uma interpretação
lingüística do inconsciente (a teoria do significante) para uma
teoria dialética do sujeito (a subversão do sujeito), terminando
por tematizar a paradoxalidade do objeto (a topologia das pul­
sões). É justamente este terceiro ponto que exige uma releitu­
ra do pon to de vista econôm ico, o que oferece maior
dificuldade de integração teórica e clínica. Um dos motivos
para isso é a forte presença do fisicalismo biologista que im­
pregna a apreensão econômica dos conceitos em Freud. Biolo­
gismo e xp r e s s o por noçõ e s quantita tivas como força,
intensidade, pressão, investimento, solicitação somática, etc.
Biologismo que reaparece no compromisso freudiano com cer­
tos aspectos da clínica clássica. Na sua semiologia, na sua
diagnóstica e em parte de sua concepção etiológica a dimensão

1 . Lacan, J. O seminário. Livro IV. A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar, 1 995, p. 44.
24 C H RISTIAN I NGO LENZ ÜUNKER

intensiva ora aparece como um axioma teórico, como no "Pro­


jeto de psicologia científica para neurólogos" ,2 ora como o fiel
da balança na possibilidade de cura, como em "Análise termi­
nável e análise interminável",3 ou ainda como determinante
conjuntural na causação de sintomas, como em "Os caminhos
da formação de sintoma" . 4 Ou seja, tanto na teoria do aparelho
psíquico quanto na psicopatologia ou na prática da cura o ele­
mento quantitativo é decisivo no entender de Freud.
Lacan, como se sabe, procura reler Freud de modo a des­
biologizar seus conceitos. Em linhas gerais isso significará uma
substituição regrada, sistemática e argumentada de noções
quantitativas por noções qualitativas. Por exemplo no Seminá­
rio XX5 e nos textos adjacentes fica nítida a estratégia de Lacan
quanto à substituição do paradigma freudiano fisicalista, pela
consideração lógica dos p roblemas derivados da teoria das
pulsões. Exemplo desta substituição são as chamadas fórmulas
da sexuação. Uma novidade apresentada por este modelo é
considerar como ponto de partida a tese de que há uma impos­
sibilidade de realizar uma relação (no sentido de proporção
perfeita) entre masculinidade e feminilidade. O gozo masculi­
no se organiza em relação ao falo e o gozo feminino (gozo Ou-

2. "O propósito des te projeto é alcançar uma psicologia como ciência na­
tural, a saber, apresentar p rocessos psíquicos como estados q uantitati­
va m e n t e c om a n d a d o s p o r partes m a t e r i a i s c o m p r o v a d as . . . " ln:
Freud, S. Projeto de uma psicologia científica para neurólogos . OC.
Buenos Aires: Amorrortu, 1 988, p. 339. v. I. Edição d e controle: Edi­
ção de controle: Sigmund Freud Studienausgabe. Frankfurt: S. Fischer, 1 975.
3 . " . . . tratando-se do desenlace de uma cura analítica, este depende no es­
sencial da intensidade e profundidade do enraizamento destas resistên­
cias de alteração do eu." Freud, S. Análise terminável e análise inter­
minável. ln: OC. Op . cit., p. 240. v. XXIII.
4. "Não menos decisivo é o fato quantitativo para a capacidade de resis­
tência a contrair uma neurose. Interessa o mon tante de libido não apli­
cada que uma pessoa pode conservar flutuante, e a quantia da fração
de sua libido que é capaz de desviar-se do sexual para as metas da su­
blimação." Freud, S. Os caminhos da formação de sintomas. ln: OC.
Op. cit., p. 342. v. XVI.
5 . Lacan, J. O seminário. Livro XX. Mais ai1uia ... Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1 987.
G ozo E T EORIA DO VALOR 25

tro) se organiza em relação ao objeto. Como o falo é irredutível


e desproporcional ao objeto, no sentido aqui de objeto a, have­
ria uma disparidade entre estas duas formas de gozo.
Ora, isso equivale a traduzir um problema freudiano, pos­
to em termos quantitativos, relativo ao investimento libidinal,
em um problema qualitativo, relativo à forma de inscrição da
libido e não à intensidade desta inscrição. O resultado é que tal
proporção estável e fixa se torna insustentável em função de
qualidades formais irredutíveis e não em função de predomí­
nios energéticos no interior do aparelho psíquico. A teoria da
sexuação apóia-se assim em uma desproporção, incomensura­
bilidade ou não p areamento sis temático entre os elementos
envolvidos em uma suposta totalidade. Essa estratégia de lei­
tura encontra-se de forma tônica no ensino de Lacan. Constitui
uma espécie de princípio metodológico de sua obra.
No entanto, se tal tese parece contornar o problema quan­
titativo na esfera do inconsciente ela soa para muitos como
francamente insuficiente para dar conta da pulsão e dos afetos.
A obj eção de que Lacan haveria simp lesmente eliminado o
ponto de vista econômico, através de uma sobrevalorização da
esfera freudiana do representacional, aparece por exemplo na
obra de André Green6 ou em um autor brasileiro atento ao mes­
mo problema como Chaim Samuel Katz.7 Uma linha crítica se­
melhante s e e n c o n t r a r á em L a p l anche, 8 no que t o c a à
concepção de metáfora e em Jurandir Freire Costa9 em relação
ao conceito de estrutura. É importante mencionar ainda os re­
centes trabalhos de Joel Birman, 10 que vem apontando, sistema-

6. Ver por exemplo, Green, A. Teoria das Representações. ln: Conferên­


cias Brasileiras de André Green. Rio de Janeiro: Imago, 1 991, p. 46.
7. Ver, por exemplo, Katz, C.S. O p rimado da teoria das representações.
In: Freud e as psicoses. Rio de Janeiro: Xenon, 1 994, p. 1 15.
8 . Laplanche, J . O inconsciente e o id. S ã o Paulo: Martins Fontes, 1992.
9. Ver por exemplo, Costa, J.F. Pragmática e p rocesso analítico: Freud,
Wittgenstein, Davidson, Rorty. In: Costa, J.F. (org.) Redescrições da psi­
ca nálise. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1 994.
10. Birman, J . O mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,
1 999.

f"AFICH / UfMG
BIBLIOTECA
26 CH R IST IAN I NGO LENZ DUNKE R

ticamente, convergências ideológicas e clínicas para a exclusão


do corpo, do afeto e, de forma mais geral, da dimensão inten­
siva, do cenário psicanalítico. Isso seria um aspecto empobre­
c e dor da herança l a c a n i a n a . P enso q u e não se pode
negligenciar o que está sendo apontado, de diferentes manei­
ras, por estes autores. Não se deve atribuir tais críticas apenas
a mazelas políticas institucionais ou rancores históricos.
A maior parte destes autores, que salientam o esqueci­
mento do ponto de vista econômico, concentraram seus esfor­
ços críticos sobre os desenvolvimentos de Lacan cen trados na
teoria do significante e na teoria do sujeito. A partir da década
de 1 960, mas de forma pontual em diversos momentos antes
disso, Lacan utiliza a noção de gozo (jouissance) para sinalizar
a presença incômoda de noções quantitativas no interior de seu
sistema teórico. Ao que tudo indica tal noção torna-se realmen­
te importante somente a partir de uma melhor formalização de
uma instância metapsicológica conhecida como Real . De fato
não há uma paridade direta entre os pontos de vista tópico,
dinâmico e econômico em Freud e as ordens Simbólica, Imagi­
nária e Real em Lacan, mas se procurarmos uma localização
para a experiência enquanto acontecimento ou encontro inten­
sivo, inominável e resistente à representação 01.: à inscrição
simbólica, isso certamente residirá no que Lacan chamou de
Real e no seu principal correlato clínico que é o gozo. Isso sig­
nifica que o Real ocupa a mesma função teórica destinada por
Freud à esfera da quantidade? Mas se isso é verdade o que di­
zer de certos temas freudianos, ligados à esfera quantitativa,
que foram "esquecidos" pela tradição lacaniana? Por exemplo,
o tema do desencadeamento da neurose (esquecido por trás da
noção de estrutura), o tema do caráter (esquecido por trás da
noção de imaginário) e o tema da formação, fracasso e deslo­
camento de sintomas específicos (esquecidos por trás da noção
de metáfora paterna). É a esses temas que pretendo voltar neste
livro, procurando lê-los a partir da noção de gozo.
Dentre as inúmeras implicações que esta noção traz con­
sigo, a começar por sua complexa e polêmica definição, gosta­
ria de chamar a atenção para sua utilidade na compreensão de
um fenômeno clínico, sem o qual a psicanálise e talvez as psi-
G ozo E TEORIA DO VALOR 27

coterapias em geral não possuiriam a presença que hoje tem na


nossa cultura. Refiro-me a relação do sujeito com seu sofrimen­
to, com a dor psíquica nas suas mais diversas e trágicas formas
de apresentação. Relação esta que está marcada por uma reco­
nhecida paradoxalidade: prazer e desprazer, desejo e aversão,
satisfação e insatisfação, amor e ódio. A tensão entre estes pa­
res em oposição constituiu um dos pilares da reflexão ética da
modernidade e ainda hoje organiza a concepção comum sobre
a felicidade e o bem-estar, geralmente alinhado aos primeiros
elementos da série. Ocorre que a noção de gozo parece combi­
nar ou desfazer essas oposições. O uso teórico e a experiência
clínica nos levam a reconhecer a existência de algo como uma
satisfação insatisfatória, ou um desprazer prazeroso ou ainda
uma aversão desejante na relação do sujeito com seu sofrimen­
to. Esse conjunto de oxímoros por si só serviria como definição
preliminar do gozo. Na neurose o gozo se mostra pelo apego
e pelo valor que o sujeito confere ao seu sintoma, mais exata­
mente para o que é produzido pela economia do sintoma sob
forma de ganho primário. Uma ligação intensa com aquilo que
não lhe serve para nada e que não obstante toca-lhe no mais
fundo de sua experiência subjetiva.
É p ortanto pelas transformações do gozo que procuro en­
tender as variações intensivas que se verificam no estado do
sintoma, em sua produção, deslocamento e sustentação ao lon­
go do tratamento. Em outras palavras por que e sob quais cir­
cunstâncias um sintoma faz sofrer mais ou tem seu valor de
gozo aumentado ou diminuído. Por que - como diriam os clí­
nicos clássicos - um sintoma torna-se agudo, extremo ou ins­
tável?
Para melhor examinar este problema, abordarei noções
clínicas derivadas diretamente de teses puramente econômicas,
tais como as que estão implicadas na etiologia e desencadea­
mento da neurose em geral. Mais particularmente levarei em
conta o conjunto psicopatológico formado pelas neuroses atuais,
pelas neuroses de caráter e por certos grupos sintomáticos que
giram em torno da repetição, como a neurose de guerra, a neu­
rose traumática e a neurose de destino. Com o mesmo objeti­
vo tecerei algumas considerações sobre algumas inflexões do
28 CHRIST I AN INGO LENZ DUNKER

narcisismo na neurose, em particular sobre o difuso campo for­


mado pelas neuroses narcísicas, os transtornos borderline e os
estados limites.
Tal escolha não se deve ao intento de propor a existência
de novas estruturas clínicas, pelo contrário, o uso do termo neu­
rose para designar tais quadros é assumidamente não estrutu­
ral. Mesmo em Freud a maior parte destes grupos sintomáticos
é redutível à estrutura da neurose (histérica ou obsessiva) ou
da psicose (neuroses narcísicas). Mas é justamente por isso que
nestas situações estamos às voltas com uma condição onde o
ponto de vista econômico parece possuir primazia na determi­
nação do quadro. Ele encontra-se agindo de forma quase iso­
lada e independente fornecendo, assim, um bom campo para
o desenvolvimento de nossa questão.
As RAÍZES DA NOÇÃO DE GOZO EM lACAN

Em luga r da energ ética de Freud proponho a economia política .


Lacan

A noção de gozo em Lacan é extensa e heterogênea . Não


farei uma exposição exaustiva de seu desenvolvimento e das
transformações a que o termo está sujeito pois, ao que tudo
indica, ele serviu a diferentes propósitos ao longo do ensino de
Lacan, assumindo portanto diferentes conotações, por vezes
contraditórias se as comparamos entre si. O objetivo aqui será
o de apresentar as teses de Lacan de forma parcial, submeten­
do-as a uma hipótese de leitura e dela extraindo certas conse­
qüências clínicas para o tema em questão.
Como vimos anteriormente, a noção de gozo em Lacan
vem a ocupar, parcialmente, o campo energético e quantitati­
vo denotado por Freud. No entanto, há nesta passagem uma
recusa metodol óg ica em substancializar a noção de libido.
Para tanto Lacan parece ter examinado a função deste conceito
na obra de Freud e em seguida procurado substitutos para esta
função. Ora, Freud precisa da idéia de libido não apenas por­
que isso garantiria certa dignidade epistemológica, conferindo
à psicanálise cidadania no campo das ciências naturais, mas
fundamentalmente porque es te conceito lhe permite pensar as
transformações do "acento psíquico" a que uma representação
es tá suj eita. Em outras palavras, porque uma representação,
complexo ou instância possuiria mais ou menos valor dentro
30 CHRISTIAN I NGO LENZ Ü UNKER

do ap arelho psíquico, reunindo sobre si uma soma de exci ta­


ção tomand o-se então investida (Bezetzung ) .
A solução para o biologismo fisicalista não está na proli­
feração de metáforas e analogias que tornem mais pala tável
uma certa metafísica da energia ou da experiênci a, mas em
uma teoria mais sólida ou eficaz para o problema da diferen­
ça de valores psíquicos. Nossa hip ótese de leitura é que a teo­
ria do gozo em Lacan cumpre justamente este papel. É por isso
que as referências à noção gozo em Lacan variam imensamen­
te. Da ordem jurídica (o gozo como direito a), à esfera sexual
e ao j úbilo imaginário, o gozo comp orta ainda um cenário de
leitura ligado à economia-p olítica (Seminário XVII) e à é tica
(Seminário VII) . O problema se torna aind a mais complexo
p ois do ponto de vista do método de Lacan também varia a
forma de apreens ã o d o gozo p assando pela via lingüística,
pela via d a lógica dos conj untos (Seminário XX) e ainda pela
via dialética (Seminário XI ) . No entanto, na maior parte dessas
extrações, d erivas e a s similações, realizadas p o r Lacan na
construção do conceito de gozo, uma referência permanece co­
mum: trata-se de lançar mão de aspectos de uma teoria do va­
lor, ou sej a, de retirar das suas fontes aquilo que nelas ocup ava
o lugar de uma axiologia.

O g o zo n a m at r i z l i n g ü ís t i c a

O gozo é interditado a q uem fa la.


Lacan

A idéia de gozo, como sucedâneo de prazer, satisfação ou


deleite sugere que seu uso em psicanálise p renda-se a alguma
esfera de convergência com a erotologia ou ao menos com as
vicissitudes mais diretas da sexologia . Não p arece ser esse o
caso, se observarmos que o uso mais freqüente d o seu corre­
lato em alemão (Genuss) liga-se a textos de Freud que versam
predominantemente sobre teoria da cultura ou sob re estética.
Mesmo neste contexto o espectro semântico do termo é bastan-
Gozo E TEORIA DO VALOR 31

te amplo entrando em associação coin noções como as de des­


prazer, insatisfação, dor, asco, masoquismo erógeno, 1 ao lado
de noções como as de libido, gozo sexual, satisfação e mais
prazer (Mehrlust).
Esse parece ser o caso de uma curiosa passagem de "Chis­
tes e sua relação com o inconsciente" na qual Freud analisa o
chiste como um processo social e procura os motivos pelos
quais este se propaga. O chiste nos proporciona uma satisfação
cujo índice é o riso e a sensação de relaxamento corporal. No
entanto, não se pode contar um chiste para si mesmo e reapro­
veitar a graça do instante inicial, nem recuperar a surpresa e
desconcerto que ele evoca com suas relações inusitadas. É pre­
ciso contar o chiste a outra pessoa para poder resgatar uma
parcela do prazer que anteriormente ele evocou. Assim " ... re­
cupe ra-se um fragmento de possib i l i dade de gozo
(Genussmoglichkeit) que faltava, em decorrência da ausência de
novidade". 2
Uma série de propriedades enfatizada pela concepção la­
caniana de gozo está contida nessa observação. Vê-se que o
gozo realiza-se em uma repetição, que nesta repetição algo
perdido é retomado, mas que nesta retomada preserva-se ape­
nas um parco simulacro da experiência que a repetição visa
reconstituir.
O exemplo do chiste pode parecer trivial e circunscrito a
um ato de linguagem muito específico, mas penso que ele re­
trata bem uma propriedade geral da linguagem no que diz
re$peito à repetição. O efeito de algo escutado pela primeira
vez, seja pela textura poética, semântica ou gramatical, está
sujeito a uma espécie de desgaste pelo uso. Em outras pala­
vras, a força evocadora de um determinado efeito de lingua­
gem é um fato temporal, dependente de seu contexto de
enunciação e sujeito à perda de valor em sua reutilização. Isso
não vale apenas para o chiste, a piada e o cômico de maneira

1 . Valas, P. As dimensões do gozo. Rio de J aneiro: Jorge Zahar, 2001, p. 35.


2 . Freud, S. O chiste e sua r e l a ção com o inconsciente. Op . cit., p . 134.
V . VIII.
32 CH R ISTIAN INGO LENZ DUNKER

gerai, mas também para as mais diversas formas de textuali­


dade, para os discursos e formações ideológicas. Em estudo
anterior3 procurei mostrar como isso afeta diretamente a forma
retórica da interpretação em psicanálise. A repetição da forma
retórica que caracterizava as intervenções de Freud torna-se
gradualmente inócua na medida em que se assimila à cultura
e a um saber constituído. Por exemplo, um paciente diante de
um lapso de linguagem desculpa-se imediatamente com a ex­
pressão: "isso não quer dizer nada, foi só um ato falho", outro
se justifica com um "não tenho nada que ver com isso, foi in­
consciente".
A repetição, na acepção fraca do conceito, caracteriza um
certo modo de fala e escuta cotidiana que Heidegger chamou
de " falação" e Lacan de " fala vazia", isto é, a fala onde a an­
tecipação da intencionalidade de seu autor, o seu caráter fáti­
co ou meramente reprodutivo, impõe-se completamente ao
dizer. É a fala que parece não ser feita para ser escutada, mas
meramente ouvida. É o caso de um marido que se refere ao
encontro com a esposa, depois de um dia de trabalho, da se­
guinte maneira: "No começo percebo logo aquele tom de quei­
xa e fico à espera do próximo pedido. Aí ela começa a falar e
falar. As palavras vão se desagregando, vão se tornando todas
iguais até que só consigo distinguir o tom de voz. Depois é
corno se entrasse um único zumbido e aquilo vai irritando sem
que eu perceba. É corno rádio ligado ou música ambiente que
perturba e cansa sem que a gente se dê conta. É urna sensação
ruim e difusa que vai tomando conta sem que eu consiga fa­
zer nada."
Vê-se aqui outro exemplo da presença do gozo na lingua­
gem em estreita ligação com a repetição, onde esta parece ter
perdido a possibilidade de reintroduzir algo de novo. É como
ouvir a mesma piada muitas vezes de modo que aquilo que
antes propiciara alguma satisfação torna-se agora extrema­
mente insatisfatório. Mesmo neste caso a satisfação é ainda
suposta ao outro e retorna agora sobre o sujeito de forma
opressiva, mas irresistível.

3. Dunker, C.I.L. Lacan e a clín ica da i n terpretação. São Paulo: Hacker, 1 996.
G ozo E TEORIA DO VALOR 33

O gozo mostra-se assim como uma satisfação em segun­


da potência, isto é, uma satisfação extraída da satisfação do
outro. Mais especificamente uma satisfação mediada e interdi­
tada pela linguagem . Mediada porque no chiste trata-se da
articulação entre significantes segundo as regras que consti­
tuem os processos .p rimários, regras estas que comandam as
formações inconscientes. Por exemplo, a condensação reúne o
valor psíquico de duas representações em uma terceira, o des­
locamento transfere o valor de uma representação para outra.
O gozo exige portanto esta mediação da linguagem p ara se
realizar. Compreende-se assim por que, às vezes, ele é referi­
do como uma forma de "satisfação inconsciente", isto é, uma
forma de satisfação realizada por intermédio do processo pri­
mário, que atua como uma regra de composição ou articulação
entre as representações . Isso permite falar do gozo como um
afeto inconsciente, no duplo sentido de afeto, ou seja, de uma
sensação no corpo (encare) e de uma afetação ou apassivação
do sujeito. O inconsciente, no sentido tópico, estaria às voltas
com a tarefa de tramitar o gozo; de inscrevê-lo ou organizá-lo,
de conferir a ele algum valor psíquico.
Lacan, como se sabe, lê a condensação como uma metáfo­
ra e o deslocamento como uma metonímia, e diz explicitamen­
te que estas operações constituem uma transferência no plano
do valor e que desta transferência se extrai o gozo. "Eles não
tomaram à letra que a metonímia é com efeito o que determi­
na como operação de crédito (Verschiebung quer dizer: trans­
ferência de fundos) o mecanismo inconsciente de onde é, sem
dúvida, o ingresso-gozo que se extrai. " 4
Esta dupla p assagem, do inconsciente ao gozo e d o gozo
ao inconsciente seria semelhante à inclusão ou exclusão de um
elemento em uma operação de cálculo, como se afirma algu­
mas linhas abaixo no mesmo texto: "Fazer passar o gozo ao in­
consciente, quer dizer p ara a contabilidade, é, com efeito, um
duplo deslocamento. " 5

4. Lacan, J. Radiofonia . ln: Radiofonia & Televisión . Barcelona: Anagrama,


1977, p. 35.
5. Lacan, J. Radiofonia . Scilicet, Paris : Seuil, 2 /3, p. 72, 1970.
34 CHRIST I AN INGO LENZ ÜUNKER

No caso do chiste este cálculo estabelece como e q uan to de


gozo pode ser recuperado e quanto deve permanecer sob re­
calque. Por isso as regras de composição são necessárias, em
termos freudianos, porque os verdadeiros motivos do chiste
estão sujeitos à interdição e devem portanto sofrer algum dis­
farce ou censura. O chiste diz de uma maneira tolerável aqui­
lo que um determinado estado social sente como intolerável.
Logo ele é uma manobra lingüística e social para extrair do
Outro aquilo que este lhe nega. Daí a conhecida afirmação de
Lacan de que "O gozo é interditado a quem fala".6
Aqui reside um ponto de importante diferença em relação
a diversos pós-freudianos. As experiências infantis, efetivas ou
conjeturais, como a alucinação primária que originaria o dese­
jo, o narcisismo primário, o fusionamento mãe-criança, por
exemplo, visa direta ou indiretamente cernir a imagem do
gozo co mo uma totalidade sem fissuras. Tal imagem, e as nar­
rativas que delas se engendram, localizam o gozo como uma
espécie de experiência essencial, originária e anterior à lingua­
gem. Nesta medida funcionam ao modo de um valor fixo ou ân­
cora ao qual se remeteriam todas as experiências subseqüentes.
O campo do gozo, como vimos no exemplo do chiste, é
constituído por uma perda inaugural, mas uma perda que pro­
duz mítica e retrospectivamente um momento originário onde
este se mostraria não perdido. Portanto são as trocas, as rela­
ções ou a própria distribuição da libido que criam, necessaria­
mente, a representação futura ou passada da experiência de
totalidade. Inversamente, é desta ficção de totalidade que o
gozo se mostrará sempre parcial, fragmentário ou ainda loca­
lizado no órgão. A primeira vez em que Lacan faz referência
à noção de gozo, no Seminário sobre o Homem dos lobos, de
1950, é justamente um assinalamento sobre este ponto: "O pai
introduz um novo modo de referência à realidade. É porque o
gozo do sujeito lhe é de certa forma arrebatado, que ele pode
ser situado : é o papel do complexo de Édipo".7

6. Lacan, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo. ln: Escritos . Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1 998. Edição de controle: Écrits. Seuil : Paris, 1 970.
7 . Lacan, J. O seminário. Liv ro 1 . O Homem dos lobos, primeira sessão,
1 950.
G ozo E TEO R I A DO VALO R 35

Lembremos que neste momento Lacan ainda está sob for­


te e direta influência do estruturalismo de Lévi-Strauss. A im­
portância deste autor na construção do conceito psicanalítico
de estrutura, de cadeia significante e de lei já foi bastante en­
fatizada. Mas a par desta contribuição vê-se que a primeira
matriz de entendimento do gozo é também bastante tributária
do pensamento deste antropólogo francês . Lévi-Strauss afirma
que as regras que comandam a troca de palavras, em certas
sociedades primitivas, são equivalentes às regras que regulam
a troca de mulheres entre clãs articuladas sob uma mesma es­
trutura de parentesco, permitindo assim seu funcionamento
exogâmico. Por isso a lei que proíbe o incesto é uma lei que se
estrutura ao m odo de uma linguagem. No entanto, e talvez
isso tenha sido um pouco esquecido pelos comentadores de
Lacan, essa proibição possui dois aspectos distintos :
Encontramos, portanto, duas categorias de atos q u e se
definem como uso indevido d a linguagem, uns d o p onto de
vista quantitativo, como brincar ruidosamente, rir demasiado
alto, manifes tar com excesso seus sentimentos, e outros do
p onto de vista qualita tivo, por exemplo, resp onder a sons que
não são palavras, tomar como interlocutor um indivíduo (es­
pelho ou macaco) que apenas tem aparência de humanidade.
Todas estas p roibições reduzem-se, portanto, a um denomina­
dor comum, a saber, c onstituem um abuso de linguagem, e
são, por este aspecto, grupadas com a proibição do incesto ou
com atos evocadores de incesto . 8

Geralmente o tema da proibição do incesto é abordado de


forma puramente qualitativa, isto é, priorizando o objeto tabu,
formalmente indicado pelo significante. Isso deixa parcialmen­
te de lado a idéia de interdição do excesso, ou seja, de uma li­
mitação do uso de modo que este não se transforme em abuso.
Ora a distinção entre uso e abuso não é s imétrica à distinção
entre permitido e interditado. Entre o uso e o abuso há um
gradiente, entre o possível e o impossível há uma alternativa

8. Lévi-Strauss, C. Est m t u ras elemen tares de paren tesco. Petrópolis: Vozes,


1 982, p. 535.
36 CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

binária e polar. O que por sua vez é aplicável também no que


tange a troca de mulheres:
Que significa isso senão que as próprias mulheres são
tratadas como sinais, das quais se abusa quando não se l hes dá
o emprego próprio dos sinais, que é serem comunicados . ( ... ) Ao
contrário da palavra que se tornou integralmente sinal, a mu­
lher permaneceu, portanto, sendo ao mesmo tempo que sinal,
valor. 9

Aqui fica nítido como a lei de proibição do incesto é sub­


sidiariamente a lei da troca e que esta presume uma comensu­
rabilidade entre os sinais (mesma língua, reconhecimento da
alteridade, etc . ), mas também uma regulação do valor que se
acrescenta ou diminui em função das p róprias trocas e que
cada mulher preserva, independentemente de seu lugar no sis­
tema, como um sinal . Abre-se aqui uma pista para entender­
mos o incôm o d o lugar ocupado pela c a tegoria de gozo no
Lacan estruturalista. O inconsciente es truturado como uma
linguagem permite compreender o sistema de trocas em ter­
mos significantes, mas isso é condição necessária mas não su­
ficiente para entendermos o valor de gozo dos efeitos desta
estrutura. Isso relegará ao imaginário a ficção essencialista de
um momento anterior a lei da troca mas não explicará a forma
de funcionamento desta ficção, problema aliás reconhecido
por Lév i - S tr a uss : " Até nos s o s d i a s a humanidade sonhou
apreender e fixar este instante fugitivo em que foi permitido
acreditar ser possível enganar a lei da troca, ganhar sem per­
der, gozar sem partilhar" . 1 º
Esse caráter híbrido da noção de gozo, ao mesmo tempo
ligada ao significante e ao valor, receberá sua solução, em La­
can, através do desenvolvimento do conceito de falo. Para tan­
to este recorrerá a uma noção de valor ligeiramente distinta da
que vimos empregada acima por Lévi-Strauss, mais precisa­
mente à teoria do valor lingüístico desenvolvida por Saussu­
re . Tal te o ria reconhece como ponto d e p a rtida o caráter

9. Idem, p . 536-7.
10. Idem, p. 537.
Gozo E TEORIA DO VA LOR 37

paradoxal da própria idéia de valor, pois este será sempre


constituído: " 1 ) por uma coisa dessemelhante, suscetível de ser
trocada por outra cujo valor resta determinar; 2) por coisas se­
melhantes que se pode comparar com aquela cujo valor está em
causa". 1 1
O valor exprime assim a tensão entre a identidade e a di­
ferença. Ele se determina lingüisticamente pela relação que um
significante possui com os outros significantes com os quais
pode ser comparado, mas também pela troca que este signifi­
cante permite em relação a outros significantes, o que determi­
na sua significação. Por exemplo, a palavra portuguesa angústia ou
francesa angoise pode ter a mesma significação que o alemão
Angst, mas não o mesmo valor, isso por várias razões, em par­
ticular porque, por exemplo, ao falar da sensação produzida
por um animal ameaçador, o alemão dirá Angst e o brasileiro
medo. Isso ocorre porque na comparação entre termos seme­
lhantes angústia se colocará ao lado de termos como ansiedade
e medo em português, sem correlato direto com o seu valor em
alemão. Ou seja, a palavra pode ser trocada por uma significa­
ção aproximada, mas não possui, comparativamente, o mesmo
valor.
O conceito de valor é utilizado por Saussure para repre­
sentar a possibilidade que um signo possui de ser substituído
e comparado dentro de um sistema de linguagem. O valor ex­
pressa assim o conjunto de dupla articulação a que o signo está
destinado. O correlato do valor de um signo é sua significação
pois neste caso contam menos as articulações diferenciais e de
troca com outros significantes e mais a relação de semelhança
e comparação do significante ao significado. Por exemplo, a
oposição entre o fonema "pê" e "bê" é uma oposição que pos­
sui um determinado valor, em uma dada língua, apesar de não
possuir nenhuma significação.
Vê-se assim que as noções de significância e de autono­
mia do significante em Lacan são tributárias da ênfase no con­
ceito saussureano de valor. As formações do inconsciente,

11 . Saussure, F. Curso de lingü ística gera l . São Paulo: Cultrix, 1975, p. 134.
38 CHRISTIAN INGO LENZ DuNKER

regidas pelos processos p rimários, determinam-se mais pelas


trocas no plano do valor do que pelo deslizamento no plano da
significação. O valor de uso, ou de gozo, expresso pela signi­
ficação, fica assim submetido a valor de troca regido pelo sig­
nificante, como se atesta na seguinte p assagem : "este discurso
do inconsciente es tá, como disse da última vez, articulado ao
valor de gozo " . 1 2
N o entanto, é n o conceito de falo que a teoria do valor as­
sume a sua importância mais explícita . Se o falo não é o pênis
é porque o falo é o valor a tribuído ao pênis . Valor que funcio­
nará como uma espécie de ponto fixo a partir do qual toda sig­
nificação poderá ser calculada e que, em si mesmo não p ossui
valor al gum, por isso é imp ronunciável . Mas mesmo sendo
impronunciável ele entra na�eração de constituição do valor,
por isso Lacan o associa à "'Í -1 ), 13 ou seja, um número comple­
xo cujo valor não pode ser calculado, mas cuja operação é ple­
namente possível.
Assim o falo resume o p aradoxo indicado anteriormente
como próprio a toda teoria do valor, isto é, ele é capaz de in­
troduzir o sujeito no problema da diferença sexual e lidar as­
sim com a heterogeneidade que esta traz consigo, assim como
permite ao sujeito identificar-se, sempre por comp aração a um
traço, com uma determinada posição na sexuação. Se o falo é
o representante da falta é p orque a a tribuição de valor intro­
duz o suj eito simultaneamente na esfera do desej o e do gozo:
" . . . o falo é o significante da razão do desej o (na acep ção em
que o termo é empregado como ' média e extrema razão' da
divisã o harmônica) " . 1 4
Portanto o falo é razão e, aparentemente, no sentido lati­
no em que razão (ratio) se aproxima de proporção, de regra ou
medida de comensurabilidade. A idéia é reforçada pela apro­
ximação realizada também com o termo grego, p arcialmente
correlato, ou sej a, o logos: "O falo é o significante p rivilegiado

12. Lacan, J. O seminário. Livro XIV. A lógica do fantasma, 1 9 de ab ril de


1 967.
13. Lacan, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo. Op . cit., p. 833.
14. Lacan, J. A significação do falo ( 1958). ln: Escritos . Op. cit., p. 672.
G ozo E T EO R IA DO VALO R 39

dessa marca, onde a parte do logos se conjuga ao advento do


desejo" . 1 5
Ao ler o falo como um operador relacional Lacan permi­
te dis tingui-lo de sua idéia intuitiva, ou seja, na doutrina freu­
diana o falo:
a) não é uma fantasia (um efeito imaginário)
b) não é um objeto (parcial, interno, bom, mau, etc.)
c) não é um órgão (pênis ou clitóris que ele simboliza). 16
Enquanto unidade de proporção ele é a condição de pos-
sibilidade do desejo. Neste sentido a forma como o valor se
institui para o neurótico é semelhante à forma como este esta­
belece proporções a partir do significante fálico mas também
a forma como este extrai uma porção parcial de gozo em res­
tituição à perda fálica. O conceito de falo abriga assim o ele­
mento que coordena as trocas necessárias ao des ejo mas
também induz valor de gozo que surge como efeito destas tro­
cas. Essa duplicidade aparece claramente no conceito de cas­
tração: "A castração significa que é preciso que o gozo seja
recusado (refusé), para que possa ser atingido na escala inver­
tida da lei do desejo" . 17
Iss o obriga Lacan a distinguir o falo como operador des­
ta recusa, o (- q>), o representante da falta, o objeto imaginário
da castração simbólica , e o falo como agente de ciframento e
regulação do gozo que pode ser atingido, ou seja, o (<1>), obje­
to simbólico da privação real . Alguns anos mais tarde este
dualismo ainda se preserva, com uma crescente clareza de que a
inscrição simbólica do gozo, sua mediação fálica, depende de
um recobrimento instável entre o valor de troca e o valor de uso.
. . . a mulher que se funda como suj eito no ato sexual, toma de
fato a funçã o d e v a l o r de troca, recob r i n d o o que está insti­
tuído como valor no que a psicanálise revela com o nome de
complexo de castração. Não é que o intercâmbio de mulheres
possa voltar a se traduzir como intercâmbio de falos, mas que

15. Idem, p. 699 .


1 6 . Op . cit. p. 696.
17. Lacan, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo. Op. cit., p . 841 .
40 C H RI S TIAN INGO LENZ DUNKER

· o primeiro simboliza o gozo, sub traído como tal, passa ao traço


d e valor . . . 1 8

Vemos assim que o conceito de falo prolonga e especifi­


ca, contudo não resolve, o caráter híbrido do problema repre­
sentado pela disparidade entre o valor lingüístico de troca,
consignado pelo falo, e o valor de uso, de consumo ou de abu­
so, representado pelo gozo.
O ponto de ruptura com a concepção estrutural de lin­
guagem, da qual Lacan herda o problema do valor de troca em
sua apreensão fonemática, encontra-se no seminário "De um
discurso que não seria do semblante", de 1971 . Nele é desen­
volvida a noção de letra em oposição à de significante. A letra
representa a face real da linguagem e constitui um limite ao
seu funcionamento segundo o princípio das trocas e contras­
tes, baseado na diferença, que caracteriza seu valor lingüísti­
co. Por isso a letra faz agrupamento, não estrutura. Ela não
pode ser traduzida nem feita equivalente à outra. Como um
traço da caligrafia oriental, a letra dá um suporte para o signi­
ficante mas em sua materialidade o sistema de escrita assim
produzido não possui as mesmas regras e propriedades da lin­
guagem entendida como fala ou como língua. Lacan afirma
que a letra é um litoral entre o gozo e o saber, 19 o resultado do
comércio, 20 ou ainda um efeito do discurso, que apreende o
traço como uma formação de sentido onde antes havia apenas
uma rasura. Portanto com o conceito de letra Lacan parece ter
expandido e generalizado o grau zero da teoria do valor, o ele­
mento que limita e funda um conjunto possível de trocas, não
possuindo, ele mesmo, valor algum.
A imagem de um aluvião, de um depósito ou precipita­
do deixado pelo escoamento do significante é muito utilizada
para designar este litoral formado pela letra ou caráter. Ora,
este resto semilingüístico, que não cessa de não se inscrever no

1 8 . Lacan, J . O seminário. Livro XIV . A lógica do fantasma, 7 de j unho de


1 967.
19. Lacan, J. O seminário. Liv ro XVIII. De um discurso que não seria do
semblante, 1 2 de maio de 1 971 .
20. Lacan, J . O seminário. Livro XX. Mais a inda . . . Op. cit.
Gozo E TEORIA DO VALOR 41

simbólico, ocupa um lugar fronteiriço entre o saber, onde vi­


gora o regime de trocas próprio ao campo do Outro, e o gozo,
onde vigora o regime do uso.
Tudo indica que, com a noção de letra, o problema do
gozo não admite mais uma solução através de operadores pu­
ramente lingüísticos. Isso explica porque Lacan gradualmen­
te limita o concei to de falo, na medida em que refina a
concepção de gozo. O falo passa a ser pensado então como
uma função, a função fálica, a partir da qual o gozo ganha for­
ma e pode ser inscrito. As duas noções acabam se combinado
na idéia de "gozo fálico", ou gozo na e pela linguagem. Assim,
toda realização de significação se vê acompanhada de um tra­
ço de gozo. O falo, que nascera como uma noção ligada ao va­
lor de troca torna-se agora representante maior do valor de
uso. Para dar conta da lacuna criada por este movimento teó­
rico o falo será substituído, por um lado, pela própria noção
geral de significante e posteriormente pelo significante mestre
(Sl ) e, por outro lado, pela idéia de objeto a, causa de desejo.
À altura do Seminário XX chega-se à tese de que o objeto
a, e não o falo, funciona como causa do desejo. Inversamente
o significante, e não o objeto, é a causa do gozo. Mas causa in­
direta, se assim podemos dizer, na medida em que o que conta
nesta causalidade é que o significante não pode apreender
como significante, mas apenas como letra. Mesmo com esta
manobra de inversão o problema permanece, ou seja, o falo e
suas noções derivadas jamais recobrem perfeitamente o cam­
po delimitado pelo objeto a. Isso aparecerá claramente em um
dos últimos seminários:
O que podemos querer dizer quando utilizamos a ex­
pressão tã o bem conhecida "estar castrado"? Poremos aí três
significações: no princípio de que o ser falante não se confronta
mais que com dois meios: o significante - sintoma ou não - e
o fantasma, meios artesanais, incapazes de resolver o i mpasse
do gozo, entendido como inexistência da relação sexual.2 1

2 1 . Lacan, J. O seminário. Livro XXIV. A topologia e o teinpo, sessão de


1 5 de maio de 1 979.
42 CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

Deste breve percurso é importante reter a idéia de que o


gozo, na sua apreensão lingüística, está suj eito a um parado­
xo. Este paradoxo é próprio e dependente da teoria do valor
na qual ele é pensado. Entre a perda e a restituição de gozo,
que se desenvolve por intermédio da repetição, as duas frações
não são idênticas e nem proporcionais. Há uma assimetria ou
disparidade entre o valor de troca (significante) e o valor de_
uso (efeito ou precipitado do significante). O problema maior
da apreensão lingüística do gozo é que ele nos conduz a um
entendimento meramente formal da produção do valor, esta­
belecendo assim um princípio sobre seu funcionamento qua­
litativo, mas não quantitativo.

O g ozo n a mat r i z é t i c o -j u ríd i ca

O gozo é um mal porque comporta o mal do próximo.


Lacan

O paradoxo formal a que fomos conduzidos por nossa


incursão sobre as relações entre o gozo e a linguagem encon­
tra correlatos em questões é ticas. Apresentarei apenas alguns
marcos que permitem situar a questão do gozo nesta perspec­
tiva de modo a mostrar como, em cada caso, o lugar conferi­
do ao gozo inspira, em Lacan, uma crítica a certas posições
éticas consolidadas a partir da modernidade. O núcleo crítico
da noção de gozo reside, como pretendo apontar, na decom­
posição que ele p ermite dos valores i ntrínsecos que orienta­
riam as ações éticas.
Diversas noções freudianas podem nos fazer pensar no
gozo como uma espécie de experiência individual de fruição,
da qual o auto-erotismo seria um modelo e a tendência à des­
carga, própria ao princípio do prazer, seria o correlato. No en­
tanto, desde textos seminais como O estádio do espelho e Complexos
fam ilia res, Lacan insiste na idéia de que o gozo é algo que se
·
imagina e se antecipa como realizado no Outro. Por exemplo,
mais além da satisfação obtida com uma experiência sexual
restará sempre a pergunta acerca de como tal experiência con­
tou para o outro. Essa satisfação que procura incluir ou excluir
a satisfação do outro situa a noção de gozo como um ultrapas­
samento, um acréscimo, na realização da pulsão.
O que deste Outro retorna ao sujeito sempre portará a
marca da parcialidade, da falta ou mesmo da insatisfação.
Lembremos de que o termo satisfação, etimologicamente, refe­
re-se àquilo que é o bastante, aquilo que basta, introduzindo
assim a noção de limite como coextensiva à de satisfação. O
limite, por sua vez, pode ser representado pela idéia de lei,
mas também pela idéia de um certo patamar de prazer, ou de
desprazer, suportável pelo sujeito.
O primeiro quadro de rderência para a questão do gozo,
na matriz ética, é certamente o universo grego da tragédia e do
nascimento da filosofia. Neste universo Lacan valorizará ini­
cialmente a figura do herói trágico que é posto em uma situa­
ção em que um limite (A té) é ultrapassado. Situação onde a
própria condição de mortal é, voluntária ou involuntariamen­
te, atravessada e o herói encontra-se com as conseqüências de
seu ato. Ato transgressivo chamado pelos gregos de hybris. É
nesta região solitária, entre duas mortes, vivida por Antígona
fora dos muros da cidade, mas também por Édipo em sua jor­
nada pelo deserto, ou por Filolectes abandonado em uma ilha,
que a tragédia fornecerá uma representação aguda do parado­
xo representado pelo gozo.
No caso de Antígona, examinado em detalhes por Lacan,
a questão poderia ser assim resumida. Ao enterrar seu irmão
Polinice contrariando as ordens explícitas de Creonte, repre­
sentante da lei na cidade, Antígona condena-se à morte. Seu
ato resume uma escolha absoluta uma vez que contraria as
conveniências, os interesses e os motivos amplamente repre­
sentados pelos discursos que tentam dissuadi-la. Antígona
funda sua ação no desejo, não no interesse ou no que Lacan
chama de serviço dos bens, isto é, o regime das trocas de ob­
jetos. No entanto é exatamente este regime que permite a An­
tígona reconhecer seu desejo, por intermédio da negativização
dialética dos interesses. "O que faz com que possa haver dese-
44 C H RISTIAN INGO LENZ DUNKER

jo humano, que este campo exista, é a suposição de que tudo


o que ocorre de real é contabilizado em algum lugar".22
Está subentendida nesta passagem uma das principais
inovações de Lacan em sua leitura da teoria freudiana das pul­
sões, ou seja, que o princípio do prazer identifica ao sujeito
aquilo que constituirá seu bem, no sentido moral da expressão.
A continuidade gradual que existe na esfera das quantidades,
lida no quadro de uma teoria da energia por Freud, é interpre­
tada por Lacan como correlata da continuidade que se verifi­
ca na apreensão dos valores morais. Por exemplo, ao comentar
o "Projeto de psicologia científica para neurólogos", Lacan cri­
tica a compreensão deste texto no quadro do fisicalismo asso­
ciacionista do final do século XIX:
O que j ustifica colocar em primeiro plano a quantidade
como tal é outra coisa b em distinta [ . . . ] vocês perceberão que,
sob essa forma fria, abstrata, escolástica, complicada, árida,
percebe-se uma experiência, e que esta experiência é, no fun­
d o, de ordem mora l . 23

Ou ainda, de forma mais genérica:


. . . acredito que a oposição entre princípio do prazer e princípio
de realida de, a do processo primário e d o processo secundário
sej am menos d a ord e m da psicologia do que da ordem da ex­
periência propriamente ética. 24

Se o que se articula do desejo ao princípio do prazer pode


ser considerado um bem o que está além do princípio do pra­
zer-realidade, o que ultrapassa o limite do prazer, ou seja, o
gozo, passa a condição de mal. Isso colocaria a ética na psica­
nálise ·como uma variante das éticas utilitaristas, onde se tra­
ta de alcançar o maior grau de prazer, no menor tempo, com
o menor dispêndio de esforço possível. Trata-se apenas de con­
tabilidade e de pôr em prática esta contabilidade com um certo
ajuste aos imperativos morais, uma vez que se possa apaziguá-

22. Lacan, J. O seminário. Livro VII. A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jor­
ge Zahar, 1 988, p. 3.80.
23. Idem, p . 4 1 .
24. Idem, p . 49.
Gozo E TEORIA DO VALO R 45

los. Essa foi a tônica das discussões sobre a técnica psicanalí­


tica na década de 1 940. Strachey, por exemplo, em um artigo
clássico e muito influente, 25 defendia como meta fundamental
da análise a instituição de um superego mais benevolente.
O caminho tomado por Lacan será oposto ao do utilita­
rismo. Em primeiro lugar porque o bem, produzido e busca­
do na esfera do princípio do prazer, é um bem sobre o qual se
pode dispor, um objeto de ordem jurídica, uma coisa (Sache)
sobre a qual se poderá incluir a fantasia. Ora, esta forma de
bem não é o que é visado pelo movim�nto de reencontro
( Wiederz ufinden ) próprio da pulsão. Este se dirige à coisa
(Ding), como alteridade absoluta e negatividade fundamental.
Daí a importância exemplar do gesto de Antígona ao encontrar
o desejo para além da realização da pulsão. Daí a radicalida­
de freudiana ao afirmar que não há Bem Supremo, e o objeto
(Ding) do encontro originário é perdido.
Em segundo lugar Lacan investirá contra a possibilidade
de um superego benevolente, ou regulador como o chama
Braunstein, 26 uma vez que seu fundamento reside no caráter
insens�to da lei como um imperativo. Kant e Sade fazem assim
um círculo "vicioso" em torno da universalidade do impera­
tivo que representa a lei. " ... ao tu deves de Kant, se substitui
facilmente o fantasma sadeano do gozo erigido em imperati­
vo, puro fantasma seguramente, e quase irrisório, mas de
modo algum exclui a possibilidade de sua ereção em uma lei
universal" . 27
Encontramos aqui novamente a forma paradoxal assumi­
da pela teoria dos valores em Lacan. Aquilo que se apresenta
como a máxima positividade revela-se falta, ausência, priva­
ção. Inversamente o gozo como maldade será produzido pelo
forçamento na realização do prazer, como excesso, transborda­
mento ou ultrapassagem do limite. Em síntese, a procura da
realização do bem, de sua consecução no Outro, engendra a

25. Strachey, J. The nature of therapeutic action of psycho-analysis. lnter-


11atio11a/ fou ma l of Pshyc/10-Analysis, London, v. 15, p. 127-59.
26. Braunstein, N. Coce. México: Siglo XXI, 1 995, p. 237.
27. Lacan, J. O seminário. Livro VII. A ética da psica nálise. Op. cit., p. 378.
46 CHRISTIAN INGO LENZ ÜUNKER

própria realização do mal. O que não significa que o contrário


sej a igualmente verdadeiro.
Neste ponto os interlocutores de Lacan migram da anti­
guidade grega para os pensadores do século XVIII, mais pre­
cisamente p ara a ideologia utilitarista originada na filosofia do
direi to e na teoria das penas legais, desenvolvida por Jeremy
Bentham e na tradição dos moralistas franceses, principalmen­
te La Rochefouca ul t.
Jeremy Bentham, o idealizador do panopticum é também
conhecido p ela sua. apresenta ção do indivíduo como um ser
movido pela procura d o p razer e pelo cálculo que este envol­
ve em relação aos sacrifícios decorrentes . É curios o que sua
teoria tenha se desenvolvido à luz do p roblema da restituição
do gozo no caso da transgressão. Bentham coloca, muito obje­
tivamente, o p roblema relativo ao criminoso: como este pode
reparar o mal feito à sociedade. Sua tese é de que seria p ossí­
vel o cálculo exato desta "medida da falta", desde que se p u­
d e s s e c o n t a r c o m u m a t o t a l i d a d e fe c h a d a onde nenhum
desperdício, nenhum prazer ou sacrifício pudessem ser excluí­
dos da contabilidade. Crime e castigo formariam assim uma
equação de soma zero, tal qual a lei de Talião, que Freud afir­
ma vigorar no inconsciente . 28
Surge assim a p risão modelo, onde tudo no seu interior
pode e deve ser aproveitado segundo uma finalidade especí­
fica regida p ela utilidade absoluta. O des tino do lixo, o tempo
dos guardas, a arquitetura, o sis tema de alimentação e traba­
lho, enfim, absolutamente tudo, no interior desta prisão, deve­
ria ser planejado e administrado de forma a que não houvesse
espaço para o inútil, o disfuncional, o dispensável. Um regime
sem lugar para o excesso, eis o maior cas tigo e a forma primá­
ria de rep aração para o m a l . A lição pedagógica é simples :

28. Segundo algumas correntes da hermenêutica bíblica, a lei de Talião se­


ria um verdadeiro avanço jurídico para a época, pois ela estipularia
que para 11 m olho só deve-se pleitear 11 m,olho em contrapartida, e não
mais do que isso. Neste sentido a lei de Talião é fundamentalmente
um dispositivo para restringir o abuso na esfera da restituição.
Gozo E TEORIA DO VALOR 47

aprender que a inutilidade é um mal, e o crime é antes de tudo


algo inútil.
Como mostrou Monzani29 a construção histórica deste ali­
nhamento é tributária de um extenso debate que cercou a im­
plantação do princípio da utilidade na era moderna. Com a
gradual ruptura da noção hierárquica, finalista e transcenden­
tal da idéia de Bem vemos como esta se laiciza e dissemina
como tese hegernônica na organização política e ética dos Es­
tados modernos. O Bem torna-se um assunto individualizado,
relativo e coordenado pelo egoísmo e pela autoconservação. O
homem do século XVIII é o homem do prazer, como afirma
Lacan, mas do prazer articulado e regulado pela pura utilida­
de. Paralelamente, a noção de desejo põe-se em continuidade
com a de gozo. O gozo situa-se como uma consecução do de­
sejo. Tanto para os moralistas franceses do século XVII como
para os utilitaristas ingleses do século XIX e mesmo para a tra­
dição libertina a tese do gozo, como parâmetro da felicidade
ganha destaque. O gozo em questão aqui é sinônimo de usu­
fruto, representando teoricamente a justificativa para o egoís­
mo moral que será defendido por esta corrente de pensadores.
A psicanálise, no entanto deriva de uma tradição que aca­
ba por problematizar e trazer à luz paradoxos contidos em
cada elo desta cadeia. Vários autores têm mostrado como
Freud, em que pese sua confiança na razão e no esclarecimen­
to, é também herdeiro do iluminismo sombrio, de Sade a
Nietszche e de Hobbes a Schoppenhauer. Em Lacan esta he­
rança aparece sob a influência exercida por autores corno La
Rochefoucauld, Gracián e Bataille.
O que se destaca nesta linhagem é uma crítica sistemáti­
ca à paridade entre desejo, prazer e bem-estar. O desejo nem
sempre se faz acompanhar do prazer, assim como a satisfação
é amplamente suspeita se a colocamos como equivalente do
bem-estar. O que esta tradição enfatiza é sobretudo a hipérbole
do prazer, como negação do prazer. Ou seja uma crítica da
idéia de excesso.

29. Monzani, R. Desejo e prazer na Idade Moderna . C a mpinas: Unicamp,


1 997.
48 CHR I STIAN I NGO LENZ OUNKER

Lembremos de que até o século XVIII o excesso é conside­


rado como uma das faces mais consistentes do mal. A virtude
está na eqüidistância entre a falta e o excesso, afirmava Aris­
tóteles. A felicidade está na frugalidade, na simplicidade e
temperança, afirma-se na tradição judaico-cristã. Tal tradição
é seriamente abalada no século XVIII em torno do que se con-.
vencionou chamar de "querela do luxo". Discutia-se então jus­
tamente o valor do ex cesso, da sun tuosidade ou do luxo,
propiciado pelo desenvolvimento industrial da época: seria
isso um bem? Residiria a felicidade na consecução do consu­
mo? A tarefa de Bentharn, mas também de Stuart Mill e Adam
Smith foi introduzir um agente auto-regulador na idéia de
consumo por intermédio do princípio da utilidade. As trocas
e os valores morais encontrariam "naturalmente" seu limite na
medida em que se encontrasse um universo fechado onde ne­
nhum outro agente ou fundamento gerisse o sistema.
Mas o axioma da utilidade se apóia, em última instância,
em urna teoria de sensibilidade. A sensibilidade estaria assim
cifrada em u rn a espécie de moeda, quan tidade positiva,
representada pelo prazer, e quantidade negativa, representada
pela dor. Segundo Miller30 esta homogeneidade da sensação
permitiria p e n s a r um regime de equivalên c ia onde a
conversão e comparação entre os prazeres seriam possíveis.
Tal comparação deveria levar em conta, ainda, os critérios
específicos da experiência de prazer: intensidade, duração,
certeza, proximidade, fecundidade e pureza. Ora, urna rápida
inspeção da noção de gozo à luz de tais critérios mostra corno
o gozo é urna espécie de anomalia da experiência de prazer. O
gozo se carac teri z a pela in tensidade e x cessiva (além da
satisfação), de duração repetitiva, com urna certeza antecipada
(imaginariamente eternizável). O gozo corresponde ainda a
uma experiência de proximidade absoluta, com tendência a se
prolongar inercialrnente ( fecundidade) e a ser impuro por
natureza, ao combinar afetos indiscerníveis (prazer e horror,
por exemplo). Além disso ele está a meio caminho entre uma

30. Miller, J-A . La máquina panóptica . ln: Matemas I. Buenos Aires: Ma­
nantial, 1987, p. 49 .
Gozo E T EO RIA DO VALO R 49

grandeza positiva (prazer) e negativa (dor). Se o gozo constitui


uma anomalia do prazer conclui-se que ele aparecerá também
como uma anomalia no cálculo do prazer. Uma anomalia que
permanecerá no valor atribuído ao prazer.
Percebe-se assim por que Lacan afirma, em várias passa­
gens, que o gozo não serve para nada, ele não é um meio para
alcançar um fim, como o prazer que procura a extinção da ten­
são. Isso pode levar à falsa idéia de que ele não se inscreve no
cálculo do prazer. Pelo contrário, ele seº inscreve como uma
anomalia. O problema está no fato de que esta inutilidade ra­
dical é impulsionada pelo próprio imperativo superegóico que
ordena: Goza! Tal imperativo condensa o paradoxo do gozo na
esfera ética. Responder à demanda que ele impinge ao sujeito
significa exceder o limite imposto pela lei. Uma espécie de
obrigação insensata que é transgredida no momento em que se
atende a ela. Daí Lacan afirmar que a única resposta a este im­
perativo seria: "Eu escuto" (J 'oui). De Kafka a Orwell, dos re­
latos de experiências limite em campos de concentração ou sob
regimes totalitários, tematiza-se cada vez mais este caráter in­
sensato da lei quando ela se consagra a realizar o ideal de com­
pletamente da demanda, e em contrapartida de apagamento
do desejo. Desejo e gozo formam assim uma antinomia ética
cujo mediador encontra-se na idéia de lei.
Isso nos leva a considerar, ainda no século XVIII, a litera­
tura inaugurada por Sade, a literatura maldita e libertina. Sade
nos apresenta um duplo projeto. Por um lado o levantamento
exaus tivo e uma descrição minuciosa de todas as formas de
prazer, como vemos em Os 120 dias de Sodoma. Levantamento
que carrega a marca da totalidade que vimos em Bentham. Por
outro lado há, em Sade, um projeto social de instituição de
uma nova lei, não mais fundada na interdição e na moral cris­
tã, mas no imperativo do acesso universal e natural ao gozo.
"Franceses, um esforço a mais se quereis ser republicanos", o capí­
tulo mais importante de A filosofia na alcova, 31 procura mos trar
como tal imperativo é uma espécie de coroamento, de ultra-

31 . Sade. A filosofia na alcova. São P a u l o : Companhia d as Letras, 1992,


p. 1 5 1 .
50 CHRIST I AN INGO LENZ DUNKER

passamento necessário e conseqüente da Revolução Francesa.


Observe-se como no próprio enunciado está presente esta ex­
pressão que indica o gozo: "um esforço a ma is " . Um esforço
pressupõe um ato livre da vontade, um sacrifício que vai além.
Sade argumenta que tal esforço iria apenas no sentido de dar
forma racional à natureza humana. Ele chega a imaginar for­
mas políticas que poderiam dar expressão concreta a este pro­
jeto: a República Sadeana ou ainda o Clube dos Ladrões e
Libertinos. Quando não o faz diretamente isso transparece nas
masmorras, castelos isolados ou porões obscuros que com­
põem os cenários privilegiados de sua literatura. Lugares pa­
ra tópicos, fechados em s ua al teridade totalizada e, nesta
condição, realização imaginária, sem falta, do gozo.
Vemos, assim, tanto na prisão panóptica de Bentharn
corno na República Sadeana figurações imaginárias do gozo
produzidas a partir da ficção de uma totalidade independen­
te. O problema de tais utopias é que sempre parece haver urna
espécie de resíduo, exterior a essa totalidade, que se recusa a
ser plenamente incluído. Bentham precisa da exterioridade
prisional, Sade precisa enfim apresentar e persuadir o outro,
mesmo que apenas como interlocutor literário, para levar adian­
te seu discurso. Daí o papel crucial desempenhado por Justi­
ne, a virtuosa e incorruptível donzela que resiste, com todas
suas forças, a assumir a conversão libertina proposta pelos he­
róis sadeanos. A impressão é que se Justine ceder à carne, de
corpo e alma, o discurso sadeano se reduziria a um inventário
sem interlocutor.
Até aqui tenho insistido na idéia de que o gozo passa pela
suposição de uma completude atribuída ao Outro. Completu­
de que deriva justamente do fato de que ele contém ou repre­
senta este resíduo que faria enfim da totalidade urna
totalidade consistente. O cálculo do gozo trará sempre a ima­
ginarização desta totalidade, seja na forma de construções so­
ciais, seja na forma de políticas de identidade ou em estilos de
vida. A questão ética do gozo implica sempre colonização,
submissão ou assujeitamento do outro. Trata-se do reconheci­
mento do mal radical, mas não essencial, na relação com o ou­
tro, como afirmara Freud:
Gozo E TEORIA DO VALOR 51

O homem tenta satisfazer s u a necessidade de agressão à


custa de seu próximo; exp lorar seu trabalho sem retrib uição,
utilizá-lo sexualmente sem seu consentimento; apropriar-se de
seus bens; humilhá-lo; inflingir-lhe sofrimento, martirizá-lo e
32
matá-lo.

O trecho acima tem sido retomado sistematicamente para


estabelecer um precursor freudiano da noção de gozo na obra
de Freud. Evidentemente este recurso aproxima o gozo da
pulsão de morte e esta da destrutividade. Igual resultado se
obtém pela observação de que o uso da expressão " Genuss"
(gozo) está virtualmente associado em Freud à tematização do
sadismo. Nesta vertente, o gozo facilmente se posiciona como
algo que extrapola o prazer, não apenas por se colocar inten­
sivamente como excessivo, mas também por negá-lo do pon­
to de vista de seu funcionamento qualitativo frente à lei.
Podemos pensar, em alternativa a este raciocínio, que o
gozo em Lacan não é o próprio mal, como princípio transcen­
dente ou experiência do pecado, mas a imagem do mal, a en­
carnação do mal, no sentido em que este se faz carne. Ele é
produzido pela exploração do outro que o reduzirá sempre à
condição de objeto. No entanto é um objeto ao qual o sujeito
se identifica para recobrar o gozo.
Essa tese parece ter sido esboçada por Hegel a quem se
pode atribuir a extração jurídica da noção de gozo em Lacan.
Muito antes de dedicar-se à filosofia do direito Hegel utiliza o
termo gozo (Gen uss) justamente na seção dedicada à "Indepen­
dência e dependência da consciência-de-si: dominação e escra­
vidão" usualmente citada como a dialética do senhor e do
escravo, à qual Lacan retorna em inúmeros momentos de sua
obra. Nesta passagem Hegel acentua o caráter assimétrico da
relação com a coisa. Para o escravo não há independência em
relação à coisa porque este só pode trabalhar sobre ela mas
nunca aniquilá-la.
Ao contrário, para o senhor, através desta medidação (re­
presentada pelo escravo), a relação imediata vem a ser como

32. Freud, S. (1929) . O mal-estar na civilização. OC. Op . cit. v. XX.


52 C H R I STIAN I N GO LENZ D U N K E R

a pura negação da coisa, ou como gozo - o q ual lhe consegue


o q ue o desejo não consegu ia: acabar com a c oisa e a q uietar-se
no gozo. 33

Vê-se aqui que gozar equivale a potência de aniquilamen­


to, à soberania para desfazer-se de algo. Isso leva a noção de
gozo para além da de usufruto e a situa justamente como ne­
gação ou ultrapassamento do uso, tal como aparece na seguin­
te passagem:
O usufruto q ue r diz e r q u e p o d e m os gozar de nossos
meios mas não devemos enxovalhá-los. Quando ternos usufru­
to de uma herança, p odemos gozar dela, com a condição de
não gastá-la demais. É nisso que está a essência do direito - re­
partir, distribuir, retribuir, o que diz respeito ao gozo. 34

Usar, fruir ou dispor são ainda formas parciais e limita­


das de gozar de algo. Naccache35 em seu verbete sobre a noção
de usufruto no Código Civil Brasileiro marca bem como tal
noção é diretamente derivada da noção de posse oriunda do
direito romano. Possuir algo é, via de regra, confluir o direito
de uso (viver, utilizar) de fruição (alugar, emprestar) e de dis­
posição (vender, desfazer) . O problema é que não há forma
j urídica que legisle sobre o desejo do outro, quando é este o
que se torna objeto para o gozo do Um. Como possuir o desejo
do outro? É a descoberta desta impossibilidade o que leva já
em Hegel à instauração da consciência infeliz. Aquilo que fa­
ria a totalidade do bem, o valor de todos os valores, está ina­
cessível ao gozo. No entanto é isto que o Outro conclama ao
sujeito em um apelo paradoxal.
. Daí seguem-se afirmações como a de que o gozo é a rea­
lização da demanda do Outro, que ele é uma exigência do Su­
pereu ou de que o gozo jamais se satisfaz no nível do-sujeito. 36

33. Hegel, G .W.F. Fenomenologia do espírito. Parte I. Petrópolis: Vozes, 1 992,


p. 131 .
34. Lacan, J. O seminário. Livro XX. Mais a inda . . . Op. cit., p . 1 1 .
35. Naccache, A M . Usufruto. Carta de São Paulo, ano 8, n . 3, p . 25, maio de
2001 .
36. Lasnik-Penot, M .-C . A construção do conceito de gozo em Lacan. Per­
curso, São Paulo, ano IV, n. 8, 1992.
G ozo E TEORIA DO VA LO R 53

Isso porque ali onde o gozo se realiza ele se realiza como pul­
são de morte e neste ponto há sempre afanise do sujeito.
Neste quadro a questão ética, na relação com o Outro, as­
sumiria a seguinte forma: como sustentar o desejo, e subjetivá­
lo, uma vez que sua causa é também matéria de g o z o , e
portanto de apagamento do sujeito? Em outras palavras, como
não reduzir o Outro ao outro e ao mesmo tempo fazer-se su­
jeito?
A noção de fantasma desenvolvida no quadro da reflexão
ética e do diálogo de Lacan com Kant e Sacie parece constituir
uma formalização para este problema. Isso é teoricamente
coerente na medida em que o fantasma expressaria ao mesmo
tempo a possibilidade de converter o prazer em desejo e a pos­
sibilidade de converter o desejo em gozo. O fantasma pode ser
definido como um feiche de relações com pelo menos duas
séries antagônicas representando respectivamente a afânise do
sujeito diante do imperativo imposto pelo Outro e o puro gozo
destrutivo do objeto com encobrimento da divisão do sujeito.
Em outras palavras, ele resume o paradoxo contido no cálcu­
lo do gozo e na matriz desejante do sujeito. Neste sentido o
materna g O a pode ser lido como a conjunção do sujeito ao
objeto (S v a), acrescido da disjunção do sujeito ao objeto (S /\ a).
No primeiro caso o gozo do fantasma seria perigoso, " . . . por­
que abre, ante ao sujeito, o abismo do desejo enquanto tal" . 37
No caso inverso o fantasma marca a abertura (béance) do desejo
ao gozo, lugar onde se situa a angústia, 38 ou a falta no campo
do Outro (S(A)).
Concluímos, assim, que a relação entre desejo e gozo é
uma relação não dialetizável. Entre ambos há um trabalho cir­
cular e contínuo de ciframento e deciframento, por meio do
qual o gozo se converte em desejo e o desejo em gozo. Esse tra­
balho é mediado por uma instância dual, a lei, que simbolica­
mente interdita o gozo e por meio do superego obriga ao gozo.

37. Lacan, J. O seminário. Livro VI . O desejo e · sua interpretação, sessão


de 10 de junho de 1959.
38. Lacan, J. O seminário. Livro X. A angústia, sessão de 13 de março de
1963.
54 CH R I S T I AN I NGO LENZ ÜUNK ER

Os operadores éticos como bem e mal tornam-se assim sujei­


tos a uma escala móvel onde apenas o ato que supere tais qua­
lificações pode ser considerado à altura do desejo. Mas ele o
será, apenas, se puder explorar a fina passagem onde o cálculo
do gozo manca e não se oferece assim como garantia antecipa­
da para os atos subjetivos.

O g ozo n a m at r i z e co n ô m i co - p o l íti ca

A lgu ma coisa m udou no discu rso d o mestre a partir d e certo momen to


da h istória . A pa rtir de certo dia, o mais-de-goza r se con ta, se con tabiliza,
se totaliza. Aí começa o que se chama de acu m u la ção de capital.
Lacan

Há portanto uma teoria do valor, de extração lingüística,


contida na idéia de falo, e outra teoria do valor, de extração
ética, contida na idéia de gozo como excesso, abuso ou trans­
gressão do limite. Nos anos 1 968-1 970 Lacan desenvolve uma
terçeira abordagem da noção de gozo, recorrendo agora à teo­
ria marxista do valor. Isso aparece claramente na forma como
Lacan pensa a existência do valor no inconsciente:
. . . o problema é da ordem do valor [ . . . ] Há algo que toma o lu­
gar do valor de troca na sua falsa identificação ao valor de uso
resultand o da fundação do objeto mercadoria; e se pode dizer
ainda que, não se esperou o capitalismo, para que isso que o
antecede em muito sej a revelado. Também se deve l evar em
conta o estatuto do sujeito, tal como o forja a ciência, este su­
jeito reduzido à função de intervalo, para que percebamos que
se trata da igualação de dois valores diferentes, valor de uso,
e porque não veremos isso sempre, valor de gozo. Sublinho: o
valor de gozo joga ali o papel d e valor de troca. 39
Portanto, no inconsciente, o gozo conta como valor de
troca, desligando-se de seu valor de uso. Isso seria uma forma

39. Lacan, J. O seminário. Livro XIV. A lógica do fantasma, aula de 12 de


abril de 1967.
G ozo E TEORIA DO VALOR 55

de traduzir a operação de recalcamento, por operadores eco­


nômico-políticos. No centro desta concepção encontra-se a ten­
tativa de explicar o que torna possível a equivalência entre
duas coisas aparentemente diferentes: o trabalho e o capital re­
gulados por uma divisão não harmônica. Ou seja, o equivalen­
te ao valor de troca produzido pelo trabalhador n�o lhe é
restituído inteiramente, uma parte deste é acumulada sob for­
ma de capital. Esta parte recebe o nome de mais valia, ou seja,
um excedente produzido pela exploração do trabalho, que ten­
de a se reproduzir gerando acumulação. Nesta circunstância o
capi tal virtualmente não pode ser consumido, isto é, não pos­
sui valor de uso, para que possa ser trocado por mais capital.
Assim, ao contrário de Ricardo e Adam Smith, que enfrenta­
ram a mesma questão, Marx, afirmará a primazia do val or de
troca na determinação secundária do valor de uso. No sistema
de trocas o capital tem seu valor aumentado pela via da repro­
dução ou repetição do ciclo, onde algo a mais se acrescenta.
"Como incremento periódico do valor do capital, ou fruto pe­
riódico do capital em ação, a mais-valia recebe a forma de uma
renda (revenue) que provém do capital" .40
Logo, o capital, para manter-se em estado de reprodução,
é algo do qual o capitalista pode gozar de, mas não gozar com.
A alienação, a fetichização da mercadoria e a forma mercado­
ria assumida pelo trabalho tornam-se efeitos de objetivação
desse incremento no capital.
Lacan lerá na ideologia discursiva uma forma material de
atualização desse processo. No próprio discurso se formará
esta ilusão de comensurabilidade entre o sacrifício e a restitui­
ção, entre perda e ganho. O próprio d iscurso será pensado
como um aparelho de gozo:
É no discurso sobre a função da renúncia ao gozo onde
se introduz o termo objeto a. O p lus de gozar como função des­
ta renúncia sob o efeito do discurso; é aí o que dá lugar ao ob-

40. Marx, K. Reprodução simples e lei geral da acumulação capitalista. ln:


O Cap ital. Coletânea Marx Engels, organização de Florestan Fenandes.
São Pa ulo: Ática, 1988, p . 377.
56 CHR I S T I AN I NGO LENZ DU NKER

, jeto a no mercado, a saber, no que define algum objeto do tra­


balho humano como mercadoria . Cada objeto leva em si mes ­
mo algo da mais-valia, assim o mais-de-gozar é o que permite
isolar esta função d o objeto a. 4 1
No entanto o discurso, ainda assim, é um artefato instá­
vel para cernir o gozo. Tão instável que Lacan insistirá sobre
as diferentes for mas de impossibilidade, ou de fracasso, que
cada discurso mantém na sua captura do gozo.
No discurso do analista tal impossibilidade aparece na
disparidade entre o significante mestre, produzido pelo dis­
curso e o saber, colocado na posição de verdade. Em outras pa­
lavras na dissimetria entre a lei e o saber como meio de gozo.
No discurso histérico, tal disparidade aparece no fracas­
so ou impotência para tornar comensurável o significante mes­
tre e o sujeito, ou seja, haverá sempre um resto, suposto na
forma de saber ou de gozar, que escapa à própria relação de
alienação.
No discurso universitário tal resto se mostra como fracas­
so na incorporação do objeto ao puro saber.
Finalmente no discurso do mestre haveria uma impossi­
bilidade estrutural de conjugar o sujeito (como verdade do
discurso) e o objeto (mais de gozar), produzido pelo discurso,
impossibilidade que já vimos anteriormente como própria ao
fantasma:
No d iscurso do mestre ( ... ) não há relação entre o que vai
mais ou menos se tornar causa de desejo de um cara como o
mestre ( . . . ) e o que constitui sua verdade. Há aqui, com efeito,
no andar inferior, uma barreira:

� /!,, �
S a

A barreira cuja d enominação está imediatamente ao al­


cance d e nossa mão é, no discurso do mestre, o gozo - na me­
dida simplesmente em que está interditado. 42

41 . Lacan, J. O seminário. Livro XVI. De um Outro ao outro, aula de 13 de


novembro de 1 968.
42. Lacan, J. O seminário. Livro XVII. O avesso da psicanálise. Rio de Janei­
ro: Jorge Zahar, 1 992, p. 101 .
Gozo E TEO R IA DO VALO R 57

As conseqüências políticas de tal posição são bastante fe­


cundas, pois apontam para a inconsistência da ideologia en­
quanto objeto discursivo. Não apenas a sua ineficácia em
constranger o gozo sob uma forma qualquer de utopia, pro­
messa ou asseguramento mas o caráter instável de qualquer
totalidade formada em seu entorno. Stavrakakis mostrou
como, neste ponto, a psicanálise teria uma contribuição a ofe­
recer ao campo da teoria política. Ela permitiria pensar as po­
líticas, em oposição ao campo do político, como reguladas pela
combinatória de quatro termos ou operações:
1 ) A formação de utopias a partir do reconhecimento da nega­
tividade radical e irredutível da condição humana (discur­
so da histeria);
2) o surgimento de fantasmas utópicos (utopian fantasies) como
promessas de eliminação desta negatividade (discurso do
mestre);
3) a aparição de um subproduto essencial e constante destas
operações: um arquiinimigo a ser eliminado a qualquer cus­
to (discurso universitário);
4) o fracasso de um destes elementos levaria ao reinício da sé­
rie a partir de algum dos outros operadores disponíveis
( discurso analítico) . 43
Vemos assim como também na esfera política a promes­
sa de gozo sustenta-se pela eliminação da exceção, do desvio,
do que está a mais, e como, conseqüentemente, cada universo
de discurso tem sua inconsistência assegurada pela existência
dos demais. O problema levantado por Stavrakakis diz respei­
to à possibilidade de pensar o político a partir desta deriva da
idéia do não-todo, no plano dos discursos. Este autor, na ver­
dade, resume um ponto relativamente consensual na chama­
da teoria social lacaniana (Zizek, Lacan, Butler por exemplo) .
Podemos dizer que no interior de cada discurso o cálculo do
gozo aparece com uma consistência fechada, amparado por re­
tóricas específicas, mas fundamentalmente totalizáveis . O
ponto chave não está na tipologia dos discursos, que provavel-

43. Stavrakakis, Y. Laca n & the political. London: Routledge, 1 999, p . 107.
58 C H RISTIAN INGO LENZ DUNKER

men'te poderia ser muito melhor e mais praticamente desen­


volvida, mas na idéia de " troca de discurso" como disjunção
entre o universal e a totalidade.
Por isso o p onto c línico crucial da teoria dos dis cursos
está no chamado " giro de um quarto de volta" através do qual
um discurso é trocado, p or p rogressão ou por regressão, por
um outro discurso . Nesta troca há um algo a mais, uma su­
p lência que define o amor, conforme a afirmação de que: " o
amor é o signo de que trocamos d e discurs o " . 44
Se a troca de discurso tem por efeito secundário o signo
de amor, a p e r manênci a no mesmo discurso p arece ter por
efeito a produção de um excedente que tende a se acumular no
sentido econômico d o capital e no sentido p olítico do p oder.
Mas a progressão deste a cúmulo tem como efeito a localização
e substancialização da falta.
Em Radiophonie45 o p aradoxo contido. nesta contradição é
explicitado da seguinte maneira: " . . . a mais-valia é a causa do
desejo d o qual uma e conomia faz seu p rincíp i o : a produção
extensiva, p or conseqüente insaciável, da falta de gozar . . . " .
E m outras p al av r a s : quanto mais meno s . Quanto mais
objetos para o desej o m enos desej o de fato e mais gozo de di­
reito . A produção de uma insaciável falta de gozo é o que se
mostra como efeito d o m ais-de-gozar. O que o mais-de-gozar
faz é acumular um obj e to que por ser a causa ou razão do va­
lor não tem em si mesmo valor algum. É um objeto que não
entra diretamente na e conomia da troca mas que indiretamen­
te suporta todo o funcionamento do sistema . Como afirma
Braunstein: "O número, a contab ilidade, a acumulação reco­
nhecem seu fundamento na castração e no inv estimento do
dinheiro como a / - cpA" . 46
Substituindo-se o dinheiro, ou o capital, por outras matri­
zes de cálculo, tais c o m o o direito, a linguagem ou o p oder,
encontraremos sempre esta espécie � e isomorfismo na pro­
blemática relação entre objeto a e - <p.

44. Lacan, J. O seminário. Livro XX. Mais ainda ... Op. cit., p . 27.
45. Lacan, J. Radiofonia . Buenos Aires: Manantial, 1 988, p. 58.
46. Braunstein, N. Goce. Op . cit., p . 80.
Gozo E TEORIA DO VALOR 59

Esta passagem encontra-se alinhada com a crítica realiza­


da por Lacan, no interior do Seminário VII, ao utilitarismo de
Bentham . O utilitarismo supõe um sistema de trocas perfeitas,
com plena equivalência e sem resto. Para o utilitarismo: obje­
to a = <p. A máxima utilitarista é de que tudo é redutível a um
valor, portanto de que tudo é comensurável numa dada unida­
de de medida, mesmo que não se possa calcular tal valor ele é
suposto como virtual e perfeitamente calculável. Nisso, tanto a
teoria do valor lingüístico quanto a teoria do valor ético e a teo­
ria do valor econômico convergem. Em todos os casos supõe­
se uma totalidade, a totalidade da linguagem, a totalid ade
universal do Outro e a totalidade do mercado. Ora, tanto a tota­
lidade da linguagem quanto a totalidade representada pelo
mercado, ou pelo Outro, não podem incluir nos seus campos
aquilo que é "nada de valor", aquilo que faz furo na totalidade.
Os conceitos de falo, como significante, a idéia da antino­
mia entre desej o e gozo e noção de objeto a mais-de-gozar são
conceitos forj ados por Lacan a partir, respectivamente, da lin­
güística estrutural de Saussure, da ética trágica e da economia
política de Marx. Nisso observamos uma curiosa convergência:
todos eles referem-se a algo que é condição de possibilidade de
troca ou de intercâmbio. Referem-se ao que permite operar,
regular ou tornar proporcional certas heterogeneidades.
Dentro da psicanálise estes conceitos parecem adquirir
vida própria e conotações muito diferentes das que tinham em
seus ambientes teóricos de origem. Apesar disso, tanto a noção
de significante fálico quanto a de mais-de-gozar compõem, em
seus campos teóricos de origem, peça fundamental do que se
poderia chamar uma teoria do valor.
A leitura de Lacan, em todos os casos, procedeu de modo
a destacar a inconsistência desta teoria do valor, quando esta
não era reconhecida, ou ainda de valorizar esta inconsistência
quando se encontrava explicitada. Em cada acepção da noção
de gozo, e da teoria do valor a ela ligada, Lacan procurará seu
fundamento exterior, o p onto em que algo na sua alteridade
nega seu fechamento.
Não se trata de encontrar o que tem valor zero, dentro do
sistema, mas o que está fora do valor, o que não pode ser ci-
60 C H R I S T I A N I N G O LENZ Ü U N K E R

frado enquanto tal, naquele universo d e discurso. A ênfase re­


side sempre na impotência ou impossibilidade p ara lidar com
aquilo que é irred utível ao valor, aquilo que não serve para
nada, a saber: o gozo. Portanto entre o gozo a mais (restitui­
ção) e o gozo a menos (perda) é preciso acrescentar o que está
fora do valor. Este fator representará o grão de areia que em­
p erra a funcionalidade e exatidão do cálculo neuró tico do
gozo.
Um sujeito é o que pode ser representad o por um signi­
ficante para outro significante. Mas não há aí algo calcado so­
bre o fato de que, valor de troca, o sujeito do qual se trata no
que Marx decifra - a saber a realidade econômica - o sujeito
do valor de troca está representado pelo quê? Pelo valor de
uso. E é nesta falha que se produz, que cai, o que se chama de
mais-valia. 47
Em outras palavras, a estratégia neurótica de inscrição do
gozo estaria marcada pela equivalência entre perda e restitui­
ção. O gozo a menos, imposto p ela castração, seria tornado
equivalente de um gozo a mais, compreendido pelas forma­
ções fálicas de restituição, como o sintoma. A pressuposição
neurótica é de que menos e mais são comensurá \·eis e reversí­
veis e por isso a falta no Outro se identifica à den . � nda no su­
jeito. Como se o produto realizasse uma soma zero.
A novidade da teoria do valor em Lacan seria j us tamen­
te incorporar o resto, o incomensurável, o que não pode ser
medido como elemento desconstrutivo de certas totalidades.
Podemos ilustrar isso com uma pequena metáfora. Supo­
nhamos uma b iblioteca onde os livros estejam classificados de
acordo com algum critério, por autor, por tema, etc. Sempre
poderá se constatar que um livro falta na estante, no entanto,
o lugar prescrito p ara ele estará lá. Temos então uma totalida­
de (a biblioteca), o representante da falta (o falo) e sua imagem
positivada como objeto (o livro faltante) . Assim o valor do li­
vro pode ser calculado em função de sua relação com todos os

47. Lacan, J. O seminário. Livro XVI. De um outro ao Outro, aula de 13 de


novembro de 1 968.
G o z o E T EORIA DO VALOR 61

demais e de acordo com o princípio utilitarista aferido segun­


do a sua disponibilidade e prazer adstrito a ele.
No entanto quando Lacan s upõe que entre o a menos e o
a mais há uma desproporção ou uma incomensurabilidade ele
afirma indiretamente que o valor não pode ser eficientemen­
te calculado . A presença do livro em seu lugar continuaria a
indicar a fal ta de algo . Mas algo em fal ta quando uma to tali­
dade está completa só p ode ser considerado como um nada
para esta totalidade,. Nada porque irredutível ao valor que esta
totalidade permite calcular.
Chegamos assim ao núcleo p aradoxal de uma teo ria do
valor apta a traduzir p roblemas tematizados economicamen­
te por Freud .

O gozo n a mat r i z l ó g i co-fo r m a l

É 110 real, Jazendo buraco, q ue o gozo ex-siste.


Lacan

Como última tentativa de apreender o paradoxo repre­


sentado pelo gozo, no quadro de uma teoria do valor, p odem­
se mencionar as fórmulas da sexuação e a teoria d a s duas
modalidades de gozo, desenvolvida no Seminário XX . Neste
contexto a acepção de gozo envolvida diz respeito à diferen­
ça entre masculinidade e feminilidade, a proporção ou equiva­
l ência entre estas d u a s fo rmas de gozo . A teoria d o v alor
utilizada neste caso deriva da lógica matemática, mais especi­
ficamente da teoria d os conjuntos .
A grande pretensão formalis ta, que dominou a lógica no
início do século, pode ser resumida na tentativa de empreen­
der uma axiomatização completa e exaustiva da matemática.
Nes te proj eto, inaugurado por Frege, a noção de função tem
um lugar es tratégic o . Uma função é composta p or um argu­
mento e uma variável. A relação entre amb os determina o va­
lor, como produto desta relação.
O problema que interessará Lacan diz respeito j ustamente
à existência de funções para as quais não se pode aferir o va-
62 C H RIST IAN I NGO LENZ Ü UNKER

lar de existência, ou seja, funções onde a aplicação de um ar­


gumento recursivo corrompe a própria consistência lógica da
função. É o caso por exemplo do paradoxo de Russel onde se
pergunta se um conjunto de todos os conjuntos é ou não con­
junto de si mesmo. Observemos que novamente o ponto crítico
da questão reside na idéia de totalidade (o conjunto de todos) .
Desta forma Lacan proporá ler a relação com o falo como
uma função, a função fálica. Como tal ela funcionará pela pres­
suposição de que há pelo menos um elemento exterior à tota­
lidade que ela permite calcular. Pelo menos um que escape à
castração, o pai mítico da horda primitiva, único a ter acesso
a todo gozo. A inscrição masculina pode ser então calculada
como inteiramente inscrita na função fálica. Todos os homens
estão inteiramente submetidos à função fálica e ao gozo fálico
porque existe um (mítico ou conjectura!) que não está.
No caso do lado feminino das fórmulas da sexuação a si­
tuação não ocorre de modo similar. Isto já nos permite inferir
uma desproporção entre o gozo fálico e o Outro gozo . Isso
porque este gozo estaria "não todo" ( 9 ) referido ao falo. Ora,
esse quantificador ( V ) exprime, lembremos, uma quantida­
de, não apenas uma qualidade. A quantidade que permite afe­
r i r a exist ê n c i a de u m , de v á r i o s , ou de muitos . Uma
quantidade que não cessa de não se inscrever sob forma de um
valor fálico qualquer. A conhecida afirmação de que a mulher
não existe, refere-se justamente à crítica da noção de "todas as
mulheres", como se elas formassem um todo universal. Inver­
samente a afirmação de que "a relação sexual não existe", ou
de que sua existência é impossível, pode ser lida como: a pro­
porção sexual não existe, ou seja o gozo Outro não pode ser
calculado a partir do gozo fálico e é por isso que ele é aproxi­
mado do gozo místico, do gozo que não se constrange ao sem­
blante da linguagem.
A par da imensa complexidade necessária para demons­
trar tal tese é importante mencionar que ela não realiza algo de
completamente novo na estratégia de Lacan para lidar com a
questão freudiana das quantidades, representada pelo ponto
de vista econômico. Mais uma vez a conclusão recai sob a pa­
radoxalidade do cálculo desta intensidade.
Gozo E TEO RIA DO VALO R 63

No seminário XX notamos uma modificação importante


no campo semântico da noção de gozo. Em vez da forma ver­
bal, gozar de, ou gozar com, torna-se prevalente a forma substan­
tivada: o gozo. O seminá r i o está repleto de alusões e
aproximações com a metafísica, quer de inspiração parmeni­
diana ou aristotélica até a mística teológica. O ponto que mais
chama a atenção nestas alusões reside na afirmação de que o
gozo seria a única substância a ser admitida pela ontologia da
psicanálise.48 Mas a esta única substância, apreendida etica­
mente como falta-em-gozar, caberiam dois modos: o gozo fá­
lico e o gozo O utro. O primeiro (J <p ) localiza-se entre o
simbólico e o real e o segundo ( J A) entre o simbólico e o
imaginário. 49 Até aqui não há grande novidade, se pensamos
na metafísica de Espinoza, por exemplo, que procede de modo
semelhante. A diferença vai residir na tese de que entre os dois
modos de gozo não há cópula, sua soma não perfaz a totalida­
de, sua reunião não realiza o Um. O que uma· forma de gozo
deixa de lado não é recuperado pela outra. A formação desta
totalidade imaginária é referida por vezes pela expressão gozo
do ser (jouissance d l' etre), cujo estatuto é mítico e cuja consistên­
cia é puramente imaginária.
Esta disparidade entre os modos da substância implica
dificuldade adicional na consideração do cálculo do gozo . As­
sim como há um equívoco que impede a justa proporcionali­
dade entre o falo e o objeto a, na esfera do gozo fálico, haveria
urna segunda impossibilidade que é a de constranger ou pro­
porcionalizar o gozo Outro nos termos do gozo fálico. A as­
sunção ou recusa desta conseqüência tem mobilizado urna
interessante polêmica em torno do tema da sexualidade femi­
nilidade em psicanálise.
Em primeiro lugar porque o gozo, assim considerado, é
um conceito limite, entre o sexual e o real, entre o sexual e o
não sexual. Ao falicizar o objeto o sujeito não apenas o torna

48. Lacan, J. O seminário. Livro XX. Mais ainda . . . Op . cit.


49. Lacan, J. A terceira (1970) . Che Voi ? , Porto Alegre, n. 3, 1 987.
64 CHRIST IAN I NGO LENZ Ü UNKER

apto ao significante mas o sexualiza: " . . . o falo está predestina­


do a dar corpo ao gozo na dialética do desejo". 50
E ao mesmo tempo: " . .. o gozo fálico se torna anômalo ao
gozo do corpo" . 51
Nesta operação de corporificação do gozo um duplo re­
síduo se precipita: uma parte do objeto a resiste a ser sexuali­
zada e uma parte do gozo resiste a se inscrever permanecendo
como gozo fora do corpo. Seria então a sexualidade feminina
definida por esta incomensurabilidade entre os gozos. Inver­
samente a sexualidade histérica poderia ser definida pela in­
comensurabilidade entre o falo e o objeto a . Para dar conta
destas sobreposições de incompletudes, para diferenciá-las La­
can parece ter recorrido ao conceito de suplência.
A teoria da suplência, desenvolvida inicialmente na esfe­
ra do tema do amor, e ampliada posteriormente para a teoria
do Sinthome como nominação, ocupa assim um lugar seme­
lhante ao que o conceito de letra ocupa na matriz lingüística.
Trata-se de um efeito secundário da desproporção ou inco­
mensurabilidade verificada sob um determinado regime de
cálculo do gozo. Por isso, o Seminário XX, pode ser lido como
a tentativa de justificar uma única tese: "O gozo do Outro, do
Outro com A maiúscula, do corpo do Outro que o simboliza,
não é o signo de amor" . 52
Tal tese retoma o mote de que o que está perdido no gozo
não se recupera todo ri.as suas formas de restituição, neste caso
sob forma de signo de amor. O amor, assim como o prazer ou
a letra e ainda a arte no sentido da estética sublimatória, faz bor­
da ao gozo. Quando o gozo ganha corpo, no duplo sentido de
unidade (corpus) e de cadáver (corpse) será sempre na forma de
um equívoco, troca ou engano. A totalização do gozo será
marcada por um índice muito preciso: "Não é isso - aí está o
grito por onde se distingue o gozo obtido do gozo esperado". 53

50. Lacan, J. O seminário. Livro XIV. A lógica do fantasma, aula de 12 de


abril de 1967.
5 1 . Lacan, J. A terceira (1 974) . Che Voi? psica nálise e cultura. Cooperativa
Cultural J acques Lacan, Porto Alegre, p. 28, 1 986.
52. Lacan, J. O seminário. Livro XX. Mais ainda . . . Op. cit., p. 12.
53. Idem, p . 1 52.
Gozo E TEORIA DO VALOR 65

A decepção ou a negação do valor esperado e prescrito


pela função fálica permanece assim como mais uma expressão
do paradoxal cálculo do gozo. Cálculo que é explicitado por
Lacan na seguinte passagem:
É verdade que o trabalho (o do sonho en tre outros) se
passa em pensar, calcular e julgar. É uma definição: ele supõe
um sujei to, e este é o Der Arbeiter (o trabalhador) . Isto que pen­
sa, calcula e j ulga, é o gozo (jou issance), o gozo enquanto do
Outro, exige que o Um, isso que do sujeito faz função, seja sim­
p lesmente castrado, por assim dizer, simbolizado pela função
imaginária que encarna a impotência (impuissance), anterior­
mente dita pelo falo. 54

Aqui vemos surgir uma acepção do gozo como objeto so­


bre o qual o trabalho, representando pelo inconsciente, o tra­
balhador, representado pelo sujeito e o instrumento deste
trabalho(o falo) se conjugam. Essa acepção resume bem o que
entendemos por cálculo do gozo em sua pluralidade de senti­
dos e em sua ambigüidade de conotações. O cálculo do gozo
representa, nesta medida, diferentes formas do trabalho psí­
quico (durcharbeiten) envolvidas na construção dos sintomas
próprios à neurose.
Nos últimos anos de seu ensino Lacan abordou este
trabalho isolando três inscrições distintas do gozo:
a) o gozo fálico: situado entre o simbólico e o real;
b) o gozo do Outro: situado entre o real e o imaginário;
c) o sentido (ou gozo do sentido) : situado entre o simbó­
lico e o imaginário.
O sistema topológico de mútua limitação entre estas três
inscrições de gozo estaria amarrado pela função central do
objeto a. Em textos corno o Seminário RSI, Conferência sobre o
sinthoma e L 'etourdit percebe-se que o objeto a é utilizado corno
uma espécie de conversor, de base comum, para a distribuição
das formas de gozo.

54. Lacan, J. Resumo do Seminário . . . ou pior (1 972) . A n nuaire de l'Ecole


pratique de Hau tes É t udes (section sciences écono miques et sociales),
p. 287-91 , 1 972-1 973.
A FALTA E O EXCESSO: MODULAÇÕES DO GOZO
EM UM CASO DE H ISTERIA

Há mu itas maneiras sérias de não dizer nada,


mas só a poesia é a verdadeira.
Perder o nada é u m e mpobrecimento.
Manuel de Barros

Apresento a seguir alguns fragmentos de um caso de his�


teria no intu ito de mos trar a relação existente entre as varia­
ções na conformação do gozo e a formação e deslocamento de
sintomas . Espero com isso enfa tizar aspectos clínicos deste
conceito discutidos no capítulo anteriores, bem como circuns­
crever situações onde a apreensão meramente estrutural mos­
tra-se insuficiente p ara compreender a complexidade e o curso
das transformações vividas pelo suj eito .
Os fragmentos aqui apresentados, assim como n o restante
deste livro, bem se poderiam dizer " inspirados em fatos reais" .
Na tentativa de transcriar o caso, de modo a ocultar e defor­
mar seus detalhes, sem p erder sua estrutura ou seu valor heu­
rístico, vej o que o resultado situa-se entre a descrição e a lite­
ratura, entre a ficção e o relato. Talvez isso redunde apenas em
prejuízo para ambas as formas de apresentação m as representa
uma tentativa de recuperar o gênero da narrativa clínica que
tanto nutriu historicamente a psicanálise . O p oeta Manuel de
B arros, afirma em um de seus aforismas : "há histórias tão ver­
dadeiras que às vezes p arecem que são inventadas" . 1 Procurei

1 . Barros, M. Livro sobre nada . São Paulo: Record, 1 996, p. 69.


68 C H R I S T I A N I N G O LENZ D u NKER

guiar-me por esta indicação ao apresentar estes fragmentos de


histórias clínicas.
Trata-se de uma jovem senhora que procura a análise em
um momento de grande angústia. Fora casada por alguns anos
passando, nesse período, pelo que chamou de "seu martírio".
O ex-marido é apresentado como um alcoólatra, violento que
só sabia explorá-la. Tratava-a com ironia e desprezo, arrogan­
do-se uma posição superior e desdenhando suas conquistas ou
interesses. Isso sempre a incomodou mas não o suficiente para
que deixasse de manter uma relação dedicada e esperançosa.
Havia nela uma espécie de crença mágica de que algum dia ele
"iria mudar" . Todos os sacrifícios que ela fazia se justificavam
em nome disso. Cuidava da casa, sustentava econômica e so­
cialmente o marido.
Não tinham filhos. Apesar de ela os desejar nunca apare­
ceu o momento certo. Ele não queria e ela não sabe dizer ao
certo por que não insistira no assunto. Tinha pouco interesse
por sexo o que ela relacionava vagamente às sucessivas infide­
lidades do marido. Suportou esta longa humilhação graças ao
apoio de uma amiga e confidente. Esta sempre a incitara a con­
siderar a idéia da separação. Decide dar este passo após uma
cena de ciúmes onde o marido a acusa de infidelidade, recu­
sando-se desta maneira a reconhecer a dedicação intransigente
que ela lhe dedicava.
Ocorre que após um longo e turbulento desenlace ela é
lançada no que chamou de sua liberdade. Curiosamente esta
liberdade redunda em um período de depressão, falta de âni­
mo, pessimismo e incapacidade para articular qualquer proje­
to. Algumas iniciativas, antes tolhidas pelo marido, recebiam
agora livre curso, mas, não lhe traziam qualquer satisfação. Ela
estava livre mas não sabia gozar desta liberdade: como um
passarinho com saudade da gaiola, segundo uma metáfora por
ela utilizada. É nesta circunstância que ela vem a saber de um
fato que a abala sobremaneira. Seu ex-marido envolvera-se
com a antiga amiga e confidente.
Três sintomas apareciam em ligação direta com este acon­
tecimento: idéias recorrentes e intrusivas em torno de vingan­
ça, uma inibição relacional, que a remetia à fantasia de um
Gozo E TEO RIA DO VALO R 69

destino solitário e infeliz, e um medo difuso de que algo trági­


co e violento aconteceria com ela. Como medida protetora, para
reduzir a intensidade deste medo ela passa a praticar certos ri­
tuais supersticiosos a;n.tes de sair ou chegar em casa. Verifica
se nenhum objeto, jóias em particular, está faltando e também
se vê obrigada a telefonar para sua própria casa antes de che­
gar, para ter certeza de que ninguém está lá.
Os três sintomas exprimiam o conflito gerado pela situa­
ção. Ela se esforçava para pensar que não devia se importar
com o que se passava com os outros. Devia cortar relações e
mostrar que pode passar muito bem sozinha. Assim a fantasia
de permanecer o resto da vida sozinha encontra-se reunida ao
desejo de que isso se realizasse, para o olhar do outro.
Como efeito secundário deste desejo ela realizava um tra­
balho ativo para recusar, neutralizar ou anular idéias que re­
metessem ao casal recém-formado. Tal esforço passa pelo
evitamento de lugares, pessoas e situações que pudessem evo­
car sua lembrança. Quanto mais ela agia nesta direção, mais
sutis e engenhosas eram as formas como um detalhe trazia
tudo à tona. Apesar disso a imagem da felicidade vivida pelo
casal retornava, e com ela a figuração de um gozo da qual es­
tava excluída.
O estado neurótico em que se encontrava correspondia
assim ao trabalho de inversão desta exclusão. Em vez de excluí­
da, ela se excluía. Em vez de trocada ela se fazia agente da troca.
As fantasias de vingança passavam pela idéia de que
mais cedo ou mais tarde ele abandonaria a amiga, e esta, em
desespero, voltaria a procurá-la. O sentimento de traição pos­
suía uma determinação ambígua, ora dirigido à amiga, ora ao
ex-marido. Isso acaba por revelar algo sobre a natureza da se­
paração: um ato extremo para saber afinal quanto ela valia
para ele, quanto ele sentiria sua falta.
Finalmente os sintomas em torno das certificações expri­
miam a tentativa de apreender o seu valor imaginário p ara o
outro. Ligar para saber se alguém está a sua espera, verificar
que o signo de amor permanecia ainda no mesmo lugar. Nos
dois casos o objeto perde seu valor na dialética do desejo para
assumir um valor isolado, intrínseco e hiperintenso.
70 C H RI S TIAN I NG O LENZ Ü U N K E R

· Esta rede de sintomas parecia se organizar a partir de cer­


tos enunciados que ela logo apresenta como axiomáticos em
sua existência. Um dito paterno que alude ao seu lugar de fi­
lha mais nova: Mais uma menina. Um dito materno que indica
o triste destino reservado à feminilidade nesta família: Se ao
menos você fosse homem, não teria que passar por isso. A combina­
ção destes enunciados e principalmente a enunciação humilha­
dora que os a c ompanha possui a mesma tonalidade
contrastiva e oscilante de afetos evocada pela traição da ami­
ga: ciúmes da irmã, raiva do pai, desejo de vingança e sobre­
tudo o sentimento de que ela está sozinha, largada na vida e
a mais em sua própria existência.
Estar a mais a remete a uma série de dificuldades que
atravessou desde a infância para sustentar seu funcionamen­
to narcísico-social . Não tinha amigas, sentia-se sempre atrapa­
lhando, desajeitada e i nconveniente. Repudi ava qualquer
contexto que interpretasse como excessivamente feminino: pia­
no, cuidados com o corpo e a beleza, narrativas românticas e
intrigas amorosas envolvendo terceiros. Os outros sempre se
divertiam à sua custa, era como um brinquedo, um objeto para
a raiva e prazer alheios. Nesta condição via-se inevitavelmente
gozada pelos outros. Estava sempre fora, excluída, . . . a mais.
Por outro lado estar a menos a remete a uma preocupação
cons tante em sua vida: saber quanta fal ta fará aos outros.
Quando criança ia a funerais de pessoas desconhecidas e fre­
qüentava cemitérios como uma espécie de diversão. Queria
saber algo mais sobre o que seria fazer falta, gerar saudades,
evocar o que poderia ter sido. Isso se desdobra na fantasia ju­
venil de que ela está presente a seu próprio velório, verifican­
do quem es tá lá, quem s ente e sofre sua falta. Isso aparece
ainda nas perturbações geradas pela proximidade de seu ani­
versário. Angustia-se com esta data pois os outros mostrarão
ali, se afinal preocupam-se com ela. Mas isto é uma falsa pro­
va, pois ela jamais saberá se estão ali por ela ou por obrigação.
Na mesma linha ela revela um sentimento de inferioridade
calculada. Cobra decididamente menos do que seu trabalho
vale, tendo o mercado por referência. Gosto que me paguem a me­
nos, assim é como se eu tivesse dado algo a mais. Fico com a sensa­
ção que os outros me devem algo.
Gozo E TEORIA DO VA LOR 71

Estar a mais ou estar a menos formam assim um circuito


pelo qual o gozo é calculado. Estar a menos, estar em dívida ou
em insuficiência, é a posição a partir da qual se articulam os
significantes que marcam a falta para este sujeito, os signifi­
cantes fálicos que viabilizam seu desejo, mas também o alie­
nam. Estar a mais, como elemento excluído, sem importância,
elemento que não conta, caracteriza, inversamente, sua posição
como objeto. A juntura dos ditos parentais parecia articular o
sintoma, como significação do Outro (s(A)), da seguinte forma:
Você está a mais como filha e a menos como mulher.
Até então sua existência havia se desenrolado em um su­
til equilíbrio entre o a mais e o a menos . Equilíbrio estável orga­
nizado pela esperança fantasmática de que um dia os sinais da
equação se inverteriam: o dia da grande vingança, ou o dia em
que o ex-marido se transformaria.
A questão que a induz a uma crise nesta forma de cálcu­
lo do gozo se desencadeia quando ela constata que está a mais
frente ao casal formado por sua agora ex-amiga e seu ex-ma­
rido. Aparentemente isso deveria representar apenas uma re­
petição confirmatória da fantasia. Mas é justamente nesta
confirmação que a fantasia fracassa. E fracassa na medida em
que ela se dá conta de que não é "para ela" que este casal se
forma. Não se juntaram simplesmente para humilhá-la, situa­
ção que teria sido bem menos difícil de enfrentar, como ela re­
conhece. Eles não se uniram por causa dela, ou contra ela.
Este foi o ponto enfatizado na estratégia inicial da direção
deste tratamento. Fazer vacilar a juntura entre as duas frases
fantasmáticas observando que ela se encontrava no ponto de
ligação entre ambas. Estar a mais para o pai não era o exato in­
verso de estar a menos para a mãe. Assinalar fortemente que
um não "compensava" o outro, que havia algo escapando nes­
ta relação aparentemente perfeita. Ser urna filha a mais não é o
mesmo que ser menos que um homem .
Este caminho precipitou duas novas questões. Por que ela
jamais cogitara, ou levara a sério, a idéia de ter um filho? Cor­
relativamente: por que ela sentira-se em uma dívida impagá­
vel diante de seu ex-marido? Uma dívida que se instalara
estranhamente como justificativa para o lugar de explorada,
usada e abusada por este homem.
72 C HRISTIAN I NGO LENZ ÜUNKER

' De fato, ser mãe não tinha lugar em uma injunção fantas­
mática comandada pela alternativa entre a mais e a menos.
Também estar com um homem, fora da submissão à dívida,
significava meramente uma inversão pulsional: submetê-lo,
humilhá-lo, usá-lo só para transar. Tal frase começa a ganhar
relevo com o deslizamento da fantasia de vingança. Envolver­
se desta forma com outros homens surge então como a iminên­
cia de um acting out. Não pela iniciativa desejante mas pelo
tom de afronta, de ultrapassamento da lei que ganhava em seu
discurso e pelo desligamento de qualquer perspectiva de en­
volvimento amoroso. O significante só de só para transar cha­
mou imediatamente a atenção. Funcionava como uma barreira
ao outro pois indicava tanto só, no sentido de apenas para tran­
sar quanto só no sentido de sozinha.
Em resposta a esta intervenção aparece um sonho, aliás
típico, onde ela se vê diante de um homem que aparentemente
a deseja. O detf!.lhe insólito é que neste sonho ela se vê dotada
de um pênis. Há, conclui, um pênis a mais. Completamente
inútil para a situação, com este a mais nada podia ser feito com
um homem. Em uma segunda leitura do sonho lhe ocorre que
tal imagem corresponderia ao ideal de um amor perfeito, onde
a interveniência da sexualidade não seria um incômodo. Isso
se choca com a sensação de que o homem do sonho a deseja e
coloca em questão a causa deste desejo. Seria ele homossexual?
Nesta linha ficava claro como sua vinculação amorosa tra­
zia consigo um apagamento calculado do desejo. Ali onde amo
não desejo e ali onde desejo não amo - esta disparidade sustenta­
va-se na forma como ela parecia reunir os ditos materno e pa­
terno -para significar sua própria posição. No plano da filiação
mais uma filha remetia a um lugar não diferenciado, relativa­
mente amorfo e acessório. Estava assim incluída na série mas
não fazia parte dela. Era nesta condição de rebaixamento fáli­
co, quase de excesso, que se permitia ser amada. Inversamen­
te, se pelo menos fosse homem - o dito materno- caía como um
reforço a isso pois na esfera da identificação reunia-se à mãe
neste rebaixamento. Isso produzia uma colusão do falo ao ob­
jeto, própria do fantasma na histeria. Ser a intermediadora, a
procuradora do desejo de outra mulher, a embaixatriz desse
Gozo E TEORIA DO VALOR 73

desej o junto a um homem era a forma de vida que encontrou


para este fim.
Dedicara-se sempre a encontrar namorados para suas
amigas. Fazia-se de confidente e mediadora para as crises con­
jugais alheias. Estava sempre por perto, disponível e esperava
gratidão por seus préstimos. Fica claro, nesta altura, que o de­
sencadeamento dos sintomas e a crise de gozo na qual se viu
lançada decorria da junção entre a traição amorosa da amiga
e a traição desejante do marido. Junção que punha em questão
justamente o fato de que seus pais tiveram um casamento lon­
go, e ao que tudo indica feliz, em que pese a insuficiência fi­
nanceira do pai.
A partir disso chegou-se a uma nova vertente que ressig­
nificaria os sintomas . Seu pai, que atravessara sucessivos de­
sas tres financeiros era duramente criticado por isso. Nestas
circunstâncias ela assume o controle do dinheiro paterno, pon­
do-o sob sua tutela. Repete-se assim um aspecto da relação
com o ex-marido. Essa era a matriz do impulso à vingança. Ela
fora bem-sucedida exatamente ali onde o pai fracassara: ela era
mais que um homem na mesma medida em que o pai era menos
que um homem.
Na esfera dos ideais isso se encontrava de forma dissemi­
nada. Algum dia aqueles que a haviam humilhado e despre­
zado seriam obrigados a constatar seu sucesso e realização:
medido por seu sucesso profissional. Ganharia mais que os
homens. Seria o objeto de inveja assim como um dia ela os in­
vej ou. Ela teria mais que todos eles. Isso era a contrapartida
imaginária pela humilhação que sofrera. A justiça, tornava-se
urna figuração de seu cálculo neurótico do gozo: a completa
paridade entre sacrifício e restituição. Nesta reversão residiria
o ajuste de contas que ela tinha a realizar com seu pai.
A instabilidade de sua filiação ao pai tem, nesse sentido,
urna história ambígua. Recusava qualquer proximidade com
traços, imagens ou situações que a fariam reconhecer-se na li­
nhagem paterna. Impedia-se q.e tornar riscos profissionais pois
temia que isso a levasse a repetir a saga de desperdícios inú­
teis aos quais o pai se dedicara. Saga que aliás era uma tradi­
ção na linhagem paterna. Mas, como cos tuma acontecer, os
74 C H RISTI A N INGO LENZ OUNKER

marcadores de sua diferença ao pai gradualmente vão se mos­


trando formas diferidas de afirmar a alienação a seu desejo. Da
escolha da profissão, ao engajamento religioso, da coincidên­
cia de escolhas amorosas à repetição de certas propensões, co­
meça a aparecer a forma denegatória de sua filiação, e o gozo
extraído desta identificação narcísica.
A análise desta série identificatória acabou por precipitar
um objeto privilegiado em sua economia de gozo: olhar. A fan­
tasia de estar fora de si, olhando-se em uma relação sexual,
dominava sua imaginação erótica e compunha uma série com­
plementar à da fantasia de observar-se em seu próprio funeral.
Acabou admitindo que ap enas encontrava algum prazer em
seus encontros sexuais, com o ex-marido, se recorresse a tal ar­
tifício. Esta fantasia reunia em si a solução para inúmeros pro­
blemas: ela sentia que seu marido estava com outra, evadia
seu desejo deste homem, enganava-o com esta artimanha pois
assim ele a traía . ,. com ela mesma. Finalmente ela estava so­
zinha, a mais, fora da situação, reduzida a um olhar de onde
extraía seu gozo, pela imagem da completude do Outro. Ela se
compraz com o fato de que ele jamais imaginaria aquilo, que
ele achava que estava usando, mas na verdade estava sendo
usado. O fascínio por este equívoco remetia-se a diversas ce­
nas infantis onde ela olha o pai, sem ser olhada. Onde ela goza
com o pensamento de que ele não sabe que ela sabe. Certa vez
chegando em casa mais cedo, percebe que o pai está com ou­
tra mulher. Depois de consternar-se com a cena, por alguns
instantes, ela sai de casa, voltando bem mais tarde, como se
nada tivesse acontecido. Jamais revelara isso e mantinha este
segredo sozinha . O sintoma da compulsão a ligar para sua pró­
pria casa - para saber se alg uém estava lá - encontrava assim uma
ressignificação.
A lembrança desta cena, e o trabalho sobre ela, têm efei­
tos decisivos para o encerramento desta que pode ser conside­
rada a primeira fase desta análise. Até então a cena a remetia
apenas ao pai: provava seu caráter dúbio, no qual não se podia
confiar, fazia com que ela soubesse algo sem que o outro sou­
besse que ela sabia. A cena marcava ainda que ela estava a mais
na situação agora aderida claramente ao gozo escópico. Salien-
G ozo E T EO RIA DO VALOR 75

to então a importância de uma m ulher na cena em questão,


sobre quem ela j amais dissera nada. Tudo o que ela associava
sobre esta cena simplesmente subtraía qualquer suposição de
desejo, gozo ou saber sobre esta mulher, isto é, ela não conta­
va: era apenas mais uma sobre a qual o pai exercia seu suposto
sadismo. Ao concentrar-se nesta mulher a menos um traço es­
quecido volta a tona: esta mulher sorria. Claramente mostra­
va satisfação com o que se passava. É tornada então por urna
hesitação: talvez esta mulher tivesse percebido sua presença.
É neste ponto que a cena lembrada passa a indicar o encontro
infantil com o Real. Neste momento a recordação infantil passa
a lhe despertar angústia. É a partir disso que a análise passa a
girar em torno da temática do desejo em Outra mulher. Os sin­
tomas iniciais perdem sua força ou desaparecem. A obsessão
com a infidelidade do ex-marido deixa de ocupar primaria­
mente sua atenção.
Situemos então a questão clínica de nosso imediato inte­
resse nesse fragmento de um caso de histeria. O estado neuró­
tico, sob o qual a paciente apresenta-se para análise indica algo
preciso. Ela não sofre apenas pela humilhação infligida na re­
lação com o ex-marido, com a amiga, com o pai ou em seus
percalços profissionai s . Ela se viu lançada em uma crise de
gozo quando o fantasma, que fazia desta humilhação passiva
urna forma masoquista de satisfação, se viu abalado. Em ou­
tras palavras, a posição do sujeito no fantasma - corno mais ou
menos mulher ou filha - foi insuficiente para lidar com o Real.
Isso exigiu urna mudança na variante fantasrnática que é cor­
relativa de urna alteração na economia de gozo, o que explica
o estado de crise, de colapso dos sintomas e emergência de
novas formas de sofrimento que a trazem à análise.
Antes disso, deixar-se humilhar ou diminuir pelo Outro,
articulava uma rede de sintomas, mas não um desequilíbrio do
cálculo do gozo. Nesta humilhação está figurada a castração
para o sujeito, mas também a completude do Outro. O pai e
seus representantes gozam ao excluí-la. Ela goza ao se fazer
excluída. Sua condição de faltante, ou de causa para o desejo
do Outro se equiparava, provisoriamente, à sua condição de
objeto para o gozo do Outro ( - <p = a).
76 C H RI S TI A N INGO LENZ D u NKER

, No entanto o Real mostra algo mais a este sujeito . A d u­


pla traição de sua amiga e de seu ex-marido, repete o que ha­
via se p a s s a d o n a cena com s e u p a i e o u tr a mulher, m a s
também o que se p assaria no impossível desej o d e sua mãe por
seu pai. As mulheres fálicas que habitam seu imaginário, e dão
suporte à identificação com a posição de "a mais" ou " a me­
nos ", são mulheres fechadas em si mesmas . São mulheres so­
litárias, caídas d o Outro . Mulheres que figuram o gozo sem
nenhuma brecha p ara o desej o . Ora, quando uma destas mu­
lheres, mais precisamente sua amiga, revela-se desej ante ela
compreende a inutilidade de sua oferta de gozo. Compreende
a inutilidade d a humilhação pela qual se fez passar. Não é só
isso que ela quer, há um resto, um algo a mais, que não pode
ser recoberto com o algo a menos de sua p rópria castração.
O trab alho analítico para contornar, mas também apro­
veitar, esta crise de gozo como um momento fecundo do tra­
tamento, consistiu em des tacar es ta função de resto ou de não
paridade, corno algo circulante na economia pulsional e nã o
apenas res tituí-lo ao seu ponto estático e organizativo para a
realidade fantasrnática d o sujeito . Isso foi fei to através de s u­
cessivas intervenções que procuravam ap ontar a disparidade
entre o falo e os objetos que aquele visava recobrir.
Ü CÁLCULO NEURÓTICO DO GOZO

O Todo é o não-verdadeiro.
T. Adorno

Ao analisarmos algumas narrativas e cenários teóricos,


sob os quais Lacan desenvolveu sua teoria sobre o gozo, vimos
a importância assumida pela teoria do valor. Também no caso
clínico, apresentado em seguida, enfatizou-se como as oscila­
ções, no plano dos sintomas e das identificações, dependeram
da balança entre valor para o desejo e do valor para o gozo as­
sumido por certos elementos do caso.
Basta lembrar que a posição subjetiva, na abertura do tra­
tamento, está claramente assinalada pela figura discursiva do
sacrifício . Ela sacrificava-se pelo marido, em diferentes senti­
dos . As coisas se complicam quando ela percebe a inutilidade
deste sacrifício. Quando ela põe em questão tanto a causa (o em
nome do que) quanto os fins (o para que) que regem este sacrifí­
cio, ela se vê lançada em uma crise de gozo e em um aprofun­
damento de sua divisão subjetiva.
Poderíamos destacar certos temas recorrentes nas narra­
tivas da modernidade, certos lugares retóricos dominantes, pe­
los quais esta divisão do sujeito foi pensada na sua relação
com o prazer, a satisfação e o gozo. Um dos mais importantes
é o tema do sacrifício.
Freud, ao referir-se ao p a pel da cultura na determinação
da neurose, é taxativo : a cultura exige sacrifícios. Sacrifícios
quanto ao adiamento da satisfação (princípio da realidade),
quanto à renúncia ao gozo (complexo de castração) e quanto
78 C H RISTIAN I NGO LENZ DUNKER

ao m odo, intensidade e objeto ligados ao prazer (s ublimação) .


Em troca des te sacrifício o que a cul tura oferece são ideais e
formas derivadas ou substitutivas de restituição do que foi re­
nunciado . A res tituição oferecerá sempre menos do que foi
exigido como perda, tal é o mito neurótico .
Ocorre que tal processo não é apenas uma abstra ção ge­
neralizante, ele se mos tra de forma concreta na fala de pacien­
tes n e u r ó t i c o s . O u sej a , um d i s c u r s o q u e , p o r es tru tura,
afirmará que o s acrifíci o é demasiad o . O s intoma neurótico
s urge assim como um arti fício para anteci p a r a restituição,
para transgredir a regra d o sacrifício, realizando simbolica­
mente uma satisfação passada e futura, arrebatada ao campo
d o Outro.
Observe-se como a lógica neurótica do sacrifício se desdo­
bra em inúmeras variantes procedentes das diversas narrativas
modernas . Na narrativa do trab alho, por exemplo, isso signi­
ficou o engaj amento em uma atividade alienante, desprazerosa
e hostil que oferecia em troca a promessa de ascensão social e
de acesso a bens de consumo. Um sacrifício que poderia orga­
nizar a vida de um suj eito, b aseando-a na sua carreira ou na
promessa contínua e adiada de libertação, dignidade ou reali­
zação . 1
Na esfera d a narrativa econômica isso s e traduziu pela
oposição entre acumulação e desperd ício . Iss o aparece, por
exemplo, na conhecida ideologia segundo a qual a origem da
pobreza reside no caráter perdulário do pobre, ou seja, alguém
que não se preocup a com o futuro, pode abrir mão de sacrifi­
car-se no presente, tal qual a fábula da cigarra . Em outras pa­
lavras, a origem d a p ob reza estaria no desconhecimento ou
desrespeito à regra do sacrifício. Tal regra supõe que o sacri­
fíci o constitui tanto um valor intrínseco como extrínseco, ou
seja, a estratégia da acumulação egoísta é uma es tratégia j us­
tificável pois é um meio adequado p ara o desenvolvimento e
também um fim em si mesmo.

1. Ver, a este respeito, Senett, R. A corrosão do caráter - conseq üências pes­


soais do traballto 110 novo cap italismo. São Paulo: Record, 1 999.
Gozo E TEORIA DO VALOR 79

No plano j urídico encontramos uma oposição similar na


relação entre crime e castigo. Seu correlato ético é a justa pro­
porcionalidade entre direitos e deveres, que se espera assimi­
l a d a q u a ndo s e s upõe u m suj eito moderno, dot a do de
autonomia e auto-reflexividade. Nisso que regula o uso dos
direitos há ainda algo a sacrificar, ou sej a, o abuso do direito.
Ter a posse ou a prerrogativa para algo supõe, ainda, que seu
bom uso não exceda um certo limite. Mas qual? Justamente o
de manter algo em forma de sacrifício, de não transformá-lo
em uso, mas reservá-lo em potência de atualização.
Outra cena discursiva onde o tema do s acrifício aparece
de modo marcante é a narrativa do amor romântico. Nela o
sacrifício aparece sob forma de tensão entre a promessa e a de­
cepção. A promessa de um amor concluído, fechado em si
mesmo e em consonância com as exigências da vida familiar,
representou um dos mais forte ideais da modernidade. A de­
cepção que ele gerou decorre da força de sua promes s a . O
amor torna-se assim um valor intrínseco, em função do qual
todos os sacrifícios são legítimos. Inversamente o sacrifício tor­
nou-se a medida de legitimidade do amor.
No plano religioso, tendo em vista a tradição judaico-cris­
tã, essa mesma lógica do sacrifício se mostra primariamente na
dialética entre culpa e perdão. Lacan, por exemplo, retoma
inúmeras vezes o tema do sacrifício de Isaac, para ilustrar a
cena originária do judaísmo. Ao erguer a espada para sacrifi­
car seu próprio filho, Abrahão sela a aliança de seu povo, ao
agir em nome de. A intercessão de Iahvé inaugura a série pela
qual um sacrifício é trocado por outro. Uma vez substituído
pelo cordeiro ele sempre poderá ser s ubstituído por algo mais.
Vemos, por estas breves indicações, que algumas das
grandes narrativas que compõem a modernidade prescrevem
um lugar privilegiado para a questão do s acrifício. Adorno e
Horkheimer2 salientaram, através da aproximação entre o su­
jeito moderno e a figura do Ulisses grego, como este sacrifício
é astucioso. Ao acorrentar-se ao mastro e tampar com cera os

2. Adorno, T. & Horkheimeer, M . Dialética do esclarecimen to. Rio de Janei­


ro: Jorge Zahar, 1988.
80 CHRISTI AN INGo LENZ DuNKER

ouvidos dos escravos que remam o navio, Ulisses permite-se


ter acesso ao canto das sereias. Pela privação calculada de sua
própria liberdade, Ulisses abre-se para uma satisfação da qual
não poderá toda-gozar.

S a c r i f íc i o , re stitu i ç ã o e resto

Sofrimen tos grandes demais com relação


aos impulsos do coração podem levar a uma
ou outra atitude; ou repelimos violen tamente
aqu ilo a que demos em demasia, ou agarramo-nos
a ele com u ma espécie de desespero.
Simone Weil

É por meio da relação entre perda e restituição que estas


narrativas funcionam no plano da atribuição de valores. Diz­
se que o valor de algo pode ser calculado tanto pela possibili­
dade de troca quanto pela possibilidade de comparação com
outra coisa. É a teoria clássica do valor que vimos ser utilizada
por Saussure, na esfera da lingüística. Mas esta teoria enfatiza
apenas o valor de troca, ou seja, o valor que algo possui quando
pode ser negativizado e substituído por outra coisa. Há portanto
um valor produzido pela diferença, que é puramente simbó­
lico. É nesta linha que Lacan enfatizará o papel da falta na dia­
lética do desejo. A falta, apresentada na esfera do significante,
é a condição para que algo se inscreva como valor para o desejo.
Há ainda uma forma de valor determinada pelo uso. Nes­
te caso costuma-se levar em conta critérios pragmáticos para
determinar o valor de algo. Critérios que procuram estabele­
cer a forma, o tipo ou a intensidade de satisfação que algo evo­
ca para alguém. É a teoria do valor que vimos ser utilizada por
Bentham, na esfera do utilitarismo. Na teoria do valor de tro­
ca o valor é produzido pela mediação, isto é, pelo lugar que
algo ocupa no conjunto que prescreve as permutações que lhe
são possíveis. Na teoria do valor de uso o que importa não são
apenas os meios mas fundamentalmente os fins. Como afirma­
va Freud, os fins (Ziel) da pulsão são sempre a obtenção de
Gozo E TEORIA DO VALOR 81

prazer. O prazer depende de urna região no corpo que recolhe


o circuito pulsional, as zonas erógenas. Os objetos, nesse sen­
tido, são sempre constituídos e visados pela utilidade pulsio­
nal que oferecem. Há portanto o valor que algo assume quan­
do pode ser reduzido, incorporado ou utilizado na esfera do
corpo. Corno se sabe, o corpo que conta aqui não é o corpo bio­
químico, mas o corpo fantasrnático. É para este regime corpo­
ral que o prazer assume valor corno realização imaginária.
Examinemos corno estas duas formas de valor se conju­
gam na formação do sintoma. Imaginemos a situação onde um
rapaz está interessado em urna donzela. Ele a encontra em
urna praça e ela deixa cair seu lenço sinalizando a possibilida­
de de uma aproximação. Por algum motivo tal aproximação é
interditada para este rapaz. Em vez de aproximar-se da dama
ele recolhe o lenço e o guarda. Posteriormente encontra inspi­
ração neste objeto para sua vida de fantasia. Mais adiante ain­
da ele "esquece" o episódio e passa a desenvolver, digamos,
urna paixão compulsiva por colecionar lenços. O traço mais
marcante desta compulsão é que tais lenços devem permane­
cer rigorosamente limpos de tal forma que jamais podem ser
usados. Consagra assim a pureza obscena de seu sintoma ao
trabalho deslocado de seu desejo.
Nesta imagem caricata da formação de um sintoma ve­
mos como aquilo que inicialmente possuía valor de troca, sig­
nificante que mediav a o desej o frente à mulher amada,
torna-se, substitutivamente, um objeto para extração de gozo,
uma imagem para uso fantasístico. Não se trata simplesmen­
te da mudança de urna forma de valor para outra, uma vez
que ambas se articulam em um "gozo inconsciente" . Guarda­
das as limitações do exemplo ele permite apresentar o sintoma
corno uma proporção entre duas formas diferentes de atribui­
ção de valor, como um compromisso entre ambas. O signifi­
cante fálico, no caso o lenço, funciona como urna promessa.
Urna promessa desejante que alude ao gozo situado em algum
lugar na dama. Corno o gozo prometido é sempre despropor­
cional ao gozo encontrado podemos dizer que a resposta sin­
tomática substitui a decepção com o objeto, por um gozo a
mais. Um gozo que extrapola o objeto, que o abusa, que o ex­
cede. É o gozo do sintoma.
82 CHRISTIAN ( NGO LENZ DUNKER

Mas por que digo que o gozo contido na promessa fálica


é desproporcional ao gozo encontrado no objeto? Aqui encon­
tramos o grão de areia no cálculo neurótico do gozo. Entre o
valor de troca e do valor de uso, Lacan introduz um terceiro
elemento, ou seja, aquilo que está fora do valor, aquilo que não
se inscreve na atribuição de valor: o real. Todos os sucedâneos,
clínicos ou teóricos, que Lacan confere ao real possuem es ta
particularidade de corromper, de dissolver, de colapsar a ins­
crição de algo na ordem do valor. A angústia, o encontro trau­
mático (tiquê), o corpo, a alucinação, a repetição são todos
exemplos daquilo que é nada para o valor, porque resistem a
se subs tituir por outra coisa. O impossível, o inominável, a
Coisa, o resíduo, o dejeto são por e sua vez exemplos do que
não admite valor no plano do uso.
Miller3 ressaltou bem urna pequena mudança ocorrida na
tese de Lacan sobre a relação entre o gozo e o cálculo. Em Ra­
diofonia Lacan afirma que o inconsciente faz passar o gozo à
contabilidade. No Seminário XXIII, ele afirma que o sinthome é
urna forma de fazer a contabilidade, ou o cálculo do gozo. As
duas asserções não nos parecem incompatíveis urna vez que o
problema é j us tamente urna operação de duplo cifrarnento,
com operadores distintos : a função fálica e o objeto a.
Portanto o cálculo neurótico do gozo pode ser descrito
corno um pareamento entre duas formas distintas de inscrição
de valor: a troca e o uso. Esse pareamento assume a imagem de
um sacrifício onde algo de grandeza positiva é tornado equi­
valente a algo de grandeza negativa. Mas esta grandeza posi­
tiva, aludida pela promessa, é representada por um elemento
que em si é pura negatividade pois o falo, como tal, é apenas
o representante da falta. Inversamente a grandeza negativa,
aludida pela decepção, é representada por um elemento que
em si aparece como pura positividade, ou seja, a imagem alie-

3. Miller, J .-A. Los signos dei goce. Buenos Aires: Pa idós, 1 998, p. 324-8, e
também M iller, J.-A. Les six parad igmes de la j ouissance. La Ca use
Fre11dien 11e. Revue de Psycltanalyse, l'École de la Cause Freudienne, n. 43,
p. 7-3 1 .
Gozo E TEORIA DO VALOR 83

nante do objeto. Ressalto que tal pareamento é fadado ao fra­


casso e que tal fracasso aparece pela emergência do real.
Por exemplo, no caso do "Homem dos ratos" ,4 o pacien­
te ao escutar o valor a ser pago por sessão traduz isso nos ter­
mos de sua "linguagem neurótica" : tantos Florins = tantos
Ratos. Ora, isso pode ser lido como uma conversão perfeita
entre a moeda social (Florins) e a moeda particular para uso na
fantasia (Ratos). Mas esta conversão só é realizada porque de
fato "Florins" não é um equivalente perfeito de " Ratos", pois
no cálculo agrega-se um mais-de-gozo. De modo semelhante
quando o paciente hesita entre casar-se por amor ou casar-se
por dinheiro, o cálculo se organiza em torno da identificação
ao sintoma de seu pai. Esta troca não teria maiores conseqüên­
cias se não permitisse ao paciente extrair um mais-de-gozo
nesta espera. Espera que aliás aparecia no sintoma do adia­
mento contínuo da realização da prova que o habilitaria como
advogado. Espera, hesitação, dúvida cuja raiz residia no enun­
ciado fantasmático: "se olho uma mulher nua meu pai deve
morrer" . Ora, a paridade entre os dois sintagmas deste enun­
ciado é justamente uma paridade não completamente propor­
cional. Há um resíduo neste cálculo, o gozo a mais (olho uma
mulher) não recobre completamente o gozo a menos (o pai
morto), entre ambos há o real. Vemos nestes aspectos do caso
como as narrativas modernas sobre o sacrifício emprestam o
imaginário sobre o qual se expressam os conflitos do sujeito.
Até aqui apresentei a noção de cálculo do gozo de modo
descritivo. Isso pode representar algum ganho na sistematiza­
ção de alguns conceitos lacanianos, de forma a organizá-los
pelo recorte da teoria do valor. Mas o que motiva primaria­
mente esta formulação é a tentativa de entender um fenôme­
no clínico associado às transformações da economia do gozo.
No caso apresentado no capítulo anterior vimos como, ao lon­
go do tratamento, e mesmo antes dele, há uma verdadeira su­
cessão de estados do sintoma. Alguns com os quais a analisan­
te convivia como uma espécie de destino, diante do qual cabia

4 . Freud , S. ( 1 909 ) . A propósito de um caso de neurose obsessiva. ln: OC.


Op. cit. V. X.
84 CHRISTIAN I NGO LENZ DuNKER

resignar-se e esperar, como o "parceiro-sintoma" . Outros que


aparecem após uma situação de crise, e com relação aos quais
reinava uma ins a tisfação, uma insuficiência : sintomas ego­
distônicos, diria uma certa tradição psicanalítica. Havia ainda
um terceiro estado do sintoma, quando es te é reconhecido
como portador de uma certa verdade s obre o sujeito, como
uma solução p ossível mas provisória para as exigências do de­
sejo e do gozo. Nesta fase, o sintoma se torna incluído na trans­
ferência e o sujeito consente em uma parte do gozo que este
propicia. Haveria ainda uma quarta fase do sintoma, que La­
can chamou de sinthome. Aqui se supõe que alguma liberdade
tenha sido conquistada quanto ao destino do gozo.
Ao final da análise, por exemplo, o sujeito teria acesso a
um gozo que antes lhe era impossível. Mas quanto a querer ou
não gozar, nada o obriga a isso. O que levanta todo tipo de
problema como o chamado "saldo cínico da análise" ou ainda
a identificação ao sinthome. Como afirma Soller: "assumir ou
rejeitar o que descobriu no inconsciente é uma escolha deixa­
da ao sujeito", 5 constituindo uma das escolhas mais insondá­
v e i s d o s e r . L a c a n s i tu a e s ta p os s i b i l i d a d e u t i l i za n d o
explicitamente o tema d o sacrifício:
O que o neurótico não quer, o que ele recusa encarniça­
damente até o fim da análise, é sacrificar sua castração ao gozo
do Outro, deixando-o servir-se dela. E não está errado, pois
embora se sinta o que existe de mais inútil, uma Falta-a-Ser ou
um A-mais, porque sacrificaria ele sua diferença (tudo, menos
isso) ao gozo de um Outro que, não esqueçamos, não existe? 6
Ou sej a , a neurose estrutura-se, d o ponto de vista do
gozo, pelo pareamento entre a castração no sujeito e o gozo no
Outro. Se o neurótico recua diante do sacrifício representado
pela sua castração é porque esta equivale, fantasmaticamente,
ao gozo do Outro. Essa equivalência, na esfera da troca, parece
possuir uma contrapartida na esfera do uso, indicada pelos

5. Soller, C. Variáveis do fim de análise. Campinas: Papirus, 1 998, p. 65.


6. Lacan, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo. ln: Escritos. Op . cit.,
p. 841 .
G o z o E TEORIA DO VALOR 85

atributos de menos valia fálica, inerentes à neurose - inútil, fal­


ta-a-ser, a-mais, todas expressões que apontam para um sacri­
fício existencial, ou identificatório, inútil, do ponto de vista do
gozo.
Voltemos às duas fases ou estados iniciais do sintoma. O
problema clínico que surge neste momento é como introduzir
uma vacilação da forma de gozo pregnante. Em outras pala­
vras, como manter uma certa distância entre o Ideal e o obje­
to, uma vez que tal dis tância constituiria a "mola mestra da
direção do tratamento" . 7 Ora, a distância entre o Ideal e o ob­
jeto a corresponde justamente a uma posição intermediária en­
tre a ruptura da estabilidade do cálculo do gozo, característica
da primeira fase do sintoma, e a crise de gozo, característica da
segunda fase do sintoma. Sob os auspícios da transferência se­
ria possível produzir uma espécie de "crise artificial do gozo"
necessária ao tratamento.
A clínica contemporânea parece marcada pela hegemonia
des tas duas formas de apresentação do sintoma. D� um lado
as neuroses de caráter, as histerias com sérias dificuldades de
implicação subjetiva, pacientes que trazem demandas difusas
em torno, por exemplo, de autoconhecimento ou de uma anes­
tesia psíquica generalizada, casos onde o sofrimento se apre­
senta sob forma de estabilização da significação. O s ujeito
parece aceitar seu sintoma, amá-lo pela via da identificação
como uma parte inamovível de si mesmo. É o que Freud des­
creveu como processo de formação do caráter. Aqui é como se
o ideal se desligasse do objeto, quer pela degradação simbólica
deste ideal, quer pela inflação imaginária do objeto. Nas duas
situações o objeto confunde-se com o seu semblante.
No extremo oposto, há os analisantes que estão às voltas
cqm o desencadeamento quase permanente de uma crise de
gozo: es tados limites, condições p recárias de sobrevivência
psíquica, pânico, atuações continuadas, pacientes que trazem
demandas urgentes e parecem estar sempre na iminência de
um colapso. São casos onde o sofrimento psíquico se apresenta

7. Lacan, J . O seminário. Livro XI. Os qua tro co nceitos fundamen tais da psica­
nálise (1 964) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p . 258.
86 CHRIST I AN I NGO LENZ DUNKER

sob f�rma de ins tabilidade da significação com oscilações de


humor e contras te disruptivo dos afetos. Aqui é como se o
ideal entrasse em colusão com os objetos, fenômeno que Freud
descreveu na esfera do narcisismo, em "Psicologia das massas
e análise do ego", mas também em " Luto e melancolia" . Nes­
ta situação o objeto perde seu semblante e sua sombra ou lu­
minosidade cai sobre o eu. Essas duas formas de apresentação
do sintoma poderiam ser separadas segundo outros critérios .
A angústia, por exemplo, parece es tar em falta no primeiro
caso, e em excesso no segundo.
Mas retornemos ao tema do sacrifício como figuração do
cálculo neurótico do gozo. Soller é uma das poucas autoras a
salientar sua importância para a psicanálise. Para ela o sacri­
fício é uma perda consentida e até mesmo procurada. O sacri­
fício pode ser considerado do ponto de vista do objeto ou do
ato. A condição do objeto para que ele entre no circuito do sa­
crifício é que ele possua valor. Pode ser tanto algo na linha do
que Lacan chamou de bens (Sache) quanto algo evanescente
como a esperança, os ideais, a família ou os amores .
. . . o sacrifício não é sempre no nível de "ter", o passível de se
sacrificar é bem mais amplo, mas tem um traço comum, que
talvez seja o mesmo que caracteriza o "ter": cai sob uma arit­
mética, está no domínio do mais ou menos, e podemos colocar
a pergunta: Quanto? ( . . . ) Desde que digamos que é sacrificável
é necessariamente um objeto que vale, implicamos alguma coi­
sa. Qual o princípio do valor? Podemos afirmar existir somente
um princípio do valor aos olhos da psicanálise: é o gozo, isto
é, do gozo. 8
A psicanálise opor-se-ia, neste aspecto, à ética kantiana
pois recusa a idéia de um objeto que seria o universal sacrifi­
cável. Um objeto que possa, de forma transcendente, determi­
nar, de modo universal, a vontade de cada um e onde todos se
reconheçam no seu valor. Kant procurava uma forma de jus­
tificar o sacrifício incondicional, baseado no puro dever desin­
teress ado. A psicanálise des carta o universal no plano do

8. Idem, p . 140.
G ozo E T EORIA DO VALOR 87

objeto mas não a incondicionalidade da instância que exige o


sacrifício. Esta instância é o superego.
Neste contexto Soller isola duas formas de sacrifício: a
condicional e a incondicional. O sacrifício condicional se veri­
fica quando a escolha de um mais-de-gozar exclui um outro,
isto é, quando um mais-de-gozar é trocado ou substituído por
outro, situação para qual a autora propõe a seguinte notação:

(+ G)

- (+ G)

É o que se observa, por exemplo no que Hélene Deutsch


chamou de "renúncia feminina", ou seja abdicar das aspira­
ções pessoais para vê-las realizadas de forma indireta no ob­
jeto masculino eleito. Poderíamos falar ainda da mãe que se
priva de qualquer satisfação para vê-la realizada, por procu­
ração, em seus filhos. É ainda o que se articula na reivindica­
ç ã o histérica por j ustiça ou n o c á lculo obsessivo das
compensações. O gozo perdido hoje será restituído amanhã, a
privação de gozo no sujeito será restituída como realização de
gozo no Outro, e assim por diante. É importante salientar que
esta forma de cálculo do gozo apresenta-se clinicamente pela
hegemonia do modo subjuntivo no discurso. Em expressões
como Quando eu fizer . . . ou Se ele consentisse. . . costuma ficar cla­
ra a posição sacrificial do sujeito em relação ao objeto que con­
diciona seu gozo. Vemos assim que a proposta de Soller está
de acordo com a primeira vertente de estados do sintoma que
apresentamos anteriormente.
No sacrifício incondicional, ao contrário, o objeto é desti­
tuído de seu semblante. A disjunção entre o gozo perdido e o
gozo restituído, na sua parcialidade de mais-de-gozar, fica cla­
ra. Aqui o sujeito goza da privação em si mesma e não a to­
mando como um meio para um determinado fim. Sibony,9 em

9 . Sibony, D. Variaciones sobre el sacrifício. ln: Perversiones - diálogos so­


bre locu ras "act1 1ales " . México: Sigla XXI, 1 990, p. 292.
88 C H R I ST I A N I N G O L E N Z D u N K E R

um pequeno ensaio sobre o sacrifício na antiga cultura Asteca,


afirma que neste caso o sacrifício procura fundar o objeto ao se
confundir com ele. É o que se verifica na anorexia, por exem­
plo, e em todas as formas onde o objeto é nadificado, excluin­
do-se do campo do valor. A notação proposta por Soller é a
seguinte:
( + G)
(-G)

Sua interpretação é de que neste caso o gozo a-mais se


encontraria corno urna potência do gozo a menos, isto é, tratar­
se-ia de urna relação exponencial. Não penso que sej a este o
caso na segunda vertente sintomática apresentada anterior­
mente. Seria mais próprio falar em um descentramento, em
uma disjunção no cálculo do gozo. A notação continua a nos
ser útil desde que a leiamos como uma queda do semblante
que reveste o objeto, ou como uma disparidade entre os ele­
mentos que representam a falta.

A crise d e gozo

O tra tamen to psican a lít ico deve,


na medida do possível, ser efetuado
n u m estado de privação e abstinência.
Freud

É conhecida a afirmação de Freud de que a diferença en­


tre a neurose e a normalidade é de cunho quantitativo e não
qualitativo. Em que pese o pouco interesse que a noção de nor-·
malidade pode representar para a psicanálise penso que a afir­
mação de Freud exprime um problema clínico relevante, a
saber: o que faz com que, sob determinadas circunstâncias, al­
guém ceda sob o peso de seu sintoma? Para Freud a resposta
é relativamente simples: trata-se de um aumento ou diminui­
ção de libido, insuportável ao aparelho psíquico. Trata-se do
peso do "fator quantitativo".
G ozo E TEO R IA DO VALO R 89

Esta fissura no estilo de vida, este peso insuportável da


existência, estes acasos e repetições que costumam representar
o ultrapassamento de um certo limite do sofrimento psíquico
tolerável constituem outra maneira de considerar o problema,
como se vê na seguinte afirmação de Lacan:
. . . o que descobrimos no sintoma, em sua essência, não é um
chamado do Outro, não é o que se mostra ao Outro; o sintoma,
em sua natureza, é gozo - não o esqueçam - gozo enganoso,
sem d úvida u n terbliebene Befriedigung; o sintoma não tem ne­
cessidade d e vocês como o acting out, o sintoma se basta; é da
ordem do que ensinei, a distinguir do desejo, o gozo é algo que
vai até a coisa havendo passado pela barreira do bem, quer di­
zer, do princípio d o p razer, e por isso o gozo pode ser tradu­
zido por Unlus t . 1 0

Mas se a essência do sintoma é o gozo que este propicia


ao sujeito e se este gozo representa um ultrapassamento do
princípio do prazer, como explicar então a dissolução do sin­
toma? As transformações e deslizamentos que ele sofre ao lon­
go de uma análise bem como a irrupção do gozo fora do
sintoma sugerem que há uma relação de captura e desmem­
bramento entre sintoma e gozo. Nesta relação a pergunta que
nos interessa diz respeito às condições de insatisfação com o
próprio sintoma. Mais precisamente com a insuficiência ou
instabilidade do sintoma para articular, regular e distribuir o
gozo.
Fink 1 1 circunscreve um aspecto desta questão ao indicar
que geralmente a procura pela análise é precedida por uma
"crise de gozo" (jou issa nce crisis ) . Em outras palavras, o pa­
ciente não pede apenas que o sintoma seja removido, mas se
queixa de sua súbita inadequação e falta de efetividade. É in­
comum que alguém admita o prazer, ou satisfação envolvidos
no sintoma mas por outro lado o senso comum nitidamente

10. Lacan, J. O seminário. Livro X. A angústia, aula de 23 de janeiro de


1 963.
1 1 . Fink, B. A Clinicai [11 t roductio11 to Laca11ia11 Psyclwanalysis - Tlteory and
Tecltnique. Massachusetts: Harward Press, 1 997, p. 8.
90 C H R I S T I AN INGO LENZ ÜUNKER

percebe como se pode amar seu sintoma sobre todas as coisas .


Isso produz um interessante impasse tematizado desde Freud :
o sujeito "quer" livrar-se dos sintomas mas não da paradoxal
forma de satisfação que estes propiciam, ou seja, do seu bene­
fício primário. O que faz do projeto clínico da psicanálise uma
operação de perda, de luto ou de extração de gozo que vai no
sentido contrário ao que o paciente, como "cliente" ou "usuá­
rio", pede ou espera.
Zizek,12 um autor lacaniano interessado nas confluências
ideológicas deste fato, vem apontando como a cultura do ca­
pitalismo tardio é uma cultura organizada pelo usufruto do
sintoma como meio estável e garantido de gozo. Enjoy your
symptom (aproveite seu sintoma), título de um de seus livros,
sugere assim uma espécie de obrigação universal de auto-ade­
quação ao gozo do sintoma.
Roudinesco13 retrata certas conseqüências do avanço desta
forma de articulação social em termos de uma mudança na
própria prática clínica da psicanálise. Mudança que passa pe­
los dispositivos de formação de analistas, pelas contingências
do tratamento (freqüência, periodicidade, extensão, etc.), mas
principalmente mudanças nas pretensões dos analisantes. A
autora aponta uma crescente prevalência de análi[;.::! s que se re­
solvem pela re-estabilização dos sintomas . Menos que uma
perda de gozo, verifica-se, nestes casos, um rearranjo do sin­
toma em face do gozo. Rearranjo pragmático e eficaz, desloca­
mento e t rans for mação, que muitas vezes se exprime em
tratamentos descontínuos, repletos de interrupções e retoma­
das, atravessados por reaparições de "crises de gozo".
A psicanálise é também, mas não apenas, uma forma de
psicoterapia como afirma Miller. 14 Compreensivelmente esta
fração psicoterapêutica da psicanálise encontra maior penetra­
ção na cultura e adesão na sociedade. No entanto, o efeito clí-

12. Zizek, S. Looking Awry. Cambridge, Massachusetts : MIT, 1 995.


13. Roudinesco, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000 .
14. Miller, J .-A. Psicoterapia e psicanálise. ln: Forbes, J. (org.) Psicanálise ou
psicoterapia . Campinas: Papirus, 1 997.
Gozo E TEORIA DO VALOR 91

nico de rearranjo do gozo pode ser obtido por outras formas


de intervenção discursivas ou extradiscursivas. Os discursos
religiosos e para-religiosos, a auto-ajuda e os grupos de hete­
roaj uda, assim como a psicofarmacologia e as inúmeras pro­
postas psicoterapêuticas que o século passado viu florescer, a
começar pelo hipnotismo, são exemplos disso. Há uma ques­
tão de saída colocada por esta aproximação, uma vez que não
é certo se tratar do mesmo efeito clínico, posto que obtido por
métodos diferentes. Isso só pode ser aceito se admitimos que
o produto pode ser dissociado dos meios que lhe deram fim,
o que em absoluto pode ser considerado uma posição segura
em se tratando de transformações subjetivas à luz da psicaná­
lise.
Mas esta digressão se presta apenas a situar algumas im­
plicações genéricas que um exame mais apurado que o proble­
ma clínico da "crise de gozo" pode trazer. Vej amos e ntão
alguns traços desta crise, tendo em mente agora uma peque­
na generalização clínica da forma como esta se apresenta.
Um indício a considerar é a lacuna de saber que acompa­
nha toda crise de gozo. Lacuna no sentido em que todo sinto­
ma se faz envolver por uma rede de narrativas, explicações e
justificativas que fornecem uma espécie de consistência e orde­
nação ao mal-estar que este propicia. Não afirmamos com isso
que pacientes apresentem-se, atualmente, à análise, destituídos
de conjecturas sobre seu mal-estar, mas que estas são via de
regra ineficazes, insuficientes ou duvidosas. O sintoma tem
uma história e esta história é sempre fragmentária, repleta de
incoerências e contradições, j á nos dizia Freud. Em que pese
tais atributos ela sempre está investida de uma unidade ima­
ginária, simétrica à que encontramos no plano do eu. A lacu­
na no saber pode ser apresentada como uma ruptura dessa
unidade imaginária que torna o sintoma "compreensível" e to­
lerável ao próprio sujeito.
Essa desorganização do saber traduz, no entanto, uma
instabilidade do elemento que o organiza, do ponto anelador
de toda significação. Lacan se referiu a este elemento inicial­
mente pela figura do "ponto de basta", depois pela noção de
Nome do Pai e a seguir pelo conceito de "Sl " , significante
92 C H R I STIAN I N GO LENZ D U N K E R

mes tre. Este ponto anelador possui uma função decisiva na


formação e sustentação dos s intomas. Ele é, por assim dizer,
seu elemento simbolizante ou metaforizante.
A crise de gozo se desencadeia por uma mudança, ruptu­
ra ou deslizamento do sintoma. O sintoma adquire certa esta­
b ilidade ao se c o n s olidar em estrutura de metáfora. Na
metáfora há um elemento, metaforizado, que permanece em
elisão, em elipse para que a metáfora se sustente. Quando este
elemento perde o caráter de exterioridade ao conjunto que este
permite simbolizar, a estrutura da metáfora se desfaz. Isso não
ocorre em relação à metáfora fundamental que constitui a es­
trutura da neurose, a chamada metáfora paterna, mas pode
ocorrer em relação a formações metafóricas derivadas desta,
que constituem a estrutura de sintomas específicos . Assim po­
deríamos falar em uma espécie de contrametaforização como
parte do processo que leva ao fracasso do sintoma e à crise de
gozo.
Mas nem tudo no sintoma se reduz à sua estrutura de
metáfora. Freud j á afirmara que a interpretação do sintoma
conduz a fantasias que o sustentam. Lacan denominou o arti­
culador central destas fantasias inconscientes de fantasma. É
ao fantasma que s e remetem às formações parc i ,üs de gozo
que se apresentam nos sintomas específicos . Por isso diversos
autores referem-se à crise de gozo através de expressões como
"abalo" ou "vacilação " do fantasma. Mas se o fantasma expri­
me esta relação estática do sujeito ao objeto a, como explicar
esta instabilização?
Lembremos de que Lacan apresenta a estrutura do fantasma
em duas versões. Uma genérica, escrita pelo materna (S O a)
e outra específica onde este se divide no fantasma na histeria
( -�) O A e o fantasma na neurose obsessiva IA. O <p (a, a', a", a"', .. . ).
A diferença permite situar a histeria como uma tentativa
de metaforizar a posição do sujeito como objeto que represente
a falta para o Outro. O abalo no fantasma da histeria ocorre­
rá sempre quando o sujeito percebe-se como excluído do Ou­
tro, sem ter como tomar lugar ou saber qual o seu lugar no
Outro. No caso Dora vê-se que a Sr. K ocupa o lugar do obje­
to a, é ele quem situa Dora frente ao Outro, representado aqui
G ozo E T EO R I A DO VALO R 93

pela Sra. K. O sujeito se instala sob forma de uma conjugação


do objeto ao falo imaginário.
Pois tudo o que está em questão para Dora, como para
toda histérica, é ser fornecedora deste signo sob forma imagi­
nária. O devotamento da histérica, sua paixão por se identifi­
c a r c o m t o d o s os d ra m a s s e n t i m e n ta is, de estar a l i , d e
sustentar nos bastidores tudo o que possa acontecer d e apaixo­
nante, e que, no entanto, não é da sua conta, é aí que está a
mola, o recurso em torno do que vegeta e prolifera todo o seu
comportamento. 1 5
Mas enquanto esta posição, onde o desejo opera por pro­
curação, permanecer regulada pela conjugação metafórica en­
tre o falo e o objeto, a identificação ao sintoma do outro
permanecerá estável. Ocorre que ao ser interpelada diretamen­
te pelo Sr. K, como objeto para seu desejo, esta identificação se
rompe e sucede-se uma crise na economia de gozo. Tal crise
pode assumir a seguinte escrita:
(a . - cp ) O A
Altera-se a forma de realização do cálculo de gozo reali­
zada pelo sujeito. Em vez de uma conjunção metafórica entre
falo e objeto a, ocorre uma oposição, uma inconciliabilidade
entre ambos. Isso aparece em enunciações alternativas ou opo­
sitivas, que costumam imaginariamente ordenar tais situações.
A neurose obsessiva, por sua vez, caracteriza-se pela ins­
talação do sujeito em identificação ao Outro barrado e pela es­
tabilização metonímica da série de objetos como equivalentes
conversíveis ao falo. O abalo no fantasma da neurose obsessiva
ocorrerá portanto quando o deslizamento e troca dos objetos
introduzir uma diferença que impede sua redução ao padrão
fálico. Lacan, comenta o caso do "Homem dos ratos" para de­
talhar este materna:
. . . a propósito do pagamento dos honorários na análise, tantos
florins, tantos ratos, não passa de uma ilustração particular da

15. Lacan, J. O seminário. Livro VIII. A tra nsferência . Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1992.
94 CHRIST IAN INGO LENZ ÜUNKER

, equivalência permanente de todos os objetos naquilo que é


uma espécie de mercado, do metabolismo dos objetos nos sin­
tomas. Ela se inscreve, d e maneira mais ou menos la tente,
numa espécie de unidade comum, de padrão-ouro. O rato sim­
boliza, ocupa propriamente o lugar daquilo a que chamo cp, na
medida em que ele é uma forma de red ução de ct>, e mesmo a
d egradação deste significante. 1 6
Mas enquanto esta moeda neurótica permaneceu estável,
isto é, enquanto o Homem dos ratos sabia como nagar, para ter
o gozo restituído, podemos dizer que sua identificação ao sin­
toma fazia consistência. Ocorre que a impossibilidade de pa­
gar uma dívida contraída na ocasião da compra de novos
óculos alterou sensivelmente este "metabolismo dos objetos",
produzindo uma série de efeitos que vão desde a confusão e
amedrontamento até a despersonalização e agitação que carac­
terizam sua chegada ao consultório de Freud. Pode-se dizer,
de forma imprecisa, que o Homem dos ratos foi lançado em
uma crise obsessiva, uma crise de gozo.
Em acordo com a hipótese que desenvolvi até aqui sobre
o cálculo neurótico do gozo, podemos escrever tal crise da se­
guinte maneira:
AO cp (a, (a ', ( a ", ( a " ', .. . )
Ou seja, o falo deixa de ser uma unidade de medida efi­
caz para o cálculo do valor de gozo do objeto. Em o·utras pa­
lavras, a estratégia neurótica de inscrição do gozo, tanto na
neurose obsessiva quanto na histeria, estaria marcada pela
equivalência entre perda e restituição. O gozo a menos, impos­
to pela castração, seria tornado equivalente de um gozo a mais,
compreendido pelas formações fálicas de restituição, como o
sintoma. A pressuposição neurótica é de que menos e mais são
comensuráveis e reversíveis e por isso a falta no Outro se iden­
tifica à demanda no sujeito. 1 7 Essa função de contrapartida

16. Idem, p. 243.


17. Lacan, J. (1960). Subversão do sujeito e dialética do desejo no incons­
ciente freudiano. ln: Escritos . Op. cit., p. 803.
G oz o E TEO R I A DO VALO R 95

equívoca, realizada pelo falo, é essencial ao deslizamento do


desejo:
É que o falo, como mostramos alhures, é o significante da
própria perda que o sujeito sofre pelo despedaçamento do sig­
nificante, e em parte alguma a função de con trapartida a que um
obj eto é arrasta do, na subordinação do desejo à dialética sim­
bólica, aparece d e maneira mais decisiva . 18

Podemos supor que na situação de crise de gozo ocorre


que o falo torna-se insuficiente para cifrar o gozo. O objeto não
é arrastado pela função de contrapartida, mencionada no frag­
mento acima. Uma situação cuja origem revela a não propor­
cionalidade entre valor de uso e valor de troca.

1 8 . Lacan, J. (1959) . Sobre a teoria do simbolismo de Jones. ln: Escritos. Op.


cit., p. 723.
A DIM ENSÃO QUANTITATIVA NA
PSICO PATO L O G IA PSICANAL ÍTICA

Sim 011 não ? O que vocês fazem tem o sen tido de afirmar que a verdade
do sofrimen to neurótico é ter a verdade como causa ?
Lacan

A psicopatologia psicanalítica desenvolveu-se sobretudo


em torno de certas neuroses que podemos chamar de clássicas:
histeria, neurose obsessiva e fobia. É a partir delas que boa
parte das teses metapsicológicas foram aprofundadas, que os
estudos sobre a cultura ganharam relevo e que o modelo de
tratamento foi formado. Não se pode desconhecer as incursões
de freudianos e pós-freudianos sobre as psicoses e as perver­
sões mas elas são nitidamente uma ampliação ou um prolon­
gamento investigativo firmado sobre os achados em torno da
neurose.
A construção da noção de neurose atravessa o conjunto
da obra freudiana e implica solução de inúmeros problemas
abordados de forma articulada. Por um longo período inicial
Freud esteve às voltas com a procura do agente patógeno, em
outras palavras, com a etiologia e causalidade das neuroses.
Uma segunda etapa foi dedicada à demonstração do isomor­
fismo entre os processos patológicos da neurose e as proprie­
dades gerais do aparelho psíquico(sonhos, chistes, atos falhos,
etc.). Logo depois Freud debruçou-se diretamente sobre aspec­
tos do tratamento das neuroses e suas vicissitudes para em se­
guida verificar aproximações e generalizações em torno da
similaridade entre aspectos da neurose e a mentalidade primi­
tiva e a cultura arcaica. No primeiro grupo encontramos Dora,
98 CH R I STIAN INGO LENZ ÜUN K ER

Hans, e o Homem dos ratos como casos clínicos de referência.


No segundo grupo temos a Gradiva, Moisés e Cristoph Haiz­
mann, como "casos his tóricos".
O período seguinte da obra de Freud está marcado por
sucessivas revisões na forma de conceber e descrever a es tru­
tura da neurose. Migração do paradigma representado pela
histeria para o paradigma da neurose obsessiva, com urna bre­
ve incursão intermediária em torno das psicoses.
Todavia há, no texto freudiano, extensas referências à no­
ção de neurose, que muito se distanciam da sua acepção estru­
tural. Na mais pura tradição da clínica clássica Freud emprega,
propõe e problematiza, muitas vezes o termo "neurose" como
uma mera descrição de conjuntos de sintomas relativamente
es táveis . A neurose como fenomenologia, e não como estrutu­
ra, é um dos temas abandonados pela tradição lacaniana.
Os critérios nosológicos empregados por Freud no uso e
descrição dessas neuroses são heterogêneos.
Para ·isolar o grupo das neuroses atuais (neurose de an­
gús tia, neurastenia e hipocondria) o critério é a etiologia dife­
rencial. O agente etiológico se localiza nas práticas sexuais e no
estilo de vida que o sujeito mantém e que acabam por produ­
zir um certo estado da libido do qual tais agrupamentos de
sintomas seriam efeitos. Assim o acúmulo da " toxina sexual",
fruto da abstinência sexual, se expressaria na forma de angús­
tia na neurose de angústia. A aderência da libido ao corpo se
expressaria na hipocondria. A satisfação mecânica e sem o de­
senvolvimento de um pré-prazer redundariam na neurastenia
como efeito da masturbação ou do declínio da potência.
No caso da neurose de caráter, da neurose de destino e
das neuroses narcísicas leva-se em conta a assimilação do eu
ao sintoma. O sintoma torna-se "egosintônico", isto é ajustado,
integrado ao eu, de modo que a inconciabilidade, o conflito e
o sofrimento que dele derivam passam a fazer parte das pró­
prias identificações que organizam o modo de vida neurótico.
Há urna anestesia generalizada, abreviação da intensidade da
satisfação e uma redução da intensidade percebida sob a insa­
tisfação.
Finalmente no grupo da neurose traumática e da neuro­
se de guerra o eixo de caracterização é uma situação específi-
G ozo E TEORIA DO VALOR 99

ca de atualização de um conflito neurótico clássico. Pode se


atribuir o agrupamento de sintomas formados ao que Freud
chamou de desfusionamento das pulsões. Os sonhos de repeti­
ção, as lembranças recorrentes, a despersonalização e o desam­
paro que caracterizam tais quadros surgem como efeito desta.
Soma-se a isso os desenvolvimentos pós-freudianos que
acabaram pulverizando o campo nosológico a partir da inclu­
são de novos critérios, a saber: derivação de descrições psiquiá­
tricas (por exemplo, drogadi ção), elevação de sintomas
específicos e de múltipla incidência ao estatuto de quadros clí­
nicos autônomos (por exemplo, depressão, angústia, inibições
sexuais), assimilação de processos contingenciais à esfera de
quadros neuróticos (por exemplo, neurose de abandono e de
fracasso) ou ainda assimilação da noção de neurose à de trans­
torno da personalidade (por exemplo, personalidade borderli­
ne, histriônica, narcisista, esquiva, dependente, etc. ).
Com isso reintroduziu-se na psicanálise descrições clíni­
cas baseadas no tipo de personalidade, no comportamento, na
adaptação social ou cognitiva, que recusavam tácita ou expli­
citamente a intenção metodológica da psicopatologia freudia­
na. Freud não sistematizou exaustivamente os critérios sob os
quais um quadro clínico torna-se psicanalíticamente abordá­
vel. No entanto, em seu artigo,1 descoberto tardiamente, sobre
as neuroses de transferência encontramos uma breve síntese
do ordenamento dos quadros psicopatológicos, ou seja:

Histeria de Angústia
Neuroses de Transferência { Histeria de Conversão
Neurose Obsessiva

Demência Precoce
Neuroses Narcísicas { Paranóia
Melancolia-Mania

1 . Freud, S. ( 1 9 1 4). Neu roses de t ransferên cia : u ma sín tese. Rio de Janeiro:
Imago, 1 987.
1 00 CHRI S T I A N I NGO LENZ DUNKER

· Mas além dessa classificação Freud propõe alguns crité­


rios para analisar e distinguir estes diferentes quadros. O pri­
meiro destes crité r i o s é a repressão ou recalcamento
( Verdriingung). De fato a noção de estrutura deriva desse crité­
rio freudiano axial : o modo de defesa fundamental. Um exem­
plo disso se pode ver na análise de Lacan sobre a relação entre
a primeira afi rmação ( B eja h u ng ) , a for m a de recusa
(Verneinung) e o retorno do recusado ( Verdriingung/Venuerfu.ng/
Verleugnung), presente no Seminário III. 2 No entanto, o artigo
de Freud sugere outros critérios, que são igualmente distinti­
vos para os diferentes grupos psicopatológicos.
Ora, o que está em jogo nestas categorias é dedutível da
estrutura da defesa fundamental, mas nem sempre o que apa­
rece nas vicissitudes destes critérios auxiliares é indutível à es­
trutura. Por exemplo, que um sintoma como a anorexia
nervosa possa ser deduzido da estrutura histérica isso não sig­
nifica que todo sintoma anoréxico seja, ao mesmo tempo um
sintoma histérico.
Neste artigo Freud compara a incidência do recalque a
partir de um gradiente que vai do sucesso completo (histeria
de conversão) ao sucesso completo, mas não permanente (neu­
rose obsessiva) até o que ele chama de sucesso menor (histe­
ria de angústia) . As d iferentes fases do recalcamento são
postuladas, portanto, em função da sua eficácia.
A noção de contra-investimento, por sua vez, refere-se às
transformações da atenção, do humor e da percepção necessá­
rias para sustentação do recal que . Freud compara a
contracatexia ( Gegenbesetzung) à quantidade de libido que a
"neurose gasta" 3 para manter ou sustentar seus sintomas, pe­
los investimentos pré-consciente e conscientes. Novamente po­
deríamos estabelecer um gradiente que vai da ausência de
contracatexias (histeria de conversão) até a presença de forma­
ções secundárias do recalcamento (idéias obsessivas, substitui-

2. Lacan, J. O seminário. Livro III. As psicoses . Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


1988.
3. Idem, p. 67.
Gozo E T E O R I A DO VALOR 101

ção fóbica) e formações terciárias (renúncias e autolimitações,


fóbicas ou obsessivas).
Pela noção de formação de substitutos ou de sintomas
Freud considera a relação com o retorno do recalcado. Aqui a
escala admite uma variação que vai desde a equivalência en­
tre sintoma e formação de substituição (histeria de conversão)
até a separação entre sintoma e formações substitutivas (neu­
rose obsessiva). O modelo das formações de substituição é
dado pela ação da contracatexia e Freud exclui claramente as
formas de sofrimento psíquico daí derivadas da condição de
sintomas. Elas são reações secundárias ao sintoma, formas de
torná-lo menos penoso, de adaptar-se a ele, ou de extrair algu­
ma satisfação secundária do mesmo.
Pelo tópico "relação com a função sexual" Freud aponta
algumas possibilidades através das quais a sexualidade parti­
cipa da formação da neurose. A primeira delas é representada
pela incompatibilidade entre o "impulso ativo libidinal repri­
mido"4 e uma temida "lesão do eu", motivada por um não­
poder (devido a uma força superior) ou a um não-querer
(devido aos ideais do eu) .
Finalmente no tópico dedicado à regressão Freud distin­
gue uma regressão do eu (histeria de conversão), uma regres­
são da libido (neurose obsessiva) e uma regressão a uma forma
de neurose infantil (histeria de angústia). Aqui o critério é uma
certa proporção entre as exigências do eu e as exigências do
objeto libidinal para determinar o ponto sobre o qual a regres­
são se efetivará (fixação) mas também sobre seu sucesso ou
fracasso na captação e conjugação da libido no eu e no objeto.
O último ponto em questão do presente artigo é a dispo­
sição. Aqui Freud aventa uma possível associação entre os di­
ferentes quadros psicopatológicos e as diferentes etapas da
história da civilização. Retomando o cenário exposto em "To­
tem e tabu" Freud procura fixar as características de cada qua­
dro com certos conflitos da humanização. Por exemplo:

4. Idem, p. 68.
1 02 C H R I S T I A N I N GO L E N Z Ü U N K E R

QUADRO REGR ESSÃO FAS E HISTÓRICA

Histeria de ? temor próprio à era glacial


Angústia
Histeria de contra o primado genital dilema alimentação
Conversã o x procriação
Neurose contra a fase sádica hordas isoladas dominadas
Obsessiva por um pai "sábio, forte
e brutal"5
Demênci a auto-erotismo castração ou expulsão dos
Precoce filhos pelo pai da horda
p rimitiva
Pa ranóia escolha homossexual fuga dos filhos ameaçados
e sublimação narcisista d a
homossexualidade
Melancoli a identificação narcisista triunfo e l uto pela morte do
Pai com objeto

O artigo de Freud mostra-se portanto dominado por di­


ferenças quantitativas, expressas em noções tais como maior
sucesso ou maior fracasso da repressão, o papel maior ou me­
nor das contracatexias ou ainda a oscilação entre eu e objeto na
determinação da regressão. Vimos como o primeiro tópico, a
repressão, deu origem à leitura estrutural em Lacan.
O último tópico, a disposição, mostra claramente o esque­
ma de pensamento que deu origem a versões mais próximas
da psicologia do desenvolvimento em psicanálise. Indepen­
dentemente do tom mais ou menos especulativo, ou deliran­
te, assumido pelos conteúdos envolvidos não se pode negar
que esta é uma das matrizes da psicopatologia freudiana.
No entanto o que nos interessa mais de perto são os tópi­
cos intermediários, pois neles Freud considera aspectos das
neuroses clássicas que podem servir de parâmetros para ou­
tros grupos clínicos ou mesmo conjunturas de sintomas.

5 . Idem, p . 77.
Gozo E TEO RIA DO VALOR 1 03

Lancemos então uma aproximação preliminar. Cada um


destes tópicos parece admitir uma situação clínica, de inflexão
quantitativa e que problematiza o caso modelo levado a cabo
por Freud em sua síntese. Por exemplo, o tópico mais genéri­
co, e que parece incluir dentro de si os demais, é o que diz res­
p e i t o à formação de s i ntomas. F r e u d cons i d era d uas
possibilidades, dois pólos, compreendidos entre o sintoma e as
formações de substituição. Mas o que dizer então das situações
clínicas onde o que se constata é um fracasso da formação de
sintomas e de substitutos? A situação de neurose traumática e as
chamadas neuroses ou transtornos narcísicos refletem muito
bem esta possibilidade.
Mas a formação de sintomas é uma solução para um con­
flito verificado na esfera da função sexual. O que dizer então
dos efeitos do excesso na esfera da função sexual? Ou seja das
neuroses atuais (neurastenia, neurose de angústia e hipocondria)?
Ou ainda se consideramos que esta função sexual está sujeita
à regressão, o que dizer dessa regressão que não deixa atrás de
si um sintoma mas um traço ou uma neurose de caráter? Final­
mente se pensamos no papel da reação do eu ao sintoma, em
seus esforços para integrar, diluir ou finalmente explicar este
corpo íntimo e estranho, não podemos deixar de nos pergun­
tar pelo que Freud chamava de neurose de destino ou de com­
pulsão de destino.
Ou seja, para cada ponto do modelo estrutural há uma es­
pécie de antimodelo. Este antimodelo é sempre representado
por uma situação clínica onde a presença do excesso, do mais
além do limite do sintoma é nítida. Eles são todos casos de sin­
tomas na borda da estrutura. Sintomas para os quais Freud
usava a expressão "neurose", no sentido fraco do termo. Na
mesma direção podemos incluir as formações substitutivas, as
formações reativas e as formações de caráter. Todas elas mo­
dulações do sofrimento psíquico que não se inscrevem plena­
mente na descrição metapsicológica da formação de sintomas .
Esta zona nebulosa formada pelo que extrapola o nível do sin­
toma mas não chega a estabelecer-se como uma estrutura,
pode ser abordada pelo ângulo inverso.
1 04 C H R I S T IAN I NGO LENZ Ü UNKE R

. Aqui reencontramos a disparidade com que Freud utili­


zava a noção de neurose e referenciava quadros clínicos isola­
dos pela psiquiatria de sua época. Por vezes essa despreocu­
pação terminológica levou Freud a considerar extensamente
quadros cuja existência e precisão era discutível, como a amen­
tia de Meynard. Em outros casos subsumia descrições propos­
tas pela psiquiatria, analisando apenas alguns aspectos em
particular. Em algumas situações chegou a propor novas for­
mas descritivas (parafrenias, neuroses narcísicas, por exemplo)
para logo em seguida abandonar sua própria terminologia, ou
reutilizá-la com um sentido diferente.
Na maior parte dos casos a ênfase recai mais na análise de
um processo específico do que na caracterização regular do qua­
dro ou na consistência da generalização que ele inclui. Consi­
derando-se portanto a relativa dispersão e heterogeneidade
das abordagens envolvidas na psicopatologia freudiana pode­
mos propor quatro critérios provisórios para tentar delimitá-la:
1) Um quadro clínico deve sempre ser descrito tendo em vis­
ta seu tratamento possível ou sua etiologia sustentável à luz
da compreensão psicanalítica.
2) Um quadro clínico é uma geratriz de sintomas possíveis
sendo sua estrutura condicionante de sua fenomenologia e
ambas apreciáveis em situação de transferência.
3) Um quadro clínico deve ser apresentado de forma a inte­
grar-se ou a questionar premissas metapsicológicas, reque­
rendo portanto uma explicitação tó pica, dinâ mica e
econômica de sua apresentação.
4) Um quadro clínico deve ser capaz de contraste e compara­
ção com outros para que sua descrição não seja tautológica
e para que se admita explicações concorrentes e redutíveis
no processo de pesquisa sobre os mesmos.
A absorção de quadros clínicos, sem aprofundamento das
exigências envolvidas em tais critérios, acabou por confundir
a neurose com os sintomas neuróticos, os traços clínicos com
o "estado neurótico" . Tal movimento se agrava ainda com a
crescente soberania da experiência infantil na construção da
esfera do patológico, verificada sobretudo nas décadas de 1950
e 1960. Assim a descrição do desamparo (Spitz), a ênfase na
"falha básica" (Balint) ou na constituição do apego (Bolwby)
G o z o E TEORIA DO VALOR 1 05

impulsionaram a força do irrealizado infantil na constituição


d a neurose. Por outro lado os estudos sobre o autismo
(Mahler), a observação de bebês (Bick) e a maternagem (Win­
nicott) reforçam, quer pela via da relação de objeto, quer pela
via da constituição do eu, a idéia da neurose definida pela re­
gressão e pelas defesas egóicas. A criança tornou-se, por esta
via, a matriz psicopatológica fundamental da psicanálise, o
ponto de Arquimedes a partir do qual se poderia ler, diagnos­
ticar e intervir sobre a neurose do adulto. Entre a criança e o
adulto a diferença é quantitativa não qualitativa. Entre ambos
vigora a continuidade não a ruptura.
É importante salientar que o princípio da continuidade
representou um verdadeiro corte introduzido pela psicanáli­
se diante da clínica clássica. Corno afirma Silva Jr. : " . . . com
base no pressuposto de continuidade, a patologia, longe de ser
um erro de natureza e um desvio de normalidade, deve ser consi­
derada como um processo de aumento e de exagero de proces­
sos norrnais" . 6
Mas a continuidade entre o normal e o patológico, o reco­
nhecimento da alteridade enigmática e da vulnerabilidade no
desejo do analista, que constituem o corolário ético da psico­
patologia analítica, não deve ser confundida com a continuida­
de entre o patológico e o pr óprio patológico ou com a
continuidade entre o infantil e o patológico.
Urna das conseqüências disso parece ter sido a transposi­
ção desta regra de continuidade para o âmbito da diferença
entre o quadro clínico, o sintoma e os traços. Tal continuida­
de, visivelmente presente na chamada tradição "psicodinârni­
ca", convida à apresentação tautológica dos quadros, à sua
irrefutabilidade metapsicológica e ao declínio das pretensões
etioló_g icas.
E sob forma de um movimento reativo a esta tendência
que evolui, em Lacan, a noção de estrutura clínica. Corno mos­
tramos em trabalho anterior/ a noção de estrutura clínica em

6 . Silva Jr., N. Metodologia psicopatológica e é tica em psicanálíse: o prin­


cípio da alteridade hermética. Revista Latinoamericana de Psicopatologia
Funda mental, São Pa ulo, v . III, n. 2, p . 1 29-38, jun. / 2000.
7. Dunker, C . I .L. Lacan e a clínica da interpretação. São Paulo: Hacker, 1996.
1 06 CH R I STIAN I NGO LENZ Ü UNKER

Lacan permite reler os diversos elementos freudianos utiliza­


dos na equação etiológica substi tuindo a predisposição bioló­
gica pela noção de his tória e de anterioridade do Outro, a
experiência infantil pelo tema da cas tração, a fixação pela no­
ção de fantasma e a indisponibilidade do objeto ( Versagung)
pela ampliação do conceito de falo e posteriormente pela intro­
dução da idéia de objeto a.
No entanto es te raciocínio orienta-se para a leitura das
neuroses clássicas definidas por seu modo de defesa funda­
mental que estabelece uma posição do sujeito em face do de­
sejo e ao inconsciente: o recalcamento ( Verdriingung) . Posição
es ta mediada pelo regime de incidência da falta ( castração,
frustração ou privação) e pela interdição ou impossibilidade
de acesso direto ao gozo. Podemos dizer que isso define as
neuroses clássicas em função das vicissitudes e especificidades
do recalcamento.
O sintoma e os traços clínicos tornam-se assim redutíveis
à estrutura; são, por assim dizer, acontecimentos prescritos e
organizados pela sobredeterminação estrutural. Entende-se
assim por que alguns autores chegam à afirmação de que "o
infantil é a es trutura". A estrutura, na psicanálise de Lacan,
ocupa o lugar teórico reservado ao tema da experiência infantil
na psicanálise anglo-saxônica.
Ocorre que essa redução estrutural corre os mesmos ris­
cos a que a prevalência do infantil estava exposta. Como saber
se es ta redução não implica em um "forçamento" do sintoma
à estrutura? Como evitar que a estrutura, escapando à sua con­
dição de método, transforme-se em uma entidade naturaliza­
da? Como evitar a ontologia das estruturas?
Mais ao final de sua obra, notadamente a partir de 1 966,
Lacan parece ter migrado seu interesse teórico da noção de
desejo para a de gozo. Essa mudança trouxe conseqüências
para a compreensão da psicose, da feminilidade e para a clíni­
ca com crianças. No plano das neuroses, todavia, a doutrina
original não foi exposta a uma revisão sistemática a partir des­
te novo conceito-chave. Entendo que tal revisão passa por dois
movimentos possíveis : retrabalhar a noção clássica de estrutu­
ra ou utilizar o que a teoria do gozo traz de novo para compreen-
G ozo E TEO R I A DO VALOR 107

der justamente o que a noção de estrutura clínica deixava de


lado, a saber: variações sintomáticas, tipos clínicos refratários
ao tratamento clássico e formas de apresentação do sofrimento
psíquico distintas das tradicionais. É nesta segunda alternati­
va que o presente trabalho se insere.
Não se pode dizer que esta seja uma alternativa comple­
tamente original. Em julho de 1 997 psicanalistas ligados à As­
sociação Mundial de Psicanálise reuniram-se em uma pequena
cidade da França com o objetivo declarado de resolver o im­
passe deixado pela noção de estrutura clínica. A conversação
de Arcachon, como depois ficou conhecida, pretendia abolir os
impasses da noção de estrutura clínica substituindo-a pela clí­
nica do real, ou clínica borromeana, cujo fundamento é a teo­
ria generalizada da foraclusão. A idéia, ao que parece, ainda
depende de uma análise mais fecunda dos últimos textos de
Lacan, bem como de uma prova clínica mais consistente de
seus efeitos. Em linhas gerais o que esse movimento teórico
visa é reintroduzir a noção de funcionamento, em última ins­
tância, de função, em uma psicanálise impregnada, até então,
pelo antifuncionalismo estruturalista.
Não me parece um acaso que esse movimento teórico te­
nha se associado à última grande divisão mundial da psicaná­
lise lacaniana, com o surgimento do movimento dos Fóruns,
da Convergência e dos Estados Gerais da Psicanálise. Ele re­
presenta um reconhecimento de quanto a psicanálise de inspi­
ração lacaniana foi uma psicanálise segregativa em termos
clínicos. O reconhecimento de que nem sempre o fato clínico,
representado pela forma de sofrimento subjetivo, se acomoda
às prescrições dedutivas da teoria, deu origem à curiosa ten­
tativa de classificar os inclassificáveis. Segundo Philipe la
Sagna 8 estes se agrupariam em quatro categorias:
1 ) Os inclassificáveis do sintoma: cuja singularidade da estru­
tura ou do envelope formal do sintoma subverteriam a tra­
dicional alternativa: psicose - neurose.

8. La Sagna, P. Os casos ra ros, inclass ificáveis, da clínica psicanalítica . São


Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1 998, p. 130.
1 08 CHRISTIAN I N GO LENZ Ü UNKER

2) Os inclassificáveis do gozo: onde se reuniriam as formas clí­


nicas em que a expressão "abuso", seria a expressão-chave.
Inclui-se desde o ab uso de psicotrópicos até o abuso sexual
ou o abuso no pensamento delirante.
3) Os inclassificáveis do corpo: para onde convergem desde os
transtornos alimentares (bulimia, anorexia, obesidade mór­
bida) até os dismorfismos, as rupturas da imagem corporal.
4) Os inclassificáveis do Outro inexistente : onde o sofrimento
psíquico deriva ou se articula no parceiro, cônjuge, amante
ou família, até mesmo psicanalista, que alberga sobre si a
função de s uplência para a inexistência do Outro.
Os estudos de Nasio9 sobre as formações de objeto, e em
especial sobre as formações psicossomáticas, mantêm em co­
mum com os trabalhos inspirados na AMP a tentativa de reuti­
lizar, de modo ampliado, as noções de foraclusão ( Verwerfung)
e de renegação (Verleugnung) para entender quadros clínicos
mais refratários à noção clássica de estrutura.
Temos assim um paradigma representado pelas grandes
neuroses clássicas redutíveis à estrutura histérica, da qual a
neurose obsessiva seria um dialeto e a histeria de angústia (ou
fob ia) seria uma variante, ou um tip o clínico. No e x tremo
oposto temos os "sintomas elementares" , para usar de modo
deslocado a expressão " fenômeno elementar" , utilizada no
campo da psicose. Os sintomas elementares dizem respeito ao
que Freud chamou de sintomas individuais que expressam a
singularidade da produção subjetiva do sintoma. A noção laca­
niana de sinthome, parece aproximar-se desta última acepção.
Entre esses dois extremos podemos postular um nível clí­
nico intermediário onde grupos de sintomas, com apresenta­
ç ã o r e g u l a r e tr a ç o s r e l a ti v a m e n t e e s t á v e i s p o s s a m s e r
pensados à luz d o cálculo d o gozo. Essa postulação encontra
dois subsídios diretos em Freud, a saber, a importância conce­
dida aos fatores quantitativos na determinação da neurose e o
uso do termo neurose para designar conj unturas sintomáticas
relativamente independentes das neuroses clássicas.

9 . Nasio, J .-D. Os ol/ios de Lau ra . Porto A legre: Artes Médicas, 1 99 1 .


PARTE li

D A ESTRUTU RA AO S I NTOMA
DESENCADEAMENTO DA NEUROSE:
UM FALSO PROBLEMA?

Uma parte de mim é p ermanente;


outra parte se sabe de repente.
Ferreira Gullar

Como vimos anteriormente, a leitura proposta por Lacan,


das neuroses enquanto estruturas clínicas, permite destacar al­
gumas invariantes do discurso, habilitando neste sentido uma
nova maneira de compreender o diagnóstico e introduzindo
mudanças cruciais em termos da direção da cura psicanalítica.
No entanto, a tese de que a neurose é uma estrutura do fala­
ser (parletre) traz também a necessidade de reinterpretação de
algumas noções freudianas que indicam um sentido contrário.
Em diversos momentos Freud refere-se à neurose como
uma conjuntura psíquica que irrompe no sujeito, algo que lhe
acontece sob determinadas condições ou em função da coorde­
nação entre várias condições. Apesar da diferença entre neu­
rose e normalidade colocar-se como uma questão menor, de
cunho quantitativo e não qualitativo, em alguns momentos de
sua obra Freud alude à idéia de que alguém se torna neuróti­
co e não apenas é neurótico.
Essa idéia da neurose como um acontecimento na vida do
sujeito aparece já em "Estudos sobre a histeria",1 na forma de
uma análise detalhada da "epicrise" que envolvia cada um dos
casos ab o r d a d os . Ela reaparece no exame minuci o s o das

1 . Freud, S. (1 893) . Estudos sobre a histeria . ln: OC. Op . cit. v . III.


112 C H RISTIA N I NGO LENZ Du NKER

circunstâncias envolvendo as manobras militares, nas quais


tom o u parte o Homem dos ra tos, e que o levaram a um
"es tado neuró tico" com o qual ele se apresenta para o
tratamento com Freud. 2 Finalmente no caso do Homem dos
lobos esta preocupação está presente no detalhamento das
circunstâncias desencadeantes da neurose infantil, chamada
neste texto de uma "neurose completa" . 3 Se pensarmos no caso
do presidente Schreber este momen to desencadeante é
vigorosamente destacado por Freud através do pensamento
que irrompe à mente de Schreber certa manhã: "Ser copulado
como uma mulher". 4
Tornou-se lugar comum argumentar que nas entrevistas
preliminares é preciso cuidado com a função diagnóstica de
modo a evitar o desencadeamento de uma psicose. Seria pos­
sível, nesta linha, pensar que há certas condições subjetivas
onde o paciente se apresenta à análise sem uma neurose desen­
cadeada? Neste caso, não seria função do tratamento, tornar
este desencadeamento possível?
É curioso como a noção de desencadeamento, amplamen­
te utilizada por Lacan com relação à psicose, jamais tenha sido
pensada também para a neurose. Toda a teorização sobre a
foraclusão do Nome-do-Pai, sobre o retorno no real do que não
se inscreveu no simbólico e ainda sobre os momentos fecundos
da psicose, inexplicavelmente não produziu um interesse pela
pesquisa de orientação lacaniana do desencadeamento no caso
da neurose. O problema é ainda mais agudo se acompanha­
mos alguns comentadores, como Calligaris, 5 que argumentam
que a teoria da foraclusão surge, no Seminário III, como uma

2. Freud, S. (1909). A propósito de um caso de neurose obsessiva. ln: OC.


Op. cit. v. X.
3. Freud, S. (191 8). Sobre a história de uma neurose infantil. ln: OC. Op.
cit. v. XVII.
4. Freud, S. (1 9 1 1). Observações psicanalíticas sob re um caso de para­
nóia ( Demen tia Para noides) d escrito autobiogra ficamente. ln: OC. Op.
cit. V. 12.
5 . Calligaris, C. Introdução a uma clín ica diferencial das psicoses . Porto Ale­
gre : Artes Médicas, 1989 .
ÜA ESTRUT URA AO SINTOMA 113

forma de entender primordialmente a situação do desencadea­


mento psicótico.
Isto não significa que a neurose ou a psicose, já não esti­
vessem lá antes deste acontecimento, como efeito de estrutu­
ra, mas coloca o problema acerca do valor a ser conferido a tal
evento desencadeante por uma leitura estrutural. Em outras
palavras, se há estrutura neurótica há sintoma, ou estão dadas
a condições para sua produção. Longe de pensar portanto em
uma oposição em termos de ausência ou presença de sintomas
indagamos sobre a consistência ou inconsistência dos mesmos.
Uma neurose desencadeada corresponderia nesta medida a
uma neurose onde os sintomas fazem inconsistência. O que
levanta o problema acerca de quais circunstâncias tornam um
sintoma insuportável e em que termos este deixa de ser um
artefato subjetivo para contenção do gozo.
Precisemos a questão. O acontecimento desencadeante
não é, em todos os casos, apenas urna modificação da realida­
de, urna vicissitude do quotidiano ou da vida amorosa do su­
jeito mas um encontro. Freud procurou investigar o seu teor ao
associá-lo com a falta no caso da histeria e com o excesso no
caso da neurose obsessiva. Encontro, acontecimento, "tiquê",
corno dirá Lacan no Seminário sobre a ética, compreensível a
partir de sua articulação significante e de suas vicissitudes no
plano do gozo. Alguns autores ternatizaram este encontro em
torno da questão que figura ao sujeito o pedido e a entrada de
análise. Laurent , por exemplo, fala desse acontecimento men­
cionando que ele equivaleria ao reconhecimento de urna cer­
ta consistência inefável do gozo, consistência esta que se
oporia ao "gozo calculável" 6 • Leguil,7 por sua vez, fala de uma
espécie de abalo no fantasma, ou de "separação entre sintoma
e fantasma" , corno algo presente no início e no fim da análise.
Outros autores se referem a esse momento do desencadeamen-

6 . Laurent, E. As entradas em análise. Opção Laca n iana, v. 12, p. 1 1, abril


de 1995 .
7. Leguil, F. A entrada em análise e sua articulação com a saída . Fóru m
In icia tiva Escola, Bahia, p . 25, 1993.
11 4 C H RISTIAN INGO LENZ ÜUNKER

to pdr expressões como "encontro com o real", "vacilo do sin­


toma" ou ainda "crise de gozo". 8 Tais expressões, bem como a
insistência desta idéia entre autores lacanianos contemporâ­
neos, indicam a relevância clínica do problema. Por outro lado
muitos analisantes, ainda hoje, dedicam uma parte importante
de seu discurso, especialmente no início da análise, àquilo que
se lhes afigura como origem e precipitação de seu mal-estar.
Se admitirmos um duplo uso da noção de neurose, isto é,
corno estrutura e como agrupamento articulado de sintomas,
e se queremos aumentar a precisão clínica desta segunda acep­
ção, será necessário retornar à noção de causalidade da neuro­
se para examinarmos a posição de Freud acerca das condições
que estruturam a neurose e o lugar conferido a este encontro
desencadeante.
Em 1 9 1 7,9 tais condições são resumidas a quatro termos,
ou quatro causas, que podem ser apresentadas segundo a se­
guinte ordem:
Há uma constituição sexual, colocada como anterioridade,
definindo uma predisposição à neurose. Tal predisposição re­
montaria à história da espécie, não se confundindo com a he­
reditariedade biológica, mas inaugurada pelo momento mítico
e originário do processo civilizatório, delineado em Totem e
Tabu. Esta disposição (Anlage) corresponderia à continuidade
no ser de um vivenciar (Erleben) pré-histórico que o antecedeu.
Desta maneira, certas fantasias, alguns símbolos e determina­
das características da pulsão fariam parte desta pré-constitui­
ção sexual. Uma série de temas freudianos, que giram em
torno do originário, destaca a tentativa de abordar a constitui­
ção de um regime simbólico anterior a um sujeito específico,
conferindo-lhe alguma legitimidade biológica. Assim o recal­
camento primário ( Urverdangung), o pai primitivo ( Urvater) e
as protofantasias ( Urphan tasien ) contêm o radical " Ur" (pri-

8. Fink, B. Lacanian Psychoanalysis - a clinicai and theoretical in trod11ction.


Cambridge: Harw ard, 1997.
9. Freud, S. (1916). Os caminhos da formação de sintomas. ln: OC. Op.
cit. V. XVI.
DA ES TRUTURA AO SINTO M A 115

mi tivo, originário) indicando a preocupação de Freud com o


que precede e condiciona a constituição do suj eito.
Tal pré-constituição sexual seria ativada retrospectiva­
mente por certas experiências infantis, especificamente organi­
z a d a s e m t o r n o d a a m e a ç a , a ng ú s t i a e c on s t a t a ç ã o da
castração. Assim o drama edipiano universal, atualizar-se-ia
em uma história p articular com suas contingências . Aqui
Freud utiliza a expressão " Disposition", traduzida usualmente
por "predisposição" . Tais experiências infantis seriam uma
segunda causa para a formação da neurose. O complexo de
É dipo, enquanto momento da vida infantil e o recalcamento
propriamente dito estão contidos nesta noção.
Mas a esta experiência infantil pode-se acrescentar a ade­
rência regressiva a uma organização pulsional e seu correlati­
vo modo de satisfação narcísico. Trata-se do p onto de fixação,
que funciona como efeito da conjunção das duas causas ante­
riores mas também como causa auxiliar na construção da neu­
rose. Aqui Freud indica o ponto de sustentação para a fantasia
fundamental, elemento organizador das fantasias secundárias
e dos sintomas. A fixação como terceira condição causal expri­
me a perda e retenção do gozo na esfera da castração e seu re­
calcamento.
Tal configuração seria suficiente p ara a constituição do
que Freud chama de neurose infantil, onde o papel da experiên­
cia traumática acidental da vida adulta aparentemente não se
coloca . No entanto, estas três condições bastariam para confi­
gurar uma estrutura clínica, nos termos que Lacan a propõe, a
saber como campo de instalação do sujeito. Sua reinterpreta­
ção na narrativa freudiana perfila, por exemplo, o Outro, no
lugar da pré-constituição. A idéia de complexo de É dipo é for­
malizada nos termos da metáfora paterna e de seu operador
fundamental: o falo. Finalmente o tema do ponto de fixação se
vê traduzido nas investigações lacanianas sobre o fantasma e
sobre o objeto a . Uma série de passagens conceitua!, de amplas
implicações epistemológicas, acomp anha este movimento .
Não nos dedicaremos a essa questão aqui pois o intuito é des­
tacar que além destas três condições causais, das quais se de­
duz a noção de estrutura, Freud supõe um quarto elemento,
1 16 CHRIS TIAN I NGO LENZ Ü U N K ER

que, em função do exposto, compreensivelmente recebeu pou­


ca atenção na tradição inaugurada p or Lacan
Fre ud fala em urna causa desencadea n te, geralmente em
associação à retornada da escolha de objeto na vida adulta.
Freud liga tal causa a um "estado intermediário" entre a reti­
rada da libido da fantasia e seu destino subseqüente na forma­
ção de sintornas. 10 A introversão, a es tase da libido e o período
de incubação, descrito em "Es tudos sobre a histeria" são ex­
pressões empregadas para descrever tal processo. Esta situa­
ção lábil que, em termos freudianos, p o d e ou não levar à
formação de um sintoma, este "es tado neurótico", é sistema­
ticamente pensado por Freud corno dependente, em sua reso­
lução, do aspecto quantitativo. Sempre que aborda este ponto
Freud faz referência à proporção, fração ou montante de libi­
do e seu respectivo des tino . Em linhas gerais pode-se dizer
que a neurose se desencadeia quando o ciframento ou o cálcu­
lo do gozo, ou seja, sua colocação ou aparelhamento pelo dis­
curso, torna-se inconsistente. A causa precipitante, surge assim
como uma fração de gozo que não se calcula.
No artigo "Tipos de desencadeamento da neurose", 1 1
Freud d e s t a c a q u a tro p ossib i l i d a d e s d e i n c i d ência dessa
c a u s a p r e c i p i t a n te . Ele a a p r o x i m a do p r ó p r i o a d o e c e r
(Erkrankung), a companhando nesse sentido a própria indicação
de seus p acientes.
A primeira p ossibilidade é a ocorrência d a frus tração
(Versagung), entendida aqui como indisponibilidade do "obje­
to real no mundo externo" . 12 Opera-se em decorrência uma
"introversão" da libido. A introversão da libido permite que
esta siga um caminho regressivo até o p onto de fixação, origi­
nando secundariamente novos sintomas, reinvestindo a fanta­
sia e ocasionando o que Freud chama de "fuga p ara a neurose" .
A segunda p ossibilidade de desencadeamento nos remete
à situação de mudança no "mundo interno". Trata-se agora da

10. Idem, p. 340 .


1 1 . Freud, S. ( 1 9 1 2 ) . Tipos de desencadeamento da neurose . ln: OC. Op.
cit. V . XII .
12. Idem, p . 292.
ÜA ESTRUTURA AO SIN TO M A 117

impossibilidade de trocar um tipo de satisfação por outro, na


esfera do próprio sujeito. Não é mais uma dificuldade em
atender as transformações da realidade, mas de uma dificul­
dade em "modificar-se para atender a novos intuitos e novas
exigências da realidade" . 1 3 Freud utiliza três exemplos para tal
situação. O jovem que se satisfazia com a masturbação e que
não consegue se aproximar do objeto de amor quando este se
coloca como uma possibilidade real. A jovem que se dedica a
cuidar do pai e não consegue deslocar sua afeição para um
pretendente, quando este efetivamente se coloca em cena e fi­
nalmente o caso da mulher casada que se atendo à condição de
esposa fiel e perfeita mãe para os filhos não consegue introdu­
zir suas fantasias ou inclinações polígamas.
Nas três situações, diz Freud, trata-se de uma recusa em
"dar um passo à frente do ponto de vista da vida real". 14 Aqui
a introversão da libido já se encontra dada e a Versagung, se
organiza em torno do único tipo de satisfação possível ao su­
jeito. As duas primeiras formas de desencadeamento da neu­
rose trazem à luz o papel paradoxal das formações de ideal:
cai-se enfermo tanto quando se põe de lado um ideal (primeiro
caso) como quando se procura atingi-lo (segundo caso).
O terceiro tipo seguinte refere-se a uma inibição no desen­
volvimento. Aqui Freud alude a transformações ocorridas na
passagem da infância para a vida adulta ou da vida adulta
para a velhice, destacando tratar-se de uma variação do segun­
do caso, que se especifica pela presença de uma insuficiência,
não apenas psíquica, para lidar com novas formas de arranjo
pulsionais. Trata-se de uma redução da capacidade, antes tida
como ilimitada, de fruição e realização. Há portanto uma es­
pécie de concentração e redução em formas específicas de
gozo.
No quarto caso, o desencadeamento da neurose liga-se
igualmente a uma variação quantitativa da libido, mas de sen­
tido inverso. Há um aumento da libido, como na puberdade

1 3. Idem, p . 294 .
14. Idem, p . 295 .
118 C H RISTIA N I NGO LENZ ÜUNKER

ou na menopausa, que excede à capacidade de tramitação psí­


quica:
. . . não podemos medir esta quantidade de libido que nos pa­
rece ind ispensável p a ra um efeito pa togênico; só podemos
postulá-la após a moléstia resultante haver começado. [ . . . ] Po­
demos supor que não se trata de uma quantidade absoluta, mas
da relação entre a cota de libido em operação e a cota de libi­
do com que o ego individual é capaz de lidar. 15
Mais uma vez é enfatizado o papel preponderante da acu­
mulação, ou represamento, da libido e da Versagung no desen­
cadeamento da neurose. Ao afirmar que tal fator quantitativo
não é mensurável Freud retoma uma premissa já presente no
"Projeto.. . ". No entanto cabe supor que ela não é mensurável
fora do aparelho psíquico, mas que em seu interior tal cálcu­
lo é crucial para o desencadeamento.
Cabe lembrar que a noção de desencadeamento não é, em
absoluto, urna idéia anacronicamente médica ou aspirada por
Freud em seus estudos p reliminares. Em Moisés e a Religião
Monoteísta, texto considerado por muitos um verdadeiro testa­
mento freudiano, o tema é retomado de forma sintética e asser­
tiva: "Trauma infantil - defesa - latência - desencadeamento
da neurose - retorno parcial do recalcado: assim reza a fórmu­
la que estabelecemos para o desenvolvimento da neurose" 16 •
Aparentemente a noção freudiana de desencadeamento,
aqui resumida, mostra-se incompatível com a concepção .de
estrutura clínica. A primeira objeção que poderia ser levanta­
da é que esta concepção remonta a uma herança médica de
Freud preservando certa noção de causalidade linear e contra­
dizendo a idéia de sobredeterminação. A neurose seria assim
assemelhável a urna doença, o que é corroborado pela própria
palavra " Erkrangung" (desencadeamento, adoecimento), que
deriva do substantivo Krank (doente). Enquanto doença reme­
teria a um estado provisório ou contingencial da vida do su-

15. Idem, p. 297.


1 6 . Freud, S. (1939) . Moisés e a religião monoteísta. ln: OC. Op . cit. v .
XXIII, p. 77.
DA E S T R U T U R A AO S I NTO M A 119

jeito e não a algo como uma "estrutura existencial" , para uti­


lizar a expressão de J uranville. 17
O próprio texto nos adverte sobre o valor prático e apro­
ximativo das discriminações envolvidas nestes tipos de de­
sencadeamento. Freud afirma que, em sua clínica, apenas um
caso encontrar-se-ia claramente colocado em um das categorias
propostas. Além disso argumenta que na maior parte das ve­
zes a neurose aparece em ondas sucessivas, intermediadas por
períodos de saúde. Em cada um destes momentos diferentes
causas precipitantes poderiam ser isoladas.
Vemos com isso que não se trata do aparecimento ou de­
saparecimento da neurose como estrutura mas como conjun­
to articulado de sintomas. O que, por si só, não invalida a
questão acerca desta variação clínica, aliás não contestada pela
tradição pós-freudiana. Mas a própria idéia de que se trate aí
de sintomas precisa ser mais bem examinada. Este hiato entre
o fantasma e o sintoma, essa interrupção provisória desta via
de circulação, encontra-se tematizado longamente em Lacan,
especialmente em torno dos seminários sobre a angústia e so­
bre a identificação. Neste período inaugura-se uma problemá­
tica em torno das relações entre o falo e o objeto a. O primeiro
funcionado como elemento de cifragem, de contagem e de fra­
cassada inscrição do segundo, como o atestam as primeiras
formalizações sobre o fantasma presentes no Seminário sobre
a transferência. Nesta linha poder-se-ia pensar o desencadea­
mento da neurose nos termos da articulação e desarticulação
do falo ao objeto a . É a esta hipótese que pretendo dar desen­
volvimento. Podemos então resumir os quatro tipos de desen­
cadeamento propostos por Freud tendo em vista uma primeira
aproximação com o tema do gozo:
a) indisponibilidade do objeto real
(disjunção entre falo e objeto a)
b) impossibilidade d e trocar uma satisfação por outra
(conjunção entre falo e objeto a)

17. Juranville, A. Lac,r n e a filosofia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.


1 20 CHR I S T I AN I NGO LENZ DUNKER

' c) inibição da pulsão


(paralisação do objeto a)
d) insuficiência psíquica em face das exigências pulsionais
(paralisação da função fálica)

Vejamos então como o problema do desencadeamento da


neurose e o papel nela desempenhado pela Versagung podem
ser apreendidos em um pequeno desenvolvimento clínico.
Trata-se de um senhor, com aproximadamente 60 anos,
que procura a análise após um incidente. Buscara um Centro
de Saúde em função de um problema corriqueiro. Algo na for­
ma como fora recebido despertara sua indignação. Não sabia
precisar exatamente do que se tratara mas seguramente isso
passava pelas jovens es tudan tes despreparadas com quem iria
manter um primeiro contato. Segundo suas palavras: "Aque­
las mulheres, jovens, meninas . .. acharam que podiam me tra­
tar como uma cobaia . Eu quero falar com o chefe delas todas.
Quero que me respeitem. Por que a situação política do país é
tudo merda, ninguém faz direito . . . "
Esse discurso prosseguia em uma longa digressão acerca
da conj untura macroeconômica do país, sua corrupção gene­
ralizada e a perfídia das elites. Esse desenvolvimento algo de­
lirante é interrompido por uma escansão surpreendente, de
formato conclusivo: "Agora o senhor já viu qual é o meu pro­
blema. É como se eu fosse uma estação espacial em órbita. Eu
giro, giro e volto no mesmo lugar. E no fim é nada. Eu não faço
nada, fico ali parado, preso, pensando, no vazio" .
Esse retorno sobre o próprio discurso, assinalado pela
detenção do saber e pelo indiciamento do sujeito no sintoma
faziam supor a presença de uma estrutura neurótica.
Segue-se uma generalização do problema e suas conse­
qüências. Não consegue trabalhar pois implica com tudo, sua
esposa está prestes a despedi-lo, não consegue aproveitar sua
aposentadoria pois fica n isso.
Ele especifica que sempre gostou das coisas em ordem
mas que isso saiu do controle há dois anos quando urna série
de acontecimentos se reuniu em um curto espaço de tempo.
Intui que há uma relação entre eles mas não consegue juntar as
ÜA E S T R U T U R A AO S I N TO M A 121

coisas. Neste período dramático três eventos s e destacam: ele


perde o emprego, realiza uma operação delicada e seu pai
morre passando sua mãe a viver com outro homem.
Assim como a imagem da estação espacial retroage sobre
o discurso reivindicatório, o ocorrido há dois anos retroage
sobre a crise que seu estado atual representa.
O primeiro aspecto a destacar diz respeito ao caráter mí­
tico desta datação: dois anos atrás, revelou-se posteriormente
uma marcação imprecisa e improvável. Esses três aconteci­
mentos separavam-se no tempo por vários anos de diferença
mas eram reunidos pela sua memória como se fossem simul­
tâneos, mostrando claramente a submissão da realidade mate­
rial à realidade psíquica.
O segundo aspecto diz respeito às modificações no plano
do caráter: irritação, desconforto, recrudescimento da escrupu­
losidade e da obsessão com limpeza e ordem. Períodos de de­
pressão alternavam-se com breves episódios de angústia.
O terceiro aspecto refere-se a uma alteração bastante es­
pecífica com relação ao declínio de certas atividades que sem­
pre lhe propiciavam satisfação e que depois deste período deixaram de
ter sentido. Em particular a música, que simplesmente deixara
de ser aquela música. Durante algum tempo atribuíra essa di­
ferença ao problema auditivo no entanto certas circunstâncias
o fizeram admitir que a música permanecia a mesma: ele ha­
via mudado. Algo semelhante se passara na sua relação com
automóveis, com o trabalho, com a esposa.
Essa degradação do significante fálico é correlativa do
sobre-investimento de certas idéias que passam a assediá-lo.
Após a operação surge uma idéia obsessiva da qual ele não
consegue se separar. Aquilo vai arrebentar e ele morrerá, seguin­
do assim um destino semelhante ao do pai. Um ritual protetor
se erige a partir desta idéia. Pontualmente, sempre no mesmo
horário, ele deve cumprir suas obrigações no banheiro, caso
contrário aquilo vai acontecer. Paralelamente esta compulsão se
desdobra em uma série de impedimentos e inibições: impos­
sibilidade de comer fora de casa, de entrar em situações das
quais não poderia sair em uma emergência, temor a sair de casa,
etc. Ele se tornara, segundo suas palavras, um ser inviável.
122 CHRISTIAN INGO LENZ OUNK E R

Logo na primeira entrevista ele diz: "Não tenho como


pagar por isso. Talvez nós pudéssemos sair e acertar as coisas
em um jantar" . Alguns elementos estruturais, tanto do ponto
de vista da transferência como do diagnóstico podem ser de­
preendidos nesta cena enunciativa.
Intervenho sobre dois elementos deste sintagma em mo­
mentos distintos da entrevista. Pergunto como ele sabe que
não pode pagar por isso e depois assinalo que para alguém que
não pode sair de casa, muito menos comer fora, um convite
para jantar não deixa de ser surpreendente.
O que pretendo destacar por meio deste fragmento de
início de análise, que não é de todo incomum, é o papel de­
sempenhado pela conj unção destes três acontecimentos em
torno de um traço comum. A morte do pai não lhe parece algo
tão aterrador quanto sua imediata substituição por outro ho­
mem. A perda do emprego não seria tão grave não fosse a sua
substituição por uma mulher muito mais jovem e inexperien­
te. Finalmente a operação, bem-sucedida em todos os sentidos,
é algo que pode acontecer a qualquer um, o que o fizera ter
uma crise de raiva no hospital fora o modo impessoal e desres­
peitoso como o trataram: como um objeto. Nas três circunstân­
cias há algo perturbador que envolve esta s ubstituição,
aparentemente sem resto. Há uma comensurabilidade perfei­
ta entre perda e restituição.
Essa equivalência se articula com uma curiosa ruptura na
significação fálica. Isso aparece em certos temas já menciona­
dos mas também permite compreender a figuração quase de­
lirante do discurso inicial. A neurose, enquanto agrupamento
preciso de sintomas, se desencadeia a partir da renúncia que
mostra assim efeitos diferenciais na esfera do desejo e do gozo.
A NOÇÃO FREUDIANA DE VERSAGUNG
E O GOZO COMO PARASITA

E u tinha a impressão e que ele me perfurava o coração algu mas vezes,


a tingindo-me as en tra nhas. Quando o tirava parecia que as entranhas eram
retiradas, e eu ficava toda abrasada n u m imenso amor de Deus. A dor era tão
gra nde que eu soltava gemidos, e era tão excessiva a suavidade produzida por
esta dor imensa que a alma não desejava que tivesse fim .
Teresa Dávila

Freud é taxativo ao afirmar que a neurose depende, na


sua apresentação, da capacidade do aparelho psíquico em li­
dar com a indisponibilidade do objeto. A relação com a falta
de objeto é portanto decisiva para a estrutura neurótica, como
argumentou Lacan no Seminário IV. Mas quanto de "falta de
objeto" cabe ao neurótico suportar? Quanto é necessário amar
antes que a "fuga para a doença" se torne inevitável? Ou ain­
da, qual o montante além do qual a sublimação torna-se um
subterfúgio inútil? Tais perguntas seriam consideradas desca­
radamente improcedentes se nos lembramos que a noção de
falta está submetida a um binarismo estrito, de extração estru­
turalista em Lacan. Nele a falta não se opõe a qualquer forma
de positividade, falta não é carência, mas abertura constituinte
do ser. Considerada esta restrição ainda assim é necessário re­
conhecer a importância clínica do gradiente, da intensidade e
da receptividade do objeto no plano da sua indisponibilidade
quantitativa, e não apenas qualitativa.
Penso que esta dupla via encontra-se resumida na ex­
pressão usada por Freud para tratar desta indisponibilidade
do objeto. A expressão alemã Versagung está presente de for­
m a ampla nos e s c ritos de F reud. Ela foi traduzida por
1 24 CHRI STIAN INGO LENZ DU NKER

"frustration", na edição inglesa organizada por Strachey, pro­


longando-se na edição brasileira no termo "frustração". Como
já observou Laplanche 1 tal tradução sugere a ocorrência de um
fato, uma carência. No entanto a expressão em alemão indica
privilegiadamente uma relação e não um submetimento pas­
sivo. Hanns 2 propõe como tradução alternativa termos como
impedimento, bloqueio ou fracasso. São expressões que resol­
vem a questão da transitividade, escapam à conotação de
"amargura existencial" contida em frustração mas ainda pren­
dem-se demasiadamente à noção de uma determinação exte­
rior. Se considerarmos que trata-se de um impedimento inde­
terminado, subjetivo e objetivo, chegaríamos à noção, talvez
imprecisa semanticamente, de renúncia ou de sacrifício.
Ao tomar a frustração como se fosse uma espécie de es­
tado subjetivo somos induzidos a p ensar na sua causação
como determinada por um agente interno ou externo e a con­
fundir realidade psíquica e realidade material. No entanto
Freud distingue claramente a frustração de um estado subje­
tivo na seguinte passagem:
Para unificar nosso vocabulário, designaremos o fato de
uma pulsão (Trieb) não ser satisfeita (befriedigt) 1-w lo termo frus­
tração ( Versagung), o meio pelo qual esta frustração é impos­
ta pelo termo interdição ( Verbot) e o estado produzido pela
interdição pelo termo privação (Entbehrung). 3

Portanto a diferença entre frustração, interdição e priva­


ção radica na forma de incidência da falta: como insatisfação
da pulsão, em face do objeto, como interdição, face ao agente,
ou como efeito, em face da privação.
Lacan lerá esta distinção diferenciando o regime de inci­
dência da falta em termos do simbólico (castração), real (pri­
vação) e imaginário (frustraçã o ) . Introduz i r á ainda um
prolongamento dos agentes e dos modos do objeto sob os

1. Laplanche, J. e Pontalis, J.-B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Mar­


tins Fontes, 1 9 86, p. 264 .
2. Hanns, L. Vocabulário coinentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro:
Imago, 1 996, p. 260.
3. Freud, S. (1 927) . O fetichismo. ln: OC. Op . cit., p. 1 43 . v. XXI .
DA ESTRUTU RA AO SINTO MA 1 25

quais esta falta recai. Na frustração o objeto é definido como


real, na privação o objeto é simbólico e na castração o objeto é
imaginário. Lacan especifica ainda que no caso da frustração
seu agente é simbólico, o pai simbólico, cuja introdução na dia­
lética entre identificação e escolha de objeto é crucial para a
constituição do sujeito enquanto estrutura. O agente da frus­
tração é o pai enquanto função simbólica que priva a mãe,
frustra a criança e apresenta a castração no campo do Outro.
Em outras palavras, ao inscrever o falo no campo do Outro,
pela incidência do Nome-do-Pai, no interior da metáfora pa­
terna, decide-se a estrutura da neurose. No entanto se isso
prescreve a possibilidade de c onstituição de sintomas, no sen­
tido amplo do termo, isso não garante a sustentação ou consis­
tência deste sintoma diante do objeto no Real, para empregar
os termos do Seminário IV.
Em 1 957, quando tal organização é proposta, o conceito
de real é ainda bastante incipiente em Lacan, chegando a con­
fundir-se em certos momentos com a noção de realidade.
Além disso a noção de gozo, que significará uma verdadeira
reviravolta na reinterpretação lacaniana do conceito de pulsão,
ainda não está consolidada. Portanto quando Lacan endossa a
tese freudiana da frustração, como insatisfação da puhão, não
se pode concluir as conseqüências disso quando se considera
o gozo e não a pulsão como operador clínico da falta.
O problema pode ser resumido da seguinte forma. A
apresentação clínica da neurose, como conjunto articulado de
sintomas, é i nequivo camente dependente da frustração
( Versagung), segundo a tese de Freud. A frustração encontra­
se preservada imaginariamente na formação do caráter, sob
forma de história identificatória. Por outro lado a frustração se
reatualiza na forma de um encontro com o Real, que desenca­
deia a formação de sintomas. Finalmente, é como ruptura do
narcisismo que a frustração incidirá sobre o eu.
Essa consistência dependerá portanto da articulação en­
tre o representante da falta e o objeto designado "no real". Em
1 956 Lacan já aludia a esta articulação na seguinte passagem:
. . . a noção de frustração. Ora, em vão se buscaria o menor ves­
tígio desse termo em toda obra de Freud : pois nela encontra-
1 26 C H R I STIAN I NGO LENZ ÜUNKER

ríamos somente motivos para retificá-lo pelo termo Versagung,


que implica renúncia e, portanto, distingue-se de toda diferen­
ça do simbólico para o real, diferença que fazemos a nossos
leitores a gentileza de considerar compreendida . . . 4
A diferença aludida situa a Versagung entre o simbólico
e o real e a supõe dedutível do estatuto da renúncia . Ora, uma
renúncia é claramente um ato simbólico, um sacrifício que su­
põe um sujeito. Por outro lado a que real esta renúncia se re­
fere? E que senti d o haveria em falar de uma " renúncia no
real"? Em outras p alavras esta renúncia inscreve um signifi­
cante como representante da falta, o significante fálico, mas
conta, p ara isso com o objeto da pulsão. Essa operação apare­
ce resumida por Lacan da seguinte forma: "A castração signi­
fica que é preciso que o gozo seja recusado, para que possa ser
atingido na escala invertida da Lei do desejo" . 5
A noção de recusa ou de renúncia, se a lemos como refe­
rida a Versagung, faz p arte portanto de uma báscula, de uma
operação de conversão, troca ou substituição realizada entre
gozo e desej o . Esta operação envolve a castração como uma
espécie de condicional. Podemos lê-la sincronicamente como
um evento constituinte da estrutura, mas também diacronica­
mente como um evento decisivo na transformação, estabiliza­
ção e deslocamento do sintoma.
É na esfera desta troca que se produz o excesso caracterís­
tico do gozo, como observa um dos mais conhecidos intérpre­
tes da questão do gozo em Lacan:
O objeto a, oferecido como mais de gozar, é a medida do
gozo faltante e por isso, por ser manifestação da falta em ser,
é causa do desejo. Pois o gozo do objeto a é residual, é compen­
satório, indicador do gozo que falta a ter na troca com o Ou­
tro que só o d á tomando-o . 6

4. Lacan, J. (1 956). Situação da psicanálise e formação do psicanalista em


1956. ln: Escritos. Op . cit., p . 463.
5 . Lacan, J. (1 960) . Subversão do sujeito e dialética do desejo no incons­
ciente freudiano. ln: Escritos. Op . cit., p. 841 .
6 . Braunstein, N.A. Coce . México: Siglo XXI, 1995, p. 46.
DA ESTRUTURA AO SI NTO M A 127

À medida que aprofunda e refina sua compreensão da


neurose Freud vai concedendo cada vez mais importância ao
"fator quantitativo" . Isso se mostrará de forma particularmen­
te clara em duas questões clínicas: a contração, desencadea­
mento ou causação da neurose e as possibilidades de cura,
reestabelecimento ou eficácia do tratamento. A atitude inicial
de colonização, representação e conciliação entre as forças
constituintes do conflito psíquico cede gradualmente espaço
para uma atitude que reconhecerá o aspecto improvável, con­
tingencial ou impossível da cura psicanalítica, atribuindo vir­
tualmente seu sucesso às contingências quantitativas que
cercam a constituição psíquica do paciente. A força do ego, a
in tensidade das exigências pulsionais ou o q uantum de libido
que pode ser desviado para a sublimação, para o amor ou o
trabalho, constituem elementos teóricos cruciais para pensar
tanto a neurose quanto o seu tratamento:
Os neuróticos têm aproximadamente as mesmas disposi­
ções inatas das outras pessoas, eles têm as mesmas exp eriên­
cias e eles têm as mesmas tarefas a cumprir. Por que, então,
eles vivem tão pior e com muito maiores dificuldades e, no
processo, sofrem mais sentimentos de desprazer, angústia e
dor? 7

A resposta dada por Freud a esta indagação sugere que


os neuróticos "sofrem mais" pois estão mais expostos ao inde­
terminismo da força pulsional. Que esta os afete mais intensa­
mente e que sua possibilidade de subjetivação esteja diminuída
ou ainda que sua distribuição, combinação ou intrincamento
sejam mais pregnantes, todas estas angulações retratam corno
a neurose admite urna descrição quantitativa, que é a mais es­
pinhosa, mas também a de maior realidade clínica. Se tornar­
mos a história da psicanálise por referência, podemos dizer
que nela há urna certa oscilação na ênfase nos aspectos tópicos,
dinâmicos e econômicos. Contra as apreensões psicopatológi­
cas baseadas na psicodinârnica, ou no organodinarnisrno, La­
can parece ter proposto urna leitura extremamente tópica, ba-

7. Freud, S. (1 940) . Esquema de psicanálise. ln: OC. Op . cit., p . 183. v. XXIII .


1 28 C HRIST IAN I NGO LENZ DuNKER

seada na noção de estrutura clínica. A psicopatologia kleinia­


na, por sua vez, aparece como extremamente gradativista, o
que combina com a importância conferida por esta autora ao
ponto de vista quantitativo, mormente através da sua noção de
angústia.
Mais recentemente vemos um movimento de ponderação
destas perspectivas com a retomada crítica da importância do
ponto de vista econômico. Esse movimento, na verdade um
programa de leitura para a obra de Freud, vem sendo aponta­
do por diversos autores brasileiros, tais como Birman,8 Hanns9
e Peron, 10 como forma de ressituar as pretensões clínicas e te­
rapêuticas da psicanálise em um momento de confrontação
cultural com outras formas de abordar o sofrimento psíquico.
Também a posição representada pela psicopatologia funda­
mental e por pesquisadores interessados nas relações entre éti­
ca e psicanálise, vem reforçando, sob diferentes ópticas, uma
retomada da importância da questão "quantitativa" para re­
pensar a clínica e a psicopatologia psicanalítica.
Neste sentido a questão da quantidade é muito mais am­
pla que a do gozo. O gozo é apenas essa parcela da quantida­
de que é per cebida c omo demas iada, excess i va ou em
transbordamento. O gozo é quantidade fora de lugar, é quan­
tidade indecifrável.
Por isso, tanto o prazer quanto a satisfação e ainda a dor
podem ser consideradas barreiras ao gozo, formas primárias
de conferir ao gozo alguma qualidade. São formas de retomar
ou de deter, no corpo, aquilo que aparece sempre como uma
exterioridade ao corpo (hors corps). Bruno 1 1 propôs, para desig­
nar esse processo, a expressão: encorpsificação para parafra­
sear o processo de negativização da carne e exteriorização do

8. Birman, J. Mal-es tar na a tualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,


1 999.
9 . Hanns, L. A teoria pulsional na clínica de Freud. Rio de Janeiro: Imago,
1 999.
10. Peron, P . A noção de cura .na obra de Freud. 2000 . Dissertação (mestra­
do em Psicologia). Universidade São Marcos, São Paulo.
1 1 . Bruno, P . Satisfação e gozo. Belo Horizonte: Tahl, 1 986.
D A E S T R U T U R A AO S I N T O M A 1 29

gozo, descrito por Lacan. Tal captura do gozo, com correlati­


va inscrição corporal, pode ocorrer tanto sob forma do sinto­
ma quanto do caráter ou ainda em formações assintomáticas
que vêm caracterizando a fenomenologia contemporânea do
sofrimento psíquico. Nesta encorpsificação do gozo ele apare­
cerá como uma espécie de parasita da dor, da satisfação ou do
prazer. Esta parasitagem do gozo tem trazido à cena alguns
problemas contemporâneos em psicopatologia psicanalítica.
Por exemplo, diante da angústia extrema, inominável,
que aparece em combinação com o gozo, é comum a resposta
neurótica de induzir-se, em si mesmo, experiências dolorosas.
Cortar, machucar, perfurar ou seviciar o próprio corpo tor­
nam-se meios para "aliviar" este excesso de gozo, colocando­
º "no corpo", sob forma de dor e localizando-o assim fora do
Outro. Joel Dor, em um estudo clássico sobre a noção de estru­
tura em psicanálise, 1 2 aborda extensamente um caso clínico
onde se destaca como sintoma o ritual no qual a paciente im­
pinge cortes na sua própria superfície corporal, de modo a
gozar com o contraste branco/ vermelho do sangue sobre sua
pele. O caso é discutido na esfera do limiar diagnóstico entre
neurose e perversão, redundando em uma clara demonstração
de que se trata de um caso de neurose pela posição assumida
pelo sujeito e pela relação ao desejo recalcado que o ritual car­
rega consigo. Quanto a isso nenhuma objeção. No entanto, se
a análise estrutural é suficiente para nos conduzir à posição
subjetiva, ela por si só não nos elucida a forma assumida pelo
cálculo do gozo nessa paciente. Em outras palavras, a análise
pela estrutura não nos informa por que, neste caso, o gozo ga­
nha corpo por intermédio de uma parasitagem da experiência
dolorosa. O próprio autor encerra a sua discussão indagando
sobre a "constância dos traços estruturais" e sua relação com
a estabilidade da estrutura psíquica. Não creio que a noção de
traço de estrutura seja suficiente para iluminar todas as varian­
tes de funcionamento do gozo.

12. Dor, J . Es t ru t u ra e perversões . Porto Alegre : Artes Médicas, 1991,


p . 32-49.
1 30 C H R I ST I A N I N G O L E N Z D u N K E R

, Se há sintomas onde o gozo parasita a dor há também sin­


tomas onde este parece alojar-se na experiência de satisfação.
Neste caso para dar corpo ao gozo há urna irnaginarização do
objeto. Isso se mostra nas configurações narcísicas de recapta­
ção do gozo, quer sob forma de urna satisfação auto-erótica,
quer sob forma de identificação à imagem do objeto (i (a) ).
Aqui o excesso parasita a satisfação induzindo um certo
amortecimento, anestesiante que a torna inócua. É o efeito de
mal-estar que se produz diante da experiência do exagero ali­
mentar presente no episódio bulírnico, por exemplo, ou do
exagero escópico que se produz diante do uso irrefreado da
internet ou da passividade induzida pela televisão. O onipre­
sente walk-man, ou a interminável música ambiente seriam um
correlato possível do ponto de vista da pulsão invocante.
Parker 1 3 chamou estas novas formas de oferecimento de obje­
tos de "banda pulsional". Isto é, em vez de um ordenamento
dos objetos segundo urna seriação, urna linearidade ou urna
alternatividade, que caracterizariam a pulsionalidade moder­
na, o modo de vida pós-moderno descobre a primazia da si­
multaneidade, da co-presença ou do acesso virtual a "mais de
um" objeto ao mesmo tempo. A promessa potencial, instantâ­
nea e generalizada de gozo e nossos tempos caracteriza e acen­
tua urna divisão não harmônica entre perda e restituição.
Urna divisão onde surge um produto anômalo, enigmá­
tico ou mutante que Lacan percebeu funcionar ao modo da
mais-valia. Um valor, corno vimos, cuja origem é a não pro­
porcionalidade entre valor de uso e valor de troca. Quanto
maior a proliferação de semblantes para o objeto mais se acen­
tua o paradoxo da demanda e mais se torna insaciável. A pro­
dução extensiva da falta em gozar é estimulada pela paridade
entre o falo e o objeto. É o que se mostra no discurso capitalista
e nos seus sucedâneos ideológicos da narrativa do sucesso in­
dividual aos rituais de ostentação e à sociedade do espetácu­
lo. Nestas narrativas circula urna moeda narcísica cuj a
principal característica é a insaciedade. Quanto maior a pro­
messa de satisfação maior a decepção com o objeto.

1 3. Parker, I. Psychoanalityca l culture. London: Sage, 1 996.


D A E S T R U T U R A AO S I N TO M A 1 31

Quanto dinheiro será suficiente ao capitalista? Qual o li­


mite para a coleção de signos do apelo amoroso? A cultura
baseada na promessa de satisfação universal, pelo acesso a
bens, pelo uso possível do semblante de objeto ou pela equi­
valência entre o direito a e a obrigação de , formam as arestas
do que Roudinesco14 chamou de cultura depressiva, isto é, uma
cultura que induz à depressão pela sobreposição do Ideal ao
objeto, tendo por efeito o esvaziamento da experiência de sa­
tisfação. Há portanto um segundo grupo de interesse psicopa­
tológico que pode ser pensado a partir desta degradação do
gozo fálico, a partir da colusão do falo ao objeto.
Uma terceira forma de corporificação do gozo está pre­
sente em processos onde parecem ocorrer urna fissura do ima­
ginário, urna desirnaginarização do objeto. É o que acontece
nos diferentes tipos de adição e também nas formações psicos­
somáticas. Uma característica clinicamente marcante de tais
condições é a pobreza narrativa que costuma acompanhá-las.
Aqui o gozo coloniza a barreira constituída pelo prazer, tor­
nando-o não deslocável, aderido, holofraseado ao objeto. Tal
objeto parece sugar para si a libido, impedindo sua distribui­
ção. Diversos autores têm enfatizado que tanto na adição
quanto no sintoma psicossomático há uma suspensão, ou fra­
casso localizado, do Nome-do-Pai. Daí postular-se uma amplia­
ção para o uso da noção de foraclusão, originalmente ligada a
compreensão do desencadeamento da psicose. A função do
Nome-do-Pai é justamente inscrever o falo no campo do Ou­
tro. Se esta operação não se realiza com pleno sucesso, uma
parte do corpo ou uma forma específica de objeto perde sua
investidura fálica. Resta portanto o objeto destituído de seu
valor de troca, o objeto ou órgão, idêntico a si mesmo, cerni­
do no caráter insano de seu uso.
É possível ilustrar esta aproximação a uma psicopatologia
centrada nas formas de incorporação do gozo da seguinte ma­
neira:

1 4 . Roud inesco, E. Por q ue a psicanálise ? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000 .


1 34 C HRIST I AN I NGO LENZ ÜUNKER

<leria situar o valor de prejuízo, de contravontade ou despra­


zer exigido pela sua definição. Pensamos que neste caso o que
está em questão é o sintoma do ponto de vista fenomenológi­
co ou descritivo. Sua forma de apresentação varia sensivel­
mente em função da narrativa na qual este se expressa e das
condições de determinação da vontade, do desprazer e da uti­
lidade em vigor em uma dada configuração cultural e históri­
ca. Tentar reunir todas as possibilidades combinatórias que
atendam a tais condições em um amplo e exaustivo sistema
classificatório cobrará portanto largas concessões simplificado­
ras. Tal tentativa correrá o risco de confundir o sintoma com
a própria enfermidade, sobreposição indicada explicitamente
por Freud como um fato comum entre pacientes e leigos.
Mas Freud nos oferece ainda duas outras possibilidades
para apreender a noção de sintoma. A segunda delas parte da
idéia de que o sintoma é algo que exige um contínuo "gasto
anímico", um trabalho psíquico, que não apenas toma quanti­
dades de libido de outras atividades como as empenha ativa­
mente na manutenção desta formação de compromisso. O sin­
toma empobreceria dessa maneira a vida da pessoa. Em apoio
a esta idéia vemos recorrentemente em Freud a comparação
do sintoma com determinadas produções culturais como a
obra de arte e a religião . 2 Surge aqui a imagem do sintoma
como algo laboriosamente construído, ao qual o sujeito se ape­
ga ou se identifica. O sintoma como fruto do trabalho. Lacan
chega a postular que há, eventualmente, urna relação de amor
entre o sujeito e seu sintoma. Ora, uma relação de amor, defi­
nida pela intensidade, empobrecimento ou enriquecimento da
vida torna-se ainda mais complexa de encontrar urna definição
substancial. "Dado que neste resultado interessa sobretudo a
quantidade de energia assim requerida, com facilidade vocês
advertirão que 'estar enfermo' (Kranksein ) é em essência um
conceito prático"3 •

2. Por exemplo, a idéia de que a neurose obsessiva é uma religião par­


ticular e que a religião é uma espécie de neurose obsessiva universal,
é apresentada em Freud, S. (1 907) . Atos obsessivos e práticas rel igio­
sas. ln: OC. Op . cit.
3. Idem, p . 326.
Ü A ESTRUTU RA AO S I NTO M A 1 35

O que devemos entender por " conceito prático" nesta


passagem? Um conceito cuja definição é meramente operacio­
nal, dependente da arbitrariedade dos propósitos que se têm
em mente? Mesmo se adotarmos esta posição ainda nos restará
o problema relativo a saber como se estabelece "praticamente"
o excesso ou a falta que regulará o limite quantitativo que de­
finiria o sintoma. Seria o sentimento de "insuportabilidade" a
condição para tal?
Para contornar esta questão Freud recorre a uma terceira
perspectiva de análise sobre o sintoma onde este é definido a
partir de suas condições de produção. Condições formais que
prescrevem a possibilidade de seus mais variados modos de
apresentação. Condições estruturais, portanto, a partir das
quais os sintomas seriam como que versões de uma mesma
geratriz. O ganho representado por esta manobra integra a
noção de sintoma à de estrutura do sujeito, reduzindo assim
sua conotação puramente patológica. Trata-se de uma estraté­
gia recorrente em Freud: encontrar no sonho a mesma estrutu­
ra do sintoma, no chiste a mesma engrenagem do ato falho, na
transferência um caso particular da repetição. Do normal ao
patológico a diferença quantitativa não qualitativa:
Se nos situamos em um ponto de vista teórico e prescin­
dimos destas quantidades, p ode ríamos d izer perfeitamente
que todos estamos enfermos, ( . . . ), posto que as condições para
a formação de sintomas podem ser pesquisadas também em
pessoas normais. 4

Estas condições são detalhadas ao longo do artigo em


questão tomando-se a neurose histérica por referência. A for­
mação de sintomas começa pela indisponibilidade (Versagung)
de um objeto que implica retirada da libido. A libido retorna,
por regressão, a outras organizações pulsionais, reinvestindo
objetos antes abandonados. Neste retorno a libido adere a fi­
xações, subtrai-se ao eu e estabelece um conflito entre defesa
e desejo. Tal conflito evolui para a forma de um compromis­
so que deve conciliar as exigências da fantasia e do desejo, res-

4. Idem, p . 326 .
1 36 CH RISTIAN I NGO LENZ ÜUNKER

tabelecendo a eficácia do recalcamento e sobredeterminando


um sintoma.
Boa parte do artigo sobre a formação de sintomas é na
verdade dedicado à fantasia. Analisa-se sua formação a partir
do anelamento entre o vivenciar infantil e a constituição sexual
que remonta aos antepassados. Argumenta-se sobre seu papel
na determinação da realidade psíquica em oposição à realida­
de material. Salienta-se o valor de certos acontecimentos na
formação de suas principais variantes: cena primária, sedução
e castração. Discute-se até mesmo sua eventual procedência
filogenética. Tudo faz crer que a discussão sobre a etiologia do
sintoma neurótico desemboca necessariamente no tema da
fantasia. Logo se há neurose, há fantasia e se há fantasia pode­
mos supor a presença do sintoma. Tal argumentação possui
forte apelo teórico, pela universalidade e regularidade que es­
tabelece entre diferentes produções psíquicas, reunidas em tor­
no do recalcamento e separadas quanto aos dest i n o s
específicos de seus efeitos.
Em contrapartida a perspectiva estrutural não resolve o
problema clínico relativo ao fracasso da produção de sintomas
específicos em casos singulares de pacientes neuróticos. Esse
problema havia sido contornado, como vimos, pela exclusão
do elemento quantitativo, que permitiu circunscrever os tem­
pos da formação de sintoma: frustração (Versagung), regressão,
fixação, fantasia e solução de compromisso.
No entanto há uma passagem crucial onde Freud escapa
ao plano da neurose como estrutura e reintroduz uma reflexão
que contempla mais diretamente a contingência clínica que
queremos destacar. É quando ele nos fala de um momento in­
termediário na formação do sintoma, onde a libido sobre-in­
veste a fantasia e retrai-se para o eu, movimento denominado
de introversão. Neste ponto gestacional se decidirá a formação
de um sintoma ou uma outra solução para o conflito. A subli­
mação é explicitamente apontada aqui mas poderíamos incluir
ainda a inibição, a atuação, a depressão e a angústia como al­
ternativas que representam o fracasso da formação de sinto­
mas. O que queremos destacar é que nem sempre um sintoma
se constitui e nem sempre este se sustenta enquanto tal. Freud
DA ESTRUTURA AO S INTO M A 1 37

parece retroceder aqui da perspectiva estrutural, que reflete


sobre condições universais e necessárias, para a produção do
sintoma na neurose, para uma perspectiva que reintroduz a
neurose a partir de um certo estado do sintoma. É por isso que
a dimensão quantitativa reaparece como argumento:
Estas fantasias gozam de certa tolerância, e não se chega
ao conflito entre elas e o eu, por grandes que sejam as oposi­
ções, enquanto não se observe uma determinada condição. É
uma condição de natureza quantitativa, infringida agora pelo
refluxo da libido às fantasias. 5
Portanto às condições estruturais para a formação de todo
e qualquer sintoma deve-se acrescentar as condições específi­
cas pelas quais se decide a formação de um sintoma. Essa dis­
tinção retoma, de certa maneira; a oposição traçada na
conferência sobre o sentido (Sinn) dos sintomas,6 entre sinto­
mas típicos e sintomas individuais. Os sintomas típicos apare­
cem com maior regularidade em associação com um
determinado quadro clínico e ligam-se mais diretamente a ex­
periências comuns a todos os homens, por exemplo, o repetir
e o duvidar na neurose obsessiva, a indiferença e o asco na his­
teria. A tipicidade do sintoma prende-se ao compartilhar de
uma fantasia. Assim inicialmente este compartilhamento pode
ser remetido à família, em seguida aos antepassados e final­
mente à cena originária da civilização. O sintoma típico é for­
temente transgeracional.
Os sintomas individuais ligam-se, por sua vez, a experiên­
cias históricas mais singulares, contendo uma forte ligação
com a dimensão traumática, com o experienciar infantil e com
as contingências quantitativas que incidem sobre um determi­
nado sujeito. Podemos dizer que o sintoma individual repre­
senta mais diretamente uma solução para a contradição entre
as exigências universais e as contingências particulares da sub­
jetivação. O sintoma individual é portanto uma solução singu­
lar para o conflito . Vemos assim que questões clínicas

5. Idem, p. 340.
6. Freud, S. (1917) . O sentido dos sintomas. ln: OC. Op. cit.
138 CHRISTIAN INGO LENZ Ü U NK E R

importantes relativas ao diagnóstico, a interpretação e mesmo


quanto ao que se pode esperar de uma análise, diante do si_n­
toma e do mal-estar, estão envolvidas nesta distinção.
Poderíamos comparar a distinção entre sintomas típicos
e individuais com a classificação, hoje ainda em vigor, dos sin­
tomas em psiquiatria. Há os sintomas inespecíficos, comuns a
uma série de quadros, os sintomas típicos, que se prendem a
um quadro em particular e há os sintomas patognomônicos ou
diacríticos que são exclusivos de uma determinada condição. 7
A ressalva aqui reside no fato de que os sintomas diacríticos
não pertencem, em psicanálise, a uma condição essencial, mas
a um sujeito, conferindo a este seu estilo diante dos outros a
quem se endereça.

S i n to m a e i d e n t i f i c a ç ã o

Entre sintomas típicos e sintomas individuais, ou seja,


sintomas pensados a partir da estrutura e sintomas pensados
a partir do elemento quantitativo, há uma espécie de encruzi­
lhada. Havíamos s inalizado esta encruzilhada ao enfatizar o
momento intermediário da formação de um sintoma, repre­
sentado pelo retraimento da libido ao eu e pela introversão.
Este momento já havia sido observado por Freud à época dos
"Estudos sobre a histeria". 8 Neste texto e em artigos adjacen­
tes Freud faz referência a um "período de incubação" que an­
tecede a apa rição tanto dos s intomas crônicos d e tipo
conversivo quanto dos sintomas agudos, como os ataques his­
téricos. Este período de incubação é marcado pelo retraimen­
to, pela angús tia difusa ou esporád ica e por uma ce rta
sensibilidade ou irritabilidade . Poderíamos comparar tal esta­
do ao que se verifica no trabalho elaborativo que sucede uma

7. Banzato, C . E . M . Sobre a distinção entre "critério" e "sintoma" na no­


sologia psiquiátrica . Revista La tinoamericana de Psicopatologia F11nda-
111ental, São Pa ulo, v . III, n. 3, p. 9-17, setembro de 2000.
8. Freud, S. ( 1 893). Estudos sobre a histeria . ln: OC. Op . cit. v . II.
DA ESTRUTURA AO SINTO MA 1 39

interp retaçã o . Temp o de comp reender, diria Lacan, onde a


operação de recalcamento é desfeita e refeita, onde o sentido
se fecha e se abre alternadamente . Tempo onde há uma certa
suspensão d o saber. Do p onto de vista de um sintoma já cons­
ti tuído poderíamos dizer que se trata de um vacilo ou de uma
ins tabilização, que se mostra pelo es tranhamento frente a cer­
tos significantes que representam a ques tão do s uj eito.
É o caso, por exemplo, de um paciente que procura a aná­
lise em função de um desinvestimento de sua ligação com o
trab alho. Períodos de desinteresse e alhe amento tornam-se
cada vez mais recorrentes diante de assuntos e tarefas que an­
tes tomavam sua atenção e o envolviam comp letamente . Tal
fato, apresentado como " dep ressão cíclica" não se relaciona,
segundo ele, com qualquer insucesso profissional. Pelo contrá­
rio, geralmente, sucedem a um grande negócio realizado ou
um passo a mais em sua carreira .
Parece ter nascid o para e ste tip o de trab alho: p lanej ar,
controlar, organizar. E n c o n t r a r o aj u s te perfeito p ara todos
os detalhes e não deixar nada de fora constitui um grande pra­
zer. Acrescenta: E ainda me pagam por isso ! Mal sabem eles que
eu o faria de graça se pudesse. Seu estilo de gozo encontra-se p or­
tanto aj ustado à vida no trab alho. Apesar disso ou em função
disso esporadicamente lhe surge idéias obsessivas: será s uma­
riamente despedido porque em um determinado dia sai do ser­
viço na hora correta, em vez de ficar aquela meia hora a mais
que lhe garantiria um lugar privilegiado aos olhos do chefe .
A situação se complica quando, diante de promoção, ele
se vê obrigado a tomar decisões e assumir responsabilidades
sobre cosias que não dependem só dele . Suas antigas habilida­
des perderam valor. O caráter metódico, e o significante que
o representa (correto), torna-se agora sinônimo de "ingênuo",
" tolo" e "lento " . Não é mais p ossível calcular o a mais espera­
do pelo olhar d o chefe . Ele não sabe mais quem é o chefe. As
antigas idéias obsessivas desagregam-se da rede causal a que
es tavam submetidas . Ele não sabe mais por que será demitido.
Res ta-lhe apenas a certeza de que isso acontecerá, mais cedo
ou mais tard e . Neste momento a depressão cíclica torna-se
permanente . Surge uma série de novos sintomas intermitentes :
1 40 C H RISTIAN I NGO LENZ DUNKER

insônia, compulsão a adquirir certos objetos e medo intenso de


conhecer novas pessoas. Torna-se ainda mais recluso.
A análise retoma sua escolha por este tipo de profissão, o
que traz um conjunto de séries associativas que podem ser as­
sim resumidas:
a) fora o único conselho correto deixado por seu pai;
b) era o tipo de trabalho onde sua "honestidade e corre­
ção" poderiam ser postas a prova, sobrepujando-se assim ao
pai que sempre tivera propensão a negócios escusos e ativida­
des ilícitas;
c) era uma profissão de respeito e de relativo status social,
o que lhe permitiria impressionar as mulheres.
Em que pese o tom explicativo e universitário que expres­
sa as associações, o efeito delas acaba colocando em questão o
significante que as articula. Correto se vê assim destituído do
saber que antes o envolvia. Ele simplesmente não sabia mais
o que era e onde estava o "correto". Este significante tornara­
se enigmático e insensato. A lacuna no saber era crucial para
entender a confusão, o temor e a inibição ao trabalho.
A entrada em análise se dá no contexto de um sonho que
tem por cenário sua cidade natal. Nele o analisante vê clara­
mente uma pequena banda de música, perfeitamente organi­
zada e adequadamente vestida, tocando no coreto central de
uma praça de cidade do interior. Vem-lhe à lembrança uma
expressão materna utilizada para recriminá-lo, de forma bene­
volente, sobre sua disposição infantil à desordem, qual seja:
vamos parar com esta bagunça no coreto. A equivocidade entre o
significante que coordena a desestabilização dos sintomas e os
traços de caráter (correto), e seu quase homófono (coreto), suge­
rido pelo sonho, exprimem a antítese entre bagunça e ordem,
própria do caráter anal, e também a benevolência materna que
fechava parcialmente os olhos para isso. Isso o leva a questio­
nar a demanda que supunha ao pai e a redistribuir o mais-de­
gozar para além do olhar paterno.
É, portanto, no cenário marcado pela angústia e pela sen­
sação difusa de desorientação que podemos dizer que o desen­
cadeamento de seu estado neurótico relacionou-se à conjunção
de três aspectos:
0 A E S T R U T U R A AO S I N TO M A 1 41

a) a ruptura da identificação fálica, organizativa do gozo


no plano do caráter;
b) insuficiência do sintoma para reorganizar o gozo;
c) suspensão do saber e emergência de um significante
enigmático.

S i n to m a s tra n s i tó r i os , t íp i cos e i n d i v i d u a i s

Como vimos no caso acima o período de instabilidade no


cálculo do gozo, neste sujeito, se fez acompanhar de uma sé­
rie de sintomas intermitentes. De fato, podemos pensar que
um incremento quantitativo no gozo tenha por conseqüência
direta uma intensificação dos sintomas. No entanto podemos
supor ainda que um incremento excessivo não se traduza ape­
nas em uma mudança quantitativa, um estado mais agudo nos
sintomas, por exemplo, mas em uma alteração de sua qualida­
de. Em outras palavras, conforme um conhecido princípio da
dialética, as transformações na esfera da quantidade acabam
por modificar a qualidade do processo.
Entre uma e outra conformação do sintoma, que mantém
entre si uma identidade de estrutura, é possível apontar um
estado intermediário, geralmente caracterizado por modifica­
ções no plano dos afetos. Isso inclui, em primeiro lugar, a an­
gústia, mas também alterações no humor que vão da irritação
à ansiedade difusa, do tédio e depressão a estados de efusivi­
dade. A principal característica dos afetos, nessa situação, pa­
rece ser a sua instabilidade ou sua labilidade, ou sej a, sua
transformação rápida em um afeto de sentido contrário. Isso
talvez explique a curiosa afirmação de Lacan de que em ter­
mos dos afetos sua concepção permanece tributária de Espino­
sa. Ora, a análise que Espinosa faz dos afetos, no tratado9 das
paixões, como ele as denomina, está atravessada de ponta a

9. Convém lembrar que tratado e tratamento possuem uma origem eti­


mológica comum.
1 42 CHR I S T IAN I N GO LENZ ÜUN KER

ponta pelo dualismo e pela oposição entre os afetos. Ainda se­


gundo essa concepção um par de afetos, como alegria e triste­
za, por exemplo, podem se transformar, pelo aumento de sua
intensidade, em um afeto diferente e superior segundo a hie­
rarquia das paixões proposta por Espinosa.
O correlato dessa reversibilidade dos afetos, no plano do
eu, se mostra sob a forma de uma suscetibilidade, uma captura
na imagem do semelhante, ou seja, no pequeno outro. Isso tal­
vez esclareça por que Lacan afirma que os afetos são sempre
recíprocos . Esta sensibilidade ao pequeno outro, seja pela via
agressiva ou da paixão, exprimiria assim um efeito secundário
da transitividade própria ao imaginário.
A aparição de s intomas de curta duração, no entanto gra­
ves, não constitui um tema novo na história da psicanálise.
Nela, estes são conhecidos como sintomas transitórios, que
podem chegar a despersonalização e a mania. Por exemplo,
Lacan comenta, em várias ocasiões, o caso do paciente de Ernst
Kris que apresentava como sintoma principal a idéia de que
ele era um p lagiário. Quando o analista lhe aponta, realistica­
mente, a incorreção dessa percep ção, tal paciente responde
com um impulso, posterior às sessões de análise, a comer mio­
los frescos. Lacan 10 enfatiza a dimensão de acting out como res­
posta à interpretação, excessivamente centrada no imaginário.
Trata-se de um acting out, no sentido em que o paciente age e
repete, em vez de lembrar, mas é também um sintoma transi­
tório, como o apresenta Kris, ou um ato sintomático, como o
denominaria Freud.
A expressão, sintoma transitório, provavelmente foi cunha­
da por Ferenczi, em uma peq uena nota clínica redigida por
volta de 1 9 1 4 . Nela se lê:
"Um sintoma transitório: a posição do paciente durante
o tratamento . "
Em d o i s casos, pacientes masculinos denunciaram suas
fantasias homossexuais passivas da seguinte maneira: duran-

10. Lacan, J. O seminário. Livro 1. Os escritos técn icos de Freud. Rio de Janei­
ro: Jorge Zahar, 1 986.
ÜA ESTRUTURA AO SINTOMA 1 43

te a sessão, em vez de ficarem estendidos de costas ou de lado,


puseram-se bruscamente de barriga para baixo. 1 1

Nesta nota vê-se como o sintoma transitório, quando lido


na transferência, assume, claramente, o feitio de um acting out.
Tais sintomas são h·ansitórios tanto porque costumam desapa­
recer rapidamente, reduzindo-se às vezes à fugacidade de um
ato quanto porque se colocam em um momento de transição,
ou de passagem na história do sintoma.
Lacan aborda a noção de sintoma transitório ao comentar
um caso de Ella Sharpe onde em um dado momento irrompe
uma enurese noturna como efeito de uma interpretação. Lacan
afirma tratar-se de uma espécie de não assimilação da castra­
ção e de uma perturbação desta "identificação extremamente
particular" 1 2 na qual o sujeito se instalara até então. Não há,
entretanto qualquer especificação quanto à natureza desta par­
ticularidade da identificação nem sobre seu papel na etiologia
do sintoma.
Temos então sintomas típicos, sintomas transitórios e sin­
tomas individuais. Respeitada a heterogeneidade desta série
podemos dizer que os dois primeiros se distinguem pela con­
sistência e pregnância do primeiro em oposição à brevidade e
fugacidade do segundo. Temos ainda a generalidade dos sin­
tomas típicos em oposição à singularidade dos sintomas indi­
viduais. Surge-nos então a idéia de que se compreendermos o
processo de formação dos sintomas transitórios, e afinal o por­
quê de sua não continuidade, algo poderá ser acrescentado à
compreensão da formação dos sintomas e a sua sustentação no
contexto do laço social. Quais poderiam ser as condições, neste
cenário, para o fracasso ou sucesso de um novo sintoma? De
que depende seu vacilo ou sua estabilidade? A resposta satis­
fatória a estas perguntas exige a mobilização de inúmeras ou-

1 1 . Ferenczi, S. Um sintoma transitório: a p osição do paciente durante o


tratamento. ln: Obras Completas de Sándor Ferenczi. São Paulo: Martins
Fontes, 1 992. v . II.
12. Lacan, J. O seminário. Livro VI. O desejo e sua interpretação, a ula 12,
de 1 1 de fevereiro de 1 959 - inédito.
1 44 CHRI STIAN INGO LENZ ÜUNKER

tras implicações e teses psicanalíticas. No entanto penso que


alguma contribuição ao assunto poderia ser dada a partir do
que vimos até aqui.
Por vários motivos cabe pensar que o processo analítico
caminha nos sintomas típicos para os sintomas individuais.
Pode-se argumentar que a própria formação primária dos sin­
tomas, no contexto da infância e da neurose infantil, corres­
ponde a um sintoma típico. Em que pese o fato de que certas
fobias costumam desempenhar este papel, a tipicidade do sin­
toma neste caso deriva, geralmente, da identificação ao sinto­
ma dos pais e seus correlatos. A criança encontra-se com o
desejo de seus pais sobretudo na sua expressão sintomática.
Em outras palavras, o primeiro e grande sintoma transitório e
estruturante é formado pelo conflito identificatório edipiano.
Aqui nos surge um problema. Nos dois textos de análise
teórica mais sistemática sobre o sintoma, que discutimos aci­
ma, a identificação é mencionada apenas em uma ocasião. Tra­
ta-se da primeira paciente apresentada na conferência sobre
"O sentido dos sintomas" . 13 Ela é acometida por um ritual ob­
sessivo, que a fazia, antes de dormir, ir e vir de um cômodo
adjacente ao seu quarto. Entre uma ação e outra requeria os
préstimos e a atenção de sua empregada com pedidos triviais.
A interpretação deste sintoma remete-nos à cena da noite de
núpcias e à impotência do marido nesta ocasião, acrescida da
preocupação de que este segredo fosse revelado aos emprega­
dos. Neste contexto Freud afirma que: "Antes de tudo, se es­
cl arece que a paciente se identifica com seu marido; em
verdade representa seu papel, posto que imita sua corrida de
um cômodo a outro" . 14
Saliente-se que passagem utiliza a noção de identificação
no sentido mais fraco e menos psicanalítico, isto é, como suce­
dâneo da imitação. Mesmo assim seu uso indica a identifica­
ção como identificação ao sintoma do outro, seu marido, em
primeira instância . Mais precisamente, a identificação, extre-

13. Freud, S. ( 1 917). O sentido dos sintomas . ln: OC. Op. cit., p. 238-4 1 .
1 4 . Freud, S. ( 1 9 1 7) . O sentido dos sintomas. ln: OC. O p . cit.
DA E S TRUTURA AO S I N TO MA 1 45

mamente particular, passa por um elemento da envoltura for­


mal do sintoma, ou seja, pelo marcador da angústia no Outro.
A ausência de menção direta e detalhada do papel da
identificação no processo de formação de sintomas é um fato
bastante intrigante. Tal papel é uma das intelecções mais an­
tigas de Freud no estudo da neurose e em particular da histe­
ria. Ela ocupa um lugar estratégico na análise do caso Dora
onde, desde o início, Freud assinala a identificação com um
traço de urna tia de Dora, na produção da tosse nervosa. Tam­
bém a identificação com a impotência paterna e com a própria
Sra K. são chaves para a compreensão deste estudo clínico. Se
pensarmos no caso do Homem dos ratos e na identificação que
este mantém com a dívida do pai, não podemos deixar de
constatar seu papel crucial. Mesmo no fragmento que apresen­
tamos acima fica nítido que este movimento é apenas o primei­
ro passo, o mais trivial e evidente da exposição interpretativa.
Podemos supor que a ausência explícita do termo identi­
ficação se deva ao fato de que ela esteja subsumida em alguns
dos processos mencionados na formação de sintomas. Por
exemplo, Freud fala da regressão a antigas escolhas de objetos.
Sabemos que uma das definições da identificação é justamente
uma substituição regressiva de objetos abandonados. Freud
fala da regressão como dirigida à fixação. Sabemos que outra
definição da identificação afirma que esta é a forma originária
do laço afetivo com o objeto. Freud fala ainda do importante
papel da fantasia na produção do sintoma. Sabemos que a fan­
tasia corno ponto máximo de estase da libido, condensa o nar­
cisismo do sujeito e, portanto, coordena todo o sistema
identificatório, quer pela via das instâncias ideais, quer pela
via da identificação ao desejo do outro, com toda a ambivalên­
cia que isso comporta.
Ora, a identificação que antes surgia como problema pela
ausência, torna-se agora incômoda pela onipresença e disper­
são por todo o conjunto de tempos envolvidos na formação de
sintomas. Mesmo a vertente do empobrecimento ou enrique­
cimento da vida psíquica, em face do gasto exigido pelo sinto­
ma, é francamente correlata dos últimos desenvolvimentos de
Freud sobre a identificação. Em "Psicologia de massas e aná-
1 46 CHRISTIA N I NGO LENZ ÜU NKER

lise do eu", 1 5 Freud detalha a conhecida, e exaustivamente ex­


plorada, distinção entre as variantes da identificação, ou seja:
a) Como a forma mais antiga e originária de laço com o
outro (identificação primária);
b) como substituto regressivo de uma escolha de objeto;
c) como deslocamento de um elemento comum, seja ele
um traço (Einziger Zug), um desejo (identificação histérica) ou
um sintoma (identificação pelo sintoma).
Mas além de uma apresentação que enfatiza as diferenças
qualitativas envolvidas no processo identificatório há ainda,
neste texto, amplas considerações que induzem a uma consi­
deração ética da identificação. Isso se mostra, por exemplo,
quando Freud opõe claramente uma forma de identificação
que "constitui ou enriquece uma instância da personalidade"
e uma identificação de sentido inverso onde o "objeto é posto no
lugar" da referida instância, e empobreceria a vida psíquica.
Estamos agora em posição de lançar uma hipótese sobre
a origem dos sintomas transitórios e sobre a sustentação e fra­
casso de certos sintomas específicos. Essa instabilidade, de
cunho quantitativo, pode decorrer da descontinuidade no in­
vestimento identificatório no sintoma do outro e em particu­
lar do sintoma na família . Nossa hipótese se vê inicial e
superficialmente corroborada tanto pelo argumento da neuro­
se infantil quanto pela regularidade de exemplos freudianos
que remetem à identificação com o sintoma do parceiro e da
família. Isso recebe respaldo também na clínica atual onde se
nota a crescente importância do sintoma como agregador so­
cial e condicionante das vinculações associativas.
Como discuti em outro lugar,16 esta pista levou alguns teó­
ricos da aproximação entre psicanálise e teoria da sociedade a
importar a teoria freudiana sobre a identificação ao sintoma na
família para compreender problemas no âmbito extensivo do
laço social. Isso me parece incorreto e pouco frutífero pois evi-

1 5 . Freud, S. ( 1 9 2 1 ) . P s i c o l o g i a de m a s s a s e a n á li s e do e u . l n : O C.
Op . cit.
1 6 . Dunker, C . I . L . Autoridade e a lteridade. Jn terações, v . II, n. 6, 1 999.
DA ESTRUTURA AO SINTO M A 1 47

ta a contradição fundamental entre família e sociedade (no


sentido de sociedade civil, jurídica e política) . Essa contradição
envolve vários níveis de apreensão do complexo de Édipo e de
compreensão da função paterna, mas o que interessa destacar
aqui é que isso implicará também transição do sintoma.

A sustentação do si ntoma na fam ília

Cabe retornar aqui aos três âmbitos de análise do sinto­


ma: o narrativo, o quantitativo e o estrutural. Do ponto de vis­
ta narrativo o sintoma se transmite na família pois esta é o
pequeno universo de alteridades capaz de definir em que ter­
mos e por quais meios o sofrimento é legítimo, e por contras­
te, qual forma de mal-estar se caracterizará como sintoma. Em
outras palavras, qual forma de apresentação do desprazer é
legítima e qual é problemática. O termo unheimlich, que reúne
o familiar ao estranho na apreensão do inconsciente, expressa
justamente essa tolerância e incômodo que as famílias mantêm
em relação aos sintomas de seus membros.
Como vimos anteriormente a definição universal e atem­
poral do que representa de fato um prejuízo, uma contravon­
tade ou um desprazer, para todos os seres falantes é bastante
problemática. No entanto, isto é realizado sob forma de um
conceito prático em p equenos universos como uma comunida­
de ou uma família. E como se o sujeito não reconhecesse mais
sua própria mensagem recebida de forma invertida pelo outro
que com ela se identifica. No exemplo de Freud, o marido im­
potente que estranha e acha incompreensível a repetição do
seu próprio ritual na noite de núpcias, ou ainda a mãe que se
desespera ao constatar o fracasso escolar de seu filho, medido
por seu próprio e opressivo ideal de sucesso.
Esta acepção de sintoma soa bastante convergente com a
de Lacan, se tomarmos o grafo do desejo por referência. Nes­
te caso o sintoma situa-se como uma significação do e para o
Outro [s(A ) ] , isto é, como uma mensagem invertida na qual o
desejo se aliena. Isso, por si só, seria suficiente para justificar
a implantação do sintoma no laço social. Mas esta implanta-
1 48 C H R I S T I A N I NGO LENZ DU NKER

ção, pela via da linguagem, pelo significante considerado a


partir da es trutura da fala, como esquema L o demons tra, ex­
plica razoavelmente como o sintoma se transmite entre gera­
ções, mas deixa de lado o problema inverso, ou sej a : como é
p ossível que o sintoma não se transmita . Em outras palavras,
de que forma o sujeito e a criança, em especial, separam-se de
uma forma de gozo típica, que lhe é apresentada p or um dado
laço familiar e o subs titui por uma outra forma de gozo, ofe­
recida pelo discurso, no âmbito d o laço s ocial.
A colocação deste p roblema procura relativizar, por esta
concepção, uma antiga p osição dominante nos estudos psica­
nalíticos sobre a família. Tal posição enfatiza a figura do emer­
gente, ou depos i tário, como elemento que dá voz ao sintoma
silenciado nos outros elementos d o grupo . Isso corresp onderia
a um efeito horizontal da tese mais genérica de que os confli­
tos não elaborados em uma geração ap arecem como sintomas
na geração s ubseqüente, tal como se expressa, por exemplo, na
seguinte p assagem :
Em alguns casos o sintoma não aparece mais, unicamen­
te, como resultante de uma formação de compromisso intrapsí­
quico, ele pode igualmente ser encarado em relação com a repetição
de u m enfraquecimento da men talização extraída de gerações p rece­
dentes . Então ele seria entendido como expressão de um sofri­
mento familiar. 1 7
A compulsão à repetição liga-se assim ao fracasso da sim­
bolização nas gerações p recedentes, que sobre-investe o víncu­
lo narcísico na famíli a . Podemos chamar o modelo, contido
nesta passagem, de modelo de transmissão por p ositivização.
O conflito que não é resolvido por uma geração se expressa no
entanto sob forma p ositiva no sintoma d a geração seguinte ou
em um membro des ta geração diante dos demais . Uma argu­
mentação semelhante é defendida por Lacan em seu texto so-

17. André-Fustier, F. e Aubertel, F. A transmissão psíquica familiar pelo


sofrimento. ln: Eiguer, A. (org) A transmissão do psiquismo entre gera­
ções. São Paulo: Unimarco, 1 998, p. 129 .
Ü A ESTRUTU R A AO S I NTO M A 1 49

bre O mito individual do neurót ico, 1 8 onde o sintoma da dúvida


quanto ao pagamento da dívida é remetido á hesitação pater­
na quanto aos motivos do seu próprio casamento: por amor ou
por dinheiro. Ou seja, mais além do deslocamento significan­
te que aparecerá na obsessão com ratos ( Spielratten = rato de
jogo), há também a transmissão da forma assumida pelo cál­
culo do gozo: amor x dinheiro, ou seja, o que cifra a relação
instável entre o falo e o objeto a.
A criação de um mito individual é aparentemente um
contra-senso. Todo mito é por definição coletivo. O que Lacan
destaca é o não reconhecimento neurótico neste mito. O des­
conhecimento da determinação estrutural do seu desejo a par­
tir desse mito resulta portanto na formação de sintomas como
efeito do conflito que antecede cronologicamente o sujeito,
mas que determina simultaneamente a estrutura na qual este
se insere mas onde não se reconhece.
A isso podemos sugerir um contramodelo baseado na
transmissão por negativização, isto é, onde a transmissão de­
penderia de um movimento desidentificatório em relação ao
sofrimento familiar. Em outras palavras, a invenção do sinto­
ma, na sua forma individual, exige a criação de uma nova for­
ma de sofri mento, d i stinta da que é oferecida pela
geracionalidade. Não se trata apenas de uma nova versão do
mito ou da continuidade da narrativa familiar, o que é impres­
cindível para o processo de filiação, mas de uma diferenciação
na forma de gozo, ou no benefício primário oferecido pelo sin­
toma. Em estudo anterior19 sugerimos que tal processo equiva­
le a uma queda da posição de objeto do fantasma dos pais. É
preciso esclarecer ainda quais as conseqüências disso em ter­
mos da mudança no estatuto do ganho primário auferido pelo
sintoma.
Para tanto precisamos pensar a transmissão não apenas
na sua forma direta e repetitiva mas também pelo crivo inver­
tido da identificação ao traço unário (Einziger Z ug) . Unário

18. Lacan, J. O mito individual do neurót ico . Lisboa: Assírio Alvim, 1987.
19. Dunker, C.l.L. Desejo, pulsão e fantasia. ln: Brauer, J.F. (org.) A crian­
ça no discu rso do o u t ro. São Paulo: Iluminuras, 1994.
1 50 CHR I S TIAN INGO LENZ DUNKER

quer . dizer aqui tanto aquilo que faz uma unidade, em um gru­
p o, uma relação, ou uma comunidade, quanto aquilo que faz
o único, idiossincráti co e novo. Portanto cabe dis tinguir neste
processo o sintoma típico e o sintoma individual, a identifi ca­
ção emp obrecedora e a identificação enriquecedora. Situamos
assim o sintoma como uma forma de alienação do desej o e de
organização familiar mas também como sup orte para a sepa­
ração e subjetivação deste desej o . Um terceiro passo seria pen­
sar o deslocamento desse traço de gozo .
Do amplo conjunto de processos identificatórios e de suas
variantes introjetiva, proj etiva e incorp orativa, há um aspecto
que gostaríamos de des tacar, tendo em vista a identificação
c o m o sintoma, do p onto de vista d a narrativa familiar. Tal
narrativa vem sendo estudada, como operador clínico, de for­
ma a valorizar a sua dimensão de mito, de história, de teoria
(no sentido da teoria sexual infantil) e de romance (no sentido
do romance familiar do neurótico) . Aqui, a identificação cos­
tuma ser p ensada como uma condição necessária à filiação e
conseqüentemente a intergeracionalidade. Filiar-se não é um
processo natural e biologicamente inexorável mas um passo na
constituição do sujeito . Um passo que depende da assimilação
a uma narrativa coletivamente construída e da interiorização
dos seus meios de produção. Isso explica a vertente continuísta
e de sustentação do sintoma, mas deixa de fora a sua verten­
te disrup tiva e separadora. Temos que p erguntar afinal com o
que o suj ei to se identifica, na id entificação ao sintoma, para
entender este segundo aspecto da ques tão .

Fa ntas m a e traço d e g o z o

N o retorno ao fantasma e p osterior reinves timento d e


objetos identificatórios, Lacan nos apresenta duas alterna tivas,
aparentemente contraditórias, que nos podem ser úteis p ara
pensar a identificação diferenciante ao sintoma . Ele afirma por
um lado que a regressão é regressão aos significantes prescri­
tos da demanda do Outro. A regress ã o fixa assim, de forma
narrativa e estrutural, os significantes que coordenam a articu-
DA EST RUTU RA AO SINTO MA 1 51

lação imaginária e simbólica do sintoma. Mas Lacan fala ain­


da de uma terceira incidência da identificação, onde esta recai
sobre o traço de gozo que singulariza o sujeito, o objeto a. Tra­
ta-se aqui de uma identificação ao sinthome, expressão cunha­
da aparentemente para dar forma à solução de gozo expressa
no sintoma. Esta aproximação se insinua na seguinte passa­
gem do Seminário XVI:
Esta família. Não se vê verdadeiramente que parece mos­
trar-nos como uma espécie de relâmpago entre dois postes no
que se refere à função metafórica da família (famille) mesma?
(. . . ) Não é notório no horizonte do campo da neurose que esse
algo é um "isso", em alguma parte do qual o eu (Je) é verda­
deiramente a aposta que se trata no drama familiar, isto é, o
objeto a enquanto liberado? É o que coloca todos os problemas
à identificação. 20
Lacan raramente volta ao tema da família após seu escrito
seminal sobre este tema. 2 1 Nesta p assagem vemos a função
metafórica da família colocada em contraste com o "relâmpa­
go" que a atravessa, ou seja, a aposta que "cria", por assim di­
zer, um sujeito ao supô-lo a p artir do objeto a. A imagem do
relâmpago já aparecera em associação com a metáfora anterior­
mente, 22 indicando o poder criativo da mesma na indução da
significação. Aqui se acrescenta a esta função o papel do objeto
a, pensado no contexto do drama familiar. O ponto marcante
deste fragmento reside, todavia, na afirmação de que esta libe­
ração do objeto a coloca-se como um problema para a identi­
ficação. Considerando-se que o objeto a é um condensador de
gozo e levando-se em conta que a criança nasce não só como
falo para os pais, mas também como objeto a, podemos afirmar
que sua tarefa para constituir a singularidade de seu sintoma

20. Lacan, J. Seminário XVI. De um outro ao Outro, aula 1 8, de 30 de


abril de 1969 - inédito.
21 . Lacan, J. Os co mplexos fa m ilia res (1938) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1987.
22. Lacan, J. (1957). Instância da letra no inconsciente, ou a razão depois
de Freud . In: Escritos . Op. cit.
1 52 CHR I STIAN I NGO LENZ ÜUNKER

depende da desidentificação com este objeto e com a forma tí­


pica que este assume em uma família. Tal desidentificação res­
ponderia teoricamente a descoberta de um gozo não todo
fálico, tal como descrito por Lacan. 23 Em outras palavras, a um
fracasso da falicização propiciada pelo sintoma familiar. Por­
tanto identificação (imaginário), filiação (simbólico) e sexuação
(real) compõem arestas de produção e sustentação do sintoma.
A constituição do sujeito prevê dominâncias alternadas para a
inscrição do sintoma, ao modo de um trançamento.
Observando-se como a noção de gozo vem recobrir par­
cialmente o campo econômico quantitativo da metapsicologia
freudiana, podemos aproximar a segunda vertente freudiana
do sintoma à sua dimensão de gozo e suas incidências no pla­
no do Real. Em outras palavras, o fracasso do sintoma deriva­
ria de sua incapacidade contingencial para gerir ou organizar
o gozo . Supõe-se nesta afirmação que o sintoma realiza esta
organização pois ele fornece um limite ao gozo, localizando-o
em uma forma precisa de prejuízo, desprazer e contravontade.
Supõe-se ainda que o sintoma permite ao sujeito firmar uma
certa posição de resposta diante do Outro e articular um saber
possível sobre o gozo, separando-se assim da passagem ao ato.
O que Freud chamava de sintoma tipo expressa, nesta
medida, uma identificaçã o ao traço de gozo familiar. Alguns
autores, geralmente retomando um texto de Lacan conhecido
como " Duas notas sobre a criança", 24 falam desse processo
como a passagem da identificação ao objeto do fantasma dos
pais para a entrada em uma outra forma de gozo, próprio da
escolha de objeto adolescente ou da vida adulta.
E1?tudiosos da apreensão psicanalítica da família como
Eiguer, 2 5 mas também analistas interessados em grupos como
Anzieu e Kaes têm insistido na noção de interfantasmatização

23. Lacan, J. (1973) . O seminário. Livro XX. Mais ainda . . . Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1 989 .
24. Lacan, J . (1969) . Duas notas sobre a criança . Opção Laca n iana, n . 21 ,
abril de 1 998.
25. Eiguer, A. Um divã para a família . Porto Alegre: Artes Médicas, 1 989,
p . 43.
DA ESTRUTURA AO SINTO MA 1 53

como ponto de encontro dos fantasmas individuais e como


organizador familiar. No entanto o fantasma, nesta tradição, é
pensado muito mais pelo romance familiar e pelas teorias se­
xuais infantis, isto é, mais pela narrativa do que pelo objeto
captador de gozo. Isso dificulta pensar a tensão entre a filia­
ção, simbólico-imaginária e sexuação, como posição diante do
objeto no real. É justamente nesta tensão entre filiação e sexua­
ção que encontraremos os momentos de vacilo ou instabilida­
de de formações sintomáticas específicas e a desidentificação
que lhes é própria.
Concluiremos com um breve retorno à , apresentação clí­
nica deste processo. Podemos agora ler o retraimento e a intro­
versão, típicos do fracasso do sintoma, como uma ruptura da
identificação, sem ao mesmo tempo colocar em cena um novo
traço de gozo. É comum, em pacientes nestas circunstâncias,
um lançamento a certas experiências transgressivas, não ape­
nas como um confronto aos representantes familiares da lei,
mas também como produção de alternativas ao imperativo de
gozo hegemônico em uma dada família ou grupo social. Ocor­
re que nesta situação a cultura ofereça formas para um além­
de-gozo, para um a-mais-de-gozar, deslocando o sujeito de um
sintoma tipo familiar para outro sintoma tipo, agora de pene­
tração social. Neste processo o empobrecimento da vida psí­
quica explica-se pela ruptura com a narrativa onde o sujeito
simbolicamente está inserido e por um esvaziamento de seus
significantes fundamentais. O trabalho de singularização do
sintoma, ou melhor do sinthome, é poupado pela identificação
às formas prontas do sintoma prescritas pela cultura. O gasto
psíquico necessário para a produção e sustentação do sintoma
é assim substituído por outras formas de mal-estar e pela pro­
liferação de sintomas transitórios. O retraimento evolui assim
para a apatia e indiferença. A narrativa do conflito evolui para
a narrativa do consumo ou para a descrição de experiências.
Na pesquisa psicanalítica esta transformação discursiva,
verificada entre os analisantes, traduz-se por um declínio no
interesse pelo tema do sintoma. A angústia, as depressões, os
traços de caráter e as diversas variedades da inibição acabam
por dominar o interesse do clínico. A psicose, a perversão e os
1 54 CHRISTIAN ( NGO LENZ DUNKER

quadros borderline são mobilizados para auxiliar este processo.


O aumento do interesse por contextos como a cultura, a família
e as instituições são a outra face deste movimento. Dizia-se na
Viena da época de Freud que a psicanálise, na verdade, produ­
zia os sintomas que pretendia curar. Talvez devamos voltar,
pelo avesso, à fecundidade dessa ironia.
PART E Ili

Q UAD ROS C L ÍN I COS


NEUROSE DE CARÁTER

Se se tiver caráter, tem-se também sua experiência


típica que semp re se repete.
Nietzsche

O problema relativo às causas precipitantes da neurose


reaparece, de forma lateral, no artigo "A disposição à neuro­
se obsessiva". Nele é retomada a oposição entre causas cons­
titucionais e causas contingenciais, em face de um caso clínico
que aparentemente contraria a tese do ponto de fixação. Tra­
ta-se de uma paciente, inicialmente com diagnóstico de histe­
ria de angústia e que " ... subitamente transformou-se numa
neurose obsessiva do tipo mais grave" . · 1
A paciente fora uma esposa feliz até que descobre a im­
possibilidade de ter filhos com seu marido, seu único objeto de
amor. Reage a esta decepção com a histeria de angústia, fruto
do repúdio às fantasias de sedução, onde o desejo de ter um
filho encontrava expressão. O marido, compreendendo a ori­
gem de tal estado, acaba por fracassar, pela primeira vez, nas
relações sexuais. Ela interpreta tratar-se de uma impotência
permanente e um dia antes do retomo do marido de uma via­
gem produz os primeiros sintomas obsessivos. Tais sintomas
referiam-se a formações reativas (compulsão por limpeza) e

1 . Freud, S. (1913). A disposição à neurose obsessiva. ln: OC. Op. cit.,


p. 401 . v. XII.
1 58 C H RISTIAN INGO LENZ DuNKER

medidas protetoras, contra danos graves que ela supunha ser


capaz de causar a outras pessoas.
O argumento central deste escrito é a introdução da orga­
nização anal-sádica na série que vai do auto-erotismo até o
amor de objeto, passando pelo narcisismo. No entanto Freud
detém-se igualmente na alteração de caráter produzida na es­
fera da mudança de sintomas. Ele afirma que na formação do
caráter estão ausentes as operações de fracasso do recalcamen­
to e retorno do recalcado. Em outras palavras, 0 c.aráter, servi­
ria de modelo para um hipotético recalcamento bem-sucedido.
Uma saída onde a tarefa de substituição do recalcado por su­
blimações e formações reativas se efetivaria.
Essa idéia é confirmada em " Esboço de psicanálise",
quando se afirma um tripé e simultâneo destino para a pulsão:
1 ) conservação dos investimentos libidinais infantis;
2) acolhimento dentro da função sexual como atos preparató­
rios ou de apoio, ou;
3) " ... exclusão da organização e completo sufocamento (recal­
que) ou experimentam uma aplicação diversa dentro do eu,
formando traço d e caráter". 2·
Chegamos assim à idéia de que as causas precipitantes,
neste caso, a decepção com a ausência de filhos e a impotên­
cia do marido, replicam transformações em nível do caráter, si­
multâneas ao desencadeamento dos sintomas, mas distintas
des tas. Nos dois casos há regressão. Na vertente do caráter
esta se resolve "suavemente", sem conflito e sem formação de
sintomas. A paciente torna-se irritável, despótica, mesquinha
e sovina, sinalizando um acréscimo no caráter anal-sádico, em
que pese o fato de que ela não se queixe disso.
Já em "Caráter e erotismo anal"3 Freud descrevera o cará­
ter anal em termos de ordenação, retenção e persistência. Aqui
os traços de caráter são deduzidos por meio de uma análise
lingüística de certas circunstâncias envolvendo a pulsão anal.
Os traços de caráter que permanecem são definidos como
"continuações inalteradas de pulsões originárias, sublimações

2. Freud, S. (1938). Esboço de psicanálise. ln: OC. Op. cit., p. 153. v. XXIII.
3 . Freud, S. (1 908) . Caráter e erotismo anal . ln: OC. Op . cit. v . VIII.
Ü U A D RO S C L Í N I C O S 159

destas ou formações reativas contra elas" 4 . No entanto a aná­


lise realizada por Freud destes traços se apóia nas mesmas re­
gras da combina tória significante explorada por Lacan. Por
exemplo, a polissemia da expressão Ordentlich, ordenação, mas
também metódico, honrado, decente.
O que interessa destacar é o vínculo instável assinalado
entre os motivos que levam à associação do caráter anal à neu­
rose obsessiva. Aquilo que posteriormente veio a se tornar
uma espécie de paradigma clínico para a fenomenologia des­
ta neurose se apóia, freudianamente, em justificativas bastante
frágeis. O mesmo se poderia estender à relação entre a histe­
ria e o falicismo ou a certas formas de psicose e à oralidade.
Sabe-se que a consistência desta aproximação deve-se so­
bretudo ao trab alho de Abraham que procurou sistematizar
uma psicop a tologia psicanalítica a partir da seqüência dos
pontos de fixação . Tal aproximação b aseia-se em um duplo
movimento: utilizar a noção de organização pulsional como
equivalente genérico à de caráter e em seguida centralizar o
processo etiológico em torno do ponto de fixação. Este movi­
mento está na raiz da transformação da teoria psicanalítica em
uma teoria geral da personalidade, sustentada por uma certa
visão cronológica de desenvolvimento.
A noção de caráter, assim como a de tipos libidinais, de­
senvolvida em 1 931, é de utilidade bastante reduzida se a pen­
samos como resíduo e p recursor d a noção psicológica de
personalidade. Freud alerta em diversos momentos que a psi­
canálise tem muito pouco ou nada a dizer sobre o caráter, ape­
s a r de ind i c a r p o s s íveis linhas de p es quisa abertas neste
campo por seus discípulos, notadamente Ferenczi. Para ele a
análise do caráter deveria ser subseqüente à análise dos sinto­
mas e seria imprescindível para a realização do término do tra­
tamento psicanalíti c o . Posteriormente Rei ch, Alexander e
Fenichel desenvolveram este p onto de modo a introduzir a
idéia de uma "neurose de caráter" e de uma "análise do cará­
ter" que lhe seria consoante.

4 . Idem, p . 1 58.
1 60 CHRISTIAN INGO LENZ ÜUNKER

É importante lembrar que Reich escreve "Análise do ca­


ráter" em 1 932, momento em que ainda está à frente do Semi­
nário s obre Técnica P s i c analítica realizado na Sociedade
Psicanalítica de Viena. O seu problema clínico fundamental
reside justamente no início da análise, quando essa se depara
com traços de caráter que serão fortes fontes econômicas para
a resistência. Contra Alexander e Glover, que distinguiam neu­
rose de caráter e neurose de sintoma, Reich argumentará que
a análise deve começar pelo caráter e em seguida dirigir-se aos
sintomas uma vez que assim o trabalho clínico seria facilitado
e não por uma diferença diagnóstica entre uma e outra forma
de neurose. Contra Ferenczi o argumento levantado por Reich
é de que a análise do caráter deve preceder e não suceder a
análise do sintoma, isso p or que este ocupa um lugar crucial
na instalação da transferência e não apenas na sua dissolução.
Finalmente, contra Nunberg, Reich afirmará que a compulsão
à repetição reside e se atualiza no próprio caráter, não sendo
apenas um efeito secundário das formações de sintoma. Vê-se,
por este breve p osicionamento, que Reich talvez tenha sido o
primeiro pós-freudiano a reconhecer a crucial importância clí­
nica do gozo na abertura do tratamento psicanalítico.
Os traços de caráter são definidos de forma comparativa
em relação aos sintomas da seguinte maneira:
a) há uma falta de insight sobre a doença;
b) exibem racionalizações completas e eficazes;
c) não articulam um pedido de mudança, alívio ou trans­
formação e freqüentemente são justificados por enunciados
como: "É assim mesmo que eu sou" . 5
Reich oferece como exemplos para traços de caráter a ti­
midez, ataques violentos de ira, negligência flagrante, inclina­
ção p ara a mentira, b e b i d a , ostentação, enfim, condições
psicológicas que p odem marcar um "estilo de vida" ao qual o
eu se identifica e se aliena. Um estilo de gozo, p ortanto, do
qual o sujeito não se queixa. Quando o faz, a queixa é geral­
mente indireta, decorrente de sua inviabilidade ou dos trans­
tornos relacionais secundariamente produzidos . De fato, nesta

5. Reich, W . (1932) . A nálise do ca ráter. São Paulo: Martins Fontes, 1 987.


Ü U A D RO S C L Í N I CO S 1 61

forma de neurose, os próprios sintomas assumem a força de


signos de realidade para o sujeito e lhe aparecem como teste­
munho de algo inamovível.
A neurose de caráter se traduz, pois, por entraves difusos
nas atividades da pessoa, por impasses imaginários nas rela­
ções com a realidade. Ela é tanto mais pura quanto mais sub­
jetivamente integrados ao sentimento de autonomia pessoal
estiverem os entraves e impasses. 6
Portanto o ponto central dos sintomas de caráter é sua as­
similação ao eu, em particular a forma de identificação que o
permite apreender-se separado, independente e livre em rela­
ção à realidade com a qual se debate. Fenichel,7 em um dos tex­
tos clínicos mais lidos na história da psicanálise, dedica-se
extensamente à questão do caráter. Este aparece sucessivamen­
te cómo um modo de relação (tipo sublimado e tipo reativo),
uma forma de defesa contra a angústia (personalidade neuró­
tica), um estilo sexual (caráter frígido), um aspecto da pulsão
(traço uretra!, anal, fálico) e como uma forma abreviada ou in­
cipiente de estruturas clínicas (caráter compulsivo, cíclico, es­
quizóide). Contra esta dispersão do conceito seria pertinente
pensar que o caráter é apenas a intrusão do gozo na esfera do
eu (moi). Em vez de mapear todas as incidências de gozo pos­
síveis bastaria pensá-lo como exterioridade íntima do eu.
A resistência originada pelo caráter manifestar-se-ia mui­
to mais na forma ou no modo como o paciente fala do que no
tema ou assunto à que se dedica. Os argumentos de Reich es­
tão sempre subsidiados em uma estratégia clínica e acabam
por conduzi-lo à descrição minuciosa de tipos caracteriais (fá­
lico-narcisista, compulsivo, masoquista e histérico).
Penso que a atitude freudiana sobre esta questão ainda
parece a mais lúcida. Em vez de formular uma teoria geral do
caráter como subproduto teórico do desenvolvimento na esfe­
ra das pulsões do eu, Freud analisa circunstâncias pontuais

6. Lacan, J. (1948) . Complexos fam iliares. Op. cit., p . 85.


7. Peniche!, O. Teoria psicanalítica das neu roses -fundamentos e bases da dou­
trina psicanalítica. São Paulo: Atheneu, 1 998.
1 62 C H R I ST I A N I N G O L E N Z Ü U N K E R

onde o caráter tem urna função no desencadeamento da neu­


rose. Em vez de modificar a teoria do recalcamento ele incor­
pora u rn a de suas possibilidades em termos de destino
secundário para a pulsão. Vemos assim que a teoria do cará­
ter em Freud, longe de constituir o esboço de urna teoria geral
da personalidade, se mostra útil para aprofundar a investiga­
ção clínica sobre certos aspectos específicos da neurose.
Neste sentido a preocupação de Reich com pacientes ade­
ridos a urna forma particular de gozo mostra-se convergente
com a tese de que o desencadeamento da neurose implica ins­
tabilidade do sintoma e do caráter. Se retirarmos a idéia de
caráter da sua descrição psicológico mas retivermos sua im­
portância em termos do anelamento de gozo precisaríamos es­
tabelecer qual a relação entre o gozo no sintoma e o gozo no
caráter. Em outras palavras, qual a relação, no desencadea­
mento da neurose, entre dois processos distintos mas articulados:
a) regressão ao ponto de fixação, conflito e produção de
sintomas;
b) regressão a urna organização pulsional secundária, au­
sência de conflito e modificação do caráter.
Esta segunda alternativa encontra-se desenvolvida no ar­
tigo "Alguns tipos de caráter dilucidados pelo trabalho psica­
nalítico" . 8 Nele Freud isola três tipos de caráter de interesse
para a psicanálise: as exceções, os que fracassam quando triun­
fam e os que delinqüern por sentimento de culpa.
As exceções são sujeitos caracterizados por terem atraves­
sado circunstâncias de privação e sofrimento diante da qual
pleiteiam isenção para novos encargos que a vida exige. Enten­
dem que urna providência particular deveria protegê-los das
necessidades e acontecimentos desagradáveis que o futuro
lhes reservou. Os priviiEégfos que sua• condiç_ão. de víitiJma lhes
confere, quando contrariados;- tomam parte· ativa no desenca­
deamento da neurose, ou seja, quando a demanda por urna
· nova inscrição igualitária no campo do Outro se faz presente.

8. Freud, S. ( 1 9 1 6) . Alguns tipos de caráter dilucidados pelo trabalho psi­


canalítico. ln: OC. Op . cit. v. XIV.
Q U A D ROS C L ÍNICOS 1 63

Freud fornece dois exemplos, um literário e o outro clínico,


onde este dano passa pela deformação do corpo. Sua hipóte­
se é de que este tipo de caráter possuiria certa ligação com a
condição feminina e a interpretação infantil de sua própria cor­
poralidade. Ele resume da seguinte forma o dito de Ricardo III,
de Shakespeare, como enunciado fundamental desta formação
de caráter:
A na tureza cometeu comigo uma grave inj ustiça negan­
do-me a bela figura q ue faz os homens serem amados. Tenho
direito a ser uma exceção, a passar por cima dos imped imen­
tos q ue detêm aos outros. E ainda me é lícito exercer a injus­
tiça, pois ela foi cometida comigo. 9

Os que fracassam q uando triunfam correspondem a outro


tip o de caráter compreensível à luz do desencadeamento da
neurose. Esta ocorre quando se passa um êxito indubitável na
vida do sujeito. Quando um desejo antigo se vê figurado por
uma situação incontornável. Dois exemplos: a mulher aventu­
reira e insubmissa que encontra finalmente um protetor ama­
do que decide tomá-la em casamento. Diante disso surge uma
série de atos que visam desfazer esta p ossibilidade, suposta­
mente tão esperada. É tomada por ciúmes absurdos, descuida
dos afazeres da casa, indispõe-se com a família do consorte,
impede seu trabalho e finalmente "contrai uma enfermidade
psíquica incurável" 1 º. O segundo exemplo refere-se a um pro­
fessor universitário que esperou muito tempo para suceder seu
mestre na cátedra. Quando isso finalmente acontece esse cai
em melancolia e torna-se inabilitado para o trabalho.
Freud afirma que em ambos os casos "o desencadeamen­
to da enfermidade segue-se à realização de desej o e aniquila o
gozo (Gen uss) deste". 1 1 Ocorre que uma renúncia ( Versagung)
interior não produz efeitos até que o objeto que supostamen­
te a sustenta seja trazido à cena. Novamente Shakespeare, ago­
ra nas palavras de Lady MacBeth, é chamado para fornecer o

9 . Idem, p . 322.
10. Idem, p. 324.
1 1 . Ibidem.
1 64 C H R I ST I A N I N G O L E N Z Ü U N K E R

epít,eto para a situação: "Nada s e ganha, a o contrário, tudo se


perde, quando nosso desej o se cumpre sem contentamento :
vale mais ser aquilo que destruímos d o que por destruição vi­
ver em duvidosa alegria" . 12
O terceiro tipo de caráter abordado por Freud, no texto
em questão, diz respeito aos que delinqüem por sentimento de
culpa. Trata-se de suj eitos onde a realização de certos atos
transgressivos responde ao alívio da consciência de culpa. Alí­
vio que se interpõe ao martírio do desej o . A punição aparece
aqui como algo capaz de articular certos impasses do desej o.
Em linhas gerais, Freud reduz tal impasse aos " '7 randes pro­
pósitos delituosos", derivados do complexo de Edipo. Tanto
neste caso como no anterior Freud parece delinear clinicamen­
te um problema que só receberá apreciação direta posterior­
mente, o u sej a , a i n fl exão da c o ns ciência m o r a l o u d o
superego, como instância que aniquila o desejo com seu impe­
rativo ao gozo .
As três formas de caráter descritas por Freud apresentam
vários traços que permitem aproximação com o tema do gozo
e esp ecificamente com o mais de gozar . Tanto as exceções
quanto os que fracassam quando triunfam e os que delinqüem
por sentimento de culpa colocam em cena a ultrapassagem de
um limite . Tal ultrapassagem comporta sempre um paradoxo
ou contradição, por exemplo, fazer-se a exceção é uma forma
de constituir a regra como limite. Delinqüir é uma forma de ir
além da lei como limite, mas ao mesmo tempo reafirmá-la pela
culpa. Triunfar é transpor um limite estabelecido pela própria
imaginarização de um ideal. As situações trazidas por Freud
mostram por outro lado a clara antinomia entre gozo e dese­
jo. Essa antinomia permite sugerir formas invertidas das situa­
ções propostas por Freud sem prej uízo da sua estrutura, por
exemplo, os que triunfam ao fracassar, os que se fazem repre­
sentantes da regra, ou os que se culpam por delinqüir. O gozo
é similarmente projetado em uma situação libertadora: a delin­
qüência, a igualdade, o triunfo . No entanto nada mais trágico
do que a atualização desse estado para a ruína do desej o.

12. Idem, p . 326.


Q U A D RO S C L Í NI C O S 1 65

O caráter aparece aqui não como um atributo ou sinôni­


mo da personalidade mas como um conjunto repetitivo de en­
contros que e xpressa uma certa posição da demanda e um
m o d o de g o z o . C o m o m o s tr a r a m a u tores como Sene tt, 1 3
Politzer 1 4 e antes ainda Weber, o cará ter nada mais é d o que
uma narrativa. Sua transmissão, construção e dissolução obe­
decem, portanto, a regras da trama narrativa e de seus contex­
tos de referência: o trabalho, o amor, a filiação, etc. Isso explica
a associação feita por Lacan entre o c a r á te r e a estrutura da
famíl ia na q u a l o sujeito cresceu. 1 5 lsso combina ainda com a
curiosa prep onderância de sintomas na esfera do caráter em
pacientes próximos da velhice . Amb as as situações fazem su­
por uma razoável estabilidade do contexto narrativo que regu­
la a subjetivação.
Ao supor uma tipologia que pretende isolar os persona­
gens de seus contextos, conferindo-lhes uma identidade trans­
cendental, nada se faz além de reter certos ciclos narrativos ig­
norando suas condições de produção. Por exemplo, o DSM-IV 16
nos oferece um roteiro com dez tipos de transtornos de perso­
nalidade divididos em três grupos : A (paranóide, esquizóide,
esquizotípica), B (anti-social, borderlíne, histriônica, narcisista)
e C (esquiva, dependente, obsessivo-comp ulsiva) . A maior
parte dos casos, como se vê, parece indicar apenas formas mais
b randas dos grandes quadros clássicos. São maneiras descriti­
vas de reter o invólucro formal do sintoma tomando como re­
ferente as narrativas culturais hegemônicas .
Um possível exemplo da relação entre neurose de caráter
e a narrativa s ocial hegemônica pode ser suposto na figura da
mãe da paciente de Freud conhecida como Dora. Freud, em
uma das poucas referências feitas à mãe de Dora, diz que ela
sofria de uma psicose da dona da casa . Vej amos como ele descre­
ve o caso : " . . . o cup ava todo o dia em fazer limpar e manter

13. Senett, R. A corrosão do ca ráter. São Paulo: Record, 1999.


14. Politzer, G. Crítica dos fu ndamen tos da psicologia . Campinas: Unicamp,
1 998.
15. Lacan, J . (1948) . Complexos fa milia res . Op . cit.
16. DSM-IV. Porto Alegre: Artes Médicas, 1 995.
1 66 CH R ISTIAN I NGO LENZ ÜUNKER

limpos, a casa, os móveis e utensílios, chegando a extremos


que impossibilitavam seu uso e seu gozo". 17
Não se trata de uma neurose obsessiva, acrescenta Freud,
pois a mãe de Dora parecia ignorar completamente sua enfer­
midade. Não reconhecia tais atos como decorrentes de um
pensamento intrusivo qualquer, ou queixava-se dos mesmos.
Não se trata também, propriamente falando, de uma psicose,
mas de um estilo de vida, que como observa Freud, encontra­
se freqüentemente entre outras mulheres. Os pacientes de hoje
permitem estender esta noção a modos específicos de inserção
no trabalho, no lazer e no cotidiano da vida amorosa. Modos
onde o personagem social ao qual o eu se identifica torna-se
uma espécie de serviçal autônomo, preso a uma maneira espe­
cífica de produzir o a-mais-de-gozar.
No texto Os complexos familiares 1 8 Lacan sugere que o de­
clínio social da imago paterna tem como uma de suas causas
a separação entre a função sublimatória e a função repressora
da instância paterna. Isto é, na medida em que as narrativas
culturais hegemônicas prescindem da sobreposição entre o
agente da repressão (o pai interditar) e o veículo da sublima­
ção (o pai como suporte de ideais), há uma disjunção entre a
prescrição e a interdição do modo de gozo. É interessante que
na continuação do texto, Lacan afirme que essa disjunção pro­
vavelmente trará consigo uma transformação da hegemonia
do quadro histérico em alguma forma de complexo· caracterial.
Tudo se passa como se a neurose de caráter fosse uma espécie
de herdeira de um confli to absorvido. Generalizando esta
idéia é como se o paradigma clínico de uma geração preceden­
te se transformasse em uma modalidade de caráter na geração
subseqüente. Em outras palavras, é como se a face prescritiva
da lei se intercalasse com a face proibitiva.
É, portanto, no movimento cíclico da demanda, isolado
por Freud em oposições do tipo: fracasso e sucesso, crime e

1 7. Freud, S. (1 905). Fragmentos da análise de uma caso de histeria. ln:


OC. Op. cit., p. 19. v . V.
18. Lacan, J. (1948) . Os comp lexos familiares. Op. cit.
Q UA D ROS C L I N I C OS 1 67

castigo ou exclusão e inclusão, que o caráter articula a relação


com a falta de objeto. Isso converge com a apreciação de Lacan
sobre o caráter na tradição que vai de Ferenczi a Balint:
O caráter controla as relações do homem com seus obje­
tos. O caráter significa sempre uma limitação, mais ou menos
extensiva, das possib ilidades de amor e ódio. O cará ter signi­
fica pois uma limitação da capacidade para love and enjoy men t,
para o amor e alegria . A dimensão da alegria, de grande alcan­
ce, supera a ca tegoria de gozo de um modo que seria p reciso
destacar. ( . . . ) Balint pensa que a experiência analítica propor­
cionará mais elementos sobre este ponto. Por minha parte, me
inclino a pensar assim, na condição de percebermos que a aná­
lise pode modificar p rofund amente o caráter. t 9

Vemos aqui como o caráter liga-se tanto à dimensão


regulativa dos afetos, quanto à relação de objeto, no sentido
em que esta está mediada pela demanda. Resta ainda saber
como a análise transforma o caráter: através de uma ação di­
reta ou indireta sobre ele?
Na seção III de "O eu e o isso", Freud parece ter encontra­
do a forma final para a sua teoria do caráter. Partindo do pro­
blema representado pela identificação, mais especificamente
do seu papel na melancolia, Freud afirma que o caráter é "uma
sedimentação dos investimentos de obj eto resignados
(versagenen), contendo a história das eleições de objeto" . 20 Tal
sedimentação depende da resistência que regula o acolhimen­
to ou a recusa destes investimentos. Resistência (Resistenz) não
se refere aqui à resistência ( Wiederstand), no sentido clínico, ar­
ticulável à transferência, mas a uma dessexualização da meta
sexual possível a partir da ereção do objeto no eu. Por isso po­
demos dizer que toda neurose de caráter é, no fundo, uma for­
mação narcísica.
Essa retenção narcísica do objeto perdido, ou resignado,
através dessa identificação formadora do caráter justifica, de

1 9 . Lacan, J. O seminário. Livro I. Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar, 1 986, p. 235.
20. Freud, S. ( 1 923) . O eu e o isso. ln: OC. Op . cit., p . 38 . v . XIX.
1 68 C H R ISTIAN I N G O LENZ ÜUNKER

certa maneira, a afirmação de Lacan de que o eu possui a es­


trutura de um sintoma. Ora, essa tese é formulada no contex­
to esp ecífi c o d e ap recia ç ã o das i d é i a s d e Rei ch : " E
submetamos a ela a chamada análise d o caráter. Ela é expos­
ta como baseada na descoberta de que a personalidade do su­
j e i to es tru tura-s e c o m o o s i ntoma que ela s e n te c o m o
estranho" . 21
Recusando a mistificação do sujeito e a redenção orgásti­
ca, que orienta especialmente o final da teoria de Reich, Lacan
valorizará substancialmente o problema por ela colocado e a
pertinência de suas conseqüências clínicas. Em pelo menos três
passagens Lacan afirma que Reich cometera apenas um erro
na sua teoria sobre o caráter, a saber, supor que a armadura ou
couraça (character armour) possui urna função defensiva, e não
de "arrnaria". 22 A idéia lacaniana do caráter corno um depósito
de armas, estrutura imaginária que se depreende do sintoma,
e do qual é uma espécie de avesso, é acrescida ainda da reco­
mendação clínica de que é preciso "sintornatizar" os traços de
caráter, não porque isso represente urna ação contra a defesa,
mas porque isso colocaria em cena o traço que marca a signi­
ficação da pulsão de morte para o sujeito. Em outras palavras,
porque isso coloca o gozo em questão.
O surpreendente vínculo entre um aspecto específico da
etiologia das neuroses, sua causa precipitante, e as esporádi­
cas, porém insistentes, incursões de Freud no campo do cará­
ter, se vê confirmado no artigo "Tipos libidinais" . 23 Já na esfera
da segunda tópica, postula-se a existência de três tipos : o eró­
tico, o compulsivo e o narcisista. O primeiro se define pela ine­
quívoca ligação c o m a d imensão amorosa: ser amado e a
angústia frente à perda do amor são as figuras elementares
deste tipo. No caso do tipo compulsivo, a singularidade pas­
sa pelo lugar central ocupado pelo supereu e pela consciência
moral. Finalmente o tipo narcísico se apresenta como urna

2 1 . Lacan, J. Varia ntes do t r a t a me n t o p a d r ã o . l n : Escritos. Op. cit.,


p. 343.
22. Idem, p. 344.
23. Freud, S. (1931 ) . Tipos libidinais. ln: OC. Op. cit. v . XXI.
QUAD ROS C L Í NI C O S 169

prontidão para a atividade, incluindo-se de forma predomi­


nantemente ativa na vida amorosa. Após considerar breve­
men te as vicissitudes envolvidas nos tipos mistos Freud
pergunta qual seria o papel destas configurações na etiologia
da neurose. Lança então uma possível aproximação entre o
tipo erótico e histeria, bem como do tipo compulsivo com a
neurose obsessiva e conclui esse pequeno escrito, perguntan­
do sobre o p apel dessas disposições de caráter no "ocasiona­
mento da neurose", e mais especificamente em rela ção às
formas de renúncia (Versag ungen) envolvidas.
Admitindo-se a pertinência dessa indicação freudiana po­
demos supor que o desencadeamento da neurose, em que pese
o papel da sua causa precipitante, poderia ser pensado como
uma ruptura des ta identificação formadora do caráter. Tal
identificação confere certa estabilidade ao sintoma, tornando­
o um meio de gozo viável. Se essa identificação formadora do
caráter é constituída por objetos resignados, sua ruptura impli­
cará redistribuição da libido, o que constitui a condição econô­
mica para a formação de novos sintomas.
Por este raciocínio somos levados a concluir que a neuro­
se de caráter é composta por um estado preliminar ao sintoma,
insuficiente por si só, p ara caracterizar uma estrutura clínica.
É neste sentido que Lacan fará a seguinte observação sobre um
artigo de Margareth Litle dedicado ao tema das neuroses de
caráter:
. . . os sujeitos que ela define como uma terceira classe, neuro­
se de caráter ou personalidade reativa, como queiram, isto que
Alexander definiu como neuro t ic character, em suma, tudo
aquilo em torno de que se elaboram tão problemáticas imita­
ções e classificações, quando, na realidade, não se trata de uma
espécie de sujeito, mas de uma zona de relação, a que eu de­
fino a qui como acting-ou t . . . 24
Tratar-se-ia de um acting-out continuado cuja caracterís­
tica transferencial mais aguda já havia sido indicada por Reich:

24. Lacan, J. O seminário. Livro X. A angústia, lição de 30 de janeiro de


1 963, p. 152.
1 70 CH R I S TIAN I NGO LENZ Ü UNKER

impassibilidade, apatia ou indiferença às interpretações, sen­


sação de que o analisante simplesmente não é tocado pela pre­
sença ou pelas intervenções do analista e de que a defesa não
é, de qualquer modo, abalada. Nas três lições do Seminário
sobre a Angústia em que o artigo de Margaret Litle é comen­
tado e discutido, vai se precipitando a idéia de que a chave
para a superação desta situação reside na resposta autêntica e
inesperada a este encapsulamento. Isso que Margareth Litle
chama de resposta total do analista às necessidades de seu paciente
é traduzido por Lacan nos termos da aparição do desejo de
analista para além da atitude de "amável benevolência" suge­
rida por Freud. Mais precisamente tratar-se-ia, na suspensão
da neurose de caráter, de uma recusa calculada do pacto ima­
ginário proposto por essa forma de atuação. Ou seja, uma vi­
rada decisiva que aconteceria em toda análise, quando:
. . . o analista, enchend o-se de coragem, em nome da ideologia,
da vida, do real, do que queiram, faz d e qualquer mo d o a i n ­
t e r v e n ç ã o m a i s s i n g u l a r, e q u e d e v e s e r s i tuada como d e ­
c i s i v a em r e l a ç ã o a e s ta p e rs p e c t i v a q u e e u c h a m a r e i d e
sentimen tal . 25

Podemos supor que a intervenção de Freud no caso do


Homem dos lobos, estipulando um tempo para o final do tra­
tamento, possui este objetivo clínico e expressa claramente um
limite por parte do analista. Como observou Lacan,26 tal pacien­
te padeceria de uma neurose de caráter, bem como de uma
neurose narcísica, o que constituiria a fonte fundamental das
dificuldades no tratamento.
O efeito esperado desta intervenção é introduzir a falta do
lado do analista. Por isso a importância conferida por Marga­
reth Litle, e por uma série de outras autoras, na presença da
"pessoa real do analista", na autenticidade afetiva desta inter­
venção e no algo a mais exigido do analista nestas circunstân­
cias . É preciso salientar que a intervenção decisiva, sugerida

25. Idem.
26. Lacan, J. O seminário. Livro I. Os escritos técn icos de Freud. Op. cit., lição
de 1 9 de Maio de 1 954.
QUADROS C L ÍN I C OS 1 71

por Lacan e recolhida na forma de exemplo do próprio caso re­


latado pela psicanalista inglesa contraria o sentido comum da
máxima apresentada por Litle para definir a sessão analítica,
ou seja: "Pessoa com algo para compartilhar encontra pessoa
que precisa" (Person-with-something-to-spare meets person­
with-needs).
O verbo to spare como salienta Piera Auglanier, 27 possui
uma significação muito particular em inglês: algo que se pode
dispor, que se tem a mais, que se poderia guardar, trocar ou
dividir. Ou seja o encontro analítico, por esta definição, seria
uma troca entre o "a mais " do analista com o "a menos" do
analisante. Um cálculo do gozo cuja soma é zero. Em oposição
a essa tese, mas em concordância com sua expressão clínica -
na neurose de caráter - o assinalamento do fracasso dessa
equivalência seria condição necessária para a instabilização do
caráter, o que propiciaria a entrada em análise. O efeito clíni­
co desta instabilização é a angústia, gerada pela experiência
crítica de que o Outro pode faltar. É nesta situação que se po­
derá passar do caráter ao sintoma, desencadeando assim a
neurose, mas agora como neurose de transferência.

27. Idem, p . 1 77.


NEUROSE TRAUMÁTICA

Há u m nome que nos estremece


Como quando se corta a flor
E a árvore se torce e padece
Cecília Meireles

A noção de trauma está intimamente ligada à própria ori­


gem da concepção freudiana de neurose. Já em "Estudos sobre
a histeria", e nos textos adjacentes, vigora uma tentativa de es­
pecificar a incidência e a natureza da situação traumática. Os
tipos clínicos da histeria - hipnóide, de retenção ou de defesa,
são em última instância modulações da incidência do trauma.
Elas reúnem três diferentes processos e a diferença entre
Breuer e Freud reside justamente a qual processo atribuir pri­
mazia: a alteração da consciência (histeria hipnóide); o cercea­
mento ou suspensão da ação específica (histeria de retenção);
ou o recalcamento com deslocamento da soma de excitação
adstrita ao complexo representacional (histeria de defesa) . So­
mente no último caso a natureza sexual do trauma podia ser
amplamente defendida.
A teoria da sedução traumática concebia a sexualidade
como uma aparição exterior, intrusiva e efetivada em um mo­
mento onde o aparelho psíquico não seria capaz de dominar
tamanha carga de excitação. O trauma implicava portanto um
instante onde algo induzia o sujeito ao pavor (Schreck) . Este
pavor decorria da ausência de ansiedade expectante (ansieté)
que pudesse mobilizar a atenção e a inibição necessária para
a tramitação da experiência. Paralelamente o excesso quanti-
1 74 C H R I STIAN I NGO LENZ 0 U NKER

tativo assim produzido impediria que o traço-mnêmico deri­


vado encontrasse sua ligação com os trilhamentos, responsá­
veis por sua simbolização. O trauma se faria assim em dois
tempos, por retroação (nach traglich), induzindo uma amnésia
e a formação de representantes simbólicos: os sintomas.
Com a descoberta da sexualidade infantil, da importância
da fantasia e com a metapsicologia do desejo, Freud pode realo­
car a função do trauma. Ele passará a fazer parte da constitui­
ção genérica da neurose, como sucedâneo das "experiências
infantis". No entanto as duas categorias defendidas por Breuer
como modelos clínicos para a histeria, bem como a contingên­
cia descritiva representada pelo trauma não foram abandona­
das por Freud. Ele parece referir-se a isso pela expressão
"neurose traumática".
No artigo "Análise terminável, análise interminável " ,
Freud retoma esta noção d e forma assertiva. O sucesso tera­
pêutico da psicanálise depende de vários fatores, mas a exis­
tência de uma neurose traumática indica, em geral, um bom
prognóstico. Não deixa de ser surpreendente essa retomada de
uma das noções inicias da psicanálise neste que é um dos tex­
tos testamentários de Freud. A retomada da importância do
trauma, devemos lembrar, liga-se à virada dos anos 1920. Um
dos motivos para postular a existência da pulsão de morte é
justamente os fenômenos que se ligam à neurose traumática.
Aqui Freud usa como modelo o trauma no adulto, tal
qual aparece, por exemplo, em uma das variantes clínicas da
neurose traumática, conhecida como neurose de guerra. Nes­
ta situação o sujeito reage ao impacto do encontro traumático
com sonhos de repetição, com um retorno intrusivo de ima­
gens, sentimentos e pensamentos ligados à cena do trauma. O
paciente não pode esquecer o que sucedeu e lhe atormenta so­
bretudo o retorno fragmentário desta lembrança.
Seguindo o esquema proposto em "Recordar, repetir e
elaborar" e aprofundado pelo exemplo da repetição pelo jogo
e pelo brincar, analisado em "Além do princípio do prazer",
pode-se argumentar que a. repetição mnêmica do trauma é
uma forma de elaborar o acontecido. Repetir, não apenas em
vez de lem brar, mas repetir para es q uecer.
Q UADROS C L ÍN I COS 1 75

Cabe mencionar que o retorno à questão do trauma, nos


anos 1 920, deve muito às novas intelecções freudianas sobre a
angústia, realizadas neste período. A angústia deixa de ser
apenas um efeito do recalcamento mal-sucedido (histeria de
angústia) ou a expressão psíquica de um excesso libidinal
(neurose de angústia) para ser a causa do recalcamento e a
matriz básica dos afetos. Em "Inibição sintoma e angústia" fica
clara a importância teórica conferida por Freud àquilo que se­
ria o "clichê elementar" da angústia para cada sujeito. Uma
vez que este "arquétipo" da angústia seria reatualizado em
cada nova experiência, e uma vez que este é o modelo propos­
to para o funcionamento de todos os afetos, a experiência do
trauma originário torna-se crucial para as pretensões clínicas
da psicanálise. Poder-se-ia dizer que se há três formas de an­
gústia: a angústia sinal, a angústia desenvolvida (própria da
neurose) e a angústia realística, deveria haver correlatos des­
sa divisão para todos os outros afetos.
É neste clima de provocação teórica lançado por Freud
que Otto Rank formulará sua teoria sobre o trauma do nasci­
mento, estabelecendo essa experiência como imagem modelo
para a angústia. Apesar de frontalmente descartada por Freud,
após um breve período de hesitação, a idéia fará prolongamen­
tos em diferentes tradições psicanalíticas. A procura pela ima­
gem de referência para o trauma explorou diferentes aspectos
na esfera do infantil: separação, desamparo (Hilflosigkeit), pas­
sividade (masoquismo originário), ou fragmentação da ima­
gem corporal (corps morcelé).
Uma posição alternativa à procura da imagem modelo
para o trauma está muito bem representada por Ferenczi em
seu artigo clássico "Confusão de línguas entre adultos e crian­
ça" . 1 A tese de Ferenczi é de que o traumático reside no encon­
tro com urna alteridade que não fala a mesma língua, urna al­
teridade que submete, apassiva e domina a criança por inter­
médio da linguagem. O traumático, nestas circunstâncias de­
pende ainda da suposição de entendimento, isto é, de que esta

1 . Ferenczi, S . (1933). Confusão de língua entre os adultos e a criança. ln:


Obras Completas Sándor Ferenczi. Op. cit.
1 76 C H R I STIAN I N GO LENZ ÜUNKER

con fus ão, de que este s u bmeti mento é, ao mesmo tempo,


rodeado por uma docilidade e por uma antecipação cujos efei­
tos sobre a criança não deixam de ser violentos. Ferenczi des­
loca o problema admitindo que o elemento traumático é antes
de tudo simbólico, mas um simbólico que está mais além da
criança.
Um terceiro momento na questão sobreveio quando se
abandonou a procura da imagem modelo reconhecendo-se
que nesta situação o que conta é justamente o que não pode ser
imaginarizado ou o que não pode ser simbolizado: são as an­
gústias impensáveis em Bion, o trauma pela sedução em La­
planche ou o encontro com o real em Lacan.
Não digo com isso que há uma equivalência entre estas
concepções mas que elas têm em comum resguardar uma zona
de referência exterior ao simbólico e ao imaginário. Com isso
é possível pensar o trauma fora da sua referência inequívoca
ao infantil, evitar a insidiosa procura pela sua semântica ori­
ginária. Separa-se assim, mesmo que por motivos metodológi­
cos, o trauma como experiência infan til, i ndissoc iável da
constituição do suj eito, do trauma como uma possibilidade de
organização do gozo, segundo um ordenamento muito carac­
terístico, chamado por Freud de neurose traumática.
Lacan afirma que no trauma o sujeito agarra-se ao signi­
ficante que está nas bordas do real. A neurose traumática, nes­
te sentido assemelha-se a um cercamente do inominável, à
construção de um envoltório para o que não se pode dizer. A
condição para o sucesso desta empreitada parece residir em
uma curiosa inversão das relações entre desejo e realidade .
Não me _r efiro aqui ao conceito de real, aquilo que não cessa de
não se inscrever, aquilo que volta sempre no mesmo lugar, que
não possuindo fissuras se deduz e se representa sob a figura
lógica do impossível .
Não penso que Lacan abandone o conceito, aliás freudia­
no, de realidade, como se atesta por exemplo no chamado es­
que ma R, onde há uma te ntativa de d e l i m i tar o e s p a ç o
psíquico conferido à realidade . A realidade é uma articulação
simbólico-imaginária, ordenada pela relação entre os obj etos,
os ideais, o eu e a alteridade. Em outras palavras a realidade
QUA D ROS CL ÍNICOS 1 77

é um conjunto de relações, não uma coleção de entes. Freud


distingue três formas de realidade: a realidade material, a rea­
lidade histórica e a realidade psíquica. Lacan desconstruirá a
noção de realidade psíquica para isolar desta a noção de Real.
Mas resta ainda essa forma menor, intermediária, do conceito
de realidade, diversa do real mas ainda irredutível ao campo
da ontologia, no sentido tradicional e metafísico do termo
empregado pelas ciências, por exemplo.
Ora a noção de realidade interessa ao que está em ques­
tão porque na neurose traumática justamente o que parece fal­
tar é a própria realidade. A realidade como encobrimento é o
que é mobilizado pelo sujeito para fazer anteparo ao real. Isso
fica muito claro em um sonho traumático descrito por Freud
e largamente retomado por Lacan.
O filho morto jaz na câmera ao lado do pai que dorme. O
cheiro da fumaça produzida pelo fogo que toma conta das ves­
tes funéreas transforma-se, pela deformação onírica, na ima­
gem do filho. O espectro retorna interpelando o pai: "Pai, não
vês que estou queimando? " . Diante desta pergunta o pai enlu­
tado, acorda. Este é o ponto-chave. A realidade vem a recobrir
o traumático na perda do filho, representado pela sua apari­
ção . Se Freud fala inúmeras vezes na "fuga para a neurose"
como uma estratégia para lidar com o real, no caso da neuro­
se traumática há, inversamente, uma "fuga para a realidade"
para lidar com o real .
Mas o trabalho do trauma não é unidimensional. Se por
um lado há velamento, por outro há desocultação. Ocorre que
ambos os vetores do trauma aparecem como disjuntos ou não
articulados na esfera do sujeito. Freud afirmou que "os efeitos
do trauma são de índole dupla, positivos e negativos " . 2 O tra­
balho positivo do trauma corresponde aos esforços para devol­
ver ao trauma a sua vigência, vale dizer:
a) recordar a experiência esquecida;
b) torná-la real e objetiva (Real);
c) repetir a experiência acontecida.

2. Freud, S. ( 1939) . M o i s é s e a r e l i gi ã o m o noteísta. ln: OC. Op. cit.,


p . 70- 1.
1 78 C H R I ST I A N I N G o L E N Z D u N K E R

Empenhos que s e resumem à esfera da fixação e da com­


pulsão à repetição. Já o trabalho negativo do trauma segue
uma via oposta, denominada por Freud, de reações de defesa,
entre as quais se destacam:
a) evitações, inibições e fobias;
b) modificações do caráter;
c) limitações do eu.
Nelas prevalece a compulsão e a tendência a esquecer,
desfazer-se ou eliminar a experiência por meio de sua substi­
tuição. Tudo se passa como se na neurose traumática houvesse
uma separação entre o significante mestre e o saber. O resul­
tado é uma repetição, percebida como insensata, ao lado de
um saber, inútil do ponto de vista da elaboração psíquica. A
catástrofe traumática colhe o sujeito em sua relação direta ao
objeto a . Recuperando a idéia de Spitz, de que na experiência
catas trófica o sujeito se agarra aos últimos vestígios do que a
antecedeu, Lacan dirá que: "O mecanismo da neurose traumá­
tica está especialmente caracterizado pelo fato de que em uma
seqüência fundamental de neurose traumática como tal, é a
última recordação viva da cadeia o que subsiste". 3
Mas o último significante antes da aparição do objeto ca­
tastrófico, só pode ser considerado o último se supomos um
desligamento, uma ruptura, mesmo que provisória, da cadeia.
Nesta ruptura duas seqüências parecem se repetir sem se en­
cadear:

Sl 7 a
a 7 S2

A primeira série ilustra-se pela repetição insensata, intru­


siva e incontrolável do evento traumático, sob forma de lem­
branças, sonhos e imagens recorrentes. Sonhos que, em geral,

3. Lacan, J. O seminário. Livro VII. A ética da psica nálise, aula de 3 de fe­


vereiro de 1960 (obs . : esta passagem não se encontra transcrita no tex­
to estabelecido por Jacques-Alain Miller que deu origem à tradução
brasileira do Seminá rio VII).
QUA D ROS CL ÍNICOS 1 79

vão até o último instante antes do acontecimento traumático.


É o trabalho construtivo ou positivo do trauma.
A segunda série ilustra-se pela projeção alienante que cos­
tuma suceder eventos traumáticos. Alterações, quer na via da
excitação-depressão, quer na via das transformações da aten­
ção e do humor. Outro grupo de fenômenos desta série é o que
Freud chamou defausse reconnaissance (falso reconhecimento).
Ou seja, o sentimento de já ter sabido, já ter falado ou ainda já
ter vivenciado (dejà vu) algo.
O DSM-IV,4 refere-se à neurose traumática pela expressão
Transtorno de estresse pós-traumático, incluindo o quadro entre
os transtornos de ansiedade. O mesmo texto destaca um fenô­
meno que nos parece convergente com a segunda série que
apresentamos acima, trata-se da aparição do "presságio catas­
trófico", ou seja, uma crença na capacidade de prever eventos
futuros indesejados. De fato trata-se de uma curiosa conjunção
do saber, por vezes de apresentação delirante, que aparece ao
sujeito como premonitório.
Uma curiosa regularidade clínica envolve a neurose trau­
mática. Freud comenta que a presença de um dano físico, par­
ticularmente a aparição da dor, costuma diminuir os efeitos
deletérios do trauma. Assim um soldado que apenas viu seus
companheiros serem fulminados durante a guerra e temeu
agudamente pela sua própria morte terá maior possibilidade
de desenvolver como sintoma uma neurose de guerra (um
subgrupo da neurose traumática) do que aquele que foi aco­
metido, nas mesmas condições, por algum ferimento ou dolo
corporal. O fato clínico depõe a favor da hipótese da encorpsi­
ficação do gozo pela dor. Ao encontrar um equivalente no cor­
po, a exterioridade do gozo, b em como sua m i s tura ou
embricamentb com a pulsão permanecem articuladas.
A hipótese da interpolação do objeto, com ruptura da ca­
deia significante, situação estruturalmente inversa à da holó­
fras e , comb ina ai nda com o u tro traço i n t e r e s s a n t e das
neuroses traumáticas, ou seja, sua aparente facilidade para uti-

4. DSM-IV. Porto Alegre: Artes Médicas, 1 995, p . 407.


1 80 C H R ISTIAN I N GO LENZ DuNKER

lizar o dispositivo da transferência analítica. O isolamento do


significante mestre funciona corno indutor da associação livre.
Ao mesmo tempo o significante qualquer do analista (Sq) pa­
rece desencadear prontamente a suposição de saber.
Em um caso de histeria, já há alguns anos em análise,
pude acompanhar a formação e dissolução da neurose traumá­
tica. A analisante fora colhida por um sério acidente de auto­
móvel onde sua vida correra perigo, acidente que lhe causou
ferimentos consideráveis . Durante os três meses que sucede­
ram ao ocorrido diversos traços da neurose traumática surgi­
ram inequivocamente. Sonhos, imagens reatualizadoras e
temores intensos acompanhavam-se de urna frenética indaga­
ção sobre afinal o que teria acontecido. Qual teria sido seu pa­
pel ou implicação no fato? A amnésia que cercava os instantes
anteriores ao acidente deu lugar ao sentimento de culpa, de
vergonha e a auto-recriminações. Mesmo sem lembrar o que
havia feito sabia que "boa coisa não podia ser". A significação
punitória do encontro ameaçava estender-se em um delírio de
feição melancólica. A demanda, na transferência, intensifica-se
e as sessões passam a associar-se com o próprio acidente pos­
to que nelas, ela inevitavelmente se põe a lembrar do ocorrido.
Os significan tes que se decantam da cena são férteis
quanto à sua valência associativa. Proliferam lembranças ja­
mais trazidas até então. No entanto este trabalho parece ser
inócuo quanto à solução dos sintomas da neurose traumática,
pelo contrário, esta se torna cada vez mais incômoda. O trau­
ma recente sornava-se agora a urna seqüência de experiências
traumáticas, retornadas de sua história, mas cujo sentido só
fazia el'l.dossar a repeti ção na qual es tá imersa. O início da
série em sua tenra infância, o papel relapso de sua mãe e a
emergência da sexualidade conferiam ao texto da sessão um
tom bastante "freudiano" e faziam lembrar a noção de trauma
cumulativo proposta por Masud Khan. 5
No entanto, por mais plásticas e clássicas que fossem as
injunções, por mais ciosos que fossem os esforços da analisan-

5 . Masud R. Khan, M. O concei to de trauma cumulativo. ln: Psicanálise:


teoria , técnica e casos clín icos . São Paulo: Francisco Alves, 1 977.
QUA D ROS CL Í N ICOS 1 81

te, era preciso reconhecer que a neurose traumática tornara-se


um bom meio para produzir associações, um ótimo caminho
para recordar e repetir . . . mas só isso. Os ganhos nesta linha se
faziam à custa de uma re-traumatização constante que punha
em perigo o próprio tratamento.
Diz-se que na análise é preciso lembrar para poder esque­
cer. Neste caso a segunda parte da equação parecia não ocorrer.
Foi nesta altura que um incidente absolutamente fortuito
introduziu uma mudança no caso. Ela traz um sonho que evo­
ca uma lembrança que por sua vez a envia a uma outra cena
traumática, entre eles há um significante comum: uma cor. Cor
aliás do fatídico automóvel. Cor, ainda, presente amplamente
na sua forma de vestir-se naquele dia. O crucial é que nesta
repetição o que ela se dá conta é do próprio acaso. Ela parece
realizar o fato de que só após a interveniência do acaso a repe­
tição torna-se necessária, não antes. Isso tira o inconsciente do
lugar da causa, o que indiretamente, em seus esforços de sub­
jetivação, induzia a culpa e a vergonha.
Isso faz um giro em seu discurso. Até então havia urna
oscilação entre a interernissão: 51 � a, própria da repetição, e
a deriva a � 52, coerente com a emergência desorganizada de
recordações. A aparição da seqüência relativa à cor permitiu
que o objeto a, ocupasse a posição de agente do discurso, sem
colar-se a nenhum saber. Ele não está efetivamente na própria
cor, nem mesmo em sua textura significante. Essa montagem
permitiu que na sombra assim produzida se deduzisse o obje­
to, cuja face aqui é a do acaso. A partir daí ela podia deixar-se
ser pega por ele, de outra forma.
NEUROSE DE DESTINO

Nunca se vai mais longe do que quan d o


já não se sabe para onde se vai.
Goethe

Por volta do final da década de 1 920 o tema do destino


passa a ocupar as preocupações de Freud. Aspectos biográfi­
cos como a morte de um de seus filhos e a descoberta do cân­
cer em sua mandíbula, bem como, os turbulentos momentos
históricos que precedeu à Segunda Guerra Mundial têm sido
apontados por inúmeros autores para explicar a aparição do
tema. Sua obscura relação com a noção de pulsão de morte re­
presentaria um motivo interno para a valorização do destino
como uma questão analítica.
Em "Além do princípio do prazer" Freud levanta algu­
mas justificativas para postular a existência de um modo pul­
sional tendente ao desligamento, a desfusão e à separação.
Essa tendência de retorno a um estado anterior, com a redução
absoluta da tensão se expressaria nas neuroses traumáticas,
nos sonhos de repetição, na repetitividade que caracteriza o
brincar infantil. Também diversas formas de sofrimento que se
enredam em torno do masoquismo, da transferência e da rea­
ção terapêutica negativa refletiriam a ação desta compulsão à
repetição. Mas de todos os argumentos clínicos levantados por
Freud, o que menor atenção recebeu diz respeito à "neurose"
de destino. Coloco o termo entre parênteses porque a rigor
Freud fala em compulsão de destino (Schicksalzwang) e não em
neurose. Tais casos se caracterizam pela " ... impressão de um
1 84 C H R ISTIAN I N G O LENZ ÜUNKER

destino que as persegue, de um traço demoníaco em sua exis­


tência; e desde o começo a psicanálise julgou que este destino
fatal era auto-induzido e estava determinado por influxos da
infância" . 1
Encontramos aq1,.ü uma situação onde o sofrimento psí­
quico não redunda do conflito neurótico tramitado pela via da
formação de sintomas. Assim como nas neuroses de caráter,
nas neuroses atuais e nas neuroses narcísicas podemos descre­
ver tal quadro clínico a partir das relações que o sujeito esta­
belece na produção de um mais-de-gozar. Este "eterno retorno
do igual" se mostraria na recorrência de experiências desagra­
dáveis, ordenadas segundo uma seqüência e que aparecem ao
sujeito como uma fatalidade da qual este se sente uma vítima.
Enquanto na neurose de caráter esta repetição é produzida ati­
vamente (pela defesa) e nas neuroses traumáticas reativamente
(pela compulsão a repetição), nas neuroses de destino a repe­
tição colhe o sujeito na posição de passividade. Alguns exem­
plos disto são trazidos por Freud:
a) o benfeitor que se vê continuamente às voltas com a
ingratidão de seus protegidos;
b) o homem cujas amizades terminam sempre em traição;
c) as pessoas que passam a vida entre a idealização e a
decepção com uma figura de autoridade;
d) amantes cuja relação amorosa passa sempre pelas mes­
mas fases e encontra sempre o mesmo desenlace.
Poderíamos incluir como fenômenos apensos às neuroses
de destino a "intuição histérica" e o "pressentimento obsessi­
vo", ambas formas onde o futuro parece antecipável e aprio­
risticamente realizado. Independentemente do que se possa
fazer ou desejar uma mesma significação se reapresentará. Isso
permite compreender o traço depressivo, comum nas neuroses
de destino, como um sintoma secundário.
O traço comum destas manifestações é o que o sujeito
produz um saber, investe-o de certeza mas não é capaz de

1. Freud, S. (1920). A l é m do princípio do prazer. ln: OC. Op. cit., p. 21.


Q UA D R O S C L ÍNIC O S 1 85

acreditar plenamen te neste saber. Para tanto é preciso invocar


uma testemunha, um parceiro, a partir do qual este saber tor­
na-se "satisfatório" . Uma certeza sem crença é o que há mui­
to se conhece como um traço do desencadeamento da psicose.
É esta a situação do personagem central de Dom Casmurro, ro­
mance do escritor brasileiro Machado de Assis. Bentinho sabe
que sua esposa o traiu com seu melhor amigo. Ele tem certe­
za disso mas ao mesmo tempo escreve o livro para persuadir
seu leitor de que este saber merece credibilidade. Nesta mar­
cha demonstrativa vai ficando claro como a sede de crença no
caráter inexorável da traição vai aproximando e causando o
próprio destino do sujeito.
Como acontece em certos filmes de terror o sujeito se vê
atraído para algo que se mostra ostensivamente perigoso ou
maléfico, mas não consegue impedir-se do encontro. Como nas
tragédias - Édipo Rei em particular, mas também em Hamlet e
nos Irmãos Karamazov - a moral deste tipo de narrativa estabe­
lece que quanto mais se procura fugir ao destino melhor se o
cumpre. "O destino conduz quem consente e arrasta quem não
consente" (Ducunt volentem fata, nolentem tralwnt), este antigo
provérbio estóico mostra corno talvez a primeira ferida narcí­
sica do homem não foi a descoberta copernicana de que não
estamos no centro do universo, mas a realização coletiva de
que há um saber interditado aos homens. Saber suposto corno
forma de norri.ear, organizar e localizar aquilo a que o homem
está submetido. Saber-limite, para além do qual o protagonista
comete o excesso, o ultrapassamento, que os antigos chama­
vam de hybris e que funciona como motor do destino trágico.
Por mais que a modernidade nos tenha prometido a condição
de artífices integrais de nosso destino, noções como as de for­
tuna, acaso ou risco acabam sempre reintroduzindo a ambigüi­
dade onde antes havia d iscriminação, acaso onde havia
previsibilidade e caos onde antes estava a ordem.
O destino é uma noção que sempre fascinou os homens.
A Moira, Fortuna ou ainda as inúmeras metáforas para expri­
mir aquilo que "já estava escrito" representam uma das figu­
ras da al teri dade que melhor se prestam a i l u strar a
inacessibilidade do gozo e a lógica de seu cálculc,. Para falar de
1 86 C HRI STIAN I NGO LENZ DuNKER

seu destino o sujeito coloca-se para além da cadeia significan­


te. Significa-se a partir de um lugar de exterioridade - já mor­
to, já escrito, já dado - como é comum acontecer em certas
construções delirantes. Deste lugar improvável ele calcula a
repetição de um mesmo fracasso. Deste lugar - biblicamente
chamado de juízo final e filosoficamente de o fim da história
-, o sacrifício encontrará sua justa proporção diante da restitui­
ção. Mas este lugar é estruturalmente interditado ao neuróti­
co, daí sua descrença no saber assim constituído. Daí sua
remissão ao lugar do Outro.
Sabe-se que Freud pensou a religião basicamente a partir
do tema do pai, de seu assassinato, da sua revivescência for­
madora de ideais e de fratrias. Há, no entanto, aspectos da re­
ligiosidade que são mais bem compreensíveis a partir da
construção compartilhada deste saber sobre o gozo. Nem sem­
pre o lugar estruturalmente atribuído ao pai coincide com o
saber sobre o gozo. Em outras palavras, a identificação com o
pai simbólico não é, necessariamente, a única via de acesso ao
saber sobre o gozo. Por exemplo, nas inúmeras religiões for­
madas em torno da noção de destino ou predestinação, ou
onde as práticas adivinhatórias ocupam um lugar ritualístico
importante, o ponto determinante da crença no destino pare­
ce ser este lugar imaginariamente exterior à cadeia significan­
te. O transe, a dissociação e os estados de obnubilação ou
êxtase são exemplos desta possibilidade.
Em vez de uma religiosidade baseada na culpa, como se
vê na tradição judaico-cristã, teríamos então uma religiosida­
de fundada na vergonha, como parece ser o caso de algumas
tradições orientais. Pode-se distinguir então duas formas de
renúncia: pela culpa ou pela vergonha. O primeiro caso foi es­
tudado c lassicamente por Freud:
Por tanto, em que pese a renúncia ( Versagimg) consuma­
da sobrevirá um sentimento de culpa, e esta é uma grande di­
ficuldade econômica da implantação do supereu, ou o que é o
mesmo, da formação da consciência moral. Agora a renúncia
(Versagung) já não tem um efeito de satisfação plena; a absten­
ção virtuosa já não é recompensada pela segurança do amor;
um destino que ameaçava desde fora - perda de amor e casti-
ÜUA D ROS CL Í N ICOS 187

go por pa rte da a utorid ade externa - foi trocado por um desti­


no interior permanente, a tensão da consciência de culpa. 2

De fato o reencontro repetitivo, verificado na neurose de


destino, é muitas vezes estabilizado por intermédio de uma
significação expiatória. No entanto a satisfação obtida com esta
expiação é cada vez menos "satisfatória", como indica a pas­
sagem acima. A renúncia torna-se então mera reprodução do
gozo. O superego torna-se um " glutão" - quanto mais tem,
mais quer. Nesta situação o elemento que coordena esta renún­
cia, o que Lacan chamou de significante mestre (Sl ), torna-se
insensato, puro imperativo eternizado na forma de destino. O
Hades grego é uma boa ilustração desta repetição eternizada:
as Danaides enchendo seu tonel, infinitamente, Sísifo elevan­
do sua roda colina acima, Atlas segurando o peso do mundo,
Prometeu tendo seu fígado consumido ... diariamente. O ciclo
que vai da renúncia à promessa e desta à decepção, foi ressig­
nificado, pela cultura judaico-cristã, em termos da culpa.
Como está salientado, na passagem acima, a culpa surge da
troca de um destino exterior por um destino interior. Ela sur­
ge pela interiorização do destino. Isso fica patente nas formas
de neurose de destino, ou de compulsão de destino, apresen­
tadas por Freud.
Mais recentemente a clínica tem mostrado a reaparição da
neurose de destino. Por mais que as forças da modernidade
que impelem à autodeterminação, à liberdade de escolha e de
autonomia na construção do destino tenham se implantado
nos modos de subjetivação ocidentais, a preocupação com o
destino na sua forma clássica não se extinguiu completamen­
te. Agora há uma curiosa diferença no tom afetivo que domi­
na a apreensão desta compulsão: não é mais a culpa, mas a
vergonha, que está no centro da cena. Ora, a vergonha é o afe­
to típico da situação onde se é denunciado por um saber. Na
vergonha aquilo que deveria permanecer entre-sabido, ou semi­
sabido, torna-se exposto, torna se todo-sabido pelo Outro. Nes-

2. Freud, S. ( 1 929). O m a l - e s t a r n a c u l tu r a . l n . OC. Op. cit., p. 1 23.


v . XXI.
1 88 C H R I STIAN I N GO LENZ D U N K E R

te sentido o segredo é condição da vergonha. Lembremos de


que junto com a culpa e o asco, a vergonha forma o trio de afe­
tos herdeiros do complexo de Édipo. Não faz sentido dividir
a consciência moral em uma consciência de culpa, outra de
vergonha e uma terceira ligada ao asco, nem imaginar que a
angústia moral se fundaria apenas na culpa superegóica. Por
outro lado há motivos para pensar que o efeito da renúncia
pulsional admite variabilidade se o lemos do ponto de vista da
inclusão a um dado processo civilizatório ou do ponto de vista
do processo de filiação e pertencimento cultural.
A vergonha é o sentimento próprio da exclusão e da se­
gregação inerentes ao processo civilizatório. Levamos em con­
ta nesta observação a distinção, sinalizada por autores como
Norbert Ellias,3 entre Zivilization, como processo formador de
práticas de subjetivação, privatização e disciplinarização do
corpo e do sujeito e Kultur, como processo de produção e re­
produção material e discursiva de laços sociais, mais especifi­
camente " r egulação d o s vínc u l o s recípr ocos en tre o s
homens" . 4 Freud fala d a culpa como fundamento d a cultura
(Das Unbehageng in der Kultur), e não da civilização. Podemos
dizer que no Ocidente contemporâneo o motor do processo ci­
viliza tório reside muito mais na vergonha do qm· na culpa.
Ora, essa distinção é importante, no contexto de nossa
questão, porque atualmente parece que o terror que habita as
formas clínicas da neurose de destino modificou-se. O ponto
de retorno a um mesmo fracasso não é virtualmente recober­
to pela culpa, e coextensivamente pela punição, mas pela ver­
gonha e pela sensação de estar à parte, excluído ou deslocado
de um certo destino coletivo. Mais do que uma origem, ou um
passado comum, que a noção de cultura costuma anelar a um
futuro compartilhável, a neurose de destino na atualidade en­
fatiza um descentramento em face do presente.
No filme O Dia da Marmota temos um belo exemplo dis­
so. O protagonista subitamente se vê preso a um mesmo dia,
que se repete interminavelmente, com os mesmos aconteci-

3. Ellias, N. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1 995.


4. Idem, p. 88.
QUA D ROS C L ÍN I COS 1 89

mentos fortuitos, do mesmo cotidiano enfadonho. Nem mes­


mo a morte o libertará desta repetição, o que não o impede de
suicidar-se . .. diversas vezes. Em outras palavras, seu destino
torna-se insensato e trágico na medida em que nele nada de
subs tancial p ode ser al terado . Nada de imp ortante pode
surpreendê-lo e nada de novo pode alterar a rotina onde dia
após dia ele se vê perdendo a mulher a quem ama. Esta mes­
ma decepção é seu destino, e este destino é um descentramen­
to em face do próprio presente, que ele habita, mas ao qual ele
não pertence, pois nele não se gesta nenhum futuro ou se cons­
trói qualquer experiência do passado. O protagonista eviden­
cia, inicialmente, uma odiosa indiferença pelo outro . Tal
indiferença é inversamente proporcional ao pertencimento ao
próprio destino.
São pessoas que se queixam de uma falta de pertencimen­
to recorrente, de uma decepção com um ajustamento ou acei­
tação infatigavelmente p erseguido. É neste contexto que a
etemização da decepção com o Outro transforma um aconte­
cimento contingente em necessário. Agir, mesmo que passiva­
mente, de modo a sustentar esta repetição como uma mesma
significação, é um modo extremo de tornar necessário o que é
contingente.
O sujeito moderno nasce sob a égide da autonomia e da
promessa de "fazer seu próprio destino" . Ser autor, diretor e
protagonista de sua própria obra. Nessa trajetória há um fra­
casso possível, o da incompletude do projeto. Mas há uma se­
gunda e mais angustiante forma de fracasso . Aquela que
ocorre quando o sujeito triunfa. Quando seu destino é uma
conseqüência lógica e necessária de suas próprias ações, deli­
berações e comandos, seja isso verdadeiro ou meramente uma
conjectura, sobrevém a "perda de satisfação" e o sentimento
de não pertencer, verdadeiramente, a este destino demiurgica­
mente criado.
N EUROSES ATUAIS:
NEURASTENIA E NEU ROSE DE ANG ÚSTIA

Como é fa tal sobreviver.


Paulo Bonfim

Críticos do pensamento de Lacan vêm apontando como o


desinteresse pelos aspectos quantitativos do aparelho psíqui­
co redundou por um lado em uma fragilidade da teoria dos
afetos mas também na pouca relevância conferida, clinicamen­
te, a uma série de quadros derivados de transtornos na esfera
do narcisismo e da organização do eu. Isso se atribui, difusa­
mente, à indisposição de Lacan para com a tradição psicana­
lítica americana que correlativamente produziu sucessivas
investidas sobre a questão do eu.
Vimos até agora três situações onde se pode falar em neu­
rose no sentido não estrutural, e que respondem a problemas
no cálculo neurótico do gozo, a saber: a situação de desenca­
deamento da neurose, a situação de fracasso do sintoma e a si­
tuação de reorganização do caráter. Haveria ainda uma quarta
situação clínica onde os aspectos quantitativos não podem ser
desconhecidos.: os transtornos na economia do eu.
Em Freud há dois precedentes descritivos para tal confor­
mação. Se considerarmos as primeiras intelecções freudianas
acerca do eu, como uma instância não inconsciente e depen­
dente das pulsões de autoconservação, também chamadas pul­
s ões do eu neste momento, poderíamos incluir aqui as
neuroses atuais. Se considerarmos todavia as contribuições da
segunda tópica, e a versão correlativa do eu, temos que pen­
sar na breve, porém sugestiva categoria de neuroses narcísicas.
198 C H RISTIAN INGO LENZ ÜUNKER

Vemos assim que nas neuroses atuais a ques tão central


reside em um vazio representacional, uma falta de inscrição
psíquica da libido que retorna no real sob forma de angústia.
Ora esse vazio na inscrição tende a ser interpretado como uma
lacuna ou um déficit do ponto de vista qualitativo. Sugiro in­
versamente que este vazio possa ser tomado sim como um
objeto, cuja melhor figuração seria o nada.
As referências de Lacan à presença do nada nas estrutu­
ras clínicas são inúmeras. É o nada que o anoréxico come, que
o obsessivo coleciona e que o histérico demanda. O nada faz
parte de uma das definições mais precisas do conceito de gozo,
ou seja, o gozo é aquilo que não serve para nada. Poderíamos
aventar se não é este nada que o alcoolista bebe ou que o dro­
gadito consome, um nada que faz do ato de consumo sempre
o primeiro ato, que impede o sujeito de contar e que o faz um
consumidor perene do mesmo. Se uma estrutura clínica tem
sempre como correlato uma forma particular de cálculo do
gozo, nos parece que no caso das neuroses atuais o fracasso
deste cálculo pode ser atribuído à emergência de um elemen­
to incontável, incapaz de inscrição no valor fálico: o nada.
A idéia de que o nada pode ser tomado como um objeto
aparece na seguinte passagem: "Pois se o amor é dar o que não
se tem é bem certo que o sujeito possa esperar que se lhe dê,
posto que um psicanalista não tem outra coisa que lhe dar.
Mas inclusive esse nada, ele não o dá, e mais vale assim: e por
esse nada se lhe pagam ... " 7
Postulamos assim que o que impede que o gozo a menos,
inscrito pela posição do falo, e o gozo a mais, inscrito pela po­
sição do objeto a, façam um único conjunto nas neuroses atuais
é a presença deste nada. Em outras palavras, a forma como o
sujeito lida com o nada é a forma como ele produz seu sinto­
ma no lugar da não relação sexual . Estabelecemos então a
idéia de que é preciso incluir o nada como variável no cálcu­
lo neurótico do gozo. Isso não é o mesmo que contar com a fal­
ta. Contar com a falta é instituir o sacrifício em nome de algo,

7. Lacan, J. (1 958) . Direção do tratamento e os princípios de seu poder.


ln: Escritos . Op . cit . , p. 598.
QUADROS CLÍNICOS 1 99

é contar com a falta dado um universo onde se supõe o repre­


sentante da incompletude de s eus elementos. Contar com o
nada, por outro lado, é contar com o objeto que anula a lógi­
ca deste sacrifício. Há em decorrência disso uma incomensu­
rabili dade entre o s a c r i fício e s e u objeto, entre p e rda e
restituição. A neurose de angústia encontrar-se-ia do lado da
perda e a neurastenia do lado da restituição.
A teoria do valor lingüístico e a teoria do valor econômi­
co-político, tal como apresentamos no segundo capítulo deste li­
vro, não são similares e nem complementares. O falo e o obje­
to a "mais de gozar", apesar de apontarem ambos para uma ne­
gatividade, têm como produto um objeto especularizável. Ora
no caso do nada é justamente esse o p roblema, há um objeto
que não é especularizável, que não possui imagem, representa­
ção ou figuração possíveis, ao contrário do que se verifica no caso
dos transtornos de caráter e da maior parte dos sintomas. Corno
se poderia ilustrar com o seguinte esquema proposto por Lacan: 8

X o Sl

O. s ', s ", s'", ... S (i(a', a", a"' ... )

Série dos sentidos série das identificações

S2

Temos então com a entrada deste objeto não especulari­


zável uma desorganização da série das identificações e uma
conseqüente ruptura da série dos sentidos. Ora a série das
identificações compreende a relação do significante mestre
com o sujeito (S), com o eu ideal (i) e com os objetos (a', a" ...).
Estamos, neste lado, na face do falta-a-ser. Na neurose de an­
gústia a introdução do nada como ele mento identificatório
paralisa o movimento da identificação, o que poderíamos re­
presentar da seguinte maneira: S(i(a) (a) (a)).

8. Lacan, J. (1 964) . O seminário. Livro XI. Os quatro conceitos fu ndamentais


da psica nálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 224.
200 C H R I S T I A N I N G O LENZ Ü U N K E R

Como o atestam as fórmulas da sexuação, o falo se encon­


tra no lado masculino e o objeto a no lado feminino, quanto
mais a falta se inscreve no plano fálico menos gozo. Inversa­
mente quanto mais produção de gozo menos inscrição fálica
da falta. O caso limite dessa relação seria representado pelo
gozo sem nenhum suporte fálico especular, ou seja a angústia.
A neurose de angústia é abordada por Freud como um
quadro de determinação puramente econômica, daí o interesse
direto para nossa questão. Nela os processos de defesa e a hi­
pótese do recalcamento não são, pelo menos em primeira ins­
tância, aplicáveis. No entanto, os sintomas descritos por Freud
e corroborados pela psiquiatria contemporânea não são dire­
tamente redu tíveis ao plano fisiológico. Ao contrário, seus
componentes mais marcantes são fatos de significação estra­
nhamente estáveis ao longo do tempo. Em outras palavras, um
século depois, com todas as transformações culturais, sociais
e de grandes conseqüências para o estilo de recalcamento e
formação da subjetividade nossos pacientes continuam a se
queixar utilizando expressões como "medo de ficar louco" e a
"sensação de que de repente tudo deixará de ter valor" .
Nossa hipótese é de que a neurose de angústia, ou se pre­
ferimos seu nome moderno, o transtorno do pânico, redunda
de colapso do cálculo neurótico do gozo. Vimos que este cál­
culo se processa pela equivalência ou proporcionalidade esta­
belecida pelo sintoma entre falta e restituição. Isto inscreve o
sujeito em relação à posição fálica e a um modo de gozo ao
preço da produção de um resto - o a-mais-de-gozar.
Podemos propor agora que na neurose de angústia trata­
se de um retorno da função do nada sem a formação de um
sintoma, no sentido estrito do termo, isto é como retorno do
recalcado. Trata-se de uma espécie de incoordenação entre falo
e mais-de-gozar cujo traço fundamental é a angústia e a imi­
nência de fragmentação, catástrofe ou desmantelamento, inclu­
sive corporal. Como afirma Lacan:
Tal é sua neurose de angústia. É o desencadeamento na
paciente do que ela expressa, a saber: a partir desse momento
me encontro sob uma p ressão [ . . . ] de uma maneira que me dá
impressão de que ela não me permite o menor aparte. Se por
Q U A D ROS CL ÍNICOS 201

um só instante chega a parecer que não estou em cond ições de


responder a àquilo sobre o qual de certo mod o sou posto a pro­
va, pedacinho por pedacinho, é minha paciente que vai ir-se
em mil pedaços. 9
Seria possível agora isolar ainda a angústia pela falta (fá­
lica) e a angústia pelo excesso (mais-de-gozar) no interior do
traço mais característico do quadro clínico em questão. O ca­
ráter súbito e imprevisível, daí incompreensível, dos ataques
aponta justamente para a inexistência do sinal de angústia
urna vez que este é derivado do recalcamento. O objeto ou o
significante desencadeante pode ser qualquer um daí as refe­
rências a situações, lugares, aglomerações, no mais das vezes
bastante vagos, associadas ao ataque. Ora, é justamente pelo
fato de que pode ser qualquer um que se depreende que não há
desencadeante específico. Deixa-se de notar, desta maneira,
que exatamente este sentimento de "ser qualquer um" o que
atua corno desencadeante. Qualquer um poderia aludir aqui a
indiferença de valor que determinadas contingências cotidia­
nas parecem favorecer.
A preservação desta indiferença do valor no cálculo neu­
rótico do gozo explicaria a paradoxal fluidez associativa que
encontramos em analisantes em situação de neurose atual.
Neles, o discurso converge no sentido da contínua produção
de saber e de descrições sobre os sintomas, sensações corporais
e inibições correspondentes. No entanto esse conjunto de lem­
branças, ligações e associações pouco realizam do ponto de
vista da retificação da posição subjetiva envolvida. O saber
assim constituído é simplesmente mais saber, mais gozo, mais
nada.
De modo inverso os ataques trazem sempre a marca da
identificação ao nada corno objeto - não sei mais quem sou, sur­
ge um buraco em m inha mente, vou desaparecer. Além disso o cen­
tro mesmo dos ataques parece ser a "obscura sensação de que
algo vai acontecer " , de que o sujeito fará algo muito grave,

9 . Lacan, J . O seminário. Livro IX. A angústia, aula de 27 de março de


1963.
202 C H R I ST I A N I N G O L E N Z D u N K E R

geralmente digno de auto-reprovação. Isso bem se poderia re­


duzir à iminência de um acontecimento. Temos assim de um
lado um desejo sem sujeito e de outro um gozo refratário ao
significante. A função do nada retorna não mais como elemen­
to excluído do cálculo neurótico mas como efetuador de uma
descontinuidade entre desejo e gozo.
NEUROSE NARCÍSICA

Não podemos evitar a morte nem tampouco "sair dos limites".


Morrer e sair dos limites são, aliás, uma só coisa.
Georges Bataille

Certamente de todos os usos não estruturais da noção de


neurose o caso historicamente mais problemático é o das cha­
madas neuroses narcísicas. Na maior parte da obra de Freud
este termo é usado para designar quadros hoje incluídos no
grupo das psicoses, como a paranóia, a demência precoce
(Kraeplin), a esquizofrenia (Bleuler), a amentia (Meynert) ou a
parafrenia (Freud). Neste caso, a noção de narcisismo é empre­
gada para designar o processo de retração da libido de objeto
para o eu, com conseqüente desinvestimento da realidade. Ao
contrário das neuroses de transferência não há um investimen­
to de uma posição fantasmática característica do processo de
recalcamento. As neuroses narcísicas formariam assim um gru­
po descritivo e metapsicologicamente oposto às neuroses de
transferência. Isso encerraria a questão e justificaria o abando­
no do uso do conceito em prol de sua assimilação ao espectro
clínico das psicoses.
No entanto, no pequeno artigo " Neurose e psicose", de
1 9 24, há espaço para uma acepção alternativa. O artigo come­
ça pela conhecida afirmação de que a neurose é o resultado de
um conflito entre o eu e o Id. Neste conflito o eu está a servi­
ço do supereu e da realidade. Na psicose haveria um desenla­
ce similar mas onde o conflito se dá entre o eu e o mundo ex-
204 CHRISTIA N I N GO LE N Z DuNK E R

terior. 1 Tanto a neurose quanto a psicose teriam seu desenca­


deamento ( E rkra n k u ng) determinado por uma frustraçã o
( Versagung) externa. Neste ponto Freud agrega uma segunda
possibilidade ao dizer que, em alguns casos, esta "frustração
pode partir daquela instância interna (dentro do supereu) que
assumiu o papel de representante da realidade" . 2 A partir disso
Freud hipotetiza a existência de um quadro clínico que se de­
finiria pelo conflito entre eu e supereu:
Em todas as formas de enfermidade psíquica se deveria
levar em conta o papel do supereu, coisa que ainda não foi feita.
Enquanto isso, podemos postular provisoriamente a existência
de afecções em cuja base se encontra um conflito entre o eu e o
supereu. 3
Fica patente aqui um movimento muito in teressante .
Freud postula a necessidade teórica da exis tência de um qua­
dro, antes mesmo de sua descrição clínica. Podemos ter uma
imagem comparativa deste movimento se pensamos na tabela
periódica dos elementos químicos proposta por Mendeleiv.
Quando ela foi apresentada vários espaços foram deixados em
branco no seu interior pois se sabia da necessidade teórica da
existência daqueles elementos químicos antes mesmo que estes
fossem encontrados na natureza. Vários deles realmente só
existem em condições de laboratório, mas isso não impediu
que tais elementos recebessem um nome e tivessem suas pro­
priedades químicas detalhadamente descritas. O que Freud faz,
na seqüência da passagem acima, soa como uma indicação de
batismo para tal elemento:
A análise nos dá certo direito a supor que a melancolia é
um paradigma deste grupo, pelo qual postularíamos para essas
perturbações o nome de "psiconeuroses narcísicas". E em ver­
dade não destoaria com nossas impressões que encontrássemos
motivos p a ra separar de outras psicoses estados como o da
melancolia. 4

1. Freud, S. (1924) . Neurose e psicose. ln: OC. Op. cit., p. 1 55. v. XXIV.
2. Idem, p . 157.
3. Idem, p . 158.
4. Ibidem.
Ü U A D ROS C L ÍNICOS 205

Na verdade a escolha da melancolia, como exemplo para­


digmático, foi determinante para o desuso da categoria de neu­
rose ou psiconeurose narcísica. A ausência de uma clara distin­
ção entre melancolia e depressão em Freud, bem como a liga­
ção estabelecida anteriormente entre a melancolia e a psicose,
("Luto e melancolia" ), reduziram imensamente o valor da su­
gestão apresentada na passagem acima. Chamar de neurose
uma entidade clínica definida em oposição ao conflito caracte­
rístico da neurose e predicar como "narcísica" tal neurose,
como se todas as outras neuroses não implicassem igualmen­
te vicissitudes no plano do narcisismo, é uma estratégia de ba­
tismo bastante confusa. Soma-se a isso a ambígua menção ao
fato de que a melancolia seria um "estado" a ser separado das
psicoses. O que significaria "estado" neste contexto? Algo in­
termediário entre uma estrutura clínica e um sintoma específi­
co? Uma condição geral da personalidade?
A brevidade desta menção freudiana trouxe consigo inú­
meros problemas. O termo "neurose" em associação com nar­
cisismo ficou praticamente interditado. Em seu lugar vimos
surgir as personalidades "como se" (Deutsch), os transtornos
narcísicos, o falso self (Winnicott), a personalidade borderline
(Stern) e mais recentemente os estados limites(Bergeret). Obser­
ve-se como tais quadros preservam historicamente os proble­
mas legados pelo batismo freudiano: o caráter intermediário,
entre psicose e neurose, a idéia de que se trata de um "estado"
e a indefinição quanto à acepção de narcisismo empregada
(tipo de caráter, estado das pulsões ou estrutura do eu). Esses
três aspectos, e as questões nisso implicadas, acabaram por en­
cobrir a indicação mais preciosa dada por Freud, ou seja, de
que se trata de uma afecção deduzida do conflito entre eu e
supereu.
Um primeiro problema para levar adiante esta indicação
é que Freud não especifica nenhum modo defensivo em asso­
ciação direta com as neuroses narcísicas. Ao contrário da neu­
rose, estruturada a partir do recalcamento, da psicose (foraclu­
são) e da perversão (recusa), as neuroses narcísicas foram pen­
sadas, desde o início, não a partir de um processo defensivo
específico, mas a partir de uma forma de organização do eu. A
206 CHR IST IAN INGO LENZ DUNKER

divisão ou clivagem (Spaltung) do eu passou a contar como um


critério geral, e relativamente consensual, na determinação do
quadro. Aqui surge um problema. Esta clivagem, é ela especí­
fica das neuroses narcísicas ou é específica do sujeito?
Por outro lado, os próprios sintomas das neuroses narcí­
sicas não podiam ser considerados sintomas no sentido estrito
das neuroses em geral. Faltava-lhes o teor de compromisso, a
inflexão na sexualidade e a apresentação simbólica das neuro­
ses clássicas. Os elementos-chaves na descrição do quadro re­
velam-se, quase sempre, arranjos que procuram cercar uma
experiência subjetiva a partir do que ela não é, ou seja, pela sua
negatividade, por exemplo: tendência à instabilidade, ausência de
sintomas bem organizados, precariedade de fronteiras internas,
falta de coesão do self, e amortecimento ou esvaziamento dos afe­
tos nas relações, empobrecimen to do humor e da vida de fanta­
sia. 5
Mesmo se p assamos para um nível descritivo mais distan­
te da psicanálise, onde se falará, dos transtornos narcísicos em
termos de uma oscilação de afeto, de condutas anti-sociais
(sexo casual, drogadição, agressividade impulsiva) e de uma
co-presença da angústia de abandono e angústia de separação,
proliferam argumentos descritivos do tipo: nem isto nem aqui­
lo, isto e ao mesmo tempo o seu contrário. O que mostra ape­
nas uma sólida congruência entre o quadro clínico e o tipo de
descrição que ele evoca, incluídos os aspectos transferenciais e
contratransferenciais, se assim o quisermos. Mas esta negativi­
dade que atravessa a apreensão da neurose narcísica pode ser
interpretada em outras bases.
Vimos que Freud lançou a conjectura da neurose narcísi­
ca nos termos de um conflito entre o eu e o supereu. O supe­
reu admite, nesta época, três inflexões, ele é um sucedâneo das
instâncias ideais (Ideal de eu, Eu Ideal), uma função de auto­
observação, crítica e julgamento e, a que nos parece mais im­
portante, o lugar onde cultivam-se as pulsões de morte. Esse

5. Figueiredo, L.C. O caso limite e as sabotagens do p razer. Revista La ti­


noamericana de Psicopatologia Funda mental, São Paulo, v. III, 2, p. 61 -87,
2000.
QUAD ROS CLINICOS 207

terceiro aspecto é textualmente salientado no caso da melanco­


lia. Se nos lembrarmos que para Lacan o supereu é primordial­
mente esta instância, a única, que obriga ao gozo, concluímos
que o cultivo dessa obrigação é o cultivo do gozo. Mas qual al­
ternativa restaria ao sujeito no caso da neurose narcísica?
As únicas formas de deter este cultivo, são as barreiras ao
gozo, que foram bem detalhadas por Braunstein, 6 na obra de
Lacan: o prazer, o desejo, o fantasma. Em outro sentido pude­
mos argumentar anteriormente que também a dor e a satisfa­
ção são formas de detenção provisórias do gozo. Não constituem
barreiras mas desvios, contornos para contabilizar o gozo ao
inscrevê-lo no corpo. Nesta linha o que parece característico
das neuroses narcísicas é que o prazer e a satisfação são mobi­
lizados como defesas contra o gozo. Em função da alocação do
prazer como valor de troca para o supereu, ele perde a possi­
bilidade de ser tomado em seu valor de uso. Isso corresponde
ao fato clínico destacado por vários autores, mas em particular
por Figueiredo7 de que no transtorno narcísico haveria uma
espécie de sabotagem do prazer, uma "anhedonia borderline" .
Isso vai desde o típico sentimento de apatia, tédio e futilidade
que acompanha historicamente a descrição dos transtornos do
narcisismo até o cinismo e o descomprometimento generaliza­
do com qualquer formação de ideal. Anzieu fala disso ao men­
cionar que o estado limite traz consigo a sensação de que se é
um espectador desinteressado da própria existência . A tese
mobilizada para explicar tal aspecto mostra claramente uma
sobreposição entre a estrutura do sujeito e o estado do ego:
"Para Lacan, o Eu tem normalmente esta estrutura, que o per­
verte e o aliena. De acordo com minha experiência, esta confi­
guração em anel de Moebius é específica do estadoslimite". 8
Esta perda da experiência, esta angústia de um vazio cen­
tral, que às vezes se apresenta como uma despersonalização
ou como um estado maníaco depressivo transitório, é campa-

6. Braunstein, N. Coce. Op . cit., p . 78.


7. Idem, p. 82.
8. Anzieu, D. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1 988, p. 143.
208 CHRI S T I AN I NGO LENZ DUNKER

tível tom o processo descrito por Freud em seu texto sobre a


divisão do sujeito, pois neste caso o neurótico:
Responde ao c onflito com duas reações contrapostas, am­
bas váli das e eficazes. Por um lado rechaça (verleug 11et) a reali­
dade objetiva com aj uda de certos mecanismos, e não se deixa
proibir nada; em seguida, e por outro lado, reconhece o perigo
da realid ade objetiv a , a s s u m e a a n g ú stia p e ra n te e l a como
um sintoma de sofrimento e em seguida procura d e fender-se
disso. 9

Invertendo a ordem proposta no artigo sobre o fetichis­


mo 10 Freud afirma aqui que a perda da realidade precede o re­
conhecimento da castraç�o. Além disso ele coloca e amplia o
processo da recusa ( Verleugung) para além da perversão. Mais
tarde 1 1 isso será explicitamente generalizado para as psicoses,
neuroses e perversões. Mas se a divisão (Spaltung) é um proces­
so constitutivo do eu ele não pode ser, ao mesmo tempo, mo­
bilizado para explicar a especificidade clínica das neuroses nar­
císicas. Vê-se por isso por que Lacan atribui ao eu (ego - moi)
a função de desconhecimento, de antecipação alienante e para­
nóica quanto a uma realidade que lhe escapa estruturalmente.
Vê-se também por que Lacan salienta a condição inescapavel­
mente dividida do eu (sujeito - Je) na sua relação com o desejo.
Mas no que toca ao gozo a situação é um pouco distinta.
O que a passagem acima sugere é que há uma fração de gozo
que é regulada pelo reconhecimento-recalcamento da castração
e que se mostra no sin toma de sofrimen to, e que há uma segun­
da fração de gozo, regulada pela recusa e que se mostra no não
se deixa r proibir nada .
Ora, no cálculo do gozo, nas neuroses narcísicas, tudo fun­
ciona como se a primeira fração do gozo se fizesse equivalen­
te da segunda. Assim se poderia dizer que em nome do sin toma
de sofrimen to o sujeito se autoriza a não se deixar proibir nada .

9 . Freud, S. (1 940) . A divisão (Ichspaltung) do eu e o processo defensivo.


ln: OC. Op . cit., p. 275 . v . XXIII.
10. Freud, S. (1 927) . Sobre o fetichismo. ln: OC. Op. cit. v . XXI .
1 1 . Freud, S. (1 940) . Lições e l e menta res de p s i caná l ise . ln: OC. Op . cit.
v . XXIII.
Q U A D ROS C L Í N I C O S 209

Mas, como afirma Freud no texto em questão: "só a morte é de


graça". Ao parear o menos de gozo, do sintoma, com o mais de
gozo, da ausência de proibição, o prazer e a satisfação, como
formas de desvio para o gozo, perdem seu valor. Ao tornar o
sacrifício uma forma de acesso ao gozo e não uma forma de
recusá-lo, o sacrifício torna-se inútil. A ausência de limites, a
transgressão e o virtual embaraço com as regras sociais surgem
assim corno efeito da inutilidade do sacrifício. Um sacrifício
que busca sua conclusão, que procura seu encerramento em
algum ponto de retorno. Mas neste ponto de retorno, neste sig­
nificante mestre (Sl ), a neurose narcísica, ao contrário, só en­
contra lugar para um relançamento. Por isso pode-se dizer que
se no fantasma o gozo assume a forma temporal do instante e
se na esfera do eu, este corresponde à forma temporal da com­
preensão, vemos como nas neuroses narcísicas, assim como nas
neuroses atuais a forma temporal do gozo é a conclusão, a con­
clusão antecipada.
É o que mostra a seguinte seqüência clínica. Uma anali­
sanda queixa-se recorrentemente da insuficiência paterna nos
seguintes termos: seu pai não pusera limites aos seus caprichos,
fora condescendente demais para com ela. Todo esboço de de­
sejo era "afogado" por um objeto. Todo esboço de demanda era
meticulosamente ordenado, contabilizado e endereçado ao seu
lugar de resolução no Outro. Esse pai era simplesmente "bom
demais" para com ela. Chegava a sentir ciúmes das reprimen­
das e da energia que ele mostrava em relação a seus irmãos.
Para ela restava apenas a complacência e a infinita capacidade
de tolerância e de doação.
Como resposta a este excesso paterno ela situava-se sem­
pre aquém do que se esperava dela. Desprezava-se com auto­
acusações e com ataques sistemáticos e rebaixamento de sua
auto-estima. Nesta vertente ela chega a esboçar algumas tenta­
tivas de suicídio, premeditadas ao fracasso. Na histeria classi­
camente tais tentativas apontam para a inscrição fálica do su­
jeito e para a desesperada tentativa de abstrair seu valor a par­
tir da falta no Outro. Neste caso a situação era um pouco dife­
rente. Tratava-se de situações francamente perigosas e que só
retrospectivamente eram interpretadas como tal. A diferença é
21 0 C H R I ST I A N I N G O L E N Z D u N K E R

que isso funcionava como um ritual particular, onde a inscri­


ção fálica do ato era secundária e acessória.
Ela, e tudo o que podia produzir, eram sem valor p ara o
outro. Por outro lado esperava grandes realizações de si mes­
ma. O curioso é que parecia haver uma balança entre a redu­
ção da auto-estima e o aumento das formações narcísicas, tanto
no p lano da apreensão corporal quanto do eu ideal . Desta for­
ma todo sacrifício em nome do ideal paterno era sentido como
inútil e no entanto obrigatório . Era um sacrifício antecip ada­
mente concluído.
Seus sonhos a situavam sempre como um observador i:m-
parcial de uma cena. Ela voa, observa, geralmente imagens que
replicam eventos de seu cotidiano . Como se houvesse p ouca
deformação onírica . A fala é hegemonicamente descritiva . A
queixa é difusa e passa por um distanciamento e pela falta de
confiança no o utro . Entre ela e os outros há uma espécie de
barreira feita de vidro. Pode vê-los, mas não tocá-los, e assim
reciprocamente.
Relata seu funcionamento social enfatizando uma p osição
cínica e a imp ortância assumida pela imagem que ela se ima­
gina produzindo, e manip uland o, no outro. A regra do jogo,
como dizia, é, esteja sempre em outro lugar. Isso se fazia acompa­
nhar d e um erotismo muito pobre . A sedução, como um fim
em si mesmo, tornava-se uma compulsão e uma defesa contra
o desej o .
Essa s ubstituição contínua de s u a posição acaba por se re­
velar uma estra tégia cuj o p roduto é sua própria apresentação
como uma espécie de mercadoria de valor nulo. Pode ser tro­
cada por qualquer coisa mas não p ossui, em si, utilidade algu­
ma. Ness as trocas de p osição, que na verdade a mantém no
mesmo lugar, acrescenta-se um mais-de-gozo, em tudo similar
à agregação de valor p rópria da mais-valia. Como observou
Lacan:
. . . o psicanalista deve-se dar conta de que aquilo que o ato se­
xual cria como problema não é social, mas vem do fato de que
no inconsciente algo funciona como "valor de troca " e que é
pelo viés da sua falsa identificação ao "valor de uso" que é fun­
dado o "objeto mercado ria". (1 964)
Q U A D RO S C L Í N I C O S 211

Aquilo que funciona como valor de troca no inconsciente


é o falo, ou seja, o significante que representa a falta, o que fun­
ciona como valor de uso é o gozo. O cálculo neurótico do gozo
efetua uma falsa identificação entre os dois produzindo assim
o "mais-de-gozar" cujo objeto funciona como uma mercadoria.
Tal objeto-mercadoria guarda dentro de si a contradição que o
originou, apresenta-se assim como um objeto insustentável,
paradoxal, de antemão indisponível. Forma-se assim o dispo­
sitivo sintomático clássico pelo qual se pode ter acesso ao de­
sejo. Ocorre que, no caso em questão, este objeto privilegiado
é o próprio eu.
Aqui aparece um traço das afecções neuróticas do narci­
sismo pouco explorado pelos que se dedicaram ao tema. Nes­
tes casos há uma nítida separação entre as duas energias que
habitam o eu, descritas por Freud em seu artigo sobre o narci­
sismo, 1 2 ou seja: a libido e o interesse. Só a retração da libido ao
eu pode ser propriamente característica do estado narcísico. O
interesse, o correlato da libido nos termos da pulsão de auto­
conservação, reflui ao eu gerando o egoísmo. A auto-estima ou
o sentimento de si (Selbstfullung) é regulado pelo movimento
do interesse, não da libido. Ocorre que na maior parte dos ca­
sos de neurose as duas formas de quantidade têm seu movi­
mento sincronizado de forma que uma ruptura ou uma amea­
ça ao narcisismo é ao mesmo tempo uma ameaça ao sentimen­
to de si.
Mas isso não é o que parece se passar nas neuroses narcí­
sicas. Nelas, como aliás ocorreria na melancolia, o rebaixamen­
to da auto-estima corresponderia a um engrandecimento do
narcisismo, ou ainda, a perda do interesse replicaria um incre­
mento da libido.
Isso permite rever em outros termos a polêmica tese de
Kohut 13 de que haveria um desenvolvimento independente en­
tre libido do objeto e libido narcísica. A tese da existência das
"duas qualidades distintas e evolução separada da libido" foi

1 2. Freud, S. (191 4). Introdução ao narc i sismo. ln: OC. Op. cit. v. XIV.
1 3 . Kohut H. (org). A psicologia do self. Rio de Janeiro: Imago, 1 989.
21 2 C HRISTIAN I NGO LENZ DUNKER

desenvolvida à luz da clínica com pacientes com trans tornos


narcísicos e suas peculiares manifestações de transferências.
Joyce McDougall 14 mostrou convincentemente corno o proble­
ma da tese de Kohut não é clínico-descritivo mas rnetapsicoló­
gico. Para entender o que se passa nos transtornos narcísicos é
necessária urna boa intelecção teórica sobre a relação entre o
funcionamento das pulsões e a estrutura do narcisismo, o que
aliás vem ocupando a p reocupação de um autor como Andr é
Green.
Nos termos do quadro teórico inaugurado por Lacan re­
solver o problema representado por es ta articulação equivale­
ria a mostrar corno o campo formado pela função fálica se ar­
ticula e se desarticula ao campo formado pelas pulsões, e em
especial pela pulsão de morte. Em outras palavras, corno expe­
riências na esfera do narcisismo tais corno o prazer, a satisfação
e a dor são parasitadas pelo gozo, entendido corno fração da
pulsão de morte não inscrita na forma de libido. Trabalhando
sobre a conjunção e disjunção entre esses dois campos Quinet 1 5
propôs que na melancolia haveria um destrincarnento ou urna
desfusão das pulsões que corresponderia a urna separação en­
tre as duas valências do objeto a, ou seja, corno objeto agalrná­
tico ou causa do desejo (Eros) e corno objeto residual, dejeto do
simbólico (pulsão de morte) . O sujeito se identificaria a este
objeto caído do s imbólico, tal corno o exemplifica o delírio de
negação, descrito por Cotard. Isso definiria a posição estrutu­
ral do suj eito melancólico, no quadro geral das psicoses.
Mas se isolamos es te funcionamento corno modelo para as
neuroses n arcísicas devemos admi tir urna variação nes te es­
quema. Ele teria que dar conta de urna disj unção provisória ou
de urna injunção ins tável corno forma circular de cálculo do
g o z o no q u a d r o da n e u r o s e . N e s ta m e d i d a a recus a
(Verleugnung ) funcionaria corno defesa secundária, corno forma
de articulação funcional e não es trutural do gozo.

14. McDougall, J. Teatros do e u. S ã o Paul o : F rancisco Alves, 1992, p. 168-


89.
15. Quinet, A. A clínica do suj eito na depressão. ln: Extravias do desejo: de­
p ressão e melancolia . Rio de Janeiro: Marca D'Água, 1999, p. 148.
Q UA D RO S C L Í N I CO S 21 3

Zizek 1 6 é um autor que tem se interessado pela inflexão


ideológica desta forma de funcionamento. Segundo ele a lógi­
ca da cisão neste tipo de funcionamento implicaria em um
enunciado como: "sei muito bem que o Outro não existe, que
não há fundamento natural para nossas crenças ou garantia
última para nossas ações, mas ... , mesmo assim, continuo a agir
como se não soubesse disso". Isso permite colocar o cinismo,
mas não a ironia, como exemplo crucial do estilo do funciona­
mento narcísico atual e sua "descrença" constitutiva como uma
forma de negação da negação que inviabiliza o posicionamento
do sujeito. Zizek argumenta ainda contra a tese de Kernberg 17
de que existiria um narcisismo normal e outro patológico, e de
que a situação borderline corresponderia a uma expressão do
segundo tipo: " . . . nossa tese é que o borderline apresenta preci­
samente o ponto de histericização do "narcisismo patológico"
corno forma "normal" da estrutura libidinal do sujeito na so­
ciedade burocrática-permissiva" . 18
Segundo Zizek nesta situação o ponto chave não é apenas
a dificuldade de inscrever-se por identificação simbólica a al­
gum traço unário socialmente disponível no campo do Outro.
Muito menos sustentar uma identificação imaginária a algum
jogo de linguagem, regra reguladora para o gozo. Não se tra­
ta nem da renúncia, que por sinal esse tipo de paciente costu­
ma realizar na forma de um sacrifício _inútil ao Outro [I (a)],
nem da restituição, que nestes casos trará sempre a marca da
transgressão, da exceção ou do ultrapassamento do limite [i(a)].
Para Zizek o organizador central dos quadros borderline é o su­
pereu. Não o supereu herdeiro do Complexo de Édipo, mas o
supereu materno, tal qual Lacan sugere: "Será que não há por
trás do supereu paterno, o supereu ma terno, ainda mais exigen-

16. Zizek, S. Cinismo e objeto totalitário. ln: Eles não sabem o que fazem - o
sublíme objeto da ideologia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p. 59.
17. Kernberg, O. Tra nstornos graves de personalidade. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1 995 .
18. Idem, p. 70.
21 4 CHRI STIAN I NGO LENZ Du N KER

te, ainda mais opressivo, ainda mais devastador, ainda mais


insistente na neurose do que o supereu paterno?" 19
Reencontramos assim a figura teórica do supereu, mais
uma vez em associação com as vicissitudes do narcisismo na
neurose. Mas p odemos acrescentar agora a idéia de que tal su­
perego torna-se tão mais exigente e insensato quanto mais se
separa dos suportes imaginários e simbólicos da identificação.
A desfusão das pulsões, discutida anteriormente, encontra ago­
ra uma forma mais específica. Ela se torna compreensível por
um despareamento entre as formações relativas ao objeto e os
modos de inscrição no corpo e na linguagem.

Simbólico Imaginário Real

Objeto I (a) i (a) Supereu .

Inscrição cp - q> a

Função Desejo Demanda Gozo

O narcisismo como estado é uma ponte, uma báscula, en­


tre a pulsão [ S O D] e a função fálica. Nas neuroses narcísicas
esta função de ponte está abalada. Há inscrição do falo no cam­
po do Outro, portanto há ação dos Nomes-do-Pai, no entanto
esta função fálica não se articula ao sistema das identificações
[ I (a) x i(a)] de forma a defender o eu das exigências do supe­
reu. O eu torna-se assim um objeto narcísico não para o Id ( caso
das neuroses clássicas) mas para o supereu (caso da neurose
narcísica) . Nesta situação o supereu é satisfeito, o custo é uma
redução tanto das funções quanto dos modos de experiência
próprios ao eu.

19. Lacan, J. O seminário. Livro V. As formações do inconsciente, aula de


1 5 de janeiro de 1959.
ALÉM DO CÁLCULO: A SUPLÊNCIA

Não há p rogresso. O qtte se ganha de ttm lado, perde-se de 011tro.


Como não se sabe o qtte se p erdeu, acredita-se qtte se ganhott.
Lacan

O progresso da análise acaba por mostrar sob qual forma


de negatividade o cálculo do gozo organiza os sintomas para
cada sujeito. É comum que para o obsessivo este reconhecimen­
to possua a marca do indecidível, do incontável ou do inesca­
pável. Na histeria, por sua vez, o caminho de redução do gozo
do sintoma muitas vezes está marcado pelo encontro com o
indiscernível ou com o inominável. A experiência do negativo
habita, como vimos, as inúmeras formas de encorpsificação do
gozo, no discurso, no corpo e no Outro. Nessa parasitagem o
gozo aparecerá sempre in negativo, como resto a mais ou a me­
nos, mas sempre sob a sombra da totalidade.
Até certo ponto Lacan acreditou que esta negatividade
poderia ser incorporada ao desejo. O trabalho do desejo e do
simbólico, como figuras do negativo, poderia levar o sujeito a
uma dialetização desta experiência exterior. Mas, como mos­
trou Guyomard, 1 há um gradual declínio dessa esperança dia­
lética em Lacan. O que se vê surgir em seu lugar é uma teoria
da suplência, como tentativa de cernir o indefinível, o resto, o
dejeto, sem ao mesmo tempo torná-lo um terceiro elemento, a
ser incluído ou excluído.

1 . Guyomard, P. Do gozo trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.


21 6 CHRIST IAN I NGO LENZ DUNKER

A suplementaridade é um conceito que aparece contem­


poraneamente em Lacan e no pós-estruturalismo. Na teoria da
desconstrução, por exemplo, a "lógica da suplementaridade",
envolve um programa crítico de ruptura com formas de leitu­
ra e interpretação de texto baseadas na imanência do sentido e
no fechamento da si gnificação. A idéia de totalização do sen­
tido supõe urna complementaridade entre autor e leitor, ou
ainda entre texto e contexto. Essa circularidade participaria de
urna crença , a ser desconstruída, na identidade do sentido. A
suplementaridade constitui assim urna ênfase conceituai ba­
seada na diferênsia, na repetição diferenciante e ao mesmo tem­
po uma alternativa ao dualismo estruturalista. Esse é o lugar
concedido por Derrida, por exemplo, às noções de pharmakon 2
de hímen 3 e de suplemento. Por suplemento cabe notar que:

Em francês esta p alavra desi gna tanto uma adição quanto


uma substituição. É, portanto, o outro que "ingressa ", o exterior
que adentra, a diferença que vira identidade. O resultado é que o
suplemen to "não é nem mais nem menos, nem exterior nem comple­
mento interior, nem acidente nem essência etc. " 4

A expressão usada por Freud para investigar o fenômeno


do estranhamento (unheimlich) pertence a esta série da suplên­
cia. O Unheimlich indica simultaneamente o familiar e o estra­
nho, mas o que o torna realmente suplementar é que após a
análise lingüístico desconstrutiva empreendida por Freud per-

2. Ou sej a : " ... a p olissemia regular, ordenada que por desvio, inde­
terminação, ou sobredeterminação, mas sem erro de tradução per­
mitiu passar a mesma palavra, como veneno, droga, filtro, etc. Por
esta capacidade pha rmakon é, antes e sobretudo, poderoso porque
ambivalente e a mb iv a l e n te porque p od e r o s o ". ln: Derrid a , J.
Dissemina tions. Athlone, 1981, p. 71-99.
3. Palavra que designa tanto membrana ( se paração) como casamen­
to ( união), nem virgindade nem violação, nem véu nem desvela­
mento.
4. Bauman, Z. Modern idade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1 999 , p . 65.
A L É M DO C Á LCULO : A SUP L ÊNC I A 2 17

cebe-se jus tamente que não há uma oposição complementar


entre o familiar e o estanho, que entre eles há uma espécie de
desproporção.
Lacan por sua vez emprega a noção de suplência em três
contextos distintos:
a) Para designar a função estabilizante do delírio na psico­
se. Assim a foraclusão do Nome-do-Pai é suplementada, mas não
complementada, pelo delírio quando este ganha uma forma espeá­
fica.
b) Para designar a função do amor na sua relação com a
castração. Assim o amor suplementa mas não complementa a
falta inaugurada pela castração.
c) Para designar a relação entre o Outro gozo e o gozo fá­
lico. Assim o gozo feminino suplementa o gozo fálico, mas não
o complementa posto que este continua a se articular a partir
da falta fálica.
De certa forma o tema suplência aparece na obra de La­
can, como representante de um giro decisivo, iniciado a partir
de 1968, no seminário "De um outro ao Outro". 5 Neste semi­
nário a dialética entre falta e totalidade, entre alienação e sepa­
ração encontra um limite. Este limite aparece inicialmente pelo
reconhecimento da relação não dialética entre gozo e desejo.
As teorias sobre a suplência, e a transformação clínica que
delas decorre, implicam no claro reconhecimento de que a re­
lação entre a causa significante do desejo (a função fálica) e o
objeto que a sustenta (objeto a), é uma relação inconsistente.
Entende-se por inconsistência, no sentido formal sugerido pela
lógica dos conjuntos, o estado de um sistema onde dois ou
mais teoremas conduzem a interpretações incomp a tíveis.
Quando afirmamos que a função fálica é inconsistente em re­
lação ao objeto a, não se deve supor uma disparidade entre o
falo e o objeto, mas que entre as diversas operações de cifra­
mento do objeto (teoremas) há uma não complementaridade.
Isso já fora intuído por Lacan desde sua conferência sobre a sig-

5 . Laca n , J. A significação d o falo . ln: Escritos . Op. cit.


2 18 CHRISTIAN I N GO LEN Z Du NKER

nificação do falo (Die Bedeutung des Phalus 6 ) mas só encontrou


uma sólida demonstração em 1 968 no Seminário XVI.7 Neste
seminário Lacan encontra uma espécie de análogo matemático
para o problema.
A função fálica é uma função de pertencimento. Desde sua
origem ela trabalha metonimicamente com a imagem elemen­
tar do que falta ao outro. O narcisismo é uma crise da função
fálica decorrente do fato de que um elemento não pode perten­
cer a si mesmo. Um elemento pertence sempre ao Outro. O su­
jeito só existe, neste sentido, como efeito do Outro, como efeito
do significante. O falo pode ser definido como elemento que
falta ao Outro e retrospectivamente como elemento que divide
o sujeito, causando seu desejo.
Se perguntarmos sobre a consistência deste elemento, o
falo, encontraremos sempre a dimensão da falta, da hiância, da
carência constitutiva do ser. A dialética domina a compreensão
deste elemento fálico desde as variantes da incidência do Ou­
tro (Simbólico, Imaginário ou Real), até os modos de inflexão
da falta (privação, castração, frustração) e as formas de sua vei­
culação (demanda, desejo, necessidade, amor). Temos sempre
o elemento e o conjunto em uma relação de dupla negação so­
bredeterrninada.
Essa negatividade aparece em torno do elemento fálico
em atributos tais corno seu caráter "impronunciável" , sua di­
mensão de "velamento" mas principalmente na aproximação
com o zero, definido corno o conjunto vazio. Ora, o conjunto
vazio é tal que nenhum elemento lhe pertence. Ele funciona
como elemento neutro em muitas operações justamente porque
é uma · espécie de letra daquilo que não possui valor simbólico.
A ruptura da função fálica associa-se a formas clínicas ligadas
à angústia (neurose de angústia, neurastenia) e ao fracasso da
construção de sintomas (depressão, inibição). Tais formas clí-

6. Lacan, J. (1968). O seminário. Livro XVI. De um Outro ao outro,


texto inédito
7. Lacan, J. (1968). O seminário. Livro XVI. De um Outro ao outro,
texto inédito
A L É M DO C Á LCULO : A SU P L ÊNCIA 21 9

nicas mostram o significante fálico como elemento separado ou


excessivamente incluído no campo ou conjunto do Outro. Isso
decorre de uma propriedade do significante fálico, por não
conter nada dentro de si pode funcionar como elemento para
qualquer conjunto (exterioridade radical do significante fálico
no campo do Outro) . Mas ao ser elemento potencial de qual­
quer conjunto ele não será elemento específico de nenhum con­
junto (interioridade radical do significante fálico no campo do
Outro). Isso permite deduzir da função fálica formas de perten­
cimento ao Outro, formas de ancoragem na linguagem. Hei­
degger chamou esta última possibilidade de comum-pertencer.
Este pertencimento fálico nos informa assim sobre uma possi­
bilidade existencial: aquela que gravita entre ter ou ser o falo.
Mas há um segundo sentido para a ex-sistência, que se
mostra irredutível ao comum-pertencimento. É quando o per­
tencimen to inclui um elemento como p a r t e e não como
elementoª de um conjunto. Algo é parte de um conjunto quando
tudo o que pertence à parte também pertence ao conjunto. Nes­
te sentido a parte pode ser igual ao conjunto. Ora, a parte que
interessa á Lacan é justamente a parte vazia, a "libra de carne
perdida", a parte que é também nada. Observe-se que a falta e
o nada se sobrepunham como figuras indistintas da negativi­
dade até o seminário em questão. Depois disso a falta, como
atributo do elemento fálico e o nada como atributo do objeto a,
tornam-se divergentes. O objeto a é não especularizável justa­
mente porque o nada não pode ser representado, em imagens,
em significantes ou em sujeitos. O nada, assim como a quanti­
dade, no sentido freudiano, é da ordem do real, ou seja, sem
qualidades.
Um filme como A Bruxa de Blair explora esta propriedade
do objeto a justamente para produzir um esvaziamento do ca­
ráter fálico da realidade. Algo, que é deduzido do olhar, da
movimentação e da angústia dos personagens mas que jamais
é visto domina todo o encadeamento da trama. Efeito similar

8. Badiou, A. Um, dois, três, quatro e também zero. ln: Para uma nova
teoria do sujeito. Rio de Janeiro : Relume-Dumará, 1994.
220 CHRI STIAN INGO LENZ DUNKER

já havia sido explorado por Hitchcock em Psicose e por Ridley


Scott em Alien. A presença do objeto real tem sua intensidade
aumentada na medida em que não há nenhuma referência fá­
lica que indique seu sentido.
Lacan, no Seminário VIII, propõe uma fábula que ilustra
este efeito. Trata-se de imaginar o próprio Lacan fantasiado de
louva-deus macho, preso em um recinto onde ele é olhado por
um louva-deus fêmea gigante. A angústia de ser devorado-co­
pulado por este ser indica como o único sentido possível para
o objeto a (o olhar insetívoro) é o falo (a fantasia de louva-deus
macho). Tal sentido é equívoco e mítico, como comenta Vieira. 9
Mas o objeto a sendo, por definição, não especularizável, jamais
poderá ser completamente compatível com o falo. Eis o impas­
se do cálculo do gozo.
No seminário XVI Lacan afirma que o objeto a é a signifi­
cação (Bedeutung), no sentido empregado por Frege. Acrescen­
ta, ainda, que na sua conferência sob re o falo, de 1 958, a
significação que dá título ao artigo deve ser lida no sentido que
Frege atribui ao termo. Ora isso significa que podemos ler, em
1968, "a significação (Bedeutung) do falo" como "o objeto a do
falo" . Isso implica ainda que a relação entre objeto a e falo é
uma relação homóloga a que existiria entre sentido (Sinn) e sig­
nificação (Bedeutung) na filosofia da matemática de inspiração
fregeana. Sobre este ponto Frege é claro:
Se, em geral, j u l g a mos que o valor cognitivo de " a = a " e
"a=b" é diverso, isso se explica pelo fato de que, para determinar
o valor cognitivo, é tão relevante o sentido (Sinn) da sentença, isto
é, o p e ns a m e n to p o r e l a e x p r e s s o , q u a n t o sua s i g n i fi c a ç ã o
(Bedeutung), a saber seu valor de verdade. ( . . . ) Apesar disso, o sen­
tido (Sinn) de "b " pode· diferir do de "a" e portanto o pensamen­
to expresso por "a=b" pode diferir do exp resso por "a=a", neste
caso as duas sentenças não tem o mesmo valor cognitivo. 10

9. Vie ira, M . A . A ética da pa ixão - uma teoria psicanalít ica do afeto. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, · 200 1 , p. 1 69 .
1 0. Frege, G . Sobre sentido e referência ("Uber Sinn und Bedeutung")
ln: Lógica e filosofia da linguagem. São Paulo: Cultrix-EPU, 1 978, p. 86.
A L É M D O C Á LC U L O : A S U P L Ê N C I A 22 1

A disparidade entre sentido e significação, entre função


fálica e objeto a, ou ainda entre elemento e parte, mostra como
ambos não formam, necessariamente, um conjunto. Daí Frege
afirmar a função pluri-unívoca da verdade. A verdade não
completa o saber, assim como o gozo não se completa com o
desejo. Há pois uma disjunção entre o universal (representado
pelo eixo castração-falo-desejo) e a totalidade (representada
pelo eixo castração-objeto-gozo) . Se para o primeiro eixo Lacan
consegue reaproveitar a dialética, no segundo ele se vê obriga­
do a defender a curiosa lógica do "não-todo" .
Como afirma Porge, 1 1 no Seminário XVI Lacan não objeti­
va apenas recusar a Selbestbewustsein hegeliana (o Outro como
totalidade consistente), mas produzir um saber sobre esta in­
completude. ou uma prova lógica deste fato: "A é ao mesmo
tempo o conjunto que inclui os conjuntos {Sl, S2} (não ordena­
do) e {Sl } e (Sl, S2) (ordenado) ( . . . ) A é ao mesmo tempo o
Outro significante e o significante da alteridade, ou seja da re­
lação com o Outro." 1 2
Assim uma antiga tese de Lacan, acerca do significante da
falta no outro [S(A)], encontra um desdobramento: de um lado
a falta, a hiância fálica; de outro o vazio, o buraco a fenda do
objeto a.
Desta descontinuidade ou desta "diferência ", Lacan desen­
volve a necessidade teórica e clínica da noção de suplência, em
suas inúmeras versões desenvolvidas nos anos posteriores: o
mais-de-gozar ( 1 969), a letra ( 1 970), o outro Gozo e o amor
(1 971 ) e o sin thome (1972).
Pode-se dizer que a partir disso há uma mudança com
importantes conseqüências clínicas. Não se trata apenas de
mostrar a inconsistência do cálculo do gozo, uma vez que o falo
e o objeto a não constituem uma totalidade, ou seja, não fazem
Um.

1 1 . Porge, E. Os 110111es do pai em Jacq ues Lacan . Rio de Janeiro: Compa­


nhia de Freud, 1 998.
1 2 . Idem, p. 1 29.
222 CH R ISTIAN I NGO LENZ Ü UNKE R

A renúncia ao cálculo, em sua totalidade fantasmática, tor­


na-se assim abertura para uma certa ambigüidade produtiva.
O cálculo como operação constitutiva do sintoma não visa re­
cobrir ou interditar esta ambigüidade, mas, ao mesmo tempo
situa-se como uma via alternativa para a pulsão.
Freud dizia que a cura em psicanálise ocorre por acrésci­
mo. Podemos dizer que para o último Lacan, a cura está na su­
p lência, na iden tificação ao s i n t h o m e como atestado de
incompletude do sintoma. Clinicamente isso permite a divisão
da análise em duas partes. A relação que o pequeno Hans man­
tém com o seu sintoma é emblemática desta primeira fase do
tratamento: o gozo do sintoma, diz ele, não conta, é uma "bes­
teira". No início o próprio sintoma, segundo a imagem formu­
lada por Freud, é comparável a uma bela dama que um dia
aparece subitamente em uma cidade. Como não se sabe de
onde veio espera-se que um dia, igualmente sem aviso, vá em­
bora. Na primeira parte o cálculo do gozo é levado ao seu pon­
to de paroxismo. Os caminhos da formação de sintomas são
refeitos e as articulações significantes para sua redução, subje­
tivação e deslocamento são realizadas. Isso nem sempre re­
dunda em uma remoção do sintoma, mas sempre em uma
redução da sua capacidade de engendrar sofrimento.
A segunda parte da análise geralmente começa quando o
sujeito sente "saudades" de seu sintoma e se vê diante da di­
fícil tarefa de encontrar um novo destino para o que se preci­
pitou a partir do trabalho da transferência. De fato, é apenas
neste segundo tempo que a expressão genérica "o sintoma" é
propriamente aplicável. No começo há apenas sintomas, diver­
sos e desarticulados entre si. Sintomas em crise de gozo, ou
gozo em cálculo estável, delimitado pelo caráter. O meio da
análise, se é que pode sustentar a ambigüidade desta noção, foi
muito bem examinado por Nasio 13 através da chamada "crise
transferencial". Ponto onde se coloca agudamente a possibili-

13. Nasio, J.-D. Como t ra ba lha o psica n a lis t a . Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2000.
A L É M DO C Á L C U LO : A SUP L Ê N C I A 223

dade de uma interrupção mas também onde fica claro o esgo- .


tamento d o caráter fálico da transferência. Se no primeiro mo­
mento o trabalho se orientava para as vicissitudes do cálculo
do gozo no segundo momento começam a ganhar força os te­
mas e questões ligados à suplência.
• � ' - � - T - � - -
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, LIVROS PUBLICADOS PELA EDITORA ESCUTA

Psicanálise, judaísmo: ressonâncias, Renato M ezan (esg.)


Do gozo criador, Carlos D . Pérez
O manuscrito perdido de Freud, H. Haydt de S. Mello
O psicanalista e seu ofício, Conrad Stein
Elementos da interpretação, G uy Rosolato
A pulsão de morte, André G reen et ai.
Psicanálise de sintomas sociais, Sergo A. Rodriguez/Manoel T. Berlinck
(orgs.)
Fam,7ia e doença mental, 1$idoro Berenstei n
Narcisismo de vida, narcisismo de morte, André G reen
As Erínias de uma mãe, Conrad Stein
Notas de psicologia e psiquiatria social, Armando Bauleo
Trauma, amor e fantasia, Fran klin Goldgrub
Clínica psicanalítica: estudos, Pie rre Fédida
Psicanálise da clínica cotidiana, Manoel Tosta Berlinck
O acalanto e o horror, Ana Lucia C. Jorge
A Representação. Ensaio psicanalítico, Nicas N icola"idis
O desenvolvimpnto kleiniano I. Desen v. clínico de Freud, Do nald
Meltzer
Édipo africano, Marie-Cécile e Edmond Ortigues
Comunicação e representação, Pierre Fédida (org . )
Ensaios de psicanálise e semiótica, M i riam Ch naiderman
Freud e o problema do poder, León Rozitchner
Melanie Klein: evoluções, E lias M. da Rocha Barros (org.)
Figurações do feminino, Daniàle B ru n
1 4 conferências sobre Jacques Lacan, Fani H isgail (org.)
Introdução à psicanálise, Luís Ho rnstein
O aprendiz de historiador e o mestre-feiticeiro, Piera Aulagnier
O desenvolvim ento kleinia n o li. Des. clínico de Melanie Klein, D.
Meltze r
Tausk e o aparelho de influenciar na psicose, Joel Birman ( org.)
A construção do espaço analítico, Serge Viderman
Um intérprete em busca de sentido - I, Piera Aulagnier
Um intérprete em busca de sentido - li, Piera Aulagnier
Ter um talento, ter um sintoma, Denise Morei
A dialética freudiana I: Prática do método psicanalítico, Claude Le G uen
O inconsciente: várias leituras, Felicia Knobloch (org.)
Psicose: uma leitura psicanalítica, Chaim S . Katz (org . )
História da histeria, Etienne Tril lat
A rua como espaço clínico, Equipe de A.T. do Hospital-Dia A CASA
(org . )
A clínica freudiana, Isidoro Vegh
O título da letra, Jean-Luc Nancy e Philippe Lacoue-Labarthe
Quando a primavera chegar, M. M asud R. Khan
O Deus odioso. O diabo amoroso. Psicanálise e representação do mal,
Mareio Peter de Souza Leite e Jacques Cazotte
As bases do amor materno, Margarete Hilferding, Teresa Pinhei ro e He-
lena 8. Vianna
Transferências, Abrão Slavutzky
Do sujeito à imagem. Uma história do olho em Freud, Hervé H uot
O sentimento de identidade, N icole Berry
Gigante pela própria natureza, Emilio Rodrigué
Freud e o homem dos ratos, Patrick J. Mahony
Nome, figura e memória, Pierre Fédida
A supervisão na psicanálise, Con rad Stein et alii.
O lugar dos pais na psicanálise de crianças, Ana Maria Sigal (org.)
Perturbado r mundo novo , S B PS P (org.)
Cidadãos não vão ao paraíso, Alba Zaluar (Co-ed. Edunicamp)
Casal e família como paciente, Magdalena Ramos (org.)
Mancar não é pecado, Lucien Israel
Crônicas científicas, Anna Veronica Mautner
Penare, Celia Eid e Maria Lucia Arroyo
A histérica, o sexo e o médico, Lucien Israel
Olho d'água. Arte e loucura em exposição, J oão Frayze- Pereira
Vida bandida, Voltaire de Souza
Figuras da teoria psicanalítica, Renato Mezan (Co-ed. E D U S P)
Em busca da escola ideal, Neda Lian Branco Martins
A casca e o núcleo, N icolas Abraham e Maria Tõrok
Ah! As belas lições!, Radmila Zygou ris
Sigmund Freud. O século da Psicanálise (3 vol . ) , Emilio Rodrigué
A dialética da falta, Alba Gomes Guerra e Patrícia Simões
A interpretação, Elisabeth Saporiti
Fato em psicanálise, IJPA
O corpo de Ulisses. Modernida de e ma terialismo em A dorno e
Horkheimer, Paulo Ghiraldelli J r.
Considerações sobre o psiquismo do feto, lnerezinha Gomes de Souza-
Dias
Isaías Melsohn. A psicanálise e a vida, Bela Sister e Marilsa Taffarel (orgs.),
Outra beleza. Estudo da beleza para a psicanálise, Claudio Bastidas
O sítio de estrangeiro, Pierre Fédida
Psicoterapia breve psicanalítica, Haydée C. Kahtuni
O processo analítico, IJPA
Elaboração psíquica. Teoria e clínica psicanalítica, Paulina Cymrot
A linguagem dos bebês, Marie-Claire Busnel
Uma pulsão espetacular, Psicanálise e teatro, Mauro P . Meiches
Freud. Um ciclo de leituras, Sílvia Leonor Alonso e Ana M aria Siqueira
Leal (orgs. )
Cadernos de Bion 1 , J úlio C . Conte (org . )
O estrangeiro, Catarina Koltai (org . )
Eu corpando. O ego e o corpo e m Freud, Liana Albernaz de M . Bastos
Diálogos, Gilles Deleuze e Claire Parnet
O sintoma da criança e a dinâmica do casal, Isabel Cristina Gomes
A escuta, a transferência e o brincar, /JPA
Sexo, Rosely Sayão (Co-ed . Via Lettera)
A pro va pela fala, R o l a n d G o ri ( C o - e d . U CG)
O instante de dizer, Marie-Jose Dei Volgo (Co-ed . U CG)
O desenv. kleiniano Ili. O significado clínico da obra de Bion, Donald
Meltzer
Achados chistosos da psicanálise nas crônicas de José Simão, Jane
de Almeida (Co- E D UC)
A história de Tobias. Um estudo sobre o animus e o pai, Fabíola Luz
Freud e a consciência, Oswaldo França Neto
Pulsões de vida, Radmila Zygo u ris
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Transferência, sedução e colonização, IJPA
Febem, família e iden tida de. O luga r do Outro. I s ab e l Kah n Marin
A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica, Gina K. Levinzon
Mosaico de letras. Ensaios de psicanálise, U rania Tourinho Peres
Cadernos de Bion li, Júlio César Conte (org . )
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Ética e técnica em psicanálise, Luís Claudio Figueiredo e Nelson Coelho Jr.
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Nas encruzilhadas do ódio, M icheline Enriquez
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A con versa infinita - 1 . A palavra plural, Maurice Blanchot
A morte de Sócrates. Monólogo filosófico, Zefe rino Rocha
Cenários sociais e abordagem clínica, J osé N ewton Garcia de Araújo
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lo XIX, Sidnei José Cazeto
Narcisismo, superego e o sonhar, IJPA
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Toxicomanias, Du rval Mazzei Nogueira Filho
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Sublimação da sexualidade infantil, Paulo A. Buchvitz
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A formação do psicanalista, François Pe rrier
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Crianças na rua, Ana Carmen Martin dei Collado
Um olhar no meio do caminho, Sônia Wolf
Doenças do corpo e doenças da alma, Lazsl o A. Ávi la.
Os dizeres nas esquizofrenias. U ma cartola sem fundo, Mariluci No­
vaes
"Com o mesmo vigor com q u e Christia n
D u n ker trata o s m i stérios d o sujeito
formu l ados por Freu d , podemos encontrar
em suas pág i nas, efetiva mente, uma
leitura. O q u e faz deste traba l ho um
ato de ler é q u e ele tão bem nos
ens i n a a ler e, nessa transmissão de
um saber-fazer com a l i n g uagem em
que nos conta mos, a d i sti n g u i r essa
i nscrição do sujeito, como excl usão que
coag u l a o saber, na repetição de cá lcu los
própria à sua condição de cor-itador. De . _
fato, se o gozo é i m possíve l , é\'. pela
eventu a l i dade de o sujeito posi�ionar-se
como contador q u e u m gozo entra em ação.
Ta l acidente perm ite esse uso esp�cifico da
l i nguagem que su porta a sustentação m ítica
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ISBN 85-7 1 37- 1 93-8

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