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Disse "atitude".

E uma palavra codificada que teni seu lugar na lógica matemática, ou pelo
menos na filosofia. Bertrand Russell falam das "atitudes proposicionais". Devo explicá-lo.
O que designamos como "atitude proposicional"? Designamos as diversas relações que
podem se estabelecer entre o que se continua a chamar, nessa filosofia, de espírito (espvit),
inind - o objeto destacado porjohn Locke -: e os enunciados. Essas relações são, por exem-
plo, a crença, o medo, a esperança, o conhecimento: a compreensão, a suposição...
Quando digo alguma coisa, quando faço uma proposição, posso qualificar o que digo es-
pecificando: é O que eu creio: é o que sei, é o que espero, ou mesmo o contrário? digo o
contrário do que penso. Em outl-as palavras, uma atitude, no sentido lógico, é uma relação
entre o enunciado e a enunciaçáo. Náo se pode eliminar isso.
Quando proponho como título Peças auulsns, quero dizer que imagino poder não me
encarregar inteira~iientedisso, fazer tentativas sem muita verificação. Pensar que há uma ati-
tude, no sentido que eu disse, leiiibra inicialmente que há algunia coisa atrás do que se diz.
Que, atrás d o que se diz, há o fato de que se diga. Foi a con\:ocação utilizada por Lacan como
ponto de partida do seu escrito "O aturdito"'. "Que se diga", a atitude proposicional, o fato da
enunciaçáo, permanece de bom grado "esquecido por trás do que se diz"'.

"Elucaibrat".
Onde está "o que se diz"? Não é um dado elementar, não é um dado primeiro. O "que se
diz" está "no que se ouve"'. "O que se diz", o que eventualmente vocês registram eni seus
papéis como previailiente eu mesnio registrei anotações, é o que, p x a !~océs,se diz naquilo
que ouvein de mim. O que se diz já é o que se lê e que vocês escrevem. Certamente essa é a
prova de que há alguma coisa que se lê.
O que se ouve, eis o fato, o que ocorre, o que se registra. Alguém que ignore o francês tem,
mesmo assini, acesso ao que se ou\;e. É o que acontece aqui, o que se ou\,e. O verdadeiro
positivismo, ofatualis~~zo, é se manter no que se ouve. Tratando-se da interpretação analítica,
convém leinbrar. não esquecer, que é antes de tudo o que se ouve, estando a cargo daquele
que a recebe, se quiser, procurar o que está dito no que ouviu. Não basta dizer: será que você
pode repetir? Frequentemente a interpi-etação suscita isso. Nunca se deve repeti-la. Essa dis-
tancia entre o que se ouve e o que se diz é de estmtuix.
"O que se diz no que se ouve" já é uma constmção, unia elucubração. Por isso; escrever
Lacan baseado no que foi ouvido nie absorve. Resta ainda por saber o que se diz nisso. Diante
de cada palavra, de cada linha, percebo que há uma constmção a fazer, a tentar, e náo apenas
uma, antes de liberar um manuscrito de Lacan. Entre o fato de que se diga e o de que se ouça
há o que não é uiii fato, mas uina constmção, que eu poderia chamar de um "eluctibrat". O
elucubrar é o que se diz, e nunca estamos muito certos d o que se diz.
Se aqui utilizamos a fonna pronoiiiinal, é porque de maneira geral "o que se diz" não é o que
se quer dizer. A vantageiii para iiiini de ter posto isso no papel é que eu não tive que me ocupar
com o que eu queria dize. imprensei esse moinento. A distância entre o que se diz e o que se
quer dizer é o que permite a interpretação que repousa nessa defasagem, e significa que sempre
se pode fazer mais elucubrações na ordem do: ele me diz isso, mas o que ele quer dizer?

Novembro 200j 10 Ol>Ço.olaçaniana no 44


Alguém me dizalguma coisa em sessão e eu caio nagargalhada. Eu rio, ou seja, eu digo. Rir
é unia maneira de dizer. O que é que eu digo precisamente? Será que digo necessariamente
que isso me diverte, que é engraçado? '!ãIàlvez isso diga emtamente o contrário, que se está
desesperado, pois se pode de preferência rir a chorar.

hfa~ti~:
O analista não chora. Nunca se viu um analista chorar em sessão. Ceriamente é melhor
assim. São os analisantes que eventualmente choram. Mas, quando isso ocorre, não diz por si
só o que quer dizer. Chorar pode ser uma resistência. Antes chorar do que falar, mas também
se consegue niuito beni falar chorando. EIvez assinale que se arrancou uiiia verdade. Chora-
se por essa extração. Seria mesmo possível elucubrar que os prantos coniemoram a castração
e que o que se diz sen-e para isso.
Quem chora ali? "Quem chora ali, senão o simples vento, nesta hora/ Só, com diamantes
enormes?. . . Mas quem chora,/Tão próximo de mim mesmo no niomento de chorar!" Aritude
proposicional, cito eu. Passei a citação, ao primeiro verso de 'X jovem Parca". Na citação,
algum outro fala e diz que se trata apenas do vento que chora, na solidão da hora.
Quem chora na solidáo da sessão analítica?São, em geral, as inulheres. Elas levam a queixa
até as Iágrinias, às vezes até mesmo simplesmente a verdade. Ao fazê-lo, mostiani que a sessão
analítica é com freqüência a hora do choro, a ch'oi-a, se assim posso dizer. Isso vale o que
valer. É como dizer que ensinar - é ao que eu associo - ésunzgrar (disso)>.
Trata-se de uma outra hora à qual sou convocado. Há sangraiiiento em jogo. Não somente
saber. Portanto, poderia dizer a i'ocês: "Isto é meu sangue". Sim. Tive que me dar conta nesta
manhã de que cheguei ao ponto em que ensinar é alguma coisa como exibir seus estigmas.
Ensino como niártir da psicanálise. Sinto bem o ridículo disso. Mas sem dúvida a posicão do
niártir é aquela a que se chega quando se tem uma paixão.
Ter uma paixão é suportar, sofrer. Senti esta manhã, por ter de girar novamente a manivela,
o quanto estou longe da posição universitária da qual pani e com a qual continuei a me ocu-
par por vários anos, ensinando a psicanálise. Aliás: assinalei um dia que eu sentia essa posição,
que fazia de mim um professoix, vacilar, tal como assinalo hoje a que ponto não nie é mais
natural dirigir-me a uma multidão. É a primeira vez que sinto isso. É verdadeiramente um
esforço converter a paixão da psicanálise, o que ela pode componar de sofrimento, em uma
exibição da paixão.
A atitude do "eu sei", que sustenta um ensino, eu poderia substitui-la por um "eu sofro".
Sofro mil mortes para falar para vocês. Certamente não aparento isso e, por perceber o ridículo
dessa situaçio, substituo o sofrer pelo riso, ao menos pelo sorriso. Antes sorrir d o que sofrer
Por isso digo "peças avulsas". É o que tenho que arrancar de mim para trazer para \~ocês.
Digo que se trata cle uma atitude analítica porque não se pede outra coisa a um analisante a
não ser entregar seu pensamento em peças avulsas, sem se preocupar coni a ordem, a
congruência, a coerência nem a verossimilhança. E ele deve estar seguro de que qualquer
coisa que lhe ocorra não deixará de estar relacionada.
Trata-se da confiança que se tem no procedimento inventado por Freud e que Lacan traduriu

O p g o lacaniana no 44 11 Novembro 2005


como sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber se resume ao que se opera da relação, da
conexio escrita, para simplifica. SI.S~.
Tudo o que digo a vocês, estejani cenos, pouco a pouco vai
fazer sentido.

BI-icolagenz.
A função da peça avulsa é isolada no Sei~ziizário:A ai7gústia como um modelo de objetos
característicos da experiéncia modernaí. Nesse Seminário, a peça avulsa vale como unia apro-
ximação, uni esboço do que Lacan elucubra como o objeto pequeno a. A peça avulsa não é
um todo. O que a constitui como tal é o fato de se referir a um todo que ela não é. Ela é
retirada desse todo, de um todo em que ela tem sua função. Daí a questão: o que é a peça
a~ulsasozinha, fora do todo? E, pior ainda, quando o todo eni que ela teria sua função não
existe mais? Veiiios isso agora todos os dias: '&h!,lamento que não se fabrique mais isso!" E
vocé tem nas mãos a peça avulsa que pode ser toclo o aparelho, nienos o que seria seu todo.
E eis o aparelho, depreciado, decaído aosratus de peça avulsa.
Essa experiência é de fato coiiium e justifica a pergunta que Lacan faz sem dar a resposta:
qual é então o ser dessa peça avulsa, deíinitivaiiiente avulsa?Qual é a sua substância quando o
todo a que se referia periclitou, se tornou obsoleto? Que sentido ela teni?
Assim, a mais idiota das peças avulsas, uma vez isolada de sua Função como tal, se toma
enigmática. Não se sabe mais o que quer dizer porque ela não seive mais para nada. Um
critério para saber o que isso quer dizer é saber para que senle. Trata-se do pragmatismo
elenientar da significação resuniido no aforismo wittgensteiniano: ii7eaiziizgisuse, a significa-
ção, o sentido é o uso. Por isso, quando a peça avulsa não serve iiiais para nada, é uma figura
sem sentido, fora do sentido. E é exatamente no nioniento eni que ela coiiio tal não serve
mais para nada que pode ser então subjugada, prestar-se a mil e uin usos e, em primeiro lugar.
a um uso de puro gozo, se o gozo é precisamente, c01110 evoca Lacan no início doSeiniiiá~io:
Mais, aitlda, o que não serve para nadaR.
O valor de gozo da peça avulsa foi explorado com sutileza por uiii Marcel Duchamp que,
através do gesto do artista, converte a peça avulsa em objeto estético. Uni urinol posto em uin
pedestal, com a sua assinatura - certamente não se tiata de fazer suas necessidades - e que,
por isso mesmo: bi-ilha como uma Madona. Puro objeto de gozo. Há muita coisa a dizer sobre
a estetização da peça avulsa no que foi a arte conteiiiporinea, inas isso marcou de niodo
durável a atividade artística. A peça avulsa, uiiia vez retirada do seu uso natural, se presta a
outros USOS eventuais para os quais ela não foi feita. Trata-se de uiii processo, um procedi-
mento fundamental como a prática da bricolageni. É sob esse ângulo que se pode considerar
de maneira fecunda a história do pensamenro. Mstóteles não previu que chegai-ia o dia em
que um Tomás faria uma extraordinária aliança coni o motor iiiióvel e coni o Deus da sarça
Ardenre. A teologia foi feita do reeniprego de peças avulsas da filosofia grega, a fim& tentar
encontrar alguma coisa para dizer, um palavrório, sobre a i-evelação da Sarça Ardente. Toda
uma parte daqueles que foram trauinatizados por essa revelação fizeram alguma bricolagem
com as peças a~wlsasda filosofia grega. Isso produziu uma disciplina altaniente respeitável,
embora de cabo a rabo reniendada, que é a reologia. Ela é tão beiii feita que não se vé nem ao

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menos sua costura, as soldaduras necessárias para seu encaixe. Cabe dizer que ela foi polida
durante séculos.
%\:i-Strauss enfatiza, coloca a bricolagem9no inicio de sua obra, O Pensatileizto Se/uagei7i,
indicando assim haver uma ligação essencial entre o ângulo estmturalista, a estrutura e a peça
avulsa. A peça avulsa é um objeto que Lévi.Strauss chama de concreto, ou seja, que sempre
comporta, quando dele queremos novamente nos servir, alguma coisa predeterminada, devi-
do ao uso original para o qual foi concebida. As iniciativas, os projetos daquele que faz
bricolagens são limitados pela conformação da peça que foi pensada e produzida para o uso
precedente, do qual ela foi destaca. Ele fala de um "elemento pré-contido" que teni proprie-
dades deterniinadas, com o qual náo se pode fazer qualquer coisa. Tem-se uma liberdade de
manobra, mas ela é restrita pela configuração concreta do objeto.
O Drico/eur acuniula, seni saber porquê, as peças a\'ulsas que sempre poderão servir;
depois, quando tem um projeto, se arranja com o que teni, com um conjunto finito de iiiate-
nais vindos de origens diversas: de materiais heteróclitos. A estnitura não é totalmente unifor-
me. Costumamos pensar que ela é homogênea, um todo que faz sistema: não excedida se-
quer de uma ponta. A estrutura é suportada pelo heteróclito. O tesouro do bi-icoletli. é feito
ao sabor das ocasiões, é um resultado contingente do que ele pôde recuperar de resíduos
diversos. Nesse sentido, é sempre uiii elemento semi-particularizado que tem, ao iiiesmo
tempo, determinações muito precisas, mas cujo emprego precisa ser encontrado.

2. A linguagem e a alíngua.

Signfiantizapio dofalo.
Do ponto de vista psicanalítico - o que me parece estar contido noSeii~i~zário: O Siiltho-
ii1a2de Lacan -, o corpo é coniparável a um monte de peças awlsas. Náo percebemos isso por
estarmos presos à sua forma, porquanto a pregnância da forma impõe a idéia de sua unidade.
Quantos lugares há nesta sala? Um por um. Este é um ponto de vista que tem sua consis-
tência. Esse ponto de vista que faz com que um corpo seja Uin, teni unia consistência tal que
faz com que o corpo vivo sirva coiiio modelo do indivíduo, do indivíduo em inclivisão. Esta
palavra diz bem o que o indivíduo deve à visão: da qual a biologia permanece tributária.
Quando Lacan recorre as referências biológicas eni seu Seii~hzái-io:A angzíítia, ele não o
faz sem lembrar que a diferença estrutural permanece primitiva e que introduz " ~ p t u i x s ,
cortes, a dialética signifi~anre"~~.
Entendamos o que isso quer dizer: que ostatzis primitivo do
corpo é de ser em peças avulsas, contrariamente à ei~idênciad o visível. Recordo apenas como
lembrança os fenõmenos que foram investigados por Mélanie Klein e que Lacan reuniu na
expressão introduzida por ele no vocabulário da psicanálise na França, a do corpo despedaça-
do, que designa um scatus subjetivo do corpo, primário em relação à satisfação da boa fonna,
a gestalt. Isto é inclusiie o que dá sentido ao estádio do espelho. Se o estádio do espelho
acontece, é porque temos de lidar coiii umstatzis subjetivo do corpo que está em pedaços. E
assim que Lacan o escreve em "O aturditos: "o corpo dos falantes está sujeito a se dividir eni
seus órgãos"". Isso adquire todo o seu valor em relaçáo à referência, que é nele recorrente, à
unidade do corpo vivo, a alma como forma do corpo vivo e ao fato do conceito de Um se
originar ou não dela.
NO Selninário: Mais, ainda essa questão da unidade do corpo, sua indivisão, retoma vári-
as vezes, ilusão da qual é preciso se desprender para apreender que - como é possível fazer na
experiência analítica -: em um certo nível de concepção, os órgáos se associani, se
correspondem, conspiram para a boa saúde e: de um outro ponto de vista, trata-se de encon-
trar para eles um sentido, um valor, uma função. Além disso, a forma nunca é como deveria
ser: uma perna é mais curta do que a outra: há um pouco niais de gordura aqui e ali.
Os órgãos são uni monte de peças avulsas e, como se vê na esquizofrenia, o sujeito tem
que encontrar para eles unia função. Com efeito, o despedaçamento ali se iiianifesta quando
a operação de unificação imaginária não Funcionou.
Em "O aturdito", Lacan retoma doSenzi?7drio:Aa?zgústiao exemplo da circuncisão, cirur-
gia que chega a dar uma funçáo a um pedaço de carne até então negligenciado eni sua emi-
nente dignidade. Desta vez, é ao destacá-lo que se dá ao prepúcio uma função, rnas apenas
para introduzir o exeiiiplo niaior da peça a~ulsana psicanálise, o falo, este órgão como peça
avulsa que se torna significante no discurso analítico.
A sg~zi/icatzlizaçàodo falo decorre da lógica da bricolagem. Nele podemos reconhecer
um elemento pré-contido, no sentido de Lévi-Strauss, na medida em que, como objeto con-
creto: ele já está de fato isolado como tal no corpo, parecendo chapado, quando erétil, e a
ponto - assinala Iacan - de poder parecer amoví\~el.
Trata-se de experiência corrente que assedia os sonhos, inclusive a literatura. O que vale
aqui pai2 o significante fálico vale para toda operação de significantização. Digamos que ela se
apropria de uma peça awlsa para eleiá-Ia à dignidade do significante.

fitiuturu diuisào e esti'rrttrra sistelila.


Escolhi como título Peças avulsas antes de tudo para poder náo planejar, para poder aco-
Ihero que nos chegasse. Há inclusive um título do qual vocês escaparam:Zibuldo~ze.Hoje, se
pode encontrar, ein francês, essa obra enorme de Leopardi, com duas mil páginas, uma espé-
cie de diário feito de peças avulsas que li em italiano há alguns anos". Tenho uma fascinação
especial por essa obra e quero lê-la toda. Disse a mim mesmo: eis o que é preciso fazer, ao
longo do tempo, dizer o que acontece.
Preferi "Peças a\wlsasnporque esse titulo vale como uma lembrança essencial concemente
à estrutura. A estrutura está seinpre referida a um despedaçamento inicial, a uiii amontoado
de peças avulsas. Para dizê-lo em forma deslogulz, a estrutura, antes de ser sistema é divisão.
Por isso a estrutura nunca é síntese.
Quando Lévi-Strauss introduzia a definição do inconsciente como tal semprevazio e , como
operador, impondo leis estruturais a elementos inarticulados, a um vocabulário de imagens
fazendo dele uin já tínhamos presentes estes dois registros da estrutura, uma or-
dem, mas c~j~uocabulário, a matéria, lhe era prévio, sob a fonna de um material que lá estava
antecipadamente. Pode'ríamosdizer que a estrutura sempre tem um Outro que é o amontoa-
do prévio do seu niaterial. Lévi-Strauss diz que são elementos inaniculados que conseguem

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se articular na estrutura. Todavia, eles já sáo elementos, por mais inaniculados que sejam, isto
é, destacados como tal. É preciso distinguir aqui, por exeniplo, a estnitura sistema, a partir da
qual Lacan fará a ordem simbólica, e a estnitura divisão.
Apergunta que se torna cada vez mais insistente em lacan - e que é premente no final do
seu Setitinário: Mais, ai~zda- é a de saber como se passa dessa estrutura-divisão, da divisão
significante dos elementos, a estrutura-sistema. Sob esse aspecto, o elemento sempre conser-
M alguma coisa da peça awlsa. Daí em diante", Lacan interroga a definição do inconsciente
estruturado como linguagem. Uma vez que o inconsciente é decifrado, ele só pode se estniturar
como uma linguagem, mas essa linguagem é sempre hipotética. Isso visa a estnitura-sistema.
A panir daí, lacan introduz a diferença entre a linguagem e a alíngua. Unia vez que por
trás da linguagem se faz surgir a alíngua, a linguageni decai ao statuc de uma elucubração de
saber sobre a alíngua, a linguagem é remetida ao status deelucubrat. A linguagem é o siste-
ma eventualmente gramatical, o sistema linguístico que se inventa a panir da alingzta. Nisso
se baseia o debate enrre os lingüistas e os filósofos: como se deve estrutunr a língua?
Lacan chega a dizer que a linguagem como tal não existe, é uma ficção, uina constnição.
Esse ponto certamente abre caminho para o que Lacan vai tentar com seus nós e com a
definição inédita que ele dá do sinthoiiza. Clivar a linguagem em sua diferença com a
ali?zguanão deixa ilesa nossa referência ao inconsciente na prática analítica. O inconsciente
não é um dado. Para fazer um curto-circuito, eu diria que o dado primitivo é o sintoma.

3. Do sintoma ao sintborna.
Escabelo
Eu disse "Peças awlsas" para abranger o ano. Caso contrário, eu teria dito a vocês: vou
inicialmente nie dedicar a um comentário do Seini~?ário O Siiz~hotiza".A mudança ortográfi-
ca feita por Lacan é uma mudança de sentido. A diferença entre o sintoliia e o si?zthoiiza
repercute a diferença entre a linguagem e a alí?zgua, indicando um ponto de vista sobre o
sintoma no qual ele não é mais uma formação do inconsciente.
Lacan, enfatizando o apoio tomado por Freud em suas deduções sobre os menores acon-
tecimentos da vida psíquica, tais como os lapsos, os atos falhos, etc, propiciava um modelo
para pensar as formaçóes do inconsciente tomado emprestado do registro da vida, do regis-
tro vegetal: "Não há necessidade de microscópios, riem de instruiiientos especiais, para reco-
nhecer que a folha tem os traços da estrutura da planta da qual ela foi destacada"16.Fiquei
. A folha destacada da planta não é
contente de encontrar o adjetivo "destacada" nesse lugar.
absolutamente unia peça avulsa, ela é estruturalmente diferente de uma peça avulsa por ser
informada pela planta, é estruturalmente idêntica a ela. Ele vai buscar a planta, um organismo
~ ~

vivo e , para pensar a formação do inconsciente, ele enfatiza o fato de que todas as partes da
planta concorrem para a mesma totalidade, finalizada, da planta.
Ositzthotna, aquele que Lacan inventa após seu Seiniizário: Mais. ainda, é uma peça avulsa,
uma peça que se destaca para desfuncionar, uma peça que não tem outra função -aparente-
mente é assim que ela se destaca -a não ser a de entravar as funções do indivíduo e, longe de ser

Opyáo Lacaniana no 44 15 Novembro 2003


.
imaginário e das formas para tratar apenas o simbólico, e constatar que, para manejar os nós, é ~

preciso obrigatoriamente abrir os olhos. Mas trata-se, no entanto; de uma geometria que ele
define como interdita ao imaginário. É a dificuldade de imaginar na ordem do nó que constitui
sua verdadeira substância.Aqui, tocamos nos limites de todas as metáforas naturalistas ou vitalisras.
Aliás, íacan se confronta com Chonisky, com quem se encontra nos Estados Unidos e que
o fascina, defendendo a tese segundo a qual "a linguagem é um órgão" e que, porranto, ins-
creve a linguagem como um órgão suplementar do corpo, assegurando sua sobrevivência no
meio, um órgão de apreensão pela palavra, pelo conceito. A idéia da linguageni órgão inspi-
rou o positivismo lógico, \Vittgenstein, a idéia de que há doenças da linguagem, sintomas da
linguagem, e de que a boa filosofia é uma terapêutica da linguagem, que a lógica deve nos
ajudar a aprender a dizer o que é e, porcanto, a nos livrar dos falsos problemas. Este é o
sentido da expressão de \Vittgenstein "jogo de linguageni". Isso não significa que se joga, mas
sim que falar seinpre faz parte de uma atividade, de uma forma de vida. É coerente com a
noção da linguagem como órgãol*queestá no Tractalw: 'K linguagem cotidiana é uma parte
do organismo humano". Nesse sentido, Chomsky apenas se inscreveu na inesma via, uma via
que leva a situara filosofia como uma atiiidade que consiste essencialmente eni uma elucidação,
ein esclarecer as proposições para que a linguagem se ajuste a realidade.
No horizonte daquilo que entrava tanto o Tractarusquanto as in\~estigaçóesde Wittgenstein,
há a crença de que os problemas se dissiparão. É o que diz\Kttgenstein: 74 solução do proble-
iiia da vida é reconhecida no fato de o problema desaparecer"".
Esta idéia: ''a finalidade da filosofia ou da sabedoria é nos ensinar a não inais colocar o
(~roblemada vida", é o que \Y$ttgenstein acreditava, e também Paul Valéiy e mesino André
Gide. Não cabe mais se colocar problemas. A cultura, a filosofia, é o apagamento de proble-
mas insolúveis que não cabe colocar. A filosofia é ensinar a não se colocar problemas.

A veuelação OU O shztonza.
Ao lado disso, tivemos na fenomenologia e no que dela decorreu, pelo contráiio, o culto
da questão infinita que janiais deve ser fechada. E onde Lacan se inscreve nisso? Muito preci-
samente neste ponto: há um probleiiia da vida que não tem solução, mas que não pode deisar
de ser colocado, a saber, não há relação sexual para a espécie humana. Toda a sabedoiia rela-
tiva aos falsos problemas não impede que esta questão se coloque, embora a forma
proposicional sob a qual esta tese é enunciada não seja satisfatória: não há. Não é satisfatória
aos olhos do próprio Lacan, pois ela procede através de uma negação e a negação é uma
relação, já é uma construção.
Tratar-se-ia então de apreender aqui o pedaço de real que se visa quando se diz "não há
relago sexual", que é a face negativa do fato positivo: "hásitzthot~za".Iacan chama desitztho-
~tzao fato posirivo cujo enunciado, "não há relação sexual", é apenas sua face negativa. b r
isso podemos dizer - por que não? - que a psicanálise e, digamos, o sujeito, é fundaniental-
inente Zetético, do gregozêtéi: buscar. aquele que fundamentalmente busca; este era o qua-
lificativo que se atribuía aos céticos.
A psicanálise estava de acordo com o que foi nossa modernidade. Digo "o que foi nossa

Opyão Lacaniana no 44 17 Novembro 200)


modernidade" porque ela começa visivelniente a mudar. A modernidade irônica, que sabe
que tudo não passa de seiiiblantes, provoca aos nossos olhos uiii contrachoque e o ietomo
ao peso singular que tein para nós: atualmente, a tradição, inclusive a revelação conio princí-
pio d e uiiia moralidade objetiva.
Hoje, podenios enuncia< claramente, que os famosos Comitês de Ética sobre os quais
faláiaiiios outrora coin Éric Laurent - nós os antecipamos -não têni mais imponân~ia'~. Os
Coniitês de Ética nos quais nos I-eunimos, discutimos, fizemos acordos para negociar a nor-
nia, isso não tem niais importáncia em relação à existência do Outro. Atualmente temos, pelo
contrário, todos os sinais afirmando o morno a um Outro que é um, ou seja, uni retomo a
uiii levar a sério o fato da i-euelação- no qual a inoralidade, o que é bem e o que é mal, não é
uma questão pala se discutir coin o vizinho, para votar e concordar com ele -, no qual o bem
e o mal procedeiii de uni discurso que foi sustentado pelo Outro ein um certo iiioiiiento e
que institui mandamentos. Isso seiiipre esteve ali, mas era mais discretol dissiniulado, mesiiio
para certos olhares, sob o peso de uina iiiodernidade triunfante. Assistiiiios ao sensacional
retorno a cena do mundo, por todos os lados - porque revelação não há só uma -, de sujeitos
que são capturados pela verdade da revelação. Eles realizam sob nossos olhos a aspiração ao
que Lacan chaiiiava "uin discurso que não seria ~eniblante'"~.
'iiittgenstein eValéty podiaiii sonhar coiii uma filosofia que se anularia a si própria por não
haver inais questão que valesse; mas, se eles pudessem realizar a anulação da filosofia, seria
porque ela seiiipre estivera sustentada por sua relação com a divindade e depois, por sua
relação com a re\.elação. Foi o que sustentou o esforço de pensamento durante toda a Idade
Média e mais tarde, coin Descartes ou Malebranche, o que sustentou foi a relação da ciência
com a reirelação. Até Hegel isso se manteve assim. Uma vez deixada nesse ponto, de fato, ela
não tinha mais nada a fazer do que se ajustar à ausência de problemas.
Surpresa! A peça avulsa, que não tinha mais sen~entia,é agora colocada sobre um tanque
de guerra. Ela se iiiipõe na cena pública; no que se pode chamar de política do mundo. Ela ali
está. Tudo isso iião basta para constituir peça avulsa: tudo isso se ajusta inuito beni. Ajusta-se
ao fato de que remos escolha: ou a revelação ou o sintoma.
Traduzido por Inés Aulran Dourado Barbosr e retisado por \'era .4~ellarRibeiro

I I - Ressonâncias.

1. A máo de Joyce.

Intercessor.
Eu disse "peças awlsas" porque fui levado a fazer algo diferente do que sempre fiz aqui. Rnso
eiii me fiar na auséncia de ordeiii e deixar a vock a tarefa de encontrai-sentido. Colocar ordem
nos ditos de Lacan foi o que seiiipre fiz. Seiiipre coinuniquei minha elucubração sobre Lacan.
Ao menos uiiia vez, para inudar um pouco, não serei racional, no sentido da racionalidade.
Contentar-nie-ei d e raciocinar, no sentido da ressonincia. Talvez tenha sido o que seiiipre fiz,
seiii saber: raciocinar sobre o dito de Lacan.
É assim que escrevo iacan, que o redijo. Não procuro pôr nisso minha ordem. Procuro
abster-me disso. No mais, raciocinar sobre Lacan é sem dúvida o que convém, quando se
escreve e quando se lê o Set7zi7za~io:O Si>zthoi7za.É um percurso singular na elaboração de
iacan, um percurso feito de clarões, onde a coerência: para dizer o mínimo: não está em
primeiro plano. Nele, a visão &conjunto prevalece sobre a ordem.
Entretanto, há um fio. Ao longo desse vigésimo terceiro seminário Lacan segura James
Joyce pela mão. É uma imagem; unia imagem dantesca, quero dizer que ela vem de Dante.
Dante, por sua vez, em sua viagem através do inferno, do purgatório e do paraíso, segura a
mão de Virgílio. Talvez seja preciso sempre ter um guia, seja ele declarado ou escondido, um
intermediário ou: mais exatamente, um intercessor
O que é um intercessor? É aquele que tem influência e que a usa em favor de alguém, que
se interpóe. Se refletirmos sobre esta função do intercessor, náo podemos deixar de reconhe-
cer que Freud foi esse intercessor para Lacan. Foi a mão de Freud que iacan segurou ao longo
de seu Set~zkzh~io. Ele não acreditou que pudesse avançar na psicanálise, a fim de elucubrar o
que ela é, sem servir-se da fortaleza, como ele dizia, de Freud. Mas, foi um intercessor sob a
influência d o qual ele caiu. E nós também, evidentemente. Com a diferença de que Lacan
debateu-se contra a influência do intercessor Freud Ele se embaraça e se desembarap dela.
Reconhece-a pelo que é: um ascendente sobre ele, uma autoridade, uma dominação que se
impôs, um império que se estendeu, uma empreitada que se reforçou, e também uma fascina-
ção que o cativou e que teve poder sobre ele, que exerceu sua potência a qual ele se subnie-
teu. Uma paixão, é isto: aquilo ao qual a gente se submete.

Sir bstituições.
Enumerei, por alto, diversos termos entre os quais se reparte a significaçáo de influencia
no Diciotzáiio Le Rohert. Essa é unia de minhas ferramentas.
O ensino de iacan é o seu modo de lidar com a intercessão de Freud, sua maneira de sacudi-
la e de tentar desembaraçar-se dela, pois ela o embaraça, é uni fato, para apreender o que acon-
tece naquilo que ele pratica de uma psicanálise. 6 por isso que ele chama Joyce, contra Freud.
Ele traz um outro intercessor, um artista, ao invés de um analista, no lugar de Freud.
E, do mesmo modo, diria eu, osiizthoi77a no lugar do sintoma. Uma coisa vem junto com
a outra.
Por que essa palavra nova? Porque o sintomal tal como Freud o isolou, renovou, aniculou,
inventou, é a verdade. A tal ponto que íacan, quando estava prestes a escolher um outro
intercessor, definiu a operação freudiana como sendo ''a operação característica do sintoina'".
O que isso quer dizer? Que o sintoma freudiano é, propriamente falando, o que se inter-
preta, e O que se interpreta na ordem do significante. Quando repetimos a ordem do signifi-
cante, temos a noçáo de que o significante é solidário a uma ordem, assim como a noçáo de
que a ordem simbólica, como dizia iacan, não somente tem o primado, mas é primária.
E é isso que está em questão: a ordem é primária?A ordem da qual se trata é o que exprime
esta relação, a mais tola, Si-S*. Ela é a mais tola porque se conforma à seqüência dos números.
Impossível formular mais simplesmente. Essa ordem é a condição para o sentido. O significante

Opçáo lacaniana no 44 19 Novembro 2005


só teni sentido, para falar como iacan, em sua relação com um outro significante. Tudo da
operação freudiana resume-se na relação. A relação, para não qualificá-la, nós a chamanios de
"articulação".E é esse sentido do significanteque chamairios de verdade, quando ele nos incoiiio-
da. 1'01-intermédio de Freud, damos a essa verdade um outro nome, a chamamos de sintonia. O
sintoma é o nome clínico da verdade. É aqui, imagino eu, que lacan acaba mudando o nome
para designar o sintoma, precisamente quando faz uma disjunção entre sintoma e verdade dan-
do, nessa disjunção, um lugar ao gozo.
Vou continuar minha pequena série. E dizer que não queria pôr as coisas em ordem!
Posso ainda estender essa série de substituições, dizendo que a substituição da verdade
pelo gozo repercute aquilo que surge, se impõe, no final doSeiizitzário: Maisaimia, a substi-
tuição da linguagem pela aliizgua.
Por trás da linguagem, por trás da organização lingüística e filosófica que constitui uma
estrutura de linguagem, há a alii~g'ia.Há uma outra coisa que não Funciona, de todo moclo
não funciona como a linguagem.
A linguagem, diz Lacan, é uma elucubração de saber sobre a ali?zgua.É unia enormidacle
esse enunciado! É a partir dai que o ensino de Lacan sofre unia báscula e ele vai buscar unia
outra ferramenta. A linguagem consiste em imaginar-se que falar serve para comunicar. Com
efeito, ela parece isso. O ensino erigiu-se a partir disso.
Aquilo que da alíngua se deixa entrever serve a unia coisa completamente diferente da
coinunicação, a algo diverso do que pode, aqui, tomar a foniia de diálogo. A alíngua é o
conceito que quer dizer que o significante sente ao gozo.
A linguagem não passa de uma elucubração sobre esse uso primário, que leva a acreditar
que seu uso primeiro é servir à comunicação. É sobre essa elucubração, bem estabelecida,
que a psicanálise se baseia. Disso decorre o fato de Lacan a ter estruturado a partir do modelo
da comunicação dita intersubjetiva. Aqui, intersubjetivo não é o essencial, isso continua a
prescrever as relações entre o sujeito e o Outro. O inconsciente freudiano só tem sentido
nesse nível, no da conlunicação. Ele quer simplesmente dizer que a coniunicação pode ser
cifrada e: portanto, que ela denianda ser decifrada.

2. Uso lógico.

Uiziueisitfliio.
Toniar a mão de Joyce, para Lacan, quer dizer que há uin aléiii da decifração. É o valor
exato que é preciso dar ao que Lacan lembrou, de forma hunioristica: Joyce prometia ocupar
os universitários. Era sua profecia: "O que escrevi não cessará de dar trabalho aos universitári-
os". Profecia realizada. Há os estudos joyceanos que, na universidade de língua inglesa, reú-
nem unia falange crescente, uma coniunidade que tem seus ritos e que está brotando na
França. Aliás, iacan tinha atraído a seu Seiiziizário o inais brilhante dos expoentes franceses
dessa comunidade na pessoa de Jacques Aubert, a quem devemos: desde então: a edição de
Joyce na Plêiade, coni um aparato crítico fantástico, e que, iiiais recenteiiiente, tomou-se o
realizador de uma re-tradução de tilisses, com niúltiplas \;ozesn. Ele aí está como a prova viva
Lacan emprega no Seiizil7áiio: Mais, aiirda, a rotina que associa o significante ao significado,
"essa boa rotina que faz com que o significado mantenha sempre o mesmo sentidon26,e que
nos assegura sobre a veracidade do sentimento "tido por cada um: de fazer pane de seu
mundo", do que nos resta como mundo. O que não vai muito longe. O mundo de nossos
hábitos, dos que nos são próximos, da família, um mundo ultra-reduzido i medida que as
invenções procedentes do discurso da ciência o fazem vacilar

Aio de bai-baizte.
Globalização.Aglobalização é uma des-mundialização.Isso devasta o que podenios iniagi-
nar como a nossa praia. Isso nos deslocaliza, evidentemente. Inclusive, começamos a perce-
ber que o que nos resta como mundo, reduzido, é apenas por algum tempo. A família, a
procriação, o corpo, tudo isso vai ser incessantemente atingido pela decomposiçáo científica.
E nesse sentido quefiiz?zegalzs\I/ake é profético na operação joyceana que nele se efetua,
que consiste ein promover a disfunção do que nos resta da ordem do mundo, e nos faz ve.ei;pelo
menos a partir de Lacan, que caso não vistamos osii7.tbonza coni o sintoma e com sua verdade,
ele faz objeção ao laço social e a foma sob a qual nós o abordamos, a da coniunicaçáo.
É o que dá ao recurso a Iógica seu inteiro valor A lógica, sem dúvida, é uma ordem, uma
articulação, que, todavia, não dá nenhum alívio ao laço social. O uso lógico d o sitzrhonza,
sobre o qual Lacan entende reorientar a operação analítica, é, como tal, disjunto de seu uso
social, que é sempre comunicacional. É um uso que tende a ser solipisístico - para dizê-lo em
termos filosóficos -, ou ainda autista, em termos clínicos. O uso lógico dositztl?oiizaé o ponto
de partida do Seifiiizúiio: o Si~zrhoiizae se opõe a decifração do sintoma em termos de verda-
de. Ele introduz, sein dúvida, uni desenvolvimento - náo é uma estagnação -, mas não é
revelação, é redução. Reduçáo a quê? Redução a um osso. Reduçáo a um eleniento, ou mes-
mo redução a uni significante, mas tudo muda se o significante é representado e, por isso
mesmo, concebido como um aro de barbante. Nesse Seiiziizáno, o aro de barbante com o
qual se compõe o nó, aro pra toda obra, vem no lugar do uso que iacan dava ao significante.
O aro de barbante não é um traço, ele fecha, isola, supõe um furo.

Furo.
iacan tomou emprestada da lingüística a definição do significanre como traço diferencial.
Pelo simples fato de ele ser diferencial, de colocar-se em relação a um outro, ele constitui um
sistema com esse outro. A definição do significante,seja ela qual for, está ligada ao conceito de
sistema como fazendo um todo. A diferença, a única substância do significante, na concepção
saussuriana, supõe a relação. O significante se liga ao Outro. É o que manifesta o matema
elementar SI-SI,fascinante, de tão útil. A isso se opõe o que Lacan evoca numa frase que
parece aproximativa, a saber, a linguagem está ligada a algo que, no real, faz furo, proposição
essencial a se extrair da captação da concepção lingüística. E foi o que escolhi para inritular o
segundo capítulo desse Seiizi?zúrio:"De ce quifait tl-ou dans le réel". Os nós de Lacan são
construídos a partir dessa função do furo. O que mostra bem o alcance desse deslocamento,
por mais elementar que seja, é que Lacan faz do furo, desde entáo, a característica essencial

Novembro 2005 22 Opsão lacaniana no 44


do simbólico. Isso quer dizer que essa característica essencial não é a diferença, não é o siste-
ma, não é a relaçáo, não é a ordem, não é o traço, é o furo.
Doravante, é no imaginário que recai a consistência. A palavra consistência é a tradução
deslocada da velha idéia de sistema, daquilo que se sustenta junto. Pensou-se que aquilo que
se sustenta junto era característico do simbólico conio ordem. É preciso levar até o fim o fato
de se referir a consisténcia ao imaginário: o que se sustenta junto, até mesmo o nó em si, tudo
o que constitui um sistema é suspeito de ser apenas imaginário. É por isso que Lacan, em
dado inomento, como que surpreso, póde formular a quesráo de saber se o inconsciente é
simbólico ou imaginário. Uma vez que c o n s t ~ i m o os inconsciente como um sistema, não se
trataria simplesmente de uma consistência imaginária elucubrada que deveria ser referida
essencialmente a seu furo, mais do que nos fascinarmos com o que se responde de uni signi-
ficante a um outro? É claro que os significantes se respondem, é claro que eles estão em
uníssono. Quanto ao real, ele é ek-sistência, quer dizer que ele vem a mais, é o terceiro como
tal, o que faz com que o imaginário e o simbólico se manrenham juntos. Esse é o nó concreto,
o nó do inicio como relação dos trés aros: um conjunro, sem dúvida, mas que não fazsistema,
o conjunto do furo, da consistência e da ek-sistência. No Seiiihzário: O Sitrthoina, uocês en-
contrarão a representação do nó, inclusive a imagem, tudo o que é preciso para mostrar que
isso se basta como tal. Bastam três aros: dispostos de maneira borromeana, para que isso se
sustente junto, para servir de suporte ao sujeito. Disso decorre a estranheza de que o sintoma
venha a mais, quando o nó básico não se sustenta sozinho. É o quano aro que iacan descobre
com a pista Joyce.

3. Consistência do corpo.

Nessa perspectiva, que é a da consisténcia e não a do sistema, o fundamental não é a


ordem simbólica - Lacan toma sua construção em sentido contrário -, mas a consistência do
corpo. Decorre daí o valor novo que essa referência ao corpo passa a tomar Dar esse valor
não é simplesmente uma conversão no sentido concreto.
O corpo é aquilo que o direito concede ao sujeito como sua propnedade.Habeascorpus,
"teu corpo é teu". Ele o concede ao sujeito de direito que, em consequéncia disso, toma-se
por uma alma. Toma-se por unia alma quando se excetua do mundo e sente que o atura, isto
é, que sofre dele. Por isso, pode-se perceber, em curto-circuito, nas pistas de Lacan, que o que
uma análise re\:ela em primeiro lugar é a adoração que aquele que fala tem por seu corpo,
unia vez que encontra nele sua consistência, consistência imaginária, posto que, no que
concerne à sua matéria, esse corpo se decompõe. E é mesmo um milagre que ele se mante-
nha junto durante algum tempo. No enranro, essa consistência é insuficiente, uma vez que há
o amor, ou que se formula a questão do anior, ou seja, a de fazer a escolha de um outro corpo.
Isso é aleatório, depende de um encontro, e é notável que nem Joyce tenha escapado: por
mais devotado que estivesse ao uso literário de seu sintoma, apesar disso, ele toma como sua,
uma mulher Aqui também é questáo de propriedade. Nesse caso vemos melhor o insensato
do que na relação ao corpo próprio. Uma mulher, diz Lacan, pode relacionar-se com qualquer

Opqáo lacaniana no 44 23 Novembn~200 5


freudiano. O sintoma é uma cura: um fator terapêutico. É o que é realçado noSei?zinurio: O
Sititho~iza,no qual se vê osiniholiza reparar a cadeia borromeana quando seus elementos não
se mantêm bem juntos. Osiizthonza aparece como um operador de consistência que permite
ao simbólico, ao imaginário e ao real continuar mantendo-se juntos.
No caso Joyce, o sintoma é exataiiiente uma compensação da carência paterna, carência
que se conclui na geração seguinte pela esquizofrenia da filha de Joyce. Como se Joyce
rivesse sido o intercessor entre a carência de seu pai e a esquizofrenia de sua filha. É nesse
intervalo, no qual se aloja Joyce: que se pode fazer a hipótese de que ele foi senroda polifonia
da fala. Para ele, a língua não póde se ordenar no regime do [)ai, pondo-se então a retinir
ecos. A hipótese é que esse era seu siiirhot7za, do qual ele fez uin produto de arte, de sua
arte. Ele acolheu seu sintoiiia para fazer uso dele. É nesse sentido que Lacan o dá como
exemplo, exemplo de que o sintoma não é para interpretar, mas para reduzir, o sintoma não
é para curar, ele ali está para que se faça uso dele. Aqui não há nenhuma ressonância de
resignação, há, ao contrário, a idéia de que se faz algo com o resto, que o resto é fecundo,
que o resto é a mola.
É coni respeito a redução do sintoma que o Nome-do-ISi parece a Lacan como algo leve.
Ele é leve em relação ao que Lacan chania de real, que não é leve, é um pedaço, um caroço,
como ele diz, isto é, uma peça avulsa, não está na relação e eni tomo do qual o que chamamos
pensamento dá voltas. Quando se reduziu aquilo do qual se trata na análise, a verdade que se
percebe e que aponta em direção ao real é que o pensamento gira em tomo dele. Lacan o
exprinie dizendo que o pensamento borda em tomo do real. Há um bordado, nada de foma-
ções do inconsciente. Há forniações do inconsciente enquanto se segura a mão de Freud.
Quando se segura a mão de Joyce, toma-se esta perspectiva sobre as formações do inconsci-
ente, ou seja, são bordadoseiii torno do caroço do real. Na análise, isola-se o caroco, mas,
para isso, é preciso saber deixar cair o bordado. É diferente de decifrar porque decifrar é
sempre religar O real, tal como Lacan o concebe noSeiiii~zário:O Siiitho711a, é uma invenção
de algo que não é leve, sendo porém frágil em si mesmo. O real, tal como iacan o concebe
não se liga a nada. É nesse sentido que ele pode trazer uma dúvida ao "não há relação sexual",
podendo dizer inclusive que esse enunciado é tanibém um bordado porque panicipa do sim
ou não, quer dizer, participa da relação. É um enunciado que fica preso na lógica da diferença.
Então, ele tenta dizê-lo de outra fornia para que isso faça real.

O171ped~çode real
Essa é a oportunidade de toniar um pouco de distância com o que nós chamamos, ein
nossa prática, o caso, que desenvolvemos, como se costuma dizer, abordando-o sempre, final-
mente, a partir da história do sujeito. Mas a história, na perspectiva do Seniilzai-io: O Sktho-
1116, é a maior das fantasias, cliz Lacan. Nunca passa de uiii mito. A história é somente unia
maneira, que parece factual: de dar sentido ao real. E Lacan aprova Joyce por ter tido o inaior
desprezo pela história. Para Joyce, a história era um pesadelo. Nada mal. Lacan, por sua vez,
diz que a história é fútil. Fútil em relação a um sintoma quando se chega a esse ponto de
redução onde não há mais nada inais a fazer para analisá-lo.

Opgáo lacaniana no 44 25 Novembro 2 0 0 j


Lacan diz de Joyce que ele era desabonado do inconsciente. Mas será que isso é exclusivo
de Joyce? Ser desabonado do inconsciente é o real de qualquer sintoma. É nesse sentido que
Lacan faz do real a sua resposta à descoberta freudiana como elucubraçáo. A elucubração
freudiana é que o sintonia é verdade e, no diálogo que Lacan inventa com Fieud, ele lhe
responde com o si7ztho~1zacomo real.
Qual é o d o r dessa resposta? Não é uma dedução. Lacan sublinha que o inconsciente de
Freud não implica, obrigatoriamente, de modo algum, o real do qual ele se serve. Freud tinha
uma idéia d o real, sem dúvida, pesquisava na direção da energética. O real para Freud era algo
como a libido, uma energia constante, ou seja, a encontramos seinpre igual. O que define
unia constante é que o núniero seja sempre reencontrado. A idéia iiiais profunda que Freud
tinha sobre isso - o que niostra sua idéia da constância da energia libidinal -> é que há um
saber no real. Era o que dii-igia seu manejo do sintoma. Dizer que há um saber no real é dizer
que o real é equivalente ao sujeito suposto saber Nesse sentido, pode-se dizer que, para além
do Édipo, ele crt no Noine-do-Pai,que a hipótese do inconsciente só pode sustentar-se com
a condição de supor o Nome-do-Pai, quer dizer, supor que há uin real que é sabe. um real
articulado, uni real esttuturado como uma linguagem.
A psicanálise, pelo iiienos a que Lacan praticava, prova que se pode dispensá-lo, na medida
em que ela chega a uma redução ao que não tem sentido, ao que não se liga a nada. Entretanto,
senrinios-nos do Nonie-do-Pai na psicanálise, ou seja! passa-se pela decifração, passa-se pelos
efeitos de verdade, nias eles estão ordenados de acordo com um real que não teni ordeni.
A esperança de lacan na teoria era chegar a articular um pedaço de real e, com iiiinhas
peças avulsas, tal\:ez eu queira fazer um esboço, uma alusão, do que seria um pedaço de real.
Traduzido p o r Vera Lopes Bcssei e revisado p o r Vera Avellar Ribeiro

'Textot no!ar~ubeIttidm~ O Cathetine


T Boiiningue. r partir daOiimia@o lacaniana lli.7. ,"Pegarmvlras". ensino proferido no quadro doilepaiwmenio
de PricanáiisedeParis YIII. li@ de lie?4 de novembrode 2001. Publicado originalmenlecmLoGnusefieirdi@rrrie no@.
!Laran.!. (2003). O atiirdiio. in Oulros &critos. (pp.448-97). Rio deJaneiro: Zahai (Trilo de i972).
'idem.ibid.. @. 418).
'Idem. ibid.
XR: noorig. en raigner
bhliller,J.-.4. I orienta(ão lacaniana ii.2. "Do sintoma i lantiria e retorno- (1982-83). ensino prolerido tio quadro do Deparknieiito de Psiianálise de Paris
\liil. ligio de3 de novembrode 1982. inedito
'Lacm. j. (2Wj). OSe,~ii,rRrio. Lir:ro 10, A Angiislin, Riode Janeiro: Zahai C\eminárioproferidoemI%?-63)
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"ldem.ibid.. prop 6. j21
%f. hliller. I-h e Lauient. É. - L'orientaiion lacanienne. C u t r e qiii neriste pas et ser comilér dPthiqu~"(l996-9i) Enrino pronunciado no quadro do
Deparlamento de Rtanáiire Parir 1:III. publicado em grande p r i e em l a Causo freudienne. Quarto. ou ouiras publica$õa do Campo Freiidiano
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"L3can.J. (1982 1. OSpinii~arioLiiro20. Afnir Ailrda (p.181. Opcii