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DIREITOS FUNDAMENTAIS #3 • MARÇO DE 2017 

ALGUNS QUESTIONAMENTOS  de  São  Tomás  e  a  oposição  que  ele  propõe 


Manoel Gonçalves Ferreira Filho  entre  lei  natural  e  lei  humana.  Mas  ressalta 
Gonçalves  que  neste  período  se  encara  o 
Por J. Clayton  direito  natural  apenas  como  direito 
objetivo. 

Para  encontrar  posição  subjetiva  destes, 


saltamos  no  tempo  para  o  pensamento  de 
Hobbes.  A  anterioridade  do  direito  natural 
e  sua  relação  com  a  formação  do  Estado  é 
desenvolvida  pelos  filósofos  políticos  que  o 
seguem, como Locke, Rosseau, etc.  

Nas  declarações  do  século  XVIII  os  direitos 


fundamentais  ganham  não  só 
reconhecimento  mas  como  status  de 
 
elemento  necessário  para  o  fenômeno 
Notável  constitucionalista  da  Faculdade  de  constitucional.  “Não  tem  Constituição  a 
Direito  do  Largo  São  Francisco,  Gonçalves  sociedade  onde  não  estiverem  garantidos 
Ferreira  levanta  neste  artigo  os direitos”. 
questionamentos  tão  importantes  quanto 
A  medida  que  esses  direitos  foram 
delicados  sobre  a  doutrina  dos  direitos 
formalizados  pelas  cartas  constitucionais,  e 
fundamentais.  O  que  pretende  o  autor  é 
o  positivismo  jurídico  foi  tomando  conta 
abrir  caminho  para  a  discussão  acerca  do 
do  pensar  dogmático,  a  referência  ao 
fundamento,  da  identidade  e  da 
fundamento  destes  foi  se  tornando 
universalidade destes direitos. 
dispensável.  A  visão  puramente  positivista, 
O  primeiro  questionamento,  acerca  do  no  entanto,  esbarra  em  uma  certa 
fundamento,  não  é  fruto  de  uma  mera  fragilidade  da  fundamentação.  A  tentativa 
formalidade  acadêmica.  Definir  o  de  Georg  Jellinek,  por  exemplo,  acaba  por 
fundamento  das  garantias  é  justificar  sua  submeter  os  direitos  do  homem  ao 
supremacia  perante  o  direito  positivo.  Nas  imperativo de autolimitação do Estado. 
palavras  de  Gonçalves,  é  definir  “o  valor 
Norberto  Bobbio,  por  sua  vez, 
dos direitos humanos na ordem jurídica”. 
primeiramente  sugere  o  reconhecimento 
Historicamente,  o  fundamento  dos  direitos  universal  como  fundamento  dos  direitos  no 
do  homem  era  em  seu  início  não  uma  modelo  positivista.  Mais  tarde,  todavia, 
questão,  mas  uma  certeza.  Sua  supremacia  renuncia  essa  tese.  Não  conclui  senão  que 
é  fruto  de  caráter  natural,  de  sua  a  “busca  de  um  fundamento  absoluto  é 
preexistência  perante  o  ordenamento  dos  infundada”. 
homens.  É  por  esta  razão  que  a  Declaração 
Se  por  um  lado  a  declaração  universal  da 
dos  direitos  do  homem  e  do  cidadão  é  uma 
ONU  cita  “uma  concepção  comum  de 
declaração,  e  não  uma  instituição.  Os 
direitos  e  liberdades”,  a  abstenção  de 
direitos  fundamentais  nascem  com  a 
vários  Estados,  como  a  URSS  e  a  Arábia 
pessoa humana.  
Saudita,  por  si  mesma,  refuta  a  tentativa  de 
O  argumento  do  direito  natural,  é  fato,  não  dar  a  esse  enunciado  caráter  de 
foi  uma  invenção  dos  liberais  do  século  fundamentação. 
XVIII.  Em  Antígona,  bem  como  na  obra  de 
A  análise  dos  documentos  constitucionais 
Aristóteles,  já  se  aponta  a  natureza  humana 
modernos  não  revela  senão  um  apelo 
como  cerne  de  um  conjunto  de  direitos. 
indireto,  nas  palavras  de  Gonçalves  “como 
Consoante  a  isso  ensina  Cícero  quando  fala 
que  envergonhados”,  ao  direito  natural 
de  uma  “razão  suprema,  gravada  em  nossa 
como  fundamento  dos  direitos  da  pessoa 
natureza”. 
humana.  
A  noção  de  direito  natural  se  generaliza  na 
Passamos  portanto  a  busca  de  uma 
Idade  Média  e  ganha  conteúdo  nos  escritos 
característica  que  provenha  identidade  aos 


DIREITOS FUNDAMENTAIS #3 • MARÇO DE 2017 

direitos  fundamentais.  Em  termos  claros,  o  suscetibilidade  a  promoção  via 


que  faz  com  que  um  direito  seja  ordenamento  jurídico  e  a  importância 
considerado  fundamental.  Para  evitar  que  a  capital  para  a  coletividade  e  para  o  direito. 
resposta  seja  a  mera  positivação  na  carta  Acrescenta  ele  ainda  o  traço  de  abstração, 
constitucional,  Gonçalves  apela  para  a  e  por  consequência  a  possibilidade  de 
referência  dos  direitos  fundamentais  restrição. 
implícitos,  presente  em  alguns 
O  busca  por  esses  critérios  é  de 
ordenamentos. 
sobremodo  importante  no  campo  do 
Em  casos  como  a  da  nona  emenda  direito  internacional.  Isso  porque  já  se 
constitucional  dos  Estados  Unidos  que  reconheceram  direitos  com  perfil  distante 
permite  proíbe  uma  interpretação  restritiva  aos  de  liberdade  e  também  aos  sociais, 
das  garantias  fundamentais,  é  preciso  dar  como  direito  à  paz,  ao  desenvolvimento, 
ao  aplicador  do  direito  algum  critério  para  etc.  
a  identificação  de  direitos  implícitos.  A 
Nesse  contexto,  Philip  Alston  enumera 
doutrina  americana,  no  entanto,  evita  a 
critérios  como  valor  social,  relevância 
determinação de critérios dessa natureza. 
universal,  base  na  Carta  da  ONU,  não 
A  Suprema  Corte  americana,  por  sua  vez,  repetitividade,  alto  nível  de  consenso, 
tem  preferido  apresentar  os  direitos  compatibilidade  com  a  prática  comum  dos 
implícitos  como  desdobramentos  dos  já  Estados e mínima precisão.  
expressos,  usando  estes  últimos  como  seu 
Diante  de  uma  caracterização  mais 
fundamental.  Essa  postura  sem  dúvida 
encorpada  como  esta  surgirá,  é  evidente, 
afasta  a  crítica  comum  de  que  direitos 
uma  diferenciação  entre  direitos  material  e 
fundamentais  pudessem  ser  criados  pela 
formalmente  fundamentais  e  aqueles  cuja 
mera  vontade  de  um  juíz.  Por  outro,  ela 
fundamentalidade  é  mero  fruto  de  uma 
impede  a  formação  de  qualquer 
arbitrariedade do constituinte. 
jurisprudência  acerca  de  critérios  de 
identificação dos nonenumerated rights.   O  terceiro  questionamento  diz  respeito  a 
universalidade  dos  direitos  fundamentais. 
O  direito  implícito  encontra  previsão  na 
Uma  vez  que  se  acorde  que  esses  direitos 
Constituição  Brasileira  de  1891  e  nas 
estão  vinculados  à  natureza  humana,  seu 
posteriores.  Entretanto,  assim  com  a 
reconhecimento  deve  ser,  por  lógica,  por 
doutrina  norte-americana,  a  academia 
parte de todos os humanos. 
tupiniquim  não  tem,  em  geral,  procurado 
fixar  critérios  de  identificação.  É  fato  que  o  É  preciso  atentar,  todavia,  para  o  elo  que  o 
princípio  da  dignidade  humana  serve  como  conjunto  que  concebemos  como  direitos 
um  norte,  não  podendo  se  reconhecer  um  fundamentais  tem  com  a  cultura  ocidental. 
direito  fundamental  que  não  se  ligue  ao  Não  é  novidade  que  as  diferentes 
âmago da natureza humana.  civilizações  tenham,  em  parte,  visões 
diferentes.  Mas  aqui  a  intenção  é 
Na  jurisprudência  do  Supremo  Tribunal 
demonstrar  que  essa  discordância  é 
Federal,  entretanto,  pode-se  encontrar 
acentuada  frente  à  concepções  como  a 
referência  a  uma  concepção  material  de 
hindu,  o  confucionismo,  e  principalmente  a 
direitos  fundamentais.  Não  estão,  deste 
cultura islâmica. 
modo,  todos  os  direitos  fundamentais 
contidos  no  segundo  título  da  Lex  Mater.  A  O  islamismo  não  aceita,  por  exemplo,  o 
isso  se  soma  um  comentário  comum  de  princípio  de  igualdade  entre  homens  e 
que  essa  fundamentalidade  possa  ser  mulheres,  bem  como  entre  fiéis  e  infiéis. 
reconhecida  pela  conexão  com  os  direitos  Não  há  liberdade  crença  ou  de  contrair 
formais,  sendo  por  decorrência  ou  por  casamento.  Mesmo  os  direitos  são 
analogia.  restritos.  Pode  falar-se  também  das  penas 
cruéis  aos  olhos  ocidentais,  da  poligamia  e 
Robert  Alexy,  por  sua  vez,  tenta 
da  tolerância  a  escravidão.  Deste  modo,  a 
desenvolver  uma  série  de  caracteres  para  a 
um  distanciamento  cultural  que  dificulta 
qualidade  de  fundamental  de  um  direito. 
Cita  ele  a  universalidade,  o  valor  moral,  a 


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invocar  uma  “uma  concepção  comum  de  específica.  Os  direitos  do  homem,  que  não 
direitos e liberdades”.  são  criados,  mas  percebidos  pelo  coletivo, 
passam  por  um  processo  de  positivação. 
 
Deste  modo,  quando  é  comum  a  todos  o 
A BUSCA DE UM CONSENSO  valor  do  bem  jurídico  que  um  direito  do 
Ingo Wolfgang Sarlet  homem  protege,  sua  formalização  pela  lei 
recobre-o  com  o  título  de  direito 
Por J. Clayton  fundamental.  

É  através  desse  processo  de 


fundamentalização  que  o  direito  para  a  ser 
protegido  pela  estrutura  estatal  e  ganha 
caráter  juridicamente  vinculante.  Portanto, 
a  diferença  entre  as  duas  categorias  não  é 
quanto a natureza, mas a força normativa. 

A  luz  desse  modelo  de  fundamentalização, 


percebe-se  que,  para  Sarlet,  não  é  possível 
  encontrar  uma  característica  comum  a 
todos  os  direitos.  Isto  é,  não  há  um  traço 
Os  questionamentos  que  Gonçalves  de  cunho  material  que  dê  identidade  a  um 
Ferreira  levanta  em  seu  artigo  podem  ser  direito  fundamental.  Essa  conclusão,  de 
respondidos,  ao  menos  parcialmente,  se  certa  forma,  é  uma  resposta  ao  segundo 
analisarmos  os  significados  que  Ingo  ponto levantado por Gonçalves. 
Wolfgang  Sarlet  atribui  aos  termos  em  seu 
texto.  De  certo  modo,  a  divisão  que  Sarlet 
propõe  neste  capítulo  parece  ter  o  objetivo 
de  chegar  a  um  consenso  (daí  o  título)  de 
questões gerais sobre os direitos. 

O  primeiro  verbete  a  ser  diferenciado  é  o 


de  direitos  fundamentais.  Para  Sarlet,  o 
termo  aponta  para  aquelas  garantias  que 
estejam  positivadas  em  documentos 
formalmente  constitucionais,  vinculados  a 
figura do Estado. 

O  termo  direitos  humanos,  por  sua  vez,  se 


relaciona  àqueles  direitos  reconhecidos 
formalmente  por  convenções 
internacionais.  Parece  ser  o  verbete  mais 
adequado  para  dialogar  ao  questionamento 
de  universalidade  de  Gonçalves,  ainda  que 
permaneça  a  questão  da  diversidade 
cultural dos Estados orientais. 

Um  terceiro  termo  é  o  dos  direitos  do 


homem.  Para  esses,  Sarlet  atribui  a  coleção 
de  ideias  do  liberalismo  clássico,  também 
citados  por  Gonçalves.  Seriam,  deste  modo, 
garantias  inerentes  à  condição  de  pessoa 
humana,  preexistentes  no  “códex”  do 
direito natural. 

Apesar  de  diferenciá-los,  a  intenção  de 


Sarlet  não  é,  de  modo  nenhum,  isolar  esses 
conceitos.  Pelo  contrário,  eles  funcionam 
dentro  de  uma  cadeia  de  eventos  muito