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Simpósio:

PLANEJAMENTO E CONDUÇÃO DE
ESTUDOS CLÍNICOS DE ALTA EVIDÊNCIA
CIENTÍFICA

Apresentação

A
importância dos Estudos Clíni-
cos Randomizados para a Práti-
ca Clínica Baseada em Evidên-
cia, bem como para o próprio
contexto científico, tem motivado algumas propos-
tas de orientação para sua elaboração, condução e
relato em jornais e revistas.

As recomendações do Consolidated
Standards of Reporting Trials - CONSORT, desen- Profa. Dra. Anamaria Siriani de Oliveira
Coordenadora do Simpósio
volvidas na década de 90 por investigadores e edito- Docente do Departamento de Biomecânica, Medicina e
Reabilitação do Aparelho Locomotor da FMRP-USP.
res interessados em assegurar a relevância e
confiabilidade dos resultados através de uma trans-
parência completa dos estudos, têm contribuído para dações do CONSORT. A idéia de expô-las e discuti-
a qualidade do relato das pesquisas de intervenção las em encontros possibilitou o intercâmbio de ex-
profilática ou terapêutica. Embora não recente ou periência e conhecimento de diferentes membros
singular, ainda é necessária a divulgação dos itens de grupos de pesquisa consolidados, pós-graduandos
requisitados por essas recomendações entre a co- e graduandos em iniciação científica de todas as
munidade científica. profissões da área da saúde, presentes no evento.
Assim foi idealizado este evento, com o objeti- No entanto, valendo-se dos recursos das tecnologias
vo contribuir para o processo de reorientação do da informação e comunicação, como a divulgação
planejamento, condução e relato de estudos clíni- em lista de correio eletrônico, vídeo-conferência e
cos através da divulgação e discussão das recomen- transmissão ao vivo via rede mundial de computado-

1
res, o evento alcançou dimensão nacional. P a r a aos itens do CONSORT em artigos científicos publi-
abertura do evento, no dia 5 de julho de 2008, o cados, foi monitorada pelos estudantes de pós-gra-
Prof.Dr. Gordon Guyatt, membro do CONSORT Group duação e iniciação científica do LAPOMH, como for-
e criador da expressão “Medicina Baseada em Evi- ma de reforçar o reconhecimento dos itens
dência”, proferiu a palestra “Randomized trials: why recomendados.
we need them, and why we need them done right”
Apoiaram esta iniciativa a Cochrane
por video-conferência, diretamente do Department
Collaboration, a Unidade de Pesquisa/DECIT/FINEP
of Clinical Epidemiology & Biostatistics da McMaster
e a Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assis-
University, Halmiton, Ontario, Canadá.
tência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Me-
O evento prosseguiu com as palestras: O que dicina de Ribeirão Preto – HCFMRP/USP, a Comis-
é um Randomized Controlled Trial? do Prof. Dr. são de Pós-Graduação e Programa de Pós-Graduação
Raphael Freitas de Souza, do Departamento de em Traumatologia, Ortopedia e Reabilitação da
Materias Dentários e Prótese da FORP-USP e mem- FMRP-USP, a Associação Brasileira de Pesquisa e
bro da Cochrane Collaboration; CONSORT – check Pós-Graduação em Fisioterapia, e Biblioteca Virtual
list e fluxograma, das mestrandas do PPG em em Saúde/OPAS/OMS.
Traumatologia, Ortopedia e Reabilitação do Aparelho
O campus de Ribeirão Preto da USP, aponta-
Locomotor, Laboratório de Análise da Postura e do
do como um forte centro de produção e divulgação
Movimento Humano-LAPOMH, Jaqueline Martins e
de conhecimento científico em saúde, reafirma seu
Letícia Mêlo Sousa; Contribuições do estatístico
papel de liderança através da iniciativa dos editores
para o atendimento ao CONSORT checklist, do
da Revista Medicina do Hospital das Clínicas e da
Prof. Dr. Edson Zangiacomi Martinez do Departa-
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, de apoiar
mento Medicina Social da FMRP-USP e do CEMEQ-
a publicação dos quatro capítulos que compões esta
Centro de Métodos Quantitativos; e Processo de
edição, com as revisões que embasaram as pales-
Registro Nacional dos RCTs, da Dra Regina Celia
tras apresentadas no referido evento. Esta publica-
Figueiredo Castro, Coordenadora da área de Comu-
ção amplia a perspectiva de divulgação de recomen-
nicação Científica em Saúde BIREME/OPAS/OMS.
dações que podem auxiliar os pesquisadores a planejar
Ao final das palestras, uma atividade de tra- e publicar os resultados de suas contribuições para
balho em grupos para identificação do atendimento prática de saúde baseada em evidências científicas.

2
SIMPÓSIO: Planejamento e condução de estudos clínicos de alta evidência científica
Capítulo I

O que é um estudo clínico


clínico
randomizado?
What is a randomized clinical trial?

Raphael F. de Souza1

RESUMO
O estudo clínico randomizado (ECR) é uma das ferramentas mais poderosas para a obtenção de
evidências para o cuidado à saúde. Apesar de algumas possíveis variações, baseiam-se na compara-
ção entre duas ou mais intervenções, as quais são controladas pelos pesquisadores e aplicadas de
forma aleatória em um grupo de participantes. O objetivo deste artigo foi descrever aspectos relativos à
validades externa e interna dos ECRs, bem como apresentar bases de dados para sua obtenção e
ferramentas para avaliação de qualidade.

Palavras-chave: Ensaio Clínico Controlado Aleatório. Ensaio Controlado Aleatório. Ensaio Clínico Con-
trolado. Medicina Baseada em Evidências.

O que é um estudo clínico fato de que os participantes recebem uma dentre as


randomizado? intervenções propostas de forma aleatória1.
No contexto da classificação dos estudos cien-
O estudo clínico randomizado (ECR) consiste tíficos em saúde, pode-se dizer que os ECRs são, dentre
basicamente em um tipo de estudo experimental, de- os estudos primários, os de maior relevância para a
senvolvido em seres humanos e que visa o conheci- clínica3. As revisões sistemáticas, apesar de serem
mento do efeito de intervenções em saúde. Pode ser consideradas ainda mais relevantes, são estudos se-
considerado como uma das ferramentas mais podero- cundários, ou seja, dependem de estudos primários com
sas para a obtenção de evidências para a prática clíni- qualidade para derivarem inferências. Daí a grande
ca. Associada a esse poder, encontra-se a simplicida- importância dos ECRs como fonte de evidências tam-
de em seu desenho, quando comparado a outros tipos bém para as revisões sistemáticas4.
de estudos1. Bons ECRs são capazes de minimizar a A fim de determinar se um artigo científico re-
influência de fatores de confusão sobre relações de fere-se ao relato de um ECR, quatro características
causa-efeito, quando comparados aos demais dese- fundamentais devem estar presentes em um artigo
nhos, daí sua grande relevância como fonte de evi- científico. A primeira delas é a comparação entre in-
dências2. No caso específico do ECR, diferencia-se tervenções aplicadas à saúde de seres humanos, ou
dos demais tipos de estudos clínicos experimentais pelo seja, estudos sobre aspectos sem relação direta com

1. Docente da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Correspondência:


Universidade de São Paulo. Departamento de Materiais Dentários e Prótese
Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto - USP.
Avenida do Café, s/nº
14040-050 - Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil.

Artigo recebido em 18/12/2008


Aprovado em 20/05/2009

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 3-8


Souza RF. O que é um estudo Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 3-8
clínico randomizado? http://www.fmrp.usp.br/revista

a saúde ou desenvolvidos em animais são desconside- participantes nesse estágio com um placebo ou trata-
rados. Um segundo aspecto relevante é a natureza mento ativo, com o intuito de detectar participantes
prospectiva; as intervenções são planejadas antes e a com baixa complacência. Conforme será explicado
exposição é controlada pelos pesquisadores. Em ter- na seção “Validade Interna”, a perda de participantes
ceiro lugar, duas ou mais intervenções são compara- durante a aplicação das intervenções pode gerar um
das no estudo. Por intervenção, entendem-se, além tipo de viés; portanto, seriam melhor que as perdas
de tratamentos para desordens físicas ou mentais, os acontecessem em um período prévio à alocação dos
regimes preventivos, programas de detecção ou tes- participantes às intervenções.
tes diagnósticos (uma pode ser um grupo controle/sem Existe também a possibilidade de se aplicar um
tratamento). Além disso, uma ou mais das interven- desenho fatorial, ou seja, dois ou mais fatores de vari-
ções comparadas pode ser consistir em um grupo con- ação dentro do mesmo ECR. Supondo que um pes-
trole, sem nenhum procedimento ativo. Por fim, a apli- quisador quer testar para uma determinada desordem
cação das intervenções deve ser aleatória, tendo ape- muscular um procedimento fisioterápico vs. um pro-
nas a chance influenciando o processo5. cedimento inativo, um ECR seria facilmente delinea-
O desenho típico de um ECR pode ser obser- do. No entanto, poderia ser interessante testar tam-
vado na Figura 1. Uma primeira característica é o re- bém em outro ECR o efeito de um antiinflamatório vs.
crutamento de um grupo comum, a partir de uma po- placebo; nesse caso, o mesmo ECR poderia compor-
pulação de interesse. Em seguida é que se decidem tar ambos os fatores de variação, ou conjunto de in-
quais intervenções os participantes receberão, por meio tervenções. Assim, seria delineado um estudo onde
da randomização. Tecnicamente, esse processo en- quatro possibilidades existem, ou seja, o participante
volve determinar a alocação por meio de números recebe:
obtidos por sorteio, ao invés de características da 1) o tratamento fisioterápico e o antiinflamatório;
amostra ou preferência dos participantes. Após a apli- 2) o tratamento fisioterápico e o placebo;
cação das intervenções, realiza-se a leitura de uma ou 3) o procedimento inativo e o antiinflamatório; ou
mais variáveis de desfecho que, na figura, apresenta- 4) o procedimento inativo e o placebo.
se como sucesso e insucesso6.
Dessa forma, têm se duas análises separadas,
Variações6
Variações em função de cada fator, e analisa-se também a inte-
ração entre ambos.
O desenho típico de ECR, também denomina- Por fim, é possível testar-se duas ou mais inter-
do ensaio randomizado de grupos paralelos, não é a venções usando-se o mesmo participante. Esse tipo
única forma de apresentação. Algumas variações são de ECR é denominado cruzado (cross-over) e tem a
comuns, e dentre elas encontra-se o uso de um perío- vantagem de ter o mesmo indivíduo como controle dele
do pré-teste, entre o recrutamento dos participantes e mesmo, ou seja, emprega-se uma análise pareada ao
a randomização. Por exemplo, pode se tratar todos os invés de grupos independentes. A maior vantagem

Figura 1. Desenho típico de um ECR (adaptado de Hulley et al.6).

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http://www.fmrp.usp.br/revista clínico randomizado?

desse processo é o aumento do poder estatístico, o 1) participante;


que possibilita testar hipóteses com um número me- 2) intervenções;
nor de participantes. Por outro lado, nem todas as in- 3) ambiente;
tervenções são reversíveis; por exemplo, seria impos- 4) desfechos7.
sível conduzir um ECR cruzado para a maioria dos Com respeito aos participantes, é importante que
procedimentos cirúrgicos. Além disso, caso haja um as características sejam próximas àquelas da popula-
efeito residual de uma intervenção durante a aplica- ção de interesse. Aspectos como idade, gênero, seve-
ção da próxima, teríamos um viés importante (efeito ridade de doença e fatores de risco, co-morbidades
carry-over). Nesses casos, indica-se como norma o associadas devem ser vistos com atenção7. Em ECRs,
planejamento de um período de washout entre as in- os participantes não são necessariamente pacientes,
tervenções, a fim de esperar a cessação do efeito re- podem ser voluntários, parentes dos pacientes (cuida-
sidual. A Figura 2 contém um esquema de como se dores de idosos com doença de Alzheimer, por exem-
estrutura um ECR cruzado. Nos ECRs em se plo) ou aglomerados (randomiza-se grupos como pos-
randomiza sequências de 3 ou mais intervenções para tos de saúde ou escolas)1. Intervenções podem apre-
cada participantes, usa-se o termo quadrado latino (em sentar diferentes regimes de aplicação, com distinção
inglês, Latin square). de dose, períodos e vias de administração. O uso de
tratamento simultâneo ao ECR, bem como categorias
Validade Exter na
Externa dentro de certas modalidades, pode influenciar os re-
sultados e devem também ser pesados7. Além disso,
é de se esperar que diferentes ambientes de estudo
Independente do desenho do ECR, algumas possam acarretar diferentes resultados. A pergunta
características devem ser observadas, a fim de extra- que se faz é o quanto o ambiente do estudo asseme-
polar os resultados de um estudo para determinada lha-se à clínica, pois diferença em fatores como o ní-
realidade clínica. Essa possibilidade de generalizar os vel de atenção (primária a terciária) e experiência do
dados de pesquisa para uma circunstância cotidiana é profissional pode diminuir a validade externa7. Por fim,
denominada validade externa. Quanto mais as carac- o tipo e definição das variáveis de desfecho são alta-
terísticas consideradas pelo estudo forem próximas de mente importantes. Destaca-se o uso de variáveis de
determinada realidade de trabalho, mais os resultados pouca relevância clínica, ao invés daquelas de real valor
do ECR podem ser extrapolados; ainda, mais relevan- para o participante. É comum que variáveis secundá-
te se torna a evidência dentro dessa realidade. Como rias mostrem maior eficácia para determinado trata-
um exemplo, seria improvável que amostras proveni- mento, porém essa diferença não é detectável clinica-
entes de centros altamente especializados possam ser mente. Por exemplo, do que adiantaria um procedi-
representativas do que acontece em clínicas de aten- mento capaz de aumentar a ejeção de sangue pelo
ção básica. Especificamente, quatro aspectos básicos coração após infarto do miocárdio, caso não haja me-
determinam a validade externa: lhoras na qualidade e expectativa de vida do pacien-

Figura 2. Desenho de um ECR cruzado (adaptado de Hulley et al.6).

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Souza RF. O que é um estudo Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 3-8
clínico randomizado? http://www.fmrp.usp.br/revista

te? Uma última característica relevante para os des- saibam a que grupo pertence e avaliadores de desfe-
fechos é que se considere o tempo de acompanha- cho podem realizar análises tendenciosas caso conhe-
mento no ECR. Diferentes tempos podem apresentar çam o tratamento em curso. O manejo do viés de de-
diferentes resultados7. sempenho se dá por meio do cegamento, que deve
ser realizado sempre que possível nas diversas partes
Validade Inter na
Interna do estudo. Essas compreendem o pesquisador res-
ponsável por aplicar as intervenções, os participantes,
Questões referentes à validade interna direcio- avaliadores de desfecho e mesmo o responsável pela
nam-se ao quanto o erro sistemático (viés) é minimi- análise estatística.
zado, independente das características descritas an- Um terceiro tipo de viés é o de detecção, que
teriormente. Quatro tipos principais de viés podem ser se refere às diferenças sistemáticas entre grupos du-
considerados em um ECR: seleção, desempenho, de- rante à análise dos desfechos. Também é minimizado
tecção e atrito. Cada um tem origem diferente e pode pelo cegamento, neste caso especificamente dos ava-
ser minimizado por manobras específicas, como a ran- liadores de desfecho4.
domização7. Por fim, outra forma de erro sistemático é re-
O viés de seleção simboliza a presença de al- presentada pelo viés de atrito, que corresponde à di-
guma diferença sistemática entre os grupos compara- ferença sistemática entre grupos devido à perda de
dos. O ideal seria que os participantes fossem alocados participantes do estudo. É sinônimo de viés de exclu-
nos grupos sem nenhuma influência, e todo partici- são, e pode representar problemas quando os partici-
pante teria a mesma chance de ser alocado em qual- pantes deixam de retornar após o início das interven-
quer um dos grupos ou sequência. Duas manobras ções devido a, por exemplo, efeitos colaterais decor-
são utilizadas para minimizar essa fonte de viés. A rentes de uma das intervenções4. Pode ser manejado
primeira delas, a randomização, implica em usar uma por meio de um número mínimo de perdas no acom-
sequência de alocação que previna o viés de seleção. panhamento; mais de 20% de perda em um estudo é
As intervenções são sorteadas para os participantes, forte indicativo de viés, bem como perdas desiguais
usando-se programas de computador ou tabelas de nos diferentes grupos. Assim, é fundamental que os
números aleatórios, por exemplo. A segunda mano- autores descrevam se houve perdas em um ECR e os
bra, a alocação oculta, parte do princípio de que há a motivos. Além disso, cada participante, mesmo que
possibilidade de se rejeitar determinados participantes não receba a intervenção alocada, deve ser analisado
em certos grupos. Por exemplo, poderia se evitar a ao fim do estudo como se tivesse recebido. A esse
alocação de casos mais graves em grupos com uso de princípio designa-se intenção-de-tratar.7
placebo. Assim, uma forma de se evitar essa rejeição
seria ocultar a sequência de alocação antes de se apli- Bases de Dados
car as intervenções. Não é sinônimo de cegamento,
porque ocorre em período mais precoce do estudo e É possível conseguir referências de ECRs por
visa minimizar outro tipo de viés. A alocação oculta meio de bases de dados internacionais como o Medline,
em geral é possível por meio de um pesquisador sem EMBASE, ISI, entre outras. Bases regionais, como a
contato com os participantes e com o trabalho dos LILACS, podem e devem ser empregadas, principal-
demais7. Tecnicamente, emprega-se, um escritório ou mente quando características regionais podem influ-
farmácia central (fora do ambiente de pesquisa), reci- enciar na validade externa. Independente do caso, uma
pientes pré-codificados serialmente, software capaz busca direta usando termos relativos aos participan-
de alocar após entrada de participante ou envelopes tes, intervenções e desfechos de interesse poderiam
opacos e selados4. ser usados na base eletrônica; porém, a adição de ter-
Por sua vez, o viés de desempenho consiste mos relativos ao desenho torna a busca mais ágil. As
naquelas diferenças sistemáticas no cuidado forneci- bases de dados em saúde podem fornecer descritores
do para os participantes em função dos grupos, e pode referentes aos ECRs, como o termo “randomized
se originar de diversas fontes. Contaminação (inter- controlled trial [pt]” do MeSH (Medline). Buscas com
venção no grupo controle) e co-intervenção (cuidado maior sensibilidade podem ser obtidas usando filtros
adicional a algum dos grupos) são possíveis causas. de busca, especialmente quando se trata de obter ECRs
Ainda, participantes podem relatar mais sintomas caso para revisões sistemáticas, Quadro 14.

6
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ser descritas em um ECR8. Destaca-se também o


Quadro 1 recente método GRADE (Grading of Recommen-
Estratégia de busca de alta sensibilidade para dations Assessment, Development and Evaluation),
identificação de ECR no MEDLINE (formato por classificar estudos de diferentes desenhos de acor-
PubMed) do com a qualidade e relevância da evidência, separa-
#1 randomized controlled trial [pt] damente9.
#2 controlled clinical trial [pt] Com base nos quatro modos de controle de
#3 randomized [tiab] vieses, é possível classificar a qualidade dos ECRs.
Algumas revisões sistemáticas da Colaboração
#4 placebo [tiab]
Cochrane têm apresentado um instrumento de análise
#5 drug therapy [sh] de qualidade com essas características, o qual pode
#6 randomly [tiab] ser conferido abaixo:
#7 trial [tiab] 1) Randomização
#8 groups [tiab]
a) Adequada: um dos métodos a seguir foi descrito
#9 #1 or #2 or #3 or #4 or #5 or #6 or #7 or #8 pelo artigo: números gerados por computador
#10 animals [mh] not (humans [mh] and animals [mh]) ou tabela de números aleatórios, cara ou coroa,
#11 #9 not #10 sorteios de cartas ou jogo de dados.
b) Não descrita;
c) Inadequada: sequência gerada por meio de nú-
mero de prontuário, data de nascimento ou nú-
Outra fonte importante para a obtenção de re- meros alternados.
gistros de ECRs é a Cochrane Central Register of
Controlled Trials (CENTRAL), da Biblioteca 2) Alocação Oculta
Cochrane. A CENTRAL apresenta uma lista de resu- a) Adequada: alocação gerada centralmente ou por
mos de ECRs e estudos clínicos controlados, que fo- meio de envelopes opacos, selados e numera-
ram obtidos por meio de busca manual de periódicos dos sequencialmente.
em diversas áreas da saúde. b) Não descrita;
Ainda, mesmo outras fontes como bases de dis- c) Inadequada: houve alocação aberta e se os par-
sertações e teses, resumos de conferências podem ticipantes ou pesquisadores poderiam prever a
fornecer informações úteis para a prática clínica. alocação.
Dados ainda não publicados em periódicos podem ser
conferidos com antecedência. Por fim, as revistas de 3) Cegamento
saúde baseada em evidências também são fontes im- Se houve cegamento (ou não) para as seguin-
portantes, pois apresentam resumos críticos da litera- tes partes:
tura corrente. Em geral, sua vantagem é facilitar para a) Participantes (sim/ não / não descrito / não se
o clínico a visualização de possíveis limitações de es- aplica);
tudos publicados recentemente. b) Pesquisador (sim/ não / não descrito / não se
aplica);
Avaliação de Qualidade c) avaliador de desfechor (sim/ não / não descrito
/ não se aplica);
Por fim, após a obtenção de ECRs a partir das d) analista dos dados (sim/ não / não descrito / não
possíveis bases, seria interessante que o clínico con- se aplica).
seguisse identificar limitações importantes. Caracte-
rísticas associadas à validade interna e externa po- 4) Manejo de perdas e desistências
dem ser avaliadas sistematicamente por meio do co- a) Sim: se há uma descrição clara sobre as dife-
nhecimento de possíveis vieses. Essa avaliação, con- renças entre dois ou mais grupos testados du-
tudo, pode ser facilitada por meio de instrumentos es- rante o acompanhamento;
pecíficos. Primeiramente, destaca-se o CONSORT, b) Não descrito;
por listar uma série de características que deveriam c) Não.

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Souza RF. O que é um estudo Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 3-8
clínico randomizado? http://www.fmrp.usp.br/revista

Após a análise, é possível classificar os ECRs b) Risco moderado (possível viés que levanta alguma
como sujeitos a diferentes riscos de vies: dúvida referente aos resultados) se um ou mais
a) Baixo risco (possível viés com improvável influên- critérios são parcialmente adequados.
cia sobre os resultados) se todos os critérios forem c) Alto risco (possível viés que enfraquece seriamen-
adequados; te a confiança nos resultados) se um ou mais crité-
rios são inadequados.

ABSTRACT
The randomized clinical trial (RCT) is one of the most powerful tools for the obtainment of evidence for
healthcare. Despite some possible variations, they are based on the comparison between two or more
interventions, which are controlled by researchers and randomly applied on a group of participants. The
aim of this study was to describe aspects of external and internal validity of RCTs, as well as to present
databases for their obtainment and quality assessment tools.

Key words: Randomized Controlled Trial. Controlled Clinical Trial. Evidence-Based Medicine.

Referências 6. Hulley SB, Cummings SR, Browner WS, Grady D, Hearst N,


Newman TB. Delineando a pesquisa clínica: uma abordagem
1. Jadad AR, Enkin MW. Randomized controlled trials. Questions, nd
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Coello P, Schünemann HJ; GRADE Working Group. GRADE: an
4. Higgins JPT, Green S (editors). Cochrane Handbook for Sys- emerging consensus on rating quality of evidence and strength
tematic Reviews of Interventions. Chichester: John Wiley & of recommendations. BMJ 2008; 336: 924-6.
Sons; 2008. 3.
5. Bickley SR. Oral Health Review Group Journal Handsearchers’
Manual. Manchester: Cochrane Oral Health Group; 2002.

8
SIMPÓSIO: Planejamento e condução de estudos clínicos de alta evidência científica
Capítulo II

Recomendações do en unciado
enunciado
CONSOR
CONSORT T par
para ela
a o rrelato de estudos
elato
clínicos controlados e rrandomizados
controlados andomizados
The CONSORT statement instructions for
reporting randomized clinical trials

Jaqueline Martins1, Letícia M. Sousa1, Anamaria S. Oliveira2

RESUMO
O raciocínio clínico e a tomada de decisão pelo profissional de saúde devem ter como base as evidên-
cias científicas relevantes e não apenas a intuição ou experiências clínicas prévias não-sistematizadas.
Estas evidências são adequadamente obtidas a partir de estudos clínicos controlados randomizados
(ECRs), cujas informações são frequentemente relatadas de forma incompleta, prejudicando a identi-
ficação de possíveis erros metodológicos. Com intuito de aprimorar o relato de ECR, um grupo de
cientistas e editores de periódicos médicos elaborou o enunciado CONSORT, constituído de uma lista
de checagem com 22 itens e um fluxograma dos participantes. Atualmente, o CONSORT se encontra
traduzido em diversas línguas e em versões adaptadas para atender aos diferentes modelos de estu-
dos. O presente trabalho pretendeu, portanto, facilitar a compreensão de tais instruções, assim como
sua divulgação na língua portuguesa, ao abordar brevemente os principais aspectos contidos na ver-
são revisada do enunciado CONSORT.

Palavras-chave: CONSORT. Ensaios Clínicos Controlados como Assunto. Ensaio Clínico Controlado
Aleatório. Ensaio Controlado Aleatório. Medicina Baseada em Evidências.

Informações mais detalhadas sobre os con- qual preconiza que o raciocínio clínico e a tomada de
ceitos apresentados e discutidos brevemente no pre- decisão pelo profissional de saúde sejam fundamenta-
sente trabalho podem ser encontradas em Altman dos em evidências científicas relevantes e não apenas
et al. 2008 e Boutron et al. 2008. Acesse também o com base na intuição ou em experiências clínicas pré-
endereço eletrônico: http://www.consort- vias não-sistematizadas.1,2,3 Sob esta perspectiva, o
statement.org/ profissional de saúde deve estar apto a identificar, na
literatura disponível, estudos que forneçam informa-
Introdução ções válidas e confiáveis relativas ao problema em
questão. A avaliação crítica desses estudos, entretan-
Atualmente, as práticas em saúde são norteadas to, não depende somente da habilidade do profissional
pelo conceito da medicina baseada em evidências, a em interpretar seus resultados, mas também da ma-

1. Mestranda. Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabi- Correspondência:


litação do Aparelho Locomotor. Faculdade de Medicina de Ri- Profa. Dra. Anamaria Siriani de Oliveira
beirão Preto - USP. Laboratório de Análise da Postura e do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do
Movimento Humano - LAPOMH Aparelho Locomotor da FMRP-USP.
2. Docente. Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilita- Avenida dos Bandeirantes, 3900.
ção do Aparelho Locomotor. Faculdade de Medicina de Ribei- 14049-900 - Ribeirão Preto / SP
rão Preto - USP. Laboratório de Análise da Postura e do Movi-
mento Humano - LAPOMH Artigo recebido em 18/12/2008
Aprovado em 20/05/2009

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 9-21


Martins J, Sousa LM, AS Oliveira. Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 9-21
Recomendações do enunciado CONSORT http://www.fmrp.usp.br/revista

neira como as informações são descritas pelos pes- mente para seu maior endossamento por jornais mé-
quisadores e responsáveis por sua divulgação. O rela- dicos, que atualmente representam mais de 300, e por
to incompleto ou inadequado de informações sobre o grupos editoriais como Council of Science Editors,
planejamento e condução do estudo prejudica a iden- ICMJE e World Association of Medical Editors
tificação de possíveis erros metodológicos, assim como, (WAME). Neste sentido, a fim de reforçar sua utiliza-
dificulta o uso de suas conclusões pelos interessados, ção, o enunciado CONSORT foi traduzido para dife-
uma vez que estes não conseguem avaliar criticamente rentes línguas, alcançando o número de dez traduções,
sua aplicabilidade clínica.4,5 e apresenta várias extensões que abordam de forma
A preocupação com o conteúdo das publica- mais apropriada ECR caracterizados por diferentes
ções científicas é tema de discussão desde o final dos desenhos, dados e intervenções. Atualmente, as ex-
anos 70, quando foi primeiramente abordada pelo Co- tensões do enunciado CONSORT se direcionam a
mitê Internacional de Editores de Periódicos Médicos estudos clínicos desenhados em aglomerado (Cluster
(International Committee of Medical Journal trials), estudos de equivalência e não-inferioridade,
Editors - ICMJE) por meio da divulgação de reco- estudos de intervenções com ervas medicinais, inter-
mendações que deveriam ser consideradas ao se sub- venções não-farmacológicas, referentes aos efeitos
meter um trabalho para apreciação em periódicos prejudiciais da intervenção e voltados para o relato de
médicos.6 Algumas iniciativas semelhantes foram de- resumos em jornais e conferências. 14-19
senvolvidas nas duas últimas décadas, publicadas em Assim, reconhecida a relevância do enunciado
forma de tutoriais ou guias com instruções aos auto- CONSORT em promover o relato claro e completo
res sobre o relato transparente de estudos clínicos das pesquisas em saúde e os esforços desse grupo em
controlados randomizados (ECR), estudos sobre ampliar sua utilização através da extensão a diferen-
acurácia diagnóstica, assim como de revisões siste- tes estudos clínicos e a diversas línguas, este trabalho
máticas e meta-análises de ECR e de estudos pretende abordar brevemente seus conceitos, auxili-
observacionais, entre outros.5,7-10 Apesar destes es- ando sua compreensão na língua portuguesa.
forços, o relato inadequado ainda é comumente en-
contrado em todas as áreas de pesquisa em saúde, Lista de Checagem (Checklist)
prejudicando assim a qualidade e utilidade das infor-
mações divulgadas na literatura.7 As recomendações descritas abaixo foram
Falhas frequentes no relato de ECRs, conside- fundamentadas segundo a versão revisada do enun-
rados padrão-ouro para fornecer evidências sobre a ciado CONSORT.4 Com o intuito de facilitar a in-
eficácia relativa às intervenções terapêuticas, estimu- terpretação e utilização das instruções, foi mantida a
laram um grupo de editores e pesquisadores a formu- estruturação original em tópicos dos 22 itens da lista
larem o enunciado CONSORT (Consolidated de checagem (Quadro 1) acompanhada de um exem-
Standards of Reporting Trials).4,11 Publicado em plo20 de ECR especificando todas as etapas listadas
1996 e revisado em 2001, este conjunto de critérios ao final do texto (Quadro 2), cujo emprego auxilia o
auxilia os autores a aperfeiçoar a descrição de seus relato adequado de informações sobre o desenho, modo
achados através do emprego de uma lista de checagem de condução e análise do estudo. Adicionalmente, as
de 22 itens e um diagrama representando o fluxo dos modificações propostas para atender às necessidades
participantes durante cada estágio do estudo.4 O enun- específicas de ECR não-farmacológicos18 foram con-
ciado CONSORT facilita a interpretação crítica dos venientemente abordadas em alguns tópicos.
resultados, pois, permite que o leitor conheça detalhes
sobre o desenho do estudo, seu modo de condução e o ITEM 1- Título e Resumo
tipo de análise utilizada. Adicionalmente, evita a omis- Neste item é sugerido aos autores que decla-
são de possíveis erros sistemáticos que compromete- rem explicitamente o modo como os participantes fo-
riam a validade e confiabilidade dos resultados e con- ram distribuídos para os grupos experimentais e a in-
sequentemente, sua aplicabilidade dentro do contexto clusão desta informação no título é fortemente reco-
da medicina baseada em evidências. mendada. Esta indicação surgiu da necessidade de
Avaliações associando a adoção do enunciado identificar e indexar adequadamente ECR em bases
CONSORT com a melhora da qualidade do relato de eletrônicas, uma vez que muitos estudos são classifi-
artigos publicados12,13 têm contribuído progressiva- cados de forma inapropriada. Para tanto, aconselha-

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QUADRO 1- Lista de Checagem: Itens Necessários ao Relatar Estudos Clínicos Controlados Randomizados

Extensão para Estudos


Seção Item Recomendação CONSORT Não-Farmacológicos

Título e Resumo 1 Como os participantes foram alocados para No resumo, descrição do tratamento experi-
as intervenções (“alocação randomizada”, “ran- mental e o de comparação, dos profissionais
domizado”, “randomicamente assinalados”) de saúde, centros e aspectos do cegamento

Introdução
(Embasamento Científico) 2 Contexto científico no qual a pesquisa se de-
senvolveu
Justificativa para realização do estudo
Métodos
Participantes 3 Critérios de elegibilidade para os participan- Quando aplicável, critérios de elegibilidade para
tes, os locais e ambientes onde os dados foram os centros e para aqueles realizando as inter-
coletados venções
Intervenções 4 Descrições detalhadas sobre as intervenções Descrições detalhadas sobre ambos os trata-
planejadas para cada grupo, como e quando mentos experimental e de comparação
4A foram realmente administradas
Descrever os diferentes aspectos inerentes à
intervenção.Quando aplicável, descrição dos
procedimentos de adaptação das intervenções
a cada participante
4B
Detalhes sobre como as intervenções foram
padronizadas
4C
Detalhes sobre como foi avaliada ou alcançada
a aderência dos profissionais de saúde ao pro-
tocolo
Objetivos 5 Especificar os objetivos e hipóteses do estudo
Variáveis de Resposta 6 Definir claramente as variáveis de resposta (pri-
márias e secundárias). Quando aplicável, des-
crever quaisquer métodos usados para melho-
rar a qualidade das mensurações (ex: treina-
mento dos avaliadores)
Tamanho Amostral 7 Como o tamanho da amostra foi determinado. Quando aplicável, detalhar se os participantes
Quando aplicável, descrever e justificar quais- foram aglomerados por centros e/ou profissi-
quer análises intermediárias e regras para in- onais de saúde e como isto foi realizado
terrupção do estudo
Geração da Sequência 8 Método utilizado para gerar a sequência de Quando aplicável, como os profissionais de
de Alocação alocação randomizada, incluindo informações saúde foram alocados para cada grupo do es-
sobre qualquer método de restrição (ex: por tudo
blocos, estratificação)
Mascaramento da Alocação 9 Método utilizado para implementar a sequên-
cia de alocação randomizada (ex: frascos enu-
merados, tabela de números aleatórios), escla-
recendo se a sequência foi omitida até o mo-
mento da alocação dos participantes
Implementação da Alocação 10 Quem gerou a sequência de alocação, quem Se aqueles administrando as co-internvenções
recrutou os participantes e quem os assinalou eram cegos ou não em relação ao assinalamento
para os grupos dos grupos
Cegamento 11A Indicar se os participantes, os indivíduos que
administraram as intervenções e os que avalia-
ram os resultados eram cegos em relação ao
grupo de intervenção.
11B Se realizado, descrever o método de cegamento
e informações sobre o grau de similaridade en-
tre as intervenções

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Métodos Estatísticos 12 Métodos estatísticos usados pra comparar os Quando aplicável, relatar se os participantes
grupos em relação às variáveis primárias de foram aglomerados segundo os centros ou pro-
resposta; descrever quaisquer análises adicio- fissionais de saúde e como isto foi realizado
nais, como análises de subgrupo ou análises de
ajuste.
Resultados
Fluxograma 13 Fluxo dos participantes durante cada estágio O número de profissionais de saúde ou cen-
(recomenda-se a construção de um diagrama). tros realizando a intervenção em cada grupo e
Especificamente, descrever para cada grupo: o o número de pacientes tratados por cada pro-
número de participantes que foram alocados fissional de saúde ou em cada centro
randomicamente, os que receberam a interven-
ção planejada, os que completaram todo pro-
tocolo, os que foram incluídos nas análises
estatísticas; descrever e justificar quaisquer
desvios no protocolo pré-estabelecido

Implementação da Novo Descrever o tratamento experimental e o de


Intervenção Item comparação da maneira como foram realmente
implementados
Recrutamento 14 Datas definindo o período de recrutamento e
acompanhamento

Características Basais 15 Características clínicas e demográficas da amos- Quando aplicável, descrição dos profissionais
tra, referentes ao período pré-intervenção de saúde (volume de casos, qualificação, expe-
riência etc.) e centros (nível de complexidade)
em cada grupo

Números Analisados 16 Número de participantes (denominador) em


cada grupo incluídos em cada análise. Indicar
se as análises foram por “intenção de tratar”
(intention to treat analyses). Apresentar os re-
sultados em números absolutos, se possível
(ex: 5/15, não 30%)

Resultados e Estimativas 17 Descrever para cada resultado, primário e se-


cundário, um sumário dos valores observados
em cada grupo, o tamanho do efeito estimado
acompanhado de sua precisão (ex: intervalo de
confiança de 95%)

Análises Adicionais 18 Indicar a realização de análises múltiplas, in-


cluindo análises de subgrupos ou análises de
ajuste. Informar se estas análises foram pré-
estabelecidas ou exploratórias, ou seja, se fo-
ram planejadas ou sugeridas pelos achados.

Efeitos Adversos 19 Informar a ocorrência de eventos adversos ou


efeitos colaterais
Discussão
Interpretação 20 Interpretação dos resultados, levando em con- Adicionalmente, considerar a escolha da inter-
sideração as hipóteses do estudo, possíveis venção de comparação, o não cegamento ou
limitações e fontes potenciais de viéses, assim sua realização parcial, o nível desigual de ex-
como, os riscos associados às análises múlti- periência dos profissionais de saúde ou cen-
plas dos resultados tros em cada grupo

Generalização 21 Generalização (validade externa) dos achados Generalização (validade externa) dos achados
do estudo do estudo de acordo com a intervenção experi-
mental e de comparação, pacientes, profissio-
nais de saúde e centros envolvidos no estudo.
Evidências Vigentes 22 Interpretação geral dos resultados sob o con-
texto das evidências vigentes

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QUADRO 2- Lista de Checagem: Exemplo de Relato dos Itens Recomendado pelo Enunciado CONSORT
Seção Item Estudo Clínico Controlado Randomizado de Li et al.20
Título e Resumo 1 Título: Efetividade do modelo de terapeuta primário para reabilitação da artrite reumatóide:
Um estudo clínico controlado e randomizado
Resumo: Comparar o modelo de terapeuta primário (MTP), fornecido por um único terapeuta
primário treinado em reumatologia, com o modelo de tratamento tradicional (MTT), fornecido
por um fisioterapeuta (FT) e/ou terapeuta ocupacional (TO) generalista, para tratar pacientes
com artrite reumatóide (AR).
Introdução 2 Profissionais de cuidado em saúde estão explorando novos modelos de serviço para atender às
demandas do tratamento de artrite. Para nosso conhecimento, nenhum estudo tem sido condu-
zido para avaliar a efetividade do MTP em contraposição ao MTT, que é o padrão da maioria
das facilidades canadenses para reabilitação da artrite.
Métodos
Participantes 3 Paciente: Os candidatos elegíveis foram indivíduos que solicitaram FT e/ou TO e não tinham
recebido tratamento de reabilitação para AR nos 2 últimos anos.
Terapeutas: Todos os terapeutas primários foram fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais
da Sociedade de Artrite que completaram o Programa de Treinamento em Avaliação de Poliartrites
(34 FT, 14 TO). Os FT e TO tradicionais exerceram uma prática generalista em setor ambula-
torial de hospitais (FT e TO), clínicas fundadas publicamente (principalmente FT) ou agências
de cuidado domiciliar (FT e TO).
Recrutamento: Devido ao fato de o MTP ter sido utilizado somente pela Sociedade de Artrite
e o MTT ser utilizado pela maioria das agências fundadas publicamente, nós conduzimos o
ECR dentro do contexto destes 2 ambientes de serviço em Ontário. Houve 2 tipos de clínicas de
fisioterapia fundadas publicamente: clínicas cujo proprietário é fisioterapeuta e clínicas cujo
proprietário é medico e que contrata fisioterapeutas e outros profissionais da saúde.
Intervenções 4 A duração da intervenção foi de 6 semanas. Grupo MTP: Os terapeutas primários poderiam
oferecer um ou uma combinação dos seguintes tratamentos: educação, incluindo o diagnóstico,
controle da dor, conservação de energia e princípios de proteção articular e uso adequado de
calçados; conselho quanto ao uso de modalidade física ou realização de exercícios específicos para
artrite; conselho ou prescrição de equipamentos de assistência/ mobilidade (incluindo bengalas,
andadores, cadeiras de roda e paciente); talas de membro superior/órteses para os pés; suporte
psicossocial e de mediação entre os pacientes e administração da unidade de saúde.Grupo MTT:
Todos os pacientes receberam educação no controle da dor. Em adição, fisioterapeutas puderam
oferecer um ou uma combinação dos seguintes tratamentos: modalidades físicas para dor, conse-
lho para exercício, conselho e prescrição de bengalas ou andadores. O tratamento da terapia
ocupacional poderia incluir equipamentos de assistência (ex. aumento dos assentos de vaso
sanitário), talas e órteses, e conselho e prescrição de protetores para mobilidade, incluindo
bengala, andadores, cadeiras de roda e pacientes.
4A Não se aplica
4B Todos os terapeutas primários completaram o Programa de Treinamento em Avaliação de
Poliatrites.
4C Terapeutas em ambos os grupos completaram um documento registrando os tratamentos ofere-
cidos em cada sessão.
Objetivos 5 Comparar o modelo de terapeuta primário (MTP), fornecido por um único terapeuta primário
treinado em reumatologia, com o modelo de tratamento tradicional (MTT), fornecido por um
fisioterapeuta (FT) e/ou terapeuta ocupacional (TO) generalista, para tratar pacientes com
artrite reumatóide (AR).
Variáveis de Resposta 6 Medidas de resultado primárias: definidas como a proporção de respondentes clínicos que
experimentaram melhora maior que 20% em 2 das seguintes medidas, obtidas pela comparação
dos valores basais e de 6 meses: função física (medida pelo Health Assessment Questionnaire
[HAQ]), dor (medida com a escala visual analógica [EVA]) e conhecimento da doença (medido
com o Arthritis Community Research e Evaluation Unit RA Knowledge Questionnaire).
Medidas de resultado secundárias: diferença na mudança da pontuação para The Stanford
Self Efficacy Scale, The RA disease activity index (RADAI) e The Coping Efficacy Scale.
Tamanho Amostral 7 Um total de 142 pacientes foi requerido pelo ECR, com base nas estimativas de um estudo piloto
(diferença de respondentes clínicos entre grupos=25%, nível α=0.05, poder=80%, taxa de atri-
to=20%). Nós estimamos um tamanho de amostra utilizando as medidas de resultado primárias.

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Geração da Sequência 8 Nós utilizamos o algoritmo de triagem da Sociedade de Artrite para assinalar o local de trata-
de Alocação mento (ex. clínica ou domiciliar). Os pacientes foram estratificados pelo critério de classifica-
ção funcional do Colégio Americano de Reumatologia (CAR), previamente à randomização, já
que a função física tem sido identificada como uma variável de prognóstico para a incapacida-
de. Nós assinalamos os pacientes elegíveis para o MTP ou MTT em uma taxa de 1:1, utilizan-
do blocos de tamanho 6. Uma tabela de números randomizados gerada pelo computador foi
utilizada para randomização.
Mascaramento da Alocação 9 Não mencionado
Implementação da Alocação 10 Não mencionado
Cegamento 11A/B Não houve cegamento dos pacientes e terapeutas. O artigo não deixa claro se a análise de dados
foi cega.
Teste Qui-quadrado foi utilizado para analisar a associação entre o grupo de tratamento e a
proporção de respondentes clínicos (medida de resultado primária).
Análises adicionais: Regressão logística foi utilizada para avaliar a associação do grupo de
Métodos Estatísticos 12 tratamento com a medida de resultado primária através destes blocos de variáveis: variáveis
demográficas do paciente (idade, sexo, nível de educação, rendimento médio da casa), variáveis
relacionadas à doença (classe funcional do CAR, duração da doença). O nível de significância
estatística foi de P< 0.05 e foram calculados o Odds Ratio ajustado e o intervalo de confiança
de 95%. Medidas repetidas do teste ANOVA foram conduzidas para cada tratamento para
explorar mudanças nas medidas de resultado com o transcorrer do tempo. Post-hoc LSD test
foi também realizado.Teste T-Student foi utilizado para comparar a mudança nas pontuações
para cada medida de resultado individual entre MTP e MTT em 2 momentos.
Resultados
Fluxograma 13 Os dados são extensos e por isso não foram representados nesta tabela. Por favor, veja maiores
informações no artigo.
Implementação Novo Não mencionado ou não aplicável.
da Intervenção
Recrutamento 14 O recrutamento foi realizado entre novembro de 1999 e maio de 2002.
Características Basais 15 Idade, sexo, classe funcional do CAR, duração da doença, nível de educação, rendimento médio
da casa, estado civil, estado de emprego, condições de moradia (sozinho, com família, casa de
cuidados), medidas clínicas (dor, HAQ e conhecimento).
Números Analisados 16 Análises por tratamento: 111 pacientes foram incluídos nas análises de 144 pacientes rando-
mizados.
Resultados e Estimativas 17 Os dados são extensos e por isso não foram representados nesta tabela. Por favor, veja maiores
informações no artigo.
Análises Adicionais 18 Análises pré-especificadas: regressão logística. Análise exploratória: medidas repetidas do
teste ANOVA e teste Post-hoc LSD.
Efeitos Adversos 19 Não mencionado

Discussão A discussão é extensa e por isso será apresentada parcialmente nesta tabela. Por favor, veja
maiores informações no artigo.
Interpretação 20 O artigo apresenta muitas limitações do estudo que podem ser fontes potenciais de viés:
Idealmente, uma análise por “intenção de tratar” deveria ser conduzida para avaliar a efetivida-
de do tratamento. No entanto, isto não foi possível, de forma que os achados devem ser
interpretados com cautela devido ao potencial viés de atrito.
Generalização 21 Aspectos que devem ser considerados ao generalizar os resultados: Este estudo não incluiu
clínicas de fisioterapia privadas para fornecer a terapia tradicional ao grupo MTT, sendo que
em Ontário mais de 50% das clínicas de fisioterapia são privadas. Além disso, o MTT no setor
privado pode ser diferente do setor público. No entanto, como as clínicas privadas são dispo-
níveis somente para alguns indivíduos, uma comparação envolvendo apenas estas clínicas não
será generalizável para todos os pacientes que solicitam reabilitação para AR em Ontário.
Evidências Vigentes 22 Os resultados devem ser interpretados com cautela devido à alta taxa de atrito. No entanto,
nossos achados concordam com estudos prévios nos quais os tratamentos foram fornecidos
por um fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional treinados em reumatologia. Outras pesquisas
devem ser direcionadas a compreender a efetividade e o valor econômico dos profissionais de
reabilitação com treinamento em reumatologia em diferentes modelos de saúde, tais como o
modelo médico de terapia e a telemedicina.

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se o uso de expressões como “os pacientes foram ran- Nos estudos não-farmacológicos, os critérios de in-
domicamente alocados” ou “o tratamento foi rando- clusão se estendem aos centros e aos responsáveis
mizado” entre outras. por realizar as intervenções, pois o nível de complexi-
O resumo deve ser suficientemente detalhado dade dos centros de coleta e o nível de experiência
e transparente, uma vez que é o responsável por mo- dos profissionais de saúde podem afetar o efeito esti-
tivar a leitura do texto completo e, não raro, represen- mado da intervenção em análise. Para tanto, o artigo
ta a única fonte de acesso a informações que possi- deve relatar o número e o tipo de centros e de profis-
velmente nortearão as decisões clínicas baseadas em sionais de saúde envolvidos no estudo.
evidências. Os aspectos centrais do resumo, que de-
vem ser mencionados a fim de permitir a avaliação da ITEM 3.b) Local de coleta e recrutamento
validade e aplicabilidade do estudo, podem ser consul- Particularmente importante é o relato de quais-
tados em Hopewell et al.19 Resumos estruturados em quer fatores que comprometam a validade externa do
subtópicos com detalhes referentes ao desenho, modo estudo, como o local de coleta e recrutamento, se hos-
de condução, análise e conclusões do estudo garan- pitais, clínicas ou comunidade e a forma de recruta-
tem uma maior qualidade e facilidade na busca de in- mento, que pode ser caracterizada por anúncios ou
formações quando comparados aos resumos tradicio- comparecimento voluntário, por encaminhamentos,
nalmente descritos. Em relação aos estudos clínicos dentre outras.
não-farmacológicos, recomenda-se a descrição de da-
dos sobre os centros de recrutamento dos pacientes, ITEM 4- Intervenções
o número e nível de experiência dos profissionais de Este item refere-se à descrição das interven-
saúde envolvidos, os diferentes grupos de compara- ções planejadas para cada grupo e como e quando
ção e quais indivíduos foram mantidos cegos durante elas foram realmente administradas. O grupo controle
o estudo. pode se apresentar em diferentes formas através de
uma intervenção usual, uma intervenção ativa, um
ITEM 2- Introdução placebo ou ainda uma lista de espera. A informação
A introdução geralmente expõe o contexto ci- clara e completa de todos os procedimentos envolvi-
entífico no qual a pesquisa está sendo desenvolvida e dos na intervenção é essencial para facilitar a compa-
deve conter a justificativa para realização do referido ração do estudo, a reprodutibilidade e sua inclusão em
estudo, já que a exposição desnecessária de seres vi- revisões sistemáticas. Em estudos não-farmacológi-
vos aos riscos inerentes à investigação científica é eti- cos, como os de intervenção fisioterapêutica, é neces-
camente desaconselhável pela Declaração de Helsinki sário descrever o conteúdo, o número e duração das
(1997).21 Além disso, é preciso indicar os prováveis sessões, duração da intervenção, os instrumentos utili-
benefícios da intervenção, bem como as explicações zados para transmitir a informação, se a intervenção
plausíveis para suas ações, principalmente quando foi monitorada e se foi individual ou em grupo. Neste
existe pouca ou ainda nenhuma experiência prévia em sentido, também é importante descrever procedimen-
relação à intervenção a ser investigada. A inclusão de tos para padronizar a intervenção oferecida, possibili-
uma revisão sistemática de estudos clínicos similares tando o acesso a esse material através de um apêndi-
ou a notificação da ausência dos mesmos é sugerida, ce ou de um link on-line. Outro aspecto relevante é o
sendo também apropriada a descrição dos objetivos. nível de aderência dos profissionais envolvidos ao pro-
tocolo proposto, pois isto pode influenciar a reproduti-
Métodos bilidade e aplicabilidade futura dos achados.
ITEM 3- Participantes ITEM 5- Objetivo e hipótese
Este item orienta quanto aos participantes da Segundo recomendado por este item, os auto-
pesquisa, que são definidos pelos critérios de inclusão res devem especificar os objetivos e hipóteses do es-
e pelo local e forma de recrutamento. tudo. Os objetivos representam as questões que o es-
tudo se propôs a responder ou investigar, enquanto
ITEM 3.a) Os critérios de inclusão que as hipóteses se referem aos resultados espera-
Precisam ser descritos claramente, não sendo dos, ou ainda às respostas provisórias, que ao serem
necessária a distinção com os critérios de exclusão. confirmadas auxiliam os objetivos.4

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ITEM 6- Variáveis de resposta ITENS 8 e 9- Referentes à alocação


Este item diz respeito às variáveis de resposta, A qualidade dos ECR está fortemente associa-
distinguidas em primárias e secundárias. A variável da ao processo de randomização, que pode ser enten-
de resposta primária é a variável de maior relevância dido pelas etapas de gerar uma sequência de alo-
para o estudo, sendo pré-especificada e utilizada para cação randomizada (Item 8) e de mascarar esta
o cálculo do tamanho da amostra. As demais variá- sequência (Item 9) de forma a não permitir que os
veis de interesse do estudo representam as variáveis investigadores envolvidos com o recrutamento dos in-
secundárias, que não necessariamente são planejadas divíduos a conheçam previamente. Assim, os autores
antes do início do estudo. A mensuração das variáveis devem especificar o método utilizado para gerar esta
deve priorizar a utilização de escalas e instrumentos sequência de alocação randomizada (Item 8.a),
validados, o que garante a qualidade das medidas e se randomizado ou quase-randomizado. A randomiza-
permite a comparação com estudos similares. A des- ção verdadeira ocorre quando o indivíduo é assinala-
crição das mensurações deve ser feita em relação ao do para um grupo com base no acaso, ou seja, tem
início, periodicidade e término e para qualquer método igual chance de ser distribuído/alocado para qualquer
utilizado para melhorar sua qualidade, tais como a re- um dos grupos de comparação. Para tanto, sugere-se
alização da mensuração por mais de um avaliador, o a utilização de uma tabela de números aleatórios, uma
treinamento dos avaliadores e a manutenção dos ava- sequência de números randomizados gerada pelo com-
liadores “cegos” quanto aos grupos de intervenção. putador ou o ato de jogar uma moeda. Nos métodos
quase-randomizados, a chance do indivíduo ser assi-
ITEM 7- Tamanho amostral e análises inter-
nalado para um determinado grupo já está definida
mediárias
antes mesmo dele entrar em contato com o investiga-
ITEM 7.a) Tamanho da amostra dor. Este tipo de alocação determinística, em vez de
A determinação do tamanho da amostra requer pelo acaso, ocorre sempre que os indivíduos são assi-
um planejamento cuidadoso, sendo realizada antes de nalados para os grupos de acordo com seu número de
iniciar o estudo. A amostra precisa ser grande o sufi- registro em uma instituição de saúde, número de car-
ciente para possibilitar uma alta probabilidade de de- teira de identidade, data de nascimento ou ordem de
tectar diferenças estatisticamente e clinicamente sig- chegada, se par ou ímpar.
nificativas, se estas existirem. Alguns estudos são A randomização simples pode também ser subs-
marcados pela diferença entre o tamanho da amostra tituída pela randomização restrita (Item 8.b) atra-
planejado e real ao término da pesquisa devido à in- vés da utilização de métodos que visam equilibrar os
terrupção precoce, possivelmente motivada por razões grupos quanto ao número de indivíduos (randomiza-
éticas, replanejamento do tamanho amostral e dificul- ção em bloco) ou quanto a algumas características da
dade de recrutamento. Nesses casos, geralmente se linha de base, cuja diferença entre os grupos poderia
verifica a utilização de análises intermediárias. enfraquecer a credibilidade do estudo (randomização
por estratos). Para os estudos não-farmacológicos, o
ITEM 7.b) Análises intermediárias processo de randomização deve ser relatado também
As análises intermediárias são geralmente uti- para os profissionais de saúde.
lizadas para decidir se o recrutamento deve continuar, O mascaramento da sequência de alocação ran-
aspecto este que precisa ser mencionado no artigo domizada é de considerável importância, pois sua não
quanto à quantidade e tipo de análises realizadas e se realização pode invalidar o processo anterior de gera-
estas foram planejadas previamente ao início do estu- ção da sequência. Consiste em prevenir o conheci-
do ou algum tempo depois. Em relação aos estudos mento prévio da intervenção a ser assinalada, evitan-
não-farmacológicos, é importante relatar se as análi- do que aqueles envolvidos com o recrutamento dos
ses intermediárias foram feitas por aglomerado, sendo indivíduos sejam influenciados por este conhecimen-
cada aglomerado representado pelos indivíduos que re- to. Tal processo, sempre possível de ser realizado até
ceberam a intervenção de um mesmo profissional de o momento em que o indivíduo é assinalado para um
saúde. Este tipo de análise deve ser considerado, uma dos grupos de intervenção, previne o viés de seleção
vez que os indivíduos não são capazes de gerar obser- e precisa ser claramente distinguido do processo de
vações independentes por terem recebido a interven- cegamento que se inicia somente após o término da
ção de um mesmo pesquisador/profissional de saúde. seleção e nem sempre é possível.

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Os autores devem relatar os procedimentos uti- administram a intervenção também previne o viés de
lizados para mascarar a sequência, sendo desejável o execução, enquanto que o cegamento daqueles que
envolvimento externo de indivíduos não relacionados coletam as variáveis de resposta e analisam os resul-
ao estudo e, quando não viável, a utilização de envelo- tados previne o viés de detecção, evitando-se que dis-
pes opacos ou frascos, ambos selados e numerados ponham de atitudes e estímulos diferenciados aos pa-
de acordo com a sequência aleatória previamente ge- cientes por reconhecer para qual intervenção ele foi
rada. É fundamental assegurar que os envelopes ou assinalado ou que selecionem os métodos estatísticos
frascos sejam abertos somente após serem registra- baseados neste conhecimento prévio.
dos com o nome do indivíduo e outros detalhes perti- Alguns estudos não-farmacológicos apresentam
nentes. limitações para o cegamento, uma vez que as inter-
venções envolvem procedimentos conhecidos tanto
ITEM 10- Implementação por aquele que as administram como pelo paciente.
O planejamento do estudo deve ser cauteloso Além disso, sinais e sintomas não previstos podem
quanto a definir claramente aqueles que geraram a evidenciar ao paciente e ao profissional da saúde a
sequência, que registraram os indivíduos e que os as- intervenção recebida e administrada, comprometendo
sinalaram para os determinados grupos. O estudo pode o cegamento previamente planejado. A realização do
ser diferenciado em dois procedimentos definidos por cegamento daqueles coletando as variáveis de res-
1) gerar e mascarar a sequência de alocação rando- posta e analisando os resultados é particularmente
mizada e 2) procedimento de implementação dos importante nestes casos marcados pela impossibilida-
assinalamentos para cada grupo. Faz-se necessário de ou falhas de cegamento, sendo também recomen-
separar completamente os indivíduos envolvidos em dada em estudos cujas variáveis de resposta são sub-
cada procedimento, uma vez que aquele responsável jetivas, como no caso do relato de dor.
por assinalar os indivíduos pode determinar o grupo Os desafios encontrados pelos estudos não-far-
para o qual o indivíduo será alocado, se esteve envol- macológicos para adotar estratégias de cegamento
vido com o processo de gerar a sequência de aloca- requer aos autores relatarem detalhadamente o méto-
ção. Assim, um indivíduo pode desempenhar mais de do utilizado e as similaridades entre as intervenções,
uma função dentro do procedimento de gerar e mas- contribuindo com a exploração de formas diferentes
carar a sequência, mas não pode estar envolvido com de implementar o cegamento.
a implementação e vice-versa.
ITEM 12- Métodos estatísticos
ITEM 11- Cegamento Os autores devem especificar os procedimen-
O cegamento consiste em manter a interven- tos estatísticos utilizados durante todas as etapas de
ção assinalada desconhecida pelos participantes, pro- realização do estudo e se estes foram planejados pre-
fissionais de saúde que administram a intervenção e viamente ou sugeridos pelos achados. Geralmente, as
aqueles coletando os dados clínicos e analisando os análises fornecem estimativas quanto à eficácia da
resultados. Considerando as diversas possibilidades de intervenção proposta ao comparar as variáveis pri-
cegamento, os autores devem relatar claramente para márias de resposta observadas em cada grupo. Acon-
quem o estudo foi cego, ao invés de utilizar termos selha-se, preferencialmente, a descrição dos interva-
como “duplo cego”, sem maiores esclarecimentos. A los de confiança do referido efeito estimado da inter-
função desempenhada pelo processo de cegamento é venção em vez da utilização do P valor, que deve ser
específica a cada indivíduo para o qual é realizado. No mencionado em valores exatos, se empregado. As
caso de cegamento dos pacientes, tenta-se prevenir o análises adicionais, distinguidas em análises subgrupo
viés de execução resultante de efeitos não associados e análises de ajuste, devem ser realizadas com caute-
com a intervenção recebida, sendo este efeito melhor la e se possível pré-especificadas, pois muitas vezes
evidenciado com a utilização de grupo controle placebo. resultam em inferências equivocadas. As análises de
O efeito placebo pode ser traduzido em expectativas subgrupo visam identificar possíveis diferenças na efi-
positivas ou ansiedade do paciente em relação a um cácia do tratamento proposto entre subgrupos com-
tratamento novo, bem como a baixas expectativas ou plementares, como por exemplo, ao estimar se os re-
tranquilidade do paciente submetido a um tratamento sultados diferem entre os indivíduos de um mesmo
usual. O cegamento dos profissionais de saúde que grupo de tratamento segundo características específi-

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Recomendações do enunciado CONSORT http://www.fmrp.usp.br/revista

cas, como por exemplo, sexo e faixa etária. As análi- alocação e seguimento dos indivíduos devem ser es-
ses de ajuste, também desencorajadas pelo enunciado pecificados para ambos os grupos. Os autores são ori-
CONSORT, representam quaisquer procedimentos entados a relatar: o número de participantes entrevis-
utilizados para homogeneizar as amostras em relação tados e consecutivamente selecionados para o estu-
a alguns aspectos da linha de base e, se necessárias, do; o número de indivíduos alocados em cada grupo e
não devem ser determinadas pela diferença de P va- quantos destes receberam de fato a intervenção pro-
lor, mas por serem reconhecidas previamente como posta conforme planejada; o número de indivíduos
importantes fatores prognósticos. desistentes ou dispensados durante o seguimento, as-
sim como o número de indivíduos incluídos nas análi-
Resultados ses finais. Em estudos não-farmacológicos é neces-
sário descrever o número de centros e profissionais
envolvidos. A construção de um fluxograma é forte-
ITEM 13- Fluxograma dos participantes mente recomendada (Figura 1).
A interpretação dos resultados de ECR é influ- Adicionalmente, os autores devem informar e
enciada pela maneira como são descritas informações justificar quaisquer eventuais desvios no protocolo pre-
sobre a distribuição dos participantes durante cada viamente proposto, tais como modificações nos méto-
etapa do estudo. Detalhes relativos ao recrutamento, dos de análise dos dados, alterações nas avaliações

Avaliados para elegibilidade


(N = ....)

Excluídos (N = ....)
Registro de Não atenderam aos critérios de inclusão (N = ....)
pacientes
Recusaram-se a participar (N = ....)
Outras razões (N = ....)

Randomizado
(N = ....)

Alocados para intervenção A* (N = ....) Alocados para intervenção B** (N = ....)


Alocação:
Receberam a intervenção conforme alocado (N = ....) Receberam a intervenção conforme alocado (N = ....)
Pacientes
Não receberam a intervenção conforme alocado (N = ....) Não receberam a intervenção conforme alocado (N = ....)

Profissionais de saúde (N = ....), equipes (N = ....), Profissionais de saúde (N = ....), equipes (N = ....),
Alocação centros (N = ....) realizando a intervenção
daqueles centros (N = ....) realizando a intervenção
administrando Números de pacientes tratados por cada profissional de Números de pacientes tratados por cada profissional de
pacientes saúde, equipe e centro (mediana, IIQ, min, máx) saúde, equipe e centro (mediana, IIQ, min, máx)

Seguimento: Seguimento perdido (forneça razões) (N = ....) Seguimento perdido (forneça razões) (N = ....)
Pacientes Intervenção descontinuada (forneça razões) (N = ....) Intervenção descontinuada (forneça razões) (N = ....)

Análises: Analisados (N = ....) Analisados (N = ....)


Pacientes
Excluídos das análises (forneça razões) (N = ....) Excluídos das análises (forneça razões) (N = ....)

Figura 1: Diagrama representando o fluxo dos participantes em cada etapa do estudo.


*A = Intervenção investigada; **B =Intervenção controle.

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Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 9-21 Martins J, Sousa LM, AS Oliveira.
http://www.fmrp.usp.br/revista Recomendações do enunciado CONSORT

ou ainda nas intervenções após a alocação dos indiví- de cada grupo devem ser apresentados em números
duos. O uso do termo “desvio de protocolo” não é absolutos e não em números fracionados (i.e., 5/15 e
suficiente para justificar a exclusão de participantes não 30%), facilitando a identificação de falhas relati-
após a randomização. vas a não inclusão de participantes em todas as análi-
ses, uma vez que a exclusão destes, por desistência
ITEM 14- Recrutamento e acompanhamento ou não aderência ao protocolo, pode acarretar em con-
Os autores devem descrever claramente o pe- clusões errôneas quanto ao efeito estimado da inter-
ríodo em que foi realizado o recrutamento, como tam- venção.
bém informar durante quanto tempo os participantes
foram acompanhados e se houve encerramento do ITEM 17- Variáveis de resposta, efeito esti-
estudo antes do previsto. Especificações quanto à taxa mado e intervalo de confiança
de recrutamento (número de participantes recrutados Os autores devem formular um sumário repre-
em determinado período de tempo), e se este ocorreu sentando todas as variáveis de interesse analisadas pelo
conforme planejado podem ser úteis a outros pesqui- estudo e utilizadas para o cálculo do tamanho do efeito
sadores. estimado do tratamento. O tamanho do efeito estima-
do deve ser descrito para ambos os grupos em conjun-
ITEM 15- Características clínicas e demográ- to, com os respectivos intervalos de confiança. O ta-
ficas da amostra manho do efeito estimado segundo variáveis binárias
Neste item é recomendada a descrição das (p. ex., presença ou não de determinada característi-
características clínicas e demográficas da amostra ca) pode ser representado por meio de valores de ris-
referentes ao período anterior à intervenção, facili- co relativos, odds ratio, entre outros, enquanto que para
tando assim o julgamento, por parte do leitor, quanto variáveis contínuas, o tamanho do efeito pode ser de-
às particularidades dos resultados, sua relevância e monstrado, em conjunto com os intervalos de confian-
aplicabilidade clínica em indivíduos com característi- ça, por meio da diferença entre as médias obtidas atra-
cas semelhantes às da amostra submetida ao trata- vés da comparação entre os grupos. Estes valores são
mento. A comparação destas características no perí- mais facilmente interpretados se forem disponibilizados
odo anterior à intervenção permite avaliar similarida- em tabelas ao invés de descritos ao longo do texto.
des entre os grupos. Ressalta-se, porém, que a aloca- Orienta-se também a descrição de todas as variáveis
ção randomizada dos participantes visa garantir que de reposta conforme definidas previamente às inter-
possíveis diferenças entre os grupos sejam advindas venções e não somente as variáveis que obtiveram
do acaso e não consequentes a viéses de seleção. diferenças estatisticamente significativas.
De maneira prática, os dados podem ser apre-
sentados em tabelas. Sugere-se o uso de medidas de ITEM 18- Análises adicionais
tendência central e suas respectivas medidas de dis- Apesar de análises planejadas previamente for-
persão na descrição de variáveis quantitativas contí- necerem resultados mais confiáveis, análises
nuas. Já em relação às variáveis qualitativas ou quan- exploratórias múltiplas realizadas posteriormente à in-
titativas discretas, como por exemplo, níveis de seve- tervenção e sugeridas pelos dados são comumente
ridade da doença ou número de partos, respectiva- utilizadas nos estudos, mesmo que ofereçam um alto
mente, devem ser apresentadas segundo a frequência risco de superestimar os resultados.4 Por este motivo,
ou proporção observadas em cada grupo. os autores são orientados a especificar se as análises
utilizadas no estudo foram planejadas ou sugeridas
ITEM 16- Número de participantes incluídos pelos achados. Recomenda-se ainda, conforme des-
nas análises crito no item 12, a descrição de análises de ajuste,
Como já anteriomente descrito no item 15, os sendo aconselhável apresentar ambos os resultados,
autores devem relatar o número de participantes que ou seja, com e sem tais análises.
foram incluídos em cada grupo em cada análise do
estudo. Faz-se necessário indicar se as análises fo- ITEM 19- Eventos adversos e efeitos colaterais
ram feitas por “intenção de tratar” (“intention to treat Os autores devem informar a ocorrência de
analyses”), ou seja, todos os indivíduos foram anali- desfechos indesejáveis durante a realização da inves-
sados conforme alocados. Para tanto, os resultados tigação, como eventos adversos ou efeitos colaterais.

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Recomendações do enunciado CONSORT http://www.fmrp.usp.br/revista

Apesar de não-intencionais, a existência de tais des- outros relevantes. Deste modo, os autores devem in-
fechos prejudica a aplicabilidade futura dos achados dagar e sugerir se os achados são aplicáveis, por exem-
clínicos do estudo, tornando necessário informar os plo, a outros indivíduos com idade, sexo ou comorbi-
leitores sobre os possíveis riscos e benefícios associa- dades diferentes, ou ainda, se resultados similares po-
dos à intervenção proposta. Os eventos adversos são dem ser obtidos em outros serviços com níveis de com-
consequências, em muitos casos, da condição tratada, plexidade diversos, isto é, serviços públicos ou priva-
enquanto que os efeitos colaterais são decorrentes da dos; níveis de complexidade primária, secundária ou
intervenção proposta. Os autores devem indicar o terciária. A discussão de tais aspectos permite avaliar
número de indivíduos afetados, a frequência e a natu- a extensão na qual os resultados do estudo são
reza dos desfechos mais graves, o método utilizado na generalizáveis a outras circunstâncias, auxiliando o
mensuração dos mesmos, justificando eventuais leitor no processo de tomada de decisão baseada em
descontinuidades no tratamento. evidências científicas.
ITEM 22- Interpretação geral segundo evidên-
Discussão cias

ITEM 20- Interpretação Finalmente, ao concluir o trabalho, os autores


devem apresentar uma interpretação global dos resul-
Este item sugere que os autores elaborem uma tados sob o contexto da evidência científica vigente.
discussão cuidadosa dos resultados observados, inter- Recomenda-se, portanto, confrontar os resultados com
pretando-os segundo a(s) hipótese(s) do estudo. Ba- dados da literatura existente sobre o tema, sendo de-
sicamente, a discussão do trabalho deve conter: 1) uma sejável a inclusão de uma revisão sistemática de ECRs
sinopse dos resultados principais; 2) considerações similares. A existência de poucos ou nenhum estudo
sobre os possíveis mecanismos responsáveis pelos semelhante prévio deve ser mencionada. Além de pro-
desfechos; 3) argumentação crítica dos achados de mover suporte aos achados, tais discussões colabo-
acordo com a literatura disponível, sendo desejável a ram com a divulgação de outros estudos relevantes,
inclusão de uma revisão sistemática, sempre que dis- como também dos procedimentos mais usados e efe-
ponível; 4) informações referentes aos eventuais ris- tivos sobre o tema em investigação.
cos e limitações do estudo, assim como, sobre os pro-
cedimentos utilizados para minimizar estes problemas;
5) um sumário final com as conclusões sobre as impli- Considerações Finais
cações clínicas e científicas relevantes. Em estudos Conforme exemplificado pelas recomendações
não-farmacológicos, os autores devem discutir as im- acima, o enunciado CONSORT tem como objetivo au-
plicações terapêuticas da intervenção controle esco- xiliar o relato completo e transparente de informações
lhida (placebo, tratamento tradicional, lista de espera) de ECR de modo a refletir na melhora da qualidade
em contraste com a intervenção investigada, já que das informações divulgadas na literatura de saúde e
em muitos casos, os procedimentos controles são assim, viabilizar a prática das idéias preconizadas pela
questionáveis por subestimarem a eficácia da inter- prática baseada em evidências. O presente trabalho
venção proposta. O nível de experiência, e se esta pretendeu, portanto, facilitar a compreensão de tais
diferiu entre os investigadores envolvidos com a inter- instruções, assim como divulgá-las em Língua Portu-
venção, é outro fator relevante que deve ser aborda- guesa do Brasil, ao abordar brevemente os principais
do pelos autores. Adicionalmente, recomenda-se a dis- aspectos contidos na versão revisada do enunciado
cussão de aspectos referentes às limitações e viabili- CONSORT.4 Sugerimos ainda, que algumas destas re-
dade do cegamento. comendações não sejam conferidas somente para o
ITEM 21- Generalização relato adequado de informações relevantes ao térmi-
no das investigações científicas, mas que sejam tam-
Complementares ao item 20 devem ser consi- bém empregadas já na fase de planejamento das mes-
derados alguns aspectos relativos à validade externa mas, prevenindo surpresas desagradáveis ou desfe-
do estudo, como as características dos participantes, chos inapropriados e conseguinte limitação das con-
do local e da equipe, do regime de tratamento, entre clusões realizadas.

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Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 9-21 Martins J, Sousa LM, AS Oliveira.
http://www.fmrp.usp.br/revista Recomendações do enunciado CONSORT

ABSTRACT
Clinical strategies and decision making in health care should be supported by the best available scien-
tific evidence not only on intuition neither on previous clinical experience. Randomized controlled trials
(RCT) are considered the gold standard for the assessment of interventions efficacy but inadequate
report difficulties their interpretation and identification of eventual bias. A group of scientists and editors
developed the CONSORT Statement to improve the quality of reporting of RCTs. The CONSORT state-
ment comprises a checklist of essential items that should be included in reports of RCTs and a diagram
for documenting the flow of participants through a trial. Nowadays, the CONSORT are translated to
several languages and it has been modified to attend different study designs. The present document
intended to improve the comprehension of CONSORT recommendations and to spread its use on
Portuguese language through a brief discussion of main aspects from the revised version of CONSORT
statement.

Keywords: CONSORT. Controlled Clinical Trials as Topic. Randomized Controlled Trial. Evidence-
Based Medicine.

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21
SIMPÓSIO: Planejamento e condução de estudos clínicos de alta evidência científica
Capítulo III

Contrib uições do esta


Contribuições tístico par
estatístico paraao
atendimento aoCONSOR
CONSORT T Chec klist
Checklist
Contributions of the statistician for the accordance
with the CONSORT Checklist

Edson Zangiacomi Martinez

RESUMO
Este artigo é baseado na palestra com mesmo título apresentada pelo autor no encontro “Planejamento
e Condução de Estudos Clínicos de Alta Evidência Científica” organizado pelo Laboratório de Análise da
Postura e do Movimento Humano (LAPOMH) no dia 5 de julho de 2008 na Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto, USP. O artigo discute o papel do estatístico no delineamento, análise de dados e inter-
pretação de resultados de um ensaio clínico, e sua contribuição ao atendimento do CONSORT checklist.

Palavras-chave: CONSORT. Bioestatística. Biometria. Método de Bayes. Teorema de Bayes. Ensaio


Clínico.

Introdução tras etapas do planejamento e da conduta de um en-


saio clínico. Como mencionado por Pocock 4, “It is a
O CONSORT (Consolidated Standards of common mistake to assume that the statistician need
Reporting Trials) pode ser definido como um con- only be concerned with the analysis of results. Of
junto mínimo de recomendações para a apresentação course the statistician plays a major role as data
dos resultados de ensaios clínicos controlados aleato- analyst but he should also be involved beforehand
rizados 1-3. Compreende um checklist contendo 22 in the study’s design and conduct.”
itens essenciais para a apresentação dos resultados Pocock 4 ainda acrescenta: “I think an
do ensaio, além de um fluxograma que explicita o nú- experienced statistician should be a collaborating
mero de indivíduos que compõem as fases de recruta- scientist in ensuring that both protocol design and
mento, alocação em grupos, seguimento e análise de the interpretation of trial findings conform to sound
dados. O checklist contém recomendações direcio- principles of scientific investigation. In addition,
nadas a cinco partes de uma publicação científica: o the statistician is often in a good position to act as
título e o resumo, a introdução, os métodos, os resulta- a ‘policeman’ in ensuring that satisfactory
dos e a discussão. As contribuições de um estatístico organizational standards are maintened throughout
são essenciais não somente na escolha e na aplicação a trial.” Por outro lado, o estatístico é muitas vezes
de uma metodologia de análise de dados, mas em ou- requisitado para colaborar em um ensaio clínico ape-

1. Professor Associado. Departamento de Medicina Social da Correspondência:


Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de Departamento de Medicina Social
São Paulo Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP
Av. Bandeirantes, 3900.
14049-900 - Ribeirão Preto – SP.
E-mail: edson@fmrp.usp.br

Artigo recebido em 18/12/2008


Aprovado em 20/05/2009

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 22-30


Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30 Martinez EZ. Contribuições do estatístico para
http://www.fmrp.usp.br/revista o atendimento ao CONSORT Checklist.

nas na etapa de análise de dados. Conforme Pocock 4, uma escala, como a escala visual-analógica de dor.
“Unfortunately, statisticians are often used merely Assim, o desfecho é representado por uma variá-
as a technical service for analysing data.” O esta- vel aleatória, que pode ter natureza quantitativa ou
tístico pode ter uma participação bastante abrangente qualitativa.
nas etapas prévias à coleta dos dados, como na deter- b) Como os dados serão analisados para que uma
minação do tamanho amostral, nas estratégias de alo- diferença entre os tratamentos seja detectada?
cação dos pacientes em grupos de tratamentos e no pla- A escolha de uma ferramenta estatística de análi-
nejamento de análises interinas. É atribuída ao célebre se depende dos objetivos do ensaio, do desenho do
estatístico e geneticista inglês Ronald Aylmer Fisher estudo e da natureza da variável de desfecho. Por
(1890-1962) a frase: “To call in the statistician after exemplo, os dados de um ensaio clínico com coleta
the experiment is done may be no more than asking prospectiva de dados, onde se objetiva a compara-
him to perform a post-mortem examination: he may ção entre os tempos de sobrevida entre dois gru-
be able to say what the experiment died of.” pos paralelos de tratamento, podem ser analisados
O presente artigo tem por objetivo discutir como com técnicas de análise de sobrevivência, enquan-
o estatístico pode contribuir no atendimento dos dife- to os dados de um ensaio clínico onde se deseja
rentes itens do CONSORT checklist, principalmente comparar as proporções de pacientes que respon-
no que se refere os itens sete (tamanho amostral) e deram a um tratamento ou a um placebo podem
12 (análise estatística). ser analisados por um modelo de regressão logísti-
ca onde variáveis de confundimento podem ser pre-
Tamanho Amostr al
Amostral vistas. A determinação do tamanho amostral deve
ser compatível à ferramenta estatística prevista para
O item número sete do CONSORT checklist a análise dos dados.
mostra a importância de descrever como o tamanho c) Que resultado seria encontrado no grupo de
amostral utilizado no ensaio clínico foi determinado, controles? Para determinar o tamanho amostral,
quando o estudo estava sendo delineado. O número precisamos de uma idéia prévia à coleta dos dados
de participantes de um ensaio deve ser necessaria- do resultado que seria encontrado para os pacien-
mente voltado ao item número cinco do CONSORT tes que recebem o placebo ou o tratamento pa-
checklist, que diz respeito aos objetivos e às hipóte- drão.
ses do estudo. Isto significa que o pesquisador deve d) Qual seria a menor diferença entre os tratamen-
estimar o número de pessoas que devem ser incluídas tos considerada importante do ponto de vista
no ensaio para que os seus propósitos sejam alcança- clínico, e com qual grau de incerteza? Digamos
dos de maneira satisfatória. Um ensaio clínico que que, com base em estudos prévios, é esperado que
utiliza um tamanho amostral maior que o necessário 20% dos indivíduos que recebem o placebo apre-
para atender aos seus propósitos pode infligir ques- sentam alguma melhora clínica (ver item anterior).
tões éticas, dado que um número desnecessário de Para que o tratamento em estudo seja considerado
indivíduos é neste caso exposto a possíveis riscos, “útil”, qual deve ser a proporção mínima de indiví-
desconfortos e inconvenientes trazidos pelo tratamento duos com melhora clínica no grupo que recebe este
ou outra intervenção em estudo. Além disso, implica tratamento? Se esta proporção for fixada em 30%,
em desperdício de tempo e de recursos financeiros, isto significa que é estabelecido que a menor dife-
materiais e humanos. Por outro lado, um tamanho rença entre os tratamentos considerada importan-
amostral menor que o necessário traz resultados im- te é 30% – 20% = 10%, e qualquer diferença entre
precisos e consequentemente inconclusivos. estas porcentagens menor que 10% não é conside-
Outras questões relevantes em relação ao ta- rada importante do ponto de vista clínico.
manho amostral são apresentadas por Pocock 4:
a) Qual é a principal medida de desfecho? O des- Em um exemplo, um pesquisador deseja inves-
fecho pode ser um evento binário, como morte/ tigar o efeito de um tratamento com baixas doses de
sobrevida, cura/não cura, apresentou/não apresen- aspirina em pacientes com angina crônica estável.
tou uma reação adversa ao tratamento, ou uma Pretende-se conduzir um ensaio clínico controlado
resposta contínua, como níveis séricos de coleste- aleatorizado, com grupos paralelos, onde metade dos
rol ou pressão arterial sanguínea. Pode ser ainda pacientes elegíveis será aleatoriamente alocada a um

23
Martinez EZ. Contribuições do estatístico para Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30
o atendimento ao CONSORT Checklist. http://www.fmrp.usp.br/revista

grupo que receberá o tratamento com aspirina e a ou- onde Φ é a função distribuição acumulada de
tra metade irá compor um grupo de controle, onde será uma distribuição normal padrão e Φ-1 é a sua função
administrado um placebo. Se a principal medida de inversa. Podemos encontrar valores para Φ-1 facil-
desfecho é a ocorrência de infartos do miocárdio, ou mente, com a ajuda da função INV.NORMP do pro-
seja, um evento binário, podemos utilizar a equação: grama Microsoft Excel. Por exemplo, Φ-1(0,05) é ob-
tido digitando a expressão =INV.NORMP(0,05) em
p1 (100% − p1 ) + p2 (100% − p2 )
n= f (α , β ) uma célula vazia da planilha do Excel, onde obtere-
( p2 − p1 ) 2 mos que Φ-1(0,05) = -1,645. Se fixarmos α = 0,05 e β
= 0,20, encontramos o valor de f (0,05;0,20) digitando
para determinar o número n de indivíduos a em uma célula vazia do Excel a expressão
serem alocados em cada grupo 4. Esta equação se
baseia em um teste de hipóteses, que tem por hipóte-
se nula que pacientes tratados e não tratados com =(INV.NORMP(0,05/2)+INV.NORMP(0,20))^2
baixas doses de aspirina têm as mesmas chances de
que trará o resultado f(0,05;0,20) = 7,85.
um evento de infarto do miocárdio, e por hipótese al-
ternativa que as chances de um evento de infarto são Digamos que é conhecido que a porcentagem
diferentes entre tratados e não tratados. Nesta equa- esperada de ocorrências de infarto do miocárdio no
ção, temos que: grupo que receberá o placebo é de p1 = 13% (a fre-
p1 é a frequência relativa esperada de eventos quência esperada em indivíduos que não recebem o
no grupo que receberá o placebo. tratamento). É necessário ainda especificar a menor
p2 é uma frequência relativa de eventos asso- diferença entre os tratamentos considerada importan-
ciada ao grupo de pacientes que receberá o tratamen- te do ponto de vista clínico. Digamos que se o trata-
to sob investigação, de forma que p2 – p1 é a menor mento trouxer uma redução absoluta do risco de infarto
diferença entre os tratamentos considerada importan- do miocárdio menor que 10% ele não será considera-
te em um ponto de vista clínico. do importante, mas reduções iguais ou superiores a
α é o nível de significância adotado para o 10% indicam que o tratamento cumpre com o seu pro-
estudo, ou seja, a maior probabilidade tolerada pelo pósito. Temos assim p2 = 3% (ou seja, p2 – p1 = -
pesquisador para um erro tipo I. No contexto deste 10%). Assim, o número necessário de indivíduos em
ensaio clínico controlado, o erro tipo I seria cometido cada um dos grupos, necessário para detectar uma
ao concluirmos que o infarto do miocárdio ocorre com diferença absoluta de riscos de infarto igual a 10%
diferentes frequências entre pacientes tratados e não entre estes grupos, é:
tratados com baixas doses de aspirina, en-
quanto, na verdade, os dois grupos possuem
a mesma frequência de infartos. Na área 13%(100% − 13%) + 10%(100% − 10%)
n= × 7,85 = 191
da saúde, o nível de significância é geral- (−10%) 2
mente fixado em 5%.
β é a chance tolerada de um erro tipo II, ou considerando que a maior probabilidade tolera-
seja, o erro que cometemos ao concluirmos que paci- da de um erro tipo I é α = 5% e a maior probabilidade
entes tratados e não tratados com baixas doses de tolerada de um erro tipo II é β = 20%.
aspirina possuem chances iguais de um evento de
Este exemplo demonstra que o tamanho amos-
infarto do miocárdio, quando na realidade um dos gru-
tral necessário a um ensaio clínico só pode ser deter-
pos apresenta chances diferentes (maior ou menor)
minado após o pesquisador definir com clareza o ob-
de apresentar o desfecho em questão. A quantidade 1
jetivo do estudo, a população em estudo (item 3 do
– β é chamada de poder do teste de hipóteses para
CONSORT checklist) através dos critérios de elegi-
detectar uma diferença entre os grupos de magnitude
bilidade, especificar a hipótese nula e a hipótese alter-
p2 – p1. Geralmente β é fixado em 5%, 10% ou 20%,
nativa e determinar as probabilidades de erro tipo I e
dependendo da gravidade das consequências de se
tipo II. Se o estudo mede o tempo até a ocorrência de
cometer um erro deste tipo.
um evento (análise de sobrevida), é preciso especifi-
f (α,β) é uma função de α e β, dada por car o processo de recrutamento e definir o tamanho
f (α,β) = [Φ-1(α/2)+ Φ-1(β)]2, do período de seguimento 5 (follow-up period).

24
Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30 Martinez EZ. Contribuições do estatístico para
http://www.fmrp.usp.br/revista o atendimento ao CONSORT Checklist.

Outras estratégias para a determinação de ta- readily understood by non-statisticians.” Desta


manhos amostrais em ensaios clínicos onde a medida maneira, a ferramenta estatística escolhida para a
de desfecho é expressa por uma variável quantitativa análise dos dados de um ensaio clínico não pode ter
ou o desenho prevê medidas pareadas são apresenta- uma complexidade maior que os dados; problemas sim-
das por Lachin 6. Importantes discussões sobre tama- ples demandam ferramentas simples, mas problemas
nhos amostrais de ensaios clínicos encontram-se ain- complexos em relação ao desenho ou à distribuição
da nos artigos de Schulz e Grimes 7, Brasher e Brant8 dos dados exigem ferramentas apropriadas. Alguns
e Sylvester 9. autores apresentam em livros-texto tabelas ou fluxo-
O item número sete do CONSORT checklist gramas que orientam pesquisadores a escolher uma
trata ainda a necessidade de explicações sobre as ferramenta estatística de acordo apenas com a natu-
análises interinas 10, quando utilizadas. Alguns en- reza de suas variáveis. Estes procedimentos, conhe-
saios recrutam participantes por um período de tempo cidos por “cookbook approaches”, são criticados por
relativamente longo, sendo as informações sobre o Murray 12 : “The selection of an appropriate
desempenho do tratamento sucessivamente acumula- statistical test requires experience and insight, and
das. Nestas situações, as análises interinas são fei- one must be wary of a proscriptive cookbook
tas sobre os resultados acumulados, enquanto o en- approach.” Murray 12 coloca ainda que “the choice
saio está em progresso. De acordo com os resultados of an appropriate statistical procedure requires
destas análises, o ensaio pode ser encerrado antes de both an understanding of the strengths and
atingir o tamanho amostral previamente especificado. limitations of the different procedures, and also a
Em um estudo onde é esperado que uma nova terapia deep understanding of the clinical context.” Este
traga resultados melhores que um placebo, por exem- pensamento é compatível com o de Paes 13: “Da mes-
plo, o estudo pode ser interrompido tão logo se perce- ma forma que a prática da Medicina não é com-
bam evidências suficientes de que a nova terapia seja pletamente objetiva, a da Estatística também não.
superiora. Encerrar o estudo antes do prazo previsto Não existem ‘receitas prontas’ para tratar doen-
traz vantagens econômicas e éticas, dado que não tes, assim como não existem fluxogramas que indi-
haverá mais sentido tratar indivíduos com um placebo, quem as técnicas estatísticas que devem ser utili-
quando já se sabe que há um tratamento adequado. zadas em cada caso. O que existem são ‘práticas
Os detalhes de uma análise interina devem ser comuns’ que podem ser aplicadas ou não, depen-
necessariamente especificados antes da coleta dos dendo das condições do estudo.”
dados: quais os momentos previstos para a análise in- Assim, a ferramenta de análise dos dados deve
terina, os critérios de interrupção, o tamanho amostral ser escolhida conforme os objetivos do estudo, a natu-
estimado 11, como os dados serão analisados, qual a reza das variáveis que definem as medidas de desfe-
precisão especificada para classificar o tratamento cho, a medida de tamanho de efeito de tratamento
como superior ao placebo e como as análises estatís- (risco relativo, redução de risco, número necessário
ticas serão corrigidas. A prática de múltiplas análises para tratar) e o desenho do ensaio, e esta escolha exi-
estatísticas ao longo do ensaio, com um acúmulo de ge um profundo entendimento do estatístico sobre as
informações, exige alguma correção nas inferências, características do estudo. Os “cookbook aproaches”
dado que a probabilidade de erro tipo I (nível de signi- devem dar lugar à experiência do estatístico e à sua
ficância) também será cumulativa ao longo destas capacidade de lidar com diferentes métodos de trata-
análises, e, ao longo do tempo, maior que o valor no- mento de dados.
minal fixado antes da coleta dos dados.
Descrever, antes de analisar

Análise dos Dados É importante considerar que mesmo as ferra-


mentas simples, como o teste t de Student para com-
Segundo Pocock 4, “The essence of a good paração de médias populacionais, trazem algumas ar-
clinical trial is that it provides truthful and precise madilhas. Por exemplo, seja um ensaio clínico
information which is relevant to the treatment of aleatorizado onde são comparados dois tratamentos,
future patients. To this end statistical methods A e B, tal que as respostas aos tratamentos são ex-
provide a scientific basis for trial design. Methods pressas por uma variável de natureza contínua. A Fi-
of greatest value must be simple, reliable and gura 1 descreve a distribuição destas respostas por

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Martinez EZ. Contribuições do estatístico para Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30
o atendimento ao CONSORT Checklist. http://www.fmrp.usp.br/revista

box-plots 14, onde é evidente que um indivíduo sub- resultados das análises, e relações e padrões de asso-
metido ao tratamento B apresentou uma resposta re- ciações entre variáveis, a princípio ocultas no banco
presentada por um valor de magnitude demasiadamente de dados. Embora o pesquisador tenha a possibilidade
grande em relação aos demais. Uma seta destaca na de prever a ferramenta estatística de análise de dados
figura este valor atípico. Se aplicarmos aos dados um quando o estudo está sendo delineado, somente na
teste t de Student para amostras independentes inclu- aplicação da AED ele pode definitivamente decidir por
indo este valor atípico, temos um p valor de 0,30, que um método estatístico ou outro.
nos leva à não rejeitarmos a hipótese de igualdade de
médias populacionais a um nível de significância de P valor: uma medida a ser evitada em
5%. Por outro lado, se retirarmos este ponto atípico do ensaios clínicos?
banco de dados, o mesmo teste de hipóteses nos for- No ano de 2002, o conceituado periódico The
necerá um p valor de 0,04, agora inferior ao nível de Lancet publicou uma série de artigos denominada
significância de 5%, o que nos leva à rejeitar a hipóte- Epidemiology Series. No primeiro artigo da série,
se de igualdade de médias. Este exemplo nos mostra Grimes e Schulz 16 escreveram: “Measures of
que a inclusão ou a exclusão de um valor atípico em association, such as relative risk or odds ratio, are
relação aos demais em um banco de dados pode nos the preferred way of expressing results of
trazer resultados distintos para o teste de hipóteses. dichotomous outcomes, e.g., sick versus healthy.
Se não tomarmos o cuidado de descrevermos Confidence intervals around these measures
detalhadamente os achados de um ensaio clínico, cor- indicate the precision of these results. Measures
remos o risco de escolhermos uma ferramenta analíti- of association with confidence intervals reveal the
ca inadequada para o estudo. Esta etapa de descrição strength, direction, and a plausible range of an
dos achados, que necessariamente antecede a análise effect as well as the likelihood of chance
dos dados, é chamada análise exploratória de da- occurrence. By contrast, p values address only
dos (AED). A AED foi introduzida por John Wilder chance. Testing null hypotheses at a p value of
Tukey (1915-2000), no seu clássico livro Exploratory 0.05 has no basis in medicine and should be
Data Analysis 15 lançado em 1977. Faz uso de um discouraged.” Esta postura dos autores em
grande número de técnicas gráficas (como o box-plot) desencorajar do uso dos p valores é dirigida às limita-
e quantitativas, buscando descrever a distribuição das ções destas medidas, embora elas sejam bastante fre-
variáveis numéricas, pontos atípicos (outliers) que quentes nos periódicos da área médica. Segundo
podem trazer influências às medidas descritivas e aos Wagner17, “O rótulo ‘estatisticamente significante’

Figura 1: Distribuição das respostas aos tratamentos A e B de um ensaio clínico aleatorizado hipotético ilustradas por box-
plots, onde percebemos que um ponto atípico influencia o resultado de um teste t de Student para amostras independentes.

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Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30 Martinez EZ. Contribuições do estatístico para
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é potencialmente enganoso e tem estado sob cons- estatística” não significa “importância clínica”, e a
tantes críticas por parte de vários estatísticos e expressão “estatisticamente significante” pode ser
epidemiologistas durante os últimos anos. Para que bastante vaga para descrever os resultados de um
se possa avaliar ‘significância’ é igualmente ou ensaio clínico 18-21.
mais importante do que o p valor que se estime o Uma característica importante de um teste de
tamanho da associação envolvida. Isso pode ser hipóteses é que a sua probabilidade de rejeitar a hipó-
obtido através de medidas de associação como o tese nula é sempre relacionada ao tamanho amostral.
risco relativo e seus intervalos de confiança.” Tamanhos amostrais pequenos trazem chances peque-
Os p valores são derivados dos testes de hipó- nas de rejeitar a hipótese de igualdade entre os resul-
teses, da teoria clássica estatística. Antes de aplicar- tados do tratamento sob investigação e do grupo tra-
mos um teste de hipóteses aos nossos dados, deve- tado com placebo, e consequentemente, trazem p va-
mos definir o nível de significância, que na área médi- lores grandes, ainda que sejam observadas grandes
ca é geralmente fixado em 5%. O p valor é interpre- diferenças entre estes grupos. Por outro lado, o uso
tado como o menor valor que o nível de significância de amostras grandes traz p valores pequenos, mesmo
deveria ser fixado para que a hipótese nula fosse re- que as diferenças entre os dois grupos de tratamentos
jeitada. Em um ensaio clínico aleatorizado controlado, não sejam relevantes em um ponto de vista clínico.
digamos que a hipótese nula estabeleça que o trata-
mento ou intervenção sob investigação e o tratamento Metodologia bayesiana: o futuro dos
com placebo tragam os mesmos resultados. Um p valor ensaios clínicos?
de 67% (0,67), por exemplo, indica que deveríamos A metodologia bayesiana teve uma origem bas-
ter especificado um nível de significância de pelo me- tante incomum 22. Ela nasceu de um processo de ra-
nos 67% para que a hipótese nula fosse rejeitada. ciocínio idealizado por Thomas Bayes, um pároco da
Sendo o nível de significância especificado em 5% igreja presbiteriana que viveu em um vilarejo da In-
(menor que 67%), não rejeitamos a hipótese nula. Por glaterra do século 18, supostamente entre 1701 e 1761.
outro lado, se o p valor é menor que o nível de signifi- Este raciocínio foi registrado na forma de um ensaio
cância adotado, rejeitamos a hipótese nula. sobre probabilidades condicionais, que Bayes, curio-
Uma limitação do p valor é que esta medida samente, nunca submeteu para a sua publicação. Dois
não informa o tamanho da diferença entre os resulta- anos após a morte de Bayes, seu amigo Richard Price
dos da utilização do tratamento sob investigação e do (1723-1791) encontrou entre os pertences do pároco
placebo, o que é de grande utilidade na tomada de o tal manuscrito, que tinha o título “Na essay towards
decisões clínicas. Por sua vez, riscos relativos ou me- solving a problem in the doctrine of chances”. Price
didas de reduções absolutas ou relativas de risco in- encaminhou o ensaio com a demonstração do futura-
formam o tamanho destas diferenças, e traduzem a mente famoso Teorema de Bayes à Royal Society
importância clínica da intervenção. A “significância inglesa, que logo o publicou. Nos dias de hoje, este

Figura 2: A filosofia dominante na pesquisa: o método frequentista.

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Martinez EZ. Contribuições do estatístico para Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30
o atendimento ao CONSORT Checklist. http://www.fmrp.usp.br/revista

ensaio é tido como a base de uma verdadeira revolu- Nota-se que a metodologia bayesiana de pes-
ção em diferentes campos do conhecimento, da gené- quisa não tem como primeiro passo a observação, mas
tica à teologia 22. a especificação do que já se sabe acerca do objeto
A filosofia dominante na pesquisa clínica é ba- em investigação. No entanto, como este conhecimen-
seada na chamada interpretação frequentista, cujo to a priori é dependente das crenças e da experiência
processo é ilustrado na Figura 2. A partir de um mo- do observador, os resultados obtidos da distribuição a
delo experimental, onde são definidos os objetivos e posteriori não são dependentes apenas dos dados ob-
as hipóteses do ensaio, retira-se aleatoriamente uma servados como ocorre no método frequentista. Segundo
amostra da população de interesse (definida pelos Gill et al 23, os clínicos são naturalmente bayesianos,
critérios de inclusão e exclusão do estudo), sendo os ainda que não conheçam formalmente as idéias do
dados assim obtidos submetidos a um processo de bayesianismo. Ao examinar um paciente (universo fí-
inferência estatística, onde testes de hipóteses e in- sico) para um diagnóstico (inferência racional acerca
tervalos de confiança permitem uma extrapolação dos de uma condição), o clínico não se baseia somente em
resultados à população. Os dados, neste processo, tra- seus dados (o paciente), mas alia a sua experiência
zem uma representação do universo físico, e são des- prévia e conhecimentos adquiridos em sua formação
critos matematicamente por uma expressão denomi- médica (a razão humana) às condições do paciente
nada função de verossimilhança. (os dados: exames físicos e laboratoriais, sintomas,
Na metodologia Bayesiana, estabelece-se que sinais, queixas), como no teorema de Bayes.
o processo de inferência não é baseado somente no Assim, a estatística bayesiana é baseada no
universo físico descrito pelos dados (verossimilhan- teorema proposto por Bayes (Figura 3). A partir dela,
ça), mas também no conhecimento prévio do pesqui- obtemos os intervalos de credibilidade para os obje-
sador sobre o objeto investigado. Este conhecimento tos sob investigação (parâmetros), análogos aos inter-
prévio traz a subjetividade do investigador, cuja razão valos de confiança resultantes da aplicação do méto-
é agora integrante do processo. Esta subjetividade, do frequentista. Todos os modelos de regressão do
quando expressa por uma função de probabilidades, é método frequentista (regressão linear e não linear, lo-
denominada distribuição a priori do objeto investi- gística, de Poisson, de Cox para dados de sobrevivên-
gado. O teorema de Bayes estabelece que inferências cia) encontram as suas versões em uma ótica bayesi-
racionais sejam obtidas da chamada distribuição a ana. Exemplos de aplicações de métodos bayesianos
posteriori do objeto (Figura 3), que é proporcional ao em ensaios clínicos são encontrados em Greenhouse24.
produto entre a distribuição a priori (subjetiva) e a fun- Berry25 menciona que o uso da metodologia
ção de verossimilhança (universo físico). bayesiana para delinear um ensaio clínico é mais va-

Figura 3 – A filosofia bayesiana: o teorema de Bayes (adaptado de Pena 22).

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loroso do que o ato de utilizar ferramentas bayesianas quando se inicia um crescimento propiciado pela po-
somente para a análise dos resultados. A metodologia pularização dos computadores portáteis, que possibili-
bayesiana fornece um mecanismo que permite uma taram o uso de algoritmos Monte Carlo em Cadeia de
atualização dos resultados acumulados durante o en- Markov (MCMC), comuns na estimação das distri-
saio26. Os resultados acumulados podem ser avalia- buições a posteriori. A partir do ano 2000, o uso de
dos a qualquer momento, inclusive de forma contínua, técnicas bayesianas na pesquisa médica encontra um
com a possibilidade de alterar o desenho do ensaio, por novo crescimento, agora propiciado pelo programa de
exemplo, desbalanceando a aleatorização para favore- computador WinBugs 34 de domínio público.
cer terapias de melhor desempenho, eliminando ou adi-
cionando braços de tratamentos, e alterando a popula- Discussão
ção de estudo para focar subgrupos de doentes que es-
tão respondendo melhor às terapias experimentais 26,27. O presente artigo mostra que o estatístico tem
Alguns autores mencionam que uma vantagem papel fundamental do delineamento, na análise e na
da abordagem bayesiana em ensaios clínicos é a pos- interpretação de dados de estudos clínicos. Sua con-
sibilidade de se obter a chamada distribuição tribuição ao atendimento dos itens do CONSORT
preditiva de probabilidade, que permite a predição checklist está principalmente na adequada descrição
de resultados futuros com base nos resultados atuais da determinação do tamanho amostral do ensaio, na
do ensaio 24. Outras vantagens são uma estrutura mais estratégia de alocação de indivíduos em grupos, na
flexível para o monitoramento de ensaios sequenciais escolha das ferramentas de análise de dados e no au-
28-31 , a não dependência de tamanhos amostrais gran-
xílio à interpretação dos resultados. Mas, para a sua
des (resultados assintóticos) para a validação das contribuição ser efetiva, é necessário a ele um amplo
inferências e a habilidade de calcular a probabilidade conhecimento dos alcances e limitações de cada mé-
de um tratamento ser mais efetivo que outro 32. todo estatístico, bem como a habilidade de bem com-
A Figura 4 ilustra o crescimento do número de preender os propósitos do ensaio clínico. Usar inade-
artigos publicados em revistas da área médica que quadamente uma ferramenta de análise estatística,
fazem algum uso ou menção de ferramentas bayesia- ainda que simples, pode trazer prejuízos aos resulta-
nas, encontrados em uma busca na base de dados dos no ensaio, como exposto na seção 3.1. Por isso, o
PubMed 33, utilizando a expressão “bayesian”. A fi- estatístico deve ser hábil em descrever os dados do
gura mostra o número de referências encontradas a ensaio, destacando as suas características mais rele-
cada 10 mil artigos indexados, a cada ano, de 1960 a vantes e sendo capaz de tomar decisões sobre as fer-
2007. Observa-se uma incidência inexpressiva de ar- ramentas analíticas adequadas aos achados desta aná-
tigos até meados da década de 80 do último século, lise exploratória. É importante que ele conheça as li-
mitações dos p valores e as
25 maneiras alternativas e com-
plementares de exibir os resul-
Incidência (artigos/10.000)

20
tados do ensaio, descrevendo
as magnitudes das discrepân-
cias entre os grupos de paci-
15
entes submetidos ao tratamen-
to investigado e ao placebo por
10
medidas adequadas.
Sendo crescente o uso
5
de técnicas bayesianas na pes-
quisa em medicina e saúde, é
0
desejável que o estatístico pas-
1960 1970 1980 1990 2000 2010
se por um treinamento formal
ano em estatística bayesiana para
tornar-se apto a delinear e ana-
Figura 4: A incidência de artigos encontrados na base de dados. PubMed utilizando a lisar dados de ensaios clínicos
palavra chave “bayesian”, de 1960 a 2007. utilizando tal metodologia.

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Martinez EZ. Contribuições do estatístico para Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 22-30
o atendimento ao CONSORT Checklist. http://www.fmrp.usp.br/revista

ABSTRACT
This article is based on the lecture with the same title presented by the author at the “Planning and
Conducting Clinical Trials of High Scientific Evidence” meeting organized by the LAPOMH Laboratory
which was held at the Ribeirão Preto Medical School (University of São Paulo) on 5 July 2008. The article
discusses the role of the statistician in the design, data analysis and interpretation of the results from a
clinical trial, and its contribution to improving the accordance with the CONSORT checklist.

Keywords: CONSORT. Biostatistic. Biometry. Bayesian Method. Bayes’ Rule. Clinical Trials.

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30
SIMPÓSIO: Planejamento e condução de estudos clínicos de alta evidência científica
Capítulo IV

Registr os de ensaios c
gistros línicos
clínicos
e as consequências par a as
para
publicações científicas
Clinical trials registers and their implications for scientific publication
Regina Celia Figueiredo Castro

RESUMO
O presente trabalho apresenta as recomendações do International Committee of Medical Journal Editors
(ICMJE) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para os registros de ensaios clínicos. Discute as
consequências para as publicações científicas e o papel da BIREME para a inclusão da América Latina
e Caribe nessas iniciativas. Descreve o portal de acesso à Plataforma Internacional de Registro de
Ensaios Clínicos (ICTRP), coordenada pela OMS, e as principais iniciativas existentes, destacando as
da América Latina e Caribe.

Palavras-chave: Ensaio Clínico. Publicações Periódicas. Sistema de Registros/Ensaio Clínico. Ensaios


Clínicos como Assunto.

Introdução para divulgar publicamente as pesquisas em andamento


e seus resultados, sejam estes positivos ou negativos;
Ao realizar ensaios clínicos os pesquisadores para dirimir e evitar conflitos de interesses, principal-
se responsabilizam pela divulgação dos resultados, tanto mente em relação ao financiamento das pesquisas.
para a comunidade científica como para os partici- Dada a importância dos registros dos ensaios
pantes dessas pesquisas. Segundo a ética da publica- clínicos, em 2004, o International Committee of
ção científica os resultados de pesquisas devem ser Medical Journal Editors (ICMJE), (também conhe-
divulgados, sejam eles positivos ou negativos, princi- cido como Grupo de Vancouver), que é constituído
palmente naquelas que envolvem seres humanos. No por editores das principais revistas médicas e por re-
entanto, os editores de revistas médicas e pesquisa- presentante da Biblioteca Nacional de Medicina, dos
dores perceberam que na literatura da área médica o Estados Unidos, lançou uma recomendação a todos
número de artigos que relatavam resultados negativos os editores de revistas médicas1,2. O objetivo foi esti-
era baixo, ou quando publicados, esses artigos nem mular a criação de uma base de dados pública de re-
sempre relatavam todos os resultados. gistros de ensaios clínicos, em primeiro lugar como
Sendo assim, verificou-se a necessidade de uma forma de reconhecer aos voluntários participan-
manter registro das pesquisas clínicas em andamento tes das pesquisas clínicas e em segundo, para dar co-
por vários motivos: para aumentar a transparência das nhecimento público aos resultados dessas pesquisas.
pesquisas científicas tanto para a comunidade cientí- Em 2004, a Declaração do México, resultado da
fica como para o público em geral; pela responsabili- Cúpula Ministerial de Pesquisa em Saúde, recomen-
dade ética com os participantes dos estudos clínicos; dou que a OMS facilitasse a criação de uma rede in-

1. Coordenadora da área de Comunicação Científica em Saúde, Correspondência:


BIREME/OPAS/OMS, São Paulo, Brasil. Rua Botucatu 862
04023-901 São Paulo – SP
Email: regina.castro@bireme.org

Artigo recebido em 18/12/2008


Aprovado em 20/05/2009

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 31-5


Castro RCF Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 31-5
Registros de ensaios clínicos http://www.fmrp.usp.br/revista

ternacional de registros de ensaios clínicos e um portal torial foi para estudos iniciados em julho de 2005, e
integrado de pesquisas. Com base nessa recomenda- para estudos em andamento registrados antes de se-
ção e como instituição internacional na área da saúde, tembro de 2005. Editores de revistas médicas de paí-
a Organização Mundial da Saúde reforçou a recomen- ses desenvolvidos apoiaram imediatamente a recomen-
dação do ICMJE sobre o registro de ensaios clínicos e dação do ICMJE, começando pelas que integram esse
criou a Plataforma de Registro de Ensaios Clínicos3. grupo.
Como afirmou o Dr. Timothy Evans, Diretor Para dar cumprimento a essa recomendação
Assistente da OMS, na nota de imprensa lançada pela da OMS nos países da América Latina e Caribe, o
OMS4, “O registro de todos os ensaios clínicos e a Centro Latino-Americano de Informação em Ciênci-
disponibilidade de todas as principais informações as da Saúde (BIREME/OPAS/OMS) também lançou
no momento do registro serão fundamentais para uma recomendação5 aos editores de revistas indexadas
assegurar a transparência na pesquisa médica e nas bases de dados LILACS (Literatura Latino-Ame-
cumprir com as responsabilidades éticas para com ricana e do Caribe em Ciências da Saúde) e SciELO
os pacientes e participantes dos estudos”. (Scientific Electronic Library Online), em maio de
O ICMJE, em conjunto com a OMS, definiu um 2007. Nessa recomendação, a BIREME estabelece
conjunto de vinte campos obrigatórios3 para os regis- que todos os editores de revistas médicas latino-ame-
tros de ensaios clínicos, dentre eles, data de realização ricanas exijam o número de registro de artigos com
e registro, instituições financiadoras, título da pesqui- resultados de ensaios clínicos, como um critério para
sa, pesquisador responsável, tipo de estudo e de inter- a aceitação dos trabalhos.
venção, objetivos do estudo, etc. Esses campos de Seguindo o modelo proposto pelo ICMJE, a
dados constituem os campos mínimos que todos os BIREME sugere um texto para que os editores inclu-
Registros de Ensaios Clínicos devem respeitar para am nas Instruções aos Autores de suas revistas, ori-
que seja possível intercambiar dados e dar a conhecer entando os autores sobre a necessidade de registrar
os estudos realizados e em andamento. Embora não suas pesquisas clínicas. A atualização das Instruções
recomendem nenhum Registro de Ensaios Clínicos em aos Autores nas revistas médicas indexadas na
especial, o ICMJE sugere que os pesquisadores esco- SciELO tem sido acompanhada pela BIREME, como
lham aqueles que contenham todos esses campos. um controle sobre a adoção dessa recomendação. Da
Segundo a definição da Organização Mundial mesma forma, a BIREME tem acompanhado a indi-
da Saúde2, “para efeitos de registro, um ensaio clínico cação pelos autores e editores do número de registro
significa qualquer pesquisa que seleciona prospecti- nos artigos sobre ensaios clínicos. Até julho de 2008,
vamente participantes humanos, indivíduos ou grupos nenhum ensaio clínico havia sido publicado em revis-
de pessoas, para participarem de intervenções relaci- tas latino-americanas.
onadas à saúde humana para avaliar efeitos e resulta-
dos na saúde. Essas intervenções incluem, mas não Pla taf
Plataf or
tafor ma de R
orma e gistr
Re gistroo de Ensaios
se restringem a pesquisas com drogas, células e ou- Clínicos
tros produtos biológicos, procedimentos cirúrgicos ou
radiológicos, aparelhos, tratamentos terapêuticos, mu- A Plataforma de Registro de Ensaios Clínicos
danças no processo de atenção, cuidados preventi- (International Clinical Trials Registry Platform –
vos, etc.”. ICTRP), coordenada pela OMS, dispõe de um portal
de pesquisa (Figura 1) aberto ao público em geral que
Implicações para as publicações permite a pesquisa integrada em todas as bases de
científicas dados certificadas pela OMS e incluídas na platafor-
ma6.
Na recomendação do ICMJE2, o Grupo solicita Na modalidade de pesquisa avançada, o usuá-
que os editores aceitem como condição prévia à publi- rio pode buscar por qualquer palavra do título, pela
cação, apenas os artigos sobre ensaios clínicos que condição clínica, pelo tipo de intervenção, pelo estado
tenham sido registrados em uma base de dados de Re- do recrutamento, patrocinadores das pesquisas. É pos-
gistro de Ensaios Clínicos. Os registros devem ser fei- sível selecionar os países de realização dos estudos,
tos pelos pesquisadores antes de iniciar o ensaio e de delimitar datas e definir se a busca será feita em um
selecionar os participantes da pesquisa. A data esta- registro específico ou aplicá-la a todos os registros
belecida pelo ICMJE para adoção dessa política edi- (Figura 2).

32
Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 31-5 Castro RCF
http://www.fmrp.usp.br/revista Registros de ensaios clínicos

Figura 1- Portal de pesquisa da Plataforma Internacional de Registros de Ensaios Clínicos, disponível em:
http://www.who.int/trialsearch/

Figura 2- Módulo de pesquisa avançada, Portal de Pesquisas, Plataforma Internacional de Registros de Ensaios Clínicos, OMS
(http://www.who.int/trialsearch/AdvSearch.aspx)

33
Castro RCF Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 31-5
Registros de ensaios clínicos http://www.fmrp.usp.br/revista

Iniciativas existentes durante o VIII Congresso Brasileiro de Saúde Coleti-


va no Rio de Janeiro, em 2006 e novamente discutida
Várias iniciativas para a criação de Registros com representantes da Argentina, Chile, Cuba, Co-
de Ensaios Clínicos nacionais ou de áreas de inter- lômbia e Brasil, durante o XV Colóquio Cochrane,
venção específicas foram desenvolvidas em todo o realizado em São Paulo, em outubro de 2007.
mundo7,8. A OMS certifica e classifica esses Regis- A criação da Plataforma Regional para a Amé-
tros de acordo com o cumprimento dos campos míni- rica Latina e Caribe permitirá a criação de registros
mos definidos pelo ICMJE. Os Registros que não cum- nacionais e de um portal de busca integrada nos regis-
prem todos os critérios devem associar-se aos Regis- tros existentes na Região. Os países que não têm sis-
tros Primários, que foram certificados, e devem ga- temas próprios poderão adotar o modelo proposto para
rantir a inclusão de toda a informação necessária. a criação de seus registros nacionais. Até julho de
Até julho de 2008, as iniciativas existentes eram: 2008, existiam os seguintes registros:
• Australian New Zealand Clinical Trials Registry • LatinRec (Latin-American Clinical Trials
(ANZCTR) Registry), Colombia10
• Chinese Clinical Trial Register (ChiCTR) • Registro Público Cubano de Ensayos Clínicos,
• ClinicalTrials.gov (Estados Unidos) Cuba11
• Clinical Trials Registry – India (CTRI)
• ISRCTN.org (Inglaterra) No Brasil, a discussão sobre o Registro Na-
• The Netherlands National Trial Register (NTR) cional de Ensaios Clínicos, iniciada em 2006 no VIII
• Sri Lanka Clinical Trials Registry (SLCTR) Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, envolve o De-
partamento de Ciência e Tecnologia (Decit) da Se-
Em novembro de 2008, são dez os Registros cretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégi-
atualizados no Portal de Pesquisa. Além dos já menci- cos, do Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz,
onados, foram incluídos: a Agência Nacional de Vigilânica Sanitária (Anvisa),
• German Clinical Trials Register (DRKS) e o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa. Essas
• Iranian Registry of Clinical Trials (IRCT) instituições, em conjunto com a BIREME e a Área
• Japan Primary Registries Network de Pesquisas da OPAS, iniciaram discussões para a
Além dos 20 campos básicos e obrigatórios criação de um Registro Nacional para o Brasil.
exigidos pela OMS, vários campos adicionais foram Carvalheiro e Quental 12 descrevem algumas ques-
criados pelos distintos Registros. Alguns são realmen- tões que têm sido discutidas no Brasil. Em julho de
te campos adicionais, criados principalmente para aten- 2008, o Ministério da Saúde publicou Portaria13 que
der a exigências nacionais para o registro de pesqui- estabeleceu uma Comissão para Elaboração do
sas clínicas. Entretanto, alguns Registros adotam o Projeto de Implantação do Registro Brasileiro de
mesmo nome de campo, mas com semântica diferen- Ensaios Clínicos – REBRAC, sendo sua finalização
te, ou adotam nomes diferentes para o mesmo con- prevista para o ano de 2009, sob a coordenação do
teúdo semântico recomendado pela OMS ou ainda Decit/MS.
subdividem o conteúdo dos campos básicos em dife- Iniciativas complementares também foram de-
rentes níveis hierárquicos (gerais ou específicos). senvolvidas pela BIREME na Biblioteca Virtual em
Exemplos de campos adicionais: fontes de financia- Saúde (BVS), como o Portal de Evidências14 e o Por-
mento, aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa, tal Cochrane BVS15. O Portal de Evidências reúne,
metodologia do estudo, descrição das amostras bioló- organiza e oferece acesso integrado a fontes de infor-
gicas e da população em estudo, palavras-chave, den- mação em saúde de melhor nível de evidência, de acor-
tre outros. Segundo análise realizada pela BIREME do com a metodologia proposta pela Medicina Basea-
sobre as iniciativas existentes, o Registro que tem mais da em Evidências (MBE) e oferece acesso a fontes
campos específicos ou detalhamento de campos obri- de informação sobre a própria metodologia MBE. A
gatórios é o ClinicalTrials.gov, dos Estados Unidos. coleção do Portal Cochrane BVS é formada pelo con-
Na América Latina, a Organização Pan-Ame- junto das oito bases da Cochrane Library; pelas bases
ricana da Saúde (OPAS) divulgou um diagnóstico da da Biblioteca Cochrane Plus, reunidas pelo Centro
situação9 e tem apoiado a criação de uma Plataforma Cochrane Ibero-Americano, que inclui conteúdos em
regional para a América Latina e Caribe de Registros espanhol; e pelos resumos de revisões sistemáticas
de Ensaios Clínicos, em conjunto com a BIREME. A Cochrane traduzidos ao português, produzidos pelo
proposta de criação dessa plataforma foi apresentada Centro Cochrane do Brasil.

34
Medicina (Ribeirão Preto) 42 (1): 31-5 Castro RCF
http://www.fmrp.usp.br/revista Registros de ensaios clínicos

Considerações Finais tros de ensaios clínicos é promover a sua ampla divul-


gação na comunidade científica, o que foi objeto des-
A necessidade de assegurar a transparência se trabalho, que expõe de forma breve, facilitada e
dos estudos clínicos através de sua divulgação para a simples, o contexto no qual a base de dados foi ideali-
comunidade científica e para os participantes é evi- zada e tem sido atualmente implementada. Dessa for-
dente e tem sido atendida pelas diversas propostas da ma, este texto é de caráter essencialmente informati-
OMS, implementadas e apoiadas pela (BIREME/ vo, visando estabelecer um contato inicial dos pesqui-
OPAS/OMS). No entanto, tão importante quanto o sadores com a nova necessidade de registrar um es-
desenvolvimento da base de dados pública de regis- tudo clínico.

ABSTRACT
This document discusses the recommendations of the International Committee of Medical Journal
Editors (ICMJE) and of the World Health Organization for clinical trials registering. The consequences for
scientific publications and the role of BIREME for joining Latin America and Caribbean countries in these
initiatives are discussed. The International Clinical Trials Registry Platform (ICTRP) coordinated by WHO
as well as the existent initiatives are described, highlighting those from Latin America and the Caribbean.

Keywords: Clinical Trial. Periodicals. Registries/Clinical Trial. Clinical Trials as Topic.

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35
REVISÃO

Criopr eser
Criopreser
eservvação de células-
pr
proogenitor as hema
enitoras topoéticas
hematopoéticas
Cryopreservation of hematopoietic progenitor cells

Gil Cunha De Santis1, Karen de Lima Prata2

RESUMO
O transplante autólogo de células-progenitoras hematopoéticas (CPH) requer, na maioria das vezes, a
sua criopreservação a fim de manter sua viabilidade até o momento da infusão, que pode se dar meses
ou anos depois da coleta. A criopreservação adequada das CPHs é feita ao submeter a suspensão
celular a velocidades lentas de congelamento (1 a 3ºC/minuto), e com o emprego de substâncias
chamadas crioprotetoras, sendo a mais usada o dimetilsulfóxido (Me2SO4), um agente coligativo que
diminui o conteúdo de água livre tanto no espaço intra como no extracelular. Portanto, este composto
diminui o tamanho e o número dos cristais de gelo. O descongelamento das CPHs é feito rapidamente.
A suspensão celular pode então ser infundida sem posterior manipulação ou ser submetida a lavagem
para remover o Me2SO4, restos celulares e hemoglobina livre, potencialmente tóxicos tanto para o paci-
ente quanto para as células.

Palavras-Chave: Células Progenitoras Hematopoéticas. Criopreservação. Transplante. Dimetil Sulfóxido.

Introdução para a sua viabilidade, como é frequente com o em-


prego de tanques convencionais. Também importante
A expansão do papel do transplante de células- foi a ampliação do conhecimento sobre o comporta-
progenitoras hematopoéticas em doenças hematoló- mento das CPHs submetidas ao congelamento, desde
gicas, neoplásicas e genéticas, e a propagação dos sua descrição inicial em 1955.1
serviços de transplante têm exigido melhoria na capa- As fontes clássicas de CPH são a medula ós-
citação dos serviços quanto à manipulação e à crio- sea (MO), o sangue de cordão umbilical e placen-
preservação destas células. São várias as inovações tário e o sangue periférico (SP) após a mobilização
tecnológicas que podem ser arroladas nos últimos anos, das células-progenitoras hematopoéticas. Aparente-
dentre elas o desenvolvimento de equipamentos como mente, as CPHs oriundas destas fontes apresentam o
o BioArchive, que permite armazenamento prolonga- mesmo comportamento à criopreservação. Todavia,
do de unidades de CPH (principalmente de sangue de seu cultivo ex vivo tem se tornado cada vez mais fre-
cordão umbilical e placentário - SCUP) sem expô-las quente, o que pode influir nesse comportamento, de
a variações de temperatura potencialmente deletérias modo a requerer protocolos específicos para a crio-

1. Médico Hematologista e Hemoterapeuta do Centro Regional Correspondência:


de Hemoterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Fundação Hemocentro de Ribeirao Preto. Rua Tenente Catão
Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo Roxo, 2501. Bairro Monte Alegre.
(CRH-HCFMRP-USP), Hemocentro de Ribeirão Preto. 14051-140 - Ribeirao Preto, SP - Brasil
Mestrado e Doutorado em Ciências Médicas na área de
Hematologia pela USP. Artigo recebido em 06/10/2008
2. Médica Hematologista e Hemoterapeuta do CRH-HCFMRP- Aprovado para publicação em 29/01/2009
USP, Hemocentro de Ribeirão Preto. Mestre em Ciências
Médicas na área de Hematologia pela USP.

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 36-47


Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 36-47 De Santis GC, Prata KL. Criopreservação de
http://www.fmrp.usp.br/revista células-progenitoras hematopoéticas

preservação de cada um dos diferentes produtos de específicos quanto à sua estabilidade quando suspen-
CPH. 2 sas em meio anisotônico. A exposição das células a
Em geral, a criopreservação de CPH é consi- meio hipertônico que exceder os limites de sua tole-
derada obrigatória para transplantes autólogos e para rância pode provocar alterações da membrana celu-
os bancos de sangue de cordão umbilical e placentá- lar, particularmente no que diz respeito à permeabili-
rio (BSCUP), enquanto os transplantes alogênicos ge- dade, à integridade e à função. Cada tipo celular tam-
ralmente são realizados com a infusão a fresco das bém apresenta um limite distinto de resistência à ex-
CPHs, sem a sua criopreservação. Alguns serviços posição a meio hipotônico. Além das características
fazem transplantes autólogos com CPH não-criopre- do meio, também é importante a temperatura da sus-
servadas (ver abaixo). pensão celular, que pode retardar ou acelerar a movi-
mentação de água e eletrólitos entre a célula e o meio
Princípios da criopr eser
criopreser
eservvação de que a envolve.
A manutenção da viabilidade da célula sub-
células
metida ao processo de criopreservação depende basi-
O resfriamento de células a temperaturas pou- camente de sua capacidade de resistir a dois tipos de
co superiores a 0ºC reduz o seu metabolismo, mas não lesão: a desidratação e o dano mecânico decorrente
o abole, de modo que as células continuam a sofrer da formação de cristais de gelo no seu interior4 (Figu-
um processo de deterioração progressiva, apenas em ra 1). Em geral, estes dois tipos de lesão estão corre-
menor velocidade. Além disso, as vá-
rias vias metabólicas sofrem
heterogeneamente as consequências
das baixas temperaturas, o que, de
seu lado, é fator adicional para a per-
da da viabilidade das células expos-
tas a baixas temperaturas por muito
tempo. Os efeitos mais conhecidos
do resfriamento são a diminuição da
atividade da bomba de sódio, a mu-
dança de fase dos lipídios da mem-
brana (que pode interferir com a fun-
ção de enzimas) e a precipitação de
substâncias (que pode resultar em al-
teração da composição das soluções
e do seu pH). Adicionalmente, quan-
do o resfriamento se dá rapidamen-
te, pode ocorrer lesão e morte celu-
lar por mecanismos ainda mal esta- Figura 1: Tipos de lesão que podem ocorrer durante a criopreservação celular.
belecidos, um fenômeno denomina-
do “choque térmico”. Por isso, para
conservar células e tecidos por período prolongado, se lacionados à velocidade com que a suspensão celular
faz necessário congelá-los a temperaturas que inter- é congelada: o primeiro, em baixas velocidades, en-
rompam as vias metabólicas celulares. Contudo, o pro- quanto o segundo, em altas velocidades.
cesso de congelamento por si já implica riscos para a A formação de cristais de gelo requer pelo me-
manutenção da viabilidade celular. nos um evento inicial de nucleação, que depois aumenta
Os mecanismos precisos das lesões celulares progressivamente de tamanho por incorporação de mo-
pelo congelamento ainda são matéria de debate. Es- léculas de água livre e se expande por toda a solução
peculou-se inicialmente que estes mecanismos pode- ou suspensão celular na dependência da velocidade e
riam estar relacionados com o conteúdo celular de sais intensidade da queda de temperatura e da composição
ou as características de composição da membrana do soluto. O congelamento rápido resulta na formação
celular.3 Todos os tipos celulares apresentam limites de muitos pontos de nucleação, que surgem quase que

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De Santis GC, Prata KL. Criopreservação de Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 36-47
células-progenitoras hematopoéticas http://www.fmrp.usp.br/revista

simultaneamente, o que confere a cada cristal um ta- gou o glicerol para a preservação de espermatozóides
manho relativamente menor do que aquele que surge de aves.5 O glicerol se mostrou eficaz também para a
com velocidades mais baixas de congelamento. criopreservação de hemácias, plaquetas e vários tipos
Quando se trata de suspensão celular, em geral de células nucleadas. Esta molécula diminui a desna-
a nucleação de gelo ocorre primeiramente no espaço turação das proteínas expostas a baixas temperaturas
extracelular, principalmente em baixas velocidades de e é atóxica para as células, mesmo em altas concen-
congelamento. Os pontos iniciais de formação dos trações. Contudo, a sua penetração nas células ocor-
cristais de gelo recrutam moléculas de água e, de cer- re lentamente, o que constitui uma limitação em seu
ta forma, “expulsam” o soluto para as porções ainda emprego para a criopreservação de diversos tipos
líquidas da solução, que, por sua vez, têm o seu ponto celulares.
de congelamento progressivamente reduzido à medi- Dez anos depois do relato das propriedades
da que a concentração de soluto aumenta. A solução crioprotetoras do glicerol, Lovelock e Bishop demons-
mais concentrada (e com maior viscosidade) se loca- traram que a substância dimetilsulfóxido era eficaz na
liza mais próxima das células, que, expostas ao meio criopreservação de esperma bovino.6 O Me2SO é um
hipertônico, sofrem processo de desidratação. Em composto higroscópico polar, incolor e inodoro, usado
determinado momento, a concentração de solutos tor- pela indústria como solvente. Esta é uma substância
na-se tão alta que ocorre o fenômeno da vitrificação, de baixo peso molecular, composta por um grupo
quando então cessa todo movimento de água e, con- sulfóxido, que é hidrofílico, e dois grupos metila, que
sequentemente cessa o aumento do tamanho dos cris- são hidrofóbicos. O Me2SO é metabolizado em dimetil-
tais de gelo. Nos congelamentos realizados em alta sulfona e dimetil-sulfeto, eliminados por via renal e
velocidade pode ocorrer a formação de cristais de gelo exalado pelos pulmões, respectivamente. Sua meia-
concomitantemente nos espaços intracelular e extra- vida é de aproximadamente 20 horas. A dimetil-sulfona
celular. Dependendo do tamanho dos cristais, pode tem meia-vida de 72 horas e o dimetil-sulfeto é expi-
ocorrer lesão mecânica das organelas subcelulares e rado durante aproximadamente 24 horas, o que con-
da membrana celular. Idealmente, o processo de con- fere odor característico ao hálito do paciente.
gelamento deve evitar que ocorra a formação de cris- O Me2SO é o crioprotetor mais usado para a
tais de gelo no interior das células e induzir o processo criopreservação das CPHs, em geral nas concentra-
de vitrificação. ções entre 5 e 10%. A função deste agente parece ser
As maneiras de evitar esses dois tipos de lesão essencialmente coligativa, ou seja, de “captura” das
celular são basicamente duas: aplicar velocidade de moléculas de água livre, o que leva a redução da quan-
congelamento ideal para o tipo de célula em questão, tidade de gelo formada, diminuição da temperatura do
e empregar agentes crioprotetores que minimizem a ponto de congelamento e aumento do ponto de vitrifi-
formação de cristais de gelo e diminuam a intensidade cação. Esta substância penetra em tecidos e células
da desidratação celular (Tabela 1). numa velocidade maior que a do glicerol à temperatu-
ra ambiente, o que constitui vantagem apreciável. No
Tabela 1 entanto, nesta temperatura, o Me2SO é mais tóxico
Fatores a considerar durante processo de criopreser- que o glicerol, inclusive para as CPHs, o que motivou
vação de CPH a maioria dos serviços a estabelecer protocolos que
Volume do produto (necessidade de redução de volume) prevêem sua adição lenta à suspensão celular e início
do congelamento tão logo tenha terminada a adição.
Tipo de solução crioprotetora
Douay e colaboradores mostraram perda significativa
Concentração de células nucleadas de precursores de granulócitos e macrófagos após in-
Velocidade de congelamento cubação da suspensão celular com Me2SO.7 Entre-
tanto, estudos posteriores não confirmaram este acha-
Previsão de uso clínico (tipo de armazenagem)
do.8,9 No Centro Regional de Hemoterapia do Hospi-
tal das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão
Agentes crioprotetores Preto da Universidade de São Paulo (CRH-HCFMRP-
USP), foram analisadas unidades de sangue de cor-
A primeira vez em que um agente crioprotetor dão umbilical expostas ao Me2SO e mantidas por tem-
foi usado tem mais de meio século, quando se empre- pos progressivos a 4ºC e a 37º C.10 Foi observada pro-

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Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 36-47 De Santis GC, Prata KL. Criopreservação de
http://www.fmrp.usp.br/revista células-progenitoras hematopoéticas

volveria o favorecimento da vitrificação do espaço ex-


tracelular e, por isso, em associação com um criopro-
tetor penetrante, reduziria a intensidade das lesões pro-
vocadas pela desidratação celular, e formaria uma ca-
mada em torno das células, o que as protegeria da
lesão mecânica pelos cristais de gelo formados no es-
paço extracelular. É possível que a utilização do HEA
permita aplicar à suspensão celular velocidade de con-
gelamento menos estrita. Em razão dessas proprieda-
des, este agente tem sido usado principalmente quan-
do do congelamento a temperatura não-programada,
como aquela feita em congelador mecânico a 80ºC
negativos. Problema potencial do emprego de políme-
ros como o HEA e a polivinil-pirrolidona são os possí-
veis danos à membrana celular, como demonstrado
com hemácias.12
Figura 2: Quantificação de unidades formadoras de colônias
granulócito-monócito (CFU-GM) de sangue de cordão umbilical e
Um protocolo alternativo ao uso de Me2SO a
placentário expostas ao Me 2 SO e incubadas por tempos 10% foi descrito por Stiff e colaboradores, que conse-
progressivos, a 37ºC. guiram bons resultados com a associação de Me2SO
a 5% com HEA a 6%.13 Entretanto, outros autores
gressiva perda da capacidade de formação de colôni- concluíram que associar o HEA ao Me2SO a 5% não
as de GM-CSF, principalmente à temperatura de 37º era imprescindível para uma boa recuperação de
C (Figura 2). Por isso, recomendamos iniciar
congelamento logo após a adição da solução Tabela 2
crioprotetora. Relação de alguns agentes crioprotetores
Como as células são relativamente sen-
síveis ao chamado estresse osmótico, a adi- Composto Representantes Peso molecular
ção e a remoção das soluções hipertônicas Sulfóxidos Dimetil-sulfóxido 78,13
que contêm os agentes crioprotetores deve
ser feita cuidadosamente, de modo a não ul- Alcoóis hidratados Metanol 32,04
trapassar sua tolerância osmótica. A exposi- Etanol 46,07
ção súbita das células a meios hipertônicos e,
posteriormente, isotônicos pode levá-las à rup- Dióis Etileno glicol 62,07
tura e à perda da viabilidade. Propileno glicol 76,09
Além do glicerol e do Me2SO, há ou-
Trióis Glicerol 92,09
tros agentes crioprotetores, como: propileno
glicol, acetato de trimetilamina, trehalose, Poliálcoois Manitol 182,17
hidroxetilamido (HEA) e outros (Tabela 2). Sorbitol
Particularmente importante dentre eles é o
HEA, usado também como expansor da vo- Monossacarídeos Glicose 180,16
lemia e como agente sedimentante de eritró- Xilose 150,13
citos, empregado para a separação de leucó-
citos, principalmente para a coleta de granu- Dissacarídeos Sacarose 342,30
lócitos.11 O HEA é uma macromolécula (há Lactose 360,31
apresentações comerciais com diferentes pe- Trealose 378,33
sos moleculares) que tem reduzido efeito os-
Polissacarídeos Dextrana 1-200 x 104
mótico para o seu peso molecular e que não
se difunde para o interior das células, sendo Hidroxietilamido
por isso denominado de crioprotetor não-pe- Heterocíclicos Polivinil-pirrolidona 3-36 x 104
netrante. Os mecanismos crioprotetores do
HEA não são plenamente conhecidos, mas en- Proteínas/peptídeos Albumina (soro) 66 x 103

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CPH.14, 15 Também foi demonstrado que a recupera- Quando a suspensão celular é exposta a tem-
ção da hematopoese em pacientes com mieloma múl- peraturas progressivamente mais baixas (velocidade
tiplo e linfoma submetidos a transplante autólogo com de 1-3ºC por minuto), notam-se as várias fases do con-
células congeladas com Me2SO a 5 ou 10%, sem o gelamento, que podem ser expressas na forma de uma
HEA, era idêntico, o que favoreceria a escolha da curva de temperatura da amostra (Figura 3). A pri-
menor dose deste crioprotetor.16 Concentrações infe- meira fase corresponde ao início do processo de con-
riores de Me2SO, como 3,5%, associadas a outros cri- gelamento, enquanto as células ainda se encontram
oprotetores (HEA) talvez possam ser utilizadas com em suspensão. Esta fase dura até que a suspensão
resultados aceitáveis.17 atinja temperatura inferior ao ponto de congelamento
(em geral, inferior a 10ºC negativos). Inicia-se então a
Velocidade de cong elamento
congelamento segunda fase, denominada de transição, na qual ocor-
re aumento súbito da temperatura da amostra até que
Foram desenvolvidos vários protocolos para o se atinja o ponto de congelamento, quando então ela
congelamento de produtos de CPH, que requerem o se mantém por alguns minutos. Esta é uma fase consi-
emprego de equipamentos que permitem o congela- derada crítica para a viabilidade das células e parece
mento a temperatura programada ou congeladores estar diretamente correlacionada com a morte celu-
mecânicos a 80ºC negativos. Depois de preparada, a lar.18 É neste momento que ocorre a liberação do ca-
bolsa com a suspensão celular é colocada entre duas lor de fusão, durante a transformação de fase líquida
placas metálicas a fim de que a velocidade de conge- em sólida. No diagrama ilustrativo do processo de con-
lamento seja igualmente distribuída em todo o seu vo- gelamento, esta fase aparece com um platô. A partir
lume. O conjunto bolsa/placas metálicas é então in- de então, inicia-se a terceira fase do processo, quando
troduzido preferencialmente em equipamento para a amostra já se encontra em estado sólido. Também
congelamento a velocidade programada. Alternativa- nesta fase, parece ser importante que a velocidade de
mente, como mencionado acima, ele pode ser coloca- congelamento seja relativamente lenta. Velocidades de
do em congelador mecânico a 80ºC negativos e pos- congelamento inferiores a 5ºC/minuto permitem uma
teriormente transferido a tanque de nitrogênio líquido maior recuperação de colônias CFU-GM quando com-
(L2N), ou então armazenado no próprio congelador a parada com velocidade superior a 10ºC.19
80ºC negativos, até o momento do uso. A velocidade
ideal de congelamento das CPHs é de 1 a 3ºC por
Concentração celular
minuto, velocidade atingida em unidades de CPH com
volumes de 100-150mL quando se usa congelador Os produtos de CPH em geral não são subme-
mecânico a 80ºC negativos. tidos a purificação antes de seu congelamento, de modo

A B

Figura 3: Curvas de temperatura durante a criopreservação da suspensão celular. A) Diagrama que exemplifica as diversas fases do
processo. B) Exemplo prático de uma curva de congelamento obtida em nosso serviço.

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que as CPHs se encontram misturadas com outras razão, sistemas fechados como aquele proporcionado
células obtidas por ocasião de sua coleta, e que po- pelo emprego do equipamento BioArchive, com seu
dem exercer influência sobre o processo de criopre- processo semi-automatizado de manuseio, podem tra-
servação. No entanto, unidades de SCUP e MO têm zer vantagens significativas quanto à manutenção da
costumeiramente o seu volume reduzido antes de sua viabilidade das CPHs. Contudo, sistema como este
criopreservação, principalmente à custa da remoção requer disponibilidade financeira muitas vezes acima
de hemácias e plasma, o que provoca aumento signi- das possibilidades da maioria dos serviços.
ficativo da concentração das células nucleadas. Em
contrapartida, o SP geralmente não é submetido a re- Descongelamento e infusão
dução de volume e a sua concentração de células
nucleadas é superior àquela observada nos dois pro- O descongelamento de um produto de CPH é
dutos mencionados anteriormente. É interessante para feito rapidamente, em geral em banho-maria durante
os serviços de criopreservação e para os pacientes alguns poucos minutos, até o desaparecimento visual
que as unidades de CPH tenham volume reduzido a dos cristais de gelo. A bolsa com as células deve ser
fim de economizar espaço nos tanques de armazena- envolta em protetor plástico e imersa em água aquecida
gem e de diminuir o volume de Me2SO infundido. a 37-40ºC. Para evitar maior risco de contaminação
Contudo, elevadas concentrações de células nucleadas por microrganismos eventualmente presentes na água
poderiam comprometer a viabilidade das CPHs pre- do banho-maria, pode-se tratá-la com antisséptico
sentes na unidade. Rowley e colaboradores observa- iodado, ou então proceder ao descongelamento a seco,
ram que produtos de CPH poderiam ser congelados que oferece recuperação semelhante ao método men-
com concentração celular tão elevadas quanto 3,7 x cionado acima.24
108/mL sem comprometimento de sua viabilidade, A infusão de CPHs criopreservadas tem sido
verificada após o descongelamento.20 Entretanto, é associada a reações adversas, em sua maioria leves e
possível que concentrações celulares mais elevadas de curta duração. Entretanto, reações mais graves
possam comprometer a recuperação das CPHs após foram relatadas. Essas reações são atribuídas à infu-
o descongelamento. Ainda não está definido o limite são de Me2SO, de restos celulares e ao conteúdo de
superior de concentração celular que seja aceitável. células não-mononucleares presente no produto.25 As
reações podem ser do tipo cardiovascular e não-car-
Ar maz
Armaz ena
mazena
enaggem diovascular. A maioria dos pacientes apresenta náu-
sea, calafrios, sensação desagradável em orofaringe
A armazenagem das CPHs visa manter a sua e, mais raramente, hipotensão, dispnéia e arritmias
viabilidade até o momento de sua administração, que cardíacas26; 27. O Me2SO pode induzir a liberação de
pode se dar meses ou mesmo anos após a coleta. A
temperatura de armazenagem deve, portanto, propor-
cionar bloqueio completo de todas as vias enzimáticas
das células, o que equivale dizer que deve ser tão bai-
xa quanto possível e certamente não superior a 80ºC
negativos. A medula óssea mantida a 196ºC negativos
apresenta melhor recuperação quando comparada a
sua armazenagem a 79ºC negativos.21 Por isso, a mai-
oria dos serviços tem armazenado unidades de CPH
em tanques de nitrogênio líquido, tanto na fase líquida
quanto na fase de vapor, o que permite adequada re-
cuperação das células mesmo uma década depois da
sua criopreservação.22, 23
É importante salientar que unidades armazena-
das em congeladores mecânicos ou na fase de vapor
do LN2 podem ser expostas a temperaturas mais ele-
Figura 4: Exemplo de uma unidade de células hematopoéticas de
vadas quando da abertura de sua tampa, que, se for sangue periférico criopreservada e acondicionada em estojo
frequente, pode ocasionar dano às células. Por esta metálico.

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histamina, o que explicaria a hipotensão e as reações Por causa das reações adversas acima menci-
anafiláticas que já foram associadas à sua infusão. onadas, a maioria dos serviços preconiza a adminis-
Há pelo menos dois relatos de casos de parada cardí- tração profilática de medicamentos, dentre os quais
aca atribuídas à infusão de produtos de CPH criopre- anti-histamínicos e corticosteróides, antieméticos e
servadas28;29. Também foram relatados hiperosmola- antipiréticos. Além disso, e para diminuir a toxicidade
lidade, elevação das aminotransferases, hemólise e potencial da hemoglobina livre, é recomendada hidra-
complicações neurológicas30,31. tação vigorosa no dia da infusão das células. Eventu-
A dose letal de Me2SO para 50% dos indivídu- almente, em casos especiais, quando houver alta pro-
os (DL50) é de 2,5 g/Kg para cães e de 11g/Kg para babilidade de ocorrência de sobrecarga volêmica (in-
macacos.32 A DL50 para humanos não é conhecida, fusão de medula óssea), pode ser necessário o uso de
mas recomenda-se que não ultrapasse 1 g/Kg/dia. diuréticos.
Eventualmente, pode-se fracionar as infusões em mais Um possível problema durante a infusão das
de um dia caso a dose de Me2SO seja considerada células é a formação de grumos, que podem obstruir o
elevada.33 As reações adversas associadas à infusão filtro e provocar a retenção e perda de parte das CPHs.
de sangue de cordão umbilical parecem ser menos Este fenômeno tem sido explicado como decorrente
frequentes, pois em geral o seu volume é reduzido, de da ruptura dos granulócitos durante o processo de
modo que a quantidade de Me2SO e de hemoglobina congelamento e descongelamento com a liberação de
livre seriam insuficientes para causar reações graves, DNA. Para evitar ou minimizar este risco, recomen-
mesmo levando-se em consideração o baixo peso do da-se a adição de solução de citrato de sódio à sus-
receptor, na maioria das vezes, crianças. pensão celular e a sua infusão relativamente rápida
Uma alternativa para a profilaxia das reações tão logo tenha ocorrido o descongelamento. A absten-
adversas pode ser a lavagem da suspensão celular, ção do uso de filtro (em geral de 170 µm) poderia
que visa remover a maior parte do Me2SO, da hemo- evitar a retenção de parte das células, entretanto, é
globina livre e dos restos celulares. Este procedimen- razoável supor que os grumos infundidos seriam dire-
to pode ser feito pelo emprego de técnicas semi-auto- cionados à circulação pulmonar e poderiam provocar
matizadas ou automatizadas com o auxílio de lavado- quadro de insuficiência respiratória ou contribuir para
ras de células34; 35; 36. No CRH-HCFMRP-USP, rea- o seu agravamento.
lizamos a lavagem (semi-automatizada) na minoria das
vezes, pois se trata de procedimento trabalhoso e re- Tabela 3
lativamente demorado (2-4 horas). O uso de lavado- Reações adversas à infusão de CPHs lavadas e não-
ras automáticas de células proporciona uma diminui- lavadas, dose de células CD34+/Kg infundidas e dia
ção significativa do tempo de processamento e do ma- da enxertia de neutrófilos, observados no CRH-
nuseio do produto, entretanto, resulta em maior dis- HCFMRP-USP.
pêndio de recursos financeiros, pois, além do equipa- Não-lavadas Lavadas
mento, requer o uso de kits descartáveis. De fato, (91) (19) p
temos observado no CRH-HCFMRP-USP uma re-
dução significativa da incidência das reações adver- Rubor facial 56 1 0,0022
sas imediatas, como por exemplo, náusea/vômitos, Náusea/ vômito 49 2 0,0222
eventuais naqueles que recebem unidades de CPH
Cólica 21 1 ns
lavadas e frequentes naqueles que recebem produtos
não-lavados. Também observamos redução da inci- Diarréia 6 0 ns
dência de complicações graves. No CRH-HCFMRP-
Dispnéia 5 1 ns
USP, dois pacientes desenvolveram insuficiência re-
nal aguda e um outro, encefalopatia transitória após a Cefaléia 10 0 ns
infusão de bolsas não-lavadas, enquanto nenhuma I.R.A. 2 0 ns
dessas complicações foi observada no grupo de paci-
entes que recebeu CPHs lavadas. Não foi observada Encefalopatia 1 0 ns
diferença entre a dose de células CD34+/Kg infundi- CD34 x 106/kg 4,63 3,63 ns
das ou dia da enxertia de neutrófilos entre os dois gru-
pos (Tabela 3). N500 10 11 ns

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A infusão de CPH deve ser feita através de tores desenvolveu infecção que pudesse ser atribuída
cateter implantado em veia central por duas razões ao inóculo.42 Por fim, artigo recente revelou contami-
básicas: garantir que as células de fato foram infundi- nação de 1,6% (119) de produtos de CPH, mas ape-
das no sistema circulatório (em veia periférica nem nas um dos receptores apresentou hemocultura posi-
sempre é possível ter certeza de que isso tenha ocor- tiva para o mesmo microrganismo isolado no inóculo.
rido) e evitar a dor e a flebite quando a infusão é feita A sobrevida dos receptores que receberam produtos
em veia periférica, pois a suspensão celular com contaminados não foi diferente daquela observada nos
Me2SO a 10% tem alta osmolaridade. As inconveni- pacientes em geral.43
ências de usar cateter central são: infecção e trombo-
se no lúmen do cateter, que podem ocorrer em até Criopr eser
Criopreser
eservvação de CPH em tr ans-
trans-
50% dos casos37 e acidentes decorrentes de sua im- plante alogênico
plantação. Uma alternativa seria o uso de cateter cen-
tral introduzido por veia periférica, o que poderia re- No caso de transplante alogênico, os serviços
duzir as complicações relacionadas à sua implanta- de transplante usam mais frequentemente CPHs não-
ção, como a hemorragia.38 criopreservadas que, na maioria das vezes, são infun-
didas no mesmo dia da coleta. Esta conduta se deve à
Contaminação dos produtos de CPH crença de que células não submetidas às potenciais
lesões decorrentes do processo de congelamento e
A contaminação da medula óssea, do sangue descongelamento, ofereceriam melhor e mais rápida.
de cordão umbilical ou do sangue periférico por mi- O uso de CPHs criopreservadas permite maior flexi-
crorganismos pode ocorrer durante a coleta, a mani- bilidade de programação da coleta e de sua infusão. A
pulação, a armazenagem, o descongelamento ou a in- infusão de CPHs congeladas tem sido mais frequente
fusão do produto. Em geral, o SP oferece menor risco em dois tipos de situação: quando se considera o doa-
que a MO e o SCUP, até por ser em geral menos dor não confiável, e se teme uma eventual recusa à
sujeito a manipulação. doação após início do condicionamento do receptor,
Os agentes infecciosos mais frequentemente ou por razões logísticas, relacionadas tanto ao doador
isolados das culturas são da flora cutânea normal, como quanto ao receptor, como a disponibilidade de compa-
Staphylococcus coagulase-negativos e Propionibac- recimento do doador, o local de moradia, os meios de
terium acnes.39 Microrganismos potencialmente pa- transporte disponíveis e dentre outros.
togênicos, como o Staphylococcus aureus, e outros Além destas considerações, devem-se levar em
menos frequentes (ex. actinomiceto) também podem conta as possíveis diferenças biológicas entre os trans-
ser encontrados.40 plantes com CPH criopreservadas e “frescas”. Por
Na maioria das vezes, o produto pode ser in- exemplo, não se sabe ainda se há diferença quanto à
fundido sem cuidados especiais, na dependência do composição celular entre produto criopreservado e
tipo de microrganismo contaminante, das condições não-criopreservado. Também não foram identificadas
do paciente e da falta de opções alternativas de trata- diferenças significativas quanto à qualidade da enxer-
mento para a doença de base. Caso o risco de sepse tia e à incidência e gravidade da doença do enxerto-
seja considerado elevado, pode ser útil a administra- contra-hospedeiro (DECH). São poucos os trabalhos
ção profilática de antibióticos aos quais o microrga- que comparam os resultados clínicos entre grupos de
nismo seja sensível. Kelly e colaboradores observa- pacientes transplantados com CPHs criopreservadas
ram apenas 1,0% (15) de contaminação em 1.502 pro- e não-criopreservadas. Shinkoda e colaboradores des-
dutos de CPH (MO e SP), dos quais 11 eram cocos creveram o caso de dois irmãos, gêmeos univitelinos,
Gram-positivos, 2 bacilos Gram-positivos e 2 bacilos que tiveram leucemia mielóide aguda com a diferença
Gram-negativos. Treze pacientes foram transplanta- de 1 mês e ambos foram submetidos a transplante de
dos com produtos contaminados, mas em apenas um CPHs provenientes de outro irmão HLA-idêntico,
caso atribuiu-se a bacteremia por Staphylococcus entretanto, um deles recebeu células frescas, e o ou-
epidermidis à inoculação pelo produto de CPH.41 tro, células criopreservadas. Não foi observada dife-
Outros autores encontraram resultados semelhantes: rença quanto ao tempo de recuperação hematológica
37 de 3.078 (1,2%) produtos de CPH contaminados ou quanto à gravidade da DECH.44 Como sugere o
por bactéria (86,5% com Staphylococcus coagulase- relato de casos mencionado acima, parece não haver
negativos) foram infundidos, mas nenhum dos recep- diferença quanto à recuperação hematológica e à

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sobrevida. Contudo, Eckardt e colaboradores mostra- transplantados de CPH com DECH grave51. São pou-
ram que o grupo submetido a transplante com CPHs cos os estudos sobre a criopreservação desse tipo de
criopreservadas apresentou menor incidência de célula, mas, aparentemente, seu comportamento não
DECH .45 Outros autores não confirmaram este acha- difere daquele das CPHs, de modo que as CTMs po-
do. Stockschlader e colaboradores compararam os re- dem ser adequadamente congeladas com o emprego
sultados obtidos com o transplante de medula óssea do Me2SO, em geral a 10%, e manter sua capacidade
realizado em 80 pacientes subdivididos em dois gru- de profileração e diferenciação.52
pos de igual tamanho amostral, sendo que um deles As CEs têm o potencial de proliferar indefi-
recebeu MO criopreservada e ou outro MO não- nidamente em cultura e podem se diferenciar em qual-
criopreservada. O agente crioprotetor foi o Me2SO quer tipo celular. Estas características tornam estas
(concentração a 10%) e o congelamento foi feito a células particularmente atraentes para uso em medi-
temperatura programada. O tempo de armazenagem cina regenerativa, o que pode se tornar uma realidade
teve a mediana de 17,5 dias (3-455). Os autores não nos próximos anos. Diferentemente das CTMs, as
observaram diferença quanto à recuperação hemato- CEs são muito mais frágeis e sofrem danos durante o
lógica, à sobrevida no dia +100 ou quanto à incidência processo de congelamento e descongelamento quan-
e gravidade da DECH.46 do empregados os protocolos em vigor para outros
Pacientes transplantados com medula óssea tipos de células nucleadas, o que torna sua recupera-
criopreservada apresentam maior incidência de rea- ção inferior àquela observada com as CTMs e CPHs.53
ções adversas imediatas à infusão, como: náusea e Além disso, as CEs também parecem sofrer certo grau
vômitos, febre e calafrios, quando comparados com de diferenciação induzido pelo processo de criopre-
pacientes transplantados com medula óssea fresca. servação. Acredita-se que a principal causa da morte
Estes sintomas foram em geral de curta duração e das CEs seja a formação de cristais de gelo no
não relacionados a sequelas.47 Outra complicação mais citoplasma durante o processo de congelamento, o que
comum com o uso de medula óssea criopreservada é poderia ser evitado pelo emprego do método da vitrifi-
o maior risco de contaminação bacteriana, provavel- cação.54 Em conclusão, os protocolos de criopreser-
mente pela maior manipulação do produto.48 Entre- vação desse tipo celular ainda não estão bem estabe-
tanto, como afirmado anteriormente, acredita-se que, lecidos.
na maioria dos casos, a contaminação não tenha re-
percussão clínica.49
Outro fator que deve ser levado em considera-
Transplante de CPHs não-criopreser
eser--
não-criopreser
ção no contexto do transplante alogênico é a compati- vadas
bilidade ABO entre doador e receptor. É razoável su- Como a maioria dos regimes de condicionamen-
por que a incompatibilidade ABO maior possa acres- to requer vários dias para se completar (ex. 6 dias
cer risco para o paciente, particularmente quanto ao para o BEAM), a criopreservação das CPHs é consi-
comprometimento da função renal, mesmo levando- derada necessária para manter a sua viabilidade celu-
se em consideração o pequeno volume de hemácias lar até o momento de sua infusão. Entretanto, as CPHs
no produto de CPH obtido por aférese. Evidentemen- podem aparentemente ser armazenadas de maneira
te, quando se tratar de grandes volumes, como ocorre adequada, em suspensão, por até 9 dias à temperatu-
em transplante de células coletadas da MO, é conve- ra de 4ºC,55 principalmente se conservadas em meio
niente reduzir volume de hemácias e, eventualmente, de cultura.56 Em geral, a maioria dos serviços inicia o
lavar a suspensão celular para remover o Me2SO. processo de criopreservação das CPHs em até 48-72
horas de sua coleta. Contudo, alguns serviços optam
Criopr eser
Criopreser
eservvação de células mesen- por realizar transplante autólogo sem submeter as cé-
quimais estromais multipotentes lulas ao processo de criopreservação, uma vez que as
(CTM) e células-tronco embrioná- CPHs conservam a sua viabilidade à temperatura de
rias (CE) geladeira por alguns dias. Esta opção tem como obje-
tivo reduzir os custos do transplante e, desta forma,
As células mesenquimais estromais multipoten- viabilizar a sua implementação. As vantagens do uso
tes50 têm sido usadas clinicamente para reparar teci- de CPHs não-criopreservadas encontram-se enume-
dos e órgãos ou como agente imunossupressor em radas na Tabela 4.

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Tabela 4 identificado por meio de um rótulo (mas sem os no-


Vantagens do uso de CPHs não-criopreservadas mes do doador ou do receptor), além de aviso eviden-
Redução de custos te que proíba a sua irradiação.
Logística simplificada
Menor manipulação do produto celular Controle de qualidade
Menor necessidade de treinamento de recursos humanos O controle de qualidade dos produtos de CPH
Menor incidência e gravidade das reações à infusão não é padronizado e depende das características do
Maior facilidade de transporte e conservação serviço que os processa, das características e origem
Ausência de exposição das células ao Me2SO dos produtos, assim como das necessidades do recep-
tor. Em geral, deve-se medir o volume do produto, seu
conteúdo de células nucleadas e de CPH (em geral,
definido pela contagem de células CD34+). Também
O transplante de CPHs não-criopreservadas é importante realizar testes de esterilidade, mesmo que
tem sido mais frequente em pacientes com mieloma a unidade de CPH venha a ser infundida antes da ob-
múltiplo, pois, nesta doença, a droga mais usada para tenção de seu resultado, como costuma ocorrer com
o condicionamento é o melfalan, cuja meia-vida é cur- o transplante de MO, em geral feito no mesmo dia da
ta e se torna indetectável no plasma 6 horas após a coleta. Ensaios clonogênicos também podem ser rea-
sua administração. No entanto, pacientes com linfoma, lizados com o objetivo de avaliar a capacidade funcio-
leucemia aguda e tumores sólidos também já foram nal das CPHs, entretanto, estes testes são demorados
submetidos a transplantes bem-sucedidos com CPHs (podem requerer várias semanas de incubação), tra-
não-criopreservadas.57 balhosos e até certo ponto subjetivos, e por isso, de-
vem idealmente ser feitos sempre no mesmo labora-
Identificação do produto tório e de preferência pelas mesmas pessoas.
Pode-se ainda realizar testes para avaliar a
O erro de identificação do produto ou do re- viabilidade das células, tanto pelo emprego de mé-
ceptor pode ter consequências catastróficas para este todo que requer uso de citômetro de fluxo quanto pelo
último, de maneira que a sua prevenção deve ser ob- teste de exclusão de corante como o azul de Tripan.
jeto de padronização e treinamento periódicos. Este último é um método barato e de rápida aplica-
Para todo encaminhamento de CPH para trans- ção. As células viáveis são capazes de excluir o
plante deve haver solicitação escrita, na qual devem corante, enquanto as células não-viáveis aparecem
constar informações que garantam a correta identifi- coradas de azul. Sua principal desvantagem é a im-
cação do receptor e do doador (no caso de transplan- possibilidade de diferenciar as células mononucleares
te alogênico), o tipo produto a transplantar (CPH-SP, entre si, o que impede a definição exata do número de
CPH-MO, CPH-SCUP etc), a dose de células a in- CPHs viáveis. Em contrapartida, a avaliação da via-
fundir, o peso do receptor, a tipificação ABO e Rh do bilidade celular por citometria de fluxo, oferece a pos-
doador e do receptor e a eventual necessidade de la- sibilidade de quantificá-la especificamente na célula
vagem da suspensão celular. de interesse. As desvantagens do emprego deste mé-
Para ser transportado, o produto de CPH deve todo são decorrentes de seus custos mais elevados e
ser acondicionado em recipiente rígido e próprio para da necessidade de dispor de pessoal intensivamente
tal finalidade. Este recipiente deve ser externamente treinado.

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ABSTRACT
Autologous transplantation of hematopoietic progenitor cells requires most of the times the cryopreser-
vation of the hematopoietic progenitor cells (HPC) to maintain their viability until the infusion, which can
occur months to years after their collection. Adequate cryopreservation of HPC is realized by submitting
the cells to slow freezing velocity (1-3°C/minute) and by employing cryoprotectant agents like the dimeth-
ylsulphoxide (Me2SO4), the most used, a colligative agent that reduces the free water content into the
cellules and in the extracellular medium. As a consequence, this compound reduces the size and number
of ice. The thawing of HPC is done rapidly. The cell suspension can then be infused unmanipulated or
washed to remove Me2SO4, cellular debris and free hemoglobin, potentially toxic both to patients and to
cells.

keywords: Progenitor Cells, Hematopoietic. Cryopreservation. Transplantation. Dimethyl Sulfoxide.

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47
ARTIGO ORIGINAL

Car acterização da estea


Caracterização tose
esteatose
hepática não alcoólica induzida
por dieta hipopr otéica em rra
hipoprotéica atos
Characterization of nonalcoholic fatty liver disease
in rats for low protein diet induced

Gabriela S. F. Castro, Mirele S. Mialich, Eloisa M. Anjos, Lillian P. Almeida , Paula F. Arroyo ,
Guilherme V. Portari , Alceu A. Jordao Jr

RESUMO
Modelo de estudo: Estudo experimental. Objetivos: este estudo teve como objetivo avaliar e caracterizar
a dieta hipoprotéica como um modelo experimental para estudo de EHNA. Métodos: foram utilizados
ratos da linhagem Wistar divididos em dois grupos com dietas isocalóricas: controle (GC) no qual a
dieta utilizada seguiu o preconizado pela AIN-93 e hipoprotéico (GH) com quantidade de proteína redu-
zida de 20% para 10%. As dietas e água foram ofertadas ad libitum por quatro semanas. Após esse
período, os animais foram sacrificados e analisados: glicemia; nitrogênio urinário; proteína sérica;
gordura hepática; colesterol; variação de peso e quantidade de ração consumida. Resultados: glicemia
e nitrogênio urinário não apresentaram diferenças significativas entre GC e GH (p>0,05), a variação de
peso no último dia do experimento foi significativa (p<0,02). A porcentagem de gordura hepática foi
estatisticamente maior no GH, quando comparado ao GC (p<0,04). Foram menores o nível de colesterol
(p<0,01) e proteína sérica (p<0,005) no GH. A quantidade de dieta consumida não foi diferente entre os
grupos, considerando-se as médias de ingestão semanal. Conclusões: neste trabalho a dieta
hipoprotéica constitui um modelo de indução de EHNA que pode ser caracterizada pela diminuição da
proteína sérica e do colesterol plasmático e aumento da gordura hepática, entretanto não ocorreram
alterações na glicemia sugerindo que não existiu mudança na sensibilidade à insulina, constituindo
assim um modelo falho para estudar um dos principais fatores de risco para o estabelecimento da
EHNA, a resistência à insulina.

Palavras-chave: Esteatose Hepática. Dieta com Restrição de Proteínas. Ratos.

Introdução tes e crianças. Quando esta ocorre na infância pode


haver comprometimento da taxa de crescimento e
A subnutrição protéica é reconhecidamente um gerar alterações comportamentais e de aprendizado1.
problema mundial que afeta, principalmente, gestan- Filiputti et al. (2008)2 demonstraram que ratos alimen-

Curso de Nutrição e Metabolismo, Departamento de Clínica Médi- Correspondência:


ca da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Prof. Dr. Alceu Afonso Jordão Jr.
Curso de Nutrição e Metabolismo.
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
Av. Bandeirantes, 3900,
14049-900, Ribeirão Preto/SP.

Artigo recebido em 24/03/2008


Aprovado para publicação em 26/01/2009

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 48-53


Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 48-53. Castro GSF et al. Esteatose hepática
http://www.fmrp.usp.br/revista induzida por dieta hipoprotéica em ratos

tados com baixa quantidade protéica (6%) apresenta- para os componentes da Síndrome Metabólica e a
ram baixo peso, baixa quantidade de albumina e insu- EHNA pode ser uma manifestação hepática dessa
lina plasmática, alta gordura e glicogênio hepáticos. síndrome que é definida com a presença de 3 ou mais
Um efeito da dieta hipoprotéica já estabelecido das seguintes manifestações: hipertrigliceridemia, hi-
é o aumento da gordura corporal. Ratos em cresci- pertensão, alta glicemia de jejum, baixos níveis de li-
mento tendem a aumentar o seu consumo para ade- poproteínas de alta densidade (HDL) e aumento da
quar a sua ingestão ao seu requerimento protéico, exi- circunferência da cintura.15
gido para a formação de tecidos magros3. Este trabalho tem como objetivo principal pro-
Na ausência de doença ou trauma, a deficiên- vocar a desnutrição protéica em ratos e caracterizar
cia protéica aumenta os níveis de glicocorticóides por algumas de suas consequências ao metabolismo, prin-
ativar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, as altera- cipalmente hepático, descrevendo assim um modelo
ções hormonais levam a uma diminuição do apetite 4. de estudo para esteatose hepática.
Também a menor ingestão protéica parece cau-
sar o aumento de homocisteína sérica no plasma de Métodos
ratos, como demonstrado em um estudo de Okawa et
al. (2006)5, o qual discorda de outros dados reportados Foram utilizados ratos da linhagem Wistar, re-
por Stead et al. (2000)6, que verificaram que o aumen- cém-desmamados, com peso médio de 58 gramas e
to de homocisteína está ligado a uma maior ingestão provenientes do Biotério Central da Faculdade de
protéica, já Smolin et al. (1984)7 reportaram que a con- Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São
centração de homocisteína não apresentou diferenças Paulo (FMRP-USP). Os animais foram transferidos
entre animais alimentados com 10% ou 60% de caseína. ao Biotério do Departamento de Clínica Médica da
A suplementação de creatina isoladamente demons- FMRP, onde permaneceram durante todo o estudo.
trou ser outro fator que pode elevar a homocisteína Os grupo experimentais foram divididos em:
sérica 8. Estes dados conflitantes evidenciam que ain-
• Grupo Controle (n=6): ratos que receberam água
da não há na literatura concordância sobre a influên-
ad libitum e dieta padrão segundo AIN-93
cia protéica nos níveis de homocisteína, um reconhe-
(American Institute of Nutrition, 1993) 16.
cido fator de risco para doenças cardiovasculares.
A deficiência protéica pode constituir um mo- • Grupo hipoprotéico (n=7): ratos que receberam água
delo indutor de esteatose hepática não alcoólica ad libitum e dieta baseada na AIN-93 e com restri-
(EHNA) por meio de dieta, que atualmente apresenta ção protéica.
diversas outras formas de indução em modelos expe- As dietas foram ofertadas durante quatro se-
rimentais, tais como a deficiência de colina e metioni- manas e após esse período os animais foram sacrifi-
na9, dieta rica em gordura10, 11 e rica em carboidratos cados. A dieta do grupo controle seguiu a recomenda-
simples, dentre outros. Sabe-se que a deficiência pro- ção da AIN-93 com caseína 20% e carboidrato 63.5%,
téica é um causador de esteatose hepática 12. A EHNA já a dieta pobre em proteína continha caseína 10% e
apresenta relevância em saúde pública devido a sua carboidrato 73,5%. As quantidades dos componentes
alta prevalência 13. das dietas estão especificadas na Tabela 1. Os ratos
A EHNA caracteriza-se por um acúmulo de foram acomodados em gaiolas individuais com ciclo
lipídios no fígado, primeiramente na forma de triacil- claro-escuro de 12 horas, com iluminação artificial, e
gliceróis, sem a ingestão de quantidades significativas temperatura média de 25o C.
de álcool e com a exclusão de outras causas conheci- A ingestão foi controlada por meio de pesagem
das de esteatose, como algumas drogas e toxinas 12. regular de comedouros a cada dois dias e o mesmo
Pode ser definida como um excesso de gordura hepá- realizado com os animais. Ao final de 28 dias os ani-
tica, na qual o fígado possui ao menos 5% dos hepató- mais foram sacrificados por decapitação após je-
citos com gotas lipídicas que excedem de 5 a 10% o jum de 12 horas. Em seguida, foi coletada uma
peso do órgão em pacientes que não consomem quan- amostra de sangue, que foi submetida à centrifugação
tidades significantes de álcool 14. (3500 rpm por 10 min) para separação do soro que foi
Sua patogênese está fortemente associada à congelado. Foram retirados também os fígados que,
resistência a insulina, tanto hepática quanto de adipó- após pesagem, foram congelados em nitrogênio líqui-
citos. A alta insulinemia é um denominador comum do (-196o C).

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Castro GSF et al. Esteatose hepática Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 48-53.
induzida por dieta hipoprotéica em ratos http://www.fmrp.usp.br/revista

Tabela 1 significativamente menor que a do grupo controle (Ta-


Composição das dietas por kg bela 2), enquanto o consumo de dieta mostrou dife-
Ingredientes Controle Hipoprotéico rença estatisticamente significante na última semana
do experimento com o grupo hipoprotéico consumin-
Caseína (g) 200,00 100,00
do menor quantidade (Figura 1).
Amido (g) 530,50 630,50
Sacarose (g) 100,00 100,00
Óleo de Soja (g) 70,00 70,00
Tabela 2
Fibra (g) 50,00 50,00 Médias de pesos inicial e final dos grupos em gramas
Minerais (g) 35,00 35,00 do primeiro e último dia de experimento
Vitaminas (g) 10,00 10,00 Grupos
L-cistina (g) 3,00 3,00 Controle Hipoprotéico
Colina (g) 2,50 2,50
Peso inicial(g) 57,50 + 3,08 59,00 + 3,32
Butil hidróxitolueno (g) 0,02 0,02
Energia (kcal) 3952 3952 Peso Final(g) 146,33 + 13,32* 97,43 + 18,17*

* significa p < 0,02 entre os grupos Controle e Hipoprotéico


quanto ao peso final.
Este estudo teve como finalidade a
dosagem de parâmetros bioquímicos em
ratos alimentados com dietas hipoprotéicas Grupo Controle Grupo Hipoprotéico
para verificar suas consequências meta-
Consumo semanal de dieta (g)

bólicas e causadoras de esteatose hepáti-


ca. Para tanto, ele foi delineado através da
comparação entre um grupo de ratos com
dieta controle e um grupo com carência de
50% do recomendado de proteína.
Dosagens bioquímicas
As dosagens de proteína, glicemia e
colesterol séricos foram realizadas por meio
de kits comerciais (Labtest Diagnóstica
S.A., Brazil). O nitrogênio urinário foi do- Semanas de experimento
sado através do método micro-Kjeldahl, e
Figura 1: Média de consumo semanal de dieta.
a gordura hepática foi determinada por ex- * significa p<0,05 entre os grupos na 4ª semana.
tração contínua em aparelho Soxhlet, am-
bos segundo AOAC (Association of
Analytical Communities).17
As variáveis são apresentadas como média O conteúdo lipídico hepático, expresso em mg
mais ou menos o desvio padrão. As comparações en- de lipídios/100 mg de fígado, está representado na Fi-
tre os grupos foram feitas com base nas análises es- gura 2. Observa-se que no grupo hipoprotéico foi mais
tatísticas obtidas pelo teste T não pareado com corre- elevado quando comparado com o grupo controle
ção de Welch e foram consideradas as diferenças com (41,08 + 11,54 mg/100 mg e 28,92 + 11,21 mg/100 mg,
p < 0,05. respectivamente).
A Tabela 3 traz os valores das variáveis bioquí-
Resultados micas. Em relação a concentração do colesterol sérico,
nota-se que as concentrações são menores nos ani-
Quanto à evolução ponderal dos animais, a mais que receberam dieta hipoprotéica quando com-
média de peso ao final do período experimental de paradas à do grupo controle (91,29 + 12,18 mg/dL e
28 dias do grupo que recebeu dieta hipoprotéica foi 116,12 + 19,96 mg/dL, respectivamente).

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http://www.fmrp.usp.br/revista induzida por dieta hipoprotéica em ratos

essencial para a formação dos tecidos e


manutenção das funções normais. Em um
clássico estudo publicado em 1977, Heard
et al. (1977)18 avaliaram em ratos jovens
os efeitos de dieta pobre em proteínas. O
trabalho encontrou baixa concentração de
hemoglobina e proteínas séricas, acúmulo
de gordura no fígado, além de valores di-
minuídos de glicose-6-fosfatase e alanina
aminotransferase no músculo e fígado; a
quantidade de insulina plasmática estava
Figura 2: Porcentagem de gordura hepática. diminuída nesses animais, entretanto não
* significa p<0,05. houve alteração da glicemia. No presente
estudo, a glicemia também não foi diferen-
te entre os grupos.
Tabela 3 A gordura hepática foi significativamente mai-
Variáveis bioquímicas avaliadas or no grupo que recebeu dieta hipoprotéica. Esse acú-
Grupos mulo de gordura pode ser explicado pela lipólise pre-
Controle Hipoprotéico judicada e produção reduzida de lipoproteína
carreadora. Em um estudo com dieta hipoprotéica
Colesterol sérico comparada a dietas suplementadas em metionina e
(mg/dL) 116,10 ± 20,00* 91,30 ± 12,20 *
cisteína o acúmulo de gordura hepática não demons-
Glicemia (mg/dL) 95,50 ± 20,00 84,60 ± 31,20 trou estar ligado a esses aminoácidos e sim a um con-
Proteína sérica trole endócrino, gerando maior produção hepática de
(g/dL) 4,97 ± 0,38 * 4,27 ± 0,04 * gorduras e menor utilização destas com consequente
acúmulo hepático15.
Nitrogênio urinário
(mg/dL) 889,40 ±489,90 548,70 ±345,40
A dosagem de proteína sérica (PS) esteve
diminuida no grupo hipoprotéico. Ferreira et al. (2007)19
*p< 0,05 encontraram menores quantidades de albumina e pro-
teínas totais no plasma de ratos com dieta hipoprotéica.
A menor concentração de PS reflete a adaptação or-
Em relação à proteína sérica (Tabela 3) o gru- gânica dos animais a restrição dietética.
po controle obteve valor significativamente maior A dieta hipoprotéica administrada apresentou
(p<0.0064) do que os ratos do grupo hipoprotéico como resultados diferenças na porcentagem de gor-
(4,97+0,38 g/dL e 4,27+0,04 g/dL, respectivamente). dura hepática, proteínas séricas e colesterol quando
Não houve diferença significativa entre o gru- comparadas com o grupo controle.
po controle e o grupo hipoprotéico quanto aos valores Isso ocorre, pois as proteínas constituem lipo-
de glicemia (95,47 + 20,03 mg/dl e 84,63 + 31,17 mg/ proteínas, responsáveis pelo transporte de ácidos
dl, respectivamente) e nitrogênio urinário (889,35 + graxos no sangue e a retirada destes do fígado. Dessa
489,89 mg/dl e 548,86 + 345,43 mg/dl, respectivamen- forma, o principal indício causador de EHNA nos ani-
te), como pode ser visualizado na Tabela 3. mais estudados foi à diminuição de proteínas carrea-
doras e consequente acúmulo de triglicérides e coles-
Discussão terol em hepatócitos.
As proteínas séricas podem refletir o nível de
Todos os animais encontravam-se em fase de adequação de ingestão protéica. Assim, a baixa con-
crescimento, dessa forma era esperado um ganho de centração dessas proteínas no grupo experimental
peso o qual ficou evidenciado neste estudo. No entan- confirma os resultados já esperados.
to, os animais do grupo que recebeu dieta hipoprotéica A diminuição da ingestão protéica foi acompa-
tiveram um ganho de peso menor do que os que rece- nhada por uma menor excreção de nitrogênio uriná-
beram dieta controle, devido ao baixo aporte protéico rio, mas sem diferenças estatísticas entre os grupos.

51
Castro GSF et al. Esteatose hepática Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 48-53.
induzida por dieta hipoprotéica em ratos http://www.fmrp.usp.br/revista

Em seu estudo com dietas baixas em proteína e suple- Contudo, a indução de esteatose hepática não
mentação de ácidos graxos poliinsaturados, Andreoli alcoólica por dieta deficiente em proteína acarreta com-
et al. (2007)1 verificaram que o nitrogênio urinário não plicações indesejadas como menor consumo de dieta,
se modificou. Os animais apresentaram mudanças menor crescimento dos animais e diminuição das pro-
adaptativas gerando um aumento na proporção do teínas séricas, fatores não concordantes com os mo-
aproveitamento de nitrogênio para ressíntese de pro- delos clássicos para o estudo dessa doença. Também
teínas e também diminuição do catabolismo de amino- outro fator limitante é a não alteração da glicemia e
ácidos, diminuindo assim a excreção urinária de nitro- aparente manutenção da sensibilidade a insulina, im-
gênio. possibilitando o estudo de um dos maiores fatores de
risco para o desenvolvimento da EHNA, que é a ele-
Conclusão vada insulinemia.
A dieta hipoprotéica constitui um modelo clássi-
Este trabalho caracterizou um modelo experi- co de desnutrição e a indução de EHNA através dela
mental de esteatose hepática utilizado em diversos não deve ser comparada a outros modelos que apresen-
estudos. As diferenças na PS, colesterol e gordura tam quantidades excessivas de macronutrientes, como
hepática permitiram constatar a presença de EHNA. as hiperlipídicas e ricas em carboidratos simples.

ABSTRACT
Model of study: Experimental study. Objectives: this study had as objective evaluate and characterize a
low protein diet as an experimental model for nonalcoholic fatty liver disease (NAFLD). Methods: male
Wistar rats were divided in two groups with isocaloric diets: control (GC) in which the used diet followed
praised for the AIN-93 and the low protein (GH), with reduced amount of protein of 20% for 10%. The diets
and water had been offered ad libitum over four weeks. After this period the animals were sacrificed and
analyzed: glycemia; urinary nitrogen; serum protein; liver total lipids; cholesterol; weight variation and
food consumed. Results: the glycemia and the urinary nitrogen had not presented significant differences
between GC and GH (p>0,05), The change of weight in the last day of the experiment was significant
(p<0,02). The percentage of total liver lipids was higher in the GH, when compared with the GC (p<0,04).
There was lower levels of cholesterol (p<0,01) and serum protein (0,005) in GH. The food consumed
was not different between the groups. Conclusions: in this paper the low protein diet constitutes a model
of NAFLD induction that can be characterized for serum protein and plasmatic cholesterol and increased
fat in the liver, however not alterations in the glycemia suggest no changes in insulin sensitivity, thus
constituting a defective model to study one of the main factors of risk for the establishment of the NAFLD,
the resistance to insulin.

Keywords: Fatty Liver, Disease. Diet, Protein-Restricted. Rats.

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53
ARTIGO ORIGINAL

Atividades físicas e de lazer e


seu impacto sobr
sobree a co gnição
cognição
no en
envvelhecimento
Physical and leisure activities and it’s impact on cognition in aging

Patricia L. dos Santos¹, Priscila M. Foroni², Maria Cláudia F. Chaves³

RESUMO
Modelo do estudo: estudo de prevalência. Objetivos do estudo: Este estudo teve como objetivo investi-
gar a prevalência de atividades físicas e de lazer entre um grupo de idosos com idade entre 70 e 75
anos. Além disso, foi investigado se a inserção nessas atividades pode exercer influência sobre a
cognição. Metodologia: Participaram do estudo 45 idosos de ambos os sexos, com idade entre 70 e 75
anos, cadastrados em um Núcleo de Saúde da Família (NSF) na cidade de Ribeirão Preto (SP), sem
doenças neurológicas (previamente diagnosticadas), não acamados e não asilados. Foram utilizados
um questionário para levantamento de dados sociodemográficos e de saúde, hábitos de vida e rotina
do idoso, formulado com questões de caracterização dos sujeitos, incluindo informações sobre a
realização e características das atividades de lazer e físicas, e o Mini-Exame do Estado Mental – MEEM.
Resultados: No grupo estudado, 52,3% referiram praticar atividade física, principalmente caminhada,
sendo maior a participação entre os homens (69,2%) do que entre as mulheres (43,7%). Quanto às
atividades de lazer, 80% relatou participar de alguma atividade (81,2% das mulheres e 76,9% dos
homens), sendo que a maioria (66,6%) apontou como lazer o hábito de freqüentar igreja. Os idosos que
praticavam atividades de lazer obtiveram escores no MEEM significativamente superiores àqueles que
não praticavam, verificado pelo teste t (p<0,05). Não houve diferença significativa (p>0,05) de desempe-
nho no MEEM quando comparados os indivíduos que praticavam atividade física e aqueles que não
praticavam. Conclusões: O estímulo às atividades de lazer deve também ser considerado quando se
pensam em atividades de promoção à saúde, especialmente no que tange a aumentar as possibilida-
des de um envelhecimento físico e cognitivo saudável.

Palavras-chave: Envelhecimento. Atividades de Lazer. Atividade Física. Cognição.

Introdução dades e restrições desta população tendem a se ca-


racterizar por condições crônicas e degenerativas,
O Brasil tem evidenciado, nas últimas décadas, exigindo tratamento constante, longos períodos de hos-
um aumento significativo no número de pessoas ido- pitalização e de reabilitação¹.
sas, o que acarreta, no âmbito dos serviços de saúde, O envelhecimento biológico tende a diminuir a
problemas de longa duração, uma vez que as enfermi- resistência orgânica das pessoas, expondo-lhes mais

1. Docente, Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Correspondência:


Médica. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP Profa. Dra. Patricia Leila dos Santos
2. Fonoaudióloga, Aluna do Curso de Aperfeiçoamento em Disfa- Rua Tenente Catão Roxo, 2650. Vila Monte Alegre
gia Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina 14051-140, Ribeirão Preto – SP
de Ribeirão Preto - USP.
3. Aluna de Graduação. Departamento de Biomecânica, Medicina Artigo recebido em 16/08/2008
e Reabilitação do Aparelho Locomotor. Faculdade de Medicina Aprovado para publicação em 28/01/2009
de Ribeirão Preto - USP

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 54-60


Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 54-60 Santos PL, Foroni PM, Chaves MCF. Atividades físicas e
http://www.fmrp.usp.br/revista de lazer e seu impacto sobre a cognição no envelhecimento

às doenças, aumenta suas limitações físicas e restrin- estudos que abordem a relação entre estas duas áre-
ge sua capacidade motora, podendo contribuir para as, uma vez que a produção científica a respeito do
um declínio da capacidade funcional2,3. assunto ainda é escassa12.
Além do declínio físico, o processo de envelhe- É importante destacar que incentivar e propor-
cimento pode ser acompanhado pelo declínio das ca- cionar atividades de recreação e lazer constitui-se em
pacidades cognitivas dos idosos, dependendo de seus estratégia efetiva para a redução do isolamento, da
hábitos de vida4,5,6,7. melhoria da inserção do idoso no meio social e do de-
O envelhecimento mental não parece ligado senvolvimento de novas habilidades, o que pode refle-
apenas à idade, mas antes a uma redução da percep- tir diretamente na melhoria da auto-estima e da condi-
ção de si. Ao avançar dos anos, o indivíduo pode man- ção de saúde7.
ter a saúde mental, se conservar a auto-estima8. Os exercícios físicos de moderada intensidade
O ser humano adota comportamentos que lhe trazem benefícios, tais como, redução da morbidade e
permitem manter-se como membro ativo na socie- mortalidade por doença coronariana, controle da pres-
dade. No caso dos idosos, o isolamento, a miséria, a são arterial, da glicemia e do colesterol e melhora do
inatividade e a desvalorização podem ser fatores de peso. A ausência de atividades físicas está também
estresse importantes que comprometem o equilíbrio associada com diversos problemas músculo-esquelé-
físico e psíquico, por vezes frágil, destes indivíduos. O ticos, que podem afetar negativamente as atividades
envelhecimento não é conseqüência apenas da de- funcionais do idoso6.
generescência biológica, mas resulta, em parte, de O exercício físico também pode auxiliar na
condições políticas, econômicas, históricas e cultu- manutenção de níveis mais elevados de desempe-
rais da sociedade. E as pessoas idosas bem integra- nho cognitivo entre os idosos. Aqueles que possuem
das são capazes de adotar uma atitude psicossocial incapacitações que os impossibilitam ao exercício re-
positiva8. gular, apresentam maior propensão a evidenciar
A fase tardia da vida adulta constitui um perío- declínio mais precoce ou mais rápido, em várias fun-
do em que desaparecem muitos papéis grandes ou pe- ções mentais9.
quenos. Os que permanecem possuem menos con- Para um envelhecimento bem sucedido é fun-
teúdo e deveres. Alguns estudiosos encaram tal perda damental ter qualidade de vida e bem-estar. Santos et
como um risco de isolamento ou alienação, outros acre- al. 13 em um estudo sobre satisfação dos idosos em
ditam que isso pode proporcionar maior licença para a relação à sua qualidade de vida, observaram que a
individualidade e a escolha9. Assim, observa-se que variável socialização (“fazer amigos”) apresentou
está sendo abandonada a conotação negativa do con- maior índice de satisfação. Essa variável refletia as
ceito de velhice e passa-se a conceber essa fase da atividades comunitárias (tarefas sociais e religiosas),
vida como possibilidade de realização pessoal, maturi- que facilitavam a interação com novos amigos.
dade e sabedoria10. De acordo com Jordão Netto2, é fácil constatar
Na terceira idade o indivíduo, na maioria das que idosos sociáveis, participantes, ativos ou que não
vezes, deixa seu trabalho remunerado, mas não deixa enfrentam barreiras de preconceitos ou estereótipos,
de “fazer”. Essa necessidade continua, pois é cons- tendem a ser mais saudáveis que aqueles que, por von-
tante, dinâmica e evolutiva. Para alguns, o envelheci- tade própria ou circunstâncias familiares e/ou cultu-
mento pode ser um período vazio, sem valor, inútil; já rais são arredios, solitários, discriminados ou desinte-
para outros, pode ser um tempo de liberdade, de des- ressados.
ligamento de compromissos profissionais, de fazer Estudos também revelam o papel protetor da
aquilo que não se teve tempo de fazer, de aproveitar a participação em atividades de lazer, incluindo o exer-
vida11. A aposentadoria está deixando de ser um mo- cício físico, o exercício mental e a manutenção das
mento de descanso e recolhimento para tornar-se um relações sociais, sobre as funções cognitivas no enve-
período de realização de atividades de lazer. Neste lhecimento5,10,14-20 .
contexto, o lazer aparece como possibilidade de evitar Deve-se considerar que a adequação do apoio
o envelhecimento e manter uma vida ativa12. social afeta as funções físicas e cognitivas na velhice,
O lazer e o envelhecimento são assuntos de in- da mesma forma que o faz em momentos anteriores
teresse, que vem ganhando espaço no campo da in- do ciclo de vida9.
vestigação científica. Mas há a necessidade de mais Apesar dos benefícios das atividades físicas e

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Santos PL, Foroni PM, Chaves MCF. Atividades físicas e Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 54-60
de lazer e seu impacto sobre a cognição no envelhecimento http://www.fmrp.usp.br/revista

de lazer, a inserção dos idosos nessas atividades é re- (DP=1,79), sendo 32 (71,2%) do sexo feminino e 13
duzida. Feliciano, Moraes e Freitas7 encontraram que (28,8%) do sexo masculino.
somente 17% dos idosos acima de 60 anos, pratica-
vam alguma atividade física. Germano Netto21 evi- Instrumentos
denciou a baixa freqüência de participação em clubes Foram utilizados um questionário para levanta-
e entidades de recreação e lazer, tanto entre os ho- mento de dados sociodemográficos e de saúde, hábi-
mens como entre as mulheres. tos de vida e rotina do idoso, formulado com questões
Dentre as barreiras que impossibilitam a con- de caracterização dos sujeitos, incluindo informações
cretização do ideal de lazer, pode-se citar: saúde defi- sobre a realização e características das atividades de
citária, fator econômico, estereótipos, tempo disponí- lazer e físicas, e o Mini-Exame do Estado Mental –
vel, instalações inadequadas e falta de transporte12. MEEM, versão em português validada para a popula-
Apesar dos esforços dos estudiosos em demons- ção brasileira22.
trar as possibilidades de desenvolvimento e as poten-
cialidades das pessoas idosas, alguns estereótipos per- Procedimento
sistem e outros surgem no cenário contemporâneo. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de
As condições econômicas constituem outro entrave Ética em Pesquisa do Centro de Saúde Escola da Fa-
para o lazer, devido à queda na renda a partir do mo- culdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universi-
mento em que se aposentam. Alguns idosos também dade de São Paulo. Os participantes consentiram com
têm o tempo livre limitado para o lazer, pois se encon- a realização da pesquisa e a divulgação dos resulta-
tram envolvidos com uma série de obrigações familia- dos, assinando o Termo de Consentimento Livre e
res e com trabalhos informais para complementação Esclarecido, conforme a Resolução 196/96 do Conse-
da renda12. lho Nacional de Saúde.
Há a necessidade de uma educação para o lazer O preenchimento do questionário e a aplicação
contínua, que vise à participação social, a diminuição do MEEM foram realizados no NSF ou na casa do
dos obstáculos, a inclusão de todos os grupos de ido- idoso, conforme a preferência do mesmo, sendo que o
sos, desenvolvendo um sentido de cidadania na socie- encontro teve uma duração média de 30 minutos.
dade. Assim, o acesso a serviços de apoio ao idoso,
Análise dos dados
transporte, grupos de convivência e grupos de orien-
tação aos familiares são algumas alternativas para Os dados coletados foram organizados em
minimizar as dificuldades10,12. planilhas e submetidos à análise estatística descritiva
Tendo em vista a importância do tema, este e análise de correlação entre variáveis, realizadas a
estudo teve como objetivo investigar a prevalência de partir do Excel e do SPSS 10.0.
atividades físicas e de lazer entre um grupo de idosos
com idade entre 70 e 75 anos. Além disso, foi investi- Resultados
gado se a inserção nessas atividades pode exercer
influência sobre a cognição. Os idosos participantes eram em sua maioria
(54,5%) idosos viúvos; 82,2% residiam com familia-
res e eram predominantemente católicos (75%). Me-
Metodologia tade da amostra recebia entre 200 e 600 reais por
mês, sendo que a maioria do grupo de idosos era apo-
Participantes sentada (59%).
Participaram do estudo 45 idosos de ambos os Quanto à distribuição dos participantes em fun-
sexos, com idades entre 70 e 75 anos, cadastrados ção da escolaridade, a maior parte dos idosos (63,6%)
em um Núcleo de Saúde da Família (NSF) na cidade tinha ensino fundamental incompleto e, nenhum deles
de Ribeirão Preto (SP), sem doenças neurológicas tinha ensino superior.
(previamente diagnosticadas), não acamados e não asi- No que se refere à saúde física, 86,6% dos ido-
lados. sos relataram apresentar alguma dificuldade, sendo
A amostra representa 37,8% dos usuários que 88,8% afirmaram fazer uso regular de medica-
cadastrados da faixa etária estudada, e ficou com- ção. Na Tabela 1 pode ser observada a distribuição
posta por idosos com idade média de 72,2 anos dos problemas de saúde apontados.

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Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 54-60 Santos PL, Foroni PM, Chaves MCF. Atividades físicas e
http://www.fmrp.usp.br/revista de lazer e seu impacto sobre a cognição no envelhecimento

Tabela 1 mais freqüente entre as mulheres (43,7%) do que en-


Distribuição da freqüência e porcentagem de proble- tre os homens (38,4%). As mulheres também relata-
mas de saúde relatados pela amostra (n=45). ram maior participação em grupos (20%), sendo que
nenhum participante do sexo masculino referiu per-
Problemas de saúde n % tencer a grupos. Em contrapartida, a participação em
Hipertensão arterial 28 62,2 jogos (38,4%) e festas (38,4%) foi maior entre os ho-
mens do que entre as mulheres (6,2 % em jogos e
Dificuldade para andar 15 33,3 28,1% em festas).
Doenças osteoarticulares 15 33,3
O hábito de atividades que envolvem leitura e
escrita foi praticamente equivalente entre os sexos,
Problemas genito-urinários* 12 26,6 com discreta predominância entre os homens (38,4%
contra 34,3% entre as mulheres).
Diabetes Mellitus 8 17,7
A participação em atividades de lazer foi mais
Problemas vasculares 7 15,5 elevada entre os viúvos (87,5%) do que entre os ca-
sados (65%). Entretanto, os viúvos foram aqueles
Problemas intestinais 6 13,3
com menor percentual de atividades físicas (41,6%),
Problemas cardíacos 6 13,3 enquanto os casados apresentaram um percentual
de 60%.
Enfisema pulmonar 1 2,2 Foi praticamente equivalente o percentual de
*Incluindo incontinência urinária (8,8%) idosos que relataram presença e ausência de proble-
mas de saúde entre aqueles que participavam de ati-
vidades físicas (51,2% e 50%, respectivamente). En-
Quanto aos hábitos de vida, 64,4% dos idosos tretanto, observou-se que a participação de idosos hi-
nunca fumaram, 26,8% já haviam fumado e não o fa- pertensos em atividades físicas foi maior que de não
ziam mais e, 8,8% ainda fumavam; 51,1% nunca be- hipertensos (53,5% contra 46,5%).
beram, 11,1% beberam no passado e 37,8% ainda be- Observou-se, ainda, menor participação em ati-
biam regularmente. vidades físicas por idosos que moram sozinhos com-
Vale destacar que 31,1% da amostra informou parado àqueles que moram com outras pessoas (37,5%
ter dificuldade para dormir, especialmente as mulhe- contra 54%).
res (a diferença entre homens e mulheres quanto à A referência a problemas com a memória foi
dificuldade de dormir foi significativa, p=0,004). elevada (71,1%), sendo que os percentuais foram mais
No grupo estudado, 52,3% referiram praticar altos entre as mulheres (81,2%) do que entre os ho-
atividade física, principalmente caminhada, sendo mens (53,8%).
maior a participação entre os ho-
mens (69,2%) do que entre as mu- Tabela 2
lheres (43,7%). Importante mencio- Distribuição de freqüência e porcentagem das atividades de lazer rea-
nar que muitos indicaram que a ca- lizadas pela amostra (n=45).
minhada faz parte de sua rotina diá- Atividades de lazer n %
ria.
Quanto às atividades de lazer, Freqüentar a igreja 30 66,6
80% relatou participar de alguma ati- Passear (visitar amigos, familiares) 19 42,2
vidade (81,2% das mulheres e 76,9%
dos homens), sendo que a maioria Realizar trabalhos manuais (costura, tricô, pintura) 18 40,0
(66,6%) apontou como lazer o hábi- Atividades de leitura e escrita (livros, palavras-cruzadas) 16 35,5
to de freqüentar igreja. Pode-se ob-
servar na Tabela 2, a distribuição das Freqüentar festas 14 31,1
atividades de lazer apontadas. Participar de grupos 9 20,0
Verificou-se que o hábito de
passear (como visita a familiares e Participar de jogos (cartas, damas, xadrez) 8 17,7
amigos) apresentou distribuição di- Freqüentar clubes 4 8,8
ferenciada segundo o sexo, sendo

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Santos PL, Foroni PM, Chaves MCF. Atividades físicas e Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 54-60
de lazer e seu impacto sobre a cognição no envelhecimento http://www.fmrp.usp.br/revista

O escore médio obtido pela amostra no MEEM estudados foi o hábito de freqüentar a igreja, como
foi de 24,09 pontos (DP=3,67). Os idosos que pratica- também verificado no estudo de Anderson et al.4 e
vam atividades de lazer obtiveram escores no MEEM Germano Netto21. Neste último, destacou-se a parti-
significativamente superiores àqueles que não prati- cipação das mulheres idosas mais jovens.
cavam, verificado pelo teste t (p<0,05). Não houve Ainda com relação às reuniões sociais, um bai-
diferença significativa (p>0,05) de desempenho no xo número de idosos relatou participar de grupos, clu-
MEEM quando comparados os indivíduos que prati- bes e jogos. As atividades sistemáticas que incluem
cavam atividade física e aqueles que não praticavam. reuniões de grupos são importantes para os idosos,
por trazer benefícios, como a socialização, o estímulo
Discussão à criatividade e a melhora da auto-estima29.
Notou-se uma menor participação do sexo fe-
A prática de atividades físicas consiste em um minino nas atividades físicas, o que de acordo com
hábito de vida saudável em qualquer faixa etária. Na Almeida et al.25 pode ser conseqüência de uma cultu-
terceira idade, esse hábito promove a manutenção de ra que restringe a liberdade da mulher ao trabalho e ao
uma boa saúde física e mental. Nesse estudo, mais da lazer e a ausência de políticas sociais direcionadas a
metade dos idosos informaram realizar atividades de elas, cabendo-lhes, quase sempre, as atividades do-
lazer regularmente, em concordância com outros es- mésticas. O estudo de Gomes, Siqueira e Sichieri30
tudos, em que a prevalência de idosos inseridos em revelou que a realização de atividade física regular ou
tais atividades ultrapassou os 50%4,10,23,24. Em con- esporte foi referida por apenas 9,1 % das mulheres,
trapartida, no estudo de Almeida et al.25 apenas 43,3% contra 18,4% dos homens. De acordo com Matsudo,
dos idosos referiram praticar atividades de lazer. Com- Matsudo e Neto28, as mulheres reportam mais barrei-
plementarmente, o estudo de Zaitune et al.26 revelou ras para a prática do que os homens, tais como falta
uma prevalência de 70% de idosos sedentários. de companhia, falta de interesse, fadiga, problemas de
O envelhecimento, quando vivenciado de for- saúde, artrite e medo de quedas. Desta forma, a pro-
ma positiva, envolve a prática de atividades físicas e moção da atividade física na terceira idade deve levar
de lazer, o que melhora a qualidade de vida. Assim, em consideração as principais barreiras citadas, no
sugere-se que a população estudada, de uma forma momento de estabelecer políticas de saúde pública.
geral, pode estar apresentando uma vivência positiva Além da atividade física, os homens também
em relação a sua velhice, com hábitos saudáveis que costumam participar de festas e jogos com maior fre-
colaboram para uma boa saúde. qüência, quando comparados às mulheres, enquanto
De acordo com o estudo de Júnior e Guerra27, estas costumam passear (visitar familiares, amigos) e
a ausência de práticas de atividades físicas de lazer é participar de grupos com maior freqüência. As idosas
um fator determinante para as limitações funcionais ainda, possuem maior interesse por atividades manu-
das mulheres idosas de baixa renda. Desta forma, a ais (artesanato, costura, pintura). Esses achados con-
prática de atividade física poderia atuar como um im- cordam com outros estudos10,21,25.
portante fator preditor da condição funcional dessas Quanto à situação conjugal, os casados apre-
mulheres. sentaram maior acesso as atividades físicas, o que pode
As caminhadas são as atividades físicas que ocorrer devido a uma maior motivação, apoio e segu-
melhor se adaptam aos idosos. A preferência pela rança de quem tem um companheiro(a), levando o ido-
prática da caminhada evidenciada nesse estudo, pode so a se sentir mais disposto para tais atividades25.
ser explicada por representar uma atividade física Verificou-se no estudo, a maior participação
natural e de baixo impacto, sem custo, realizada em dos hipertensos em atividades físicas, do que os ido-
qualquer local e freqüentemente recomendada por sos não hipertensos. Acredita-se que o conhecimento
médicos, além de contribuir para aumentar o contato da condição de hipertenso possa estar refletindo na
social25,28,29. Um estudo26 investigando a prática de tentativa de melhorar a condição de saúde, através da
atividades de lazer entre um grupo de idosos, revelou adesão a exercícios físicos, bem como ao tratamento
que a prevalência de caminhada foi de 23,5%, segui- e à dieta31.
da por ginástica ou musculação (3,8%) e por natação Os resultados revelaram que os idosos avalia-
ou hidroginástica (3,6%). dos apresentaram capacidade cognitiva preservada –
Outra atividade muito comum entre os idosos média no MEEM de 24 pontos - , quando comparados

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http://www.fmrp.usp.br/revista de lazer e seu impacto sobre a cognição no envelhecimento

com outros estudos que evidenciaram resultados no lazer, de forma que a noção de lazer estava relaciona-
MEEM entre 19 e 21 pontos32,33. da a atividades que requerem dispêndio de dinheiro
Observou-se no estudo, que os idosos que para sua realização e não, em ser uma atividade pra-
praticavam atividades de lazer apresentaram escores zerosa, que não necessariamente exige o gasto finan-
superiores àqueles que não praticavam, o que corro- ceiro. Muitas vezes, também interiorizam a concep-
bora achados da literatura. O estudo de Argimon e ção de que as atividades socioculturais e físicas não
Stein10, com idosos entre 80 e 95 anos, mostrou uma lhes pertencem, bem como se sentem rejeitados pela
correlação positiva entre o número de atividades de sociedade, que reforça esta situação25.
lazer e o desempenho cognitivo, sugerindo que as di- Doimo, Derntl e Lago35 sugeriram que o fato
ferentes atividades de lazer e as atividades físicas pa- do lazer ativo não ocupar maior proporção do tempo
recem atuar como fatores de proteção ao declínio livre dos idosos pode ser atribuído a aspectos indi-
cognitivo. Verghese et al.20 apontaram que a partici- viduais, culturais e falta de oportunidades adequadas
pação em atividade cognitiva é associada a um risco de interação e aprimoramento pessoal oferecidas pela
mais baixo de desenvolver declínio cognitivo leve. Em própria comunidade. Porém, para algumas pessoas,
direção semelhante, Wang et al.15 verificaram que a muitas vezes o que se considera trabalho pode ser
participação diária ou semanal dos idosos em ativida- interpretado como lazer ativo, pois estas encontram
des mentais e atividades produtivas esteve associada em tais atividades um desafio significativo que exige
a um risco mais baixo de desenvolver demência. empenho e habilidade e, portanto, encontram prazer
O estudo de Benedetti et al.34 verificou uma em executá-las.
associação estatisticamente significativa e inversa de
demência e depressão com atividade física total e ati- Conclusão
vidade física no lazer. Os autores reforçam a impor-
tância de estilo de vida ativo para prevenção de pro- Nos dias atuais, muito se tem falado sobre a
blemas de saúde mental de idosos, inferindo que a ati- importância do incentivo e prática de atividades físi-
vidade física tem conseguido reduzir e/ou atrasar os cas para a manutenção da saúde, mas nem sempre a
riscos de demência, embora não se possa afirmar que ênfase dada às atividades de lazer é a mesma.
a atividade física evita a demência. Os resultados deste trabalho sugerem que esta
Percebe-se um desconhecimento por parte questão precisa ser revista e que o estímulo às ativi-
da população idosa sobre a prática de atividades de dades de lazer deve também ser considerado quando
lazer e seus benefícios. No estudo de Pacheco e San- se pensam em atividades de promoção à saúde, espe-
tos29, os idosos pesquisados não consideravam que cialmente no que tange a aumentar as possibilidades
assistir à televisão e ouvir música eram atividades de de um envelhecimento físico e cognitivo saudável.

ABSTRACT
Paper design: prevalence study. Objective: The goal of this study was to investigate the prevalence of
physical and leisure activities among a gruop of elderly with age of 70 to 75. Furthermore, it was
investigated if those activities would have an influence in cognition. Methods: Participated in this study 45
elderly of both gender in the age of 70 to 75. They were non bedridden, non living in an asylum, had no
neurolical diseases ( pre diagnosticated) and were cadastrated in a Núcleo de Saúde da Família (NSF)
in the city of Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil. Two questionnaire were used: one to gatter data of social
and economic state, health, life habits and the elderly routine, formulated with questions to qualify the
subjects including informations about leisure and physical activities ; and the other one was the Mini
Exame of Mental Health. Results: In this studied group 52,3% reported the habit to praticate physical
activities, especialy walk, and men refered doing it more (69,2%) then women (43,7%). About the leisure
activities 80% reported doing it (81,2% of the women and 76,9% of the men). The most refered tipe was
going to church (66,6%). The elderly who practiced leisure activities had a significative higher score,
verified by the t test, on the Mini Exame then those who didn’t. Conclusions: The incentive to leisure
activities should be considered when one thinks about health promotion, specialy when there is a
possibility to upgrade the chances of a healthy physical and cognition aging.

Keywords: Aging. Leisure Activities. Physical Activity. Cognition.

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Santos PL, Foroni PM, Chaves MCF. Atividades físicas e Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 54-60
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60
RELATO DE CASO

Acidente botrópico ffa


atal
Death caused by bothrops poisoning

Paula M. Luciano1, Gyl Eanes Barros Silva2, Marisa M. de Azevedo-Marques3

RESUMO
Os acidentes ofídicos causados pelo gênero Bothrops ocasionam manifestações locais secundárias à
ação inflamatória aguda do veneno. A ocorrência de óbito (em torno de 0,6% do total de casos atendidos
anualmente no Brasil) é rara, mas certamente, traumática. O relato deste caso visa chamar a atenção
para possíveis complicações locais e sistêmicas (insuficiência renal e sepsis) neste tipo de envenena-
mento e enfatizar as medidas terapêuticas e de suporte que devem ser realizadas em tempo hábil.

Palavras-Chave: Mordeduras de Cobra. Bothrops. Envenenamento. Síndromes de Compartimento.


Fasciotomia.

Introdução Atividade Inflamatória Aguda


Tem importância fundamental na caracteriza-
No Brasil, os acidentes ofídicos são causados ção clínica do acidente, sendo causada por frações
por serpentes dos gêneros: Bothrops (jararaca), bioquimicamente heterogêneas. Determina atividade
Lachesis (surucucu), Crotalus (cascavél) e Micrurus inflamatória aguda e causa alterações no local e nas
(coral)1. Há predomínio dos acidentes causados pelo proximidades da picada. É importante destacar a dor
gênero Bothrops (correspondem a 85% das notifica- e o edema local ou regional e a possível evolução com
ções encaminhadas ao Ministério da Saúde). Ocor- a formação de bolhas e necrose de partes moles.
rem mais no sexo masculino, em trabalhadores rurais,
Atividade Coagulante
na faixa etária de 15 a 49 anos e nos membros infe-
É a fração do veneno tipo trombina, capaz de
riores 1. Os envenenamentos acontecem periodica-
ativar os fatores da coagulação sanguínea. Leva ao
mente, com picos de incidência no começo e no final
consumo de fibrinogênio e formação de fibrina
do ano. São notificados em torno de 20.000 acidentes
intravascular. Além dessa ação, também existem ou-
e mais de 100 mortes por ano em todo país2. A morta-
tras substâncias capazes de ativar a protrombina e o
lidade relaciona-se com o gênero de serpente respon-
fator X, atuando também sobre a agregação e
sável pelo acidente e ocorre principalmente nos aci-
aglutinação plaquetárias. Pode tornar o sangue incoa-
dentes causados pelo gênero crotalus (60,5%), geral-
gulável.
mente quando há demora no atendimento inicial (mais
que 6 horas). Atividade Hemorrágica
O quadro clínico e os dados de exames com- Deve-se principalmente às hemorraginas do
plementares dos acidentados devem-se às três princi- veneno. Rompendo a integridade do endotélio vascu-
pais atividades do veneno botrópico3: lar podem levar a sangramentos em diversos locais.

1. Pós-graduanda do Departamento de Clínica Médica. Correspondência:


Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Unidade de Emergência - HCRP-USP
2. Pós-graduando do Departamento de Patologia. Faculdade de Rua Bernardino de Campos, 1000.
Medicina de Ribeirão Preto - USP. 14015-030, Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil
3. Docente. Divisão de Emergência, Departamento de Clínica
Médica. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Artigo recebido em 22/10/2008
Aprovado para publicação em 06/03/2009

Medicina (Ribeirão Preto) 2009;42(1): 61-5


Luciano PM, Silva GEB, Azevedo-Marques MM Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 61-5
Acidente botrópico fatal http://www.fmrp.usp.br/revista

O quadro clínico varia de acordo com a quanti- petéquias no 1/3 inferior da perna direita. A hipótese
dade de veneno inoculada. Ocorrem desde sangra- diagnóstica de acidente botrópico moderado foi pro-
mentos clinicamente evidentes, até alterações na co- posta, seguindo a classificação da gravidade dos aci-
agulação, detectáveis apenas com a realização de dentes botrópicos apresentada no Quadro 1.
exames complementares. As complicações locais mais O paciente foi previamente medicado por via
graves e temíveis são necroses extensas, síndrome endovenosa com ranitidina, maleato de dextroclorfe-
de compartimento e gangrena. São raras as compli- niramina e hidrocortisona com objetivo de diminuir
cações sistêmicas como hipotensão arterial e choque possíveis reações de hipersensibilidade do tipo imedi-
devido à liberação de bradicinina e/ou serotonina pe- ato, que podem ser ocasionadas pelos soros heterólo-
las enzimas do veneno. gos5. Recebeu 8 ampolas de soro anti-botrópico por
A insuficiência renal não é comum nos atendi- via endovenosa, 30 minutos após. Foi hidratado e uti-
mentos realizados nas primeiras 6 horas. Quando exis- lizados sintomáticos para alívio da dor. Colhidos exa-
te, é de origem multifatorial: vômitos frequentes e per- mes, cujos resultados foram: hemograma completo,
das para o terceiro espaço podem levar à desidra- com hemoglobina (Hb) de 16,4g/dl, hematócrito (Ht)
tação e a estado de choque. Há também a possibilida- de 49,0%, contagem de leucócitos de 26.000, com 6%
de de formação de microtrombos nos capilares renais de bastões, 90% de segmentados e 4% de linfócitos,
e de ação nefrotóxica do veneno3. plaquetas de 283.000; uréia de 36 mg% e creatinina
de 1,4 mg%; sódio de 142 mmol/l e potássio de 3,39
Relato do Caso mmol/l; tempos de protrombina (TP) e de tromboplas-
tina parcial ativada incoaguláveis; urina I com cilin-
Paciente do sexo masculino, 59 anos, branco, dros granulosos, proteína +++, heme pigmento +++ e
lavrador, encaminhado a Unidade de Emergência do 80 - 100 hemácias por campo.
HCFMRP-USP devido a "picada de cobra" na face Cerca de 2 horas após a admissão hospitalar,
anterior da perna direita há 2 horas e meia. Apresen- houve progressão rápida do edema em membro infe-
tava dor local intensa, náuseas e vômitos. Negava rior direito (MID), com acometimento de toda perna,
exteriorização de sangramentos. Negava afecções até a região da patela, acompanhado de cianose. De-
prévias e/ou uso de medicamentos. vido aos achados locais muito evidentes, foram apli-
Ao exame físico, encontrava-se em bom esta- cadas mais 4 ampolas de soro anti-botrópico e reclas-
do geral, eupnêico, corado, hidratado, afebril, anictérico sificou-se o acidente como grave. Neste momento foi
e acianótico. Apresentava pressão arterial (PA) de solicitada avaliação da clínica ortopédica, que contra-
140 x 70mmHg, frequência cardíaca (FC) de 108 ba- indicou de imediato, a realização de fasciotomia, ba-
timentos por minuto (bpm), frequência respiratória seando-se na aferição das pressões intra-comparti-
(FR) de 28 incursões respiratórias por minuto (irpm) e mentais do MID, que mostravam uma pressão intra-
temperatura axilar (Tax) de 36º Celsius (C). compartimental 20 mmHg menor que a pressão arte-
Destacavam-se no exame físico, os achados rial média que era de 120 mmHg. Após 8 horas da
locais da picada, com a presença de edema, calor e admissão, apresentou sinais de comprometimento

Quadro 1
Acidentes Botrópicos: classificação quanto à gravidade e soroterapia recomendada4:
Manifestações Leve Moderada Grave
Locais
(dor, edema, equimose) Ausentes ou discretas Evidentes Intensas

Sistêmicas
(hemorragia grave, choque e anúria) Ausentes Ausentes Presentes

Tempo de Coagulação (TC) Normal ou alterado Normal ou alterado Normal ou alterado

Soroterapia 2a4 4a8 12


(nº de ampolas) (endovenoso) (endovenoso) (endovenoso)

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Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 61-5 Luciano PM, Silva GEB, Azevedo-Marques MM
http://www.fmrp.usp.br/revista Acidente botrópico fatal

sistêmico, evoluindo com febre (Tax de 39,6ºC), ta- Nas hemoculturas (2 amostras) e na secreção
quicardia e piora importante das condições locais. da ferida cirúrgica houve crescimento de Morganella
Aproximadamente 18 horas da chegada ao hos- morganii sensível a aminoglicosídeos, sulfametoxazol-
pital, devido à piora importante do estado geral do pa- trimetropim, imipenem e ciprofloxacina, resistente a
ciente, foi realizada fasciotomia em MID, com a do- penicilinas e cefalosporinas.
cumentação de isquemia e necrose em compartimen- Não foi testado o cloranfenicol.
tos anterior e lateral da perna, com tecido subcutâneo
infiltrado e cianótico em região posterior da perna e Discussão
coxa. Apresentava odor compartimental fétido e no
joelho direito havia derrame de ++/4+. A UE do HCFMRP-USP é o hospital de refe-
Após a cirurgia, o paciente encontrava-se agi- rência ao atendimento das vítimas de acidentes ofídicos
tado, com dor intensa em MID, desidratado, descora- da Divisão Regional de Saúde do Estado de São Paulo
do, com má perfusão periférica e extremidades frias. XIII (DRS-XIII). O Centro de Controle de Intoxicações
A PA era de 100 x 50mmHg e a FC de 107 bpm. O (CCI) deste hospital, informa que, no período de janei-
MID apresentava perfusão lentificada (maior que 3 ro de 1995 a dezembro de 2007 foram hospitalizados
segundos). A diurese de 24 h foi de 1000ml
(0,5 ml/kg/hora), apesar da hidratação vi-
gorosa. Evoluiu com sinais de instabilida-
de hemodinâmica. Com hipótese
diagnóstica de sepsis devido a infecção
secundária no local da picada, foi iniciado
antibioticoterapia com cloranfenicol, após
serem colhidas duas amostras de hemo-
cultura.
Dentro de um período de 28 horas
de atendimento, o paciente foi submetido
a intubação orotraqueal e ventilação me-
cânica. Necessitou de suporte pressórico
com noradrenalina endovenosa contínua.
Devido maior comprometimento clínico, foi
realizada amputação suprapatelar do MID.
Havia extensa necrose muscular da per- Figura 1: Face lateral da perna esquerda amputada com evidência de necrose
na, principalmente no compartimento an- extensa (fasceíte necrotizante).
terior, gangrena na região lateral e medial
da coxa e odor fétido da ferida operatória.
Permaneceu com instabilidade he-
modinâmica no período de pós-operatório
imediato e evoluiu rapidamente para pa-
rada cardiorrespiratória em assistolia. Re-
alizadas manobras de ressuscitação car-
diorrespiratória sem sucesso.
A região amputada do MID foi en-
viada para exame anatomo patológico, que
evidenciou: rabdomionecrose e hemorra-
gia da panturrilha principalmente em sóleo,
necrose epidérmica associada a conges-
tão e edema da derme e subcutâneo e con-
gestão dos vasos proximais. Diagnóstico
de fasceíte necrotizante por acidente Figura 2: Achados microscópicos demonstrando hemorragia em musculatura da
panturrilha, principalmente em sóleo.
botrópico (Figuras 1 e 2).

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Luciano PM, Silva GEB, Azevedo-Marques MM Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 61-5
Acidente botrópico fatal http://www.fmrp.usp.br/revista

283 pacientes com idade acima de 18 anos, vítimas de tomia precoce, acompanhada de cuidados locais, des-
acidente botrópico, com ocorrência de dois óbitos. de que o estado da hemostasia do paciente permita.
Durante o atendimento emergencial ao pacien- Também deve ser realizada hidratação vigorosa e ini-
te foi cumprido o protocolo do CCI. Foi avaliada a ciar antibiótico visando atuar sobre germes mais co-
gravidade do acidente ofídico e indicada soroterapia mumente encontrados em abscessos formados após
pertinente. A infusão do soro anti-veneno transcorreu picadas por cobras do gênero bothrops. Os germes
sem intercorrências. O paciente permaneceu sob ob- mais encontrados são: morganella morganii,
servação clínica com rápida evolução dos achados lo- escherichia coli, providencia sp, streptococos do
cais no MID, devido principalmente à ação inflamató- grupo D, enterobacter e bacteróides9.
ria aguda do veneno. Sabe-se que esta ação depende O paciente evoluiu com quadro de sepsis gra-
da quantidade de veneno inoculado. A eficácia da ação ve, choque séptico refratário e óbito.
anti-veneno do soro pode ser parcialmente avaliada Os óbitos nos acidentes ofídicos podem estar
pela normalização dos exames de coagulação dentro relacionados a diversos fatores como: tamanho da
das primeiras 12 a 36 horas de atendimento. Como serpente, quantidade de veneno inoculado, qualidade
houve piora importante dos achados locais foram fei- do atendimento prestado e a fatores desconhecidos
tas mais 4 ampolas do soro anti-veneno. No entanto, próprios de cada vítima. A gravidade do acidente está
quanto mais graves forem as lesões locais causadas relacionada com maior chance de óbito. Com o intuito
pelo veneno, maior será a dificuldade para atuação do de melhor avaliar a gravidade dos acidentes botrópicos
soro nessas áreas e a permanência do sangue incoa- foi realizado trabalho no Hospital Vital Brazil do Insti-
gulável é que deve determinar a soroterapia adicional. tuto Butatan - SP10, buscando sua associação com o
A síndrome compartimental é uma complica- grau de venenemia. Neste trabalho, foram estudados
ção local temível nos acidentes botrópicos podendo 137 pacientes (picados por serpentes do gênero
levar a sofrimento tecidual importante e repercussões Bothrops), atendidos com menos de 48 horas da pica-
sistêmicas catastróficas. Deve-se à compressão de da, em um período de 2 anos. Foi constatada associa-
feixe vásculo-nervoso consequente ao grande edema ção entre a gravidade, a venenemia pré-soroterapia e
no membro acometido pela picada6. Quando presen- os níveis séricos de fibrinogênio. Através desse traba-
te, deve ser abordada precocemente levando-se em lho pode-se concluir que a determinação da venenemia
consideração principalmente os achados clínicos de no período pré-soroterapia contribui para o aprimora-
déficit perfusional, como: dor intensa, parestesia, di- mento da avaliação inicial dos pacientes picados por
minuição da temperatura do segmento distal, cianose serpentes do gênero Bothrops, podendo ser um
e déficit motor. A aferição das pressões intra-com- preditor de gravidade10. No entanto, não é um proce-
partimentais têm como regra geral o valor acima de dimento realizado de rotina, devido em parte a relação
30 mmHg da pressão diastólica como indicativo do custo x benefício não vantajosa.
procedimento de fasciotomia. No entanto, essa aferi-
ção não é rotineira e nem totalmente aceita, por isso, Conclusões
a indicação do procedimento cirúrgico deve basear-
se principalmente no julgamento clínico7;8. O maior A vítima de acidente botrópico deve receber
acometimento da vasculatura ocorre sobre as peque- tratamento em centro especializado que disponha de
nas arteríolas que fornecem fluxo sanguíneo para os recursos para prover suporte adequado. Existem
leitos capilares, e, os grandes vasos principais podem complicações previsíveis e possivelmente evitáveis
permanecer íntegros até uma fase mais avançada do desde que o tratamento correto seja realizado em tem-
processo. Assim, a conservação dos pulsos periféri- po hábil.
cos não reflete verdadeiramente a necrose isquêmica Toda vez que houver indicação para realização
em prosseguimento. A dor à distensão é muito carac- de fasciotomias e amputações, estas não devem ser
terística e consiste na incapacidade de realizar qual- adiadas, sendo o julgamento clínico de suma impor-
quer movimento do pé que distenda o músculo afeta- tância nessa indicação.
do sem provocar dor acentuada. A insuficiência renal O choque séptico pode determinar óbito em
aguda e a infecção secundária causada por bactérias curtos intervalos de tempo se a causa-base, com pos-
gram negativas e anaeróbias são previstas. Como sibilidade de tratamento cirúrgico, não for abordada
medida preventiva efetiva deve ser realizada fascio- precocemente.

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Medicina (Ribeirão Preto) 2009; 42 (1): 61-5 Luciano PM, Silva GEB, Azevedo-Marques MM
http://www.fmrp.usp.br/revista Acidente botrópico fatal

ABSTRACT
The Snakebite caused by Bothrops gender cause local events secondary to acute inflammatory action of
the poison. The occurrence of death (about 0.6% of all cases occurred each year in Brazil) is rare, but
certainly traumatic. The report of this case aims to draw attention to possible local and systemic compli-
cations (sepsis and renal failure) in this type of poisoning and emphasize the therapeutic and supportive
measures that should be carried out in a timely fashion.

keywords: Snake Bites. Bothrops. Poisoning.Compartment Syndromes. Fasciotomy.

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Medicina (Ribeirão Preto)
2009; 42 (1): 66-123 NOTAS E INFORMAÇÕES

RESUMOS DE DISSERTAÇÕES DE MESTRADO E TESES DE DOUTORADO


APRESENTADAS NA FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO - USP
DE OUTUBRO A DEZEMBRO DE 2008

BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR

IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DA EXPRESSÃO DE GENES CODIFICANDO MEMBROS DA FAMÍLIA


NEPH-RST EM GALLUS GALLUS

José Eduardo Baroneza filogenética. Nossos resultados levaram a concluir a exis-


Orientador: Prof. Dr. Ricardo Guelerman Pinheiro Ramos tência em galinha de apenas dois genes inequivocamente
Dissertação de Mestrado apresentada em 13/10/2008 pertencentes a família Neph que denominamos chkNeph1 e
chkNeph. Ambos são funcionais e transcrevem rnRNAs de
Proteínas da família das imunoglobulinas têm sido aproximadamente 2 kb Primeiramente observados nos está-
relatadas como fundamentais na regulação de eventos rela- gios HH-22 e HH-24 do desenvolvimento de G.ga//us. Em
cionados com a formação de órgãos tanto em invertebrados adultos, podem ser encontrados transcritos de ambos os
como em vertebrados. Em Drosophila melanogaster, por genes em coração, fígado, rim, testículo e retina, com dife-
exemplo, um subgrupo desta família, que inclui as proteínas renças quanto ao perfil de expressão em ovário, pâncreas e
Roughest (Rst), Kin-of-lrre (Kirre), Sticks-and-stones (Sns) pulmão onde apenas foi observado o mRNA de chkNeph1 e
e Hibris (Hbs), é necessário à formação de olho, cérebro, córtex parietal cerebral onde observamos somente a expres-
túbulo de malpighi e tecido muscular. Proteínas homologas são de chkNeph2. A comparação de sequências de proteí-
em vertebrados, Neph1, Neph2, Neph3 e Nefrina participam nas da família Neph de Gallus e de outros vertebrados com
do processo de filtração da urina nos podócitos e sua falta seus homólogos em Drosophila suporta a hipótese de que
acarreta em proteinúria, síndrome nefrótica congênita e morte os genes Neph são e resultado de divergência evolutiva do
perinatal. Este trabalho teve como objetivos identificar, por grupo formado por Roughest e Kirre, enquanto as Nefrinas
meio de análises in silico, possíveis membros da família seriam oriundas do grupo formado por Hibris e Sns. Além
Neph em Gallus gallus, isolar os fragmentos genômicos cor- disso, propomos que Neph3, ausente em galinha, seja pro-
respondentes e analisar a dinâmica de seu padrão de ex- vavelmente uma molécula alternativa a Neph2 em pâncreas
pressão, tanto temporal como espacial durante o desenvol- de mamíferos. Consideramos que os resultados obtidos até
vimento embrionário e em adultos, contribuindo assim para o momento formam uma base a partir da qual experimentos
as análises comparativas da evolução e diversificação es- específicos visando estabelecer as diferentes funções des-
trutural e funcional desta família gênica ao longo da escala tes loci em Gallus poderão ser realizados.

CARACTERIZAÇÃO DO PAPEL DOS GANGLIOSÍDEOS NA ENDOCITOSE DO FCεεRI EM MASTÓ-


CITOS DEFICIENTES NA EXPRESSÃO DOS GANGLIOSÍDEOS DERIVADOS DO GD1B

Vivian Marino Mazucato trabalho foi investigado o papel dos gangliosídeos especí-
Orientadora: Profª. Drª.Constance Oliver ficos de mastócitos na modulação da via endocítica do
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/10/2008 FcεRI em células RBL-2H3 e em duas linhagens celulares
mutantes B6A4A2III-E5 (E5) e B6A4C1III-D1 (D1). As cé-
Lipid rafts são microdomínios especializados da lulas E5 expressam 35% dos gangliosídeos específicos de
membrana plasmática. Quando os mastócitos são ativados mastócitos encontrados nas células RBL-2H3 e as células
via FcεRI, estes receptores se agregam e se deslocam para D1 expressam menos de 1%. O mAb BC4 conjugado com
dentro dos Lipid rafts onde se associam com outros com- FITC, que se liga na subunidade á do FcεRI, foi conjugado
ponentes dos rafts, tais como: a LAT e os gangliosídeos com FITC e utilizado tanto para ativar as células quanto na
derivados do GD1b específicos de mastócitos. Em células análise da internalização do FcεRI. As células RBL-2H3 e
RBL-2H3, após a estimulação, estes gangliosídeos especí- E5, após incubadas por 30 minutos de incubação com o
ficos de mastócitos são internalizados juntamente com mAb BC4-FITC continham vesículas endocíticas dispersas
FcεRI, em uma vesícula coberta por clatrina. No presente por todo o citoplasma. Com 1 hora as vesículas endocíticas

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das células RBL-2H3 começaram a se fusionar e formar agre- porte é mais severo nas células D1, onde quase todas as
gados e, após 3 horas a maioria dos FcεRIs estava presente vesículas endocíticas foram encontradas próximas à
em grandes agregados. Nas células E5 a formação de agre- membrane plasmática. Estas diferenças na endocitose e no
gados pela fusão de vesículas endocíticas foi mais lenta, transporte foram confirmadas por microscopia eletrônica.
sendo observados somente com 3 horas de incubação. Em O nível de expressão do FcεRI e das diferentes proteínas
contraste, mesmo com 3 horas de incubação, nas células envolvidas na endocitose foram analisadas por Western
D1 as vesículas endocíticas eram menores e a maioria delas Blotting e por citometria de fluxo. As células D1 apresenta-
permanecia próxima à membrana plasmática. As diferenças ram uma redução significante (79,8%) na expressão do
observadas entre a endocitose das três linhagens celula- FcεRI e, ambas as células E5 e D1 apresentaram uma
res, despertou o interesse em melhor caracterizar a via en- superexpressão de LAT. Não houve diferença na expres-
docítica destas células. Quando as linhagens celulares fo- são de α-adaptina, clatrina e Rab 5. A quantidade
ram incubadas com o mAb BC4-FITC e, posteriormente, delisossomos foi encontrado por Lysotracker Red e Green,
imonumarcadas com LAT (um marcador de Lipid rafts), α- também foi o mesmo nas três linhagens celulares. O defeito
adaptina (uma proteina adaptadora envovida na formação visto nas linhagens celulares mutantes não foi limitado para
das vesículas cobertas por clatrina), clatrina (uma cobertu- a endocitose do FcεRI. A endocitose de marcadores da su-
ra protéica para as vesículas endocíticas), Rab5 (um marca- perfície celular, a concanavalina A (ConA), bem como a
dor de endossomo primário), CD63 (presente na membrana pinocitose de fase fluida também foi examinada. As células
lisossomal e de grânulos secretores), ficou claro que havia D1 motraram defeitos significantes na endocitose dos mar-
um defeito na via endocítica do FcεRI nas células E5 e D1, cadores da ConA e na pinocitose de fase fluida. Portanto o
que tem início na formação das vesíciculas endocíticas na defeito endocítico visto, principalmente nas células D1,
membrana plasmática e se reflete por toda avia endocítica. parece ser um defeito geral que está relacionado com a au-
O impedimento na formação das vesículas e no seu trans- sência dos gangliosídeos na membrane plasmática.

O PAPEL DA LECTINA ARTIN M NA ATIVAÇÃO DE MASTÓCITOS

Valéria Cintra Barbosa Tais resultados são sugestivos de que a desgranulação de


Orientadora: Profª. Drª. Gabriela Silva Bisson mastócitos induzida por Artin M possa ser decorrente da
Dissertação de Mestrado apresentada em 27/10/2008 interação entre os CRDs da lectina e componente (s)
glicosilado (s) da superfície dessas células, como FcεRI.
Estudos anteriores demonstraram que Artin M in- Ou ainda, de uma possível interação entre Artin M e a IgE
duz a ativação de mastócitos na presença ou na ausência ligada ao FcεRI. A possível ligação de Artin M a IgE foi
de IgE ligada ao FcεRI e que os domínios de reconhecimen- averiguada através de ensaios em microplacas, onde verifi-
to de carboidrato (CRDs) da lectina estavam envolvidos cou-se que Artin M se liga à IgE de maneira dose-depen-
nessa atividade. No presente trabalho estudou-se a intera- dente. Investigou-se ainda se o receptor de alta afinidade
ção da lectina Artin M com glicoconjugados da superfície para IgE - FcεRI - seria reconhecido por Artin M. Através
de mastócitos. A ligação de Artin M biotinilada à superfície da separação eletroforética de proteínas de lisados de célu-
de células RBL-2H3, avaliada por ensaios de citometria de las RBL-2H3, ativadas ou não, seguida da eletrotransferên-
fluxo, ocorreu em 97% das células. Tal ligação foi inibida em cia para membrana de nitrocelulose e incubação com Artin
98 e 99%, respectivamente, por D-manose (25 e 50 mM) e M biotinilada, observou-se o reconhecimento, pela lectina,
metil-?-D-manopiranosídeo (25 e 50 mM). Através de mi- de diversos componentes que apresentam massas molecu-
croscopia de fluorescência, observou-se marcação positi- lares aparentes variáveis. Entretanto, dentre estes compo-
va distribuída na superfície de células RBL-2H3. Não hou- nentes, encontra-se uma banda protéica de aproximada-
ve marcação quando Artin M foi previamente incubada com mente 35 kDa, coincidente com aquela reconhecida por
D-manose (25 mM), contrariamente ao observado quando mAbs BE's, específicos para a subunidade β de FcεRI, fato
a lectina foi pré- incubada com D-galactose (25 mM). A que sugere que esta subunidade do receptor seja reconhe-
desgranulação de células RBL-2H3 induzida por Artin M cida por Artin M. A análise da expressão de FcεRI, através
foi verificada através de ensaio de detecção de atividade β- de citometria de fluxo, mostrou que células RBL-2H3 esti-
hexosaminidase, onde se verificou que a liberação da enzi- muladas por Artin M e sensibilizadas ou não por IgE, man-
ma ocorre na ausência ou presença de IgE, e que, nesse tiveram o nível de expressão de FcεRI, contrariamente às
último caso, há um aumento expressivo da atividade enzi- células sensibilizadas pela imunoglobulina e estimuladas
mática detectada. A liberação de β-hexosaminidase foi ini- por DNP48-HSA, que apresentaram uma redução de 40%
bida em aproximadamente 97% quando Artin M foi previa- na expressão de FcεRI. Através de ensaios de microscopia
mente incubada com metil-α-D-manopiranosídeo (50 mM). confocal e Western Blot, observou-se um aumento na in-

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tensidade da marcação pelo anticorpo anti-fosfotirosina, M, durante 8 horas, em relação às células estimuladas via
após estímulo por Artin M, que pode ser devido a um au- FcεRI; em adição, houve um aumento de 68% na produção
mento da fosforilação de tirosinas induzido pela lectina, na de TGF-β em células sensibilizadas por IgE e estimuladas
presença de IgE, sugerindo que FcεRI esteja de fato envol- por Artin M durante 8 horas, em relação às células estimu-
vido no processo de ativação celular induzido por Artin M. ladas via FcεRI.
Através de ensaios imunoenzimáticos - ELISA- verificou- O conjunto dos resultados obtidos sugere que Artin
se um aumento de 43% na produção de MCP-1 em células M, ao ligar-se apropriadamente a carboidratos da superfí-
sensibilizadas por IgE e estimuladas por Artin M, durante 1 cie de mastócitos, possivelmente àqueles presentes no re-
hora, comparado às células estimuladas via FcεRI. Foi ob- ceptor de alta afinidade para IgE e/ou na própria IgE ligada
servado um aumento de 92% na produção da TGF-β em ao FcεRI, induza a transdução de sinal intracelular, respon-
células não sensibilizadas por IgE e estimuladas por Artin sável pela ativação dos mastócitos.

PRODUÇÃO DE ANTICORPOS POLICLONAIS E DETERMINAÇÃO DO PADRÃO SUBCELULAR


DE DISTRIBUIÇÃO DE JAZIGO DURANTE A MORTE CELULAR PROGRAMADA EM GLÂNDULAS
SALIVARES DE Drosophila melanogaster

Ana Paula Saita zando análises de bioinformática e produção de anticorpos


Orientador: Prof. Dr. Claudio Roberto Simon policlonais capazes de detectar o padrão de localização
Dissertação de Mestrado apresentada em 28/10/2008 subcelular de JAZIGO na glândula salivar larval durante o
período de morte celular programada. (MCP). Com base nas
Em estudos anteriores em nosso grupo, um screen análises de bioinformática verificamos que as duas isofor-
genético de uma coleção de inserções únicas de elemento- mas de JAZIGO são essencialmente hidrofilicas e que es-
P de Drosophila melanogaster, permitiu a identificação de sas proteínas possuem um alto grau de similaridade com
uma mutação que provoca um severo fenótipo defectivo forminas da subfamília FHOD, as quais foram envolvidas
de morte celular de glândulas salivares larvais. Animais ho- na apoptose artificialmente induzida em células HeLa. A
mozigotos mutantes para a inserção de elemento P morrem localização de JAZIGO durante a morte celular programada
como pupas tardias e apresentam glândulas salivares per- é inicialmente citoplasmática, mas com o progresso do pro-
sistentes. Em animais selvagens a glândula salivar larval é cesso de morte celular a proteína é translocada para o nú-
destinada a morrer durante o estágio pupal num processo cleo progressivamente. Nossos dados sugerem que JAZ
de morte celular autofágico mediado por esteróide. O locus possui comportamento similar a formina FHODl e que JAZ,
mutado pela inserção do elemento-P foi identificado e no- similarmente a FHODl, poderia desempenhar um papel na
meado jazigo. Análises bioinformáticas demonstraram gran- regulação de eventos de morte celular. Esses dados suge-
de homologia do gene e de seu produto com componentes rem que JAZ e FHOD poderiam hipoteticamente compor
de uma família de proteínas denominada forminas (proteí- um grupo distinto de forminas relacionadas a processos de
nas FH ou Formin Homology) quê foram conservadas em morte celular. Também utilizamos o anticorpo para determi-
eucariotos e cuja função foi relacionada com o remodela- nar a localização subcelular de JAZ em glândulas salivares
mento ativo do citoesqueleto de actina e microtúbulos em persistentes de animais mutantes. Notamos que a localiza-
distintos processos celulares. Nesse trabalho demos início ção nuclear de JAZ foi observada apenas nas células cujo
à caracterização bioquímica e funcional de JAZIGO utili- processo de MCP foi interrompido mais tardiamente.

PCR EM TEMPO REAL PARA DETECÇÃO ESPECÍFICA DE RNAS (+) E (-) DE VÍRUS OROPOUCHE

Andrei Furlan da Silva em áreas urbanas da Amazônia, assim como pelo seu poten-
Orientador: Prof. Dr. Eurico de Arruda Neto cial de disseminação para outras regiões do Brasil e da Amé-
Dissertação de Mestrado apresentada em 03/11/2008 rica do Sul. Apesar de sua importância nunca foi determina-
da a existência de componentes do vírus Oropouche, estru-
turais ou não, que estejam relacionados a sua patogenicida-
O vírus Oropouche é reconhecido como a segunda de. Diante da ausência desses marcadores, o presente estu-
causa mais frequente de arbovirose febril no Brasil, só sen- do procurou desenvolver uma metodologia que fosse capaz
do superado em número de casos pelo vírus da dengue. O de analisar acúmulos das espécies de RNAs virais ao longo
vírus Oropouche se destaca pelo elevado número de casos da replicação em um único ciclo. No presente estudo foi
de infecção aguda febril, que ocorrem em surtos epidêmicos determinada a curva biológica do vírus Oropouche em um

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único ciclo com MOI > 1 em células Hela I e desenvolvido tempo real específico, utilizando na etapa da RT primers
um ensaio de RT-PCR em tempo real capaz de detectar RNAs biotinilados que permitem purificar o cDNA no qual se in-
(+) e RNAs (-) durante o ciclo replicativo. Nesse estudo corporam por meio de separação magnética. Com isso con-
também observamos a presença de cDNAs formados mes- seguimos desenvolver um método de detecção específico
mo sem a adição de primers exógenos, aos quais chamamos diferencial para RNAs positivos e negativos produzidos
de cDNAprimer (-), e que geram falso-positivos. Para solucio- durante ciclo e replicativo e pode vir a ser uma importante
nar este problema desenvolvemos um ensaio de RT-PCR em ferramenta nos estudos de atogêneses.

O PAPEL FUNCIONAL DA ENZIMA FOSFOLIPASE D2 (PLD2) NAS CÉLULAS DA LINHAGEM DE


MASTÓCITOS RBL-2H3

Claudia Maria Meirelles Marchini mAb AA4, que imunomarca gangliosídeos derivados do
Orientadora: Profª. Drª. Constance Oliver GD1b da membrana plasmática e com anti-PLD2, mostrou
Dissertação de Mestrado apresentada em 11/11/2008 que esta enzima não se localiza na membrana plasmática. A
dupla marcação com anti-PLD2 e anti-GM130 mostrou que
Os mastócitos participam do sistema imunológico as áreas de maior concentração da PLD2 se co-localizam
liberando mediadores farmacologicamente ativos. A princi- com o aparelho de Golgi, especialmente nas células CI. A
pal via de ativação dos mastócitos é através do receptor de marcação com anti-GM130 e os experimentos com micros-
alta afinidade para a imunoglobulina E (FcεRI). A ativação copia eletrônica de transmissão mostraram que o aparelho
dos mastócitos via FcεRI culmina com a liberação de medi- de Golgi está organizado nas células CA e desorganizado
adores. A enzima PLD atua sobre fosfolipídios hidrolisando nas células CI, onde se encontra disperso no citoplasma.
a fosfatidilcolina em ácido fosfatídico e colina. A PLD é Ainda, as células CI expressam menos GM130 em compara-
ativada após o estímulo via FcεRI e possui um papel impor- ção com as demais linhagens celulares. Quando a produ-
tante na transdução do sinal em mastócitos. Existem duas ção de PA pela PLD está inibida pelo 1-Butanol, as células
isoformas da enzima PLD, a PLD1 e a PLD2 que são expres- CA apresentam as mesmas características fenotípicas das
sas, diferentemente, de acordo com o tipo celular. Ambas células CI. A incubação das CI com PA resulta na reestrutu-
as isoformas podem estar expressas numa mesma célula, ração do aparelho de Golgi. A manutenção estrutural do
apenas uma ou nenhuma. Neste estudo foram utilizadas aparelho de Golgi, também está relacionada com os micro-
células RBL-2H3 transfectadas para a super expressão PLD2 túbulos. Nas células CI o centro organizador de microtúbu-
nas formas catalítica ativa (CA) e inativa (CI). O papel da los é dificilmente identificado. Os microtúbulos nas células
PLD2 foi examinado nestas células com o objetivo de elucidar CI são desordenados em comparação com as demais linha-
sua atuação no processo de secreção incluindo o aparelho gens celulares. Estes resultados mostram que a produção
de Golgi e os grânulos secretores. As células CA e CI pos- de PA pela PLD2 é importante na organização de microtú-
suem maior atividavidade de β-hexosaminidase total, po- bulos e na manutenção da estrutura do aparelho de Golgi.
rém quando estimuladas mostram uma deficiência na libe- As alterações celulares relacionadas com os microtúbulos
ração desta enzima, quando comparadas com as células e o aparelho de Golgi afetam o processo secretor nestas
selvagens. A PLD2 nas células CA, CI, VET e RBL-2H3 está células e, provavelmente, em outros tipos de células secre-
localizada no citosol, sendo abundante na região justanu- toras. Estes achados poderão levar a novas estratégias te-
clear, principalmente nas células CI, sugerindo uma associ- rapêuticas para controlar a liberação de mediadores duran-
ação com o aparelho de Golgi. A dupla marcação com o te processos alérgicos e inflamatórios.

CARACTERIZAÇÃO DE MECANISMOS DE RESISTÊNCIA À TERBINAFINA EM DIFERENTES ES-


PÉCIES DE Leishmania

Fabrício César Dias protozoário parasita Leishmania quando submetido a estí-


Orientador: Prof. Dr. Luiz Ricardo Orsini Tosi mulos negativos como, por exemplo, a presença de drogas.
Tese de Doutorado apresentada em 24/11/2008 A região H do genoma de Leishmania (Leishmania) major é
um dos loci mais estudados que leva à amplificação em res-
O fenômeno de amplificação gênica é um mecanismo posta a drogas não relacionadas, como a terbinafina. Foram
de auto-preservação celular observado com frequência no isoladas linhagens de L. (L.) major e Leishmania (Viannia)

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Resumos de Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado apresentadas na FMRP-USP http://www.fmrp.usp.br/revista

braziliensis resistentes à terbinafina. Análises por corridas genes clonados no vetor pGEM-T Easy foram utilizados
curtas de eletroforese em campo pulsado (PFGE) e Southern para analisar o nível de seus transcritos por northern blot.
blotting revelaram que a resistência observada nestas li- Também verificamos através de corridas curtas de PFGE e
nhagens não foi gerada pela amplificação do locus H. Sen- análises de Southern, que as linhagens em estudo não apre-
do assim, a resistência ao inibidor da esqualeno epoxidase sentam amplificação dos loci em estudo. A participação de
está sendo gerada por um outro mecanismo uma vez que genes da via de biossíntese de ergosterol de L. major e L.
outros loci podem estar envolvidos na resistência à braziliensis e do gene YIP1 de L. braziliensis na resistên-
terbinafina e através da análise diferencial do perfil de pro- cia ou susceptibilidade à terbinafina e/ou anfotericina B foi
teínas, os mutantes resistentes apresentaram diferenças na verificada através de experimentos funcionais. Com esse
expressão de proteínas. O alvo inicial para a elucidação da objetivo, os genes YIP1, ERG10 e ERG1 de L. braziliensis
resistência à terbinafina nas linhagens selecionadas foi a foram transfectados na linhagem LB2904 de L. braziliensis,
via de biossíntese de ergosterol. Foram escolhidos os genes e os genes ERG10, SQS1, ERG1, ERG7 e ERG11 e a ruptu-
da 3-cetoacil-CoA tiolase (ERG10), esqualeno sintase (ERG9 ra do gene ERG1 pelo cassete HYG de L. major foram trans-
ou SQS1), esqualeno epoxidase (ERG1), oxidoesqualeno- fectados na linhagem LT252 de L. major.
lanosterol ciclase (ERG7) e lanosterol 14 -demetilase (ERG11), Foram realizados experimentos para analisar a sus-
de L. major e L. braziliensis, além do gene YIP1 de L. ceptibilidade à anfotericina B associada ou não à terbinafina,
braziliensis. Para isso foram sintetizados oligonucleotídeos das linhagens selvagens de L. major e L. braziliensis, e a
a partir das sequências geradas pelo projeto genoma destas partir destes experimentos iniciais, foram selecionadas li-
espécies depositadas em bancos de dados. nhagens destas duas espécies resistentes à anfotericina B.
Os genes ERG10, SQS1, ERG1, ERG7 e ERG11 de Para analisar a possível função regulatória dos ele-
L. major e de L. braziliensis além do YIP1 de L. braziliensis mentos RIME 5/2/6 de L. braziliensis, foi feita a amplifica-
amplificados por PCR foram clonados no vetor pGEM-T ção por PCR da repetição invertida LbRIME 5/2/6b que
Easy, que possibilitou a construção de reagentes para rup- permitiu a clonagem deste fragmento no vetor pGEM-T Easy
tura de todos genes pela inserção da marca HYG e, com e a sua ruptura pela marca SAT. A clonagem no vetor pGEM
exceção do gene ERG7 de L. braziliensis, os genes foram possibilitou a análise da interação de proteínas nucleares à
subclonados no vetor pXG1. Fragmentos de restrição dos repetição LbRIME 5/2/6b através do gel shift.

IDENTIFICAÇÃO DE FOSFOPROTEÍNAS EM CÉLULAS DE UMA LINHAGEM DE LINFOMA DO


MANTO

Germano Aguiar Ferreira sie coloidal G-250, coloração específica para fosfoproteínas
Orientador: Prof. Dr. Lewis Joel Greene e anticorpos específicos contra resíduos fosforilados de
Dissertação de Mestrado apresentada em 27/11/2008 serina e tirosina. Mapas bidimensionais foram analisados
utilizando o software ImageMaster Platinum. Vinte oito spots
O estudo fosfoproteômico de células linfóides pode de um total de duzentos, cerca de ±14%, desapareceram
contribuir para a compreensão de sua origem através da após o tratamento com fosfatase alcalina. Proteínas modifi-
elucidação das vias responsáveis pelo escape dessas do cadas pelo tratamento passaram por digestão in situ com
controle celular. A abordagem proteômica foi utilizada no tripsina e os peptídeos tripsínicos submetidos a espectro-
estudo inicial da linhagem GRANTA-519, uma linhagem ce- metria de massas em equipamentos do tipo MALDI-ToF e
lular estabelecida de linfoma de células do manto, através ESI triplo quádruplo. Doze proteínas dos spots digeridos,
da criação de um inventário inicial de identificação de pro- selecionados após o tratamento com ëPPase, foram identi-
teínas com possíveis modificações pós-traducionais, es- ficados. As seguintes proteínas foram identificadas em mais
pecialmente fosforilações. Inicialmente as células de de um spot alinhado horizontalmente: Nucleofosmina, uma
GRANTA-519 foram cultivadas em condições adequadas. proteína fosforilada envolvida com acetilação nucleolar e
Proteínas foram extraídas com tampão de lise contendo 7,7 Anexina A6, uma proteína reguladora de cálcio extrema-
M de uréia, 2,2 M de tiouréia, 4,4 % de CHAPS e uma mistu- mente conservada. Outras proteínas escolhidas após o tra-
ra de cocktail inibidor de proteases. Após extração das tamento com lPPase foram identificadas como Heat shock
proteínas do extrato celular, alíquotas de proteínas foram 70 kDa protein 1, Stress-70 protein, mitochondrial,
tratadas com lPPase e submetidas a focalização isoelétrica Heterogeneous nuclear ribonucleoprotein H, Tumor protein
em faixa de pH de 4,0 – 7,0 e eletroforese em gel de D52, Actin-related protein 2/3 complex subunit 5, Eukaryotic
poliacrilamida e SDS preparados em nosso laboratório. Pro- translation initiation factor 5A-1 e Rho GDP-dissociation
teínas foram detectadas através de coloração com coomas- inhibitor 1.

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CARACTERIZAÇÃO FUNCIONAL DOS GENES PGA13 E PGA58 DE Candida albicans

Fabrício Freitas Fernandes nulos TUP1 e EFG1, e a obtenção e caracterização


Orientador: Prof. Dr. Paulo Sérgio Rodrigues Coelho fenotípica dos mutantes de PGA13: homozigoto nulo e de
Dissertação de Mestrado apresentada em 15/12/2008 superexpressão.
Os estudos realizados in silico indicam que PGA13
A incidência de infecções por fungos oportunistas e PGA58 são reguladas pelos fatores transcricionais Efg1,
na população de pacientes imunocomprometidos tem au- Tec1 e Nrg1 e que possuem sítios potenciais de glicosilação.
mentado nos últimos anos, e estas são, principalmente, cau- A análise transcricional desses genes mostra que ambos
sadas por Candida albicans. Este patógeno oportunista são regulados por Tup1 e que respondem aos estímulos
pode crescer em diferentes formas, variando de levedura, NaCl (Cloreto de sódio), H2O2 (Peróxido de hidrogênio),
pseudohifa e hifa e essa transição morfológica está associ- etanol, cafeína, HCl (Ácido Clorídrico) e às condições hipo
ada com a virulência. Na transição de levedura para hifa, e hiperosmótica. Os mutantes nulos e de superexpressão
genes hifa-específicos são expressos e muitos deles codifi- de PGA13 e PGA58 foram obtidos e as linhagens que per-
cam proteínas que possuem uma molécula de GPI deram o gene PGA13 tiveram um padrão de crescimento da
(glicosilfosfatilinositol), mas a maioria (66%) das proteínas colônia diferente da linhagem CAI-4 e foram mais sensíveis
preditas ancoradas por GPI (PGAs), ainda possuem função aos compostos SDS, Higromicina B e pH ácido, enquanto o
desconhecida. Portanto, o objetivo deste trabalho, foi ini- mutante que superexpressava foi mais resistente. Estes re-
ciar a caracterização funcional dos genes PGA13 e PGA58 sultados sugerem que PGA13 deve ter papel importante na
através de análises in silico, da expressão diferencial dos parede celular, visto que a falta dela ocasionou maior sensi-
RNAm sob condições ambientais diversas, e nos mutantes bilidade a compostos que agridem a parede celular.

COMPARAÇÃO DE UM TESTE RÁPIDO IMUNOCROMATOGRÁFICO (DIRECTIGEN EZ RSV)


COM IMUNOFLUORESCÊNCIA INDIRETA, ISOLAMENTO EM CULTURA E SEMI-NESTED-RT-
PCR PARA A DETECÇÃO DE VÍRUS SINCICIAL RESPIRATÓRIO HUMANO

Flávia Escremim de Paula doença respiratória na unidade de emergência. Os critérios


Orientador: Prof. Dr. Eurico de Arruda Neto de inclusão foram sintomas e sinais de infecção respiratória,
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/12/2008 incluindo coriza, obstrução nasal, febre, tosse, dispnéia,
taquipnéia, sibilos e sinais de bronquiolite ou pneumonia.
O diagnóstico rápido de infecção do trato respirató- Ao todo 191 amostras foram testadas por todos os
rio por HRSV é importante para definição de conduta bem métodos. O Directigen EZ RSV detectou HRSV em 73/191
como para a identificação de surtos. No presente estudo (38%) amostras, enquanto imunofluorescência indireta, iso-
nós avaliamos o desempenho do teste rápido Directigen lamento em cultura e o semi-nested-RT-PCR identificaram
EZ™ RSV (BD Diagnostic Systems, Sparks, USA.), em com- respectivamente 63/191 (33%), 62/191 (32%) e 82/191 (43%).
paração com a imunofluorescência indireta (IF), isolamento Em comparação com todos os outros testes tomados em
em cultura e semi-nested-RT-PCR, para a detecção do vírus conjunto, o Directigen EZ RSV obteve 80% de sensibilida-
sincicial respiratório humano (HRSV) em amostras de secre- de, 99% especificidade, 99% valor preditivo positivo (PPV),
ção respiratória de crianças atendidas no Hospital das Clíni- 85% valor preditivo negativo (NPV) e 90% acurácia.
cas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universi- Os resultados mostraram que o teste Directigen EZ
dade de São Paulo, Brasil. De fevereiro a dezembro de 2005 RSV é uma boa alternativa para o diagnóstico de HRSV,
foram coletadas 191 amostras de aspirados nasais de crian- pela sua facilidade e rapidez de execução, sendo especial-
ças com idade entre oito dias e 50 meses, atendidas por mente útil em serviços de atenção primária de saúde.

CARACTERIZAÇÃO MOLECULAR DO GENE NCSA DE Aspergillus fumigatus

André Oliveira Mota Júnior lização importantes para o desenvolvimento do fungo. A


Orientador: Prof. Dr. Gustavo H. Goldman linhagem mutante ∆ncsA foi construída através da transfor-
Tese de Doutorado apresentada em 18/12/2008 mação do WT ( ku80) com o gene marcador pyrG de A.
fumigatus. Foi confirmada a deleção por Southern blot e as
O foco do trabalho está direcionado para a constru- alterações fenotípicas da linhagem foram analisadas. O gene
ção da linhagem "knock-out" do gene ncsA de A. fumigatus, ncsA em A. fumigatus não é essencial e a linhagem ∆ncsA
bem como a caracterização do fenótipo da linhagem ∆ncsA apresentou-se sensível EGTA e SDS, alé, de tolerante a al-
e a investigação de interações deste gene com vias de sina- tas concentrações de íons cálcio. Na linhagem NcsA:mRFP

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foi localizado a proteína NcsA no citoplasma das células e visualizado no mutante ∆ncsA, e existe uma significante
sua localização não é alterada pela em resposta ao aumento diminuição de estruturas vacuolares e endossomos. Os re-
da concentração de cálcio. A linhagem ∆ncsA foi sensível a sultados obtidos em ensaios de TRPCR em tempo real su-
drogas que afetam a biossíntese e a manutenção da mem- gerem que NcsA modula a expressão dos genes pmcA e
brana plasmática, tais como voriconazole, anfotericina e pmcB, que codificam proteínas ATPases transportadoras
itraconazole. O crescimento polarizado em presença de de íons cálcio. Os ensaios de virulência no modelo animal
lovastatina nessa linhagem foi consideravelmente mais afe- revelaram que a mutação do gene ncsA não causa perda de
tado que no tipo selvagem. O Spitzenkörper não foi virulência no A. fumigatus.

BIOQUÍMICA

IDENTIFICAÇÃO DE GENES NO FUNGO FILAMENTOSO Aspergillus nidulans MODULADOS POR


PaIA, UM COMPONENTE DE UMA CASCATA SINALIZADORA EM RESPOSTA AO pH AMBIENTE

Janaína Silva de Freitas demonstrado que o crescimento pobre e a conidiação da


Orientador: Prof. Dr. Antonio Rossi Filho linhagem mutante pa/C4 em meio sólido, pH alcalino, foram
Tese de Doutorado apresentada em 30/10/2008 hiper sensíveis ao tampão Tris (hydroxymethyl). A secre-
ção da fosfatase ácida foi reprimida em ambas as linhagens
A via transdutora de sinal mediada pelo fator de parental biA 1 e mutante palC4 biA 1 quando cultivadas em
transcrição PacC atua em muitos eventos metabólicos en- meio líquido de extrato de levedura, Pi limitante, pH 5.0.
volvidos na resposta adaptativa ao pH alcalino em Asper- Essa condição indica que a secreção da fosfatase ácida
gillus nidulans. O gene pacC codifica um fator de transcri- não é necessária para regenerar fosfato inorgânico a partir
ção zinc-finger, e os seis genes paI (A, B, C, F, H e l) são do fosfato orgânico presente no extrato de levedura. Os
membros putativos de uma cascata sinalizadora que pro- resultados apresentados não invalidam a hipótese da cas-
movem a ativação proteolítica de PacC em ambiente alcali- cata de sinalização governada por PacC em resposta fisio-
no. A proteína PalA interage com os motivos YPXL/I em lógicas ao pH alcalino. Entretanto, está claro que a percep-
PacC, o que é necessário para a ação de PaIB, uma protease ção do pH alcalino pode não ser sua única função. Com a
da família das calpaínas. Este modelo implica que mutações finalidade de identificar genes envolvidos na resposta
acarretando perda de função em qualquer dos genes paI adaptativa ao pH ambiente e avançar no entendimento da
levariam a mimetização do fenótipo ácido (selvagem) inde- funcionalidade do gene palA em pH ácido, a hibridação
pendentemente do pH ambiente. Assim, qualquer que seja subtrativa por supressão foi realizada a partir dos mRNAs
o pH de cultivo, a mutação pa/A1 deveria mimetizar o isolados das linhagens biA 1 e biA 1 palA 1 de A. nidulans
fenótipo selvagem, o que não foi observado na linhagem cultivadas em condições de fosfato limitante, pH 5,0. Este
mutante biA1 palA1. Experimentos simples foram designa- estudo revelou genes com expressão diminuída na linha-
dos para identificar a influência dos nutrientes no pH final gem mutante biA1 palA1 envolvidos na defesa celular, res-
das culturas e na secreção da fosfatase ácida em Aspergi- posta ao estresse, transcrição, síntese de proteínas, comu-
llus nidulans. A linhagem mutante pa/C4 foi selecionada nicação celular e etc. A expressão diferencial de nove des-
pelo seu aumento substancial da atividade da fosfatase ses genes, confirmada por Norlhern blot, indica que o gene
ácida e diminuição da atividade da fosfatase alcalina, quan- palA tem função metabólica específica em pH ácido em A.
do cultivada em meio mínimo sólido, Pi limitante, pH 6.5. Foi nidulans.

PROGRAMA DE TRIAGEM DE COMPOSTOS E ESTRATÉGIA PARA PROSPECÇÃO E DESENVOLVI-


MENTO EM LARGA ESCALA DE NOVOS BIOATIVOS COM POTENCIAL ANTIMICOBACTERIANO

Fabio Cícero de Sá Galetti menos seis meses o que pode levar a não adesão do paci-
Orientador: Prof. Dr. Celio Lopes Silva ente ao regime terapêutico. O abandono da terapia é um
Tese de Doutorado apresentada em 03/11/2008 dos principais fatores que favorecem o aumento dos casos
de tuberculose multidroga resistente(MDR- TB) e tubercu-
O atual tratamento da tuberculose (TB) implica na lose extremamente resistente (XDR- TB), que somados aos
terapia combinada de quatro diferentes drogas por pelo problemas de co-infecção com HIV/AIDS, diminuem dras-

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ticamente a eficácia anti- TB das drogas de primeira esco- marinha Aplysina cauliformis. Estes extratos apresentaram
lha. Estes fatores indicam a necessidade urgente para des- inédita atividade anti- TB in vitro, ausência de citotoxicidade
coberta de uma nova droga para ser-aplicada no tratamento em células de mamíferos e capacidade de reduzir em 3,53 log
da TB. Desta forma o Núcleo de Pesquisas em Tuberculose de UFCs a carga bacilar intracelularmente semelhante à dro-
(NPT), estabeleceu o programa de triagem de compostos, ga padrão RFP. Resultados semelhantes também foram en-
utilizando a estratégia de triagem aleatória de compostos em contrados para três compostos sintéticos, dois análogos
larga escala, para prospecção de potenciais novos bioativos heterocíclicos da nitrofurazona com CIM=16 µMol e um
anti- TB, tanto de produtos naturais (biodiversidade brasi- derivado análogo da INH (composto 227) com CIM=2 µMol.
leira) como de produtos de origem sintética. Basicamente a Todas os três compostos apresentaram excelentes índices
plataforma é constituída de três etapas principais: (i) deter- de seletividade sendo o melhor deles caracterizado para o
minação da concentração inibitória mínima (CIM) das amos- composto 227 (IS > 250). O mesmo composto também apre-
tras contra o bacilo da TB; (ii) realização de estudos de sentou resultado promissor em teste pré-clínico em modelo
citotoxicidade (IC50) e atividade biológica em macrófagos murino de TB experimental ao reduzir significativamente a
infectados; e (iii) determinação da atividade biológica em carga bacilar de tecido pulmonar em 3,27 log de UFC quan-
modelos de TB experimental. Foram realizados bioensaios do comparado ao controle negativo (animais não tratados).
in vitro de concentração inibitória mínima frente à cepa de Por fim, testes preliminares detectaram uma atividade
Mtb (H37Rv A TCC 27294) com um total de 2076 amostras: imunomoduladora em potencial para o composto na respos-
81,41 % de extratos brutos de produtos naturais, 13,34% de ta contra a TB. As análises dos resultados indicaram o su-
amostras fracionadas ou isoladas dos produtos naturais e cesso do Programa de Triagem de compostos e a eficácia da
5,25% de compostos sintéticos. Os resultados seleciona- estratégia de triagem aleatória em larga escala em identificar
ram 60 extratos com CIM inferior a 125 µg/mL que levaram potenciais novos bioativos anti- TB em curto período de
ao isolamento de dois bioativos do extrato bruto da esponja tempo e baixo investimento de capital.

ATIVIDADE DA FOSTOLIPASE A2 SECRETADA HUMANA DO GRUPO IID (HSPLA2-IID) CONTRA


MEMBRANAS ARTIFICIAIS E BIOLÓGICAS

Raquel Gomes Fonseca bactericida, as mutantes H48Q, D49K e G30S na região de


Orientador: Prof. Dr. Richard John Ward sitio ativo foram produzidos com o intuito de reduz ou eli-
Dissertação de Mestrado apresentada em 19/11/2008 minar a atividade catalítica da enzima. A proteína hsPLA2-
IID tipo selvagem e a mutante H48Q apresentaram ativida-
As fosfolipases A2 (PLA2s, EC 3.1.1.4) são enzimas de hidrolítica de 58,45 e 7,7 µM.min-1.mg-1 respectivamente,
envolvidas em uma ampla variedade de processos fisioló- e demonstraram uma atividade de danificação de membra-
gicos que compreendem digestão fosfolipídica, remodela- nas artificiais. Em contraste, as mutantes G30S e D49K per-
gem de membranas, regulação do sistema imunológico e deram completamente a atividade catalítica, mas mantive-
processos patofisiológicos. As PLA2s secretadas do gru- ram a capacidade de danificar membranas artificiais, de-
po II (PLA2-II) são proteínas do sistema imune presentes monstrando que a atividade hidrolítica e a danificação de
na resposta de fase aguda e na atividade bactericida, parti- membranas modelos não estão correlacionadas. A proteína
cipando na ativação e liberação de citocinas e de outros hsPLA2-IID tipo selvagem demonstrou um efeito bactericida
mediadores pré-inflamatórios. Apesar dos estudos recen- contra bactérias Gram-negativa (E. coli K12) e Gram-positi-
tes sobre os efeitos farmacológicos e mecanismo catalítico va (Micrococcus luteus). As mutantes H48Q e D49K redu-
da PLA2 do grupo lIA humana (PLA2-IIA), pouca atenção ziram, mas não aboliram a atividade bactericida contra a E.
tem sido dada à PLA2 do grupo IID humana (hsPLA2-IID), coli, demonstrando que a atividade independente da ativi-
uma proteína associada ao progresso do processo inflama- dade catalítica contribui para o efeito contra este linhagem.
tório. O presente trabalho representa um estudo para avali- As mesmas mutantes causam uma redução maior na ativi-
ar uma eventual correlação entre o mecanismo de permea- dade contra M. luteus, mostrando que os mecanismos do
bilização de membranas modelos e a atividade bactericida efeito bactericida são diferentes entre bactérias Gram nega-
de hsPLA2-IID. A sequência codificadora da hsPLA2-IID tivas e positivas. Os efeitos das mutações da hsPLA2-IID
foi inserida no vetor de expressão pET3a, e a proteína foram comparados com os efeitos das mesmas mutações na
heteróloga foi produzida na forma de corpos de inclusão hsPLA2-IIA e com botropstoxina-l, uma Lys49- PLA2 isola-
em EscherIchia coli BL21 (DE3). Um protocolo de enovela- do do veneno da serpente Bothrops jararacussu, indican-
mento da proteína recombinante foi desenvolvido que per- do que além da atividade catalítica e a atividade indepen-
mitiu a produção de hsPLA2-IID na conformação nativa. dente de catalise, acesso a membrana interna da bactéria
Para avaliar o papel de atividade catalítica no efeito de per- pode ser um fator na determinação da atividade bactericida
meabilização de membranas modelos e na atividade das fosfolipases A2 de classe II.

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CLÍNICA CIRÚRGICA

ESTUDO COMPARATIVO ENTRE ECOENDOSCOPIA E ENDOSCOPIA DIGESTIVA ALTA NO DIAG-


NÓSTICO DOS TUMORES SUBEPITELIAIS DO ESÔFAGO ESTÔMAGO E DUODENO

Spencer Vaiciunas nho, a ecogenicidade do tumor, as camadas da parede da


Orientador: Prof. Dr. Reginaldo Ceneviva víscera e o diagnóstico presuntivo. Todos os pacientes fo-
Dissertação de Mestrado apresentada em 30/10/2008 ram avaliados consecutivamente pela EDA e EE. Os tumo-
res intramurais representaram 87% dos casos e dentre eles,
A descoberta endoscópica de um tumor subepitelial o tumor estromal gastrointestinal foi a maioria (62%), en-
(TSE) é frequente. Geralmente o aspecto corresponde à de quanto as compressões extrínsecas representaram 13%, das
uma compressão extrínseca (CE) ou ao de um tumor intra- quais a compressão pelo figado foi a mais frequente (31 %).
mural (TI). O diagnóstico dessas lesões, por vezes, é difícil, Para a avaliação dos TI a sensibilidade, especificidade a
mesmo após a obtenção de biópsias pela endoscopia di- acurácia da EDA foram menores de 50 % com p=0,25 e para
gestiva alta (EDA). A ecoendoscopia (EE) tem apresentado a EE de 95%, 100% e 95% respectivamente, com p=0,0003
importante papel na elucidação diagnóstica. A proposta (teste de Fisher). Na avaliação das CE, a sensibilidade, es-
nesse estudo foi comparar os resultados da EDA com os da pecificidade e acurácia da EDA foram de 87%, 50% e 86%
EE no diagnóstico diferencial entre TI e CE do esôfago, com p=0,43 e a EE de 95%, 100% e 95% respectivamente,
estômago e duodeno e avaliar o desempenho da ecoendos- com p=0,08 (teste de Fisher). Conclui-se que a endoscopia
copia no diagnóstico diferencial dos TSE. Foi feita análise digestiva é um bom exame para diagnosticar a presença de
retrospectiva dos exames de 176 pacientes (93 mulheres), tumores intramurais do trato digestivo, mas tem fraco de-
com média de idade de 62,5 (10- 89) anos, de janeiro de 2000 sempenho em identificar o tipo específico do tumor, e é um
a maio de 2006, que foram estudados por EDA e EE por mau exame para o diagnóstico das compressões extrínse-
apresentar abaulamento subepitelial ao exame endoscópico cas. Por outro lado, a ecoendoscopia é um bom exame para
do trato gastrointestinal alto. O tamanho, mobilidade, loca- o diagnóstico diferencial dos tumores subepiteliais, poden-
lização e o diagnóstico de presunção foram registrados no do fornecer com precisão a localização do tumor além de
momento da EDA. Durante a EE foram analisados o tama- permitir biópsias dirigidas.

AVALIAÇÃO DA ISQUEMIA RENAL EM RATOS WISTAR PELA ESPECTROSCOPIA DE FLUORES-


CÊNCIA INDUZIDA POR LASER, PELA ANÁLISE HISTOPATOLÓGICA E PELA FUNÇÃO RENAL
E MITOCONDRIAL

Beatriz Flávia Moraes Trazzi ram colhidas do rim esquerdo após determinação da FIL.
Orientador: Prof. Dr. Luís Fernando Tirapelli Resultados: A associação da espectroscopia óptica
Tese de Doutorado apresentada em 31/10/2008 com o dano histológico foi: FIL -442nm - r2 = 0,39, p ≤ 0,001
e 532nm -r2 = 0,18, P = 0,003; FFI (fator de fluorescência da
Objetivos: Avaliar a associação da gravidade da le- isquemia -laser refletido / fluorescência induzida) -442nm -r2
são renal isquêmica determinada pela histopatologia, es- = 0,20, P = 0,002 e 532nm -r2 = 0,004, P = 0,67. As associações
pectroscopia de fluorescência induzida por laser (FIL - entre a função mitocondrial e o dano tecidual foram: estado
442nm e 532nm), função renal, respiração mitocondrial e 3 da respiração -r2 = 0,43, P = 0,0004, estado 4 da respiração
intumescimento osmótico da membrana mitocondrial e fun- -r2 = 0,03, P = 0,38, RCR -r2 = 0,28, P = 0,007, e intumescimento
ção renal. da membrana mitocondrial -r2 = 0,02, p = 0,43.
Material e Métodos: Cinquenta ratos Wistar foram Conclusões: A intensidade de fluorescência emitida
submetidos à isquemia renal esquerda quente durante 20, pelo tecido excitado por laser, especialmente no compri-
40, 60 e 80 minutos. A FIL foi realizada antes da isquemia mento de onda 442nm, foi capaz de determinar, em tempo
(controle) e repetida aos 20, 40, 60 e 80 minutos de isquemia. real, a gravidade das lesões teciduais provocadas pela
Amostras de tecido para histologia e análise mitocondrial isquemia renal. O estado 3 da respiração mitocondrial e a
(estado 3 e 4 da respiração, razão de controle respiratório e RCR (razão do controle respiratório) também mostraram uma
intumescimento osmótico da membrana mitocondrial) fo- boa correlação com o grau de lesão do tecido isquêmico.

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AVALIAÇÃO EXPERIMENTAL DA VIABILIDADE HEPÁTICA, APÓS ISQUEMIA NORMOTÉRMICA,


PELA ESPECTROSCOPIA DE FLUORESCÊNCIA INDUZIDA POR LASER (efil)
Jorge Luiz Fernandes foi removida e as leituras da espectroscopia de fluorescên-
Orientador: Prof. Dr. Ajith Kumar Sankarankutty cia foram realizadas antes da isquemia, após o período de
Dissertação de Mestrado apresentada em 31/10/2008 isquemia e 24 horas após a reperfusão. Imediatamente após
as leituras espectroscópicas, foram realizadas coletas de
Novos métodos para a caracterização de tecidos ou sangue para dosagem das bilirrubinas, AST, ALT e DHL.
para investigar e analisar diversos, parâmetros teciduais Após a última coleta de sangue o tecido hepático, do lobo
têm sido buscados ultimamente. A avaliação da viabilidade submetido à isquemia, foi retirado e encaminhado parte para
do figado de ratos pela "espectroscopia de fluorescência o exame histopatológico (morfometria) e parte para avalia-
induzi da por laser" após isquemia normotérmica visa mos- ção da função mitocondrial. Foi possível comparar os pa-
trar a eficácia do método e delinear critérios objetivos na drões espectrais com a área de necrose. Os padrões espec-
sua utilização. A função mitocondrial, provas bioquímicas trais foram distintos nas 3 fases e foi possível avaliar evi-
e a morfometria foram utilizadas como indicadores da viabi- dências de associação das respostas da espectroscopia de
lidade hepática. Estudos recentes mostram a eficácia do fluorescência com relação à Morfometria, pelo Teste Exato
método em condições de hipotermia. Outros estudos foram de Fisher (p < 0,0l), e também em relação à sua concordân-
realizados com outros parâmetros. Os animais foram dividi- cia, pelo Coeficiente Kappa, variando de concordância mo-
dos em dois grupos: G1(isquemia parcial de 1 hora), com 12 derada à concordância quase perfeita. Valores semelhantes
animais, G2(isquemia parcial de 2 horas), também com 12 foram obtidos na avaliação do Potencial de Membrana mi-
animais. A isquemia parcial foi realizada com oclusão tocondrial. A "espectroscopia de fluorescência induzida por
vascular do lobo mediano e do lobo lateral esquerdo, per- laser" após isquemia normotérmica mostrou ser um método
mitindo fluxo sanguíneo para o lobo caudado e para o lobo rápido e eficaz na avaliação de lesões isquêmicas e de teci-
lateral direito. Após o período de isquemia a pinça vascular dos viáveis.

AVALIAÇÃO DA IMPLANTAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE PREVENÇÃO EM EQUIPES DA ATEN-


ÇÃO BÁSICA EM RIBEIRÃO PRETO, SÃO PAULO

Anderson Soares da Silva Material e Métodos: Um protocolo contendo 22 me-


Orientador: Prof. Dr. Orlando de Castro e Silva Júnior didas de prevenção foi elaborado tendo como base as re-
Tese de Doutorado apresentada em 10/11/2008 comendações do US Preventive Services Task Force, do
Canadian Task Force on Preventive Health Care, do Pro-
Introdução: Ainda que a prevenção represente o grama de Actividades Preventivas y de Promocion de Ia
cerne do trabalho dos médicos da Atenção Básica, as taxas Salud (P APPS) da Sociedade Espanhola de Saúde da Famí-
de emprego de medidas de prevenção, por mais simples lia e Comunidade e das recomendações do Ministério da
que sejam, ainda sem encontram em níveis inadequados. O Saúde, todas adaptadas as condições locais. Os profissio-
desafio que é posto aos profissionais de saúde é o empre- nais de saúde foram entrevistados e logo depois treinados,
go de um rol mínimo de medidas de prevenção a pacientes em dezembro de 2007, para a aplicação do protocolo. Após
elegíveis, baseados em uma avaliação rigorosa de fatores cinco meses do treinamento, a aplicação das 22 medidas
de risco individuais e familiares, associado à aplicação de foram avaliadas.
medidas baseadas em sólidas evidências científicas. De Resultados: Apesar de afirmarem conhecer as medi-
forma a atingir esse objetivo, a literatura científica tem for- das de promoção de saúde e prevenção de doenças e de se
necido uma série de ferramentas (intervenções não eletrô- mostrarem motivados a empregá-las, o registro de muitas
nicas, tais como tabelas de prevenção, cartas-lembrete e medidas de prevenção ficou muito abaixo daquilo preconi-
cartões de saúde para os pacientes), que tem se mostrados zado por organismos oficiais e a análise dos índices de
eficientes no curto prazo para o aumento do emprego de performance de medidas apropriadas e inapropriadas, an-
medidas de prevenção. tes a após o treinamento das equipes, mostrou que a estra-
Objetivos: Dado a escassa disponibilidade de pes- tégia proposta não conseguiu melhorar o emprego das me-
quisas sobre estratégias voltadas para a melhoria da provi- didas de prevenção analisadas.
são de serviços preventivos por equipes do Programa Saú- Conclusões: Mudar o comportamento dos profissi-
de da Família, o pesquisador estudou os valores e atitudes onais de saúde de forma que empreguem mais medidas de
atribuídos à prevenção pelos profissionais de saúde e ava- prevenção é uma tarefa bastante complexa. Além de mais
liou a implementação de um protocolo de promoção de saú- investimentos em pesquisas, é preciso que governos e es-
de e prevenção de doenças em cinco equipes do Programa colas médicas enfatizem a importância do emprego de me-
Saúde da Família do município de Ribeirão Preto, São Paulo. didas de prevenção por profissionais da Atenção Básica.

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CLÍNICA MÉDICA

APETITE, EQUILÍBRIO ENERGÉTICO E TRÂNSITO GASTRINTESTINAL EM INDIVÍDUOS GAS-


TRECTOMIZADOS

Mayra Mayumi Kamiji habitual foi mais alta no grupo GT em comparação ao GP e


Orientador: Prof. Dr. Ricardo Brandt de Oliveira ao controle, e semelhante entre esses dois grupos. Os va-
Tese de Doutorado apresentada em 13/10/2008 lores basais de grelina total foram mais baixas (P < 0,05) no
grupo GT, e os de PYY não foram diferentes entre os gru-
No presente estudo, foram avaliados, em indivídu- pos. A grelina basal se correlacionou positivamente (r =
os submetidos previamente à gastrectomia, os níveis plas- 0,74, P < 0,01) com o GER no grupo GP e negativamente (r =
máticos de grelina total e de PYY3-36, as sensações de ape- -0,87, P < 0,05) com o GER no grupo GT. Após a refeição
tite e o trânsito gastrintestinal após a ingestão de uma re- teste, nos grupos GP e GT, não houve variação nas con-
feição líquida, e também o gasto energético de repouso centrações de grelina pós-prandial, diferentemente dos ní-
(GER) e a ingestão energética. Foram estudados sete indi- veis de PYY, que aumentaram aos 15min. A recuperação de
víduos com gastrectomia total (GT), 14 com gastrectomia fome e consumo prospectivo, e o pico de plenitude ocorre-
parcial (GP) e 10 indivíduos sadios. O Índice de Massa Cor- ram mais precocemente nos grupos GP e GT em compara-
poral (IMC) não era diferente entre os grupos [grupo con- ção aos indivíduos sadios. O esvaziamento gástrico foi mais
trole: 25 (20-34) kg/m2, GP: 22 (18-30) kg/ m2, GT: 23 (18-32) rápido no grupo GP que no grupo controle, e o trânsito
kg/ m2]. Os pacientes haviam sido operados por câncer ou gastrintestinal foi acelerado nos grupos GP e GT. As con-
por úlcera, há pelo menos 1 ano, e não apresentavam sus- centrações de grelina e de PYY3-36 não se correlacionaram
peita ou diagnóstico de neoplasia. O GER foi medido por com as pontuações de apetite. Nossos resultados indicam
calorimetria indireta e comparado ao calculado pela fórmula que indivíduos com GP ou GT, com IMC normal, apresen-
de Harris- Benedict (% GERm/GERt). A ingestão alimentar tam um GER aumentado, que, nos indivíduos com GT, pare-
habitual foi avaliada por recordatório de 24h e por registro ce ser compensado por maior ingestão energética. As sen-
alimentar de 3 dias. As sensações de apetite (fome, plenitu- sações de apetite estão preservadas nesses pacientes, e a
de e consumo prospectivo) foram medidas por um questio- plenitude pós-prandial é mais intensa e precoce, o que pa-
nário que incluía uma escala analógica visual, aplicado aos rece estar associado ao trânsito gastrintestinal acelerado, e
participantes em jejum e durante o estudo cintilográfico do não depender da integridade de nervos vagais. Nos indiví-
trânsito gastrintestinal após uma refeição teste (361kcal). A duos com GP ou GT, a grelina e o PYY3-36 exercem influência
dosagem dos hormônios foi realizada por radioimunoensaio. pequena ou nula sobre apetite e ingestão alimentar, e a
A relação % GERm/GERt foi mais alta no grupo GP (P < 0,05) grelina parece exercer papel importante na regulação do
comparativamente ao grupo controle. A ingestão energética GER.

MORFOLOGIA, FENÓTIPO, POTENCIAL PROLIFERATIVO E EXPRESSÃO GÊNICA DE CÉLULAS


MESENQUIMAIS ESTROMAIS MULTIPOTENTES OBTIDAS DA MEDULA ÓSSEA DO ADULTO, DA
VEIA DO CORDÃO UMBILICAL E DE DIVERSOS TECIDOS FETAIS

Ana Valéria Gouveia de Andrade e da capacidade destas células em migrar e regenerar a lon-
Orientador: Prof. Dr. Dimas Tadeu Covas go prazo o tecido específico. Partindo da hipótese de que
Dissertação de Mestrado apresentada em 23/10/2008 CTM de diferentes tecidos têm potencial proliferativo e ex-
pressão gênica distintos, comparamos CTM de medula ós-
As células mesenquimais estromais multipotentes sea do adulto (CTM-MO), CTM de veia de cordão umbilical
(CTM) são células derivadas do mesoderma que podem ser (CTM-VCU) e CTM derivadas de cinco tecidos fetais (caró-
isoladas de diversos tecidos adultos e fetais. Estudos pré- tida, fáscia, fígado, gônada e pele). Observamos que CTM-
vios do nosso grupo isolaram CTM de medula óssea, veia MO, CTM-VCU e CTM derivadas de diversos tecidos fetais
de cordão umbilical, veia safena e, diversos tecidos fetais. (CTM- TF) apresentaram perfil imunofenotípico similar bem
Estas células apresentam perfil imunofenotípico caracterís- como capacidade de diferenciação in vitro em osteócito e
tico e potencial de diferenciação em osteócito, adipócito e adipócito. Nossos dados mostraram que as CTM-TF são
condrócito. As CTM podem ser utilizadas para as mais di- menores e possuem maior potencial proliferativo quando
versas aplicações na terapia celular em função da plastici- comparadas às CTM-MO e CTM-VCU. A partir de resulta-
dade, baixo risco de induzir tumores, do status imunológico dos de expressão gênica global de CTM-MO e CTM-VCU,

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escolhemos genes hiper ou hipoexpressos para serem ana- células na diferenciação osteogênica. O TGFβ1, potente imu-
lisados nas CTM. Os genes escolhidos estavam relaciona- nossupressor, estava mais expresso nas CTM-MO do que
dos ao homing (SDF1, CXCR4, VCAM1, ITGA4), à osteogê- nas CTM-TF. O VEGFC, por sua vez, encontrou-se mais
nese (RUNX2 e BMP2), à angiogênese (VEGFC) e à imuno- expresso nas CTM-MO e nas CTM-VCU do que nas CTM-
modulação (TGFβ1). A expressão gênica relativa mostrou TF. Estes achados indicam que as CTM possuem uma am-
que o SDF1 estava significativamente mais expresso nas pla distribuição no organismo, que as CTM-TF possuem
CTM-MO do que nas CTM-VCU e nas CTM-TF. Este resul- um maior potencial proliferativo e sugerem que as CTM-TF
tado significativo para o SDF1 nas CTM-MO pode estar e as CTM-VCU podem possuir uma maior habilidade migra-
relacionado com o suporte da hematopoese. O CXCR4 foi tória. Estes dados também sugerem que as CTM-MO po-
detectado em quase todas as CTM-TF, em todas as CTM- dem ser mais eficientes na osteogênese e como fonte imu-
VCU e não foi detectado em algumas CTM-MO. O VCAM1 nossupressora do que as CTM-TF na terapia celular. Por
encontrou-se mais expresso tanto nas CTM-MO quanto nas fim, estes resultados mostram que CTM obtidas de fontes
CTM-VCU quando comparadas às CTM-TF. O ITGA4 en- diferentes, embora semelhantes do ponto de vista imunofe-
controu-se mais expresso nas CTM-VCU do que nas CTM- notípico e funcional, apresentam diferenças morfológicas e
TF. O RUNX2, importante iniciador da osteogênese, assim na expressão de vários genes. Estas diferenças podem ser
como o BMP2, encontraram-se mais expressos nas CTM- decorrentes da especialização funcional do estroma que pode
MO do que nas CTM-TF, enfatizando a participação destas ocorrer nos diversos tecidos em decorrência de sua função.

INFLUÊNCIA DO TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE CÉLULAS TRONCO HEMATOPOÉTICAS SO-


BRE O COMPORTAMENTO FUNCIONAL DO PULMÃO E A RESPOSTA ATÓPICA

Elisa Cristina Vendramini Nogueira celular. Dosagem sérica de IgE total medida por Fluoro-
Orientador: Prof. Dr. João Terra Filho enzimaimunoensaio (Feia) no sistema UniCAP 100 (Pharmacia
Tese de Doutorado apresentada em 29/10/2008 & UpJohn Diagnostics AS, Uppsala, Suécia). Doadores e
receptores foram avaliados no período pré transplante. Nos
receptores as avaliações foram repetidas no D+100, D+180 e
Apesar do interesse crescente na investigação da um ano após o TCTH.
reconstituição do sistema imune após o transplante de célu- Resultados: Foram avaliados nove receptores e seus
las tronco hematopoéticas (TCTH) em humanos, há uma respectivos doadores. Não houve redução das capacida-
escassez de informação sobre a transferência da imunidade des e volumes pulmonares nas diferentes etapas estuda-
a um antígeno específico dos doadores aos receptores. das. A redução da capacidade de difusão pulmonar foi ob-
Objetivo: Avaliar a função pulmonar e a responsivi- servada em 44% dos receptores. Houve aumento dos fluxos
dade brônquica após o TCTH alogênico; verificar a influên- expiratórios máximos em 55% dos receptores após o HSCT.
cia da inibição ou transferência da resposta atópica cutânea Observamos hiperresponsividade em um receptor na avali-
entre receptores e doadores do TCTH alogênico. ação basal e no D+360. Esse mesmo receptor apresentou
Material: Foram avaliados 16 voluntários recepto- distúrbio ventilatório obstrutivo somente na avaliação basal.
res do TCTH alogênico e seus respectivos doadores, dos Observamos que, em cinco receptores (55%) que exibiam
quais sete foram posteriormente afastados do estudo por resposta atópica antes do TCTH, esta resposta se normali-
motivo de óbito e/ou sustação do TCTH. zou na avaliação realizada um ano após e não houve relação
Métodos: Questionário padrão para história de atopia. com a resposta do doador. O percentual de linfócitos no
Avaliação da função pulmonar (em espirômetro Collins mo- escarro induzido foi maior após o TCTH em comparação
delo GS Plus) com obtenção dos seguintes parâmetros: Vo- com a etapa basal.
lumes (inclusive residual) e capacidades pulmonares: capa- Conclusão: No grupo de pacientes estudados o
cidade vital forçada e fluxos expiratórios máximos; capaci- TCTH não induziu o aparecimento de distúrbio ventilatório.
dade de difusão pulmonar (DLCOSB). No estudo da res- Em metade dos pacientes houve queda da capacidade de
ponsividade brônquica (teste de broncoprovocação) utili- difusão pulmonar após o TCTH, queda esta que persistiu
zamos o cloreto de metacolina (Sigma) em doses crescentes até a avaliação ao término de um ano. Houve aumento dos
diluídas em solução salina tamponada, administrada pelo fluxos expiratórios máximos após o TCTH. O TCTH não es-
Sistema Koko Digi Doses, pds Instrumentation. Assim, ob- teve associado ao aumento da responsividade brônquica à
tivemos as curvas dose (concentração de metacolina mg/ metacolina mesmo nos pacientes que apresentaram OECH.
ml) x resposta (queda VEF1) e a concentração necessária Nossos resultados indicam sugerem que a normalização da
para provocar queda de 20% no volume expiratório forçado resposta atópica pode estar relacionada a um melhor con-
no primeiro segundo (PC20 VEF1). Teste Cutâneo (Prick Test) trole da produção de IgE pelos linfócitos T. Houve persis-
foi realizado para 19 alérgenos. Indução de escarro com so- tência de um maior percentual de linfócitos no escarro indu-
lução hipertônica foi empregada para caracterizar o perfil zido após o TCTH.

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EFEITOS DA PARACENTESE TERAPÊUTICA NOS PARÂMETROS DE FUNÇÃO PULMONAR EM PA-


CIENTES CIRRÓTICOS COM ASCITE TENSA
Lívia Maria Camargo Silva nar e dos gases sanguíneos arteriais. Seis pacientes do
Orientador: Prof. Dr. Alex Vainey Callado França sexo masculino, com idade média de 62 anos (de 46 a 72
Dissertação de Mestrado apresentada em 29/10/2008 anos) com diagnóstico de cirrose hepática e ascite tensa
foram incluídos neste estudo. Foram realizadas 15 avalia-
É frequente a presença de dispnéia em pacientes ções de prova de função pulmonar e 10 de gasometria arte-
cirróticos com ascite. Além disto, parâmetros de função rial antes e após a paracentese, para verificar os valores
respiratória podem estar alterados, bem como disfunção dos volumes e capacidades pulmonares e dos gases san-
alvéolo-capilar. Um desequilíbrio na relação ventilação/ guíneos arteriais. Houve melhora significativa nos valores
perfusão pode ser a principal causa destes achados. No da espirometria de capacidade vital, capacidade residual
tratamento da ascite, a paracentese terapêutica é um méto- funcional, volume de reserva expiratório e volume respira-
do seguro e eficaz para redução do líquido ascítico, sem tório forçado no primeiro segundo. Não houve mudança
que haja necessidade de permanência hospitalar. A utiliza- significativa nos valores dos gases sanguíneos arteriais.
ção deste método terapêutico parece interferir positivamen- Concluímos que, pacientes com cirrose e ascite tensa, apre-
te nos parâmetros de função pulmonar e de trocas gasosas. sentam diminuição dos volumes pulmonares e disfunção
Os objetivos deste estudo foram avaliar os parâmetros de alveolo-capilar leve, porem não foram notadas alterações
função pulmonar e dos gases sanguíneos arteriais de pa- nos valores dos gases sanguíneos arteriais. Após a
cientes cirróticos com ascite tensa e avaliar os efeitos da paracentese terapêutica, somente os valores de função pul-
paracentese terapêutica nos parâmetros de função pulmo- monar melhoraram significantemente.

ESTUDO DA ATIVAÇÃO DA COAGULAÇÃO E SUA RELAÇÃO COM AS CITOCINAS REGULADO-


RAS DA INFLAMAÇÃO NUM MODELO TRANSGÊNICO DE LEUCEMIA PROMIELOCÍTICA AGUDA

Maria Carolina Tostes Pintão ca utilizando seringa com citrato 3,2%, e o plasma obtido
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Magalhães Rego por centrifugação e estocado -80ºC até a realização dos
Tese de Doutorado apresentada em 29/10/2008 testes. A dosagem do TAT e da atividade do PAI1 foram
feitas por ELISA. As citocinas foram dosadas usando o
Introdução: A coagulopatia associada à leucemia teste "BDTM CBA Mouse Inflammation Kit" (do inglês,
promielocítica aguda (LPA) é caracterizada por ativação Cytometric Bead Array, kit inflamatório de camundon-
difusa da coagulação, fibrinólise e proteólise. Os blastos gos). A análise histológica foi realizada em cortes de medu-
da LPA produzem citocinas inflamatórias como TNF e IL1β, la óssea, baço, fígado, pulmão, rim, cérebro e coração inclu-
as quais regulam negativamente as propriedades anticoa- ídos em parafina e corados com HE, enquanto a deposição
gulantes do endotélio vascular normal e estimulam suas de fibrina foi avaliada por histoquímica usando a técnica da
propriedades pró-coagulantes. Entretanto, o papel in vivo hematoxilina ácida fosfotúngstica de Mallory (PTAH). Os
das citocinas pró-inflamatórias na coagulopatia associada dados foram expressos pela mediana (25º-75º percentis), as
à LPA é desconhecido. Camundongos transgênicos hCG- comparações entre animais leucêmicos e controles foram
PML/RARα desenvolvem uma forma de leucemia mielóide feitas pelo método de Mann-Whitney (bicaudal), e as cor-
aguda semelhante a LPA humana do ponto de vista morfo- relações entre as variáveis por meio da correlação de
lógico, molecular e quanto a resposta a diferentes terapias, Pearson.
entretanto nenhum estudo até hoje determinou se há e quais Resultados: Os níveis plasmáticos do TAT estavam
são as alterações da hemostasia neste modelo. elevados nos animais leucêmicos em comparação aos sel-
Objetivos: a) investigar a existência de alterações vagens [48,1 ng/ml (37,7 ng/ml - 61,4 ng/ml) versus 17,7 ng/
laboratoriais sugestivas de coagulação intravascular dis- ml (10,9 ng/ml - 34,3 ng/ml) respectivamente; p=0,010]. Ati-
seminada (CIVD) por meio da dosagem do complexo vidade do PAI1 também estava elevada nos animais leucê-
trombina-antitrombina (TAT) e do inibidor do ativador do micos em comparação aos controles [10,4 ng/ml (2,3 ng/ml
plasminogênio-1 (PAI1); b) pesquisar a presença de trombos - 21,5 ng/ml) versus 0,8 ng/ml (0,6 ng/ml - 1,5 ng/ml), respec-
e/ou hemorragia por meio da análise histopatológica e da tivamente; p=0,002]. Análise histológica confirmou o diag-
histoquímica; c) determinar os níveis séricos de citocinas nóstico de leucemia, mas não houve sinais de trombose ou
pró e antiinflamatórias (IL6, IL10, MCP1, INFγ, TNF e sangramento nos cortes analisados. Também não houve
IL12p70); d) correlacionar estes parâmetros (quando alte- sinais de deposição de fibrina pela coloração PTAH. Den-
rados) com o tamanho da massa tumoral. Métodos: Foram tre as citocinas avaliadas apenas os níveis de TNF foram
avaliados 12 animais leucêmicos e 22 animais selvagens significativamente diferentes nos animais leucêmicos em
como controles. O sangue foi coletado por punção cardía- comparação aos controles [18.7 pg/ml (13,8 pg/ml - 26,6 pg/

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ml) versus 3,9 pg/ml (3,5 pg/ml - 5,8 pg/ml) em leucêmicos e do PAI1, mas sem evidências histológicas de deposição de
controles respectivamente; p<0,002]. Os níveis do TAT não fibrina. Níveis aumentados de TNF também foram detecta-
se correlacionaram aos do TNF, ao peso do baço (expresso dos, e correlacionaram-se diretamente com os níveis de PAI1.
como fração do peso corporal) ou ao número de blastos na Estes dados sugerem que o TNF, mas não as demais citoci-
medula óssea. Ao contrário observamos correlação direta nas testadas, tem papel relevante na patogênese da LPA.
entre os níveis de PAI1 e o TNF (p=0,008). Conclusões: Além disto, nossos resultados demonstraram a utilidade
Demonstramos pela primeira vez que os camundongos do modelo transgênico para o estudo da fisiopatologia da
transgênicos hCG-PML/RARα leucêmicos apresentam ati- coagulopatia associada à LPA, e sendo de valia no desen-
vação espontânea da coagulação com elevação do TAT e volvimento de novas intervenções terapêuticas.

ESTRESSE ORGÂNICO E ATIVIDADE ANTI E PRÓ-OXIDANTE NA QUEIMADURA AGUDA E NO


PÓS-OPERATÓRIO DE CIRURGIA REPARADORA DE SEqueLAS DO TRAUMA TÉRMICO

Paula Pileggi Vinha pelo aumento das proteínas de fase aguda como a PCR
Orientadora: Profª. Drª. Selma Freire de Carvalho da Cunha [8,76 (0,91 -34,54) vs 0,40 (0,01 -0,97)mg/dL, p=0,0004] e
Dissertação de Mestrado apresentada em 31/10/2008 ferritina (254,45 ± 84,25 vs 145,10 ± 88,80ng/mL, p=0,014),
além da diminuição da albumina (3,55 ± 0,65 vs 4, 16 ± 0,26g/
Introdução: O estresse orgânico decorrente da quei- dL, p=0,004), da transferrina (110,67 ± 55,13 vs 238,70 ±
madura é intenso e prolongado. O hipercatabolismo e o 67,99mg/dL, p=0,0003), do colesterol (126,82 ± 32,19 vs
hipermetabolismo secundários alteram o sistema de pró e 193,75 ± 51,64mg/dL, p=0,002) e triglicérides séricos (95,54
antioxidantes. Pela necessidade de reepitelização da área ± 36,84 vs 168,75 ± 54,83mg/dL, p=0,003), ferro [30,00 (6,00-
doadora e receptora, a cirurgia reparadora pode desenca- 73,00) vs 109,00 (70,00 -252,00)lJg/dL, p=0,0004] e zinco
dear ou perpetuar o estresse oxidativo. (63,55 ± 23,34 vs 92,72 ± 16,65mg/dL, p=0,014). O estresse
Objetivos: Em pacientes vítimas de trauma térmico oxidativo diminuiu os níveis séricos das vitaminas C [0,45
agudo (Grupo Queimadura) e naqueles em pós-operatório (034-1,30) vs 0,93 (0,48 - 1,30)mg/dL, p=0,016], A (1,55 ± 0,87
de sequelas de queimaduras (Grupo Sequela), comparar o vs 3,35 ± O,72lJmol/L, p=0,0002) e da vitamina E (9,49 ± 3,4
estresse oxidativo e os níveis de anti e pró-oxidantes com vs 4,96 ± 1,60lJmol/g lipídeo, p=0,003). Não houve modifi-
os obtidos no pré-operatório de pacientes com sequelas de cação nos níveis do GSH [40,37 (30,27 -87,46 ) vs 49,90
queimaduras (Grupo Controle). (10,09 - 54,95)lJmol/L, p= 0,48] e do MOA [1,75 (1,15 -2,74)
Casuística e métodos: O estudo foi conduzido na vs 1,77 (1,62 -6,82nmol/g proteína), p=0,043]. O procedi-
Unidade de Queimados do HCFMRP-USP. O Grupo Quei- mento cirúrgico para correção das sequelas de queimadu-
madura (n=11) incluiu pacientes com ≤ 48 horas do trauma ras determinou aumento da proteína C reativa [0,40 (0,01 -
térmico agudo, SCQ ≥ 10%. Os pacientes que necessitaram 0,97) vs 2,53 (0,56 -4,70)mg/dL, p=O,O1], mas não alterou
de correção cirúrgica das sequelas do trauma térmico, ocor- os níveis de anti e pró-oxidantes, exceto a diminuição dos
rido ≥ 1ano (n=8), foram avaliados no pré-operatório (Gru- níveis séricos de vitamina A (3,35 ± 0,72 vs 2,52 ± 0,90~mol/
po Controle) e após 48 horas-da cirurgia (Grupo Sequela). L, p=0,006).
Todos os voluntários foram submetidos à antropometria e Conclusões: O estresse orgânico decorrente do trau-
quantificação da ingestão alimentar. Foi realizada a avalia- ma térmico agudo diminuiu as respostas anti-oxidantes. Ex-
ção laboratorial do estado nutricional, dos marcadores da ceto pela queda nos níveis séricos de vitamina A, a cirurgia
atividade inflamatória e dos anti e pró-oxidantes. para correção das cicatrizes das queimaduras acarretou es-
Resultados: Em pacientes vítimas de trauma térmico tresse orgânico, sem modificação na resposta anti e pró-
agudo, foi documentado estresse orgânico caracterizado oxidante.

PROGRAMAS DE HIDROGINÁSTICA PARA PERDA DE PESO E MELHORA DE PERFIL METABÓ-


LICO EM OBESAS

Renata Pereira Calhau na busca por perda de peso, especialmente por grandes
Orientadora: Profª. Drª. Paula Garcia Chiarello obesos. Neste trabalho, foram comparados os efeitos de
Dissertação de Mestrado apresentada em 31/10/2008 dois tipos de programas de hidroginástica (contínuo e
intervalado) em tempos inicial e final para as variáveis: peso,
A hidroginástica é uma modalidade de exercício com composição corporal, gasto energético de repouso, parâ-
mínimo impacto em articulações, frequentemente utilizada metros bioquímicos, registro alimentar e qualidade de vida.

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Foram selecionadas 27 mulheres entre 30 e 53 anos, com para reduções de peso, IMC, massa gordurosa, circunfe-
IMC entre 30 e 54,2 Kg/mm2, acompanhadas em dois pro- rência do braço, circunferência do quadril, circunferência
gramas: Grupo A, hidroginástica com exercícios contínuos da coxa, gasto energético de repouso e aumentos nos as-
de intensidade moderada, duração de dois meses com 3 pectos sociais, dor e vitalidade. No grupo B, quando com-
sessões por semana; e Grupo B: hidroginástica com exercí- parados T0 e T1, foi apresentada diferença significativa
cios intervalados de intensidade alta, com mesma duração para reduções de massa gorda, circunferência do braço,
e quantidade de sessões. Antes e ao final dos programas ingestão de energia total e carboidratos, e aumentos nos
foram realizados exames de calorimetria indireta, coletados aspectos vitalidade e estado de saúde e na glicemia de je-
dados antropométricos (peso, altura, e circunferências), jum, embora esta tenha se mantido dentro dos níveis de
sangue em jejum para análise de glicemia e perfil lipídico e normalidade, conforme preconizado. Não foram observa-
aplicado registro alimentar e questionário de qualidade de das outras alterações significativas em medidas corporais
vida SF-36. As voluntárias não foram orientadas a fazer e parâmetros bioquímicos após ambos os programas. Exer-
dieta hipocalórica durante a intervenção da hidroginástica, cícios contínuos na água, de intensidade moderada, são
porém foram convidadas a assistir quatro aulas de 50 minu- mais eficientes para perda de peso e massa de gordura do
tos sobre a importância da reeducação alimentar após qua- que exercícios intervalados na água, de intensidade alta; e
tro semanas de intervenção. Foi utilizado um modelo de em geral, programas curtos de hidroginástica, sem restri-
Wilcoxon para analisar e comparar os dados, considerando ção energética orientada, são ineficientes para se alcançar
p < 0,05 para resultados estatisticamente significativos. perda de peso considerável, mudança em gasto energético
Quando comparado o valor das médias nos tempos inicial ou alterações em glicemia e lipídios sanguíneos, mas pode
(T0) e final (T1) houve diferença significativa no grupo A melhorar a vitalidade para os praticantes.

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE CRÂNIO NO ATENDIMENTO AO TRAUMATIZADO NUM SER-


VIÇO UNIVERSITÁRIO: CORRELAÇÕES ENTRE NÍVEIS DE GRAVIDADE, INDICAÇÕES E CUSTOS

Marcus Vinicius Nascimento Valentin atendidos na Unidade de Emergência, foram realizados 1123
Orientadora: Profª. Drª. Ângela Delete Bellucci exames de TC de crânio em 763 pacientes no ano de 2005.
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/11/2008 Os índices de trauma, que são sistemas de pontuação cria-
dos para avaliar as alterações fisiológicas, a gravidade das
O trabalho consiste na caracterização do nível de lesões anatômicas e a probabilidade de sobrevida dos pa-
gravidade e na investigação radiológica utilizada no aten- cientes traumatizados, também foram coletados neste estu-
dimento ao paciente traumatizado, por meio da análise sis- do. Os índices usados foram o RTS (Revised Trauma Score),
temática de todas as tomografias computadorizadas de crâ- o ISS (Injury Severity Score) e o TRISS (Trauma Score and
nio realizadas em pacientes vítimas de trauma, atendidos Injury Severity Score). Os resultados do estudo foram ob-
ao longo do ano de 2005. Trata-se de estudo retrospectivo, tidos por meio da coleta de dados dos índices de trauma,
em que foram analisados todos os pacientes de todas as que foram correlacionados com os resultados das tomo-
faixas etárias atendidos na Sala de Trauma da Unidade de grafias de crânio, pontuação na escala de coma de Glasgow
Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Me- e custos dispendidos com estes exames. Assim, foi possí-
dicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, no vel caracterizar o perfil de gravidade do trauma cranioence-
período de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2005. A média fálico como leve (Glasgow 14-15), moderado (Glasgow 9-
mensal de atendimento foi de 228 traumatizados, tendo sido 13) e grave (3-8), inclusive com análise pormenorizada na
analisados um total de 2735 prontuários. Foram excluídos população pediátrica (≤ 12 anos) e idosa (≥ 60 anos), que
do estudo os pacientes traumatizados que faleceram antes costumam trazer consequências graves para serviços de
da realização de qualquer avaliação radiológica e pacientes atendimento a trauma. Depois da análise dos dados coleta-
sem registro no sistema de laudos de tomografia de crânio dos, observamos que o número de solicitações de tomografia
emitidos eletronicamente. Os objetivos do estudo foram de crânio em pacientes com pontuação 15 na escala de coma
caracterizar a gravidade dos pacientes em termos de índi- de Glasgow foi elevado, quando comparamos com os crité-
ces de trauma, avaliar as indicações e o resultado das to- rios recomendados pela literatura médica científica, assim
mografias de crânio por meio dos relatórios eletrônicos emi- como as solicitações para exames-controle, que também foi
tidos e estimar os custos, em moeda nacional, dispendidos exagerada, pois nem sempre houve constatação de piora
com o número de exames tomográficos de crânio solicita- do estado neurológico do paciente que justificasse a soli-
dos para o traumatizado, seguindo os protocolos básicos citação de novo exame. O trabalho conclui que o uso da
recomendados pelo ATLS® e a literatura médica científica tomografia de crânio na admissão hospitalar não deve ser
disponível. Do total de 2735 pacientes vítimas de trauma utilizado em pacientes assintomáticos com pontuação 15

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na escala de coma de Glasgow, optando-se por conduta observação do paciente com TCE. Desta maneira, os recur-
observatória/expectante e que exames-controle apenas de- sos financeiros, humanos e tecnológicos poderão ser mais
vem ser solicitados quando houver piora clínica durante a bem aproveitados.

CONCENTRAÇÕES DE ÁCIDOS GRAXOS E DE AMINOÁCIDOS EM TECIDO TUMORAL E TECI-


DO NORMAL ADJACENTE DE PACIENTES COM CARCINOMA ESPINOCELULAR DE MUCOSA DE
CABEÇA E PESCOÇO

Izabel de Arruda Leme extração dos lipídeos e dos aminoácidos livres foi realizada
Orientador: Prof. Dr. Júlio Sérgio Marchini pelo método de Folch. A determinação de ácidos graxos
Dissertação de Mestrado apresentada em 02/12/2008 livres e totais foi realizada por cromatografia gasosa/es-
pectrometria de massa. A análise de aminoácidos foi reali-
A alta taxa de replicação celular no tumor, aumenta a zada por cromatografia gasosa com detector de chama. A
demanda de ácidos graxos para composição de membrana e avaliação nutricional incluiu: aferição de peso, estatura,
de nucleotídeos para síntese de DNA. Visto que a síntese dobras cutâneas e exame de impedância bioelétrica para
de ambos depende de intermediários do ciclo de Krebs e estimativa de composição corporal, além de avaliação da
que no tumor a maior parte da glicose disponível é conver- ingestão alimentar por questionário de frequência alimen-
tida a ácido lático (e não a acetil-coA, como ocorre na célu- tar. Não foi verificada diferença na concentração de lipídeos
la normal), a glutamina passa a ser a principal fonte de inter- totais e dos ácidos palmítico, esteárico e oléico. Quanto à
mediários do ciclo de Krebs para síntese de ácidos graxos e análise de aminoácidos, apenas a alanina, metionina e a
de nucleotídeos. Além da glutamina, outros aminoácidos lisina não mostraram diferença entre tecido tumoral e nor-
têm seu metabolismo alterado no tumor. Assim, os objeti- mal. Os demais aminoácidos apresentaram-se aumentados
vos do trabalho foram comparar o perfil de ácidos graxos e no tumor em relação à margem. A extração de aminoácidos
de aminoácidos em tecido tumoral e tecido normal adjacen- a partir do método de Folch (desenvolvido para extração de
te de pacientes com carcinoma espinocelular de mucosa de lipídeos) possibilita a determinação de ácidos graxos e de
cabeça e pescoço, quantificar lipídeos totais nas amostras aminoácidos livres em fragmentos bastante reduzidos de
e avaliar o estado nutricional dos pacientes. Participaram tecido, como, por exemplo, material obtido a partir de biópsia.
da pesquisa pacientes internados junto ao Serviço de Ci- O estado nutricional dos pacientes variou de eutrofia a
rurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da sobrepeso, predominando excesso de gordura corporal, ava-
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. As amos- liado por impedância bioelétrica. A ingestão alimentar de
tras de tecido tumoral e de tecido normal foram coletadas macronutrientes mostrou-se adequada na maior parte da
durante procedimento cirúrgico, após excisão do tumor. A população avaliada.

ESTUDO DOS GENES DA PROOPIOMELANOCORTINA E DO RECEPTOR DA MELANOCORTINA


4 EM PACIENTES COM OBESIDADE DESDE A INFÂNCIA

Daniela de Godoy Nery 45% do sexo feminino) com idade de 11,9 ± 4,2 anos (0,8 -
Orientador: Profª. Drª. Lucila Leico Kagohara Elias 21,2 anos) com início de obesidade anteriormente aos 10
Dissertação de Mestrado apresentada em 04/12/2008 anos de idade, acompanhados no Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP e 88 indiví-
A regulação da homeostase energética envolve o duos controles com peso normal e sem história familiar de
hipotálamo e a participação de circuito de sinais orexígenos diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Nos pacientes foi realizada
e anorexígenos. Entre esses últimos, destaca-se a participa- coleta das amostras de sangue para análise bioquímica e
ção do sistema da melanocortina em que o α-MSH, molecular, enquanto que nos indivíduos controles realizou-
neuropeptídeo derivado da proopiomelanocortina (POMC), se apenas a análise molecular. A resistência à insulina foi
tem efeitos anorexígenos que são mediados pelo receptor 4 estimada pelo índice de resistência insulínica Homeostasis
da melanocortina (MC4-R). Mutações e polimorfismos nes- Model Assessment (HOMA-IR) e pela relação glicose/insu-
tes genes têm sido associados à obesidade grave de início lina. No presente estudo 42% dos pacientes avaliados se
precoce. Os objetivos do presente estudo foram avaliar a tomaram obesos no primeiro ano de vida. A obesidade gra-
ocorrência de co-morbidades e realizar a análise molecular ve (Score Z do IMC > 3) foi encontrada em 16% dos casos.
dos genes POMC e MC4R em pacientes com obesidade de Doenças relacionadas à obesidade tiveram uma frequência
início precoce. Foram incluídos 88 pacientes obesos (41/ elevada, com HAS em 38%, dislipidemia (DLP) em 63%, DM2

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em 5%, GJA em 8%, hiperinsulinemia em 36% e resistência sos e um polimorfismo, g.700G > A (p. Val103lle; rs2229626;
insulínica (HOMA-IR) em 51% dos casos. A concentração frequência alélica de 0,0056), em um indivíduo controle. As-
plasmática de leptina foi maior nos pacientes do sexo femi- sim, o presente estudo indica que a obesidade de início
nino, não havendo diferença entre o estádio puberal, tanto precoce está associada à resistência insulínica, dislipidemia
entre as meninas quanto entre os meninos. Foram encon- e hipertensão arterial sistêmica. Portanto, medidas de inter-
trados dois polimorfismos no gene POMC, g.4512C > T venção nutricional e mudança de estilo de vida devem ser
(p.=Cys6Cys; rs8192605; frequência alélica de 0,0056) e introduzidas precocemente, visando a redução de co-
g.8246C > T (rs1042571; frequência alélica de 0,0056), em morbidades associadas à síndrome metabólica na vida adul-
pacientes obesos e duas alterações no gene MC4R, g.497A ta. Neste grupo de pacientes com obesidade desde a infân-
> G (p. Tyr35Cys; frequência alélica de 0,0056) e g.987C > T cia mutações ou polimorfismos nos genes POMC e MC4R
(p.=lle198lIe; frequência alélica de 0,012), em pacientes obe- não foram encontrados em frequência significativa.

DISTRIBUIÇÃO DE GORDURA CORPORAL E PERFIL METABÓLICO EM OBESAS COM


SÍNDROME DO OVÁRIO POLICÍSTICO

Fernanda Rodrigues de Oliveira Penaforte dos segmentos do braço, perna e tronco. A tomografia com-
Orientadora: Profª. Drª. Paula Garcia Chiarello putadorizada foi realizada para avaliar a gordura abdomi-
Dissertação de Mestrado apresentada em 04/12/2008 nal, visceral, do tronco e da perna. Não foram observadas
diferenças em nenhum dos parâmetros antropométricos e
de composição corporal avaliados entre os grupos SOP e
A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é uma das grupo controle. Mesmo estando em uso de medicamento
desordens endócrinas mais comuns no gênero feminino, para melhora da sensibilidade à insulina, 64,5% das mulhe-
afetando entre 5-10% das mulheres em idade reprodutiva. res com SOP apresentaram exames compatíveis com RI. Mu-
Grande parte das mulheres com diagnóstico de SOP, entre lheres obesas com SOP e RI apresentaram maiores quanti-
50-90% (dependendo do critério diagnóstico utilizado), apre- dades de gordura visceral (78,4 ± 23,5g x 60,2 ± 20,3g) e
senta resistência a insulina (RI), e tal quadro torna-se mais gordura no tronco (374,0 ± 78,1g x 282,4 ± 83,4g), ambas
grave na presença de obesidade. Diante disto, o objetivo do avaliadas pela TC, do que as sem RI, além de apresentarem
trabalho foi avaliar a composição corporal total e segmenta- menores quantidades de gordura na região do braço (16,0 ±
da, especialmente em região abdominal, e suas relações com 2,6kg x 18,1 ± 2,1kg). O consumo alimentar das mulheres
o perfil metabólico de mulheres obesas com Síndrome do com SOP mostrou inadequado principalmente em relação ao
Ovário Policístico. A amostra foi composta por 31 indivídu- consumo abaixo do recomendado de fibras, cálcio e folato e
os com SOP, obesas e com RI. Foram também avaliadas 15 distribuição dos tipos de lipídios na dieta (alto consumo de
mulheres obesas sem SOP (grupo controle), controladas em gorduras saturadas e baixo de gorduras mono e poli-
relação à idade, peso e lMC, para comparação das variáveis insaturadas). Os resultados do trabalho indicam que o acú-
relacionadas à composição corporal perfil metabólico. Rea- mulo de gordura no gênero feminino parece estar sendo
lizaram-se medidas antropométricas de peso, estatura, cál- preferencialmente localizado na região central do corpo, in-
culo do IMC, circunferências da cintura, abdômen, quadril, dependente da presença da SOP. Já a presença de RI asso-
tronco e pescoço e a avaliação da composição corporal, ciada à SOP foi acompanhada de aumentos da adiposidade
feita pelo método da impedância bioelétrica (BlA) total e tanto na região visceral quanto do tronco.

ETIOPATOGENIA DA OSTEODISTROFIA HEPÁTICA: ANÁLISE BIOMECÂNICA, HISTOMORFO-


MÉTRICA E IMUNOISTOQUÍMICA DE FATOR I DE CRESCIMENTO SEMELHANTE À INSULINA
(IGF-I) E DE RECEPTOR DE HORMÔNIO DE CRESCIMENTO (R-GH), EM MODELO EXPERI-
MENTAL DE COLESTASE

Francisco de Assis Pereira meio de ensaio biomecânico, de histomorfometria óssea e


Orientador: Prof. Dr. Francisco José Albuquerque de Paula de imunoistoquímica de IGF-I e de R-GH em tecido hepático
Tese de Doutorado apresentada em 08/12/2008 e em cartilagem de crescimento a etiopatogenia da OH. Qua-
renta e seis ratos machos da linhagem Wistar foram dividi-
dos em dois grupos: grupo controle operado (GCO: n = 23)
A fisiopatologia da osteodistrofia hepática (OH) per- e grupo colestase (GCol: n = 23). Os animais foram sacrifi-
manece pouco compreendida. Nosso objetivo foi avaliar por cados no 30º dia pós-operatório. A imuno-istoquímica de

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IGF-I e de R-GH foi realizada em tecido hepático e em carti- ção, caracterizando distúrbio de mineralização. As concen-
lagem de crescimento da tíbia esquerda; a análise histo- trações séricas de IGF-I foram menores no sacrifício quan-
morfométrica foi realizada na tíbia direita e o ensaio biome- do comparado ao basal no GCol (Início do experimento: GCol
cânico foi realizado no fêmur direito. Todos os animais do = 1816 ± 336 vs Final do experimento: GCol = 1062 ± 191 ng/
grupo colestase apresentaram alterações histopatológicas ml; p < 0,0001). Este grupo apresentou maior expressão de
compatíveis com cirrose biliar secundária. A rigidez e a for- IGF-I (p < 0,0002) e menor expressão de R-GH (p < 0,0001) no
ça máxima para ocasionar a fratura na diáfise do fêmur fo- tecido hepático do que o grupo GCO. Na cartilagem de cres-
ram respectivamente, 24% (p < 0,01) e 53% (p < 0,003) me- cimento, a expressão de IGF-I (p < 0,0001) e R-GH (p < 0,04)
nor no GCol comparado ao GCO. A avaliação histomorfo- foram significativamente maiores no GCO. Nossos dados
métrica mostrou menor volume ósseo trabecular e menor reforçam que a osteoporose é o principal componente da
conectividade no GCol, compatível com osteoporose. Este OH e que alterações no sistema IGF-I endócrino e parácrino
grupo também mostrou aumento no tempo de mineraliza- têm papel chave neste processo.

ESTUDO DO POLIMORFISMO GENÉTICO Val/Leu247 DA β2-GLICOPROTEÍNA I EM PACIENTES


COM SÍNDROME DO ANTICORPO ANTIFOSFOLÍPIDE

Juliana Maria Pernambuco Clímaco foi determinado pela reação da polimerase em cadeia e di-
Orientador: Prof. Dr. Paulo Louzada Júnior gestão de seu produto por enzima específica. A presença
Dissertação de Mestrado apresentada em 10/12/2008 de anticorpos anti-β2GPI foi detectada por teste imunoen-
zimático (ELISA). Foi utilizado o teste exato de Fischer para
A Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) é análise dos resultados. Observou-se aumento na frequên-
caracterizada por eventos trombóticos arteriais e/ou veno- cia do alelo V e do genótipo VV no grupo total de pacientes
sos e/ou complicações obstétricas associados à persisten- com SAF em comparação com o grupo controle (P = 0,0068;
te presença de anticorpos antifosfolípides. A β2-glicopro- OR = 1,781 e P < 0,0001; OR = 6,413, respectivamente). Os
teína I (β2GPI) é o principal auto-antígeno para a produção pacientes com trombose arterial e venosa apresentaram o
de anticorpos antifosfolípides envolvidos na doença. Es- genótipo VV significativamente mais frequente que o gru-
tudos prévios sugerem que o polimorfismo genético da po controle saudável (52% e 44%, respectivamente, vs.
β2GPI pode influenciar a produção de auto-anticorpos na 13%). Os pacientes com SAF com anticorpos anti-β2GPI
SAF. O presente trabalho tem por objetivo estudar o poli- presentes apresentaram o genótipo VV mais frequentemente
morfismo do códon 247 do gene que expressa a β2GPI em que o controle saudável (P < 0,0001; OR = 8,179). Os resul-
61 pacientes com SAF primária e 33 pacientes com SAF tados deste estudo sugerem que o genótipo VV do códon
secundária e em 100 controles, e sua associação com as 247 do gene da β2GPI pode desempenhar papel na produ-
manifestações clínicas e laboratoriais da SAF, incluindo os ção de anticorpos anti-β2GPI e, talvez, na expressão de trom-
anticorpos anti-β2GPI. O polimorfismo genético Val/Leu247 bose arterial e venosa nos pacientes com SAF.

EXPRESSÃO GÊNICA DIFERENCIAL EM TUMORES HIPOFISÁRIOS SECRETORES DE ACTH

Fernando Colbari do Amaral para selecionar genes candidatos envolvidos no processo


Orientadora: Profª. Drª. Margaret de Castro de tumorigênese; validar alguns dos genes candidatos di-
Tese de Doutorado apresentada em 15/12/2008 ferencialmente expressos; analisar a expressão relativa de
um painel de miRNAs nas amostras de corticotrofinomas
Introdução: A patogênese dos tumores hipofisários em comparação ao tecido normal; analisar a associação de
tem sido extensivamente estudada, porém ainda é pouca genes e miRNAs diferencialmente expressos com diâmetro
esclarecida. São descritas alterações em genes que contro- tumoral e remissão após-cirurgia transesfenoidal.
lam o ciclo celular, em genes envolvidos na diferenciação e Material e Métodos: utilizamos a técnica de análise
no desenvolvimento hipofisário, na apoptose, além de fa- seriada da expressão gênica (SAGE). Para confecção das
tores hipotalâmicos e de crescimento. Recentemente, a ex- bibliotecas de cDNA três amostras de hipófises normais e
pressão diferencial de microRNAs (miRNAs) também tem duas de corticotrofinomas foram utilizadas. Por análise de
sido associada à tumorigênese hipofisária. bioinformática, selecionamos os genes diferencialmente ex-
Objetivos: avaliar a expressão gênica diferencial em pressos T-PIT, RASD1, GLUL, PCDH21, GJA1, F11R e DLK1
corticotrofinomas em relação ao tecido hipofisário normal, para validação por PCR em tempo real (qPCR). A expessão

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dos miRNAs let-7a, miR-15a, miR-16, miR-21, miR-141, miR- TPIT; a expressão de miR-21 apresentou uma correlação
143, miR-145 e miR-150 também foi analisada por qPCR. Para negativa com as de TPIT, RASD1 e GLUL; a expressão de
validação desses genes e miRNAs foram utilizadas 14 amos- miR-141 apresentou uma correlação negativa com a de GLUL
tras tumorais e 7 hipófises normais. e de GJA1, além de uma correlação positiva com a de DLK1.
Resultados: Não houve validação dos genes T-PIT, As expressões de miR-15a, miR-143, miR-145 e miR-150 não
RASD1, GLUL, PCDH21, GJA1, F11R nas amostras de apresentaram correlação com as de nenhum dos genes es-
corticotrofinomas pela qPCR; o gene DLK1 apresentou uma tudados.
hipo expressão em relação ao tecido normal. Não houve Conclusões: Nossos resultados demonstram que o
associação entre a expressão de nenhum desses genes com critério de escolha dos genes diferencialmente expressos
tamanho tumoral ou remissão pós-cirurgia. Nosso trabalho não foi útil para validação dos possíveis genes envolvidos
demonstrou uma redução significativa da expressão dos na gênese dos corticotrofinomas. A expressão reduzida dos
miR-145 (1,8x), miR-21 (2,2x), miR-141 (2,8x), miR-150 (3,2x), miRNAs e a associação da expressão de alguns deles com
let-7a (3,4x), miR-16 (4,6x), miR-15a (5,0x) e miR-143 (8,0x) genes envolvidos na proliferação e diferenciação celular,
nas amostras de corticotrofinomas em relação ao tecido assim como com remissão e tamanho tumoral sugerem um
normal. Houve uma associação entre a expressão do miR- possível papel dos mesmos na tumorigênese corticotrófica.
141 e remissão pós-cirurgia, assim como a expressão do Entretanto, a necessidade de aprimoramento na seleção de
miR-143 e tamanho tumoral. Observamos, ainda, uma corre- genes candidatos diferencialmente expressos e o desco-
lação negativa da expressão de let-7a com a de GLUL e uma nhecimento de genes alvo para cada miRNA dificultam o
correlação positiva com a expressão de DLK1; a expressão entendimento das funções biológicas desses genes e dos
de miR-16 apresentou correlação negativa apenas com a de miRNAs na tumorigênese corticotrófica.

AVALIAÇÃO DO EFEITO DA TIAMINA OU BENFOTIAMINA SOBRE SISTEMA ANTIOXIDANTE


HEPÁTICO EM MODELO EXPERIMENTAL AGUDO DE ALCOOLISMO

Guilherme Vannucchi Portari Assim este estudo verificou o papel da tiamina ou benfo-
Orientador: Prof. Dr. Alceu Afonso Jordão Júnior tiamina no sistema antioxidante hepático em ratos com in-
Tese de Doutorado apresentada em 15/12/2008 toxicação aguda por etanol. Verificou-se que o tratamento
com tiamina e benfotiamina teve influencia no metabolismo
Os mecanismos propostos para a gama de ações do etanol ficando este mais circulante sem metabolização.
deletérias provocadas pelo etanol são decorrentes de alte- Os tratamentos foram eficazes em aumentar os valores he-
rações bioquímicas ocorridas nos hepatócitos tais como: páticos de tiamina, o que resultou em diminuição dos da-
1) aumento da geração de radicais livres; 2) produção exa- nos hepáticos e diminuição de vitaminas antioxidantes do
cerbada de intermediários de alta reatividade vindos de fígado. Além disso, a benfotiamina foi capaz de aumentar
peroxidação de macromoléculas, e 3) depleção de substân- em 25 vezes os níveis eritrocitários de tiamina não fosfatada
cias da defesa antioxidante. A utilização de antioxidantes em relação à administração de tiamina hidrocloreto. Desta
visando restaurar o sistema antioxidante é uma das linhas maneira ficou constatada a atividade antioxidante da tiamina
de tratamento para os danos provocados pelo etanol. Re- frente ao estresse oxidativo provocado pela intoxicação
centemente, estudos têm apontado para um possível papel aguda por etanol e a alta biodisponibilidade da benfotiami-
antioxidante da tiamina e benfotiamina com efeitos benéfi- na. Assim sendo seria recomendada a utilização da benfo-
cos principalmente em doenças crônicas-degenerativas. tiamina como antioxidante mais biodisponível que a tiamina.

ESTUDO VIDEOFLUOROSCÓPICO DA DEGLUTIÇÃO NA DOENÇA DE CHAGAS

Carla Manfredi dos Santos entretanto, alterações orofaringenas têm sido demonstra-
Orientador: Prof. Dr. Roberto Oliveira Dantas das nestes pacientes.
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/12/2008 Objetivo: Estudar as fases oral e faringeana da de-
glutição em pacientes com sorologia positiva para doença
Introdução: As alterações motoras do esôfago pre- de Chagas e comparar com indivíduos voluntários assinto-
sentes na doença de Chagas podem ocasionar sintomas de máticos.
alteração da deglutição como a disfagia. A disfagia na do- Metodologia: Foram estudados 17 pacientes com
ença de Chagas está relacionada ao envolvimento esofágico, doença de Chagas (idades entre 31-67 anos, média 53,3

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anos) e 15 sujeitos saudáveis (idades entre 35-69 anos, gásico realizou manobras de deglutição múltipla nas con-
média 55,2). Todos os doentes apresentavam queixa de sistências líquida e pastosa em comparação ao grupo sau-
disfagia e possuíam o diagnóstico de megaesôfago a partir dável (p < 0,01). Os pacientes com megaesôfago grau II
da radiografia contrastada. Os dois grupos responderam a apresentaram mais queixa de alteração respiratória durante
um questionário sobre a história pregressa da queixa de a deglutição (p < 0,05) e de perda de peso (p < 0,0 1) quando
deglutição e posteriormente foram submetidos a uma avali- comparados aos pacientes com megaesôfago grau I. O exa-
ação clínica fonoaudiológica. Após este procedimento, foi me videofluoroscópico mostrou diferenças estatísticas sig-
realizado o exame videofluoroscópico da deglutição a fim nificativas para os seguintes tempos das variáveis estuda-
de observar sua conformação anatômica e funcional, com das: trânsito oral, trânsito faríngeo, trânsito pelo esfincter
registro na velocidade de 60 quadros por segundo. Foram superior do esôfago, depuração faringeana e trânsito oro-
realizadas deglutições em duplicata nos volumes de 5 e 10 faringeano (p < 0,05), sendo o tempo mais prolongado para
ml de sulfato de bário na consistência líquida e pastosa, o grupo de doentes. Essas diferenças foram encontradas
nos dois grupos. Este exame permitiu analisar a deglutição para a consistência pastosa e no volume de 10ml, exceto
de forma qualitativa e quantitativa, sendo possível a obser- para o TOF cuja diferença também ocorreu para a consis-
vação dos seguintes parâmetros: movimento da base da tência líquida, no volume de 5ml e no TO, na consistência
língua, trânsito oral, trânsito faríngeo, duração do movi- líquida e no volume de 10ml. Qualitativamente, houve so-
mento do osso hióide, trânsito pelo esfincter superior do bra de resíduo oral na deglutição de pastoso e no volume
esôfago, depuração faringeana e trânsito orofaringeano. de 10ml para o grupo chagásico (p < 0,02).
Além disso, pôde-se observar ocorrência de escape poste- Conclusão: Conclui-se nesse trabalho que o tempo
rior do alimento, resíduo oral, resíduo faríngeo, penetração de trânsito do alimento foi mais prolongado no grupo de
e aspiração laringotraqueal. doentes em relação ao grupo controle, principalmente na
Resultados: Quanto aos resultados da avaliação clí- consistência pastosa e em volume maior (10ml). Esses resul-
nica fonoaudiológia, a elevação laríngea foi reduzida na tados sugerem a existência de mecanismos compensatórios
deglutição do alimento líquido e pastoso no grupo chagá- nos pacientes com doença de Chagas a fim de amenizar os
sico em relação ao grupo controle (p < 0,01). O grupo cha- sintomas de disfagia decorrentes da doença do esôfago.

AVALIAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E MOLECULAR DE PACIENTES COM DOENÇA ADRE-


NOCORTICAL NODULAR PIGMENTADA PRIMÁRIA OU COMPLEXO DE CARNEY

Marcelo Pinho Bittar codificadores do gene PRKAR1A e suas regiões de tran-


Orientador: Prof. Dr. Ayrton Custódio Moreira sição éxon/íntron foram amplificados por PCR (reação em
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/12/2008 cadeia de polimerase) e os fragmentos submetidos ao se-
quenciamento automatizado. Para comparação, este gene
O Complexo de Carney (CNC) é uma neoplasia en- também foi sequenciado em 50 indivíduos normais. A
dócrina múltipla que cursa com tumores endócrinos, cardí- idade ao diagnóstico variou de 4 a 25 anos (16,4 ± 7,8 anos).
acos e neurais, além de lesões mucocutâneas pigmentadas. Três pacientes apresentaram manchas pigmentadas; dois
Entre os tumores endócrinos, a doença adrenocortical no- pacientes apresentaram mixomas cutâneo-mucosos e 1 pa-
dular pigmentada primária (PPNAD) é o mais frequente. A ciente desenvolveu mixoma cardíaco; 1 paciente apresen-
transmissão é autossômica dominante, enquanto que al- tou tumor testicular de células de Leydig. A avaliação por
guns casos são esporádicos. O gene PRKAR1A foi identi- imagem das adrenais identificou a presença de micronódulos
ficado no lócus 17q22-24 e mutações nesse gene são ob- em 4 pacientes e volume aumentado em três deles. Encon-
servadas em 60% dos pacientes com CNC. O objetivo des- tramos 2 novas mutações no gene PRKAR1A, IVS4+5G > A
te trabalho foi a avaliação clínica, laboratorial e molecular e g.149A > G, em 2 de 4 famílias estudadas. Observamos
de 1 paciente com PPNAD isolado e 4 com CNC, pertencen- uma distribuição etária bimodal da PPNAD, com grande
tes a 4 famílias seguidas no ambulatório de Endocrinologia variabilidade nas manifestações clínicas e laboratoriais.
do HCFMRP-USP. Os dados clínicos e os achados anáto- Em 75% das famílias, a PPNAD esteve associada ao Com-
mo-patológicos das adrenais foram avaliados, retrospecti- plexo de Carney. O estudo genético, com o achado da mu-
vamente, por meio de consulta aos prontuários; a presença tação g.149A > G, permitiu o diagnóstico de Complexo de
de doenças endócrinas pela realização de exames laborato- Carney em uma paciente previamente diagnosticada como
riais específicos. A presença de doenças associadas foi PPNAD isolada. Possibilitou, ainda, a detecção de muta-
avaliada por meio de ecocardiograma, ultra-som de tireóide ção IVS4+5G > A no gene PRKAR1A em 2 filhas assintomá-
e imagem da sela túrcica. Para avaliação molecular, DNA ticas de outra paciente, permitindo aconselhamento gené-
genômico foi extraído dos pacientes com PPNAD, os éxons tico apropriado.

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ESTUDO DO POTENCIAL TERAPÊUTICO DO TRANSPLANTE AUTÓLOGO DE CÉLULAS TRONCO


HEMATOPOÉTICAS EM UM MODELO EXPERIMENTAL DE DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL

Dannielle Fernandes Godoi respectivamente, 1,6 x 107 células de medula óssea foram
Orientador: Prof. Dr. Júlio César Voltarelli infundidas nos grupos TCTH. Os animais dos diferentes
Tese de Doutorado apresentada em 18/12/2008 grupos foram estudados por 60 dias.
Resultados: Tanto os grupos que receberam TCTH
como os que receberam imunossupressão por Cy e ICT
Introdução e Objetivos: O transplante de células tron- isoladamente tiveram redução significativa do quadro clí-
co hematopoéticas (TCTH) assim como quimioterapia em nico e histológico da colite experimental mas somente o
altas doses tem sido explorado como terapia para várias TCTH resultou em aumento da sobrevida comparado com
condições refratárias imuno-mediadas humanas, incluindo o grupo não tratado. Um decréscimo acentuado nas células
as doenças inflamatórias intestinais (DII). Apesar disso, o CD4+ no infiltrado inflamatório nos dias + 7 e +14 e nas
exato mecanismo imunológico pelo qual as células de me- células CD8+ no dia 7 foi encontrado em ambos os trata-
dula óssea ou a imunossupressão levam à remissão destas mentos aliado a marcante redução nas citocinas pro-infla-
doenças ainda não está claro. Neste trabalho, nós investi- matórias como TNF-α, IFN-γ, IL-1β, IL 12p70 e IL-17, sobre-
gamos o papel destas terapias na modulação da inflamação tudo nos grupos Cy e Cy + TCTH.
da mucosa do intestino em um modelo experimental de DII. Conclusões: Nossos achados indicam que a Cy em
Métodos: A colite experimental foi induzida em ca- alta dose assim como a ICT associadas ou não com TCTH
mundongos pela infusão intra-retal de 2,4,6-ácido são efetivas em reduzir os quadros clínico e patológico
trinitrobenzenesolfonico (TNBS). Após 24 horas os animais associados à DII por uma proeminente contra- regulação
foram submetidos a imunossupressão com ciclofosfamida do perfil de citocinas inflamatórias Th1 porém apenas o
(Cy -200mg/Kg) ou por irradiação corporal total (ICT -7Gy). TCTH resultou em diminuição da taxa de mortalidade asso-
Após 24 e 12 horas da imunossupressão com Cy e ICT ciada à colite.

INFLUÊNCIA DA DOENÇA PERIODONTAL E SEU TRATAMENTO NA ATIVIDADE DA ARTRITE


REUMATÓIDE

Márcia de Noronha Pinho (p=0,0055) e aos 6 meses (p=0,0066). Em relação a % de


Orientador: Prof. Dr. Júlio César Voltarelli sangramento à sondagem as reduções foram estatistica-
Tese de Doutorado apresentada em 18/12/2008 mente significantes aos 6 meses (p=0,0128) e para % de
placa microbiana aos 3 meses (p=0,0128) e aos 6 meses
Objetivo: Este estudo avaliou a influência da doen- (p=0,0002) em favor do grupo raspado. A melhora no Grupo
ça periodontal (DP) na artrite reumatóide (AR), através de 1 após o tratamento periodontal não-cirúrgico (TPNC) foi
exames clínicos e laboratoriais, antes e depois do tratamen- estatisticamente significante no controle periodontal, mas
to periodontal não cirúrgico. os exames sistêmicos, embora reduzidos, não foram signifi-
Materiais e Métodos: 75 pacientes, entre 35-60 anos, cativos. O tratamento periodontal não apresentou correla-
divididos em 5 grupos, foram analisados de acordo com a ção com a melhora dos exames laboratoriais, nem com os
situação sistêmica e periodontal. Os parâmetros clínicos e exames de qualidade de vida (HAQ, DAS 28, SF 36), mas
laboratoriais coletados nos exames: inicial, 3 e 6 meses re- uma melhora nos exames foi evidente nas comparações
ceberam tratamento estatístico. As correlações para averi- intra-grupos. A melhora periodontal influenciando os exa-
guar a associação das reduções da profundidade de son- mes laboratoriais foi mais fácil de ser observada no Grupo 4
dagem (PS), placa microbiana (PM) e sangramento à son- (AR-DP+TR+). Comparando o Grupo 1 com Grupo 3
dagem (SS) com as reduções de α-1-glicoproteína ácida (AR+PT) houve diferença estatisticamente significante so-
(alfa1), proteína C-reativa (PCR), velocidade de hemossedi- mente no DAS28 no tempo inicial e aos 3 meses. Aos 6
mentação (VHS), questionário de saúde para avaliação de meses essa diferença não foi estatisticamente significante.
doenças reumáticas (HAQ), avaliação da atividade da do- Conclusões: Não foi possível verificar uma correla-
ença (DAS28) e SF-36 foram também analisadas. ção direta do tratamento periodontal na atividade da doen-
Resultados: Comparando os grupos com AR e DP, ça sistêmica, mas pode-se constatar a sua importância, evi-
Grupo 1 (AR+DP+TR+) e Grupo 2 (AR+DP+TR-), aqueles tando a extração múltipla dos dentes nos pacientes com
que receberam tratamento periodontal tiveram reduções es- AR, o que, obviamente, ocasionará maior conforto para os
tatisticamente significativas em relação a PS aos 3 meses mesmos, evitando uma possível situação de estresse.

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INADEQUAÇÃO TERAPÊUTICA DA ANTICOAGULAÇÃO COM ENOXAPARINA EM DECORRÊNCIA


DE ERRO NA ESTIMATIVA INICIAL DE PESO CORPORAL

Leon Gustavo dos Reis Macedo real, ou seja, dose recebida ≥ 0,9 mg/Kg/dose) e grupo 2
Orientador: Prof. Dr. Antonio Pazin Filho (presença de subdose de enoxaparina com erro >10% em
Dissertação de Mestrado apresentada em 19/12/2008 relação ao peso real, ou seja, dose recebida < 0,9 mg/Kg/
dose) uma vez que a dose adequada seria de 1 mg/Kg/dose
A enoxaparina vem ganhando espaço como anti- de 12/12 horas. Das características basais dos dois grupos,
coagulante de eleição em situações para as quais se utiliza- não houve diferença em relação a idade, sexo e creatinina e
va heparina não fracionada previamente. Além das evidên- houve diferença em relação à média de peso (grupo 1: 67,1±
cias que sugerem igualdade ou até superioridade em ter- 14,0 Kg e grupo 2: 86,1± 18,8 Kg) (p=0,04). Vinte e um pa-
mos de desfechos clínicos, a grande vantagem da enoxapa- cientes foram do grupo 1 (75%) e todos eles estavam ade-
rina reside na facilidade de sua posologia. Para a anticoa- quadamente anticoagulados (atividade anti-Xa ≥ 0,5 UI/
gulação plena ela deve ser prescrita de acordo com o peso mL). Sete pacientes foram do grupo 2 (25%) e destes, qua-
corporal. Porém, na maioria das vezes utiliza-se o peso esti- tro (57%) estavam inadequadamente anticoagulados (ati-
mado pelo médico ao invés do peso real. Já existem evidên- vidade anti-Xa < 0,5 UI/mL) (p< 0,05). Dos Vinte e oito pa-
cias de que em síndromes coronarianas agudas de alto ris- cientes, apenas 24 (85,7%) souberam relatar seu peso, e
co os pacientes que não estão anticoagulados adequada- destes, dois (8,3%) o subestimaram com erro >10%. Dos
mente com enoxaparina (atividade anti-Xa ≤ 0,5 UI/ml) apre- vinte e oito pacientes analisados, quatro (14,3%) tiveram
sentam risco aumentado de evolução desfavorável seme- seu peso subestimado pela fórmula, com erro >10% em re-
lhante a idade avançada ou a disfunção ventricular esquer- lação ao peso real. Na fase II do estudo(após duas doses
da. Este estudo tem como objetivo primário avaliar a ade- iniciais mais duas doses corrigidas), todos os 24 pacientes
quação da anticoagulação com a enoxaparina quando se atingiram nível adequado de atividade anti-Xa (≥ 0,5 e < 1,2
utiliza o peso estimado para sua prescrição (fase I) (ativida- UI/mL) independente da forma utilizada para ajuste da dose
de anti-Xa colhido após a segunda dose) e como secundá- (grupos A,B e C). Como conclusão, o presente trabalho
rio avaliar outros métodos de estimativa de peso, como salienta a necessidade da avaliação objetiva do peso cor-
peso relatado e peso obtido por fórmulas antropométricas poral (pesagem dos pacientes) para prescrição de enoxapa-
em comparação ao peso real e evolução do nível de antico- rina com o objetivo de heparinização plena (atividade anti-
agulação após reajuste de dose em três grupos (A: dose Xa ≥ 0,5 e < 1,2 UI/ml), uma vez que a estimativa subjetiva
mantida; B: ajuste pelo peso real; C: ajuste pelo peso obti- deste peso determinou uma inadequação da anticoagula-
do pela fórmula) (fase II) (anti-Xa colhido após duas doses ção em cerca de 14% do total dos pacientes analisados. Na
já corrigidas). Vinte e oito pacientes foram analisados na impossibilidade de pesar o paciente, o peso relatado seria a
fase I, e divididos em dois grupos: grupo 1 (ausência de segunda opção e para os que não souberam relatar seu
subdose de enoxaparina com erro >10% em relação ao peso peso a terceira opção seria a fórmula que utilizamos.

FARMACOLOGIA

ENVOLVIMENTO DAS NEUROTRANSMISSÕES GLUTAMATÉRGICA E NITRÉRGICA DA SUBS-


TÂNCIA CINZENTA PERIAQUEDUTAL DORSOLATERAL E DO NÚCLEO PRÉ-MAMILAR DORSAL
NA ELABORAÇÃO DE RESPOSTAS DEFENSIVAS

Daniela Cristina de Aguiar reações defensivas, como por exemplo, a substância cin-
Orientador: Prof. Dr. Francisco Silveira Guimarães zenta periaquedutal dorsolateral (SCPdl) e o núcleo pré-
Tese de Doutorado apresentada em 03/10/2008 mamilar dorsal (PMd). Antagonistas de receptores NMDA
(rNMDA) de glutamato e inibidores da NOS injetados intra-
O óxido nítrico (NO), sintetizado pela sintase do óxi- SCPdl produzem efeitos ansiolíticos. A exposição a estímu-
do nítrico neuronial (NOSn), possui um papel modulador los ameaçadores induz a ativação de células produtoras de
em reações defensivas, possivelmente facilitando a ansie- NO nesta região. A SCPdl recebe uma densa projeção do
dade. A NOSn está localizada em estruturas envolvidas com PMd, também envolvido com reações de defesa. Lesões

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bilaterais desse núcleo abolem a expressão de respostas mentais promovidas pela presença do gato. A exposição ao
defensivas durante a exposição ao predador. Pouco se sabe gato promoveu respostas defensivas que foram atenuadas
a respeito dos neurotransmissores envolvidos na media- pelo tratamento intra-SCPdl com inibi dores da NOSn e com
ção desses comportamentos pelo PMd, o qual também ex- o AP7. Adicionalmente, houve aumento das células IR-Fos
pressa receptores ionotrópicos de glutamato. Assim, o ob- da SCPdl, no PMd e no núcleo paraventricular do hipotála-
jetivo geral do presente trabalho foi de investigar a partici- mo (PVN), e aumento na porcentagem de células duplas (%
pação do NO e do glutamato na SCPdl e no PMd nas res- duplas) marcadas na SCP e no PMd. O tratamento com AP-
postas defensivas. Para tanto, testou-se a hipótese de que a 7 e com o NP intra-SCPdl atenuou a ativação celular na SCP
administração de inibidores da NOSn (7-nitroindazole, 7-NI, e no PVN observada pela exposição ao gato, enquanto que
ou N-propil-L-arginina, NP) intra-SCPdl atenuaria as res- houve aumento nas células IR-Fos e na % duplas no PMd.
postas defensivas promovidas pela exposição a um evento Além disso, observamos que o tratamento de AP- 7 ou NP
ameaçador inato, um gato. Verificou-se também, a hipótese intra-PMd também atenuou as reações defensivas obser-
de que o tratamento com AP- 7 (antagonista de rNMDA) vadas pela exposição ao predador. Em conclusão, os resul-
ou NP intra-SCPdl poderiam diminuir as reações comporta- tados do presente trabalho sugerem que o antagonismo da
mentais defensivas, além do número de células ativadas, neurotransmissão glutamatérgica e nitrérgica na SCPdl e
bem como a ativação de neurônios NOSn postivos em regi- no PMd pode atenuar as respostas comportamentais
ões relacionadas com o comportamento defensivo após a induzidas pela exposição ao predador. Além disso, a admi-
exposição ao gato. A ativação neuronial foi verificada pela nistração intra-SCPdl de AP- 7 ou NP é capaz de reduzir a
detecção da imunorreatividade à proteína c-FOS (IR-Fos) e ativação celular promovida pela exposição ao gato nesta
a presença da NOS através da imunorreatividade à proteína estrutura, sem alterar, ou mesmo aumentando, essa ativa-
NOS. Por último, testou-se a hipótese de que o tratamento ção em outras regiões relacionadas com o comportamento
com AP- 7 ou NP intra-PMd atenuaria as reações comporta- defensivo como o PMd.

ESTUDO DO ENVOLVIMENTO DA PGE2 NA RESPOSTA FEBRIL INDUZIDA POR LPS, ENDOTELI-


NA-1 E VENENO DE Tityus Serrulatus

David do Carmo Malvar tudo demonstrou que a injeção de LPS (5µg/kg, i.v.) e ET-1
Orientadora: Profª. Drª. Glória Emília Petto de Souza (1 pmol/rat, i.c.v.) induziu uma resposta febril acompanha-
Dissertação de Mestrado apresentada em 07/10/2008 da de um aumento das concentrações de PGE2 no CSF e no
hipotálamo, enquanto que a injeção de vTs (150 µg/kg, i.p.)
Vários trabalhos demonstram que a febre induzida induziu febre sem alterar as concentrações de PGE2 no CFS
pelo LPS requer a produção periférica de citocinas e central e no hipotálamo. A indometacina (2 mg/kg, i.p.) somente
de prostaglandina (PG)E2 e PGF2α por uma via sensível à reduziu a resposta febril induzida pelo LPS na terceira hora,
indometacina. Entretanto, vários estudos de nosso grupo entretanto preveniu o aumento de a PGE2. no hipotálamo e
sugerem a existência de uma via insensível à indometacina no CSF na segunda e terceira horas após a injeção de LPS.
e independente de PGE2, devido ao fato de que não existe Como esperado, a indometacina não modificou a febre indu-
relação entre a febre induzida pela endotelina (ET)-1 e o zi da pela ET-1 e vTs, porém diminuiu a concentração de
aumento das concentrações de PGE2 no fluido cerebroespi- PGE2 no CFS e no hipotálamo induzido pela ET-1. Por outro
nhal (CSF). Além disso, também mostramos que o veneno lado, a dipirona (120 mg/kg, i.p.) inibiu a resposta febril
de Tityus Iserrulatus (vTs) causa uma resposta febril que induzida pelo LPS, ET-1 e vTs e reduziu a concentração de a
não é alterada pelos inibi dores de ciclooxigenase (COX) PGE2. no CSF durante a febre induzida pelo LPS e ET-1, sem
ibuprofeno e celecoxib. Adicionalmente, a febre induzida modificar a quantidade de PGE2 no hipotálamo após a inje-
pela ET -1 ou vTs foi abolida pela dipirona, uma droga anti- ção de LPS e ET-1. Adicionalmente, observamos que a inje-
pirética que parece produzir seu efeito por mecanismo in- ção intracerebroventricular do antagonista seletivo de re-
dependente da inibição de COX. Dessa forma, o objetivo ceptores EP3 L-826266 inibiu a febre induzida pela PGE2
desse estudo foi avaliar a relação entre a quantidade de (35%), mas não alterou a febre induzida pelo LPS, ET-1 ou
PGE2 no CSF e no hipotálamo durante a febre induzida pelo vTs. Em síntese, esses resultados indicam que nem todas as
LPS, ET-1 e vTs em ratos, bem como o efeito da indometaci- febres dependem de PGE2 para o seu desenvolvimento (ex.,
na e da dipirona nesses parâmetros. Além disso, a partici- febre induzida pela ET-1 e vTs) e que a dipirona exerce seu
pação do receptor EP3 para PGE2 na febre induzida pelo LPS, efeito antipirético sem reduzir a quantidade de PGE2 no hi-
ET-1 e vTs também foi avaliado. O CSF e o hipotálamo foram potálamo. Uma vez que a dipirona aboliu a febre insensível
coletados de acordo com a curva-temporal da resposta fe- à indometacina induzida pela ET-1 e a febre induzida pelo
bril induzida por cada um desses estímulos. O presente es- vTs, que não aumenta a concentração de PGE2 no CSF ou

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tecido hipotalâmico, é possível enfatizar que o efeito antipi- nossos resultados demonstram que o receptor EP3 está en-
rético da dipirona pode depender do bloqueio da síntese/ volvido na febre induzida pela PGE2, mas não apresenta re-
liberação de outros mediadores que não a PGE2. Além disso, levância crucial na febre induzida pelo LPS, ET-1 ou vTs.

ENVOLVIMENTO DE CANABINÓIDES ENDÓGENOS NA RESPOSTA FEBRIL

Daniel Fraga selecionada para os demais experimentos. A injeção i.c.v.


Orientadora: Profª. Drª. Glória Emília Petto de Souza do agonista CB2 seletivo AM1241 (0,01, 0,1 e.1 µg/2 µI,
Tese de Doutorado apresentada em 08/10/2008 i.c.v.) não promoveu nenhuma alteração significativa da
temperatura corporal. O pré-tratamento com o antagonista
O envolvimento dos endocanabinóides no controle CB2 seletivo AM630 (10 µg/2 µI, i.c.v.), assim como com o
da temperatura corporal e na resposta febril ainda não esta- antagonista dos receptores vanilóides capsazepina (1, 3 e
vam bem claros. Por esta razão, o presente estudo teve 10 µg/2 µI, i.c. v.), não alteraram a resposta febril induzida
como objetivo investigar o envolvimento dos canabinóides pela AEA. O inibidor não seletivo das enzimas ciclooxige-
endógenos no controle da temperatura corporal e na res- nase (COX) indometacina (2 mg/kg, i.p.), e o inibidor seleti-
posta febril. As alterações na temperatura corporal foram vo da COX-2 celecoxib (5 mg/kg, p.o.), reduziram a febre
medidas em intervalos de 30 minutos até a sexta hora após induzida pela AEA. A AEA induziu um aumento significati-
a administração do tratamento, através de uma sonda retal vo na concentração de PGE2 no fluído cerebroespinal (CSF)
em ratos Wistar machos. Todos os pré-tratamentos foram que foi abolido pelo pré-tratamento com o AM251. O anta-
administrados 30 minutos antes do tratamento. Tanto a ad- gonista não seletivo dos receptores opióides, naloxona (1
ministração intracerebroventricular (0,01, 0,1, 1 e 10 µg/2 µI, mgkg, s.c.), aboliu a febre induzida pela AEA. Por sua vez,
i.c.v.) como intrahipotalâmica (0,1, 1, 10 e 100 ng/0,2 µI, i.h.) a AEA aumentou a concentração no CSF de β-endorfina. O
de nandamida (AEA) induziram aumentos dose-dependen- pré-tratamento com AM251 foi capaz de reduzir este au-
tes na temperatura corporal. O aumento na temperatura mento induzido pela AEA. O AM251 também reduziu a fe-
corporal induzido pela AEA (1 µg, i.c.v.) foi precedido e bre induzida pelo lipopolissacarídeo (LPS 50 µg/kg, i.p.),
acompanhado por uma redução da temperatura da pele da interleucina (1L)-1β(3 ng, i.c.v.), fator de necrose tumoral
cauda dos animais o que foi causado por uma significativa (TNF)-α (250 ng, i.c.v.), 1L-6 (300 ng, i.c.v.), fator liberador
vasoconstrição representada pelo índice de perda de calor, de corticotrofina (CRF 2,5 µ-lg, i.c.v.) e da endotelina (ET-1
(IPC). A dose de 1 µg, i.c.v. de AEA foi selecionada para os 1 pmol, i.c.v.). Porém, o AM251 não foi capaz de reduzir a
demais experimentos. O URB597 (0,001, 0,01, 0,1, 1, 10, 100 resposta febril induzida pelas prostaglandinas PGE2 250 ng,
e 1000 ng/2 µI, i.c.v.), inibidor da enzima amido hidrolase i.c. v .) e PGF2 α (250 ng, i.c. v.) Em conjunto, estes dados
dos ácidos graxos (FAAH, do inglês fatty acid amide sugerem que a AEA, pela ativação dos receptores CB1, é
hydrolase), promoveu uma curva em forma de sino. O capaz de induzir febre. Esta resposta é dependente da sín-
agonista CB1 seletivo ACEA (0,001, 0,01, 0,1 e 1 µg/2 µI, tese/liberação de prostaglandinas e opióides endógenos.
i.c.v.) também induziu um aumento na temperatura corporal Além disso, os endocanabinóides estão envolvidos no de-
em forma de sino. O pré- tratamento dos animais com o senvolvimento da resposta febril induzida pelo LPS e por
antagonista CB1 seletivo, AM251 (1,0, 5,0 e 10,0µg/2µI, i.c.v.) diversos mediadores que orquestram esta resposta inclu-
reduziu de forma dose-dependente a resposta febril induzida indo 1L-1β, TNF-α, 1L-6, CRF e ET-1, mas não PGE2 PGE2 ou
pela ABA e ACEA 0,01µg, i,c.v. A dose 5 µg de AM251 foi a PGF2 α.

MECANISMOS MOLECULARES ENVOLVIDOS NO EFEITO ANTINOCICEPTIVO PRODUZIDO


PELA AÇÃO PERIFÉRICA DOS OPIÓIDES : ATIVAÇÃO DA VIA DE SINALIZAÇÃO INTRACELULAR
PI3KγγAKT/ÓXIDO NÍTRICO

Thiago Mattar Cunha matórios, descritos como mediadores hipernociceptivos fi-


Orientador: Prof. Dr. Fernando de Queiroz Cunha nais (prostaglandinas e aminas simpáticas). Neste sentido,
Tese de Doutorado apresentada em 09/10/2008 o controle farmacológico periférico da dor inflamatória ba-
seia-se em duas estratégias principais: a) uso de fármacos
O aumento da intensidade dolorosa durante o pro- que previnem a sensibilização dos nociceptores (ex: inibi-
cesso inflamatório (hiperalgesia/hipernocicepção) é cau- dores de COX), ou seja, inibem a liberação e/ou ação de
sado, principalmente, pela sensibilização de uma classe es- substâncias que os sensibilizam; b) fármacos que revertem
pecífica de neurônios nociceptivos primários (nociceptores), diretamente à sensibilização dos nociceptores já instalada,
devido à ação direta de um conjunto de mediadores infla- como a dipirona e principalmente os opióides. Em relação

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aos efeitos analgésicos produzidos pela ação periférica dos vitro de que a ativação desta via de sinalização depende da
opióides, demonstrou-se que este é dependente da ativa- estimulação da via intracelular PI3Κγ/AKT. Estes resulta-
ção da via óxido nítrico/GMPc, a qual culmina na abertura dos revelam um até então desconhecido papel da via
de canais de potássio sensíveis ao ATP, restaurando o po- PI3KγAKT para o efeito periférico dos opióides. Além dis-
tencial de membrana dos neurônios nociceptivos. No en- so, os resultados obtidos abrem uma nova perspectiva no
tanto, os mecanismos intracelulares envolvidos na ativa- mecanismo molecular de ação de velhas drogas analgési-
ção desta via, ainda não estão estabelecidos. No presente cas com efeito periférico e também no desenvolvimento de
estudo, foram descritas tanto evidências in vivo quanto in novas drogas.

CONSEQUÊNCIAS DA RESPOSTA NEUROCOMPENSATÓRIA À LESÃO POR CATETER BALÃO


SOBRE A REATIVIDADE À ENDOTELINA EM ARTÉRIA CARÓTIDA DE RATO

Lilian Rialto Gimenes de receptores ETB da CCA na resposta à lesão parece estar
Orientadora: Profª. Drª. Ana Maria de Oliveira comprometida pelos mecanismos neurocompensatórios que
Dissertação de Mestrado apresentada em 10/10/2008 se seguem à lesão por cateter balão. Por outro lado, a parti-
cipação de receptores ETA da CCA na contração desenca-
A angioplastia por cateter balão é um procedimento deada pela ET-1 foi semelhante à da artéria controle. O in-
amplamente utilizado para desobstrução de artérias coro- fluxo de cálcio, bem como a mobilização de cálcio dos esto-
nárias e periféricas a partir da remoção de placas ateroma- ques intracelulares, participaram do aumento do Emax in-
tosas e restauração do fluxo sanguíneo nestes locais. A duzido por ET-1 na CCA. A reatividade à ET-1 na CCA com
passagem do cateter balão pelo lúmen do vaso gera um endotélio não foi alterada na presença de L-NAME (NG-
estresse mecânico na parede vascular, como a remoção de nitro-L- arginina metil ester), um inibidor não-seletivo de
células endoteliais, que resulta em resposta neurocompen- óxido nítrico sintases, sugerindo uma redução na biodis-
satória que tem reflexos sobre a reatividade não só do pró- ponibilidade de NO. Os resultados também sugerem o com-
prio vaso, mas também da artéria carótida contra-lateral à prometimento do efeito modulatório da NNOS (óxido nítrico
lesão (CCA). A endotelina-1 (ET-1) participa da regulação sintase neuronal) e INOS (óxido nítrico sintase induzida)
do tônus vascular e também da formação da camada sobre a ação vasoconstritora da ET-1 na CCA com endotélio.
neoíntima. A lesão por cateter balão em artérias carótidas Por outro lado, a ‘ENOS’ (óxido nítrico sintase endotelial)
promove um aumento na expressão de ET-1, bem como de modulou negativamente a ação desencadeada pelo peptí-
seu receptor ETA na artéria lesada, e resulta em alterações deo na CCA, todavia, a magnitude dessa modulação foi
na reatividade da CCA à fenilefrina e angiotensina II, 4 e 15 menor quando comparada com a do grupo controle. Os
dias após a lesão, Tespectivarnente. Os objetivos do pre- prostanóides parecem não participar da contração induzida
sente estudo foram avaliar: (a) a relação concentração-efei- pela ET-1 em artérias controle e CCA com endotélio, uma
to da ET-1 em CCA isoladas, obtidas de ratos Wistar ma- vez que o Emax do peptídeo não foi alterado na presença de
cho, com o intuito de obter os parâmentos de Emax (efeito indometacina. As espécies reativas de oxigênio parecem
máximo) e pD2 da ET-1; (b) as consequências da lesão por contribuir para o aumento do Emax desencadeado pela ET-1
cateter balão sobre esses parâmetros na CCA, após 2, 8, 16, na CCA em resposta à lesão por cateter balão. Assim, alte-
30 e 45 dias da lesão, na presença e na ausência do endotélio. rações na biodisponibilidade de NO, na formação de espé-
Os resultados mostraram um aumento do Emax da ET-1 a cies reativas de oxigênio e nas vias de sinalização de cálcio
partir do 16º dia na CCA com endotélio. Alterações morfo- fazem parte do conjunto de fatores intracelulares que leva-
lógicas não estão relacionadas ao aumento da resposta ram ao aumento do Emax da ET-1 na CCA com endotélio a
contrátil induzida pela ET-1, uma vez que a integridade es- partir do décimo sexto dia após a lesão vascular por cateter
trutural da CCA foi mantida. A participação da população balão.

ALTERAÇÕES DAS CONCENTRAÇÕES PLASMÁTICAS DE METALOPROTEINASES-2 E 9 DA MA-


TRIZ EXTRACELULAR E DE SEUS INIBIDORES ENDÓGENOS EM PACIENTES COM MIGRÂNEA

Alisson Martins de Oliveira Acomete a população durante os anos mais produtivos


Orientador: Prof. Dr. José Eduardo Tanus dos Santos das suas vidas, sendo uma causa importante de faltas ao
Dissertação de Mestrado apresentada em 23/10/2008 trabalho e de aumentos dos custos com “cuidados médi-
cos. A crise de migrânea é composta de ataques severos de
A migrânea é uma desordem neurológica comum, cefaléia associados à fotofobia, náusea, vômitos e sinto-
tendo maior prevalência em mulheres do que em homens. mas autonômicos. Embora a fisiopatologia da migrânea ain-

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da não esteja totalmente elucidada, disfunções vasculares, grânea possuem aumentos nas concentrações plasmáticas
neurológicas e mecanismos neuro-inflamatórios têm sido de MMP-9. Baseado nestas informações, o objetivo do
propostos. Alguns estudos mostram a presença de altera- nosso estudo foi avaliar possíveis alterações nas concen-
ções vasculares na migrânea. Algumas evidências apon- trações plasmáticas de MMP-2 e MMP-9, bem como de
tam uma possível associação de alterações na integridade seus inibidores endógenos (TIMP-1 e TIMP-2) em pacien-
da barreira hematoencefálica em pacientes com migrânea. tes com migrânea, com e sem aura, e em indivíduos saudá-
Contudo, estudos mostram uma provável associação da veis. Os resultados deste estudo mostraram que os indiví-
migrânea a um risco aumentado destes pacientes desenvol- duos com migrânea sem aura apresentam aumento das con-
verem eventos cardiovasculares. As metaloproteinases de centrações plasmáticas das metaloproteinases-2 e 9, enquan-
matriz extracelular modificam a estrutura dos vasos sanguí- to que pacientes com migrânea com aura tem maiores con-
neos e são associadas a várias patologias do sistema cardi- centrações plasmáticas de MMP-2 quando comparados aos
ovascular. A metaloproteinase-2 (MMP-2) é constitutiva- controles saudáveis. O estudo dos inibidores das MMPs
mente expressa nos vasos sanguíneos, já a metaloproteina- mostraram maiores concentrações plasmáticas de TIMP-1
se-9 (MMP-9) é uma protease liberada durante processos em pacientes com aura quando comparados aos pacientes
inflamatórios em resposta a estimulação de citocinas. A sem aura ou controles sadios. As concentrações de TIMP-
MMP-2 e a MMP-9 promovem aumento de permeabilidade 2 foram similares nos três grupos experimentais. Esses acha-
da barreira hematoencefálica por degradarem as proteínas dos sugerem haver aumentos da MMP-2 no plasma de pa-
da lâmina basal (Iaminina, fibronectina, colágeno do tipo IV cientes com migrânea com aura, o que poderia ser um
e gelatina) presentes nos vasos sanguíneos cerebrais. Al- indicativo fisiopatológico que associa migrânea com risco
guns estudos recentes mostram que os pacientes com mi- aumentado de desenvolvimento doenças cardiovasculares.

EFEITOS DO CANABIDIOL SOBRE ESTRUTURAS ENCEFÁLICAS ENVOLVIDAS COM A RESPOS-


TA EMOCIONAL CONDICIONADA CONTEXTUAL

José Inácio Lemos Monteiro Carvalho onados tratados com CBD apresentaram menor imunorrea-
Orientador: Prof. Dr. Francisco Silveira Guimarães tividade à proteína c-Fos nas regiões pré- límbica (PL) e
Tese de Doutorado apresentada em 31/10/2008 infralímbica (IL) do córtex pré-frontal medial (CPFm), bem
como nas regiões medial anterior, lateral dorsal e ventral do
Estudos prévios do laboratório mostraram que o tra- leito do núcleo da estria terminal, sendo que houve correla-
tamento sistêmico com canabidiol (CBD) atenuou as altera- ção positiva entre o tempo de congelamento e a densidade
ções cardiovasculares (pressão arterial e frequência cardía- de células marcadas para c- Fos apenas nas regiões medial
ca) bem como os efeitos comportamentais (congelamento) anterior e ventral dessa estrutura. Em experimentos posteri-
provocados pela reexposição ao contexto previamente ores, observou-se que rnicroinjeções de CBD diretamente
pareado com choques nas patas (Resstel et al. 2006). Entre- no PL atenuaram o congelamento, enquanto que microinje-
tanto, pouco se sabe sobre quais áreas cerebrais podem ções no IL apresentaram efeito oposto. Portanto, os resulta-
estar envolvidas no efeito ansiolítico do CBD no modelo dos do presente estudo sugerem que as regiões medial an-
experimental presentemente estudado. Assim, o objetivo do terior e ventral do núcleo do leito da estria terminal e tam-
presente estudo foi identificar, através da técnica de imu- bém a região pré-límbica do CPFm podem estar envolvidas
norreatividade à proteína c-Fos, quais áreas encefálicas ati- no efeito do tratamento sistêmico do CBD sobre a resposta
vadas pelo protocolo experimental poderiam ser alteradas emocional condicionada (REC) contextual. Palavras chaves:
pelo tratamento sistêrnico com CBD antes da re-exposição canabidiol, medo condicionado contextual, c-Fos, córtex pré-
ao contexto aversivo. Observou-se que os animais condici- frontal, núcleo do leito da estria terminal.

MEDIADORES ENVOLVIDOS NA RESPOSTA FEBRIL INDUZIDA PELA SEPSE (CLP) EM RATOS

Maria José Figueiredo típica. Este é usualmente removido. da circulação 1 h após a


Orientadora: Profª. Drª. Glória Emília Petto de Souza injeção intravenosa e Induz uma febre de duração curta. Na
Tese de Doutorado apresentada em 31/10/2008 maioria dos casos de f sepse a febre é induzida e mantida
por um longo período pela estimulação pirogênica contínua
Embora a injeção de LPS seja um modelo razoável de (Gourlne et al., 1998). O CLP (modelo de ligação e perfuração
infecção real, a febre induzida pelo LPS não é uma febre cecal) primeiramente descrito por Chaudry et al. (1979, 1980),

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é amplamente aceito por muitos investigadores como um ra significativa da sobrevida nos animais tratados com
modelo de sepse, infecção aguda e peritonite bacteriana paracetamol. O CLP induziu aumento na concentração de
(Fink et al., 1990; Villa et al., 1995), que melhor reflete a com- PGE2 no CSF 6; 12; 24 e 48 horas após o estímulo, sendo que
plexa resposta desta síndrome em humanos (De Maio et al., o pico deste aumento coincidiu com o pico da resposta fe-
2005). O CLP envolve uma estimulação pirogênica contínua bril (6h). Este estímulo também promoveu aumento signifi-
e simula uma infecção real muito melhor que a infusão de cativo dos níveis de TNF-α, IL- 1β e IL-6 no foco infeccioso
quantidades constantes de LPS (infecção simulada). Desta e soro, mas não no CSF dos animais sépticos. Estas citoci-
forma este trabalho objetivou: -padronizar o modelo de CLP nas parecem não participar centralmente na resposta febril
capaz de induzir resposta febril, -investigar como a terapia induzi da por CLP, uma vez que o tratamento com o antago-
antipirética influencia a mortalidade de animais no modelo nista de receptores de IL-1 (IL-1ra), com o receptor solúvel
de sepse: -investigar quais mediadores estão envolvidos na de TNF (sTNFr) e com o anticorpo anti IL-6 não alteraram a
estimulação pirogênica continua, induzida pelo CLP, bem febre induzida por CLP. O tratamento com os antipiréticos
como relacionar os níveis de mediadores pirogênicos no aumentou os níveis de IL-lβ e IL-6 no foco infeccioso e
fluído cerebroespinal (CSF) com a febre e com a sobrevida. diminuiu no soro. Entretanto a maior diminuição foi vista no
Para indução do modelo, utilizamos vários calibres de agu- soro dos animais tratados com celecoxibe e paracetamol.
lha e diferentes números de perfurações. Os animais que Com base nos achados descritos acima, é possível concluir
receberam 4 furos com a agulha 16G no ceco, apresentaram que o modelo de febre induzido por CLP reproduz bem um
aumento significativo da temperatura e índice de sobrevida quadro infeccioso, os mediadores diferem daqueles envol-
de aproximadamente 50%. Então este estímulo foi escolhido vidos na febre do LPS. A melhora na sobrevida nos animais
para avaliar o efeito dos antipiréticos na resposta febril O tratados com paracetomol deve envolver outro mecanismo
tratamento com os antipiréticos promoveu diferentes efei- que a inibição sérica de IL-6. Entretanto, mais estudos são
tos sobre o aumento da temperatura e taxa de sobrevida dos necessários para entendermos melhor os mecanismos en-
animais sépticos. Sendo que a antipirese foi mais, evidente volvidos na indução desta resposta, bem como o mecanis-
nos animais tratados com o celecoxibe e dipirona e a melho- mo de ação evocado pelos antipiréticos.

PARTICIPAÇÃO DAS METALOPROTEINASES DA MATRIZ EXTRACELULAR NAS ALTERAÇÕES


VASCULARES ASSOCIADAS À HIPERTENSÃO RENOVASCULAR: EFEITOS DE ANTIOXIDANTES

Michele Mazzaron de Castro oxidativo gerado pela ativação de enzimas pro-oxidantes,


Orientador: Prof. Dr. José Eduardo Tanus dos Santos tais como a NADPH oxidase vascular e a xantina oxidase.
Tese de Doutorado apresentada em 07/11/2008 Neste contexto, o modelo experimental 2R-1C foi proposto
para este estudo por apresentar concentrações elevadas de
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é considera- EROs associadas ao aumento da renina plasmática e
da um grande problema de saúde pública no mundo, e está angiotensina II. Estas ações, associadas a um aumento da
amplamente relacionada a significativas alterações morfoló- pressão intra-luminal, podem ser muito importantes para ati-
gicas e funcionais no aparelho cardiovascular. Metalopro- vação das MMPs, o que pode contribuir para as alterações
teinases (MMPs) são endopeptidases cálcio-dependente, vasculares observadas neste modelo de hipertensão. Desta
contendo zinco, que apresentam um papel importante na maneira, os objetivos deste trabalho foram: 1) verificar se
disfunção endotelial e no remodelamento tecidual de várias aumentos na expressão e atividade destas MMPs podem
doenças cardiovasculares, inclusive a hipertensão. Aumen- contribuir para o aumento da pressão arterial e para as alte-
tos na atividade destas enzimas podem levar à degradação rações vasculares observadas neste modelo; 2) verificar se
excessiva das proteínas da matriz extracelular (MEC), além aumentos nas concentrações das EROs podem contribuir
de acentuar a migração de células musculares lisas e para esta maior ativação enzimática. Para isto, foi utilizada a
monócitos. Isto pode contribuir para as alterações estrutu- doxiciclina, um inibidor inespecífico de MMPs, e diferentes
rais observadas nos vasos sanguíneos durante a hiperten- tipos de antioxidantes. A atividade e expressão das MMPs
são. Neste contexto, estudos clínicos e em modelos ani- foram avaliadas por zimografia em gel e in situ, pelo método
mais de hipertensão mostraram um aumento significativo de captura de anticorpo e imuno-histoquímica. Já a expres-
da expressão e atividade da MMP-2 (72-kDa gelatinase A) são do RNAm da MMP-2 e do TIMP-2 foi analisada por
e MMP-9 (92-kDa gelatinase B), tanto no plasma quanto Real Time RT -PCR. Os parâmetros funcionais e estruturais
em tecidos cardíacos e vasculares. Interessantemente, es- da aorta foram determinados por reatividade vascular e
tudos in vitro mostraram que o aumento da atividade des- morfologia, respectivamente. Por fim, as concentrações
tas MMPs pode estar relacionado diretamente ao estresse vasculares de EROs foram analisadas usando o dihidroetídeo

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(DHE) in situ e por citmometria de fluxo. O í tratamento com (ambos, p < 0,05) e preveniu a redução do relaxamento de-
a doxiciclina atenuou o aumento da pressão arterial nos pendente do endotélio pela acetilcolina. O tempol, mas não
animais 2R- 1C (p < 0,01) e preveniu a redução do relaxa- o apocinin (p > 0,05), também preveniu o remodelamento
mento dependente do endotélio nestes animais. Além dis- vascular hipertrófico observado nestes animais (p < 0,01).
so, a doxiciclina preveniu aumentos na espessura da cama- Além disso, o tratamento com o tempol atenuou aumentos
da media da aorta (p < 0,01) e a deposição elevada de colá- na atividade e expressão da MMP-2 (ambos, p < 0,05) em
geno e elastina. Houve um aumento significativo da ex- paralelo à diminuição do estresse oxidativo (p < 0,05). Estes
pressão e atividade da MMP-2 nas aortas destes animais resultados sugerem que 1) as MMPs podem contribuir para
hipertensos (todos, p < 0,05) em paralelo a um aumento da o aumento da pressão arterial e para as alterações vasculares
razão da expressão do RNAm da MMP-2/TIMP-2 (p < 0,01). observadas neste modelo experimental. 2) Aumentos nas
Da mesma maneira, o tratamento com ambos os antioxidantes concentrações de EROs podem estar diretamente relaciona-
atenuou o aumento da pressão arterial nos animais 2R-1C dos com esta atividade aumentada da MMP-2.

PARTICIPAÇÃO DE RECEPTORES TOLL-LIKE 2 E 4, CITOCINAS E QUIMIOCINAS NA HIPERNO-


CICEPÇÃO MECÂNICA EM UM MODELO DE INFLAMAÇÃO ARTICULAR

Ana Tereza Gomes Guerrero articular tanto nos tratamentos quanto nos animais defici-
Orientador: Prof. Dr. Sergio Henrique Ferreira entes acima mencionados. Assim, esses resultados suge-
Tese de Doutorado apresentada em 04/12/2008 rem uma correlação entre resposta hipernociceptiva articu-
lar e migração leucocitária articular. Além disso, para confir-
Existem evidências experimentais e clínicas da parti- mar a participação de TNF-α, IL-β e KC utilizando a técnica
cipação de diferentes receptores e mediadores no desen- de ELISA foram detectadas a presença significativa destas
volvimento e manutenção da artrite reumatóide Corrobo- citocinas nos tempos de 3-5 horas após injeção intra-articu-
rando o caráter multifatorial dessa patologia, cerca de 30% lar de zimosan ou LPS. Ademais, observou-se que o TNF-α,
dos pacientes não respondem a terapia anti-TNF-α. Dessa IL-β e KC induziram resposta hipernociceptiva articular de
forma, a investigação dos mediadores envolvidos na pato- maneira dose-tempo-dependentes. A hipernocicepção arti-
gênese da artrite pode contribuir para abordagens terapêu- cular induzida pelo TNF-α, IL-β e KC foram parcialmente
ticas mais eficientes. Além disso, apesar da dor articular ser inibida pelo pré-tratamento com indometacina, guanetidina,
um dos sintomas clínicos mais importantes dessa doença associação entre indometacina e guanetidina, IL-1Ra e
devido à incapacitação motora ainda existe um longo cami- DF2162. Além disso, detectou-se que animais deficientes
nho para sua compreensão. Dados da literatura demons- para o receptor TNFRI do TNF-α, apresentaram redução da
tram a participação das citocinas TNF-α, IL-β, IL-18, quimi- resposta hipernociceptiva articular. Dando continuidade ao
ocinas KC e MIP-1α, e receptores TRL-2 e TRL-4 em qua- estudo, foi detectado que a administração intra-articular de
dros de artrite tanto em animais quanto em humanos. Assim, TNF-α induziu a produção de IL-β e quimiocina KC. De
como a artrite reumatóide é caracterizada pela intensa dor maneira complementar, as concentrações de TNF-α e IL-β
articular e infiltrado inflamatório crônico no tecido sinovial, estavam elevadas nas articulações de animais que recebe-
este estudo teve por objetivo investigar o efeito nociceptivo ram administração intra-articular de KC. Também foi obser-
articular e a migração leucocitária articular, bem como a inter- vado que a administração intra-articular de IL-β induziu au-
relação entre esses efeitos e a hierarquia entre os mediado- mento das concentrações articulares de TNF-α e quimiocina
res envolvidos neste modelo de inflamação articular. Primei- KC. Avaliando-se os resultados acima descritos podem-se
ramente, detectou-se que a injeção intra-articular de zimosan sugerir a participação de prostanóides, aminas simpáticas,
ou LPS induziu resposta hipernociceptiva mecânica articu- TNF-α agindo via receptores TNFRI, IL-β e KC. Em conjun-
lar. A hipernocicepção mecânica articular induzida por to, os resultados acima descritos, sugerem o conceito de
zimosan ou LPS foi inibida pelo pré-tratamento com um an- que na resposta hipernociceptiva articular induzida pelo
tagonista de receptores CXCR1/2- DF2162 e IL1Ra. Ade- TNF-α, IL-β e quimiocina KC, estas citocinas e quimiocina
mais, a hipernocicepção articular induzida por zimosan ou estão agindo de maneira retro-alimentativa ou se auto-regu-
LPS foi reduzida em camundongos deficientes para o recep- lando e também precedem a liberação dos mediadores finais
tor p55 do TNF-α, Toll-like 2, deficientes na via de sinaliza- da hipernocicepção inflamatória (prostanóides e aminas sim-
ção para Toll-like 4 e molécula MyD88. Ao avaliar a migra- páticas). O segundo objetivo deste estudo foi investigar a
ção leucocitária articular utilizando o método da mielopero- existência de uma inter-relação entre o fenômeno hipernoci-
xidase (MPO) observou-se redução da migração leucocitária ceptivo articular e a migração leucocitária articular induzidas

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pelas citocinas (TNF-α e IL-β) e quimiocina KC. E obser- ta hipernociceptiva articular e migração leucocitária articu-
vou-se que estes mediadores. pró-nociceptivos apresenta- lar induzidas pelo TNF-α, IL-β e quimiocina KC. Concluin-
ram aumento da migração leucocitária articular. Foi observa- do, este trabalho contribuiu para a elucidação, pelo menos
do que o pré-tratamento com fucoidina (inibidor da migra- em parte, dos mecanismos envolvidos na resposta hiperno-
ção leucocitária) inibiu tanto a resposta hipernociceptiva ciceptiva articular induzida pelo zimosan (agonista toll-like
articular induzida pelo TNF-α, IL-β e KC quanto a migração 2) e LPS (agonista toll-like 4). Além de sugerir que as citoci-
leucocitária articular induzida pelo TNF-α, IL-β e KC. As- nas TNF-α e IL-β e quimiocina KC estão agindo de maneira
sim, esses resultados sugerem uma correlação entre respos- retro-alimentativa neste modelo de inflamação articular.

FISIOLOGIA

PARTICIPAÇÃO DOS GLICOCORTICÓIDES NA SECREÇÃO DOS NEUROPEPTÍDEOS OCITOCI-


NA E VASOPRESSINA EM RESPOSTA ÀS ALTERAÇÕES DE VOLUME E OSMOLALIDADE DO LI-
QUIDO EXTRACELULAR

Andréia Lopes da Silva participar dos efeitos dos glicocorticóides é o NF-kappa B,


Orientador: Prof. Dr. José Antunes-Rodrigues podendo, então, participar desta modulação hormonal frente
Dissertação de Mestrado apresentada em 29/10/2008 às alterações osmóticas do líquido extracelular. Assim, este
trabalho teve por objetivo avaliar as alterações promovi-
A regulação da homeostase hidroeletrolítica é uma das pelo estímulo osmótico causado pela sobrecarga sali-
função mantida sob controle restrito no organismo animal. na de quatro dias (SL4) e pela restrição hídrica de três dias
Mamíferos respondem às alterações na osmolalidade do (WD3), procurando avaliar a participação do eixo HHA nes-
líquido extracelular alterando comportamentos e a fisiolo- tas respostas. Os resultados apresentados mostram que
gia do organismo. O comportamento requer regulação na tanto a SL4 quanto a WD3 aumenta o sódio plasmático, a
resposta de ingestão de sal e água, através de alterações osmolalidade plasmática, as concentrações plasmáticas de
no apetite ao sódio e na sede. As respostas fisiológicas OT, AVP e corticosterona e a expressão do RNAm de AVP e
necessitam de modulação da excreção renal de água e sódio, OT no SON, PVN e NH. Após a injeção de dexametasona
o que acontece por alterações nas concentrações plasmáti- (1mg/kg, subcutâneo), as concentrações plasmáticas de OT,
cas de hormônios antidiuréticos e natriuréticos. O principal AVP e corticosterona diminuem, assim como a expressão
sistema neuroendócrino pelo qual o cérebro mantém a ho- do RNAm de AVP e OT no SON e no PVN. A dexametasona
meostase dos líquidos corporais é o sistema hipotálamo- não altera o sódio e a osmolalidade plasmáticos no grupo
neuro-hipofisário. Este sistema consiste de neurônios SL4; diminui o sódio plasmático e não altera a osmolalidade
magnocelulares localizados no núcleo supra-óptico do hi- plasmática no grupo controle; e diminui o sódio plasmático
potálamo (SON) e no núcleo paraventricular do hipotálamo e aumenta à osmolalidade plasmática no grupo WD3. A
(PVN), sendo que seus axônios terminam em capilares san- dexametasona também diminui a expressão do RNAm de
guíneos na neuro hipófise. O PVN e o SON estão direta- AVP, mas não altera a expressão do RNAm da OT na NH no
mente envolvidos com o controle do balanço hidroeletrolí- grupo SL4; e diminui a expressão de RNAm de OT e aumen-
tico, pois são extremamente sensíveis às alterações da ta a expressão do RNAm da AVP na NH do grupo WD3. No
osmolalidade e seus neurônios são células especializadas grupo controle, a dexametasona diminui a expressão do
na síntese e secreção de vasopressina (AVP) e ocitocina RNAm da OT e da AVP na NH. Dados imunoistoquímicos
(OT). Com o aumento da osmolalidade plasmática mecanis- mostram que a subunidade p65 do fator de transcrição NF-
mos são ativados, inibindo a ingestão de sal e induzindo a KB está presente no SON e no PVN, sendo que não há
excreção de sódio através da OT, e ativando mecanismos alteração do conteúdo desta subunidade no PVN e no SON
de sede e redução da excreção urinária de água, mediados promovidos pela i desidratação. Mas ambos os modelos de
pela AVP. Estas respostas são vistas como estressores pelo desidratação diminuem a expressão do RNAm de p65 no
sistema nervoso central e são moduladas pelo eixo hipo- SON, e a dexametasona diminui ainda mais a expressão do
tálamo-hipófise-adrenal (HHA). Um fator conhecido por RNAm de p65 no SON e PVN nos animais I controles e com

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WD3. A expressão do inibidor do NF-kappa B, o ‘iota’kappa tasona reverte este efeito; já no grupo WD3 só há um au-
B β, está aumentada no SON de animais SL4, e a dexameta- mento da concentração plasmática de IL-1 β, efeito que é
sona reverte esse efeito. A dexametasona também diminui a revertido pela dexametasona. Em conjunto esses dados
expressão do RNAm do ‘iota’kappa B β no PVN de animais sugerem que o eixo HHA exerce um controle sobre os
SL4 e WD3. Nos animais com WD3 a expressão do RNAm peptídeos neuro-hipofisários diminuindo sua produção e
de ‘iota’kappa B β no PVN está diminuída; e a dexametaso- secreção ante um estímulo osmótico. Esta inibição pode
na aumenta a expressão do RNAm do ‘iota’kappa B β ape- estar relacionada à diminuição da sinalização do sistema
nas no SON destes animais. No grupo SL4 há um aumento nervoso central, dada pelas citocinas periféricas, ou tam-
da concentração plasmática de IL-1 β e TNF-α, e a dexame- bém por uma possível ativação da via do NF-kappa B.

EXPRESSÃO AUMENTADA DE NPY APÓS STATUS EPILEPTICUS INDUZIDO POR ESTIMULAÇÃO


ELÉTRICA DO COMPLEXO AMIGDALÓIDE EM RATOS : PROVÁVEL PARTICIPAÇÃO EM UM SIS-
TEMA ANTICONVULSIVO ENDÓGENO

Artur Fernandes avaliadas as expressões do fator neurotrófico derivado do


Orientador: Prof. Dr. Norberto Garcia-Cairasco cérebro (Brain Derived Neurotrophic Factor -BDNF) e
Dissertação de Mestrado apresentada em 29/10/2008 neuropeptídeo- Y (NPY), um neropeptídeo produzido por
intemeurônios inibitórios no hilus do giro denteado (GD) do
As epilepsias são as desordens neurológicas mais hipocampo que apresenta ações anticonvulsivantes em vá-
comuns entre humanos e, de longe, as mais estudadas. Den- rios modelos de estudo. A análise do eletroencefalograma
tre elas a Epilepsia do Lobo Temporal (EL T) se destaca por (EEG) deixou claro que durante comportamentos explorató-
apresentar grande número de pacientes refratários aos tra- rios há a predominância de frequências sustentadas, tanto
tamentos medicamentosos e apresenta como característi- em HIP quanto em AMY, na faixa entre 5-9 Hz. Por outro
cas gerais: l) a ocorrência de um evento gatilho que deflagra, lado, durante os comportamentos de crise, não importando
2) os processos epileptogenéticos responsáveis pelo surgi- sua gravidade, as frequências sustentadas reduzem para
mento das, 3) crises recorrentes espontâneas (CREs). O mo- entre 3-5 Hz em ambos os núcleos. A análise da atividade
delo animal utilizado neste estudo mimetiza as três etapas neuronal através da expressão de c-Fos mostrou-se diferen-
descritas acima e consiste na estimulação elétrica do com- te entre os animais controle e os dos grupos experimentais,
plexo amigdalóide e consequente estabelecimento do qua- com muito maior expressão nos animais com SEAS. Foi ob-
dro de Status Epilepticus Auto Sustentado (SEAS). Neste servada expressão de c-Fos em 17 regiões cerebrais com
modelo foram descritos dois tipos de SEAS com- gravida- diferenças em córtex ipsilateral, com maior número de célu-
des de crises comportamentais e características morfológi- las no SEAS- T e em amígdala baso-lateral e amígdala medial
cas distintas. O SEAS-Típico é mais grave, apresenta crises contralaterais com maior número de células em SEAS-D. i O
comportamentais mais severas e um quadro de morte celular NPY foi avaliado em três tempos pós-SEAS (3 h, 24 h e 14
bilateral em hipocampo e outros núcleos correlatos. O SEAS- dias). Em todos os tempos estudados houve diferença entre
Deambulatório é menos grave, apresenta crises comporta- o número de células no hilus do GD entre os grupos de
mentais leves e perfil de mortes celulares com lesões exclu- SEAS e controles com maior número nos animais SEAS.
sivamente unilaterais em hipocampo e núcleos correlatos. O Entre os dois tipos de Status, de maneira geral, houve dife-
objetivo do estudo foi diferenciar os dois tipos de SEAS rença no número de células com maior expressão em SEAS-
através de: marcadores eletroencefalográficos (EEGráfico) e D. A ativação neuronal durante o período de SEAS parece
moleculares a fim de estabelecermos alguns dos possíveis não ser o fator determinante que diferencia ambos os tipos
mecanismos responsáveis pela ocorrência dos dois tipos de Status uma vez que a expressão de c-Fos entre os grupos
de SEAS. O traçado EEGráfico das crises foi avaliado atra- é semelhante. A ocorrência de frequência su~tentadas nos
vés da análise de frequências sustentadas ao longo do e diferentes comportamentos de crise foi idêntica, indepen-
tempo em HIP e AMY. Como a atividade elétrica cerebral dentemente de sua gravidade. Por outro lado, a expressão
depende da ativação de grupos neuronais específicos, foi de NPY foi diferente entre os grupos e parece ser um fator
avaliada em paralelo a expressão da proteína c-Fos, como importante na determinação da gravidade das crises nos
indicadora da atividade neuronal durante” o evento de SEAS. animais. Futuros estudos poderão auxiliar na compreensão
Por outro lado, a ocorrência de SEAS e a atividade neuronal da relevância da expressão do NPY como sendo resultado
aumentada promove modificações plásticas que envolvem da ativação de um sistema anticonvulsivo endógeno, se
alterações em neurotransmissores, neuropeptídeos, fatores não for observada a ocorrência de CREs em tempos mais
de crescimento neuronal, entre outros. Neste sentido foram prolongados de anális

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AVALIAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DE MECANISMOS GABAérgicos, NITRÉRGICOS, GLUTAMATÉR-


GICOS E PURINÉRGICOS NO NÚCLEO PARAVENTRICULAR DO HIPOTÁLAMO (PVN) NA MO-
DULAÇÃO AUTONÔMICA BASAL E NAS RESPOSTAS CARDIOVASCULARES À ATIVAÇÃO DO
QUIMIORREFLEXO EM RATOS NÃO ANESTESIADOS

Josiane de Campos Cruz nérgicos P2). Realizamos também a microinjeção bilateral


Orientador: Prof. Dr. Benedito Honorio Machado do coquetel PPADS + KYN no PVN de ratos não aneste-
Tese de Doutorado apresentada em 17/12/2008 siados. Os resultados mostraram que a microinjeção bilate-
ral de bicuculina no PVN (n=7) promoveu um aumento sig-
As células quimiossensíveis do corpúsculo carotídeo nificativo na PAM basal (F5,34= 3; p= 0,04) e na FC basal
são ativadas em situações de alteração na pO2 do sangue (F5,32= 8,2; p < 0,001), contudo não promoveu alterações
arterial. A primeira sinapse das aferências dos quimiorrecep- significativas nas respostas pressora (F5,36= 0,5; p= 0,8) ou
tores periféricos ocorre no núcleo do trato solitário (NTS). A bradicárdica F5,32= 1; p= 0,7) à ativação do quimiorreflexo. A
partir do NTS duas vias autonômicas e distintas são ativa- microinjeção bilateral de L-NAME (n=8) no PVN promoveu
das; a via simpato-excitatória e a via parassimpato-excitatória, um aumento significativo na PAM basal (F 6,45= 5, p= 0,0005)
desencadeando assim as respostas cardiovasculares à ati- e na FC basal (F6,45= 5, p= 0,0009), contudo não promoveu
vação do quimiorreflexo. Além disso, são também geradas alterações significativas nas respostas pressora (F6,45= 0,2,
respostas respiratórias e comportamentais. Estudos farma- p= 0,95) ou bradicárdica (F 6,45= 1, p= 0,45) à ativação do
cológicos sugerem a participação do núcleo paraventricular quimiorreflexo. A microinjeção bilateral do ácido quinurênico
do hipotálamo (PVN) na via simpato-excitatória do quimior- (n=6) não promoveu alterações significativas na PAM basal
reflexo. O PVN é um importante centro de controle autonô- (F 6,31= 0,9, p= 0,54), FC basal (F6,32= 0,6, p= 0,75) ou nas
mico e neuroendócrino. Vários trabalhos sugerem a partici- respostas pressora (F6,29= 1, p= 0,4) e bradicárdica (F6,32=
pação de mecanismos GABAérgicos, nitrérgicos e glutama- 0,8, p= 0,4) à ativação do quimiorreflexo. A microinjeção de
térgicos na modulação tônica da atividade simpática no PVN, PPADS no PVN (n=6) promoveu um aumento significativo
sugerindo a existência de um balanço entre os receptores na PAM basal (F 4,22= 5, p= 0,04) e na FC basal (F4, 18 = 3, p=
excitatórios e inibitórios no PVN sobre a modulação tônica 0,04), contudo não promoveu alterações significativas nas
da atividade simpática. Recentes estudos sugerem o envol- respostas pressora (F4,18= 0,4, p= 0,8) e bradicárdica (F4,18=
vimento dos receptores purinérgicos do PVN na modulação 1, p= 0,4) à ativação do quimiorreflexo. A microinjeção do
autonômica simpática. O objetivo do nosso estudo foi ava- coquetel PPADS + KYN (n=6) no PVN não promoveu
liar a participação de mecanismos GABAérgicos, nitrérgicos, alterações significativas na PAM (F4,23 = 2, p= 0,2), FC
glutamatérgicos e purinérgicos do PVN na modulação tôni- basal (F 4,24= 1, p= 0,4) ou nas respostas pressora (F4,23 = 1,
ca cardiovascular e nas respostas cardiovasculares à ati- p= 0,4) e bradicárdica (F4,24=2, p= 0,2) à ativação do quimior-
vação do quimiorreflexo em ratos não anestesiados. Para reflexo. Concluímos que a) os receptores GABAA, o óxido
tanto, utilizamos ratos Wistar (300-320g); cânulas-guia fo- nítrico e os receptores purinérgicos no PVN de ratos não
ram implantadas em direção ao PVN 4-5 dias antes dos ex- anestesiados estão envolvido com a modulação tônica car-
perimentos. A artéria e a veia femoral esquerda dos animais diovascular, mas aparentemente não estão envolvidos com
foram canuladas, um dia antes dos experimentos. O quimi- as respostas cardiovasculares à ativação do quimiorreflexo
orreflexo foi ativado com KCN (80 µg/0,05 ml, iv) antes e em em ratos não anestesiados e b) que os receptores ionotrópi-
diferentes tempos após a microinjeção bilateral de bicucu- cos de L-glutamato no PVN de ratos não anestesiados não
lina (antagonista GABAA), L-NAME (inibidor não seletivo estão envolvidos com a modulação tônica cardiovascular e
da enzima oxido nítrico sintase), ácido quinurênico [KYN também não parecem estar envolvidos com as respostas
(antagonista inespecífico dos receptores ionotrópicos do cardiovasculares à ativação do quimiorref1exo em ratos não
L-glutamato)] e PPADS (antagonista dos receptores puri- anestesiados.

EXPRESSÃO DE microRNAS NO SISTEMA NOCICEPTIVO DE CAMUNDONGOS

Ricardo Kusuda tificação e caracterização da ação de miRs têm oferecido


Orientador: Prof. Dr. Guilherme de Araújo Luccas uma visão completamente nova dos mecanismos de regula-
Dissertação de Mestrado apresentada em 22/12/2008 ção pós-transcricional, influenciando diversos mecanismos
celulares como diferenciação, crescimento, apoptose, me-
MicroRNAs (miRs) representam uma nova classe tabolismo e atividade sináptica. A descoberta dos miRs e
de RNAs não codificadores (ncRNA) que agem como po- de seus mecanismos de ação têm alterado fundamental-
tentes reguladores da expressão de diversos genes. A iden- mente a nossa compreensão da fisiologia de órgãos e siste-

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mas e da fisiopatologia de diversas doenças. A expressão miRs após estimulação aguda de fibras nociceptivas do tipo
de miRs ocorre de maneira específica nos diferentes teci- C, 2) o perfil temporal e especificidade tecidual de expressão
dos, sendo que, no sistema nervoso, miRs foram descritos de miRs após a lesão parcial, 3) axotomia de nervo periféri-
no córtex, cerebelo e no mesencéfalo. Este estudo investi- co, e 4) durante inflamação crônica no gânglio da raiz dorsal
gou a expressão de miRs no gânglio da raiz dorsal e na de no corno dorsal da medula espinal de camundongos. As
coluna dorsal da medula espinal onde a informação noci- amostras foram normalizadas com o controle endógeno
ceptiva é inicialmente processada. Foi analisada a expres- snoR-202. Com exceção do miR-122a, todos os demais miRs
são de miR-1, miR-16, miR-122a e miR-206 que possuem encontraram-se robustamente expressos tanto no gânglio
complementaridade parcial ao gene bdnf. O BDNF (brain- da raiz dorsal como no corno dorsal da medula espinal. To-
derivedneurotrophicfactor) é um fator neurotrófico respon- dos os modelos foram capazes de induzir alterações na ex-
sável pela manutenção das características fenotípicas de pressão dos miRs que apresentaram ora redução, ora au-
diferentes populações neuronais no gânglio da raiz dorsal e mento dependendo do tecido, da duração ou da qualidade
na coluna dorsal da medula espinal, participando tanto da da estimulação, caracterizando um alto grau de especificida-
transmissão da informação nociceptiva, quanto dos meca- de espacial e temporal no sistema nociceptivo. Nossos re-
nismos de plasticidade neural induzidos pela lesão de nervo sultados sugerem a participação destes miRs nos. diferen-
periférico ou doença inflamatória crônica. Utilizando RT-PCR tes mecanismos de regulação gênica associados, tanto à
em tempo real, foram investigados: 1) a expressão destes dor nociceptiva, quanto à fisiopatologia da dor crônica.

GENÉTICA

ESTUDO DO PROCESSAMENTO ALTERNATIVO E ANÁLISE DO SILENCIAMENTO DAS METIL-


TRANSFERASES ESPECÍFICAS DO PISTILO DE Nicotiana Tabacum L.

Cristiane de Paula Gomes Calixto do estudo das alterações acarretadas pelo bloqueio de um
Orientadora: Profª.Drª. Maria Helena de Souza Goldman de seus transcritos, utilizando a técnica do RNAi. Os da-
Dissertação de Mestrado apresentada em 03/10/2008 dos de 5’ e 3’ RACE obtidos, juntamente com os diferentes
trabalhos realizados em nosso laboratório, indicam que to-
A biologia da reprodução das plantas é uma área de dos os transcritos da metiltransferase possuem o exon 1
crescente interesse. O pistilo é um órgão de importância para iniciar a tradução, mas diferem significativamente no
central no processo reprodutivo. A espécie Nicotiana restante de sua composição de exons e nas escolhas dos
tabacum, linhagem Petit Havana SR-1, foi escolhida como sítios de poliadenilação. Análises realizadas com o DNA
modelo para o estudo do pistilo, por possuir flores especia- genômico, confirmaram a presença de pelo menos 2 genes
lizadas e grandes, apresentando todos os principais ór- e 3 pseudogenes para a metiltransferase específica do
gãos facilmente identificáveis. Há diversos genes que são pistilo. Como a linhagem Petit Havana SR-1 em estudo é
exclusivamente expressos no pistilo. Entre estes, foi en- homozigota para a maioria dos genes, a presença de 5 se-
contrado, por nosso grupo de pesquisa, vários transcritos quências distintas sugere a existência de duplicações no
que codificam proteínas com alta similaridade às metiltrans- genoma, durante a evolução deste gene. Estes genes são
ferases do ácido salicílico, jasmônico e benzóico. Os ésteres formados por 8 exons hipotéticos, divididos em três ou
metilados destes ácidos são largamente difundidos no rei- quatro blocos de fase aberta de leitura, intercalados por
no vegetal, atuando na regulação do desenvolvimento da dois ou três introns, respectivamente. Assim, com os resul-
planta, reprodução, defesa e sinalização. Este trabalho vi- tados disponíveis até o momento e com todas as análises
sou estudar a estrutura destes transcritos e o papel da me- realizadas neste trabalho, é proposto que as metiltransfera-
tiltransferase no processo reprodutivo. Os objetivos espe- ses do pistilo de N. Tabacum sofrem um complexo mecanis-
cíficos foram: 1) realizar experimentos de 5’RACE para es- mo de processamento alternativo, o que pode representar
tudar a extremidade 5’ completa, incluindo a região 5’ não uma vantagem adaptativa no processo reprodutivo desta
traduzida, dos diferentes transcritos da metiltransferase espécie. Para o estudo da função dos transcritos da metil-
expressa no pistilo; 2) realizar experimentos de 3’RACE para transferase específica do pistilo, parte da região codificadora
estudar a extremidade 3’ e identificar os sítios alternativos do clone de cDNA 046B11 foi inserida no vetor de expres-
de poliadenilação nos diferentes transcritos da metiltrans- são em plantas pK7GWIWG2(I) (RNAi), resultando no
ferase; 3) analisar a função das metiltransferases por meio plasmídeo pGC2. Este plasmídeo foi utilizado para transfor-

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mar discos foliares de N. Tabacum via Agrobacterium vegetativos de 13 plantas transformadas com esta constru-
tumefaciens. Um total de 10 plantas transgênicas indepen- ção foram coletados e usados para extração de proteína
dentes foram obtidas. A quantificação por RT-PCR em tem- total e realização de cortes histológicos. Os extratos foram
po real demonstrou que todos os transgênicos pGC2 apre- analisados em ensaio fluorimétrico para detecção da ativi-
sentaram níveis variáveis na redução da expressão da me- dade da proteína GUS. Os resultados mostraram que a se-
tiltransferase no pistilo. Todas as plantas presentes na casa quência 5’ regulatória da metiltransferase, utilizada por esse
de vegetação apresentaram formação e disposição de todas projeto, dirigiu a expressão do gus na antera de 12 das 13
as estruturas reprodutivas corretas, quando comparadas a plantas transgênicas analisadas. Em 9 dessas mesmas 12
plantas do grupo controle (linhagem Petit Havana SR-1). plantas também foi detectada expressão de gus no pistilo,
Com relação às análises do processo reprodutivo das plan- como era esperado. O ensaio histoquímico de duas plantas
tas transgênicas, foram observados baixa taxa de fertilida- pCC2 mostram que a expressão no pistilo ocorre nos teci-
de em 2 plantas e baixo peso de sementes/flor em 5 plantas dos vascular e transmissor, e que na antera ocorre no
(p-valor < 0,01). No entanto, estas observações não foram estômio, tecido vascular e grãos-de-pólen. A expressão do
correlacionadas de maneira convincente ao silenciamento gene gus na antera das plantas transgênicas foi inespera-
da metiltransferase, pois há a possibilidade disto ter sido da. Este trabalho sugere que os diferentes transcritos das
causado pelas infecções adquiridas pelas plantas durante metiltransferases específicas do pistilo de N. Tabacum pos-
as análises. Paralelamente a estes experimentos, a região 5’ suem uma importante função biológica nesta espécie. No
regulatória de uma das sequências genômicas da metiltrans- entanto, experimentos de silenciamento gênico ainda não
ferase (cerca de 2,7 kb) foi clonada no vetor pPR97, para foram conclusivos para se desvendar suas funções na re-
regular a expressão do gene gus, resultando no plasmídeo produção. Assim, experimentos adicionais são necessários
pCC2. Este plasmídeo foi utilizado para transformar discos para elucidar o papel do gene da metiltransferase na biolo-
foliares de N. Tabacum via A. tumefaciens. Órgãos florais e gia da reprodução de N. Tabacum.

EXPRESSÃO DIFERENCIAL DE GENES EM RESPOSTA A LIMITAÇÃO DE FOSFATO INORGÂNICO


NO FUNGO FILAMENTOSO Neurospora Crassa: ANÁLISE FUNCIONAL DOS GENES preg E nuc-1

Juliana Leal biossíntese de novo de pirimidinas; galactose-1-fosfato


Orientador: Prof.Dr. Antonio Rossi Filho uridililtransferase, a qual atua convertendo galactose-1-
Tese de Doutorado apresentada em 09/10/2008 fosfato e UDP-glicose em glicose-1-fosfato e UDP-
galactose. Por outro lado, dentre os genes com expressão
O sistema de aquisição de fosfato inorgânico (Pi) diferencial na linhagem mutante nuc-1RIP, os quais tive-
em N. Crassa é mediado por quatro genes regulatórios: ram a expressão confirmada, estão aqueles que codificam
nuc-2, preg, pgov e nuc-1. Quando o Pi é limitante, NUC-2 para as seguintes proteínas: hexagonal-1, principal compo-
inibe a ação do complexo PREG-PGOV, permitindo o trans- nente dos corpos de Woronin; proteína de choque térmico
porte do fator de transcrição NUC-1 para o núcleo e a ex- HSP70, a qual atua como chaperona numa variedade de
pressão de fosfatases Pi-repressíveis. No presente estudo, processos celulares; proteína carreadora de ADP/ATP, res-
foi investigado o perfil de expressão gênica das linhagens ponsável pela importação de ADP presente no citosol e
mutantes pregC e nuc-1RIP cultivadas em pH alcalino e exportação de ATP para fora da matriz mitocondrial; prote-
ácido, sob condições de limitação de Pi. O objetivo desse ínas ribossomais L16 e L30, envolvidas na biossíntese de
trabalho foi contribuir para o entendimento da resposta ribossomos; proteína da via biosintética de tiamina NMT-
adaptativa à limitação de Pi e identificar genes regulados 1, implicada na biossíntese de tiamina; proteína bifuncional
pela ciclina PREG e pelo fator de transcrição NUC-1. Utili- ARGJ, a qual participa da biossíntese de arginina; guanilato
zando as técnicas de Differential Display (DDRT-PCR) e quinase, envolvida na via de reciclagem de purinas (guanine
Hibridação Subtrativa Supressiva (SSH) foram isolados salvage pathway), uma via alternativa a via de biossíntese
transcritos diferencialmente expressos nas linhagens de novo de purinas. Além disso, genes como hsp-70 apre-
mutantes pregC e nuc-1RIP cultivadas em Pi-limitante, pH sentaram expressão alterada na linhagem mutante pacCKO
7.8 e 5.4. Dentre os genes diferencialmente expressos na cultivada em pH ácido. Estes resultados revelam novas vias
linhagem mutante pregC que tiveram sua expressão valida- metabólicas envolvidas na resposta adaptativa à limitação
da por Northern Blot, estão transcritos similares a genes de Pi e reforçam a existência de uma convergência entre o
que codificam para ubiquinona C-metiltransferase, envol- sistema de aquisição de Pi, o circuito regulador do pH e o
vida na biossíntese de coenzima Q; iso-orotato decarboxi- metabolismo de nucleotídeos. Além disso, esses resulta-
lase, implicada na via de reciclagem de pirimidinas dos indicam que o fator de transcrição PACC também tem
(thymidine salvage pathway), uma via alternativa a via de funções metabólicas em pH ácido.

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IDENTIFICAÇÃO DE GENES REGULADOS PELO MECANISMO DE METILAÇÃO DURANTE A


EXPANSÃO DE CÉLULAS-TRONCO MESENQUIMAIS E NA FASE INICIAL DA OSTEOGÊNESE

Patrícia Santos Pereira Lima tratamento foi utilizada a plataforma de microarrays


Orientador: Prof.Dr. Wilson Araújo da Silva Junior CodeLink. A validação da expressão dos genes seleciona-
Tese de Doutorado apresentada em 13/10/2008 dos foi realizada por RT-PCR em tempo real e o padrão de
metilação da região promotora dos genes foi analisado por
A medula óssea de adultos contém células-tronco sequenciamento após a modificação do DNA pelo bissulfito
mesenquimais (CTMs) que atuam na regeneração dos teci- de sódio. Três genes de cada etapa foram selecionados
dos mesenquimais tais como ósseo, cartilaginoso, adiposo para a análise: os genes FBLN2, LAMB2 e ADFP na expan-
e muscular, além de ligamentos e tendões. Essas caracterís- são e na diferenciação foram selecionados TBKBP1,
ticas elegem as CTMs como excelentes candidatas para o ARHGEF17 e ALPL. Os genes SAA2 e MMP7, cuja expres-
uso nos protocolos de medicina regenerativa. Os aspectos são aumentou durante a diferenciação (amostras controle),
moleculares que governam a regulação para cada via de também foram selecionados. A expressão de todos os genes
diferenciação são uma área de investigação ainda em estu- foi validada por qRT-PCR embora, em muitos casos, a dife-
do e a identificação de genes cuja expressão promova, por rença de expressão entre as amostras tratada e controle
exemplo, a diferenciação osteoblástica ou iniba a diferenci- tenha sido maior pela metodologia do microarray. No en-
ação em outros tipos celulares é uma estratégia amplamen- tanto, a expressão destes genes nas amostras de diferentes
te utilizada no esforço para a compreensão dos processos indivíduos foi semelhante, com exceção para os genes ADFP
moleculares envolvidos na diferenciação tecidual. O obje- e ALPL. A análise de metilação na ilha CpG dos genes
tivo deste estudo é identificar genes regulados pelo meca- FBLN2, LAMB2, ADFP e ALPL revelou a presença de
nismo de metilação durante a expansão e a diferenciação metilação apenas na ilha CpG do gene FBLN2. A diminui-
inicial em osteoblastos das CTMs. As CTMs foram obtidas ção na densidade de metilação do gene FBLN2 favoreceu o
da medula óssea de dois diferentes doadores, expandidas e aumento da sua expressão, embora a metilação não pareça
tratadas por quatro dias com o agente demetilante 5-aza-2´- ser o único mecanismo responsável pela expressão deste
deoxicitidina. A diferenciação osteogênica foi estimulada gene. O aumento da expressão de genes que codificam para
por sete dias, sendo os quatro últimos dias de tratamento. componentes da matriz extracelular (FBLN2, LAMB2, SAA2
Todos os experimentos foram realizados com seus respec- e MMP7) e de genes relacionados à diferenciação celular
tivos controles. Ao final dos quatro dias de tratamento, as (ADFP e ALPL) assim como o perfil destas expressões após
células foram coletadas para extração de RNA e DNA. Para os sete dias de diferenciação em osteoblastos, indicam que
a identificação de genes com expressão aumentada após o a hipometilação favorece a diferenciação das CTMs.

POLIMORFISMOS DOS GENES XRCC1 E XRCC3 E A RESPOSTA AOS DANOS INDUZIDOS NO


DNA PELO ETOPOSIDO EM PACIENTES COM CÂNCER DE MAMA

Ana Claudia Teixeira com CM, virgens de qualquer tipo tratamento e em mulhe-
Orientador: Profª.Draª. Catarina Satie Takahashi res saudáveis utilizadas como controles e além disso, esta-
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/10/2008 belecer as frequências dos polimorfismos nos genes XRCC1
e XRCC3 na amostra de pacientes com CM e em mulheres
Apesar de intensivos estudos e substanciais pro- saudáveis e associação destes dois polimorfismos com a
gressos no entendimento dos fatores de risco e suscetibi- suscetibilidade ao CM. No Teste do MN, foi observada
lidade ao câncer de mama (CM), esta neoplasia permanece uma sensibilidade maior do grupo de pacientes aos danos
como importante causa de morte entre mulheres. Idade, his- induzidos pelo Etoposido. O Ensaio Cometa mostrou que
tória familiar, menarca precoce, menopausa tardia, ocorrên- pacientes e mulheres saudáveis respondem de modo seme-
cia da primeira gravidez após os 30 anos e da nuliparidade lhante ao tratamento com o Etoposido. Também foi obser-
constituem fatores de risco. Além disso, polimorfismos nos vado que pacientes acima de 45 anos apresentaram um grau
genes envolvidos no reparo de danos no DNA, como os maior de sensibilidade aos danos induzidos pelo Etoposido
genes XRCC1 e XRCC3, podem contribuir para o aumento na concentração de 25 µM quando comparadas com pa-
da suscetibilidade ao CM. Os objetivos do presente traba- cientes abaixo de 45 anos avaliadas no Ensaio Cometa.
lho foram avaliar pelo Teste do MN e Ensaio Cometa os Quanto ao hábito tabagista, este se mostrou um fator de
danos basais e a resposta celular aos danos induzidos, in contribuição ao aumento de sensibilidade a indução de
vitro, no DNA pelo quimioterápico Etoposido em pacientes danos pelo Etoposido no Ensaio Cometa no grupo de mu-

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lheres saudáveis, para os tratamentos com esta droga nas aumentado ao CM. Quanto ao hábito tabagista, somente
concentrações de 10 e 25 µM. Na análise molecular, o alelo as pacientes não fumantes, portadoras do alelo 241Met do
variante 241Met do gene XRCC3 mostrou-se mais frequen- gene XRCC3, possuem um risco aumentado para o CM.
te no grupo de pacientes tanto na amostra estudada na Não foi encontrada associação do polimorfismo Arg399Gln
análise citogenética quanto na amostra estudada na análi- do gene XRCC1 com o risco ao CM mesmo quando associ-
se molecular, sugerindo uma diminuição da capacidade de ado à fatores de risco como hábito tabagista e a presença
reparo destas pacientes, o que poderia conferir um risco de familiares com câncer.

INFLUÊNCIA DA HIPERGLICEMIA NOS NÍVEIS DE DANO NO DNA E NA EXPRESSÃO DE GENES


DE DEFESA AO DANO OXIDATIVO EM PACIENTES COM DIABETES MELLITUS TIPO 2

Danilo Jordão Xavier níveis de dano semelhantes ao grupo controle, demons-


Orientadora:Profª.Drª. Elza Tiemi Sakamoto Hojo trando que a hiperglicemia é o principal fator na indução do
Dissertação de Mestrado apresentada em 24/10/2008 estresse oxidativo em pacientes DM2. Com relação aos
pacientes submetidos à internação por 7 dias, o grupo PPI
O Diabetes é uma das maiores causas de mortalida- apresentou níveis significativamente (p<0,05) menores de
de no mundo, chegando a afetar cerca de 150 milhões de dano em relação ao grupo PI, embora estes tenham se apre-
pessoas atualmente, sendo que esse número tende a au- sentado acima dos observados para o grupo controle. A
mentar, principalmente devido à obesidade, fator intima- análise por qRT-PCR revelou perfis de expressão gênica
mente relacionado ao Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2). En- diferenciados entre os grupos de pacientes estudados,
tretanto, o desenvolvimento da doença depende de diver- embora as diferenças não tenham sido estatisticamente sig-
sos fatores de risco, tanto genéticos quanto ambientais, nificativas. Observou-se uma repressão de genes de repa-
que ainda necessitam ser elucidados. Uma característica ro e de sinalização (ATM, ATR, OGG1, XRCC1, FEN1 e
marcante dos pacientes diabéticos é um alto nível de es- APEX1) nos grupos PAH e PI, que apresentaram altos ní-
tresse oxidativo, resultante principalmente da hiperglicemia veis de danos no DNA. Esse resultado pode apresentar um
e diminuição da defesa anti-oxidante. No presente traba- significado biológico relevante, sendo que na literatura,
lho, foi proposta a detecção dos níveis de dano no DNA foram relatados resultados compatíveis com o estado de
pelo ensaio do cometa, assim como comparar os níveis de repressão transcricional de alguns desses genes, como os
expressão de genes relacionados com a defesa, sinalização genes ATM e ATR. Os resultados obtidos demonstram a
e reparo do DNA em resposta ao estresse oxidativo (ATM, influência da hiperglicemia na indução de dano oxidativo
ATR, SOD1, OGG1, XRCC1, APEX1 e FEN1) em pacientes no DNA. Além disso, os dados acerca da expressão gênica
DM2 hiperglicêmicos (PAH) e não hiperglicêmicos (PANH). sugerem que pacientes DM2 regulam diferencialmente
Adicionalmente, o mesmo estudo foi realizado em pacien- genes envolvidos com os processos de defesa, sinalização
tes DM2, cujas amostras foram coletadas em dois momen- e reparo do DNA em resposta ao estresse oxidativo, o que
tos: antes (PI) e após (PPI) um período de internação (sete pode estar relacionado com os níveis de dano observados
dias) para compensação da doença e normalização dos ní- em cada grupo analisado. Os mecanismos envolvidos na
veis glicêmicos, comparativamente ao grupo controle. Na regulação desses processos são complexos e ainda neces-
análise pelo ensaio do Cometa, o grupo PAH apresentou sitam ser elucidados, mas os dados do presente trabalho
níveis significativamente (p<0,05) maiores de danos no DNA mostram informações relevantes que podem contribuir na
em relação ao grupo PANH, sendo que o último apresentou compreensão desses mecanismos.

DESEQUILÍBRIOS CROMOSSÔMICOS EM NOVE CASOS DE OSTEOSSARCOMA DETECTADOS


ATRAVÉS DE HIBRIDAÇÃO GENÔMICA COMPARATIVA (CGH)

Angel Mauricio Castro Gamero ca que sugere uma relação entre o rápido crescimento ós-
Orientador: Prof.Dr. Luiz Gonzaga Tone seo da adolescência e o desenvolvimento da neoplasia.
Dissertação de Mestrado apresentada em 30/10/2008 Ainda, o conhecimento das bases genéticas é insuficiente.
Estudos de citogenética clássica têm demonstrado que o
O osteossarcoma (OS) é o tumor ósseo maligno mais OS caracteriza-se por exibir alta heterogeneidade cariotípica,
frequente da infância e adolescência com uma taxa de so- incluindo altos graus de aneuploidia e rearranjos estrutu-
brevida livre de eventos de 50 – 70% após 3 anos. O pico de rais complexos. A técnica de CGH constitui uma ferramenta
incidência ocorre na segunda década da vida, característi- valiosa na analise do perfil genômico de tumores sólidos, e

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tem confirmado a complexidade das alterações cariotípicas 4, 5p, 6, 7, 8, 11p, 14q, 16, 21q e X; e perdas nos cromosso-
em OS, descrita pela citogenética convencional. Não mos 1p, 2q, 3q, 5q, 9q, 11q e 17q. As regiões mínimas de
obstante, os estudos existentes são divergentes, e poucos sobreposição mais frequentes foram ganhos de 2p13-p14,
têm estudado as informações obtidas por CGH em relação 2q36-q37, 4q21 e 8p22, e perdas de 1p34.2, 3q22-q23 e 3q24.
com a progressão tumoral. O objetivo do presente estudo Três pacientes apresentaram amostras pareadas, e as alte-
foi identificar a presença de desequilíbrios cromossômicos rações cromossômicas detectadas foram muito variadas,
em amostras de OS por meio da técnica de CGH. Os experi- refletindo a heterogeneidade cromossômica intratumoral em
mentos de CGH foram realizados de acordo com o descrito cada caso. A mais alta divergência clonal entre as amostras
por Kallioniemi et al (1994). Foram analisadas nove amos- pareadas foi observada entre a amostra de ressecção e a
tras (3 biópsias, 5 ressecções após quimioterapia e 1 metás- amostra metastática correspondente, mostrando a comple-
tase). O CGH detectou desequilíbrios cromossômicos em xidade cromossômica adquirida durante a progressão e
todas as amostras. Os ganhos foram mais frequentes que metastatização no caso descrito. Ainda são necessárias
as perdas. Muitas alterações cromossômicas foram obser- investigações adicionais, que contribuíam para a caracteri-
vadas, especialmente ganhos nos cromossomos 1q, 2, 3p, zação completa dos genes localizados nessas regiões.

BUSCA DE INIBIDORES NATURAIS CONTRA O VENENO DE Apis mellifera

Daniel Macedo de Melo Jorge pase e anti-edema de plantas medicinais antiveneno foram
Orientadora: Profª.Drª. Silvana Giuliatti analisadas por meio de ensaios farmacológicos. As possí-
Dissertação de Mestrado apresentada em 31/10/2008 veis interações entre as toxinas Melitina e Fosfolipase A2
com inibidores foram avaliadas, através do docking virtu-
Os insetos são os mais numerosos animais encon- al. O banco de dados, denominado Bee Venom, foi imple-
trados no mundo, com mais de 675 mil espécies conheci- mentado e os dados de bancos de dados públicos foram
das. Pertencentes à ordem Hymenoptera, da superfamília inseridos no sistema. O sistema foi liberado para acesso
Apoidea, as abelhas são encontradas distribuídas em apro- público no endereço eletrônico http://gbi.fmrp.usp.br/
ximadamente 20 mil espécies. No Brasil estima-se que exis- beevenom/. Durante a análise da proteína Melitina foram
tam 1.700 espécies. Uma das principais espécies é a Apis encontradas as regiões da proteína em que os possíveis
mellifera, com ocorrência cosmopolita. A Apis mellifera, inibidores devem interagir e identificadas as propriedades
popularmente conhecida como abelha africanizada, é agres- químicas que os inibidores devem possuir para interagir
siva, enxameia várias vezes ao ano e utiliza uma grande corretamente com a Melitina. Nas análises in silico foi pos-
variedade de locais para nidificar. Esse comportamento au- sível identificar 10 possíveis inibidores que interagiram
menta o contato direto entre o inseto e a população, au- corretamente com o sítio ativo da Fosfolipase A2. Algumas
mentando o número de acidentes. Os acidentes com abe- espécies do Banco de Germoplasma da FMRP/USP foram
lhas representam um problema de saúde pública em diver- obtidas e utilizadas nos experimentos de atividade fosfoli-
sos países do mundo pela frequência com que ocorrem e pásica indireta e de Edema, sendo possível observar inibi-
pela mortalidade que ocasionam. O presente estudo pro- ção do veneno total e da proteína Fosfolipase A2. Os com-
põe a busca por inibidores naturais contra o veneno de postos sintéticos e inibidores avaliados não causaram ini-
abelhas. Um sistema e uma base de dados foram desenvol- bição em todos os experimentos avaliados. Já as plantas
vidos para a integração entre dados de plantas medicinais obtidas no laboratório de Toxinas Animais e Inibidores
antivenenos e os venenos de abelhas. As atividades anti- Naturais e Sintéticos causaram inibição do veneno total e
hemorrágica, anti-proteolítica, anti-miotóxica, anti-fosfoli- da proteína Fosfolipase A2.

ASPECTOS MOLECULARES DA EVOLUÇÃO DO GENE DARC EM PRIMATAS

Thiago Yukio Kikuchi Oliveira bém conhecido como DARC (Duffy Antigen Receptor for
Orientador: Wilson Araújo da Silva Junior Chemokines), tem um importante papel na invasão dos eri-
Dissertação de Mestrado apresentada em 10/12/2008 trócitos pelos parasitas causadores da malária, Plasmodium
vivax em humanos e Plasmodium knowlesi em outros
Genes envolvidos com a interação hospedeiro-pa- primatas. A estrutura do gene DARC já é conhecida, estan-
tógeno são fortemente afetados pela seleção natural posi- do este presente na região 1q22–q23 do cromossomo 1, e
tiva. O gene codificante do antígeno sanguíneo Duffy, tam- sendo composto por dois éxons separados por um grande

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íntron. Em uma população africana a deleção de um seleção positiva pelos métodos de Nei-Gojobori, máxima
nucleotídeo no domínio GATA-1 da região promotora do verossimilhança por ramos e máxima verossimilhança por
gene é responsável pela não expressão de DARC nos eri- sítios não demonstraram, estatisticamente, à ação da sele-
trócitos e pela resistência à invasão pelo P. vivax. Além ção positiva sobre o gene DARC. Porém, o teste de máxima
disso, o antígeno DARC age como um receptor promíscuo verossimilhança por sítio em domínios demonstrou que
de quimiocinas, sendo expresso nos eritrócitos, células existem regiões do gene DARC sujeitas à diferentes pres-
endoteliais de vênulas e outros tecidos. Devido a esse pa- sões seletivas, mas também falhou em detectar a assinatura
pel dual, no presente estudo sequenciou-se regiões da seleção positiva. Os resultados indicam a presença da
homólogas do gene DARC em macacos do Novo e Velho seleção darwiniana sobre a região de ligação do P. vivax,
Mundo e utilizando métodos estatísticos procurou-se indí- porém os testes de máxima verossimilhança utilizados, apa-
cios da seleção natural positiva na sua história evolutiva. rentemente, não possuem poder suficiente para detectar a
Nenhuma nova mutação foi encontrada no promotor ou na sua assinatura. Além disso, os resultados sugerem que a
região codificante. As árvores filogenéticas pelos métodos região de ligação do P. vivax está sob influência de duas
de máxima parcimônia, máxima verossimilhança e neighbor- pressões seletivas antagônicas (seleção positiva exercida
join apresentaram topologias semelhantes com três grande pelo parasita e seleção purificadora exercida pelas quimio-
clados monofiléticos reconhecíveis e com a espécie Macaca cinas) o que pode, também, explicar a não detecção da sele-
fascicularis apresentando um perfil polifilético. O teste de ção positiva.

ANÁLISE DA EXPRESSÃO GÊNICA NO DERMATÓFITO Trichophyton rubrum MIMETIZANDO A


INFECÇÃO in vitro: PH E DIFERENTES FONTES DE CARBONO REGULANDO GENES

Fernanda Cristina de Albuquerque Maranhão nas putativas que foram validadas por cDNA dot-blot e
Orientador: Nilce Maria Martinez Rossi northern blot, mostrando similaridade com proteínas
Tese de Doutorado apresentada em 12/12/2008 fúngicas envolvidas no metabolismo básico, crescimento e
virulência, p. ex., transportadores ABC-MDR, MFS e ATPase
Dermatófitos são fungos filamentosos com a habili- de cobre, permease, NIMA interactive protein, poliproteína
dade de invadir substratos queratinizados e causar derma- Gag-Pol, fatores de virulência subtilisinas serino-proteases
tofitoses em humanos e animais, penetrando profundamen- (Sub 3 e 5) e metaloproteases (Mep 3 e 4) e Hsp30. Adicio-
te apenas em hospedeiros imunocomprometidos. Tricho- nalmente, entre os 762 clones obtidos na biblioteca da con-
phyton rubrum é um fungo antropofílico e cosmopolita, o dição lipídeo (72 h), 80 transcritos superexpressos foram
mais comum agente de micoses superficiais, que usa com- confirmados por cDNA dot-blot, revelando 14 unigenes si-
ponentes celulares como proteínas e lipídeos após uma es- milares à proteínas de vários organismos patogênicos, como
pecífica regulação de sua expressão gênica governada pelo glicoproteína 43 kD, transportador MDR, proteína G, quitina
pH ambiente e sensoriamento celular. A virulência de T. sintase e serino/treonina fosfatase. Transcritos do gene
rubrum é relacionada com a secreção de enzimas proteolíti- TruMDR2, codificador de um transportador ABC, foi isola-
cas, um importante fator determinante na invasão, utilização do tanto na presença de queratina quanto em lipídeo, e a
e subsequente disseminação através do estrato córneo. O análise da linhagem mutante ∆TruMDR2 de T. rubrum mos-
objetivo desse estudo foi identificar através de Hibridiza- trou uma redução na atividade infectante, caracterizada pelo
ção Subtrativa Supressiva (SSH) genes de T. rubrum prefe- baixo crescimento em unhas humanas comparada com o tipo
rencialmente expressos durante o crescimento na presença selvagem. A alta expressão de transportadores por T. rubrum
de queratina e lipídeos, quando T. rubrum degrada fontes em condições que mimetizam a infecção e a redução na viru-
de carbono tipicamente encontradas em células epidérmi- lência de ∆TruMDR2 durante o modelo in vitro sugerem
cas. Inicialmente, nós avaliamos as mudanças no pH extra- que transportadores estão envolvidos na patogenicidade
celular durante seu crescimento em queratina e lipídeo (de- de T. rubrum. Outro linhagem mutante (∆pacC-1) com um
pois de 6, 12, 24, 48, 72 h e 7 dias) em pH inicial 5,0, onde foi nocaute no gene pacC que codifica um fator de transcrição
observado um gradual aumento do pH basal sob ambas as regulado pelo pH local, mostrou a expressão de proteases
condições de teste, comparado com a condição glicose (con- (Sub 3 e 5 e Mep 4) diminuída após o crescimento em
trole). Também identificamos 576 transcritos de T. rubrum queratina em comparação com o tipo selvagem em análises
diferencialmente expressos por SSH usando conídios culti- de northern blots. Essas proteases tem uma atividade ótima
vados por 72 h em queratina como teste e em glicose como em pH alcalino, e nossos resultados indicam uma regulação
controle. Os genes de T. rubrum ativados codificam proteí- defectiva do gene pacC de T. rubrum na ativação de

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proteases. Em conclusão, através do uso de SSH foi possí- dos sobre T. rubrum que levarão a um melhor entendimen-
vel identificar genes de T. rubrum ativados após tratamen- to dos mecanismos moleculares envolvidos no crescimen-
tos específicos, o que sugere a importância dos mesmos na to, metabolismo geral e patogenicidade, e também auxiliar
interação dermatófito-hospedeiro, instalação e manuten- na identificação de novos e efetivos alvos de drogas para
ção da doença. Esses resultados disponibilizam novos da- dermatófitos.

GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA

DIAGNÓSTICO DO FATOR RHD UTILIZANDO A REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE CON-


VENCIONAL

Conrado Milani Coutinho tras de DNA extraídas de sangue periférico de 23 indivíduos


Orientador: Prof. Dr. Geraldo Duarte (4 homens e 19 mulheres) Rh positivo (11) e negativo (12)
Dissertação de Mestrado apresentada em 10/10/2008 para amplificação de sequências dos genes RhD e RhCE
utilizando a técnica de PCR convencional. Nestas amostras,
A aplicação dos métodos de biologia molecular tem a comparação dos resultados da PCR com os da hemagluti-
acrescentado benefícios aos métodos convencionais de diag- nação demonstrou total concordância entre os testes. A
nóstico do grupo sanguíneo Rhesus (Rh). Alguns estudos sensibilidade do método foi avaliada pela realização da PCR
evidenciaram a superioridade prática da genotipagem RhD em amostras de sangue Rh positivo diluídas em água e em
por reação em cadeia da polimerase (PCR) em relação às técni- sangue Rh negativo, amplificando o DNA na concentração
cas de identificação do fenótipo dos antígenos do grupo Rh de até 4 pg/µl. Estes resultados indicaram que a técnica de
obtidas pela hemaglutinação. Esta análise molecular tem sido PCR mostrou-se efetiva no diagnóstico da genotipagem do
realizada utilizando-se várias sequências cromossômicas e fator Rh, vislumbrando-se a possibilidade de sua utilização
diferentes tipos de técnicas. O grupo Rh contém dois genes em outros tecidos de origem êmbrio-fetal para orientação de
homólogos, um codificando o antígeno D e o outro os diagnóstico fetal invasivo e do uso profilático da imunoglo-
antígenos C/c e E/e. Os objetivos deste projeto foram: 1) bulina anti-D apenas nos casos de incompatibilidade Rh
Detectar a presença de sequência RhD específica dos indi- materno-fetal. Adicionalmente, indicaram que havendo me-
víduos Rh positivo; 2) Comparar a presença/ausência des- lhora da sensibilidade desta técnica será possível detectar
tas sequências com o grupo sanguíneo detectado pela he- quantidades objetivamente menores de DNA fetal na circu-
maglutinação e calcular a sensibilidade e a especificidade lação materna, fundamentando um importante passo rumo
da PCR. Para cumprir estes objetivos, foram analisadas amos- ao diagnóstico do fator Rh fetal por técnica não invasiva.

INFLUÊNCIA DA ENDOMETRIOSE SOBRE A RESPOSTA OVARIANA EM CICLOS DE REPRODU-


ÇÃO ASSISTIDA: PROVÁVEL ASSOCIAÇÃO COM PREJUÍZO DO DESENVOLVIMENTO FOLICU-
LAR, MAS NÃO DO pool DE RESERVA

Bruno Ramalho de Carvalho Métodos: Foram analisados 87 ciclos de RA em mu-


Orientadora: Profª. Drª. Ana Carolina J. de Sá Rosa e Silva lheres com idade inferior a 40 anos, ciclos menstruais regu-
Dissertação de Mestrado apresentada em 13/10/2008 lares, sem patologias endócrinas e com ambos os ovários,
sendo 30 ciclos em portadoras de EDT (casos) e 57 ciclos
Introdução: A avaliação da reserva ovariana em re- em mulheres subférteis por fator masculino exclusivo (con-
produção assistida (RA) busca identificar mulheres em que troles). A reserva ovariana foi inferida pelas dosagens basais
a exaustão folicular determine as dificuldades reprodutivas. dos hormônios anti-mülleriano (AMH) e folículo estimu-
Além da idade, a presença de causas outras de subfertilida- lante (FSH), a contagem de folículos antrais pequenos (CFA)
de, como a endometriose (EDT), implica interferências ne- e a medida do volume ovariano médio (VOM). Curvas
gativas potenciais sobre a resposta ovariana. Receiver Operating Characteristic (ROC - AUC) foram
Objetivo: Avaliar a reserva folicular ovariana de traçadas para avaliação da capacidade discriminatória de
mulheres subférteis portadoras de endometriose e determi- cada teste em identificar má resposta.
nar o melhor preditor de má resposta em RA. Resultados: Pacientes com EDT apresentaram

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FSH basal significativamente maior em relação aos contro- (AUC = 0,8372), seguido do VOM (AUC = 0,709) e da CFA
les (9,13 ± 5,09 mUI/mL vs. 6,28 ± 2,45 mUI/mL; p < 0,05), (AUC = 0,686).
sem diferenças para AMH, CFA e VOM. O número total de Conclusões: O FSH basal foi significativamente
oócitos aspirados foi menor na EDT em relação aos contro- maior nas pacientes subférteis com EDT e correlacionou-
les (5,33 ± 3,43 vs. 8,28 ± 5,8; p < 0,05) e correlacionou-se se com a resposta em RA apenas nas portadoras da doen-
significativamente com o AMH em ambos os grupos (EDT: ça. O AMH basal foi o marcador com o melhor potencial
r = 0,61; Controles: r = 0,58; p<0,0001). O FSH basal apre- discriminatório de má resposta, independentemente da pre-
sentou correlação significativa com o total de oócitos aspi- sença da endometriose. CFA e VOM não se apresentaram
rados apenas na EDT (r = -0,48; p<0,01); também na EDT, o como bons preditores de má resposta. Sendo assim, a as-
AMH basal foi o marcador individual com melhor potencial sociação entre endometriose e subfertilidade deve estar
discriminatório para má resposta (AUC = 0,875), seguido vinculada a alterações do crescimento/desenvolvimento
de FSH basal (AUC = 0,682) e VOM (AUC = 0,665), en- adequado do folículo ovariano e não a prejuízos sobre a
quanto no grupo controle, o AMH foi o melhor marcador reserva folicular gonadal propriamente dita.

PERFIL DA SECREÇÃO DE PROGESTERONA EM RATAS NO PROESTRO: UMA NOVA PROPOS-


TA PARA O CONTROLE DO PICO PRÉ-OVULATÓRIO DE LH

Fernanda Vieira Rodovalho Callegari na, sendo os dados referentes a esses dois grupos apre-
Orientadora: Profª. Drª. Janete A. Anselmo Franci sentados em um único grupo denominado Controle. A se-
Tese de Doutorado apresentada em 04/12/2008 creção de estradiol foi similar nos grupos Controle e ADX e
significativamente reduzida no grupo OVX. Como espera-
A ocorrência do pico pré-ovulatório de LH no do, a secreção de corticosterona foi completamente abolida
proestro depende da pré-exposição aos estrógenos segui- no grupo ADX, enquanto foi similiar nos grupos Controle e
da da ação aguda da progesterona, hormônio responsável OVX. Em todos os grupos experimentais as concentrações
pela deflagração e amplitude desse pico. No entanto, a ori- basais de progesterona foram em média de 2 pg/mL. Entre
gem da progesterona durante essa fase do ciclo ainda é às 12h e 14h o grupo Controle apresentou um aumento
incerta. Enquanto alguns estudos sugerem que a adrenal discreto, mas significativo, da secreção de progesterona
contribui significativamente para secreção de progestero- (pico 1: de 3,5 ± 1,1 para 22,3 ± 2,7 ng/mL), e após às 15h um
na nesse período, outros apontam a ovário como a fonte segundo pico de progesterona (pico 2: de 10,5 ± 2,2 para
principal. Sendo assim, o objetivo desse trabalho foi estu- 43,0 ± 2,5 ng/mL), como também o pico de LH (25,4 ± 2,4 ng/
dar o perfil e a origem da secreção de progesterona durante mL). Embora o grupo OVX não tenha apresentado o pico 2
o proestro e a sua relação com o pico pré-ovulatório de LH. de progesterona (de 5,7 ± 2,2 para 6,5 ± 1,2 ng/mL), o pico
Para tanto, às 7h da manhã do proestro ratas Wistar adultas de LH (26,5 ± 3,9 ng/mL) foi similar ao do grupo Controle.
foram submetidas apenas à canulação da veia jugular (con- Nessas ratas o pico 1 de progesterona foi atenuado para
trole) ou a esse procedimento seguido pela cirurgia fictícia 12,3 ± 1,9 ng/mL. Ambos picos de progesterona 1 e 2 como
de retirada do ovário e adrenal (Sham), ou pela ovariecto- o pico de LH, foram praticamente abolidos nas ratas ADX
mia (OVX) ou pela adrenalectomia (ADX). Amostras san- (pico 1: de 2,0 ± 0,3 para 4,5 ± 0,7 ng/mL; pico 2: de 2,2 ± 0,4
guíneas foram coletadas a cada 15 minutos das 11h00 às para 8,9 ± 3,6 ng/mL). Nas ratas OVX, tratadas ou não com
13h45 para dosagem de progesterona, estradiol e corticos- estradiol, um pico de progesterona (provavelmente de ori-
terona e a cada hora das 14h às 19h para dosagem desses gem adrenal) foi observado diariamente por volta das 12h00,
três hormônios e do LH. Adicionalmente, 7 dias depois da sendo que a amplitude desse pico não foi influenciada pelo
ovariectomia, ratas foram tratadas com óleo milho (OVO) estradiol (OVO: 19,0 ± 5,7 ng/mL; OVE: 22,9 ± 5,3 ng/mL).
ou 17-β-estradiol (OVE) por 3 dias consecutivos, para com- Esses dados, em conjunto, sugerem que: 1) o pico 1 de
preender melhor o padrão de secreção de progesterona pela progesterona é de origem adrenal e está envolvido na gê-
adrenal e verficar essa secreção se essa secreção poderia nese do pico de LH ; 2) esse pico parece ser circadiano uma
ser modulada pelos estrógenos. Um, dois ou três dias de- vez que ratas OVX apresentam um ritmo diário de secreção
pois da última injeção amostras de sangue foram coletadas de progesterona, com um pico por volta das 12h00; 3) o
conforme descrito acima. No proestro, nenhuma diferença pico 2 de progesterona é de origem ovariana e não é neces-
significativa foi detectada entre os grupos controle e Sham sário para ocorrência do pico de LH; 4) existe uma comuni-
em relação ao número de animais que apresentaram o pico cação endócrina entre ovário e a adrenal de forma que o
pré-ovulatório de LH, ao número de oócitos presentes nos ovário participa da regulação da secreção de progesterona
ovidutos na manhã do estro, bem como às concentrações pela adrenal e 5) o estradiol não está envolvido na regula-
plasmáticas de LH, progesterona, estradiol e corticostero- ção da secreção de progesterona pela adrenal.

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INFLUÊNCIA DO ESTROGÊNIO NA HISTOMORFOMETRIA DA PAREDE VAGINAL: REPERCUS-


SÕES NA FUNÇÃO SEXUAL

Lúcia Alves da Silva Lara cados pelo H-score, função sexual aferida pelo GRISS. Re-
Orientadora: Profª. Drª. Ana Carolina J. de Sá Rosa e Silva sultados: A parede vaginal é mais espessa no grupo meno-
Dissertação de Mestrado apresentada em 11/12/2008 pausa em relação ao grupo menacme (parede anterior
2,72±0,72mm e 2,16±0,43, p=0,01 e parede posterior
Introdução: O hipoestrogenismo causa alteração es- 2,63±0,71mm e 2,07±0,49mm, p=0,01, respectivamente). A
trutural na vaginal que pode levar a alterações na resposta espessura e a fração de área da camada muscular são maio-
sexual. Tem sido reportado o afinamento da parede vaginal res no grupo menopausa (parede anterior:1,54±0,44 e
após a menopausa, porém, sem comprovação morfométrica. 1,09±0,3mm, p=0,02 e posterior 1,45±0,47 e 1,07±0,44mm,
Objetivos: Verificar a espessura da parede vaginal p=0,03 e 0,51±0,10 e 0,42±0,11mm2, p=0,03 e 0,40±0,10 e
em condições normo e hipoestrogenicas, correlacionar dis- 0,49±0,08 mm2, p=0,02). O epitélio vaginal do segmento
função sexual com espessura da parede, expressão do re- proximal é mais espesso do que o segmento médio na pare-
ceptor estrogênico e estradiol sérico. de posterior (0,17±0,07mm, 0,15±0,05mm, 0,24±0,09mm,
Métodos: Espécimes cirúrgicos da vagina de 31 mu- p=0,02). Não houve correlação entre dor coital, espessura
lheres, sendo 18 normoestrogênicas e 13 na pós-menopau- da parede e concentrações do estradiol nos dois grupos.
sa, submetidas a colpoperineoplastia por prolapso genital I Conclusão: A parede vaginal é mais espessa após a meno-
e II. Aferidos: FSH e estradiol, prolactina e TSH. Realizou- pausa. Neste estudo, não ocorreu associação entre disfun-
se: tricrômico de Masson e HE, histomorfometria, imuno- ção sexual genital concentrações estrogênicas e espessura
histoquímica para receptores estrogênicos α, semiquantifi- da parede vaginal.

IMUNOLOGIA BÁSICA E APLICADA

ESTUDO DA DETECÇÃO DA INTERFERÊNCIA VIRAL ENTRE OS VÍRUS DENGUE-2 E FEBRE


AMARELA

Emiliana Pereira Abrão no da doença não tem sido detectado por mais de meio
Orientador: Prof. Dr. Benedito Antônio Lopes da Fonseca século no país. Algumas hipóteses têm sido investigadas
Tese de Doutorado apresentada em 27/10/2008 para se tentar explicar essa ausência de epidemias no Brasil,
embora nenhuma delas tenha sido efetivamente comprova-
A dengue é a mais importante doença causada por da. Este trabalho teve como objetivo estudar este achado
um arbovírus. Anualmente as infecções com o vírus den- epidemiológico através da análise in vitro de um fenômeno
gue ocasionam aproximadamente 100 milhões de casos de conhecido como interferência viral, uma situação em que a
dengue clássico e mais de 500 mil de dengue hemorrágico infecção por um determinado tipo viral impede a infecção
em todo o mundo (Halstead, 2007)). O principal vetor urba- das mesmas células por um vírus diferente. Desta forma, foi
no dos vírus dengue é o mosquito Aedes aegypti (Ae estudada a influência dos vírus dengue sorotipo 2 (DENV-
aegypti), que se caracteriza por seu perfil altamente domés- 2) e febre-amarela-cepa vacinaI17U (VFA 170) e selvagem
tico. Da mesma forma que a dengue, outra arbovirose de (BeH111) em uma mesma cultura de células C6/36 (células
semelhante importância é a febre amarela. Esta se caracteri- provenientes de Aedes albopictus) e células U937, anali-
za por ser uma doença infecciosa aguda, prevalente nas sando-se as dinâmicas de replicações virais. Observamos
Américas e África. Manifesta-se nas modalidades urbana e que células derivadas de Ae albopictus cronicamente in-
silvestre e é causada pelo vírus da febre amarela, um fectadas com DENV-2 não se apresentam permissivas à
arbovírus transmitido pelos mosquitos Aedes aegypti (no replicação do VFA, cepas17D e BeH111. Porém, em ensaios
caso da modalidade urbana) e Ae. africanus, Haemagogus de competição entre os dois vírus observamos uma maior
-e outros (no caso da modalidade silvestre ). Com relação à eficiência de replicação de VFA 17D e VFABeH111 em rela-
febre amarela, embora uma vacina segura esteja disponível ção ao DENV-2. Finalmente, os ensaios de interferência viral
há 60 anos, houve um aumento no número de pessoas in- envolvendo linhagens de células de mamífero U937 demons-
fectadas desde o início da década de 1980 em países da traram uma ligeira diminuição da replicação de VF A 17D em
América do Sul, incluindo o Brasil. No entanto, o ciclo urba- células cronicamente infectadas com DENV2.

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EFEITO TERAPÊUTICO DA VACINA DNA-Hsp65 EM MELANOMA B16F10

Giovanna Ribeiro-Santos osas, doenças autoimunes, alergia e câncer. No presente


Orientador: Prof. Dr. Celio Lopes Silva trabalho, decidimos analisar mais detalhadamente, do pon-
Tese de Doutorado apresentada em 05/11/2008 to de vista imunológico, a ação da vacina DNA-Hsp65 em
modelo experimental em camundongos inoculados com
O câncer é um importante problema de saúde pública melanoma B16F10. Num grupo de animais o DNA-Hsp65 foi
mundial e uma das causas mais relevantes de morbidade e inoculado por via intratumoral e no outro foi feita transfe-
mortalidade em crianças e adultos. Apesar dos inúmeros rência de células B16F10 previamente transfectadas com a
progressos no tratamento, incluindo aprimoramentos cirúr- vacina DNA-Hsp65. A vacina DNA-Hsp65 mostrou capaci-
gicos, quimioterápicos e radioterápicos, a cura da maior par- dade de retardar o desenvolvimento do tumor e aumentar a
te das neoplasias ainda depende da identificação precoce sobrevida dos animais. Essa atenuação do crescimento
da afecção, não sendo, muito frequentemente, possível após tumoral e o aumento da taxa de sobrevivência foram correla-
a disseminação metastática da doença. Assim, novas abor- cionados com o aumento da porcentagem de linfócitos T
dagens terapêuticas são continuamente investigadas e den- CD4 e T CD8 ativados, considerados importante indicador
tre elas, a imunoterapia representa uma forma de crescente de resposta contra tumores. A vacina também induziu au-
relevância. Dentre as novas estratégias imunológicas para mento da expressão de moléculas co-estimulatórias na su-
imunoterapia de tumores, vale a pena ressaltar o uso de perfície de células dendríticas no sítio tumoral, favorecendo
imunomoduladores como as proteínas de choque térmico uma apresentação antigênica eficiente num ambiente ativa-
(Hsp). As características das Hsps em facilitar a apresenta- dor da resposta imune. Além disso, foi observado aumento
ção de peptídeos tumorais, estimular a secreção de citoci- significativo da porcentagem de lise específica das células
nas inflamatórias por células apresentadoras de antígenos e de melanoma B16F10 mediada por linfócitos T CD8
mediar a maturação de células dendríticas, fazem delas exce- citotóxicos. Assim sendo, os dados aqui apresentados mos-
lentes candidatas para o desenvolvimento de vacinas con- tram o potencial antitumoral da vacina DNA-Hsp65 por meio
tra o câncer e doenças infecciosas. Nosso grupo vem de- da estimulação da resposta imunológica e ao mesmo tempo
senvolvendo uma vacina de DNA (DNA-Hsp65) que se abrem perspectivas para estudos futuros que possam au-
mostrou eficiente na profilaxia e terapia de doenças infecci- mentar a efetividade dessa vacina no combate a tumores.

MORTE DE LINHAGEM CELULAR DE LEUCEMIA MIELÓIDE HUMANA INDUZIDA PELA LECTINA


ARTIN M DE Artocarpus integrifolia

Fernanda Caroline de Carvalho características de apoptose. Contudo, não foi observado


Orientadora: Profª. Drª. Maria Cristina R. Antunes Barreira ativação de caspas e 9, 8 e 3 e fragmentação do DNA genô-
Tese de Doutorado apresentada em 18/12/2008 mico, sugerindo um evento de morte celular programado
independente da ativação de caspases. Adicionalmente, as
Artin M, uma lectina ligante de manose presente células NB4 tratadas com jArtinM expressaram marcador
nas sementes de Artocarpus integrifolia Gaca), induz granulocítico CD11b, embora não fossem capazes de reali-
hapotaxia de neutrofilos, produção de IL-12 por macrófa- zar “burst” oxidativo, característico de granulócitos madu-
gos e células dendríticas, e induz degranulação de mastóci- ros. Considerando, então, a diferenciação promovida por
tos. Todos estes eventos são mediados pelo reconheci- jArtinM insuficiente para promover a morte celular por
mento de glicanas, contendo manose, presentes na super- maturação, investigamos a produção de peróxido de hidro-
fície celular. Devido alterações nos oligossacarídeos da gênio pelas células tratadas e observamos um aumento
superfície celular serem associadas a transformações ma- considerável deste reativo intermediário deo oxigênio. Tal
lignas, objetivamos testar o efeito de Artin M de jaca evento, foi abolido com o tratamento com anti-oxidante,
(jArtinM) e recombinante (rArtinM), quando a atividade bem como restaurou parte da viabilidade celular. O evento
citotóxica em células transformadas. A capacidade anti- de morte celular e indução da produção de peróxido de
proliferativa foi testada, pelo método MTT, nas linhagens hidrogênio são eventos desencadeados por jArtinM nas
leucêmicas (NB4, K562 e U937), linfoma (Granta 519) e car- células NB4 de modo dependente da interação de jArtinM
cinomas (HT29, MKN45 e AGS). Somente a lectina de jaca com as N-glycanas da célula leucêmica. De modo distindo,
apresentou capacidade citotóxica após 48 horas de trata- verificamos que a mesma dose capaz de induzir apoptose
mento. A linhagem celular NB4 foi a mais sensível ao trata- em células leucêmicas NB4 é a mesma capaz de promover a
mento com jArtinM e apresentou exposição de fosfatidil imunoestimulação de células normais maduras como os
serina e a quebra do potencial de membrane de mitocôndria, monócitos humanos a produzirem IL-12.

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NEUROLOGIA

A LECTINA artinM É ATIVA NA REGENERAÇÃO DO NERVO PERIFÉRICO

Ana Paula Santos no segmento distal - após a cirurgia. A formação do cabo de


Orientador: Prof. Dr. Amilton Antunes Barreira tecido entre os cotos foi estatisticamente semelhante entre
Tese de Doutorado apresentada em 02/12/2008 os grupos artinM e matrigel e entre artinM e artinM +
matrigel, assemelhando-se a uma estrutura de nervo nor-
A capacidade regenerativa do sistema nervoso peri- mal. Nesses grupos, a análise histológica dos segmentos
férico é conhecida, todavia em lesões onde há grande per- centrais do tubo revelou uma camada epi-perineural espes-
da de tecido nervoso, há limitações ou impossibilidade em sa envolvendo a área endoneural, minifascículos, vários
relação à regeneração. A lectina artinM é capaz de acelerar capilares endoneurais em maior número na periferia, fibras
o processo de regeneração do tecido epitelial. O objetivo mielínicas de vários diâmetros e mastócitos. Os segmentos
do presente estudo foi verificar se a lectina artinM é tam- distais ao tubo foram semelhantes aos nervos normais,
bém ativa na regeneração do tecido nervoso, tendo em vis- porém com bainha de mielina mais fina. Nos segmentos
ta que se trata de tecido originário do mesmo folheto embri- distais, os resultados morfométricos revelaram diferenças
onário (ectoderma) que o tecido epitelial. No presente estu- significativas (p<0,05) nos diâmetros de axônios e fibras
do 10 mm do nervo isquiático de ratas Wistar adultas foram mielínicas, área da bainha de mielina e número de capilares
retirados e os cotos proximal e distal suturados em um tubo entre os grupos artinM e matrigel, com o grupo artinM
de silicone. Houve melhor resposta a doses menores de mostrando valores mais altos. O número de fibras mielínicas
artinM (1 a 5 µg). Não foi observada regeneração com do- e capilares no segmento distal foi significativamente maior
ses de 10, 12 e 24 µg e essa foi precária com doses interme- no grupo artinM do que no grupo artinM + matrigel. Não
diárias (6 e 8 µg). Os animais foram alocados em 4 grupos, houve regeneração axonal significativa no grupo agarose,
tratados com tubos contendo artinM (1 a 5 µg) em gel de tendo havido apenas filamentos ligando os cotos. Os re-
agarose, gel de agarose, Matrigel® ou artinM + Matrigel®. sultados indicam que a lectina artinM é capaz de induzir o
Análises macroscópica, histológica e morfométrica foram crescimento dos componentes do nervo periférico, poten-
realizadas 10 semanas - tempo de observação associado à cialmente podendo ser usada para a indução de regenera-
regeneração de um número significativo de fibras mielínicas ção de nervos no homem.

AVALIAÇÃO QUANTITATIVA DA FADIGA MUSCULAR EM PACIENTES COM DIFERENTES FOR-


MAS CLÍNICAS DE MIOPATIA MITOCONDRIAL

Patrícia de Sá Barros MM com IE sem PEO; outras miopatias com IE e endocri-


Orientadora: Profª. Drª. Claudia Ferreira da Rosa Sobreira nopatias com IE. O grupo controle foi subdividido, uma vez
Tese de Doutorado apresentada em 03/12/2008 que cada subgrupo participou como controle em diferentes
experimentos do estudo. As avaliações realizadas consisti-
A fadiga muscular é definida como qualquer perda ram de quantificação da fadiga pelos testes dinamométricos,
da capacidade de produzir força induzida por exercício, que avaliação da gravidade da fadiga (FSS), escala numérica da
reduz o desempenho muscular. Estudos de quantificação da fadiga, mensuração da dor pelo inventário breve da dor
fadiga muscular nas diversas formas clínicas de miopatia (IBD), avaliação da capacidade funcional (Brooke e Vignos)
mitocondrial (MM) são escassos. O objetivo deste trabalho e das atividades da vida diária (Barthel), bem como a quali-
é obter um método confiável, reprodutível, de baixo custo e dade de vida relacionada à saúde (SF-36). A presença da
fácil aplicação para avaliação objetiva e comparativa da fa- fadiga muscular foi avaliada através da realização da con-
diga muscular em grupos de pacientes com diferentes for- tratação voluntária da máxima (CVM) de preensão palmar,
mas clínicas de MM. Neste estudo, foram selecionados 71 no lado dominante do paciente. Neste estudo foi realizado
pacientes adultos com miopatia, apresentando fraqueza 3 testes dinamométricos: teste da CVM durante 5 minutos,
muscular ou intolerância ao exercício (IE). A amostra con- teste de 10 minutos utilizando 45% da CVM sustentada
trole foi composta por 123 voluntários saudáveis. Os pa- durante 60 segundos. Nossos resultados demonstraram que
cientes selecionados para o estudo foram divididos em 4 a proporção de mulheres foi superior à de homens tanto no
grupos: MM com oftalmoplegia externa progressiva (PEO); grupo de pacientes como no grupo controle. Não houve

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diferença significativa entre as idades dos pacientes e con- teste de 10 minutos utilizando 45% da CVM a comparação
troles. A maioria dos pacientes e controles apresentava entre pacientes e controles demonstrou haver diferença sig-
como lado dominante o lado direito. A força muscular de nificativa, indicando haver maior fadigabilidade no grupo
preensão palmar no início do teste foi maior nos controles dos pacientes. Em adição, o grupo denominado outras
que nos pacientes. A CVM inicial dos pacientes com MM miopatias com IE diferenciaram do grupo controle, não sen-
com PEO diferiram significativamente dos controles, en- do visível esta diferença nos demais grupos. A comparação
quanto que os pacientes com MM sem PEO, outras entre o grupo com MM com PEO, pacientes com IE e gru-
miopatias com IE e endocrinopatias permaneceram iguais pos controles demonstraram diferença significativa. No tes-
aos controles. O teste de CVM durante 5 minutos demons- te da CVM sustentada durante 60 segundos não houve
trou coeficientes de correlação bastante significativos, o diferença significativa entre os grupos analisados. A média
que indica que as medidas obtidas no teste são estáveis e da FSS em todos os grupos foi similar. Os grupos demons-
reprodutíveis. Quanto ao teste de 10 minutos utilizando traram resultados similares com relação à escala numérica
45% da CVM, os resultados demonstraram que as medidas de fadiga. Nossos achados não demonstraram diferença
que ser referem às CVM na metade e no final do teste apre- significativa entre os grupos com relação à IBD. A maioria
sentam coeficientes de correlação consistentes e significa- dos pacientes avaliados apresenta mínima ou nenhuma in-
tivos. No teste da CVM sustentada durante 60 segundos, capacidade funcional. A qualidade de vida dos pacientes
os índices de correlação apresentaram magnitude modera- demonstrou estar muito comprometida. Concluímos que en-
da. A comparação do teste da CVM durante 5 minutos entre tre os 3 testes dinamométricos de medida da fadiga muscu-
os grupos demonstrou a ocorrência de fadiga precoce no lar realizados, apenas o teste de CVM sustentada durante 5
grupo de pacientes. A comparação entre o grupo de pa- minutos apresentou elevada confiabilidade. O teste da CVM
cientes separadamente e controles no teste da CVM duran- sustentada durante 60 segundos não foi capaz de induzir
te 5 minutos não demonstrou diferença significativa. No fadiga precoce nos grupos de pacientes.

COMORBIDADES PSIQUIÁTRICAS NOS PACIENTES COM EPILEPSIA FARMACORESISTENTES


DE ACORDO COM A ZONA EPILEPTOGÊNICA: ESTUDO COM 490 PACIENTES

Charles Luis Dalmagro (40,4%) dos pacientes apresentaram CPs. As CPs do Eixo I
Orientador: Prof. Dr. Américo Ceiki Sakamoto foram evidenciadas em 154 (31,4%) pacientes e as CPs do
Tese de Doutorado apresentada em 16/12/2008 Eixo II em 44 (8,9%) pacientes. As mais comuns CPs do Eixo
I foram representadas pelos transtornos do humor, diag-
Introdução: Epilepsia é definida pela presença de nosticados em 94 pacientes (19,2%). Os transtornos de
crises epilépticas recorrentes, podendo apresentar durante ansiedade em 21 (4,3%) pacientes e a psicose interictal em
seu estudo, um espectro bem variado de associações, den- 39 (7,9%) pacientes. Nesta série de pacientes, foi observa-
tre elas as anormalidades cognitivas e do comportamento. do que a epilepsia do lobo temporal mesial, associada à
A associação das comorbidades psiquiátricas (CPs) com esclerose hipocampal, a história familiar de transtorno psi-
as epilepsias tem sido investigada, tipicamente nos pacien- quiátrico, a presença de transtornos psiquiátricos do Eixo
tes com crises epilépticas refratárias os quais foram avalia- II, foram fatores de risco independentes para associação
dos em um centro terciário especializado no tratamento com CPs do Eixo I. Por outro lado, a idade de início da
desta forma de epilepsia. Objetivos: Este estudo relatará os epilepsia, a duração da epilepsia, o sexo, a frequência de
resultados da prevalência e os fatores de risco associados crises secundariamente generalizadas, a média do QI, a eti-
à presença das CPs em quatrocentos e noventa pacientes ologia (quando excluída a epilepsia do lobo temporal mesial,
com crises epilépticas farmacorresistentes e sua correlação associada à esclerose hipocampal) e o lado da lesão foram
com as diferentes zonas epileptogênicas (ZEs). Resultados variáveis que não associaram estatisticamente com as CPs
e conclusões: De acordo com os critérios do DSM-IV, 198 neste estudo.

INFLUÊNCIA DO GÊNERO E DA EXPRESSÃO DA PROTEÍNA PRION CELULAR SOBRE ASPECTOS


COMPORTAMENTAIS E HISTOPATOLÓGICOS EM UM MODELO DE ANORMALIDADES DO DE-
SENVOLVIMENTO CORTICAL EM CAMUNDONGOS

João Carlos Xikota Malformações do desenvolvimento cortical frequen-


Orientador: Prof. Dr. Roger Walz temente estão associadas com condições neurológicas in-
Tese de Doutorado apresentada em 17/12/2008 cluindo déficits neuropsicológicos, atraso do desenvolvi-

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mento intelectual, retardo mental, dislexia, autismo e epi- velou que a criolesão, independente do sexo ou linhagem
lepsia. Malformações semelhantes à microgiria de 4 cama- dos animais, resultou na formação de uma área microgírica
das observadas em humanos podem ser induzidas por dano focal com uma destacada invaginação da superfície cortical
hipóxico-isquêmico da placa cortical em roedores recém nas- determinando uma pequena lesão intracortical ou uma le-
cidos através da criolesão, a qual destrói a maioria dos são profunda alcançando a substância branca. Não houve
neurônios presentes no momento da lesão, induzindo mo- evidência de lesão cortical em nenhum animal do grupo
dificações permanentes na estrutura e função da circuitaria sham (falso operado). Esta lesão não afetou a função motora
cortical. Há estudos indicando que o sexo do indivíduo dos animais. Entretanto, nos animais selvagens, observa-
possa estar associado à extensão, padrão estrutural e com- mos uma desordem seletiva na memória de curto prazo no
prometimento funcional de lesões cerebrais ocorridas pre- teste de reconhecimento social em camundongos machos
cocemente no desenvolvimento. A proteína prion celular criolesados, enquanto a memória de longo prazo da esqui-
(PrPC) tem sido implicada com processos envolvidos no va inibitória não foi afetada pelo procedimento ou sexo dos
desenvolvimento cortical incluindo a modulação da apop- animais. Estes resultados indicam uma menor susceptibili-
tose neuronal, adesão, crescimento e manutenção dos dade das fêmeas aos prejuízos de memória de curto prazo
neuritos, além da proteção contra estresse oxidativo. No induzidos pelo modelo de microgiria por criolesão neona-
presente estudo investigamos a gravidade da lesão e sus- tal, sugerindo que os déficits cognitivos induzidos pela
ceptibilidade a prejuízos na aprendizagem, memória, e loco- criolesão em roedores podem não ser inteiramente relacio-
moção em camundongos machos e fêmeas das linhagens nados à gravidade da lesão cerebral. Além disso, camun-
selvagem (Prnp+/+) e portadores da deleção do gene Prnp dongos fêmeas de ambos os genótipos apresentaram ativi-
que codifica a PrPC (Prnp0/0). Os animais foram submeti- dade locomotora similares, porém as fêmeas Prnp0/0 de-
dos à criolesão unilateral no primeiro dia pós-natal (P0). monstraram uma tendência aumentada de respostas relaci-
Grupos controle receberam manipulações experimentais se- onadas à ansiedade comparadas aos animais Prnp+/+. Fi-
melhantes, com exceção da indução da criolesão. Entre 12- nalmente, fêmeas Prnp0/0 tiveram um baixo rendimento na
14 semanas após o procedimento os animais foram subme- tarefa de reconhecimento social comparadas aos animais
tidos a testes comportamentais (atividade locomotora es- sham e aqueles Prnp+/+. Esses dados sugerem que a
pontânea, labirinto em cruz elevado, memória social e es- deleção gênica da PrPC confere um aumento da susceptibi-
quiva inibitória do tipo step-down) e sacrificados para aná- lidade ao déficit de memória social de curto prazo induzido
lise morfológica dos cérebros. A análise macroscópica re- pelo modelo de microgiria por criolesão

ANÁLISE COMPARATIVA, QUALITATIVA E QUANTITATIVA DAS FIBRAS MIELÍNICAS DO NER-


VO SURAL DE RATOS ESPONTANEAMENTE HIPERTENSOS E NORMOTENSOS, MACHOS E FÊ-
MEAS

Luciana Sayuri Sanada a sua pressão arterial aferida. Após o preparo do nervo sural
Orientadora: Profª. Drª. Valéria Paula Sassoli Fazan com técnicas histológicas convencionais, secções trans-
Dissertação de Mestrado apresentada em 22/12/2008 versais dos segmentos proximais e distais, dos lados direito
e esquerdo, foram obtidas para análise em microscopia de
luz. A morfometria dos fascículos, das fibras mielínicas e
As alterações vasculares importantes ocorrem em seus respectivos axônios foi realizada com o auxílio de um
decorrência da hipertensão, afetando inclusive os nervos sistema analisador de imagens computacional. Os resulta-
periféricos. Estudos relatam que as diferenças entre gêne- dos mostraram que os SHR e WKY machos apresentam peso
ros influenciam na remielinização, na sensibilidade doloro- (325 ± 16 g e 388 ± 20 g) e pressão arterial média (201 ± 18
sa, na regulação neural da função vascular, no crescimento mmHg e 136 ± 6 mmHg) maiores, quando comparados às
axonal in vitro, na condução nervosa, entre outros. Entre- fêmeas (194 ± 13 g e 218 ± 14 g; 180 ± 18 mmHg e 143 ± 14
tanto, são escassos os relatos de literatura a respeito de mmHg, respectivamente). Foi observado também que, para
diferenças morfológicas e/ou morfométricas nas estruturas os dados ponderais, os animais SHR apresentaram-se signi-
dos nervos periféricos de mamíferos de diferentes gêneros ficativamente menores em relação aos ratos WKY de mes-
e das alterações consequentes a hipertensão. O objetivo do mo gênero. Entretanto, quando se compara os dados pres-
presente estudo foi comparar os aspectos morfológicos e sóricos, verifica-se que os ratos SHR se apresentaram signi-
morfométricos dos diferentes segmentos e lados do nervo ficativamente maiores em relação aos ratos WKY de mesmo
sural de ratos das linhagens ratos espontaneamente hiper- gênero. Não foram observadas diferenças estatísticas sig-
tensos (SHR) e Wistar-Kyoto (WKY), machos e fêmeas. Os nificativas na morfologia e na morfometria entre os lados e
animais (n=6 em cada grupo) foram pesados, anestesiados e segmentos tanto em fêmeas como em machos, nos grupos

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WKY e SHR. Não foram observadas diferenças significati- parâmetros morfométricos relevantes para estudos funcio-
vas na maioria dos parâmetros morfológicos e morfométri- nais. A comparação entre machos e fêmeas das linhagens
cos quer dos fascículos ou das fibras mielínicas analisadas SHR e WKY permite-nos concluir que os parâmetros morfo-
nos diferentes gêneros de WKY e SHR. Quando se compara lógicos e morfométricos do nervo sural não se alteram sob
os animais das linhagens WKY e SHR de mesmo gênero influência dos gêneros. Alguns parâmetros morfológicos e
observa-se diferença significativa quanto aos parâmetros morfométricos do nervo sural de ratos SHR, machos e fême-
morfológicos (vasos mais espessos e colabados em ratos as, em relação aos animais WKY de mesmo gênero permi-
SHR), diâmetro mínimo da fibra mielínica e da razão G, indi- tem-nos concluir que a hipertensão foi capaz de gerar altera-
cando que a hipertensão foi capaz de gerar alterações nos ções neste nervo

OFTALMOLOGIA, OTORRINOLARINGOLOGIA
E CIRURGIA DE CABEÇA E PESCOÇO

ESTIMULADOR PIEZELÉTRICO PARA AVALIAÇÃO DE POTENCIAIS EVOCADOS CÓCLEO-VES-


TIBULARES E REGISTRO DE IMAGENS DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA FUNCIONAL

Ricardo David São apresentados os detalhes construtivos, bem como os


Orientador: Prof. Dr. José Fernando Colafêmina cuidados necessários para contornar as dificuldades ine-
Tese de Doutorado apresentada em 17/10/2008 rentes ao ambiente interno das câmaras de ressonância mag-
nética. Os testes de instrumentação confirmaram excelente
O objetivo deste trabalho é apresentar os resultados resposta acústica de todo o sistema. O protótipo foi testado
da construção de um protótipo de estimulador auditivo para com um phanton no interior da câmara de ressonância, mos-
uso em câmaras de ressonância magnética, mostrando sua trando índice de interferência dentro dos parâmetros de nor-
viabilidade técnica e funcional de forma a melhorar a acurácia malidade. Este trabalho abre caminhos para o desenvolvi-
e eficiência dos registros de ressonância magnética funcio- mento de outros instrumentos e acessórios para uso em
nal a partir de estímulos auditivos. Foram projetados e registros de imagens de ressonância magnética funcional.
construídos um transdutor especial, compondo caixa de res- Abrem-se promissoras oportunidades de trabalho nas apli-
sonância e cristal piezelétrico, além de todos os circuitos de cações de uso do próprio instrumento, quando será possí-
geração de sinais, amplificação e controle, capazes de gerar vel melhor investigar inúmeras vias neurais relacionadas
estímulos auditivos em dois canais, cobrindo toda a faixa do com o trato auditivo e vestibular, não somente nos aspectos
espectro auditivo, com intensidade máxima de 122 dB Na. sensório-motores, mas também cognitivos.

EXPRESSÃO DE ANTÍGENOS CÂNCER-TESTICULARES EM CARCINOMA ESPINOCELULAR DE


LARINGE: ANÁLISE POR IMUNO-HISTOQUÍMICA

David Livingstone Alves Figueiredo Objetivos: Analisar a expressão de antígenos cân-


Orientador: Prof. Dr. Rui C. Martins Mamede cer-testiculares (ACT) em CECL e correlacioná-los com ca-
Tese de Doutorado apresentada em 03/11/2008 racterísticas clínico-patológicas e de sobrevida.
Casuística e Métodos: Foram avaliados 63 pacien-
Introdução: O câncer de laringe ocasiona cerca de tes com diagnóstico histopatológico de CECL, tratados ci-
90.000 mortes por ano em todo o mundo, sendo que o car- rurgicamente no período de 2001 a 2005. Seus respectivos
cinoma espinocelular de larinbe (CECL), responsável por espécimes foram submetidos a reações de imuno-
95% dos casos, se caracteriza por apresentar evoluções histoquímica com os anticorpos MA454 (anti MAGE-A1),
indefinidas, e que, apesar de todo o avanço na laringologia, M3H67 (anti MAGE-A3), 57B (anti MAGE-A4), CT 7-33
a sobrevida não se alterou nos últimos 30 anos. Com base (anti MAGE-C1), CT10.5 (anti MAGE-C2), anti GAGE, E978
nisso, os pesquisadores procuram marcadores que possam (anti NY-ESO-1).
servir como fatores prognósticos ou imunoterápicos. Resultados: A expressão de, pelo menos, um antíge-

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no foi observada em 66,6% dos casos. Eles foram expres- está frequentemente associada aos tumores avançados, que
sos com frequências variáveis: MAGE-A1 (47,62%), MAGE- apresentam prognóstico ruim com os tratamentos hoje esta-
A3 (36,5%), MAGE-A4 (60,32%), MAGE-C1 (22,2%), belecidos.
MAGE-C2 (7,93%), GAGE (20,64%) e NY-ESO-1 (9,52%). A Conclusão: Com base nos dados obtidos neste es-
expressão de um antígeno ou de múltiplos (2 ou mais) e a tudo, conclui-se que nos CECL, os ACT - MAGE-A1, MAGE-
expressão de MAGE-A4 são significantemente maiores em A3, MAGE-A4, MAGE-C1, MAGE-C2, GAGE e NY-ESO-1
tumores avançados. Há expressão significantemente maior são expressos em proporções variáveis (7,93% a 60,32%), e
de MAGE-A1 e de MAGE-A3 em tumores com recidivas que em 66,6% dos casos ocorre a expressão de, pelo me-
cervicais e não houve relação da expressão com o tempo de nos, um desses antígenos. Encontrou-se correlação da ex-
sobrevida. pressão e co-expressão dos antígenos estudados com a
Discussão: Nossos resultados mostram que os CECL presença de tumores avançados. Houve correlação dos
estão entre os tumores que mais expressam ACT, o que tor- antígenos MAGE-A1 e MAGE-A3 com a presença de reci-
na esse câncer um potencial alvo para tratamento imunote- divas cervicais e o MAGE-A4 se correlaciona com tumores
rápico. Observamos, conforme a literatura, que a expressão avançados.

O PAPEL DA ASPIRINA NA PREVENÇÃO DAS ALTERAÇÕES DA GLÂNDULA LACRIMAL E SU-


PERFÍCIE OCULAR DE RATOS DIABÉTICOS

Angélica Gobbi Jorge impressão citológica não revelou diferenças na morfologia


Orientador: Prof. Dr. Eduardo Melani Rocha do epitélio da córnea embora o DM reduza a secreção lacri-
Tese de Doutorado apresentada em 03/11/2008 mal, um efeito que foi prevenido pelo tratamento com AAS
(P<0.01). Alterações na morfologia da glândula lacrimal e
As alterações na glândula lacrimal e superfície ocu- aumento no número de grânulos de lipofucsina foram ob-
lar após Diabetes mellitus (DM) crônico foram correlacio- servados nos animais diabéticos na décima semana de ma-
nadas com ativação da sinalização inflamatória. O objetivo nisfestação do DM considerando que estas características
deste estudo foi determinar se o tratamento com AAS inibe foram similares no controle e diabéticos tratados com AAS.
alterações na glândula lacrimal e superfície ocular provoca- Os níveis de peroxidase foram maiores nos ratos diabéti-
das pelo DM. O DM foi induzido em ratos Wistar machos cos, mas semelhante no controle e diabético tratados com
com streptozotocina e um subgrupo foi tratado com AAS. AAS (P=0.002). Há expressão de UCPs e IKK-α/β na glân-
Após 10 semanas, a glândula lacrimal e superfície ocular dula lacrimal, mas somente UCP-2 e 3 foram reduzidas pelo
destes três grupos (n=5/grupo) foram comparadas em ter- DM (P<0.05). Estes dados sugerem que o estresse oxidativo
mos da morfologia e expressão de peroxidase. A impressão relacionado com hiperglicemia possa participar da síndrome
citológica foi utilizada para comparar o epitélio da córnea e do olho seco em diabéticos. Estes eventos podem ser par-
o teste de Schimer para avaliar a secreção lacrimal. A análi- cialmente prevenidos pela AAS, pela a qual talvez tenha
se por Western blot foi utilizada para avaliar a expressão um efeito inibitório direto sobre as vias oxidativas na glân-
das proteínas desacopladoras (UCPs) e IKKs (IKK-α/β). A dula lacrimal ou em suas consequências inflamatórias.

AVALIAÇÃO CÓCLEO-VESTIBULAR POR MEIO DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA SEQUÊNCIA


3DFT-CISS NA SÍNDROME DO AQUEDUTO VESTIBULAR ALARGADO

Carolina Ferreira Marques Casuística e Métodos: Foram selecionados, para re-


Orientador: Prof. Dr. José Fernando Colafêmina alização de RM dos ouvidos, dez pacientes (20 orelhas)
Dissertação de Mestrado apresentada em 17/11/2008 com diagnóstico clínico e tomográfico de SAVA unilateral
ou bilateral, que formaram o grupo SAVA. Foram seleciona-
Objetivos: Analisar variáveis estruturais cócleo-ves- dos, também, dez indivíduos (20 orelhas) para o grupo con-
tibulares nos pacientes com Síndrome do Aqueduto Vesti- trole, que foram encaminhados ao serviço de RM para rea-
bular Alargado (SAVA) através da sequência "Three lização de exame do encéfalo, onde após exclusão de sinto-
Dimensional Fourier Transformation- Constructive Inter- mas auditivos e/ou vestibulares e história prévia de doen-
ference in Steady State Sequence" (3DFT-CISS) de Resso- ça do aparelho auditivo ou vestibular e com o consenti-
nância Magnética (RM), e compará-las com um grupo con- mento do mesmo, foi incluída a sequência 3DFT-CISS para
trole. As mesmas variáveis foram, ainda, comparadas entre avaliação dos ouvidos. Assim, a avaliação foi realizada por
as orelhas direitas e esquerdas, de ambos os grupos. dois observadores independentes de modo randomizado e

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cego. Foram analisadas as variáveis: Área do modíolo, Di- Conclusões: 1) A análise das variáveis estruturais
âmetro Transverso do Vestíbulo (A), Diâmetro Interno ao cócleo-vestibulares, sendo elas: área modiolar, diâmetro
Canal Semicircular Lateral (B) e relação A/B; posteriormen- transverso do vestíbulo (A), diâmetro interno ao canal late-
te foi realizada comparação entre os grupos e entre orelhas ral (B) e relação A/B mostrou uma diferença estatisticamen-
direitas e esquerdas. te significante entre os grupos SAVA e controle. Os resulta-
Resultados: Ao comparar os grupos SAVA e contro- dos conferem indícios, porém não afirmam o encontro de
le, todas as variáveis analisadas apresentaram uma diferen- deficiência modiolar em pelo menos 35% das orelhas do
ça estatisticamente significante (p<0,01). Foi constatado, grupo SAVA e aumento da relação entre diâmetro transver-
ainda, que aproximadamente 35% das orelhas do grupo so do vestíbulo e diâmetro interno ao canal lateral em 85%
SAVA obtiveram uma área modiolar inferior à mínima área das orelhas, sugerindo alargamento do vestíbulo. Esses
modiolar descrita na literatura, sugerindo uma possível de- resultados corroboram com a teoria da presença de defei-
ficiência modiolar. Observado também que 85% das ore- tos estruturais mínimos na orelha interna com capacidade
lhas do grupo SAVA apresentaram uma relação A/B maior de contribuir para o quadro clínico na SAVA; 2) Ao compa-
que 1,2 (limite da normalidade estabelecido por diversos rarmos as variáveis estruturais entre as orelhas direitas e
autores), sugerindo, talvez, um alargamento do vestíbulo. esquerdas de ambos os grupos não encontramos diferença
Ao comparar as variáveis entre orelhas direitas e esquer- significante, sugerindo, provavelmente, não haver diferen-
das, de ambos os grupos, não foi verificada diferença esta- ça de comportamento entre orelhas, mesmo considerando
tisticamente significante. casos de SAVA unilateral e bilateral.

EFEITO DA OBSTRUÇÃO NASAL NA FASE ORAL DA DEGLUTIÇÃO EM CRIANÇAS

Tais Helena Grechi rinolaringológica para diagnóstico respiratório, avaliação


Orientadora: Profª. Drª. Luciana Vitaliano Voi Trawitzki odontológica para diagnóstico do padrão oclusal e dentário,
Dissertação de Mestrado apresentada em 26/11/2008 avaliação clínica fonoaudiológica e avaliação videofluoros-
cópica da deglutição. Para avaliação ideofluoroscópica foi
A obstrução nasal crônica pode causar efeitos nega- utilizada a consistência líquida em volume livre e 3 ml de
tivos no crescimento e desenvolvimento craniofacial, além consistência pastosa modificadas com sulfato de bário.
de modificações na musculatura orofacial, com impacto so- Avaliou-se na fase oral da deglutição o volume, a consis-
bre a deglutição. O objetivo do presente estudo foi verificar tência e a organização do bolo, o tempo de trânsito oral, a
os efeitos da obstrução nasal na fase oral da deglutição em ejeção, a postura dos lábios, o número de deglutições e a
crianças na fase de dentição decídua. Participaram deste presença de movimentos associados durante a deglutição.
estudo 31crianças do Ambulatório de Otorrinolaringologia Observou-se que a consistência pastosa e o padrão de or-
do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto - USP. Estas cri- ganização do bolo influenciaram no tempo de trânsito oral,
anças foram divididas em dois grupos: 21 crianças respira- embora não ocorrera diferença entre os grupos. Em relação
doras bucais, sendo 8 do gênero feminino e 13 do gênero aos outros aspectos avaliados durante a fase oral da deglu-
masculino, com idade média de 4,5 anos (grupo bucal) e 10 tição não foi constatada diferença significativa entre os gru-
crianças respiradoras nasais, 4 do gênero feminino e 6 do pos bucal e controle. Os resultados indicaram que a obstru-
gênero masculino, com idade média de 4,6 anos (grupo con- ção nasal não influenciou significativamente a fase oral da
trole). Ambos os grupos foram submetidos à avaliação otor- deglutição em crianças na fase de dentição decídua.

AVALIAÇÃO PROSPECTIVA DE AUDIÇÃO E LINGUAGEM DE CRIANÇAS TRIADAS AO NASCI-


MENTO

Cristiane Fregonesi Dutra Garcia ção auditiva periférica e central de crianças nascidas a ter-
Orientadora: Profa.Dra. Myrian de Lima Isaac mo e prétermo, adequadas e pequenas à idade gestacional;
Tese de Doutorado apresentada em 17/12/2008 discutir o estado de desenvolvimento de fala, linguagem e
aprendizagem destas crianças.
Introdução: O Potencial Evocado Auditivo de Lon- Casuística e Métodos: estudo de prevalência, des-
ga Latência denominado de Mismatch Negativity (MMN) é critivo, observacional, transversal, comparativo, prospecti-
um potencial endógeno que reflete o processamento de vo, com enfoque em diagnóstico. Amostra constituída por
diferenças ocorridas no estímulo acústico. 19 sujeitos nascidos a termo; 32 sujeitos nascidos prematu-
Objetivos: estimar a prevalência de alteração da fun- ros e adequados à idade gestacional; 18 sujeitos nascidos

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prematuros e pequenos à idade gestacional. Foram realiza- termo foi de 200 milissegundos; para as crianças nascidas
dos os seguintes procedimentos: análise do prontuário e pré-termo e adequadas à idade gestacional foi de 167,76
entrevista com a mãe ou responsável; exame otorrinolarin- milissegundos; para as crianças nascidas pré-termo e pe-
gológico, avaliação auditiva por meio de Audiometria Tonal quenas à idade gestacional foi de 174,1milissegundos. A
Liminar, Limiar de Recepção de Fala, Imitanciometria, Poten- amplitude para a orelha direita, em crianças nascidas a ter-
cial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico, Potencial Evo- mo, apresentou média de -3,044 microVolts; de -3,584
cado Auditivo de Longa Latência, MMN. Na análise esta- microVolts para as crianças nascidas pré-termo e adequadas
tística foram usados os testes Kruskal-Wallis, Qui- Quadra- à idade gestacional; de -3,165 microVolts para as crianças
do, de Dunn. nascidas pré-termo e pequenas à idade gestacional. Na ore-
Resultados: a audição periférica apresentou-se den- lha esquerda, a média da amplitude foi de -3,407 microVolts
tro da normalidade na maioria das crianças dos três grupos para as crianças nascidas a termo; de -5,22 microVolts para
do estudo. A função auditiva central apresentou indicação as crianças nascidas pré-termo e adequadas à idade gesta-
de alteração no registro do Reflexo Estapediano e Potencial cional; de -3,863 microVolts para as crianças nascidas pré-
Evocado Auditivo do Tronco Encefálico na maioria das cri- termo e pequenas à idade gestacional. O desenvolvimento
anças dos três grupos estudados. No exame MMN, a latência de fala, linguagem, audição e aprendizagem apresentaram-
média para a orelha direita, em crianças nascidas a termo, foi se dentro da normalidade para a maioria das crianças avali-
de 207,6 milissegundos; para as crianças nascidas pré-ter- adas nos três grupos.
mo e adequadas à idade gestacional foi de 158,51 milisse- Conclusão: o exame MMN deve ser instrumento com-
gundos; para as crianças nascidas pré-termo e pequenas à plementar na avaliação e monitoramento de crianças de ris-
idade gestacional foi de 181,80 milissegundos; a latência co para alterações no desenvolvimento de fala, linguagem e
média para a orelha esquerda, para as crianças nascidas a audição.

ORTOPEDIA, TRAUMATOLOGIA E REAB ILITAÇÃO

AÇÃO DO TREINAMENTO FÍSICO ANTES E APÓS A INSTALAÇÃO DA OSTEOPENIA EM RATAS


OVARIECTOMIZADAS

Priscila Angelotti Simões Foram analisadas a força máxima e a rigidez do terço proximal
Antônio Carlos Shimano do fêmur direito. O fêmur esquerdo foi submetido à análise
Dissertação (Mestrado) 03/10/2008 densitométrica. Os resultados mostraram uma redução da
resistência mecânica, densidade óssea e calcemia no grupo
A contra medida mais estudada para previnir e/ou OVX I em relação aos grupos Cont I e OVXT I, porém não foi
minimizar a reabsorção óssea e aumentar a tolerância à soli- observada diferença estatística entre esses dois últimos gru-
citação mecânica é a prática de exercício físico. O objetivo pos. O grupo OVX II demonstrou diminuição significativa
deste estudo foi (1) analisar o efeito do exercício físico em de calcemia em relação aos grupos Cont II e OVXT II, nas
fêmures de ratas submetidas à ovariectomia através de en- demais comparações não houve diferença significativa. A
saios mecânicos e análise densitométrica e, (2) verificar as densidade óssea foi menor no grupo OVX II foi menor que
alterações nos níveis de calcemia. Foram utilizadas 60 ratas no grupo Cont II e, entre os grupos OVXT II e Cont II não
adultas da raça Wistar que foram separadas em 6 grupos foi observada diferença estatística. A força máxima entre os
(n=10): Cont I: controle; OVX I: ovariectomizados; OVXT I: grupos Cont I, OVX I e OVXT I, não foi significativamente
ovariectomizados e treinados após 72 horas de ovariecto- diferente, porém foi menor nos grupos OVX II e OVXT II
mia; Cont II: controle; OVX: ovariectomizados e OVXT II: que no grupo Cont II. A rigidez dos grupos OVX I e OVX II
ovariectomizados e treinados após oito semanas de ovari- foi menor que dos grupos Cont I e Cont II, respectivamente.
ectomia. Os animais do subgrupo I foram submetidos à eu- O grupo OVXT I apresentou maior rigidez que o grupo OVX
tanásia após 13 semanas a partir do início do experimento e I e semelhante ao grupo Cont I. Já o grupo OVXT II não
os do subgrupo II com 21 semanas. O protocolo de treina- apresentou diferença estatística em relação aos grupos OVX
mento consistia em 15m/min da 1ª a 6ª semana e 18 m/min da II e Cont II. Estes resultados sugerem que o treinamento
7ª a 12ª com 4 sessões por semana. Foi coletado sangue no físico foi eficaz na profilaxia da perda de massa óssea. No
início e final do experimento para a dosagem de calcemia. entanto, não foi eficaz no controle da osteopenia.

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ANÁLISE HISTOMORFOMÉTRICA DA PLACA VERTEBRAL TERMINAL E DO DISCO INTERVER-


TEBRAL EM DIFERENTES NÍVEIS VERTEBRAIS DA COLUNA VERTEBRAL E DIFERENTES FAIXAS
ETÁRIAS EM HUMANOS

Juliano Silveira Luiz Vieira realizada por meio de avaliação histomorfométrica dos cor-
Orientador: Prof. Dr. Helton Luis Aparecido Defino tes histológicos corados pela Hematoxilina e Eosina. As
Tese de Doutorado apresentada em 08/10/2008 espessuras das PVT foram comparadas entre si e também
com a espessura do disco intervertebral interposto entre as
A placa vertebral terminal (PVT) é uma estrutura ana- respectivas PVT. A espessura das placas vertebrais termi-
tômica que mantém relação funcional com a nutrição do dis- nais adjacentes ao mesmo DI não apresentou diferença es-
co intervertebral (DI). O objetivo do estudo foi avaliar por tatística. No entanto, a comparação da espessura das pla-
meio de histomorfometria, a espessura da placa vertebral ter- cas vertebrais superior e inferior da mesma vértebra cervical
minal, a espessura do disco intervertebral e a sua correlação (C5) e lombar (L5), apresentou diferença estatística em todos
nas diferentes faixas etárias e em diferentes níveis vertebrais. os grupos e em todas as faixas etárias avaliadas. Foi obser-
Foram avaliados os segmentos vertebrais C4-C5, C5- C6, vado coeficiente de correlação estatística, maior que 75%,
T7- T8, T12-L 1, L4-L5 e L5-S1 de 50 cadáveres humanos, de entre a espessura da placa vertebral terminal e o disco inter-
ambos os sexos, divididos em 5 grupos com intervalo de vertebral adjacente, com proporcional redução de espessu-
faixa etária de 10 anos, a partir dos 21 anos de idade. A ra de ambas estruturas, nos diferentes níveis vertebrais ava-
avaliação da espessura da PVT e do disco intervertebral foi liados, e também nas diferentes faixas etárias avaliadas.

EFEITOS DOSE DEPENDENTES DO ULTRA-SOM TERAPÊUTICO NO PROCESSO DE CICATRIZA-


ÇÃO DO TENDÃO FLEXOR. ANÁLISE BIOMECÂNICA EM TENDÕES DE COELHOS

Cristiane Vitaliano Graminha Romano cutivos. No trigésimo primeiro dia pós-operatório, os ani-
Orientador: Prof. Dr. Claúdio Henrique Barbieri mais foram sacrificados e o tendão operado foi dissecado
Tese de Doutorado apresentada em 09/10/2008 ressecado, sendo que 40 tendões (10 de cada grupo) foram
submetidos aos testes de resistência à tração na máquina
A literatura revela indícios de que o ultra-som tera- universal de ensaio e um tendão de cada grupo foi subme-
pêutico favorece a cicatrização tendinosa, embora os resul- tido à análise histológica qualitativa. A partir dos gráficos
tados dos estudos sejam ainda contraditórios. O objetivo força versus deformação foram calculadas as seguintes pro-
deste trabalho foi investigar as propriedades mecânicas priedades mecânicas: força máxima, deformação na força
nos reparos de tendões flexores profundos de coelhos sub- máxima e rigidez. Ainda para a propriedade mecânica força
metidos a tenotomia seguida de tenorrafia e aplicação do máxima, foram estabelecidos quatro valores de referência
ultra-som terapêutico com diferentes intensidades. Para (8, 16, 20 e 24 N), e verificou-se a porcentagem de tendões
tanto, foram utilizados 44 coelhos fêmea, da raça Nova de cada grupo experimental que suportava uma carga maior
Zelândia, adultos jovens com peso corpóreo médio de 2,5 ou igual a cada um desses valores. Os resultados mostra-
Kg. Todos os animais foram operados sob anestesia geral e ram que, embora não houvesse diferenças estatisticamente
submetidos à tenotomia do tendão flexor profundo do ter- significante entre os grupos experimentais, a força máxima
ceiro dedo da pata direita dianteira e imediatamente repara- e a deformação na força máxima foram maiores para o grupo
do com a técnica de Kessler modificada. As patas operadas irradiado com ultra-som contínuo a uma intensidade de 0,6
foram imobilizadas com uma órtese de material termoplástico W/cm2, sugerindo que o ultra-som melhorou as proprieda-
durante todo o período do experimento (31 dias) e os ani- des mecânicas desses tendões. Especificamente para a pro-
mais foram distribuídos em quatro grupos (A, B, C e D) de priedade mecânica força máxima, procurou-se verificar a
acordo com o tratamento pós-operatório. Os animais do porcentagem de tendões de cada grupo experimental que
grupo A receberam aplicação do ultra-som com uma inten- suportava uma carga maior ou igual 8, 16, 20 e 24 N. Os
sidade de 1,4 W/cm2, os do grupos B de 0,6 W/cm2, ambos resultados mostraram que os tendões do grupo tratado com
no modo contínuo, os do C de 0,6 W/cm2 SATA (spatial ultra-som contínuo a uma intensidade de 0,6 W/cm2, tolera-
average and temporal average) no modo pulsado a 50% e ram carga maior que os tendões dos demais grupos. A aná-
os animais do grupo D, não receberam tratamento ultra- lise histológica mostrou que o tendão desse mesmo grupo
sônico algum. A frequência ultra-sônica empregada foi de 1 apresentou fibras colágenas totalmente densas, diferente-
MHz, a aplicação foi diária, com duração de 6 minutos cada, mente dos demais tendões que apresentaram fibras frouxas
iniciando no quarto dia pós-operatório, por 10 dias conse- entremeadas às demais fibras.

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MICROSCOPIA ELETRÔNICA DE VARREDURA DA ÁREA ÓSSEA ADJACENTE AOS PARAFUSOS


CERVICAIS, EM DIFERENTES TEMPOS DE FIXAÇÃO

João Paulo Chieregato Matheus anestésica (Agudo). A partir destas cirurgias foram forma-
Orientador: Prof. Dr. Helton Luis Aparecido Defino dos os seguintes grupos experimentais: agudo com orifício
Tese de Doutorado apresentada em 23/12/2008 2,0 mm (A 2,0); agudo com orifício 2,5 mm (A 2,5); agudo
com orifício macheado de 2,5 mm (A 2,5 M); crônico com
As técnicas de preparo do orifício piloto durante as orifício 2,0 mm (C 2,0); crônico com orifício 2,5 mm (C 2,5) e
cirurgias de coluna, como a variação do diâmetro e a realiza- crônico com orifício macheado de 2,5 mm (C 2,5 M). Termi-
ção do macheamento, têm sido apontadas como determi- nados os procedimentos cirúrgicos, o material foi prepara-
nantes no aumento da interface osso/implante dos parafu- do e conduzido para análise por meio de microscopia eletrô-
sos cervicais e, consequentemente, maior estabilidade. As- nica de varredura (MEV). As imagens obtidas foram então
sim, o objetivo deste estudo foi avaliar a influência do diâ- qualificadas e quantificadas segundo as áreas: intra passo
metro e do macheamento do orifício piloto na área óssea de rosca, projeção em espelho e contato osso/implante. Nos
trabecular entre os passos de rosca, na área paralela ao im- grupos agudos, o orifício de menor diâmetro (A 2,0) gerou
plante e na superfície de contato osso/implante, por meio de grande fragmentação e compactação intra passo de rosca e
microscopia eletrônica de varredura e em diferentes tempos o macheamento (A 2,5 M) removeu parte do material na re-
de fixação. Para tanto foram utilizados seis carneiros, com gião do parafuso. Nos grupos crônicos, o orifício com maior
massa corporal média de 28±04 kg e 72 parafusos cervicais área óssea intra passo e contato osso/implante foi aquele
de titânio (Synthes ®) com diâmetro externo de 3,5 mm, diâ- com o mesmo diâmetro interno do parafuso e não macheado
metro interno de 2,5 mm e 14,0 mm de comprimento. Os para- (C 2,5). Portanto, no momento de implantação dos parafu-
fusos foram implantados por acesso anterior no corpo das sos cervicais, a maior área óssea intra passo de rosca e de
vértebras cervicais dos carneiros em dois procedimentos ci- contato foi obtida ao se realizar orifícios piloto com diâme-
rúrgicos. Durante os procedimentos foram confeccionados, tro interno menor que o diâmetro dos implantes sem a reali-
com brocas, orifícios piloto de 2,0 e 2,5 mm de diâmetros. zação da técnica de macheamento. Entretanto, na fase crô-
Além disso, em metade dos orifícios de 2,5 mm foi realizado nica, os resultados obtidos sugerem que a melhor técnica
o macheamento com instrumental específico (Synthes@), seja a realização do orifício piloto com mesmo diâmetro do
semelhante ao perfil dos parafusos. Na primeira cirurgia os parafuso, sem a realização do macheamento. Levando-se
parafusos foram implantados nas vértebras cervicais C2, C3 em consideração que a fixação de um segmento em uma
e C4, conforme os grupos experimentais, e os animais foram abordagem terapêutica permanecerá por um tempo prolon-
mantidos vivos por oito semanas (Crônico). Passado esse gado, muitas vezes acima de oito semanas, é I adequado
período, foi realizada nova cirurgia para implantação dos sugerir que a confecção de um orifício piloto de mesmo diâ-
parafusos nas vértebras cervicais C5, C6 e C7 e em seguida metro interno do parafuso, sem o macheamento, seja a me-
o animal foi submetido à eutanásia por meio de overdose lhor técnica de fixação dos implantes em coluna cervical.

PATOLOGIA

EXPRESSÃO DA CHECKPOINT KINASE 2 NOS CARCINOMAS MAMÁRIOS: ESTUDO CLINICO-


PATOLÓGICO E IMUNOISTOQUÍMICO

Michel Antonio Kiyota Moutinho compreendido. Este estudo foi realizado para avaliar a rela-
Orientador: Prof. Dr. Alfredo Ribeiro-Silva ção entre a expressão do Chk2 e fatores prognósticos bem
Dissertação de Mestrado apresentada em 23/10/2008 estabelecidos, incluindo sobrevida livre de doença e so-
brevida global; e vários reguladores da proliferação celular
A Checkpoint quinase 2 (Chk2) é uma proteína de e progressão tumoral nos carcinomas mamários, incluindo
checagem do ciclo celular que pode atuar como um supres- oncogenes, genes supressores tumorais, proteínas relacio-
sor tumoral devido ao seu importante papel na sinalização nadas à apoptose e marcadores relacionados a angiogêne-
ao dano ao DNA e na regulação do ciclo celular. O papel do se. Um painel imuno- histoquímico com 27 anticorpos pri-
Chk2 na tumorigênese mamária, entretanto, ainda é pouco mários foi realizado em 100 amostras de carcinomas ductais

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invasores sem outras especificações (SOE), previamente dos, a baixa expressão do Chk2 correlacionou-se com baixa
fixadas em formalina e emblocados em parafina. Os dados expressão do p27 e da telomerase. Não houve diferença
clínicos foram obtidos dos prontuários médicos. No parên- entre a sobrevida global e sobrevida livre da doença de
quima mamário normal adjacente ao tumor, o Chk2 marcou acordo com a marcação do Chk2. Em conclusão, A expres-
o núcleo das células epiteliais. Uma baixa expressão do são diferencial do h-TERT e do p27 pode contribuir na
Chk2 foi observada em 23 carcinomas e essa expressão fisiopatogênese dos carcinomas mamários Chk2- positivos.
correlacionou-se com doença avançada. Entre os regula- A expressão do Chk2 não interferiu com a evolução das
dores da proliferação celular e progressão tumoral avalia- pacientes.

SAÚDE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

INFLUÊNCIA DO TAMANHO AO NASCER E DE ALGUMAS VARIÁVEIS SOCIODEMOGRÁFICAS


SOBRE O ESTADO NUTRICIONAL DE CRIANÇAS ENTRE 10 E 11 ANOS DE IDADE, PERTENCEN-
TES À COORTE DE 1994, RIBEIRÃO PRETO-SP

Ieda Regina Lopes Del Ciampo domicílio. Após o ajuste final do modelo para o BPN e para
Orientadora: Profª.Drª. Heloisa Bettiol a RCIU, ambos não favoreceram o excesso de peso na idade
Tese de Doutorado apresentada em 30/10/2008 escolar tanto pela referência de Must et al. como pela do
NCHS/CDC e ainda tiveram associação positiva com a sub-
O baixo peso ao nascer (BPN) e a restrição de cresci- nutrição nos escolares, com a RCIU pela referência de Must
mento intra-uterino (RCIU) são indicadores de comprometi- et al. com Odds Ratio (OR) de 2,33 e intervalo de confiança
mento do estado nutricional durante a vida pré-natal e esta- de 95%, (IC95%) de 1,34;4,07) e do NCHS/CDC com OR=2,23
riam associados a fatores de risco para doenças cardiovas- (IC95% 1,29;3,84); e o BPN pelos critérios de Must et al.
culares na vida adulta. Atualmente, acredita-se que este ris- com OR=1,81 (IC95% 1,02;3,21) e NCHS/CDC com OR=1,78
co também esteja presente em idades mais precoces. Para (IC95% 1,01;312). A associação positiva do sexo masculino
avaliar a influência do peso ao nascer e de outras variáveis com o excesso de peso (OR=1,47; IC95% 1,02;2,13) e a ten-
ao nascimento e entre 10 e 11 anos de idade sobre o estado dência de associação positiva do maior número de morado-
nutricional de escolares em Ribeirão Preto-SP, foram avalia- res no domicílio com o excesso de peso não foram suficien-
das por meio de questionário e medidas antropométricas, tes para retirar a associação positiva do tamanho ao nascer
uma amostra de 874 crianças em idade escolar, provenientes com a subnutrição na idade escolar. Houve, ainda, associa-
de um estudo de coorte iniciado em 1994. Foram considera- ção negativa da RCIU com o excesso de peso pela referên-
dos subnutridos os escolares com índice de massa corporal cia do NCHS/CDC (OR=0,57; IC95% 0,34; 0,93). O excesso
(IMC) < percentil (P) 5 e com excesso de peso aqueles com de peso como um dos fatores de risco para a síndrome meta-
IMC ≥ P85 por duas referências: Must et al. e NCHS/CDC. A bólica nos indivíduos com BPN e com RCIU, independente
associação do IMC com o peso ao nascer e demais variá- das referências de IMC utilizadas, parece ainda não estar
veis de controle foi avaliada por modelo de regressão logís- presente na idade escolar. Os resultados encontrados são
tica nominal, sendo a faixa entre o P5 e o P85 considerada importantes e demonstram que este município, como outras
como referência. As variáveis de controle foram: sexo, ida- regiões de países em desenvolvimento, encontra-se em fase
de, cor da pele, nascimento pré-termo, tabagismo materno de transição nutricional. Devido aos altos índices de exces-
durante a gestação, situação conjugal materna no parto, so de peso sem a diminuição dos níveis de subnutrição para
idade da mãe ao nascimento da criança, idade da introdução aqueles dos países desenvolvidos, o efeito de associação
de leite artificial, tipo de escola que a criança frequenta es- do BPN e da RCIU com o excesso de peso na faixa etária
colaridade materna atual e número atual de moradores por entre 10 e 11 anos de idade ainda não ocorreu.

ESTUDO DO PERFIL DE EXPRESSÃO DOS GENES RELACIONADOS A APOPTOSE EM LEUCE-


MIAS LINFÓIDES AGUDAS DA INFÂNCIA POR PCR QUANTITATIVO EM TEMPO REAL (RQ-PCR

Juliana França da Mata Introdução: Anormalidades na regulação da apop-


Orientador: Prof.Dr. Carlos Alberto Scrideli tose, resultando tanto na sua inibição quanto aumento, tem
Tese de Doutorado apresentada em 05/11/2008 sido descritas como tendo um papel central no desenvolvi-

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mento de diversas malignidades onco-hematológicas. A as- (SLE). O tempo de seguimento variou de 26 a 66 meses. A
sociação dos níveis de expressão destes genes com variá- associação entre as variáveis e os valores de expressão de
veis biológicas e sobrevida em crianças com LLA não tem cada gene foi analisada pelo teste de Mann-Whitney. A
sido bem estabelecida. O objetivo do estudo foi de compa- SLE foi analisada através de curvas de Kaplan-Meier e tes-
rar níveis de expressão dos genes pró-apoptóticos CASP3, te log-rank e a correlação entre os valores de expressão
CASP8, CASP9 e FAS e do gene anti-apoptótico BCL2 em pelo teste de Spearman. Foram considerados como aumen-
crianças com leucemia linfóide aguda (LLA) e correlacioná- tados os valores de expressão acima da mediana.
los com prognóstico e variáveis clínicas e biológicas. Resultados: SLE em 4 anos foi de 76% (RB-82% x
Métodos: Foram analisadas 140 amostras consecu- AR-66%) no grupo analisado. Foi observada uma correla-
tivas de medula óssea de crianças com LLA ao diagnósti- ção significativa entre os genes CASP3, CASP8, CASP9 e
co, classificadas e tratadas nas instituições participantes FAS (P<0.001) e associação estatística significante (p≤0,05)
segundo os protocolos propostos pelo GBTLI-99. O perfil entre hiperexpressão do gene BCL2 e GB <50000/dL ao
de expressão gênica foi analisado por PCR quantitativa em diagnóstico e risco básico. Hiperexpressão dos genes
tempo-real (RQ-PCR) utilizando-se SYBR Green como mar- CASP3, CASP8 e FAS esteve associada a contagem de
cador de fluorescência e o gene GUS como controle inter- GB<5000/dL no D7 da terapia de indução. Não foi verificada
no. O valor de expressão relativa de cada gene foi avaliado associação entre o nível de expressão destes genes e SLE
pela técnica 2-DDCT (com eficiências variando de 1,9-2,1). em 4 anos.
Foram comparados os níveis de expressão dos genes estu- Conclusões: Os resultados sugerem que o nível de
dados com as variáveis: idade, número de glóbulos bran- expressão de genes relacionados a apoptose pode estar as-
cos (GB) ao diagnóstico, citogenética molecular, velocida- sociado a variáveis clínicas e biológicas em crianças com
de na resposta ao tratamento de indução (respondedores LLA. O nível de expressão destes genes medidos ao diag-
rápidos ou lentos), grupo de risco (risco básico-RB ou alto nóstico, no entanto, não parece ter associação significativa
risco-AR), imunofenotipagem e sobrevida livre de eventos com sobrevida e chance de recaída em crianças com LLA.

DA SAÚDE PERINATAL À SAÚDE DO ADULTO JOVEM : ESTUDO DOS FATORES DE RISCO


PARA A SÍNDROME METABÓLICA NA COORTE NASCIDA EM 1978/79 NOS HOSPITAIS DE
RIBEIRÃO PRETO, SP

Viviane Cunha Cardoso momentos de avaliação: ao nascimento (sexo do recém-


Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio Barbieri nascido, tabagismo, escolaridade e situação conjugal ma-
Tese de Doutorado apresentada em 19/11/2008 ternas, paridade e relação de peso ao nascer para idade
gestacional, classificada como adequado - AIG, pequeno -
Introdução: Diversos estudos sugerem que baixo PIG e grande - GIG), na idade escolar (excesso de peso ou
peso ao nascer associado a sobrepeso na infância pode não) e aos 23/25 anos (ocupação do chefe da família, situa-
aumentar o risco de resistência insulínica e Síndrome Meta- ção conjugal, escolaridade, tabagismo e história familiar de
bólica (SM) na vida adulta. SM é um transtorno complexo doenças cardiovasculares). SM foi definida pelo consenso
representado por um conjunto de fatores de risco para do- da International Diabetes Federation (IDF). Foi aplicada
ença cardiovascular, relacionados à deposição central de análise de regressão logística múltipla, passo a passo, sen-
gordura e à resistência insulínica. A prevalência da SM é do SM a variável dependente. O estudo foi aprovado pelo
alta, variando entre 10% e 40%, dependendo da idade e Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas e da
sexo. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto -USP, processo
Objetivos: Estimar a prevalência da SM e seus com- n° 5587/2007.
ponentes entre adultos jovens nascidos na coorte de Ri- Resultados: A prevalência de SM da coorte adulta,
beirão Preto/SP em 1978/79, e avaliar em que medida fatores pelos critérios da IDF, foi 11,9% (18,1% nos homens e 6,1%
indicativos de nutrição intra-uterina (PIG e GIG) e excesso nas mulheres). Entre os componentes da síndrome encon-
de peso na infância são associados com SM. trou-se: circunferência de cintura aumentada em 32%, hi-
Métodos: De 6827 nascidos de parto único hospita- pertensão em 22,8%, HDL baixo em 42%, hiperglicemia em
lar em 1978/79 foram avaliados 2063 participantes aos 23/25 3,1%, e hipertrigliceridemia em 12,8%. Houve diferença en-
anos para estabelecer a prevalência de SM na coorte adul- tre os sexos em relação a todos os componentes da SM,
ta. Esta avaliação dos adultos jovens constou de coleta de sendo que os homens apresentaram maiores prevalências
sangue, medidas antropométricas, aferição de pressão ar- de alteração nas medidas de cintura, níveis pressóricos,
terial e aplicação de questionários padronizados. Destes glicemia de jejum e triglicerídeos (36,1%, 40,6%, 4,5% e 16%;
2063 sujeitos, 1138 tiveram informações coletadas em 3 respectivamente) do que as mulheres (28,1%, 6,3%, 1,8% e

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9,8%; respectivamente). Em relação ao HDL colesterol bai- las outras variáveis. Indivíduos do sexo masculino (OR 4,24),
xo, as mulheres apresentaram maior porcentagem (44,4%) com excesso de peso na idade escolar (OR 2,81) e tabagistas
do que os homens (39,4%). O cálculo de tendência linear (OR 3,03) tiveram um risco maior de SM.
mostrou que o risco para SM aumentava conforme o au- Conclusões: A prevalência de SM foi elevada, con-
mento da relação de peso para idade gestacional. Na análi- siderando-se que a população é jovem. Ganho de peso na
se não-ajustada recém-nascidos GIG apresentaram risco para idade escolar mostrou-se associado a risco de SM, ao con-
SM, associação esta que não se manteve com o ajuste pe- trário das condições de nascimento.

PERFIL NUTRICIONAL DE ADOLESCENTES EUTRÓFICOS, COM DIAGNÓSTICO DE SOBREPESO


E OBESIDADE, ATENDIDOS NO CENTRO MÉDICO SOCIAL COMUNITÁRIO VILA LOBATO, RI-
BEIRÃO PRETO (SP), BRASIL

Virgínia Pavesi Miguel cintura e do braço, dobras cutâneas e composição corporal


Orientadora: Profª. Drª. Jacqueline Pontes Monteiro entre os grupos (p=0,000). A circunferência da cintura apre-
Dissertação de Mestrado apresentada em 25/11/2008 sentou correlação estatisticamente significante com o IMC
(0,947; p = 0,000), porcentagem de gordura corporal (0,757;
p = 0,000 ), dobra cutânea triciptal (0,723; p = 0,000), dobra
A obesidade pode ser definida como um distúrbio cutânea subescapular ( 0,815; p = 0,000) e dobra cutânea
metabólico caracterizado por aumento da massa adiposa do supra-ilíaca ( 0,841; P = 0,000). Entre os grupos não foi ob-
organismo que se reflete em aumento do peso corpóreo servada diferença estatística significante em relação à in-
(OMS, 2004). Na adolescência, esta se associa ao apareci- gestão energética e à contribuição percentual de macronu-
mento precoce de doenças cardiovasculares, diabetes me- trientes, porém todos os grupos apresentaram percentual
llitus tipo 2, problemas psicológicos, além de comprometer a lipídico da dieta acima do recomendado. Além disso, não
postura, causar alterações no aparelho psicomotor entre houve diferença estatística significante entre os três gru-
outros (Terres et al., 2006). A adolescência traz consigo algu- pos para o consumo de micronutrientes. Quanto à análise
mas peculiaridades que podem fazer com que este seja um qualitativa da dieta, observa-se em geral consumo frequen-
grupo de risco para o excesso de peso, uma vez que as te de arroz e feijão, pães, salgados, refrigerante, suco artifi-
práticas alimentares dessa faixa etária compreendem alta in- cial, café com açúcar e embutidos. As frutas mais consumidas
gestão de alimentos energéticos tais como fast foods, sal- foram laranja, maçã e banana, e os vegetais mais consumi-
gadinhos, doces e refrigerantes (Del Ciampo; Tomita, 2007) dos foram alface e tomate. No que se refere ao estilo de vida,
e baixa ingestão de frutas, vegetais e laticínios (Neumark- observou-se que o tempo gasto em frente à televisão (p =
Sztalner et al., 1999). O presente estudo teve como objetivos 0,018) foi maior entre os adolescentes obesos, o hábito de
descrever e comparar o perfil nutricional de três grupos de fazer dieta (p = 0,023) e o menor número de refeições (p =
adolescentes de mesma idade e gênero, com diagnóstico de 0,014) foi mais prevalente entre os com sobrepeso e a pre-
sobrepeso, obesidade e eutrofia determinado pelo Índice de sença familiar de obesidade (p = 0,000) foi menos comum
Massa Corporal (IMC). Para avaliação do consumo alimen- entre os eutróficos. Os nossos resultados mostram que os
tar, foi utilizado questionário semiquantitativo de frequên- três grupos de adolescentes apresentaram semelhança em
cia alimentar, e as informações relativas aos hábitos associ- relação ao padrão alimentar. Do ponto de vista qualitativo, o
ados à alimentação foram coletadas por meio de um questi- padrão alimentar de todos os adolescentes pesquisados
onário. Foram avaliados 141 adolescentes, com idade entre mostrou-se inadequado para a maioria dos grupos de ali-
10 e 19 anos, atendidos no Centro Médico Social Comunitá- mentos. Os resultados referentes ao estilo de vida e presen-
rio Vila Lobato, cidade de Ribeirão Preto, São Paulo. Em ça de obesidade na família mostram que, além do padrão
relação à antropometria, observou-se que houve diferença alimentar, estes devem ser considerados ao tratar obesida-
estatística significante entre o IMC, peso, circunferência da de na adolescência.

IMPACTO DA SUPLEMENTAÇÃO MATERNA DE VITAMINA A DURANTE O PUERPÉRIO NO BINÔ-


MIO MÃE-FILHO: ENSAIO CLÍNICO ALEATORIZADO DUPLO-CEGO PLACEBO-CONTROLADO

Thalia Manfrin Martins Introdução: A deficiência de vitamina A (DVA) cons-


Orientador: Prof. Dr. Ivan Savioli Ferraz titui grave problema de saúde pública em muitas regiões do
Dissertação de Mestrado apresentada em 28/11/2008 mundo, atingindo principalmente o grupo materno-infantil

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e aumentando a morbimortalidade na infância. A suplemen- no grupo que não recebeu a vitamina (1,98 ± 0,78 µmol/l no
tação materna pode ser uma estratégia eficaz no combate T0 e 1,34 ± 0,89 µmol/l no T1, p=0,003). Nos lactentes, não
ao problema. houve diferença estatística nas médias de retinol entre os
Objetivos: Verificar o impacto da suplementação grupos (0,64 ± 0,30 µmol/l e 0,69 ± 0,26 µmol/l). Quanto à
materna com vitamina A sobre a concentração de retinol do DVA materna sérica, encontrou-se 6,7% (T0) e 16,7% (T1)
leite materno e do soro no binômio mãe-filho, além de esti- no grupo placebo e 6,5% (T0) e 3,2% (T1) no suplementado.
mar a prevalência da DVA neste grupo, verificar a associa- DVA no leite materno foi observada em 7,4% (T0) e 55,6%
ção entre mãe e filho e a influência de alguns fatores envol- (T1) das amostras do grupo placebo e 22,6% (T0) e 16,1%
vidos na gênese da DVA. (T1) do suplementado. A DVA esteve presente em 66% dos
Casuística e métodos: 33 puérperas receberam cáp- lactentes (69% no grupo placebo e 63,3% no suplementado).
sulas com 200.000 UI de vitamina A entre o 20º e o 30º dias Apenas uma puérpera apresentou subnutrição e um lactente
pós-parto (grupo suplementado) e 33 receberam cápsulas apresentou risco nutricional. DVA materna associou-se à
idênticas com óleo de soja (grupo placebo). Amostras de DVA no leite (p=0,015) e houve correlação positiva signifi-
sangue e leite maternos foram colhidas antes (T0) e após cante entre retinol sérico materno e do leite (r = 0,28;
(T1) a intervenção (três meses pós-parto). Sangue dos p=0,032). Não houve influência das variáveis paridade, es-
lactentes foi colhido aos três meses. O retinol foi analisado colaridade, renda, uso de polivitamínico, febre e diarréia no
pelo método de HPLC. Concentrações inferiores a 0,70 µmol/ retinol de puérperas e lactentes. O retinol sérico materno
l no soro e 1,05 µmol/l no leite foram indicativas de DVA. não se alterou com o IMC, mas a idade das puérperas se
Peso e altura foram aferidos e dados sociodemográficos e correlacionou positivamente com o retinol (r = 0,29; p=0,024).
clínicos foram obtidos através de entrevista. Conclusões: A suplementação materna com 200.000
Resultados: Concluíram a pesquisa 61 pares mãe- UI de vitamina A mostrou impacto positivo na concentra-
filho. Nas mães suplementadas, a concentração sérica de ção de retinol da mãe e do leite materno, porém não atingin-
retinol aumentou de 1,05 ± 0,31 µmol/l no T0 para 1,17 ± 0,34 do o lactente. Apesar de a população estudada ter sido
µmol/l no T1 (p=0,026), mostrando diferença estatistica- considerada eutrófica em praticamente sua totalidade, ele-
mente significante em relação ao grupo placebo, cuja média vada prevalência de DVA foi encontrada, principalmente
foi 1,02 ± 0,28 µmol/l (p=0,032). No leite materno, houve nos lactentes de três meses de idade, questionando-se o
redução significativa da concentração de retinol somente ponto de corte empregado para esta faixa etária.

SAÚDE MENTAL

TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL : VALIDAÇÃO DE INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO

Flávia de Lima Osório realizou-se a validação transcultural dos instrumentos auto-


Orientadora: Profª. Drª. Sonia Regina Loureiro avaliativos: Social Phobia Inventory (SPIN) e Self
Tese de Doutorado apresentada em 07/11/2008 Statements During Public Speaking Scale (SSPS -versão
traço e estado) e do instrumento hetero-avaliativo Brief
O Transtorno de Ansiedade Social (TAS) é um dis- Social Phobia Scale (BSPS), com aprovação prévia dos
túrbio de início precoce, com prevalência e comorbidades autores das versões originais. O delineamento metodológico
significativas, favorecendo prejuízos importantes no fun- envolveu três etapas. Na primeira, a amostra utilizada para
cionamento laboral, familiar, social e acadêmico, especial- avaliação dos instrumentos SPIN e SSPS foi composta por
mente em pessoas jovens. Dada tais características, faz-se 2314 estudantes universitários da população geral. Na se-
necessária a identificação precoce e o diagnóstico preciso gunda etapa, para a validação dos instrumentos SPIN, SSPS
do TAS, o que requer instrumentos validados. Objetivou- e BSPS, utilizou-se de uma amostra de 178 estudantes uni-
se a avaliação sistemática do TAS, por meio de um conjun- versitários identificados como casos (N = 88) e não-casos
to de instrumentos validados quanto às suas qualidades (N = 90) de TAS, através da Entrevista Clínica Estruturada
psicométricas de fidedignidade e validade, em uma popula- para o DSM-IV (SCID-IV). Na terceira etapa, 45 estudantes
ção de adultos jovens brasileiros, estudantes universitári- universitários também classificados como casos (N = 24) e
os, sob a perspectiva da auto e hetero-avaliação. Para tal, não-casos (N = 21) de TAS compuseram a amostra para

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validação da SSPS-estado no contexto de um modelo expe- avaliadores (0,86-1,00) e validade discriminativa (sensibili-
rimental de falar em público. O SPIN apresentou boa con- dade = 0,84, especificidade = 0,83); adequadas consistên-
sistência interna ( α=0,63- 0,90), validade concorrente com cia interna (α = 0,48-0,88), validade concorrente com o BAI
o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) (r = 0,10-0,63) e (r = 0,21-0,62), SPIN (r = 0,24-0,82) e SSPS-traço (r = 0,23-
SSPS-traço (r = 0,22-0,65), validade discriminativa (sensibi- 0,31) e validade de construto. A análise fatorial apontou a
lidade =0,84, especificidade = 0,87) e validade de construto. presença de seis fatores que explicam 71,8% da variância
A análise fatorial indicou a presença de um número variável dos dados. A SSPS-estado mostrou-se apropriada para ava-
de fatores em função da amostra estudada. Destaca-se a liação dos aspectos cognitivos associados ao falar em pú-
versão reduzida deste instrumento, o Mini-SPIN, que tam- blico no contexto de um modelo experimental de simulação
bém apresentou ótimos indicadores psicométricos (sensi- de falar em público, apresentando excelente validade
bilidade = 0,77, especificidade = 0,67). A SSPS-traço mos- discriminativa entre casos e não-casos de TAS, além de
trou-se bastante adequada quanto à consistência interna sensibilidade para discriminar os diferentes níveis de ansi-
(α = 0,64-0,94), validade concorrente com o BAI (r = 0,18- edade nas fases do procedimento. Todos os instrumentos
0,53) e SPIN (r = 0,22-0,65) e validade discriminativa entre mostraram boas qualidades psicométricas, o que recomen-
casos e não-casos de TAS. A análise fatorial evidenciou a da o uso na população de universitários brasileiros, po-
presença de dois fatores: auto-avaliação positiva e negati- dendo ser aplicados tanto em contextos experimentais como
va. A BSPS aplicada com o suporte de um roteiro de per- clínicos, favorecendo a detecção mais precisa do TAS, es-
guntas-guia, apresentou excelentes confiabilidade inter- pecialmente nos contextos de atenção primária à saúde.

SAÚDE NA COMUNIDADE

TRABALHO EM EQUIPE E COMPETÊNCIA PROFISSIONAL NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA:


A PERCEPÇÃO DO CIRURGIÃO DENTISTA

Carolina Menez de Carvalho Pinto semi-estruturada com os 10 cirurgiões dentistas que traba-
Orientadora: Profª. Drª. Aldaísa Cassanho Forster lham na equipe de saúde bucal da ESF do município de
Dissertação de Mestrado apresentada em 31/10/2008 Ribeirão Preto.
As entrevistas gravadas e transcritas na íntegra. Para
A Saúde Bucal deve ser entendida como parte inte- interpretação dos dados nos baseamos na análise de con-
grante e inseparável da saúde geral do indivíduo e que está teúdo preconizada por Bardin (1977). Com relação aos re-
relacionada com as condições de saneamento; alimenta- sultados da caracterização do sujeito, constatamos que
ção; moradia; trabalho; educação; renda; transporte; lazer; todos os CDs entrevistados egressaram da graduação há
liberdade; e acesso à terra, aos serviços de saúde e à infor- mais de 14 anos, com média de 24,4 anos de formação aca-
mação (Brasil, 1993). Um ator nesta história se torna primor- dêmica. Com relação à idade, os profissionais, possuem
dial, o cirurgião dentista, responsável por proporcionar média de 46,2 anos, a maioria é do sexo masculino e também
padrões adequados de saúde bucal para o conjunto da casado. Eles possuem uma média de tempo de trabalho na
população de um país, de uma região, ou de uma localida- ESF de 29,9 meses, todos os profissionais possuem especi-
de; procurando formular estratégias e linhas de ação que alização e somente um entrevistado não possui formação
permitam a construção de uma saúde de base coletiva. Esta voltada para a área de Saúde Pública. Da análise das entre-
investigação tem por objetivo analisar a percepção do ci- vistas realizadas com os cirurgiões dentistas da Estratégia
rurgião dentista da equipe de saúde Bucal (ESB) sobre a Saúde da Família emergiram dois temas principais: o traba-
Estratégia Saúde da Família (ESF) e a Saúde Bucal; com lho em equipe e as competências profissionais para o tra-
enfoques no trabalho em equipe e nas suas competências balho na ESF.
na ESF. Estes dois temas são de grande importância para o
Constitui-se em um estudo descritivo exploratório cirurgião dentista, para que este possa proporcionar uma
com abordagem qualitativa dos dados. elevação dos níveis de saúde da população, principalmen-
Para a coleta dos dados foi utilizada a entrevista te da saúde bucal.

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PROGRAMA DE SAÚDE VOCAL PARA PROFESSORES: ESTUDO EM UMA ESCOLA PARTICU-


LAR DE RIBEIRÃO PRETO

Silvia Tieko Kasama término dos encontros (etapa 3). Houve a participação de 5
Orientador: Prof. Dr. Edson Zangiacomi Martinez professores do ensino infantil, 6 do fundamental e 2 do mé-
Dissertação de Mestrado apresentada em 07/11/2008 dio. O programa abordou anatomia e fisiologia da fonação,
higiene vocal e exercícios de aquecimento e desaquecimento
Introdução: os professores são profissionais com vocal. Logo após o término dos encontros, os professores
alto risco para disfonia. A intensa demanda vocal e a falta preencheram um questionário de avaliação do programa.
de conhecimento a respeito de cuidados com a própria voz Resultados: a comparação dos dados coletados nas
são aspectos comuns entre os professores. Experiências avaliações individuais pré e pós-intervenção não revela-
anteriores para orientar este profissional, com relação a sua ram mudanças significativas, porém tiveram a função de
própria voz, demonstram sucesso e a opinião dos profes- monitoramento do aspecto vocal dos professores. De acor-
sores, assim como a prática de novos hábitos são de gran- do com os professores, o aspecto negativo do processo foi
de importância. As Escolas Waldorf têm uma pedagogia a falta de tempo para comparecer aos encontros e para rea-
baseada na Antroposofia, sendo frequente o uso da voz lizar os exercícios diariamente. As mudanças citadas como
falada e cantada em suas atividades. mais importantes foram aspectos gerais de higiene vocal
Objetivo: Propor uma ação de promoção de saúde (destacando-se a hidratação), respiração, efeitos benéfi-
vocal para professores, capaz de fornecer uma percepção cos dos exercícios, atenção para a própria voz e dos alunos
mais ampla, além da conscientização dos fatores que deter- e o reconhecimento da importância da voz.
minam ou interferem no processo saúde-doença da disfonia. Conclusão: a ação de promoção de saúde proposta
Método: 13 professores (2 do sexo masculino) de uma obteve grandes êxitos em ampliar a percepção e conscientizar
Escola Waldorf de Ribeirão Preto, com média de idade de 43 os professores a respeito dos fatores que atuam de maneira
anos (mín=24, máx=56), participaram das 3 etapas da pes- favorável ou prejudicial à voz. O resultado foi muito favore-
quisa, que compreendia uma avaliação inicial individual (eta- cido pelo espaço criado para reflexão, troca de experiências
pa 1), o Programa de Saúde Vocal com duração de 12 encon- e vivências de situações proporcionadas pelo Programa de
tros semanais (etapa 2) e uma reavaliação individual após o Saúde Vocal.

GEOEPIDEMIOLOGIA DA CO-MORBIDADE AIDS/ TUBERCULOSE NO ESTADO DE SÃO PAULO,


BRASIL - DE 1996 A 2005
39; houve maior proporção de transmissão heterossexual
Ana Teresa Mancini Pimenta (52,81%); quanto à escolaridade, a maioria dos casos
Orientador: Prof. Dr. Antonio Luiz Rodrigues-Júnior (53,42%) apresentou entre 1 e 7 anos; as microrregiões com
Dissertação de Mestrado apresentada em 14/11/2008 os maiores coeficientes de incidência (casos por 100.000
habitantes acima de 14 anos) foram Ribeirão Preto (490,41),
Foi desenvolvido um estudo ecológico com o obje- Barretos (489,42), São José do Rio Preto (464,08), Santos
tivo de descrever a incidência da co-morbidade aids/ tuber- (459,22) e Caraguatatuba (402,84). Dos casos notificados
culose no Estado de São Paulo, no período de 1996 a 2005, com a co-morbidade, 73,92% eram do sexo masculino; pes-
segundo sua distribuição espacial. A base territorial utiliza- soas com idade entre 25 e 44 anos foram as mais acometi-
da foram os 645 municípios do Estado, agrupados em 63 das (77,09%); 57,10% apresentavam escolaridade entre 1 e
microrregiões de acordo com a divisão do IBGE; os coefici- 7 anos; as microrregiões com os maiores coeficientes de
entes de incidência de aids e da co-morbidade aids/ tuber- incidência (casos por 100.000 habitantes acima de 14 anos)
culose foram empregados como medidas das doenças. O foram Santos (136,35) Caraguatatuba (88,67) São Paulo
IDH e seus componentes IDH-L, IDH-E e IDH-R foram cal- (87,45), São José dos Campos (72,64) e Ribeirão Preto (70,97).
culados para cada microrregião como indicadores de de- A microrregião de São Paulo (0,835) apresentou o maior
senvolvimento humano das populações. No período estu- valor de IDH; Nhandeara (0,843) o maior IDH-L; São José
dado, foram notificados 81.841 casos de aids; 16.759 casos dos Campos (0,897) o maior IDH-E; São Paulo (0,835) o
de co-morbidade aids/ tuberculose com uma taxa de ataque maior IDH-R; as microrregiões ao sul/ sudoeste do Estado
de 21,60% e 733 casos suspeitos de tuberculose. Obser- apresentaram os menores valores do IDH e de seus compo-
vou-se que 65,49% dos casos de aids notificados eram do nentes. O padrão de distribuição espacial da aids e da co-
sexo masculino; a faixa etária em que ocorreu a maior pro- morbidade aids/ tuberculose foram diferentes do padrão
porção (61,46%) do número de notificações foi entre 25 e do IDH e seus componentes.

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ALTERAÇÃO DO EQUILÍBRIO E MARCHA EM IDOSOS E OCORRÊNCIA DE QUEDAS

Thaise Lucena Silva liar o equilíbrio, marcha e a força destes membros. Para a
Orientador:a Profª. Drª. Amábile Rodrigues Xavier Manço análise dos dados foi utilizado o procedimento GENMOD
Dissertação de Mestrado apresentada em 27/11/2008 do programa computacional SAS versão nove, sendo con-
siderado um nível de significância de 5% ao testar hipóte-
ses e um intervalo de confiança de 95%%. Os resultados
O envelhecimento populacional presente na maioria mostraram que 51% dos idosos sofreram quedas nos últi-
dos países na atualidade inclusive no Brasil, tem sido asso- mos 6 meses, os fatores de risco encontrados como signifi-
ciado ao aumento das quedas que estão se tornando cada cantes foram: idade de 70 a 74anos (p=0,04) e de 75 a 79anos
vez mais frequentes e sendo consideradas como um impor- (p ≤ 0,01), residir sozinho (p ≤ 0,01), não possuir compa-
tante problema de saúde pública. O presente estudo reali- nheira (p=0,01), uso de medicamentos (p= 0,05), número de
zado na Associação dos Aposentados de Catanduva e Re- medicamentos de 3 a 4 (p= 0,04) e 5 ou mais (p=0,01), pre-
gião tiveram como objetivo estudar as alterações de equilí- sença de fraqueza muscular (p ≤ 0,01), largura dos passos
brio e marcha em idosos e as associações com quedas. pequenos (p=0,08), assimetria da marcha p=(0,09), presen-
Foram pesquisados 200 idosos de ambos os sexos, com ça de problemas nos pés (p=0,07), uso de aparelho de audi-
idade igual e superior a 60 anos. O método utilizado foi uma ção (p ≤ 0,01). Os resultados indicam a importância de uma
entrevista contendo perguntas abertas e fechadas, e para equipe multidisciplinar, como medidas preventivas, visan-
avaliação cognitiva foi aplicado o mini-exame do estado do diminuir as quedas possibilitando uma melhora das ati-
mental (MEEM) e a escala de avaliação de desempenho vidades básicas da vida diária (ABVDs), dessa forma tor-
físico de membros inferiores (SPPB), com o intuito de ava- nando o idoso mais independente.

A REPRESENTAÇÃO DE VELHICE ENTRE OS PROFISSIONAIS QUE ATUAM NOS NÚCLEOS


DE SAÚDE DA FAMÍLIA

Angélica Maria Jabur Bimbato meiras, médicos e dentistas). As concepções de velhice


Orientador: Prof. Dr. Antônio Carlos Duarte de Carvalho variaram em função da formação, idade e experiência de
Dissertação de Mestrado apresentada em 28/11/2008 vida dos entrevistados, sendo apresentadas como: fase de
sabedoria e experiência de vida; evolução natural do corpo
Diversas mudanças têm ocorrido no perfil demográ- humano; estado de espírito; fase que se assemelha ao mun-
fico do Brasil, passando o envelhecimento populacional a do infantil; fase de decadência ou solidão; e melhor idade.
ser uma realidade e não mais uma expectativa. Muitos são Há a compreensão por parte dos profissionais entrevista-
os mitos, conceitos e concepções sobre idoso, velhice e dos, de que a velhice é um conjunto bio-psico-social-espi-
envelhecimento existentes em nossa sociedade, assim como ritual, sendo manifestadas pelos mesmos as dificuldades
meios legais que regem sobre os direitos e deveres da pes- encontradas em prestar uma assistência de qualidade nes-
soa idosa (Programa Nacional de Saúde do Idoso, Estatuto te cenário tão complexo. Demonstraram também, os seus
do Idoso e Pacto pela Vida 2006). Objetivando analisar as sentimentos (medo e ansiedade) frente ao próprio proces-
representações de velhice presentes entre os profissionais so de envelhecimento, como consequência da cultura e da
que atuam nos Núcleos de Saúde da Família I, III, IV e V do sociedade em que vivem, onde ser idoso é visto de forma
Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina de Ri- negativa. As concepções sobre idoso, velhice e envelheci-
beirão Preto - Universidade de São Paulo (CSE – FMRP/ mento, apresentadas pelos entrevistados, indicam a dimen-
USP) e as possíveis implicações para o serviço de saúde, são do quanto esses profissionais encontram-se despre-
realizamos este estudo, utilizando-se da abordagem quali- parados para enfrentar o grande desafio de melhorar o aten-
tativa por meio de entrevistas semi-estruturadas, com de- dimento oferecido pelo serviço de saúde, principalmente,
zenove profissionais que atuam nesses Núcleos (agentes em se levando em consideração o aumento acentuado do
comunitários de saúde, auxiliares de enfermagem, enfer- número de idosos neste país.

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FATORES PREDITORES DO ALCANCE DAS METAS DO PROGRAMA DE INTERVENÇÃO NO ES-


TILO DE VIDA EM NIPO-BRASILEIROS DE BAURU - SP

Marilia Alessi Guena de Camargo sumo diário inferior a 400g de frutas, verduras e legumes
Orientadora: Profª. Drª. Daniela Saes Sartorelli (n=265). Após 12 meses, 11% dos indivíduos com excesso
Dissertação de Mestrado apresentada em 08/12/2008 de peso alcançaram a meta de perda de peso, 24, 55 e 16%
dos participantes alcançaram as metas de prática de ati-
Objetivos: Identificar fatores associados ao alcan- vidades físicas, teor da dieta de gordura saturada e consu-
ce das metas de um programa de intervenção no estilo de mo de frutas, verduras e legumes, respectivamente. Após
vida em Nipo-Brasileiros de Bauru, SP. ajuste por variáveis de confusão, maior razão de chance
Metodologia: Os fatores associados ao alcance das [OR (95%)] para o alcance da meta de perda de peso foi
metas (perda de peso de 5%, prática de 150 minutos de verificada entre mulheres [2,4 (1,3; 4,5)], e menor razão de
atividades físicas semanal, consumo alimentar com teor de chance entre portadores de diabetes, hipertensão e
gordura saturada inferior a 10% das calorias totais, consu- dislipidemia [0,4 (0,1; 0,8)] e indivíduos classificados em
mo diário de 400g de frutas, verduras e legumes), após 12 estágio de mudança de pré-contemplação / contemplação
meses de intervenção foram investigados em modelos de para redução do consumo de carnes vermelhas [0,4 (0,2;
regressão logística ajustados. As avaliações do estilo de 0,9)]. Os participantes de 2ª geração apresentam menor ra-
vida e perfil de saúde foram conduzidas no início do estudo zão de chance para o alcance da meta do consumo de fru-
e após 12 meses de seguimento. tas, verduras e legumes [0,3 (0,1; 0,9)]. Nenhuma associa-
Resultados: No total, 458 nipo-brasileiros, 56% do ção foi verificada para as metas da prática de atividades
sexo feminino, 84% de 2ª geração, idade média (DP) de 60 físicas e de gordura saturada.
(11) anos foram analisados. Foram incluídos nos modelos Conclusões: Entre os Nipo-Brasileiros, as estratégias
múltiplos para cada desfecho investigado os indivíduos do programa de intervenção no estilo de vida foram mais
com excesso de peso (n=329), que reportaram não terem o eficientes no alcance das metas entre as mulheres, indivíduos
hábito da prática de 150 minutos de atividades físicas se- de 1ª geração, não portadores de morbidades e participan-
manal (n=278), consumo alimentar com teores de gordura tes classificados nos estágios de mudança de ação/manu-
saturada superior a 10% das calorias totais (n=107) e con- tenção para a redução do consumo de carnes vermelhas.

A INFLUÊNCIA DA FISIOTERAPIA NA PROMOÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA EM PACIENTES


COM DISFUNÇÃO TEMPOROMANDIBULAR

Maíra de Oliveira Viana grupos de 30 voluntários cada, sendo que um grupo rece-
Orientador: Prof. Dr. Jair Lício Ferreira Santos beu tratamento fisioterápico e odontológico e o outro rece-
Dissertação de Mestrado apresentada em15/12/2008 beu apenas o tratamento odontológico. A medida da quali-
dade de vida foi obtida pelo questionário genérico SF-36
A disfunção temporomandibular (DTM) é respon- Medical Outcome Study-Mos Short From Health Survey,
sável por uma sintomatologia de difícil diagnóstico e trata- em duas ocasiões: uma no início do tratamento e outra no
mento, estando cada vez mais presente em um número con- final. Os resultados mostram que os pacientes que fizeram
siderável de indivíduos, trazendo prejuízos nas atividades um tratamento interdisciplinar apresentaram escores mais
diárias, no sono e na alimentação, o que resulta em impacto elevados em todos os domínios do questionário: capacida-
negativo na qualidade de vida do paciente. A fisioterapia de funcional, limitação por aspectos físicos, dor, estado
utiliza inúmeros recursos com a finalidade normalizar a fun- geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emo-
ção do sistema estomatognático e proporcionar uma me- cionais e saúde mental. No grupo que recebeu tratamento
lhora na qualidade de vida desses indivíduos. O objetivo apenas odontológico, verificou-se melhora apenas no do-
geral da pesquisa foi avaliar a influência da fisioterapia na mínio relacionado a dor. O questionário SF-36 foi um instru-
melhoria dos sintomas e na qualidade de vida sob a pers- mento adequado, de aplicação relativamente rápida e de
pectiva de pacientes portadores de DTM. O estudo foi re- fácil uso para avaliação da qualidade de vida em pacientes
alizado com 60 pacientes de ambos os sexos, com idade com DTM. Sendo assim os resultados apontam para a im-
variando entre 18 a 70 anos com diagnóstico de DTM aten- portância do trabalho multidisciplinar e as contribuições
didos na clínica da Faculdade de Odontologia de Ribeirão que a fisioterapia pode oferecer a fim de proporcionar uma
Preto (FORP-USP). Os pacientes foram divididos em dois melhor qualidade de vida em pacientes com DTM.

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