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Ok, talvez a minha imaginação tenha levado o melhor de mim.

Porque não
havia como uma garota com um pouco mais de um metro e meio de altura me
machucar não é mesmo? não é mesmo Deus? Orei silenciosamente para que
isso fosse verdade...
Quando ela parou de andar e ficou embaixo da parca luz vinda do poste, no
qual boa parte da minha bagagem estava encostada, eu finalmente pude ver
seu rosto estranhamente inexpressivo e delicado. Ele não exibia minimamente
nenhuma das emoções esperadas para aquele nosso encontro inusitado, nem
desgosto, nem curiosidade e muito menos medo. Me perguntei, pela primeira
vez em muito tempo, se aquela pessoa diminuta que estava alí na minha
frente não seria mais estranha que eu. Não vou mentir, esse pensamento me
assustou um pouco. O curso da minha imaginação selvagem tingida pela
realização da possibilidade de eu estar lidando com uma pessoa louca foi
interrompido pela cara de blank space
-- Você não deveria estar aqui nesse horário.
--hum...eu...hum... Na verdade estou esperando alguém -- Menti por puro
reflexo -- Ela me olhou de cima baixo, o tipo de olhar que te faz sentir menor
que um inseto.
--Certo... tudo bem então-- Disse já me dando as costas.
Merda! Eu não queria ficar aqui sozinha! eu não queria ficar aqui sozinha na
chuva, de madrugada, exposta a coiotes, cobras e estupradores!. Quer dizer,
não que exista coiotes em São Paulo...Essa é uma área urbana e... será que
tem coiotes aqui? ou lobos? ou ursos? ai meu Deus do céu, eu não sei correr
direito... Droga Lisa! foca! Eu não quero e não posso ficar aqui. Ponto. E a
minha única chance de não passar a noite nessa sarjeta metafórica estava me
dando as costas nesse exato momento e indo em direção ao carro! NO, NO,
NO, THATS NOT GOOD!

--ESPERA! -- Gritei em desespero, fazendo cara de blank space se


sobressaltar. Eu tive que rir da sua expressão exagerada de susto, mas foi um
riso pincelado pelo meu nervosismo.
--Espera-- falei mais baixo agora que eu tinha sua atenção. -- Olha *suspirei*
Eu menti. Não to esperando ninguém... Eu preciso de ajuda....Eu não tenho pra
onde ir, não tenho dinheiro vivo, bateria no celular, ou perspectiva de sair
dessa viva se você for embora, sem pressão, by the way-- Um silêncio
ensurdecedor pairou entre a gente. Era agora que ela dava no pé? Eu deveria
chorar? Oferecer dinheiro? Dizer que eu sou a filha bastarda do
presidente?...Não, cruz-credo, #ForaTemer...
-- Tá, vamos -- ela falou, me pegando de surpresa.

... E foi assim, sem mais nem menos, que eu Lalisa Manoban, médica
potencial, viciada em mangás (Yaoi), chifruda por culpa do destino e azarada
por vocação, em conjunto com minha bagagem encharcada, entrei na
segurança do carro de uma completa desconhecida.

****

Está aqui quatro coisas que eu já sei sobre a cara de blank space:

1- A expressão normal do rosto dela é expressão nenhuma. 2- Ela é uma


garota de poucas palavras, 3- A cara de expressão nenhuma faz a expressão
mais engraçada quando toma susto. 4- ELA É LOUCA . Afinal, quem em sã
consciência oferece carona pra uma desconhecida aboletada na beira da
estrada que nem tem pra onde ir?

Enquanto rodávamos, ao som de listen da Beyoncé, por uma estrada


desconhecida por mim, que iria dar em algum lugar que eu esperava não ser
uma vala onde ela pudesse desovar o meu corpo, comecei a pensar em um
jeito de tirar essa dúvida martelando na minha cabeça. Certo Lisa, como
perguntar a alguém sobre a sua sanidade mental sem ofender? ...hum...ok, lá
vai..

-- Porque você esta ajudando uma completa desconhecida?


Perguntei perplexa
-- Porque fui com a sua cara -- Ela respondeu sem expressão
nenhuma, como uma daquelas bonecas bibelô bizarramente bonitas que
ficam expostas em vitrines de lojas caras. E a verdade é que eu não sabia
se a sua resposta deveria me deixar mais tranquila ou ainda mais
nervosa. Sério, qual o problema com a minha vida? será que nada nela
poderia ser remotamente parecido com normal? Lalisa Bizarro Manoban,
parecia um bom nome do meio, bem descritivo, vou aderir.
Voltamos a ficar em silêncio. A música já estava chegando ao seu final, e
é claro que eu não contive a minha boca grande por muito tempo --Mas como
você pode ter ido com a minha cara? ...Quer dizer, você não sabe nem o meu
nome...
-- Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume -- Ela me
interrompeu enigmaticamente.

--Hum...ahnn... --Ok, até uma partidária das ciências exatas como eu, era
letrada o suficiente pra saber que a blank space acabou de citar Romeu de
Shakespeare como se fosse a coisa mais normal do mundo. OH MY GWAD!
Será que ela ta dando em cima de mim? Será que foi por isso que ela resolveu
me dar carona? Dei uma espiadinha de canto de olho na sua expressão. Nada,
no clue *suspiro*.

Não que isso seja um problema. Ela É gata... tipo, realmente sexy. E Deus
sabe que a minha autoestima esta na lama depois da cena que presenciei
entre o porco traidor e a vaca falsiane na minha cama, vou dizer de novo: na
minha cama... Além de acabar com a minha dignidade, eles ainda me fizeram o
favor de estragarem lençóis novinhos! Pera, esse não é o ponto, o ponto é: ela
esta dando em cima de mim?...hum...interessante...O curso da minha
imaginação selvagem foi novamente interrompido pela garota.

-- Não é nada disso que você esta pensando -- Eita! Ela sabia o que eu estava
pensando? eu sou tão obvia assim? OH MY GOD

-- Você não é muito boa com metáfora, não é mesmo? -- ela continuou
parecendo levemente divertida, e tudo que eu fiz foi dar de ombros encabulada.

-- O que eu quis dizer é que independente do seu nome, a sua essência, assim
como a essência dessa situação seria a mesma, saber ou não o seu nome,
nessas condições, não faz a menor diferença -- Eu disse, não disse: L-O-U-C-
A.

-- Mas é claro-- Ela continuou -- Se isso te deixa mais tranquila em relação a


essa loucura toda *suspirou, parecendo cansada*.
Meu nome é Jennie, Jennie Kim.

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