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CORDEL E HISTÓRIA: “O AZAR E A FEITICEIRA” OU O BRASIL E A

RELIGIÃO NO INÍCIO SÉCULO XX *

Paulo Gracino1

RESUMO
Neste artigo é feita uma discussão sobre a ruptura entre o Estado e a Igreja católica no
alvorecer da República brasileira, tendo como fonte de análise o folheto de cordel “O Azar e a
Feiticeira”, de Leandro Gomes de Barros, escrito na primeira década do século XX.
Embasado nos fundamentos da História Cultural de Chartier (2002) e de Burke (2008), bem
como na operação historiográfica de De Certeau (1982), foi possível inferir o impacto do
afastamento Estado-Igreja no imaginário da sociedade nordestina de então, partindo de
questionamentos suscitados do atual cenário sociopolítico do Brasil. Neste sentido, foi feita
uma análise interpretativa da poesia, analisando o lugar social do autor e o contexto em que a
obra foi produzida, problematizando-os a partir de um referencial historiográfico pertinente.
Com isso, fica perceptível o valor de culturas históricas para o diálogo presente/passado,
visando a construção da consciência histórica nos indivíduos.

Palavras-chave: Estado; Religião; Imaginário Popular.

Parafraseando Michel de Certeau (1982), posso dizer que não existe prática científica
sem teoria. E foi visando a coerência teórica deste artigo que busquei em Burke (2008) e
Chartier (2002) o apoio necessário para corroborar o valor da História Cultural nos dias
atuais. Desta forma, buscando abordar a discussão sobre a religiosidade no início do século
XX a partir da literatura de cordel, foi necessário dialogar com o pensamento de Burke (2008)
quando afirma que “o terreno comum dos historiadores culturais pode ser descrito como a
preocupação com o símbolo e suas interpretações” (p. 10); ou com a ideia de que o historiador
cultural deve direcionar as suas pesquisas aos “valores defendidos por grupos particulares em
locais e períodos específicos” (p. 8); e isso este foi o fio condutor deste trabalho.
Seguindo nesta mesma linha de raciocínio teórico, Chartier (2002, p. 16-7) dá a sua
contribuição, defendendo que “a história cultural, tal como a entendemos, tem por principal
objecto (sic) identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada
realidade social é construída, pensada, dada a ler.” Tudo isto significa dizer que este estudo se
enquadra nas perspectivas da História Cultural sem se distanciar dos fundamentos básicos do
ofício do historiador, que, para Bloch (2012, p. 54), busca “capturar” a história dos homens

* Artigo publicado na II Semana de História & II Ciclo de Debates Sobre História do Trabalho: Ensino,
Democracia e Resistência Centro - Acadêmico de História: Caderno de Programação e Artigos Completos.
Sandeilson Beserra Nunes (org.). Guarabira: CH/UEPB – Campus III, 2017.
1
Mestrando do PPGH/UFPB - Área de concentração: História e Cultura Histórica - Linha de Pesquisa: Ensino
de História e Saberes Históricos - Bolsista CAPES.
através do tempo e aquele que “não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da
erudição”.
Ora, então a literatura de cordel parece também querer capturar esta história dos
homens – e das mulheres (para não cometer lapsos) - por meio dos seus discursos poéticos
através do tempo, e nada mais justo que buscarmos compreender “os modos de proceder da
criatividade cotidiana” (DE CERTEAU, 2012, p. 40), justamente para apreendermos a
realidade social nordestina desdobrada nas primeiras décadas do século XX.
Se partirmos da ideia de que o cordel foi e é um importante instrumento de educação
pública desde o final do século XIX até os dias atuais, saberemos o quanto podemos aprender
com os cordelistas e suas obras; o quanto cada folheto pode contribuir para a conjuntura
educacional do Brasil.
O sociólogo Renato Carneiro Campos, no final da década de 1950, chamava a atenção
dos seus leitores para a importância do cordel como instrumento de alfabetização das
populações residentes nas áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos (CAMPOS,
1959). Daí em diante, outras pesquisas vêm dando continuidade a este posicionamento até os
dias atuais. E hoje é possível ver a literatura de cordel no seio dos programas de pós-
graduação das diversas universidades espalhadas pelo país. Não esquecendo que ele também
está sendo bastante aceito pelo nosso sistema educacional brasileiro, como instrumento
pedagógico para o ensino básico.
Neste sentido, dois aspectos nortearam esta pesquisa. Primeiramente o fato de que
sempre existiu no Brasil uma grande discussão em torno da tolerância religiosa, ou, para ser
mais exato, em torno da intolerância às religiões tidas como não oficiais no país. O outro fator
é relativo ao que determina que uma religião seja aceita como digna de ser incorporada aos
interesses nacionais.
Esta problematização surgiu a partir da realidade social e política do país nos últimos
anos. Afinal, é sabido que atualmente existe em Brasília uma Bancada Evangélica2 atuando
como representantes do povo e principalmente como representantes de igrejas cristãs,
inferindo-se, com isto, que as religiões cristãs seriam as consideradas dignas de representarem
o povo diante dos interesses de toda população brasileira.
Não! Eu não quero aqui expressar a minha opinião diante de tais informações. Longe
disso. O que quero é mostrar como noutros tempos estas religiões foram recebidas pela

2
Sobre o assunto, verificar o endereço eletrônico do Sistema Globo de Comunicação.
http://g1.globo.com/politica/processo-de-impeachment-de-dilma/noticia/2016/04/bancada-evangelica-se-
posiciona-favor-do-impeachment-de-dilma.html - Pesquisado em 25 de abril de 2017.
população como seus representas legais. Ou melhor, o que quero é poder mostrar como os
religiosos cristãos, não católicos, foram recebidos pelo Estado e pela população no alvorecer
da República brasileira. E mais, como as suas incorporações ao Estado foram introduzidas no
imaginário popular nordestino, por meio da literatura de cordel.
Para justificar o interesse pelo assunto é muito simples. Ao desenvolver uma pesquisa
científica sobre como as ruptura das tradições religiosas causam efeitos nas pessoas (que neste
caso é a introdução de outras religiões como representantes legais de uma nação) será possível
mostrar nos dias atuais como os que hoje renegam estas mudanças já foram um dia renegados
em nome da moral e dos bons costumes. Eu acredito que o preconceito pode ser desfeito (ou
amenizado, pelo menos) quando se for conhecido o passado que nos interessa. E este passado
diz respeito à História.
Digo isto porque, ao buscar compreender os “Lugares para a História” (FARGE,
2011), além de perceber que a história pode estar em qualquer lugar que estabeleça relação
com os seres humanos, o historiador tem o compromisso, segundo a autora, de trazer no
mínimo reflexões para o presente. E mais, se a história pode ser encontrada nos mais distintos
recantos sociais, dos mais sofisticados aos mais ralés, ela pode estar presente nas feiras livres,
em meios aos cordéis e cordelistas e ao lado de um povo sem conhecimento letrado, mas de
um poder de conhecimento de mundo impressionante; assim como ela pode estar também nos
luxuosos gabinetes das bancadas que se dizem representantes de Deus e do povo. Ou (quem
sabe?) a história pode se fazer presente nos interesses que movem os cordelistas e seus
leitores, dando significados e re-significados aos acontecimentos do país; ou ainda, ela pode
estar nas motivações que levam alguns parlamentares a decidirem quais as religiões são
realmente dignas de representarem e se aliarem ao Estado nacional.
Acreditando que convenci meu leitor no sentido da importância desta pesquisa tanto
para a comunidade científica quanto para sociedade em geral, quero agora contextualizar o
objeto de pesquisa o qual me dispus a analisar.
Busco neste artigo analisar o folheto de cordel “O azar e a feiticeira”, escrito no ano de
19063, por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), que aparentemente não demonstra com
clareza esta discussão sobre a tolerância religiosa e a sua aceitabilidade como religião
oficial(izada) no país. Nesta obra está expressa o pensamento do autor, que é considerado, por
muitos pesquisadores e amantes da poesia, como o “pai” da literatura de cordel brasileira.

3
De acordo com a catalogação da equipe da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), a partir das características
da capa e de outras informações como, por exemplo, o endereço, “trata-se de um dos folhetos mais antigos do
Acervo de raros, provavelmente anterior a 1906, pois o poeta residiu em Jaboatão até essa data.”
(www.casaruibarbosa.gov.br).
Poeta crítico, sarcástico, irônico e responsável por uma grande produção de cordéis de cunho
de denúncia social. Aliás, ele foi um autor que transitou nas diversas temáticas sem deixar que
nenhum dos temas abordados comprometesse a qualidade da sua obra. Ou seja, a sua
grandeza não é reconhecida “apenas pelo pioneirismo, senso de oportunidade e diversidade de
temas apresentados, mas, sobretudo, pela qualidade do conjunto da obra”, afirma o
pesquisador e poeta cordelista Arievaldo Viana (2014, p. 116).
Se Leandro viveu exclusivamente da produção, editoração e venda de cordel,
subentende-se que a sua atuação foi exatamente no período em que fôra instalada e República
Federativa do Brasil (1989), momento decisivo para a questão da religião como elemento
“auxiliar” do Estado brasileiro.
Sabe-se que, com a implantação da República no Brasil, há um afastamento da religião
católica com o Estado brasileiro, causando um certo desconforto para a população, que até
então (em sua maioria) era adepta e praticante do catolicismos.4 Ou seja, a igreja perdeu
forças com as cláusulas aprovadas na Constituição de 1890, perdendo oficialmente alguns
privilégios até então reconhecidos tradicionalmente, mas não perdeu a força daqueles que
foram doutrinados pelo catolicismo. Melhor dizendo, mesmo a instituição Igreja não tendo
mais o poder de antes (oficialmente), ainda mantém o poder distribuído em cada um dos seus
fiéis, que inclusive, segundo Hermann (2008), foram estas mudanças que impulsionaram os
movimentos messiânicos pelo país. Entre as perdas reclamadas estão o

[…] reconhecimento e obrigatoriedade do casamento civil, laicização do ensino


público, secularização dos cemitérios, proibição de subvenções oficiais a qualquer
culto religioso, impedimento para abertura de novas comunidades religiosas,
especialmente da Companhia de Jesus, inelegibilidade para o Congresso de clérigos
e religiosidade de qualquer confissão (HERMANN, 2008, p. 123).

Pois bem, é neste contexto que se disseminam as vendas dos cordéis de Leandro
Gomes de Barros e de outros poetas que foram responsabilizados pela “consolidação do
cordel” (LUCIANO, 2012) no cenário brasileiro.5 E mais, como já mencionei que o cordel foi
responsável pela alfabetização de muita gente pelos recantos do país, posso também afirmar
que uma das suas características mais marcantes é a tradição da oralidade, ou seja, que o
cordel se consolidou no cenário do país como sendo um texto poético, escrito, mas com a sua

4
Para a produção deste artigo, além de Hermann (2008), que estuda os movimentos messiânicos, relacionando-
os a esta ruptura entre Estado e Igreja; Carvalho (1990), que discorre sobre o imaginário da República no Brasil,
também foi objeto de estudos para esclarecimentos sobre este distanciamento ocorrido na República brasileira.
5
Para o autor Aderaldo Luciano, “quatro nomes contemporâneos são os responsáveis pela consolidação do
cordel: Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde e Franscisco das Chagas Batista
(2012, p. 84).
leitura desenvolvida em público e em voz alta; uma leitura compartilhada, que segundo
Marinho e Pinheiro (2012) este seria o recurso idealizado também para a sua introdução no
ambiente escolar.6
Com base nesta informações é possível imaginar o quanto o cordel “O azar e a
feiticeira” foi lido, cantado, ouvido, interpretado, representado, enfim, comparado com a
realidade política e social da época. Ou então, o quanto as pessoas não católicas7 foram
menosprezadas, constrangidas e violentadas pelo uso desmedidos destas rimas de cordel, pelo
simples fato de optarem por uma religião que estava ganhando espaço em meio à sociedade,
mas que não vinha de uma tradição de aliada ao Estado. Diante destes argumentos lhes deixo
duas indagações que considero importante: Estamos vivendo um cenário tão diferente do
vivido há mais de uma século no Brasil? Ou então, será que as vítimas do passado (os
protestantes) não reconhecem a sua história e por isso cometem os mesmos erros?
Como defende Farge (2011), a história pode não servir para orientar ninguém no
presente e/ou para o futuro, mas o historiador deve ao menos trazer reflexões para o presente,
a partir do passado pesquisado, tendo em vista que os acontecimentos históricos não se
concretizam naturalmente. E é isso que estou propondo de forma bem objetiva neste trabalho.
Antes de iniciar a análise da obra eu quero informar que este cordel se encontra
disponível no acervo digital da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), mas que também
pode ser encontrada noutros lugares, ou noutros suportes físicos como, por exemplo, na
coletânea “Leandro Gomes de Barros no Reino da Poesia Sertaneja”, elaborada por Irani
Medeiros, no ano de 2002.8 E é nas duas versões que transito durante a análise e as
informações relativas. A explicação para o uso desta e daquela versão se dá pelo fato de que
na versão online, da FCRB, a acessibilidade está mais favorável para as pesquisas, enquanto
que a versão impressa traz uma revisão mais atualizada e sem a alteração do conteúdo,
facilitando a leitura para os dias atuais. Enfim, isto tudo significa dizer que aquele cordel
publicado lá no início do século XX ainda permanece circulando e divulgando os

6
O autor Hélder Pinheiro é professor do Programa de Pós-Gradução em Linguagem e Ensino da UFCG e
desenvolve pesquisas nesta área, introduzindo o cordel no ambiente escolar, visando a formação do leitor e o
letramento literário por meio da poesia.
7
Utilizo o conceito “não católico” para designar as outras religiões que não seguem as doutrinas do catolicismo,
mas, especificamente neste caso, estou me referindo à religião Protestante do Brasil, que, segundo Matos (2017,
p. 1), tem a sua relação com o país iniciada “com as primeiras manifestações protestantes no período colonial,
prossegue com a implantação definitiva do movimento durante o império (nas duas modalidades históricas:
protestantismo de imigração e de missão) e chega ao Brasil republicano, com o surgimento do protestantismo de
matriz brasileira.
8
Verificar referências
pensamentos de uma realidade que parece estar se repetindo no século XXI - resguardando as
devidas proporções temporais.
Primeiramente quero informar que este cordel tem apenas quatorze estrofes, escritas
em sextilhas9 e foi incluso (originalmente) num folheto ao lado de mais três títulos: A Orphã,
Sonho de Illusão e Sonho de Um Portuguez, de acordo com a versão digitalizada disponível
na FCRB.10
Um detalhe importante e que pode ser bastante significativo quanto à propagação desta
poesia é o fato de ter sido escrito com apenas quatorze estrofes e em sextilhas. A sextilha,
segundo alguns especialista, é a mais tradicional modalidade do cordel, como também é a
mais curta em número de versos, contendo apenas seis versos de sete sílabas. Ou seja, quando
lido em voz alta, a possibilidade de memorização fica mais fácil para o ouvinte. Digo mais
ainda, para os vendedores profissionais que costumavam cantar nas feiras livres e nos lugares
de grande concentração popular, cordéis como este tanto facilitavam para os leitores quanto
para os ouvintes, colaborando para a memorização, se não por completo, de algumas estrofes
isoladas por parte dos ouvintes.
Olhando o título com uma visão do presente não é possível identificar qualquer
relação com esta discussão – Estado-Religião. Só será possível se se fizer uma leitura
contextualizada historicamente e se o leitor for conhecedor de outras obras de Leandro Gomes
de Barros. Mas para os contemporâneos do poeta me parece não ter sido tão difícil fazer esta
relação. Aliás, para que se entenda o que estou afirmando, somente ao final da obra é que o
poeta deixa transparecer a alusão aos protestantes, mas no decurso do texto existe uma série
de fatores malignos que mostram como estes eram mal vistos pelo cordelista. Ou seja, esta
obra narra a história de um senhor, por nome de Azar, que se hospeda na casa de uma
Feiticeira, e desde o momento que ele põe os pés na casa desta senhora as coisas más
acontecem continuamente. Como era de se esperar, o senhor Azar atribui as desordens à
senhora pelo fato de ela ser uma Feiticeira, mas ao final percebe-se, na poética de Leandro,

9
Sextilhas são estrofes construídas com seis versos, ou seis linhas. Na estruturação das rimas, os versos pares
rimam entre si e os demais não precisam rimar. Ver Viana (2006).
10
Esta grafia diz respeito à versão original digitalizada e disponibilizada pela FCRB, que corresponde a “A Órfã,
Sonho de Ilusão e Sonho de Um Português” nos dias atuais. Inclusive, “O Azar e a Feiticeira” é o primeiro título
na ordem de impressão. O folheto traz um modelo de capa bem original denominada de “capa cega”, por não
trazer nenhuma ilustração além “vinhetas e arabescos, emoldurando o nome do autor ou o título da obra” na sua
capa (HAURÉLIO, 2010, p. 96).10 Já na coletânea de Medeiros (2002), que contém 50 títulos de Leandro Gomes
de Barros, “O Azar e a Feiticeira” é a penúltima (49ª) obra impressa na sequência (páginas 457-458).
que o Azar pertence à “nova seita”, alcunha utilizada pelo poeta para designar os protestantes
daquela época.11
Resta saber que Leandro Gomes de Barros nasceu em Pombal, mas “tendo ficado
órfão de pai ainda criança, (…) passou a viver na companhia dos avós e com eles mudou-se
para a Vila do Teixeira (PB), onde já vivia seu tio paterno, padre Vicente Xavier de Farias,
que tornou-se tutor de sua família e ajudou a criá-lo” (VIANA, 2014, p. 28). Talvez isso
explique a sua não conformação com a aproximação dos protestantes com a República
brasileira.
Como eu já adiantei, a obra é curta, a sextilha é de fácil memorização e os cordéis
eram cantados em voz alta nos espaços de vendas e de grande aglomeração. Mas vale
salientar também que os folhetos comprados por analfabetos, ou não, eram levados para os
lares, onde lá eram lidos para outros ouvintes. E assim sucessivamente. Aliás, antes da
chegada da televisão às populações rurais, o cordel servia como instrumento de
entretenimento de grupos sociais, instruindo, informando, divertindo e socializando práticas e
costumes culturais.
Esqueçamos estes detalhes… E aí, vamos refletir?
Imaginemos uma estrofe como esta que se segue, sendo memorizada e decantada entre
as pessoas, ao se tomar conhecimento de que o Azar é um representante da nova seita
(Protestante).

Assim que o azar entrou


Caiu água no fogão
Quebrou-se logo a panela
Que cozinhava o feijão
Queimou-se a colher de pau
E furou-se o caldeirão. (3ª estrofe)

Pela facilidade de memorização e pela capacidade de ofender aquele que compartilha


de uma religião diferente da sua, dá pra se imaginar o quanto foi/é constrangedor esse tipo de
prática. Isto pode ser entendido como um castigo de Deus, privando as pessoas de um dos
principais elementos essenciais à sobrevivência, o alimento; e seria o azar (o Protestante de
então) o responsável pela fome das pessoas.

11
Podemos encontrar nas obras de Leandro Gomes de Barros alguns títulos que remetem os protestantes à “nova
seita”, e consequentemente, ao Diabo, de forma direta. Como, por exemplo, “O Diabo Confessando uma Nova
Seita” e “O Diabo na Nova Seita”, além de outras que não estão explícitas nos títulos ou nos seus conteúdos.
Inclusive neste último tem uma estrofe que bem explica tal pressuposto: “O que você está dizendo. / É uma pura
verdade, / Essa raça nova-ceita / Abusa da divindade, / Crêr no filho e nega a mãe, / Como é essa novidade?”
(docvirt.com).
Isto foi somente uma estrofe aqui apresentada, mas todas as outras estão neste nível de
raciocínio. Tudo que a feiticeira possuía estava sendo destruído pelo azar. Por exemplo,
quando a Feiticeira resolveu conferir se o que estava acontecendo era devido ao hóspede,
logo,
Foi a cama do azar
Achou ele ressonando
Do quarto que ele dormia
Os caibros estavam estalando
As telhas já cai não cai,
As paredes se furando (8ª estrofe).

Apenas quando fala da Feiticeira, que para os protestante é um símbolo do mal, é que
o poeta ameniza nas palavras, como é possível ler logo na primeira estrofe.

Andava o azar no mundo


Sem ter aonde pousar
Foi em casa de uma velha
Pediu para se arranchar
Disse-lhe a velha: pois não!
Vossa mercê pode entrar. (1ª estrofe)

Percebe-se aí, que para o autor católico, a feiticeira parece ser do bem. Mas aí eu volto
a lembrar o fato de Leandro ter tido uma forte influência católica a partir da convivência com
tio padre, para reforçar a ideia de interesse político implícito no discurso religioso. É aí que
entra a cultura política do país. Pois parece-me que ele não demonstra nenhuma repulsa à
prática da feitiçaria. O que ele demonstra não concordar é com fato de uma outra religião
(mesmo cristã) está ao lado do Estado e em pé de igualdade com a sua religião preferida.
Enfim, poderia analisar cada estrofe dentro desta linha de raciocínio, mas é preferível
não me estender e deixar que os leitores efetuem tal tarefa (ou não).
Apenas para demonstrar como cada indivíduo reage diante da diversidade religiosa, ou
melhor, diante da opção religiosa do outro, trago agora uma estrofe que mostra os dois lados
da moeda. Na primeira está explícita a reação da feiticeira ao saber dos princípios atribuídos
(pelo autor) aos protestantes; e na segunda está a reação do protestante ao saber que está
diante de uma feiticeira. Vejamos com atenção a representação da intolerância mútua!

Pois camarada levante-se


Faça favor de ir embora
Vosmincê chama-se azar
É condutor da caipora
Eu que sou tão feiticeira
Vosmincê chocou-me agora. (10ª estrofe)

Quando ouviu isto o Azar


Levantou-se na carreira
Dizendo: -Eu te desconjuro
Maldita ave agoureira
Me arranchei por não saber
Que tu eras feiticeira. (11ª estrofe)

Apenas para situar o leitor diante da obra e da relação do azar com os protestantes, ou
para que não fique sem explicação a identificação do Azar como membro da nova seita,
apresento agora a estrofe que faz alusão ao referido.

A velha em tudo mostrou-se


Que estava mal satisfeita
Disse ao Azar: -Nessa casa
Você nunca mais se deita.
Viu no bolso do Azar,
Um livro da nova seita. (12ª estrofe)

De fato, a nova seita é um termo utilizado por Leandro Gomes de Barros para
denominar os protestantes nas primeiras décadas republicanas, como já adiantei. Agora, com
uma interpretação da obra “A Feiticeira e o Azar”, mesmo que de forma superficial; sabendo
o quanto Leandro foi importante para o cordel brasileiro e o quanto o cordel foi importante
para a conjuntura educacional do país, mesmo que de forma alternativa; fiquemos a nos
indagar o quanto esta obra pode ter contribuído para disseminar o ódio entres os praticantes de
religiões “contrárias”. Mas o que eu quero neste momento é poder ter contribuído para que
reflitamos no presente a partir dos acontecimentos do passado.
Para finalizar recorro mais uma vez aos meus referenciais teóricos, para poder dar
plausibilidade ao meu trabalho. E nesta direção, sabendo que a apropriação da leitura por
parte do leitor não diz respeito apenas ao que o autor quis afirmar, e mais, sabendo-se que
apesar das diversas instituições disciplinares existentes em dada sociedade, é sabido que não
são todos os sujeitos que se reduzem a elas e “que procedimentos populares […] jogam com
os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los” (DE
CERTEAU, 2012, p. 40), logo, fico a imaginar como os leitores se apropriaram da história “O
Azar e a Feiticeira”, em meio às gargalhadas, aos palpites desautorizados, às deturpações,
num momento em que se reclamavam as perdas do catolicismo diante das decisões do Estado
republicano brasileiro.
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