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A16 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 26 de Junho de 2017 ab

MÉXICO
EUA
UM MUNDO DE MUROS

Expectativa e ressentimento
atormentam os que ficam
Sombra da barreira que começou a ser erguida nos anos 90 encobre debate
migratório e preocupa quem a cruza; enrijecimento político já se faz sentir
FABIANO MAISONNAVE e LALO DE ALMEIDA
enviados especiais ao sUL da FRonTeiRa MÉXico-eUa

O muro que Donald Trump trabalho. É um ambiente de rá mais possível”, lamentou. “Os EUA são o seu país. Em
prometeu construir na cam- pânico e terror”, completou. O muro também atrai cri- seu momento, vão ter um em-
panha ainda não saiu do pa- Mesmo no governo Trump, anças, que pedem dólares e prego lá, ter uma vida social
pel. Mas os mexicanos já são o muro de Obama continua doces através da cerca. Mais lá”, diz Hector, que nos EUA
obrigados a conviver há dé- avançando na região de Ciu- ousado, um adolescente de- trabalhou na construção civil
cadas com as barreiras deixa- dad Juárez, substituindo uma monstrou à reportagem que e como motorista. “Queremos
das por Barack Obama, Geor- antiga cerca baixa de tela, fa- conseguia escalar até o topo que façam a sua vida lá. E, ob-
ge W. Bush e Bill Clinton. cilmente transponível. do novo muro em poucos se- viamente, se tivermos a opor-
A separação física com o As obras estão agora em gundos, para irritação de um tunidade de lá visitarmos, tu-
vizinho pobre do sul tem si- Puerto de Anapra, bairro de operário, que prometeu cha- do bem, mas vivendo não.”
do uma política de Estado ruas de areia e casas sem aca- mar a mãe e recebeu em res- A rotina familiar começa
desde que Clinton ergueu os bamento a cerca de 30 minu- posta uma saraivada de xin- às 6h, quando a temperatura
primeiros trechos, em 1993, tos do centro de Juárez, cida- gamentos em espanhol. [A] costuma ser de um dígito. Pri-

O
reaproveitando sucata trazi- de de cerca de 1,5 milhão de meiro, ele leva Emiliano até
da da Guerra do Golfo. Já são habitantes que já foi a mais o posto fronteiriço.
1.046 km de barreiras sepa- violenta do mundo devido a Ao lado do filho, caminha
rando os dois países, incluin- disputas territoriais entre car- por alguns metros em terri-
do as grades de 4,6 metros téis de narcotráfico. muro venceu José tório americano até a entra-
contratadas pelo correligio- Anapra é habitado princi- Hector Nevarez, 33. Detido e da do posto de controle imi-
nário Obama. palmente por funcionários deportado pela primeira vez gratório. “Se quiserem, po-
Via de regra, o muro costu- das “maquiladoras”, grandes em 2010, no governo Obama, dem me prender aqui onde
ma crescer de altura à medi- fábricas, na maioria norte- tentou voltar aos EUA duas estamos.”
da que se aproxima das regi- americanas, que se instalam vezes e foi capturado pela Pa- Ao lado de outros pais de-
ões mais povoadas. Separa em território mexicano em trulha da Fronteira nas duas. portados, Hectorobserva Emi-
cidades, como as duas Noga- busca de mão de obra bara- Resignado, decidiu reunir a liano entrar em um dos cinco
les, a mexicana e a norte- ta. Apenas em Juárez, essas família no México, que Hec- ônibus amarelos enfileirados
americana. Diminui ou desa- empresas mantêm cerca de tor havia deixado quando ti- do outro lado da aduana. Uma
parece nas áreas mais inós- 300 mil operários. nha 15 anos. Vieram a mulher, hora mais tarde, ele repete a
pitas, onde caminhadas de O ritmo de construção é rá- Gabriela, 32, e os filhos, Emi- rotina com Azul.
dias ao longo da barreira na- pido. A cada 30 minutos, uma liano, 12, e Azul, 7. Na volta da escola, é a vez
tural do deserto produzem nova chapa da grade de 1,5 O muro impôs uma divisão de Gabriela esperar os filhos
mortes diárias. metro de extensão é erguida na família. Num drama que na saída do posto de contro-
O muro não é apenas físi- por um guindaste, encaixada se repete com frequência ca- le mexicano, onde as mochi-
co. Os mexicanos também se na base de concreto e solda- da vez maior, os pais são me- las precisam passar por uma
ressentem do endurecimen- da com outra chapa por ope- xicanos, mas os filhos possu- máquina de raio-X.
to da vigilância e das leis imi- rários, a maioria mexicanos. em cidadania norte-america- O muro traz perigos. O cui-
gratórias, sobretudo após a “Não gosto de trabalhar na por terem nascido lá. dado do casal em levar os fi-
ataques do 11 de Setembro, aqui, mas tenho de alimentar Para eles e centenas de ou- lhos pessoalmente até a en-
em 2001. As promessas feitas a família”, diz um deles, que tras famílias de deportados, trada do posto fronteiriço tem
por Trump de mais repressão se identificou como Marcos e a solução foi morar no povo- um motivo: evitar que as cri-
a imigrantes irregulares são trabalha para uma fornece- ado de Puerto Palomas, (157 anças sejam usadas por nar-
mais questão de intensidade dora de cimento. Ele explica km a oeste de Juárez). Todo cotraficantes para driblar a
do que mudança de rumo. que os pais moram em Juá- dia, enquanto os pais traba- vigilância americana.
“Trump nos assusta e traz rez, mas que a visita é cada lham no lado mexicano, os fi- “Lamentavelmente, vive-
incertezas, mas é preciso re- vez mais difícil devido à se- lhos atravessam a fronteira mos em um país onde existe
cordar que Obama também gurança rígida —costuma le- para ir às escolas norte-ame- todo tipo de criminalidade.
foi um presidente muito cru- var cerca de duas horas para ricanas do Novo México. Há casos de meninos usados
el e rude com os imigrantes. cruzar a ponte fronteiriça.
Fez as ‘redadas’ [grandes As sobras da obra viraram
operações de captura de imi- uma fonte de renda extra pa-
grantes ilegais], as deporta- ra os moradores. Carregando
ções em massa, as separações um longo pedaço de cano de
de famílias, os centros de de- aço em um dos ombros, a
tenção. Foi ele quem fez esse operária Fabiola Vellez, 31,
muro aqui e quem mais de- disse que a peça vale 50 pe-
portou na história dos EUA. sos (US$ 2,80, ou R$ 9,30).
Nunca disse nada, mas fez Trata-se de um pequeno re-
muito”, afirma o padre Javi- forço do salário de mil pesos
er Calvillo, 47, diretor da Ca- (US$ 56, ou R$ 190) que rece-
sa do Migrante de Ciudad Ju- be por semana em uma fábri-
árez, sua cidade natal. ca de cabos automobilísticos.
“O meu maior medo é o A poucos metros, no Texas, o
muro que Trump pode cons- salário mínimo semanal está
truir nas mentes e nos cora- em US$ 290, o quíntuplo.
ções dos americanos e até dos Apesar da fonte extra de
mexicanos que estão lá. É o renda, Vellez não está feliz:
muro mais perigoso: vem o “Em dezembro, ‘la migra’ (Pa-
racismo, vem o apontar de de- trulha da Fronteira dos EUA)
dos. Em El Paso, as pessoas lançou brinquedos por cima
têm medo de ir à escola, ao da cerca. Com o muro, não se-
ab Segunda-Feira, 26 de Junho de 2017 ★★★ mundo a17

AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM

fOlhA .COm/ mUNdO de mUrO s

CONTINUA
como mulas e detidos pela va 57 imigrantes em meados to para se arriscar no deser- pág. A18
imigração. Estamos sempre de abril, a grande maioria to, Emir não teme a linha du- O outro lado
atentos para que não levem hondurenhos. No grupo, pre- ra de Trump: “Não existe um do muro
nada mais do que o material dominantemente masculino, presidente dos Estados Uni- dividindo
escolar em suas mochilas.” muitos já haviam sido depor- dos que não tenha deportado cidades que
O muro também gera di- tados dos EUA, mas preferem pessoas”. [C] convivem em
nheiro. Hector trabalha no se arriscar de novo no país de O muro tem frestas. A lógi- simbiose e
tradicional restaurante Pink, Trump a viver nos pobres e vi- ca é parecida à de uma visita temem novas
a poucos passos da fronteira olentos países centro-ameri- na prisão: todos os dias, al- restrições
e popular entre norte-ameri- canos, sobretudo Honduras, guma família se reúne entre
canos que cruzam para Palo- El Salvador e Guatemala. as grades “padrão Obama”
mas em busca de dentistas e Ao contrário de Juárez, as que separam Nogales, Méxi-
oculistas mexicanos que co- instalações são precárias. A co, de Nogales, Estados Uni-
bram uma fração do que cus- maioria dormia do lado de fo- dos. Trocam comida, presen-
taria nos EUA. ra da casa acanhada, em ci- tes, notícias, conversam, can-
Em casa, Gabriela comple- ma de tapetes e sob o teto de tam e tentam se tocar.
menta a renda dando banho lona, apesar da madrugada No terreno inclinado de
em cachorros. Os clientes são fria do deserto. O acúmulo de chão batido, a faxineira Aída
americanos, que entregam e lixo deixava seu odor no ar. Laurean, 47, no lado mexica-
pegam os bichos de estima- Os relatos revelam uma vi- no, passou das 11h30 às
ção nos poucos metros de zo- agem perigosa. Um diz que 18h30 ao lado da filha Sofia,
na neutra entre os dois pos- foi obrigado a beber a própria no lado americano.
tos fronteiriços. urina durante a caminhada As duas se separaram 1
O muro cria rotinas estra- que durou cinco dias, sem su- quando Aria não quis perder
nhas. Nos cinco anos em Pa- cesso. Outro teve de voltar o funeral da mãe, no México, 2 3
lomas, o casal nunca foi à es- após infecção provocada por mesmo sabendo que não con-
cola dos filhos —por Skype, picadas de carrapatos. seguiria voltar aos EUA.
viram a formatura do ensino Driblar o muro é caro e pe- Chegou a tempo para o en- 4
fundamental de Emiliano e rigoso. Há dois preços cobra- terro, mas ficou sete anos sem
conversam com os professo- dos pelos coiotes. São cerca ver a filha. 5 6 7
res. “Mas nos sentimos mui- de US$ 8 mil (R$ 26 mil) para O muro assusta. Sofia,
tos sortudos, [estudar nos a travessia, mas o valor pode atendente de telemarketing, [1] Criança joga futebol
EUA] é um privilégio que nem cair pela metade se o imigran- só se arriscou a se aproximar em escola de Puerto
todos podem ter”, diz Hector. te levar uma mochila com dele depois que começou a Paloma, no México
Sobre Trump, ele tem dú- drogas até os EUA. transitar o documento para a [2] Mexicanos em praia de
vidas: “Ele está dizendo o que Um dos poucos que se residência, ao qual tem direi- Tijuana; cidade faz
as pessoas querem ouvir. Es- aventuravam pela primeira to por ter se casado há pouco fronteira com os EUA
tá dizendo que ele vai fazer vez, o salvadorenho Emir (no- com um mexicano-america- [3] Família se reúne entre
um muro enorme, bonito e me fictício), 30, levou 45 dias no. Enquanto o processo não as grandes que separam
grandioso, mas não vai acon- até chegar a Caborca. Diz ter ficar pronto, porém, ela não Nogales, do México, de
tecer. É só um falastrão.” [B] viajado em 15 trens. “Foi difí- pode deixar os EUA. Nogales, dos EUA

A
cil, há situações de que não Sobre Trump, Aída apenas [4] Imigrante descansa
vou esquecer nunca. Conhe- brinca: “O comentário é que em abrigo no México antes
ci uma menina que perdeu a ele quer fazer um muro novo. de se arriscar no deserto
perna subindo no trem.” Que seja bem baixinho para [5] [6] [7] Barreiras que
680 km a oeste de Ju- À espera do momento cer- que eu possa pular.” dividem o México dos EUA
árez, Caborca é a última para-
daparavárioscentro-america-
nos antes de se arriscar no de-
serto que o muro ainda não al- Imigrantes irregulares nos eUA Orçamento da patrulha
cançou. Ali, quase todos os di- [A] [B] [C]
as, dezenas desembarcam da Em milhões de pessoas, por ano fiscal* Em milhares de pessoas, por ano fiscal* US$ milhões*
“Bestia”, apelido dado a qual- 2.0 500 4
querumdostrensqueatraves- Detidos na fronteira 400 3 Na fronteira
1.5 Deportados
com o México 300 americana
sam o México e são usados pe- 1.0 2
200
los imigrantes para se aproxi- 0.5 1
100
mar da fronteira, em viagem 0.0 0 0
clandestina e perigosa. 1993 2001 2009 2017** 1993 2001 2009 2017** 1993 2001 2009 2017
Vizinho à estação de trem, *De 1º.out até 30.set do ano em questão **Até 30.mai.2017. Fontes: Patrulha da Fronteira dos EUA,
uma Casa de Migrante abriga- Departamento de Segurança Doméstica dos EUA e Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA
A18 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 26 de Junho de 2017 ab

EUA
Produto Índice de
População Interno Bruto Desenvolvimento Humano
321 mi US$ 18,04 tri (1º) 10º (0.920)

MEXICO
UM MUNDO DE MUROS
127 mi US$ 1,14 tri (15º) 77º (0.762)
Fontes: Banco Mundial e pnud

Ao norte da fronteira, futuro em 2012 —34 mil ao mês.


A dona de casa Rocío Oroz-
co, 42, decidiu não se arris-
car nos últimos 20 anos. Nes-

intimida e passado acalenta


te período, ela e o marido vi-
veram separados: ela em Me-
xicali, no México, ele em Ca-
lexico, na Califórnia.
Rocío via Alfredo e os fi-
Enquanto discurso de segurança prevalece e número de imigrantes lhos James, 20, e Melanie, 17,
nascidos nos EUA, aos fins de
diminui, os que atravessam almejam ver familiares e não ter medo semana, quando eles cruza-
vam para o lado mexicano.
ISABEL FLECK e AVENER PRADO
Só em setembro, quando
enviados especiais ao noRTe da FRonTeiRa eUa-MÉXico
obteve seu “green card”, re-
uniu-se à família. Morando a
metros da cerca de aço que
separa as cidades simbióti-
Maria de Lourdes Mendoza Maria de Lourdes, 50, três di- do advogado de que o “green rige se for extremamente ne- cas, hoje ela vê o México da
havia se acostumado, nos úl- as depois, na casa onde vive card” que lhe garantiria a re- cessário (blitz são um meio janela. Adora ouvir os mari-
timos três anos, a ter os en- com o marido e as filhas de sidência permanente chega- comum para flagrar imigran- achis tocarem no restauran-
contros com o filho, Ramón, 30 e 19 anos, em San Diego. rá em um ano esteja correta. tes sem documentos). te da rua rente à barreira.
27, cronometrados. Primeiro, Emocionada, ela lembra ErezaparaqueDonaldTrump “A atitude dos agentes de Da janela, Rocío também
na prisão, após ele ser detido que a família nunca se dividi- não dificulte o processo. imigração mudou, está mais vê, quase diariamente, imi-
com drogas em San Diego, ra antes da deportação de Ra- “Deus vai amolecer o cora- agressiva e intolerante. Eles grantes se aproximarem da
Califórnia. Depois, no tribu- món, que agora vive em Tiju- ção deste senhor para que ele sentem que podem chegar em cerca de 5,5 metros com uma
nal, pouco antes de ele ser de- ana com primos e tios. Hoje, veja que os imigrantes são qualquer comunidade e, do escada improvisada e pula-
portado, em fevereiro último. mãe e filho estão separados pessoas trabalhadoras.” nada, começar a pedir docu- rem para Calexico. A maioria

A
Em um domingo no fim de por um trajeto de 35 minutos mentos”, afirma Fernando é pega por patrulheiros antes
abril, a diarista teve a chance de carro e uma fronteira. García, diretor da Rede Fron- que consiga fugir.
de abraçar o filho de novo. Apenas a filha caçula, que teiriça pelos Direitos Huma- “Quando vejo as pessoas
Foram três minutos observa- nasceu nos EUA, pode visitar nos. Mexicano, ele vive há 25 serem pegas pela imigração,
dos por agentes da Patrulha o irmão nos fins de semana. 1.200 km dali, em El anos em El Paso. me dá tristeza, porque eu sei
da Fronteira, que abriram “Na imigração [enquanto Paso, no Texas, Cecília Mar- Sua ONG tem feito encena- que eles querem uma oportu-
temporariamente uma enfer- Ramón esteve detido], podí- tínez, 44, demonstra menos ções nas casas de imigrantes nidade, mas não o fazem da
rujada porta da cerca que di- amos comer com ele por uma fé e mais medo do futuro. sobre como eles devem rea- maneira correta. Muitos não
vide os EUA e o México no ex- hora a cada fim de semana. Mexicana, também diaris- gir se um agente do Serviço têm a chance de fazê-lo.”
tremo oeste da fronteira e Agora posso ouvi-lo por tele- ta, há 13 anos nos EUA sem de Fiscalização de Imigração A expressiva queda no nú-
adentra o mar. fone. Saber que ele está bem, documentos, ela procurou e Alfândega (ICE, em inglês) mero de detidos desde o iní-
Entre lágrimas e diante de trabalhando, me conforta.” um advogado há alguns me- bater à porta. cio do governo Trump suge-
jornalistas, disse a Ramón Apesar do sofrimento com ses para fazer uma carta dan- “Você tem o direito de im- re que menos gente está ten-
que o amava e pediu que se a distância, os Mendoza não do a seus pais, residentes per- pedir que entrem na sua ca- tando entrar ilegalmente nos
cuidasse. Ouviu dele que não pensam em voltar ao México, manentes, a guarda tempo- sa sem mandado e de perma- EUA. Os 52.347 detidos pela
se preocupasse mais. assim como milhares de fa- rária das filhas Cecília, 13, e necer calado. Também pode Patrulha da Fronteira de mar-
Naquele dia, outras cinco mílias divididas pela frontei- Esmeralda, 8, se ela e o mari- pedir um advogado e não é ço a maio são quase um ter-
famílias puderam se tocar ra. Na maioria dos casos, as do forem deportados. obrigado a assinar a sua de- ço dos 150.061 do mesmo pe-
além do que geralmente per- razões citadas para permane- “As meninas choram, te- portação”, explicava Marga- ríodo de 2016.
mitem as frestas na cerca que cer nos Estados Unidos se re- mem que nos separem. É mui- rita Arvizu, uma das voluntá- Rocío diz não conseguir
corta o Parque da Amizade, sumem à palavra “oportuni- to doloroso. Quero estar aqui, rias da rede, a 14 imigrantes imaginar o que será das po-
entre San Diego e Tijuana. dade”: de emprego e de vida. quero ser eu a educá-las.” numa tarde de abril. pulações das duas cidades se
O momento é promovido Maria de Lourdes e o mari- O casal saiu de Ciudad Ju- O número de deportações a cerca, construída em 1999
pelo menos uma vez ao ano do estiveram em situação ile- árez para fugir da violência e por mês, desde que Trump as- para substituir uma barreira
pela ONG Anjos da Fronteira, gal por mais de 20 anos e ho- buscar empregos melhores. sumiu, é inferior aos três úl- de arame, for substituída por
com aval da Patrulha da Fron- je têm um visto “U”, para ví- Hoje diz pensar apenas no fu- timos meses de 2016, quando um muro fechado.
teira, que verifica o histórico timas de atividade crimino- turo das filhas. Barack Obama estava no po- Trump prometeu constru-
da família. Apenas imigran- sa. Apesar de permitir sua es- Desde fevereiro, quando o der. Em maio, foram 14.786, ir um muro em toda a exten-
tes com registro formal nos tadia nos EUA, o documento Departamento de Segurança a menor média mensal desde são da fronteira sem esclare-
EUA podem participar. não lhes garante o retorno ao Doméstica expandiu e acele- 2003, sob George W. Bush. cer sua forma nem como fará
“Abraçar seu filho é algo país se cruzarem a fronteira. rou a política de deportação, Obama bateu o recorde anu- onde há rios ou montanhas.
que não tem preço”, disse Ela espera que a previsão Cecília evita sair à rua e só di- al, com 410 mil deportados Atualmente, 1.046 km do
ab Segunda-Feira, 26 de Junho de 2017 ★★★ mundo a19

San Diego Calexico


El Paso EUA
Tijuana Mexicali Fronteira 3.200 km
El Paso
Nogales Muro 1.046 km AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM

MÉXICO
f Ol hA .C O m/ mU NdO d e mUrO s

total de 3.200 km da frontei- com a construção da segun-


ra entre EUA e México já têm da cerca e a implantação de
algum tipo de cerca. sistemas tecnológicos de vi- 2
1
“Seria quase um Muro de gilância. Com isso, o vale do
3
Berlim, pois não poderíamos Rio Grande, no extremo sul
nos ver. Hoje as famílias têm do Texas, tornou-se a princi-
oportunidade de se saudar, pal rota: foram 187 mil imi- 4
mesmo que de longe.” grantes detidos em 2016, ou
Não se sabe, contudo, se o 46% do total. 5 6 7
Congresso americano apro- O mexicano Joel Olivas, 28,
vará a verba de US$ 1,6 bilhão foi um dos 63.397 capturados [1] A mexicana Rocio
(R$ 5,32 bilhões) para iniciar pela Patrulha da Fronteira na Orozco, 42, que consegue
a construção do muro. Ainda região de Tucson, Arizona, ver o muro que divide EUA
neste ano, empresas interes- em 2015. Ele cruzou a frontei- e México da sua janela
sadas no projeto podem co- ra com outros cinco imigran- [2] Maria de Loudes, 50,
meçar a erguer protótipos tes, todos carregando drogas. na casa em que mora em
perto de San Diego. A Folha o encontrou um San Diego, nos EUA

A
dia depois de ele deixar a pri- [3] Voluntários trabalham
são onde cumpriu pena de em ONG que ajuda
dois anos por tráfico na No- imigrantes que tentam
gales mexicana, que faz divi- cruzar a fronteira
s barreiras que cor- sa com a cidade homônima [4] Família se abraça
tam centros urbanos hoje se no Arizona desde que a guer- durante reencontro
parecem, com suas altas co- ra entre Estados Unidos e Mé- organizado por ONG
lunas de aço, entre as quais xico, em 1846, as dividiu. [5] [6] [7] Barreiras que
é possível passar as mãos e “Há vezes em que você pre- dividem EUA e México
às vezes o antebraço. Agen- cisa arriscar para melhorar a
tes da Patrulha da Fronteira vida da sua família, mas sa-
monitoram a interação. bendo que vai sacrificar mui-
Em San Diego, há uma cer- tas coisas. Eu sacrifiquei ver
ca dupla em 20 dos 74 km em meu filho crescer. Quando saí
que há alguma construção. de casa, ele tinha oito me-
“A segunda cerca nos dá ses”, disse Joel, que tentava
tempo. Se a pessoa pula a pri- voltar a Tijuana, onde vivem
meira, ela ainda precisa ten- a mulher, Alejandra, e Isaac,
tar cortar [o arame] ou pular 2. “Ele ainda não andava.
a segunda”, explica Eduardo Agora imagino que ele vá cor-
Olmos, chefe da comunica- rer e me abraçar.”
ção da patrulha de San Die- Joel diz que “fez algo ruim”
go, observando, de cima de e afirma que não tentaria en-
uma montanha, a movimen- trar de novo com drogas.
tação em Tijuana, no México. “Mas, naquela época, eu que-
Um pouco mais distante ria dinheiro rápido. E para
das cidades, a cerca some ou muita gente funciona. Não ti-
dá lugar a barreiras mais va- ve sorte, o que vou fazer?”
zadas, onde garrafas de água Ele se lembra do desespe-
e pacotes de biscoito vazios ro ao ver que não conseguia
deixados para trás evidenci- levantar a sacola com cerca
am as rotas de entrada dos de 50 kg, distribuídos entre a
imigrantes irregulares. maconha que recebeu US$
Em Tornillo, a 60 km de El 1.800 (R$ 6.000) para levar e
Paso, há 15 km sem cerca. algumas garrafas d’água. Co-
“Acho que eles ficaram sem meçou empurrando, depois
dinheiro”, diz Jim Ed Miller, colocou nas costas e acabou
68, dono de fazendas de al- se acostumando, durante os
godão cujos limites se con- cinco dias de travessia.
fundem com a fronteira. “Quando acabou a água,
Com uma arma na cintura, passei a tomar qualquer água
o vizinho que se identifica empossada, separando a su- CONTINUA
apenas como Andy reclama
que a região é menos segura
jeira. Se estivesse muito suja,
só molhava a boca.” 10.jul
por não ter a barreira. “Já ten- No trajeto, percebeu que Conheça o
taram roubar minhas máqui- andar em bando chamava muro na
nas, por isso ando com a ar- atenção. Quando passava um África que
ma. E tenho que proteger mi- avião, todos tinham que ten- separa
nha mãe”, diz, rodeado por tar se esconder em meio à ve- famintos
seus cachorros, que rosnam getação rala e ficar horas sob de outros
ao menor movimento. o sol de 40°C. famintos
A reportagem ficou por Atravessar sozinho tam-
quase uma hora sem ver ne- bém é arriscado. Sem sinal de
nhum agente da Patrulha da celular na região, muitos pas-
Fronteira num ponto onde sam dias perdidos. Centenas
uma pequena vala e arbustos morrem por ano. Em 2016, fo-
são os únicos obstáculos pa- ram 322 —84 só na região de
ra quem quer cruzar. Dali, Tucson, onde Joel cruzou.
muitos imigrantes seguem Alguns têm a sorte de en-
por uma estrada de terra, por contrar no caminho garrafas
não mais que dez minutos, d’água e mantimentos deixa-
até uma rodovia estadual on- dos por organizações como a
de, muitas vezes, são apanha- Water Stations, que mantém
dos pelos coiotes. 160 estações com seis galões
Confrontada com críticas, de água dentro de um tambor
a patrulha responsável pelo de plástico, sinalizadas com
setor disse usar diferentes umabandeiravermelhaeazul
métodos de vigilância e ter que pode ser vista de longe.
visto “redução significativa” O reabastecimento é feito
da atividade ilegal na região. a cada 15 dias por John Hun-
O número de detidos em El ter, fundador da ONG, a mu-
Paso em 2016, contudo, foi o lher, Laura, e dez voluntári-
maior desde 2008, 25.634. os. E eles têm um trabalho ex-
Nas últimas três décadas, a tra: recuperar pontos destru-
região recuou do segundo pa- ídos por opositores da ajuda.
ra o quinto posto em fluxo de “É muita maldade vanda-
imigrantes. lizar as estações de água”, la-
Em San Diego, campeã de menta Laura. “Para nós, não
detenções nos anos 70, 80 e é questão de imigração. É
90, a atuação dos coiotes caiu questão de viver ou morrer.”
A16 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 10 de Julho de 2017 ab

QUÊNIA
Produto Produto Interno
População Interno Bruto Bruto per capita*
46,8 mi US$ 70,5 bi (68º) US$ 3.400 (185º)

SOMÁLIA
UM MUNDO DE MUROS
10,8 mi US$ 6,2 bi (149º) US$ 400 (230º)
*estimativa para 2016
Fontes: Banco Mundial e CIA

Na fronteira dos desprovidos, quem


foge da fome se depara com o terror
Cerca erguida entre dois dos países mais pobres do mundo para tentar frear
o terrorismo barra famílias assombradas por seca, doenças e um Estado falido
PATRÍCIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA
EnvIAdos EspECIAIs A MAndErA E dAdAAB, QuênIA

Noor Addow, 45, suas duas do Quênia anunciara que fe- Sem isso, os somalis não repatriados para a Somália.
esposas e dez filhos andaram charia Dadaab. Segundo o têm mais perspectiva de, um A família de dez se dividiu
durante 17 dias. Fugindo da presidente, Uhuru Kenyatta, dia, serem reassentados em nas manyattas improvisadas,
seca, da fome, do terrorismo o campo tinha se transforma- um país rico como Canadá, cujas paredes eram feitas com
e da epidemia de cólera na So- do em um viveiro de terroris- Austrália ou Estados Unidos. galhos secos de acácia, amar-
mália, levavam apenas a rou- tas do Al Shabaab — uma fac- E o pior: por não serem rados uns nos outros com ti-
pa do corpo. As crianças, al- ção extremista islâmica liga- considerados refugiados, os ras de saco de lixo, cobertas
gumas descalças, outras com da à Al Qaeda— e de lá havi- somalis que chegaram em Da- por lona doada por organiza-
chinelos, tinham os pés co- am saído os extremistas que daab nos últimos dois anos ções humanitárias e papelão.
bertos de bolhas e de feridas. mataram 147 pessoas no ata- não recebem o pacote de as- O mobiliário se restringia
Toda vez que passavam por que à universidade de Garis- sentamento, que inclui um à esteira no chão. Dentro das
um vilarejo, paravam na mes- sa, em 2 de abril de 2015. terreno e materiais para cons- tendas, morava um enxame
quita e mendigavam comida. O governo passou a fazer truírem suas barracas. inimaginável de moscas. No
Quando a água de suas vasi- repatriação voluntária dos re- Nem ganham o “ration canto, ficava uma latrina
lhas acabava, enganavam a fugiados, apesar da seca, do card”, o vale-ração que dá di- construída por uma ONG.
sede chupando raízes que cólera e da milícia terrorista reito a uma porção quinzenal Ao redor do terreno, uma
achavam no caminho. À noi- ainda estar em boa parte do de cereais, farinha, óleo, açú- cerca feita com galhos secos
te, dormiam no mato, com território somali. Mais ou me- car, sal e uma quantia para de acácia, cheios de espi-
medo dos leões e das hienas. nos na mesma época, o Quê- compra de vegetais e frutas. nhos, e uma infinidade de
No 14º dia, Fatma, 19, a es- nia deixou de dar status de Semaraçãoquinzenal,afa- roupas velhas e trapos enros-
posa mais nova de Noor, en- refugiados aos somalis que mília de Noor tem sobrevivido cados. As roupas velhas fun-
trou em trabalho de parto. cruzam a fronteira. à base de folhas fervidas des- cionam como espantalhos
Estava muito fraca. No vi- “Anteriormente, eles rece- de que chegou, há pouco mais para proteger as casas das hi-
larejo onde viviam na Somá- biam automaticamente o sta- de um mês. Todos os dias, a fi- enas. Sorrateiros, os animais
lia, primeiro a represa secou, tus de refugiados, todo mun- lha mais velha recolhe as fo- rondam durante a noite e ma-
depois a plantação de milho do sabia que não havia paz lhas no mato e ferve com água tam os bodes. Às vezes, ma-
morreu e, por fim, foram-se as na Somália e que eles não vi- numa panela até que virem tam os bebês.
cabras. Havia muitos meses nham para cá a turismo”, diz uma papa verde viscosa. Noor ficou feliz com a mo-
que ninguém comia direito. Jean Bosco Rushatsi, chefe de “É salgadinho, o gosto não radia herdada, mas logo des-
Fatma deu à luz embaixo operações do Alto Comissari- é ruim”, diz Abay, a filha de cobriu que não teria direito
de uma árvore. Eram gême- ado das Nações Unidas para 20 anos. ao vale-ração. Por um mês,
os. Osman morreu no meio Refugiados (Acnur) nos cam- Quando chegou a Dadaab, a família viveu de alimentos
da noite, nos braços do pai. pos de Dadaab. “Depois da Noor achou ter tirado a sorte doados por vizinhos e folhas
Khadija morreu de manhã, decisão do governo de fechar grande. Ele encontrou um ter- fervidas. A maioria dos so-
no colo da mãe. Não tiveram os campos, ninguém mais re- reno com duas tendas cujos malis é muçulmana e segue
tempo para chorar. cebeu esse status.” ocupantes acabavam de ser à risca os ensinamentos de
“Precisamos continuar an-
dando, senão vamos perder
mais filhos”, disse Noor.
Caminharam mais três di-
as e chegaram a Dadaab, no 2 3 4
Quênia —o maior campo de [1] Família somali posa para foto próximo à sua
refugiados do mundo, onde 5 tenda em Dadaab [2] Tenda onde vivem os Addow
vivem 250 mil pessoas, na [3] Barwago e a filha Salado, 2 [4] Soldado do Quênia
maioria somalis. observa área que faz fronteira com a Somália; cerca separa
Os Addow não sabiam, 6 os países [5] Crianças se refrescam no vilarejo BP1,
mas não eram bem-vindos. 1 7 que fica próximo a Mandera [6] [7] [8] Imagens aéreas
Um ano antes, o governo 8 do campo de refugiados Dadaab, o maior do mundo
ab Segunda-Feira, 10 de Julho de 2017 ★★★ mundo a17
ETIÓPIA

Mandera
SOMÁLIA
QUÊNIA Mogadício
Fronteira 700 km
Dadaab Muro 5,3 km AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM

folha .com/ mundo de muro s


Mombaça

conTInua
24.jul
O muro insuspeito
que esconde o óbvio
sob nossos narizes

região somali de Jubaland.


Segundo Fredrick Shisia,
comissário do condado de
Mandera, o propósito da cer-
ca não é dividir somalis e que-
nianos, é evitar a entrada de
terroristas. O Al Shabaab cos-
tuma atacar cristãos e funci-
onários do governo, soldados
ou policiais quenianos.
Tropas do Quênia estão na
Somália desde 2011 comba-
tendo o Al Shabaab.
Shisia admite que a cerca
dificultará a entrada dos re-
fugiados somalis. “Mas a So-
mália está bem mais estável,
estamos incentivando os so-
Maomé de ajuda aos pobres. “Não sabia disso não.” milícia islâmica Al Shabaab. extremistas se aproveitam. malis a voltarem para casa,
Até que ele recebeu um to- Noor tampouco sabia que A funcionária pública que- Centenas de pessoas cru- pois ninguém reconstruirá o
ken —um jeito que o Acnur o governo queniano está fe- niana Saadia Kullow, 29, fes- zam da Somália para o Quê- país se eles não voltarem.”
achou de dar ao menos um chando os campos de refugi- teja a construção da cerca. Ela nia todos os dias para traba- E, de qualquer forma, “es-
pouco de comida às famílias ados. “A gente acabou de mora em Mandera, cidade de lhar, ver parentes, buscar se número enorme de refugi-
mais necessitadas que não ti- chegar. Se nos mandarem 150 mil habitantes que fica na pastos mais verdes para os ados é um fardo para nossa
nham o status de refugiados. voltar para a Somália, não sei tríplice fronteira entre Quê- animais. Se dão azar de en- economia”, diz o comissário.
Noor se preparava, anima- o que faremos. Somos pasto- nia, Etiópia e Somália. contrar um policial no cami- “Se para a Europa é difícil,
do, para acordar às 4h e es- res e agricultores, não pode- Mandera vive sob estado nho, os somalis sabem que imagine para a gente?”
perar na fila quilométrica pa- mos voltar para o mato seco.” de sítio há meses por causa basta pagar propina de uns Diferentemente da Europa
ra os armazéns mantidos pe- Desde 2014, o Quênia fez a dos ataques do Al Shabaab. 50 xelins quenianos (cerca de e dos Estados Unidos, onde
lo Programa Mundial de Ali- repatriação voluntária de 75 Vigora um toque de recolher R$ 1,65) para passar. os governos também ergue-
mentação. Sairia de lá com mil somalis que estavam em das 19h às 06h —quem sai na As obras da cerca começa- ram muros para estancar o
um pouco de feijão e milho. Dadaab. Dois dos cinco cam- rua nesse horário é preso. ram em 2014, mas, por ora fluxo de refugiados, o Quênia
Apesar de tudo isso, Dada- pos do complexo fecharam. Estrangeiros são proibidos apenas 5,3 km foram constru- não é um país rico.
ab ainda é melhor que a So- Segundo a ONU, 6,2 mi- de entrar na cidade por cau- ídos. Mesmo isso atrapalha. A Somália tem a menor
mália para os Addow. lhões de pessoas na Somália sa da falta de segurança. No povoado de BP1 (de renda per capita do mundo:
“Aqui ao menos tem água”, precisam de ajuda humanitá- Representantes do gover- Border Point 1, por ser o pri- US$ 400, ou cerca de R$
dizia Habiba, a filha de 13 ria atualmente. Isso corres- no e visitantes só andam meiro ponto desta que é uma 1.300, por ano.
anos, empurrando um carri- ponde a metade da popula- acompanhados de carros das mais voláteis fronteiras No Quênia, a renda é mais
nho de mão com algumas va- ção. Na última grande fome, com seguranças armados do mundo), os pastores de ca- de oito vezes a dos somalis.
silhas. Eles também têm aces- em 2011, morreram 260 mil com metralhadoras. O último bras não podem mais atraves- Ainda assim, o país fica em
so a assistência médica. Sa- pessoas de inanição. Muitas atentado foi no fim de maio. sar facilmente para a Somá- 185º de 230 países. Seus US$
lado, a filha de dois anos, es- estão em perigo novamente. Uma bomba contra o com- lia em busca de pastos ver- 3.400 anuais por pessoa cor-
tá com malária e acabara de “Eles vão fechar os campos boio de carros onde estava o des, cada vez mais raros. respondem a 25% da renda
voltar do hospital. A menina e mandar as pessoas de vol- governador do condado ma- A maioria das crianças so- anual per capita brasileira.
franzina tem braços finos e ta para um país onde não tou cinco seguranças. malis estuda no Quênia, por- No condado de Mandera,
barriga protuberante, marcas existe nem atendimento mé- Saadia, que mora em Man- que não há muitas escolas a taxa de analfabetismo é de
da desnutrição crônica. dico nem escola, e há uma dera desde que nasceu, já tes- funcionando na Somália. An- 75%. Não existe estrada asfal-
No Quênia, os refugiados epidemia de cólera”, diz Li- temunhou cinco atentados. tes, bastava cruzar a frontei- tada. Mais de metade das cri-
não têm autorização para tra- esbeth Aelbrecht, chefe da No último, jogaram bombas ra. Agora, elas precisam an- anças está desnutrida. Há
balhar, nem para sair dos missão dos Médicos sem a poucos metros da casa de- dar 12 quilômetros na ida e 12 apenas um médico para cada
campos. Vivem de bicos. Fronteiras no Quênia. la. Até hoje, toda vez que pas- na volta para contornar a cer- 114 mil habitantes.

A
“Minha mulher passou o sa um caminhão na rua ou há ca e chegar à escola. “Em vez de criticar o fecha-
dia lavando roupa para fora algum barulho mais alto, seu “Esta fronteira é artificial, mento dos campos e a cons-
e ganhou um saco de arroz. filho de dois anos e meio nossa comunidade é uma só: trução da cerca, a comunida-
Não faço nada senão esperar acorda gritando: “Mamãe, mesma língua, mesmo povo, de internacional deveria en-
pelo food token”, diz Noor. vida dos refugiados mamãe, bomba!”. mesma religião”, diz o che- tender que Dadaab se trans-
Ele diz que gostaria muito vai ficar pior ainda. “Sempre tem tensão, nun- fe da aldeia BP1, Mohammad formou num covil de terroris-
de ir para a “América”, onde O governo queniano está ca sabemos quando eles vão Salat. No norte do Quênia, tas”, diz Harun Kamal, vice-
há muitos somalis. Informa- construindo uma cerca de atacar. Mas eles vão. Por isso a população é etnicamen- comissário do condado de
do de que o atual presidente 700 km na fronteira com a So- vai ser ótimo esse muro.” te somali e é muçulmana, Garissa, onde fica Dadaab.
americano, Donald Trump, mália para restringir a entra- Hoje, a fronteira é porosa, ao contrário da maioria dos “Os países ricos deveriam
tem dificultado a entrada de da dos somalis. O objetivo é e os traficantes de armas, quenianos, que é cristã. Até se oferecer para receber 5 ou
refugiados, franze a testa. frear atentados terroristas da contrabandistas de açúcar e 1925, essa área era parte da 10 mil refugiados somalis.”
A12 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 24 de Julho de 2017 ab

BRASIL
População População até
População* sem renda** (em %) 19 anos** (em %)
Vila Esperança 25 mil 12,65 40

BRASIL
UM MUNDO DE MUROS
Brasil 206.08 mi 4,28 33
*Estimativas para 2016 ** em 2010 Fontes: IBGE e Prefeitura de Cubatão

À beira da estrada, a nitário de Vila Esperança,


além de ser secretário de as-
sistência Social de Cubatão.

pobreza se esconde e
Fundou uma ONG que tro-
ca material de reciclagem por
uma moeda chamada “man-
gue”, que pode ser usada na

o crime prospera
lojinha da organização e em
estabelecimentos locais.
Os moradores coletam gar-
rafas PET, latas, vasilhas de
plástico, entregam na ONG e
recebem os “mangues” de
Milhões passam diante da Vila Esperança, seus acordo com o peso. Podem
desempregados e seu esgoto aberto, mas, graças à trocar por alimentos e produ-
tos de limpeza em supermer-
gestora da rodovia dos Imigrantes, não a veem cados e padarias.
Segundo Zumbi, a comu-
nidade também tem seu mu-
PATRÍCIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA
EnvIados EsPECIaIs a CUBaTÃo
ro do orgulho, que foi cons-
truído pela ALL Logística
(atualmente Rumo) para se-
parar a ferrovia da favela e,
Duas vezes por semana, a O trecho também recebeu econômico” da ditadura mi- assim, evitar acidentes.
dentista Mariana Salgado, 39, reforço na iluminação, e fo- litar. Naquela época, várias Quando duplicou a estra-
passa de carro ao lado do mu- ram instaladas novas câme- indústrias se instalavam na da de ferro, a Rumo se com-
ro de concreto que foi cons- ras para utilização pela polí- cidade. Ela foi trabalhar na prometeu com algumas me-
truído na altura do quilôme- cia. A favela é controlada pe- feira em Vila Parisi, bairro de didas compensatórias para
tro 58,5 da rodovia dos Imi- lo tráfico de drogas. baixa renda que ficou conhe- conseguir a licença ambien-
grantes, em Cubatão (SP). O murou pegou os mora- cido como o coração do Vale tal. Asfaltou a via principal,
Quando ela está se aproxi- dores de Vila Esperança de da Morte depois que 37 crian- construiu passarelas, refor-
mando, fica nervosa, acha surpresa. De um dia para o ças nasceram sem cérebro, mou a ONG e equipou uma
que alguém vai aparecer de outro, começou a construção. por causa da alta concentra- sala de informática com 18
repente, com uma arma na Ninguém avisou. ção de poluição. computadores.
mão. “Não faço a menor ideia “Esse muro aí, é para pro- Sebastião Ribeiro, o Zum- Além disso, o muro de 3,5
do que tem atrás desse mu- teger os turistas, né? Mas e a bi, batizou de “muro da ver- quilômetros vai sendo aos
ro”, diz a dentista, que mora gente? Era por lá que a gente gonha” a barreira de concre- poucos grafitado por mora-
em Santos e atende em São passava para vender na pis- to erguida pela Ecovias. dores de Vila Esperança, que
Paulo às terças e quintas-fei- ta”, diz a potiguar Luzia Gon- “Quando não sabem o que aprendem com o grafiteiro
ras. “Só sei que duas amigas çalves da Silva, 54. Para ela, fazer, constroem um muro e Tuim, de uma favela próxima.
minhas foram assaltadas aí.” a barreira só atrapalhou. acham que resolveram o pro- “Qualquer obra cria trans-
Assim como Mariana, cen- Luzia vendia água, refrige- blema”, diz. “São mais de 20 torno para a população, por
tenas de milhares de paulis- rante, biscoito de polvilho e mil moradores pagando pelo isso fizemos uma aproxima-
tanos de classe média descem salgadinho sabor bacon na que uns poucos fizeram.” ção com a comunidade e

V
para o litoral pela Imigrantes, pista. Da janela de casa, via identificamos projetos exis-
onde o pedágio é de R$ 25,60, a estrada —se estivesse con- tentes para mitigar impactos
e não sabem o que existe gestionada, ela comemorava. da duplicação da ferrovia”,
atrás daquele muro de 3 me- Enchia o isopor de merca- diz Silvia Mari Azuma, coor-
tros de altura, 25 centímetros dorias e ajeitava no carrinho ila Esperança nasceu denadora de licenciamento
de espessura e 1 quilômetro de mão. Chegou a virar noite em 1972, com o início da cons- ambiental da Rumo.
de extensão, construído pela vendendo na pista, em engar- trução da rodovia dos Imi- A Ecovias diz que sua res-
Ecovias em maio de 2016. rafamento de Ano Novo. grantes. Parte dos operários ponsabilidade se limita à am-
O muro separa os turistas Luzia foi obrigada a desis- que trabalhavam nas obras pliação, conservação, manu-
dos cerca de 25 mil habitan- tir do trabalho de ambulan- da estrada construiu seus tenção e operação das rodo-
tes de Vila Esperança, favela te. Por causa do muro, o ca- barracos ou palafitas no man- vias. “Assuntos relacionados
onde 12% da população não minho até a estrada ficou gue, que é área de proteção à comunidade são de respon-
têm nenhuma renda, 14% ga- mais longo, e ela não aguen- ambiental. sabilidade do poder público”,
nham até um salário mínimo, ta puxar o carrinho pesado Zumbi veio do Maranhão afirma a empresa.
e todos despejam seu esgoto na lama. De qualquer jeito, em 1980 e se instalou em um De fato, segundo a Artesp,
no rio que deságua nas prai- nem adianta chegar lá, por- barraco com a mãe e seis ir- agência regulatória de trans-
as frequentadas por paulis- que o guarda manda voltar. mãos. Nos anos 90, com a cri- porte do Estado, a construção
tas de classe média. Abriu então o Bar da So- se econômica, a população do muro não exigia licença
Só nesse trecho de um qui- frência embaixo do viaduto da favela explodiu porque ambiental, portanto não hou-
lômetro, houve sete assaltos no bairro e vende a dose de muita gente no polo industri- ve medidas de compensação.
em 2015, um assalto e um la- pinga a R$ 2 e a de conhaque al perdeu o emprego e aca- Isso não amansa os críti-
trocínio em 2016 e um assal- a R$ 2,50. “Mas o movimento bou na invasão. cos. “Em pleno século 21,
to e uma tentativa em 2017, está fraco. Quem vai comprar O maranhense, que hoje construíram um muro de
diz a polícia rodoviária. se ninguém tem emprego e os tem 47 anos, cresceu venden- apartheid para isolar os po-
Segundo a Ecovias, o obje- bêbados só pedem fiado?” do água mineral e cocada na bres”, diz o prefeito de Cuba-
tivo do muro é “melhorar as Luzia migrou do Rio Gran- Imigrantes com a mãe. For- tão, Ademário Oliveira.
condições de segurança pú- de do Norte para Cubatão aos mou-se em Direito aos 44 e “Deviam ter investido o di-
blica da rodovia”. 13 anos, no auge do “milagre hoje é o principal líder comu- nheiro em moradia, água e
ab Segunda-Feira, 24 de Julho de 2017 ★★★ mundo a13
Nóbrega
l da
anoe
M
P.
d. Vila Esperança
Ro
Muro* 1 km AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM

Ro
d
.d
mu ndo d e muro s
*Trecho na altura do km 58,5 da

os
rodovia dos Imigrantes
f ol ha .c o m/

Im
igr
an
te
s
[1] Moradores da Vila Esperança grafitam
muro que separa comunidade de linha férrea
1 2 [2] Crianças brincam em Kombi abandonada
sob viaduto da rodovia dos Imigrantes
[3] Criança de bicicleta observa movimento
3 da rodovia dos Imigrantes
[4] Carlos Vieira de Lima, o Xambito, 23
4 5 6 [5] Notas de “mangue”, dinheiro local criado
7 para estimular a reciclagem na comunidade
[6] Sebastião Ribeiro, chamado de Zumbi
[7] Barraco na comunidade Vila Esperança

saneamento na comunida- crescer”, diz Xambito, que


de.” A Ecovias gastou R$ 14,4 anda pela favela com uma
milhões com o muro e as ou- caixinha de som tocando o
tras medidas de segurança. sertanejo Felipe Araújo.

P
Ele está correndo atrás de
um “serviço fichado” (regis-
trado). Já foi várias vezes aos
pátios das fábricas em Cuba-
ara a vasta maioria da tão, mas diz que aparecem
população que não tem ne- dez vagas para 500 pessoas.
nhuma esperança de sair da “Só com ajuda de Deus para
Vila, omuronão fazdiferença. ser chamado, é muita gente
“Não tenho nem o que fa- desempregada.”
lar sobre esse muro aí, para Na Vila, apenas 24% dos
mim tanto faz como tanto moradores concluíram o en-
fez”, diz Carlos Alexandre Vi- sino médio. Xambito parou
eira de Lima, o Xambito, 23. no quinto ano e já tentou vol-
Às 15h de uma segunda-fei- tar a estudar várias vezes. “É
ra, o campinho de futebol sob preciso ter força, né, porque
o viaduto de Vila Esperança chega dois meses, três meses,
está lotado de jovens descal- fica cansativo; começo a fu-
ços disputando o clássico mar maconha, fico boladão e
Dois Poste contra Santa Cruz. volto para casa.”
Ninguém tem emprego. Fumar, jogar bola e tomar
Xambito é um deles. emprestado o wi-fi do barra-
“Antes tinha bico de pe- co vizinho para entrar no
dreiro, R$ 60 o dia mais o ran- What’sApp e no Facebook —é
go, e na feira era R$ 50 no sá- esse o dia a dia de Xambito e
bado, R$ 50 no domingo e tra- da maioria de seus amigos em
zia uns legumes. Agora não Vila Esperança. “Queria mu-
tem nada.” dar minha vida, está difícil
A mãe de Xambito é vicia- pra caramba.”
da em crack. Ficou três anos Ele já tentou a religião. “Já
presa depois de tentar assas- fiquei dois, três meses indo à
sinar o marido alcoólatra co- igreja, louvava tremenda-
locando chumbinho (veneno mente, mas somos falhos, né,
de rato) no café dele. A irmã parei de ir e entrei de novo
também é viciada em crack. nas paradas.”
O pai dele matou um ho- No lado pobre do muro,
mem, está preso e não vê oportunidade é coisa rara.
Xambito há mais de 15 anos. “A gente acorda e fica pen-
“Minha mãe nunca traba- sando, caramba, e agora, co-
lhou; pedra, cachaça e pó mo eu vou arrumar dinheiro,
acabaram com a vida dela. eu vou roubar? Eu penso nis-
Quando eu falo com ela não so, em roubar, não posso fa-
sai mais nenhuma lágrima, lar que não penso. Mas sei
entreguei na mão de Deus”, que, se fizer isso, posso vol-
diz ele. “Se a senhora visse, tar ou não voltar pra casa.”
a pele da minha mãe está Xambito diz que não quer
meio branca, meio preta, sucumbir à vida errada. Mas
aconteceu alguma coisa, es- a tentação é grande. “Na vi-
tá feia demais a minha mãe, da errada, a gente sai com um
a pedra acaba com a pessoa.” dinheirinho legal, mano.”

N
Xambito precisa pagar
pensão para seu filho de três
anos, mas não quer voltar pa-
ra a “vida errada”, como diz.
“Eu tinha uns 16 anos o dia 27 de maio de
quando entrei na vida louca. 2016, o estudante Reinaldo Li-
Quando a gente arrumava um ma de Souza, 17, morreu na al-
trabalho, saía, aí quando nós tura do quilômetro 59 da Imi-
estávamos na ‘precisão’ de grantes. Durante uma tentati-
um dinheiro, entrava de no- va de roubo, Reinaldo foi atin-
vo na vida errada”, conta. gido por uma pedra no rosto
“Essa vida errada aí, bi- que atravessou o para-brisa
queira [ponto de vendas de do carro onde ele estava.
drogas], tráfico, só tem dois O muro de concreto de três
caminhos: cadeia ou morte; metros de altura construído
não quero nenhum desses pela Ecovias já estava lá, iso-
dois, quero ver meu filho lando Vila Esperança.

CONTINUA
7.AGO
O muro que freia refugiados
A12 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 7 de AgoSto de 2017 ab

SÉRVIA
Refugiados na Europa, em milhões de pessoas 5,15 6
5
Europa (2016) Eclosão da
4
Refugiados 5.152 mi Primavera Árabe

HUNGRIA
2,45 3
UM MUNDO DE MUROS 1,55 2
População* 740.814 mi 1
0
*estimativa Fontes: acnur e onu 2003 2011 2016
Fonte: Acnur

Na porta da Europa, O paquistanês Rana Muz-


zafar Sabir, 28, tentou cruzar
11 vezes da Sérvia para a Hun-

tentar entrar é ciclo


gria. Na última, há um mês,
policiais húngaros o pegaram
na Hungria e o espancaram.
Chutaram seu olho e quebra-

de perpétua incerteza
ram seu nariz, conta. Depois,
o deportaram para a Sérvia.
Ele não foi para o hospital por
medo de a polícia aparecer.
Os Médicos sem Fronteiras
(MSF) atenderam 106 pesso-
Política anti-imigrantes de premiê húngaro deixa as vítimas de violência da po-
lícia de fronteira húngara de
no limbo, no mato e na neve milhares de retirantes janeiro de 2016 a fevereiro de
e refugiados vindos da África, Ásia e Oriente Médio 2017. Na maioria dos casos,
os migrantes tinham marcas
de espancamentos, mordidas
PATRÍCIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA
de cachorro e tiveram ossos
Enviados EspEciais à sérvia E a Hungria
quebrados. No inverno, refu-
giados relatam que os polici-
ais despejavam água fria em
suas roupas e os deixavam
Duas cercas paralelas, de de pessoas. E alto-falantes “the jungle”, a selva, espe- por horas na neve, a tempe-
quatro metros de altura, es- que advertem em três línguas, rando a hora de cruzar. Quan- raturas abaixo de -10 °C.
tendem-se ao longo dos 175 inglês, árabe e farsi : “Alerta, do o traficante de pessoas li- Sabir saiu de sua casa, em
quilômetros de fronteira en- você está na fronteira da Hun- ga de madrugada, os grupos Lahore, há oito meses. Pas-
tre a Sérvia e a Hungria para gria, que é propriedade do go- correm para a fronteira. sou por Irã, Turquia, Bulgá-
impedir a entrada de refugi- verno húngaro; se você dani- A tática é se dividir: 30 pes- ria e Sérvia. “Estou cansado,
ados e migrantes. ficar a cerca, cruzar ilegal- soas entram de um lado, 20 mas continuo determinado”,
A primeira é uma cerca mente ou tentar atravessar, de outro. A polícia não con- diz Sabir, da “selva” onde se
simples de arame farpado, estará cometendo um crime”. segue pegar todos de uma vez esconde, nos arredores de Su-
construída em setembro de Apesar da parafernália, mi- e alguns conseguem entrar. botica, na Sérvia. Ele e mais
2015. A segunda, uma barrei- lhares de sírios, afegãos, pa- A primeira cerca foi cons- dez paquistaneses acampam
ra de alta tecnologia, ficou quistaneses e iraquianos não truída pelo nacionalista Vik- no local, onde há muito lixo
pronta em março deste ano. desistem do que batizaram de tor Orban, o primeiro-minis- espalhado, cobertores no
É equipada com sensores elé- “the game”, o jogo —a tenta- tro da Hungria, no pico da cri- chão e uma barraca.
tricos que dão choques leves tiva de cruzar ilegalmente a se dos refugiados. Na época, Numa grade de jipe que vi-
em quem tenta passar e avi- fronteira em busca de uma vi- uma multidão de mais de mil rou grelha, os refugiados as-
sam aos guardas a localiza- da melhor na União Europeia. pessoas por dia tentava en- sam pão chiapati e cozinham
ção exata do intruso. Durante semanas, os mi- trar na Hungria. O número frango ao curry com manti-
Tem câmeras com visão grantes ficam escondidos em caiu muito, mas ainda há 50 mentos trazidos por uma
noturna e sensores térmicos grupos de 10 a 30 pessoas no pessoas tentando atravessar ONG. Carregam os celulares
que detectam a aproximação mato, em locais chamados de diariamente de forma ilegal. em postos de gasolina e vi-
ab Segunda-Feira, 7 de agoSto de 2017 ★★★ mundo a13
HUNGRIA Szeged
Baja

Subotica

SÉRVIA
Szeged Fronteira 175 km AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM
Muro 175 km
f ol ha .c o m/ mun do d e muro s
CROÁCIA

vem à base de energéticos. 2016, o número despencou. plantação de crisântemos.


Muitos aprenderam o pou- No entanto, muitos fica- “Eles destruíram todo meu
co de inglês que sabem no ca- ram encalhados em campos trabalho”, diz. “A cerca era
minho, assistindo a vídeos e na Grécia (mais de 60 mil) e necessária, a polícia sozinha
ouvindo música no celular. na Sérvia (mais de 6.000). não estava dando conta de
Para despistar a polícia, ca- Boa parte dos sírios e ira- deter toda essa gente”, afir-
da noite eles dormem em um quianos que vieram naquela ma Csonka enquanto passa o
lugar diferente, muitas vezes época conseguiram ser aco- trator em suas terras, a pou-
dentro de vagões abandona- lhidos como refugiados pela cos metros da cerca.
dos de trem. Voltam para “a UE. Sobraram cidadãos de Segundo o governo húnga-
selva” para cozinhar e espe- países que têm mais dificul- ro, o gasto com a cerca, poli-
rar o chamado do coiote, que dade em receber esse status, ciamento, áreas de trânsito e
cobra € 2.500 (R$ 9.200) pe- como Paquistão, Bangladesh campanhas soma €1 bilhão.
la travessia da Sérvia até a e Afeganistão, e os poucos “A Hungria não deveria re-
Áustria, através da Hungria. que continuam a chegar. ceber um só migrante”, diz o
Normalmente, só pagam se “A maioria não tem nenhu- caminhoneiro Attila Szegedi,
conseguirem chegar, mas al- ma perspectiva de entrar le- 45, que fazia parte de uma mi-
guns traficantes pedem uma galmente; a lista de espera lícia privada de defesa das
“entrada” não reembolsável. tem milhares de pessoas, mas fronteiras. “O Islã é incompa-
“Às vezes fico muito depri- a Hungria só está admitindo tível com a nossa cultura”,
mido, não me acostumo com oito por dia para a área de diz. Para ele, a cerca foi uma
essa vida”, diz Sabir,que tem trânsito, enquanto têm seus boa medida, mas o governo
um MBA em finanças e traba- processos analisados. Mesmo não é duro o suficiente nas
lhava como contador na Pep- assim, após examinarem o punições contra aqueles que
si em Lahore. Ele deixou o Pa- processo, a maioria não con- entram ilegalmente no país.
quistão porque começou a ser seguirá refúgio”, diz Stepha- “Queremos que as pessoas
perseguido pelo grupo terro- ne Moissaing, chefe da mis- vejam o que tem ocorrido na
rista Lashkar-e-Taiba. “E são do MSF na Sérvia. Alemanha, na França e na Su-
quando cheguei aqui chama- “Nós todos sabemos que écia por causa dos migrantes,
vam a gente de terrorista.” isso não é uma crise de refu- há uma onda de crimes, vio-
O afegão Hameedullah Su- giados. Dos que estão vindo, lência contra mulheres”, diz.
leiman, 18, já tentou cruzar 95% são migrantes econômi- “Não negamos que existam
seis vezes. Aluno exemplar, cos, não são perseguidos, problemas de segurança, mas
cursava faculdade de enge- mas querem uma vida me- o governo exagera e assusta
nharia aeronáutica no Pa- lhor”, diz Zoltan Kovacs, por- as pessoas”, diz o sociólogo
quistão com bolsa de estu- ta-voz do primeiro-ministro Mark Kékesi, fundador da
dos, mas os pais exigiram que húngaro Viktor Orban. ONG Migration Aid (ajuda à
retornasse para seu vilarejo “Todos querem o estilo de migração), em Szeged.
no sul do Afeganistão. vida europeu, e as fronteiras “A legitimidade do gover-
“Se voltasse, teria que pa- abertas passam a mensagem no de Orban depende disso,
rar de estudar para trabalhar de que é isso possível; a Eu- o pensamento do eleitor é:
com meus irmãos na terra, ropa não pode assumir a res- ‘eles podem ser corruptos,
sem falar no Taleban, que ma- ponsabilidade por todos.” mas defendem nosso país
tou muita gente que conhe- Para Robert Molnar, prefei- dessas pessoas que querem
ço”, diz ele, que vive na “sel- to da cidade fronteiriça de Ku- roubar nossos empregos e es-
va” há um mês. “Às vezes bhekhaza, que se opõe a Or- tuprar nossas filhas’.”
penso: o que está acontecen- ban, argumentar que a Hun- Para o ativista Tibor Varga,
do com a minha vida?” gria não deve receber migran- 61, da Eastern Europe Outre-
Suleiman quer ir para Lon- tes econômicos é egoísta. ach, a crise da migração é
1 dres, onde mora um tio seu. “Cerca de 10% da popula- complexa e não será resolvi-
2 4 Há cerca de 6.000 pessoas ção húngara é imigrante eco- da apenas com cercas.
3 encalhadas na Sérvia, aguar- nômica, saiu do país em bus- “Pense na seguinte situa-
dando para entrar na União ca de oportunidades —então ção: você acolhe em sua casa
5 Europeia. Muitas vivem nos esses húngaros têm o direito uma família sem teto de dez
6 7 campos de refugiados e estão de buscar uma vida melhor e pessoas. Como você foi boa e
em listas para entrar na Hun- os migrantes que vêm para cá os ajudou, eles chamam ou-
8 9 gria, onde terão o pedido de fazer o mesmo não têm?”, diz. tras duas famílias com dez
[1] [2] [3] Objetos deixados analisado. Mas a espera po- Desde 2012, Orban, que pessoas cada e pedem que vo-
por migrantes em “jungle” de levar dois anos, muitas ve- chama os migrantes de “ca- cê também as acolha”, diz
[4] Sabir (segundo da esq. zes em vão. Então, elas ten- valo de Tróia do terrorismo”, ele, que trabalha há sete anos
para dir.) e outros migrantes tam cruzar ilegalmente. vem implementando uma po- com refugiados na Sérvia.
paquistaneses preparam No campo de Obrenovac, lítica anti-imigração. O gover- “O que você vai fazer? Vo-
refeição em acampamento no subúrbio de Belgrado, vi- no lançou uma campanha cê tem capacidade para aju-
[5] Policiais húngaros que vem 950 homens solteiros, com outdoors em que se lia: dar todo esse pessoal? Não
são treinados para sendo 250 menores de idade. “Se você vier para a Hungria, existem respostas simples.”

A
trabalhar na fronteira com Segundo Mirjana Ivanovic- não tome os empregos dos
a Sérvia fazem exercício Milenkovski, porta-voz do Ac- húngaros” e “Se você vier pa-
[6] Migrantes em campo nur, a agência de refugiados ra a Hungria, você precisa
na Sérvia esperam para da ONU, na Sérvia, 1 em cada respeitar nossa cultura”.
entrar na Hungria 4 refugiados hoje na Sérvia é Orban baixou leis autori- lguns dias depois do
[7] Aviso de cerca menor de idade, muitas ve- zando o confinamento em encontro com a Folha na
eletrificada na fronteira zes desacompanhado. centros de detenção dos refu- “selva”, o paquistanês Sabir
entre Sérvia e Hungria Em Obrenovac, passam o giados que estão com proces- tentou cruzar a fronteira pe-
[8] Cerca próxima a campo tempo jogando críquete ou so em análise. Os centros são la 12ª vez e foi bem sucedido.
de girassóis divide fronteira navegando na internet em contêineres cercados por ara- Ele andou quatro dias pa-
entre Sérvia e Hungria seus celulares. Usam o cam- me farpado onde refugiados ra atravessar a Hungria, sem
[9] Policial patrulha área po de dormitório. Depois de vivem por meses, e foram cri- comer, só bebendo água. Foi
na fronteira entre Hungria, uns dias lá voltam para a “sel- ticados pelo Acnur e pela UE. se orientando pelo GPS no ce-
Romênia e Sérvia va”, para tentar cruzar para Além disso, Orban criou lular, mas, quando acabou a
Croácia ou Hungria. uma divisão policial chama- bateria, trocou o Google Maps
Em 2015, passaram mais de da Caçadores de Fronteiras e pelo instinto. Está agora em
400 mil migrantes pela Hun- quer recrutar 3.000 pessoas. um campo de refugiados na

A
gria, a porta para a UE, em Áustria. De lá, vai para a
seu caminho para países co- França, onde quer morar.
mo Alemanha e Suécia, mais O afegão Hameed também
amigáveis a refugiados. cruzou alguns dias após o en-
Após a construção da cer- cerca teve grande contro com a reportagem,
ca, o aumento do patrulha- apoio da população. Imre mas foi pego por policiais
conTInua mento nas águas turcas e o Csonka, agricultor em Hor- húngaros. Deportado, voltou
acordo entre UE e Turquia pa- gos, fronteira com a Sérvia, para um campo de refugiados
21.AGO ra remanejar ao país euroasi- lembra-se do dia em 2015 em em Belgrado e pretende ten-
O muro que oculta o indesejável ático os que chegassem à Gré- que milhares de refugiados e tar cruzar em breve. Desta
na rota para a praia cia, assinado em março de migrantes pisotearam sua vez, pela Croácia.
A14 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 21 de AgoSto de 2017 ab

PERU
Incidência da pobreza* Pobreza na área urbana*
População* (% do grupo étnico) (% do grupo étnico)
Indígenas 14,3 mi (45%) 28,6 18,9

PERU
UM MUNDO DE MUROS
Brancos 4,7 mi (15%) 20,5 12,3
*Em 2016 Fontes: Inei e Cia

Muro da Vergonha
separa indígenas de
“gringos” em Lima
Dez quilômetros de barreira de concreto que cortam morros
da capital peruana resumem o abismo social e étnico no país

FABIANO MAISONNAVE E AVENEr prAdO


ENVIADOs EsPECIAIs A LIMA

Caso pudesse caminhar até a os privados. Para evitar rou- vasões de terra.
mansão onde trabalha de aju- bos às casas, muitos fecha- Os residentes incluem o re-
dante geral, Esteban Arima- ram as ruas por conta própria, nomado chef e empresário
na levaria cinco minutos des- usando cancelas atadas a cor- Gastón Acurio, que tem uma
de a porta da sua casa. Em vez rentes com cadeados. das casas mais próximas ao
disso, passa cerca de duas ho- Em uma dessas áreas mais muro. Filho de um senador e
ras por dia dentro de ônibus antigas, um vigia cuidava, em educado em Paris, ele é apon-
lotados pelas vias congestio- uma guarita sobre o muro, pa- tado como principal respon-
nadas de Lima. ra que ninguém cruzasse pa- sável pela popularização da
A distância entre as casas ra o lado rico. culinária peruana no mundo.
vizinhas é imposta pelo Mu- A metros dele, uma mensa- Por e-mail, Acurio diz que
ro da Vergonha, como ficaram gem feita por moradores do discorda do muro, mas não
conhecidos os dez quilôme- lado pobre: “Não se aceitam quis explicar o motivo. Ele
tros de barreiras que serpen- maconheiros, ladrões, mem- afirma que planeja abrir, em
teiam os morros da capital pe- bros de gangue, traficantes 2019, sua segunda escola de
ruana. Erguido a partir de me- etc. Sob sanção da justiça co- culinária em Pamplona Alta
ados dos anos 1980, a sua fun- munitária.” voltada para alunos pobres

A
ção é separar as áreas urba- —a primeira, aberta em outra
nizadas dos “povoados jo- zona empobrecida da cidade,
vens”, o eufemismo local pa- ensina cerca de 300 jovens.
ra designar favelas. “Tentamos, como empre-
“Se abrissem uma porta, rimana mora há dez sários e família, atuar direta-
seria bom”, diz Arimana, que anos em uma das áreas não mente para que o Peru consi-
vive com a mulher e três fi- regularizadas. Poucos metros ga terminar rápido e para
lhos, o mais velho de 14 anos, acima, o muro de três metros sempre com todas as divisões
ao lado do muro de concreto marca o limite com o condo- econômicas, sociais, culturais
de três metros coberto por mínio Las Casuarinas, onde o e físicas que nos têm deson-
arame farpado. “Mas, porque acesso, controlado por segu- rado por séculos”, escreveu.
estamos na pobreza, é muito ranças e câmeras no pé do Arquiteto e cartunista, Car-
difícil sermos ouvidos.” morro, só é permitido a resi- lín atribui o muro e as grades
A família é uma típica mo- dentes e seus convidados. onipresentes em Lima ao de-
radora de Pamplona Alta, Com vista privilegiada de semprego e à desigualdade
conjunto de favelas com 96 Lima, há mansões à venda ali racial prevalentes no país.
mil pessoas erguida em um por até US$ 4,5 milhões (cer- “O pior racismo é aquele
morro com o mesmo nome. ca de R$ 14 milhões). que as pessoas dizem que não
Como a ampla maioria dos É num desses casarões que existe”, diz Carlín, cujos de-
que vivem ali, os Arimana são ele trabalha, fazendo a segu- senhos criticando Lima foram
migrantes de origem indíge- rança e pequenos consertos. reunidas no livro “Errar es Ur-
na do altiplano peruano. “Profissão mesmo, não tenho. bano”. “Somos um dos paí-
O casebre de paredes de Pode ser em obra, em qual- ses mais racistas.”

C
compensado foi erguido por quer trabalho que apareça.”
eles mesmos sobre o terreno Ao contrário do metro qua-
acidentado. drado das casas, a água é
Não tem água encanada. O mais cara no lado de Arima-
banheiro, do lado de fora, é na, que precisa recorrer a ca- omo ocorre em outros
apenas um buraco. Uma mo- minhões-pipa privados. países latino-americanos, o
radia ali sai, no máximo, por Enquanto em Pamplona crescimento da população de
US$ 15 mil (R$ 47 mil). Alta, estocada em tonéis de Lima se deu principalmente
Internamente, Pamplona plástico, sai por cerca de US$ pela expansão dos “povoados
Alta está subdividida pela al- 9 (R$ 29) por m3, no asfalto o jovens”, antigamente chama-
tura. Quanto mais perto do preço da água que sai da tor- dos de “barriadas”.
cume e dos muros, mais pre- neira varia de US$ 0,3 a US$ Em 1961, 17% viviam em fa-
cária a situação das moradi- 1,5, dependendo da faixa de velas limenhas. No censo
as, muitas delas erguidas so- consumo. Ou seja, os mais po- mais recente, de 2007, esse
bre um aterro feito de pneus. bres pagam em média dez ve- número chegou a 4,1 milhões,
As dezenas de quilômetros zes o valor pago pelos ricos. o equivalente a 40% da popu-
de ruas não pavimentadas fo- “Daquele lado, todos têm lação limenha, segundo da-
ram esculpidas na pedra pe- piscina, enquanto nós sofre- dos coletados pelo sociólogo
los próprios moradores. O mé- mos com a falta de água”, Julio Calderón no livro “La
todo: novamente usando compara Arimana para afir- Ciudad Ilegal”.
pneus, eles incendeiam a ba- mar que a desigualdade no Além de procurar melho-
se das grandes rochas, que ra- Peru está piorando. res oportunidades econômi-
cham com a temperatura al- Chamados de “gringos” pe- cas, milhares deles vieram a
ta e em seguida são esmiga- los vizinhos pobres em alusão Lima nos anos 1980 e 1990 fu-
lhadas a marteladas. à pele mais clara decorrente gindo do conflito interno de-
Nas zonas mais baixas, on- da origem europeia, os mora- sencadeado pela guerrilha
de já houve regularização das dores de Las Casuarinas cos- maoísta Sendero Luminoso,
posses e há água encanada, tumam argumentar que o mu- concentrada principalmente
alguns moradores criaram ro foi erguido por razões de nos Andes.
versões locais de condomíni- segurança e para conter as in- A construção do Muro da
ab Segunda-Feira, 21 de agoSto de 2017 ★★★ mundo a15

Est. Panamer
Casuarinas
L I M A Pamplona Alta

icana Sul
Muro* 10 km AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM

mu ndo d e muro s
*Em vários fragmentos Fontes:
ro Prefeitura de San Juan de
f ol ha .c o m/
mu Miraflores e livro “La Ciudad
Ilegal”, de Julio Calderón

conTInua
4.SET
O muro que resume um
conflito sem final à vista

1 2 3
4

5 6
8
7
[1] [2] [3] [4] Dionisio
Chirinos durante percurso
até o trabalho; morro é
usado por moradores de
Pamplona Alta que
trabalham em La Molina
[5] Residências de classe
média alta no distrito de
Santiago de Surco, em
Lima, próximo a muro que
divide região pobre da rica
[6] Pamplona Alta, um
conjunto de favelas com
cerca de 96 mil pessoas
[7] Muro em Pamplona
Alta, que separa ricos
de pobres em Lima
[8] Grupo de igreja
pentecostal se apresenta
em Pamplona Alta

Vergonha seguiu o mesmo rit- O acesso é usado diaria- ram de tudo, loteiam e ven-
mo de ampliação das favelas. mentepormoradoresdePam- dem aos mais necessitados.
O primeiro trecho foi erguido plona Alta que trabalham em Mas, como vemos aqui, há li-
em 1985 pelo Colégio Imacu- La Molina, que tem bairros de vre trânsito de pessoas.”
lada Conceição, administra- classe média e alta. Procurada, a assessoria de
do pelos jesuítas (a mesma or- A descida é feita por peque- imprensa de La Molina se li-
dem do papa Francisco). nos caminhos pelo morro ín- mitou a informar que a cons-
Na época, a escola disse greme —ao contrário do lado trução da barreira serve para
que a intenção da obra —exe- pobre, não há escadas. proteger o meio ambiente de
cutada sem que houvesse li- “Da fronteira de La Molina mais invasões, mas não aten-
cença prévia— era impedir para dentro é um desastre”, deu ao pedido de entrevista
que as invasões se aproximas- afirma Dionisio Chirinos, que com um porta-voz da munici-
sem da instituição. voltava de um dia de traba- palidade.
Atualmente, além dos mu- lho, acompanhado pelo filho Na parte mais alta do mor-
ros da escola, de Las Casuari- de adolescente, cujo joelho ro, a cerca de dez minutos de
nas e de outros condomínios sangrava. “Como você viu, o Pamplona Alta, está uma das
privados, há também um tre- meu filho acabou de machu- invasões mais recentes, con-
cho erguido e vigiado pelo po- car a perna.” venientemente batizada de
der público. Pouco antes, a reportagem Valle Escondido.
La Molina, uma das 43 mu- encontrou o único morador Ali, sem luz nem água e sob
nicipalidades de Lima, cons- da zona mais rica que se aven- constantes ventos gelados, as
truiu uma barreira de pedras turava por Pamplona Alta. Re- famílias se dividiram em dois
e arame farpado no limite sidente em La Molina, o estu- grupos pelo controle da regi-
com Pamplona Alta, que per- dante Julio Díaz havia escala- ão, gerando um ambiente de
tence ao município de San Ju- do a montanha para se exer- desconfiança.
an de Miraflores. citar. Apesar de não ter receio Um dos moradores, que fa-
O muro é um pouco mais de visitar a zona, disse ser fa- lou sob a condição do anoni-
baixo do que o dos condomí- vorável ao muro. mato por causa do clima ten-
nios privados e conta com um “O muro é necessário para so, explicou a ausência do
ponto de passagem, onde há limitar as invasões. Há muito muro: “Aqui é tão íngreme
um posto de controle da guar- tráfico de terrenos. Pessoas que não conseguimos cami-
da municipal de La Molina. mal intencionadas se apode- nhar até lá embaixo.”
A18 mundo ★★★ SegundA-FeirA, 4 de Setembro de 2017 ab

CISJORDÂNIA
Índice de Desenvolvimento PIB per capita
População (2016) Humano (2015) (2016)
2,7 mi* 0,684 (114º)* US$ 2.900**

ISRAEL
UM MUNDO DE MUROS
8,5 mi 0,899 (19º) US$ 37.900
*População palestina **Inclui Gaza
Fontes: Banco Mundial, Pnud e CIA

Barreira construída varam à divisão da Cisjordâ-


nia em diferentes áreas de
controle).
dois postos de controle mili-
tar, em Belém e em Ramallah.
Às 5h, a fila já transborda-

para trazer segurança


Se não tivessem sido inter- va para fora dos corredores
rompidos pelo assassinato do metálicos que lembram um
premiê israelense Yitzhak Ra- curral, com ratos passeando
bin por um ultranacionalista no chão imundo.
em 1995, tais acordos poderi- Ansiosos, alguns escala-

aparta vidas e memórias am ter encerrado o conflito.


“Era claro que os palesti-
nos seriam humilhados pela
construção do muro”, diz Bei-
vam as grades e formavam
uma fila paralela no ar, como
equilibristas distópicos.
O ritual é cotidiano para
lin, em Tel Aviv. milhares. “Tornamos a vida
Concreto que serpenteia por terras palestinas freou “Mas não foi feito por ma-
lícia, e houve esforços para
de muitos palestinos terrível”,
afirma Beilin. “Mas reduzi-
homens-bomba, mas afastou prospecto de paz que eles não sofressem, ain- mos o número de mortes, e é
da que esses esforços não te- difícil dizer que isso tenha si-
DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA nham sido suficientes”, afir- do errado.”

N
ENVIADOS ESPECIAIS A ISRAEL E CISJORDÂNIA ma, citando uma série de ape-
los às cortes israelenses —seis
deles com sucesso —para mu-
dar a rota da barreira.
Muros, diz Beilin, “não são ão é errado, do pon-
Umm Judah, 64, se esque- cidade a um quilômetro do um dos mais recentes. fotogênicos”. to de vista legal, que um
ceu de muitas coisas. Entre muro, no caminho para a pa- Um ano atrás, a palestina “São muito difíceis de ex- país construa muros em seus
elas, a palavra que moldou os lestina Qalqilya. caminhava dois ou três minu- plicar. A barreira virou um limites.
anos mais recentes de sua vi- “Quando meus filhos eram tos até seu pomar para passar símbolo de como colocamos Mas a divisão entre Israel e
da: “muro”. menores, levava eles a todos o dia sob as oliveiras enrolan- os palestinos em uma prisão. os territórios palestinos não é
Professora aposentada, a os lugares de carro. Tinha me- do folhas de uva. Hoje ela pre- É a vida deles, e eles se per- uma fronteira convencional
palestina vive nas cercanias do de que tomassem o ôni- cisa dirigir por 40 minutos pa- guntam por que têm que pa- porque, afinal, não existe um
de Belém diante de uma bar- bus”, diz. “Entre eu ser explo- ra alcançar o outro lado. gar esse preço.” Não apenas Estado palestino. A divisa cos-
reira de concreto de oito me- dido e uma palestina viver ro- “Mas o muro ajudou os is- por terem sido separados da tuma ser a chamada Linha
tros de altura. deada por muros, prefiro que raelenses. Estão relaxados.” terra que cultivavam, mas Verde, que marca as frontei-
É esse o horizonte à sua ela seja cercada.” A fricção causada pela bar- também porque a sua liber- ras anteriores a 1967, ano da
porta, que a separa da terra Vainsecher perdeuum ami- reira na vida de palestinos co- dade de ir e vir foi drastica- Guerra dos Seis Dias, quando
que cultivou por décadas e go em um atentado. O filho de mo Umm Judah envenena a mente reduzida. Israel tomou a Cisjordânia.

A
das lembranças dos filhos ilu- um vizinho morreu em outro possibilidade de haver paz en- Vem daí mais uma compli-
minados, à meia-noite, pelos ataque, e um conhecido que tre os dois povos em breve. cação desta história, vivida
faroletes e satisfeitos com os estava em uma pizzaria de Je- O projeto foi questionado diariamente por Umm Judah:
figos recém-colhidos. rusalém alvo dos terroristas, desde a concepção por figu- de cada 6,5 quilômetros da
“É como uma venda”, diz também. ras como Yossi Beilin, arqui- Folha acompanhou barreira, 5,5 foram construí-
à Folha. “Como se nos arran- O trecho da barreira dian- teto dos Acordos de Oslo (as a passagem de trabalhadores dos dentro da Cisjordânia e,
cassem os olhos.” te da casa de Umm Judah é negociações de 1993 que le- palestinos rumo a Israel em portanto, fora da fronteira.
Durante a entrevista, ela
aponta a construção mais de
uma vez por não se lembrar
de como chamá-la, mesmo
em seu árabe nativo.
O muro diante de sua casa
é um trecho da barreira de 764
quilômetros que Israel ergue
desde 2002 para se separar
dos territórios palestinos da
Cisjordânia, onde estão cida-
des como Belém e Ramallah.
A maior parte é cerca, e o con-
creto é usado nas áreas urba-
nas. Faltam os últimos 194
quilômetros da construção.
A barreira tem impacto bru-
tal nas vidas de pessoas como
Umm Judah. Mas israelenses
de diferentes orientações po-
líticas concordam, por outro
lado, que existisse a necessi-
dade urgente de erguê-la.
As memórias da Segunda
Intifada ainda estão frescas.
Cerca de 3.000 palestinos e
1.000 israelenses morreram
entre 2000 e 2005 durante o
levante palestino contra a
ocupação israelense.
Os palestinos enviavam ho-
mens-bomba; os israelenses
revidavam com tanques.
O israelense Ury Vainse-
cher, 71, se recorda bem.
Ele já vivia em Kfar Saba,
ab Segunda-Feira, 4 de Setembro de 2017 ★★★ mundo a19

ISRAEL
CISJORDÂNIA Fronteira 330 km
Muro 570 km* (764 km planejados) AS BARREIRAS QUE NOS DIVIDEM

mu ndo d e muro s
*Entre concreto e cerca; algumas áreas não acompanham a divisa de Israel /Cisjordânia
Fonte: Forças de Defesa de Israel
f ol ha .c o m/

Em alguns trechos, o muro es- tina”, diz. “Tenho amigos do


tá 18 quilômetros distante de outro lado, apesar de ter luta-
onde teoricamente deveria do contra eles”, afirma.
serpentear. “O muro nos inquieta, mas
A explicação de um tenen- ou você cuida da sua família,
te-coronel do Exército israe- ou não. Quero viver bem, e
lense que não pôde se identi- quero que minha filha viva
ficar é a de que o trajeto foi bem. Se ela puder ir para a
adaptado às necessidades de discoteca sem riscos, não me
segurança. Em algumas oca- importo com o que dizem.”
siões o muro precisava passar Landau é membro de uma
em cima de uma colina, e não força-tarefa voluntária para a
embaixo, por exemplo. segurança de Tzur Yigal, e
“Nossa experiência nos tri- guarda armas, um capacete e
bunais é sempre a mesma”, uma máscara de gás dentro
afirma a advogada palestina de uma sala a prova de explo-
Dalia Qumsiyeh, que repre- sões. “Tenho um fuzil M16 pa-
senta Umm Judah. ra viajar. Poderiam me atacar
“O governo israelense usa a qualquer momento com um
a palavra mágica, ‘seguran- coquetel molotov.”
ça’, e aprova assim os seus O recém-eleito prefeito de
planos”, diz. “Mas, antes de Belém, Anton Salman, discor-
falar em segurança, pensem da da avaliação. “Não acho
na senhora que não consegue que seja questão de seguran-
entrar em sua terra.” ça. É confisco de terra”, diz
OunopalestinoHaniAmer, diante do muro que divide sua
60, que vive na região noro- cidade. Ele perdeu parte de
este da Cisjordânia, sobre a li- suas propriedades, isoladas
nha em que o governo israe- do outro lado da barreira.
lense queria ter construído Os desvios em relação à Li-
o muro. nha Verde engoliram 9,4% da
Ele se recusou a deixar sua Cisjordânia, um processo mo-
casa, a barreira a contornou, nitorado pelo israelense Dror
e ele foi cercado em seu terre- Etkes, diretor da ONG Kerem
no de 1.000 m² pelo concreto, Navot. “Fiscalizamos como Is-
o arame farpado e pelas cer- rael toma terras na Cisjordâ-
cas de segurança. nia para dar aos colonos isra-
A poucos passos dali, está elenses”, diz —os colonos são
o assentamento israelense de os israelenses que vivem den-
Elkana, razão para as preocu- tro da Cisjordânia.
pações. “A barreira foi construída
“Disseram que ou eu saía para permitir que os assenta-
daqui ou ficaria isolado. Quis mentos crescessem. Há uma
ficar, a despeito de todas as correlação entre a presença
dificuldades, porque é a mi- de colonos e da barreira.”
nha casa”, diz, sentado em Para o ex-soldado israelen-
um balanço no jardim. À sua se Avner Gvaryahu, 32, é pre-
frente, está o muro. ciso entender a barreira como
Por algum tempo, Amer parte de um sistema mais am-
precisou pedir que os solda- plo, que envolve o projeto dos
dos israelenses abrissem o assentamentos. “O governo
portão da sua propriedade to- quer minimizar o número de
da vez que queria sair. palestinos aqui.”
“Receber visitas era um in- Gvaryahu é o líder da orga-
ferno. Uma punição coletiva.” nização Breaking the Silence,
Com a pressão de organiza- que compila testemunhos de
ções humanitárias, o agricul- soldados israelenses sobre
tor teve uma pequena vitória: a violência da ocupação da
recebeu a chave para uma Cisjordânia. Ele foi paraque-
portinhola no muro, pela qual dista, período durante o qual
hoje passa. recebia ordens diretas de
Ao receber a Folha em sua colonos.
casa, Amer se agacha atrás de “O objetivo do sistema é
um carro, para que a polícia proteger os israelenses, mas
israelense não o veja —ele te- ninguém protege os palesti-
me ser punido por receber a nos”, diz Gvaryahu.
imprensa e falar de sua vida. “Nunca haverá uma sensa-
Poderiam, por exemplo, lhe ção real de segurança até que
tirar a chave da portinhola. os palestinos tenham respei-
“Tive tantos problemas que to e dignidade.”

A
já nem consigo me lembrar de
todos”, diz, antes de relatar
alguns.
Quando seu filho de três
anos engatinhou por baixo da o redor dos muros e
cerca, por exemplo, a mãe cercas, há zonas-tampão às
não teve permissão para cru- quais o acesso de palestinos
1 zar a barreira e buscá-lo. A cri- é restrito por razões de segu-
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ança foi encontrada do outro rança.
lado e trazida de volta. “Em algumas áreas entre
3 4 “Eu fui até os soldados e barreiras é possível ver como
5 lhes disse: Vocês não são hu- surgiu uma nova vida selva-
6 7 manos. Vocês viram meu fi- gem”, diz Etkes, e aponta pa-
lho e não fizeram nada.” ra um grupo de veados, que
Ao ser lembrado que Isra- cruzam diante do carro da re-
[1] Crianças palestinas em cima el ergueu o muro para garan- portagem e se esgueiram por
de muro na cidade de Ramallah, tir a segurança do país, Amer debaixo do arame farpado ru-
na Cisjordânia diz que “o que garante a se- mo à terra de que agora são
[2] Trabalhadores palestinos em gurança é a justiça”. “Quan- na prática os donos.
fila para atravessar posto de do você distingue entre dois Umm Judah teme que esse
controle israelense em Belém irmãos, não tem segurança. seja o futuro de seu pomar, do
[3] Palestina acompanhada de Imagine entre dois povos.” outro lado do muro, caso o go-
criança pede esmola próximo a A barreira rompeu em di- verno israelense decida que
posto de controle na região de versas regiões do país o con- ela já não pode mais cruzar o
Qalandia, na Cisjordânia tato, ainda que limitado, que controle militar. “Sinto como
[4] A palestina Umm Judah, 64, havia entre palestinos e isra- se tivesse perdido alguém da
observa muro que a separa da elenses. minha família. Roubaram a
terra que cultivou por décadas Amer vive próximo de Qal- minha felicidade”, ela afirma,
[5] Militares retratados em qilya, onde israelenses costu- e chora.
grafite no muro da Cisjordânia mavam fazer compras antes Depois, sobe em uma rua
[6] Muro erguido por Israel para da Segunda Intifada. do vilarejo, alta o suficiente
se separar dos territórios O local é próximo também para enxergar por cima do
palestinos da Cisjordânia de Tzur Yigal, onde vive o is- muro. Vê seu pomar inaces-
[7] Judeus diante de muro raelense-uruguaio Eran Lan- sível —damascos, pêssegos,
próximos ao Túmulo de Raquel dau, 64. “Minha casa foi er- peras, alecrim— e lamenta:
em Belém, na Cisjordânia guida por uma família pales- “Vou morrer aqui”.