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PENSAMENTO FREUDIANO- I

Ensaios de Teoria
Psicanalítica
Parte 1
metapsicologia, pulsão,
linguagem, inconsciente
e sexualidade
JOELBIRMAN

PENSAMENTO FREUDIANO-I

Ensaios de Teoria
Psicanalítica
Parte 1:
metapsicologia, pulsão,
linguagem, inconsciente
e sexualidade

Jorge Zahar Editor


Rio de Janeiro
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1993
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Birmaa, Joel, 1946-


BS2le Eas a ios de te or ia psi c aaa lltica, 1. parte:
meta pslcologl a, pu lslo, liaa uagem , iacoasci cate e
ac>Jtualí dade I Jocl Birmu . - Rio de Jaaciro; J<qe Zabr
Ed., l!l93
(Pcuamca.to freudiuo; v.\)

ISBN 8S·7 110..232·X


I. P.Uc..,áli:se. 2. Metlp&i<:oloaiL 3. Fmad, SiJ.IDDDd,
t8S6-193!». I. Titulo. D. Série.

CDD - ISO. !~
92-IISó CDU- 139.964.2
Sumário

Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7

O objeto teórico da psicanálise e a pesquisa psicanalítica 12

A prosa da psicanálise . . . . . . . . . .. . . 25

A linguagem na constituição da psicanálise 38

O sacrifício do COIJXl e a descoberta da psicanálise 73

Sobre a paixão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84

Pulsão e intersubjetividade na interpretação psicanalítiéa 96

Sujeito, estrutura e arcaico na metapsicologia freudiana . 112

Entre o inoonsciente e a pulsão 135

Notas .. .... . .. . ..... . . . ......... ... 145


Para Patricia, Renata, Daniela e Pedro
Introdução

Pensamento freudiano é o título geral desta obra sobre psicanálise, plane-


jada para cinco volumes, sendo este - Ensaios de teoria psicanalítica,
pan e 1 - sua abertura. Como indica o título geral, o projeto pretende
sustentar e desenvolver uma leitura da psicanálise nos registros teórico,
clinico e ético, fundada no discurso freudiano.
É pela retomada do paradigma freudiano que pretendemos delinear
os eixos fundamentais da psicanálise, destacando, como referentes bási-
cos, os registros da metapsicologia, da experiência psicanalítica e do
diálogo da psicanálise com os demiüs saberes. A contrapartida imediata é
o reconhecimento de outros paradigmas na psicanálise - alguns homo-
gêneos, outros heterogêneos ao paradigma fre~diano - constituídos ao
longo de sua história e em diferentes tradições culturais. É nesse espaço
polêmico que se desenvolve nosso projeto, que tenta chegar às bases da
racionalidade freudiana .
O plano geral da obra foi elaborado a partir da seguinte seqUência de
questões, tematizadas nos diferentes volumes: a concepção da meta psico-
logia no discurso freudjano e seus conceitos fundamentais (volumes I e
Il); o campo teórico para o diálogo possível da psicanálise com outros
saberes e práticas sociais, em que se discute a cientificidade do discurso
freudiano e suas relações com a filosofia, a política, a ética e a religião
(volume lU); a leitura do ato psicanalítico e seus pressupos tos (volume
IV); e, fmalmente, o es tudo de algumas das es truturas clínicas no discurso
freudiano (volume V).
A ordem escolhida para a apresentação das questões revela nossa
intenção teórica e o método escolhido. Pretendemos realizar nosso per-
curso caminhando criticamente pela indagação sistemática dos conceitos
fundamentais do discurso freudiano e pela concepção da metapsicologia
por ele elaborada, para em seguida estabelecer paulatinamente o campo
possível para o diálogo fecundo da psicanálise com os demais saberes,

7
8 ENSA lOS DE TEORIA PSJCA NAÜrJCA

assim como para a realização da metapsicologia freudiana na construção


do ato psicanalítico e na interpretação das estruturas clínicas.
Os desafios propostos pela experiência clínica, e pela ética que a
norteia são sublinhados, desde o início, como o solo dos conceitos meta-
psicológicos, já que a cHnica e a ética psicanalíticas se apresentam como
os reguladores internos na produção do discurso freudiano. Assim, na
perspectiva freudiana, a psicanálise não se define como uma filosofia, e
tampouco se pretende uma psicologia geral. T~bém não almeja transfor-
mar-se em visão de mundo (Weltanschauung), discurso sistemático e
totalizante sobre a ordem do mundo. 1 O que não quer dizer, é claro, que
não possa suscitar questões cruciais para a filosofia e a psicologia, e
também para a psiquiatria, a medicina, as ciências sociais, a ética e a
política, como de fato o fez~ ao longo deste século.
Como se vê, a experiência psicanalítica está presente nesta obra desde
o início, pois de direito é o contraponto fundamental para a elaboração da
metap.sicologia freudiana, apesar de sua tematização e suas especificida-
des somente se apresentarem em livros posteriores (volumes IV e V).
Razão pela qual preferimos a fórmula retórica "realização da metapsico-
logia••, no estudo do ato psicanalítico e das estruturas clínicas, à fórmula
"aplicação da metapsicologia" .já que no discurso freudiano, ao menos,
não é possível contrapor psicanálise "pura.. a "aplicada·~.
Tal oposição é estranha ao campo freudiano, já que a experiência
clínica e a metapsicologia se articulam organicamente como uma totali-
dade, sendo que sua disjunção conduziu a psicanálise a sérios impasses
em sua história. Impasses de ordens diversas, mas entre eles podemos
destacar as insistentes tentativas de transformar a psicanálise em uma
filosofia, em uma modalidade de saber inscrita na psicologia geral e
mesmo em uma disciplina auxiliar da psiquiatria. Portanto, na versão
freudiana, a psicanálise deve conservar alguns de seus pressupostos fun-
damentais - para a construção de seu objeto teórico e para fundar suas
operações metodológicas - quando pretende se deslocar do campo espe-
cífico da experiência psicanalftica para a indagação de outros referentes
empíricos. Isso é condição sine qua non para a reprodução de sua identi-
dade epistemológica.

*
Para que se possa dimensionar a totalidade do pem1rs0 e ,o rjenmr o leitor
no acompanhamento da obra, são necessários, além dos comentários de
ordem epistemológica e metodológica ao discurso freudiano, alguns es·
clarecimentos prévios.
INTRODUÇÃO 9

O trabalho não se pretende exaustivo, nem no sentido de percorrer a


totalidade dos temas, nem tampouco no de acreditar que seja a única ou
a melhor leitura de Freud. Longe de nós pretellSÕes desse calibre; nosso
estudo se apresentando como uma entre as leituras possíveis, dentre as
muitas existentes, para a interpretação do pensamento freudiano. Os
argumentos, é daro, desenvolvem-se criticamente, baseando-se na leitura
rigorosa dos textos de Freud, para sustentar a legitimidade das escolhas
que realizamos nesse c,ampo polêmico de interpretações.
- Assim, pretendemos percorrer diferentes temas, fixando um lugar
cr(tico onde o debate teórico com outras leituras possa se estabelecer. Da
mesma forma, circunscrevemos uma posição teórica que possa instalar
uma polêmica com outras concepções da psicanálise.
· É preciso sublinhar que alguns conceitos fundamentais são tematiza-
dos de fonna recorrente, isto é, retomados e reinterpretados em níveis
diferentes de complexidade, conforme a questão exigiu e impôs ao autor.
Além de revelar a articulação inicial que destacamos entremetapsicologia
e clbúca psicanalítica, isso indica que o leitor pode se valer da obra como
um sistema de encaixes e reenvios conceituais. como um vocabulário critico
para a leitura do discurso freudiano. Aftnal, existe um trabalho em desen-
volvimento na leitura dos conceitos, que já se realizou e ainda se empreen-
de ao longo do percurso teórico que possibilitou a produção desta obra.
Isso se deve à origem dos ensaios, agora reunidos, e que foram
produzidos em diferentes momentos desde 1984 e ainda continuam sendo
elaborados como desdobramento de nossa tese de doutoramento em
filosofia/ numa l.inba de pesquisa que desde então se estabeleceu. Essa
linha de pesquisa intitula-se ''A constituição dos conceitos freudianos .. ,
inscrevendo-se num pro~a de pesquisa e de ensino de pós-graduação,
na Universidade Federal do Rio de Janew e na Universidade do Estado
do Rio de Janeiro.•
Na escolha dos temas, levamos em conta principalmente as questões
atuais; problemas polêmicos apresentados pelo campo psicanalítico, que
funcionaram como disparadores de nosso interesse, impelindo-nos no
desejo de estudá-los no contexto do discurso freudiano. Assim, pela
transformação dos temas e pelo desenvolvimento teórioo dos conceitos,
em contextos diferenciados, pode-se registrar a modalidade de leitura que
realizamos.
.,
O primeiro vo-lume de Pensamento freudiano enfeixa oito textos teóricos,
que procuram abordar alguns dos concejtos fundamentais da teoria psica-
nalítica. No ensaio de abertura - "O objeto da psicanálise e a pesquisa
lO ENSAIOS DE TEORIA PSICANAt.triCA

psicanalítica" - buscamos delinear o que compreendemos como o campo


da pesquisa psicanalítica, isto é, uma representação da pesqu~a em
psicanálise intimamente articulada a seu objeto teórico e com os pressu-
postos metodológicos que oriemam a experiência psicanalítica. Nesse
contexto, circunscrevemos o lugar epistemológico ocupado pela teoria em
psicanálise e sua articulação com as operações reguladoras do ato psica-
nalítico.
Vislumbra-se a partir da f, em nosso horizonte teórico, a concepção da
metapsicologia, através da qual inscrevem-se de maneira orgânica no
discurso freudiano a exigência de cientificídadc que lhe é inerente e ao
mesmo tempo seus impasses, isto é, as impossibilidades de submeter a
psicanálise em constituição aos cânones de cientificídade do início do
século. Em função disso, a concepção da psicanálise é freqüentemente
associada, no discurso freudiano, às representações da filosofia (especu-
lação) e da bruxaria (a bruxa metapsicológica).
Nosso objetivo ao longo de outros ensaios- "Pulsão e intersubjeti-
vidade na interpretação psicanalítica" e "Sujeito, estrutura e arcaico na
metapsicologia freudiana.. - foi portanto o de expor a concepção de
metapsicologia, de fonna que esta se apresentasse como a idéia de teoria
psicanalftica no sentido estrito, em suas proximidades e diferenças com a
filosofia e a psicologia. Estabelecemos, assim, as articulações constituti-
vas do método psicanalftico e como este se inscreve no ideário conceitual
da metapsicologia, tomando possível a conexão desta com a experiência
psicanalítica, fundada na intersubjetividade da transferência. Com isso, a
metapsicologia se desloca do cosmo metafísico das idéias abstratas e
ancora no mundo sublunar da clínica psicanalítica, encontrando ali sua
utilização teórica como instrumento orientador da escuta psicanalítica.
O desdobramento teórico desses comentários é a articulação dos
conceitos de pu/são, sexualidade e inconscíeme na metapsicologia freu-
diana, cuja articulação define as escolhas cruciais na construção do
paradigma freudiano da psicanálise. Nesse paradigma, seu solo se estabe-
.lece pe.la contraposição fundante entre a ordem da pufsâo e a ordem da
linguagem- tema dos ensaios "A prosa da psicanálise" e" A linguagem
na constituição da psicanálise". Como pólos constituintes do psiquismo,
estabelecem o dualismo fundamental que perpassa a totalidade do projeto
freudiano, sustentando em sua metapsicologia a constituição dos concei-
tos de sexualidade e de inconsciente como derivações dessa oposição
básica.
O conceito de pulsão, portanto, é tratado em sua definição freudiana
como .um ..conceito limite entre o psíquico e o somático··, no qual se
enunciam as diferenças entre os registros corporal e psíquico e onde se
INTRODUÇÃO 11

procura definir a concepção de corpo. A idéia de corpo se apresenta como


um conceito originário da metapsicologia freudiana, que supera o dualis-
mo cartesiano entre corpo e alma no mesmo movimento teórico em que
estabelece a dialética entre o corpo e o Outro para se representar a
constituição do sujeito em psicanálise. Assim, enunciado como corpo
pufsional, o conceito de pulsão é o conceito fundamental da metapsicolo-
gia freudiana, porque, ao se contrapor à ordem da linguagem representada
pelo Outro, é a condição de possibi Hdade para a constituição dos conceitos
de sexualidade e de inconsciente- temas que trataremos, respectivamen-
te, nos ensaios "O sacrifício do cotpo e a descoberta da psicanálise •• e
"Entre o inconsciente e a pulsão".
Como decorrência dessa leitura metapsicológica, pode-se pensar o
estatuto teórico da paixão e do amor no contexto da primeira e segunda
teorias das pulsões - objeto do ensaio "Sobre a paixão". Além disso, é
possível sublinhar como a leitura da experiência clínica permeia a cons-
trução da metapsicologia, permitindo a reeonstituição dos conceitos de
interpretação e de transferência n:o discurso freudiano.
No próximo volume desta série, pretendemos rearticular a problemá-
tica fundamental da metap5icologia freudiana ao abordar os conceitos de
narcisismo, subl.imação, fantasma, ato e tempo. Nossa intenção é percor-
rer pontos cruciais e momentos chave na constituição da metapsicologia
freudiana.
O objeto teórico da psicanálise e
a pesquisa psicanalítica1
Uma leitura dos pressupostos do discurso freudiano

I. Introdução
Os comentários que se seguem circunscrevem o que pretendemos utilizar
para definir o campo da pesquisa psicanalítica. A elaboração não se
pretende absolutamente conclusiva, quer apenas definir uma orieolação
metodológica para a questão. Por isso mesmo, a concepção freudiana do
ato psicanalitíco será o fio condutor para nos indagannos sobre o objeto
teórico da psicanálise e sobre as condições de possibilidade para suà
investigação.
Para visualizar a questão em sua abrangência, devemos delimitar
previamente o que seja o objeto teórico da psicanálise, e o que disso
advém como conseqüência lógica, para a possível orientação do que
definiremos como campo da pesquisa psicanalítica. A pesquisa em psica-
nálise não é algo tão evidente quanto possa parecer a um primeiro olhar,
pois exige não apenas a explicitação de seu objeto teórico, como também
a das possíveis estratégias metodológicas que permitam a investigação,
sem distorcer a especificidade teórica desse objeto.
A experiência analítica não é a materialização da aplicaÇão de um
saber, pois a psicanálise não é a mera aplicação de um saber codificado
sobre as individualidades. Por isso, sua pesquisa não pode se realizar
através de proposições psicanalíticas reguladas por condições metodoló-
gicas estranhas às estratégias necessárias para a investigação teórica de
seu objeto. Portanto, as deftnlções inicíais requerem uma articulação
conceitual básica, para que possamos assinalar, em seguida, o caráter
estritamente ps.icanaHtico de uma investigação.
Essas considerações prévias anunciam como um tópico importante
deste ensaio a tentativa de discrim.iriar o que seja a pesquisa dita pura e a
pesquisa aplicada em psicanálise, se é que a distinção tem alguma vali-
dade teórica no campo psicanalítico, o que não é liquido e certo. Porém,

12
O OBJETO TEÓRICO DA PSICANÁLISE 13

pertinente ou não, essa consideração nos_ introduz ei? ou~ tópico rele-
vante, qual seja, a possfvel forma de relaçao entre a ps1canáli~ e as outras
modalidades de saber, principalmente no campo das ciênctas. hum~s.
Como a psicanálise pode conttibuir com suas questões para a mdagaçao
verídica de outros saberes e como estes, por sua vez, podem apresentar
' .
importantes problemas. pertinentes à psicanálise. Para ta~, é prec1so con-
siderar a existência de algum critério reórico-metodológ•co.

11. A representação teórica da psicanálise


Iremos, inicialmente, ressaltar algumas considerações históricas sobre a
investigação psicanalftica, até mesmo porque pretendemos, para um
maior rigor, nos ater à concepção freudiana da psicanálise: Fundamentar
a pesquisa psicanalftica implica observar os limites bistóncos em que se
desenvolvem a teoria e a prática analíticas, a flm de pensar o seu objeto
teórico considerando devidamente as torções e distorções sofridas pelo
ato analítico ao longo de sua história. A elucidação conceitual de tais
refrações nos permite delinear o objeto teórico deste saber e redescobrir
suas condições de possibilidade.
O destino social da prática psicanalítica hoje em dia indica algumas
concepções sobre o objeto teórico da psicanálise que nem sempre se
coadunam com os conceitos elaborados pelo discurso freudiano. Embora
a etiqueta de •·psicanálise .. attibufda a certas práticas e discursos não seja
necessariamente pertinente, assinala em oontrapartida questões importan-
tes para a psicanálise pensar seu objeto teórico e sua prática clínica. Além
disso, essas questões permitem uma indagação histórica relevante
sobre as transformações teóricas da psicanálise, de sua ética e de ~uas
finalidades.
O destaque aqui conferido a essas torções e distorções é fundamental
para a investigação psicanalítica, na medida em que permite. o reen con~
da psicanálise com seu objeto teórico e com a ética ~ue ~orteta o ex~rcíc1o
clinico. Esses tópicos se apresentavam desde o míc10 do movtmento
psicanalítico, pennitindo à psicanálise redescobrir seu cam~ c~nceitual,
ampliar suas fronteiras empíricas e fundamentar co~ ma.ts. ngor seus
pressupostos teóricos. Os impasses do processo p~1canaUttco .se~p~
foram o aguilhão insistente que levava Freud a quesuonar a conststenc•.a
da teoria psicanalítica, o que demandava a produção de rupturas conc.et-
tuais significativas. Por outro lado, os impasses no movimento anaUnco
funcionavam como uma caixa de ressonância onde o discurso teórico
passava por uma verificação, confrontado que era a outras concepções
14 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAÚTJCA

teóricas sobre o ato psicanalítico que não se coadunavam com o objeto da


psicanálise. Enfun, a história do movimento analítico, com suas insisten-
tes torções e distorções, pode nos servir aqui como um enorme espaço
experimental, permitindo uma leitura em filigrana dos descaminhos teó-
ricos e das redescobertas da psicanálise.
O debate de Freud com Stekel sobre a concepção de interpretação e
o lugar da simbólica no deciframento psícanalítico,2 •3 assim como sua
polêmica com Adler sobre a itlferioridade de órgãos e a experiência de
castração: indicam como a teoria psicanalítica se desenvolve, toma-se
mai~ rigorosa e define com mais precisão os contornos de seu objeto
teór1co quando se defronta com as torções encontradas em seu perc ur-
so. Da mesma maneira, a discussão com Jung sobre a sexualidade
infantil e a importância do procedimento metódico da análise face ao da
sfntese, 3 o debate com Rank sobre a teoria do trauma do nascimento, 6 com
Ferenczi sobre a atividade e a neocatarse, todos revelam o mesmo ponto .1
Se considerannos agora algwnas indicações marcantes da história
pós-freudiana do movimento psicanalítico, podemos destacar uma ten-
dência s imilar, se bem que não idêntica, no debate de M. Klein com A.
Freud,8 o que permitiu não apenas a constituição do campo da psicanálise
inf anti I, com s ua crítica da perspectiva pedagógica, mas, sobretudo, levo u
a exploração no domínio da fantasia inconsciente a limites até então
impensáveis. Com isso, o objeto teórico da psicanálise viu-se redesenhado
em novo cenário, de geograf"la acidentada e íngreme, ampliando em muito
seu campo de positividade. Nesse contexto, a investigação sobre as
psicoses encontrou grande suporte para seu desenvolvimento.
Com Lacan, o campo de positividade recebe uma elaboração con-
ceitual rigorosa, tanto por um reexame dos fundamentos do disc urso
freudiano, como por uma crítica das condições de possibilidade do ato
. psicanalítico. A psicologia do ego - representada pelos trabalhos de
Hartmann, Kris e Lowenstein - foi o alvo privilegiado de sua critica
pois p.retendia apag~ a especificidade do objeto da psicanálise pel~
mserçao desta na psicologia geral, pensada em termos de processos
adaptativos.9 •10•11 Assim, através da leitura teórica da concepção do ego
como uma instância adaptativa, Lacan pôde não só revelar a dimensão
especular do ego, em que este não é ape nas caracterizado por suas
marcas narcfsicas, mas também indicar a constituição do sujeito como
essencialmente intersubjetiva. 12•13 •14 Enfim, ao considerar a linguagem
como cons~ituinte fundamental do ato psicanalítico, 1'· 16• 17 Lacan pôde
superar criticamente a ilusão de um ego adaptativo e retomar o caminho
da descoberta freudjana do inconsciente, fundado essencialmente na re-
lação do sujeito com o Outro.
O OBJETO TEÓRICO DA PSJCANÁUSE I~

Ora, foi exatamente com o discurso da psicologia do ego que se


conStituiu um novo campo de investigação em psicanálise, com a preten-
são de realizar um trabalho de pesquisa pautado pelos procedimentos da
ciência experimental. Se até então a referênciA aos preceitos metodológi-
cos do espaço psicanalitico estava presente na tradição freudiana -
mesmo quando a psicanálise invadia o campo de outros saberes, como a
antropologia, e não pensava devidamente nas diferenças de seus objetos
teóricos respectivos-, com a psicologia do ego ela tende a se apagar.
Evidentemente, a constituição da psicologia do ego é a materialização
discursiva de um caminho e de uma escolha que vinham se manifestando
anteriormente de forma assistemática em certas concepções teóricas.
A fragilidade conceitual desse corpo teórico compromete no entJmto
a validade científica das investigações, na medida em que estas se preten-
dam psicanalíticas, evidentemente. A introdução de procedimentos de
verificação experimental que não se coadunam com a metodologia psica-
nalftica não confere por isso ·mesmo cientificida.de a esse tipo de investi-
gação, já que a cientificidade nio é um emblema abstrato, mas algo
rigorosamente referido ao contexto de um objeto cientifico particular e às
condições de possibilidade de sua regulação metodológica.
Com efeito, durante dtcadas se questionou o caráter cientifico da
psicanálise, exatamente porque esta não se validava através dos procedi-
mentos da ciência experimental, que considerava a física o modelo ideal
de cientificidade. Tanto foi assim, que Kraffi-Ebing caracterizou a psica-
ntilise como um •• conto de fadas cientifico", ao escutar a conferência em
que Freud falava da sexualidade na etiologia da histeria, 11 e A interpreta-
ção dos sonlzos foi considerada por Stem e Liepman como uma "produção
arústica.. logo que publicada. 19 Embora fique claro que o próprio Freud,
desde o Projeto de uma psicologia científica, tenha insistentemente bus-
cado a conformidade da psicanálise com essa modalidade de ideologia
científica, também sabemos que acabou por construir outros padrões de
cienlificidade, apesar das intenções de alguns de seus trabalhos e das
exigências do fisicalismo.
A utilização de outros modelos teóricos diversos destes padroes de
cientificidade, nos quais se articulam fragmentos de outros saberes entio
emergentes- como a etnologia, a arqueologia e a mitologia - aliada ao
que pode ser retirado do imaginário literário e artístico, colocava Freud
diante da demanda crucial de representar teoricamente essa nova forma
de saber. A psicanálise era então representada pelo discurso freudiano
como um saber próximo da filosofia, poiS c·o nsiderava a metapsícologia
o conjunto das articulações teóricas mais rigorosas do saber pcsicanalítico.
O parentesco metafórico da metapsicologia com a metafísica é evidente
16 ENSAIOS DE TEOIUA PSICANALÍTICA

e não escapou aos comentadores mais argut.o5. Com essa denominação


singular se revelava a exigência de Freud em deflnir uma nova. modalidade
de cieotificidade para a psicanálise.
Nada mais pertinente, portanto, que nos indaguemos sobre o termo
metapsicologia naquilo em que DOS remete ao objeto teórico da psicaná-
lise, o que pode nos revelar algo fundamental das estratégias metodo lógi-
cas que pretendam circunscrever o campo psicanalítico.

/li. A metapsicologiafreudiana e o campo psicanalítico


O prefixo meta da palavra metapsicologia indica o parentesco da teoriza-
ção psicanalítica com algo que rompe com os cânones de cientificidade
da ciência natural e que o discurso freudiano apresentava come;> da ordem
do saber filosófico, pois foi em oposição à filosofia que a ciência ocidental
se representou como forma original de racionalidade. A teorização psica-
nalítica, portanto, se aproxima da metafísica por s ua conuaposição à
ciência natural. Dai o regozijo de Freud, ao cunhar o termo metapsicolo-
gia, em falar a seu amigo Fliess, em sua correspondência, que estava
realizando o sonho de juventude de se tomar um filósofo.20
Poder-se-ia argüir, aqui, que a interpretação que realizamos não tem
qualquer suporte no discurso freudiano, recordando a notória ojeriza de
Freud ao pensamento filosófico, que até mesmo o aproximou da paranóia
e da esquizofrenia em sua exigência de totalização.21 Entretanto, para
esclarecer a questão é necessário nuançar devidamente as diferenças para
destacar os cortes fundamentais, pois para Freud também a interpretação
psicanalitica, por seu caráter sistemático, apresentava um parentesco com
a paranóia.22 Com efeito, a crítica de Freud à filosofia se dava basicamente
qUa.ndo esta era representada como uma modalidade de Weltanschauung,
isto é, como uma visão de mundo com a pretensão de um saber totalizante
sobre a realidáde. 23 Nesse sentido, Freud se inseria no campo do pensa-
mento científico alemão do final do século XIX, em sua critica radical a
Hegel e em seu retomo a Kant
Com isso, também assinalamos a oposição de Freud a qualquer foima
de saber com qualquer pretensão totalizante. O que nos remete a outra critica
sua, insistente e sistemática, à filosofia, qual seja, sua relação com o cons-
ciencialismo, que tomava a categoria de consciência como parâmetto
básico do saber psicológico, não considerando a dimensão lac\lllar da cons-
ciência e o caráter ilusório de totalização do sujeito que a ela se atribu.ía.24
Freud, claro, não é filósofo e nem a psicanálise se pretende uma
disciplina filosófica, esses comentários visando aperulS afastar qualquer
O OBJETO TEÓRICO DA PSICANÁLISE l7

tentativa de inserir o percurso freudiano na démarche cientificista. Pelo


contrário, ao constituir a produção onírica como objeto de investigação,
tendo como suporte a noção de senlido, e definir a especificidade da
interpretação psicanalítica, Freud rompe com toda a tradição oeurobioló-
gica do século XIX sobre o sonho e reinstala uma leitura <!ritica da tradição
mito-~tica. E quem descobre como precursores'l Poetas, mfsticos, filó-
sofos, isto é, fragmentos discursivos que permaneceram do que sucum-
biu pelo desenvolvimento da ciência ocidental, principalmente no
século XIX.2 s
Freud estabeleceu desde o capCtulo inaugural de A interp~taçãb dos
sonhos que o fenômeno onírico é uma formação psíquica dotada de
sentido e que sua aparente ausência de sentido se deve à consideração do
psíquico como restrito à consciência. A suposição·da existência do psi-
quismo inconsciente permite circunscrever uma nova concepção do psí-
quico e pensar em seus efeitos na história da concepção do sujeito.26 Daí,
se Freud se associou à tradição mito-poética para se contrapor aos cânones
da ciência natural, também marcou sua diferença, indicando, pela pani-
cularidade da interpreração psicanalítica, a especificidade do novo objeto
teórico que estava constníindo.
Com efeito, entre o "método simbólico .. , que buscava um sentido
totalizante para o sonho, e o ''método do deciframento •• , que o conside-
ra"• como um texto multifacetado de signos, Freud se identificava com o
último, pois concebia o sonho segundo o modelo tkJ linguagem. Diferen-
ciava-se contudo da clássica tradição do deciframento justamente porque
esta realizava a prática da interpretação se baseando num inventário
preestabelecido para estes sigpos, demarcando, então, um universo
fechado de significações. Para Freud, que preocurava constituir um
saber sobre a singularidade do sujeito, os signos não podiam remeter
para um catálogo desde sempre estabelecido, mas para um livro tão
amplo que possibilitasse fundar a multiplicidade de singularidades
existentes. Vale dizer, a universalidade do deciframento psica~lítico
deve pressupor fundamentalmente a abertura para a infinidade de
singularidades existentes. que vão se inscrever com as especificidades
de suas histórias.27
A psicanálise freudiana defme assim o psíquico como marcado pelo
sentido, em que a metodologia teoricamente adequada para sua capração
é a interpretação. Porém, o deciframento psicanaUtico se funda na técnica
das associações livres, sendo esta uma das condições de possibilidade para
a emergência empírica de seu objeto teórico.28 Este objeto, portanto, não
é uma entidade substancial.ista e esseocial.ista, mas exige condições espe-
cificas para sua investigação, como qualquer oulro objeto cieotlflco, aliás,
UI ENSAIOS DE TEORIA PSICANALÍTICA

que apenas pode ser estudado sob estritas condições experimentais, se é


que se pretenda qualquer rigor teórico.
Podemos, agora, dar um novo passo no exame do termo metapsico-
logia, enfatizando outras dimensões de seu significado. Assim, o se
prefixo meta indica a pretensão teórica de uma pesquisa que quer ir além
da psicologia, demonstra primeiro a intenção da psicanálise de ir além de
uma concepção consciencialista do psíquico em direção a wn psiquismo
fundado no inconsciente. Revela, por oulro lado, também a critica de uma
concepção objetivista da psicologia e do psíquico, o bebaviorismo ~orle­
americano, em que não se considerava a categoria de consciência,
destacando-se a de comportamento. No final de seu percurso, Freud
chegou a declarar que os norte-americanos pretendiam uma "psicolo-
gia sem alma" , 29 ao s ubstituir a categoria de consciência pela de
comportamento.
Superar a cons<:iênda para fundar o psíquico no inconsciente, criti-
cando, porém, a psicologia do comportamento, conduz enlão Freud a uma
reflexão original sobre o sujeito, que inaugura uma nova vertente no
pensamento moderno. Seria preciso ir além da consciência e do compor-
tamento em direção à "psicologia das profundidades'', como Bleuler
denominava a psicanálise. Ora, se esta .. profundidade" se refere imedia-
tamente ao inconsciente, ela remete, contudo, a uma topologia do psíqui-
co, o que evidencia uma multiplicidade estrutural na constituição do
sujeito.
Com efeito, se na. primejra tópica o discurso freudiano opõe os
conceitos inconsciente/pré-consciente/consciente, na segunda se contra-
põem id/ego/superego, o que marca a divisão (Spalrung) constitutiva do
sujeito, que surge em seu discurso teórico com a insis tência da idéia de
conflito psíquico. Divisão e conflito que assim se representam na teoria
das pulsões: inicialmente pulsões sexuais versus pulsões do ego e, poste-
riormente, pulsões de vida versus pulsões de morte. O ®alismo freudiano
é uma representação dessa concepção do sujeito dividido, de maneira
que vamos reencontrá-lo em outras oposiç~es estruturais: processo
primário/processo secundário/energia livre/energia ligada, pré-histó-
ria/história, energia/senLido, representação de coisa/representação de
palavra.
Ir além da psicologia, portanto, é realizar um percurso que transcende
o comportamento, a consciência e o ego, para encontrar o fimcionamemo
pu/sional do sujeito c as mal'(.'as de suas idenrijicações. Então, seria
preciso superar a identidade que o indivíduo se atrihui através de seu ego
e em sua relação com outros egos, para que se pudesse apreender a
dinãm.ica pulsional e seus des tinos ldentificatórios. O objeto da psicaná-
O OBJIITO TEÓRICO DA PSICANÁLISE 19

Use se configura em tomo das inscrições pulsionais, com seus impasses


e impossibilidades, e nas marcas identijicanres que caracterizam o per-
curso pulsional em sua relação com os objetos de satisfação e em sua
relação com o Outro.

/'V. Destinos e impasses das pulsões na


experíência psicanalftica
Preferimos definir o objeto conceitual da psicanálise nesses termos do que
falar em incons<:iente e em id, exatamente para discriminar com o maior
rigor a articulação interna desse objeto teórico. Procuremos explicitar,
agora, no texto freudiano, o que pretendem tais armnações.
Freud deímia a pulsão como ..um conceito limite entre o psíquico e
o somático••.~o Assim, indicava que o ser da pulsão não podia ser estudado
em si mesmo, como o númeno kantiano, JDas apenas através de seus
representantes-representação que se apresentariam no registro psíquico.
Entretanto, a pulsão não se limita ao espaço psfquico, da mesma forma
que não se reduz às suas fontes somáticas, sendo fundamentalmente um
ser-dLJ-passagem, marcando a transição entre o somático e o psíquico.
Dessa maneira, se pudéssemos figurar o objeto teórico da psicanálise, este
se localizaria no momento mítico em que a energia corporal se inscreve
no universo da representação, através de um representante que pode ser
interpretado, pois ocupa wn lugar no universo da representação e adquire
materialidade semântica. Entretanto, o representante-representação que
fixa a energia pulsional no campo dA representação já é interpretação, e
justamente da força pulsiooal (Drang), que recebe um sentido nessa
fixação . .
A psicanálise configura-se como um saber da interpretação, pois o
psiquismo funciona como insistente e interminável interpretação do
movimento pulsional. Assim, o que ocorre no processo psicanalítico·é
uma reprodução controlada do que se realiza no sujeito desde a s ua
constituição.
Porém, além da referência às inscrições pulsionais destacamos seus
impasses e impossibilidades, e com isso não fazemos um mero apelo
retórico, pois existe af uma importante questão conceitual a ser esclareci-
da. Da mesma fonna e relacionado com isso, um outro tópico crucial
precisa ser deflnído no traçado do objeto teórico da psicanális~.e de sua
metodologia, e que se relere à inscrição pulsional como estreitamente
ligada às identificações do sujeito. Através dessas considerações podemos
nos aproximar do lugar abibuldo ao Outro n.a constituição do sujeito, ao
20 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtTICA

sentido de suas identificações, a seu estatuto fundamentalmente intersub-


jetivo e, conseqüentemente, à dimensão intersubjetiva da interpretação
psicanalftica. Enfim, esses comentários nos permitem realizar uma breve
leitura do percurso freudiano, insistindo sobre a mudança da tópica e da
teoria pulsiooal nos anos 20.
A força pulsional não se inscreve espontaneamente no universo da
representação. Para que se reatize o salto mortal do regisuo somático ao
psíquico é fundamental que o Outro forneça ao infante o suporte para essa
inscrição. Desde o Projeto de uma psicologia científica, Freud assinalava
a absoluta necessidade da figura materna como intérprete das demandas
do infante, sem o que a pulsionatidade infantil não se inscreveria como
representante-representação no universo da representação.31 Os Três en-
saios sobre a teoria da sexualidade insistem no lugar da mãe como Ouuo,
condição sine qua non para a constituição do corpo erógeno. Assim, se
Freud superou a teoria traumática dando destaque ao campo fantasmático,
a noção de uauma peamaneceu como dimensão básica do investimento
matemo do infante, ..pervertendo .. seu corpo e constituindo a sexuatidade
infantii.32 Em ··Para introduzir o narcisismo", essa dimensão do Outro é
estudada com detalhes, quando se articula a constituição do narcisismo
primário e do ego como fundada no Outro posicionado como espelho,
fornecendo a imagem da totatização do sujeito e o advento do processo
de simbotização.3l Em Psicologia das massas e análise do ego,. e em O
ego e o id, 3' a categoria do Ouuo como fundante do sujeito é sistematizada
de forma mais abrangente.
Se o Outro como intérprete é uma figura fundamental para a consti-
tuição do sujeito, é preciso agora que consideremos o seu lugar em duas
elaborações importantes do discurso freudiano, isto é, a teoria das pulsões
e as teorias sexuais infantis. A passagem da força pulsional para o universo
da representação exige a presença do Outro como intérprete, condição
necesSária dessa transposição. É através de seu investimento que a figura
materna permite a sexwtlização do corpo infantil e a colocação em
movimento do sujeito interpretante pelas inscrições pulsionais. Além
disso, as diferentes fases do desenvolvimento libidinal do sujeito supõem
sempre, além do movimento pulsional insistente, uma relação com o
Outro originário, que se transforma evidentemente em sua apresentação
e presença. Esta relação se estabelece não apenas através do objeto
pulsional como moeda de troca com o Outro, mas também através de um
fragmento da geografia corporal que se transforma em espaço de transa-
ções, prazeres e impossibilidades.36 Assim, boca, ânus, e genitais são
lugares do corpo privilegiados pelo infante e pelo Ouuo, onde as pulsões
vão se fixar em representantes no universo da representação. Enf1m, as
O OBJETO TEÓRICO DA PSICANÁUSE 21

identificações do sujeito vão ser os traços interpretantes marcados no seu


ego desse circuito pulsional, que passou desde sempre pelo Ouuo, situado
como intérprete da insistência pulsional. ·
Ora, as teorias sexuais infantis são produções interpretantes do sajeito
que visam dar conta de sua constituição enquanto tal. O discurso freudiano
inclusive mostrava que em toda teoria sexual infantil existe a pergunta do
sujeito, ..quem sou eu.., na qual, de forma elaborada e conforme cada
momento de sua estruturação libidinal, ele se indaga sobre suas origens,
isto é, sobre como se constituiu como sujeitoY
Dessa forma, fica evidente porque o deciframento psicanaiítico é
fundamentalmente intersubjetivo, e como a transferência não é um aci-
dente de percurso na metodologia psicanalftica, mas algo que remete à
concepção do sujeito como essencialmente intersubjetivo, não sendo,
portanto, uma mônada, apenas isolada como tal no laboratório da abstra-
ção psicológica.38
A segunda teoria pulsional, e a existência de uma pulsão sem repre-
sentação se inserem nesse domínio teórico. Se o campo do inconsciente
se refere às pulsôes inscritas no universo da representação - no qual a
figura do analista poderia se imaginar um intérprete soberano, pois caberia
explicar apenas um sentido já .inscrito no psiquismo-, no campo do id
nos encontramos em ouuo contexto. Com efeito, o id não se identifica
com o inconsciente, sendo mais abrangente que este, pois além do incons-
ciente assinala exatamente a existência das pulsões sem representação,
que não se inscreveram no campo do Outro e não se fixaram em represen-
tantes-representação. 39 Ora, é justamente nesse contexto que Freud arti-
cuia teoricamente como 8 pulsão se inscreve no universo da representa-
ção, a uavés da perda do ouuo e onde seu registro psíquico fica marcado,40
numa dialética de presença/~usência que se representa na brincadeira do
menino com o carretel e na oposição fonemática Fort-Da. 41 Freud insiste
aqui na dificuldade da inscrição pulsional, mostrando como o salto do
corpo para o psíquico é uma démarche compticada e apontando a resis-
tência ao Outro.
Além das impticações teóricas fundamentais, queremos assinalar
como isso transforma a concepção do ato psicanalítico. Com a segunda
.teoria pulsional e a existência de uma pulsão sem representação, a figura
do analista deixa de ser apenas um intérprete soberano das inscrições
pulsionais, mas deve ser também o suporte para que a força pulsional se
inscreva no universo da representação, podendo, então, ser interpretada.
Assim, da figura do analista-intérprete caminhamos para a figura do
analista-carretel, suporte u ansferencial para que as s imbolizações pri-
mordiais possam efetivamente se reatizar. O espaço psicanalftico é per-
22 ENSAIOS DE TEORJA PSICANAÚfiCA

meado agora pela compulsão de repetição e a experiência da transferência


lerá que se realizar em sua radicalidade erógena e mortífera, para que se
articulem os representantes-representações da força pulsional.
As conseqüências para a investigação psicanalítica são múltiplas.
Inicialmente, o analista não apenas interpreta inscrições mas deve ser o
suporte para que estas se realizem, isto é, para que a força pulsion.a.l se
fixe e se tome ligada. Para tal, o analista deve possibilitar a circulação
pulsional e agir para que a articulação se realize. A pesquisa clínica de
Ferenczi sobre a atividade se insere exatamente nesse campo teórico-me-
todológico, no qual entreviu de fonna genial em sua emergência histórica
as implicações clínicas da nova teoria pulsional.42 Lacan também, a nosso
ver, com sua exigência de uma outra temporalidade para o processo
psicanalítico, homogênea à concepção de sujeito da descoberta freudiana,
retoma essa trilha aberta por Ferenczi, mas radicalizando-a em sua prática
técnica do corte.
Se nos deslocarmos agora do plano metodológico do agenciamento
do ato psicanalítico para o exame das estruturas psíquicas, essa virada dos
anos 20 no discurso freudiano nos colocará diante da investigação de
certas estruturas psicopatológicas, atf. então em estado embrionário. As-
sim, é apenas nesse contexto teórico que podemos localizar as primeiras
sistematizações sobre as perversões e as psicoses, apesar do ensaio sobre
Schreber escrito por Freud anterionnente. Diferentes discípulos de Freud
vão trilhar esses caminhos, teórico e clinico, ampliando o campo da
pesquisa psicanalítica.
Mais tarde, essa nova concepção do ato psicanalítico e do funciona-
mento psíquico do sujeito vai tomar possível a investigação das estruturas
psicossomáticas e das estruturas borderline, que apresentam similarida-
des básicas com as perversões.

V. O espaço psicanalítico e as condições


da pesquisa psicanalítica
Depois do percurso conceitual, apresenta-se para nós a demanda de
retirar certas conseqüências importantes para o estatuto da pesquisa psi-
canalítica e para a relação da psicanálise com outras ciências humanas. É
muito difícil pensar na existência de uma psicanálise aplicada como
.. contraposta a uma psicanálise pura. Evidentemente, o processo psicana-
lftico é a condição ideal para a investigação psicanalítica, já que nele o
objeto da psicanálise se desdobra em todas as suas facetas, permitindo-nos
exercer com ma ior rigor as estratégias metodoló gicas.
O OBJETO TEÓRICO DA PSICANÁUSE 23

Se levannos em conta certas coordenadas básicas para a constituição


do espaço psicanalftico, teremos como deftnir as condições fundamentais
da pesquisa psicanalítica numa abrangência muito maior do que poderia
parecer à primeira vista. Uma relação inter-humana baseada no falar e no
escutar pode ser defmida. a fun de que a palavra circule entre dois lugares
assimétricos, sem que a figura do analista posicionado como interlocutor
impessoal tenha que responder à demanda do outto. Com isso, as fendas
do ego do sujeito se revelam, instaurando a transferência e a repetição. O
estabelecimento rigoroso destas condições metodológicas permite consi-
derar como efetivamente psicanalíticas muitas práticas clínicas até agora
abordadas como psicoterápicas, por certos preconceitos ideológicos para
com o fazer psicanalítico. Em contrapartida, o não-estabelecimento destas
condições permite afirmar seguramente como não sendo psicanalíticas
muitas práticas clfnicas que se representam dessa forma. Para isso, con-
tudo, é preciso superar devidamente dois obstáculos epistemológicos na
concepção do que seja o espaço psicanalítico:
I. A imposição metodológica de não identificar o espaço analítico com
seu formalismo, que o delimita por sua exterioridade, segundo regras con-
tratuais abstratas, que não consideram efetivamente a singularidade dos
sujeitos em pauta como wna dimensão básica do processo psicanalítico;
2. O correlato disso é não identificar o ato psicanalítico ao exercício
virtuoso de uma técnica, como é bastante difundido entre nós, de forma
que o formalismo ritualizado se .articula internamente com o tecnicismo
robotizado. O resultado é a transformação da experiência analítica num
ritual obsessivo.
Considerando o espaço psicanalftico como o locus para a pesquisa
psicanalítica, é possível estabelecer um critério metodológico para sua
transposição a outras áreas próximas de investigação, que não o processo
psicanalítico, em seu sentido estrito. Seguramente é possível criticar o
valor cientifico de algumas pesquisas que visam validar ou invalidar
certos enunciados psicanalíticos, através da verificação experimental por
outras técnicas e métodos, mas que não consideram com rigor mfnimo as
condições experimentais do saber psicanalítico.
Da mesma forma, podemos criticar a transposição para o interior do
espaço analítico de métodos e técnicas da psicologia que não levam em
conta a especificidade teórica desse espaço experimental. A observação
de bebês não se coaduna com o objetivo teórico e a metodologia psicana-
lítica, pois nio considera como fundamental a relação intersubjetiva, a
fala e a circulação fantasmática, essenciais para a concepção do ato
psicanalítico. Além disso, podemos indicar outras distorções da pretensa
obje tividade psicanalftica, pressupostas neste método de observaçpo:
24 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALfnCA

1. Identificação das idéias do "infantil" e do "arcaico" em psicaná-


lise, com o "infantil cronológico" da existência do bebê;
2. Identificação da funçio materna com o comportamento estrito da
mãe, numa superposição cooceitual dos planos inconsciente e consciente,
isto é, caracterizando o desejo matemo pelas pretensões do ego da mãe.
Poderfamos ampliar nossos comentários sobre outros campos empi-
ricos. útilizando esse critério metodológico para tornar possível não
apenas a validação de pesquisas fora do processo psicanalítico, mas
também a uniformidade teórica das condições experimentais para a com-
paração dos resultados.
Finalmente, algo sobre a relação de colaboração da psicanálise com
outras ciências humanas que não a psicologia, isto é, com saberes relati-
vamente distantes da psicanálise e cuja forma de relação é indireta, como
a história, a sociologia, a antropologia, a lingüística, etc. A problemátic~
aqui é <listinta. Estes saberes, como a psicanálise, têm objetos teóricos e
metodologias especlficos. A colaboração aqui se realiza em termos de um
diálogo de pesquisadores localizados em universos diferentes. As ciências
humanas colocam questões para a psicanálise e esta pode lançar indaga-
ções para aquelas. Entretanto, da mesma forma como tais saberes utilizam
a psicanálise em seu urúverso discursivo após a necessária f.tltragem de
seu método e de seu campo experimental, a psicanálise deve ter também
rigor conceitual suficiente para funcíonu da mesma maneira. Portanto,
não se trata aqui da psicanálise importar acriticamente conceitos e con-
cepções de outras ciências p8Dl seu urúverso teórico, disso resultando uma
bricolagem em que não sabemos mais onde está a ciência, a ideologia e o
modismo mundano de certos discursos. Enfim. é necessário que a psica-
nálise considere seriamente as questões que lhe são lançadas pelos outros
sabere~ repensando-as em seu espaço teórico próprio e com sua lingua-
gem conceitual.
A prosa da psicanálise!
A pulsão como intertexto

A boa regra seria. quando alguém se apercebeu que um certo


eúmero de coisas tem alguma comunidade, não deixá-las antes de
ter distinguido, no seio dessa comunidade, todas as düerenças que
constituem as espécies; e, quanto às não semelhanças de todas as
fotmJIS que se pode aperceber numa multidio, não desanimar e se
afastar disso até que se lenha encerrado numa similitude única
todos os traços de parentesco que elas ocultam e que as tenha
englobado na essência de um gênero. (Platão, O políticoi

I. Enigma, dúvida e verdade


..Psicanálise e sua iotertextualidade.. . O primeiro problema que se impõe
diante dessa associação aftrmativa - afumativa por implicitamente con-
siderar que a (l6icanálise tem a " sua intertextualidade" - ,é o de como
se inserir nessa temática, ao mesmo tempo óbvia e enismática. Dizemos
óbvia, na medida em que qualquer aftrmaçio pretende ser sempre o
enunciado de uma certeza, sem deixu lugu para a dúvida. A psicanálise,
com isso, passa a ser tratada como uma modalidade discursiva inscrita no
campo da ..intertextualidade.. , e cabe-nos apenas destacar "sua'' especi-
fiCidade nesse campo.
Não ncs pareée porem que essa modalidade de enunciado seja da
ordem da evidlncia, já que qualquer forma .de verdade ~ a resullaDte de
uma laboriosa coostrução discursiva que podemos alcançar somente no
flD&I de um longo percurso reflexivo e que nunca nos é oferecida, de
início, coma um fato. Perguntamo-nos imediatamente o que se pretende
dizer com isso, qual a finalidade desta formulação e o seu sentido.
Começamos o nosso itinerário teórico pela dúvida, para podermos tecer
26 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAúriCA

uma indagação. Portanto, nada 6 tão óbvio como parecia, pois logo se
transformou num enigma. E, como qualquer enigma, deve ser decifrado
mediante sua própria construção.
É desse lugar enigmático que pode ser formulada uma questão que
pode ter um sentido apenas para quem a enunciou, sendo algo produtivo
por isso, mas que é evidentemente limitada em seu alcance d.ialógico . A
indagação, contudo, pode ser o catalisador de uma preocupação coletiva
que se encontrava latente, transformando-se então num operador teórico
capaz de articular diferentes temas dispersos, caso o autor consiga se
deslocar de seu sistema de crenças e empreender a construção de uma
problemática.
Ao desmembrar a associação - "Psicanálise e sua intertextualidade"
- em suas partes, destacando o valor semântico de cada um dos fragmen-
tos inseri tos em seu enunciado, não se pode perder a medida da articulação
das palavras em seu contexto. Assim, vamos percorrer os tennos da
associação de maneira ingênua, pois esse é o caminho necessário a que
somos conduzidos na indagação das coisas, para podennos construir uma
problemática.
Começaremos pela leitura da palavra "intertextualidade ",pois supo-
mos que a delimitação de seu sentido possa ilunúnar o significado da
conjunção, indicando a direção de seu deciframento. Pressupomos com
isso, pelo menos inicialmente, que o sentido da palavra "psicanálise" é
óbvio, o que não é o caso para "sua intertextualidade... Além disso,
reconhecemos por uma interpretação prévia que o ..e .. indica uma con-
junção e não uma disjunção, o que faria o enunciado soar estranho. De
f~rma complementar, por razões internas ao discurso psicanaHtico, como
aJDda veremos, a conjunção também é fundamental. Sublinhamos enfati-
camente que começaremos a leitura com uma interpretação teórica da
..psícanálise", limite que se impõe à nossa ingenuidade.

11. Texto e contexto


A palavra "intertextualidade" nos remete às palavras "inter" e "textua-
lidade", ··inter" significando entre e "textualidade·• sugerindo rexto.
Portanto, a "intertextualidade" aponta para uma problemática delineada
pela relação e pela articulação entre textos.
"Texto" está associado a discurso e escritura, sendo algo evidente-
~ente ~a ordem da linguagem, oral ou escrita. Existe uma polêmica na
lingillsuca em tomo do estatuto conceitual do texlO com os teóricos
indagando se seu estudo pertence de direito ao c~po conceitual da
A PROSA DA PSJCANÁLJSE 27

lingüfstica ou se a ele transcende. A polêmica parece pender para o pólo


teórico dos autores que sustentam que o texto não se inscreve no campo
de investigação da ling1lística, mas no da semiologia.
Para Saussure, a lingüística teria sua fronteira na investigação da
palavra e do sintagma,3 enquanto que para Ducrot e Todorov ela .. J.imjta
à frase o objeto de sua investigação" .4 J' Cry~tal reconhece que nos
últimos anos se desenvolveu uma "Ungüfstica do texto •• em que este
ocupa o lugar central na pesquisa, admitindo, ao mesmo tempo, que é
difícil distinguir essa modalidade de abotdagem teórica da análise de
discurso.' Em contrapartida, reforçando a idéia da exclusão do texto do
campo da lingüística, Crystal enfatiz.a que se trata de um termo .. pré-teó-
rico" nesse ca:mpo de pesquisa.6 O texto nos remeteria para os discursos
da semiologia e da teoria da literatura, e·não para o campo da lingüística.
Podemos então dar mais um passo teórico na leitura da palavra texto,
considerando agora seu desdobramento na palavra narrativa, e destacan-
do a jicçjj() como mna dimensão fundamental da narrativa literária, não
existindo, pois,IWT8tiva "realista" mesmo quando é essa a pretensão do
autor e do gênero literário. Existiria sempre na narrativa ficcional um
modo de ~presentação que forjaria uma ilusão coostitutiva da realidade. 7
· Como narrativa ficcional o texto implica a alteridade, já que pressu-
põe um destinatário, um interlocutor potencial, sendo pois um alO virtual
de interlocução. Por isso mesmo, todo texto pretende uma relação com a
verdade, na medida em que se ordena como uma tessitura de palavras
referenciadas na ordem simb6lica. Evidentemente, a categoria de verdade
remete ao campo da linguagem, não sendo pois representada pela possfvel
relação de adequação com o universo das coisas. A linguagem, aqui, é
vista como constitutiva do mundo e da tessitura dos objetos inscritos na
realidade•
Nio preteDdemOI!I nos indagar sobre o estatulO da ordem simbólica.,
se essa ~ redutfvel i escritun formal da lfngua. i lóaica diacrítica das
oposições significantes, como estabelece a leitura estruturalista,• ou,
então, se a estrutura formal da língua implica uma articulação imediata
com o universo dos significados, com o imaginário dos valo-res sociais e
históricos, como nos sugere a leitura da categoria de jogo de linguagem
na segunda filosofia de Wingenstein. 9 Para o que pretendemos aqui não é
preciso solucionar questão tão polêmica, pois percorrendo qualquer uma
dessas alternativas teóricas chegaríamos à mesma proposição que nos
interessa estabelecer. Na constituição do sujeito, por cotlStguinte, a ordem
simbólica se iosere no registro da transcendência, podendo posteriormen-
te o sujeito se reconhecer parcialmente como constituinte dessa ordem,
ou ficando, para sempre, em uma posição extrúlseca e heterogênea.
28 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALírJCA

Portanto. como narrativa flccional o texto tem urna relação fWlda -


mental com a questão da verdade, pois se articula na orck:m simbólica,
que estabelece as fronteiras do campo e os critérios possíveis para a
interlocução entre os sujeitos falantes. Mesmo não remetendo ao universo
da ..precisão" e do rigor matemáticos, parafraseando Koyré podemos
dizer que a ordem simbólica é o universo do " mais ou menos " , to isto é,
o universo da imprecisão, da vacilação, da incerteza e do deslize. A
retó rica assume w;i.m wna dimensão fundamental na construção da ver-
dack:, pois se a verdack: não tem um estatuto absoluto mas é perpassada
pela errância do sentido e pela ficção, sua construção implic.a algo a mais
que a lógica dos argumentos e que confere a estes suafoffa: a paixão, a
fascinação e o estilo discursivo.
Se Sócrates e Platão nos transmitiram que o conhecimento é virtude
e que o saber implica uma ética que não se ensina como qualquer outro
ofício técnico, os sofistas enfatizaram o pólo oposto, possibilitando então
o desenvolvimento da arte retórica como mediação fundamental na
dialética da verdade.l 1 A verdade se inscreveria também nos registros
da estética c da poUtica, apontando não :somente para as ordens da
reminiscência e da anamnese, mas também para a ordem da cons'trução.
Esta dimensão prospec tiva implicaria uma concepção de temporalida-
de e m que é o momento do futuro que regula a totalidade do processo
temporal. Enfim, é o futuro possível projetado pelo sujeito que lhe
pertnite o recorte de seu passado a partir ck: uma cena estabelecida em
seu presente.
Podemos retomar agora, após a leitura da palavra " intertextualida-
de". outros fragmentos da foonulação inicial para serem examinados. A
introdução das palavras ..psicanálise·· e "sua'' na formulação inicial pode
impücar a exigência de um contexto para d efinir o campo ck: articuJação
entre textos, de forma a constituir a "psicanálise.. como um espaço
possível para a construção da "intertextualidade... Numa outra intetpre-
tação para a introdução dessas palavras, a .. psicanálise·· funcionaria como
um texto entre outros textos e não como um contexto. Portanto recoloca-
se nossa indagação inicial sobre o sentido teórico dessa temática, pois
além de reconhecer a existência de duas possibilidades de leitura que não
se excluem. veremos que a primeira se desdobra na segunda, na qual se
funda sua verdade.
A primeira leitura consick:ra a " psicanálise·· como um contexto entre
textos dialogantes, isto é, como um espaço potencial que possibilita a
construção de um diálogo entte os textos de sujeitos implicados na
experiência psicanalítica. Já a segunda a vê como um texto específico
entre outros, mas que estabelece necessariamente uma relação de diálogo
A PROSA DA PSICANÁLISE 29

com outros textos. Figura portanto a "psicanálise.. como wn discurso


teórico que estabelece um diálogo com outros saberes .
Como logo veremos, a primeira suposição nos leva para a leitura da
lógica da experiência psicanalftica e a segunda nos remete para a meta-
psicologia. Porém, a leitura da experiência psicanalltica exige necessaria-
mente o discurso da metapsicologia, no qual se fundamenta na lógica de
seus conceitos, de maneira que a primeira leitura se desdobra na segunda.

111. Uma obra aberta


Na primeira leitura a experiência psicanalítica é representada como um
contexto para a circulação de textos entre sujeitos. A psicanálise seria uma
experiência entre alguém que fala e um outro que escuta, constituindo um
espaço intersubjetivo fundado na transferência, no qual a linguagem é sua
condição de possibilidade pois funda a regra fundamental dessa experiên-
cia. Com efeito, para a figura do analisante é preciso dizer tudo que lhe
vem ao espírito, livre associação; para a figura do analista, a atenção
flutuante .
O espaço analítico é construído por um eixo básico que se funda na
oposição e ntre crença e verdade, pois se existe a exigência da livre
associação sem censura para a figura do analisante, é para que este possa
enunciar verdades sobre o seu desejo que lhe surpreendem, já que trans-
cendem suas crenças. Porém, a atenção flutuante é a contrapartida disso
no lugar do analista, pois a exigência de deslizamento pela escuta impos-
sibilita que o analista se fixe num s istema de crenças, teórico ou pessoal.
que seria um obstáculo epistemológico para que a verdade singular do
analisante pudesse se articular pela escuta na cena lllAlítica.
O lugar do analista não é um dado mas é uma construção, produzido
pelo traba1ho permanente do sujeito que o ocupa, destacando sua singu-
laridade, e a do outro a quem escuta, pela mediação da ordem simbólica
que lhes transcende. Então, se a figura do anallsante se oferece como um
texto a ser decifrado, a figura do analista não pode acreditar que ele seja
a materialização do saber da interpretação, mas apenas uma suposição de
saber sobre o desejo, na medida em que o analista também está submetido
à mesma ordem do saber. Ele também representa um textO que precisa ser
reconhecido como tal, sendo este reconhecimento a condição ética de
possibilidade para a construção de seu lugar. Dessa maneira, na experiên-
cia traosferencial pode se escrever um outro texto entre as figuras do
analista e do analisante, sendo este íntertexto tecido pelo trabalho da
interpretação.
30 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

O que implica dizer que se o psicanalista se considera um "profissio-


nal da interpretação" ou o detentor de um saber sobre o outro, ele se toma
um ob5táculo epistemológico e ético para a constituição da experiência
analítica, que somente é possível quando quem ocupa o lugar do analista
também está engajado numa análise . Vale dizer, é preciso que o analista
reconheça que a singularidade do outro lhe diz algo sobre o que existe de
enigmático em seu desejo e em sua própria história, de maneira a deman-
dar um dedframento pela ordem simbólica. Então, ocupar o lugar de
analista implica para o indivíduo, que assume esse risco e essa responsa-
bilidade, continuar sua experiência psicanalítica com seus analisantes,
condição sine qua non para a existência da mobilidade desejante no
espaço psicanalitico. Era isso que pretendíamos enfatizar quando afirma-
mos que, para que alguém ocupe o lugar do analista, é necessário um
trabalho permanente na escrihlra de sua história, urdido nas malhas da
incerteza de seu desejo.
A experiência psicanalftica é então sustentada pela circulação de
narrativas ficcionais e pela mediação entre textos encarnados pela fala,
ordenando uma tessitura da linguagem que é aberta e infmita. Podemos
dizer, parafraseando Umberto Eco, 12 que, como a arte moderna, a expe-
riência psicanalítica é a condição pennanente de J)ossibilidade para a
construção de uma "obra aberta" entre as subjetividades, em que essas
escrevem novos textos pela reinterpretação incessante dos escritos pré-
vi05 de sua história. Nesta leitura, nos encontramos com a proposição
básica do discurso freudiano em "Análise com fim e sem fim" , 13 quando
diz que, apesar de finita no tempo, a experiência psicanalítica revela uma
dimensão de infinitude para o sujeito, na medida em que pela marca da
castração o sujeito reconhece a sua inscrição na ordem simbólica e fica
com isso assujeitado eternamente ao trabalho da interpretação de sua
história. 14
lntertexto em que o fundamental se articula pela fascinante teSsitura
de palavns entre as figuras do analista e do analisante, essa é a caracte-
rística essencial e a produção por excelência da experiência psicanalítica.
Portanto, num primeiro registro, a psicanálise como experiência intersub-
jetiva é o contexto para o diálogo entre textos. Já num registro comple-
mentar, é a representação-texto da ordem simbólica a condição de possi-
bilidade desse diálogo, na medida em que a figura do analista também está
submetida à lógica transferencial da experiência.
Questões cruciais: qual a condição de possibilidade dessa mediação
infinita pela palavra transformar a experiência psicanaUtica numa ''obra
aberta"? O que demanda essa tessitura infinita da linguagem ficclonal7
O que possibilita a psicanálise como uma experiência potencialmente
A PROSA DA PSICANÁLISE 31

infinita, já que o deslizamento do sujeito no campo de textos exige


pennanentemente algo a mais, que provoca em contrapartida a produção
de novas narrativas?
Não pretendemos abordar aqui a questão do fim da análise, que se
insere sem dúvida no centro da problemática, na qual se interpõe um limite
para a inímitude do processo analítico. O que queremo.s sublinhar é que
essa exigência de reconstrução potencialmente infirút.a da escritura sub-
jetiva é a condição de possibilidade do psiquismo. Com efeito, na concep-
ção freudiana o sujeito é interpretação, não existindo pois qualquer
possibilidade de representar o psiquis~o em psicanálise na exterioridade
de uma leitura interpretativa. A psicanálise somente se constituiu como
uma modalidade de saber fundado na interpretação na medida em que o
psiquismo é interpretação, ou seja, aquilo que o sujeito empreende na
experiência analítica é o que sempre foi realizado pelo psiquismo desde
os seus primórdios. u A demanda de análise no registro clinico somente se
impõe para o individuo quando o processo de interpretação encontra
obstáculos e se transforma em algo da ordem do impossível, de maneira
que o indivíduo se confronta com impasses existenciais intransponíveis.
A interpretação em psicanálise pretende sempre circunscrever algo
que é enigmático e inquietante para o sujeito. na medida em que desarruma
a coerência da escritura estabelecida como a versão oficial da história do
sujeito, impondo uma ruptura em seu sistema de crenças e exigindo uma
nova escritura. Caracteriza-se esse algo pela mobilidade, sendo o impacto
desta no psiquismo o que exige um trabalho perpéhlo de interpretação
pelo sujeito. Porém, tal mobiHdade é também a condição de possibi!jdade
para a produção infinita da diferença entre os diversos sujeitos, inscrita
no fundamento da experiência psicanalítica.
O que é este algo a mais, que demanda texto e contexto da psicAllálise
para sua tessitura pela palavra, se impõe como uma questão crucial no
desdobramento desta reflexão. Para respondê-la é necessário nos deslocar
do registro da experiência anaJftica para o registro da metapsicologia.

IV. A escritura entre os saberes


Na segunda leimra a psicanálise seria representada como um texto teórico
que dialoga com outros discursos. especialmente no domínio das ciências
natun.is e humanas. Tentaremos apreender suas possíveis implicações
recfprocas.
Mesmo considerando a problemática atual, algumas pontuações de
ordem epistemológica se impõem para que possamos estabelecer os
32 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

limites legítimos do debate. Antes de mais nada, é predso superar a


pretensão de constituir uma verdadeira interdiscipliMridJJde, pois trata-se
de tarefa impossível na perspectiva de uma epistemologia regional. 1 ~ Com
efeito, como cada modalidade de saber empreende a construção específica
de seu objeto teórico, constituindo suas operações metodológicas e a
invenção de suas técnicas, é evidentemente impossível um acordo teórico
entre diferentes disciplinas cujos discursos remetem para diversos objetos
teóricos. É por i~o que lal modalidade de colaboração científica tem se
apresentado historicamente como estéril para a produção de conhecimen-
to, na medida em que na prática da investigação uma das modalidades de
saber assume a direção teórica e a hegemonia da pesquisa, ficando os
demais saberes numa posição auxiliar e secundária.
A história da relação da psicanálise com as ciências sociais, princi-
palmente com a antropologia, foi permeada por esses· obstáculos episte-
mológicos enquanto se manteve a perspectiva interdisciplinar. Os impas-
ses teóricos e metodológicos que se revelaram no móvimento no rte-ame-
ricano "Cultura e Personalidade", no qual se procurou articular os dis -
cursos da psicanálise e da antropologia social, constituem uma reve lação
flagrante da impossibilidade do projeto da ioterdisciplinaridade. 17
Em função desses impasses, a tendência recente no trabalho de
colaboração científica é a de substituir a questão da interdiscipünaridade
pela da transdisciplinaridade. Com efeito, no campo da transdiscíplina -
ridade, diferentes saberes, com objetos teóricos diversos, podem estabe-
lecer linhas de pesquisa em tomo de questões que interessam a cada uni
deles, mas onde cada modalidade de saber mantém a especificidade
teórica de seu campo epistemológico e os limites. de validade de seus
conceitos. Essa sinfonia teórica pode ser construída desde que não se
pretenda constituir um ''objeto comum" às diferentes disciplinas impli-
cadas na investigação, que seria de fato um pseudo-objeto teórico.
Portanto, esse diálogo entre a psicanálise e outras modalidades de
saber somente é possível de ser realizado numa perspectiva transdiscipli-
nar, onde os diferentes saberes reconheçam os limites de seu campo
conceitual. Esta seria a condição de possibilidade da intertextualidade.

V. Nos limites da escrita


Podemos retomar agora nOS8ll questão no registro da melapsicologia,
considerando o discurso freudiano como o paradigma teórico da psicaná-
Use e a metapsicologia freudiana como o texto de referencia para repre-
sentarmos a relação da psicanálise com os outros saberes.
A PROSA DA PSICANÁLISE · 33

Se nos perguntarmos sobre o objeto teórico da psicanálise não tere-


mos dúvida em afirmar que é o inconsciente. O que pretende o discurso
psicanalítico é a delimitação teórica do sujeito do inconsciente. É a partir
desse ponto que surgem as dificuldades, na medida em que é necessário
enunciar o eslatuto teórico do inconsciente e as condições de possibilidade
para sua formação como conceito.
Assim, o sujeito do inconsciente não é um conceito empírico, isto é,
não é um dado e um fato, mas uma articulação desej ante que se realiza na
e pela ordem da linguagem, ou seja, é um conceito construído, cuja
constituição implica um trabalho teórico complexo. Com efeito, o sujeito
do inconsciente é uma derivação que tem no corpo pulsional uma de suas
condições de possibilidade - a outra é a ordem simbólica - ,sendo ao
mesmo tempo a resultante e a mediação entre esses diferentes registros
do ser.
A mediação representada pelo inconsciente nos remete para uma
outra mediação, ainda mais originária na constituição do campo psicana-
Jitico: a pulsão (1Heb). Esse conceito nos indica uma questão crucial para
o discurso científico no final do século XIX, isto é, a possível articulação
e ntre os registros do corpo e do psiquismo, entre as ordens natural e
simbólica. Com o conceito de pulsão o discurso freudiano procurou
encontrar uma solução teórica para os impasses então existentes - n os
campos da psicologia, da neuropatologia e da psicopatologia - , que se
centravam no paralelismo psioofCsico, apontando para uma problemática
básica: o dualismo cartesiano entre o corpo e o espírito. Mediante o
conceito de pulsão o discurso freudiaoo construiu uma nova representação
do corpo e do psiquismo, através da qual pretendia superar o dualismo
cartesiano, a psicologia da introspecção centrada na consciência e a
psicologia mecanicista, que procurava reduzir as funções psíquicas ao
funcionamento cerebral.
É preciso então distinguir entre as categorias de objeto teórico e de
conceito fundamental de um determinado campo do saber, pois se o
inconsciente constitui o objeto teórico do discurso freudiano, a pulsão é
inequivocamente o seu conceito fundamental, na medida em que é o
conceito inaugural da metapsioologia, a partir do qual os demais poderiam
ser deduzidos. 18 Foi essa a ordem teórica de construção estabelecida por
Freud na Metapsicologia. na qual a articulação dos conceitos de recalque
e de inconsciente exige a anterioridade lógica do conceito de pulsão,
sem o que seria impossível a construção dos demais conceitos meta-
psicológicos.
A pulsão foi definida no discurso freudiano de maneira lapidar,
indicando a problemática te6rica construída pelo discurso psicanalítico:
ENSAIOS DE TEORIA PSICANAÚfiCA

" um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante


psCquico das excitações, oriundas do interior do corpo e chegando ao
psiquismo, como uma medida. da. exigência de trabalho que é imposta ao
psíquico em conseqüência de sua ligação ao corporal... 19
Examinemos esquematicamente as diversas dimensões que se encon-
tram presentes nessa condensada. fonnulação freudiana, destacando as
conseqüencias teóricas aí implicadas:
I . Se a pulsão é um "conceito-limite entre o psíquico e o somático".
isso implica afirmar que a pulsão não se insere no registro psíquico
propriamente dito nem no registro somático, mas que é essencialmente
um ser de mediação e um ser de passagem entre os campos do psíquico
e do somático. Por isso mesmo enfatizamos anteriormente que as pulsões,
irredutíveis ao corpo somático e ao universo das representações. consti-
tuíam o corpo pulsional.
No ensaio meta psicológico "O inconsciente", Freud novamente en-
fatizou a posição de exterioridade da pulsão etn relação ao psiquismo,
formulando que "a oposição entre consciente e inconsciente não se aplica
à pulsão" ,2° pois esta " não pode se tomar objeto para a consciência,
apenas a representação que a representa" .21 O que seria válido também
para o registro do inconsciente , já que, nesse, "a pulsão somente pode ser
representada pela representação·· .22
O discurso freudiano ainda destaca a relação e.ntre as pulsões e seus
representantes no psiquismo, mostrando que o psfquico se constitui fun -
damentalmente com a finalidade de "domfnio das excitações" ,ll excita-
ções oriundas do corpo pul~ional e não do corpo somático. Com isso,
revela-se a duplicidade da representação da pulsão, no discurso freudiano
que ora indica sua dimensão como força e energia,,. ora sublinha sua
dimensão como representação esenritkJ.H Assim, por um lado o discurso
freudiano destaca o corpo pul!iional como força (Drang ). como um corpo
inscrito no campo da desordem e que demanda do psiquismo um trabalho
de " domínio das excitações". por outro refere-se ao momento mftico em
que a pulsão se inscreve no universo da representação e da ordem,
como representante-representação (Vorstellungsreprãsentant) e repre-
sentante afetivo (.Affect) que constituiriam a matéria-prima da escuta
psicanalítica.26
2 . Sendo o corpo somático da ordem do discurso biológico e
pertencendo ao campo da "necessidade··. repr~senta então a ordem
vital e a ordem da natureza. O discurso freudiano não confundia o
corpo somático e o corpo pulsional, pois distinguia entre instinto
(lnstinkt) e pulsão (Trieb). Além disso, sublinhando ainda mais essa
distinção, ele podia formular que o corpo somático constituía a fonte
A PROSA DA PSICANÁLISE 35

das pulsões, mas apenas a fonte.27 pois essa não se identifica com o ser
da pulsão cuja essência é a força .21
3. Na formulação freudiana, o psiquismo faria pane da ordem da
representação como o lugar onde se realiza a inscrição da pulsão como
força no campo da representação. Lacan concebeu esse campo. na pers-
pectiva teórica indicada por Uvi-Strauss,29 como da ordem do significan-
te, considerando este numa estrutura de oposições diacríticas marcada
pela falta e pela ausência. 30 Apesar da evidente conquista teórica repre-
sentada pela investigação de Lacan. em sua interlocução transdisciplinar
com os discursos da antropologia social e da lingüística, sua leitura da
teoria psicanalítica sublinhou o que existia de fundamental na lógica da
construção do discurso freudiano. Consideramos portanto como absolu-
tamente verídico e escutamos ipse lítere o enunciado de Lacan, quando
afirma que seu percurso teórico pretendia ser um "retomo a Freud..,
quando a psicologia do ego se esquecera dos pressupo5tos teóricos do
discurso freudiano.
Por que dizemos. de maneira tão contundente, que a leitura psicana-
lítica de Lacan foi uma retomada. no fundàmento da lógica da metapsico-
logia freudiana? Porque a problemática da linguagem no discurso freu-
djano não se restringe à constatação óbvia de que a experiência psicana-
lítica se realiza pela palavra, considerando a linguagem .c omo uma refe-
rência exterior ao psiquismo. Pelo contrário, Freud rompeu com a psico-
logia, a psicopatologia e a neurologia do fmal do século XIX, justamente
ao construir uma concepção do psiquismo fundada na linguagem. O
"estudo crítico" sobre as afasias pode ser considerado legitimamente
como o texto inaugural do saber psicanalítico, pois nele Freud concebe o
psiquismo pelo modelo da linguagem, como um aparelho de linguagem. 31
Aparelho de linguagem é o momento originário na construção do conceito
freudiano de aparelho ps{quico, na genealogia do discurso p5icanalítico.
Se a concepção do psíquico fundado na linguagem conferia um
surpreendente rigor teórico na representação do psiquismo, isso exigia
uma contrapartida. necessária para apreender sua mobjJida.de, isto é, a sua
energia e o seu dinamismo. A elaboração do Projeto de uma psicologia
científica, poucos anos depois, introduziu a e:dgencia energética no mo-
delo originário, inserindo a problemática do investimento na constituição
e no funcio02mento do aparelho psfquico,32 ou seja. quando o discurso
freudiano articulou pulsão e represenaação, força e sentido, estabeleceu
os pressupostos epistemológicos da psicanálise.
4 . Retomando novamente a concisa defmição freudiana, com a qual
começamos este comentário, podemos afirmar que a pulsão é a • •exigência
de trabalho" iimpos~ ao mundo da representação para regular as ..excita-
36 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALíTICA

ções" . Assim, a pulsão como força e energia exige representação, deman-


dando um trabalho incessante de ligação e de interpretação dessa força.
Sua inscrição no universo da representação, como representação-<:oisa
(Dingvorstellung) e como representação-palavra (~on:orsrellung),'~ é o
resultado do trabalho de traosformação da força, md1cando o caminho
infinito de simbolização a que nos referimos anteriormente na leitura da
experiência psicanalíúca. Os diferentes destinos das pulsões delineados
no eosaio freudiano de 1915- a inversão no contrário, o retomo sobre a
própria pessoa, o recalque e a sublimaçào34 -,indicam o per~o de
qualquer pulsão-força no itinerário de sua simbolização, na medida em
que o psiquismo é wn aparelho de ..domfnio de excitações", isto é, de
simboüzação e de interpretação do corpo pulsional.

VI. Entre as escrituras


Se a pulsão é uma forma de mediação entre a ordem vital e a ordem
simbólica, ela representa em seu próprio ser a exigência da intert.extuali-
dade, isto é, por excelência um ser de passagem entre a escntu.ra da
natureza e a escritura da cultura. Nessa leitura do conceito de pulsão nos
enconlramos com a interpretação de Hyppoüte do discurso freudiano,
quando dizia que para Freud não existia qualquer impossibilidade de
articulação entre o modelo positivista da metapsicologia e o modelo
hermenêutica da experiência psicanalítica, pois o projeto freudiano pre-
tendia uma articulação fundamental enlre a filosofla da natureza e a
filosofia do espírito. 33
Se Freud conseguiu de fato e de direito realizar essa conjunção já é
uma outra questão, mas essa foi a pretensão teórica maior de seu discurso,
e que revela ao mesmo tempo a problemática onde se insere a p~canálise.
A constituição do conceito de pulsão é o monumento t.eónco dessa
preteosão, a tentativa de estabelecer um diálogo possível entre a escritura
da natureza e a escritura do espírito, sendo a pulsão como ser de passagem
o que impõe os limites e os obstáculos para sua própria realização. EnflDl,
como qualquer diálogo entre universos estranhos, esse percurso é marcado
também por acidentes, por impasses e mesmo por impossibilidades, além
dos momentos afortunados e fulgurantes de encontro.
Quando o discurso freudiano nos fala dos ..múltiplos interesses da
psicanálise" ,36 de suas diversas possibilidades de articulação com outras
modalidades de saber - exigência que perpassa a obra de Freud em todos
os seus momentos - , o que rigorosamente se evidencia é a demanda da
intertex tualidade como uma questão crucial do discurso psicanalítico.
A PROSA DA PSICANÁUSE 37

Porém, se a exigência díalógica se impõe do interior do texto freudiano é


· porque a coostituição dos conceitos metapsicológicos é inteiramente
perpassada pela articulação entre textos, pois remete para a problemáti ca
da passagem entre a escritura da natureza e a escritura do espírito, cujo
centro é figurado pela concepção de puJsão. Enfim, mediante o conceito
de pulsão a m etapsicologia freudiana coloca o interte xto no fundamento
de suas preocupações epistemológicas, já que a problemática da psicaná-
lisc se delind a no horizonte enunciado entre a ordem vital e a ordem
simbólica.
A linguagem na constituição da psicanálise
Uma leitura do ensaio Contribuição à concepção
das afasias, de S. Freud 1

/. Metapsicologia e experiência psicanalítica


As relações da psicanálise com a linguagem e o discurso são fundamen-
tais, na medida em que a fala constitui a matéria-prima da e"pcriéncia
psicanalítica, não se podendo, pois, representar o ato psicanalítico na
exterioridade do campo do discurso. Tais relações, no entanto, são
múltiplas e implicam diferentes ordens de problemas, já que não se
trata apenas de constatar o óbvio, isto é, que o processo analítico se
realiza pelo d iscurso, mas também de indagar como se ordena a estru-
tura do psiquismo pa.r a que o ato psicanalítico fundado na palavra seja
uma experiência possível. Em suma, quais as condições de possibili-
dade de estruturação do psiquismo e qual a representação do psíquico
no discurso freudiano para que o protocolo formal da experiência
ps icanalítica seja epistemológica e metodologicamente fundado no ato
da fala?
Destacar as relações entre psicanálise e linguagem s upõe não
apenas que o processo psicanalítico se empreende na e pela palavra,
como também que a estrutura do psiquismo se representa em termos
d e processos de simbolizaçõo. Evidentemente, é preciso considerar
logo de início que a simbolização não se restringe à ordem da lingua-
gem. Já a linguagem não apenas representa a simbolização, como
também é o caminho metodológico por e)(cclência pelo qual os proces-
sos de simbolização podem ser investigados em diferentes contextos
teó ricos.
A indagação crucial que se impõe no horizonte desta reflexão teórica
é sobre a articulação possível entre a metapsicologia e a linguagem,
problema que deriva do questionamento da relação entre a experiência
analftica fundada na fala e a estrutura do psiquismo representada no
discurso freudiano. Qual o lugar e a função epistemológica representados

38
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÁO DA PSICANÁLISE 39

pela linguagem na pesquisa freudiana do psiquismo, para dar fundamento


à constituição do processo psícanaHt.ico como uma experiência não apenas
intersubjetiva?
Uma das inovações metodológicas fundamentais possibilitada pela
leitura que Lacan empreendeu do discurso freudiano foi a de articular as
duas dimensões dessa problemática que até então se encontravam como
séries separadas na história pós-freudiana do saber psicanalítico. Vale
dizer, se ~ palavra é a mediação pelo. qual se realiza o processo psicanalf-
tico e onde incide a eficácia do ato psicanalítico, os teóricos da psicanálise
não articulavam essa cons1atação ao reconhecimento de que o funciona-
mento psíquico tinha que ser representado, de alguma maneira, no campo
da linguagem. Estava estabelecida na psicanálise uma dissociação funda-
mental entre o discurso pelo qual se representava o processo psicanalítico
e o discurso metapsicológico. A investigação de Lacan, como vimos,
procurou costurar as duas dimensões do problema, formulando que se a
modalidade de experiência possibilitada ao sujeito pela psicanálise se
funda na fala e se é pela palavra que podemos reconhecer os efeitos
cruciais do ato psicanalítico, então o psiquismo deveria ser representado
em termos de Jinguagem.
Da f Lacan enunciar no já clássico "Discurso de Roma", em 1953,
que o inconsciente é uma "realidade transindividual" fundada nos efeitos
da linguagem .2 Com a constituição desse conceito, além de delinear a
cartografia das fonnações do inconsciente como fundada na linguagem,
identificou os mecanismos básicos do inconsciente descritos por Freud
com algumas das figuras básicas da retórica: condensação e metáfora,
deslocamento e metonímia. Por isso mesmo, tal inflexão teórica foi por
ele intitulada "retomo a Freud" desde os anos 50, procurando enfatizar
com isso o que teria sido esquecido, na tradição psicanalítica, de funda-
mental na herança freudiana, isto é, a relação de fundação do inconsciente
na linguagem e na fala.
É preciso destacar sobre isso duas ordens de questões, à guisa de
comentário introdutório, que se referem a05 discursos teóricos de Freud
e de Lacan. Inicialmente, que o discurso freudiano admite a modalidade
de leitura e de comentário empreendida por Lacan, na medida em que os
te)(tos fundamentais de Freud que tematizam as formações do inconscien-
te3 e os seus escritos meta psicológicos' evidenciam 05 seus fundamentos,
com maior consistência e simplicidade. Além disso, o protocolo básico da
experiência psicanalítica, centrado na regra básica das livres associações,
fica teoricamente mais rigoroso em sua exigência e perde qualquer caráter
de arbitrariedade.
É preciso considerar também que o campo freudiano aponta decisi-
vamente, com a segunda teoria pulsional' e a segunda tópica,6 para o que
40 ENSA IOS DE TEORIA PSICANALITICA

não é da ordem da linguagem e que apesar dissso insiste em se opor à


ordem da simbolização. Assim, a reabertura do p5iquismo para o pólo
pulsional orienta a pesquisa freudiana para o que, por um lado, não é da
ordem da represe ntação e que demanda, pelo outro, um rraballw de
simbolização. Se o conceito de pulsio de morte tem epis temo logicamente
algum sentido na teoria psicanalítica, é no espaço crucial de confronto
enlre a força pulsional (Drang) e o universo da representação (Vorsrel-
lung) que se reali7.a este embate decisivo.
No que conceme ao percurso teórico de Lacan, é preciso considerar
alguns tópicos nos tennos da relação entre metapsicologia e linguagem.
Antes de mais nada, seu percurso se pautou por um movimento da
psicanálise francesa que teve indiscutivelmente em Politzer o seu teórico
originário, a ele cabendo o mérito histórico de reconhecer, em sua Critica
dos fundamenros da psicologia, o que el(istia de teoricamente inovador
no discurso freudiano, delineando os campos do sentido e do sujeito como
o que existia de mais fundamental na psicanálise.7 No quadro da psicolo-
gia contemporânea, o discurso freudiano introduzira, para Politzer, o que
era então entrevisto como o mais promissor para a constituição da futura
.. psicologia concreta" .8 Para realizar o destino de sua inovação teórica e
metodológica seria preciso contudo que a psicanálise se libertasse dos
resíduos da "p5icología clássica", que ainda impregnavam o discurso
freudiano .
Contrapondo meticulosamente o sentido da experiência p5íquica do
s ujeito no ato analítico e o discurso metapsicológico nos escritos freudia-
nos, a leitura critica de Politzer defendia que a p5icanálise deveria aban-
donar a metap5icolog.ia, pois esta representava a presença dos postulados
da "psicologia clássica·· no interior do saber psican:alítico. Assim, a
metap5icologia representava o obstáculo epistemológico maior para o
desenvolvimento da teoria p5icanalítica,já que não destacava devidamen-
te o campo do sentido como sua grande descoberta. '
O discurso d e Politzer é teoricamente criticável em diferentes níveis.
Antes de mais nada, porque vê o sujeito como restrito à primeira pessoa,
não admitindo, pois, outras formas de sua existência. 1°Com isso, não se
volta nunca para a leitura do fantasma nas diversas formações do incons-
ciente, onde o sujeito pode ocupar diferentes posições .nas enctnações do
desejo. Em seguida, a categoria fk drama, que destaca com grande
riqueza, tem um importante sabor fenomenológico, chocando-se, pois,
como referencial, com pressupostos básicos da experiência psicanalítica.
Apesar disso, a leilura empreendida por Politzer teve o mérito gjgantesco
de ser a plataforma epistemolóJlca de lançamento na qual se centrou a
psicanálise francesa . Nela, subUnhou-se enfaticamente o campo do senti-
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 41

do e do sujeito como o que existia de fundamental no s aber inaugurado


por Freud, com a fmalidade de criticar algumas das dimensões mecani -
cistas que estariam presentes nos enunciados da metapsicologia.
Lacan iniciou seu percurso teórico, portanto, no campo epistemoló-
gico entreaberto por Politzer, a quem teceu repetidos elogios des de sua
tese sobre a paranóia. Assim, em seus primeiros escritos, colocava frente
a frente os ensinamentos retirados da fenomenologia da experiência
psicanalftica e os obstáculos presentes nos modelos metapsicológicos.
Para isso, valia-se dos discursos da fenomenologia de Hegel e de Husserl,
das pesquisas da psicologia da Gestalt e da etologia. 11
Foi apenas posteriormente, com essa rearrumaçio do campo teórico,
fundada na crítica ao mecanicismo presente nos mÓdelos metap5icológi-
cos e no destaque conferido ao campo do sentido na experi~ncia p5icana-
Utica, que Lacan pôde fazer uma outra leitura da metapsicologia freudia-
na, resgatando seus pressupostos numa perspectiva lingüística. Para ·
essa retomada foi fundamental o contato com a lingüística de Saussure
através dos textos da antropologia social de Lévi-Strauss. 12 Portànto, .
foi apenas num segundo mo me nto teórico que o reencontro entre os
discursos da metapsicologia e da experiência psicanalítica se tornou
possível em seu percurso, sendo o artigo "Função e campo da fala e
da linguagem em psicanálise .. a materialização histórica dessa rearti -
culação.
Considerando a longa história dos descaminhos teóricos da p5ican.á-
Use e seus impasses cruciais, é fundamental se indagar sobre a .ín$erção
da problemática da linguagem nos primórdios do discurso freudiano, para
que p<lSSlUDOS apreender em estado n.ascente O lugar estratégico OCUpado
por ela na concepção do psiquismo. Podemos enunciar nossa questão de .
forma mais rigorosa nos perguntando como a problemática da linguagem
se caracterizou como a linha funtúlmental fk investigação no discurso
freudiano, para que Freud pudesse criticar as bases da concepção meca-
nicista de psjquismo e os impasses da psicologia da consciência, possibi-
litando a constituição do saber p5icanalltico.
Vamos desenvolver alguns comentários sobre o ensaio freudiano
sobre as afasias, publicado em 1891. Consideramos a Contribuição à
concepçÕIJ das afasi.os,13 apesar de pertencer ao denominado período
neurológico e não psicanalítico dos escritos freudian06, um estudo funda-
mental para a constituição da p5icanálise. Por isso mesmo, pretendemos
articular a problemática da linguagem desse ensaio com a que se apresenta
em outro artigo de Freud, publicado também em 189 J, que temadza o
Trata~Mnto ps(quico, 14 pois podemos indicar dê IWUleira rigorosa a tessi-
tura interna existente entre a pesquisa neurológica de FRud e sua inves-
'
42 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtfiCA

tigação sobre a histeria. Podemos assim apreender em estado nascente as


articulações existentes entre os esboços iniciais da metapsicologia freu-
diana e a experiência clinica que norteava essa construção conceitual.
Finalmente, na conclusão, vamos tecer alguns comentários sobre o Pro-
jeto de uma psicologia cientlfica,'$ de 1895, para destacar sua diferença
teórica em relação ao ensaio sobre as afasias no que conceme à proble-
mática da linguagem.

/1. Um ensaio inesquecível


A contribuição ã concepção das afasias é um ensaio pouco conhecido,
principalmente pelos psicanalistas e, além disso, muito pouco divulgado.
Certamente, contribuiu decisivamente para isso o desejo de Freud de não
incluir qualquer um de seus escritos pré-psicanalíticos em suas " obras
completas" . 16 Esse desejo foi novamente formulado em 1939, quando
afl.rmou de forma peremptória que o estudo sobre as afasias fazia parte
dos "trabalhos ne urológicos e não dos psicanalfticos" . 17 Além disso, em
sua edição original, o ensaio de Freud ex.iste de fato em muito poucas
bibliotecas européias importantes, como decorrência ~e sua pequena
tiragem."
Apesar do esquecimento geral existem diferenças significativas, en-
tre as diversas tradições psicanalíticas, nas relações que estabeleceram
com esse ensaio primo rdial. As tradições alemã, inglesa e norte-americana
. já lidam com o texto há algumas décadas, o que não ocorre com a francesa.
Há uma edição em língua inglesa desde a década de 50 19 e, no flnal dos
anos 70, surgiu uma edição em espanhol, publicada em Buenos Aires.20
Na França, apenas nos anos 80 o ensaio teve a sua primeira edição,
numa bem elaborada tradução. Finalmente, na década de 70 surgiu uma
edição em Ungua portuguesa, mas incompleta, pois faltam alguns
capítulos. 21
Essa diferença significativa nas diversas tradições culturais se revela
também por um outro indicador importante, qual seja, a produção de
comentários sobre o ensaio freudiano. Assim, a grande maioria desses
trabalhos foi escrita em alemão e em inglês, de acordo com o rigoroso
recenseamento realizado por R. Kuhn .2~
Podemos classificar esses comentários em dois grandes grupos, de
acordo com sua origem teórica e sua inserção na psicanálise. Mediante tal
critério, teríamos os comentários interiores e exteriores ao campo psica-
nalítico. Dentre os comentários exteriores, destacam-se os provenientes
A LINGUAGEM NA CONSTITÜIÇÃO DA PSICANÁLISE 43

dos discursos da neurologia, da lingüística e da filosofia . Vamos delinear


rapidamente alguns deles, destacando apenas 05 mais importantes.
Os comenl4irios interiores à psicanálise se iniciaram com o estudo
epistemológico do saber psicanalítico realizado por M. Dorer, na década
de 30, que destacou a relevância do ensaio para a constituição da psica-
nálise.23 Porém, a leitura de Dorer é inequivocamente baseada numa
concepção biológica do saber psicanalítico, em que não se considera a
presença de qualquer perspectiva hermenêutica no discurso freudiano.
L. Binswanger sublinha longamente a importância dessa obra para a
constituição do saber psicanalítico, num ensaio memorável intitulado
"Freud e a constituição da psiquiatria". Porém, como Dorer, a leitura de
Binswanger destaca principalmente a dimensão da obra. em que o registro
bermenêutico fica subsumido ao registro biológico e, como indica o título
do estudo, articula o percurso teórico de Freud com 05 dos autores
fundamentais da psiquiatria alemã da segunda metade do século XIX.
Binswanger enfatiza que Freud elaborou nesse ensaio a ligação essencial
entre a neurologia e a biologia da função, retirando do discurso psiquiá-
trico de Meynert a categoria de "aparelho do espírito" para transformá-la
na categoria de "aparelho da 11lma", circunscrito evidentemente ao regis-
tro da linguagem.24 .
Da mesma forma, S. Bemfeld, que realizou diversos estudos impor-
tantes sobre os primórdios da psicanálise e sobre as fontes teóricas no
percurso de Freud, não vac~la em afirmar que o ens$io sobre as afasias
representa inquestionavelmente o primeiro escrito freudiano. 2 ~ J. Nassif
realizou a obra de maior extensão sobre o texto, enfatizando num comen-
tário meticuloso a sua importância nos diferentes cortes epistemológicos
que Freud teve que empreender para a constituição da psicanálise.26
Finalmente. J.L. Martin num artigo magistral destacou o alcance histórico
do ensaio de Freud mas indicou, ao mesmo tempo, os seus limites in temos
na medida em que a concepção da linguagem .em que então Freud traba-
lhava era muito marcada pela filosofia utilitarista i.tiglesa de Stuart Mill e
que para que fosse possfvel a constituição da psicanálise um outro modelo
de linguagem se impôs posterionnente ao percurso (reudianoP
A leitura epistemológica de Nassif pode servir como ponto de passa-
gem entre os comentários propriamente psicanalíticos e os que se inserem
no campo da neurologia, pois inscreve-se simult.aneam.e~~ nos dois
registros teóricos. Assim, para Nassif a interpretação de Freud sobre' as
afasias foi um passo fundamental para a reálização de um corte epistemo-
lógico no campo da neurologia, já que retomou num outro nfvel o campo
conceitual inaugurado por Jackson. Brun indicava desde 1936 a relevin- ·
cia do estudo sobre as afasias no campo neurológico, como aliás das outras
44 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAúnCA

pesquisas bistológicas de Freud sobre o sistema oervoso.21 Da mesma


forma, K. Goldstein, que se encontra na origem da moderna renovação
dos estudos neurolósicos e que teve importância ímpar nas pesquisas
sobre a afasía, destacou a inovação teórica representada pelo ensaio de
Freud.29 Na leitura de Stengel, que realizou a ttadução inglesa da obra,
indica-se a incidência da nomenclatura de Meynert nesse estudo freudiano
e mesmo no discurso psicanalítico em geral, na medida em que, através
de Meynert, se produziu uma mudança crucial de sentido do pensamento
de Jackson ~a obra d~ Freud.30 Enftm, apesar da incidência importante da
leitura de Jackson no pensamento de Freud. o estudo sobre as afasias já
indicaria o rumo decisivo assumido pelo discurso freudiano.
Finalmente, nos des locando agora do campo da neurologia para o da
lingüística e da filosofia, podemos sublinhar que para R. Jakobson o
ensaio de Freud poss ibilitou uma outra leitura sobre as afasias e a lingua-
gem,31 retomando assim em outro nível a leitura de Goldstein no registro
da filosofia da linguagem. Nwna perspectiva diversa, para Forrester o
ensaio sobre as afasias foi fundamental para que Freud pudesse constituir
uma experiência clínica fundada na palavra e para criar uma modalidade
de ..cura pela palavra...32
Assim, existe mtanimidade sobre a importância do ensaio freudiano
. sob~ as afasias para a renovação da investigação neurológica e lingüística
.e para a constituição da psicanálise. Porém, no que se refere à constituição
do saber psicanalftico, os argumentos desenvolvidos sobre a relevância
do ensaio são divergentes, conttapondo os que retomam a obra numa
perspectiva estritamente biológica e os que realizam uma leitura na
perspectiva hennenêutica. Evidentemente, essa oposição se deve a dife-
rentes modelos epistemológicos de fundamentação do discurso freudiano.
O primeiro modelo conside~ria a psicanálise como fundada na biologia,
enquanto o outro a vê como um saber da interpretação. É preciso ressaltar
que numa perspectiva histórica existe wn deslocamento marcado da
hegemonia da leitura biológica para a leitura hermenêutica do ensaio
freudiano sobre as afasias, de forma que nesse registro se encontram os
comentários provenientes dos campos da psicanálise, da lingüfstica e da
filosofia.
Para avaliarmos devidamente a relevância teórica desses diferentes
comentários sobre o magistral ensaio de Freud, é preciso considerar agora
alguns tópicos centrais desse escrito. Para isso é preciso antes destacar
uma questão crucial de caráter teórico e metodológico, isto é, corno inserir
um escrito neurológico na leitura do saber psicanalítico, contrariando
inclusive as próprias intenções de Sigmund Freud.
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 4S

li/. Escritos neurológicos e psicanallticos


Por exigência fonnal de Freud. seus trabalhos do período neurológico não
deveriam se inserir nas ..obras completas", onde deviam constar apenas
os textos psicanalíticos. Em função dessa proibição, seus escritos foram
classificados em pelo menos dois grandes grupos: os pertencentes ao
período ne urológico e os do período psicanalítico. Os textos que se
· inscrevem no denominado período neurológico não são homogêneos, se
considerarmos o método e o campo de investigação em pauta, e merece-
riam ser sulxlivididos em diferentes agrupamentos segundo seu alcance
clínico ou experimental. Contudo, mesmo considerando a oposição neu-
rologia/psicanálise, os escritos sobre a cocafna33 não se ajustam em
quaisquer desses dois grupos teóricos, tendo uma referência outra que a
rigor não é de ordem neurológica, pois é uma investigação no campo da
fannacologia clínica e que se constituiu particularmente como um estudo
pioneiro no campo da psicofarmacologia.34
Se Freud estabeleceu essa diferença formal e teórica entre seus textos,
baseando-se nos territórios então estabelecidos do saber e procurando
destacar a originalidade da psicanálise como tal, a tradição psicanalftica
repetiu essa partição e interdição freudiana, não editando os escritos
anteriores à constituição da psicanálise nas denominadas ..obras comple-
tas ·· de Sigmund Freud. Assim, a publicação da Standard Edition em 1966,
como comemoração atrasada do centenário de nascimento de Freud, tem
como título a referência às ..obras psicológicas completas...
Esse título é uma fonte inesgotável na produção de outros equívocos,
multiplicando em muito os efeitos da separação entre escritos neurológi-
cos e psicanalíticos e provocando uma inflexão semântica decisiva na
delimitação do c.ampo psicanalítico. Com essa denominação e interpreta-
ção a psicanálise é identificada à psicologia, como se fossem saberes da
mesma o rdem teórica, isto é, a psicanálise é considerada como uma
província e uma espécie do Estado-gênero psicologia.
Essa leitura do discurso freudiano foi marcada pela hegemonia que a
psicologia do ego exerceu no campo psicanalítico nos anos 50, quando
colocava a psicanálise no território da psicologia geral. Ness a perspectiva,
os conceitos rnP!.apsicol(,· ::os foram inseridos no contexto de wna teoria
geral da adaptaçáo e a experiência psicanalítica foi considerada como um
processo de adaptação do individuo às c:..i~ c u...: ias normativas do espaço
social. Certamente, o tradutor Strachey não pertence estritamente ã tradi-
ção da psicologi.a do ego, mas à tradição inglesa da psicanálise norteada
por M . Klein. Sua tradução para a lfngua inglesa do conjunto das obras
de Freud e o titulo que lhe atribuiu indicam o efeito da hegemonia da
46 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtTICA

psicologia do ego na psicanálise, no contexto histórico em que se realizou


a tradução. Tradução que, em linhas gerais, revela as escolhas cientificis-
tas que orientaram a leitura dos conceitos metapsicológicos, como já
assinalaram diversos comentários.3'
Além disso, a leitura materializada no lftulo introduz um equívoco
conceitual básico na interpretação do discurso freudiano, isto é, supor a
separação entre o registro corporal e o registro psíquico na fundação
do saber psicanalídco. Com isso, pensava-s e que o discurso freud iano
se constituíra como psico logia pela eliminação da dimensão corporal
do sujeito. o corpo considerado como um resíduo indesej ável e o
psiquis mo figurado como um sistema de adaptação possível ao espaço
social.
Uma das inovações te<iricas fundamentais do discurso freudiano foi
. considerar, como suporte e um dos fundamentos originários do chamado
"aparelho psíquico" , o regis tro corporal. Este, no entanto, não mais como
organismo biol6gico, mas como corpo pulsion(Jl. Foi, portanto, a preocu-
pação teórica em romper com uma psicologia imelecrualista, restrita ao
campo da consciencia, e com wna psicologia mecanicista, no qual o
psiquismo se restringe a ser um mero epifenôm eno do corpo biológico,
que orientou a reflexão freudiana na constituição do saber psicanalítico.
Por isso mesmo, a pulsão (Trieb) é o conceito fundamental da meta-
psicologia freudiana , não fazendo pane nem da ordem do somático nem
da o rdem do ps íquico, mas défuúda como um ··conceito limite", pois
realiza a mediação entre esses diferentes registros da existência.36 Foi a
partir do conceito de pulsão que os demais conceitos metapsicológicos
foram construídos, na medida mesmo em que a pulsão ocupa a posição de
fundamento na axiomática freudiana.
A pulsão como conceito tem uma dupla representação, como força
( Dra11g) e como representação propriamente dita (Vorste/lung)-3 7 Esta
dualidade que se unifica no conceito metapsicológico de pulsão indica a
problemática constitutiva da pesquisa freudiana, que procurou articular
as dimensões corpórea e reprcsentacional na constituição do ··aparelho
psíquico" . Daí Hyppolite formular que exi:;tia no discurso freudiano
uma tentativa de articular uma filosofia da natureza e uma filos ofia do
espirito.·' 8
O corpo pulsional, todavia, não é o corpo somático, senão o conceito
de pulsão se reduziria ao conceito de instinto (Jnsrin/a), equívoco que
Freud nunca cometeu, mas que foi empreendido de maneira sistemática
por vários de seus disdpulos, comentadores e tradutores. Portanto, a
pulsão é o sexual e um dos fundamentos da sexualdiade, sendo "exigência
de trabalho.. da força na ordem simbólica e ao mesmo tempo não se
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 47

restringindo ao universo da representação. Enf1m, apesar de se in.-.crever


no campo das representações, a pulsão não se funda na ordem da repre-
s:entação.l9
Retomar 805 escritos iniciais de Freud, por e le interditados para
publicação em suas '"obras completas .. e contrariar então seu desejo,
ímplica retomar 05 primórdios da psicanálise e surpreender a linha da
pcsq"uisa freudiana em estado nascente. Assim, desde seus primórdios o
discurso freudiano procurou articular oo registros co rporal e representa-
cional de forma específica, procurando superar os impasses teóricos da
psicologia da consciência e da psicologia mecanicista de base neurológi-
ca. A leitura de alguns dos escritos neurológicos, portanto, é fundamental
para elucidar a constimição do saber psicanalítico, pois são textos que já
indicam as opções teóricas que conduziram Freud à psicanálise.
Dentre esses escritos o ensaio sobre as afasias ocupa um evidente
lugar de destaque, pois não apenas ali a linguagem, além de questão
central, foi o ponto que permitiu ao discunlO freudiano se desviar dos
impasses da psicologia da con.c;ciência e da psicologia de base neurológi-
ca, de fo rma a conceber uma outra forma possível de articulação :entre os
registros do corporal e da representação.

TV. Corpo, psiquismo e linguagem


Freud atribuía grande destaque ao estudo sobre as afasias em sua trajetória
intelectual, como parte de seus estudos nos campos da anatomia do
sistema nervoso e da neurologia. Assim que concluiu sua redação, já
manifes tava a Fliess, numa carta de maio de 1891, a alegria em tê-lo
realizado, como que prevendo s ua import.ància teórica:

Em algumas semanas, terei o prazer de lhe fazer chegar um artigo sobre


a afasia que redigi com ba.staJite entusiasmo. Eu me mostro multo
ousado em cruz.ar com seu amigo Wernicke e ram"'m com Lichtheim e
Grashey. Eu até arranhei o sacrossanto ponrfjice Meynen. Estarei
muito curioso de saber sua opinião sobre este trabalho. Suas relações
preferenciais com o autor lhe permitirão reencontrar aí sem surpresas
algumas idéias que lhe são conhecidas. Alitis, elas sàtJ mais sugeridas
que desenvolvidas.•0

Portanto, a euforia de Freud ceotra-sc inicialmente em sua "ousadia··


em ultrapassar as fronteiras do saber neurológico, instituído na tradição
universitária, principalmente pelos teóricos de Ungua alemã: Wem.ík.e,
48 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

Meynert, Licht.heim e Grashey. Nesse estudo, caracteriza-se uma ruptura


teórica no campo da neurologia pela proposição de uma concepção
funcional da afasia, que passaria então a regular a concepção tópica
dominante. Assim, o discurso freudiano estaria invertendo a relação
estabelecida entre 05 registros funcional e tópico, onde o registro
funcional ocuparia a posição de dominância face ao registro tópico. Ao
mesmo tempo, Freud estaria realizando uma ruptura pessoal com seu
passado.
Com a realização desse estudo Freud se encontra no limiar de um
recomeço, no campo da teoria e no de sua existência pessoal, onde esses
diferentes registr05 se articulam intimamente na transformação de seus
referenciais de mestria. Dal o estudo sobre as afasias ter como subtítulo
''um estudo critico", materializando a ruptura freudiana com o pensamen-
to neurológico estabelecido na instituição universitária, a ruptura com
a psicologia mecanicista de base neuto-anatôm.ica e anunciando simul-
taneamente a ruptura com a psicologia intelectualista centrada na
consciência.
Esse recomeço teórico de Freud é marcado fundamentalmente por sua
nova relação de mestria com Charcot e Bemheim, através dos quais ele
se aventurara nas recentes investigações sobre a histeria, em que a hipnose
e a sugestão eram os instrumentos técrucos privilegiados para a pesquisa
e para o tratamento, visando a elucidação dos enigmas colocados pela
hlsteria. Apesar de ser evidente a diversidade teórica das concepções de
Cbarcot e Bemheim sobre a histeria e a leitura que empreendiam de seus
respectivos insuumentos t.e rapêuticos, ambos os autores destacavam de
forma explícita e implícita a importância da linguagem no processo de
cura dos sintomas histéricos e o seu enquadre se centrava na relação da
figura do paciente com a figura do terapeuta.
Podemos acompanhar a relação de mestria de Freud com esses teóri-
cos não apenas por meio de sua viagem de estudos a Paris, onde trabalhou
com Cbarcot, e por suas visitas repetidas a Bemheim na Suíça, para
observação de seus procedimentos terapêuticos, mas também pelos múl~
tiplos artigos dedicados ao estudo desses autores, n05 quais realizou a
reflexão critica da hipnose e da sugestão, procedimentos por eles empre-
gados. Devemos evocar também as diversas traduções que fez de alguns
desses text05 para a língua alemã.41
Entretanto, ao lado da incorporação das inovações teóricas fornecidas
por esses autores para a investigação da histeria, existia o discurso crítico
de Freud sobre seus conceitos fundamentais. O que nos revela que estava
em vias de constituir um outro campo do saber fundado nessa crítica. A
propósito, o conceito de "lesão dinâmica" formulado por Cbarcot, para a
A UNGUAGEM NA CONSTm.JIÇÁO DA PSICANÁLISE 49

.explicação teórica da ausência de alterações anatõmicas na histeria, foi


criticado por Freud, pois com isso ainda se mantinha, em algum nível, a
relação da histeria com a referência tópico-anatômica. Da mesma forma,
a formulação central de Bemheim de que a histeria se centrava na
sugestão, e de que tudo era sugestão no funcionamento mental, recebia de
Freud a seguinte indagação cética: se tudo é sugestão, então o que afinal
sustenta a sugestão7
A ruptura teórica de Freud com a tradição neurológica, fundada em
sua investigação da histeria, é importante ser destacada, na medida em
que explícita algumas nuances metodológicas fundamentais que perpas-
sam o ensaio sobre as afnsias. AI é delineado o campo da linguagem pela
contraposição entre linguagem espontânea e linguagem automática, sen -
do esta última também denominada linguagem imitativa e linguagem
repetitiva, para ressaltar que a teoria localizacionísta da afasia se fundava
num campo experimental que considerava somente a existência da lingua-
gem automática e não da linguagem espontânea. 42 O que implica que a
investigação neurológica de então trabalhava com uma concepção de
linguagem na qual esta não era devidamente considerada em sua dimensão
de invenção, que se funda em sua dimensão de discurso. Portanto, foi com
a investigação da histeria que Freud pôde elaborar uma outra concepção
de linguagem, na qual o registro da Jinguagem espontânea passa a ocupar
inequivocamente a p05ição de dominância em relação ao registro da
linguagem automática. Dessa maneira, a linguagem foi representada por
Freud como discurso, numa dimensão dintlmica, como interlocução do
sujeito com o outro, e não em sua dimensão estática.
O ensaio sobre as afasias, portanto, já é um ensaio freudiano, como
formulou Bemfeld com muita perspicácia, pois já prefigura a psicanálise
e os primórdi05 do saber psicanalítico, na medida em que algumas das
condições de possibilidade do novo saber já se encontram em sua estrutura
teórica. Por isso mesmo, é dedicado a Breuer, com quem Freud se asso-
ciara na investigação da histeria no projeto teórico da cura catártica, que
teve seus resultados teórico, clínico e experimental apresentados em uma
obra conjunta publicada em 1895.43 A investigação da histeria pela cura
catártica já é no entanto uma crítica rigorosa das perspectivas teóricas de
Cbarcot e Bernheim, inaugurando uma nova leitura da histeria que inevi-
tavelmente conduziria â constituição da psicanálise. Não é um acaso,
certamente, que o ensaio sobre a afasia seja a última das obras dedicadas
por Freud a um de seus mestres, pois a partir de então ele falará em nome
próprio, na primeira pessoa, pela constituição de um novo campo de
autoria denominado psicanálise, onde a mestria de seus predecessores foi
simbolicamente superada.
50 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAÜJICA

Apesar da evidente euforia em questionar os "pontifices" da neuro-


patologia alemã, justamente os seus mestres, Freud considera seus argu-
mentos apenas ..sugeridos·· e não ..desenvolvidos... De fato, tais argu-
mentos não representaram :;enão wn ponto de partida para se repensar as
relações entre os registros do corpo e do psiquismo que conduziram ao
saber psicanaUtico. Evidentemente, a articulação rigorosa dessas relações
exigirá ainda de Freud um conjunto de novas elaborações teóricas e
clínicas ao longo da última década do século XIX, mas a rota decisiva já
se encontra aqui rigorosamente esboçada, na forma critica da leitura sobre
as afasias.
É nessa perspectiva que interpretamos a investigação de Freud sobre
as afasias como o passo inaugural e decisivo na constituição do discurso
freudiano. Mediante essa leitura crítica, foram representadas, por um lado,
uma nova modalidade de relação entre os registros do corpo e do psiquis-
mo e, por outro, moa nova relação entre o psiquismo e a consciência. Com
efeito, foi pela atribuição de wn lugar fundanle para a linguagem na
constiruição do psiquismo que a posição da consciência pôde ser descen-
trada pela psicanálise no registro do psiquismo. Foi nesse novo espaço
teórico, reconstituído por novas coordenadas, que o conceito de incons-
ciemc púde se constituir e encontrar a s ua posição teórica, como a forma
primordial de existência do psiquismo, desalojando, portanto, o lugar
conferido até então ao campo da consciência nas tradições da psicologia
e da psicopatologia.
Daí Freud ter sempre atribuído uma grande importância teórica a seu
estudo, apesar de interditar sua publicação nas ''obras completas... Três
anos depois de tê-lo concluido, Freud lamentava a Fliess que algumas de
suas obras neurológicas que significavam muito pouco para ele tivessem
um grande impacto na literatura especializada, enquanto o ensaio sobre
as afasías que tanto valorizava era fadado ao esquecimento e mesmo à não
existência:

Há uma desproporção ridícula entre a !déia que se tem de seu próprio


trabalho intelectual e a maneira como os outros a julgam. Assim, o livro
sobre as diplegias que redigi tomando fr,agmentos de vários lugares, me
interessando por ele tão pouco quanto possível e não lhe consagrando
senão um mínimo de esforço - o que era quase descarado da minha
parte - obteve um enonne sucesso! Os críticos se mostraram satisfeitos
e as revistas francesas, em particular, fiZeram um grande elogio. Acabo
de receber um livro de Raymond, o sucessor de Charcot, que se contenta
em reproduzir meu texto, no capítulo consagrado à questão, naturalmen-
te com uma menção elogiosa. Mas. para os trabalhos verdadeiramente
interessantes, tais como a "Af~ia", "As idéi~ obsessivas", que está
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 51

para ser publicado, e o próximo "Etiologia e teoria das neuroses", não


espero senão um honroso fracasso. Existe ai algo para se desconcertar
verdadeiramente e se encher de amargura ___'"

Essa importância atribuída por Freud ao ensaio sobre as afasias, no


contexto de seus escritos neurológicos, apenas se justifica pelo encami-
nhamento teórico e metodológico nele realizado, que o diferenciou
significativamente dos demais escritos neurológicos no que conceme à
constiruição da psicanálise. Retomando em novas bases as relações entre
os registros do corpo e do psiquismo pela mediação da problemática
da linguagem, Freud estava não apenas questionando o dualismo car-
tesiano entre o corpo e o psiquismo, como também colocando decisi-
vamente em questão a identidade conceitual entre o psiquismo e a
consciência.

V. Uma linha freudiana de pesquisa teórica


Poder-se-ia pensar que esta leihlra freudiana se restringisse apenas ao
ensaio de 1891 sobre as afasias, estreitando, assim, o alcance da ruptura
teórica implicada na interpretação critica da tradição neurológica. Não é
absolutamente o caso, se considerarmos não apenas os efeitos teóricos
dessa linha da pesquisa na produção histórica do saber psicanalítico, mas
também como, na proximidade histórica de sua leitura das afasias, Freud
já postulava teses que desenvolveu fartamente em seu ensaio de 1891.
Com isso, podemos inferir que Freud repensara de maneira sistemática as
mesmas questões e reaiizara sua leitura em diferentes contextos, indican-
do a existência de uma linha teórica de pesquisa, constituiu posteriormen-
te o saber psicanalítico.
Com efeito, se no ensaio de 1891 a questão das afasias foi tematizada
de forma abrangente e sistemática, esse não era o único texto de Freud
desse período que abordava o assunto. Existem dois outros textos, pelo
menos, ainda sobre a questão das afasias, que são certamente de menor
fôlego teórico, mas onde algumas questões primordiais foram desenvol-
vidas na direção que apontamos anteriormente.
Um pequeno artigo sobre as. afasias foi publicado por Freud, em 1888,
no ..Manual de Villaret...45 Em 1897~ o tema foi novamente abordado no
contexto de um escrito sobre •• A paralisia cerebral infantil•• .•6 Nesses dois
textos Freud criticou a concepção lesional e loc.alizacionista das afasias,
e formulou algumas teses fundamentais:
1. A afasia é uma doença psiquica;•1
52 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

2. Esta enfermidade psíquica não está articulada necessariamente a


uma perturbação da inteligência, sendo esta última alteração um efeito
possível e uma complicação da afasia, mas não uma perturbação
primordial;••
3. Além disso, considerando a distinção entre a linguagem TUJtural
(emocional), a linguagem gestual e a linguagem articulada (artificial), é
esta última a mais comprometida na afasia. pois é a que é mais tardiamente
adquirida pelo homem em seu aprendizado; 49
4. Estas várias teses convergem para uma interpretação primordial da
afasia, na medida em que invertem a leitura neurológica dominante, na
qual não se analisava devidamente o ser da linguagem em seu funciona -
mento normal mas somente no campo da patologia, com a conseqüência
metodologicamente inevitável de não se delinear o campo lingüístico e
psicolingüfstico da linguagem. Porém, Freud inverte esse esquema de
leitura, formulando que as perturbações afásicas só podem ser explicadas
oa medida em que se considerar como paradigma teórico o desenvolvi -
mento normal da linguagem. O que implica dizer que, para além da
inversão entre o normal e o patológico que Freud introduziu para a
constituição do campo psicanalftico na esteira de Claude Bemard, o
que é apontado aqui é a necessidade de se conceber o que é o ser da
linguagem para poder se interpretar a patologia da linguagem e das
afasias.'0
A conseqüência necessária desse conjunto de formulações é a con- .
cepção teórica apresentada no artigo introdutório sobre as afasias, em que
Freud enuncia a existência de uma área da linguagem, de caráter anáto-
mo-funciooal, sem centros absolutos de localização das funções, como se
formalizava eolão nas leituras de Wernicke e Lichtheim.3 1 Nll caracte-
rização anatômico-funcional da área da linguagem é a dimensão fim-
cional da interpretação teórica que é dominante face à dimensão ana-
tômica.
Finalmente, foi a inversão teórica e metodológica desenvolvida nesse
.. estudo critico"' que permitiu a Freud constituir o conceito central do
ensaio, que é o conceito de apare! ho de linguagem,~2 categoria primordial
de onde derivou posteriormente o conceito psicanalítico de aparelho
psíquico.

VI. Do elementarísmo da linguagem ao realismo do sentido


No ensaio sobre as afasias, esta~ diferentes teses fundamentais foram
rigorosamente desenvolvidas, desdObrando-se ali mesmo eoi teses inova-
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 53

doras, de fonna que sua escritura se constitui numa trama complexa de


interpretação da linguagem, diferenciando-se assim de maneira marcante
do artigo que lhe antecedeu e daquele que lhe sucedeu.
De estilo eminentemente teórico, nele Freud não apresenta novas
observações clinicas para se contrapor às obsetvações existentes no cam-
po clínico das afasias, mas formula outra interpretação teórica baseada
nesse novo campo experimental. Pelo contrário, Freud afirma perempto-
riamente na primeira linha que não vai introduzir " no vas observações
pessoais.. ,33 mas empreender uma ''leitura crftica" das investigações
existentes a fiDl de examinar seus pressupostos teóricos, destacar suas
contradições e seus impasses, pretendendo assim determinar as condições
de possibilidade de uma outra leitura das afasias. Com isso, uma leitura
minuciosa da produção teórica então existente nesse campo intelectual foi
feita, contrapondo os fundamentos das diferentes teorias dos oeuropato-
logistas, delineando as contradições existentes entre as teorias e o recen-
seamento clínico das afasias, para formular fmalmente uma teoria das
afasias fundada na ordem da linguagem.
A direção inicial do ensaio freudiano é a crítica sistemática da
concepção Iocalizacionista das afasias que era então dominante no campo
da oeuropatologia,"' a que se segue a crítica de uma concepção eminen~
te mente funcional,·" para somente então formular a necessidade de uma
teoria análomo-foncional das afasias, onde o registro funcional fosse a
instância reguladora do registro anatômico, de forma a produzir uma
in~ersão o~ concepção begemõnica no campo da neuropatologia. Nessa
le1tura críllca, Freud pôde enunciar alguns pressupostos teóricos sobre o
ser da linguagem e sua relação com o psiqUismo, vinculando-se, então, às
mais recentes inovações do campo neurológico (H. Jackson), em oposição
aos autores dominantes no campo da neuropatologia alemã (Wernicke e
Meynert).
Para sublinbar a relevância da leitura de Freud das afasias é necessá -
rio compreendê-la em seu contexto histórico e em seu campo intel~tual
. .
po1s a ~nas assun os seus argumentos e a sua critica podem revelar argúcia
'
e seoudo. Antes de mais nada, é preciso considerar que a questão das
afasias foi wn lugar estratégico de encontro de um conjunto de discursos
teóricos no final do século XIX -a neuropatologia, a filosofia, a psico-
logia e o estudo da linguagem - que procuravam por métodos diferentes
delinear os contornos do problema ..56 Cassirer re(X)nbeceu, em sua Filo-
sofia das formos simbólicas,'1 que o estudo da afasia teve a contribuição
dessas diversas disciplinas, de onde se constituíram diferentes ordens
de conceitos.· Além disso, desde a década de 1870, a afasia não era
somente uma entre as diferentes questões a serem tematizadas no
54 ENSAIOS DE TEOIUA PSICANALITJCA

campo das pesquisas sobre a linguagem, mas era a queslão fundamental


com que diferentes saberes procuravam delinear o que era a linguagem e
o seu fun cionamento."
O ensaio de Freud teve o mérito teórico não apenas de transpor as
barreiras da neuropatologia e indicar como a interpretação das afasias
implicava necessariamente uma teoria da linguagem, como também de
sublinhar como a releváncia conferida à linguagem no campo dos saberes
sobre o psíquico subvertia o dualismo cartesiano do corpo e da alma,
provocando com isso uma nova concepção do psiquismo. Por isso mesmo,
para Forrester, foi ..um dos primeiros ensaios visando avaliar todo o
alcance desse problema ...' 9 Somente depois do ensaio de Freud surgiram
o utros trabalhos importantes que destac.aram a importância -crucial da
afasia no campo de pesquisa sobre a linguagem,60 como o de Bergson na
proximidade histórica de Freud e que a este se refere,6 ' e posteriormente
as leituras sistemáticas de Jakobson e Cassirer.
Assim, quando Freud se voltou para a investigação das afasias, este
era um terreno recente de pesquisa, iniciado na neuropatologia há apenas
ttlnta anos, com a descoberta realizada por Broca. Este circunscreveu a
primeira modalidade c línica da afasia, que denominou de afasia motora,
articulando-a a uma lesão localizada na terceira circunvolução' frontal
esquerda.lll Portanto, Broca inseriu na ordem de espaço, na estrutur~
anatômica do cérebro, uma função psíquica complexa que se desenvolve
na ordem do tempo, reduzindo o ser da linguagem a uma emanação
cerebral, definindo uma teoria localizacionista das funções mentais e
impondo uma dir~ão de pesquisa que dominou durante muito tempo os
estudos neurológicos e psicológicos.
Treze anos depois, Wemicke consolidou o caminho metodológico
entreaberto por Broca no campo da neuropatologia, ao publicar em 1874
"O cqmplexo sintomático da afasia ••. Assim, pôde descr~ver uma nova
modalidade clínica da afasia., denominada afasia sensorial, e que seria
produzida pela lesão localizada na primeira circunvolução temporal es-
querda.6'
Porém, baseando-se no mesmo pressuposto locaüzacionista, Wernick
complexificou o esquema teórico das afasias, ao propor & existência de
uma terceira modalidade clínica que denominou de parafasia. Esta não
seria caracterizada anatomicamente, isto é, não seria causada pela lesão
dos dois centros de linguagem acima referidos, mas pela disfunção das
vias de condação entre os centros temporal e frontal da linguagem. Após
a descoberta de Wenúc ke existiriam portanto três formas clínicas da afasia
- sensorial, motora e a parafasia - , em que as duas primeiras seriam
dire tamente ligadas aos centros da linguagem e a última às vias de
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE ss
condução. Assim, as duas primeiras modalidades de afasia seriam de
ordem lesional em s ua materialidade anatômica e a última de ordem
funcional.~
A investigação de Wernic k se desdobrou na pesquisa de seu discfpulo
Licbtheim, que se pautou pela mesma lógica teórica do mestre, isto é, pela
oposição entre os conceitos de centro de linguagem e de vias de conC:ução.
Porém, lransformou o esquema de Wernick numa cartografia cerebral
mais complexa, destacando outros centros de localização da linguagem e
novas vias de condução, de forma a consubsta.nciar topicamente sete
modalidades clfnicas de afasia.63
Nes te momento de nosso percurso é preciso destacar alguns pontos
centrais que se encontram presentes nesta linha de investigação. A primei-
ra questão se refere ao efeito teórico que teve a descoberta de Broca e o
seu desdobramento no campo da investigação em neuropatologia, isto é,
na forma de representação teórica do sistema nervoso presente nessa
concepção da afasia. A segunda questão, para nós a mais importante, se
refere à relação entre os registros do corpo e do psiquismo que se encontra
representada nessa tradição da neuropalologia. Finalmente, uma terceira
questão se apresenta, pois sem dúvida alguma existe nessa leitura das
o afasias uma conapção elementarista da linguagem intimamente ligada à
concepção localh.acionista das funções mentais.
Assim, a descoberta ~ Broca de um centro nervoso como suposto
o

material para uma função psíquica superior definiu uma direção eminen-
temente tópica para as investigações no campo da neuropatologia, pois
conferiu consistência empírica à hipótese anatômica face à hipótese
funcional. Estas interpretações, como teorias oponentes, disputavam a
hegemonia na pesquisa sobre o sistema nervoso desde as primeiras déca-
das do século XIX. As perspectivas teóricas no campo da neuropatologia
oscilavam e ntre os paradigmas de Gall e de Flourens, investindo o
primeiro numa interpretação estritamente locaHzacionista das funções
psíquicas e o segundo na crítica ao localizacionismo estrito das funções
mentais.
Desde Gall, a frenologia poStulava a localização cerebral estrita das
diferentes funções mentais, de forma a es~belecer uma minuciosa carto-
grafia cerebral das funções psíquicas elementares e superiores.66 As fun-
ções mentais superiores que se realizam na ordem do tempo se materiali-
zariam na estrutura cerebral. de forma a se reduzirem à ordem do espaço.
No registro cUnico, o discurso frenológico constit1úu um método semio-
lógico de leitura das faculdades mentais, pelo qual s e inferia o maior o u
menor desenvolvimento das diferentes áreas cerebrais, considerando o
crescimento ósseo diferencial do crânio, de maneira a poder deduzir a
ENSAIOS DB TEORlA PSICANALITICA

evolução das diferentes faculdades mentais.67 Hegel incluaive ironizou o


mecanicismo biológico da leitura de Gall, na Enciclopédia das citncias
filos6ficas e em A fenomeMlogia de espfrito, ao afll11W' que o diSCUl80
frenológico pretendeu reduzir "o espírito ao osso" .68
Em contrapartida, a hipótese funcional formulava que a massa netvo-
sa seria eqllipotencial para qualquer das funções psíquicas, não existindo
pois uma relação estrita enlre áreas cerebrais determinadas e funções
específicas, mas múltiplas possibilidades tópicas para o exercício de
diferentes funções mentais. r» Evidentemente, essa concepção se fundava
numa hipótese teórica abrangente sobre a relação do corpo e do psiquis-
mo, na qual não existiria relação biunívoca entre a locaüzação anatómica
e a função, e também na evidência clínica de que certas funções nervosas
não eram abolidas após certas lesões de suas supostas Iocaüzações anatô-
micas.
Assim, com a descoberta de Broca de um centro cerebral da lingua-
gem se estabeleceu pela primeira vez, de forma clínica e experimental, a
localização anatômica de uma função psíquica superior, o que anterior-
mente não passava de mera especulação baseada em dados experimentais
inconsistentes. Com essa descoberta fundamental a hipótese tópica passou
a ter a hegemonia teórica no campo da neuropatologia, de forma a reduzir
mecanicamente as funções psíquicas à estrutura anatômica do cérebro,
transformando, então, um ser inscrito na ordem do tempo num ser inserido
na ordem do espaço, numa função psíquica fundamental como a da
linguagem.
Essa linha de pesquisa tinha não apenas uma concepção eslrita sobre
as relações entre os registros do corpo e do psiquismo, mas também uma
concepção específica sobre o ser da linguagem. Na leitura desenvolvida
por Wemick e Licbtheim as funções básicas do psiquismo e da linguagem
eram localizadas anatomicament.e, o que não acontecia para as funções
psíquicas e lingüisticas superiores.70 Vale dizer, no caso da linguagem, os
sons que compõem as palavras e a articulação motora da linguagem
presente no ato da fala teriam localização cerebral eslrita, o que não seria
o caso dos conceitos e da linguagem mais elaborada, que se constituiriam
por composição associativa a partir dessa base primordial.
Essa linha de pesquisa se fundava numa concepção e lementarista que
representava a linguagem como uma fortDJl complexa de existência psí-
quica, mas que se constituiria inequivocamente pela associação de uni-
dades elementares. Seria a associação diversificada entre essas unidades,
por múltiplas vias reflexas, que constituiria o ser da linguagem. Com isso,
se postulava que a palavra seria a unidade básica da linguagem, sendo
esta uma mera associação de palavras.
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 51

Além disso, a concepção elementarista da linguagem está intimamen-


te articulada a uma concepção sensorialista, de maneira que as duas
concepções constituem um mesmo modelo de linguagem . Com efeito, se
as unidades elementares se precipitam nos centros da linguagem, nos
registros sensorial e motor, o pólo sensorial do sistema nervoso é a via por
e:JLcelência para a incorporação das unidades constitutivas das palavras.
Portanto, os diferentes órgãos de sentido, principalmente a visão, a audi-
ção e o tato, são as vias nervosas específicas para o aprendi:t.ado das
palavras, sendo a linguagem complexa a resultante da associação de s uas
unidades elementares.
Esse modelo teórico da linguagem permite destacar a dimensão
terceira que o sustenta e que é, ao mesmo tempo, o seu desdobramento.
Isso quer dizer que existe uma teoria realista e empirista do conhecimen-
to, correlato desse modelo lingüístico, que se desdobra numa concepção
realista da significação. A linguagem seria uma cópia eslrita das coisas,
construindo ipse /itere o universo das coisas a partir de suas propriedades
e qualidades elementares, que seriam regislradas pelos centros cerebrais
nos pólos sensorial e motor.
Foi a concepção localizadonista da linguagem e do psiquismo, com
todas as derivações que procuramos delinear em seu modelo teórico, o
ponto de partida da leitura critica empreendida por Freud em seu ensaio
sobre as afasias. Com efeito, em sua leitura dos escritos da neuropatologia
Freud procurou fundar uma conceP9ão funcional da linguagem, na qual
esta pudesse ter uma autonomia relativa face aos centros cerebrais, de
maneira que na relação dialética entre tópica e função, a função deteria a
dominância do processo, sem prescindir, entretanto, de materialidade
anatõmica de forma absoluta. Ponanto, a teoria proposta no discurso
freudiano é de ordem funcional -tópica, com a ordem da linguagem tor-
nando-se relativamente autônoma do registro anatômico.
É nessa perspectiva que podemos s ituar a crítica freudiana ao modelo
funcional da leitura da afasia, elaborado por Grashey, na medida em que
Freud procurou, na economia interna de seu ensaio, contrapô-lo tatica-
mente ao modelo localizacionista a fun de retirar o seu rendimento teórico
para a demolição das proposições estritamente tópicas, para em seguida
destacar suas impossibilidades. que se centravam nos impasses em se
desligar inteiramente do registro tópico.71 Em função disso, a síntese entre
os pólos tópico e funcional da pesquisa da linguagem foi atingida por
Freud pela dominância do segundo pólo. Nessa nova síntese a anatomia
não ficou mais reduzida aos cenlJ'oS elementares da linguagem, como em
Broca, Wemicke e Uchtheim, mas foi apresentada como um conjunto
articulado de estruhU'as tópicas denominado de área da linguagtm. 72
58 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

Assim, foi pela via teórica de superação da hipótese localizacionista


pela hipótese funcional, mas circunscrevendo a existência de uma área da
linguagem, que Freud postulou o conceito fundamental do seu ensaio que
é o de aparelho de linguagern,73 genealogicamente o ponto de partida do
que se transfonnou depois em aparelho psíquico, no contexto da teoria
psicanaHtica. Quanto a isso é preciso sublinhar, antes de mais nada, que
a idéia de um aparelho de linguagem indica, pela palavra aparelho
escolhida para designá -lo, além de uma denominação médica, uma con-
cepção totalizante e holista do ser da linguagem que se contrapõe funda -
mentalmente à concepção elementarista dominante no modelo localiza ..
cionista. Foi nessa direção teórica que se orientou a pesquisa de Freud,
mesmo quando não conseguiu se descartar inteiramente dos signos e das
denominações da teoria elemenlarista. É essa versão holista do ser da
linguagem que regula a leitura critica de Freud do modelo localizacionista
e element.arista que pretendemos destacar em seguida.

VII. Linguagem, corpo e representação


A crítica fWldamental empreendida por Freud à concepção localizaciorus-
ta da linguagem seria a de que não se poderia depreender nela qualquer
diferença entre a linguagem repetitiva e a linguagem espontânea." Assim,
a crítica freudiana não se centra apenas no campo específico da neuropa-
tologia, mas transcende esse campo do saber visando aquilo que deve
pressupor a pesquisa da afasia, que é o ser da linguagem. Freud pôde
formular assim que a concepção elementarista, associacionista e senso-
rialist.a poderia dar conta da linguagem, caso esta se restringisse à dimen-
são repetitiva. Porém, a dimensão repetitiva não constitui a totalidade da
linguagem, nem o seu registro mais importante, visto que é a criatividade
de novos sentidos e a elaboração de novas formas semânticas que defmem
o essencial no ser da linguagem. Então, a linguagem não realiza apenas
uma mera função de informação e de codificação do que se processa no
universo das coisas, pois tem, além disso, uma função expressiva e de
construção dos objetos, que transcende o simples registro passivo das
variações que se processam no universo das coisas. Uma nova forma de
articulação entre o registro da linguagem e o registro do corpo foi o passo
decisivo de Freud para que se pudesse representar um outro horizonte
possível para o ser da linguagem.
Se Freud não possui ainda uma teoria do sujeito nesse momento de
seu percurso teórico, sendo não apenas um exagero infundado mas mesmo
um erro teórico grosseiro atribuir tal perspectiva a seu ensaio,'j é preciso
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 59

destacar, contudo, que a critica que realizou da concepção vigente da


linguagem foi a condição de possibilidade para que pudesse se constituir
posteriormente wna concepção do sujeito, articulada ao ser da linguagem,
no discurso psicanalítico.
Ao pretender dar conta da dimensão espontânea da linguagem Freud
lança mão ainda de enunciados lógicos e lingüís~cos extraídos da tradição
empirista inglesa, de cunho elementarista e realista, e retirados diretamen-
te dos escritos de J. Stuart Mill. Assim, no sexto capítulo de seu ensaio,76
quando delineia a estrutura formal do apuelho-de linguagem, ele cita o
capitulo lii da Lógica de Stuart Mill 77 e o estudo deste sobre a filosofia
de sir William Hamilton. 78 Portanto, na construção teórica do aparelho de
linguagem e na classificação original que realiza do campo das afasias -
afasia verba/,'9 afasia assimbólica81) e afasia agnóstica' 1 - , Freud esta-
beleceu uma oposição fundamental entre as séries conceituais represen-
tação de palavra (Wortvorstellung) e representação do objeto (Objektvors-
tellung), delineadas de maneira elementarista e fundadas numa concepção
epistemológica evidentemente sensorialista.
Com efeito, a representação de palavra se constitui de uma série de
registros elementares, nos quais podemos depreender facilmente a inci-
dência dos diferentes canais sensoriais do corpo: imagem sonora, imagem
de movimento, imagem de escritura e imagem de leitura.82 Da mesma
forma, a representaçdo tk objeto se constitui também por uma série de
registros elementares, nos quais podemos destacar a incidência do
campo sensorial: representação visual, representação táctil e represen-
tação acústica.13
Na série da representação de palavra e na série da representação de
objeto existem os registros que são considerados dominantes em cada um
desses conjuntos de representações. Assim, na representação de palavra o
ponto de articulação das diferentes imagens é a imagem sonora em tomo
da qual se ordenam as demais imagens da série,.. e na representação de
objeto essa posição é ocupada pela rep"sentação visual.1'
Isso nos indica, antes de mais nada, a presença de uma idéia tk
totalidade que preside a construção de cada uma das séries de represen-
tações e aponta para a concepção de conjunto. Assim, uma das represen-
tações é destacada em cada uma das séries, no discurso freudiano, como
sendo o pólo conceitual que define a regra fundamental de construção do
conjunto. O que implica dizer que é a dimensão da escuta e o registro da
palavra/alada que defme a Concepção de liDguagem no discurso freudia-
no, e não a dimensão lógica do conceito. Da mesma fonna, no registro do
objeto, a imagem visual é a representação propriamente dita, regulando a
sua construção para o psiquismo.
60 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtrfCA

Existe todavia uma diferença fundamental entre o conjunto da repre-


sentação de palavra e o conjunto da representação de objeto, pois enquan-
to o primeiro é fechado, o segundo é aberto, de forma que a representação
de palavra remete necessariamente para a representação de objeto. O que
implica dizer que o aparelho de linguagem não é fechado no pólo da
representação de palavra mas se abre para o pólo .de representação de .
objeto, de forma que a ordem da linguagem tem uma abertura fundamental
que remete para a ordem do corpo.
Freud retomou diversas vezes o mesmo modelo no discurso da me-
tapsicologia. Assim, em A interpTf!tação dos sonhos a oposição conceitual
se mantém, mas a idéia de representação de objeto se transformou em
representaçtlo de coisa (Di118vorstellung).~ A contraposição estrutural
entre representação de palavra e representação de coisa se manteve no
percurso freudiano, de maneira que no ensaio metapsicológico ..0 incons-
ciente" a articulação entre a representação de palavra e a representação
de coisa seria a condição de possibilidade para que algo se tornasse
consciente. Além disso. nesse texto também o registro da representação
de palavra é fechado e o registro de representação de coisa é aberto, de
forma que a representação de palavra remete para a representação de
coisa,87 pólo dinâmico da estrutura p5íquica que remete para a ordem do
corpo. Já no discurso metapsicológico de 1915 a ordem do corpo se
enuncia de forma sistemática como pulsional. É ainda no ensaio "O
inconsciente•• que Freud indica os impasses teóricos colocados pelas
vertentes tópica e funcional para a fundamentação do inconsciente, ela-
borando a hipótese de que o sistema inconsciente se caracterizaria pelo
conjunto de representações de coisas e o sistema pré-consciente/conscien-
te pelo conjunto de represeota9ões de palavra.18
Que Freud utiliza as c.ategorias da filosofia empirista e pragmalista
inglesa, de base elementarista, para delinear o campo da linguagem e
encaminhar a apresentação do aparelho de linguagem, é evidente. É esse
o lugar estratégico ocupado pelas categorias desenvolvidas na Lógica e
no Exame da filosofia de sir Wílliam Hamilton de Stuart Mill na economia
interna do discurso freudiano, pois com isso a linguagem se insere na
ordem da representação. Existe no entanto a idéia de totalidade no discur-
so freudiano, que não se insere na concepção empirista, de maneira que a
lingua~m seria não apenas uma forma de representação mas também um
sistema de totalização (aparelho) de representações, o que inscreve num
o utro contexto a incidência da filosofia de Stuart Mill sobre o discurso
freudiano. Podemos depreender neste ponto talvez a inflexão do ensino
de Brentano, já que entre 1874 e 1876 Freud assistiu a seus cursos de
filosofia,19 ao que parece sobre ..Lógica" e sobre ..A filosof1a de Aristó-
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁUSE 61

teles" .90 Então, a lógica holista que regula a leitura freudiana sobre a
linguagem remete para um outro sistema teórico de referência, de forma
que o discurso freudiano já é uma crítica da concepção elementarista e
sensorialista da linguagem, apesar de ainda usar os termos da filosofia
pragmatista e utilitarista.
Considerar a linguagem como um sistema de representação das coisas
e do corpo foi a grande inovação teórica introduz ida pelo ensaio sobre as
afasias. Isso se deu com a crítica do realismo do sentido e com a crítica
da epistemologia empiris ta, na medida em que a concepção da linguagem
como uma representação do universo das coisas e do corpo não res tringe
o ser da linguagem à condição de cópia do universo das coisas e do corpo.
Pelo contrário, tal concepção aponta para um outro lugar, onde o ser da
linguagem se apropriaria do universo das coisas segundo outra lógica.
Então, existe no ensaio sobre as afasias uma concepção mais complexa
da linguagem, de caráter intuitivamente combinatório, na qual a articula-
ção entre a ordem do corpo e a ordem da linguage m se coloca no primeiro
plano.
A crftica ao sistema teórico de Meynert é o momento crucial do ensaio
onde a demolição critica da concepção eleme ntarista, sensorialista e
realista atinge o seu ponto decisivo e onde Freud indica uma outra
concepção de linguagem. Porém, é preciso destacar que essa nova con-
cepção do ser da linguagem se apresenta ao mesmo tempo em que se
inttoduz uma nova relação entre os registros do corpo e do psiquismo, na
qual o psiquismo não se resuinge mecanicamente a ser um mero epifenô-
meno da ordem do organismo. Evidentemente, a crítica que Freud realiza
da concepção teórica de Meynert se inscreve nos registros neurológico e
lingüístico.
Para Meynert, a relação entre a periferia do corpo e o sistema nervoso
central se realizaria de forma quase biunívoca , na medida em que cada
ponto da periferia corporal teria inevitavelmente o seu correspondente
direto no córtex cerebral. Essa operação direta entre a periferia do corpo
c o centro nervow, sem qualquer intcnnediação transfonnadora, era
denominada por Meynert de "projeção", sendo a per i fcria corporal pro-
jetada ponto por ponto na estrutura do córtex cerebral , de fonna q ue no
córtex cerebral existiria wna cópia perfeita da periferia do corpo.9 1 Por -
tanto, no modelo de Meynert, é fundamental a idéia de cópia, que regula
não apenas as relações entre os regis tros do corpo e do psiquis mo como
também as re lações entre o psiquismo e o universo das coisas, pois os
órgãos sensoriais inseridos na periferia corporal projetariam também
cópias fidedignas do universo das coisas no córtex cerebral, de lineando
uma concepção realista do conhecimento e da significação.
62 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAúTICA

Freud questionou a consistência teórica dessa leitura em seu ponto


fundamental, tanto da perspectiva neurológica quanto da lingüfs tica:
recusou o conceito neurológico de "projeção" e introduziu em seu lugar
o conceito de represenração. A periferia corporal não se projetaria ponto
por ponto no córtex ce rebral. mas seria apenas ali representada, na medida
em que exis tiriam delegados intermediários ne urofunciooa.is entre a pe-
riferia e o centro nervoso. 92 Com isso, o discurso freudiano produziu uma
transformação radical na fonna de conceber as relações entre a periferia
do corpo e o córtex cerebral.
A diferença radical entre a "projeção" e a representação, que revela
a sua ruptura com a concepção teórica de Meynert, foi assim formulada
por Freud:

Isto vale também para o córtex cerebral, e é pois desejável distinguir


esses dois modos de reprodução centrais acribuindo-lhe nomes diferen-
tes. Se a reprodução na medula espinhal se denomina uma projeção,
1alvez seja apropriado denominar a reprodução no córtex uma represen-
tação, e diremos que a periferia do corpo não está contida no córtex
ponto por ponto, mas que ela está ai representada de maneira menos
detalhada por fibras selecionadas.93

A argumentação é de ordem estritamente neurológka, sendo inclusi-


ve a fonnulação que se mostrou historicamente triunfante no campo da
neuropatologia, com a constituição posterior do conceito de esquema
corporal. Ao lado disso, criticou o modelo elementarista num ponto
decisivo, isto é, nas impOtSsibilidades colocadas para se pensar oo com-
plexo a partir do simples, nos impasses intranspooíveis que se apresentam
ao querer se pensar a totalidade a partir de suas pretensas partes. Então,
Freud está formulando em outro nível a teoria que perpassa a totalidade
de seu ensaio, isto é, que o modelo localizacionista poderia explicar a
existência da linguagem repetitiva mas não daria conta da linguagem
espontânea, da possibilidade de representar propriamente dita:

QueremOIS somente concluir que as fibras, chegando ao córtex após


passarem pela substlw.cia cinzenta, conservam ainda uma relação com
a periferia do corpo, mas não são mais capazes de apresentar para isso
uma imagem topograficamente semelhante. Elas contêm a periferia do
corpo como um poema cont~m o alfabeto - para ir buscar um exemplo
do tema que 006 ocupa aqui - num reananjo que serve a outros fans,
no qunl os diversos elementos tópicos podem estar associados de ma-
neira múltipla, um deles podendo estar al representado muitas vezes,
enquanto um outro oio. Se algu~m pudesse seguir em detalhe esse
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 63

rearranjo que se efetua da projeção espinhal ao córtex cerebral, desco-


brir-se-la provavelmente que ele repousa sobre um princípio pW'amente
funcional e que OIS fatores tópicOtS apenas são oonservad.os se ooncordam
com as exigencia.s da função. Já que nada prova que esse remanejamento
é novamente retrógrado no córtex, a fun de dar uma projeção topográfica
oompleta, podemos presumir que a periferia do corpo não está absolu-
tamente contida nas partes superiores do cérebro, assim como no córtex,
de maneira tópica. mas apenas tk maneirafuncíonal... 94

Portanto, bo fragmento do ensaio freudiano o argumento lingüístico


se articula intimamente com o argumento neurológico, destacando ao
mesmo tempo que as letras do alfabeto nio conseguem dar conta da
produção do poema, assim como o conjunto anatômico de e lementos
sensoriais não está presente de forma biunívoca no córtex cerebral. A
concepção freudiana, portanto, além de apontar para uma leitura combi-
natória da linguagem, superando pois a concepção elementadsta e criti-
cando assim qualquer realismo no campo da significação, formula tam-
bém uma nova modalidade de relação entre os registros do corpo e o do
psiquismo, que se realizaria s ob a forma da representação.
O psiquismo não é enrão um simples epifenômeno mecânico do
corpo, como era concebido no modelo localizacionista da linguagem, nem
é constituído pela reunião dispersa de imagens das coisas, mas representa
o corpo e o universo das coisas segundo uma lógica específica: é ao
mesmo tempo representação e condição de possibilidade de representar.
A linguagem se configura como o modelo por excelência do psiquismo.
Daí por que na genealogia do discurso freudiano o conceito de aparelho
de linguagem foi a condição de possibilidade para a constituição posterior
do aparelho psíquico.

VIl/. No solo de Jackson


Entretanto, é preciso considerar que a leitura de Freud sobre as afasias se
baseou na investigação de H. Iackson no campo da neuropatologia e em
seu discurso sobre as afasias, sendo que em diferentes passagens de seu
ensaio, Freud reconhece sua dívida teórica. De forma eloqüente no capi-
tulo V, por exemplo, Freud afuma incisivamente ter sido desse pesquisa-
dor "que retomei as concepções em quase todas as notas precedentes, para
combater com sua ajuda a cearia locallzacionista das perturbações de
linguagem" .05 Vamos dcsta9U agora de forma esquemática alguns dos
pressupostos do pensamento neurológico de Jacksoo, para que possamos
ENSAIOS DE TEORIA PS ICANALtriCA

delinear um dos contextos teóricos de referência de Freud, a fim de e~tão


indicar onde o discurso freudiano deu decisivamente outro passo teónco,
o que possibilitou a superação das teorias de Jackson.96 •
As inovações introduzidas por Jackson no campo da neuropatolo~1a
se fundaram numa perspectiva metodológica que subverteu .a pesquisa
neurológica, definindo-se pe la atribuição do primado ao ho_hsmo frente
ao elementarismo na pesquisa sobre o sistema nervoso. Asstm, para e le,
não seria possível decompor analiticamente ~a função neural_c um
comportamento qualquer, organizados de maneara compl~.x.a, _em diferen-
tes partes, para realizar posteriormente uma síntese, pots nao apenas o
todo não equivale à soma de suas pretensas partes, como ~mbé~ porq~e
desde o início as funções e os comportamentos do orgarusmo sa? totab-
dades organizadas. Deste princípio metodológico decorre um conJunto de
conseqüências teóricas: . .
1. Seria impossfv el explicar qualquer função psíqwca supe~o! ba-
seando -se na reunião de funções elementares. Como a dccom~osu;ao do
complexo no elementar, no campo neuropatológico de então, tmha co~o
conseqüência a reduçllo do elementar a~ anat~mico, se d~pre~ndc, entao,
em Jackson uma crítica contundente a teona da locahzaçao cerebral.
Somente peia consideração da função na sua complexidade seria ~os~ível
explicitar a sua funcionalidade enquanto tal e s.eus substratos anat.Or~ucos.
Enftm, a função seria uma unidade e uma tota hdade, d_e ordem funcJOn~l ­
anatómica, que não poderia absolutamente ser submeucb a uma operaçao
de decomposição em seus pretensos elemen~s ~a que ~sses f~em
somados posterionnente, de fonna que o pnndp1o holfsuco preside a
leitura teórica;
2. O princípio hotfstico se articula a uma ~nceryão. evolutiva ~o
sistema nervoso, pois Jackson procura destacar a tmportancta da .evoluçao
desse sistema na história do organismo e do indivíduo, constnundo uma
hipótese de pesquisa na qual, de uma dia~ética entre o o.rganismo e o meio
ambiente existiria a relação entre orgarusmo e aprendtzado;
3. N;ssa concepção holística e evolutiva, o funcionamento necvoso
atravessaria diferentes níveis de organização na história do individuo,
cada um deles estruturado como totalidade. Assim, nos níveis iniciais e
mais primários do funcionamento neural já existiria uma organização
totalizada que funcionaria de maneira automática. Porém, na ~edida em
que a evolução do organismo continua se processando, o funcronamento
neural tende a perder progressivamente o seu automatismo, de forma que
a organização de qualquer função nervosa e psiquica pode se romper c?m
mais facilidade. Nessa perspectiva, qualquer função nervosa e psíqwca
p~ria, na história do indivíduo, de um nível de maior automatismo para
A UNOUAOEM NA CONSTITUIÇÁO DA PSICANÁLISE 6S

um nível de menor automatismo e maior plasticidade, mas continuaria a


mesma função apesar da mudança de seu nível de estruturação. Enfim, a
evolução do organismo e do sistema neurológico se realizaria pela passa-
gem continua, em diferentes níveis de estruturação, do automatismo para
a liberdade.
É evidente a inovação teórica introduzida pela leitura de I ackson, pois
a organização neural em sua evolução se desloca sempre de um n_ível m~s
automático para um nível menos automático, ou para wn ntvel mars
plástico e portanto mais livre. Porém, trata-se sempre de duas totalidades
em níveis diversos de cornplex.idade e não, absolutamente, da passagem
de eleme ntos dispersos para a função-soma dos seus elementos básicos
constituintes;
4 . Fo i nesse contexto holístico e evolutivo, na interpretação das
funções nervosas, que foram interpretadas as patologias do sistema ner-
voso, considerando aqui de maneira rigorosa os diferentes níveis de
organização neurofuncional. Para Jackson, a suposta desintegração da
função complexa em seus elementos básicos, de acordo com a leitura
então dominante na neuropatologia, se deve à não consideração dos
diferentes niveis evolutivos da organização funcional do s is tema ne rvoso.
A desintegração não produz a multiplicidade de elementos, mas um outro
nível de estruturação, considerado como mais primário do ponto de vista
evolutivo. Portanto, nas diferentes patologias nervosas recenseadas na
neuropatologia, o funcionamento nervoso se deslocaria sempre de um
nível estrutural mais e levado para um menos elevado. O indivíduo conse-
qüentemente perde a plasticidade e a liberdade adaptativas, retomando ao
nível primário do automatismo, mas a totalidade funcional se encontra
presente em qualquer nível considerado.
Assim, foi fundamentando -se nessa es trutura conceitual que Jackson
interpretou o significado clínico das afasias. Introduziu porém uma outra
inovação metodológica, de forma que a questão também foi reestruturada
de maneira original face à tradição neuropatológica. Nessa inovação
metodológica o ser da linguagem foi imediatamente colocado no horizon-
te de sua investigação.
Para Jackson, seria pre<:iso considerar individualmente as emissões
lingüísticas dos afásicos, de maneira que o pesquisador pudesse depreen-
der por que em tal afásico os enunciados são esses e não outros. Preocu-
pava-se de falO com a constituição dos enunciados no discurso e com a
especificidade dos distúrbios da linguagem na afasia.
Articulando a dupla inovaçio metodológica, Jackson formulou que
nos níveis mais complexos de organização psíquica o discurso funcionaria
nos registros voluntário e intencional, mas que na afasia o discurso
66 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

retomaria a niveís de estruturação caracterizados pelo automatismo. Por-


tanto , a fala repetitiva e morta da afas ia se c?ntrapunha. à fala .esp? n-
tânea e criativa do discurso comum, c arac tenzada pela m vençao stm-
bólic a, possibilitada pelos níveis mais complexos de estruturação da
linguagem . . .
Para empreender essa inflexão no campo ~a afas1a, Jac~on teve que
transformar radicalmente a leitura do que sena o ser da linguagem en-
quanto objeto teórico, deslocando pois o mesmo princ~pio bolís~co utili-
zado para a explicação do organismo para representa-lo. A untdade da
linguagem não seria a palavra, não cpnstituindo o discurso uma soma de
palavras consideradas como suas unidades elementares como se ~nsava
a té então mas sim afrase e a proposição . Vale dizer, Jackson constderava
como a ~idade da linguagem a artic ulação entre o sujeito, o verbo e o
predicado, sendo esta nã<l apenas a unidade .de .senri~o mas _também .a
unidade mínima capaz de produzir qualquer s1gmficaçao. Então, tal uru-
dade não seria absolutamente redutível às palavras, como os seus elemen-
tos constituintes.
Nesse conte xto, seria possfvel dis tinguir estruturalmente entre prop~­
sições dotadas de sentido, como ocorrem no d iscurso comum, e pr? posJ-
?
ções destituídas de sentido, nas a fasias. .context? de .refe rtnc•a e a
modalidade de u..<:o de uma da.da propootçao functonartam como sua
referência de verdade, isto é, como critério de oposição entre o que tem e
0 que não tem sentido. Então, nessa oposição sentidofnão-senti~o, que
remeteria ao contexto de referência e de uso de uma dada proposição, se
apresenta também um critério de defwição do qu~ s~ria wn.a ~scursivi­
dade normal. Dessa maneira, é a possibilidade pstqwca do mdivíduo de
se deslocar em novos contextos e de se adaptar a novas situações que
definiria umafonção discursiva normal, já que a principal característica
da normalidade discursiva seria a mobilidade semântica de acordo com
os novos contextos que se apresentam ao individuo.
Assim, na afasia, o indivíduo perderia a mobilidade semântica em.seu
discurso, não conseguindo reordená-lo nos diferentes ~nt~x.tos que Ine-
vitavelmente se apresentam no horizonte de sua expenen~ta. Para Jac~­
son, portanto, o discurso afásico seria aparentemente ~esutuí~o de ~e?~­
do seus enunciados remetendo a um único contexto, Já que nao extstUI.a
· de~locamento de referencial. Existiria então o congelamento da mobili-
dade semântica do discurso, de maneira que o afásico utilizaria sempre o
mesmo enunciado, que teria sentido não só para um dado contexto, mas
pan todos os demais contextos de sua experiência.
Não existiria produção de novos sentidos. pois o afásico fica automa-
ticamente imóvel no circulo repetitivo do sentido originário de sua pro-
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃ O DA PSICANÁLISE 67

posiçã o e não se adapta com flexibilidade aos novos contextos de sua


experiê ncia. Enfim, para Jackson, no discurso afásico seria no contexto ·.
originário, onde se consúauiu a proposição, que estaria a chave para sua
significação e não em seus novos contextos.
Foi a o posição entre o sentido e o não-sentido dos enunciados discur-
sivos, assim como sua referência de verdade remetida aos conceitos de
contexto e de uso, que o discurso freudiano deslocou não apenas para a
leitura das afasias, como também para a escuta da histeria e das outras
estruturas psíquicas.

IX. Trauma, pulsão e linguagem


A leitura freudiana d~ afasias eslá fundada em sua interpretação do
psiquismo como linguagem e em sua conseqüente escuta das estruturas
neuróticas. Além de revelar o efe ito teórico do discurso de Jackson na
consútuição da psicanálise, tal le itura, em contrapartida, mostra terem
sido a experiênc ia teórica e c línica de escuta da histeria o que possibilito u
a Freud retomar c riativamente a leitura de Jackson sobre a linguagem e
as a fas ias. Assim, trabalhando na opos ição entre Charcot e Bernheim,
entre a lesão funci onal (modelo tópico) e a sugestão absoluta (mode lo
funcional), Preud j á estava realizando processos terapêuticos fundad$>5 no
discurso, destacando, pois,.no sintoma histérico o valor de sua mobilidade
funcional e de seu valor semântico. Porém, em qualquer uma dessas
le ituras alternativas, a necessidade teórica de.. ter que representar o psi-
quismo segundo o modelo da linguagem, como um aparelho de lingua-
gem, era fundamental para Freud.
Assim, a o posição entre sentido e não-sentido das proposições , a
artic ulação da proposição com o contexto de sua fonnaçã o e de uso para
definir a sua verdade foram formulações fundamentais para que Freud
pudesse conceber a oposição entre o sintoma e a palavra na histeria. O
sintoma teria a mesma estrutura que a palavra, sendo então uma materia-
lidade dotada de sentido, na medida em que transformável pela ação do
discurso. O sintoma é uma palavra aparentementr. sem sentido, como
o sintoma afás ico é uma palavra congelada em sua mobilidade semân -
tica no seu atual contexto de uso. Então, os conceitos de trauma se~ual
e de sedução91 foram cons tituídos por Freud segundo o modelo jack-
soniano da afasia, na medida em que a cena traumática de sedução seria
o contexto originário que poderia conferir sentido ao congelamento da
palavra no sintoma histérico, deslocando-se pois o discurso da histeria
do registro intencional da fala para o registro automático do sintoma.91
68 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAúnCA

Porém, em ambos os contextos nos inserimos no registro da linguagem


e, por isso mesmo, o sintoma poderia, através da fala, ser transformado
em palavra.
O campo teórico possibilitado por essa reestruturação conceitual
99
tomou possível a Freud realizar, desde "As psiconeuroses de defesa"
até a Psicopatologia da vida cotidiana 100 - através do Projeto de uma
psicologia científica101 e Á interpretação dos sonhos102 -,uma genealo-
gia do sujeito e seu correlato teórico, uma arqtleologia do sintoma, que
desde a "Psicoterapia da histeria" 103 já se encontram intimamente arti-
culados. Coto efeito, para que f05Se possível estabelecer uma relação de
fundação entre o sujeito e o sintoma, de maneira a correlacionar a genea-
logia do sujeito e a arqueologia do sintoma, era neeessário postular que
sujeito e sintoma estavam referidos a totalidades simbólicas, apesar d e
seus diferentes níveis de estruturação. Coto isso, contrapõe-se teorica-
mente à formulação de que o sintoma seria de ordem elementar e o sujeito
o efeito do somatório de elementos originariamente dispersos.
Para realizar esse desdobramento conceitual, Freud tematizou a idéia
de contexto no registro intersubjetivo, de maneira que, através do outro
hlstoricamente delineado e posicionado, fosse então possfvel representar
o sujeito. O psiquismo foi representado como uma estruturação histórica,
na qual cada nfvel de estruturação e de totalização foi interpretado como
um sistema de signos, levando assim a túpótese da existência de diferentes
níveis de totalização estrutural às últimas conseqüências, lógica e lingills-
tica. Foi no contexto desses diferentes sistemas de signos que foi inserida
a geneologia sexual do sujeito, assim como foi estabelecida posteriormen-
te a cartografia das vias de fu~ção pulsional e da regressão psíquica, eixos
fundamentais para a constituição de uma leitura psicanalítica das estrutu-
ras psicopatológicas. 104
Entretanto, caminhemos de maneira mais doce e menos abrupta em
relação ao futuro mediato do discurso freudiano, retomando novamente o
período do estudo sobre as afasias. Como já destacamos, Freud se instru-
mentou dos avanços significativos realizados por Jackson nos campos da
neuropatologia e das afasias, radicalizando sua concepção teórica.
Antes de mais nada, Freud constituiu o conceito de aparelho de
linguagem, sendo este genealogicamente o precursor teórico do conceito
de aparelho psíquico introduzido pela primeira vez no Projeto de uma
psicologia cientlfica. Se a idéia de aparelho já existia no pensamento
médico de então e foi utilizada por Meynert na psicopatología como
"aparelho da alma.. , JOS a idéia de aparelho de linguagem é uma lovençio
conceitual eminentemente freudiana, inexistente, pois, antes do ensaio
sobre as afasias.
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 69

Apesar de sua evidente significação médica, a idéia de aparelho


indica em Freud uma crítica à concepção elementa.rista do ps iquismo,
revelando uma concepção hoHstica. Além disso, critica incisivamente a
ideologia médica que fragmenta o enfermo no ato clínico e o estudo
e lementarista das funções, atribuindo a estas uma totalidade fWJcional e
anatômica. De fonna complementar, Freud destacava numa carta a Fliess
que se opunha à medicina na medida em que esta não trata o homem como
totalidade, mas o parcializa como um amontoado de territórios anatõmi-
cos e funcionais. 106 Enfim, mediante o conceito inicial de aparelho de
linguagem e, posteriormente, de aparelho psíquico, o discurso freudiano
destacava as idéias de totalidade e de sistema.
É preciso destacar agora a outra dimensão teórica em que o discurso
freudiano radicalizou a concepção de Jackson. Com o conceito de apare-
lho de linguagem, como totalidade e como sistema, surge a idéia de que
o psiquismo é representado basicamente sob a forma do funcionamento
da linguagem. A linguagem é então o primeiro modelo cons truído por
Freud para representar o psiquismo, sendo pois considerada como a
metáfora do psiquismo. Portanto, ll possibilidade de superar a concepção
da psicologia clássica, que centra o psiquismo na c ategoria d e consciên-
cia, e de anunciar a existência do psiquis mo fundado no inconsciente,
como eixo central do saber psicanalítico, foi uma derivação necessária da
articulação entre os ~gistros do psíquico e da linguagem, um desdobra-
mento necessário da possibilidade de considerar a linguagem como o
fundamento rigoroso para a construção teórica do registro psíquico. En-
fim, considerar o psiquismo como representação e como representação
originária do corpo implicou opor radicalmente as categorias de represen-
tação e de projeção, e implicou também de forma crucial considerar a
linguagem como o modelo da representação por excelência.
Freud pôde assim superar o limiar de redução do registro psíquico ao
registro somático e considerar metodicamente o psiquismo numa autono-
mia relativa face ao organismo. Para isso, na articulação tópica e funcional
do aparelho de linguagem, o pólo dominante foi conferido ao funcional,
deslocando o psiquismo de uma locali.ução cerebral estrita na anatomia
corporal. Por isso mesmo, Freud pôde considerar as diferentes modalida-
des de afasias como circuitos funcionais relativamente independentes da
localização anatômica, isto é, considerar a função como podendo se
realizar no campo definido pela diversidade tópica. Assim, se é óbvio que
existem afasias grosseiras inteiramente causadas por lesões cerebrais
severas, existem tam~m, em contrapartida, as afasias independentes de
lesões anatômicas. Então, o critério que define a afasía não é a lesão
cerebral, mas a forma de funcionamento do aparelho de linguagem.
70 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

Nessa perspectiva, o discurso freudiano se encaminha para a supera--


ção dos impasses colocados pelo paralelismo psicofísico e para a supera-
ção do dualismo cartesiano entre o registro do corpo e o registro do
espírito. Entretanto, uma passagem célebre desse ensaio afirma o postu-
lado do paralelismo:

A cadeia de processos fisiológicos no sistema nervoso não se encontra


provavelmente numa relaçiio de causalidade com os processos psíqu i-
cos. Os processos fisiológicos não se intenompem desde que começam
os processos psíquicos. Ao contrário, a cadeia fisiológica prossegue, e
não é senão a partir de um certo momento que um fenômeno psíquico
corresponde a um ou vários destes encadeamentos. O processo psí-
quico é assim paralelo ao processo fisiológico (.. um dependente

concomllanle ") . 107

Essa passagem se contrapõe não apenas a outras formulações do


ensaio sobre as afasias, como também a seus desdobramentos teóricos no
discurso freudiano imediatamente posterior. Assim, ao postular a domi-
nância do funcional sobre o tópico nas afasias, Freud subsume o registro
anatômico às exigências do registro funcional, da mesma forma que no
Projeto de uma psicologia científica delineou uma anatomia neurooal de
base verdadeiramente fantasmática, mas construída a partir da funciona-
lidade pulsional, que regularia a economia do aparelho psíquico. '08 O
discurso freudiano prosseguiu na mesma direção teórica quando, no
pequeno escrito comparativo entte as paralisias motoras e histéricas,
formulou a existência de wn corpo representado como fundamento da
histeria, que não se confundiria absolutamente com o corpo anatômico,
sendo um corpo inscrito no imaginário social. 109
Enttetanto, a viragem teórica do que se encontra esboçado no ensaio
sobre as afasias somente se produziu a posterio ri, quando Freud determi-
nou que, para a psicanálise, o registro corporal que importa realmente é
o corpo pulsiooal, sendo este o outro pólo constituinte do psíquico ao lado
da linguagem. O sujeito no discurso freudiano forma-se então pela pola-
rização enlre o corpo pulsional e a linguagem, entre a força e a represen-
tação, os dois pólos fundamentais do ser da pulsão destacados no ensaio
metapsicológico sobre as pulsões de 1915. 110 O campo dessa polarização
fundante do sujeito é elaborado no Projeto lk uma psicologia cienr(jica,
onde se esboçou o conceito de pulsão, e que já se contrapunha ao campo
da linguagem presente no ensaio sobre as afasias.
O efeito teórico dessa polarização foi a transformação do conceito de
aparelho de linguagem em aparelho psíquico, na medida em que o corpo
pulsional foi introduzido como o outro pólo do psiquismo. No percurso
A LINGUAGEM NA CONSTITUIÇÃO DA PSICANÁLISE 71

desse desdobramento teórico, o dualismo psicoffsico foi superado, o que


implicou a fundação do sujeito no Outto, numa tess.itura intersubjetiva de
relações. 111 Enfim, a psicanálise foi constituída no momento em que o
sujeito foi delineado entre o corpo pulsional e a linguagem, entre a força
e a representação, sendo pois o Projeto de uma psicologia cie_nt(jica o
esboço originário do saber psicanalítico, já que essa polaridade se inscre-
ve na sua problemática.
Anteriormente a essa figuração definitiva do saber psicanalítico
entre o corpo pulsional e a linguagem, o discurso freudiano já traba-
lhava os impasses, para s uperar os obstáculos colocados pelo dualismo
e ntre o corpo e a alma. Assim, no ensaio intitulado Tratamento psíqui-
co, Fre ud já tratava da questão, de forma que podemos considerá-lo o
contraponto cJínico do ensaio sobre as afasias, já que abordava as
mesmas ques tões com vistas a construir uma teoria da clínica do
psíquico .
Nessa perspectiva, Freud pôde formular de maneira inequívoca que
o "tratamento psíquico" se realiza na e pela linguagem:

Tratamento psíquico denota de preferência o tratamento que toma o seu


ponto de partida na mente, tratamento (seja de desordens mentais ou
físicas) por meioo que operam em primeira instância e imediatamente
sobre a mente humana. ·
Antes de tuoo, entre esses meios está o uso das palavra.~ ; e as
palilvras siío o instrumento essencial do tralamenro menral... 112

Freud, portanto, criticava no mesmo escrito o dualismo entre o corpo


e o psiquismo, afirmando que o registto psíquico é antes de mais nada
linguagem e que esta tem efeitos sobre o corpo. Ao invés de enunciar a
relação da consciência e do corpo - o que o colocaria na tradição teórica
do dualismo cartesiano, remetendo-o aos impasses do paralelismo psico-
físico - , o que Freud sublinha é a incidência da Linguagem sobre o corpo
e as representações, sendo então o caminho metodológico para o estudo
do psiquismo.
Portanto, o conceito de aparelho de linguagem desenvolvido nos
registros teórico e clínico marca a ruptura epistemológica de Freud com
a tradição da neuropatologia da segunda metade do século XIX, com a
inauguração de uma concepção de psíquico fundada na linguagem. Com
isso, foi possível ao discurso freudiano superar os impasses te6ri005 do
dualismo cartesiano e do paralelismo psicofísico, de forma a deslocar o
registro psíquico do campo da consciência e inscrevendo-o no registro da
linguagem.
72 ENSAIOS DE TEORIA PS1CANAL1TICA

Essa foi uma das condições de possibilidade para a constituição da


psicanálise, pois para que esta fizesse sua emergência histórica ainda seria
necessário qúe, além de se fundar na linguagem, o psiquismo também se
fundasse no corpo pulsional, pois no discurso freudiano a problemática
do sujeito se articula entre os pólos da linguagem e do corpo pulsional,
entre a força e a representação.
o sacriflcio do corpo e a descoberta
da psicanálise 1
Sexualidade e perversão no discurso freudiano

I. A psicanálise e seu duplo


O reconhecimento da AIDS e sua incidência devastadora nos últimos anos
tiveram o poder de reabrir velhas questões supostamente resolvidas e de
atualizar antigos preconceitos aparentemente já desenraizados na tradição
ocidental. Dessa maneira a problemática da relação do individuo com a
sexualidade voltou à cena com toda a sua crueza. A materialização
dramática da morte, mediante certas modaUdades de exercício do sexual,
f oi o operador poli tico que possibilitou a reabertura de antigas indagações
que dominaram o imaginário do Ocidente desde o advento do cristianis-
mo. Com isso, a relação entre sexo e pecado se desloca novamente para
a boca de cena, mediada pelas categorias de culpa e prazer, de maneira a
indicar o enigma da morte na experiência do sexillal.
Evidentemente, essas rearticulações temáticas permitem diferentes
registros de interpretação, de acordo com o discurso teórico privilegiado.
Em função do impacto catastrófico da AIDS no imaginário social e do
pânico que se apoderou dos indivíduos diante da suposta iminência da
morte, catalisados por máquinas políticas poderosas que manipulam dis-
cursos moralizantes2 para reacender velhos preconceitos sobre a higiene
sexual, diferentes ciências humanas se debruçam para examinar esse
conjunto de efeitos sociais e repensar a sua relação com a sexualidade
como objeto teórico de pesquisa.
Como não poderia deixar de ser, a psicanálise está no centro deste
debate, na medida em que se constituiu como saber pela formulação de
pressupostos teóricos e éticos inovadores sobre o sexual, colaborando
assim para a renovação dos valores que sustentavam a relação do indiví-
duo com o corpo. Nas primeiras décadas deste século a psicanálise era
com freqüência acusada de "pansexualista", na medida em que destacava
o sexual como a dimensão fundante do sujeito.

73
74 ENSAIOS DE T EORIA PSICANALITJ CA

Essa subversão dos valores éticos da tradição judaico-cristã não teve


na psicanálise sua instância social exclusiva e decisiva - o que é um
truísmo, mas precisa ainda ser devidamente reconhecido pelos psicanalis-
tas - , pois foi a res ultante de um conjunto de saberes e de práticas sociais
que, mediante uma crítica s istemática, produziram uma transformação
bás ica nos v aiores culturais. Além disso, é preciso s ublinha r que a relação
da psicanálise com essa renovação ética dos valores é no mínimo ambf-
gua, de vendo então ser circunscrita na hlstôria. Se inicialmente o discurso
freudiano representou uma crítica à hipocrisia presente na " moral sexual
civilizada",3 seus herdeiros nem sempre se mostraram engajados nessa
pre tensão originári11, já que freqüentemente retomaram valores sobre a
sexualidade que eorrespondiam a posições historicamente superadas.
Com efeito, se o discurso freudiano pôde reconhecer a dimensão de
positividade do sexual na es truturação do sujeito e o paradoxo que funda
o sujeito em .sua relação com a sexualidade, o discurso psicanalítico
p<ís-fre udiano perdeu em grande parte essa perspectiva de critica à " m oral
sexual civilizada·· e silenciou a dimensão de paradoxo que o sexual
implica para o sujeito. Em contrapartida, assumiu uma postura marcada-
mente moralizante em relação aos impasses colocados ao sujeito pelo
sexual, ao identificar o sexual com a agressividade mortífera, com a
inexistência de alteridade amorosa e com a ausência de reconhecimento
do outro. Com isso, a psicanálise se deslocou no imaginário social de uma
representação "panscxualista" para uma representação de ..normaliza-
ção.. do sexual.4 No interior do discurso psicanalítico essa transformação
se baseou no silcnciamento da função axial representada pelo conceito de
sexualidade perverso-polimorfa' e da posição critica dessa categoria face
a qualquer discurso sexológico, seja este enunciado em termos de positi-
vidade ou de ncgatividade, na ordenação do campo da sexualidade.
Por isso mesmo, não examinaremos neste artigo a problemática da
AIDS e m sua especificidade, pois sustentamos que é fundamental uma
discussão concdtu.a l anterior para que possamos então examinar a inser-
ção da psicanálise no campo do imaginário social sobre a sexualidade.
Nossa pretensão nes te trabalho é destacar alguns pressupostos teóricos
para à leitura dos escritos freudianos sobre o sexual, sublinhando princi-
palmente a posição es tratégica ocupada pela categoria de sexual como
perversidade polimorfa infantil e a dimensão de paradoxo que o sexual
representa para o sujeito.

11. Corpo, Linguagem e intersubjetividade


Construir o campo da sexualidade foi indubitavelmente a invenção pri-
mordial realizada pelo discurso freudiano. Apresentar o sexual como uma
O SACRIFiCIO DO CORPO 75

dimensão fundamental do s ujeito, contrapondo a ordem do se.w e a ordem


do sexual como regis tros teóricos que não se identificam, foi a descoberta
originária forjada pela psicanálise na aurora deste século. Entre tanto , esta
descoberta só se tomou possfvel na medida em que o psiquismo foi
representado numa perspectiva original ao ser construído como s istema
de significação e de gozo, no qual a fala e a alteridade intersubjet.iva
implicada pela palavra permitiam superar a oposição entre os registros do
consciente e do inconsciente. 6 Por meio dessa inovação teórica e me todo -
lógica, o discurso freudiano pôde superar a oposição, até então intranspo-
nível, entre os registros do corpo e do psiquismo, constituída na moder-
nidade pela tradição cartesiana.7
Não resta qualquer duvida de que a proposição fundamental de que o
sujeito é produzido a partir do Outro - de que o um é impensável em si
próprio na exterioridade de uma teia de relações pressupondo o dois e o
três -foi a condição de possibilidade para se conceber a linguagem e a
sexualidade como fundamentos do psiquismo humano. Com a formulação
de que o sujeito do inconsciente é construído necessariamente pelo desejo
e pela palavra do outro, a sexuação se define como um atributo humano
fundamental. Portanto, a intersubjetividade é a condição de possibilidade
para a produção de qualquer sujeito singular e que seja marcado pela
sexuação, pois não existe qualquer possibilidade de representar o sujeito
como uma mônada isolada e fechada sobre si mesmo e que apenas
posteriormente se abre para o horizonte do mundo. 8
Dessa maneira, na perspectiva freudiana o psiquismo humano ·se
funda, por um lado, na ordem do corpo e da pulsão e, pelo outro, na
ordem da linguagem, o que implica a intersubjetividade, contexto
básico para se representar a inovação conceitual e ética, introduzida
pelo discurso freudiano, como saber e como experiência clinica capaz
de encaminhar o s ujeito à assunção da verdade de sua hlstória e do seu
desejo.
Contudo, o esquecimento desta dupla dimensão do sujeito, marcando
esse fundamento pelo conflito, é responsável por um duplo desvio teórico
que se introduziu historicamente na representação da psicanálise. Com
efeito, o esquecimento do registro do corpo pulsional produziu uma
perspectiva marcadamente culturalista na leitura do discurso freudiano,
enquanto, em contrapartida, o esquecimento do registro da palavra pro-
vocou decessaria.mente uma interpretação biológica da psicanálise, com
a redução do psíquico à ordem do instinto e da adaptação, como ocorreu
. com a psicologia do ego. Efetivamente original no projeto freudiano é o
ser da pulsão (Trieb), que se situa entre a ordem do corpo e a ordem da
representação, sendo ao mesmo tempo força (Drang) e representação
16 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

(Vorstellung ).9 Qualquer concepção da pulsão que considere apenas um


dos pólos d essa relação dialética mutila o discurso freudiano em sua
problemática fundamental.
Entretanto, o pensamento psicanalítico pós-freudiano se pautou pela
ênfase em wna das polaridades constitutivas da pulsão, produzindo com
isso evidentes impasses na concepção da psicanálise, particulannente na
representação da sexualidade. Impasses que marcaram a história da psi-
canálise, pois diferentes versões do discurso freudiano se finnaram em
diversas tradições institucionais. Contudo, não pretendemos analisar aqui
impasses e diferenças de leitura no registro histórico-social, mas nos
restringir ao registro conceitual a fim de circunscrever o campo do sexual
construído pelo discurso freudiano e indicar nesse a especificidade do
conceito de perversão.

Ill. O prazer e a morte


Entre o corpo e a representação circula o ser da pulsão, de maneira que a
sexuação encontra na pulsão a sua matriz originária, constituindo as
condições de possibílidade da sexualidade infantil. O conceito de sexua-
lidade infantil circunscreve, numa fonnulação concisa, a invenção freu-
diana do campo do sexual, 10 implicando um conjunto de pressupos tos
teóricos com uma série de desdobramentos conceituais. Aftnnar a exis-
tência da sexualidade infantil implica desarticular definitivamente a or-
dem do sexual e a ordem do sexo, isto é, deslocar radicalmente a sexua-
lidade do registro do corpo biológico e da reprodução da espécie, a
sexualidade não se restringindo à genitalidade. Desde os primórdios da
investigação freudiana, na correspondência com Fliess, podemos de-
preênder essa ruptura epistemológica com o campo da biologia, 11 inclusi-
ve com conseqüências clínicas importantes na nosografia psicanalítica de
entãç , na oposição estabelecida entre neuroses atuais e neuroses infantis . 12
Portanto, a ordem do sexual não se defme pelo conceito de ins tinto
(/nstinkt) mas pelo de pulsão (Trieb), que ocupa a posição es tratégica de
categoria fundamental da metapsicologi,a, o que permitiu a Freud consti-
tuir seus diferentes conceitos. Por isso mesmo, os escritos metapsicológi-
cos se abrem com o ensaio sobre a pulsão, onde a experiência psicanalítica
revela os diferentes de-.stinos das pulsões no psiquismo. 13
Com isso, o campo do sexual foi visto inicialmente por Freud como
s ustentado na ordem do prazer, em oposição à ordem da realidade, 14 sendo
a sexualidade articulada pelo cenário da fantasia inconsciente. Já no
discurso freudiano posterior, o campo do sexual não se restringiu apenlls
O SACRIFÍCIO DO CORPO 77

à ordem do prazer, inserindo-se também no além do princípio do prazer,


através do conceito de pulsão de morte" e de masoquismo originário. 16
Abordando a ruptura de Freud com o discurso médico-psiquiátrico,
definiremos a matriz da sexualidade como perversidade polimorfa. Por
esse viés podemos circunscrever a concepção freudiana de perversão e
indicar como surgiu esse conceito, através da crítica dos pressupostos do
discurso sexológico da segunda metade do século XIX.
A psicanálise se constituiu como saber e como experiência intersub-
jetiva, sustentada na escuta das estruturas psíquicas, ao empreender a
crítica do discurso médico. Desde a aurora do século XIX a medicina se
estabeleceu como clínica ao formular um discurso teórico onde procurou
articular os diferentes sintomas das diversas enfermidades como lesões
existentes na estrutura anatômica do corpo. A medicina clínica fundava-se
no discurso da anatomia patológica, de maneira que na tradição médica
esse conjunto passou a ser denominado como anátomo-dínica. 17
A tessitura conceituaI urdida pela medicina entre o ser da enfermidade
e o não-ser da morte tem, na genealogia dos sistemas de pensamento, uma
longa his tória na tradição do Ocidente, meticulosamente construída pelo
Cris tianismo. Com efeito, pelos valores do Cristianismo se articularam
de fonna indelével as representações de enfennidade e de pecado, sempre
mediadas pela representação da culpa. Então, a medicina científica for-
neceu à moralidade instituída na ordem burguesa a caução conceitual
da cientificidadc biológica para fundam entar os seus valo res pré-con-
ceituais, positivando no corpo anatômico as relações entre as dimen-
sões etéreas da culpa e do pecado com a materialidade da enfermidade
e da morte.
Foi nesse campo articulado pelas tradições religiosa e médica que se
inscreveu a psicanálise, reabrindo a equação estabelecida entre a dimen-
são etérea do espírito c a materialidade do corpo, evidenciando os precon-
ceitos de s uas ligações ocultas e remanejando essa problemática em outras
bases. Para tal, o discurso freudiano teve que recolocar em evidência o
que fora suprimido na equação anterior, destacando a relação estabelecida
pelo Cristianismo entre prazer e pecado, e que reduzju a sexualidade às
ordens da genitalidade e da reprodução. Portanto, no horizonte entreaber-
to pelo discurso freudiano as oposições enfermidade/pecado e prazer/pe-
cado foram delineadas como paradoxos constitutivos do s ujeito e não
como uma formulação oracular, insofismável, fundada na moral religiosa.
Para que essa desconstrução se realizasse de maneira operatória e
com efeitos concretos nas s ubjetividades, foi necessário que o discurso
freudiano realizasse a sua demons tração tomando como matéria-prima as
positividades do discurso da medicina, onde se ancorava esse conjunto de
78 EN SA lOS DE TEO RIA PSICANAÚTICA

ccr1c1.as teóricas. A histeria foi o cenário onde se empreendeu essa


reabenura, pois era nessa positividade clínica que se situavam os impasses
produzidos pelo discurso anatômico-clínico.
Com efeito, a figura da histeria solapou as bases do discurso da
clínica, na medida em que as suas manifestações sintomáticas não se
redu riam à mate rialidade das lesões anatõmicas. Assim, enquanto o olhar
médico procurava na imobilidade do corpo a positivação anatõmica da
morte, a histeria apresentava-se de maneira insistente como um corpo
barulhento c mutável em sua configuração sintomática, irredutível então
a qua !quer redução no espaço do corpo e indicando a sua mobilidade no
tempo. Por is.<m mesmo, forjou-se na tradição médica o mito de que as
histéricas eram " mentirosas.. , não di1.iam a verdade, pois inventavam
e nfermidades inexistentes.
A subversão realizada pelo discurso freudiano nesse campo de posi-
tividade çoncreli w u-se com a suspensão do olhar sobre o corpo histérico,
que buscava sempre a imobilidade da morte, e com a escuta dos gemidos
desse corpo através do discurso da histeria. Com isso, Freud pôde desco-
brir o campo do sexual que se enunciava através do corpo flagelado da
histeria, no qual se configuravam cenas que indicavam os conflitos insu-
peráveis do sexual, os impasses do prazer e os gozos interditos. Mediante
a escuta do corpo lústérico Freud pôde descobrir a dimensão de sacrifício
presente na sexualidade, destacando assim a dimensão de verdade inserida
nas estruturas psicopatológicas e rompendo definitivamente com a tradi-
ção psiquiátrica baseada no cartesianismo, na qual a loucura era identifi-
cada com a desrauo. 11- '~
Nessa pcrspecüva, Freud pôde enunciar uma leitura da histeria radi-
calmente diferente da empreendida por Cbarcot. Enquanto para Charcot
a denominada crise histérica e ra constituída por quatro fases clínica e
somaticamente discriminadas - uma delas denominada de passional-,
para Freud apenas esta era s ignificativa na experiência da histeria, na
medida em que nela o sujeito enunciava a sua cena de prazer interdito e
buscava a realização de seu gozo impossívet. 2• Postcrionnente, Freud
delineou nessa cena a montagem de um fantasma de bissexualidade.21
Porém , foi sem dúvida a circunscrição rigor053 nessa mise-en-scene dos
fantasmas sexuais pela escuta que entreabriu definitivamente, para Freud,
o universo do inconsciente e a fundação do inconsciente no campo da
Stllualidade.
Enquanto a medicina articulava os signos da enfennidade e da morte,
o discurso freudiano introduziu entre esses a sexualidade como um s igno
decisivo, destacando que era uma cena sexual interdila que funciona como
condição de possibilidade da enfermidade. Foi por esse viés que as
O SACRJFICIO DO CORPO 79

representações de culpa e de pecado, constituídas pela tradição judaico-


cristã para combater os prazeres da carne e positivizadas peJo discurso
clinico se IOOStraram como operações mu~lantes do corpo erógeno. Com
isso, a ~egatividade do sexual pela medicina foi suspensa pela psi~~Jise,
que numa inversão genial transfonnou a sexualidade numa posltivtdade
constitutiva do sujeito. A dimensão erógena do sujeito foi en~o descober-
ta peJa psicanálise, que promoveu a inscrição desse continente negro,
silenciado pela tradição ocidental, no registro da palavra, na qual os
prazeres da carne se precipitavam como culpa e pecado _n o imaginári? da
morte. Essas representações foram determinadas peJo discurso freudtano
como destinos possíveis das pulsões e suspensas como ditames absolutos
da ordem do sagrado e da regulação biológica.
O remanejamento conceitual empreendido no discurso freudiano no
campo da histeria se estendeu simultaneamente ao conjunto das estruturas
psicopatoJógicas,22•23 de forma que a formulação primordial ?e que a
sexualidade era fundante do sujeito foi, ao mesmo tempo, o caminho para
a crítica dos pressupostos da sexologia da segunda metade do século XIX
e da figura primordial constituída nesse saber, a perversão.

IV. A sexualidade perverso-polímorfa


O discurso freudiano pretendeu em seguida fundamentar a uni versalidode
do sexual na constituição do sujeito - retirando assim qualquer conota-
ção de acidente de percurso que o imaginário social pudesse querer
atribuir a essas formas psicopatológicas - e destacar o seu caráter
esttutural. Para isso, foi necessário superar os impasses colocados pela
teoria da sedução/4 inserindo a universalidade do sexual na estrutu~ da
sexualidade infantil. Foi possível assim estudar o psiquismo como objeto
teórico autõnomo,2$.2.s independente do instintiv.ismo biológico, como
também estabelecer as exigências da representação da pulsão e a econo-
mia do gozo como constitutivas do psiquismo.
O momento crucial na articulação do inconsciente no sexual foi
empreendido nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade .21 Nesta obra,
Freud formulou sistematicamente as teses de que o sexual não é um
atributo biológico e não se identifica com a gerútaUdad~. O sex~l. se
caracterizaria peJa busca de satisfação, sendo essa finalidade atingtda
mediante diferentes objetos e sustentada em diversas regiões do corpo
(zonas erógenas). Como a sexualidade não se inscreve na ordem_ da
natureza, seus objetos não são naturais e a principio qualquer objeto
existente pode se transformar em erógeno.
80 ENSAIOS DETEORlA PS ICANALITICA,

Nessa perspectiva, o corpo erógeno é uma superfície polivalente em


suas potencialidades de satisfaçilo, sendo pois a genitalidade uma dentre
as diversas possibilidades para a realização do gozo. A genita lidade é
apenas um momento e uma estrutura na lústória da constituição da
sexualidade no sujeito, de maneira que o sexual não se identifica com as
exigências da reprodução da espécie e de produção da família. Evidente-
me nte, esse momento histórico da sexualidade é crucial, mas o reco-
nhecimento disso não altera absolutamente a abrangência dessa tese,
pois apesar disso o sexual não se restringe ao genital e ao regislro do
ins tinto.
Assim, o obje to é o que existe de mais variável na pulsão, pois a única
condição a ele imposta é a de possibilitar a experiência de satisfação.
Enfio, o objeto de pulsão não é predetenninado pela estrutura biológica
do homem, já que não é um objeto natural e a pulsão (sexual) não se
identifica com o instinto (sexo). 28 Por isso mes mo, a pulsão é fundamen-
talmente parcial, sendo milltipla e diversificada, inscrevendo·se em dife-
rentes lugares do corpo erógeno,29 pois foi nestas regiões privilegiadas
onde a troca com o outro fixou para sempre as fonnas de gozo, nwna
d ialética entre o corpo e a linguagem que é infinita na história de qualquer
sujeito.
Baseando-se nessa leitura da pulsão, o discu.rso freudiano definiu a
sexualidade como perverso-polimorfa. Foi por esse viés também que
Freud pôde formular a crítica da sexologia, que tinha em Krafft-Ebing o
seu teórico mais eminente.30 Vamos caracterizar como negativo esse
discurso sexológico, considerando as operações de exclusão que inseriu
em seu sistema classificatório, pois se a sexualidade era predeterminada
na estrutura instintiva e se restringia à reprodução da espécie, rudo aquilo
que no plano do comportamento não se inscrevesse nesse modelo era
considerado como uma anomalia do sexo e, portanto, como uma perver-
são. Enftm, as perversões eram consideradas como aberrações do sexo,
na medida em que não se centravam na fmalidade da reprodução da
espécie.
As anomalias sexuais eram então consideradas como versões de wna
antinatureza humana, que deveriam ser ortopedicamente corrigidas para
a realocação dos perversos no tipo humano adequado à sua natureza
biológica. A virtual imputação jurídica era o cotrelato necr.ssário nesse
sistema d(: correção que deveria ser efetuado na estrutura da maldade
enraizada no corpo. As perversões sexuais se inseriam numa categoria
básica do saber psiquiátrico denonúnada degeneração, constituída por
MoreP 1 e que adquiriu wn grande prestígio na segunda metade do século
XIX. 32 Por meio dessa categoria se articulavam intimamente os discursos
O SACRIFÍCIO DO CORPO 81

moral e científico, tendo como efeito privilegiado wna estratégia política


de dominação de minorias.
Com efeito, como indica o próprio nome~ procurava-se articular com
a idéia de degeneração as representações da involução moral e biológica,
de maneira que as diferenças nos códigos de valores eram reduzidas a
alterações na estrutura biológica. Esta era concebida de maneira evolu-
cionista, a hierarquia entre os considerados mais c menos aptos orientando
os pressupostos do sistema teórico. Eram considerados menos evoluídos
os negros, as mulheres, os lo ucos e os perversos, entre outros, respectiva-
mente, face aos brancos, aos homens, os psiquicamente normais e os
sexualmente adaptados à lógica da reprodução do ideário familiar domi-
nante.33
Essa ideolo gia sobre a perversão foi meticulosamente desconstruída
no primeiro ensaio freudian o sobre a fundação do i'nconsciente no sc -
xual.34 Assim, a psicanálise se apresentou como critica rigorosa da cate-
goria de degeneração e de seus correlatos, isto é, a sexologia negativa, a
naturalização da perversão e o moralismo investido nessa partição do
campo sexual. A argwnentação freudiana centrava-se naquilo que era
indubitavelmente a base deste debate, a figura da homossexualidade.
Nessa conjuntura, o que era politicamente problemático no campo da
perversão era a homossexualidade, pois era essa figura que representava
de forma contundente a divisão entre a dimensão do prazer e a dimensão
da reprodução da espécie na sexualidade, colocando assim uma questão
crucial para a reprodução social da família e para os valores morais
dominantes.
Assim, foi pela desmontagem da figura da homossexualidade como
antiMturez.a e peJo destaque do que existe de " humano, muito humano"
no homossexualismo, que Freud demonstrou que a matriz da sexualidade
é perverso-polimorfa e que o prazer homossexual é um des tino possíve l
na genealogia da pulsão. Com a célebre fórmula "a neurose é o negativo
da perversão" , 3~ Freud indicava numa metáfora fotográfica que as cenas
sexuais decifradas pela psicanálise no lusco-fusco da estrutura psíquica
das diferentes neuroses revelam os mesmos mecanismos mentais que se
apresentam como positividade e como ato nas denominadas perversões
sexuais, pois ambas as estruturas psíquicas são tributárias da malriz básica
da sexualidade perverso-polimorfa e são destinos ~íveis das pulsões.
Após operar criticamente essa demons tração conceitual e des masca-
rar os valores inScritos na sexologia negativa, o que o discurso freudiano
acabou por descobrir como denominador comum em diferentes modali-
dades de perversão sexual foi o fetich ismo e não a .. inversão sexual" .)6
Com isso, caracterizava a estrutura perversa não apenas como a idealiza-
82 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtrlCA

ção do objeto sexual, mas principalmente como o horror produzido pela


iminência da experiência da castração, isto é, o reconhecimento da dife-
rença sexual.

V. O gozo e seus impasses


O desenvolvimento dessa última proposição exigiria um espaço de que
não dispomos no momento para indicarmos suas derivações teóricas.
Porém, destacar que o reconhecimento da diferença sexual tem a possibi-
lidade de produzir no sujeito uma experiência de castração da ordem do
horror nos permite delinear o caráter de . paradoxo que a sexualidade
representa para o sujeito.
Quando desde os anos 20 Freud desenvolveu a idéia de uma pulsão
de morte, 37 quis indicar com isso uma concepção muito complexa das
relações entre o corpo erógeno e a representação, baseando-se para tal em
múltiplos signos fornecidos pela experiência psicanalítica, como a trans-
ferência negativa, a reação terapêutica negativa e os impasses colocados
pela compulsão de repetição. Além disso, a idéia de pulsão de morte
sublinhava a dimensão traumática do impacto pulsional para o sujeito e
indicava, com isso, as impossibilidades e os limites existentes no sujeito
para a fruição do gozo absoluto. Embora seja a possibilidade de obtenção
dessa modalidade de gozo o que coloca a pulsão em movimento, o sujeito
se encontra permanentemente diante de seus impasses.
Esse é, na verdade, o sentido primordial do que Freud procurou
enunciar quando posicionou o signo do sexual entre os signos da enfer-
midade e da morte, pois se por wn lado recolocou a experiência do gozo
excluída pela moral do Cristianismo, sublinhou também, por outro, a
relação de paradoxo que articula o sujeito e o sexual. Mesmo consideran-
do os limites internos na relação do sujeito com o sexual - o gozo
absoluto é interdito e coloca o sujeito face aos impasses da morte - ,a
sexualidade seria uma positividade fundamental a ser restaurada pelo
sujeito.
Portanto, é fundamental destacar a dimensão de paradoxo que a
sexualidade representa para o sujeito, no discurso freudiano, já ,que a
psicanálise não pode prometer o gozo absoluto, sendo este da ordem do
impossível. O que a psicanálise pode realizar é a possibilidade de reabrir
e sustentar o desejo do sujeito, mas o gozo absoluto é o impossível, na
medida em que suspende os ruídos do desejo no silêncio da morte.
Por isso mesmo, o discurso freudiano assume uma posição crítica face
ao discurso sexológico, seja este positivo ou negativo. Assim, desenvol-
O SACIUFÍCIO DO CORPO 83

veu-se nas últimas décadas novas modalidades de sexologia - terapêuti-


cas sexológicas e novas terapias de corpo - que caracterizamos como
positivas, na medida em que se baseiam na promessa de possibilidade do
gozo absoluto. Esse discurso sexológico baseia as s uas proposições na
tese de que o gozo é infmito e ilimitado, promovendo nas pessoas a ilusão
da completude e de que a possibiUdade do movimento da pulsão possa
atingir a fruição plena.
Da mesma forma, o discurso freudiano assume uma posição crítica
face às diversas tendências existentes na psicanálise pós-freudiana, que
acaba~m por reduzir novamente o registro do sexual ao regislro do sexo,
naturah1..ando então as perversões segundo critérios de uma nonna bioló-
gica do sexuaI. Assim, se realiza uma nova psiquiatrização do sexual onde
. '
se contrapoem as estruturas neurótica e perversa como patamares evolu-
tivos, com valores diferentes, de uma norma sexual absoluta.38 São essas
modalidades de psicanálise que fornecem seus discursos para legitimar a
caça às bruxas no sinistro processo político aberto a partir da AIDS,
retomando os velhos argumentos da sexologia negativa para excluir como
antinarureza tudo aquilo que não se insere no campo da .. moral sexual
civilizada" .
Já no discurso freudiano a relação do sujeito com a sexuaÚdade é
marcada pelo paradoxo, pois o sexual coloca-o frente a impasses funda -
mentais para sua constituição e desdobramento como sujeito. Enfim, ele
deve-se defrontar com esses impasses para dar conta de sua existência na
culrura, na medida em que o mal-estar é constitutivo de sua condição de
sujeito,39 em função da antinomia fundante entre o corpo e a linguagem .
Sobre a paixão 1
Uma leitura do discurso freudiano

I. Um discurso sobre a paixão


Pretendo, da perspectiva da psicanálise, falar da paixão na experiência do
s ujeito. É desse lugar que farei sobre este tema alguns breves comentários.
O que s ignifica dizer que é da posição de um saber que se sus tenta numa
experiência intersubjetiva que estes comentários se formalizam.
A experiência intersubjetiva pode ser caracterizada como aquela que
se estabelece entre alguém que se posiciona como suporte ao reconheci-
mento de uma paixão até então indizível, oferecendo sua escuta ao apoio
de um outro que se encontra muna situação crucial, qual seja, nos limites
da perda de seus emblemas idenúficatórios. Defmimos, assim, o eixo
fundamental do processo analítico, na circularidade entre a paixão e o
verbo, e como condição de possibilidade esse elemento específico da sua
demanda. Somente a presença de uma situação limite de dilaceramento
psíquico é capaz de levar alguém a formular um apelo existencial dessa
ordem . Esta seria a condição para se realizar um processo de análise como
uma experiência radical.
Nesse contexto, a paixão vai se circunscrever de uma maneira
particular e seu desenho passa a revelar as marcas produzidas nessa
relação intersubjeúva. Com isso afinnamos que a psicanálise se apresen-
ta como um dos discursos sobre a paixão e não como a única formulação
legítima sobre a paixão. Representando, contudo, uma experiência rad i-
cal entre dois sujeitos que estabelecem uma relação muito singular dentre
as diferentes relações sociais, a psicanálise deixou um legado original
sobre a paixão em nossa tradição culrural.

11. O processo psicanalítico e o lugar paradoxal da paixão


Consideremos esquematicamente essa relação em sua particularidade.
Para isso, devemos destacar alguns paradoxos que perpassam o pensa-

84
SOBRE A PAIXÃO 85

mcnto freudiano quando a paixão entra em cena ocupando um espaço


ambíguo. Ambigüidade entre a paixão e o amor, dois pólos que se confi-
guram como excludentes na relação do sujeito com o outro, ou figuras
limites que marcam a cadência dessa relação numa oscilação interminá-
vel, e ambigüidade entre a paixão e a verdade, que se apresenta come uma
polaridade excludente na experiência subjeúva, ou figuras que se contra-
p('lem permanentemente na busca de reconhecimento do sujeito, de ma-
neira a se exigirem reciprocamente.
Não pretendemos responder imediatamente a essas indagações mas
circunscrevê-las lentamente, de maneira a nos aproximarmos de sua
dimensão paradoxal, presente na relação entre a psicanálise e a paixão.
Se entre a psicanálise e a paixão não existe qualquer possibilidade de uma
formação de compromisso, no senúdo psicanalítico do termo/ isso não
implica que a paÍxão deva impossibilitar a consútuição do processo
analítico, nem que a psicanálise deva silenciar a paixão para que aquela
possa existir como um saber intersubjetivo. Ao contrário, pois se consi-
derarmos que a psicanálise estabelece uma relação de fundação com a
paixão, a articulação entre ambas é de tensão permanente e intenninável,
na medida em que perpassa o processo analítico como uma to talidade e
se formaliza em sua c.strutura fundamental que é a transferência.
Neurose de transferênch: assim se referia Freud à figura básica que
se consliluiria no transcorrer do processo analfúco e que possibilitaria a
interpretação da neurose originária do analisando.3 Psicose de transferên-
cia, além disso acrescenta uma das tendências do pensamento psicanalítico
moderno, para circWl.Screver novas facetas dessa repetição no cenário da
anáüse da estrutura psíquica do demandante.• Assim, a descoberta psicana-
lítica se delineia pela elaboração de uma experiência intersubjeúva singu-
lar que se transforma numa forma específica de saber, de maneir a que a
dimensão transferencíal dessa experiência é a sua maior inovação, sendo
o caminho privilegiado para a constituição de um saber sobre a sexuali-
dade, isto é, sobre os destinos das pulsões e seus impasses. Nesse contexto,
a figura do amor transferencial' não é apenas o paradigma epistemológico
do conceito de transferência, mas, além disso, a fonte inesgotável para a
comprovação das asserúvas do discurso teórico sobre a sexualidade.
Seria tautológica essa formulação'? Ou, ao contrário, seria a prova
cabal de que o discurso analítico somente pode existir, de fato e de direito,
como uma interpretação das vicissitudes dessa experiência intersubjeúva?
Evidentemente, me inclino para a segunda altemaúva, que nos indica a
única possibilidade de nos afastar de uma versão que transforma a psica -
nálise, cada vez mais, numa pedagogia do sexo e do amor, e que assim se
consútui pelo deslocamento de seu discurso para o exterior de seu espaço
86 ENSA IOS DE TEORIA PSTC ANALtrtCA

intersubjetivo de validade, indo parasitar uma infmidade de relações no


espaço social.
Contudo, se a transferência é o eixo fundamental do processo anaH-
tico não cons titui a úrúca dimensão do ·ato psicanalítico . Caso este
pret~ndesse apenas o desaparecimento dos sintomas e das anomalias
psíquicas, o efeito curativo da transferência seria· suficiente. Sabemos
que Freud sempre recusou esse caminho fácil para o desdobramento do
6

.
ato psicanalítico, o que implicaria res ttingi-lo a uma fonna de sugest.ão
e , com isso deixar de considerar uma dimensão fundamental da loucura.
Para o discurso freudiano as estruturas psicopatológicas são formas do
sujeito falar a verdade,7 maneiras do sujeito dizer algo sobre o sentido
singular de sua história. Não basta portanto fazer desa~recer o descon-
forto mental, IDQS possibiU tar que o sujeito fale de mane1ra plena, mesmo
que isso temporariamente provoque o awnento de seu sofrimento psí-
quico. _
Não se balizando pela idéia de cura mas pretendendo a restauraçao
do sentido singular de uma história, a psicanálise procura criar as
condições para o res tabelecimento dessa verdade. Por isso mesmo, a
psicanálise é uma forma de interpretação, sendo esta. di~cn~ão o
contraponto sistemático da transferência. Entre t~ansferencl~ e mte.r-
pretação circula a aventura psicanalítica, sendo a mterpretaçao o meto
pelo qual a energética pulsional se desloca para o regist!o da palavra.
Então, o ato psicanalítico pretende inscrever a força pulsJOnal no plano
do discurso, restaurando como palavra aquilo que era, até então, efer-
vescência indizível.
Porém, a interpretação não é apenas um instrumento do aoalis~, uma
forma de tradução no qual este formaliza em palavras o que o analiSando
coloca em atos na transferência.• Ora, para que a relação intersubjetiva
seja efetiva, é necessário não apenas que o analista esteja implicado na
transferência como também que a interpretação se articule entre as duas
figuras da relação, como uma mediação que expl.icite ~s pos~ciona.o;'entos
das figuras. EnfliD, o prefixo inter da palavra mterpret.açao sublinha o
alcance intersubjetivo do saber psicanalítico, da mesma forma como no
ser da pulsáo está marcada essa articu !ação entre os regjstros do psíquico
e do corporal. ·
A dimensão passional da relação analítica é bastante evidente nos
termos em que está sendo aqu.i esboçada, e isso não apenas para o
analisando como também para o analista, já que este se vê questionado
em cada experiência traosferencial na totaUdade de seu saber psi~analíti­
co .. Procurando transcender esse quadro de referência para apreender no
fundamental o que representa a oposição transferência/interpretação, po-
SOBRE A PAIXÃO 87

demos circunscrever a partir daí o paradoxo entre a psicanálise e a paixão.


Este paradoxo centra-se em algo que abre espaço para acolher a paixão c
reconhecer sua "presença no âmago da experiência da loucura, mas que,
para realizar esse reconhecimento, precisa retomar a paixão no plano do
discurso. Enfim, é preciso que a pulsão fale, que a força que ela representa
se inscreva no registro simbólico.
Se os fantasmas da sedução e da castração ocupam um lugar tão
destacado no saber psicanalítico isso se deve, sem dúvida, ao paradoxo
entre a psicanálise e a paixão, isto é, entre algo que atiça a "fera" que
estava subjacente ao sofrimento psíquico mas que, em contrapartida,
demanda a sua inscrição no registro da palavra. Assim, se ao convidar à
explosão pulsional na transferência a psicanálise legitima a paixão, sua
interpretação ordena a irrupção desta, não a satisfazendo, mas mantendo
sua demanda em aberto. Nesse paradoxo é reprodu1jda a natureza dualista
da pulsão, que é ao mesmo tempo energia e exigência de simbolização,
força e exigência de trabalho.
Da mesma maneira, podemos interpretar duas representações hls-
tóricas da psicanálise destacando essa articulação com a paixio. Se no
começo do século a psicanálise foi representada como "pansexualis-
t.a", isso se deve ao relevo conferido à instigação das pulsões que ela
realizaria, não se considerando nessa perspectiva que esse procedimen-
to era o meio pelo qual ú sujeito emergia para a sua verdade. Se na
atualidade a psicanálise é representada como uma forma de "normali-
zação sexual" isso se deve, por outro lado, às tentativas de ruptura
deste paradoxo entre psicanálise e paixão, em que se evita a convivên-
cia com a explosão passional tão logo a "fera" seja despertada, por seu
rápido ordenamento num discurso pedagógico-moralista.
A dificuldade que impõe a situação analítica é justamente a de
conviver com o paradoxo, ou seja, abrir as fendas do ego para a irrupção
da paixão e deixá-la falar de maneira interminável, sem satisfazê-la, pois
a sua retomada pelo sujeito no plano discursivo implica que este deva
dar inevitavelmente um destino à paixão despertada pela transferência.
Com isso, a psicanálise devolve ao sujeito o encargo de conviver inte-
gralmente com a paixão, com todos 05 riscos subjacentes, isto é, com seu
fascínio e seus impasses.

/li. Figuraç.ões do paradoxo


Considerando o ordenamento dessa problemática no plano do processo
analítico, retomemos agora alguns temas centrais do pensamento freudia -
88 ENSAIOS DE T EOR lA PSICANALtfiCA

no, de maneira que possamos destacar sinais imponantes dessa tensão


entre psicanálise e paixão, procurando sublinhar a dimensão de paradoxo
que define essa relação. Vamos discutir inicialmente a relevância da
questão na constituição histórica do campo psicanaUtico, marcando por
esse viés a inovação da psicanálise face à psiquiatria. Em seguida, vamos
retomar os destinos da paixão no processo analítico, estabelecendo sua
relação com o narcisismo e seus efeitos na relação com o outro. Finalmen-
te, vamos considerar este paradoxo no conceito fundamental do discurso
p~icanalftico, isto é, a pulsão. ·

I. A PAIXÃO E A EXPERli.NCIA DA LOUCURA

A paixão é a matéria-prima do discurso anaHtico, pois é em tomo do ser


da paixão que a psicanálise se estrutura como experiência e como saber.
Por isso mesmo, a paixão nunca se transformou em conceito básico do
saber analítico, na medida em que é a condição de possibilidade da
totalidade desse discurso. Freud nunca deflniu a paixão num sentido
detenninado, mas retomou-a em sua acepção mais comum. Seu modelo é
a paixão amor05a, caracterizada como uma experiência de fascítúo pelo
outro na qual este é destacado como um objeto útúco e insubstituivel. Em
contrapartida, fariam parte também da experiência passional os desdobra-
mentos de suas impossibilidades: ódio mortal pelo outro, desilusões e
mortificações.
Para defirurmos rigorosamente o lugar da paixão na experiência
inaugurada por Freud seria suficiente evocar sua ruptura teórico-clínica
com a tradição de Charoot, no final do século XIX. Esta ruptura se
formalizou iniciabnent.e num trabalho transformador sobre a figura da
histeria, não apenas superando uma concepção médica na qual o corpo era
representado exclusivamente como anátomo-funcional, mas deflnindo a
existência de um corpo representado e de um corpo erógeno como
suportes para a interpretação da histeria.9 A construção conceitual dessas
outras representações do corpo se toiD.lll"8m possiveis pela restauração do
sujeito na his teria através da linguagem. O que pretendo sublinhar nos
primórdios do pensamento psicanalftico é que essa transformação se
realizou pelo destaque conferido à fase passional da denominada crise
.
histérica erigida então como momento de emergência da verdade na
histeria.
' '
Enquanto para Cbarcot a fase passional era apenas uma dentre as
quatro fases na descrição clínica da crise histérica, Freud se volta de
SOBRE A PAIXÃO 89

maneira exclusiva para de limitar a experiência passional, já que seria nela


que o sujeito enunciaria sua verdade. 10 Penetrando nessa experiência,
permitindo ao sujeito circular em s ua tessitura e disso falar, Freud desco-
bre a presença de wn cenário erótico e trawnático: cenas de sedução,
recordações de amores fracassados, paralisações em prazeres interditos e
impossibilidades de gozo.ll Vale dizer, foi pelo destaque conferido à
paixão histérica que o pensamento freudiano pôde constituir as figuras do
corpo erógeno e do corpo representado e, através destes, restituir à histeria
o seu estatuto de verdade. Enfim, seria especificamente nesse sentido que
a paixão pode ser legitimamente consideradà como a matéria-prima da
psicanálise.
Essa positivação atribuída à pa ixão tem um grande alcance histórico-
epistemológico, pois marca a inovação da psicanálise face ao saber
psiquiátrico do século XIX, no qual a paixão era vista como um celeiro
de virtudes negativas e definida como a causa básica da alienação mental
desde Esquirol. 12 Por isso mesmo, devia ser combatida pelo tratamento
moral. Invertendo a tradição, o discurso freudiano confere não apenas um
estatuto positivo à paixão, considerando nela o que foi impossibilitado de
existir e com isso produzindo as mais diversas fonnas de neurose e de
psicose, como também indica um lugar para a sua restauração: o espaço
psicanalftico. Ponanto, com o pensamento freudiano a paixão é readmiti-
da na experiência intersubjetiva, equivalendo isso à restauração simbólica
da experiência da loucura que fora silenciada no imaginário social com o
advento da "revolução psiquiátrica" na aurora do século XIX. 13
Sendo, porém, o suporte de uma experiência para que o sujeito
assuma sua verdade singular, caberia ao ato psicanalítico criar as condi-
ções para a enunciação des ta paixão. A impossibilidade de enunciá-la teria
levado ao recalque da paixão no momento mítico da constituição da
neurose, impondo-se agora a reversão do processo, deixando a pa.i.xão
existir e o sujeito dela falar.
As razões disso são evidentes, pois a psicanálise se constitui como
uma prática voltada para a resolução clínica da lo ucura, como um método
de deciframento das estruturas psicopatológicas , no qual a idéia fWlda-
mental é que o reconhecimento da pah;ão subjacente à loucura e a
explicitação do seu sentido seriam as condições de possibilidade de sua
resolução clínica.
Podemos destacar a existência de dois eixos lógico-temporais no
processo analítico. Inicialmente, caberia destacar a presença da paixão no
sujeito, para reconhecer a sua existência através da experiê~cia intersub-
jetiva e, num segundo momento, superar os obstáculos que Impedem sua
90 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAÜfiCA

circulação, para dar livre curso às pulsões que se encontram imobili7.adas.


Para isso, contudo, a paixão é retomada como discurso, com todos os
efeitos conseqüentes. Assim, com o deciframento da paixão existe o risco
de se produzir o seu esvaziamento, isto é, sua ilransfonnação em "amor
banal" . 14
Reencontramos nesse contexto, portanto, o paradoxo psicanálise/pai-
xão, no qual a restauração do sentido da paixão traz em contrapartida o
risco de seu fim. Situam-se nesse registro certos impasses estruturais, que
se constituem ao longo de qualquer análise, quando este risco se coloca
como possfvel na fantasia do analisando: l. A resistência que surge
inevitavelmente nesses momentos; 2. A transformação da transferência
positiva em negativa, como estratégia para pcnnitir a sobrevivência da
paixão, que se apresenta seja como paixão amorosa pelo analista seja
como desejo de seu aniquilamento. 13
Esses movimentos indicam que o analisando é muito cioso de sua
paixão e de seus sintomas, orgulha -se destes, apesar do sofrimento mental
que provocam, e que foi a razão de ser da busca da análise. Esses
movimentos são compreensíveis se considerarmos que a inscrição da
paixão no registro simbólico atualiza o fantasma da castração.

2. PAIXÃO E SENTIDO: DO EGOJDEALAOIDEAL DO EGO

Essa primeira dimensão do paradoxo remete a uma outra que já se


encontra anunciada no tópico anterior. Podemos fonnulá-la de maneira
esquemática como a oposição entre a paixão e o senttdo. Assim, se a
loucura revela o sentido singular da história do sujeito, essa verdade
apenas pode se enunciar com a explicitação da paixão até então silenciada.
Porém, a paixão não remete a si mesma, mas é a COJ.ldensação dramática
de um conjunto de posições identificatórias do sujeito que cabe decifrar
em sua multiplicidade. Nesse processo, o sujeiito se desbarata enquanto
pretensão de unidade centrada no ego e se apresenta como essencialmente
clivado (Spaltung). Enfim, se a experiência analítica inaugura algo
original que rompe com a representação do sujeito na tradição clássica,
essa inovação se situa justamente na quebra da unidade e na formula-
ção de um sujeito desde sempre fragmentado ,em pulsões e em identi-
ficações. 16
Assinalemos por onde passa a experiência da paixão na análise.
Nesta, o analisando é colocado numa posição singular: tudo falar, mesmo
aquilo que aparentemente não tenha qualquer importância: é a regra das
associações livres. Se com isso, inicialmente, o analisando se sente
SOBRE A PAIXÃO 91

totalmente recebido pelo outro, inteiramente amado por absorver a escuta


do analista que lhe acolhe em seu silêncio benevolente, essa experiência
de agigantamento narcísico vai logo se reverter, pela não-resposta do
analista às suas demandas. Esse diálogo singular começa lentamente a
estilhaçar a efusão narcf.sica e a romper com a imagem de unidade do
locutor.
Com isso, a figura do analisando passa a reviver todas as feridas de
não-reconhecimento pelo outro que balizaram sua história e dirige a este
outro, agora presente, todas as imprecações que se encontravam. latentes.
Assim, a experiência passional do analisando vai se apresentando em suas
várias facetas, todas elas marcadas pelo narcisismo, buscando a todo custo
a resposta do analista para sua demanda de amor. O que a análise pretende
é restaurar o sentido destas faces que se apresentam e não responder a elas
realisticamente, de maneira que a cada não-satisfação se apresentam
novas fendas no ego e o sentido do percurso fragmentado vai se perfilando
com maior nitidez. De forma complementar, vai se enunciando quem são
os vários outros a quem estas faces se dirigem, que vão então se deslocan-
do da figura do analista. 17
Nessa medida, a oposição paixão/verdade se coloca de maneira cru-
cial, pois a verdade singular da história do sujeito seria o eixo que perpassa
de forma irregular as várias facetas apresentadas, não se encontrando
totalmente contida em nenhuma delas. Assim, o que é doloroso na expe-
riência analítica se condensa justamente no desmascaramento narcísico
em que o sujeito se alienou nas identificações com o outro, desmascara-
mento este que produz como efeito a desarticulação dos arranjos pulsio-
nais e a liberação das pulsões para novas combinações. Nestas, coloca-se
para o sujeito a obrigação de definir o lugar de suas identificações, isto é,
impõe-se, como obrigação vital, a assunção de seu destino.
Como dissemos, estas faces desbaratadas foram denomin.adas identi-
ficações. Porém, Freud cunhou um conceito que é fundamental para a
interpretação destas identificações e da dinâmica da paixão, ego ideal,
que remeteria à experiência fundadora do ego. Nessa eltperiêncía o sujeito
adquire sua imagem originária de totalização, realizada através do outro
que, pelo olhar, o reconhece. Isso provoca uma alienação referenciada no
outro, pois sendo o ego a imagem que o outro investe o sujeito, não existe
autonomia face a este. Objeto fascinante e fascinado do desejo do outro,
o sujeito fica capturado n.as malhas deste desejo, de maneira a se estabe-
lecer uma relação de indiscriminação com o outro e que se encontra
marcada nessas identific,ações. 18 • 1 ~.2° Posteriormente, essa posição é per-
dida, constituindo a dinâmica de sua perda o que Freud chama de com-
92 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

plexo de Édipo. Entretanto, é interminável a busca de seu reencontro,


pennanecendo para sempre a tentativa de restaurar a plenitude nardsica
que atravessaria a estrutura psíquica do sujeito. Encontrar um outro para
quem se seja tudo, e vice-versa, representa a demanda básica da paixão.
Enquanto se sustenta nessas faces, o ego se erige como seu próprio
ideal, não existindo então qualquer mediação entre o ego e o ideal, isto é,
qualquer corte capaz de romper o fascínio do ego por sua própria imagem.
A instauração de um ideal do ego introduz justamente uma dialetização
entre o ego e seus ideais, de maneira a inserir uma fenda que rompe com
a onipotência narcísica do sujeito. A experiência desta fenda marca a
incisão da castração e solapa a plenitude passional do ego ideal.
Ora, a paixão para Freud se insere nessa ordem da experiência, em
que o sujeito procura colocar o outro no lugar de seu ego ideal e espera
ver nele reali1.ado o fascínio de sua imagem especular, para então incor-
porá-la. Por isso mesmo, o outro não é propriamente wn outro, pois não
existiria relação de alteridade, mas a projeção do ego ideal do sujeito.
Nessa posição fantasmática, portanto, a relação entre dois sujeitos tende
ao desaparecimento, não fosse a mediação da palavra analítica que rein-
troduz pennanentemente a fenda no ego ideal e confronta o analisando
com sua falta. Com isso, o fascínio passional se transforma em seu
inverso, de modo a produzir uma violenta raiva passional no sujeito, que
pretende no seu limite a morte do outro pela decepção infligida em seu
narcisismo.
Estas posições oscilam permanentemente no transcurso do processo
analítico. de maneira a definir uma relação de dominação/submissão na
qual as duas figuras ocupam ora um pólo ora outro, ambas expostas à
rasura repetida da onipotência narcísica. Nessa medida, sair dessa dra-
mática oscilação sadomasoquista, que é estrutural na análise, equivale à
possibilidade de introduzir uma mediação entre o ego e o ideal, com os
linútes que isso impõe ao narcisismo originário do sujeito.
Vamos sintetizar nosso percurso. Com a transferência a psicanálise
possibilita a irrupção da passionalidade e sua mise-en-scene na situ.ação
analítica em múltiplas posições intersubjetivas: ora o analisando é o pólo
superior/ideal/fascinante, ora é o analista que ocupa estas posições, numa
circularidade que vai explicitando as diversas faces da paixão em sua
dimensão de erotismo possessivo e mortífero, se bem que centrada numa
articulação básica: o fascínio. A não-resposta do analista e a demanda de
tudo falar vai não apenas revelando as várias facetas da paixão especular
mas possibilitando a inscrição destas posições no eixo do sentido, inter-
p~t~nd~, então, o deslocamento do movimento pela não-satisfação à
ex1gencra de cada figura.
SOBRE A PAIXÃO 93

3. A PULSÀO: A ENERGIA "VERSUS " O SENTIDO

Finalmente, es se paradoxo pode ser circunscrito se considerannos a


concepção de pulsão (Trieb), na qual a articulação entre as dime nsões
energética e representativa indica a presença do paradoxo paixão/verdade
no conc eito fundamental do saber psicanalítico.21
A problemática da paixão remete ao conceito de pulsão em que
esta representa uma força impulsionadora (Drang) que é mais forte que
o ego e que. por isso mesmo, o submerge !:orno exigência incontrolável
de satis fação. Dessa maneira, esta força situada mais aquém do ego
provoca um movimento que o arrasta irresistivelmente a um mais além
dele mesmo, em busca de algo que o satisfaça e o preencha em sua
demanda. Se a pulsão é atividade por definição na medida em que é
uma força, ela coloca o ego numa posição de passividade face ao outro
que seria o suporte para a satisfação desta den1anda. Portanto, enquanto
representando uma energética a pulsão é a matéria-prima da paixão em
todos os seus aspectos, até mesmo porque a satisfação estabelece uma
marca indelével na articulação da pulsão com o objeto, de forma a
colocar este como único e insubstituível, isto é, constituindo a condi-
ção de seu fascínio .
A pulsão, todavia, tem um efeito traumático sobre o ego, na medida
em que existe no psiquismo wn descompasso estrutural entre a exigência
da força e a capacidade simbólica do sujeito. Assim, quanto mais jovem
é o infante, maior é esse descompasso, o que confere ao sujeito a carac-
terística de um desamparo fundamental, no qual necessita do suporte do
outro para sua s obrevivência. Foi por essa consideração que Freud definiu
a condição humana como prematura. 22 Contudo, esse descompasso entre
a força e a simbolização nunca se abole, estando o sujeito destinado à
permanência neste desamparo.
O domínio dessa força é fundamental para a ordenação do sujeito e
vital para s ua existência. A constituição do campo psíquico de represen-
. taçõcs é o resultado dessa ordenação, mas depende do suporte do outro
como intérprete. Portanto, para o domínio pulsional é necessária wna
operação complexa, que se c entra em dois procedimentos: 1. A existência
de um outro que receba esta força pulsional, vale dizer, que a acolha e
seja o suporte para sua satisfação; 2. Por meio desse acolhimento se
o rdena a operação interpretativa dessa energética, permitindo sua inscri-
ção no registro simbólico. A pulsão se apresenta então em sua dimensão
de representante-representação.
Por essa ordenação no psíquico a pulsão adquire então um represen-
tante no campo da representação, além de manter a sua figuração afetiva,
ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

passando a circular num contexto simbólico. A verdade, denotada peh:


articulação do campo do representante-representação, seria o que domina
a dimensão energética da pulsão.
Uma questão então se coloca: a força pulsional seria, no pensamento
freudiano, inteiramente recuperada no registro do sentido, extinguindo-se
a paixão veiculada pela energética pulsional? E, sendo assim, como fica
o paradoxo colocado como proposição fundamental desse comentário?
O discurso freudiano mantém o paradoxo entre a p5icanálise e a
paixão, ao conservar a dimensão de paradoxo entre a pulsão e o sentido.
Podemos destacar esse tópico considerando esquematicamente duas te-
máticas:
I . Pela concepção freudiana de prematuração exis tiria sempre a
diferença entre força puls ional e capacidade simbólica do sujeito, de
maneira que nunca termina o sobressallo pulsional. Quanto mais j ovem
é o sujeito mais violenta é essa experiência puls ionál, que funcionaria
como um ataque ao ego pela carê ncia simbólica do infante. Por is..o.;o
mesmo, a demanda ao outro é absoluta, que passa a fornecer como
intérprete o quadro de re presentações de que carece o infante. Em
contrapartida, isso funda o destino interminável de dependência do
sujeito para com o outro;
2 . A permanência do paradoxo num nível mais fundamental , con-
siderando as transfonnações tardias do discurso freudiano. Assim, com
a introdução da segunda tópicaH e a teoria definitiva das pulsões, 24
acentua-se na teoria psicanalítica a representação da pulsão como
incontrolável. O id não-representativo vem s ubstituir o inconsciente
ordenado em representações, o que implica a existência de uma certa
modalidade de força pulsional que seria irredutfvel à representação.
Nesse contexto, o conceito de pulsão de morte, definido pela metáfora
do silêncio/' é uma força soberana, uma energética sem representação,
que insiste na manutenção dessa condição e se opõe às tentativas de
s imbolização realizadas por Eros. Paradoxalmente é a existência da
pulsão de morte o que demanda de maneira interminável o funciona -
mento da atividade representativa.
Com a concepção de Tanatos, a representação da pulsão como incon-
trolável - que procura tomar negativa qualquer ligação com o outro e
com a palavra - se apresenta de modo mais patente no discurso freudia -
no, destacando o que existe de indomável na pulsão. Esta, colocada ~m
movimento pela transferência como paixão, vai pennanecer em busca de
um outro que lhe satisfaça plenamente. Ou, então, em sua impossibilidade,
vai sof~r o impacto de um sentido que a represente.
SOBREA PAIXÁO '

IV. A reversão crucial entre o amor e a paixão


Como conclusão, podemos formular que no percurso freudiano perman~­
ce 0 paradoxo entre a ps icanálise e a paixão. Entretanto, podemos subli-
nhar no transcorrer desse pensamento uma transfonnação significativa da
questão, ou seja, a radicalização dessa relação, re tirando assim qual~uer
pretensão da psicanálise em querer recuperar a paixãofpu~s~o no reg•s.tro
do amor e do sentido. Frente a isso, impõe-se ao SUJeito o desuno
inevitável de conviver com sua paixão, arcando com seus riscos, e à
psicanálise cabe apenas a tarefa de fornecer wn suporte para que se possa
conviver com a irrupção da experiência passional. .
Com a constituição do conceito de pulsão de morte no dt~~urso
freudiano aumenta seu poder no funcionamento mental do SUJeito a
dimensão' da pulsão que insiste em sua condição de não-simbolizável.
Nesse contexto, surgem novas condições para o procesS<> analítico. Assim,
podemos levantar a hipótese de que se a psicanálise pretendia inicialmente
dar lugar à experiência da paixão para constituir wn. saber ~obre o a~~r,
um erotismo sem paixão, esse projeto foi se tomando Imposstvel . A patxao
res iste às armadilhas do discurso e ins is te em pennanecer no es tado de
não ter qualquer sentido e não ter qualquer outra pretensão que nã_o seja
a de buscar o ê xtase da fascinação. O paradoxo pennanece. entao, na
articulação da paixão com o amor e da paixão com a verdade , sen.do o
ensinamento fundamental que a psicanálise, em seu percurso freud1ano,
pode nos oferecer sobre a paixão.
Pu/são e intersubjetividade na interpretação
psicanalítica 1
Uma leitura da concepção freudiana de sujeito
e da metapsicologia

I. Introdução
~etendem':" exami~ar, esquematicamente, a concepção freudiana da
ID~erpr~t.açao. Para ISso, vamos definir alguns pressupostos teóricos da
psJca~ahse e d~stacar ~ua espe~i~cidade epistemológica enquanto
saber lnterpretallvo. Asstm. a temauca dos fundamentos da psicanálise
será.abordada por um viés bastante particular, mas que nos indica um
cammho relevante para circunscrever a racionalidade do discurso freu-
diano.
. ~essa perspe~tiva, pretendemos esboçar a concepção psicanalítica de
SUJeito em sua articulação com a noção de sentido. O conceito de inter-
pr~~ção se ordena nesse contexto, pois seria através do sentido que 0
SUJello se configura como marcado por uma verdade singular, estabele-
cendo en~o o que caberia ser decifrado pelo processo psicanalítico. Essa
p~blem~uca s~rá ~ostentada pelo conceito fundamental da metapsícolo-
gJa freudiana, ISto e, a pulsão.
Antes de tematizar especificamente essas questões de forma arti-
cu~ada .P~etendem~s destacar a inovação histórica representada pela
pstcanahse, constderando a ruptura teórica que esta realizou no
campo .da lo~cu~a para se constituir enquanto saber sobre o sujeito.
Vale dtzer, mdtcaremos o corte epistemológico que a psicanálise
es~beleceu no sécut.~ X~X com os discursos psiquiátrico e psicológico,
delineando a exper1encta da loucura como inserida no universo da
verda~~ e, porta.nto, c~mo reveladora do sentido singular da história
d.~ su~ello. A pstcanáhse teria forjado uma nova relação com a expe-
n~ncla da loucura ao retomar simbolicamente a tradição pré-psiquiá-
trica, na qual a loucura estava inserida na ordem do sentido constituin-
?o, então, um saber original sobre o psíquico que se fundamenta na
mtet;pretação.
PULSÃO E HITERSUBIETIVJDADE 97

/1. Experiência da loucura e saber da interpretação


Antes de mais nada, podemos postular que o discurso freudiano inaugurou
uma fonna de saber sobre o psiquismo que se sustenta fundamentalmente
na atribuição de verdade à experiência da loucura. 2 E..:;sa descoberta
subverteu a então recente tradição psiquiátrica, na qual a loucura, reduzida
ao estatuto de enfermidade, foi destituída do universo da verdade. No
Renascimento e na pré-modernidade, isto é, no período histórico anterior
à denominada "revolução psiquiátrica", realizada no século XIX, a
loucura estava inserida nesse universo da verdade c isto pode se verificar
de maneira marcante na.o;; múhiplas representações legadas pela tradição
mito-poética. 3 Evidentemente, a retomada pela psicanálise da proposição
de que· a loucura é uma fonna do sujeito dizer a verdade se realiza numa
direção diversa da anterionnente estabelecida na tradição renascentista,
pois com o discur.m freudiano este postulado está centrado no funciona-
mento psíquico do sujeito e não na estrutura cósmica do mundo.
A filiação freudiana à tradição pré-psiquiátrica da loucura é ba.o:;tante
evidente. Assim, num ensaio tardio como "Uma neurose demoníaca do
século XVII.. , esta fonnulaçào é literal quando Freud afinna, referindo-se
ao advento histórico da p!ticanálise, que a .. teoria demonológica daqueles
tempos de trevas venceu finalmente todas as concepções somáticas do
período da ciência 'exata.., .4 Porém, desde as páginas iniciais de A
interpretação dos sonhos, o primado do sentido na experiência da loucura
já estava assinalado, configurando o corte com a tradição médico-psiquiá-
trica.' Os desdobramentos posteriores desse percurso teórico apenas vão
realinnar, com maior complexidade e até mesmo de formas surpreenden-
tes, a trilha traçada nesse momento inaugural, de modo a conferir ao ato
inicial do saber psicanalftico o valor de um símbolo e de um mito das
origens.
A inserção da loucura na ordem do sentido supõe que se restitua ao
louco a possibilidade de falar e de ser escutado, com todos os efeitos
intersubjetivos que isso de fato acarreta. Para destacar alguns desses
efeitos sobre a leitura do sujeito, vamos esboçar como se processava a
relação da psiquiatria com a loucura, na aurora do discurso psicopatoló-
gico no século XIX:
1. Se na tradição psiquiátrica a loucura era destituída da ordem da
verdade, esta era definida, em seus critérios fundamentais, pelo discurso
psiquiátrico. Com isso, a psiquiatria podia Jegiúmar o poder que detinha sobre
a loucura. A relação terapêutica entre o médico e o enfermo era essencial-
mente uma relação de força, desenhando-se como um confronto moral entre
a figura onipotente da verdade e a figura louca da não-verdade;
98 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAúriCA

2 . Como conseqüência disso, o saber psiquiátrico sobre a lo ucura era


funda menla lmente um disc11rso explicarivo, pois não con..<iiderava o lugar
do sujeito na experiência da loucura e a ordem do sentido dessa experiên-
cia em sua construção teórica;
3. O desdobramento teórico e histórico disso foi, como sabemos, a
constituição de um discurso normalizador sobre a loucura, do qual a
prática do tratamento moral nos fornece as imagens mais eloqüentes
desses efeitos intersubjetivos. 6·'·8
Assim, se o wscurso psiquiátrico detinha de fo nna absoluta a verdade
sobre a loucur-d, esta transformava-se de fato numa experiência sem
sujeito, e conseqüentemente este apçnas se constituiria enquanto tal após
a modelação ps iquiátrica. Por isso mesmo, a relação entre as figuras do
psiquiatra e do louco é absolutamente assimétrica, na qual o primeiro
como re presentação da figura poderosa da verdade vai impor ao segundo
um código de ordenamento que não considera a posição do sujeito em sua
experiência. A psiquiatria, com isso, transfonna-se num discurso explica-
tivo e numa prática de nonnalização do psiquismo. Enfim, a minoridade
social c jurídica do louco, assim como sua conseqüente exclusão asilar e
social, são os efeitos devastadores da destituição primordial do lugar do
sujeito na experiência da loucura.
O discurso freudiano trans formou esses pressupostos do saber psi-
quiátrico, cons tituindo uma relação intersubjetiva radicalmente diversa.
Fundando-se no sentido dá experiência da loucura a relação ps i<:analiúca
não se configura como um confronto entre as figuras da verdade e da
não-verdade, mas como o encontro de dois sujeitos inseridos na ordem do
sentido. Com isso, a teoria psicanalítica se constitui a partir do !>entido
veiculado pelas diferentes formas de experiência da loucura no contexto
analítico, encontrando nestas os seus pressupostos teórico e ético.
.. O processo e a clínica psicanalíticos são as condições reais de possi-
hlltdade para a construção e as reformulações da teoria pskanalítica ao
longo do percurso freudiano . Nessa perspectiva, a metapsicologia freu-
diana representou o coroamento teórico do processo de elucidação da
verdade do sujeito, onde Freud procurava fundamen~ar numa teorja expli-
ca tiv~ o que se reali'l..ava no processo analítico. Assim, a metapsicologi&
freudiana se funda na hermenêutica psicanalítica, mas esta não se cons titui
num saber interpretativo qualquer, como veremos adiante, mas numa
forma original de interpretação que se sustenta no deciframento e na
intersubjetividade.
, .Podem?s sublinhar isso, inicialmente, considerando o longo percurso
teo~Jco reah~d.o por Freud, nos anos 90 do século XIX, no qual procurava
delinear o senudo revelado pelas diferentes estruturas psicopatológicas
PULSÁO E INTERSUBJETIVIDADE 99

em sua articulação com o novo instrUmento metodológico que es tava se


constituindo, 9 •10 antes, portaniO, de formalizar essas descobertas po capí-
tulo metapsicológico de A inurpreraçào dos sonhos. •• Esse percurso
teórico foi indicado no prefácio dessa última obra, quando Freud dizia que
o sonho seria uma formação psíquica que se insere numa série mais
abrangente, cujos outros tempos seriam os sintomas das diferentes estru-
turas ps icopatológicas. 12 Posteriormente, outras produções psíquicas fo-
ram inseridas pelo discurso freudia no nessa série, como o ato falbo 13 e
o cWste, 14 sendo estes, pois, considerados como formações do incons-
ciente. Poré m, ao longo do discurso freudian o, o sonho sempre perma-
nece u como o paradigma merapsicológico de uma formação do incons-
ciente, não a penas porque a través dele foi formalizada a metapsicolo-
gia psicanalítica, mas também porque foi pelo sonho que se aprendeu
pela prime ira vez a presença, numa prbdução psíquica dita normal, dos
mesmos mecanis mos, até aquele mo mento per tcncentt:s ao universo da
patologia, o nde foi rompida então a front.e ira entre o normal c o
patológico.
Proc ur,mdo ir além desse momento inaugural do discurso fre udiano,
podemos cons iderar que foram as vicissitudes do processo psicanalítico,
isto é, as novas formas de experiência da loucura inseridas no ato analíti-
co, que conduziram Freud à reformulação da primeira 1ópica e à nova
teoria pulsional dos anos 20, se considerarmos que foi a denominada
" reação terapêutica negativa" e o seu sucedâneo, o - sentimento incons-
ciente de culpa'' ,u o que imprimiu essa mudança crucial na teoria psica·
nalítica.
Com a mudança radical imposta pela psicanálist: no contexto psiquiá-
trico do século XIX, o eixo da transformação se centrou na nova forma
de intersuhjetividadc que se estabeleceu no espaço analítico. Nessç espa-
ço a loucura seria fundamentalmente marcada pela verdade, impondo -se,
pois, a s ua circulação e a sua transformação pela palavra. Com isso, se
estabeleceu uma relação de relativa s imetria entre a..<> figu ras implicadas
no ato psicanalítico, mesmo quando o analisando introduz a assimetria ao
demandar" do analis ta um saber que solucione o seu sofrim e nto. Nós
conhect:mos os efeitos estruturantes disso no processo analítico: a trans -
ferência positiva, a paixão transferendal, a transferência negativa e o ódio
mortífero da figura do analisando, quando não atendido em sua demanda
de que a figura do analista seja efetivamente a materialização desse
suposto saber. Entretanto, para que o processo psicanalítico se constitua,
e se desdobre concretamente, a figura do analista não pode se colocar
nesse lugar e se acreditar na posse de um discui'So sobre o outro. que
explique os seus infortúnios, pois assim estaria impedindo que o anahsan-
100 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

do se posicionasse como sujeilo de sua experiência .e pudesse, então,


enunciar a singularidade de seu desej o, para reconstituir a ve rdade de sua
história.
Como indicamos, a descoberta da IJ'ansferência se insere nesse con-
texto, s ustentando as marcas que configuram o sentido singular de uma
história e que vão tecendo a grande trama da relação do sujeito com o
outro a partir dos nós que constituem obstáculos na relação intersubjetiva.
Portanto, a trans ferência é a mediação do sentido que vai se empreenden-
do pe lo impacto da relação do sujeito com o outro, delineando os eixos
que sustentam a s ingularidade de uma história.
O processo analítico se estabelece enlre dois sujeitos inseridos na
o rdem do sentido. Esse reconhecimento do sentido na experiência da
lo ucura implica afinnar que a matéria-prima do saber analítico é o discur-
so da loucura e que, por isso mesmo, o analista também enco ntra sentidos
para os fragmentos enigmáticos de sua his tória, a partir de articulações
realizadas pela figura do analisando. É importante evocar aqui o impacto
intcrpretante que tiveram sobre Freud as elaborações mentais de seus
analisandos, isto é, como a sua ··auto-análise" dependia fundamentalmen-
te do processo analítico de seus analisandos. 16 Não teria sido essa a
diferença crucial entre Freud e Breuer1 Enquanto o primeiro duvidava
ocupar o lugar onipotente da verdade - com todos os efeitos eró ticos
e estéticos que essa posição subjetiva implica na relação com o outro -
podendo por isso se aventurar numa experiência intersubjetiva, o segundo
precisou fugir em debandada quando questionado Dessa posição por Ana O.717
· Procurando ir além desse argumento teórico, queremos assinalar a
circularidade estabelecida por Freud entre os discursos da psicanálise e
da loucura, quando comenta a consll'Ução delirante de Schrebcr..com
efeito, Ficud considera não apenas legítimo mas também supenor o
discurso de Schreber sobre a loucura,JS.'9 ao contrapô-lo ao saber psiquiá-
trico, encontrando em seu delírio a verifica~o experimenta) da teoria da
libido. 20
Por isso mesmo, a psicanálise é um discurso interpretativo, pois
pressupõe o sentido como o eixo epistemológico que norteia s ua constru-
ção. Seria apenas com a manutenção do primado do sentido que a psica -
nálise encontraria a garantia de não retomar à ordem psiquiátrica, impos-
sibilitando, assim, a sua transformação numa prática de normalização,
problema este, aliás, inteiramente caracterizado no atual campo psicana-
lítico.
A psicanálise como um saber interpretativo é o correlato de um
processo que se define como intersubjetivo. Com isso, indicamos o estilo
que define fundamentalmente a interpretação psicanalítica, isto é, como
PULSAO E INTERSUBJETIVIDADE 101

um efeito que se articula entre as duas figuras inseri~as no co~text~


analítico, não existindo o privilégio de uma delas, pois a tnterpretaça~ va1
se tecendo entre os dois pólos da relação inte.rnubjetiva . O prefixo mter
da palavra interpretação já indica essa particularidade da hermenêutica
psicanalftica.

/II. Realidade pslquica e representação teórica


da psicanálise
Vamos indicar agora alguns o utros pressupostos do discurso freudiano,
que pretendem desdobrar o movimento tc?r~co ~nterior. A .a~ribuição
de verdade à e xperiência da loucura e a existencJa de um SUJclto como
seu eixo teórico de sustentação supõem que o sentido dessa experiência
se encontra situado naquilo que Frcud denominou realidade psíquica
e não na denominada realidade material. Com essa distinção entre
diferentes ordens de realidade, enfatiza-se que é na tessitura do funciona-
menlo mental que se inscreve a experiência da loucura, e não em outros
referentes ex Ira-subjetivos, sejam esres de ordem biológica ou social.
Nessa perspectiva, a psiquiatria não atribuía verdade à experiência da
loucura quando pre tendia fundamentá-la pela consideração de referen tes
situados na realidade material, sem destacar o sujeito com~ referênci.a
fundamental desse sentido. Assim, ao discurso da loucura nao era credi-
tada qualquer verdade, pois esL"' se configurava pela adeq.ua_çãojnão -ade -
quação da experiência da loucura a referentes extra-subjetivos. Enfim, o
discurso da loucura não se inseria oa ordem da verdade, quando esta se
definia pela oposição verdadeiro/falso.
A démarclte freudiana se realiza de maneira inversa. Nesta se pontua
pcnnanentemente que o louco sempre diz a verda~e~ ~ue sua experi~ncja
tem um sentido que cabe ser decifrado çara posstb1litar s.u~ enun~taçao
pe la palavra.21 Po rém, para escutar essa verdade é .nccessan o con:Hdcrar
a realidade psíquica como o eixo ordenador do suJeito. Com essa IJ'ans-
formação de referente, a verdade pode ser enun-ciada, já que no plano da
realidade psíquica e la se regula pela oposição ser/não-ser, o que lhe
confere uma dimensão absoluta para a experiência do sujeito. A dimensão
de absoluto que caracteriza a verdade na economia subjetiv ~ é n:pr~sen­
tada no discurso freudiano de diferentes maneiras, como a orupotenc1a do
pensamento~l e a cumpulsão de repeliçào. 2J Por~n.to, cahc!ia. ao proces~o
analítico o dedframento dos enigmas de um SUJCHO, e nao Impor a este
uma verdade baseada num código qualquer da realidade material. que
acaba por produzir um efeito de normalização psicológica.
102 ENSA IOS DE TEORlA PSICANAltTICA

O discurso psicanalítico pretende transcender os regisiJ'os da cons-


ciência e do ego, inserindo o sentido da experiência da loucura num mais
além que seriam as marcas pulsionais diversificadas que delineiam o
percurso histórico do sujeito. Com efeito, a consciência e o ego são
instâncias psíquicas que representam os referentes da realidade material
na ordem subjetiva, representando assim a totalidade do sujeito ao rela-
cioná-lo às exigências da realidade material. Então, os discursos da
consciência e do ego se baseiam na relação de causa e efeito entre os
acontecimentos que se inserem numa cronologia e se regulam pelos
princípios da lógica fonnal, revelando, portando, o que Freud denominou
processo secundário, opondo-se ao processo primário, que regularia o
fundame ntal da realidade psíquica.2•
Com isso, o diRcurso frt:ndiann representava o sujeito como funcl'\-
mentalmcntc dividido (Spaltung), rompendo assim com a concepção
clássica, na qual o sujeito era figurado como uma totalidade una e
indivisíve l. Com Freud o sujeito foi figurado, nas duas tópicas, em
reg is tros diferenciados: inconsciente/pré-consciente/consciente,
id/egojsupcrego. Entretando, essa diversidade fWldamental remete em últi-
ma instância à multiplicidade pulsional, que o constitui enquanto s ujeito.
Quando Freud denomino u o novo saber de metapsicologia, assinalava
com isso uma fonna de saber que pretendia ir além da psicologia, que se
ce ntrava na consciência c no ego. Indicava também o que seria o funda-
mento da realidade ps íquica, isto é, inicialmente o inconsciente e poste-
rionncnte o id. Estas oposições - realidade material/realidade psíquica,
egojid, consciente/inconsciente, processo secundário/processo primário
-se: desdobram em outras equivalentes. Assim, associando a psicanálise
à arqueologia, contrapondo o tempo cronológico ao tempo mfúco, esta
oposição se formula como história/pré-história. Da mesma forma, a opo-
sição representação de palavra/representação de .coisa é o último desdo-
bramento da série estrutural de oposições metapsicológicas. 25
Entretanto, com a palavra "metapsicologia··, Freud também indicava
a dificuldade que penncou a totalidade de seu discurso para definir o
estatuto científico da psicaná lise que, se por um lado, procurando definir
o sentido da experiência da loucura, se constituía como um saber inter-
pretativo, por outro, não se inseria nos cânones objetivista-experimentais
da ciência dominante na virada do século XIX. Ao conttário, a subjetiva-
ção dos processos pulsionais no contexto intersubjetivo constituía uma
das dimensões fundamentais da psicanálise ao lado de wna pennanente
exigênc ia de cientificldade. Sabemos não apenas que a metapsicologia
pretendia ser a formalização explicativa da realidade psíquica, como
também q ue a exigência de verdade do sujeito se identificava para Freud
PULSAO E INTERSUWETIVIDADE 103

com o ideal então dominante de cientificid.ade, de maneira que a teoria da


ilusão26 e a crítica da psicanálise, não sendo uma forma de Weltans-
chauung,27 estão pennanentemente presentes em seu percurso.
Na passagem do século, a psicanálise se chocava com os cânones de
dentificidade definidos pela razão científica, sendo representada como
um "conto de fadas cientifico" (Krafft-Ebing)21 ou uma produção artística
(Stem, Liepman). 29 Essa discussão attavessou o século e ainda nos alcança
na atualidade. Cabe a nós sublinhar como Freud, nesse contexto, repre-
·s entou a nova forma de saber. Se pretendia ir além da psicologia, para
apreender a realidade psíquica nas pulsões que transcendiam a consciên-
cia e o ego, a metapsicologia acabava por se identificar com a metafísica
pela ruptura como os ideais de cientificidade do século XIX.30 Da mesma
forma, procurando definir o sentido da experiência da loucura e rompendo
com os pressupostos teóricos da psiquiatria e da psicologia, Freud se
encontrava com a tradição mito-poética, na medida em que via nesta
fonnulações análogas às suas sobre a verdade da loucura e procedimentos
similares aos utilizados pelo método psicanalítico. Freud reconhecia a
semelhança entre a técnica das associações livres e os procedimentos
utilizados pelos poetas para constituir wn espaço psíquico especial para
a criação literária.) 1
Essas referências são abundantes, de forma que no discurso freudiano
a evocação da tradição mito-poética supera em muito a da tradição
científica. Do legado mito-poético Freud aproveitou um inesgotável ma-
nancial de indicações sobre o sentido da experiência da loucura, ostensi-
vamente e;~tcluído dos saberes psiquiátrico e psicológico. Politzer já
assinalara que, para constituir uma ciência do "drama humano", Freud
podia contar a penas, em seu conte;~t to histórico, com o legado da literatura
e da dramaturgia; 32 e Althusser, numa perspectiva diversa, de.-.tacou a
mesma questão.33
O ensaio sobre Gradiva nos fomece um exemplo eloqüente disso,
quando Frcud assinala os obstáculos constituídos, pela ciência em geral e
pela psiquiatria em particular, para aprender a experiência da loucura, ao
não considerar nesta a existência do sujeito e do sentido, de maneka que
o discurso científico de No rbert Hanold era completamente impotente
face ao sentido de sua experiência delirante e ao seu desejo de saber, onde
se origina, aliás, a indagação psicanaUlica. ,~

IV. O deciframemo psicanalltico


O centro da indagação freudiana sobre o suje ito é atingido com a questão
do desejo de s aber, que é o utra maneira de se: enunciar a existência de uma
104 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

verdade s ingular que funda a subjetivide. Através disso poderemos nos


aproximar da forma específica que configura a hermenêutica psicana-
lítica.
O desejo de saber, ou a indagação da presença no sujeito de um saber
sobre o desejo, mostra que, no discurso freudlano, o sujeito j á é interpre-
tação. Quando formulamos que no seNing analítico existe o confronto
entre dois sujeitos portadores de um sentido e que a intersubjetividade
define o que existe de fundamental no saber psicanalítico, isso implica
aft.rmar que o sujeito é uma complexa tessitura de sentido forjado por
múltiplas interpretações ao longo de sua história. Estas supõem a presença
do outro como referente constitutivo deste sujeito-interpretação. A psica-
nálise se defme então como um saber interpretativo, que visa restaurar o
sujeito no plano da palavra, mediante a restiruição do sentido singular de
sua história. Para isso, a ps icanálise promove uma genealogia do sujeito,
tentando apreender as múltiplas marcas que traçam o seu perfil, circ uns -
crevendo s uas ide ntificações primordiais.
Porém, o sujeito já teria inscrito em seu psiquismo um sentido que
marca o seu percurso histórico. A psicanálise não fabrica absolutamente
o sentido da história do analisando, mas abre as fendas de seu ego de forma
a pennitir que as marcas que o definem se ordenem no plano da fala e
circulem na relação com o analista posicionado como outro. O discurso
freudiano indicava isso literalmente desde o início de A interpretação dos
sonhos, quando afinnava que o sonho não apenas tem um sentido como
já é também interpretação, cabendo, assim, ao ato psicanalítico a enun-
ciação dessa interpretação selada na imagem o nírica .
Analisemos o significado dessas proposições que define m a concep-
ção freudiana do sujeito e a especificidade lt6rica do método psicanalítico
de interpretação.
A formulação de que o sonho tem um sentido indica de modo ioso-
fismável o rompimento com os saberes científicos sobre a loucura exis-
tente no final do século XIX, nos quais o sonho e a loucura eram
considerados subprodutos do funcionamento cerebral Nesses saberes o
sonho podia ser explicado como um efeito da fisiologia do cérebro, mas
não revelaria qualquer sentido que seria ordenado pelo sujeito. Ponanto,
com esse passo inaugural Freud se encontrou com o legado milenar do
senso comum, ou seja, com a tradição pré-psiquiátrica sobre o sonho e a
louc ura.3s
Após estabelecer essa articulação com a tradição bennenêutica, Freud
se preocupou em definir a modalidade de seu método de interpretação,
criticando os métodos de interpretação simbólica e de deciframento para
assinalar a particularidade de sua hermenêutica. Na perspectiva freudiana
PULSÀO E INTERSUBJETlVIDADE 105

caberia superar esses modelos de interpretação, constituindo um instru-


mento original adequado ao novo objeto de investigação em vias de
construção.36 Dessa maneira, considerando que a problemática da singu-
laridade do sujeito era a questão fundamental colocada por esse novo
campo de objetividade, caberia criticar os métodds es'tabclccidos.
A hennenêutica freudiana inspirava-se principalmente na tradição do
método de deciframento, por sua evidente superioridade face ao método
de interpretação simbólica, mas renovando-o em tópicos fundamentais.
No que diz respeito à formulação de um saber da interpretação o método
de deciframento mostrava-se superior ao da interpretação simbólica, pois
não apenas deslocava o ato da interpretação da ..intuição" e da ..engc-
nhosidade ·· fluidas do intérprete para a solidez do instrumento metodoló-
gico, como também, ao romper a estrutura do sonho como semido tora/i-.
zante e lhe conferir o caráter de uma tessitura multifacetada de signo_s;
interpretava a estrutura do sonho como análoga à de um texto, remete ndo,
portanto, à linguagem, que seria o paradigma do sentido. por excelência.
Este deciframento tradic~onal deveria ser superado tanto para romper a
relação biunívoca dos signos com um livro prees tabelecido de significa-
ções, quanto para construir um livro aberto ao sentido, tão ilimitado
quanto as possibilidades de referência e de combinação desses s ignos, que
corresponderia, então, ao universo infinito de posições .subjetivas possí-
veis e à diversidade ilimitada de sujeitos.
Considerando o sonho como wn "escrito cifrado'', como Freud o
deoominava,31 caberia, pelo deciframento psicanalítico, abrir esse texto
para a leitura e deixá-lo falar sem preconceitos, na s ingularidade de ~ua
linguagem. Cada signo não remeteria mais a nenhum sentido fixo, poden-
do a priori apontar para wna diversidade de significações. O sentido
específico de cada signo estaria agora na estrita dependência da combi-
nação da totalidade dos signos pre~ntes no sonho, o que definiria o
contexto do "escrito cifrado". Para abrir o sonho à leitura pelo decifra-
menta caberia considerar a priori cada fragmento-signo do sonho como
uma representação complexa, que remeteria simultaneamente a uma série
de outros fTagmentos-signos do mesmo sonho e a uma série de outros
fragmeotos~sígnos da experiência histórica do sujeito. Apenas assim o
senúdo singular de cada fragmento-signo do sonho e de sua combinação '
específica poderiam ser rigorosamente decifrados. O "escrito cifrado" do
sonho quer dizer algo muito singular a respeito do sujeito que sonha,
remetendo tanto para o momento passado de sua história quanto para a
atualidade desejante de sua experiência psíquica. .
O corolário desse método de deciframento é que o sonho já é uma
interpretação. Freud pos tulava que, no deciframento psicanalítico, a in-
106 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALÍTICA

terpretação pretende apreender um sentido que já existe e não criar um


sentido novo pela linguagem do intérprete, a partir dos signos apresenta-
dos na configuração interpretável. Laplancbe enfatiza isso ao assinalar
que a palavra gennãn.ica Deu1u11g apresenta um s ignificado bastante
"realista.. , pois circunscreve uma operação racional que visa captar o
sentido em sua especificidade, isto é, já inscrito nessa singularidade, e não
um sentido que será re<:riado pelo Intérprete em outro código.38 O debate
de Freud com Jung se insere nesse eootexto, com Freud criticando a
··espiritualização•• do sentido promovida por Jung. destacando a singula-
ridade das marcas diversificadas do sentido e enfatizando o procedimento
da "uálise.. face à totalização promovida pelo procedimento técnico da
"sfntese".»
Assim, se o sentido já se encontra inscrito e não se constitui como
algo a ser criado pelo intérprete, isso faz com que se retire a priori a
soberania tradicionalmente representada pelo código interpretativo e pela
figura do intérprete. Nesse contexto, o código e a figura do intérprete
ficam submetidos às vicissitudes do sentido disposto no "escrito cifrado..
e não podem recuperar o sentido no registro que lhes interessar. Essa
conseqüência se colocava inevitavelmente tanto na interpretação simbó-
lica quanto no deciframenlo tradicional, pois neste último o código estava
definido a priori e a "arte da interpretação" atribufa à ..intuição.. do
intérprete wn lugar fundamental .
Essa singularidade do sentido pressupõe a existência de uma relação
fundante entre o sentido e a interpreração, na qual o sentido do sonho já
se constitui como uma interpreaação do sujeito sobre o seu próprio desejo.
O deciframento do sonho visaria explicitar essa interpretação cifrada. Não
sendo uma combinação de marcas-signos que demanda um código exte-
rior para que possa ser interpretado,4° o " escrito cürado.. é, a lém de uma
interpretação já realizada. uma combinação que se ordena por um código
determinado. Nesses tennos, a interpretação psicanalftica seria a tentativa
para a descoberta de um código, implicando isso a explicitação de suas
regras de func ionamento e a pontuação do sentido particular articulado
por esse código num contexto determinado.
É isso que Freud destaca quando formula Hleralmente que a narrativa
onírica já é uma interpreração; 1 e que caberia ao decíframento psicanalí-
tico a remontagem desse processo interpretativo que se encontra materia-
lil.ado nas imagens do sonho. O postulado freudiano sobre o sentido da
loucura fundamenta-se nessa concepção, na medida em que considera o
sujeito basicamente como significação e que, para isso, o sujeito deve ser
também fundamentalmente intérprete. Por isso mesmo, o processo anall-
tlco s upõe necessariamente a intersubjetividade. pois a figura do analisao-
PULSÃO E INTERSUBJETIVIDAOE 107

do ocupa a priori no contexto analítico a posição de um intérprete e não


se restringe a um mero objeto interprelÃvel pelo analista.

V. A pulsão e o fundamento do decifram emo freudiano


Se o deciframento psicanalítico artic ulando sujeito, sentido e interpreta-
ção indica uma concepção original de sujeito e da ordem psíquica, é
preciso que nos perguntemos como Freud fundamenta em última instância
o psfquico e a genealogia do sujeito que constituem seu método. Essas
questões se articulam no conceito fundamental da metapsicologia freu-
diana, isto é, a pulsão, o que mostra a maneira inovadora com o a psicaná-
lise procura articular as ordens do corpo e do psíquico.
A teoria freudiana procurou solucionar a relação de oposição entre os
registros do somático e do psíquico pela constituição do conceito de
pulsão, definida como uro ··conceito-limite entre o psíquico e o somáti-
co ... Assim, postula-se a existência de um espaço virtual, situado entre as
duas ordens: a mediação, que regularia as passagens entre o corpo e o
psíquico. 42
Se o p5íquico se origina do corporal, suas relações não são simples e
diretas, pois exjgem wn "trabalho" do psíquico para que a passagem
possa se realizar. Esse ··u-abalho.. tenta empreender o domínio das ··ex-
citações'. ·corporais, em .função do desprazer provocado pela pressão
pulsional pennanente e pela impossibilidade de outras formas de apazi-
guamento para instaurar a hegemonia do prazer. Esse ••trabalho.. de
ligação das ••excitações.. corporais seria aquilo que originaria espedfi-
r.amente o psíquico como o espaço onde as " excitações.. corporais seriam
inscritas no universo da representação. Mediante o mesmo "trabalho··, o
psíquico estaria permanentemente se reproduz.indo dilUlte da ins istente
pressão pulsional, que nunca se interrompe ao longo da vida.43 Enf101,
entre a o rdem corporal e a ordem psíquica as relações não são lineares e
não se restringem a uma relação de causalidade, pois existida uma
heterogeneidade fundamental entre os registros do str, caracterir.ando a
exigência de um trabalho de tMnsposição para que a5 .. excitações"
corporais se insçrevam no universo da representação.
O conceito de pulsão seria o que permitiria pensar de maneira inova-
dora na passagem entre <l5 difereni:es registros do ser, superando o para-
lelismo psicofísico que c:olocava obstá~úlos intransponfveis para a psico-
logia desde a segunda metade do século XIX, e possibiUtando a autonomia
do campo conceitual da ordem psíquica de uma relação de dependência
estrita da ordem corporal, isto é, retirando a ordem psíquica do lugar de
108 ENSA10S DE TEOIUA PSICANALITJCA

receptácuJo passivo das emanações corpóreas, o ode ficava restrita à


condição de um epifenômeno somático, ou, simplesmente, como a auto-
expressão deste.
Desde 1891, ano de publicação do estudo sobre a afasia:• Freud-neu-
rologista já se inseria na linha dessa investigação, pois questionava de
maneira incisiva a teOria localizacionista do cérebro e os efeitos do
pos tulado mecarucísta da teoria dominante da afasia formulada por Wer-
niclre. Criticando os pressupostos dessa teoria assim como a trans fonna-
ção da concepção reali1.ada por Lichlheim, caminhando para uma concep-
ção funcional da afasia que considerava as recentes investigações neuro-
lógicas de H. Jackson, f reud posicionava-se em uma linha teórica que
procurava resolver d e fo nna original as relações entre a o rdem do
psíquico e a ordem do somático, considerando essa articulação de
m aneira a conceder à ordem psíquica uma rdativa autonomia face à
o rdem orgànica.
Em Sobre a afasia já é a problemática da linguagem que leva Freud
a essas interrogações, de maneira a considerar o campo da linguagem
como o espa9o privilegiado onde se poderia investigar a articulação entre
o orgânico e o psíquico, a passagem entre as duas ordens fonnalizada
como transposição, isto é.. como inscrição da ordem çaq><>ral no universo
da representação. Por isso mesmo, a oposição conceirual e ntre represen-
tação de palavra e represen~ção de coisa já se colocava de modo funda-
mental nessa construção teórica, como foi desenvolvida pos teriormente
pelo discurso freudiano em seus escritos metapsicológicos. Da mesma
forma, em outro texto contemporâneo ao da afasia, Freud enfatizava que
o "tratamento psíquico" se realizava de modo estrito no plano da lingua-
gem, considerando esta como constituinte do psíquico e não como um
instrumento funcional que lhe fosse exterior. Po r isso mesmo, a medicina
moderna marcada pela tradição naturalista recusava essa concepção de
ps íquico e de seu "tratamento· ·, considerando a relação do psíquico e da
linguagem como uma forma de magia, em função das ligações míticas da
linguagem COM a experiência da magia!S
, A passagem da ordem corporal para a psíquica constitui-se portanto
como a problemática fundamental do pensamento freudiano. A ordem
psíquica, instituindo-se como forma de existência no plano da represen-
tação, seria a única capaz. de regular as ··excitações .. corponis que, de
outro modo, seriam uma fonte permanente de desprazer. Enfim, o princí-
pio do prazer-desprazer regularia as demandas colocadas para a realização
dessa transposição, sendo a ordem psíquica considerada como único lugar
possível onde se realizaria o domínio e a ligação da ins.istente pressão
pulsional.
PULSÁ O E INTERSUBJETIVIDADE 109

Nessa perspectiva, a pulsão enquanto energia, Ade?nida com? u~a


moção pulsional cotn uma evidente conotação econo~ca e q~nuta.u~a
(Drang) , teria que se inscrever na ordem da represent.açao. Essa 1nscnçao
se constituiria como o momento mítico em que se darta a passagem de um
registro para o outro, de maneira a possibilitar a estruturação da ord~m
psíquica. É em função disso que a psicanálise inve~tiga a p!oblemáuca
das pulsões no plaoo de seus representantes psíqu1cos e na~ no pl:Wo
intermed iário entre o biológico e o psíquico, no qual as pulsoes senam
consideradas "incognoscíveis". Seria por isso também que Freud quali-
ficou a teoria das pulsões como a "mitologia" da psicanálise e a metap-
46
sicologia como uma "mitologia" das pulsões.
Inscrita no contexto da ordem psíquica, considerada através de seus
representantes psfquicos, a pulsão se apresenta como afeto e c~mo repre-
sentante-representação. Os destinos da pulsão na ordem psíqmca pode~
ser apreendidos a través das vicissitudes ~ue norteiam ~ a~resentaçao
dessas duas dimensões de s ua representaçao na ordem pstqwca. Porém,
para a captação da inscrição da p~l~o na o~dem psí~uica exis!e, no
discurso freudiano, uma evidente pnondade epistcmo16gtca confenda ao
representante-representação frente ao afeto, sendo o primeiro considerado
como a inscrição por excelência, o que marca a passagem entre as duas
o rdens, pois seria a única forma em que se poderia invesligar a especifi·
cidade desta inscrição.
É bem significativo, para a interpretação que estamos encaminhando
do pensamento freudiano, que seja principalmente através do represen·
tante-representação que se reaUza a investigação da pulsão, pois seria
exatamente ele que marca a inscrição da pulsão no universo da represen-
tação, isto é, que seria o representante da pulsão no ~oiverso da repres~n­
tação, como pode ser inferido do sentido etimológ1co ~a palavra launa
..representante" que significa ..delegado...47 ~nfim, sena es~a pa.ss~gem
da ordem do corpo para a ordem do psíqutco, enquanto 1nscnçao da
"pulsionalidade .. no campo da representação, que define rigorosamen-
te a especificidade teórica d esse objeto cons truído pelo pensamento
freudiano.
A inscrição da ••puJsionalidade" no universo da representação atravts
do representante-representação da pulsão, as di ficuldades existentes nessa
inscrição e os obstácuJos sempre colocados para ess~ trabalho de ?'a!lSJ.'o-
sição entre as duas ordens diferentes do ser, ass1m como a dina.tn1ca
cons útuida entre esses representantes-representação movimentados pelo
investimento afetivo, circunscrevem fundamentalmente o campo _ep1Ste-
mológiéo da psicanálise. Por isso mesmo, deslocar o ser da pu~sao ~
um dos pólos da oposição somático/psíquico e silenciar sua movaçao
J JO ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

reórica ~orno ser de mediaçào entre as duas ordens implicam uma trans-
fonnaçao fundamental do objeto da psicanálise. Isso conduziria, por um
lado, a uma concepção biologiT..ante desse objeto e, por outro a uma
concepção psicologizante do mesmo. '
Considerar a pulsão como pertencendo fundamentalmente à ordem
sornál~ca, dissol.~~nd~ s~~ ser em suas "fontes" .corporais e passar a
a horda -I~ com~ . mstmto , como fez wna parcela significativa do pensa-
mento ps1canahuco pós-freudiano, principalmente o americano mas tam-
bt!m o,inglés, o~, e?Iào, considerar a pulsão como uma entidade perten-
48

ce~tc a orde~ pst~~Jca , como também ocorreu com uma parcela signifi-
ca uva da ps1canalise norte-americana com o movimento culturalista
implicam uma lransformação radical do objeto da psicanálise que s~
centr~ fundamentalmente na problemática dessa passagem mítica, na
tcntauva de apreender em estado nascente a cons tituição do [l.')Íquico
enq\lanto ~r~enaçào da .. pulsionalidade" no universo da representação.
O posicionamento do pensamento freudiano face aos termo~ dessa
antiga problemática da metafísica ocidental, procurando apreender. a
pa~:sagem entre o somático c o psíquico pela inscrição da "força" no
umverso da representação, é o que confere originalidade epist~ mológica
ao saber ~sic~n~lítico face à biologia, à psicologia e à psiquiatria . Seria
pela cons1der.:~ça~ dos obstáculos colocados nessa in..,crição, que se apre-
~cnta~n pelo~ ~csunos d~ p~lsão na. ordem psíquka, que a primeira tópica
.reudJ.ana ~oac s~ consutu1r, con.•Hderando a oposição inconsciente/pré-
consctcntetconsctcntc. A "pubíonalidadc" enquanto ser intennediário
c~th' o psíquico e o corporal estaria aquém dessa problemática pois como
dt7. Frcud, "a oposição entre consciente c inconsciente não se a~lica à
pulsão ...49
Dessa maneira, a problemática de um ps iquismo incons ciente apenas
se coloca de forma legítima quando se consid el".:~ fundam entalmente as
marcas diver..ificadas produzidas por essas "pulsionalidadcs" no univer-
so ~a l't'pr;scnta<,:~o, de. fo nna a marcar essa passagem pela divt~rsidade
de ~nscnço..·~· Scna po~ tsso, tttmbém, que o dedframenco psicanalítico se
va hdan~ ('(HSlt·mologJcam~niC como a metodologia adequada para a
~~prc~nsat~ d_ct'sc campo .tcón co. A concepção de pulsão e a demanda para
~ ua m scti<;ao necessána no universo da representação nos permitem
~cp rese nt ar a metodo logia ps icanalítica co mo devendo realizar o dec\-
tramento diversificado dessas inscriçôes e de s ua din âmica nst o rdem
psíquica .
_A inscri.ção d::~ "pulsionalidade" no universo da representaçã.o ser ia
entao o q.u~ m~ugura o sujeito como sentido e como intérprete, vale dizer,
como suJc !lO· m terprctaçiío da força pulsional. Se considerannos que as
PULSAO E INTERSUBJETIVIDADE 111

demandas pulsionais são múltiplas e diversificadas, podemos indicar


agora por que esse sujeito-interpretação se apresenta necessariamente
como diverso e plural, distante, então, da figura de um sujeito uno e
totalizado que se origina num ponto fixo. Além disso, como essas marcas
originárias sofrem a posteriori um permanente processo de reinterpreta-
ção em função das diferentes posições libidinais que configuram o per-
curso histórico do sujeito, podemos entrever também que este vai se
constituindo como uma tessitura interminável de sentido na qual é impos-
sível definir uma origem absoluta, pois o que a genealogia do sujeito
indica é que este é desde sempre interpretação.
Podemos destacar então como o deciframento freudiano, que se
caracteriza pela insistência da figura do analista para que a figura do
analisando deslize no tecido de suas representações do particular ao
particular, é a contrapartida metodológica dessa concepção de sujeito
fundado na pulsão. Se isso n05 indica o caráter interpretativo do saber
psicanalítico, é preciso que sublinhemos nesse contexto a necessária
dimensão intersubjetiva dessa forma de interpretação.
Para que se realize o domfnio da força pulsio nal no universo da
representação, é preciso considerar o lugar fundamental ocupado pelo
outro. Desde os seus primórdios o sujeito apenas se ordena enquanto tal
através do outro situado como intérprete dessa "pulsionalidade" polimor-
fa, sem o qual não existe qualquer possibilidade, para aquele, de ordena-
mento psfquico e mesmo de sobrevivência .~ Freud se refere a essa
problemática quando define a condição humana como ..prematura",
destacando com isso o "desamparo fundamental" a que o sujeito está
destinado:' 1 Através disso define-se também a dependência fundamental
do sujeito ao outro, frente à qual não há escapatória. Portanto, seria pela
interpretação do outro que o sujeito inscrevendo a "pulsionalidade" se
constitui no universo da representação.
O enigma das origens do sujeito acompanha desde sempre sua histó-
ria, modelando as reinterpreta.ções de suas marcas pulsionais e constituin-
do sua tessitura psíquica. As ''teorias sexuais infantis"~~ são matrizes
interpretativas que o sujeito ordena ao longo de seu percurso para apreen-
der o enigma de suas origens, nas quais, destacawdo certos referentes
corporais e certas formas de relação intersubjetiva, ele procura reconsti-
tuir o seu advento como sujeito pela interpretação de suas origens. Enf101,
com o processo psicanalítico, no qual o sujeito empreende a genealogia
de seus enigmas, o sujeito retoma m&is uma vez o que realizou desde
sempre, isto é, a reinterpretação das ''teorias sexuais infantis" que cons-
truiu em seu percurso histórico. ·
Sujeito, estrutura e arcaico na mefapsicologia
freudiana
Uma leitura da Jlísão de conjunto das neuroses
de transferência, de S. Freud 1•2

I. A metapsicologia freudiana
VJSão de conjunto das neuroses de transferoncia é um ensaio de Freud
rr:ce~~emcnte descoberto, sob a forma de manuscrito, por llse Grubrich-
Snwus, que é também a responsável por sua primeira edição em 1985. A
d~scoberta do texto ocorreu por acaso, pois pesquisando a correspondên-
Cia de Freud com Ferenc1j para sua oportuna publicação, a editora se
deparou surpreendida com o manuscrito de Freud entre os papéis remeti -
dos por Ferenczi a Balint.3
Esse ensaio se inseria originalmente na série constituída por doze
esc~itos metapsicológicos, em que Freud pretendia sistematizar o saber
psicanalítico. Para isso, procurava circunscrever os seus conceitos funda-
mentais, entre os quais o de neurose de transferência e de ttansferência.
Entretanto, a metapsicologia psicanaUtica não se constituiu apenas
nesse momento do percurso freudiano. Tanto antes quanto depois desse
contexto teoricamente fecundo para a psicanálise existem vários escritos
metapskológicos de Freud e que não cabe agora listar por serem bastante
co~~i~os. Po~m, é importante ressaltar a emergência dessa palavra
erugroauca no d1scurso freudiano, na medida em que ela condensa um
c~~junto de tópic.os .fundamentais referentes ao estatuto teórico da psica-
nahse e à sua delimitação face a outros saberes.
Assim, anterionnente ao contexto especifico em que foram fonnula-
dos os já clássicos escritos metapsicológicos, oos anos 1914- 19 15, o
termo metapsicologia já existia há muito tempo no vocabulário freudiano.
Desde os tempos heróicos da correspondéncia de Freud com Fliess a
palavra roetapsicologia já fora introduzida no discurso freudiano, esbo·
çando então a diferença da psicanálise com a psicologia e a sua simHari-
d.ade co~ a filosofia,4 o que vai se acentuar progressivamente com a
SJstemaU7..ação rigorooa do discurso psicanalítico.

J 12
SUJEITO, ESTRUfURA E ARCAICO 113

Examinemos a questão de maneira esquemática. O prefixo meta da


palavra metapsicologia marca, por um lado, a diferença da psicanálise
com a psicologia positivista do final do século XIX e, por outto, indica a
similaridade do saber psicanalítico com o discurso filosófico. A palavra
meta psicologia assinala a diferença da psicanálise com a psicologia então
existente, pois se funda no conceito de inconsciente, isto é, no pressuposto
teórico da existência de um psiquismo que se encontra além da consciên-
cia e do ego. Por isso mesmo, Freud se referia circunstancialmente à
psicanálise como "psicologja da.., profundidades", retomando um tenno
que fora cunhado por Bleulcr. ~ Porém, a proximidade com o território da
filosofia também se impõe, na medida em que o termo metapsicologia é
uma derivação direta da palavra metafísica.
Ao se fundar num /ocus psíquico teoricamente interdito pela psicolo-
gia positivista ao final do século XIX e se regular por pressupostos
teóricos que contrariavam radicalmente os cânones da ciência psicológica
então estabelecida, o saber psicanalítico era representado indiretamente
por Freud como inserido no exterior do campo cientifico. Por essa exte-
rioridade do discurso da ciência, no contexto histórico do final do século
XIX, a psicanálise era inscrita num território próximo ao da filosofia.
Porém, o estatuto teórico da psicanálise, em sua diferença com os enun-
ciados da ciência positivista e em sua conseqüente proximidade com o
discurso filosófico, é uma problemática crucial no percurso epistemoló-
gico de Freud, pois este acaba por indicar a similaridade da metapsicolo-
gia com a bruxaria, tanto em "Uma neurose demoníaca do século XV11" 6
quanto em Análise com fim e semfim.7
Apesar da meta psicologia ser considerada freqüentemente por alguns
psicanalistas como o apogeu de cientificidade da psicanálise, ela conden-
sa em sua estrutura, em contrapartida, inúmeras questões e contradições
colocadas pela especificidade epistemológica da psicanálise, indicando a
diferença desta em relação à psicologia e à ciência positivistas, e marcan-
d o portanto seu parentesco com a filosofia e a bruxaria. 8

I/. A transmissão interrompida '!

No contexto histórico da elaboração dos escritos metapsicológicos, a


transmissão da psicanálise se colocava iruso fismavelmenle para Freud
como uma questão vital e teoricamente primordial. Assim, num momento
de grande incerteza sobre o futuro da psicanálise com a desarticulação do
movimento analítico, no clima sombrio da primeira Grande Guerra, Freud
pretendia traçar de maneira sistemática os contornos teóricos do saber
114 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtTlCA

psicanalítico, de maneira a possibilitar posteriormente sua transmissão. 9


Portanto, a série de ensaios metapsicológicos programados por Freud
tinha originalmente a função de possibilitar a transmissão teórica do
legado psicanalítico, quando os canais de comunicação institucional do
movimento analítico se encontravam bloqueados sem qualquer perspec-
tiva visível de reabertura.
Desses ensaios, cinco foram publicados desde a sua elaboração por
Freud, entre 1915-1917, e foram reunidos posteriormente sob o título de
Metapsicologia. 10 Os demais ensaios desapareceram. Eles se dividem
entre os que tinham temas definidos e assegurados e os de temas
incertos, de acordo com os comentários de Strachey na edição inglesa 11
c as indica9Ões fornecidas por Jones na biografia de Freud. 12 Assim,
cinco dos ensaios tinham temas seguramente conhecidos, dentre os
quais se insere o escrito agora descoberto: a consciência, a angústia, a
histeria de eonversão, a neurose obsessiva e as neuroses de transferên-
cia. Os ensaios res tantes tinham temas prováveis, mas incertos,
e neles Frcud pretendia trabalhar os conceitos de sublimação e de
projeção.
A recente descoberta desse manuscrito reabre com todo rigor, o
debate sobr~ o destino dos demais ensaios desaparecidos. A versão esta-
belecida na tradição psicanalítica oficial é que esses escritos teriam s ido
arquivados por Freud que não quis mais publicá-los e pretendeu mesmo
destruí-los, na medida em que com o "progresso" da teoria psicanalítica
nos anos 20 Freud teria superado a elaboração metapsicológica enlão
reali7.ada e os artigos estariam teoricamente ..envelhecidos". Essa hipó-
tese de leitura histórica, sustentada por Jones em sua biografia de Freud, 13
não nos parece convincente nem tampouco consistente.
Com efeito, a hipótese de Jones é uma superficial justificativa bio-
gráfica, mas não é absolutamente a decifração de um enigma, pois não
soluciona o mistéiro do desaparecimento desses escritos, já que procura
dar conta somente da continuidade da consciência da personagem de
Freud em s ua história. Para tanto, Jones baseia-se em uma suposição
eminenteme nte f ma lista, isto é, como se Freud pudesse dominar como um
artífice divino, a priori, de forma completa, o desdobramento posterior
da psicanálise. Além disso, bastaria uma leitura superficial dos cinco
ensaios publicados para verificar que Freud modificou a posteriori a
posição dos conceitos articulados nesses ~.scritos, em ~rte ou em sua
totalidade, e não obstante isso eles foram put.licados sem prejuízo algum
para o "progresso" da psicanálise.
Não pretendemos solucionar aqui essa questão espinhosa, mas apenas
registrar que a formulação de Jones é uma falsa solução de um verdadeiro
SUJEITO, ESTRliTURA E ARCAICO

problema e que exigiria para sua efetiva resolução um trabalho específico


de investigação teórica e histórica. No final deste estudo vol~emos a es~a
questão, delineando as razões de ordem teórica que podenam condU1.lr
Freud a não querer publicar o ensaio em pauta.

111. Itinerário de leitura


Visão de conjunto das neuroses de transferência se constitui de duas
partes facilm ente reconhecíveis, apesar de não estarem formalmente se-
paradas na estrutura do texlo. A fonna com que ~ escrito foi. encontrado
deve-se certamente à sua condição de manuscnto. É posstvel que, se
tivesse sido publicado, Freud assinalasse essas diferentes partes do texto
por alguma modalidade de pontuação. .. . .
Há, portanto, uma evidente mudança da problemauca teonca ao longo
do c...,crito, pois Freud se. desloca de uma classificação estrutural das
neuroses de transferência, baseando-se para isso em seus trabalhos ante-
riores já publicados e na clínica psicanalítica, para a formulação de
hipóteses inlerpretativas mais abrangentes e ousadas, q~e transform~
radicalmente. C> alcance teórico do ensaio e mesmo o seu esulo. Com efeito,
de cientista cioso do rigor de seus enuoclados em sua leitura teórico-clí-
nica, Freud se transforma, na passagem da primeira para a segunda parte
de seu ensaio, num brilhante narrador de histórias fantásticas, articulando
com riqueza imaginativa uma epopéia mítica sobre as origens do mundo
humano.
Essa pass agem é indicada literalmente pelo próprio Freud, q~e assi-
nala. a difere nça entre a primeira e a segunda parte do ensato pela
transfonnaçâo impressa em seu método de leitura, pela m~ior abrangência
teórica das hipóteses interpretativas que avançam audaciosamente e pela
mudança literária no estilo do eosllio:

Espero que 0 leitor, que além d~s..,o pode notar, conforme o enfado de
numerosas passagens, a que ponto tudo é reconstruído a partir de uma
observação m<'ticulosa e laboriosa, terá alguma indulgên~la mesm~ se,
por sua ve:z, o esp(rito crítico se apague diante da fantasiO, e se co1s~
nào dem onstráveis virem a ser expostas simplesmente porque elas sao
. 14
estimulantes e abrem ~rs~ct1vas.

Ass im, na passage m da primeira para a segunda ~ne ~o ens~io em


pauta, a metapsicologia freudiana se revela em sua dunen~o e~J?ente ­
mente ..especulativa•·, indicando com isso o utra perspecuva t.eonca da
116 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALíTICA

psicanálise. Com efeiro, a audácia na ..especulação.. é uma das formas


asswnidas pelo saber metapsicológico, na medida em que a psicanálise
rompe radicalmente com o registro dos fatos e com a representação ora
vigente de cientiflcidade, para se aproximar de uma das representações
com que Freud figurava o discurso fil osófico. 'l
Mesmo devidamente articuladas, essas diferentes partes do discurso
freudiano colocam questões teóricas específicas, revelando problemátkas
bastante distintas. Assim, a articulação interna desras partes vai se em-
preender com o exame detalhado de cada uma das problemáticas que
compõem a tessílura do ensaio freudiano.
A primeira parte do ensaio tematiza as denominadas neuroses de
transferência, considerando-as como totalidade, isto é, como uma espécie
cntte as neuroses. Em contrapartida, a segunda parte parte tematiz:a a
"lúpótesc filogenética.. , no contexto defin.ido pela oposição entre o
campo das neuroses de transferência e o campo das neuroses narcísi-
cas. Entretanto, esses diferentes grupos de neuroses são considerados
no percurso freudiano como espécies de um gênero que as engloba:
psiconeurose.
Porém, se existe a formulação do gênero psiconeurose existe também,
ao lado disso, a enunciação de um princípio de oposição desse gênero a
um outro, no caso o gênero neurose atual. Entre as psiconeuroses e as
neuroses atuais está o registro da realidade psíquica como marca diferen-
ciadora dessa oposição, marca que estipula as fronteiras teóricas do campo
psicanalftico. Portanto, a realidade psíquica é o conceito fundador
desse sistema classi licatório que ordena as diferentes modalidades de
neuroses.
Vamos articular teoricamente essa problemática, para através dela
destacar a relevância das concepções de con}unlo e de esrrutura no
discurso metapsicológico de Freud. A noção de estrutura como um pres-
suposto que funda a teorização que o discurso freudiano estabelece no
campo psicanalítico.
Porém, antes, cabe circun.sçrever o conceito de ttansferênda e sua
inserção na realidade psíquica, pois é este o centro da elaboração freudia-
na. Assim, a articulação do conceito de transferência com as noções de
perda e de angústia, que fundam o registro do psíquico na ordem simbó-
lica, se insere na base dessa discussão. Enfun, é essa articulação teórica
esboçada acima que permite delinear o conceito de realidade psíquica,
sendo pois o que sustenta a passagem da primeira para a segunda parte do
ensaio de Freud.
. A_outra questão que o texto coloca, agora na segunda parte, é a
tnserçao da "hipótese filo genética" para a interpretação da oposição
SUJEITO, ESTRlTTURA E ARCAICO 117

clínica no interior do campo das psiconeuroses. Freud com isso pretende


sustentar teoricamente a diferença estrutural entre as neuroses de transfe-
rência e as neuroses narcísicas, numa perspectiva eminentemente "histó-
rico-evolutiva".
A interpretação que nos orientará nessa passagem enigmática do texto
freudiano é que a "hipótese filogenética •• - que se apresenta com grande
desenvoltura nesse ensaio e em outros escritos teóricos de Freud sob a
forma de pequenas indicações -não remete necessariamente ao discurso
da biologia, como poderia parecer a uma leitura literal e superficial. Essas
passagens são indicações fundamentais para nos indagannos sobre a
genealogia do sujeito no discurso freudiano, no qual a concepção de
sujeito é definida como essencialmente distinta da noção de indivíduo.
Enfim, a "hipótese filogenética" será considerada como meráfora do
arcaico no discu11>o freudiano.
Assim, teceremos esquematicamente três comentários sobre esse
e nsaio mctapsicológico. Inicialmente, circunscrevemos o campo da trans-
ferência e a sua articulação com a idéia de perda, enfatizando em seguida
as noções de conjunto e de estrutura no méLodo da metapsicologia freu-
diana e, finalmente, procuraremos esr.abelecer os contornos da figura do
arcaico na concepção psicanalítica de sujeito.

IV. Transferência, sujeito e perda primordial


No início de seu ensaio Freud estabelece de imediato a listagem das
neuroses de transferência e os critérios classificatórios que norteiam
teoricamente a sua sistematização clfnica. Dessa maneira, Frcud pretende
determinar os contornos teóricos que fundam o campo das neuroses de
transferência .
As neuroses de transferência são ordenadas em três estruturas psíqui-
cas diferentes: I. Histeria de angústia; 2. Histeria de conversão; 3. Neu-
rose obsessiva. 16
A leitura dessas es:truturas psíquicas se realiza mediante a utilização
de seis operadores teóricos: I. O recalque; 2 . O contra-investimento; 3. A
formação substirutiva e a fonnação de sintoma; 4. A relação com a função
sexual; 5. A regressão; 6. A disposição à neurose. 17
Três ordens de questões logo se colocam para nossa leirura: I. O que
define o campo das neuroses de transferência, isto é, qual é o seu conceito;
2 . Como conseqüéncia dessa primeira indagação, o que se impõe como
ques tão é a listagem emprcend.ida dessas neuroses no discurso freudiano,
vale dizer, que sejam essas trés estruturas psíquicas que conslimem o
118 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAL triCA

campo das neuroses de transferência e não outras estruturas c línicas; 3.


Finalmente, os operadores teóricos que Freud destacou para essa leitura
metapsicológica.
Considerando o primeiro tópico destacado é evidente que, quando o
discurso freudiano circunscreve o conjunto denominado neurose de trans-
ferência, defme com isso, inicialmente, que é esse grupo de neuroses que
se insere no campo psicanalítico. Vale dizer, é o conjunto de neuroses que
se inscreve no campo da analisibilidade possível, na medida em que a
transferência é o eixo fundamental que estrutura o espaço psicanalítico.
A transferência é o operador teórico foodamental que delineia a clínica
psicanalítica freudiana e que orienta as distinções nosográficas do discur-
so fre udiano.
A formulação pode parecer inicialmente falsa ou pelo menos exage-
rada, principalmente num contexto histórico como o nosso, em que a
psicanálise perdeu a noção de suas fron teiras e tende a se identificar com
a psiquiatria . Nessa perspectiva, a psicanálise se restringiria a uma.moda-
lidade de psicoterapia e conseqüentemente poderia ser "aplkada .. em
princípio a qualquer estrutura psicopatológica. Ou entào, em um ho rizonte
ideológico similar apesar da aparente diversidade de seus enunciados, a
clínica psicanalítica se pautaria por critérios definidos pelas essências das
estruturas nosogtáficas, consideradas como substancialidades, exteriores,
portanto, aos cãnones teóricos qu..: regulam a experiência analítica .
Com essas aiternativas teóricas se apaga então o que existe d e singular
na psicanálise como saber e na ética que funda a sua experiência
cUnica.
Essa perda de fronteiras no plano da intervenção social da psicanálise
encontra sua contrapartida no registro teórico, nas tentativas que foram
realizadas de inserir a psicanálise no campo da psicologia geral . Dentre
esses empreendimentos destacou-se historicamente o que foi realizado
pelos teóricos da psicologia do ego que, com a elaboração do conceito de
ego autônomo e livre de conflitos, promoveram a figura de adaptação à
realidade como a fmalidade ética primordial do processo psicanalítico. 18
Lacan respondeu de maneira pertinente a Hartmann, Kris e Lo wenstein,
restabelecendo a versão freudiana do conceito de ego, defmido como uma
estrutura essencialmente conflitiva e especular, transbordado por inden-
tificações múltiplas e dispares, 19 marcando então a irrooutibilidade da
psicanálise a qualquer psicologia.26 Dessa maneira se enuncia decisi-
vamente que a categoria de sujeito em psicanálise transcende o concei-
to de ego.
Não pretendemos desenvolver aqui a constituição histórica e institu-
cional desses descaminhos teóricos da psicanálise, o que já realizamos em
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO 119

o utro momento ,2 1 mas apenas indicar o campo teórico dessa problemática,


que tem seguramente na concepção de transferência seu ponto fundamen-
tal de disvirtua.mento.
A transferência é o que funda de maneira indiscutfvel a experiência
psica.naUtica. O que implica dizer que a psicanálise é uma clínica que
funciona apenas sob o impacto da transferência e que é baseada no
d iapasão dessa experiência crucial que a psicanálise realiza a leitura das
estruturas psicopatológicas. Dessa maneira, a transferência ordena as
linhas de força que perpassam o espaço analítico e estabelece as fronteiras
do campo psicanalítico, defioindo, portanto, os critérios rigorosos de
analisibilidade em psicanálise.
Sabemos atualmente que foi Jung quem sugeriu a Freud, em 1907, a
denominação nosográfica "neuroses de transferência" ,2: quando pesqui-
sava o funcionamento mental da demência precoce. 23 Com essa designa-
ção, Jung pretendia opor o grupo de neuroses às denominadas psicoses.
Freud incorporou de bom grado essa sugestão ao vocabulário da psicaná-
lise, no sentido estrito da oposição entre estruturas psíquicas, conforme
foi proposto por Jung.
Posteriormente, Freud cunhou o termo neurose de transferência, no
singular. Na transformação da palavra do plural para o singular, o termo
adquire um outro sentido no vocabulário freudiano, pois além de confi-
gurar rigorosamente o conceito que designa, articula também a diversida-
de clinica que se enuncia na pluralidade das neuroses de transferência . O
conceito de neurose de transferência foi inserido por Freud na dinâmica
do processo anaUtico a fim de denotar a repetição que a figura do
analisante realiza na transferência, mediante a reapresentação da sua
neurose infantil.14
Portanto, mediante o conceito de neurose de transferência o discurso
psicanalítico designa, ao mesmo tempo, o que existe de mais singular no
ser do analisante e o instrumento fundamental de que dispõe a psicanálise
para pennitir a emergência do sujeito no processo analítico. Por isso
mesmo, mediante esse conceito fundador, a psicanálise pode unificar, na
ordem do direito, a pluralidade clinica das neuroses de transferência e
dispor com isso de seus próprios critérios teóricos para definir o campo
de analisibilidade.
Assim, fundado no conceito de transferência como a condição de
possibilidade da experiência analitica, Freud se refere, na passagem da
primeira para a segunda parte do ensaio, ao critério metapsicológico do
objeto como aquele que estabelece a diferença teórica crucial entre as
neuroses de transferência e as neuroses oarcisicas. Vale dizer, é uma certa
modalidade de articulação psíquica do sujeito com o objeto que unifica
120 ENSAIOS DE TEOIUA J>SICANALITICA

esse grupo de neuroses, tomando possível, simultaneamente:, o campo da


transferência. Então, pôde Freud afirmar, sem qualquer rodeio:

... O mais importante caráter distintivo das 1\tl.ltoses de transferência não


pode, de qualquer maneira, ser considerado nessa visão de conjunto, já
que ele não é distintivo dessas neuroses (cons ideradas] em conjunto,
mas somente se tornará possível por contraste, considerando-se também
as neuroses narcísicas. Nesse alargamento de horizonte, a relação do ego
com o objeto passaria ao primeiro plano e o fato de o objeto ser mantido
se daria como elemento distintivo (às neuroses de transfer~nciaJ .. .25

Freud indica literalmente nesse fragmento o método estrutural por


ele utilizado na teori1.açâo meta psicológica, mediante o ''contraste ..
entre os diferentes grupos de neuroses, o que permite relativizar suas
essencialidades nosográficas e assim ressaltar suas dife renças num
cpntexto de oposições- q uestão que retomaremos no próximo tópico.
Agora, destacaremos no texto indicações sobre a questão da transfe-
rência.
O que permite a constilu.ição do campo da transferência é a perma-
néncia no registro psíquico do objeto do investimento pulsional, apesar
de sua perda no registro da plenitude da satisfação pulsional. É essa
pfY!sença da inscrição psíquica do objeto contraposta ao fundo de sua
atL'iencia no registro da plenitude da satisfação pulsional que é a condição
de possibilidade para que se instaure um processo de substituição de
figuras, imagens e objetos no aparelho psíquico. Enfim, é essa inscrição
metafórica de traços múltiplos, mas invariantes, de um objeto ausente, o
que penni.te a instauração do processo de deslocamento.
A metáfora de uma perda originária é o que funda e coloca em
movimento o aparelho psíquico, concebido como um sistema de transcri-
ções que possibilita o campo da transferência. Essa perda originária da
plenitude da satisfação pulsional enuncia a constituição do campo do
desejo e indica que este, apesar de se inscrever pela metáfora de uma
perda, é essencialmente metonímico em sua circulação pelo psíquico, pois
desloca-se em um campo de representações substitutivas. Essas substitui-
ções, que mostram a inten:ninável busca do sujeito pela plenitude perdida.,
remetem então a uma perda primordial.
No ensaio freudiano, essa problemática aparece indicada de cinco
rnaneiras significativas, em momentos cruciais de sua argumentação.
Essas indicações se colocam como signos, de forma que é sua costura o
que nos pennite reaUzar o desdobramento da interpretaçio que estamos
encaminhando:
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO 12 1

1. Na segunda parte, Freud fonnula que na origem do mundo humano


se encontra a experiência da "privação". Assim, com a irrupção da "era
glacial", a economia biológica do homem transfonn <~u -sc, devido aos
efeitos deletérios da "privação" .26 Evidentemente, as ongcns a que Freud
se refere tem apenas o estatuto de um mito das origens c que não aponta,
portanto, para um évento historicamente citc~scrito. . _ . .
Nessa perspectiva, a "privação" originárta é a condtçao de IX~~stb_J ­
Iidade da falta, consitituindo-se pois como a metáfora da expenencta
psíquica da falta. Remete para uma perda, para a experiência de pcrd~ da
plenitude da satisfação pulsional, na qual o ho mem e a natureza tcnam
existido desde sempre numa hannonia mítica e numa completude sem
fraturas. Seria a ruptura da harmonia do homem natural que constituiria
o sujeito e o desejo, pois antes desta fratura cósmica na economia do
homem natural não existia o sujeito e o desejo, sendo a " privação··
primordial a condição de possibilidade para a emergéncia do sujeito
desejante. . .
2. Foi com o advento capital desse acontecimento da ordem do m•to,
que teria transformado a estrutw:a do homem natural, q~e se cstahcl_e ceu
a organização social e a cultura humana propriamente dtta se o rgantzou.
O mito da horda primitiva introduzido por Freud em Totem e tahu, 2' com
a presença do pai onipotente que dominava absolutamente seus filh os c
era o senhor indiscutível da totalidade das mulheres, desenvolve-se em
seus vários tempos fundadores até a morte da figura do pai e a constituição
da sociedade fratemal.28 Em relação ao relato mítico de Totem e tabu,
Freud complexifica nesse ensaio a sua construção narrativa, pois refere-se
à existência de duas gerações de filhos, com o objetivo de explicar
teoricamente a diferença clínica entre as neuroses de transferência c as
neuroses narcísicas. 29
Não percamos de vista, contudo, o horizonte teórico desse ensaio e a
perspectiva dessa narrativa mítica, pois é a "p~ivaçào •· c~~o metáfora. da
falta que engendra a epopéia freudiana das ongens do suJcHo, na medtda
em que é a falta que produz a emergência das relações inter-hwnanas de
poder, com a conseqüent~ re~istrlbuíção da _riqueza_ e ~~s mulh~rc~.. .
Não pretendemos atnbmr qualquer validade htstonco-~ctologtca a
essa leitura freudiana da constituição da cultura, que tem evidentemente
um estatuto mítico. Entretanto, é preciso destacar a coerência interna dos
argumentos freudianos no contexto da raciona.lidade te~ri:a do e~saio.
Para sistematizar a emergência da problemáttca do SUJeito deseJ a~le,
Freud precisa lançar mão do conceito de perda primordial, a que se relere
como contraponto a uma experiência originária de plenitude, em que: eslll
última indica a harmonia mítica entre o homem e a natureza. Porlllnto, a
122 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAÚTICA

passagem do registro da natureza para o da cultura é fundamental nessa


argwnentação, pois é o cenário em que se representa a perda da hannonia
preestabelecida no homem natural e se indica a perda mítica da posição
de plenitude. Enfim , a passagem do registro da natureza para o regjs tro
da cultura é o contexto lógico para que da figura do homem natural possa
advir a figura do sujeito.
3. Podemos s ublinhar, pelo que destacamos no tópico anterior, que a
figura palema somente se conslitui enquanto tal no contexto da instaura-
ção mítica da " privação" . O que significa afirmar que a figura do pai é
correlata, para o sujeito, da experiência da " privação". Nessa medida, há
uma articulação necessária entre a perda primordial e a constituição da
figura paterna, figura mítica que é o correlato para o sujeito da falta
originária e da emergência da c ultura. Ela aponta para a fenda instiluída
num mítico homem natural, fenda que esvazia sua plenitude primordial e
indica a ordem da Hnguagem.
Com esta ordem de argumentos, já estamos bastante distantes de uma
redução desse ensaio freudiano à racionalidade biológica, na medida em
que nos deslocamos para o pólo oposto, para os efeitos produzidos no
homem natural pela instauração da ordem da linguagem.
4 . Articulemos wn pouco mais a interpretação que esboçamos acima
sobre a emergência do sujeito deseJante, retomando outros signos apre-
sentados pelo texto de Freud. A "privação" originária que constitui o
sujeito, condenando-o a ser marcado pela falta de plenitude, é também a
condição de possibilidade da angústia. O discurso freudiano formula
literalmente esta interpretação:

Nossa primeira hipótese seria por conseguinte pretender que, sob a


influência das privações provocadas pela irrupção do período glacial, a
humanidade se tomo u universalmente ansiosa. O mundo e xterior, até
então essencialmente hospitaleiro e dispens<>dor de satis fação para qual-
quer necessidade, se mt tamorfoseia num acúmulo de pe.rigos ameaça-
dores. l!iSo dá toda a razão para se sofrer a angústia do real diante de
qualquer novidade. Em verdade, a libido sexual acima de tudo não perde
seus objetos, visto que e les são human05 por natureza, mas pode-se
pensar que o sujeito, ameaçado na sua existência, se afasta numa cena
medida do investimento de objeto, retém a libido no ego e transforma
assim em angústia do real o que antes era libi<io do o bjeto ...l0

Assim, diante da fenda produzida na antiaa harmonia entre o home m


e a natureza, dispensadora generosa de bens , o sujeito inicialmente angus-
tia-se .e protege-se no plano do ego. Essa proteção do sujeito assume
posterJo rm.ente a forma de investimentos seauros, isto é, investimentos
SUJEITO, ESTillTTURA E ARCAICO 123

em objetos inseridos no regis tro da representação, objetos que são ess~n­


cialmente substituições cuja referência é a existência paradisíaca antenor.
A "angústia do real" transforma -se em ··angústia do desejo", que coloca .
o sujeito em movimento impelindo ~o para o preenchimento da falta que
se produziu em seu ser mediante o trabalho de simbolização. .
Em outros textos, como Inibição, sinroma e angústia, Freud se refenu
a essa posição originária com a metáfora do desamparo (Hiljlosigkeit),
que seria rundante do sujeito.31 Portanto, o sujeito, o desejo e a angústia
são categorias intimamente articuladas no discurso freudiano, e todas elas
remetem à experiência da perda primordial.
5. Existe ainda uma última indicação preciosa no ensaio freudiano
que diz respeito à interpretação que estamos encaminhando: a prioridade
teórica concedida à ·•angústia do real". A leitura do texto indica que Freud
inicialmente oscilou entre o que seria odginário e o que seria derivado
dentre essas fo rmas de angústia, mas acabou por reconhecer a prioridade
lógica da " angústia do real" frente à "angústia do desejo" .32 O que
implica dize r que é a "angústia do real.. qucfunda a "angústia do desejo.. ,
considerando que é a resultante da .. privação" originária e o que conse-
qüentemente constitui o sujeito como fundado pela fa1ta .
A perda do objeto primordial de satisfação pulsional, objeto de uma
existência paradisíaca onde o homem e a natureza se encontravam em
perfeita harmonia, é a condição de possibilidade para a constituição do
psiquismo, como um sistema de simbolização. Para isso, a perda se
inscreve no homem natural como traço e o sujeito se instaura então na
ordem do desejo. Portanto, a "angústia do desejo" é o que impele o sujeito
na busca meton(mica do objeto primordial que se perdeu, indicando, ao
mesmo tempo, que a perda originária se inscreveu metaforicamente como
sistema de simbolização, constituindo o psiquismo propriamente dito.
Essa ordenação do psíquico é fundamental para que possa se instaurar
na análise a experiência da transferéncia. Por isso mesmo, o esboço dessa
problemática é ax.ial no ensaio freudiano, pennitindo que as demais
questões possam encontrar a sua sustentação teórica e se enunciar como
discurso.

V. A estrutura na metapsicologia freudiana.


Retomemos agora a problemática das neuroses de transferência. O campo
da experiência da transferência pressupõe a ex.lstência do psiquismo como
constituído e perpassado por múltiplas marcas, de maneira a circunscrever
a categoria de sujdto em psicanálise como inserida no registro da repre-
124 ENSA lOS DE TEORIA PSICANALtrJCA

sentação. Por meio disso, a categoria de sujeito remete necessariamente


ã idéia de sentido e, reciprocamente, es tando sujeito e sentido definidos
pelo campo da representação.
Foi es~ concepção original de sujeito que inaugurou o saber psica-
nalítico, untficando o campo das neuroses de transferência e indicando ao
mesmo tempo a diferença entre o sistema classificatório freudiano das
neuroses e a nosografia psiquiátrica.
Quando o discurso freudiano constituiu o campo das psiconewoses
.
no final do século XIX, com as características que já destacamos acima,
as pstconeuroses contrapunham-se às denominadas neuroses atuais. Por-
tanto, desde os primórdios da psicanálise esses dois grupos constituíam
um sistema de oposições, mediante o qual se delineavam as fronteiras
teóricas do campo psicana](tico.n
Com efeito, as neuroses atuais referiam-se ao registro econômico das
disfunções do sexo, enquanto as psic'oneuroses inseriam-se no registro da
representação, que indica os destinos pulsionais da sexualidade. Na "Co-
municação preliminar", escrita em colaboração com Breuer em t 893
F~eud já enfatizava esse registro em que se inseriam as psiconeuroses, a~
dtzer que "é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico",34
En.quanto as neuroses atuais ancoravam-se no corpo somático, sendo
o seu stntoma a expressão das disfunções da economia biológica do sexo
para o pólo do ..excesso" (neurastenia) e para o pólo da ··carência"
(neurose de angústia)," as psiconeuroses se inseriam no corpo represen-
tado, estando então referidas no registro do corpo imaginário.
Assim, num primeiro momento, o registro do corpo representado
mo~tra a superação teórica que a psicanálise realiza do objeto da medkina
clfnica que se funda no corpo anátomo-patológico,36 considerando a crise
teórica. do ~curso clinico produzida com as formulações de Charcot
sobre histena. Porém, num segundo momento o corpo represenlado indica
tam~~ que para o sujeito a sexualidade não se restringe ao corpo
somalJco.
Embora o sexo como instinto e como função de reprodução possa ser
pensado mediante as categorias da biologia, o mesmo não ocorre com o
campo da sexualidade, pois a experiência do prazer para o sujeito impõe
que a força do sexual seja transposta para o registro da representação.l 7 É
nessa passagem que se materializa o que existe de especificamente huma-
no na sexualidade e onde vão apresentar os impasses do sujeito oa
experiência do gozo.
~~sa perspectiva, o corpo erógeno não se indentifica com o corpo
soJ,llallco, sendo marcado pelos efeitos dessa transposição do plano do
sexo para o da sexualidade, que transforma o corpo anatõmico em imagi-
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO 125

nário, referindo-se pois o discurso histérico ao imaginário do corpo. Essa


proposição revela uma das primeiras rupturas teóricas importantes de
Freud com Charcot, quando procurou discriminar no registro estrita-
mente clínico as paralisias histéricas e as paralisias orgânicas.38
O registro da representação vai se delineando no discurso freudiano
como o campo teórico onde se inserem as psiconeuroses, de maneira que
o conceito de defesa frente ao sexual, no contexto da representação, vai
progressivamente se impondo no primeiro plano da teorização freudiana.
Podemos verificar os efeitos dessa transformação entre 1894 e 1896, com
a emergência da noção de defesa e a fundamentação da estrutura da
histeria pela mediação desse conceito.
Com efeito, se quando constituiu o conceito de defesa Freud ainda
considerava a existência de três formas clínicas de histeria, de acordo com
sua causalidade - histeria hipnóide, histeria de retenção e histeria de
defesa39 -,logo em seguida constatou que as demais fonnas de histeria
se reduzem à histeria de defesa. 40 Esta se configura como a estrutura
histérica, onde o sujeito maneja procedimentos psíquicos de defesa para
inserir o sexual no registro da representação. ·
Delineando o campo psicanalítico mediante a oposição psiconeuro-
se/neurose atual, Freud estabelece em seguida uma correlação entre o
primeiro grupo de neuroses e o segundo, indicando que para cada psico-
neurose existe uma neurose atual correspondente. Assim, a neurose de
angústia seria a neurose atual da histeria, enquanto a neurastenia corres-
ponderia à neurose obsessiva.• •
O que implica dizer que, para o sujeito, a neur05e atual é a condição
necessária para a precipitação da psiconeurose, mas não é absolutamente
a condição suficiente. Para isso, é preciso que exista a transposição da
estase do sexo do corpo somático para o registro do corpo representado,
que a mera disfunção do sexo não é passível de produzir. Indica porém
que é na passagem do registro do corpo biológico para o registro da
representação que se constituem o sujeito e a psiconeurose. Assim, o
sujeito enquanto sistema de simbolização procura transpor o plano
biológico e inserir a perturbação ·corporal no contexto psíquico da
representação.
Esta passagem entre diferentes registros do ser sempre se constituiu
para Freud num grande enigma, de forma que ele sempre procurou estudar
rigorosamente essa questão e apresentar novas interpretações. A puJsão
como "um conceito limite entre o psíquico e o somático" 42 dermiu-se pois
como um ser de passagem entre o registro do corpo e o registro da
representação. Dessa maneira, a pulsão é polarizada entre a força (Drang)
e seus representantes-representação (Vorsrellungreprãsentanz), referiu-
126 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtnCA

do-se por um lado, ao corpo somático e, por outro, direcionada para o


universo da representação.' 3
A oposição teórico-clfnica neurose atualJpsiconeurose foi mantida ao
longo de todo o percurso freudiano já que Freud não poderia aboli-la pois
nela está cifrada a constituição teórica do campo psicanalítico e o deli-
neamento de suas fronteiras.
Se no final do século XJX Freud introduzia apenas a neurose de
angústia e a neurastenia no campo das neuroses atuais, em "Para introdu-
zir o narcisismo" inseriu a hipocondria como a terceira neurose atual.
Retomando a idéia anterior de oom:spondência, Freud vai designar a
hipocondria como a neurose atual da demência precoce. 44
Portanto, Freud configura a existência de dois campos clínicos dis-
tintos, fundados em registros teóricos diferentes, mas que estabelecem
relações entre si, pois a ordem do corpo e a ordem da representação estão
em pennanente interação, sendo a pulsão o mediador fundamental dessa
passagem.
Consideremos agora a articulação possível entre os dois registros e
seus diferentes grupos de neuroses, retomando o que formulamos ante-
riormente, sem nos esquecermos, porém, que a neurose atual é apenas a
condição necessária mas não suficiente das psiconeuroses. Assim, é a
··privação" no registro do corpo somático, a impossibilidade de plenitude
da satisfação pulsional, que aponta o sujeito como falta e lhe indica como
útúco destino possível a simboli.z.ação do desejo no registro da represen-
t.ação, para reencontrar a plenitude perdida. Da mesma fonna, a "angústia
do real" é o correlato econômico das neuroses atuais, o que indica a
subversão da economia pulsional, enquanto a "angústia do desejo" é o
referencial econômico das psiconewoses. Vale dizer, as psiconeuroses
podem se estabelecer como modalidades diferenciadas de perlaboração
pelo sujeito da experiência traumática produzida pelas neuroses atuais.
Entretanto, é preciso salientar ainda duas outras p05Sibitidades, con-
s iderando a articulação dos registros em pauta. A primeira é a passagem
da ordem do corpo para a ordem da representação não se realizar ou, então,
empreender-se de maneira precária. A teorização freudiana dos anos 20,
enquanto a metáfora econômica ocupava um lugar cada vez mais abran-
gente no discurso metapsicológico, sendo formulada a hipótese de pulsão
de morte,4 ) representa, para o sujeito, os impasses para a realização desse
processo de sirnbolização. A outra possibilidade indica os efeitos da
ordem da represcn~ação sobre a ordem corporal, de maneira que a passa-
gem entre os dois registros se reali2A nas duas direções possíveis. As
neuroses atuais seriam um efeito possível no transcurso das psiconeuroses
e expressam as Impossibilidades de simbolização para o sujeito.
SUJEITO, ESTRt!TURA E ARCAICO 127

Uma pergunta poderia surgir neste momento de nosso percurso: por


que estamos enfatizando essas distinções de gêneros clínicos e sublinhan-
do seus pressupostuc; metapsicológicos? A resposta seria: pa.a destacar o
caráter sistemático da leitura freudiana da clínica psicanalítica e a con-
cepção de estrutura que norteia as suas oposições nosogníficas.
Esmiucemos um pouco mais esta leitura sistemática da nosografia
freudiana, para sublinhar ainda mais esse sistema de oposições. No
percurso freudiano posterio r, a denominação neurose narcisica não vai se
referir mais, como neste ensaio, às psicoses em geral, mas apenas às
estruturas da melancolia, da mania e da paranóia. Em 1924, a demência
precoce era caracterizada como psicose.•~ Nesse contexto, o critério
metap5icológico da "manutenção" do objeto vai contrapor as neuroses de
transferência aos outros dois grupos, o que não implica afmnar que na
psicose e nas neuroses narcísicas o objeto tenha para o sujeito o mesmo
estatuto metapsicológico.~ 7
Porém, para além desses tópicos, a que já nos referimos bastante, o
caráter de sistema e a concepção de estrutura é o que penneia a totalidade
da primeira parte do ensaio. Assim, Freud constrói um sistema de oposi ~
ções diferenciais no campo das neuroses de transferência, considerando
seis operadores metapsicológic05, e o que se destaca em sua sistematiza-
ção meticulosa é a arquitetura dessas distinções. É o sistema diferencial
de oposições, que se estabelece com cada um dos operadores teóricos em
pauta, que configura o desenho dessa parte do ensaio.
Com esse quadro de oposições diferenciais Freud não real~za novas
formulações sobre as neuroses de transferência, já que muito do que nos
apresenta já aparecia em ensaios metapsicológicos anteriores, como "O
recalque" e "O inconsciente". A única exceção a esse comentário é o
sexto operador, que se refere à dimensão da disposição à neurose, mas que
também foi abordado num texto desse mesmo período. 48 Foi com esse
operador teórico que Freud apresentou a sua "fantasia filogenética", que
desenvolveu na segunda parte de seus eusa.io. Dessa forma, fica evidente
que Freud trabalha com tanta facilidade nessa parte porque temati.z.a
questões que receberam diversas elaborações anteriores.
O que se destaca desse movimento teó rico do ensaio é a concepção
eslnltural que imprime sua marca na escritura freudiana, com wn sistema
de oposições meticulosamente desenhado em vários níveis de complexi-
dade, estabelecendo as fronteiras da psicanálise nos registros teódco e
clínico. Assim, as oposições se mu\tiplicam: newose atual/psiconeuroses,
neurose de transferência/neurose narcfsica, representação/não-represen-
tação, corpo somático/corpo sexual. Poderlamos ordenar aqui, se quisés-
semos, um conjwtto de outras oposições que caracterizam a totalidade do
128 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

discurso freudiano, pois este é uma tessitura de oposições diferenciais e


essa marca estrutural é um procedimento teórico fundamental na constru-
ção da metapsicologia freudiana.
Parece-nos importante dar a esse comentário o seu devido destaque,
quando observamos o título conferido a essa obra de Freud na edição
brasileira, que ressalta a idéia de s(ntese e não a de conjunto, como na
edição francesa. Ora, são as concepções de conjunto e de estrutura que
norteiam a escritura desse ensaio freudiano e não a de síntese, como, aliás,
na totalidade do discurso psicanalítico. Quando nos inserimos no registro
do simbólico as coisas perdem sua substancialidade imanente e apenas
adquirem valor pela rede de relações em que se inserem, pelo sistema de
oposições que suas marcas articulam entre si ao se inscreverem no uni-
verso da representação. Nessa medida, o que importa é o quadro de
articulações diferenciais e não as coisas substanciaüzadas enquanto tal.
Portanto, a psicanálise freudiana pertence a wna tradição filosófica
que destaca a categoria da razão como um sistema simbólico de relações
diferenciais, não se restringindo pois a uma filosofia do entendimento.
Por isso mesmo, nesse ensaio Freud não empreende uma síntese das
neuroses de transferência, mas exercita sistematicamente o método de
construção de uma estrutura de oposições diacríticas, considerando para
isso seis operadores lógicos, pontos teóricos de articulação do conjunto
que delineia.

VI. O arcaico e a genealogia do sujeito


A segunda parte do ensaio pretende articular a ..hipótese filogenética"
sobre as neuroses. Essa hipótese pretende desenvolver o sexto operador
diacrítico, a disposição à neurose, destacado por Freud na leitura meta-
psicológica das neuroses de transferência.
A questão básica do discurso freudiano é estabelecer a relação enrre
a série das diferentes formas de psiconeurose e seus pontos de fuação
correspondentes. Assim, Freud postula que as neuroses de transferência
surgiram num tempo mais precoce na história do indivíduo do que as
neuroses narcfsicas, obedecendo a uma ordem precisa. Assim ficaria a
ordenação das psiconeuroses, de acordo com o momento de sua emer-
gência na história da individualidade: histeria de angústia, histeria de
conversão, neurose obsessiva, demência precoce, paranóia e melanco-
lia-mania. 49
Porém, considerando as disposições-fixações, as psiconeuroses apre-
sentariam uma inversão dessa seriação, ou seja, quanto mais tardio fosse
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO 129

o surgimento da psiconeurose na história do Indivíduo maior seria a


regressão do sujeito a um momento mais precoce de sua estruturação
libidinaP0
Enquanto nas neuroses de transfcrénda existiria a oposição do sujeito
ao desenvolvimento libidinal, na lústeria a oposição se daria face ao
primado da genitalidade e na neurose ohsessiva o sujeito se fuaria no
estágio sádico-anal. s• Em contrapartida, nas neuroses narcfsicas a fuação
do sujeito se estabeleceria numa fase que: precederia a descoberta do.
objeto. Dessa fonna, na demência precoce o sujeito regrediria ao. funcio-
namento psíquico auto-erótico, na paranóia, à fase de escolha do objeto
narcísico do Lipo homossexual e na melancolia se realizaria a identificação
narcísica ao objelO. )2
Depois dessa ordenação clínka c ao estabelecimento das diferentes
fixações \ibidinais, Freud dá um passo mais ousado empreendendo uma
interpretação filogen ética do sujeito e das estruturas neuróticas. Para ele,
as neuroses de transferência seriam tributárias de "regressões às fases
pelas quais a espécie humana em seu conjunto teve que passar num
certo momento, entre o começo c o fim da época glacial" .'3 Esse
desenvolvimento seria caracterizado pela "privação" libidinal, 1:1 perda
do paraíso da plenitude da satisfação, a emergência da demanda de
autoconscrvação sobre a satisfação libidinal e a estruturação da horda
prímitiva.54
Se as neuroses de transferência articulam-se nas marcas simbólicas
da primeira geração da horda primiliva, as neuroses narcísicas devem-se
aos efeitos da segunda geração. Essa geração é marcada pelas vicissitudes
dos conflitos dos filhos com a figura do pai da horda primordial, conflitos
gerados pelo ciúme e pela inveja, com os quais os fillios pretendiam
assegurar a sua sobrevivência psfGuica face ao pai onipotente.)' Assim, se
na demência precoce a figura do filho sucumbe à castração paterna e na
paranóia os filhos se associam para não serem aniquilados pela figura do
pai arcaico fundando a sociedade fraternal, .na estrutura psíquica da
melancolia/mania existe a revelação, por um lado, do lulo dos filh os pela
morte da figura do pai e, por outro, do triunfo dos filhos sobre o assassi-
nato do pai. só
É preciso destacar que essas interpretações não são totalmente novas
no percurso freudiano, particulanncnte a articulação da paranóia com a
sociedade fraterna~' e a ligação da melancolia/mania com o luto/triunfo
sobre a figura do pai da horda primitiva. 58 A interpretação da demência
precoce como o aniquilamento do sujeito pela onipotência paterna é
esboçada pela primeira vez, se bem que Freud já introdu:r.ira a questão em
seu comentário da autobiografia de Schrc:ber.s9 O que é de fato novo no
130 ENSAIOS DE TEORIA PSICANAltTICA

ensaio é o desenvolvimento da "hipótese filogenética ··e é para seu exame


teórico que vamos agora nos voltar.
Qual o lugar da " hipótese filo genética" no discun;o freudian o? Abor-
demos a questão com um cerlo vagar, delineando inicialmente o contexto
his tórico-teórico e os agentes implicados e m sua produção. Não existe
qualquer dúvida de que a " hipótese filogenéúca" foi desenvolvida na
colaboração de Freud com Ferenczí. Da mes ma forma, o ensaio sobre as
neuroses de transferência foi forjado nwn momento de grande colabora-
ção entre Freud e Ferenczi, quando ambos pretendiam se apoiar na teoria
biológica de Lamarck, sobre a transmissão dos caracteres adquiridos, para
fundamentar a transcendência das formações fantasmáticas. 60 Esse proje-
to comum de pesquisa teve o nome de metabiologia.
A metabiologia é uma modalidade de saber sobre as origens do sujeito
baseado na articulação da psicanálise com a biologia. Essa forma de saber
é contraditória e conceitualmente imprecisa, pois se por um lado, pretende
ir além da biologia e construir uma psicanálise das origens, por outro,
funda-se u.mbém em argumentos biológicos. Contudo, a metabiologia não
se identifica com a metapsicologia, pois esta pretende fundar o psíquico
além da consciê ncia, n.o registro do inconsciente, indicando mediante o
conceito de pulsão como esta fundação teórica se realiza na articulação
entre o universo do somático e o universo da represenlação. 61 Podemos
nos indagar se a não-publicação do manuscrito por Freud se deve a essa
diferença fundame nta l entre a mctapsicologia e a metabiologia, o que
indicaria que Freud não conferia a esta fonna de saber o rigor necessário
para a teorização psicanalítica, julgando pois que não caracterizava ade-
quadamente o seu objeto.
Antes de retomar essa interpretação determinemos diferentes posi-
ções das du~s figuras nesse projeto teórico. Freud manteve um diálogo
com Ferenczi durante dois anos , sendo o ensaio o resultado dessa colabo-
ração. Porém, Frt:ud não o puhlicou corno pretendia inicialmente, apesar
de já ter editado vários de seus artigos metapsicológicos. Ferenczi, ao
contrário, não apenas insistiu com Freud na continuidade do projeto da
metabiologia, corno também sugeriu repetidamente ao mestre a publica-
ção do cnsaio.62 Diante da não-publicação do manuscrito freudiano e do
prosseguimento de s uas reflexões metabiológicas, Ferenczi permaneceu
nessa pesquisa e em 1924 publicou a sua grande obra sobre a questão:
"Talassa, ensaio sobre a teoria da gen.itaHdade'" .63 A obra foi caracterizada
por Freud, no necrológio de Fcrcnc1J, como a incursão mais ' 'ousada·· da
psicanálise no campo da biologia .64
Retomemos então nossa indagação inicial: por que Fre ud u.ão publi-
cou o e nsaio'! Existem razões para que aproximemos, de alguma forma, a
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO 131

não-publicação do manuscrito à não-publicação do Projeto de uma psico ·


logia científica?65 Há várias razões para articularmos essas duas obras de
Freud .
No Projeto de uma psicologia científica encontramos uma série de
hipóteses teóricas fecundas que ·vão fundamentar a psicaná li ~e em
textos posteriores, após serem devidamente depuradas na sua lingua -
gem conceitual, pois essas hipóteses articulam -se na linguagem da
biologia, principalmente da neuroanatomia e da neurofisiologia . As-
sim, deslocadas do campo da biologia para a cons tituição do campo
psicanalítico, essas hipóteses teóricas eram enunciadas em um eviden-
te estilo ficcional, principalmente se considerarmos que Freud era um
neurologista e um neuroanatomista teoricamente rig~roso, que·produ-
ziu o bras de importância crucial e que foram reconhecidas por seus
pares.66 Entretanto, a neuroanatomia freudiana nessa o bra é uma anatomia
fantasmática, sem apresentar qualquer rigor científico no campo das
ciências naturais.
A recusa de Freud em publicar essa obra, acompanhada de sua
correspondência com Fliess e dos manuscritos preliminares,67 deve-se
parcialmente à preocupação de Freud com a falta de rigor de suas hipóte-
ses teóricas e à sua linguagem ficcional. Sua irritação com M. Bonaparte
pela recuperação dessa obra e da documentação contemporânea do perío-
do de sua colaboração com Flie~ revela todavia a existência de outras
questões implicadas na não-publicação.
Com efeito, o Projeto de uma psicologia científica, os manuscritos e
a correspondência são documentos reveladores da relação transferencial
de Freud com a figura de Fliess,69 que Freud não quer tomar pública.
Assim, esse conjunto revela uma série de hipóteses geniais, perpassadas
por teorias especulativas e enunciadas em uma linguagem ficcional, mas
que remetem à relação ttansferencial de Freud com FUess, em que este se
posiciooa no lugar de sujeito suposto saber.
Podemos indicar nesse ensaio wna série de suposições similares.
Inicialmente, a "hipótese filogenética:· articula-se em linguagem ficcio-
nal, em tennos biológicos. Freud admite mesmo que e~a hipótese é uma
"fantasia" e que tem caráter "especulativo". 70 Porém, o fato de que uma
teoria tivesse o sabor de uma ..fantasia" ou que apresentasse um caráter
"especulativo.. nunca o impediu de publicá-la em outros moment~, como
Freud admitiu literalmente em Além de principio de prazer para a hipótese
da pulsào de morte.71 Assim, alguma coisa de outta ordem·se apresen~u
para Freud, que IJ'aDS(!endeu a dlmensão ..especulativa.. e fan~máuca
do ensaio, impedindo-lhe então de publicá-lo. Supomos que havaa alg~ no
desenvolvimento interno da "hipótese filogenética .. que não convencaa o
132 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALíTICA

próprio Freud, o que o levou a abandonai- definitivamente o seu manus-


crito com Ferenczi.
Assim, em vários momentos de seu texto a "hipótese filogenética" é
atribuída a Ferenczi.72 Da mesma forma, na correspondência parcial de
ambos até agora publicada, desse período, a atribuição dessa concepção
a Ferenczi é bastante clara, a Ferenczi também reconhece isso sem
qualquer embaraço.73 Portanto, nada mais óbvio que Freud recue decisi-
vamente da publicação do manuscrito quando lhe falta a necessária
convicção nessa hipótese teórica e que seja Ferencz.i quem publique
posteriormente uma obra importante sobre a metabiologia. É importante
que se diga que essa falta de convicção se deve aos termos em que a
hipótese foi desenvolvida no ensaio, sendo construída em termos meta-
biológicos e não metapsicológicos.
Porém, isso não é tudo, sendo necessário ainda levar a comparação
até as últimas conseqüências. Na época da Primeira Grande Guerra, Freud
repetidamente vislumbrou o fim da psicanálise com a dispersão de seus
colaboradores diretos. O movimento anaUtico foi socialmente desarticu-
lado. Como dissemos, os escritos metapsicológicos foram forjados preci;
samente nesse momento histórico quando, imaginando o fim do movimen-
to psicanalítico, Freud se preocupou com a transmissão do legado da
psicanálise,. através do desenvolvimento sistemático de seus conceitos
fundamentais. Freud revivia o mesmo isolamento teórico por que passou
na época de sua colaboração com Fliess. Nesse contexto, Ferenczi era sua
relação mais próxima, com quem estabeleceu inequivocamente uma co-
laboração criativa. A relação do mestre e do discípulo é marcada pela
transferência, mas naquela situação Freud ocupava o lugar do analista e
não mais a do aprendiz de feiticeiro.
Evidentemente, com tais comentários bordejamos a linguagem do
ensaio e as condições histórico-teóricas de sua enunciação, mas não
abordamos a questão crucial da veracidade da "hipótese filogenéti ca".
Essa formulação apresenta-se de forma esparsa no discurso freudiano,
de forma direta ou indireta, desde A interpretação dos sonhos até
Moisés e o monotefsmo." Entretanto, mesmo que possamos inventariar
fragmentos dessa concepção no discurso freudiano, isso não define
sua positividade biológica, o que nos faz indagar sobre seu sentido
teórico.
O que sustenta a "hipótese filogenética" no discurso freudiano? O
que existe na experiência psicanaUtica que possa fundar essa hipótese?
Em outros termos, o que podemos ler, através da "hipótese filo genética",
que pennhe atribuir-lhe alguma veracidade, depurando evidentemente a
ficção biológica de que se reveste?
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO 133

A .. hipótese filogenética" indica a tenacidade de Freud em busca de


um fundame nto real para as formações fantasmáticas. Apesar de ter
reati1..ado a critica da concepção trawnática das neuroses" e empreendido
a constituição da teoria do fantasma, Frcud nunca abandonou a busca de
um fundamento real para o universo fantasmático. A pesquisa freudia-
na assumiu diferentes níveis de complexidade, representando-se nos
registros do sentido, da erogeneidade e do mito das origens. Através
dessa investigação anuncia-se também repetidamente uma outra pro-
blemática: a estruturação pré-subjetiva do sujeito, em que este é arti-
c ulado por estruturas que o transcendem e que o determinam, inequi -
vocamente.
Vamos circunscrever então, esquematicamente, os registros interpre-
tativo, Ubidinal e mítico em que se esboça no discurso freudiano a
constituição pré-subjetiva do sujeito, da qual a "hipótese filogenética" é
a materialização metafórica desLa concepção teórica:
1. O sujeito constitui-se a partir do Outro pela mediação de um outro
sujeito, não encontrando pois em sua interioridade, biológica e psicológi-
ca, qualquer possibilidade para seu engendr&mento. Essa hipótese havia
sido introduzida por Freud desde o Projeto de uma psicologia cientifíca,16
onde se apresentava a concepção de que em psicanálise o sujeito já é
interpretação, interpretação essencialmente intersubjetiva e fundada na
relação com o Outro. Enflm, no regis tro do sentido o sujeito é inserido
desde sempre em uma estrutura que logicamente o precede, em um
contexto interpretativo que o marca de forma indelével;
2. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, em outro regislro,
o da erogeneidade do corpo, Freud indica que o corpo erógeno do j.ofante
encontra na figura materna a condição de possibilidade de sua constitui-
ção, sem a qual não existe qualquer libidinação.77 O que implica dizer que
a figura materna "perverte" a natureza biológica do infante, sendo essa
"perversão" a condição necessária para a estruturação de seu corpo
sexuado.' 8 A sex uação do corpo do infante é a condição de possibilidade
para a constituição do sujeito, articulando-se pois este registro com o
anterior, em que o sujeito se constitui a partir do Outro mediante a
interpretação da demanda do infante;
3. O real originário, onde se revela a estrutura fundaote do sujeito que
o precede lógica e historicamente, assu.-ne a forma de um mito das origens
da humanidade em Totem e rabu.' 9 Nessa obra e em Moisés e o mo notefs-
mo80 o discurso freudiano empreende o ousado exercfcio dessa concepção
no plano mítico, onde o sujeito é figurado como se constituindo a partir
de uma rede de relações que o ultrapassam. Portanto, mediante essa
concepção o sujeito em psicanálise tem o estatuto bem diferente da idéia
134 ENSAIOS DE. TEORIA PSICANALtTICA

de indivíduo, pois é marcado em seu ser por uma história fantasmática


que o antecede. Teoricamente essa genealogia pode atingir as origens da
humanidade.
Em Totem e tabu já se esboça a concepção teórica sobre a existência
dosfanJasmas originários, enunciada em seguida,11 em que o sujeito seria
modelado por fantasmas primordiais que o fundam como tal. Esses fan-
tasmas são universaiS e indicam que para se constituir o sujeito tem que
elaborar o mito de suas origens, articulando os enigmas fundamentais de
seu ser. Portanto, os fantasmas originários revelam que o sujeito pretende
decifrar os enigmas de seu ser mediante o mito de suas origens: fanJasma
da cena primitiva, ligado ao enigma da existência do sujeito;fantasma da
sedução, voltado para a interpretação das origens da sexualidade; e
fanJasma da castração, onde o sujeito procura decifrar o enigma da
diferença dos sexos. 82
Assim, nos diferentes registros em que esboçamos essa problemática
o Stljeito se funda, no discurso freudiano, em algo que o transcende, sendo
o mito da horda primitiva e os fantasmas originários as representações
mais expressivas dessa concepção original. Nessa perspectiva, a idéia de
sujeito não se identifica à concepção de indivíduo, pois se este ê repre-
sentado pelo ego e experimenta a ilusão de seu auto-engendramento nas
relações interpessoais, o sujeito é necessariamente tributário das marcas
pulsionais mediatizadas pelo Outro, onde as precipitações identificatórias
revelam que o sujeito é construido por estruturas antecipatórias que lhe
transcendem.
O arcaico em psicanálise remete, portanto, para·a condição de possi-
bilidade dessa constituição pré-subjetiva do sujeito e a "hipótese filogc-
nética •• é uma formulação teórica que procura materializar essa concepção
original. EnflDl, esse é o sentido teórico dessa hipótese, se considerannos
meticulosamente as diversas indicações oferecidas pela totalidade dos
enunciados do discurso freudiano e o que nos ·ensina ainda a experiéncia
psicanalítica.
Entre o inconscie.nte e a pulsão 1
Notas introdutórias sobre a categoria de estrutura
no discurso freudiano

Eis-nos de novo confrontados com a importância do fator


quantitativo e novamente advertidos de que a análise não pode
colocar em ação senão quantidades determinadas e limitadas
de energia que têm que se medir às forças hostis. É como se a
maior parte do tempo, verdadeiramente, a vitória estivesse do
lado dos batalhões mais fortes. (Freud, S., A11álise com fim e
análise sem .fim)

I. É posslvel uma leitura estrutural da psicanálise?


A questão que se apresenta à nossa indagação é se o campo psicaDJllítico
é passível de ser pensado a partir da categoria de estrutura. Como
desdobramento, outras perguntas se impõem: pode o psiquismo em psi~­
nálise ser: representado segundo a categoria de estrutur-.l? Qual o limite
dessa figuração teórica? Quais os impasses colocados para essa represen-
tação teórica pela experiência psicanalítica? \fale dizer, se a categoria de
estrutura pode ser legitimamente inserida na teoria psicanalítica e promo-
ver de forma eficaz a leitura sistemática de seus conceitos, até que ponto
sua introdução é capaz de fundamentar os acontecimentos operàntes no
campo psicanalítico1
Para nos encaminharmos nestas interrogações teóricas, a questão
inicial deve ser de caráter empírico, isto é, se existem referências teóricas
a estruturas em psicanálise ou, então, se a palavra e a noção de estrutura
estão ausentes no discurso psicanalítico. Evidentemente, c!esde os seus
primórdios o discutso freudiano introduziu não apenas a palavra mas
também noções que podem evocar, de maneira mediata, a idéia de estru-
nua. O que implica dizer que o discurso freudiano produziu conceitos e
135
136 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

enunciou descrições diversificadas do psiquismo que poderiam ser sub-


sumidos legitimamente à categoria de estrutura em sua interpretação
teórica.
Vamos destacar esquematicamente uma série dessas concepções e
conceitos freudianos, para fazer um inventário inicial no qual possam se
inscrever nossas indagações. Antes de mais nada, os conceitos de incons-
ciente e de pré-consciente/consciente, indicadores de uma leitura do
psiquismo como sistema. 2 Em seguida, a figuração de estruturas diferen-
ciadas do psiquismo na segunda tópica, isto é, as instâncias do id, do t;go
e do supergo. 3 No registro da teoria da dfnica psicanalítica, a constatação
do deslocamento de uma concepção etiológica das psiconeuroses para
uma leitura estrutural das mesmas.4 No registro da teoria da sexualidade,
a referência a diferentes estruturas psicossexua.is- oral, anal e genital-
na história do sujeito.' No registro da teoria dos objetos parciais, a
referência crucial à experiência de perda e de falta como fundantes da
equivalência dos diferentes objetos parciais.6 Finalmente, a ruptura cru-
cial na história do sujeito representada pelo complexo de Édipo e pela
angústia de castração, indicando um aquém e um além do psiquismo
centrados nas imagos materna e paterna, e que revelam destinos diferentes
para as subjetividades·do homem e da mulher. 7
Pode.se legitimamente contestar que este inventário conceitual é
passível de ser interpretado pela categoria de estrutura, argillndo-se, em
contrapartida, que tais conceitos podem receber outra leitura teórica.
Pode-se também enunciar que essas referências à noção de estrutura
seriam muito débeis no discurso freudiano. Sem dúvida, os argumentos
são válidos teoricamente, pois o discurso freudiano é consúttúdo por
enunciados heterogêneos, admitindo, então, diferentes e diversas inter-
pretações. Esta diversidade de interpretações se constituiu historicamente
na evolução da ps icanálise e continua a se realizar produtivamente no
atual pensamento psicanalítico, como forma de apropriação do discur-
so freudiano por diferentes tradições epistemológicas e culturais da
psicanálise. 8
É preciso reconhecer, antes de mais nada, a diversidade possível na
interpretação teórica do discurso freudiano, para nos encaminharmos
nessa polêmica. Além ctisso, é preciso reconhecer que o discurso freudiano
não é, no conjunto de seus enunciados, um discurso estruturalista avant
la !e erre . Freud nunca se representou como um teórico t".Struturalista e essa
questão não se colocava absolutamente no horizonte histórico de sua obra.
Entretanto, o "reconhecim~nto dessa constatação não implica afastar, em
princípjo, a possibilidade de que os enunciados constitutivos do discurso
freudiano possam ~r reinterptetados de acordo com os pressupostos
ENTRE O INCONSCIENTE E A PULSÁO 137

teóricos da razão estrutural e que estes possam evidenciar legitimamente


a racionalidade imanente do pensamento freudiano. Dessa maneira, a
categoria de estrutura poderia ser a revelação da verdade do discurso
freudiano, num momento ulterior de sua história, pela reinterpretação
sistemática de seus fundamentos, segundo a razão estrutural.
O que se coloca efetivamente em pauta é a eficácia e a coerência
teóricas possibilitadas pela leitura estrutural do discurso freudiano. É
nesse registro que se inserem nossas indagações iniciais, na medida em
que em seus enunciados o discurso freudiano não é efetivamente um
discurso estruturalista, mas em suas enunciações pode permitir a reinter-
pretação de sua racionalidade pela leitura estrutural.

li. Organização e estrutura


Para prosseguirm.05 nessa direção teórica é preciso reconhecer que o
pensamento ps icanalítico pós-freudiano utiliza comumente o termo estru-
tura. e que esta palavra está com freqüência presente nos escritos psicana-
líticos. Porém, suas acepções são não apenas múltiplas mas diferentes,
não existindo absolutamente um significado unívoco para o termo estru-
tura nos discursos psicanalíticos. O que implica reconhecer que o termo
estrutura é utilizado de maneira frouxa e imprecisa, inexistindo pois
sistematicamente o rigor no seu manuseio conceitual.
Entretanto, quando registramos uma utilização mais sistemática do
termo estrutura no discurso psicanalítico, ele se refere comwnente ao
conceito de organização e não ao de estrutura, tal como foi desenvolvido
de maneira coerente e sistemática pelo pensamento estruturalista nos anos
50.9 Essa é a cqtica teórica mais importante que podemos fonnular,
quando analisamos de forma superficial os escritos da psicanálise inglesa
e as produções teóricas da psicanálise norte-americana, pois ali a palavra
estrutura é usada no sentido do conceito de organização.
Qual seria a diferença entre os conceitos de organização e de estru-
tura? Se a concepção de organização refere-se uma totalidade e define
uma relação entre o todo e as partes - onde é a idéia do todo que regula
a relação entre as diferentes partes - , ela não enuncia a idéia de
estrutura tal como fonnulada e des envolvida pelo pensamento estrutu-
ralista. A estrutura aí não apenas indica a anterioridade e a prevalência
do todo sobre as partes, mas destaca a oão-substancialidade das partes,
isto é, que as partes se inserem na totalidade de acordo com critérios
de ordem e de valor, definidos esses pela lei que constitui a totalidade
como um conjunto.
138 ENSAIOS DE TEORIA PSIC ANALITICA

É nesse sentido que o conceito de estrutura surge na antropologia


social nos anos 40, quando a concepção de estrutura desenvolvida na
lingüística (Saussure) e na fonologia (Troubet.zkoy e Jakobson) permitiu
um acesso inventivo para a racionalidade das ciências da cultura, to na
leitura empreendida por Lévi-Strauss dos sistemas de parentesco. 11 O
modelo da linguagem como estrutura foi a matriz teórica do pensamento
estrutural. A idéia era enunciar a concepção de estrutura como uma
ordenação lógica e matemática rigorosas, onde as partes não são mais
consideradas como subs tancialidades, apesar de sua inserção na totalida-
de. Com isso, pretendia-se ultrapassar a idéia dominante de organização,
que se inscreveria no regis tro da consciência, e inserir a concepção de
estrutura no registro do inconsciente. Enfim, o conceito de estrutura
implicou nãú apenas o enunciado de um formalismo lógico-matemático
em sua leitura teórica, centrado oó modelo da linguagem, como la.tnbém
sua inscrição no registro inconsciente do espírito.
É precis o não esquecer que historicamente o conceito de organização
antecedeu o desenvolvimento do conceito de estrutura na h.istória das
ciências humanas, sendo pois o momento inaugural na constituição de
uma razão estrutural no campo desses saberes, e que se contrapunha
sistematicamente a uma razão elementarista e atomí.sta. Esse desenvol-
vimento teórico é bastante evidente na história da biologia, da psicologia,
da sociologia, da lingüística, da ciência poHtica e da economia. 12 Entre-
tanto, foi no sentido da formalização lógico-matemática cada vez mais
rigorosa, e fundado no modelo da linguagem, que o pensamento estrutural
estabeleceu a sua especificidade teórica, rompendo com a idéia de orga-
nização e inscrevendo definitivamente a concepção de estrutura no regis-
tro inconsciente do espírito.

111. Estrutura, linguagem e inconsciente


Em psicanálise foi inquestionavelmente a leitura do discurso freudiano
reatizada por Lacan que permitiu o estabelecimento rigoroso e sistemático
do conceito de estrutura. Lacan apropriou-se dos instrume ntos concei tuais
da antropologia social e da lingüistica de maneira inventiva, para formular
que o campo psicanalítico seria fundado na "fala e na linguagem" . rl
Nesse contexto, o conceito de inconsciente foi formulado como uma
"realidade transindividua1", 14 que se constitui na e pd(J linguagem. O
modelo da linguagem sería a matriz teórica para se representar a exislên-
cia e o funcionamento psíquico do registro freudiano do inconsciente.
Essa seria a via real para se pensar teorJcamente a psicanálise oomo de
ENTRE O INCONSCIENTE E A PULSÁ O 139

fato e de direito uma ciência rigorosa, inscrevendo-se na razão es trutural


e enuncia.n do-se então finalmente como uma ciência conjecturai, l l isto é,
que no que conccme à cientificidade não ficaria a dever nada a qualquer
discurso cientifico existente no campo das ciências naturais e da cultura.
Lacan sublinhou que o registro simbólico seria a hstâncía donúnante
no psiquismo humano e que portanto seria fundante do sujeito do incons-
ciente, não existindo pois qualquer possibilidade de se enunciar este na
exterioridade do registro simbólico. Assim, considerando que os regis tros
do imaginário e do real também seriam constitutivos da realidade
humana, a assunção do pensamento estruturalis ta por Lacan s e baseou
i ndubitavelmente na hegemonia teórica conferida ao registro do sim-
bólico em s ua leitura do discurso freudiano e conseqüentemente na
autocrítica de seu percurso teórico a nte rior como fundado no registro
do imaginário.
Com efeito, no mom~nto teórico anterior, a leitura que Lacan reaü-
7.ava da experiência e do discurso psicanalítico baseava-se na categoria
de organi í'.ação e não na categoria de estnltura. Por isso mes mo, ,Lacan
preocupava-se fundamentalmente com os fenômenos especulares da cons-
tituição do ego e com o seu reverso, isto é, a promoção de sua descons-
trução nas suas múltiplas marcas identificatórias pela experiência psica-
nalítica.'6
Lacan trabalhava com a categoria de organização do ego, conside- .
rando este num campo teórico eminentemente intersubjctivo, basean-
do-se para isso nos discursos da fil osofia fenomenológica (Husserl e
Hegel), da etologia c da psicologia da fonna . Portanto, naquele mo-
mento de seu percurso teórico a concepção de Lacan da palavra es tru-
tura se inseria de direito no conceito de organização. Na verdade, uma
concepção bastante próxima mas não idêntica à que Lagache manteve
a <f longo de s ua pesquisa teórica, na qual também registramos a inc i -
dência marcante da fil osofia fenomenológica, da etologia e do gesta l-
tismo."
É bas tante instigante a leitura do ensaio crítico de Lacan da obra de
Lagache sobre a "estrutura" da personalidade, do final dos anos 50, na
qual o autor pretendeu desenvolver uma personalogia psicanalítica cen-
trada na 'leitura de Freud, baseando-se para isso na idéia de iotersubjeti-
vidade apoiada na psicologia do ego (Hartmann, Kris e Lowens tein). A
crítica sistemática empreendida por Lacan da "Psicanálise e estrutura da
personalidade·· de Lagache tem o sabor evidente de uma autocrítica . Com
efeito, através dessa crítica Lacan promovia wna desconstrução teórica
radical das t-Jpóteses que balizaram o seu percurso teórico anterior,
marcando pois a incorporação na psicanálise do conceito de estrutura
140 ENSAiOS DE TEORIA PSICANALITICA

produzido pela lingüística, pela fonologia e pela antropologia social. 18


Texto que indica a sua ruptura, sem dúvida, com as marcas teóricas do
passado recente, impregnado pelo gestaltismo e pela etologia.
Esse foi o momento crucial da introdução do conceito de estrutura na
pesquisa psicanalítica, quando a razão psicanalítica pretendeu, de maneira
rigorosa, inscrever-se no pensamento estruturalista. Nessa perspectiva
teórica, esta seria a sua condição possível de cientificidade. Sem dúvida,
foi um momento festivo e iluminista para a psicanálise, pois indubitavel-
mente a leitura de Lacan não apenas realizou um "retomo a Freud", como
o discurso fundante da psicanálise e no qual Freud figurava como o lugar
transferencial absoluto para os psicanalistas, como também empreen-
deu uma leitura siste mática e coerente dos escritos freudianos, até
então inexistente na história da psicaná lise. Com isso, tom o u-se pos-
s íve l o desenvolvimento teórico de um .. campo freudiano" propria-
mente dito, como espaço epistemológico da psicanális e em seu sentido
estrito.
É preciso reconhecer também que o estabelecimento desse campo
teórico para a psicanálise teve como implicação crucial a definição da
psicanálise como um saber do inconsciente. Vale dizer, o inconsciente foi
enunciado como o ob~to re6rico da psicanálise, no sentido rigoroso em
que a epis temologia regional define o que é o objeto especifico de um
discurso científico. 19 PortanLo, o sujeito do inconsciente seria o objeto
teórico da psicanálise e esta, como uma ciênc ia conjecturai, seria de fato
c de direito um saber da inte rpretação. Enfim, o campo psicanalítico
es taria fundado na "fala e na linguagem" que seriam constitutivos da
realidade ps íquica do inconsciente, sendo este representado como um
conjunto de significantes, em que o suj eito do inconsciente se enunciaria
então como um sujeito do intervalo, isto é, como uma relação entre dois
significantes.
Foi es.o;e discurso teórico constituído por Lacan, fundado na categoria
de estrutura, que possibilitou finalmente que a psicanálise fosse reconhe-
cida de fato como uma ciência pela filosofia francesa, fazendo com que
es ta não procurasse mais invalidar a descoberta freudiana considerando-a
uma psicologia mecanicista, o que acontecera anterionucnte na história
da psicanálise na França. 20 Entretanto, mes mo enunciando o inconsciente
como o objeto teórico da psicanálise e este como o campo da interpre tação
por excelência, a psicanálise não era representada absolutamente como
uma hermenéutíca, no sentido em que Ricoeur pretendeu demonstrar em
sua leitura do discurso freudiano.21 Vale dizer, enunciar o ser do incons-
ciente como um conjunto articulado de significantes e o sujeito do incons-
ENTRE O INCONSCIENTE E A PULSÁ O 141

ciente como um intervalo entre significante~ não implicava atribuir


significações substanciais ao inconsciente, como formulava efetivamente
a leitura hermenêutica de Ricoeur.

IV. Entre a ontologia e a ética


Esse momento iluminista do pensamento de Lacan encontrou o seu limite
e os seus impasses, sendo estes deftnidos pelo próprio discu~o teórico de
Lacan. A formulação desses limites implica a explicitação cabal dos
impasses que a razão estrutural encontra na teorização do campo psicana-
Utico. O que não implica afurnar absolutamente que a categoria de
estrutura não tenha lugar no campo psicanalítico, mas sim deftnir rigoro-
samente seus limites epistemológicos de validade e sua operacionalidade
conceitual.
Encaminhemos esquematicamente a nossa argumentação, começan-
do pela constatação e pelo reconhecimento dos impasses teóricos que
revelam o5 escritos de Lacan sobre essa questão. A partir dos anos 60
Lacan passou a desenvolver progressivamente o lugar teórico do registro
do real em sua leitura da psicanálise, o que até então era apenas uma
palavra e não um conceito propriamente dito. Com isso, o discurso
lacaniano passou a representar a experiência psicanalftica a partir do
registro do real como sua dimensão dominante, destronando pois o lugar
hegeti\Ônico atribuído até então ao registro do simbólico. Da mesma forma
que anteriormente o desenvolvimento teórico do registro do simbólico
impôs limites teóricos ·ao registro do imaginário em psicanálise e foi
enunciado como o registro dominante do campo psicanalítico, o registro
do reaJ, nesse sentido epistemológico, realizou a mesma operação teórica
face ao simbólico e se enunc iou como o registro dominante da experiência
psicanalítica.
Para que esse deslocamento teórico tivesse lugar no discurso de
Lacan, isso implicou o reconhecimento dos impasses das categorias de
simbólico e de estrutura no campo psicanalítico. É preciso reconhecer que
Lacan era um psicanalista e foram as impossibilidades colocadas na
teorização do ato psicanalítico que certamente lhe conduziram à imposi-
ção de um limite teórico para o registro simbólico e para a categoria de
estrutura na experiência psicanalítica. As questões do ftm da análise, da
discriminação entre repetição do mesmo e da repetição diferencial, assim
como a formulação do objeto a como objeto causa do desejo,lhe coloca-
ram diante dos impasses e do limite a serem imposto5 à categoria de
estrutura no discurso psicanalítico. Esta categoria, evidentemente, conti-
142 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

nuou a existir no discurso teórico de Lacan, quando se refere à rede


diacrítica de significantes e ao advento do sujeito do inconsciente, porém
pressupõe agora algo da o rdem da pulsação do real.
Nesse contexto teórico, Lacan passou a introduzir a idéia e a desen-
volver o conceito de que o inconsciente em psicanálise não teria o estatuto
õntico, mas um estatuto ético. O que implic a dizer que o conceito de
inconsciente como um conjunto diacrítico de significantes ~cebe wn
limite teórico imposto pelo pensamento de Lacan, pois seria a isso que ele
se refere ali como o estatuto ôntico do inconsciente. O estatuto ético do
inconsciente implica algo da ordem da pulsação, que ll'anscenderia pois a
representação teórica do inconsciente como um conjunto diacrltico de
sign.ificantes.22
Não é de se estranhar, portanto, que seja apenas nesse momento
teórico que Lacan passe a introduzir o conceito de pulsão (Trieb) em sua
rclcitura do discurso freudiano, 23 até então inexistente em sua pesqui:
sa, justamente porque é o conceito de pulsão que impõe um liri:tite
fundamental à dominância do registro do s imbólico no campo psicana-
lítico. O conceito freudiano de pulsão é a contrapartida teó rica da
dominância estrutural do registro do real sobre o registro do s imbólico
no campo psicanalflico. É o conceito · de pulsão que se encontra em
pauta também quando Lacan se des loca da concepção ôntica do incons-
ciente para a concepção ética. Enfim, o conceito de pulsão caracteri-
za-se como aquele· capaz de fundar o conceito de inconsciente em
psicanálise.
As conseqüências dessa inflexão teórica no discurso de Lacan são
imensas para a reflexão da idéia de estrutura em psicanálise. O discurso
teórico de Lacan passa a ser repovoado por múltiplas imagens, metáforas
e exemplos retirados da biologia, onde se enfatiza que além de existir uma
falta no simbólico - na estrutura e na rede diacrítica dos significantes -
existiria Lambém uma falta no real, sem a qual a falta do simb6Uco seria
inoper.ante para a constituição do sujeito do inconsciente, sendo este
definido pela falta. 24

V. Força e represe mação da pulsao


O percurso teórico de Lacan é exemplar para o estabelecimento da
pertinê ncia e dos limites da categoria de estrutura no campo psicanalítico.
Podemos dizer que a incursão lacaniana repetiu, em outro contexto e com
outros instrumentos conceituais, o percurso freudiano na constituição do
campo psicanalítico. ·
ENTRE O INCONSCIENTE E A PULSÁ O 143

Com efeito, o discurso freudiano pretendeu inicialmente fundar a


dentificidade da psicanálise como um saber da interpretação, enunciando
que o ser da pulsão poderia ser considerado na experiência psicanalítica
somente em sua inscrição no campo da representação, isto é, como um
conjunto de representantes-representação da pulsão. Dessa maneira, o
objeto teórico da psicanálise seria o inconsciente e o campo da psicanálise
se estabeleceria de fato e de direito como o da interpretação. Esse foi a
pretensão do discurso freudiano em sua primeira tópica, onde se reali7.o u
uma figuração teórica do inconsciente como wna estrutura diacrítica de
representantes -representação das pulsões. 2 ~
Porém, já nos ensaios metapsicológicos de 1915 essa concepção
revela seus impasses e seus lillÚtes teóricos, na medida em que, para
construir os conceitos de inconsciente e de recalque na teoria psicanalíti-
ca, o discurso freudiano teve que se fundar no conceito de puisão. A pulsão
foi definida como o conceito fundamental da metaps icologia freudiana,
sendo pois a condição de possibilidade para a construção dos conceitos
de recalque e de inconsciente na teoria psicanalftica,26 considerados como
destinos da pulsão.
Para tal, a pulsão teve que ser reconhecida, lústórica e logicamente,
em sua condição primordial como força (Drang), anteriormente, pois, à
sua inscrição 0:8 ordem simbólica, onde se transformará em seus represen·
tantes.n Com .isso, o discurso freudiano começou a desenvolver, com o
nunca fizera antes, o regisrro econômico da meta psicologia, face aos
registros tópico e dinâmico. A segunda tópica2 8 e a segunda teoria
das pulsões 2 ~ foram as conseqUê ocias teóricas inevitáveis do que foi
epistemologicamente se es tabelendo na leitura dos escritos m e ta-
psicológicos.
A forqmlação do conceito de pulsâo de morte e da existê ncia do id,
como um 1pólo pulsional no psiquismo inexistente na primeira tó pica,
evidencia o destaque conferido pelo discúrso freudiano à dimensão eco-
nômica da metapsicologia, o que também coloca li.m.ites teóricos a uma
leitura estrurural de experiência pslcanalftica que se pretenda hegemôni-
ca. Assim, a leitura estrutural consegue dar conta do inconsciente como
uma rede diacrítica de representantes-representação da. pulsão e funda a
psicanáüse como uma ciência da interpretação. No entanto, não coloca
em pauta os impásses e os J..imjtes encontrados na experiência psicanalítica
para a constituição do inconsciente.
Era com essas questões teóricas que Freud eslava preocupado no f mal
de sua vida, qwt.ndo enfatizava as impossibilidades do fim da ~ná.lise e a
"rocha .. erugmãtica da castração, enraizada no registro econom.Jco ~
pulsões.JO Foi nesse contexto também que o discurso freudiano e nunctou
144 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

o conceito de construção, como algo que deveria complementar a expe-


riência psicanalítica fundada apenas na interpretação e nas formações do
inconsciente.31 Enfim, mediante a operação de construção seria possível
inscrever a pulsão como força na ordem simbólica das representações,
para que. a pulsão se estruturasse como força em seus representantes-re-
presentação e se estabelecesse, portanto, o campo do interpretável no
inconsciente.
Notas

Introdução

1. Freud, S., "The Question of a Weltanschauung", New lntroductory


Lectures on Psycho-Analysis (1932), Conferência XXXV. Tbe Standart
Editíon of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, [dora-
vante, denominada Standard Edition], vol. XXII. Londres, Hogarth Press,
1978.
2. Sobre isso, vide: Birman, J., Freud e a experitncia psícanalitica. A consti-
tuição da psicanálise I, Rio, Taurus· Tunbre, 19~9; Freu.d e a Interpretação
psicanalítica 11. Rio, Relume Dumará, 1991.
3. "Mestrado em teoria psicanalítica", Instituto de Psicologia_ Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
4. "Mestrado e doutorado em saúde coletiva", Instituto de Medicina Social,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O objeto te6rico da psicanálise e a pesquisa psicanaütica

1. Conferência pronunciada no Seminário Nacional intitulado·· A pesqui·


saem psicologia clínica'., realizado na Pontifícia Universidade Cató~
lica do Rio de Janeiro, em li de setembro de 1986, organizado pelo
Departamento de Psicologia; publicada na revista Tempo Psicanalíti-
co, vol. IX, n. 2 (Rio, Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, 1986, p.
66·79).
2. Freud, S. The lnterpretation of Dreams (1900), Standard Edition vol. IV, .
prefácio à 31 edição., Londres, Hogarth Press, 1978, p. l~Jtvü. ·
3.1dem, vol. V, cap. VI, E, p . 350.351 .

14S
146 ENSA lOS DE TEORIA PSICANALITICA

4. Sobre isso, vide: Freud, S., "Pour introduire le narcissisme" (1914), in La


vie sexuelk Paris, PUF, 1973, p. 102-105; " L'analyse avec fin et l'analyse
sans fm" (1937), cap. Vffi, in Résulta:s, idies, probJemes. Paris, PUP, 1985,
p. 266-267. .
5. Sobre isso, vide: Preud, S., Jung, C.G ., Correspondance ( 1906-1914). Paris,
Gallimard, 1975 . Vol. 1: p. 61, 63, 64, 65, 76, 82, 84, 86, 87, 89, 90, 92, 95,
96, 103, 108, 110, 111, 182, 196, 198, 202, 204, 205, 207' 209, 222, 223,
224, 227' 228, 229, 241, 242, 255, 259, 260, 262, 292, 303, 316, 323, 357'
361,363. Vol.TI:p.39,43, 79,92,95 ,97,98, 100,103,109,110,114,119,
122,157,173,174,180,184,192,200,206,210,220,232,240,252;Freud,
S., Corresponcklnce de Sigmund Freud avec le pasreur Pjister. Paris, Galli-
mard, 1966; "Pour introduire !e narcissisme", cap. I, op. cit.; Totem and
Taboo. ( 1913), Standard Edition, vo l. XIII, op. cit.; "Advances in Psycho-
Analytic Therapy" (1918), idem, vol. XVn, p. 160-161; On the Hístory of
the Psycho-Analytic Movement (1914), idem, vol. XN; Jung, C. G., "The
Th~ory of Psychoanalysis" (1913), in Freud and Psychoanalysis, The Col-
lect'td Works o f C. G. Jung, v oi. 4. Londres, Routledge & Reagan Paul, 1974;
Jung, C. G ., Symbols of Transjormations ( 1911-1912), The ColJected Works
of C. O. Jung, vo1. 5, op. cit.; Birman, J., "Sobre a correspondência de Freud
com o pastor Pfister", in Religião e Sociedade, n. 11/2. Rio, Campus, 1984,
p. 30-37 .
6. Sobre isso, vide: Rank, 0., Le trauma:isme de /Q naissance. (1924). Paris,
Payot, 1976; Jones, E., La vie et l'oeuvre de Sigmund Freud, vol. 3, cap. ll,
11 parte. Paris, 1969; Freud, S . lnhibitions, Symptoms and Atuiety ( 1926), ·
Standard Edition, vol. XX, op. cit.
1. Sobre isso, vide: Freud, S., "L'analyse avec fm et l'analyse sans fm", in
Résuitats, idies, problimes, op. cir.; Ferenczi, S., "'Dificultés tecbniques
d"une analyse d'hystérie" (1919); "L'influence exercée sur de patiente en
analyse.. ( 1919); .. Prolongement de la ' technique aclive' en psychanaJyse··
(1920); " Perspectives de la psychanalyse·· (1923); '"Les fantasmes provo-
quées" (1924); ..Contre-indicacions de la technique aclive" (1926), in Psy-
chanalyse 3, Oeuvres completes, tomo Ill. Paris, Payot, 1974; •• Le probleme
ae la finde l'analyse" (1927); ''Ela.stic ité de la technique psychana lytique"
( 1927-1928); "Principe de telaxation et néocatharsis" ( 1929); "Confusion
de langue emre les adultes et l'enfant"" (1932); "Analysi.s d'enfant avec d es
adultes" (193 1). in Psychanalyse 4, Oeuvres completes, tomo IV. Paris,
Payot, 1982; .Preud, S., "Advances in Psycho-Analytic Therapy" (19 18),
Standard Edition, vol. XVTI, op. cit.
8. Sobre isso, vide: Freud, S., O tratamento psicanalítico de crianças. Rio,
!mago, 1971; Klein, M., "Le développement d"un enfant" (1921); "L'ana-
lyse des jeunnes enfant<>" (1923); "Colloque sur J'analyse des jeunnes
enfants" (1927), in Essais de Psychanalyse. Paris, Payot, 1976; La psycha-
nalyse des enjanrs. Paris, PUF, 1975.
9 . Hartmann, M., Essayson Ego Psychology. Selected paperson psycboanalyse
theory. Nova Iorque, IntemationaJ Universities Press, 1976.
NOTAS 147

10. Hartmann, M., Psicologia do Ego e o problema eúJ adnptação. Rio, Civili-
zação Brasileira, 1959.
11. Hartman.n, M., Kris, E., Lowenstein, R. M., Papers on Psychoan alytic
Psychology. Nova Iorque, IntematíonaJ Universíties Press, 1964.
12. Lacan, J .• "Le stade du miro ir comme fonnateur dela function du Je ·· ( 1949),
in Écrits. Paris, Seuil, 1966, p. 93- 100.
13. Lacan, J., O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio, Jorge
Zahar, 1979.
14. Lacan, J ., O seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da
psicanálise. Rio, Jorge Zahar, 1985. .
15 . Lacan, J., "Au-delà du 'Principe de realité'" (1938), in Écrits, op. cat., p.
83-88.
16. Lacan, J., "L'agressivité en psychanalyse" (1948), idem, p. 101-109 . .Teses
l, ll em.
17. Lacan, J., "Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse"
(1953), idem, p. 237-322. . .
18. Sobre isso, vide os comentários do organizador e tradutor J. Strachey m
Freud, S., "The Aetiology of Hysteria" I Standard Edition, vol. m, op. cil.
19. Jones, E., Le vie et l'oeuvre de Sigmund Freud, vol. I. op. cit., p. 396.
20. •• ... E.-;pero que você queira também dar ouvidos a algumas questões meta-
psicológicas... Eu não aspirei, nos meus anos de juventude, senão aos
conhecimentos filosóficos e ~ou agora no ponto ~ realizar este voto
. passando da medicina à psicologia. Fo i à minha revelia que me t~mei
terapeuta ... " Carta a Aiess, 2.4.1896, in Preud., S., "Lettres à Wilhelm Aaess,
notes et plans" (1887-1902), in La naissance de /Qpsychanalyse. Paris, 1973,
p. 143- 144.
2 i. Freud, S., "Pour introduire le narcissisme", in La lie sexuelle, op. cit., p. 101.
22. Freud, S., "Sur quelques mécanismes névrotiques dans la jalousie, la para-
noia et l'homosexualité" (1922), in Nivrose, psychose et Perversion. Paris,
PUF, 19.73.
23. Freud, S., "The Question of a Weltanschauung", in New lntroductory
Lectures on Psycho-Analysis (1933). Standard Edition. vol. XXD, op. cit.
24. Sobre isso, vide: Freud, S., "The Resistances to Psycho-Analysis" (1926),
idem, vol. XIX "L'inconscient, "cap. I, in Mitapsychologie (1915). Paris,
Gallimard, 1968.
25. Freud, S .• The Jnterpretation of Dreams, cap. I, Standard Edition, vol. IV, op.
cit. · ..
26. "O título que escolhi para o meu livro indica a qual tradição de idiias sobre
0 sonho eu me inclino a seguir. A finalitituk a que me propus i mostrar que
os sonhos são capazes de serem interpretados; e qualquer conlribuição q11e
eu possa realiz.ar para a solução dos problemas tratado!, no último capúu.lo,
se originarão apenas como subpro®to no curso da realização diJ minha
tarefa. A suposição de que os sonhos podem ser interpretados co1oca-m.e
Imediatamente em oposição à teoria predominante dos sonhos c de fato a
todas as teorias do sonho, salvo a de ·schemer; pois 'interpretar" um sonho
148 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

implica atribuir-lhe um 'sentido', isto é, substituí-lo por alguma coisa que se


insere na cadeia de nossos atos mentais, como um elo tendo uma validade e
importância iguais ao resto. Como vimos, as teorias dos sonhos não deixavam
lugar para qualquer questão de interpretá-los, desde que para elas o sonho
não é absolutamente um ato mental, mas um processo somático sinalizando
sua ocorrência por indicações registradas no aparelho psíquico. A atitude do
senso comum sempre foi completamente diferente. E.xerceu o seu díreito
irrevogável di! se C()mportar de mo® inconsistente ; e, embora admitindo
qu.e os sonhos sejam incompruns{veis e absurdos, noo se ousou declarar
que não tinham absolutamente significação. Conduzida po r algum o bscuro
lientimento parece admitir que, apesar de qualquer coisa, cada sonho tem um
sentido, mas um sentido oculto, que os sonhos são designados a ocupar o
lugar de algum outro processo de pensamento, e q ue devemos apenas desfa-
ze r corretamente a sutxstituição de forma a atingir este sentido oculto." Freud,
S ., The ln.terpretarion of Dreams, idem vo l. IV, p. 96. Os grifas são nossos.
27. Idem, cap. D, p. 96-100.
28. Idem, cap. D, p. 106-121.
29. Freud, S., "Ao Outline ofPsycho-Aoalysis" (1938), idem vol. XXIn, p. 157.
30. Freud, S., "Pulsioos et destins des pulsions" (19 16), in Métapsychologie, o p.
cit., p. 18.
31. Freud, S ., .. Esquisse d 'une psychologie cientifique" ( 1895), in IA nalssance
de la psychanalyse, op. cit., p. 336, 376.
32. Freud, S ., Three Essays on the Theory ofSexu.aliry (1905), Standard Editio n,
vol. vn, op. cit., p. 222·224.
33. Freud, S ., " Poor introdui:e le narcissisme", caps. I e D, in IA vie sexuelle, op. cit.
34. Freud. S., "Psychologie des foules et analyse du moi" (1921 ), in Essais de
psychanalyse. Paris, Payot, 1981.
35 . Freud, S., "Le moi et le ça" (1 923), cap. fi, idem.
36. Freud, S., "La disposition ·à la névrose obsessionelle" (1913), in Nivrose,
psychose et perversiort, op. cit., p. 189- 197.
37. Freud, S., "Les théaíes sexuelles infantiles" (1908), in La Yie sexuelle, op. cit.
38. Sobre isso, vide: Birman, l., "lnterpretaçio psicanalítica e intersubjetivida-
. de", in Jornal Brasikiro de Psiquiatria. Rio, 1986, 35(3), p. 133-140.
39. Freua, S., "Le moi et le ça" (1923), cap. 11, in Essair de psychtJIIalyse, op. cit.
· 40. Ide in, ·cap. ID.
41: Freud, S., " Au-delà du principe du plaisir" ( 1920), cap. ll, idem.
42. Sobre isso, vide os textos indicados na o()(a 6 .

A prosa da psicanálise

I. Trabalho apresentado no painel "Psicanálise e sua interte xtualidade", no


contexto dó VIll Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise e do I Fórum
NOTAS 149

Brasileiro de Psicanálise, realizado em Belo H orizonte, entre 6 e 8 de


setembro de 1990; publicado na revista Tempo Psicanalítico, n. 25 (Rio,
Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, 1991, p. 47-68).
2. Platão, "Le Politique.. , 285 ab., in Oeu.vres complites, vol. TI . Paris, Gallí-
mard, 1950.
3. Ducrot, 6., Todorov, T., Dicionário enciclopédico das ciências da lingua-
gem . São Paulo, Perspe<:tiva, 1988, p. 267.
4. Ibidem.
5. Crystal, D., Dicionário de lingiUstica ejoliltíca. Rio, Jorge Zahar, 1988, p.
254.
6 . Ibidem.
7. A.u erbach, E., Mim~sis. A representação da realitl.o& nnlittrlllura ocidental
(1946). São Paulo, Perspectiva, 1971.
8 . Sobre isso, vide: Uvi· Strauss, C., "Linguagem e parentesco", in Antropo-
logia estrutural (caps. U a V). Rio, Tempo Brasileiro, 1989, 3. ed.; Lacan, J.
"Fonction et cb.amp de la parole _et du langage eo psychanalyse" (1953), in
Écrlts. Paris, Seuil, 1966. ·
9. Wittgenstein, L., Philosophical lnvestigarions. Londres, Basil Blackwell and
Mott, 1985.
10 . Koyré, A., .. Do mundo do 'mais ou menos' ao universo da precisão" (1948),
in Galiku e Platoo. Lisboa, Gradiva, s/d.
11. Evidentemente, a leitura de Platão não é dogmática n esse poOIO, pois existe
uma oscilação entre os dois pólos dessa problemática no discurso platónico,
como podemos depreender da comparação superfici~ entre os diálogos
Gorgias e Fedro. Com efeito, no Górgias a retórica é ironizada e desprezada
por Sócrates, mas em Fedro a leitura platónica da retórica sofística é ID.lÚS
nuançada e sutil. De qualquer maneira, há uma polémica entre os comenta-
dores de Platão sobre este tópico, não existindo então consenso na leitura dos
helenistas. Sobre isso, vide: Piarão, ..Gorgias ou De la rhétorique". in
Oeuvres complires, vol . I, op. cit.; "Phedre ou De la beauté .. , in Oeuvres
complires, vol. II, op. cit.; Gutbrie, W.K .C., A History ofGreek Philosophy,
vol IV. Cambridge, Cambridge University Press, 1980, p. 412-417.
12. & o, U., Obra aberta. São Paulo, Perspectiva, 1971.
13 . Freud , S., ''L'analyse avec fm et analyse sans fm" (1937), in Résultats, idies,
problimes, v oi. II. Paris.. PUF, 1985.
14. Sobre isso, vide a nossa leitura deste ensaio freudiano: Birman, J., "Finitude
e interminabilidade do processo psicanalítico". Uma leitura de "Aná lise com
fun e sem fun", de Freud, in Birm.an, J., Nicéas, C.A., Análise com ou sem
fim? Rio, Campus, 1988.
15. Sobre isso, vide: Binnan, J., Freud e a interpretação psicanalltica. Rio,
Relu me· Dumará, 1991.
16. Sobre esse conceito, vide: Fichant, M ., Pécheux. M., Sur l'llisroire des
sciences. Paris Maspero 1969,· Ficbant, M., "L'Épistémologie en Franc e...
' ' e .~ •
in Châtelet, F., Histoire de la philosophie, vol. 8: Le XX stecle, PariS,
Hachette, 1973.
ISO ENSAIOS DE TEORIA PSICANAÜTICA

17. Bastide, R., Soc.iologie er psychanalyse. Paris, PUF, 19.50.


18 . Freud, S., Métapsychologie (1915-1917). Paris, Gatlimard, 1968.
19. Freud, S., "Pulsions et destins des pulsions" (1915), in Mltapsychologie, op.
cit., p. 18.
20. Freud, S., " L'inconscient" (191.5), idem, p. 82.
21 . Ibidem.
22.1bidem.
23. Freud, S., "Pulsions et destins des pulsions", idem, p. 14-1.5.
24. Idem, p. 18.
2.5. Freud, S., "L'inconscient", idem, caps. TI e lll.
26. 1bidem.
27. Freud, S., "Pulsions et destins des pulsions", idem, p. 18.
28. Ibidem
29. Sobre is~, vide: I...évi-Strauss, C., "Introdução à obra de Mareei Mauss", in
Mauss, M., Sociologia e antropologia, vol. 11. São Paulo, Edusp, 1974, As
éstruturas elementares drJ..parenusco (1949). Petrópolis, Vozes, 1976.
30. Lacan, J., "Le séminaire sur 'La lettre volée'", in êcrits, op. ci1.
31. Freud, S., On Aphasia (1891). Nova York, Intemational Universities Pres.-;, 1953.
32. Frcud, S., "Esquisse d'une psychologie scientifiquc" (1895), in La natssance
de la psychanalyse. Paris, PUF, 1973.
33. Freud, S ., "L'inconscienl", cap. VIl, in Métapsychologie, op. cil.
34 . Freud, S., "Pulsions et destins dc:s pulsions " , idem, p. 25 .
35. Hyppolite, J., " Philosophie et p5ychanalyse" (19S9), in Figures dt la pensée
philosophique, vol. I. Paris, PUF, 1971.
36. Freud, S., "The Claims of Psycho-Analyses to Scientifíc Interest" (1913),
Standard Edítion, vol. XJIJ. Londres, Hogarth Press, 1978 .

A ·linguagem na constituição da psicanálise

1. Este ensaio corresponde basicamente à conferência pronunciada em novem-


bro de 1988 no I Colóquio de Teoria Psicanalítica, cuja temática era "Psica·
nálise e linguagem", organizado pelo Mesuado de Teoria PsicanaHtica do
Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro; publicado
na Revista de Psicologia e Psicanálise, n. 2 (Rio, Instituto de Psicologia da
UFRJ, 1991, p. 67-117). Entretanto, para o presente livro algumas passagens
foram desenvolvidas, para que pudéssemos fundamentar com maior rigor a
interpretação que reali.:amos na constituição da psicanálise.
2. Lacan, J. " f onction et champ de la parole et du langage en psychanalyse"
(1953), In Écrits. Paris, Seul!, 1966.
3. Sobre isso, vide: Freud, S., L'interprétation des rlves (1900). P~ris, PUF,
1976; Psychopathologie de la vie quotídíenne (1901). Paris, Payot, 1973;
Jokes and Their Relation to rhe Unconscious (1905), Standard Edition, vol,
VIII. Londres, Hogarth Press, 1978.
NOTAS \Sl

4. Sobre isso, vide: Freud, S., "Le refoulemeut" (191.5), in Mirapsychologie.


Paris, Gallimàrd, 1968; "L'inconscient" (191.5), idem.
.5. Freud, S., "Au-del'a du principe de plaisir" ( 1920), in Essais de psychana-
lyse. Paris, Payot, 198l.
6. Freud, S ., "Le moi et le ça" ( 1923), idem.
7. Po\itzer, G., Critiq11e des fontkments de la psychologie (1928), caps. I e 11.
Paris, PUF, 1968, 3 ed.
8. Idem, introdução.
9. Idem, caps. IV e V.
10. Sobre esta critica, vide: Laplanche, J., Leclaire, S., "L'inconscient: une étude
psychanalytique" (196<l), I, in Ey, H., L 'inconscient. VI Colóquio de Bon-
neval. Paris, Desclée de Brouwer, 1966.
11 . Sobre isso, vide: Lacan, J ., "Au-delà du principe de realité" ( 1936), in Écrits,
op. cit.; "Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je_ telle
qu'elle nous est révélée dans l'expérience psychanalytique'' (1949), 1dem;
"L' agressivité en psychanalyse" ( 194_8), idem. . ..
12. Sobre isso, vide: Lévi-Strauss, C., "muoduçio a obra de Mareei Mauss
(1947), in Mauss, M., Sociologia e an.tropologia, vol. I. São Paulo, Edusp,
1974; Lévi-Strauss, C., As estruturas ekmentares do parentesco (1949).
Petrópolis, Vozes, 1976. . .
13 . Freud, S., Contríbution à la conception cks aphasres (1891). Par1s , PUF,
1983.
14. Freud, S., Psychical (or mental) Treatment (1891 ), Standard Edition. vol.ll,
op. cit.
15. Freud, S ., "Esquisse d'une p5ychologie scientifique" (189.5), in La naissance
de la psychanalyse. Paris, PUF, l973.
16. Strachey, J., "General Preface" , In The Standard Edition of the Complete
Psychological Works of Sigmuod Fteud, vol. I, op. cit.
17. Kris, E., Introdução, ll, In Freud, S., LA naissance de la psychanalyse, op.
cit., p. 16. . .
18. Kuhn, R., Prefácio, in Freud, S., Contri~tion à la conceptrott des aphas1es,
op. cit., p. 1l. . . ..
19. Freud, s., 0n Aphasia. Nova York, lntemauonal Umvers1t1es Press, 1953.
20. Freud, S., LA afasia. Buenos Aires, Nueva Vision, 197.5.
21. Freud, S., A interpretação das ajas ias. São Paulo, Martins _F ontes. 1977 -.
22. K uhn, R., Prefácio, in Freud, S., Contribution à kl conceprrott des aphasres,
op. cit., p. 5. .. .
23. Dorer, M., "Die bbtorische Grundlagen der Psychoanalyse (1932), cttado
por Kris, E., Introdução, in Freucl, S., LA naissance de la psychanalyse, op.
cit.
24. Binswanger, L., ..Freud et la constitution de la psycbiatrie", in Discou;·s,
parcours et Freud. Paris, Gallimard, 1970, p. 189-190.
25. Sobre isso, vide: Bernfeld, S., "Freud's Earliest Theories aod the S~ho1~ ~~
Helmholtz" (1944), inPsychoanalytic Quartely, 13, 341;:'Freud's Sc1enllflc
Beginnings" ( 1949), in American /mago, 6, n. 3.
152 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

26. Nassif, J., Freud. L 'ínconscíent. Sur les commencements de Ia psychanalyse.


Paris, Galilée, 1977.
27. Martin, J.L., "La question du Iangage chez Freud, de 1891 à 1901", in
L'Evo/ution Psychiatrique. Paris, n. 2, 1984, p. 451-486.
28. Brun, R. ''Sigmund Freud's Ieistungen auf den Gebiet der organ.ischen
Neurologie", citado por Kris, E., Introdução, in Freud, S., La naissance de
la psychanalyse, op. cit., p. 15-16.
29. Goldstein, K., "Ober Aphasíe" (1910), in Forrester, J., Le lmagage au.x
origines de la psychanalyse, cap. I. Paris, Gallim.ard, 1984.
30. Stenge), E., "Diel Bedeutung von Freud's Aphasiestudie filr die Psychoana-
lyse", citado em Kuhn, R., Prefácio, in Freud, S., Contribution d la concep-
tion des aphasies, op. cit., p. 23-24.
31. Jakobson, R., Langage enfantin et aphasie. Paris, Flammarion, 1980.
32. Forrester, J ., Le langage au.x origines de la psychanalyse, cap. I, op. cit.
33. Freud, S., Cocaine Papers. Nova York, New American Library, 1975.
34. Byck, R., "Sigmund Freud and Cocaine", in Freud, S., Cocaine Papers, qp.
cit., p. xvii- xxxix.
35 . Sobre isso, vide: Bc::ttclhei.m, B., Freud and Mans Sou/. Nova Yo rk, Knopf,
1983.
36. Freud, S., "Pulsions et destins des pulsions" (1915), in Métapsychologie.
Paris, Gallimard, 1968, p. 11 ·25.
37.lbidem.
38. Hyppolite, J., "Philosophie et psychanalyse" (1959), in Figures de la pensée
philosophíque, vol. I. Paris, PUF, 1971, p. 406-442.
39. Freud, S., "Pulsions et destíns des pulsions", in Métapsychologie, op. cit.
40. Carta a W. Fliess, 2.5.1891, in Frcud, S., "Lettres à Wílhelm Fliess, notes et
plans" (1887-1902), in La naissance de la psychanalyse, op. cit., p. 56. O
grifo é nosso.
41. Sobre isso, vide: Freud, S., "Report of My Studies in Paris.and Berlin"
(1 886), Standard Edition, vol. I, op. cit.; "Preface to the Ttanslation of
Charcot's Lectures on the Diseases ofthe Nervous System" {1886), idem;
"Charcot" (1893), idem, vol.lll; "Hysteria" (1888), idem, vol. I; "Preface
to the Translation of Bernheim's Suggestion" (1888-1889), idem; "Preface
to the Second Edition of Bemheim's Suggestion" (1896), idem; "Review of
August Forel's Hypnotism .. (1889), idem; "Hypnosis" (1891), idem.
42. Freud, S., Contribuition à la conception des aphasies, cit., p. 61-62, 81-83.
43. Freud, S., Breuer, J., Études sur l'hystirie (1895). Paris, PUF; 1971.
44. Carta a W. Fliess, 21.5.1894, in Freud, S., "Lettres à Wilheilm Fliess, notes
et plans" (1887-1902), in La naissance de la psychanalyse, op., p. 76. O grifo
é nosso.
45. Freud, S., "Aphasie (Manuel de Villaret)" (1888), in Contribution à la
concepríon des aphasies, op. cit., p. 41-45.
46. Freud, S., "La paralysie cérébrale infantile", tópico 1O, Afasia ( 1897), idem,
p. 39·41.
47. Freud, S., ''Aphasie (Manuel de Villaret)", idem, p. 42.
NOTAS 153

48. Ibidem.
49.1bidem.
50. Ibidem.
51. Ibidem.
52. Freud, S., Contríbution à la conception des aphasies, op. cit.
53. Idem, p. 51.
54. Idem, p. 51·83.
55. Idem, p. 83-93.
56. Forrester, J., Le langage au.x origines de lo psychanalyse, op. cit., cap.l, p.
57-58.
57. Cassirer, E., La philosophie des formes symboliques (1953), vol. I (Le
Jangage), cap. I. Paris, Minuit, 1972.
58. Forrester, J. Le langage au.x origines de la psychanalyse, op. cit., p. 57.
59.lbidem.
60.1bidem.
61. Be rgson, H., Matiere et mérmoire (1896). Paris, Félix Alcan, 1932.
62. Broca, P., "Remarques sur te siege de la faculté du langage articulé, suivis
d'une observation d' aphémie (perte de la paro le)" (1861), in Hecaen, H.,
Dubo is, J., La naissance de la neuropsychok>gie du Iangage (1825· 1865).
Paris , Flamarion, 1969.
63. Sobre isso, vide: Freud, S., Contribution à lo conception des aphasies, cap.
T, op. cit.; Hecaen, H., Lanteri-Laura, G., Evolution des connaíssances et des
doctrines sur /es /ocalisations cérébra/es, cap. N. Paris, Desclée de Brouwer,
1977.
64. Freud, S., Contribution à la conception des aphasíes, cap. I, op. cit.
65.1bidem.
66. Lanteri-Laura, G., Hisroire de la phrénologie. Paris, PUF, 1970.
67.ldem.
68. Hege I, G. W. F., Précis de I'encyclopédie des sciences philosophiques ( 1817).
Paris, Vrin, 1932; La phénoménologie de l'esprit, vol. I. Paris, Aubier·Mon-
taigne, 1941.
69. Lanteri-Laura, G., Histoire de la phrénologie, op. cit.
70. Freud, S., Contribution à la conception des aphasies. op. cit., p. 103·105.
71. Idem, p. 83-93.
72. Idem, p. 112-116.
73. Idem, p. 117-148.
74. Idem, p. 81·83.
75. Este é o grande equívoco teórico do texto de Verdiglione sobre as afasias de
Freud. Sobre isso, vide: Verdiglione, A., "Matemática do inconsciente.., in
Freud, S., A interpretação das afasias, op. cit.
76. Fret1d, S .• Contribution à la conception des aphasies, op. cit., p. 128.
77. Stuart Mill, J., Logíc, vol.l, cap. 3. Londres, 1843.
78. Stuart Mill, J., An Examination o/ Sir William Hamiltons Philosophie.
Londres, 1865.
79. Freud, S., Contribution à la conception des aphasies, op. cit., p. 128-136.
154 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtriCA

80. Ibidem ..
81. Ibidem.
82. Idem. p. 122- 127.
83.1dem, p, 127-128.
84. Idem, p. 122-127.
85. Idem, p. 127-128.
86. Freud, S ., La scienu tks rlvts, op. cit., p. 222.
87. Freud, S ., .. L'incooscient" ( 1915), cap. VII, in Métapsychoiogie, op. cit.
88.1bidem. ·
89. Jones, S., La vie et l'~uvn de Sigmuttd Freud. vol. I. Paris, PUF, 1970, p. 62.
90. Kuhn, R., Prefácio, in. Freud, S ., Contribution à la conceprion tks apho.sies,
op. cit., p. 2.5-27.
91. Idem, p. 9&-102.
92. Idem, p. 100-101.
93. 1bidem.
94. Idem, p. 103.
95.1dem, p. 111.
96. Nos baseamos, nos comentários que se seguem, na leitura das seguintes
obras~ Forrester, J., L• /anlJD86 aux origines de la psychanalyse, cap. r. o p.
cit.; Na.ssif, J., Freud. L'inconscient, cap. ll, op. cit.; Hecaen, H., Lanteri·
Laura, 0 ., Ewlution des connaissances er des doctrines sur ks lucallsations
cerébraks, cap. rv, 4, op. cil.
97. Sobre isso, vide: Freud, S., "Esquisse d'une psycbologie scientifique"
(1895), 2l parte, in La naissance de la psychanalyse, op. cit.; "L'étiologie
de l'hystérie" (1896), in Névrose, psychose er pervtrsion. Paris, PUF, 1973.
98. Sobre esta interpretaçio brilhante, vide: Forrester, J ., Le langage aux origines
de la psychanalyse, c:ap. I, op. cit.
99. Freud, S., "Les psychonévroses de dUense'' (1894), in Névro,çe, psychos~ et
p~rvtrsion, op. cít.
100. Freud, S., Psychopatok>gle de la vie quoridienne ( 1901). Paris, Payot, 1973.
101. Freud, S., "Esquisse d'une psy cbo1ogie scientifique", in La naissanu de la
psychanalyse, op. cit.
102. Freud, S., L 'inrerprétation des rlvts, op. cit.
103. Freud, S., "Psychotérapie de l'bistérie" (1895), in Freud, S., Breuer, J.,
Études sur l'lrystirie (189.5). Paris, PUF, 1971 .
104. Podemos acompanhar estas formulà'Ções, nos seus titubeios e intuições
iniciais, pela leitura dos textos iniciais de Freud. Sobre isso, vide: Fteud, S.,
"Manuscrit K" (1896), in "Lettres à Wilhelm Fliess, notes et plans" (1887-
1902), in La naissance tk la psychanalyse, p. 129-137, op. cit.; Carta de
Freud a Flíess, 4.5.1896, idem, p. 144-148; Carta de Freud a F1ícss,
6.12.1896, idem, p. 1.53-160; ''Manuscrit L" (1897), idem, p. 174-177;
''Manuscrit M" (1897), Idem, p. 179-182; "Manuscrit N" (1897), idem, p.
183-186.
105. Binswanger, L., "Freud et Ia constituition de la psychiatrie modeme", in
Dlscours, parcours el Freud, op. cit.
NOTAS 155

I 06. Carta a Flíess, 29 .8.1888, in Freud, S. "Lettres à Wilhelm Fliess, notes et


plans", in La naissance de la psychanalyse, op. cit., p. 52-.54. ·
107. Freud, S., Contribution à la conception tks aplrasies, op. cit., p. I 05 .
108. Freud, S., "Esquisse d'une psychologie scientifique", 11 parte, in La nais-
sance tk la psychanalyse, op. cit.
109. Freud, S., •• Some Pointsfor a Comparatiw: Study ofOrganic and Hysterical
Paralysu (1893), in Standard Edition, vol.l, op. cit.
11O. Freud, S., "Pulsions et destios des pulsions" (191.5), in Mitapsychologie, op.
cit.
111. Freud, S., "Esquisse d'une psycbologie scientifique" , La naissance de la
· psychanalyse, op. cit.
112. Freud, S., Psychical (o r mental) treatment (1891), Standard Edition, vol. VII,
op. cit., p. 283. O grifo é nosso.

O sacrifício do corpo e a descoberta da psicanálise

1. Conferência apresentada no Seminário "Sciences soeiales, sexualité et Sida",


organizado pelo Centre de Rechercbes de Médicine, Maladie et Scieoces
Socia1es (CERMES), realizado na Êcole Pratique des Hautes 'àudes en
Sciences Sociales, em Paris, em outubro de 1991 .
2 . Sontag, S., A AIDS e suas metáforas. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
3 . Freud, S ., " La morale sexuelle 'civilisée' etla m.aladie nerveuse des temps
modemes" (1908), in La vie sexuelk. Paris, PUF, 1973.
4. Ver nosso artigo "Sobre a paixão", adiante.
5. Freud , S., Three Essays on the The ory of Suuality ( 190.5), Standard Editíon,
vol. VII. Londres, Hogarth Press, 1978.
6 . Freud, S., "L'inconscient" (1915), in Métapsyclrologle . Paris, Oallimard,
1968.
1. Podemos acompanhar a incursão teórica de Freud nessa problem,tica funda-
dora do campo psicanalítico desde os seus escritos iniciais. Sobre Isso, vide:
Freud, S., On Aphasia (1891), Nova York.lnternacíonal Universities Press,
19.53; Psychical (or mental) treatment (1891), Standard Edition, vol. O, op.
cit.
8 . Freud. S., "Formulations on the Two Principies of Mental Functioning"
(1911), idem. vol. xn.
9 . Freud, S., "Pu1sioos et destins des pulsioos" (1915), in Mitilpsychologie, op. cít.
10. Freud, S., Three Essays on the Theory ofSuuality (1905), Standard Edition,
vol. vn, op. cil.
11. Freud, S., "Manuscrito O", W (1895), in "Lettres A Wilhelm Plíess, notes
et plans" (1887-1902), in La naisstlllce de la psycha~taly:se. Paris, PUF,1973.
12. Sobre isso, vide: Freud, S ., "Qu'il est justífié'de séparer de la neurasthénie
un cen.ain complex.e symp~atique sous le nom de 'Névmse d'angoisse'"
IS6 ENSAIOS DE TEORIA PSlCANAÜflCA

( 1895), in Nlvrose, psychose et perver:sion. Paris. PUF, 1973; "L'heredit~ ~~


l'étiologie des névroses" (1896), idem; "Tbe Psychotherapy of Hystena
( 1895), Standard Edition, vol. li, op. cit.; "Sexuality in the Actiology of tbe
Neuroses" (1898), idem, vol. ID. . .
13. Freud, S., "Pulsions et destins des pulsions" ( l91.S), in Métapsyc/u:Jiogle_, o~. ct~;
14. Freud, S., "Formulations on the Two Principies of Mental Functaomng
( 1911 ), Stándard Edition, vol. XII, op. cit.
t.S. Freud, S ., "Au-delàdu principedeplaisir" (1920),inEssaisck psychanalyse.
Paris, Gallimard, 1981. .. .
16. Freud, S., "Le probleme éoonomique du masochisme (1924), m Névrose,
psychose et perversion, op. cit. . .
11. Foucault, M ., Naissan~ de la clinique. Une archéologte du regard médtcal.
Paris, PUF, 1963.
18. Foucault, M., Histoire de la folie à l'clge classique. Pa.ri~ Gallim~d, 19?2.
19. Birman, J., Freud e a experiência psicanalitica. A constttutção da pstcanáhse.
Rio, Taurus-Timbre, 1989.
20. Ver nosso ensaio "Sobre a paiüo", adiante.
21. Freud, S.," Les fantasmes bystériques et leur relation ala bisexualité" ( 1908),
in Névrost, psychose et perversion, op. cit.
22. Sobre isso, vide: Freud, S., "Les psychonévroses de défense .. (1894), idem.
23. Freud, S., "Nouvellesremarquessur les psychonévrosesde défense" (1 896),
idem.
24. Freud, S ., "L"étiologie de I'hystérie" ( 1896), in Névrose, psychose t:l perver-
sion, op. cit. .
25. Freud S. L'interprétatlon des réves (1900). Pans, PUF, 1976.
26. Sobre'is~. vide: Birman, J., ''Fantasma, verdade e realidade", in Cadernos
de Psícanálise, n. Vill. Rio, SPCRJ, 1987. ..
27. Freud, S., Three Essays on the Theory of Sexuality ( 1905), Standard Edtllon,
vol. VII, op. cit. .
28. Freud,S., "Pulsions et destinsdes pulsions" (191S) , in Mitapsychologu,op.
cit.
29. Freud, S., Three Essays on the Theory of Sexuality, Standard Edition, vol.
VIl, op. cit. . •
30. Krafft-Ebing, R., Psychopatia sexualis. Étude médtco légale à 1 usage des
médecins e1 des juristes. Paris, Payot, 1958.
31. Morei, B.A., Traiti des digenérescenses psychiques, intellec!ut!les et m~ra­
les de l'espice humaine et des causes qui produisent ces vanltes maladives.
Paris, J. B. Bailliere, 1857.
32. Foucault, M., Histoire de lafolie à l'dge classique, op. cit.
33. Sobre isso, vide: Birman, J., "O negro rio discurso psiquiátrico.. , in Cathoeiro
e liberdade. Rio, Universidade do Estailo do Rio de Janeiro, 1989.
34. Freud, S., Three Essays on the Theory of Sexuality, l 1 ensaio, Standard
Edition, vol. VII, op. cit.
35. Ibidem.
36. Freud, S., "Le fétichisme", in Névros~~ psychose ~t ~rversion, op. çit.
NOTAS 1$7

37. Freud, S., •• A u-delà du principe de plaisir '' ( 1920), in Essais de Psychana-
lyse, op. cit.
38. A psicanálise pós-freudiana e a psiquiatria moderna retomaram as mesmas
teses teóricas e morais, presentes na psiquiatria do século XIX e da teoria da
degeneração, que foram sistematicamente criticadas, pelo discurso freucliano
na aurora do século XX. Sobre isso, vide: Lanteri-Laura, O., Lecture des
perversions. Histoire de leur appropriation médicale, caps. IV e V. Paris,
Masson, 1979.
39. Freud, S., Malaise dans la civilisation (1930). Paris, PUF, 1971.

Sobre a paixão

1. Trabalho apresentado no IV Encontro de Estudos Populacionais realizado


em Águas de São Pedro (São Paulo), em outubro de 1984, no grupo de
trabalho sobre "Sexualidade e reprodução", dirigido pelos antropólo-
gos Maria Andréia Loyola e Peter Fry; publicado na Revista de Psico-
logia e Psicanálise, n. I (Rio, Instituto de Psicologia da UFRJ, 1989,
p. 13-28). .
2. Freud, S., lntroduction à la psychanalyse (1916-1917), cap. XXlll. Paris,
Payot, 1976.
3. Freud, S., "Remémoratioo, répétition et élaboration" (1914), in La technique
· psychanalytique. Paris, PUF, 1972, pp. 113-114.
4. Rosenfeld, H.A., Os estados psicóticos (1965), Rio, Zahar, 1968.
5. Freud, S., ..Observation sur l'amour de transfert .. (l91.S), in La technique
psychanalytique, op. cit., p. 116-130.
6. Sobre iSS9, vide: Freud, S., "De la psychothérapie" (190.S), i<Iem, p. 10-14;
" Conseils aux médicins sur !e traitement psycbanalytique" ( 1912), idem, p.
61-71; "Le début du traítement" (1913), idem, p. 80-104; "La dynamique
du transfert" (1912), idem, p. 50·60.
7. Freud, S., "Deuil et mélancolíe" (1917), in Métapsychowgie. Paris, Galli-
maro, 1968; p. 152-.15.5.
8. Freud, S., "Remémoration, répétition et élaboration" (1914), in La technique
psychanalytique, op. cit.
9. Sobre isso, vide o nosso trabalho: Birman, J., "Repensando Freud e à
constituição da clínica psicanalítica", in Tempo Brasileiro, n. 70. Rio, 1982,
p. 40-96.
10. Freud, S., Breuer, J., "Les mécanismes psychiques des phénomenes hystéri-
ques" (1893), in Études sur l'hystérie (1895). Paris, PUF, 1971.
11. Sobre isso, vide: Freud, S., "Les psychonévroses de défense" (1894), in
Névrose, psychose et perversion. Paris, PUF, 1973; O "L'étiologie de l'hys-
térie" ( 1896), idem; "Nouvelles remarques sur les psychonévroses de défen-
se" (1896), idem; Freud, S., Breuer, J., Études su.r l'hystérie, op. cit.
I.S8 ENSAIOS DE TEORIA PSJCANALITICA

12. Esquirol, J.E.D., .. De la folie", in Des maladies inentales, vo!. I. Paris, J.B.
Bai lliere, 18 38.
13. Foucault, M., Histoire de lafolie d l't1ge classique. Paris, Gallimard, 1972,
3 1 parte, caps. m e IV.
14. Como Freud aftrmara, de maneira análoga, ao considerar os efeitos do
processo analítico sobre o sofrimento psíquico: " ... transformar sua miséria
histérica numa infelicidade banal. Com um psiquismo sadio vocês serão mais
capazes de lutar contra esta última". Freud, S., "Psychothérapie de rhysté-
rie", in Études sur l'hystirie, op.cit., p. 247.
15. Sobre isso, vide: Freud, S., "La dynam.íque du transferi" (1912), in La
technique psychanalytique, op. cit.; "Remémoration, répétition et élabo-
. ration'' (1914), idem; "Observations sur l'amour de transfen" (1915),
idem.
16. Freud, S., "Lemoietleça"(1923), cap. m, in &sais de psychanalyse. Paris,
Payot, 1981.
17. Sobre isso, vide: Lacan. J., "Au-delà du 'príncipe de realité"' (1936), in
Écrits. Paris, Seuil, 1966, p. 79-80; "L'agressívité en psychanalyse" (1948),
idem, p. 101-124.
18. Freud, S., ''Pour intrÓduire le narcissisme'' (1914), caps. I e II, in La vie
sexuelle. Paris. PUF, 1973.
19. Freud, S., "Le moi et le ça" (1923), op. cit., cap. ll, p. 23'7-239.
20. Lacan,J., "Le stade dumiroírcomme fonnateurde la fonctiondu Je"(1949),
in Écrits, op. cit.
21. Sobre o conceito de pulsão, vide: Freud, S., "Pulsioos et destins de pulsions"
(1915), in Mirapsychologie, op. cit., p. 18-20.
22. Freud, S., Jnhibition, symptcJme et angoisse ( 1926), caps.IX e X, Paris, PUF,
1973.
23. Freud, S., ''Le moi elle ça" (1923), in Essais tk psychanalyse, op. cit.
24. Freud, S., "Au-delà du principe de plaisir" (1920), idem.
25. Freud, S., ''Le moi et Je ça", cap. IV, idem.

Pulsão e intersubjetividade na interpretação psicanalítica

I. Conferência realizada no XIV Colóquio de Pilosofta do Centro de Lógica e


Epistemologia da Unicamp, sobre "Os fundamentos da psicanálise e da
psicologia'', em novembro de 1984; publicada em Cadernos tk História e
Filosofia da Cii'ncia, n . .8 (Campinas, Centro de Lógica, Epistemologia e
História da Ciência, 1985, p. lJ.-27).
2. Freud, S .~ ..Deuil et mélancolie" (1917), in Mitapsychologie. Paris, Galli-
mard, 1968, p. 152-153.
3. Poucault, M., Histoiretk lafolle à l'dge classique. Paris, Oallimard, 1972,
1' e 21 panes.
NOTAS 159

4. freud, S., "A seventeenth-century demonological neurosis" (1923). Stan-


dard Edition, vol. XIX. Londres, Hogarth Press, 1978, p. 72.
S. Freud, S ., The lnterpreration of Dreams (1900), caps. I e 11, idem, vol.
IV.
6 . Birman, J., A psiquiatria como discurso da moralidade. Rio, Graal, 197R,
cap. VI.
7. Foucault, M., Hisroire de lafolie à l'áge classique, op. cit., 3' parte.
8. Leuret, F., Du traitement moral de lafolie. Paris, J.B. Baillíere, 1840.
9. Sobre iSso, vide: Freud, S., "Les psychonévroses de défense" ( 1894), in
Névrose, psychose et perversion. Paris, PUF, 1973; "Qu'il est justifié de
séparer de la neurasthénie un certain cornplexe symptomatique sous le nom
de 'Névrose d'angoisse"' (1895), idem; "Obsessions et phobies" {1895),
idem; .. L'hérédité et l'étiologie des nêvroses" (1896), idem; "Nouvelles
remarques sur les psychonévroses de défense •· ( t 896), idem; "L'étiologie de
1·hystérie" (1896), idem; Freud, S., Breuer, J., Études sur l'hystérie ( 1895).
Paris, PUF, 1971.
1O. Sobre essa articulação, vide: Birman, J ., "Repensando Frcud e a constituição
da clínica psicanalítica", in Tempo Brasileiro, n. 70. Rio, 1982, p. 40-96.
11 . Freud, S., The lnterpretation of Dreams ( 1900), cap. VII, Standard Edition,
op. cit., vol. V.
12. "Tentei expor, oeste volume, a interpretação dos sonhos; e, fazendo isso, não
fui além do campo de interesse da neuropatologia. Pois a investigação
psicológica mostra que o snnho é o primeiro tempo de uma serie de fenõme·
nos psíquicos anormais da qual os tennos posteriores, corno as fobias
histéricas, as obsessões e os delírios, devem interessar aos médicos por
motivos práticos. Como será visto em seguida, os sonhos não podem preten-
der esta importância prática; mas, por outro lado, o seu valor teórico como
paradigma é proporcionalmente maior. Aquele que não consegue explicar a
origem das imagens dos sonhos pode esperar em vão para compreender as
fobias, as ob&:ssões e os delírios, ou para exercer sobre elas uma influência
terapêutica.·· Freud, S ., The Jnterpretation o/ Dreams ( 1900), prefácio à 1!
edição, idem, vol. IV, p. xxiii.
13. Freud, S ., The Psychopathology o/ Everydo.y Life (190 1), idem, voLVI.
14. Freud, S., Jokes and their Relation to the Unconscious ( 1905}, idem, voL
Vlll.
15. Freud, S., •• Le moi et le ça" ( 1923), cap. V, in Esso.is de psyi:ho.nalyse. Paris,
Payot, 1981.
16. Freud, S., "Lettres à Wilhelm Fliess, notes et plans" (18R7- l902), in La
naissance de la psychanalyse. Paris, PUF, 1973, p. 207-208, 271-272.
17. Freud, S., Breuer, J., Études sur l'hystérie, cap. II, I, op. cit.
18. Freud, S., Jung, C.G., Correspondance, vol. Il. Paris, Gallimard, 1975, p.
43-44, 95- 96.
19 . Freud, S., Psycho-Analytic Notes on an Autobiographical Account of a Case
o/Paranola (Dementia paranoltks) (1911), Standard Edition, vo l. XXII, op.
cit., p. 43.
160 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

20. Idem , p. 7 8.
2 1. Sobre isso, vide: Freud. S., ..Obsessions et phobies" (1 895), in Névrose,
psychose et ~rversion, op. cil., p. 40; Notes upon a Case of Obsessional
Neurosis (1909), Standard Edition. vo l. X. op. cit .. p. 175-176; " Oeuil et
mélancolie'' (1917), in Métapsychoú:Jgie, op. cit., p. 152-154; '.'Construc·
tions in AoaJysis" (1937), Standard Edition. vol. XXW, op. cit., p. 267-268.
22. Freud. S., Notes upon a Case ofObsessional Neurruis (1909), idem, vo l. X,
p. 233-236.
23. Freud, S ., .. Au-delà du principe de piais ir" ( 1920), in Essais de psychanalyse,
o p. cit.
24. Freud. S., The lltlerpretation of Dreams, cap. Vll, Standaro Edition, vol. V,
op. cit.; ' ' L'inconscieot" (1915), cap. VI, in Mltapsychologie, op. cit.
25. Freud, S., " L'incooscient", cap. VII, idem.
26 . Freud, S.,~ Future ofan llliLsion (1921), Standard Editicn, vol. XXI, op. cit.
27. Freud, S., "The Questioo of a Weltanscbauung ", in New lntrodl.lctory Lec-
turts on Psycho-Analysis (1933), idem, vol. XXII.
28. Sobre isso, v ide os comentáriós do o rganizador e tradutor J. Strachey, in
Freud, S ., "The Aetiology of Hysteria", idem, vol. UI.
29 . Jooes, 0 ., lA vie etl 'oeuvre dt SigmiUid Freud, vol. I. Paris, PUF, 1970, p.
396.
30. Carta de Freud a Fliess, 2 .4.1896, in Freud, S., "Lettres à Wilhelm Aiess,
notes et plans" (1887-1902), in La nai,uance de la psychanalyse, op. cit., p.
143-144.
31 . Freud. S., "Tbe Prehistory of A.nalitic Technique" (1920), Staodaro Editio n,
vol. xvn, op. cit.
32. Polítzer, 0., Critique des fondements de la psycho~gie (1928). Paris, P UF,
1968, cap. I.
33. Altbusser, L., " Freud et Lacan" , I, in Positions. Paris, Maspero, 1965 .
34. Freud, S ., "Delusions and Dreams in Jensen's Oradiva" (1907), Standard
Edition, vol. IX, op. cit.
35. Freud, S ., 17re Interpretalion o/ Dreams, cap. I, idem, voi.IV.
3ó . Idem, cap. n, p. 96-99.
37 . Idem, p. 97.
38. Laplancbe, J ., "lnterpréter [avec] Freud", in L'Are, n. 34: Freud. A ix-en· Pro·
ve.oce, 1968 , p. 38.
39. Sobre i.s8o, vide: Birman, J., " Sobre a c orrespondência de Freud com o pastor
Pfister", parte O, in Religião e Sociedade, n. 1 1/2. Rio, Campus. 1984, p.
32-37.
40. Sobre isso, vide os comentários pertinentes de Foucault sobre a hermen~utica
de Fteud, onde este participa. junto a Marx e Nietzsche, da constitulçio de
uma forma moderna de interpretação. Foucault, M., "Nietz.sche, Freud,
Marx" , in Nietl.fche , Cahiers de Roya umont, Pbilosophie VI. Paris, Minuit,
1967, p. 189· 190.
41 . Freud. S ., 17re lnterpretation of Dreams, in Standatd Edititm, vol. V, op. cit.,
p . <(98-50 L.
NOTAS 161

42. Fteud, S., "Pulsions et destins des pul.s.ions" (1915), in Mitapsychologie, op.
cit., p. 18.
43. Sobre alguns dos pressupost05 teóricos do conc eito de pulsão, v ide: Freud,
S ., "Pulsions et destins de pulsio ns", idem, p . 11-25 .
44 . Freud, S., OnAphasia (1891). Nova York, lntt11ült10ííííl Uni.versities PrtSS. 1953.
45. Freud, S ., Psychical (or mental) treatment (1891), Standard Edition, vol. Vll,
op. ci~.
46. Freud, S., New /ntrodllctory Lectures on Psychõ-Analysis (1933), conferên-
cia,xxxo. idem, vol. xxn, p. 95.
47. Laplanche, J., Pontalis, J .8 ., Vocabulaire de la psychanalyse. Paris, PUF,
1913, 4 ed., p. 412-413.
48. C omo fica representado na tradução de Strachey para a Standard Edition,
onde Trieb ~ traduzido por inslinto.
49. Freud, S., "L.inconscient" (1915), in Métapsychologie, op. cit., p. 82.
50. Freud, S., "Esquisse d 'une psych ologie scientifique" ( 1895), in La naissance
de la psychanalyse, op. c it., p. 3 36, 37ó.
S1. Freud, S ., Jnhibition, symptôme et angoísse ( 1926). Paris, PUF, 1973, caps.
IX eX.
52 . Fre ud, S., "Les théories sexueUes infantiles" ( 1908), in La vi e sexuelle. Paris,
PUF, 1973.

. Sujeito, estrutura e arcaico na metapsicologiafreudiana

1. Este texto é o desenvolvimento de uma apresentação oral realizada na


Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1987;
publicado em J. Birman (org.), Percursos na história da psicanálise (Rio,
Taurus-Timbre, 1988, p. 228-261 ). Mantivem05 aqui a apresentação em sua
quase to talidade, acrescentando contudo as referências bibliográficas indis·
pensáYeis para tomar mais consistente, do ponto de vista acadêmico, a
interpre tação que realizam05 desse escrito de Freud.
2. Apesar de conhecermos também a tradução brasileira desse escrito de Freud.
utilizaremos como fonte de referência, neste ensaio, o texto da edição
francesa . Isso por que foi nessa edição que lemos inicialmente o trabalho de
Freud sendo ela, por isso mesmo, mais familiar para o manuseio. Além disso,
também porque nos parece uma cradução mais rigorosa. Sobre essas diferen-
tes edições, vide: Freud, S., J.ile d 'enstmble des nlvroses dt transjert. Un
essai mltapsychologique. Paris. Oallimard, 1986; Neuroses de trQI&Sjerin-
cia: uma s{ltlese. Rio, Imago, 1987 .
3. Grubrich·Simitis, 1., "Note liminaire" in Freud, S., Vue d'ensemble des
nivroses de transftrt, op. clt., p. 12- 13. ·
4. Freud. S., "Lettres à Wílhelm Pliess, notes et plans" (1887-1902), in La
naissance de lapsychanalyse. Paris, PUF,1973, p. 143-144.
162 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtfiCA

5. Freud, S., "L'inconscienL" (1915), in Mitapsychologie. Paris. Gallimatd,


1968.
6. Freud, S., "A Seventeenth-Century Demonological Neurosi.s" (1922), Stan·
dard Edition, vol. XIX. Londres, Hogarth Press, 1978, p. 72.
7. Freud, S., Analysis Terminabk and Inrerminable (1937), idem, vol. XXID,
p. 225.
8. Sobre essa problemática, vide: Binnan, J., " Interpretação psicanalítica e
intersubjetividade" , in Cadernos de História e Filosofia da Ciinc:ia, n. 8.
Campinas, 1985, p. 13-27; " O objeto da psicanálise e a pesquisa", in Tempo
Psicanalítico, vol. IX, n. 2. Rio, 1986, p. 66-79; .. Fantasma, verdade e
realidade", in Cadunos de Psicanálise, n. 8. Rio, Sociedade de Psicanálise
da Cidade do Rio de Janeiro., 1987, p. 8-15.
9. Grubrich· Simitis, I., " Métapsychologie et métabiologie", in Freud, S., Vue
d 'ensemble des névroses de rransfert, op. cit., p. 7-114.
10. Freud, S., Métapsychowgie, op. cit.
11. Strachey, J., io Tbe Standard Edition of the Complete Psychological Works
of Sigmund Freud, vo l. XIV, op. cit., p. 105-107.
12. Jones, E., La vie et l'oeuvre de Sigmund Freud, voi.IJ. Paris, PUF, 1972, p.
197-199.
13. Idem, p. 198.
14. Freud, S., Vue d 'ensemble des névroses de transfert, op. cit., p. 29-30. O grifo
é nosso.
15. Sobre a recorr~ncia da noção de " especulação" no discurso freudiano, no
mesmo sentido em que se apresenta no ensaio "A noção de conjunto das
neuroses de transfertncia ··,vide: Freud, S., " Au-delà du príncipe de plaisir"
(1920), cap. IV, in E.ssais de psychanalyse. Paris. Payot, 1981 , p. 65, 66.
16. Freud, S., l-ile d 'ensemble des nlvroses ck rransfrn, op. cit., p. 19.
17. Ibidem.
18 . Sobre isso, vide: Hartmann, H., Essays on Ego Psychology. Nova Yodc,
International Universities Press, 1976; Psicowgia do ego e o problema da
adaptaçoo . Rio, Civilizaçio Brasileira, 1958; Hartmann, H., Kris, E., Lo-
wensteio, R.M., Papers on Psychoanalytic Psychowgy. Nova York. Intema-
tiooal Universilies Press, 1964.
19. Freud. S., " l..e moi et le ça·• (1923), cap. fi e m, in &sais de psychanalyse,
op. cil.
20. Sobre isso, vide: Lacan, J., ''l..e stade du miroir comme fonnateur de la
fonction du Je" (1949),ln Écrits. Paris. Seuil, 1966; O seminário, livro 1:
Os escritos técnicos de Freud. Rio, Jctge Zabar, 1979; O seminário, livro 2:
O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio, Jorge Zahar, 1985.
21. So bre isso, vide: Binnan, J., "Demanda ps iqui,trica e saber psicanalíti·
co", in J:igueira, S. (coord.), Sociedade e doença mental. Rio, Campus,
1978; Enfermidade e ÚJitlcura~ Rio, Campus, 1980; "Reperu;ando Freud e a
constituição da cHnica psicanalítica", io Tempo Brasileiro, n. 70, Rio, 1982.
22. Freud, S ., Jung, C.G., Cornspondonce (1906-1914), vol. I. Paris, Gallimard,
197.5 .
NOTAS 163

23. Jung, C.G., "The Psycbology of Dementia Praeco x" (1976), in The Psycho-
genesis and Mental Disease, Tbe Collected Works of C.G. Jung, vol. 3.
Londres, Routledge & Kegan Paul, 197 4.
24 . Freud, S., ''Rémemoration, répét ition et élaboration" (1914), in La technique
psychanalytique. Paris, PUF, 1972.
25. Freud, S., ~e d'ensemble des nlvroses de transfrrt, op. cit., p. 29.
26.1dem, p, 33-34.
27. Freud, S., Totem and Taboo (1913), Standard Edition, cap. IV, vol. Xll.
Londres, Hogarth Ptess, 1978.
28. Freud, S., ~e d'ensemble des névroses lÜ transfert, op. cit., p. 35-39.
2ci. Idem, p. 39-41. ·
30. Idem, p. 34. O grifo é de Freud.
31. Freud, S., lnhiúition, sympt6me et angoisse (1926), caps. VII-X. Paris, PUF,
1973.
32. Freud, S., Vue d'ensemble des névroses de transfort, op. cit., p. 34-3.5.
33. Sobre isso, vide: Freud, S., "The Psychotherapy o f Hysteria", 1, in Srudies
on Hysteria (1895), Standard Edition, v oi. D, op. cit.; •· Sexuality in the
Aetiology of the Neuroses" (1898), idem, vol. m, p. 267-268; "'L'hérédité
et l'étiologie eles névrases" (1896), io Névrose, psychose er perversion.
Paris, PUF, 1973, p. 47-59.
34. Freud, S., Breuer, J., "On the Psychlcal Mechanism of Hysterical Phenome-
na: Preliminary Comm.unícation" (1893), in Studies on Hysteria (1895),
Standard Edition, vol. D, p. 7.
35. Freud, S., '"Qu ·i) est justifié de séparer de la neurasthénle un cenain complexe
symptomatique sous le nom de "Névrose d'angolsse"' (1895}, in NéiiTWt:,
psychose et perversion, op. cit., p. 15-38.
36. 'Freud, S., Naissance de la clinique. Paris, PUF, 1963.
37. Freud, S., " Manuscrito G", Ill (1 895}, in l..ettres à Wilhelm Fliess., notes et
plans" (1887-1902), in lA naissance lÜ la psychanalyse, op. cit., p . 93-95.
38. Freud, S., .. Some Points for a Comparative Study of Organic and Hysterical
Motor Paralyses" (1893), Standard Edition, vol. I, op. cit., p. 168- 172.
39. Freud. S., " Les psychonévros,es de défense" (1894), in Nivrose, psychose et
perversion, op. cit.
40. Freud, S., "Nouvelles remarques sur le psycbonévroses de défense" (1896),
idem.
4 1. Sobre isoo, vide: Freud, S., "Qu'i1 est justifié de separer de la neurasthénie
un certaine complexe symptomatique sous le nom de 'Névrose d' angoisse'"
(1895), idem, p. 35-38; "The Psychotherapy of Hysteria", 1, in Studies on
Hysteria (1895), Standard Edition, op. cit., p . 255-267.
42. Freud, S., "Pulsions et destins des pulsions" (1915), in Mitapsychowgie, op.
cit., p. 18.
43. Sobre isso, vide: Freud, S., "Le refoulement" (1915), idem; "L'inconscient"
(191.5), idem; "Pulsions et destios des pulsions" (1915), idem.
44. Freud, S., "Pour introduire !e narcissi.sme" (1914), in La vie sexuelle. Paris,
PUF, 1973, p. 89-91.
164 . ENSAIOS DE TEORIA PSICANALITICA

45. SQbre isso, vide: Freud, S., "Au-delà du príncipe de plaisir" {1920), in Essais
de psychanalyse, op. cit.; "Le moi et le ça" (1923), idem.
46. Freud, S ., "Névrose et psych05e" (1924), in Névrose, psycho~ et perversion,
op. cit.; " La pene de la realitédans lanévroseet dans lapsychose" (1924}, idem.
47. Abraham tematizou essa diferença estrutural, considerando o lugar do objeto
e as fases de fixação da libido, nesse contexto histórico. Sobre isso, vide:
Abraham, K., "Esquisse d'une histoire de développemeot de la libido basée
sur la psychanalyse des troubles mentaux" ( 1924), in Dévewppemem de la
libidc, Oeuvres completes, vol.ll. Paris, Payot, 1978.
48. Freud, S., lntroduction à la psychanalyse (1915-1916). Paris, Payot, 1976.
49. Freud, S., Vue d'ensemble des névroses de transfert, op. cit., p. 31.
50. Idem, p. 31-32.
51. Idem, p. 32.
52. Ibidem.
53. Idem, p. 33.
54. Idem, p. 33-38.
55. Idem, p. 39.
56. Idem, p. 39· 42.
57. Freud, S., "Pour introduire le narcissisme" ( 1919), fi, in La vie sexuelle, op. cit.
58. Freud, S., Totem and Taboo (1913), cap. IV, Standard Edition, vol. XID, op.
cit.
59. Freud, S., Psycho-Analytic Notes on an Autobiographical Account of a Case
of Paranoia (Dementia paranoides) (1911), Standard Edition, vol. XD, op.
cit.
60. Grubrich-Simitis, I., .. Métapsychologie et métabiologie", in Freud, S., Vue
d'ensemble des névroses de transfert, op. cit., p. 97-114.
61 . Freud, S., " Pulsions et destill5 des pulsioos" ( L915), in Métapsychologie, op.
cit., p. 18 .
62. Grubrich-Simitis, I., "Métapyschologie et métabiologie.. , in Freud, S., Vue
d'ensemble des névroses de rransferr, op. cil., p. 97-114.
63. Ferenczi, S., "Thalassa, essai sur la théorie de la génitalité" (1924), in
Psychanalyse, Oeuvres completes, tomo ITJ. Paris, Payot, 1974.
64. Freud, S., "Sandót Ferenczi" {1933), Standard Edition, vol. Xll, op. cit., p. 228.
65 . Freud, S.," Esquisse d'une psychologie scieotifique" (1895), in La nalssance
de la psychanalyse, op. cit.
66 . Sobre isso, vide: Freud, S., On Aphasia (1891). Nova York, Iotemational
Uoiversities Press, 1953._
67. Freud, S., " Lettres à Wilhelm Fliess, notes et plans" (1887-1902), in La
naissance de lu psyclranalyse, op. cit.
68. Jones, F..., l.a vie et l'oeuvre de Sigmund Fre1•d, vot. 3, op. cil.
69. Mannon!, O ., "L'analyse originelle", in Clefs pour /'imaginalre ou l'autre
scene.Paris, S~uil, 1969.
70. Frcud, S., Vue d'etrsemb/e çles névroses de transfert, op. cit., p. 29-30.
71. Freud, S., ·• Au-delàdu principcde plaisir" (1920), in Essaisde psyclranalyse,
op. cit., p. 65 .
NOTAS 16S

72. Freud, S., ~e d'e11Semb/L des ntvroses fk transfort, op. cit., p. 38-9.
73. Grubrich-Simitis, 1., ..Métapsycbologie et métabiologie", in Freud, S ., Vue
d 'ensemb/L des ·névroses de transfert, op. cit., p. 97-114.
74. SQbre isso, vide: Lacoste, P., ..Destins de la transmissioo.., in Freud, S., lile
d 'ensemble des névroses de transftrt, op. cit., p. 166-168.
75. Freud, S ., ••Lettres à Wilhelm Fliess. notes et plaos'' (1867-1902), in La
naiS.Jance de la psychanalyse, op. cit., p. 190.
76. Freud, S ., .. Esquisse d 'une psychologie scientifique" (1895), in La naissance
de la psychanalyse, op. cit., p. 336-376.
77. Freud, S., Three Essays on the Theory of Suuality ( 1905), Standard Edition,
vol. VD, op. cit., p. 222-224.
78. SQbre isso, vide: Laplanche, J., Vie et mort en psychanalyse. Paris, Flamma-
rion, 1970.
79. Freud, S., Totem and Taboo (1913), cap. IV. Standard Edition, vol. Xll, op.
cit.
80. Freud, s .. Moses and Monotheism: Three E.ssays (1939), idem, vol. XXID.
81. Freud, S., ''Communicatíoo d ' un cas de paranoia en contradiction avec la
théorie psychaoalytique.. ( 1915), inNivrose, psychose et penoersion, op. cít.,
p. 215-216.
82. Laplanche, J., Pootalis, J.-B., Fantasia originária. fantasias das origens,
origens da fantasia. Rio, Joll!e Zabar, 1988.

Entre o inconsciente e a pu/são

L Este ensaio foi publicado em Cadunos de Psicanálise, ano .xm, o. 7 (Rio,


Círculo Psicaoalítico do Rio de Janeiro, 19.91, p. 27-35).
2. Freud, S., .. L'inconscieot" (1915), in Métapsychologie. Paris, Gallimard,
1968.
3. Freud, S., "Le moi et le ça" (1923), in Essais de psychanalyse. Paris, Payot,
1984.
4. Sobre isso, vide: Freud, S., "Caractere et érotisme anal" ( 1908), in Nivrose,
psychose ,, perversíon. Paris, PUF, 1973; .. La disposition à la névrose
obsessioonelle" (1913), idem.
5. Freud, S., Trois essais sur la thlorie de la sexualiti ( 1905). Paris, Gallimard,
1962.
6 . Freud, S., lnhibition, symptcJme et angoi.sse ( 1926). Paris, PUF, 1973.
7. Freud, S., "Quelques cooséquences psycruques de la différence anatomlque
entre tessexes.. (l92S), in La vle sexuelle. Paris, PUF, 1969; "Sur la sexuallté
féminioe" (1931), idem.
8 . Sobre isso, vide: Birman, J., "Freud e os destinos da psicanálise". A critica
freudiana no cinqüentenário de sua morte, in Birman, J., Damião, M.M.
(coords.), Psicanálise: oficio impossível?. Rio, Campus, 1991.
166 ENSAIOS DE TEORIA PSICANALtTICA

9 . Sobre isso, vide um dos ensaios mais brilhantes sobre essa questão: Deleuze,
G., "A quoi tec<:onait-on le structuralisme", in Chatelet, F., Histoire (Ú la
Phílosophie, vol. 8: Le XXe siêcle. Paris, Hachette, 1973.
10. Sobre isso, vide: Uvi-Strauss, C., Antropologia estrutural (1958), caps. Il a
V e XV. Rio, Tempo Brasileiro, 1989, 3 ed.
11. Uvi-Strauss, C., As estruturas elementares do parentesco ( 1949). Petrópolis,
Vozes, 1976.
12. Sobre isso, vide: Bastide, R. (coord.), Usos e sentidos do termo ''estrutura"
nas ciincias humanas e sociais. São Paulo, Herder, 1971; Viet, J., Métodos
estruturalistas em cilncias sociais. Rio, Tempo Brasileiro, 1967.
13. Lacan, J., "Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse"
(1953), in Écrits. Paris, Seuil, 19&>.
14. Idem.
15. ldem.
16. Sobre isso, vide: Lacan, J., •• Au-delà du 'príncipe de realité"' {1936), in
Écrits, op. cit.; "Le stade du miroit comme formateur de la fonction de Je
teiJe qu'elle nous esa tévé)ée dans l 'expérience psychanalytique" (1949),
!dem; "L'agressivité en p5ychanalyse" (1948), idem.
17. Sobre isso, vide: Lagache, D., "La psychanalyse et la structure de la
petsonalité", in La Psychanalyse, n. 6. Paris, PUF, 1961; "Estrutura em
psicologia", in Bastide, R., Usos e sentidos do termo "estrutura" nas
ciências humanas e sociais, op. cit.; "Estrutura em psicopatologia", idem;
"Estrutura em psicanálise", idem.
18. Lacan, J., "Remarques sur Je rapport de Daniel Lagache: Psycbanalyse et
structure de la personalité", in Écrits, op. cit.
19. Canguilhem, G., "L'objet de l'histoire des scie.nces ". in Étucks d 'hlstoire et
(Ú philosophie de la science. Paris, Vrin, 1968 .
20. Altbusser, L., "Freud et Lacan", in Positions. Paris, Ed. Sociales, 1976.
2l. Rlcoeur, P., De l'interprétalion. Essais sur Freud. Paris, Seuil, 196.5.
22. Lacan, J., O seminário, livro 1: Os quatro conceitos fundamentais da psica·
nálise, caps.II-V. Rio, Jol'ge Zahar, 1979; "Position de l'incooscient" ( 1964),
in Écrits, op. cit.
23. Lacan, J., O seminário, livro 1, caps. X-XV, op. cit.
24. 1bidem.
2S. Sobre isso, vide: Freud, S., L 'interprétatlon (Ús rives, cap. VD. Paris, PUF,
1976; "L'inconscleot" (1915), in Métapsychologie, op. cit.
26. Freud, S., "Pulsioos et destins des pulsioos" (1915), idem.
27. Idem.
28. Freud, S., "Le moi etle ça" (1923), in Essais (Ú psychanalyse, op. cit.
29. Freud, S., "Au·delà du principe de plaisit" (1920), idem.
30. Freud, S., A11alysis Terminabk and lnterml.nable ( 1937), Standard Edition,
vol. XXlli. Londres, Hogarth Press, 1978.
31 . Freud, S., "Constructions in Analysis" (1937), idem.
legado freudiano, mas seus ar&umentos desen-
ENSAIOS DE TEORIA volvem-se criticamente, baseados em uma
PSICANALtnCA leitura rigorosa dos textos de Freud, susten-
Parte 1 - metapsicologia, pulsão, tando assim a legitimidade das escolhas que o
linguagem. inconsciente e sexualidade autor realiza ao longo de toda a obra.

Ensaios de uoria psicanaUrica, pane 1, é o J OEL BIR.\!AN é ~canalista; doutor em Fito-


volume de abertura da obra Pe11S4mento sofia pela Universidade de São Paulo; profes-
freudiano, planejada em cinco volumes com o sor tirular da Universidade Federal do Rio de
objetivo de sustencar e desenvolver uma leitu- Janeiro, lecionando no mestrado de Teoria
ra da psicanálise nos registros teórico, clinico Psicanalítica do lostiruto de Psicologia; e
e ético, fundada no discurso freudiano. É im- professor adjunto da Universidade do Estado
portante destacar o caráter totallzante deste do Rio de Janeiro, onde leciona e é
trabalho e a articulação entre os diferentes pesquisador no mestrado e no doutorado em
conceitos utilizados nos diversos volumes. Saúde Coletiva do Instituto de Medicina
Social. Colaborador assíduo de várias
A concepção da metapsicolopa oo discurso publicações especializadas, é autor de A
freudiano e seus conceitos fundamentais são o psiqlliatria como discurso dJJ morolidode
tema dos dois primeiros volumes. O campo (1978), Enfrrmídiuie e lollcura (1980) e A
teórico para o diálogo possível da psicanálise constituição da psicanálise, obra dividida em
com outros saberes e práticas sociais, em que
dois volumes: Fmui e a expuilncia psica-
se discut.e a cientificldade do discurso freudi-
nalúica (1989) e Freud e a interpretação
ano e suas relações com a filosofia, a política,
psicanalitica (1991). ·
a ética e a religiio; a leitura do alo psicanalí-
tico e seus pressupostos; e, fmalmente, o es-
tudo de algumas estruturas clínicas no discur-
so freudiano são abordados, respectivamente,
nos volumes m, [V e v.
Este primeiro volume enfeixa oi10 textos
teóricos que procuram definir a fundamenta-
ção do -campo teórico da pesquisa em psica-
nálise, na qual se articulam de maneira íntima
a metapsicologia e a clínica psicanalítica.
Nesta perspectiva, o campo psicanalítico se
caracteriza pela tensão entre os pólos da pul-
são e da linguagem que, pela imantação que
produzem na constituição do sujeito, funcio-
nam como condição da possibilidade para se
pensar na fonnação dos conceitos freudianos
de sexualidade e de inconsciente.
O trabalho de Joel Binnan não se pretende
exaustivo, nem no sentido de percorrer a tota-
lidade dos temas, nem tampouco no de acrçcli-
Capa: Oustavo Meyer
tar que esta seja a única leitura possível do
PENSAMENTO FREUDIANO

I. ENSAIOS DE TEORIA PSICANALÍTICA


Parte I: meta psicologia, pulsão, linguagem,
inconsciente c sexualidade

ll. ENSAIOS DE TEORIA PSICANALÍTICA


Parte 2: narcisismo, sublimação, fantasma, ato e tempo

UI. A PSICANÁLISE E AS CrêNCIAS HUMANAS


O campo interdisciplinar

IV. O ATO PSICANALÍTICO

V. AS ES1RUTURAS CLiNICAS
PENSAMENTO FREUDIANO
JOEL BIRMAN .

Planejado em cinco volumes, Pensamento freudiano


tem por objetivo sustentar e desenvolver uma leitura da
psicanálise tendo como referência básica o discurso
freudiano.
Os volumes I e li - Ensaios de teoria psicanalítica.
partes 1 e 2 - abordam a concepção da metapsico-
Jogia e seus conceitos fundamentais: metapsicologia,
pulsão, linguagem, inconsciente e sexualidade, na parte
1; narcisismo, sublimação, fantasma, ato e tempo, na
parte 2.
No volume III - A psicanálise e as ciências humanas
- o campo teórico para o diálogo possível da psica-
nálise com outros saberes e práticas sociais é anali-
sado, discutindo-se a cientificidade do discurso freu-
diano e suas relações no campo interdisciplinar da filo-
sofia, política, ética e religião.
Os volumes IV - O ato psicanalitico - e V - As
estruturas clínicas - efetuam, respectivamente, uma
· leitura do ato psicanalítico e seus pressupostos, e o
estudo de algumas estruturas clínicas presentes no
discurso freudiano.

lJZ·EI Jorge Zahar Editor