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Reaprendendo a ver o mundo (2008)

Dessas andanças que fiz pela vida e contra todas as pretensões de um decadente,
aprendi a minha primeira verdade. A mais repugnante talvez e mãe de todos os erros e
acertos que, no entanto, só pode reputar a verdade ou mentira dos meus ditos e escritos a
mim mesmo. Isso porque somente nós somos mestres de nós mesmos. Isso pode soar
trivial e com um hálito insular de pessoas na mais absoluta clausura, não obstante é minha
primeira verdade: só se é mestre de si mesmo.

Talvez com isso possa estar apregoando a mais absoluta miséria na relação entre
mestre-discípulo, mas é que com isso talvez esteja revogando todo erro ou acerto à minha
solidão.1 O estar diante de uma teoria complexa sem nenhum academicismo como defesa
e assim fazendo colher apenas o fruto carnudo e saboroso que valha não só como um
pretexto para dissertar, mas como um saboroso fruto de polpa doce do qual retiramos
nosso prazer e regozijo. 2

Sem pretensões assaz corriqueira como a de entrar no círculo dos filósofos PhD,
mas com a intenção de colher do mel do conhecimento sua devida transformação. De
metamorfosear o olhar que antes agindo como mero órgão contemplador se assume em
suas formas judicativas e fazendo isso passa então não mais a dar assentimento àquilo
que é óbvio e apenas opinião infundada.

Três frases resumem provisoriamente o motivo, a consequência e disposição e


finalmente a finalidade do filosofar respectivamente. A primeira nasce de uma pergunta
propedêutica ao ato de filosofar e se dá pragmaticamente na questão: “para quê filosofar?”
Endereçada ao filósofo Merleau-Ponty. Cuja resposta é embaraçosa pois coloca o ato de
filosofar em seu aspecto motivacional e utilitário mesmo que, em última instância, o senso
comum acredite que a filosofia não tenha utilidade alguma. “Consta que Merleau-Ponty
deu título ao texto após a conferência inaugural, num ambiente em que circulava, irônica,
a sempiterna pergunta ‘para que filósofos?’ a qual, com filosófica ironia, ele respondera:
‘para não dar assentimento às coisas sem considerandos’” (Marilena Chauí - Experiência
do Pensamento, pág.13) Eis então a resposta sobre o motivo e a utilidade da Filosofia. É
para seguir o caminho da verdade ou Alethéia e distanciar-se do caminho da opinião ou

1
ver solidão em introdução ao pensar
2
ver prefácio de genealogia da moral onde Nietzsche faz o elogio à atividade de pensador em que diz
somos colheitores do mais puro mel do espírito e “as colmeias do nosso conhecimento”

1
doxa que devemos filosofar, tendo esse ato como a extrema urgência de uma época como
a nossa em que tempo é dinheiro e nossa ociosidade está privada de liberdade. Vive-se
como a massa, alheio a tudo, mas aparentemente ocupado da mais importante atividade:
o laborioso pensar. Esquece-se o ser das coisas, pois tudo o que há não é senão o
expediente para se tornar um instrumento cada vez mais afinado. Para fazer música?
Antes fosse, mas não. Se é um instrumento de trabalho que paga com o seu exprimir
energético a mais valia do patrão. E assim alheia-se ao mundo como que sugado por ele
e com as vistas opacas para o que é mais importante: o ato de pensar. Na universidade
também encontramos o obstáculo para o conhecimento. Suas exigências são antes
questões de técnica e método que de criatividade e originalidade. Exige-se da memória
reprodutiva e é preciso saber as doutrinas de cor e sobrecarregar a mente de palavras e
blocos de pensamento muito precisos e específicos com conceitos que jamais entenderá
profundamente por não se ter tempo para meditar sobre eles e a hora escoa na
memorização perdendo assim a reflexão que é essencial para o bom aprendizado. Antes
não se domesticar tanto que perder a origem perceptiva do mundo da vida que vem antes
mesmo da cabeça bem-feita da ciência. A verdadeira compreensão vai de si a si mesmo.
Explore os tesouros de sua própria mente e não enxerte pensamentos como quem quer
erudição a qualquer custo. Shopenhauer salientava para isso. Servir dos filósofos como
um instrumento para pensar e não um imperativo que oprime e turva o pensamento. Fazer
bom uso da teoria. Certo é que se aprende a pensar corretamente com esses pensamentos
notáveis, mas um filósofo é perigoso como quando Nietzsche critica a piedade pela vida
através de sua autoconservação. A vida é o valor máximo da humanidade em geral ainda
que não para o herói. E não é possível para todos tratar a filosofia como rainha de todas
as ciências nem torná-la contextualizada com seu todo senão relativamente e quando se
faz os conceitos enquanto conceitos múmias não conseguimos pensar nossa época, nossas
vidas nem a relação entre teoria e aprendizado. Retomando a expressão de Merleau-Ponty
não podemos dar assentimento às coisas que só de longe entendemos, mas sim considerar
lenta e pesadamente os conceitos que os filósofos nos dão ainda que isso signifique ter
uma inteligência lenta, mas não é isso. Apenas considero que o ruminar é uma
característica de seres pensantes. Entender por inteiro, em bloco, e não com palavras
mágicas isso faz parte de uma metodologia filosófica inscrita até mesmo para exigências
secundaristas na França. As palavras mágicas ao serem pronunciadas dariam aparência
de se estar pensando e não somente repetindo automaticamente e sem reflexão. Mas isso
faz parte da técnica e quando se familiariza com tal linguagem ela se torna fluente. “Para

2
não dar assentimento às coisas sem considerandos” serve o filósofo. Lá onde ninguém
viu problema, onde tudo parecia óbvio e transparente para o senso comum, o filósofo
chega e antepõe-se à banalidade começando a perscrutar a essência das coisas. Pergunta
pelo ser, pelo logos e pela realidade de tudo o que há numa síntese totalizante que busca
dar conta de tudo o que é possível conhecer. Uma tarefa infinita. Mas não seria um intento
muito presunçoso como o de Hegel compreender a totalidade quando as ciências se gabam
de sua especificidade em relação aos objetos a conhecer? O Filósofo querendo abarcar o
todo não estaria fazendo as vezes do generalista que só entende pouco por querer entender
tudo? Não estaria assim sendo superficial ao deixar escapar justamente o essencial, pois
o essencial escapa diz Searle.

É verdade que a ciência estuda o mundo através de recortes arbitrários para uma
finalidade específica e assim fazendo pode conhecer muito de pouco quando o filósofo
quer entender pouco de muito. Mas só o ato de multifacetar a realidade já não seria a
causa de não entender a coisa em suas relações mais importantes?

Diz Bachelard que se estudo o elétron fora da eletrosfera e daí perfaço suas
propriedades, não estaria incorrendo em erro justamente porque o elétron só existe em
relação à eletrosfera? Ou se considero o homem apenas de seu ponto de vista biológico
não estaria desconsiderando a essência do psíquico, do social e do cultural? Levantando
essas questões já estamos a meio passo de respondê-las, no entanto não é nosso intento,
pois cabe agora apresentar a segunda frase que me parece essencial para o ato de filosofar
e foi escrita por Merleau-Ponty no prefácio de sua Fenomenologia da percepção:
“Filosofar é reaprender a ver o mundo. ”

Um transbordamento de verdade se vê nessa expressão. Sutileza de negar toda


nossa precipitação em pensar com o senso comum, pois com o ato de pensar o objeto se
torna mais evidente e esclarecido. É o que fazem os filósofos. Ao retirar o véu de Maya
que antes encobria a realidade, pois o sujeito, preso a intuições primeiras e esquemas
mentais correntes não aprendeu a ver o mundo em sua essência.3 Claro que a percepção
vem antes da sofisticação da ciência4 e é com ela que a verdade do mundo nos é dada,

3
os ídolos da tribo, da caverna e do fórum de Bacon. Início de seu tratado sobre o conhecimento. O
Novum Órganon
4
Para Merleau-Ponty em Fenomenologia da Percepção primeiro nos vem a percepção de uma
montanha, um rio, e depois vem a ciência estabelecer novos conhecimentos sobre essas coisas, mas a
percepção é inata e nos vem sendo dada antes mesmo de fazermos ciência do que existe e acontece.

3
mas consideremos o caso dos pré-socráticos: eles inventaram a filosofia ao deixar de lado
a vontade dos deuses e procuram explicações racionais para o que ocorre na terra. Coisas
provindas de opiniões infundadas e mitos e mesmo de cientificismos é o que nos distancia
da presença das coisas que initerruptamente invadem nosso olhar. Estamos sempre
pensando naquilo que de útil podemos retirar das coisas. Se vejo um rio não penso em
seu fluir e na metáfora do tempo que ele representa pois estamos diante dele como o
operário em sua máquina. Logo desejamos um bom banho e assim o rio se exaure na sua
utilidade quando é fonte de inesgotável reflexão. Heráclito disse que não é possível
banhar duas vezes na água de um mesmo rio. Isso porque no momento do segundo banho
não são as mesmas águas nem nós os mesmos sujeitos. O transcorrer do tempo é
representado pelo fluir daquelas águas e somos modificados ao pensar no rio em seu
aspecto puramente físico, mas sim em suas características que transcendem a própria
materialidade do rio rumo à sua significação metafísica. Pois pensamos o rio como o ser
que se abre à transitoriedade do tempo. Impassível, o rio é cortado pela dimensão
temporal e em seu constante movimento, captamos as zebruras que fazem do rio um ser
no tempo.5 O rio, porém, tudo isso ignora, pois ele é Em-si enquanto nós Para-si
caminhando ao mesmo lado do rio em suas margens.6 O homem é o Dasein7, ele é o
próprio problema do ser e do tempo, o tempo está em nós como diz Shopenhauer8 ainda
assim o tempo pode ser visto como uma coisa externa assim como o espaço, pois assim é
visto como constantes matemáticas na lei da relatividade. Para a Filosofia de Kant o
tempo e o espaço são intuições intrínsecas na consciência do sujeito.

O tempo nos faz seres mortais e todo o resto apenas morre ou desaparece nos conta
André Comte-Sponville.9 Ser mortal nesse sentido é ter consciência de que se morre ou
de que se morre, mas os animais vivem no instante como se fossem seres eternos. “Antes
de Kant nós estávamos no tempo depois de Kant o tempo é que está em nós”

Temos uma pré-compreensão do ser antes dele ser dado em fórmulas científicas. É a visão naturalista e
realista da percepção.
55
No prefácio de A Prosa do Mundo de Merleau-Ponty vemos um excerto do livro publicado pela Cosan
Nyfe e vemos ele desenvolver o tema da substância física do fenômeno que se metarmofoseia-se em
realismo, pois o rio, a consciência e a coisa em si se traduzem todas nas zebruras que capto, como um
pintor, nas sombras de um rio. Eu pude olhar para fora. E pude ver as mesmas zebruras na piscina. O
livro como um grande mágico, me mostrava a correspondência entre o intelecto e a coisas. Adequatio
res intelectus Rei.
6
ver isso em introdução ao pensar buzzi em provérbio chinês do rio e os peixes
7
daisen em presença ou ser e tempo onde isso é explicado.
8
mcvr
9
Ver em Apresentação da Filosofia, no vocábulo <morte> de André Comte Sponville. Editora Martins
Fontes.

4
(Shopenhauer).10 Isso porque o tempo é uma intuição que juntamente com o espaço
condiciona toda nossa capacidade de conhecer.11 O em-si12 seria o tempo visto como
constante matemática na lei da relatividade, mas o tempo é Para-si13 enquanto uma
categoria intuitiva esse tempo da física seria plenitude de ser por ser fechado em si mesmo
e sem abertura para o mundo, mas o tempo que está em nós é de uma dimensão do ser
Para-si. Somos mortais porque nos sabemos no tempo. Somos tempo e espaço que
caminha junto ao rio heraclítico.

Com questões semelhantes os pré-socráticos reaprenderam a ver o mundo.14 O


problema era metafísico, pois era o problema da origem de todas as coisas. Antes a origem
era divina e pertencia à cosmogonia dos deuses mitológicos com os pré-socráticos o
problema se tornou cosmológico e por que não dizer metafísico? Onde antes se via a ação
dos deuses e de suas vontades e suas contendas a razão tornou o problema naturalista.15
É a passagem do mito ao logos e com Sócrates do logos ao ethos. A passagem da religião
à sistematização racional e com Sócrates a razão se tornou humana. Podemos ver essa
evolução criadora da filosofia em Bergson quando ele identifica os pré-socráticos como
grandes cientistas e Sócrates como alguém que estagnou o problema para o lado da
moral.16 A physis seria a ciência de ponta da antiguidade e eram físicos que criavam o
atomismo e a matematização com Demócrito e Pitágoras respectivamente. Não eram
modernos com certeza, mas o gérmen estava criado, uma vez que não eram mais deuses
que determinavam o que se passava na terra, mas sim as coisas naturais e racionalmente
descobertas. Aristóteles irá criticá-los posteriormente por terem pensado as coisas
somente quanto a causas materiais. Esse é o legado dos pré-socráticos que ao invés de
nos dar uma cosmogonia nos elevou à cosmologia e com isso passaram, repito do mito
ao logos, da religião à razão, dos deuses à ciência. Na imanência da matéria se encontra
suas próprias razões como Nietzsche dirá que a grande evolução do pensamento pré-

10
mcrv critica a filosofia kantiana
11
crp procurar até secção da crítica ou algo que afirme o mesmo, trabalho de filólogo
12
termo sartreano de o ser e o nada
13
termo sartreano em o ser e o nada
14
“a filosofia é reaprender a ver o mundo” merleau-ponty em fenomenologia da percepção
15
naturalismo ver e também em alguma história da filosofia a passagem do mito a physis e da physis ao
nomos
16
ver curso sobre a filosofia grega e incrementar com um texto que está na pasta preta que explica essa
ideia

5
socrático foi o de nos dar a premissa de que “tudo é uno”. Tudo advém de uma mesma
physis.

Temos sempre a impressão de que para pensar profundamente é necessário o


mergulho nas profundezas do abismo da introspecção17 e do jogo acirrado e que se torna
anedótico em chicanas de filósofos18 e dos conceitos hiperinflacionados19, mas Tales se
fixou no simples. Naquilo que em primeiro lugar nos mostra sua realidade. Viu na água
uma ocasião para transpor explicações mitológicas em naturalismo e mesmo na
modernidade o positivismo das ciências valoriza o naturalismo. Nem toda física, nem
toda ciência, mas boa parte do que se faz hoje em dia é por observação dos efeitos naturais
da matéria mesmo que com instrumentos sofisticados como os da física e da química. O
naturalismo tem suas prédicas empregadas na biologia, pois o organismo, os animais e a
natureza se vai da observação dos corpos e suas funções para a linguagem científica. Ver
e observar, medir e pesar são coisas normais na ciência que Bachelard contesta em nome
de uma linguagem complexa e formas de pensar inovadoras.20 Ainda assim a ciência do
século XIX e mesmo suas práticas atuais estão incluídas na indução baconiana tendo nos
fatos verificados o cânone e sua razão de ser que é chegar a padrões e regularidades após
ter experimentado diversos eventos.

A filosofia está sempre exigindo o reaprender a ver o mundo, pois de épocas em


épocas mudam-se os paradigmas assim como o exemplo do atomismo que possui diversos
modelos que foram se aperfeiçoando desde a antiguidade. Se na antiguidade tivemos o
Ser como principal conceito filosófico, na Idade Média Deus, na Idade Moderna o
conhecimento, na contemporaneidade é a linguagem que se tornou o principal conceito.
Não nos iludimos mais com o método cartesiano que pretendia ir do simples ao complexo.
Toda física inicia-se no complexo da linguagem elaborada e não com a simples
experimentação. Mesmo a experimentação é algo elaborado e não a simples medição de
suas variáveis; faz parte de uma racionalidade pressuposta. Podemos pensar nisso como
o progresso que apregoa o positivismo de Comte. Toda ciência poderia passar tendo como
modelo as ciências naturais inclusive a psicologia com o comportamentalismo, mas vimos
surgir a fenomenologia como um novo paradigma para as ciências do espírito ao ponto

17
caricatura de Sócrates no início de as nuvens de Aristófanes
18
ver chicanas de filósofos em metodologia filosófica
19
quem trata de hiperinflação de conceitos é Humberto Eco ou em a estrutura ausente ou apocalípticos
e integrados
20
mais uma vez vemos isso em estudos de Bachelard

6
de buscar uma mathesis universalis em pleno século XX. Isso de querer ter as ciências
naturais como modelo positivista máximo é um engano. A mathesis universalis da
psicologia não seria a matematização, mas as essências e biologizar e fisicalizar a
psicologia seria uma outra vertente para as ciências do espírito, entretanto, sem a
propriedade de formar a partir da fenomenologia algo como a Gestalt em psicologia. Na
química e na física, entretanto a matemática é a pedra-de-toque da ciência num
intrincamento tal que “o grande livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos”
como dizia Galileu quando “subtrair é ionizar” (Bachelard).

Quando vemos a matemática dessa forma lembramos da concepção da Idade


Clássica onde a matemática seria na árvore do conhecimento o tronco do qual deriva as
diversas ciências. Mas na verdade estamos numa época de saberes regionalizados onde
cada ciência reporta a uma lógica própria. Pensemos no título de Bachelard: racionalismos
regionais e precavemo-nos contra os reducionismos que existem no caso de propor as
ciências naturais como solo para todas as ciências possíveis e saberes das ciências
humanas. Fisicalismos em termos de psicologia. Reaprender a ver o mundo, portanto
sempre é prescrito pela filosofia no momento em que a ciência cristalizada encontra
obstáculos epistemológicos que pode fazê-la sucumbir diante de questões velhas que não
evoluem para novas formas de pensar.

Sabemos que há ciências como a física relativista de Einstein que não adere à
matemática euclidiana. No entanto Euclides continua a ser o paradigma para a física
newtoniana. Há sempre deslocamentos e Foucault chama de episteme esse solo de onde
a ciência engendra seus conceitos e teorias a partir de saberes de certa época determinando
mesmo o olhar e forma de pensar que se tem em determinados períodos da História como
a Idade Clássica.

Sem dúvida cada época tem o pensamento que merece e se na Idade Média as
pessoas morriam em nome de uma ignorância geral em termos modernos acredito que as
taxas de crueldade só mudaram de circunstâncias, pois o capitalismo e cientificismo, o
tecnicismo e o aparato tecnológico tem suas desvantagens e nos encontramos diante do
fenômeno utilitário e pragmático. Saber é Poder dizia Bacon e assim o ar contemplativo
dos cumes (imaginem que antes da modernidade haviam campos abertos por todo globo)

7
cede lugar ao que funciona e pode ser material de utilização prática 21. No que o espaço
cede à segunda natureza do homem. Numa época em que a sociedade era extremamente
masculinizada devido à guerra de todos contra todos. Ao nos perguntarmos quais foram
as maiores criações do homem dizemos o foguete aeroespacial, a roda, o fogo e o avião.
Não dizemos o conceito de belo de Platão à Kant passando por Plotino, ou a crítica da
razão pura, Ulisses de Joyce etc. Por que se somos seres especialmente de linguagem?
Porque nada disso influencia a vida do rebanho, da manada que infelizmente está atrás
somente das conquistas materiais e que não pode ou não quer privilegiar o espírito. O
efeito de massa torna pobre nossa época em termos de música, literatura, artes e
conhecimento. Nunca se soube tanto, mas nunca esse saber foi tanto massificado e de
baixo nível cultural. É a grande vitória do mass media tornando esses simulacros de
realidade como Hollywood em critérios de avaliação. Identifica-se com o herói e tem a
vida manipulada pela moral e onirismo das situações protagonistas. A verdade foi
substituída pela verossimilhança. O real se tornou aparência e aquilo que serve como
entretenimento passa como paradigma mimético para uma moral de lógica
mercadológica.

Os ídolos são a grande enfermidade da modernidade, pois eles são tomados por
bons simplesmente pela sua aparição na grande indústria cultural. É o caso das
celebridades vistas como deuses de carne e osso22 ou na Índia em que a vaca é sagrada e
isso seria um deus de carne e osso, mas não humano. Mais uma vez nessa situação a
Filosofia requer que reaprendamos a ver o mundo para poder mudá-lo, pois o primeiro
passo para a mudança é uma mudança de mentalidade23. Em Marx assevera-se que a

21
O pragmatismo vem de uma filosofia americana e ganha seus marcos decisivos com Dewey, James
Stuart Mill e Bentham. Este último foi criador do panótico e sua tarefa foi esquadrinhar todo o espaço e
serializar todo o tempo. Temos a crítica de Foucault em Vigiar e Punir sobre o panótico de Bentham. Os
utilitaristas vêm o bem como o bem para o maior número de pessoas e não medem esforços para que
isso seja alcançado como as máquinas panóticas de Bentham e a democracia nos EUA que certamente
têm no senso comum de um Paine a forma de se ideologizar a população a fim de que haja uma
democracia dentro de seu país. O pragmatismo e utilitarismo é uma forma de pedagogia para a
utilização de macacos, pois despreza o individualismo e o anarquismo aristocrático à la Nietzsche. Só o
que importa é a maioria e com esta se está pensando no cidadão médio. O individualista e romântico
que vá às favas para esse tipo de pensamento, mas é necessário aprofundar o tema para se conhecer
bem o utilitarismo. Em uma leitura rápida pode-se ler a História da filosofia de Bertrand Russel que abre
um capitulo para resenhar sobre o utilitarismo e alguns de seus predecessores.
22
Jesus Cristo pode ser visto como deus de carne e osso que pela crucificação engendra o canibalismo
simbólico do pão (carne) e vinho (sangue), pois do sacrifício do unigênito na cruz o corpo se
transubstancia em Espírito Transcedentus rescussitado.
23
Em mudança de mentalidade, reforma do entendimento, busca de um método, tudo o que importa é
saber se mudamos nosso intelecto ou nossa própria forma de conceber as coisas através da conversão a
uma espiritualidade. Espiritualidade para ateus é um livro de Allain de Botton que deve ser procurado

8
consciência em nada tem força, pois é uma superestrutura determinada pela infraestrutura
material, ou seja, os átomos em sua constituição organizacional-corpórea-industrial
privilegia uma ideologia e outros efeitos alienantes da passagem da natureza para a
segunda natureza (cultura) que não passa de efeitos acidentais e não essenciais da
construção da realidade. Explicar o mais complexo pelo mais simples indo da matéria ao
espírito. Se é que o Universo e sua reprodução mecânica em modos de produção pode ser
visto como simples e não uma delimitação dos elementos materiais para fins cuja causa
final é a economia. Contra esse materialismo subjetivista que aceita o primado da matéria
surge o cânone da razão pura, pois assim acredita-se que no atomismo antigo
apreendemos a realidade não em si mesma, mas subjetivamente como efeito da matéria
no espírito e toda matéria24 não é senão efeito da matéria no espírito diria Berkeley.25
Entretanto somos os próprios criadores na História dessa organização ou ordem pré-
estabelecida substituindo o primeiro motor imóvel do mundo em modo de produção na
História. O antípoda disso é o tempo cíclico aristotélico de que nos relata Haroldo Barbuy.

caso o indivíduo seja ateu, mas como é muito discutido em A Hermenêutica do Sujeito há várias formas
de espiritualidade como a greco-romana, a psicanálise e mesmo o marxismo. O que não dizer então de
filósofos como Montaigne e Nietszche. Devemos pensar que a tomada de consciência é uma mudança
do ser da pessoa para um filósofo como Hegel que inicia a Fenomenologia do Espírito justamente na
descrição da Consciência. Ela vive na relação entre o imediato da certeza sensível e o mediado pela
razão. Devemos distinguir todas essas formas de espiritualidade, pois é Hegel quem nos diz ser
necessário voltar-se ao eu. E eu é consciência. Filósofos como Espinosa que possuem uma filosofia
prática que considera a consciência como o lugar da ilusão deve ser visto de forma diferente que essa
tradição que se centraliza enquanto ética e estética da existência no culto ao EU.
24
Ver Curso sobre a filosofia grega de Bergson em que ao explicar Demócrito, portanto ver o subtítulo
de Demócrito, nos é dito que de alguma forma há uma deformação da coisa pela subjetividade.
Captamos portanto somente as imagens sensíveis das coisas sendo elas em sua estrutura interna, tese
de qualquer atomismo, é algo sui generis comparado ao que dela percebemos.[procurar citação no
devido livro]
25
Aqui reparar na tese de Berkeley que segundo Shopenhauer é “nem um objeto sem sujeito.” O que
nos coloca para pensar sobre o percipi e o perciperi que já no início de o Ser e o Nada é definido em
duas notas de rodapé e explicado ao longo do texto. Deveria eu me aprofundar nesse assunto, mas já de
antemão devemos perceber qual a tese de Berkeley que nos conduz nesse ensaio. Como eu digo efeito
da matéria no espírito ou como diz Berkeley Ser é ser percebido ou o ser só existe enquanto matéria
porque descobrimos seus atributos de forma meramente mental. Devemos pensar mais sobre esse
assunto, pois o desenvolvimento do diálogo de Berkeley é difícil de se perceber sem material de apoio e
me apoio não em um livro mesmo, pois Shopenhauer diz que Berkeley é subjetivista como Kant. Ao
ponto de designarem sua filosofia como imaterialismo. O que nos condiz aqui é saber em que ponto se
difere e se desenvolve a teoria de Berkeley tão bem apresentada na História da Filosofia de Russel, que
deve ser consultada junto ao texto de Franklin Leopoldo na apostila de teoria do conhecimento do
Waldir. Ir aprofundando os textos e explicando as passagens. É necessário argamassa para se erigir uma
construção bem acabada como é este livro. Digo isso porque não é dando as costas aos manuais de
ontologia que se resolve problemas metafísicos como fez a filosofia analítica, mas sim sendo profundos
descobridores de enigmas e problemas.

9
O aristotelismo que revogaria ao Universo seu realismo em sua ordem natural e imanente.
Pensemos mais sobre isso..

10