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DUVERGER, Maunce.

· "Onumero
' de pa rt'dos"
I (seleção).-289
Os partidos políticos"
Rio de Janeiro: Zahar; Brasília: UnB, 1980 [1951], p. 242 .
14AURICE DUV~RGER
,.

CONSELHO DIRETOR
DA FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASíliA os PAIlfIDOS
Abilio Machado Filho
Amadeu Cury
Aristides Azevedo Pacheco Leão
Isaac Kerstenetzky
POLíTICOS
José Carlos de Almeida Azevedo SEGUNDA EDiÇÃO
José Carlos Vieira de Figueiredo
José E. Mindlin Apresentação
José Vieira de Vasconcelos Walter Costa Porto
Departamento d e C'Ancia
le '. Internacionais
Política e Relações
Reitor: José Carlos de Almeida Azevedo da Universidade de Bras(ha

Tradução
EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Cristiano Monteiro Oiticica
CONSELHO EDITORIAL
Revisão Técnica
Afonso Arinos de Mello Franco Gilberto Velho
Cândido Mendes de Almeida Coordenador do Programa de pôs·Graduação
do Museu Nacional , UFRJ
Carlos Henrique Cardim
Geraldo Severo de Souza Á vila
José Francisco Paes Landim
José Maria Gonçalves de AlmeidaJr.
Octaciano Nogueira
Orlando Luiz de Souza Fragoso Costa
Tércio Sampaio FerrazJr.
Vamireh Chacon de Albuquerque,Nascimento

I~I ZAHAR EDITORES


Walter Costa Pono

S~ Uniw'-sidadede B~flia
Pfesldente: Carlos Henrique Cardim

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Título original:
Les Partis Politiques

Traduzido da sexta edição, publicada em 1967 por


Librairie Armand Colin, de Paris, França

Copyright 1951 by Mil}' Leclerc & Cie. ,


proprietors of Librav.ie ArmanciColin

capa de
ERICO

1980 I
.1
Direitos para a língua portuguesa adquiridos por
ZAHAR EDITORES
C.P. 207 (ZC-OO) Rio
que se reservam a propriedade desta tradução
Impresso no Brasil

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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
I
Duverger, Maurice.
D98 2p Os Partidos Políticos / Maurice Duverger; tradução de Cristianb I'·
Monteiro Oiticica; revisão técnica de Gilberto Velho. _ 2~ ed. _ \
Rio de Janeiro : Zahar; BrasI1ia: Universidade de Brasma, 1980.
(Bibliq.teca de Ciências Sociais) ~;
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Tradução de: Les partis politiques
BibliOgrafia", I
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I. Partidos Políticos I. Título lI. Série


I'
CDD - 329
79-0844 CDU - 329
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O Nl'l}.{ERO oos P ARTlDOS 243

as crises ministeriais. Até alguns ingleses sustentam ess~ pont?,


de vista censurando aos franceses haverem adotado o motor
parlame~tar, esquecendo-lhe de lhe pôr "freio". C.onquanto
mais pr6ximo da verdade que. os p~ece?entes, ele amda vem
a ser muito insuficiente: o Gabmete mgles nunca se serve, pra-
ticamente, da dissolução para pressionar o ~arlamento, a ..fim
de evitar voto de desconfiança ou lhe neutralIzar as consequen-
. cias, pela simples razão de que esse voto é 9u~se sempre im- I,,
CAPfrur.o I
possível, dado que um só partido. tem a malona absoluta. E
eis que aparece em plena luz a diferença .fundamental que se- I,
o NÚMERO DOS PARTIDOS para os dois sistemas: o número dos ~a~hdos. Na !nglaterra,
I

dois partidos apenas partilham, na pratIca, as cadeIras parla-


, .A 0ro~ição do plura~~mo e do partido único caiu no do- mentares, um deles garantindo a totalida~e. do Governo; ~ outro
mImo publico e com facilidade se tende a nisso ver o critério limitando-se a exprimir, livremente, as cntIcas da oposlçao; um
político que distingue os dois mundos, o do Leste e o do Oeste. gabinete homogêneo e forte dispõe d~ .maioria. estáve~ e coe-
E~t~ errado, pois o ~artido único funciona na Espanha, em rente. Na França, a coligação de, vanos r~rtIdos, dlfere~t~s
".a~~s Estados da Ame.rica Latina e em algumas partes do ter- pelos programas e pela clientela, e necessana para. C?~stIt,:ur
nton? ?oS E.s~ados Umdos, ao passo que o pluralismo continua um ministério, o qual se vê paralisado pelas suas dI,:soes m-
a eXIstir,. ofiCIalmente, na Alemanha Oriental e em algumas temas e, bem assim, pela necessidade .de. manter, a mUlto custo,
democracIas populares. N as suas grandes linhas, entretanto a a frágil aliança que lhe define a maIOrIa parlamentar.
~oi.ntidência ve~ a ser exa~a entre regime totalitário e partido
umco, democracIa e pluralismo. Em relação a essa antítese a
oposição do bipartidarismo e do mult.ipartidarismo reveste :vi-
dentemente! menor importância: compreende-se que haja 'sido,
I. - O Dtullismo dos Partidos

durante mUlto tempo, esquecida e que menos ainda se conheça. Nem sempro é fácil distin~ui! ~1r.e_.CLdualim!~.....p....mJJl­
Todavia, não lhe é discutível o caráter fundamental. ti~artidarismo, por causa da e~stenCla de pequenos g~.QLl!P...
la o dos gLl!Udespa1iidos; Nos ~~s Omdos, por exemplo,
. Comparemos o regime da Inglaterra e o da Quarta Repú- existe alguns pigmeus atras dos dOIS gIgant~s .democra~a e re-
blica francesa. Alguns vêem a diferença essencial na forma públicano: Partido Trabalhista, Partido SOCIalista, P~rtIdo dos
do Executivo e opõem o prestígio do monarca britânico à fi- Lavradores Partido Proibicionista, Partido ProgreSSIsta. Em
gura apagada do Presidente francês; esquecem-se de que o che- certos legi~lativos estaduais ou assembléias municipais, acon-
fe de ~stado ~unca representa mais do que papel muito se- teve às vezes um ou outro adquirir grande influência: no Min-
nesdta, por e;emplo, o Partido Agrário (Farm~r-Labor). reduziu
cundáno nos SIstemas parlamentares: o Presidente "preside e
não governa", exatamente da mesma forma que o Rei "reina
e não governa". Outros 'Se impressionam mais com a oposição os democratas à situação de terceiro partIdo relatIvamente
n~ estrutura do Parlamento e atribuem ao bicamerismo inglês fraco; no Wisconsin, o Partido Progressista de La Follette tem
Virtudes que recusam ao monocamerismo francês; deixam-.se obtido, com freqüência, o primeiro lugar, ou o segundo; em
enganar pela aparência, sem ver que a Câmara dos Lordes não Nova York o Partido Trabalhista elegeu cinco membros para
tem ~uitos poderes desde 1911, que a sua influência é quase o Conselhd da Cidade, em 1937, e cinco para o legislativo es-
excluslvam~nte moral e que tende a equiparar-se ao nada, ao tadual. Esses partidos chega~ a obter, muitas vezes, algu.m~s
nosso malsmado Conselho da República. Os mais eruditos cadeiras no Congresso, na Camara dos Representantes pnncI-
ress~lt~m que o Gabinete britânico tem, a qualquer momento, palmente, mas até no Senado (cf. Fig. 32) ~ Entr~tanto, a ?~S­
o dIreito de dissolver os Comuns, ao passo que o Governo proporção evidente entre eles e ,os gra?des partIdos tradlC~o­
francês se acha mais desarmado ante a Assembléia Nacional: nais, bem como o respectivo carater efemero e local, perilllte
a ameaça de dissolução seria o meio fundamental de impedir considerar o sistema norte-americano tipicamente dualista.
244 Os SISTEMAS DE PARTIDOS O NÚMERO nOS PARTIDOS 245

Na Inglaterra, o problema é mais delicado. Não se viu


_ Conservadores 5JJ
publicação do Ministério da Informação francês, em 1945, afir-
Liberais
mar que a Grã-Bretanha (como a França de então) está sujeita soa ••••••••• Trabalhistas
a regime de tripartidarismo? De fato, o partido liberal apóia-
se em antiga e sólida tradição correspondente ainda à opinião 1t50
392
de fração importante do povo britânico. Em 1950, mais de /tOO
2 600 000 eleitores votaram nele; outros, porém, muito mais
numerosos, próximos da sua mentalidade, foram obrigados a
deles desviar-se pelo regime eleitoral. Entre 1918 e 1935, era
impossível falar de bipartidarismo inglês, pois o povo britâ-
nico estava, realmente, dividido entre três grandes partidos.
Falando hoje pode afigurar-se arbitrário, sobretudo se se con- ... :
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sid~!ar regime de multipartidarismo a Bélgica, onde a influên- l ~ :
cia liberal é pouco maior do que na Inglaterra: o sistema elei- .VS5 ~!. i \• !
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toral só pode garantir ao partido uma representação parlamentar
sensivelmente mais forte. Todavia, o caráter bipartidário do
sistema inglês é indubitável, pois devemos elevar-nos acima de
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exame parcial e limitado para perceber as tendências gerais de
um regime. Verifica-se, então, que a Inglaterra conheceu dois !i0

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partidos, através de toda a sua história, até 1906, quando o
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trabalhismo começou a manifestar a sua pujança; que, desde
1918 e,. principalmente,- em 1924, se iniciou o processo de eli- FIG. 24 - A Volta do Duali31no na Grã-Bretanha.
minação do partido liberal, prossegue tendo a reconstituir novo (Os nacionalistas irlandeses foram omitidos entre 1906 e 1918.)
dualismo, parecendo, no momento, a ponto de consumar-se, vis-
to que os liberais estão reduzidos a 1,44% das cadeiras parla- (União. Após a desagregação do Partido Federalist~ ~ um p~­
mentares (Fig. 24). Se compararmos essa evolução à dos lrlodo de confusão o dualismo reapareceu nas elelçoes preSI-
outros países da Commonwealth, ficaremos bastante impres- denciais de 1828, ~om a oposiçâo dos "democ~atas",,,agr~r~dos
sionados com a semelhança geral. Pelo contrário, é nítida a em torno de Jackson, e dos :'nacionais-republica~os , dmgldos
diferença em relação à Bélgica, onde o Partido Liberal, em- por Clay e Adams, que tambem.se c.hamava~ whzgs; com esses
bora fraco, ocupa posição mais ou menos estável desde 1918. vários nomes era o antigo partIdo )effersomano que se perc:,.e-
bia. Naturalmente, a Guerra Civil acarretou &ran?e confusao
OS TIPOS DE DUALISMO. - Ç'onsidera-se, em geral, o bipar- nas posições dos parti?os e da respe~tiva. or~amzaçao, sem mo-
tidarismo fenômeno especificamente anglo-saxão. Essa maneira dificar, contudo, senslvdment~: o bIP.artldansmo, que ;,eapar~­
de ver é apenas aproximada, pois certos países anglo-saxões ceu depois dela, s.ob a forma repubhcanos-de~ocratas.. MUl-
conhecem o multipartidaris'llo, e o dualismo se encontra na tas vezes, no curso da história dos Estados Umdos, se fizeram
Turquia e em algumas nações da América Latina; até alguns tentativas de "terceiro partido"; todas falharam, ou apenas ,en-
Estados da Europa continental evoluem para ele. Dentro do gendraram pequenos partidos, efêmeros e .!ocais. 1 ~~s pals~s
bipartidarismo anglo-saxão, cumpre, nitidamente, distinguir a da Commonwealth brit<1nica, pelo contráno, a oposlçao. tra~l­
América do Norte do Império Britânico. Nos Estados Unidos, cional dos tories e dos whigs, dos conservadores e dos hberals,
o bipartidarismo nunca foi seriamente ameaçado; os partidos atravessou crise profunda no início do sé?ulo XX, qua~do ?
têm evoluído de maneira profunda desde a rivalidade J.clfer- crescimento dos partidos socialistas deu~ongem a um trlpartl-
son-Hi!!1}ilton, rivalidade que exprimia a oposição dos r_epubli-l
canos e dos fe~~'l..~tas, os primeiros defensores do direito dos 1 Cf. principalmente W. B. Hesseltine, The Rise and Fali of Third
estados, os segundos sustentando o crescimento dos poderes da Parties, Washington, 1948.

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246 Os SISTEMAS DE PARnDOS
O NÚMERO DOS PARTIDOS 247
~bri~mo, Pôde-se cogitar ,s~ ~ste último sistema ia ou não es-
a e ecer-~e em forma defmItíva, Entretanto, o bi artidarismo te chegam ao cisma, Um sistema eleitoral engenhoso permite,
acabou triunfando, quer pela eliminação do ar1do hb I 'ãlias,-a-cada facção (sublema) apresentar o seu candidato à
quer pela fusão entre conservadores e liberais p D' era ' Presidência e às altas funções eletivas, atribuindo-se o total obti-
dos Estados Unido " ' Iversament e do pelo conjunto das facções de um mesmo partido (lema)
do" , ,s, velO, PO,IS, a formar-se um "terceiro parti-
d f m,a} o seu eXIt~, consIstiu, precisamente, na circunstância ao candidato mais forte; em 1950, por exempfo, os colorados
e aze-? torna~-se segundo partido", pela elimina ão de um apresentaram três candidatos; o mais favorecido, o Sr. Marti-
d?s partidos eXistentes, Na Austrália e no Canad~ t d ' nez Trueba, foi eleito, porque o total dos votos obtidos por
se restab~lec~u o bipartidarismo: contam-se trê~ g~a~d:~
naotid ele e seus dois concorrentes foi superior ao dos sufrágios daaos
par os na pnmeIra; quatro, no segundo, ao candidato blanco. Mas uma facção do Partido B1anco cin-
diu-se, em 1914, com o nome de "Partido Blanco Independente",
O dualismo inglês e o dualismo americano o õem-se i ual '
mente, quanto à estrutura dos partidos, Na I~glat " g t- possuindo atuahnente muito poucos deputados (menos de 10%).
Na Turquia, o regime do partido único findou-se em 1945, com
repousa nJlm~tralização_,bem_g@!.l~ _mel10s aceJl~~~e:n~ a criação do Partido Democrata pelo Sr. Celal Bayar; as elei-
tre os co~servadores que entre os trabalhistas orém inE' ' _
me?te mais forte do .que no outro lado do Atfântifo~·N-y~ta ções de 1946 foram bipartidárias; mas as pressões da adminis-
Umdos os comitês são 't' d d ' . - ,,' os sta os tração reduziram, consideravelmente, a representação democra-
o "-~'-t-,--,-,---____ rrrl,ll o mepep. entes uns dos outros' ta. Em 1948, produziu-se cisão deste último partido, daí nas-
~it'cap ams e os comitês ,d~s precincts estão ligados aOs co~ cendo o "Partido da Nação", agrupado em volta do velho Ma-
d es dos conda??s; estes ultImos sofrem a autoridade dos lí- rechal Tchakmak, Nas eleições de 1950, o Partido Democrata
~res e ?os comItes do Estado; acima, porém dos estados não obteve uma vitória esmagadora, reunindo 55% dos sufrágios
~~~ 1ír;!~ame~te, cois~ ~Igum~, s~ndo fraquí~simos os poderes expressos e 408 cadeiras contra 39 do Partido Republicano do
s e ~s comItes naCIOnaIS, É impressionante a d'f _ Povo (mas perto de 40% dos sufrágios); o Partido da Nação
rença em relaçao à Grã-Bretanha, onde o centro conserv~ ~ obteve, apenas, um deputado. Atuahnente, a Turquia está
COt~fole das fina~ças do partido e reserva para si o direito de sujeita a um regime dualista.
ra I I~a~ as candIdaruras propostas pelos comitês locais, nos
~O~I~IOS'Eo g~au de centralização varia, sem descer nun~a ao '[ai é a. distribuição geográfica do bipartidarismo. Vê-se
q!le está ausente da Europa continental. No presente momen-
mve os ,sta os ~nidos, Recordemos, enfim, que os artidos
n~rte-amencanos nao repousam em base ideológica o~ socia] to, todavia, dois países tendem bem acentuadamente para ele:
a Alemanha e a Itália. Sob a aparência de multipartidarismo,
a guma; que encerram em si elementos e doutn' b I
t h ' nas a so uta- a luta política circunscreve-se entre duas grandes formações
men e, eterogeneos; que constituem, na essência má q uinas de
c~nqUlsta de postos administrativos e políticos ~ de des'g nitidamente desproporcionais em relação às outras: Partidos
Socialista e Democrata-Cristão na Alemanha; Partidos Comu-
çao dos candidatos nos "pré-escrutínios" que fre" t I na-
t' " A, , , quen es vezes nista e Democrata-Cristão na Itália. A fraqueza do Partido
be~â ~aIS llnportanCIa, ~ue o escrutínio verdadeiro; os partido~ Comunista na primeira, as divisões socialistas e a "colonização"
,nt lllCOS, ~elo contrano, estão mais próximos da no"ão el,ás- do grupo Nenni pelo P,C, na segunda, a importância da direi-
SIca _de~ RªI:!~_p_o)ítico, ... -:>'--~ l
ta nos dois países, engendraram essa situação política bem ex-
b-~a ~mé~ca Latina, é gerahnente perceptível uma tendência pecional em nações que, até então, haviam vivido em regime
ao Ipa:tIdansmo, quase sempre contrariada e deformada elas de partidos múltiplos, antes de cair numa ditadura de partido
re~oluçfes, p~los g~lpes de Estado, pelas manipulações efeito- único, É bastante curioso aproximar esse exemplo da siruação
raIS ,e utas os elas, que caracterizam a vida politica desse turca; certamente, os caracteres da ditadura são profundamente
co~tmente, No, Uruguai, contudo, o dualismo tem-se mantido diversos num e noutro caso, do mesmo modo que ~s circuns-
maIS ou menos mtacto: os dois partidos datam da guerra civil tâncias da sua queda e a situação política anterior, Ainda
de ~835; conservaram os nomes antigos 'Partido C 1 À_ acontece que, em todos esses países, a" supressão do partido
~
Partido Bla
d '
) f d d o oraU(} e
,nco, un a os na cor dos emblemas então adota-
os; mtenormente, dividem-se em facções, mas estas raramen-
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único tem engendrado tendências dualistas: pode-se cogitar em
que medida esse fato decorre do caráter natural do bipartida-
rismo, que será definido mais adiante .

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24S Os SISTEMAS DE PARTIDOS
O NÚMERO DOS PARTIDOS 249
Se se considerar a extensão de dualismo no tempo, depois
de descrevê-la no espaço, verifica-se que três tipos diferentes çães, foi muito tempo freado pelo sufrágio restrito, de mod.o
se têm sucedido desde o século XIX. O sufrágio censitário, que o dualismo ainda se mantinha no Parlamento, qu~ndo tres
e~~meiro lugar, engendrou um bipartidarismo "burguês", partidos funcionavam no país; como o sufrágio era .maIs amp~o,
caracterizado pela oposição dos conservadores e dos liberais, muitas vezes, no planto comunal e local, os candI?~tos. SOCIa-
cuja infra-estrutura social e ideológica era bem variável con- listas eleitos penetravam nas prefeituras e nas mU~Iclpahdad~s,
forme os países, Em geral, tais conservadores apoiavam-se, prin- sem oder entrar nas Câmaras (a não ser em numero mUlto
,cipalmente, na aristocracia e no campesinato, os liberais na pequ~no). A coincidência é, pois, freqüent~ e_ntre o est~b~­
burguesia comercial, industrial e intelectual das cidades. Essa lecimento do sufrágio universal (ou.a amph~ç~o de sufraglO
distinção sumária, no entanto, vem a ser muito aproximada: a r~strito) e o aparecimento dos partIdos SOCIalistas no plano
linha de demarcação prática é muito mais complicada e mati- parlamentar. Na Bélgica, a lei eleitoral .de 1,894. faz entra~ ~a
zada, Em certos países (por exemplo, na Escandinávia), a Câmara 28 socialistas, substituindo o blparti.dans~o, tradlC~o-
aristocracia conservadora estava agmpada nas cidades; por isso, na 1 por u m trI'partidarismo e relegando os liberaIS
d a terceIra
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as tendências liberais se manifestaram, primeiro nos campos; osicão' nos Países Baixos, os primeiros deputa, qs sOCla IS as
mais exatamente, ergueu-se um liberalismo agrário contra um ; ar~ce~ com a aplicação da lei Van Houten (que aum;~ta o
liberalismo urbano mais intelectual e industrial, o que infletiu n1mero dos eleitores de 295 000 para 577_000): ,na Suecla, a
para o tripartidarismo a tendência dualista fundamental. Do lei eleitoral de 1909 duplica a representaçao SOCial-democrata
ponto de vista doutrinário, os conservadores sustentavam a no Riksdag. Alhures (AI~manha, ~n~laterra, França, _Noruega
autoridade, a tradição, a submissão à ordem estabelecidas; os etc. ), como o sufrágio umversal eXIstia antes da eclosao do so-
liberais, individualistas e racionalistas, adeptos das Revoluções cialismo, este pôde desenvolver-se sem choque.
Francesa e Norte-Americana, defendiam idéias de liberdade e O nascimento dos partidos socialistas constitui fenômeno
igualdade que elas haviam lançado no mundo; muitos dentre 's ou menos geral na Europa e nos domínios britânicos, em
eles, porém, mostravam-se tímidos em relação ao sufrágio uni- ~:I do século XIX e princípios do século XX. Para falar a
versal e, sobretudo, às transformações sociais reivindicadas :e:dade, um só dos países em que, anteri0r;nente, fu~ci?navao
pelas classes operárias. Nos países protestantes, o bipartidaris- sistema dualista não conseguiu restabelece-lo: a BelglCa, ,por
mo não se complicava com oposições religiosas, salvo exceções; causa da reforma eleitoral de 1899. ~ todos os ~utros l2.~Ises,
nos países católicos a ligação de fato entre o clero e o regime o bipartidaIisIDQ.JlpenaS-s.ofreu~ p_~~·lOdº-de_eGlips~-maJ.s-ou
feudal dava ao conservador a atitude de partido sustentado menos longo, para vir a renascer sob nova Jorma>-mª"I,Lou~e­
pela Igreja e atirava os liberais para o anticlericalismo: a luta no;-ae acordo com o esquema da luta de classes .n~trma
política transformou-se, às vezes, em luta religio~, muito viva, marxista: oposição de um partido burguês e de um yartIdo ~o­
particularmente, no terreno educaCional (exemplos da França cialista. O primeiro resulta, às vezes, de u~a fusao entre ~s
e da Bélgica).
dois partidos antigos, C~-ªºor e Liberal; e o cas~ da Austra-
Na segunda metade do século XIX, o desenvolvimento do lia e da Nova Zelândia. Em outros países, o PartIdo C?n~er­
radicalismo deu impressão de comprometer esse bipartidaris- vador foi o único a subsistir ante o socialista, se~do e~mma­
mo; tratava-se, porém, a bem dizer, de divisão interna dos li- dos os liberais (Inglaterra); mas não se pro~uzlU. o mverso
berais, cujos elementos moderados viam avultar uma tendência (conservadores eliminados em proveito dos li?eraI~).. Este
de esquerda. Esta permaneceu quase todo o tempo no par- último traço explica-se muito naturalmente: os hberals tmhaI?'
tido, ou reintegrou-o ou se extinguiu; entretanto, separou-se então, aplicado o essencial do seu programa e se .achavam, pOIS,
dos liberais um partido radical durável nos Países Baixos, em confinados em posição conservadora: o apareCImento de um
1891; na Dinamarca, em 1906; na França, a criação do Parti- partido socialista fazia-os perder, natu:almente, p~rte dal~u~
do Radical, em 1901, corresponde a situação diversa, Pelo clientela de esquerda, ao passo que o medo, d~s verme o~
'0 ava outra parte para os conservado~es, a tecmca do ,escrutI-
~i~
contrário, o desenvolvimento do socialismo provocou a altera-
ção geral desse primeiro sistema bipartidário, Em certas na- majoritário (que funcionava, preCIsamente, nos palses em
questão) é, naturalmente, desfavorável ao partido central.

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-rr-
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250 Os SISTEMAS DE PARTIDOS .) NÚMERO DOS PARTIDOS 251

Trata-se mais de um bipartidarismo "conservadores e tra- "centro" o lugar geométrico em que se juntam os moderados
balhistas" que de "conservadores e socialistas". Esse novo dua- das tendências opostas, moderados da direita e moderados da
lismo só se estabeleceu nos países de partidos socialistas de esquerda. Todo centro está dividido contra si mesmo, todo ele
hase sindical, de estrutura indireta, de fraco conteúdo doutriná- se separa em duas metades: centro-esquerda e centro-direita,
no, ~? tendência refonnista e não-revolucionária. O último pois o centro não é mais que o agrupamento artificial da parte
traç? é ess~ncial: o d.ualismo não se pode manter se um dos direita da esquerda e da parte esquerda da direita. O destino
partidos qUIser destrUIr a ordem estabelecida. Pelo menos só do centro é ser esquartejado, sacudido, aniquilado: esquarteja-
p~de manter-se se ~sse partido pennanecer na oposição. Hoje, do, quando uma das suas metades vota na direita, outra na
nao se. fonnula maIS o problema para os partidos socialistas, esquerda; sacudido, quando vota em bloco ora na direita, ora
os quaIS se to~ar.am todos _refonnistas, tanto os partidos dire- na esquerda; aniquilado, quando se abstém. O sonho do centro
tos quanto os mdlretos .. Nao ha~eri~, por exemplo, perigo al- é "realizar a síntese de aspirações contraditórias, mas a sínte-
gum se a Alemanha OCIdental atmglsse esse dualismo C.D.U.- se é, apenas, poder de espírito. A ação é escolha, e a política
S.P.D., a q~e a conduz, visivel~ente, a sua atual evolução. é ação. A história dos centros ilustraria esse raciocínio abs-
Mas a q~esta~ assume ~ova. a~ahdade com o aparecimento de trato: basta acompanhar, por exemplo, a evolução do Partido
u~ tercelr? tipo de blpartidansmo, que, a bem dizer, ainda Radical na Terceira República, a do Partido Socialista ou do
nao se reahz~u em parte alguma, mas já se delineia com nitidez Movimento Republicano Popular na Quarta. Só há centros
em certos pal~es, ?o~o a It~lia: QEtQsição_dQ.:P<rr!!d~ Comunista verdadeiros por superposição dos dualismos, conforme se há
~_?e _~~_ I>"~rtldo oCIdental. A adoção de um escrutínio ma- de ver: o M. R. P. está, politicamente, à direita,. socialmente à
Jontano de um s6 turno precipitá-Ia-ia, sem dúvida; mas esse esquerda, os radicais, economicamente à direita, misticamente
resultado seria catastrófico. O primeiro cuidado do Partido à esquerda etc. (cf. Fig. 28, p. 267).
Comuni~ta no po~er .seria, evidentemente, suprimir o rival; por
consegumte, o pnmeIro dever do rival no poder seria tomar a A noção de dualismo político natural se encontra, aliás,
dia~~e.ira para im!?~dir o estabelecimento de ditadura do tipo em concepções sociológicas muito diferentes. Certos autores
sovletlco, o que vma a resultar no estabelecimento de ditadura opõem o temperamento radical (no sentido do século XIX; hoje,
d~ ou~o .tipo. Te~-se-~a, ~ssim, ?e. distinguir dois tipos de dir-se-ia temperamento revolucionário) e o temperamento con-
blpartl~ar~sm?: o_bl arhdan~mo te~mco, ~_~.. .1ual há~osi~o servador;2 maneira de ver sumária e aproximada, mas que não
dOS-º9.!Ln\ffilS,",,"ªp~_u.1!S~ o Jetlvos secunâahos e meIOS sen o deixa de ser exata. É verdade que alguns se sentem perfeita-
admitida§,_de.....qlll:lª-do_e~d.Õü.tf6,"ã.-filosõfiá-põlíticã:.g~ikas mente à vontade com as idéias recebidas, as tradições aceitas,
ba~f:un.rlamentª'ls<_d.º-__regÜne;.__e o _bipartidarismo metafísico os hábitos corriqueiros; ao passo que outros experimentam a ne-
em. que a ,rívalicla,9~." qos P~rtid~s atinge a própria-~riãtm:ezad~ cessidade imperiosa de mudar tudo, de modificar tudo, de ino-
reglme,"-_ª,LÇ9Il~~E9<?~s fungªi!:ientais" dà'existêricià,'Jõma;:;'do o var em tudo. "É melhor fazer uma coisa estúpida que sempre
asp~lQ-4l§~g~~rra de religiões. O primeiro é o único viável, se fez do que uma coisa inteligente que não se fez nunca":
o que equivale a dizer que não se concebe o dualismo se um esta piada irlglesa exprime, de fonna admirável, o temperamen-
dos dois partidos possuir estrutura totalitária. to conservador. Tem-se proposto identificar essas duas tendên-
cias com idades diversas: a mocidade seria "radical" e a idade
,Apesar de tudo, ~ bipartidarismo parece apresentar um madura seria conservadora; conhecem, de há muito, esse fato
carater natural. Com lSSO se quer dizer que as opções políti- os legisladores, que aumentam a idade da maioridade eleito-
cas se apresentam, comumente, sob a fonna dualista. Nem ral para favorecer a direita, ou que a dimirluem para favore-
sempre há d~ali~mo dos partid~~, m~s q~ase sempre há dualis- cer a esquerda. O marxismo restabelece, de modo diverso e
mo das tendenclas. Toda política lmphca escolha entre dois moderno, esse maniqueísmo fundamental, com a oposição da
tipos de soluções: as soluções chamaáas intennediárias se re- burguesia e do proletariado, que o bipartidarismo atual dos
lacionam_ uma~ com as o??"as; o que equivale a dizer que o
centro _nao ex~ste. em pohhca: pode existir partido do centro, 2 Cf. em particular Macaulay, History of England, Londres, 1849,
mas nao tendencla do centro, doutrina do centro. Chama-se I, pp. 82-83.
Pr"""
1 252
1. 1'; Os SISTEMAS DE PARTIDQS

I'i "i '


I
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países anglo-saxões encarna aproximativamente. Os estudos
contemporâneos de Ciência Política vêm descobrir um dualis-
o NÚMERO DOS PARTIDOS

ção divertida, mas que pode ser virada pelo avesso: o plan~ das
253

mo de tendências nos países que, aparentemente, são os mais assembléias é causa ou conseqüência do número. d~s. partidos?
divididos sob o ponto de vista político: no regime dos partidos Quem foi que começou: o hemiciclo ou a mulbphcld~de ~os
múltiplos e diversos da Terceira República, François Goguel partidos, o retângulo ou o dualismo? A re~posta decepclOnana:
conseguiu demonstrar a permanência da luta entre a "ordem" na Inglaterra, a forma da Câmara.e antenor ao two:party svs-
e o "movimento". Nas pequenas aldeias da França, a opinião tem; na França, porém, a topografia do Parlamento ~ .postenor
distingue, espontaneamente, os "bràFlcos" e os "vermelhos", os à tendência para os partidos múltiplos; e as asse~blela~ norte-
"clericais" e os "leigos", sem preocupação COm etiquetas oficiais, americanas adotaram o hemiciclo sem que com ISSO hajam so-
mais diversas, assim apreendendo o essencial. A~his­ frido os seus partidos ...
tór , tQdas as grandes IUJllLde,Ja~ foram dualistas: ar-
ia
magnacs e borguinhões, gueIfos e gibelinos, católicos e protes- É mais séria a explicação histórica. O hábito sec~lar do
tantes, girondinos e jacobinos, conservadores e liberais, bur- bipartidarismo na América do Norte e na. Inglaterra e fat~r
gueses e socialistas, ocidentais e comunistas; todas essas opo- cvidente da sua força atual. Resta descobnr por que esse ha-
sições estão simplificadas, apenas, entretanto, pela atenuação bito se implantou tão solidamente; de outra forma, o problema
das distinções secundárias. Todas as vezes que se coloca ante apenas recua no tempo. Só análises próprias a c~da país é que
grandes problemas de base, a opinião pública tende a crista- podem determinar as fontes de que bro~ou ? duahsmo. O pap_el
lizar-se em torno de dois pólos opostos. O movimento natural desses fatores nacionais é, decerto, mUlto Importante; mas nao
,/ das sociedades orienta-se para o bipartidarismo, podendo, evi- se deve, em proveito deles, minimizar, como se faz com exc~s­
dentemente, ser contrariado por tendências inversas, que mais siva freqüência, a influência de um fator ge~al, de ordem tec-
j adiante procuraremos definir. nica: o sistema eleitoral. Pode-se esquematIza-la na fórmula
I, seguinte: o escrutínio maioritário de um só turno tende a? ~ua­
liSTTW dos partidos. De todos os esquemas qu~ se defIm~am
BIPARTIDARISMO E REGIME ELEITORAL. - Admitindo esse ca- ~êste livro este último é, sem dúvida, o que maiS se aproXima
ráter natural do bipartidarismo, resta explicar por que é que da verdad~ira lei sociológica. Coincidência mais ou menos
a natureza se expandiu, livremente, nos países anglo-saxões e geral ressalta entre o, escrutínio ma!oritár~o ?~ .um turno ~ o
1Iu nos seus raros imitadores, e por que é que falhou nas nações oipartidarismo: os palses duahstas s:o m~Jonta~lOs e os palses
da Europa continental. Citar-se-ão, de memória, as explica- ma:oritários são dualistas. As exceçoes sao mUlto raras e, ge-
, ções tiradas do "gênio anglo-saxão" (freqüentes nos autores
norte-americanos), do "temperamento dos povos latinos" (mas
ra~ente, podem-se explicar por circunstâncias particulares.
o multiparqdarismo existe na Escandinávia, nos PàÍses Baixos, Alguns aju~t~mentos ~obr~ es~a coincidência geral entre o
na Alemanha); não quer dizer que essas explicações sejam de sistema majorita~l~ e o blpartidans~?. O. e.!~~J.?. ~a_ !ngla-
todo falsas, mas aqui se está em domínio vago demais, aproxi- terra e dos domlIllos pode ser, de ImClO, citado. todos conhe-
mado delPais, para formular observações sérias; não adianta ~--~~ regime eleitoral majoritário de turno único; _todos co-
querer reconstituir Custave Le Bon. Citar-se-á, de memória, nhecem o dualismo dos partidos, tendendo a oposiçao con~er­

I
igualmente, a explicação de Salvador de Madariaga, relacionan- vadores-trabalhistas a substituir a oposição conservadores-lIbe_
do o bipartidarismo com o espírito esportivo do povo britânico, rais. Veremos mais adiante que o Canadá, que parece cons-
espírito que o leva a considerar as lutas políticas um encontro tiuir exceção, se enquadra, realmente, na regra ge~aJ.3 Se be~
entre times rivais; esse espírito esportivo desapareceu em 1910 que mais recente e mais breve, o, caso da ~urqUla talvez ~eJa
e 1945, quando reinou o tripartidarismo. .. Não se dará sorte o mais impressionante: nesse paiS, submetIdo, durante Vinte
melhor às pitorescas considerações de André Maurois, opondo
a disposição retangular da Câmara dos Comuns e as Suas duas a A Austrália é outra exceção, desde o d~en,volvi~ento do Goun-
séries de assentos em frente uma à outra, que leva, naturalmen- try Party. Mas ó sistema de voto p~e~erenc~al_ qu~ la funclOn~ altera pro:
te, ao dualismo, ao hemiciclo francês, onde a ausência de de- fundamente o mecanismo do escruhruo maJontáno e o ap;o~una. da téc
limitação nítida conduz os grupos à multiplicação. Observa- nica dos dois turnos, permitindo o reagrupamento dos sufraglOs dl~pers?s.
Il: impressionante, aliás, que o aparecime~to do Gountry Partu haja com-
cidido com a aplicação do voto preferencial
254 Os SISTE}.·IAS DE PARTIDOS o N~tMERO DOS PARTIDOS 255

anos, a regime de partido único, tendências bem diversas vi- antes e ap6s a adoção da run-off primary parecem estabelecer.
nham abrindo caminho desde 1945; a cisão do Partido da Na- t:sse movimento multiplicador (Fig. 25).
ção, que .se separou do Partido Democrata de oposição, em Pondo de lado a América Latina, que se pode desprezar
1948, podIa levar a que se tomasse o estabelecimento do multi- por causa das intervenções freqüentes e poderosas do Executi-
partidarismo. Nas eleições de 1950, o sistema majoritário de um vo nos escrutínios e nos partidos, falseando todo o sistema,
só t?rno sobre ? modelo britânico (agravado pelo escrutínio quatro países manifestam tendência aberrante: de um lado, antes
de lIsta) deu ongem, n~. entan~o, ao ~ua~ism:O: de 487 deputa- de 1894, a Bélgica, onde o bipartidarismo acompanhava um es-
dos da Grande AssembleIa NacIOnal, so nno pertencem aos dois crutínio de dois turnos; de outro lado, a Suécia (antes de 1911),
gra~des partidos - Democrata e '"Republicano do Povo" - 10 a Dinamarca (antes de 1920), e o Canadá atual, onde o su-
(9 mdependentes e 1 do Partido da Nação), ou seja, 2,07%. frágio majoritário de turno único funciona ao lado do multi-
~os Estados Unidos, o bipartidarismo tradicional coincide, partidarismo. No primeiro caso, a exceção é muito mais apa-
Igualmente, com o escrutínio majorit;Srio de um turno. Claro rente que real; o segundo turno era previsto pela lei eleitoral
que o sistema norte-americano é muito espec;a1 e o desenvol- belga, mas quase nunca funcionava na prática, antes da adoção
vimento contemporâneo das primárias nele introduz uma espé- do sufrágio universal. Em 1892, por exemplo, em 41 circuns-
cie de duplo escrutínio: mas a assimilação que, por vezes, se crições, contavam-se apenas quatro ballottages; deve-se notar
tem tentado entre essa técnica e a dos dois turnos é de todo que três delas (em Nivelles, Charleroi e Toumai) resultavam
falsa. A designação dos candidatos Dor um voto interior a do jogo dos empenhamentos e dos votos parciais, havendo s6
cada partido não é a mesma coisa que' a eleição propriamente duas listas em presença desde o primeiro turno; em definitivo,
dita. O fato dessa "nomeação" ser aberta em nada altera as num s6 distrito, o de Mens, o segundo turno realmente fun-
coisas, mas se relaciona com a estrutura dos partidos não com cionou, em conseqüência da fragmentação da votação entre
o regime eleitoral. ' três listas rivais. A partir do sufrágio universal, o aparecimen-
A técnica norte-americana corresponde ao mecanismo ge- to do Partido Socialista pÔs em jogo as disposições legais: o
ral do sistema majoritário de um só turno. A ausência de se- combate triangular acarretou 12 ba71ottages, em 1894; 15, em
gundo turno e de "ballottage" (isto é, resultado negativo, ne. 1896-1908. No entanto, durante o período de bipartidarismo,
nhum dos candidatos conseguindo maioria absoluta), princi- as eleições se desenrolaram, na realidade, de acordo com o
palmente na eleição presidencial, constitui, de fato, um dos sistema do turno único. Resta, aliás, definir por que foi que
motivos históricos do advento do bipartidarismo e de sua ma- a prática não coincidiu com os textos, por que foi que a possi-
bilidade de segundo turno não provocou combates triangulares,
nutenção. Nos poucos escrutínios locais em que, por vezes,
se tem tentado a representação proporcional, esta rompeu o cisões entre partidos e o abalo do sistema dualista, o que tenta-
bipartidarismo: por exemplo, em Nova Yorl:, entre 1936 e 1947, remos fazer mais adiante (cf. p. 278).
qua~do se viram tomar assento no Conselho Municipal cinco O caso da Suécia de antes de 1909, onde foi estabelecida
partidos, em 1937 (13 democratas, 3 republicanos, 5 American a representação proporcional, não é menos aberrante. Na rea-
Labor Party, 3 City fusionists, 2 democratas dissidentes); seis lidade, com o sistema de sufrágio restrito e complicado que
em 1941 (pelo acréscimo de 1 comunista); sete em 1947 (em então funcionava (eleição direta nas cidades, indireta nos cam-
conseqüência de uma cisão no seio do American Labor Party, pos, escrutínio uninominal ou plurinominal conforme as cir-
cisão sustentada pelos sindicatos das roupas). A mesma in- cunscrições ), as divisões dos partidos foram, durante muito
fluência do escrutínio majoritário de um, só turno se deve ano- tempo, movediças e tênues. Não havia organizações verdadeiras
tar no interior ~às .pri~árias: Key obs,erv6n que, nas primárias no país; nem existiam grupos parlamentares nitidamente deli-
do Sul, onde a mdlCaçao se faz num so turno, o Partido Demo- mitados: antes de 1911, não se podem estabelecer com preci- I

, I
crata se divide, geralmente, em duas facções; pelo contrário, são estatísticas eleitorais que dêem a "filiação" política dos can-
no sistema das duas primárias sucessivas, que corresponde aos didatos. Ter-se-ia de falar mais em ausência de partidos que
I dois turnos. de escrutínio - intervindo a segunda primária
(rtt;n-.off pnmary) - as facções tendem à multiplicação; as es-
em bipartidarismo ou em multipartidarismo. De outro la-
do, certos problemas políticos ou sociais particulares (seces-

I
L
tatIstIcas que comparam o número dos candidatos à indicação são nôrueguesa, oposição dos campos e das cidades, nascimento
o NÚMERO DOS PARTIDOS 257

de esquerda rural) complicavam, no caso, o dualismo natural-


da opinião. Todavia, dentro de cada circunscrição, a luta limi-
tava-se, muitas vezes, a dois candidatos, o que restabelecia o
dualismo no escalão local. No escalão nacional, parecia dese-
nhar-se, igualmente, uma tendência bipartidária bastante níti-
da, sob_.as variações de grupos efêmeros e fluidos. De 1867
a 1888, os dois partidos encontram-se frente a frente: os con-
servadores, que se apóiam nas cidades, e o LantT/Ulnnapartiet,
cuja força vem, sobretudo, dos campos. A partir de 1888, o
Lantmanna cinde-se em dois grupos, o "velho LantT/Ulnna", li-
vre-cambista, e o "novo Lantmanna", protecionista; mas os dois
grupos se reúnem em 1895. Em 1906, nova cisão separa do
LantT/Ulnna os nacionais-progressistas; as duas facções, porém,
agem em acordo estreito; trata-se mais de duas tendências den-
tro de um mesmo partido que de partidos diferentes. É sen-
sível a ação aglutinadora do escrutínio majoritário. Nesse ín-
terim, a velha direita ia, progressivamente, desaparecendo, en-
quanto se fonnava um partido liberal apoiado na burguesia das
cidades; em fins do século XIX encontrava-se, pois, na Suécia,
o dualismo clássico: conservadores (LantT/Ulnna) e liberais, al-
terado pelo crescimento do J;>artido socialista, no ano de 1896.
Em suma, ao principiar o seculo XX, as divisões políticas do
Riksdag, na medida em que nelas se podem traçar linhas que
separem os partidos, assemelhavam-se às do Parlamento britâ-
nico, rompendo a presença dos socialistas o dualismo conserva-
dores-liberais.
A Dinamarca afasta-se mais nitidamente da tendência ge- I

ral. Apesar do escrutínio majoritário de turno único, havia qua-


tro grandes partidos, à véspera da reforma eleitoral: direita,
liberais (Venstre), radicais, socialistas. Na realidade, porém,
esse quadripartidarismo nacional recobria, com freqüência, um
bipartidarismo local: em J?;rande número de circunscrições, dois
candidatos apenas se enfrentavam; assim era que, no ano de
1910, de 114 circunscrições, 89 estavam nesse caso, para 24
circunscrições com três candidatos e uma só com quatro; o fe-
nômeno de redução do número dos candidatos era, aliás, sen-
sível relativamente aos anos anteriores (254 candidatos em 1910,
296 em 1909, 303 em 1906). Em 1913, ascende-se, súbitamente,
a 314 candidatos, com apenas 41 circunscrições de combate
dualista, 55 de três rivais, 15 de quatro e uma de cinco; mas
esse crescimento singular se explica, principalmente, pela ten-
tativa desesperada da direita para conjurar o enfraquecimento
que seriamente a ameaça: para 47 candidatos em 1910, con-
seguiu ela alinhar 88 em 1913; e, no entanto, a despeito desse
O NÚMl-:I{Q DOS PARTIDOS 259
258 Os SISTEMAS DE PARTIDOS

esforço considerável, o seu número de cadeiras caiu de 13 para dois adversários podem ser diferentes através das diversas re-
7 (conquanto o seu total de sufrágios se houvesse elevado de giões do país. 0- que resulta, .po~anto, é q~e o esc~tínio ma-
6~ 90~ para 81 400 e os 17 000 votos de diferença, que tinham
joritário possibilita quer. a c~açao d.e _partido~ loca~s, qu.er. a
sIdo tirados, sol;>retudo dos liberais, fizessem este último partido retração de partidos naCIOnaIS e posIçoes locaIS. Nao exIstiu,
até na Grã-Bretanha, um partido irlandês durante um período
perder 13 cadeuas). Em 1910, por outro lado, um acordo elei-
rebtivamente longo, de 1874 a 1918, com uma estabilidade no-
toral. estreito ligava os radicais e os socialistas, pois esses dois
partIdos nunca apresentaram candidatos um contra o outro' tável? E não se notou que o próprio Partido Liberal manifesta
ora, esse acordo parece ter-se, realmente, rompido em 1913: certa tendência a transformar-se, essencialmente, em partido
galês? Apesar de tudo, os pr6l?rios progresso~ d~ centralização
quand? ~e nota q~e .17 socialistas foram apresentados contra
os radIcaIS e 7 radICaIs contra os socialistas. Enfim se se com- na estrutura interna dos partidos e a ampliaçao natural dos
pa~ar a situação dos partidos, em 1913, com a sua' posição an- problemas políticos no quadro nacional tendem a projetar sobre
tenor, observa-se uma concentração visível. De fato em 1906 o país inteiro o dualismo regional gerado pela forma de escru-
n~o havia ~enos de. cinco partidos (em conseqüência da cria~ tínio; mas a ação própriã deste limita-se aoôipartidarismo local.
çao ,d? Partido RadIcal); em 1909, porém, a fusão do Partido O mecanismo dessa ação é muito simples: por exemplo,
Agrano (moderado) com os liberais reduziu esse número a uma circunscrição britânica onde os conservadores têm 35.000
quat~o; finalmente, tem-se de levar em conta que, desde o início votos, os trabalhistas 40000 e os liberais 15000. É claro que
do seculo, come~ara um processo_ de eliminação da direita, pro- o sucesso trabalhista repousa inteiramente na presença do Par-
cesso ql!..e parecIa acelerar-se, nao cessando de crescer a dis- tido Liberal; se este último retirar o seu candidato, pode-se
tância entre a porcentagem dos sufrágios e a das cadeiras. Em calcular que a maioria dos sufrágios atrás de.le ~grupad~s. se
1913, com os seus 7 d.eputados, a direita conservadora ocupava, transfira para o Conservador e que uma mmona se diVIda
apenas, 6,14% do conJunto do Parlamento. Na realidade ten- entre o Trabalhista e a abstenção. Duas hipóteses podem, en-
dia-se, incontestavelmente, para o tripartidarismo análogo ao tão, apresentar-se: ou o Partido Liberal entra em acordo com
da Inglaterra na mesma época; nesse país, o Partido Socialista o Conservador para retirar o seu candidato (mediante compen-
tomava lugar, pela primeira vez, ao lado de dois partidos "bur- sações eventuais em certas circunscrições) e o dualismo, então,
gueses". O escrutínio majoritário exercia, de fato, a sua ação se restabelece por fusão ou por aliança muito próxima da fu-
re~utora, e o acord? entre os radicais e os socialistas permitia são, ou o Partido Liberal obstina-se a marchar sozinho: os elei-
ate _entrever o nascImento de um bipartidarismo original, pela tores abandonam-no, progressivamente, e o dualismo se resta-
fusao eventual dos grupos de esquerda; foi, justamente, a re- belecerá por eliminação.
presentação proporcional que pôs fim a essa evolução. A primeira hip6tese se acha, atualmente, realizada, em sua
. _ Entr~ os qu~tro partidos canadenses, dois apenas têm po- forma atenuada (aliança pr6xima da fusão), na Grã-Bretanha,
SIçao naCIOnal: sao, de um lado, os liberais, de outro lado, os entre o Partido Conservador e os liberais-nacionais; na Alema-
conservadores. Os outros partidos (Partido Trabalhista e Par- nha, entre os democratas-cristãos (C. D. U.) e os liberais (F.
tido chamado do ~'Crédito Social") têm força real só em cer- D. P .) para as eleições majoritárias parciais de certos Lãnder;
tas províncias; pode-se, pois, dizer que são partidos locais. Se por exemplo, na Vestfália, Renânia do Norte e Slesvig-Holstein.
se comparar esse caso aos precedentes, tais como os analisa- Serve, muitas vezes, de prelúdio à forma extrema da fusão total,
dos em relação à Dinamarca e à Suécia, podem-se ver os limi- que é o resultado normal do sistema (com freqüência, esta é
tes ex~tos da influência do sistema majoritário de um só turno; aC'Jmpanhada de cisão, preferindo alguns membros do ex-parti-
esse sIstema leva, incontestavelmente, ao dualismo dos partidos, do central juntar-se ao rival oposto). Na Austrália, os liberais
pelo menos, dentro de cada circunscrição eleitoral;4 mas os e os conservadores fundiram-se, a partir de 1909, ante a im-
f pulsão trabalhista. Na Nova Zelândi,a, esperaram 1936 para
4 Notemos que, no Canadá, essa tendência ao dualismo dentro de
c~da circunscrição não é absolutamente nítida, sobretudo desde as elei-
ç~es de 1937, que acabaram com o domínio do Partido Liberal. Em vá-
nha entre 1920 e 1935, período durante o qual reinou um tripartidarismo
provis6~o.. Pode-se pensar que a situação canadense atual tenha caráter
nas ~ircunscrições, h_á tripartidarismo, ou quadripartidarismo real, o que
falseIa a representaçao. A situação assemelha-se um pouco à Grã-Breta- de translçao.
260 Os SISTEMAS DE PARTIDOS
O NÚMERO DOS PARTIDOS 261
fazer o mesmo: de 1913 a 1928, o Partido Liberal seguira curva
regularmente decrescente, tendendo ao desaparecimento natu- mau dos seus adversários, a fim d~ evitar o ~xito do pior. Esse
ral; em 1928, um despertar repentino igualou-o aos conserva- fenômeno de "polarização" prejudica o partIdo novo, e~&ua~to
dores; desde 1931, porém, recomeçava a declinar, readquirindo for o mais fraco, mas se vira contra o menos favoreCI o os
a sua posição de terceiro partido; ante o perigo trabalhista, antigos, quando o novo o haja ultrapassado, do mesmo modo
agravado pela crise econômica, resolveu-se à fusão, após as elei-
ções de 1935. Na África do Sul, a cisão dos nacionalistas, em
1913, associada ao desenvolvimento do Labour, fizera aparecer,
em 1918, quatro partidos mais ou menos iguais; ante o perigo
de semelhante situação em um sistema de escrutínio majori-
tário de um turno, o velho partido unionista fundiu-se COm ('
Partido Sul-Africano do General Smuts, ao passo que o Partido
Nacionalista do General Hertzog assinava um pacto eleitoral
com o LaboUT, pacto que foi fatal a este último; estava o dua-
lismo restabelecido, ao meSmo tempo, por fusão e por elimina-
ção.

Essa própria eliminação (segunda modalidade de retorno


ao bipartidarismo) resulta de dois fatores combinados: fator
mecânico e fator psicológico. O primeiro consiste na "sub-re-
presentação" do terceiro partido (isto é, do mais fraco), cuja
porcentagem de cadeiras é 'inferior à respectiva porcentagem
de vetos. Claro que, em regime majoritário de dois partidos,
o vencido sempre se acha sub-representado em relação ao ven- '----J L--I L--J
1935 Iq~s ISSO 19S1
cedor, confonne veremos adiante; mas, na hipótese de um ter-
ceiro partido, a sub-representação deste último é ainda mais ~ Conservadores
acentuada que a do menos favorecido dos dois outros. O exem- - liberais
plo britânico é muito impressionante: antes de 1922, o Partido ma Trabalhistas
Trabalhista era sub-representado em relação ao Partido Libe-
raI; desde essa data, produz-se, regularmente, o inverso (salvo
uma exceção em 1931, exceção a explicar-se pela crise grave
que, então, atravessava o LaboUT e pelo triunfo esmagador dos
conservadores); assim, mecanicamente, o terceiro partido vem
a ser desfavorecido pelo regime eleitoral (Fig. 26). Enquanto
um partido novo, que tenta fazer concorrência aos dois anti-
gos, ainda é por demais fraco, o sistema lhe é contrário e ergue
um barreira contra o seu aparecimento. No entanto, se con-
seguir ultrapassar um dos seus predecessores, este último assu- 60
me a posição de terceiro partido, e se inverte o processo de
eliminação. 80

O fator psicológico apresenta a meSma ambigüidade. No


~~ 19~3 ,~35 19~5
\. L--lL--lL--lL--l'----.lL--JL--JL-.J
1923 192'+ 1931 1950 19S!
caso de tripartidarismo que funcione em regime majoritário de
um só turno, os eleitores não tardam a compreender que os F ~ 26 - Distância entre a Porcentagem dos Sufrágios e a Porcentagem
seus votos se perderão se continuarem a dá-los ao terceiro par- 1". dos Cadeiras na Grã-Betl/flha. ,
tido; daí tenderem, naturalmente, a transferi-los para o menos I. Di: tância bruta - lI. Di5tâllcia líquida (relacionada a
porcentagem dos sufrágios).
262
Os SISTEMAS DE P ARTIJlQS
O NÚMERO DOS PARTIDOS 263
que o fenômeno de "sub-representação". A inversão dos dois
mecanismos nem sempre se produz ao mesmo tempo; em geral,
o segundo precede o primeiro (porque é necessário certo recuo
para tomar consciência de rebaixamento de um partido e trans-
ferir os seus votos para outro). Isso acarreta, naturalmente,
um período bastanfe longo de turvação, período no qual a
heSitação dos eleitores se conjuga a inversões de "sub-represen_ - - - Porcen"'lIem d" .ufr6~io.
.. "cadeJra.
tação", falseando completamente a relação das forças entre os - (não incluindo os nociônr;didas
partidos: a Inglaterra suportou semelhantes inconvenientes en- ir/andere. em 1910 .. 1918)
tre 1923 e 1935. A pressão d(l sistema eleitoral, no sistema
dualista, só triunfa, portanto, a longo prazo.
O regime majoritário de um turno parece, assim, capaz de
conservar um bipartidarismo estabelecido contra as cisões dos
partidos antigos e o aparecimento de partidos novos. Para
um destes últimos chegar a constituir-se de maneira sólida, é
necessário que disponha de fortes apoios locais, ou de grande
e robusta organização nacional. No primeiro caso, aliás, ficará
confinado na sua área geográfica de origem, donde só sairá a
custo e devagar, tal qual mostra o exemplo canadense. No se-
gundo, apenas, é que poderá esperar crescimento rápido que o FIG. 27 - A Eliminação cW Partiuu
.1_ Libeml na Grã-Bretanha.

eleva à posição de segundo partido, posição na qual os fenô-


listas e os d~moc~a~as-cr;; aO~n~ições técn'icas que permitem
menos de polarização e de sub-representação o hão de favore- . t- aís algum indubitavelmente,
cer. Talvez se deva nisso ver uma das razões profundas que

I conduziram todos os partidos socialistas anglo-saxões a consti-


tuir-se na base sindical, única que lhes permite ter forçasu-
ficiente para "largar", sendo os pequenos partidos eliminados
Ou relegados ao quadro local. O sistema majoritário parece,
está hoje maIS pr xuno . as
reforma eleItoral mesmo e
I mentar à inglesa. Na Itália,
o estabelec~ento/e regImel~:r~ teria resultados idênticos _
d Distas constituiriam um dos
com a diferença e qu~ os ~mueri oso ara o futuro do sis-
dois partidos" ~ que ~en:n~~~o., ~ a:licaçio brutal do escr;ttí-
igualmente, capaz de restabelecer o dualismo destruído pela
entrada em cena do terceiro partido. É impressionante a COm- tema
. d democratico.
turno em paISo, ond e o multipartidarismo tem raIzes
lt
paração entre a Inglaterra e a Bélgica: nos dois países, foi mo e u m , _ roduziria os mesmos resu a-
rompido um bipartidarismo tradicional, em começos do século, profundas,
d como a França, 'tnaoloPn o O regnn'e eleitoral leva
não ser a prazo mUI o g. d
pelo aparecimento do socialismo. Daí a cinqüenta anos, a In- os, ~ . . . não necessária e absolutamente, apesar e
ao bIpartIdansmo, dA. d base conjuga-se com
todos os obstáculos. Essa ten ~~~~~ o: a detêm. Feitas estas
glaterra majoritária retomou ao dualismo por eliminação dos
liberais (Fig. 27), ao passo que a representação proporcionaI muitas outras, que a atenuam, a af seando ~ considerar o
os a eI.p~re ~:onze" do' escrutínio rnajori-
salvou, na Bélgica, o Partido Liberal e permitiu, a seguir, o
nascimento do Partido Comunista, sem contar alguns outros, ressalvas,
dualismo dospode-se,
parti'dcontud"l0'
entre as duas guerras. tário de um turno.
Pode-se ir avante e dizer que o sistema majoritário é capaz
I de criar o bipartidarismo em países que jamais o conheceram?
lI. - O Multipartidarismo
- Se neles se esboçar uma tendência dualista COm bastante ni-
tidez, não parece duvidosa a resposta afirmativa. O estabele-
I, cimento do escrutínio majoritário de turno único, na Alemanha Com freqüência se confundem mu~tip!rtidand·.s~de :~Ugs:~
:
Ocidental, teria por efeito destruir, progressivamente, os peque- 'd
cia de parti os.
U
~ pa.Is' em que
.
a oplllIao se IV!
fêmeros fluidos não corres-
nos e médios partidos, deixando em presença apenas os socia- pos numerosos, porem'd~stádeIs, e lti artidarismo;' situa-se na
ponde à noção ver da eIra e mu p
264
Os SISTEMAS DE PARTIDOS
o NÚMERO DOS PARTIDOS 265
pré-história partidária; coloca-se em u f _
r~1 em ,que a distinção do bipartidar~~o ase dda evoll';lçao, ge- gerais. Alguns traços comuns, todavia, podem-se discernir
nsmo amda não se a lica , e o mu tipartida- entre elas, se se considerarem os modos de formação do multi-
verdadeiros Podem p ,porque amda não existem partidos partidarismo, É possível construir, a esse respeito, um esque-
' -se enqua d rar nesse tip " ,
E uropa central, entre 1919 e 1939 ' o vanos palses da ma teórico que corresponde bastante bem aos fatos, partindo
nações da Africa do OrI'ente e d O' ~ maIOr parte das. jovens do caráter natural do sistema dualista e constatando que essa
d" o nente Méd' ,
os latmos-americanos e os grandes E t d ' 10, ~UItOS ~sta- tendência fundamental pode ser alterada por dois fenômenos
XIX, Entretanto alguns desse s a o,s oCIdentaIs do seculo diferentes: o fracionamento interno das opiniões e a superposi-
, povos se mcluem m' ,
samente, em uma categoria. intermediária " ais ngoro- ção dos dualismos.
acham justapostos partidos autênticos ' categon~ ,em que se Consideremos um regime bipartidarista: por exemplo, a
ganização e de estabilidade e g ,c;om, u~ mlI~lmo de or-
Inglaterra atual. No Partido Trabalhista, a distinção é bem ní-
A linha de demarcação esfu~a_s:upos_ mstavels e I~org~nicos,
mo e ausência de partidos t t ,e~tao, entre multIpartidaris_ tida entre os moderados, que seguem o Coverno do Sr. Attlee,
gios de inorganização dentroa~~ maiS quando ,subsistem vestí- e um grupo mais radical e mais extremista, que entra, às vezes,
organizados: na Fran a o numerosos palses de partidos em conflito com os ministros e deles se separa em turno de ques-
situado à direita dos ia(li~a ,r exemp~, todo o setor de opinião tões importantes, principalmente em política estrangeira. No
deiros mas conhece' ~s quase esconhece partidos verda- seio do Partido Conservador, as divisões são, atualmente, me-
, , ISSO sim esses grupos flu'do nos precisas, porque o partido está confinado na oposição: se
terizam uma fase anterior da' evolução, I s, que carac- tomasse o poder, ver-se-iam desenhar com mais nitidez, como
Assim definido o multipartidari ' b antes da guerra, Esse exemplo é suscetível de generalização,
tico da Europa ocidental a C - -B sm~ e, astante caracterís- Dentro de todos os partidos, existem "duros" e "moles", conci-
sive a Irlanda), Claro que:~ retan a a parte (mas inclu- liadores e intransigentes, diplomatas e doutrinários, indulgen-
comp?e~ ,conhe~eram o bipartid~~s;~tr~mdo:e;:ta~os que a tes e apaixonados, A oposição entre os reformistas e os revo-
sua hlstona: a Belgica esteve submet'd I ,s epocas da lucionários nos partidos socialistas continentais, no início deste
manha atual está próxima dele, Outr~s a .a e ~ ~te 1894;, a Ale- século, apenas constituiu um caso particular de tendência mui-
h
de partido único: Itália de 1924 a 19!;m ;:VIdo m sistemas to geral. No fundo, a distinção sociológica do temperamento
a 1945, Espanha e Portugal contemporân~os, em;:de~s:e, 1933 "radical" e 'do temperamento "conservador" poderia ser com-
~oj~te~!ensad
eaça
que o r~gime muItipartidarista europeu' ~~t~j~­ pletada por uma segunda, que oporia o temperamento "extre-
mista" e o temperamento "moderado", pois há conservadores
sar de tu o e que nao lhe, pareça garantido o futuro, A e~
o conJ'unt~Od e~ 1956, o m~ltIpartidarismo continua a domi~ar extremistas e conservadores moderados, "radicais" extremistas
a uropa contmental do Oeste t b ' e radicais moderados (girondinos e jacobinos). Enquanto a
do corresponder à sua mais geral tradição poIí~~a~m parecen- segunda distinção se limita a criar facções e rivalidades no seio
dos partidos engendrados pela primeira, o dualismo riatural não
• MODOS DE FORMAÇÃO DO MULTIPARTIDARISMO ' se modifica, Entretanto, se essas facções se exasperam e dei-
gla do muItipar~darismo é difícil: de três ao inÉin1 A b~olo­ xam de tolerar a coabitação, põe-se em xeque o bipartidarismo
se conceber vanedades inúmeras' dentro de d I o, po em- de base e este cede o lugar ao multipartidarismo. Assim foi
tas forma ti' O ' ' ca a uma, quan- que a cisão dos radicais e liberais rompeu, na Suíça, o bipar-
t d s e ma zes, tnpartidarismo francês de 1945 d
em e comum com o tripartidarismo belga tr d" I na a tidarismo inicial de 1848 (conservadores-liberais) e criou o tri-
drip~rti~arismo , escandinavo difere, profundam~;:o~~; o ~~~ partidarismo, que os socialistas transformaram, mais tarde, em
~a~tidans~o ~~IÇO; a pulverização da direita franc~sa ní~ate~ quadripartidarismo, Do mesmo modo, na França, a formação
progressiva do Partido Radical dividiu os republicanos, de for-
co_.;slmo, Slg~lIf~cado 9. ue o fracionamento dos partidos na Tche-
s ovaqUIa e pre-guerra, ou na República es anhola No ma que três tendências fundamentais se esboçavam em fins
cas~, q~alquer claSSificação parece arbitrária e fr[g'I' d do século XIX: conservadores, republicanas moderados (opor-

g~~i:~:~?n~~f:~,n~~i~~, imqJ:e:s:p~~ecodnes~rvalr. um ~a~á~~r ap~~~


tunistas), radicais, Na Dinamarca e nos Países Baixos, o nas-
cimento do Partido Radical relaciona-se com uma tendência
mc urr-se em quadros idêntica ao fracionamento de opinião comum entre moderados e
266 Os SmTmMAS DE PARTIDOS
r· O NÚMEP".i" DOS PARTIDOS
267

.. . CI ' is)' radicais (orientais, liberais,


extremistas. Em quase toda a Europa, a cisão dos comunistas ! (ocidentais, .dmgls!~s, t .en~'~er~is clericais). Claro que essa
(revolucionários) e dos sociaJistas (reformistas), por volta de leigos); direIta (OCI en aIS,b ~t ' .a 'e or demais simplificada;
1920, aumentou o número dós partidos. , classificação é bastante ar I ran. b~m às grandes linhas de
d to
Esse fracionamento engendra partidos centristas. Mos- apesar de tudo,. ~~rresponn~o::i~~ntemente, às divisões concre-
trou-se, acima,:. que não há opinião do centro, tendência do clivagem da opmlao e, co d im ortância dos cristãos pro-
centr?, ~outrina do centro, distintas, por índole, das ideologias tas dos partidos, (aume)nta~ o a ltip~rtidarismo francês resulta
de dIreIta ou de esquerda, mas, apenas, enfraquecimento des- gressistas, qu~ e. f~ac~. t mugrandes dualismos de opiniões.
tas, atenuação, moderação. Que um antigo Partido Liberal de falta de comcl~encl~. e~t re ~o caráter natural do bipartida-
(situado à esquerda, em um sistema dualista) se cinda em li- Vêem-se aqUI. o: l,ml :!lista or índole, comportando esta
berais e radicais, teremos os primeiros transformados em parti- rísmo. Toda Oposlçao e. d tos Pde vista simetricamente con-
dos do centro. Da mesma forma, se um partido conservador se uma rivalidade entre dOIS pon d um deles pode ser defen-
separar em conciliadores e intransigentes. Tal é o primeiro tradit6rios (entend~ndo-se. qu) .ca a~ se as diferentes oposições
modo de constituição dos centros (resultando' o segundo do dido com moderaç~odou VIgOr t~s r:rn'as das outras, a adoção de
"sinistrismo", que definiremos mais adiante). Em teoria, um forem largamente m epen ~n
centro au~ntico suporia que os moderados de direita e os
moderados de esquerda, separados das suas tendências origi-
nárias, se reunissem para formar um só partido; mas, na prá-
tica, pouco importa a origem do partido central; a sua própria
posição e os atrativos contraditórios que ela acarreta para os
seus membros fazem nascer essa divergência fundamental: todo
centro é, de natureza, esquartejado. A menos que dois par-
tidos centristas coexistam no país, o que era, mais ou menos,
a situação da Diriamarca antes da representação proporcional,
quando os liberais representavam o centro-direita e os radicais
o centro-esquerda; a atração dos extremos continuava a ser
mais forte que a solidariedade dos moderados, pois os radicais
colaboravam com os socialistas e não com os liberais, conforme
tendência bem geral na Escandinávia. Na França, os radicais-
socialistas (centro-esquerda) fizeram alternar, através de toda
a Terceira República, a solidariedade centrista (que dava a
"concentração") e a solidariedade "esquerdista" (que dava o . - "Ocidentais-Orientais"
Cartel, a Frente Popular etc.): encontrar-se-ão essas diversas . . . . Linha de demarcaçao
figuras do balé político definindo as alianças partidárias. "Clericais-leigos"
n ..
A técnica da superposição parece, entretanto, mais espa-
".. .. Liberais-Socialista."
_ " IJ
lhada que a do fracionamento. Consiste em falta de coinci- dos DualismOS na França.5
dência entre várias categorias de oposições dualistas, de modo FIG. 28 - Superposição
que o seu entrecruzamento dá uma divisão multipartidarista.
Na França, por exemplo, a velha divisão dos "clericais" e dos ------ for as respectivas de cada "fami-
"leigos" não corresponde à dos "ocidentais" e dos "orientais" 5 O esquema não leva em co~ta as arJcularmente são muito pouco
tas
lia espirituaf': os cristãos progressls ,p a inf\"ênci~ intelectual}. por
nem à dos liberais e dos dirigistas (Fig. 28). Superpondo esses . " m I{ran de a s u . . . 'to
numerosoS (embora - selaa ue a direita
. ' do M..., R P desde 1951'faz ô mUl. s.
dualismos, obtém-se uma figura esquemática das grandes famí- outro lado, a evol uçao par ''l'berais'' do ponto de vista econ. miCO,
lias espirituais francesas: comunistas (orientais, dirigistas, lei- dos seus membros se~ b.as~nte di. tas" são mais dirigistas e se Situam,
gos); cristãos progressistas (orientais, dirigistas, clericais); so- pelo contrário, os radicaiS men eslS •
cialistas (ocidentais, dirigistas, leigos); republicanos populares nesse particular, à esquerda.
- 268
Os SISTEMAS DE PARllDOS r~ O NÚMERo DOS PARTIDOS 269
certo ponto de vista em um do ,. d'
a escolha de outro ponto d . ;01010 elXa relativamente livre I religiosamente divididos: nos Países Baixos, por exemplo, os par-
mo nasce dessa inàependênecI:-'Ia s a ~o outro. O multipartidaris_ tidos repousam, essencialmente, nessa base; os anti-revolucioná-
d o, necessariamente que os dif recIproca das opOSIçoes, '- supon- rios (conservadores protestantes) opõem-se aos conservadores
lítica sejam mais o~ menos' Ie~entes setores da atividade po- cat6licos e o "Partido Cristão Hist6rico" se constituiu, em fins do
por compartimentos' o r6 IS.O a os uns dos Outros e divididos século passado, para reagir contra a colaboração dos dois pri-
é, precisamente, est~bel~ce~nJ de ~~da. co~cepção "totalitária" meiros; oposições étnicas e nacionais, nos Estados que agrupam
os problemas, de forma ue ~ren nc~a _ngorosa entre todos comunidades raciais e políticas diferentes: rivalidades dos tche-
rta
acarret!'l, necessariamente ~OSi ão pOhÇ~o a respeito de um cos e dos eslovacos na República de Masaryk e de Benes; ri-
um dentre os outros. Toda! .c:rrí ~lVa a respeito de cada validades OOS sérvios e croatas na antiga monarquia iugoslava;
coexistir e en~endrar vIaI '. 1 eo ogIas totalitárias podem rivalidade dos alemães, dos húngaros e dos eslavos no Império
.. um mu hpartidar' d d
~onVl1')am no omínio de atividade ' . 1SI~0, es e que não dos Habsburgos; autonomismo catalão e basco na Espanha,
a sua qualquer tomada de . _ pnVlleglada, que subordina irlandês na Crã-Bretanha, antes da independência do Eire, su-
franceses estivessem de ~osIçao nos outros. Se todos os deto na Tcheco-Eslováquia, alsaciano no Império alemão e na
Oeste" prima sobre toda acor o em que a dualidade 'Leste- República francesa; divisão dos flamengos e dos valões na Bél-
s as outras ver-se ia
partid os: comunistas e anticom . ' - m, apenas, dois gica contemporânea etc.; oposições diplomáticas, que projetam
eles essencial a rivalidade d uli~blsta~. Se considerassem todos para o interior dos Estados as rivalidades internacionais: ar-
. os eralS e dos di . . t
Iam, apenas, dois partidos' cons d nglS as, ver-se- magnacs e borguinhões, guelfos e gibelinos, partidários do Eixo
contráriQl, pensassem ue . e~_a· ores. e ~oci~listas. Se, ao e partidários das democracias, "ocidentais" e "orientais"; oposi-
mental, Cama ainda se ~ul a Oposlçao clencrus-leIgos é funda- ções hist6ricas, enfim: como sedimentos sucessivos, as rivali-
se-iam, ápenas, dois pa~ti~:s:e~a~~~os rec~ntos provinciais, ver- dades novas depositam-se sobre as rivalidades antigas, sem de-
ao que se tendia no início d ' lcoS e vres-pensadores (era truí-Ias, de modo que divisões de eras diferentes coexistem no
dai' o secu o) Pelo c tr" f
e. guns enfatizarem a rivalidad "l'b . d' ~n. an~, o ato espírito público na mesma época. Na França, por exemplo, a
a nvalidade "cristãos-leigos" out e I, er~~- ln9.Istas , outros disputa dos monarquistas e dos republicanos, fundamental em
mantém o muItipartidarismo'. ros a nva ade Leste-Oeste", 1875, s6 persiste, hoje, em fraquíssima minoria da população;
Oposições numerosas podem . pelo contrário, a dos "clericais", dos '1eigos", que dominava por
outras. Oposições políticas ' a~slIl~, superpor-se umas às volta de 1905, conserva ainda grande influência na província
peito à forma ou à estrutur~ JmCpnmeuo lu~ar, dizendo res- (e no subconsciente dos franceses), embora haja sido, larga-
quistas e dos republicanos co e I ?v~rno; assIm, a dos monar- mente, ultrapassada pelos acontecimentos; a dos socialistas e
(oposição dos bona artist;s e mp Ica a,. as vezes, por matizes dos liberais s6 assumiu verdadeira importância a partir de
f
dos legitimistas etc. o o . - dos .r~alista~, dos orleanistas e
na sua Constituição de ~tçoes SOCI.aIS} ~nst6teles já anotava,
1940 e s6 mantém o primeiro lugar na medida em que a situa-
ção econômica é difícil (tem-se atenuado bastante a partir de
d?s pescadóres e maru'os ~~as, oa eXIstencla de. três partidos, o 1950-1951); enfim, a dos "orientais" e dos "ocidentais" (comu-
Dlcie, o dos artesãos da Jcid d ~ rto, o .dos ag~lCultores da pla- nistas e não-comunistas) nascida em 1947 apenas, nem sempre
t a e, o marXIsmo aflrm . é muito clara; muitos operários, camponeses e pequenos-bur-
e, o caráter fundamental "1' d a, preclsamen-
oposição econamica ilustra~ pn~I egla o ~a .rivalidade social; gueses, que não querem saber do regime soviético, votam, so-
e liberais, recobrindo oré a pe a :~ntrov~fSla entre dirigistas bretudo, nos comunistas para exprimir o seu descontentamento;
defendendo o liberal.' p m, Oposlçao socIal mais acentuada por outro lado, os "neutralistas" estão em posição intermediária.
·
d ustrals, Ismo, que os favorece O '.. '
produtores e interm d'" - , s comerClanres, 10-
mo, que os protege, os assaíar~~~~~' e ap~g~ndo-se ao dirigis- TIPOS DE REGIM:ES MULTIPARTIDARlSTAS. - Considerando o
I
, I

funcionários' oposições reli . I ' operanos, empregados e multipartidarismo estabelecido, e não mais os mecanismos ,i
nos países ~t6licos (F glOsaBs:'1 ~ta entre clericais e leigos desse estabelecimento, podem-se distinguir diversas variedades, i
rança, e glCa Espanh It' I'
on d e a h ierarquia eclesiástica t
i
' . a, a la etc.), conforme o número de rivais: tripartidarismo, quadripartidaris-
influência política' luta entr :m, mUltas vezes, conservado mo, polipartidarismo. Essa tipologia, contudo, vem a ser ainda
, e pro estantes e cat6licos nos países mais frágil que a precedente: é preferível, pois, definir alguns
--
I
270 Os SrsmMAS DE PAltTIDOS O NÚMERO OOS PARTIDOS 271

Labour para a classe operária: prova-~ a sua pr6l,'ria vonta~e


exemplos .concr~os a procurar explicações gerais, que seriam de calcar a sua organização no Partido Trabalhista. É m-
por demaIs t~ncas. ~ois casos principais de tripartidarismo teressante confrontar esse exemplo com as tentativas fe.itas,. em
certas democracias populares, pa.ra ~stabelecer ~ multipartlda-
merecem aqUl ser analisados: o tripartidarismo de 1900 e o
tripartidarismo australiano atual. Sabe-se que o bipartidaris-
rismo em base social, multipartldansm~ que VInha. a dar .na
mo fundamental da opinião foi transformado em tripartidaris- mesma trindade: partido operário, partido camp~nes, parti~o
liberal ''burguês''. O domínio cres~~nte do P:U:ldo operáno
I?o por força do desenvolvimento dos partidos socialistas em
fins .do sé~l? XIX e I!rincípios do. século XX, na Inglaterra, (pràticamente comunista) não permItIU que frutifl~sse uma ex-
BélgICa, ~uecla,. Austrália, Nova Zelândia etc. Poder-se-ia pen-
periência que podia ser .interess,a~te. Mas a dlflCulda.de de
s~r em :lstematizar esse exemplo e em investigar se a tendên-
maior vulto de todo partido agrano resulta do esquar~e)a~en­
Cia ao ~esva~r p~a ~ esquerda" não tem por efeito alterar,
to perpétuo entre a esquerda e ~ direit~, Ol'~undo da dlversl~a­
em sentido trlpartidansta, o dualismo natural da opinião. J!! de de estruturas sociais campesmas: nao ha classe campesma,
um. fe?~meno. bem geral que os partidos refonnistas ou revo- mas oposição entre o proletariado agrícola e os do~os da tet;a;
lucIOnanos se tornem conservadores, uma vez realizadas as re- . mais ainda entre o pequeno e o grande campesmato; daI a
fonnas o~ ~ revoluç.ão que defendiaID, passando da esquerda dificuldade' natural· para a criação ~os partid.os campones~s;
para a direIta, e deIXando um vácuo que se preenche com o daí os limites inevitáveis da respectiva extensao, a respe~tiva
aparecimento de. novo p~rtido ~e esquerda, o qual há de seguir tendência, bem geral, para a direita e para o con~ervadon~mo,
a mesma evoluçao. AsSIm, a vmte ou trinta anos de distância, preferindo os pequenos camponeses e o p~oletanado agncola
a e~,q~~rd~ de"uma. época se torna direita da outra; o nome agrupar-se nos partidos socialis~as ou. comun~stas.
de ~mlStrismo deSIgna, justaIDente, essa impulsão constante. Os partidos camponeses sao, p~IS, relativamente ra.ros; em
Te~n~aIDente, ~ passagem do antigo partido de esquerda para todo caso jamais assumiram o carater geral dos partidos so-
a dIreIta devena acarretar o desaparecimento do antigo partido cialistas. 'Em certos países, todavia, o desenvolvimento. deles
conserva.dor, de modo que o bipartidarismo primitivo sempre tem engendrado um qu~driparti~arism~ que merece assmalar-
renascena (exemplo anglo-saxão). Praticamente, os partidos se, pois se trata de fenomeno nao. ~Ulto comum. . Esse <),u~­
de~oram a morre~, tendendo as estruturas sociais a persistir
tripartidarismo result~ da superpos~çao de ~m. p~tido agrano
mUlto tempo de.pols de .cessar~m de ser. úteis; o resvalar para ao tripartidarismo conservador-hberal-socIahsta, geral na
a esquerda con)ugar-se-Ia, pOiS, à tendencia dualista de base Europa por volta de 1900. Tal é, mais ou menos, a sit~ação
para dar origem ao tripartidarismo. Assim se sucederiam um atual dos países escandinavos, que se pode compara~ a ~a
trip~rtid.arism~ "conservadore~-liberais-radicais", depois um tri- Suíça e do Canadá. Por que é que o campesino conseguIU cnar
partidarIsmo conservadores ou liberais-radicais-socialistas" de- e manter, nesses países,. um partido pol~ti<;>. autônomo, quan?o
pois um.tripartidarismo "liber~s-socialistas-comunistas". T;aços alhures não o consegUlu? Na EscandmavIa, pode-se rel~clo­
de te~dencla semelh~te podenam .assinalar-se em vários países: nar t:sse fenômeno com tradições históricas: é que, no seculo
compoe-se ela, todaVIa, de dem~s.Iados fenômenos particulares XIX a oposição "conservadores-liberais" tomou fonna de opo-
par~ poder:se dar-lhe val~.r su;fIClen~e. Como as organizações siçã~ "cidade-campo", estando este mais à eS9ue~~a que aquela,
antigas persIstem, com frequencla, mUlto tempo, a impulsão para contrariamente ao que alhures se passava, mdlclO ~e estru~­
a esq~erda aumenta o número global dos partidos, em vez de ra social ainda elementar, repousando em desenvolVImento m-
destrurr um deles. Os mecanismos que acarretaram o nascimen- dustrial fraquíssimo ( as primeiras; revoluções for;m jacque-
to do tripartidarismo de 1900 não parecem suscetíveis de ver- ries o ) . Assim, um ·partido campones bem forte opos-;se aos se-
dadeira sistematização. nhores e aos burgueses das cidades. Mas o des~nvol~e~to d~
O atual tripartidarismo australiano repousa em base so- um partido liberal urbano e, ~epois, de um partido s?clalista fOI
cial. O dualismo "conservadores-trabalhistas", que correspon- relegando o partido campones. para. o. ~ºservad~nsmo, onde
d~ ao esquema "burguesia-proletariado", altera-se, aqui, me- de se reuniu aos seus adversárIOS pnmltivos: em fins do século
dIante representação política separada da classe camponesa, en-
o N. do T.: Jacqueries - insurreições campesinas dos séculos XIV e
carnada no Coun~ry Party. Este traduz esforço bem nítido XV na França; do nome "Jacques", muito usado entre os labregos.
para dar aos agncultores modo de expressão análogo ao do
r--..
272 Os SISTEMAS DE PARTIDOS

XIX, OS, antigos partidos camponeses tendiam a transformar-se


e~ partidos conservadores puros, quer por eliminação da velha
dir~I~a, quer po~ fusão com ela, Entretanto, certa tradição da
A
r
!
O NÚMERO DOS PARTIDOS

lovaco, quatro alemães; entre aqueles .que pareciam espalh~­


se por toda a República, alguns se onentavam, d~ fato, ma~s
especialmente, para a Boêmia ou para a EslováqUIa. , No ReI-
273

P?lítica campesma autonoma subsistira; tradição que, sem dú- chstag alemão de 1871-1914~ tinham asse?to um ~artido polo-
VIda, ,desempenhou papel no reaparecimento de movimentos nês, um partido dinamarques e um partIdo als~cIano; na In-
a,grán,os, c;Iuando a representação proporcional favoreceu o mul- glaterra, o partido irlandês desempenhou papel Importante em
tipartidansmo: na Dinamarca, o declínio dos conservadores foi fins do século XIX e princípios do século XX.
freado e a es<tu~rda (m:nstre~ muito moderada) conseguiu man-
ter o seu carater propnamente campesino; na Suécia (1911) e Assinale-se, doutro lado, a tendência polipartidarista da
na ,Noruega (1918), cons~tui-se novo partido agrário, muito direita, em. numerosos países. Na França, por exemplo, desde
maI~ moderado que os do seculo XIX. Na realidade os partidos o comt:ço do século, a esquer~ ~liga-se em dois .ou. três gran-
~ra~s re:presentam, hoje, nesses três países, fração d~ opinião de des partidos nitidamente delimItados; mas a ~reIta .se fra-
dIreIta nao o~st.ante a sua base social formada pelo campesinato ciona em multidão de pequenos grupos, . Nos PaIses BaIXOS, as
pequen~ e med~o, dando a civilização agrícola e o modo de vida divisões religiosas resultam também na divisão eS,sencial da .di-
rural. a Impressao de levar ao conservadorismo político. Pode- reita e do centro, agrupando-se a esquerda atras do Partido
se dIzer ~ mesma ~~isa do ]?artido suíço dos "camponeses e Socialista. Às vezes, esse polipartidarismo da. di;eita se. exp~­
burgueses (que, ahas, não e, exclusivamente, agrário). No ca pelo "sinistrismo": vários dos grupos de direIta atuais nao
Ca~adá, ~ntretanto, .0 Partido do Crédito Social possui orien- são mais do que antigos partidos de esquerda recalcados pela
t~çao maIS p~ogressIsta; nos Estados Unidos, os agricultores p~essão dos novos partidos que nã.o c~nseguiram, a~sorver ~pr
tem estabelecIdo partidos bem fortes localmente (sobretudo completo os antigos. O polipartidansmo de dIre~t~ rrov~m
antes das medidas tomadas por Roosevelt em favor deles n~ também da tendência dos partidos conservadores a dIVIdir-se m-
a?o de 1933) .e nitidamente reformistas. Certos partidos ;grá- ternamente e a pulverizar-se em frações rivaSs. ~ev~-~e re~a­
nos que funCIonaram, na Europa central, entre 1919 e 1939, cioná-Ia, sem dúvida, com o caráter fundamente mdI~lduahs­
apr~se~tavam c~racter,es análogo~, repousando em cooperativas tico da "burguesia", já muitas vezes assinalado; e tambem, pro-
e sm~lCatos, à Imagem. dos partidos trabalhistas; na Bulgária, vavelmente, com o fato de que a classe social mais evolu~da é,
especI~lme?te,. a orgamzação deles era bastante notável. Um por índole: a mais dife~en?i~da~ o que a con?uz a atitudes
qua~npartidansmo pareceu, às vezes, esboçar-se nesses Estados políticas diversas, A comcldencIa entre o partido e a cla~s~,
medIante as manipulações eleitorais e as ditaduras de fato. ' afirmada pelos marxistas, vale, apenas, para as classes SOCIaIS
primitivas, pouco evoluídas e pouco diferenciadas; todo pro-
~~ém _de quatro partidos, não é mais possível qualquer gresso de uma classe in~o?uz nela ~i,:e~idades, q~e tendem
cl:Ss~Ic~çao. Ponham~s .de lado o polipartidarismo, ou ten- a refletir-se no plano político e na diVISa0 dos pa~dos, .
dencIa a extrema mul~phcação dos partidos, que pode expli- Enfim, o individualismo profundo dos respectivos CIda-
car-se por ~aus~s geraIS, bastante variáveis. Há vários tipos dãos, o gosto deles pela originali?ade pessoa~, c~rto _caráter
de .poh~artIdan~m~. Poder-se-ia isolar um poli partidarismo anárquico do seu temperamento, mtroduz~m mclinaç~~ bem
nacIonahsta ou etmco, próprio aos países divididos em vários nítida para o ,polipartidarismo nos povo,s ~atino~. ~onvma me-'
grupos _históric~s ou r~c}ais; n~s~e caso, ,a~ oposições de raças ditar, a proposito" n? exem~l~ ~os SOCialistas Itali~n~s, com ,a
superpoem-se as OposIçoes SOCIaIS e pohtIcas para engendrar sua propensão classlCa a dIVIdir-se em grupos nvaIs., M~IS
compl~cação extrema: "Vinte e cinco partidos!':, constatava, me- nítido air.da é o da Republica espanhola (a Espanha e mUlto
lancolica~ente, ~d~ass~, Ministro dos Negócios Estrangeiros mais anárquica que os outros povos latinos): havia 17 partidos
da ÁustrIa-Hungna, as vesperas da guerra de 1914, dando uma nas Cortes Constituintes; 20 na Câmara eleita em 1933; 22 na
olhadela para o parlamento de Viena, onde as rivalidades en- Câmara eleita em 1936; quase se atingia o número dos parti-
tre conservadores, liberais, radicais e socialistas se com'plica- dos da Dupla Monarquia. Apesar de tudo, parece difícil ge-
vam com rivalidades entre austríacos, poloneses, tchecos, servi os, neralizar: na Alemanha imperial e weimariana, os partidos eram
croatas etc. Da mesma forma, na TCheco-Eslováquia de 1938, também muito numerosos (as divergências entre os estados
contavam-se quatorze partidos, dos quais um húngaro, um es- agravaram essa dispersão, sem dúvida, mas o polipartidarismo
274 Os SISTEMA.S DE PARTIDOS
f;
O NÚMERO D'';'.'' PARTIDOS 275

não repousava, essencialmente, em uma base nacionalista e Com estas ressalvas, não parece ~uvi~osa a tendência. do
étnica; à direita, manifestavam-se, claramente tendências anár- segundo turno a engendrar o multipartidansmo. ~astan~e. Slffi-
quicas, que hoje se vêem reaparecer)' nos' Países Baixos o pIes é o seu mecanismo: a diversidade de partid?s VlZmh~s
p~liparti~arismo é, igua!mente, sensívei; na Itália, pelo ~n­ não lhe compromete a representação global, nesse SIstema, pOIS
~ano, nao obstante fenomenos de dispersão, a opinião aglu- eles podem sempre reagrupar-se quando do escrutínio de
tma-~e no _mom.ento em torno de duas grandes tendências. As "ballottage". Os fenôm~os d.e polarização e de sub-repre-
consIderaç~es ~,ra~as da psicologia dos povos e do "tempera- sentação não entram aqUl em Jogo, ou apenas entram no se-
mento nacIonal nao parecem levar a conclusões muito claras. gundo turno. De fato, a observ~ção confirma os resulta~os
MULTIPARTIDARISMO E ESCRUTÍNIO DE DOIS TURNos. _ Atrás do raciocínio: quase todos os paIses de segundo turn~ sao,
de todos os fatores particulares de polipartidarismo, mantém-se igualmente, países de multipartidarismo. Na Alemanha Impe-
presente .um fator geral, que com eles se conjuga: o regime elei- rial, contavam-se 12 partidos, em 1914, o que corresponde,
t~ral .. VI~-se_que o sistema majoritárilLde--um-tumo_tende.-1lO __ aliás à média geral (11 partidos de 1871 a 1887; 12-13 de 1890
a 1893; 13-14 de 1898 a 1907); se dt:sse total se desfalcassem
Eparhdansmo; pelo contrário o escrutínio majoritário. de dois
turnos-oua r~1jTei~~çlíOpr:;POraonãrteiidem Qo. multiparti- os três grupos nacionais - alsaci~no, polonês, .dinamarq~ês -
,dansmo. As mfluenclaS de um e de outro não são ãbsoluta- cuja formação não se podia relaCIOnar com o SIstema eleIto~al,
m~nte idênticas, sendo mais difícil de precisar a do regime de restavam 9 partidos, dos quais dois grandes (centro-cat6lic?
d~Is turnos: Trat~-se, ~m efeito, de técnica antiga, que quase e sociais-democratas, reunindo cada um cerca de cem cadeI-
nao se aplica maIS hOJe em dia. A França foi a única a lhe ras) três médios (conservadores, liberais nacionais, progres-
permanecer fiel. até 1945 (a última eleição geral realizou-se sista~ cada um com cerca de 45 cadeiras); 2 pequenos (de

I
em 1936); a maIOr parte dos outros países abandonou-a desde 10 a' 20 cadeiras) i tratava-s~, pois, ~e. multipa,rtidarismo rea~.
o começo do s~culo XX; a Bélgica, em 1899; os Países Baixos, Na França, durante a TerceIra Republica, o numero de parti-
em 1917; a SUlça, a Alemanha e a Itália, em 1919; a Noruega dos foi sempre muito elevado: conta~am-se 1~ grupos parla-
em 1921. Por conseguinte, dispõe-se de número bem restrit~ mentares na Câmara de 1936; esse numero fOI, por vezes, ul-
de eleições que permitam a oDservação dos resultados do se- trapassado. Sem dúvida, certos .grupos mu~t~ pequenos r;tão
g~n?o turn?; acre~ce que se desenrolaram em regime de su- correspondiam a qualquer orgaruzaçao partidana verdaderra;
fragIO restnto (ate 1874 na Suíça; até 1894 na Bélgica; até apesar de tudo, raramente houv~ menos de 6 parti~os. N~s
18?8 na Noruega; at~ 1913 na Itália; até 1917 nos Países Baixos).
Países Baixos, contaram-se 7 partIdos em 1918, depOIS de maIS
Ali~s, aconte;e?, mUl~s ve~es, que, nessa época, não se estabe- de vinte anos. Na Suíça, quatro partidos principais estavam
l~c~am estatísticas eleItoraIs precisas (não houve estatísticas representados no Parlamento federal. Na Itália, ~nfim,. en-
senas na Suíça, Suécia, Itália antes do estabelecimento da contrava-se uma infinidade de pequenos grupos, mstáveIs e
R.P.; nem na Noruega antes de 1906, nem nos Países Baixos efêmeros, que não chegavam a aglutinar-se em partidos ver-
ant~s .de. 1898). . Por outro lado, as modalidades do regime dadeiros.
maJontáno de dOIS turnos eram muito variadas: escrutínio de A tendência ao multipartidarismo é evi~ente, pareceI?-do
list~ na Suíça, na Bélgica e, parcialmente, nos Países Baixos assumir duas formas bem diferentes. Na SUlça e nos PaIses
(ate 1888); na Noruega, até 1906; escrutínio uninominal na Baixos trata-se de multipartidarismo ordenado e limitado; na
Alemanha, na Itália (a não ser de 1882 a 1891); na França Itália, 'de multipartidarismo an~r9ui~ e des~r~enado; a Al~­
quase sempre; na Noruega desde 1906 e nos Países Baixos manha e a França ocupam posIçao mtermediána. Poder-se-la
desde 1888; segundo turno limitado aos dois candidatos mais pensar em explicar essas diversidades por diferença~ r;tas moda-
favorecido~ na Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Itália; segun- lidades de sufrágio, mas os resultados, ness,e dommIO, ~ece~­
do. turno livre .n~ Franç~, Noruega, Suíça (desde 1833); ter-
cionam. O escrutínio de lista parece favoravel ao mulhparti-
darismo ordenado e limitado, na Suíça e na: Bélgica; não mo-
cerro turno (exIgmdo-se, Igualmente, a maioria absoluta no se- dificou, no entanto, a anarquia italiana no período 1882.-189_2.
gundo) na Suíça antes de 1883. Não pode ser, pois, idêntica quando se aplicou à península; é verdade que essa aplicaçao
em toda parte a influência geral.
foi por demais breve para a reforma poder dar todos os seus
- 276 Os SISTEMAS DE PARTIDOS f O NÚMERO DOS PARTIDOS
277

flUtos; entretanto, o escrutínio uninominal funcionava nos Países d . do sistema da run-off prima-
nÚDlero das facçõesdantes e epoalS exceção à tendência multipli-
Baixos, onde a ordenação era mais forte que a da Suíça (lá, os . t ' de segun o turno: ess f d
partidos eram mais numerosos, porém melhor organizados). O ry, lS o de, d turno parece explicar-s'e pelo ato e que,
caráter livre ou limitado do segundo turno também não tem cadora o segun o .' d te o período estudado, uma
nesses dois estados, eXIstia, uran a obter a maioria desde a
influência; a primeira modalidade parece ter acentuado a ten- facção muito influente, que ame~~av arem-se 6
dência multipartidária na França, mas não na Noruega, onde . a'ria o que levava os adversanos a a~rup . tínio
apenas três partidos existiam (mais um quarto, no fim do pe- pnm , _ são raramente posslvels com o escru
As comparaçoes _ dá com a proporcional: em
ríodo); aliás, o segundo turno era limitado na Itália e na Ale- de um turno, mas o mesmo nao sdoiS turnos cederam o lugar
manha: A natureza mais ou menos restrita do sufrágio talvez
quase toda parte, rebalmente, ~s tendem ao multipartidaris-
haja desempenhado um papel mais nítido nesse domínio: nos
à R. P . Todavia , _am os os regunes .. d
't menos interesse, ~nrul:íIl o,
Países Baixos, a lei Van Houten, de 1896, dobrando o número araçao tem mUI o AI
dos eleitores, também aumentou de 4 pªra 7 o dos partidos; mo; a com.P u de influência de cada sistema. a ema-
todavia, o sufrágio era muito limitado na Itália, onde a anarquia apenas, m~ o gra 1920 1932 a média dos partidos re-
nha de Welmar, e?tre e m 'ouco su erior a 12, o que
chegava ao auge. Entretanto, esta última tem de ser excluída, presentados no RelChs:ilig ~ra u. I p mas os &ês partidos nacio-
se ~ssem~lha à AJema ar:c:doP:~6; 1919; registra-se, pois, um
sem dúvida, completamente, da nossa comparação, porque,
antes de 1914, era menos sujeita a regime multipartidário do
que a total ausência de partidos, o que não é, absolutamente,
nalista~ tita3~% ~:PSuíça a representação proporcional acar-
aurnen o e .' d ' tido dos camponeses e burgueses.
a mesma coisa. Em suma, as diferenças no número e na per- retou o apareclmen~~ o( P::cidos na última eleição majoritária)
manência dos partidos, em sistema majoritário de dois turnos, Na Noruega, os agr Ano~ n tar de uni momento para outro.
parecem vir muito mais de fatores nacionais particulares do viram a sua importancla aumen . . d R P bem
.t 7 partidos no regIme a . .,
que de modalidades técnicas do regime eleitoral, não colocan- Nos Países Baixos, eXIS em dos 7 é o Partido
do em dúvida a tendência geral ao multipartidarismo. como no sistema dos d?is ~mos, mas d~~s e a União Liberal
Para precisar a natureza e a força desta última, ter-se-ia Comunista, estando os liberru~-conserva trata a bem dizer de
de comparar, num mesmo país, o estado dos partidos sujeitos fundidos desde 1922, de ~o o q~geo:e Na França a repr~sen­
aos dois turnos e o estado dos partidos em outro sistema elei- diminuição dos agrupam~n os an d~zido o ntm:ero dos par-
tora~ representação proporcional' ou sistema de turno único. tação proporcional p~~ecIa ha~er ~ 15 rupos na Assembléia
Com este, o confronto seria particularmente interessante: po- tidos em 1945, mas Ja se ~n aV~âmaragdos Deputados eleita
der-se-ia apreender a própria índole da tendência multiplica- Nacional de 1946 (contra na nesse desconto os grupos
dora dos dois turnos ante a tendência dualística do turno úni- em 1936); é verdade que se enqua~ram . tiam em 1936 Na rea-
co. Infelizmente, país algum jamais conheceu, sucessivamente, dos deputados de ultr~mar, ~ue :a~~ :~ito breve pa~ os seus
o escrutínio de dois turnos e o escrutínio de turno único. O lidade, o sistema func~ona ha. ~ R· hstag de 1919 contava,
único exemplo possível de invocar, nesse domínio, é o de certas efeitos já se terem feIto sen: .. ofaz:~c crer em efeito reduzido
primárias norte-americanas. Vimos que, no Texas, o estabeleci- apenas, 5 partidos, o que.po lena as havia 10 partidos em 1920;
mento de segundo turno acarretara multiplicação dos candida- d a repre sentação proporCIOna; m . d
E definitivo, os efeItos o segun o
d
tos e das facções inte~as do Partido Democrata (Fig. 25, p. 12 em 1924; 14 em 19t28~ mproporcional sobre o número dos
256). De cinco primárias de turno único, entre 1908 e 1916, turno e da represen açao . t a que
houve quatro "indicações" de dois candidatos e uma só de três; artidos não parecem diferentes: é .mais a estru~:; ::Utura
de quinze primárias de dois turnos, entre 1918 e 1948, contam- ;e modifica, o caráter pessoal e sutil ce1~u!a{945' na Itália, de
se quatro indicações de dois candidatos, apenas, para quatro de rígida, tal como se viu na Fran~a: de . . á· d~ dois turnos
três candidatos; três de quatro candidatos; duas de cinco can- 1913 a 1920. Talvez o escrutllllO maJondt pOR P J·á que um
didatos; uma de seis e uma de sete (note-se: sem contar os d d· - menor que o a . .,
possua força e lspe~ao d rtidos parece ser a conse-
candidatos fantasistas, que não obtiveram, pelo menos, 5% dos ligeiro acréscimo do numero e pa
votos). O mesmo fenômeno observa-se na Flórida. Em compen-
sação, na Geórgia e no Alabama, não há diferença entre o 6 V. O• Key, Southem Politics, Nova York, 1950, p. 422.
1\

I~
'1
O NÚMERO DOS PARTIDOS 279
1.78 Os SISTEMAS DE PARTIDOS
tidos tendia a pôr em xeque as disposições legi~lativas que pre-
q~ên?a p~v~ca?~ pe~ aplicação desta; atua ele, porém, em viam o segundo turno conjugando-se ao dualismo deles; mas
dueçao maIS mdlVIdualista, de modo que os partidos são mais este resultavá da na~reza das lutas políticas da Bélgica de
profundamente divididos dentro deles próprios. então. A divisão entre o Partido Católico e o Partido Libera]
: A única exceção verdadeira à tendência multipartidária do repousava, integralmente, no problem.a relig~oso e na que~tão
segundo turno é a da Bélgica, onde, até 1894, confunne se educacional em um regime de sufrágIO restrito que impedia o
saó~, ~ncionou um bipartidarismo rigoroso; o aparecimento do desenvolvi~ento do socialismo. A influência da Igreja, que
soclalisn,t0' ne~sa data, logo suscitou um processo de eliminação criara o primeiro, mantinha fortemente a sua unidade e o pre-
do ~artido Liberal, processo sustado pela representação pro- servava de qualquer cisão; ante esse bloC? poder?so, qualq~er
porcIOnal: entretanto, existia, nesse país, o segundo turno. Tra- divisão dos liberais os reduziria à impotênCIa. A umdade católica
t~v~-se, se~ dúvida, de esc~tínio de li~ta e de segundo turno era cimentada pela pressão religiosa e educacional ~ pela inter-
limitado, diversamente do sIStema frances: deviam enfrentar-se venção centraJizadora do clero; mas o bloco aSSlfi fonnado
apenas, os candidatos mais favorecidos, em número duplo. da~ -ocupava no país situação tal que podia ter a maioria absoluta
cadeiras .a preencher. Mas esse caráter parece não influir, a na Câmara; de fato, a teve de 1870 a 1878 e de 1884 a 1914.
tal respeito: na Alemanha, nos Países Baixos, na Itália o se- Era pois muito perigoso para os liberais dispersar-se; por terem
gundo ~rno era, igualmente, limitado, sem possibilid~de de incidido nesse erro, em 1870, após treze anos de poder, e por
aescob~ uma. tendência para o bipartidarismo; na Suíça, o se haverem (lividido em velhos liberais (doutrinários), jovens
escrutíruo de lista engendrara cinco partidos, sem manifestação liberais (progressistas) e radicais, perderam. o poder. ~i~eram,
dualista sensível. A distinção do direito e do fato parece mais portanto, um esforço sério para se reor.gamzaz: e_reunificar, o
interessante: o segu'ldo turno era previsto pela lei eleitoral que lhes restituiu o poder, em 1878, depOls da cnaçao da Federa-
belga, mas não funcionava, na prática, pois apenas dois parti- ção Liberal (1875). Divididos; entretanto, novamente, no to-
dos, se enfrentavam. :It aqui que cabe ressaltar a dependência cante à questão do sufrágio, tomaram a per?ê-Io em 1884, se~
reciproca dos fenÔmenos políticos: se o sistema eleitoral influi chegar a reconquistá-lo antes do estabeleCimento do s~rá~o
sobre a organização dos partirlos, esta reage àquele. O universal. N a realidade, o Partido Liberal belga nunca fOl senao
bipartidarismo da Bélgica opunha-se, assim, à aplicação do se- uma coligação de tendências variadas, ~das apena~ no pl~o
gundo turno. O problema, no entanto, simplesmente se desloca: eleitoral, por causa da força do adversário; te~dênClas~ porem,
trata-se, tão-só, de saber por que é que a possibilidade de se-
gundo turno não provocou a dissociação dos grandes partidos
tradicionais. Dois fatores parecem haver desempenhado
papel detenninante nesse domínio: a estrutura interna dos
partidos, de um lado, a natureza das lutas políticas, de
II que não tardaram a deslocar-se no Governo. Ass~.: as difere~tes
frações do Partido Liberal n~~ca c~egaram ~ ~Isao verd~delfa,
porque a força do Partido Catobco ?ao o I?ennltia; o. m~cru:lsmo é
mais ou menos idêntico ao que lfipedlU a multiplicaçao das
facções entre os democratas da ~órgia e do .Alabama, apesar
outro. Todos os observadores se impressionaram com o ca- do desenvolvimento da run-off pnf1Ulry, em Virtude do caráter
ráter original dos 'Partidos belgas, na segunda metade do dominante das equipes de Eugene Talmadge e Bibb Graves.
século XIX; todos lhes descreveram a coesão e a disciplina,
bem como a rede complexa e hierarquizada dos co-
\ Através da evolução política belga, no sécu~o XIX, per~be-s.e,
ao vivo, a ação aglutinadora da ~~aça cat.ólica. so~re os liberaIS,
mitês que animavam em todo o território. Nenhum país euro- I ação que pÔs em xeque a tendencla multipartidansta do escru-
peu possuía, na época, sistema de partidos tão aperfeiçoado; :1 tínio majoritário de dois turnos.
nem sequer a Inglaterra ou a Alemanha. Essa forte annadura
MULTIPARTIDARISMO E REPRESENTAÇÃO PROPORCIONAL. - A
interna permitiu aos partidos belgas resistir, vitoriosamente, à J
tendência dissociadora do segundo turno, obstando as cisões que tendência multiplicadora da repfesentação proporci.o?al deu
este teria perpetuado. Tal enquadramento acentuado dos elei-
tores impedia o aparecimento de partidos n~vos, que dificil-
~ motivo a numerosas controvérsias. Geralmente admitida pela
opinião corrente, foi criticada, de modo peneuante, por certos
mente podiam montar uma "máquina" rival; ainda mais que o \ 1 H. Tingsten, Matoritetsval 000 proporlionalism (Riksdagens pro-

!
escrutínio de lista tolhia, praticamente, a intervenção de perso- tokoll bihange), Estocolmo, 1932.
nalidades independentes. Assim, a robusta organização dos par-
280 Os SISTEMAS DE PARTIDOS o NÚMERO DOS PARTIDOS 281

observadores, por exemplo, Tingsten. 7 De fato, se se conside- mo, desprezando os partidos muito pequenos, que não reúnem
rarem. os partidos frances.es antes de 1939 (regime majoritário mais de uma ou duas cadeiras em eleições isoladas. A Bélgica é
de dOIS turnos) e os partidos franceses depois de 1945 (repre- o único país que conta 4 partidos e tende a voltar a 3, com o
sentação proporcional), não se lhes constata aumento do núme- enfraquecimento do Partido Comunista; mas trata-se sempre de
ro. Podia-se até notar certa diminuição em 1945-1946; mas um multipartidarismo.
desde então, a direita voltou a fracionar-se o Partido Radicai Aliás, este último exemplo merece ser examinado mais de
readquiriu impor~ncia, o Rassemblement du Peuple Français perto, porque permite apreender, ao vivo, a ação da representa-
nasceu, o que maIS ou menos restabeleceu a situação anterior. ção proporcional oposta a qualquer evolução para o bipartida-
Mais impressionante, sem dúvida, seria ainda o exemplo belga: rismo, que podia manifestar-se no momento em que ela se esta-
com a r~pr~sent~ção proporcional funcionando há cinqüenta belece. Temos, aqui, de tornar à comparação entre a Bélgica e
anos, a BelgIca a.~da apresenta o mesmo tripartidarismo inicial, a Inglaterra, sujeitas ambas ao dualismo, que o aparecimento do
nem sequer modifIcado pela presença de um partido comunista Partido Socialista destruíra em princípios do século XX. Cin-
aliás fraco. ' qüenta anos depois, a Inglaterra, que conservou o seu escrutínio
A controvérsia parece repousar em uma confusão entre a majoritário, regressou ao dualismo, ao passo que o tripartida-
ação. técnica de m.ultiparti~arismo, tal com se definiu neste livro rísmo de 1900 se manteve, na Bélgica, pela adoção da R. P. As
(regIme com. maIS de dOIS partidos), e a noção corrente de eleições belgas de 1890 a 1914 são muito interessantes de estudar
m~ltiplicaçãó, implicando aumento do número dos partidos a esse respeito (Fig. 29). Em 1890, o sufrágio restrito ainda não
eXIStentes no momento de uma reforma proporcionalista. :E: pos- permite aos socialistas representação parlamentar; o bipartida-
sí~el que não s~ produza semelhante aumento, o que dá razão a rismo funciona sempre. Em 1894, a adoção do sufrágio univer-
~mgs~en.. Mas e certo,que a R.P. sempre coincide com o mul- sal dá 25 cadeiras aos socialistas, ao passo que o Partido Libe-
tipa~dansmo: em pars algum do mundo a representação pro- ral cai de 60 para 21 (embora tenha número de eleitores duas
porCional engendrou ou manteve um sistema bipartidarista. :E: vezes superior ao dos socialistas: mas a "sub-representação" o
claro que se desenha uma polarização, atualmente em torno prejudica). Em 1898, nova queda do Partido Liberal que desce
de dois partidos, na Alemanha e na Itália: os democr;tas-cristãos para 13 cadeiras; dessa vez, a "polarização" se acrescentou à
e os socialistas-comunistas (que se podem considerar um s6 "sub-representação", tendo grande número de antigos eleitores
bloco, sendo os primeiros cegamente submissos aos segundos) liberais votado nos católicos. O processo de eliminação do Par-
ocupam 488 das 574 cadeiras da Câmara italiana; os sociais- tido Liberal já está muito adiantado; pode-se, legitimamente,
democratas e o C. D. U ., 270 das 371 cadeiras do Bundestag. pensar que bastassem duas ou três eleições para terminá-lo.
Apesar de tudo,. há 6 partidos na Alemanha e 8 na Itália, ten- Adota-se, porém, a representação proporcional em 1900: ado-
dendo o respectivo número a aumentar em vez de restringir-se. ta-se, justamente, porque os cat6licosquerem sustar esse aniqui-
Na realidade, surge uma tendência bipartidária na opinião lamento do Partido Liberal para não terem de erurentar sozi-
alemã, ~endência que ~asceu nos ú.ltimos anos do Império (com nhos os socialistas; o número das cadeiras liberais sobe a 33.
o '7escImento da sO~lIll:democraclll), que se afirmou nos pri- Elevar-se-á a 42, após os escrutínios de 1902-1904 (provavelmente
merr?s .anos da Repubhca de Weimar e que ora renasce na por "despolarização": os antigos eleitores liberais, que haviam
Republi~a ~e Bonn; mas a representação proporcional se tem deixado o partido, após 1894, para concentrar-se no Partido
opo~to, m;'pIedo.samente, à sua tran.sposição para o Elano dos Católico, voltam ao seu antigo amor, cumprido o mecanis-
partidos, Impedindo qualquer polanzação em torno da demo- mo da representação proporcional), para, finalmente, se esta-
iJ cràcia-cristã e dos socialistas. Seja como for, a Alemanha e a bilizar entre 44 e 45. Com esse salvamento do Parti~o Liberal

i
Itália são multipartidaristas, como todos os outros países sujeitos belga pela R. P. poder-se-ia comparar o da direita dinamarque-
à representação proporcional. Encontram-se 4 a 5 partidos na sa. Mostrou-se que o processo de eliminação a atingira nas
Irlanda, Sué,cia e Noruega; 6 a 10 nos Países Baixos, na Di- últimas eleições majoritárias (13 cadeira~ em 1910, 7 em
namarca, SUlça e Franca, tal como na Alemanha Ocidental e na 1913, não obstante o esforço desesperado para multiplicar o
I Itália; enfim, mais de 10 na Alemanha de Weimar Tcheco-Eslo-
váquia de antes de Munique, Espanha republica~a; assim mes-
número dós seus candidatos). Em 1918, a adoção do sistema
misto (corrigindo os resultados do voto majoritário mediante
,l'1
:1
',1
282 Os SISTEMAS DE PARTIDOS
O NÚM!:RO DOS PARTIDOS 283
cadeiras complementares atribuídas à R. P.) faz esse número
elevar-s~ a 1~; em 19~O, a r~pr~sentação proporcional propria- que não lhe haviam podido ser dados, por causa da sua ausência.
~ente ~Ita da 28 cadeIras à dIreIta e estabiliza-a em turno dessa Esses dois efeitos são puramente mecânicos: o primeiro pro-
CIfra ate 1947.
duz-se, inteiramente, desde a primeira eleição; o segundo nem
80
sempre atinge, desde logo, a sua plena eficácia; sobretudo, se ()
70
partido "ressuscitado" pela representação proporcional estiver,
na verdade, monbundo, porque não pode chegar, de um instante
60 para outro, a apresentar candidatos em todos os pontos nos
quais isso vem a ser, novamente, possível. Desde o segundo
escrutúúo, porém, readquire essas últimas posições, também
I
"
encontrando, nos outros, eleitores que dele se tinham desviado
em regime majoritário, a fim de não perderem os seus votos e
I' fazerem o jogo do adversári?: a polarização ~o escrutín!o de
li
!,
30 turno único deixa de ter sentido na representaçao proporcIOnaL
em que voto algum se perde (pelo menos, teoricamente); dai o
I
20 processo inverso de "despolarização".
ri
I~ O primeiro efeito da representação proporcional é, pois,
1D sustar qualquer evolução para o bipartidarismo: Ilode-se consi-
derá-la, a esse respeito, um freio poderoso. Nada leva, aqui, os
o"-;;t~'L-~:--_~ partidos de tendências vizinhas à fusão, pois a divisão não lhes
1890' 1902- 1906· 1908- 1912
1892 190,. 1908 1910 causa prejuízos, ou poucos lhes causa. Nada obsta as cisões
FIG. 29 ;- o "Salvamento" do Partido Liberal Belga pela R.P dentro dos partidos, pois a representação global das duas frações
(numero de cadeiras na Câmara dos Deputados). separadas não será reduzida, mecanicamente, em virtude do
sufrágio; pode ela reduzir-se, psicologicamente, pela desordem
Assinale-s~ que o salvamento do Partido Liberal belga se que semeia entre os eleitores, mas o escrutínio, nesse particular,
operou em dOIS te~p.os. Na primeira eleição proporcional, o não desempenha papel algum. A única atenuação à tendência
a~mento resulta, prmcIpalmente, de fatores mecânicos: a ausên- profunda para conservar o multipartidarismo estabelecido pro-
Cia ?e sub-representação e a multiplicação dos candidatos; a vém do caráter coletivo da representação proporcional, que
parh~ da _s~,gunda, acresce-se-Ihe um fator psicol6gico: a "des- exige organização, disciplina, armadura partidária. Opõe-se,
polanzaça? . ~sses. fenômenos são inversos àqueles que engen- assim, às tendências individualistas e anárquicas que, por vezes,
?r~m o bIpa~hdansmo. em regime majoritário. Enquanto este o escrutínio de dois turnos engendra, acarretando, então, certa
ulh~o se aplIca, o partIdo ~olocado em terceiro ou quarto lugar aglutinação dos grupos minúsculos e m6veis que dai resultam.
esta sub-repre.senta/d~ relahva~ente aos outros; a sua porcenta- Na Itália, por exemplo, a representação proporcional parece
gem de cadeIras ~ mferior a sua porcentagem de sufrágios, haver reduzido o número dos partidos, em 1919, fortificando os
~er~anec~ndo a ~f~r:nça constantemente maior que nos seus socialistas e criando, principalmente, o Partido Democrata-
nvaIs .. Ate por defimçao, a representação proporcional suprime Cristão de Dom Sturzo. O fenômeno de redução é, sobretudo,
essa dIfere.nça para todos os partidos: aquele que estava mais sensível à direita e ao centro, onde mais desenvolvida é a anar-
desfavorecIdo antes ve.m a ser o mais beneficiado pela reforma. quia. A representação proporcional desempenhou certo papel na
Po~ o?tr~ lado, o partido em via de eliminação pelo escrutínio unificação das classes médias e "burguesas" em tomo dos parti-
maJ~nt~no era forçad? a recuar em certas circunscrições, e a dos cat6licos, na França, em 1945, na Itália, em 1920 e 1945;
supnmIr os seus candIdatos nas circunscrições onde não mais igualmente, na respectiva unificação em tomo dos partidos
existia l?ara ele ~sp.erança alguma de vit6ria; a representação fascistas na Itália e, principalmente, na Alemanha. Nessa medi- 1
proporcl~nal reshtUl.~~, em toda parte, as suas possibilidades da, o regime proporcionalista atenua, por vezes, o multipartida- ~
I)
(na medIda em que e mtegral) e lhe permite recuperar votos rismo, sem nunca o suprimir. sem nunca chegar ao bipartida- I,
I,
rismo.
284
'I
,i,' ,
'I:
Os SISTEMAS DE PARTIDOS O NÚMERO DOS PARTIDOS 285 , ~
I,

Absolutamente diverso é o problema do aumento pela R.P. Democrata, 5 do bloco dos expulsos e espoliado~, 2 do p~rtido
do número dos partidos existentes. Cinge-se ela a manter o de Slesvig do Sul (pro-dinamarquês); com a mtervençao do
multipartidarismo estabelecido, nos limites que se acabam de sistema proporciona~ o bloco governament~l. conservou as suas
definir, ou o faz evoluir para o poliparndarismo? É bastante de- 31 cadeiras, sem alteração alguma; os SOCIaIS-democratas, l?elo
licado responder: o efeito multiplicador da representação pro- contrário, passaram para 19; os e~ulsos para 15: e os fró-dma-
porcional não é contestável, mas não parece ter a amplitude que,
com freqüência, lhe atribuem; esse efeito exerce-se, sobretudo,
em certos rumos bem determinados. Sobre a própria existência
marqueses para 4. Se o próprio numero dos partidos r;tao cresce,
o aumento dos pequenos grupos atua no mesmo .s~nbdo. Os re-
sultados são análogos 'em Hesse, onde os soclals-democratas
\
I
desse efeito multi:elicador, podem-se fazer as observações mais obtiveram 36 cadeiras no voto majorit~o, os liber~s 8 e os
interessantes na Alemanha atual, onde vários Liinder são do- cristãos-democratas 4, elevando-se estas c~ras, respectiva~ente:
tados de regime eleitoral que conjuga o voto majoritário de para 47, 21 e 12, após a correção prop?rc~on~l:. Na BaVlera, e
um turno e a representação proporcional. Parte dos deputados mais nítido o efeito multiplicador: . a dIst~~Ulça~ dos mandatos
(314 na Vestfália-Renânia do Norte, 2/3 em Slesvig-Holstein e majoritárioc dá 46 cadeiras ao Partido Cnstao Bavaro (C.S.l!.),
em Hamburgo, 3/5 em Hesse, metade na Baviera etc.) é eleita 38 aos sociais-democratas, 16 ao Partido Bávaro e 1 ao Partido
no escrutínio majoritário 'simples de turno único; outra parte, Liberal; praticamente, apenas 3 partidos estão, pois, r~pre.sen­
pelo sistema proporcional, ou em listas complementares, ou por tados. Mas, com o créscimento dos mandatos p~oporclOnru.s, o
meio de duplo voto bastante complicado. O sistema inspira-se C. S. U. tem 64 cadeiras, os socialistas 63, o Partido Bávaro 39,
o Partido Liberal 12 e o bloco formado pelos expulsos e e~ao­

I
nas eleições para o Bundestag da República federal, onde, em
1949, 242 deputados eram eleitos no escrutínio majoritário de Hados mais a "comunidade alemã" 26, de modo que 5 parti os
um só turno e 160 designados em listas estabelecidas pelos tomam assento, em definitivo, na Dieta. Pode-se comparar esse
partidos, de modo a corrigir, em sentido proporcional, os re- resultado com as eleições para o parlamento de Ha~burgo ~e
sultados do voto direto. Na medida em que as estatísticas elei- 10 de outubro de 1949: em 72 eleitos pelo voto plurahsta, baVla
torais permitam distinguir os resultados do escrutínio majoritá- só dois partidos, os sociais-democratas (50 eleitos) ? uma ,~­
rio e os da distribuição proporcional ulterior, pode-se avaliar a ligação liberal-democrata cristã que aprese~tara candidato~ um-
influência multiplicadora desta última. Não esquecer, contudo, cos (22 eleitos); após a intervençã~. do sIste~a propo!clOnal,
que o conjunto de escrutínio se desenrola em um quadro propor- mais 3 partidos entraram n~ AssembleI~: o Parti~o Alemao Con:
servador (9 eleitos), o Partido ComUlllSta (5 eleitos) e um Par
cional, que influi na psicologia dos eleitores; estes sabem, espe-
tido Radical (1 eleito).
cialmente, que os votos dados por eles a candidatos que se
podem supor colocados em terc~iro ou quarto lugar não serão Não parece, pois, contestável o efeito mul?plicador da
perdidos, como acontece no sistema majoritário simples, pois a representação proporcional, perm:m~cen~o, todaVia, geralm~n­
distribuição complementar tem, justamente, a finalidade ae re- te, limitado: e ainda temos de distingmr se a R.P. se aplica
.' cuperá-Ios. Por consegt1inte, os mecanismos da "polarização" após o escrutínio de dois turnos,. que engendra, ele ,p~ópno, o
hão funcionam, ou funcionam muito pouco. Daí resulta que o multipartidarismo, ou após o SIstema ae turno. umco, 9u~
efeito aglutinante do escrutínio majoritário se atenua, do mesmo tende para o bipartidarismo. Na~~lme~te, o efeIto multipli- "
modo que o efeito multiplicador da R. P. relativamente a ele. cador é menos pronunciado na pnrneua hipótese que na segun-
Este último permanece, apesar de tudo, perceptível. Na Dieta da. Já se viu que o aumento do n~ero dos partidos não é
federal, os eleitos das circunscrições representavam, em 1949, muito sensível quando o voto de dOIS tu~o~ cede ~ugar à re-
cinco partidos, apenas, depois da representação proporcional, o presentação proporcional: não houve acrescI.m~ mwto notável ~

Bundestag contava 4 partidos a mais: comunistas, Zentrum, nos Países Baixos e na França; houve um ligeuo aumento na I

D.R.P. (extrema direita) e W.A.V. (partido de Lorentz). Suíça e na Noruega e um aumento mais sensível na Alemanh~a. !

No escrutínio de 1950 para a Dieta de Slesvig, o bloco eleitoral Mesmo assim, esse tênue aumento, após ano~ de representaça?
formado pela C. D. U. (democratas-cristãos), o F. D. P . (Par- proporcional, se pode explicar por fatores_diferentes; o na~cI­
tido Liberal) e o D. P. (Partido Alemão Conservador), con- mento dos partidos comunistas, ~m 1920, n~o resulta do regune
seguiu 31 cadeiras no voto majoritário para 8 do Partido Social- eleitoral, embora este tenha podIdo favorece-lo. Se se passar do
286 Os SISTEMAS DE PAR11DOS

~o único para a representação proporcional, o efeito multi-


plicador parece mais nítido, conquanto mais difícil de determi-
nar, porque as observações são, no caso, muito limitadas, visto
r O NÚMERO ws PARTIDOS 287

de obter duas cadeiras, e pelo aumento súbito do pequeno Parti-


do Agrário (criado quando das eleições precedentes e até então
que só doi.s países f!z~ram a ~. P. suceder a um regime de muito fraco), que passou de 36492 votos para 118 657 e de 3
voto. pluralista: a SueCla e a Dmamarca. A Suécia passou de 3 cadeiras para 17.
p~rtidos, em 1908, para 5, hoje; na Dinamarca, o respectivo Entretanto, esse efeito da representação proporcional é
numer~ e~evou-se de 4, em 1908, para 7: o aumento parece bas- muito limitado; em conjunto, a R. P. mantém mais ou, menos
tante limitado. Entretanto, a Guerra de 1940 restringiu o nú- intacto o arcabouço dos partidos existentes no momento em que
mero dos partidos, na maior parte dos países, de modo que o aparecem. Nunca tem o poder atomizante que alguns lhe em-
confronto vem a falsear-se: relativamente ao pré-guerra o prestam: na maioria dos casos, os cismas nela se traduzem pela
aumento teria sido mais sensível. Por outro lado as cifras acima divisão de um grande partido em dois outros, os quais, em
não levam em cont~ partidos p.equeninos, efême;os e movediços, seguida, conservam as suas posições através das eleições se-
que. a representaçao proporCional tende, justamente, a fazer guintes. A tendência multiplicadora manifesta-se menos pela
proliferar, conforme se vai ver. divisão dos partidos antigos do que pela criação de partidos
Se se quiser precisar o mecanismo de efeito multiplicador novos; assim mesmo, é preciso frisar que se trata de pequenos
da R. P " ter-se-ão de distinguir o secionamento dos partidos partidos. Por menosprezar essa noção, alguns têm negado,
antig~s e o ap~recimento dos partidos novos. O primeiro não é
com aparência de verdade, o caráter multiplicador da R. P .
propno ao regime proporcional: os cismas e as divisões são raros Quase todos os regimes proporcionalistas aplicados efetivamente
em regime ~ajoritário; .0 Partido Liberal inglês teve muitos, tomam precauções para evitar esse aparecimento de pequenos
antes e depOls do apareclmento do Labour. Mas eles conservam, partidos, que é o fruto natural do sistema: sabe-se, por exemplo,
en~ão, um caráter provisório e limitado: essas duas frações se
que o método de Hondt, ou o da mais forte média, que funciona
r~unem após certo tempo, ou uma delas vai juntar-se ao partido
na maior parte dos Estados proporcionalistas, desfavorece, de
nval (~xemplo dos liberais-nacionais, praticamente integrados forma nítida, os pequenos partidos e tende a compensar, assim,
no .Partido ~~oservador). Pelo contrário, em regim~ proporcio- as conseqüências da RP. Pode-se dizer outro tanto do sistema
nalista,_as cI~oes tendem a perdurar, porque o escrutinio impede holandês, que afasta da partilha das sobras todas as listas que
as fraçoes divergentes de serem esmagadas pelos rivais. O esta- não tiverem obtido, pelo menos, o quociente eleitoral No fundo,
!>elecimento da. RP. coincidiu, pois, muitas vezes, com cismas a representação proporcional integral não existe em parte al-
mtemos de partidos antigos, quer se trate de cismas confessados guma, não tanto por causa das suas dificuldades técnicas (que
(um pa~~o antigo cinãe-se em duas metades novas, que con- S~? r~lativa~~nte fáceis. de vencer) quanto por suas conse-
tinuam fi~IS a ele), quer d~ ~smas disfarçados (um partido quenClas políticas e, particularmente, da sua tendência a multi.
que se aflrIDa novo se constitui com uma porção de chefes e plicar os grupos mais ou menos minúsculos e mais ou. menos
quadros de antigos partidos, o qual subsiste). Assim, na Suíça, móveis.
a R.P. fez nascer, desde 1919, o partido dos "camponeses e Apesar de tudo, essa tendência profunda sempre triunfa das
barra~e~s que lhe opõem. Limitemo-nos, aqui, a alguns exem-
I

burgueses", oriundo, praticamente, da cisão radical. Na Suécia, "

~oram necessá~os uns anos de recuo (1911-1920) para ser, plos tipICOS. Na Noruega, nas primeiras eleições proporcionais,
19uahnente, cnado um partido agrário, proveniente, na realida- de 1921, a'parecem 2 pequenos partidos novos, os democratas.
de, de uma. cisã~ do Partido Conservador, ao passo que, em radicais, com 2 cadeiras, e os socialistas de direita com 8
1924, o ~artldo Liberal se rompia em dois ramos (reunidos, em cadeiras; em 1924, um terceiro partido junta-se a eles, ~ Partido
1936, mais por desaparecimento de um que por fusão verdadei- <?omu~ta, com 6 cadeiras; em 1927, um quarto partido, os
ra). Na Noruega, a representação proporcional provocou ao mes- liberaiS, com 1 cadeira; em 1933, um quinto, os democratas-
mo tempo cisão nos socialistas, divididos em socialistas de cristãos, com 1 cadeira também; os oub:os países escandinavos
direita e socialistas de esquerda (só se reuniram, novamente, seguiram evolução análoga. O fenômeno é ainda mais sensivel
e:m 1927), bem como duas cisões em detrimento da esquerda nos Pai~es Baixos: nas primeiras eleições proporcionais de 1918,
hberal, pela criação dos "democratas-radicais", os quais haviam 10 I!a~dos novos obtêm uma cadeira (Liga Econômica, Partido
SOCiallSta Independente, Partido Comunista, Partido Neutro,
I'
O NÚMERO DOS PARTIDOS 289
288 Os SISTEMAS nE PARTIDOS

Sociais-Cristãos, Cristãos-Democratas, Cristãos-Socialistas, Liga


\
I
_ _ _ _ Número de partidos que apresentaram candidato.

-----
de Defesa Nacional, Partido Rural, Partido das Classes Médias).
Ante essa proliferação inquietante, introduz-se na lei eleitoral
um dispositivo que afasta da partilha das sobras toda lista que
_.. _.. " "
na Câmara do. Deputado.
com mais de

não houver obtido 75% do quociente. Apesar de tudo, 4 peque-


nos partidos funcionam ap6s as eleições de 1922: 3 antigos e 1
novo (reformados .calvinistas ); mais 2 surgem em 1925 (refor- ã
mados políticos e cat6licos dissidentes); mais 1 em 1929 (inde- .~
pendentes); mas 2 em 1933 (sociais-revolucionários e fascistas); ~
a.
o
e um dos partidos de 1918, que desaparecera ap6s a barragem li
dos 75%, renasce das suas cinzas (cristãos-democratas). Sente-se
que ainda é preciso modificar a lei eleitoral, a fim de estabe-
lecer, outra vez, obstáculos à tendência multiplicadora da
R. P. em relação aos pequenos partidos: em 1935, eleva-se, pois, 25
de 75 para 100% a proporção do quociente necessário à partici-
pação na partilha das sobras e estabelece-se caução. Mas 4 pe- 20
quenos partidos ainda estão representados no Parlamento de
1937, dos quais um novo, o Partido Nacional-Socialista; o que
eleva a 17 o número total dos grupelhos engendrados pela
1S

10
....
~..... - - - -------1"
11
.".

..
- I,.
..... .............
representação proporcional entre 1918 e 1939 (Fig. 30). Assi- 1D
nale-se, aliás, que não se trata de partidos propriamente locais,
que se explicam pelo individualismo de tal ou qual candidato:
conforme mostrou Frederick S. A. Huart, em seu artigo da
Encyc?opaedia of Social Sciences, o sistema da representação FIG. 30 - A Multiplicação dos Partidos pela R.P.
proporcional aplicado à Holanda, que faz do país, praticamente, (Países Baixos, 1918-1939).
um s6 distrito eleitoral, engendrou pequenos partidos de caráter
nacional e não mais local. O Parlamento de Haia encerrava 7 . '·0 O fenômeno vem a ser mais sensivelI ainda
partidos antes da representação proporcional; em 1918 e 1939, daopmta. d pelo fato.
de que simultaneamente, se aglomeram, em vo ta esses moVl-
nunca teve menos de 10, número que se elevou a 17. Foi a Guer- mentos' recentes, pequenos grupos de direita e d~ centro, g~poi
ra de 1939-45 que o fez voltar à cifra de 1913; mas já passou de· de caráter pessoal. Assim é que a r~presentaçao PI?porClona_
.., para 8 de 1946 a 1948. E note-se que essas cifras não dão parece haver favorecido o desenvolv1Dlento d~ fasClSmo. Her
conta exata da realidade: ter-se-ia de completá-las com um mens talvez tenha exagerado o seu pap~l relativamen~e ao na-
quadro do número dos partidos que apresentaram candidatos às cional-socialismo; o sistema eleitoral nao pod~ co~slderar-se,
eleições. Nos Países-Baixos, por ~remplo, subiu-se de 36 para 54 nesse domínio, fator preponderante. Mas tambem ~~o se pode
de uma eleição para outra (1929!1933). Na Suíça, 67 partidos negar a sua influência: é ~oso ass~alar que os .UDlCOS pa.íses
apresentaram listas em diversos cantões, entre 1919 e 1939; nos quais a tendência faSCIsta conseg~u enc.a~ar-se em partidos
deles 26 obtiveram representantes no Conselho Nacional, em representados no Parlamento são palses su)e~tos à R.~. Volta-
um ou outro momento. remos a' examinar este problema a prop6SltO da solidez d?s
Entretanto, a tendência da representação proporcional a partidos, das variações das suas dimensões e da representaçao
engendrar partidos novos nem sempre se limita aos pequenos dos novos movimentos de opinião.
partidos. Como é muito sensível às atrações passionais da opi-
nião, a esses grandes ílrrebatamentos que, por vezes, agitam um
povo feito marés, favorece-lhes a aglutinação;) em partidos que
podem, então, propagar a paixão originária e impedir o refluxo