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jornalismo, da convergência midiática e dos

RESENHA estudos do som e música.


Para Kischinhevsky, o rádio é hoje um
meio de comunicação expandido, que vai
além das ondas de Hertz e invade as mídias
sociais, a telefonia móvel, sites e portais de
música eliminando as fronteiras. Ele traça
um mapa do ambiente midiático e coloca o
rádio como veículo ágil na associação com as
mídias sociais, diretórios e portais. O autor
explica que se por um lado isso potencializa
a circulação de seus conteúdos e explora
vantagem competitiva diante da TV, já que
a comunicação sonora permite a realização
de outras atividades simultâneas a escuta, e
por outro pulveriza a audiência.
Logo nas primeiras páginas vemos a pre-
ocupação do autor em primeiro conceituar o
que é rádio? Para Meditsch se não for feito
de som não é rádio, se tiver imagem junto
não é rádio, se não emitir em tempo real não
é radio, é fonografia, mas não é rádio. O pod-
casting e web rádios também são alvo dessas
reflexões onde o autor busca também am-
pliar a idéia de linguagem radiofônica. Pos-
teriormente, ele abre o debate sobre a pes-
quisa e o papel da comunicação social como
ciência que abrange a comunicação massiva
e que também exerce um papel central na
sociedade contemporânea. Para apresentar
esses assuntos ao leitor Kischinhevsky lança
mão de outros autores e pesquisas.
Para começo de conversa o autor apre-
senta duas chaves conceituais importantes
para entender às Comunicações: mediações
e interações. Falando sobre as mediações,
toma como base principalmente nas refle-
xões de Martim Barbero e Guilherme Orozco
Gomez e a noção de múltiplas instancias de
KISCHINHEVSKY, Marcelo. (2016). Rádio e mídias sociais: mediações e interações radiofônicas em mediações. Sobre interações o ponto de par-
plataformas digitais. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016. tida é Alex Primo para quem a interação so-
cial é caracterizada por mensagens trocadas
e pelo relacionamento que existe entre os
envolvidos no processo. Kischinhevsky dei-
xa claro que as duas instanciam distintas, se

Reflexões sobre
articulam e sobrepõe de várias formas sem
prevalecer uma sobre a outra e que a Comu-
nicação vai além desses conceitos.
A partir daí o autor passa a tratar a co-

o rádio municação radiofônica dentro de uma pers-


pectiva ampla que envolve elementos sono-
ros e passonoros, como fotos, ilustrações de

e as plataformas
sites das emissoras e outros. O rádio entra
na roda viva da arquitetura das interações
que compreende uma reconfiguração, mas
não perde sua especificidade.

digitais O rádio enfrentou entre os anos de 1970 e


1990 uma crescente concorrência em várias
frentes passando a existir uma multiplicidade
de oferta com a consolidação da TV e tam-
bém da telefonia celular introduzida no Brasil
a partir de 1990 e ainda com o acesso comer-
cial à internet no mesmo período. Essa fase
Bernadete Coelho de Souza1 de convergência se apresenta como um mo-
vimento internacional. Apesar disso não há
como comparar a expansão da TV em termos
de audiência e das verbas publicitárias que

O
rádio é uma mídia que está sempre figuração da indústria da radiodifusão dian- esse veículo consegue arrecadar com os nú-
se reinventando, forçado por seus te da convergência midiática do professor meros simplórios alcançados pelo rádio mes-
concorrentes diretos como a TV e o Marcelo Kischinhevsky. O autor é professor mo tendo cuidado com pesquisas e números.
impresso ou estimulado pela internet. Aliás, adjunto do Departamento de Jornalismo e Outra questão que afeta a reconfiguração
sobreviver é uma das especialidades do rá- dos programas da Pós-Graduação em Comu- do rádio é o sistema de concessões marcado
dio. O livro Radio e Mídias Sociais: Media- nicação (Mestrado e Doutorado) e em Jorna- por um mercado, que ele classifica como sen-
ções e Interações Radiofônicas em Platafor- lismo Cultural (especialização) da Faculda- do de arrendamento de rádios e ainda o fato
mas Digitais de Comunicação vai abordar de de Comunicação Social da Universidade de emissoras locais serem atraídas, cada vez
esses assunto de forma bem embasada. do Estado do Rio de Janeiro. Kischinhevsky mais para grandes grupos de comunicação
O livro reúne reflexões desenvolvidas ao é doutor em Comunicação e Cultura e de- com sede em capitais como São Paulo e Rio
longo dos últimos cinco anos sobre a recon- senvolve pesquisas no campo da radiofonia, de Janeiro. A incorporação à grandes redes

Autor Correspondente 1: bernadetecoelhos@gmail.com


Recebido: junho, 2017 \ Aceito: junho, 2017 \ Publicado: junho, 2017.

38 PANORAMA Goiânia, v. 7, n. 1, p. 38-39, jan./jun. 2017 . ISSN 2237-1087 . DOI 10.18224/pan.v7i1.5653


tem como principal expectativa aumento de ramos de atividades é extensa. Essas em- sobre as medições e interações radiofônicas
audiência e de receita publicitária. A des- presas têm investido no rádio como forma nas plataformas digitais, Kischinhevsky ain-
vantagem é a diminuição no percentual de de se comunicar diretamente com seu pu- da afirma que essa nova configuração seja
produção de conteúdo local. E na virada dos blico de interesse. E esse público pode ser por meio de web rádios, podcasts ou rádio
anos 2000 a convergência midiática ganha os clientes,fornecedores ou até visitantes e social, traz o desenvolvimento de novas prá-
ainda a confluência de processos econômi- ainda trabalhadores dentro de sua cultura ticas interacionais e de novas modalidades
cos, políticos sociais e jurídicos. organizacional. O autor explica que esse de recepção em múltiplas temporalidades e
O autor avalia como o rádio se posicio- movimento é resultado de um processo de ambientes identificando mais continuidade
nou diante desses eventos. A Midiamorfose hipersegmentação do rádio e que pode ser que rupturas no processo comunicacional.
de Fidleré apenas uma das teorias sobre a entendido como um desdobramento da re- Para quem se dedica a pesquisar o rádio o
forma de pensar a reconfiguração dos meios configuração do mercado de sonorização de livro é uma obra importante porque apre-
de comunicação. O outro conceito seria a ambientes. Essa modalidade é fruto de uma senta novas possibilidades de interação. O
remedição, desenvolvido por Jay David Bol- ação comunicacional de organizações sem caminho ainda tem muitos obstáculos a se-
ter e Richard Grusin. Em uma explicação histórico de atuação na radiodifusão com o rem contornados, mas Kischinhevsky afirma
simples a remedição seria a representação objetivo de fortalecer suas marcas e vender que “a chave para o futuro é o conteúdoe
de um meio em outro e que pode ocorrer de produtos e serviços. O autor cita os exem- dessa forma cabe também a audiência bus-
forma agressiva ou respeitosa. plos de rádios como da rede de fast food car novas formas de relação com o meio,for-
Kischinhevsky reconhece e insere a ra- Mc Donalds, da grife carioca Totem e como çando o rádio a ser cada vez melhor”.
diofonia nessa nova configuração do com- exemplo de comunicação interna a experi-
plexo midiático inclusive no âmbito tecno- ência da Radio Estrada ALL.
lógico, nas etapas de criação/ produção, Nesse cenário de reconfiguração de mer-
edição, distribuição e consumo sem esque- cado segundo Kischinhevsky também sur-
cer os novos hábitos de escuta. Não dá para gem as rádios customizadas voltadas para o
ignorar os telefones celulares de última público em geral via satélite ou pelas ondas
geração que gravam áudio com uma qua- do rádio. Um exemplo citado é o da emis-
lidade excelente e as unidade móveis mais sora que transmitia ao longo dos 402 quilô-
leves que dão agilidade as coberturas, além metros de extensão da Rodovia Presidente
de outros aparatos. No âmbito profissional Dutra. O projeto teve um investimento de 6
os trabalhadores precisam ser versáteis, milhões de reais de CCR uma das maiores
capazes de acumular diversas tarefas nas operadoras de infraestrutura do país. Para
rotinas de produção. A cobrança de produti- entender essa pluralidade em fase de con-
vidade aumenta na mesma proporção prin- vergência, o autor propõe ainda uma cate-
cipalmente nas emissoras que se dedicam gorização para o rádio expandido que en-
exclusivamenteao jornalismo. volve a distribuição , circulação e recepção.
Para o autor esse é o cenário no qual o O autor enfatiza que o rádio também
rádio se articula de modo crescente com ou- quer ser 2.0 e desde a briga com a televi-
tros meios de comunicação e assim o rádio são para não sumir do mapa tem procurado
se expande para além das ondas hertzianas, uma maior mobilidade e interatividade com
á exemplo do que acontece com o compar- a audiência. Na fase da convergência essa
tilhamento de áudios via podcasting. Nesse busca fica ainda mais intensa incentivan-
sistema cada internauta pode escolher onde do a participação do publico. Mesmo que
e como vai ouvir o arquivo desejado. Esses o ouvinte tenha uma participação restrita
arquivos são chamados de episódios. Essa o rádio constrói discursos que não são res-
modalidade cria atore sociais interessados tritas a um script e assim constrói sentidos.
em novos canais de comunicação sem a me- Dessa forma surge o conceito desenvolvido
diação tradicional das emissoras de rádio. por Cebrián Herreros do ciberrádio onde a
Entretanto essas mudanças proporcionadas audiência tem um novo papel ao incorporar
pelo podcasting na esfera da produção dis- elementos da internet.
tribuição e recepção privilegiam as classes Kischinhevsky também aborda a ques-
com maior poder aquisitivo. O podcasting tão das interações comunicacionais envol-
pode também ser usado como estratégia de vendo comunicadores, ouvintes, emissoras
visibilidade de atores sociais embora, como e dispositivos técnicos de reprodução sono-
lembra o autor, o percentual de emissor é ra na fase da convergência. Diferentemente
bem menor que a quantidade de ouvintes. do que se viu na fase da difusão e da seg-
Os serviços de rádios sociais são outra mentação o caminho principalmente para
modalidade radiofônica incluídas pelo autor as emissoras que se dedicam ao jornalismo
como remediada pelos sites de relacionamen- 24 horas é o dialogo com as redes sociais
to. Essas mídias sociais têm base radiofônica on-line e remissão do conteúdo em blogs,
e oferecem não só espaço para distribuição sites e perfis institucionais ou dos próprios
e consumo de conteúdos sonoros,mas tam- comunicadores e comentaristas. Interação e
bém de interação entre os participantes. É participação passaram a configurar valores
preciso criar um perfil e a partir daí o consu- para o radiojornalismo que quer ser firmar
mo dos conteúdos sonoros também alimenta como meio de comunicação que tem uma
amizades com outros usuários. ligação de proximidade com o público.
No Brasil, o portal colaborativo Radiotube As emissoras tradicionais passaram
reúne amantes do rádio, ativistas de rádios a investir em plataformas digitais, ainda
comunitárias e organizações ligadas a movi- sem muita experiência. Algumas rádios
mentos sociais com objetivo de formar uma fazem uso do Twiter como ferramenta de
rede que produz conhecimento coletivo. É comunicação bidirecional. Nesse cenário o
gerenciado pela ONG Criar Brasil. Na Amé- facebook também aparece como termôme-
rica Latina, outro exemplo é a Radioteca, um tro importante com base nas curtidas e co-
portal de intercambio de produções desenvol- mentários dos internautas. O uso de hastgs
vido de forma colaborativa por milhares de multiplica o volume de comentários e com-
emissoras e centros de produção radiofônica. partilhamentos. O autor considera ainda a
No livro o autor também abre espa- etiquetagem e o compartilhamento práticas
ço para falar de outras concorrentes das centrais nesse novo ambiente midiático. E
emissoras que ele chama de hertizanas, o compartilhamento seria o ponto alto da
as rádios corporativas e customizadas. São experiência da comunicação mediada pelo
novos atores no mercado da radiodifusão computador por que proporciona, segundo
sonora, fruto do investimento e interesse de ele,um novo espaço para circulação de con-
bancos, montadoras de veículos, operadoras teúdo e também exposição da intimidade.
de telefonia, supermercados e etc. A lista de Após todas essas considerações importantes

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