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Família e Sociedade

Autor: Ana Carolina Bazzo Silva

Tema 06
Gênero e Identidades
Tema 06
Gênero e Identidades

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Como citar este material:
SILVA, Ana Carolina Bazzo. Família e Sociedade:
Gênero e Identidades. Caderno de Atividades.
Valinhos: Anhanguera Educacional, 2017.
S e ç õ e s
CONTEÚDOSEHABILIDADES

LEITURAOBRIGATÓRIA
AGORAÉASUAVEZ

LINKSIMPORTANTES GLOSSÁRIO

REFERÊNCIAS

FINALIZANDO GABARITO
Tema 06
Gênero e Identidades

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CONTEÚDOSEHABILIDADES

Prezado aluno, neste caderno abordaremos questões relacionadas aos estudos de gênero.
Como você deve ter observado, ao longo da apresentação de cada temática cara ao estudo
da relação entre família e sociedade, também acompanhamos diferentes contextos sociais
e históricos em que os autores e as obras estudados se inserem e também acompanhamos
o diálogo que estabelecem entre si e com autores de outras áreas de conhecimento.

Com este curso, buscamos fornecer arcabouços teóricos das ciências sociais a partir dos
quais você possa fazer suas próprias questões para situações e discursos que envolvem
família e sociedade. Também buscamos que você desenvolva capacidades necessárias
a um estudante, reconhecendo que teorias e autores dialogam com seu tempo e com
os campos de conhecimento de onde falam e investigando por si próprio as informações
relacionadas aos contextos em que autores e teorias se inserem. O desenvolvimento dessa
capacidade de contextualizar discursos será fundamental para compreensão do que são
os estudos de gênero e do impacto que tais estudos tiveram para a forma como podemos
pensar família e sociedade.

Finalizaremos nossas discussões sobre família e sociedade com a temática de gênero e


com a temática das identidades, por dois motivos importantes e correlatos. Primeiramente,
porque nosso curso apresentou de forma didática a construção histórica de objetos
e metodologias de pesquisa das ciências sociais e os estudos de gênero trazem novas
questões para esses objetos e métodos. Além disso, para falar em gênero será necessário
que você já tenha se dedicado a outras temáticas que são abordadas de forma crítica pelos
autores que estudaram gênero na segunda metade do século XX. Esses autores são críticos
ao estruturalismo francês, caro aos estudos de Pierre Bourdieu, por exemplo. Também são
críticos à psicanálise, que influenciou estudos da escola de Frankfurt. Por esses exemplos,
você pode notar que para compreender a argumentação dos principais autores e autoras
dos estudos de gênero, será preciso já ter estudado um pouco sobre autores e obras que
mencionamos em aulas anteriores.

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CONTEÚDOSEHABILIDADES
Nosso objetivo, ao apresentar a temática de gênero, é que você possa refletir a família a
partir do olhar desses autores e dessas teorias. Além disso, quando falamos em identidades
de gênero, impreterivelmente estamos trazendo diferentes contribuições para pensar as
relações sociais na sociedade contemporânea. Atente para esses pontos ao longo dos
estudos propostos por este caderno.

Professora Ana Carolina Bazzo da Silva

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LEITURAOBRIGATÓRIA

Gênero e identidades
Convite à leitura

Em nosso sexto e último caderno do curso Família e Sociedade, apresentaremos


autores e abordagens teóricas dedicados aos estudos das questões de gênero. Gênero
é um termo complexo, porque perpassa diferentes áreas de estudo, podendo assumir
diferentes sentidos, e também é um termo difícil de se trabalhar, porque evoca a temática
da sexualidade. Quando falamos em sexualidade, acabamos tocando em assuntos que não
são tão fáceis de serem abordados porque, socialmente e culturalmente, são considerados
tabus. Para seguir a leitura desse caderno, será necessário que você coloque seus
óculos sociológicos e antropológicos, olhando para a temática de gênero a partir deles e
considerando as causas e consequências das relações de gênero em nossa sociedade.

Convidamos você para pensar em gênero a partir de conceitos das ciências sociais, neste
curso, porque consideramos que as teorias de gênero e as questões de gênero trazem
contribuições fundamentais para pensar a família na sociedade contemporânea.

Como em nossas aulas anteriores, iniciaremos este caderno apresentando o contexto


histórico das discussões sobre sexualidade no universo acadêmico, para que você possa
compreender pontos fundamentais sobre a temática e como ela se encaminha para os
contemporâneos estudos sobre identidades de gênero e sobre marcadores sociais de
diferença de gênero. Seguiremos a aula falando sobre identidades de gênero e sobre as
questões que elas trazem para os estudos contemporâneos sobre cultura e sociedade.
Quais novos objetos e métodos as demandas identitárias de gênero nos apresentam ou
podem nos apresentar? Como trabalhar com essas demandas em uma sociedade que
marginaliza identidades de gênero desviantes? Novamente, proporemos que você faça
suas próprias questões a partir do que será apresentado.

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LEITURAOBRIGATÓRIA
Por fim, trabalharemos gênero e educação a partir do que apresentamos neste caderno
e a partir do que vimos em outras aulas, em que discutimos educação e processos de
socialização. Aprendemos a sermos seres sociais, aprendemos as regras a partir das quais
agiremos e viveremos em sociedade. Como aprendemos papéis de gênero? Como esse
aprendizado é feito na educação escolar? Trabalharemos, nessa última parte do curso,
questões como essas.

Desejamos a você uma boa leitura.

Por dentro do tema

Gênero e sexualidade: uma perspectiva histórica

Antes de tudo, você sabe o que é gênero? Há muita confusão e polêmica em torno do
termo “gênero”. Confusão semelhante encontramos quando falamos em classes sociais.
São temáticas que tocam em questões sociais delicadas e que envolvem assimetrias,
relações de poder, violências e, talvez por isso, sejam difíceis de serem trabalhadas no
cotidiano de nossas conversas. No entanto, você aprendeu nesse curso que é preciso
separar os sentidos acadêmicos que as palavras assumem dos sentidos dados a elas
pelo senso comum quando queremos analisar fatos e situações com olhares das ciências
sociais. Quando trabalhamos com conceitos como o de classe social ou o de gênero, o
correto é irmos até dicionários da área de conhecimento em que estão sendo utilizados
para compreender o que significam nas obras em que os encontramos. Portanto, para
aprender o olhar sociológico, antropológico, político ou filosófico que embasa o uso da
palavra “gênero” nas obras dos autores que estamos estudando, é preciso ir até elas e não
em dicionários de línguas.

Apesar de não devermos definir um conceito acadêmico pelo sentido comum de uma palavra,
comecemos a pensar em gênero a partir da língua. Sim, as línguas e linguagens também
podem ser observadas a partir de nossos óculos sociológicos, políticos e antropológicos.
Ao estudar língua portuguesa, você deve ter entrado em contato com palavras que são do
gênero feminino e do gênero masculino. Seu professor ou professora do ensino básico deve
ter lhe ensinado que, mesmo quando temos dúvidas sobre o gênero da palavra, podemos
tirá-la colocando um artigo feminino ou um artigo masculino que o explicita. Mas, você sabia
que há línguas em que temos, além do gênero masculino e do gênero feminino, outros

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LEITURAOBRIGATÓRIA
gêneros possíveis? A própria língua latina, da qual a língua portuguesa é derivada, tinha o
gênero “neutro”, associado a seres inanimados.

A língua, como bem notaram os antropólogos do começo do século XX, é um bom objeto
para estudo de uma sociedade ou de uma cultura. E, como bem observaram os autores da
segunda metade do século XX, a língua nos evidencia as assimetrias e formas de dominação
que podemos encontrar em diferentes sociedades. Não é por acaso que os estudos sobre
gênero recorram ao estruturalismo para discutirem criticamente a forma como imediatamente
relacionamos a ideia de masculino e feminino à dicotomia biológica entre os sexos (macho e
fêmea). Mas, além deles, uma das principais contribuições para a constituição dos estudos
de gênero como um campo acadêmico que perpassa trabalhos sociológicos, políticos,
antropológicos e filosóficos, tivemos as contribuições das autoras feministas.

Os estudos sobre a relação entre gênero e sociedade devem muito aos trabalhos de
historiadoras, filósofas, artistas e autoras feministas, que foram as primeiras a questionar
os papéis destinados às mulheres na sociedade de classes, na sociedade do trabalho,
na sociedade da ciência. Do mesmo modo como trabalhamos em aulas anteriores ao
apresentarmos o contexto de formação do pensamento antropológico, sociológico e político,
quando falamos em estudos de gênero também é importante citar o arcabouço teórico com o
qual essas autoras estão dialogando, já que conceitos e teorias conversam com sua época.

O feminismo enquanto movimento político, do mesmo modo que o marxismo não pode
ser confundido com a obra de Marx, não pode ser confundido com os estudos feministas
sobre a sociedade, a cultura, a sexualidade e os gêneros. Apesar dos movimentos sociais
e políticos conversarem com o universo acadêmico e fornecerem dados e objetos para a
análise da vida social, é necessário compreender essa diferença, sobretudo quando falamos
em estudos de gênero. Há uma concordância entre o incômodo que está por trás daquela
que chamamos de primeira onda feminista e o incômodo que está por trás das críticas
feministas aos autores que inspiraram as primeiras críticas feministas: as assimetrias entre
homens e mulheres na sociedade.

Falava-se em democracia, falava-se em liberdade, mas não no papel da mulher na construção


dessa ideia de liberdade e de democracia. Mais do que isso, não se falava no papel da
mulher na construção da sociedade do trabalho ou da civilização, sendo que, durante um
bom tempo, mulheres e crianças foram mão de obra majoritária nas fábricas, por exemplo.

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Não é por acaso que os primeiros textos que criticam o lugar da mulher na vida social
coincidam com movimentos políticos e sociais como o das sufragistas, que lutavam pelo
direito de voto das mulheres em diferentes localidades do mundo, como Nova Zelândia,
EUA, Portugal, Reino Unido.

Assim como os pais fundadores da antropologia e da sociologia, as autoras feministas


partiram de concepções presentes na filosofia contratualista do século XVII e do XVIII e na
obra dos evolucionistas culturais e dos positivistas do XIX. Lembremo-nos que um ponto
comum na obra destes autores era o intuito em se compreender como o homem dominou
a natureza e diferenciou-se enquanto ser racional e civilizado. A ideia de que a sociedade
se funda a partir da dominação de territórios e de guerras engendradas por homens em
torno do monopólio do poder, como defenderam os evolucionistas culturais e alguns dos
contratualistas, e a ideia de que a sociedade se funda partir da troca de mulheres pelas
famílias e pelos clãs, como defenderam os estudos de parentesco, estavam também
presentes na crítica das autoras feministas ao patriarcado.

Mas, afinal, qual a relação entre esse contexto e os estudos de gênero? As primeiras críticas
feministas abrem espaço para uma discussão importante sobre o papel da mulher em uma
sociedade cujo poder político estava na mão dos homens. Uma leitura histórica da dominação,
como a que foi feita pelas sufragistas, carregava consigo duas ideias muito importantes:

1) A sociedade se funda não somente na divisão social do trabalho, mas em uma divisão
sexual do trabalho. Homens tomam para si o poder de decidir sobre política, economia,
moral, enquanto às mulheres é destinado o trabalho de criação e educação dos filhos e o
trabalho doméstico.

2) A divisão sexual do trabalho é um fato social e histórico, portanto, a relação entre os


sexos é antes de tudo uma relação social e cultural e não somente biológica. Ou seja, não
é a biologia ou a natureza que explicam o fato de mulheres serem proibidas de votar, mas
sim a história de dominação que funda a civilização moderna.

A ideia de que, historicamente, às mulheres foi destinada a vida doméstica e aos homens
foi destinada a vida política embasava tanto o nascente movimento político organizado por
mulheres que demandavam direito ao voto, quanto o argumento acadêmico que criticava
a ideia de que os papéis destinados a homens e mulheres estavam ligados à sua natureza

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LEITURAOBRIGATÓRIA
diferente. Mulheres e crianças serviram como mão de obra no campo e nas fábricas ao
longo da história, portanto, o argumento de que a vida doméstica lhes seria preferencial
por sua natureza frágil, por exemplo, não se sustentava. As primeiras críticas acadêmicas
ao patriarcado viriam pela crítica à exploração do trabalho doméstico e à desigualdade
dos direitos públicos e privados de homens e mulheres no final do XIX e começo do XX.
No Brasil, por exemplo, mulheres não podiam ter bens em seus nomes até a reforma do
primeiro código civil.

Colocando nossos óculos sociológicos, podemos concluir que a demanda de igualdade


de direitos abre espaço para discussão sobre a construção histórica da divisão sexual do
trabalho e, mais do que isso, para uma discussão sobre as origens sociais e culturais dos
papéis destinados a mulheres e homens na sociedade. Mas é quando a ideia de que a
dominação acontece desde que o mundo é mundo, quando o argumento da fundação da
sociedade na violência começa a ser questionado como verdade absoluta, que o campo
acadêmico dos estudos feministas se encontra com o nascente campo acadêmico dos
estudos de gênero.

Assim como o pensamento antropológico começa a questionar os discursos que consideram


o homem da sociedade da ciência e de classes mais desenvolvido que o homem que vive
em sociedades tribais, o feminismo começa a questionar a ideia de que, naturalmente,
mulheres são frágeis ou que estão mais propensas a doenças dos nervos ou das emoções.
Essa era uma ideia que prevalecia no pensamento médico do XIX e que esteve muito
presente nos estudos sobre a histeria que inspira o pensamento psicanalítico. Podemos
considerar que os estudos feministas abrem espaço para a construção de um campo de
pesquisa sobre gêneros quando se deparam com a temática da sexualidade, que até então
era objeto da psicologia, da psicanálise e da medicina.

O incômodo sobre a assimetria entre os sexos que orienta a reflexão de autoras como
Simone de Beauvoir (1908-1986), nesse segundo momento, é a ideia de que o único
papel das mulheres na vida social, no casamento, na vida doméstica, é a reprodução e a
educação dos filhos. A mulher seria esse ser frágil cujas ações no mundo estariam voltadas
única e exclusivamente para a busca de um parceiro sexual e romântico, no imaginário que,
segundo essas autoras, domina o conhecimento médico no XIX e no XX.

Um dos principais livros de Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo (1949), se inicia com uma
longa análise com argumentos que desconstroem os pontos de vista biológico, psicanalítico

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e marxista no que se refere à inferioridade biológica, psíquica, histórica da mulher em
relação ao homem. A famosa frase “não se nasce mulher, torna-se mulher” presente no
referido livro é uma expressão da mudança de perspectiva trazida pelas contribuições
da época para pensar gêneros. Na natureza, encontramos espécies que se reproduzem
assexuadamente, espécies que mudam de sexo ao longo da vida, espécies hermafroditas
e inclusive encontramos espécies que não usam o ato sexual só para reprodução. Para a
autora, o argumento de que mulheres são meros instrumentos para reprodução da espécie
não se sustenta. Para autoras e autores da antropologia que se dedicaram ao estudo de
diferentes povos e culturas, essa ideia também não se sustenta.

Comportamentos e ideias sobre o que é ser homem e o que é ser mulher são aprendidos no
seio de uma sociedade e de uma cultura. E essa é uma das principais contribuições para os
estudos de gênero porque, até então, mulher e homem soavam como sinônimos de macho
e fêmea. As questões sobre sexualidade e orientação sexual passam a fazer parte das
discussões acadêmicas e isso abre espaço para uma análise da história da construção dos
discursos que sustentam a relação direta que fazemos entre sexo biológico e as categorias
de gênero “mulher” e “homem”. Autores e autoras começam a se questionar sobre o porquê
de nossa sociedade fazer tal identificação entre homem/macho ou mulher/fêmea. A ciência,
o discurso médico e o biológico passam a ser objeto, nesse momento, da história, da filosofia
e das ciências sociais.

Uma das contribuições pioneiras, nesse campo, é a do filósofo e historiador da ciência francês
Michel Foucault (1926-1984). Foucault trabalha com um método de análise da sociedade da
ciência e do trabalho diferente dos que foram utilizados pelos autores acompanhados nesse
curso até então. Para o autor, quando nos propomos a compreender a modernidade e suas
formas de sociabilidade, é necessário investigar a gênese de discursos e de instituições.
Foucault estabelece um olhar bastante crítico à ideia de que a sociedade contemporânea
compartilha formas mais humanizadas, menos “bárbaras” de organização política, social,
cultural. O autor é um grande crítico das instituições modernas e das formas de poder
subjacentes a elas. Sua principal contribuição para os estudos de gênero está nos três
tomos que compõem sua reconhecida obra História da sexualidade.

Para Foucault, a partir do momento em que as ciências se debruçam sobre a vontade de


saber sobre sexualidade e sobre o corpo, a identidade do sujeito passa a estar cada vez mais
relacionada com sua sexualidade. E não é qualquer sexualidade ou qualquer orientação
sexual que são consideradas normais, nesse contexto. Junto com a descrição dos corpos

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normais, vemos uma valorização da heterossexualidade e da família como essa unidade
voltada para a reprodução. A identificação entre caracteres sexuais e gênero também é
um fato histórico, como analisa o autor. Algo comum aos manuais médicos amplamente
estudados pelo autor, é uma intensa preocupação com a definição da anatomia corporal
normal e anormal. Nessa definição também entram os órgãos sexuais. Hoje sabemos que
parte da população nasce intersexual, segundo os manuais médicos. A preocupação com o
sexo do bebê é um exemplo de como sua identidade está relacionada com sua sexualidade.

A medicina hoje possui exames hormonais avançados e máquinas voltadas exclusivamente


para a medição de variantes que definiriam o sexo de um indivíduo que possui características
biológicas de ambos os sexos. Anos atrás, só saberíamos do sexo de um bebê quando ele
nascesse. Anos atrás, não possuíamos exames cromossômicos ou hormonais como os que
temos hoje para definir o sexo de sujeitos que praticam esportes confederados e que são
intersexuais, por exemplo.

Que pontos metodológicos e teóricos importantes esses exemplos trazem para os estudos
sociológicos, políticos, antropológicos de gênero contemporâneos? Primeiramente, que
historicamente foi se construindo um discurso em que os sujeitos se identificam pelos
seus caracteres sexuais. Segundo, que a definição da normalidade ou da anormalidade
dos corpos femininos e masculinos é histórica. Terceiro, que há uma quantidade grande
de variantes físicas, fisiológicas, genéticas que não se encaixam no que é considerado
normal ao masculino e ao feminino. Tais variantes foram marginalizadas, bem como foram
marginalizados os sujeitos que não se identificam com os gêneros mulher ou homem, seja
pelo seu corpo, seja pela sua orientação sexual. Para Foucault, a repressão das sexualidades
anormais e dos gêneros considerados anormais, o controle e a adequação dos corpos
intersexuais pelo conhecimento médico são exemplos da forma como o poder se expressa
nas relações de gênero.

Novas possibilidades de análise que são abertas por essa abordagem. Elas coincidem,
como no caso da primeira onda feminista, com movimentos sociais que buscam visibilidade
das diferentes identidades de gênero até então proscritas e marginalizadas. A busca por
direitos e pelo reconhecimento das identidades de gênero são questões sociais, culturais
e políticas de gênero que inspiram os estudos contemporâneos sobre gênero. Falaremos
sobre eles a seguir.

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LEITURAOBRIGATÓRIA
Identidade e gênero

Os estudos de Foucault são um marco nos estudos sobre gênero, como pudemos notar.
Mas há outros ainda muito importantes que devemos mencionar, sobretudo quando falamos
em identidades de gênero. Falar em identidades de gênero, antes de qualquer coisa, é
falar sobre como se formam identidades em uma sociedade que marginaliza gêneros,
sexualidades e orientações sexuais. Além disso, falar em identidades de gênero é falar
em pessoas que se reconhecem a partir de marcadores sociais de diferença e que se
colocam socialmente como parte de grupos específicos. A temática deve muito, portanto,
ao estudo da sociedade da ciência, do Estado, do trabalho e das classes, mas também
traz consigo novas questões sobre poder e relações sociais quando nos propomos a olhar
para demandas identitárias que extrapolam a produção de conhecimento científico, que
extrapolam as classes e as questões políticas e jurídicas das instituições que compõem os
Estados nacionais. A temática da identidade de gênero perpassa o Estado, a lei, a cultura,
a produção de conhecimento, as classes e, ao mesmo tempo, independe desses temas
porque traz problemas e objetos próprios a ela. Que objetos e problemas são esses?

Historiadoras como Joan Scott (1941- ) se perguntam por que as mulheres foram alijadas
dos livros de história e por que os homens são considerados centrais na construção dos
estudos históricos. Antropólogas como Gayle Rubin (1941- ) dedicam-se ao estudo das
sexualidades consideradas como desviantes dentro do discurso médico e psicanalítico.
Cientistas e filósofas como Donna Haraway (1944- ) se questionam sobre a construção do
imaginário científico que identifica corpos e gênero na contemporaneidade. Pierre Bourdieu
(1930-2002) tece críticas ao estruturalismo francês, que não abordou os meandros do
poder simbólico e da violência de gênero em seus estudos sobre parentesco e cultura.
Marilyn Strathern (1941- ) questiona a forma como os estudos antropológicos lidaram com
a temática do parentesco, da reprodução, das trocas. Para ela, tais estudos tomaram como
universal a noção culturalmente e socialmente construída de que os sujeitos se identificam
primordialmente pelo seu papel de gênero na rede de parentesco ou de trocas.

Podemos citar também os estudos contemporâneos de Judith Butler, que partem de uma
leitura filosófica sobre o sujeito enquanto um ser que se constitui nos atos para dizer que
gênero é antes de tudo um comportamento e formas de agir em sociedade que algo fixo
ou natural. Para essa autora, vivemos em uma sociedade heteronormativa, ou seja, uma
sociedade que tende a excluir pessoas que compartilham orientações sexuais diferentes da
heterossexual e, consequentemente, tendem a excluir grupos de pessoas que se identificam
também com gêneros considerados “desviantes”.
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LEITURAOBRIGATÓRIA
Seja lidando com dados culturais que trazem novas questões sobre gênero, como é o caso
das antropólogas que criticam os estudos clássicos sobre parentesco, seja lidando com
as demandas sociais, políticas e culturais dos grupos e pessoas que se identificam com
categorias de gênero distintas de homem e mulher, todos esses autores estão buscando
aparatos teóricos e conceitos que comporão o que hoje reconhecemos como estudos de
gênero. Podemos dizer, sem dúvida, que o campo de estudos de gênero teve de trazer
novos olhares para as relações sociais, para a cultura e para a política porque conceitos
clássicos e teorias clássicas não davam conta de explicar as demandas sociais, culturais
e políticas em torno da temática de gênero observadas na sociedade contemporânea. Um
bom exemplo dessa limitação está expresso na própria noção de identidade de gênero.

Quando falamos em identidades de gênero, temos de levar em consideração tanto a


construção da identidade pessoal de gênero quanto a construção das identidades de
gênero compartilhadas pelos grupos. Para nós, que estamos nos propondo a olhar para
os fenômenos sociais, o que especificamente é interessante notar quando falamos em
identidades pessoais e em identidades grupais?

Identidades culturais são construídas na relação e em processos de diferenciação. Pense que,


dependendo do interlocutor para o qual estamos falando, podemos nos definir de maneiras
distintas. Uma pessoa que nasceu no Estado de Minas Gerais, quando colocada em um grupo
aleatório de pessoas brasileiras, pode utilizar essa referência para se diferenciar de outra
pessoa que tenha nascido no Estado do Amazonas, por exemplo. Mas, a mesma pessoa,
quando colocada em um grupo aleatório de pessoas do mundo todo, pode utilizar a referência
da nacionalidade brasileira para diferenciar-se de outras pessoas do grupo. Algo semelhante
acontece com identidades de gênero. Há termos que são utilizados entre os que compartilham
práticas, concepções, valores, linguagens relativas a um grupo que se organiza em torno de
marcadores de gênero como “gay”, “lésbica”, “transexual”, “mulher trans”, etc. Para nós, cabe o
cuidado de observar as categorias de gênero a partir das quais as pessoas se reconhecem como
parte de um grupo e analisar quando tais categorias são enunciadas e para quais interlocutores.
Além disso, cabe observar as demandas políticas dos grupos e das pessoas que se reconhecem
como parte de um grupo marginalizado dentro da sociedade contemporânea.

Hoje parece muito distante um momento histórico em que as mulheres não podiam ter bens
ou votar, quando, na verdade, o voto e outros direitos civis são conquistas recentes das
mulheres. Nos cabe, como observadores das causas e consequências sociais de questões
identitárias relativas a gênero, observar e respeitar demandas como a revisão de direitos
civis para uniões homoafetivas, por exemplo.
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LEITURAOBRIGATÓRIA
Para finalizar nossa aula e nosso curso, falaremos sobre as identidades pessoais de gênero.
Como a sociedade e a cultura atuam no processo de socialização quando pensamos em
gênero? Pensemos nisso.

Gênero e educação

Estudamos, ao longo desse curso, a íntima relação entre processos de socialização e


educação. Você acompanhou, por exemplo, o papel das classes quando se trata da
temática da desigualdade de acesso a bens simbólicos e o papel da escola na reprodução
das desigualdades entre classes sociais. Também estudou autores que discutiram o papel
da escola na reprodução da violência simbólica. Quando Bourdieu fala sobre escola e
reprodução, está falando em exclusão e em expropriação cultural. Classes dominantes
definem o que é o bom gosto e depois tomam para si os bens culturais que são considerados
de bom gosto, expropriando as classes dominadas do capital cultural e classificando a
cultura popular como uma espécie de bem cultural de menor valor simbólico.

Note que, quando discutimos as relações de poder encontradas na sociedade, em aulas


anteriores, abordamos as relações assimétricas entre grupos e a forma como essas
assimetrias são passadas de pai para filho, de geração para geração e reproduzidas também
na escola. O mesmo raciocínio pode ser aplicado quando discutimos identidades de gênero
e educação. Processos de socialização escolares ou familiares nos formam para sermos
seres sociais. Duas perguntas podem ser feitas, a partir dessa afirmação:

1) Como estamos formando esses sujeitos para lidarem com a diversidade das identidades
de gênero;

2) Como a sociedade em que esses sujeitos estão sendo formados lida com a diversidade
das identidades de gênero.

A segunda questão foi respondida por autores como Foucault, Butler, Scott: a sociedade
em que vivemos tende a marginalizar identidades que desviem do modelo normativo que
identifica homem com macho e mulher com fêmea. A primeira precisa ser trabalhada
com maior atenção, se nossa intenção é analisar a relação entre educação e identidades
de gênero. Ao falarmos sobre identidades de gênero assumidas pelas pessoas frente a

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LEITURAOBRIGATÓRIA
diferentes interlocutores em uma sociedade plural e assimétrica, é essencial refletir as
pressões sociais que, de um modo ou de outro, agem sobre elas desde antes de nascerem.

Antes mesmo de uma criança nascer, pais, tios, avós costumam pensar em duas
possibilidades para a identidade da criança que está sendo gerada: menino ou menina.
Pais precisam saber que cor de roupas comprar, que tipo de brinquedos comprar, como
vão decorar o quarto do bebê. Quando vão a lojas de brinquedos, encontram seções com
itens para meninos e seções com itens para meninas. Rosa e azul são como códigos que
definem “coisas de menina” e “coisas de menino”, não é mesmo?

Recentemente o canal público britânico BBC fez um experimento simples que nos explica
essas pressões para definição tão precoce da identidade de gênero de nossas crianças e
que também explica a forma como incorporamos as assimetrias relacionadas aos papéis
de gênero sem nem mesmo pensarmos sobre elas. Os organizadores do experimento
colocaram roupas de meninos em meninas e vice-versa. Em seguida, convidaram adultos
que não conheciam as crianças para brincar com elas. A primeira pessoa imediatamente
oferece à criança vestida com um vestido rosa uma boneca e bichos de pelúcia. E outra
oferece brinquedos que ensinam sobre noção de espaço e sobre números para a criança
vestida com roupas azuis, de menino. Quem trabalha com crianças muito pequenas sabe
que a qualidade dos estímulos oferecidos a elas será crucial para a formação de suas
habilidades cognitivas. Brinquedos que ensinam sobre números, que ensinam sobre noção
de espaço e de tempo ou a resolver pequenos problemas são essenciais para a formação
de habilidades necessárias para o aprendizado de matemática, por exemplo. Sabendo que
homens são maioria em carreiras que requerem esse tipo de conhecimento, você pode ter
uma ideia dos propósitos desse experimento.

Ao longo de nossa educação escolar, ouvimos à exaustão que meninos são bons em
matemática e esportes e meninas são boas em línguas ou em artes. Também é comum
que professores e até colegas associem esse tipo de diferença à biologia ou à natureza das
diferenças sexuais entre meninos e meninas. No entanto, a formação do córtex cerebral, da
nossa coordenação motora grossa e da nossa coordenação motora fina se dá muito antes
do desenvolvimento de órgãos sexuais ou de picos hormonais que diferenciarão nossos
corpos. Nós educamos corpos e cérebros das crianças para que assumam, por exemplo,
que mecânica e construção são trabalhos masculinos e que cuidar e educar são trabalhos
femininos.

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LEITURAOBRIGATÓRIA
Imagine agora um cenário onde uma criança ou um adolescente que está em plena formação
de sua identidade descobre-se intersexual. Pense em um outro cenário, ainda, onde uma
criança ou um adolescente descobre que sua orientação sexual não é considerada adequada
para o gênero que pais, tios, avós, colegas de escola identificam para seu sexo biológico.
Crianças que se identificam com gêneros marginalizados ou que desde bebês passam por
cirurgias corretivas porque nasceram com caracteres sexuais ambíguos sentem o peso da
forma como uma sociedade heteronormativa as educa. Se às mulheres nossa sociedade
ensina que são naturalmente más motoristas ou más cientistas, às crianças transexuais,
homossexuais, intersexuais nossa sociedade ensina que nasceram inadequadas.

Em todos esses exemplos, vemos a educação imprimir a desigualdade em diferenças


biológicas ou em diferenças sexuais. Diferenças biológicas, genéticas, fisiológicas são
fatos da natureza. Orientação sexual e sexualidade são parte da vida humana. O que não
é natural nem genético é a forma como nossa sociedade classifica, julga, marginaliza,
exclui, inferioriza pessoas a partir dos gêneros com os quais elas se identificam. Pensando
nisso, finalizamos esse caderno e este curso deixando a você a tarefa de refletir formas de
educação escolar e familiar que evidenciem desigualdades e incluam as diferenças.

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LINKSIMPORTANTES
“Quem é Joan Scott?”, produzido pelo canal Leitura ObrigaHistória.
Neste pequeno vídeo, temos uma pequena introdução sobre a biografia de uma das autoras
cuja obra nos ajudou a construir essa aula. Como vimos em nossa aula anterior, biografias
são ferramentas interessantes para as ciências sociais porque, ao mesmo tempo em que
nos apresentam o contexto social, político, econômico e histórico a partir dos quais os
autores falam, elas nos apresentam dados sobre a atuação desses autores nos campos
acadêmicos com os quais seus trabalhos dialogam. No caso de Joan Scott, essa relação
entre sociedade, produção e de conhecimento e biografia se torna ainda mais importante
quando estudamos relações de gênero, já que a autora dedicou-se a estudar como as
mulheres foram minimizadas enquanto autoras e atoras no processo histórico.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=z9avUiQLNukDisponível>. Acesso em:
9 out. 2017.

Precisamos falar com os homens?


Produzido pelo site Papo de Homem e pela ONU Mulheres, o documentário traz uma
perspectiva um pouco diferente sobre as assimetrias entre gêneros presentes na sociedade,
porque dedica-se a investigar como o machismo afeta os homens. Como vimos em outras
aulas, o processo de socialização nos ensina a sermos sujeitos sociais. Nesse processo,
nos são atribuídos papéis sociais a partir dos quais agiremos no mundo. Com o gênero
não é diferente, pois os papéis de gênero que deverão ser assumidos por crianças antes
mesmo delas nascerem são atribuídos pela coletividade. Frases como “meninos não devem
chorar” ou “expressar emoções é coisa de meninas” nos são repetidas ao longo da infância,
adolescência e vida adulta, e os comportamentos que elas requerem dos homens acabam
sendo incorporados por homens e mulheres. Quais os efeitos das assimetrias de gênero na
vida dos homens? Essa é a pergunta fundamental do documentário. E, consequentemente
a ela, o vídeo se propõe a pensar sobre como devemos falar com os homens para que
possam compreender o peso negativo do machismo em suas vidas.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jyKxmACaS5Q>. Acesso em: 9 out. 2017.

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LINKSIMPORTANTES
“Geledes”, uma fonte interessante de pesquisa sobre questões de gênero
Geledes (Instituto da Mulher Negra) é uma organização que visa a combater o racismo,
a violência contra a mulher, o sexismo e a homofobia. O instituto atua em várias frentes,
como educação, direitos humanos, políticas públicas e mantém um site com colunas,
notícias, editoriais que abordam as temáticas defendidas pelo projeto. Há uma área do
site destinada especificamente a notícias sobre questões de gênero que vale a pena ser
explorada, sobretudo porque traz leituras dos agentes sociais que muitas vezes não têm
voz em outros veículos de informação ou em outras mídias.
Disponível em: <https://www.geledes.org.br/questoes-de-genero/>. Acesso em: 9 out. 2017.

Núcleo de estudos de gênero – Pagu, UNICAMP


O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, como
outras universidades brasileiras e internacionais, mantém um núcleo de estudos de gênero.
Nesses espaços de produção de conhecimento, pesquisadores e pesquisadoras se dedicam
a estudar marcadores de diferença de gênero e sua relação com identidades, com conflitos,
com a própria produção de conhecimento, com a violência e com outros temas caros ao
entendimento das relações de gênero na contemporaneidade. Sugerimos que explore
a área destinada às pesquisas desenvolvidas e acompanhe as temáticas relacionadas
a gênero. É interessante também explorar as publicações temáticas do núcleo. Dê uma
olhada nas revistas e dossiês e verifique o que vem sendo produzido no meio acadêmico
sobre as temáticas de gênero. O Pagu é só um dos vários centros e núcleos de pesquisa
sobre gênero e sobre marcadores sociais de diferença no Brasil. Pesquise outros núcleos e
centros em outras universidades brasileiras também.
Disponível em: <https://www.pagu.unicamp.br/>. Acesso em: 9 out. 2017.

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AGORAÉASUAVEZ
Instruções:
Agora, chegou a sua vez de exercitar seu aprendizado. A seguir, você
encontrará algumas questões de múltipla escolha e dissertativas. Leia
cuidadosamente os enunciados e atente-se para o que está sendo pedido.

Questão 1: sexual’. O ‘gênero’ sublinhava


também o aspecto relacional das
Cite uma contribuição das feministas para definições normativas de feminilidade.
As que estavam mais preocupadas
os estudos de gênero. com o fato de que a produção dos
estudos femininos centrava-se sobre
Questão 2: as mulheres de forma muito estreita
e isolada, utilizaram o termo ‘gênero’
para introduzir uma noção relacional
Qual a diferença entre categorias de gênero no nosso vocabulário analítico.
analíticas e categorias de gênero empíricas? Segundo esta opinião, as mulheres e
os homens eram definidos em termos
recíprocos e nenhuma compreensão
Questão 3: de qualquer um poderia existir através
de estudo inteiramente separado.”
Cite uma contribuição de Michel Foucault (SCOTT, 1990, p. 6).
para os estudos contemporâneos de gênero.
a) As feministas americanas utilizavam
Questão 4: o termo “gênero” como sinônimo de
Leia o trecho abaixo e depois selecione a “diferença sexual”.
alternativa correta: b) As feministas americanas utilizavam
“No seu uso mais recente, o ‘gênero’ o termo gênero para falarem de forma
parece ter aparecido primeiro entre as relacional e não somente sobre mulheres.
feministas americanas que queriam
insistir na qualidade fundamentalmente
social das distinções baseadas no c) As feministas americanas utilizavam
sexo. A palavra indicava uma rejeição o termo porque suas pesquisas falavam
ao determinismo biológico implícito no
uso de termos como ‘sexo’ ou ‘diferença somente sobre o universo do feminino.

21
AGORAÉASUAVEZ
d) As feministas consideravam que para Questão 5:
falar sobre mulheres não era necessário
Associe os autores a seus objetos de pesqui-
falar sobre homens.
sa ou a conceitos utilizados em suas obras:
e) As feministas americanas utilizavam o A - Marilyn Strathern
termo “gênero” como sinônimo de “sexo”.
B - Joan Scott

C - Michel Foucault

D – Pierre Bourdieu

E – Judith Butler

1 – Criticou as análises estruturalistas fran-


cesas e discutiu as formas simbólicas da
dominação masculina.

2 – Trabalhou com o conceito de heteronor-


matividade.

3 – Tem contribuições importantes para o es-


tudo de gênero em seus livros sobre história
da sexualidade na sociedade da ciência.

4 – Estudou como as mulheres foram invisi-


bilizadas em análises históricas.

5 – Criticou as formas como estudos antro-


pológicos sobre parentesco e sobre as tro-
cas foram construídos sem uma discussão
sobre o papel das mulheres.

22
FINALIZANDO
Em nossa última aula do curso, falamos sobre questões de gênero. Acompanhamos a relação
entre o desenvolvimento de um campo acadêmico de estudos de gênero nas ciências sociais e
movimentos políticos que buscavam, inicialmente, igualdade de direitos entre homens e mulheres
e, mais tarde, reconhecimento de outras identidades de gênero possíveis.

De um ponto de vista metodológico, a principal contribuição da temática de gênero para você


pensar a relação entre família e sociedade é o reconhecimento de que a vida política, a vida
social, a vida cultural são os espaços primordiais onde buscamos os objetos de nossas análises.
Se um grupo se organiza em torno de uma identidade de gênero para requerer direitos civis ou
para requerer visibilidade e respeito, cabe a nós olhar para esse cenário e escutar essas vozes
para analisar relações e demandas.

Há ponto de concordância entre as áreas que formam as ciências sociais: é para a vida social
que temos de olhar quando queremos falar sobre o homem ou sobre a sociedade, e não para
nossos desejos ou valores pessoais. Com este curso, esperamos que você tenha compreendido
que as ciências sociais pensam a partir de conceitos e métodos. Esperamos que você, desde já,
desenvolva um olhar analítico e comece a olhar para família e para sociedade a partir deles.

23
GLOSSÁRIO

Identidade cultural: O conceito de identidade cultural talvez seja um dos conceitos mais
complexos e que mais tenha mudado ao longo dos estudos das ciências sociais. Isso
porque, para falar sobre as especificidades da identidade compartilhada por um grupo,
é necessário definir o que é cultura e o conceito de Cultura vem sendo revisado ao longo
de todo o século XX e no início do século XXI. Quando falamos em identidades culturais,
é sempre importante fazer referência ao contexto teórico em que a ideia de cultura ou a
de identidade se inserem. Em termos gerais, podemos afirmar que identidades culturais
são definidas pelos grupos de pessoas que compartilham comportamentos, patrimônios
simbólicos e valores. Esses comportamentos, patrimônios, valores são acionados em
momentos históricos específicos em que o grupo se coloca como distinto de outro grupo.
Identidades culturais são relacionais, ou seja, são construídas na relação entre pessoas
e grupos que acionam diferentes aspectos da vida cultural nos momentos em que são
colocados em relação uns com os outros. O reconhecimento de demandas identitárias
coletivas tem sido bastante discutido por autores da sociologia e das ciências políticas
também, na contemporaneidade, já que envolvem novas questões sobre diversidade em
uma sociedade globalizada.

Orientação sexual: Quando estudamos questões de gênero, é importante que não


confundamos sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Quando falamos em
sexualidade, impreterivelmente tratamos com os meandros do desejo humano, da afetividade
e da atração sexual e, como somos seres sociais por definição, é importante considerar os
discursos sobre sexualidade como parte do contexto histórico, social e cultural em que estão
sendo produzidos e reproduzidos. A identidade de gênero se refere ao gênero com o qual
uma pessoa ou um grupo identifica-se. Sexo pode se referir tanto aos caracteres biológicos
que diferenciam machos, fêmeas, hermafroditas, no contexto do discurso médico e das
ciências naturais, quanto com o ato sexual, no senso comum. Orientação sexual se refere
aos gêneros pelos quais as pessoas se atraem afetiva, física e emocionalmente e com os
quais formalizam relacionamentos. Falar em orientação sexual é importante porque, dentro

24
GLOSSÁRIO
do discurso dos grupos que se organizam e mantêm relações sociais em torno de identidades
de gênero, não é adequado falar em “opção sexual” ou em “preferências sexuais”, já que
muitas políticas e práticas repressivas têm feito uso da ideia de “opção” para normatização e
cura de sujeitos que se identificam com identidades de gênero marginalizadas socialmente
e culturalmente.

Heteronormatividade: O termo heteronormatividade foi utilizado na obra da filósofa feminista


Judith Butler (1950- ) e se refere à tendência dominante na sociedade em se considerar
como normal tudo que é relacionado à heterossexualidade e, consequentemente, em se
marginalizar as sexualidades desviantes. Desde os estudos de Michel Foucault (1926- 1984),
a normalidade vem sendo pensada como algo que é construído pela sociedade da ciência e
que, portanto, é algo histórico e socialmente definido. Foucault nos dizia que a sociedade da
ciência privilegia as relações heterossexuais ao relacioná-las a comportamentos naturais e
normais. Segundo Butler, a heterossexualidade é pensada e vivida, em nossa sociedade,
como modelo para a vida correta e, como consequência, vemos a marginalização e
desvalorização de outras sexualidades.

Psicanálise: A psicanálise é um processo terapêutico criado pelo médico e psicanalista


Sigmund Freud (1856-1939). Freud nasceu em Freiberg in Mähren, uma cidade que hoje
pertence à República Checa mas que na época de seu nascimento pertencia ao Império
Austríaco, e começou seus estudos sobre a psique humana dialogando com os estudos do
médico austríaco Josef Breuer (1842-1925) sobre histeria. Freud foi um dos pioneiros nos
estudos sobre sexualidade, apontando a repressão sexual como uma das principais causas
para doenças psíquicas. No final do século XIX, o autor escandalizou o meio acadêmico ao
falar em sexualidade infantil e ao relacionar a formação do inconsciente com um processo
de recalcamento e fixação em experiências sexuais infantis. A leitura psicanalítica sobre a
sexualidade foi importantíssima para os estudos de gênero, já que a psicanálise foi uma
das primeiras áreas de conhecimento a construir teorias especificamente dedicadas a
compreender a sexualidade humana como parte das experiências do sujeito no interior
do meio familiar e como parte da construção da civilização e da cultura. Grande parte das
teorias de gênero desenvolvidas na primeira e na segunda metade do século XX dialoga
criticamente com a leitura psicanalítica sobre a sexualidade, portanto, é interessante
pesquisar termos próprios a esse campo de conhecimento quando se quer compreender as
críticas das teorias de gênero à leitura psicanalítica.

25
GLOSSÁRIO
Categorias de gênero: Categorias de gênero são categorias utilizadas para fazer
referência a identidades de gênero. Assim como em outras situações em que trabalhamos
com identidades, nos deparamos com termos utilizados pelos grupos ou pelos indivíduos
para se referirem à identidade e, muitas vezes, esses termos diferem dos que são utilizados
pelas instituições sociais, políticas ou acadêmicas que estão trabalhando com essas
populações. No caso das categorias identitárias e marcadores de diferença utilizados pelos
grupos que se organizam em torno de identidades de gênero, o ideal é observarmos como
tais categorias são utilizadas pelos sujeitos que fazem parte dos grupos e nos referirmos
a elas quando estivermos falando diretamente com essas populações. Chamamos as
categorias utilizadas pelos sujeitos que se reconhecem como parte de um grupo identitário
de categorias empíricas. Há outros momentos em que nos depararemos com categorias de
gênero que nem sempre partem dos termos utilizados pelos sujeitos para falarem sobre si
próprios, mas são utilizadas por instituições que estão trabalhando com essas populações.
Chamamos essas últimas categorias de analíticas. É o que acontece, por exemplo, quando
o censo define opções de “raça” para identificação estatística da população ou quando um
site de uma rede social define opções como “homem”, “mulher” e “outros” para identificação
de gênero. É preciso tomar muito cuidado quando estamos trabalhando com categorias de
gênero, porque o senso comum pode utilizar termos pejorativos, como é o caso da palavra
“homossexualismo”, que se refere à “homossexualidade” como uma doença.

26
GABARITO
Questão 1

Resposta comentada: Você poderia apresentar aqui exemplos sobre as contribuições da


primeira onda, que desconstroem a ideia de que há trabalhos específicos para os sexos
quando na verdade eles são definidos cultural, social e politicamente. Mas também poderia
citar as contribuições da segunda onda, que discutem a naturalização de comportamentos
e formas de pensar que são ensinados.

Questão 2

Resposta comentada: Chamamos de categorias analíticas aquelas que instituições de


pesquisa ou assistência utilizam para categorizar populações, e chamamos de categorias
empíricas aquelas que os próprios grupos e pessoas utilizam para falar de si e de outros com
os quais se relacionam. Quando você entra em sites de redes sociais, por exemplo, há opção
de expressões de gênero que estão predefinidas pelos programadores. Elas são analíticas.
Observando populações que se encontram ou se organizam em torno de identidades de
gênero, você encontrará termos próprios utilizados por elas. Essas categorias são empíricas.

Questão 3

Resposta comentada: Foucault salientou que a importância da sexualidade e do sexo


biológico para a definição dos sujeitos é algo historicamente compartilhado pela sociedade
da ciência, portanto, não é algo natural: é histórico, social e cultural. Também trouxe dados
para pensarmos porque, em nossa sociedade, definimos o que são o corpo e a orientação
sexual normais e excluímos aqueles que não os possuem.

Questão 4

Resposta correta: B

a) Na verdade, é o oposto.

27
GABARITO
b) Correta. Quando falavam em relações de gênero, as feministas também se referiam à
maneira como o machismo afeta os homens.

c) Na verdade, também falavam sobre homens e seu papel na sociedade.

d) Na verdade, consideravam que era preciso falar de homens também.

e) Na verdade, é o oposto.

Questão 5

Resposta correta: A – 5; B – 4; C – 3; D – 1; E – 2.

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