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MORIN, Edgar. Sociologia. Ver o método “in vivo”.

A entrevista nas ciências sociais


na rádiotelevisão. Lisboa: Europa- América. MD. pp. 144-58.

III. A ENTREVISTA NAS CIENCIAS SOCIAIS E NA RADIOTELEVISÃO

Uma é uma comunicação pessoal suscitada com um fim informativo.


Esta é comum a entrevista cientifica, praticada nomeadamente em psicologia
social, e à entrevista de imprensa, radio, cinema e televisão. Mas a diferença surge na
natureza da informação. A informação em ciências sociais entra num sistema
metodológico, hipotético e verificador. A informação no mass media entra nas normas
jornalísticas e, muitas vezes, tem um fito espetacular. A informação da entrevista
cientifica deve começar por ser interessante para um pequeno grupo de investigadores.
A informação da entrevista mass-mediática deve começar por ser interessante a publico
vasto. Assim, a entrevista de rádio-cinema-televisão é uma comunicação social
suscitada com um fito de informação pública ou (e) espetacular.
Mas há na entrevista algo mais do que a informação, embora a entrevista nunca
deixe de ser informativa. Este algo mais é o fenômeno psicafectivo constituído pela
própria comunicação. (dimensão relacional da conversa – SIMMEL) Este fenômeno
pode perturbar a informação, pode falseá-la e
deforma-la (daqui o inesgotável da entrevista). Pode, pelo contrario, provoca-la.
Também pode provocar uma modificação: como se verá mais adiante, um certo tipo de
entrevista, em matéria clinica, tem efeito libertador, ou mesmo purificador e/ou mesmo,
em psicopatologia, curativo. No domínio da radiotelevisão, a entrevista pode ter um
efeito psicafetivo que supere de longe a escrita missão informativa. Em todo caso, a
palavra ‘informação’ é suficiente para esgotar a natureza da entrevista.
A entrevista é uma intervenção sempre orientada para uma comunicação de
informações. Mas este processo informativo, sempre presente, pode não ser um
processo nem o fito essências da entrevista; o processo psicafetivo ligado a
comunicação é que pode ser o mais importante, quer, embora de maneira diferente, no
domínio das ciências humanas, quer no domínio dos mass media.
O universo da entrevista é, por conseguinte, muito mais rico e difícil do que
parece à primeira vista. (frase de impacto)

A ENTREVISTA NAS CIÊNCIAS HUMANAS


A entrevista aparece nas ciências humanas nos Estados Unidos, por um lado, na
psicoterapia, por outro lado, na psicotécnica. Em ambos os casos, a informação que
procura esta muito ligada a um objetivo prático. No primeiro caso, a informação
recolhida servirá sobretudo para curar o entrevistado; no segundo caso, a informação é
útil sobretudo a parte entrevistadora.
A entrevista vai espalhar-se com o aparecimento e o desenvolvimento dos
inquéritos à opinião; depois, e sobretudo, com o desenvolvimento da psicologia social.

OS TIPOS DE ENTREVISTA

No período que começa em 1940-1945, o emprego da entrevista alarga-se e


intensifica-se. A entrevista deve responder a exigências cada vez mais precisa, o que
implica um enorme trabalho metodológico; a entrevista vai desenvolver-se
essencialmente em dois grandes ramos.

Por um lado, a entrevista extensiva, com questionários, adaptada a exploração


mecanográfica, incidindo em amostras representativas da população e conduzindo a
uma formulação estatística dos resultados. Vão neste sentido as investigações de
opinião em populações vastas (classes sociais, grupos etários, habitantes de uma região
ou de uma cidade, população nacional) que interessam as grandes firmas comerciais e
industriais, aos partidos políticos, aos órgãos de informação, aos governantes.
Por outro lado, a entrevista intensiva que visa aprofundar o conteúdo da
comunicação. Vai neste sentido o interesse das grandes firmas em conhecer os
movimentos inconscientes dos consumidores e em responder-lhes com estímulos
adaptados: é a corrente dos estudos de motivação. Também vai nesse sentido o
movimento de afinamento e de aprofundamento da jovem psicologia social; é então que
o ‘frente-à-frente’ se torna o elemento central da entrevista e que intervém aquilo a que
quase se poderia chamar a revolução rogeriana, ou seja, o desenvolvimento no campo
da psicologia social da entrevista não diretiva.
Há antagonismo entre as duas tendências extremas da entrevista. Por um lado, a
entrevista aberta, no limite sem questões postas pelo entrevistador, por outro lado, a
entrevista fechada, no limite com um questionário a que basta responder por sim ou não.
Por um lado respostas proliferantes, complexas, ambíguas; por outro lado, respostas
claras, simples. Por um lado uma entrevista de longa duração, ou mesmo renovada ate
um aprofundamento suficiente; por outro lado, um questionamento rápido. Por outro
lado, as pessoas implicadas, o entrevistador e o entrevistado, têm uma importância
capital, bem como a natureza psicafetiva da entrevista; por outro lado, a resposta, e não
a pessoa, é de importância primordial. Por um lado uma extrema dificuldade em
interpretar a entrevista e em explorar os seus resultados ; por outro lado, a possibilidade
de estabelecer uma amostra representativa e de tratar estatisticamente dos resultados.
Assim, vemos oporem-se dois tipos extremos de entrevistas. Um, aprofundado e
eventualmente não diretivo, entrara em toda metodologia clinica, que se aplica a casos
extremos ou aprofundados, e não a series e medias; entrará igualmente como elemento e
por vezes como elemento-chave, nas técnicas de ação, quanto mais não seja porque
solicita a intervenção ativa do entrevistado. O outro tipo extremo de entrevista efetuar-
se-á a partir de um questionário previamente estabelecido e permitirá trabalhar com
grandes massas através de sondagens com uma amostra representativa.
Estes dois tipos extremos podem estar em competição, o que significa que o
investigador terá de escolher entre o risco de superficialidade (questionário) e o risco de
ininterpretabilidade (entrevista aprofundada), entre dois tipos de erro, entre dois tipos de
verdade.
Mas cada um destes tipos de entrevista convém mais ou menos segundo os
objetivos da investigação. Além disso, podem estar combinados; entrevistas
aprofundadas preparam a elaboração dos questionários que serão utilizados segundo os
métodos das sondagens de opinião; inversamente, sondagens por questionários podem
permitir selecionar os sujeitos que serão submetidos a entrevistas aprofundadas.
Por outro lado, constituiu-se toda uma gama intermediária de entrevistas entre
dois tipos extremos , tendo em cada um a sua problemática e a sua eficácia próprias.
Assim, pode destinguir-se:
A entrevista clínica, de caráter terapêutico, cuja modalidade rogeriana se alargou
as situações psicossociais;
A entrevista em profundidade, contexto em que se pode fazer não entrar a
entrevista não diretiva (Rogers) alargada ao campo psicossocial, mas que não se limita
ao método não diretivo. A entrevista em profundidade é utilizada nas investigações de
motivação, mas pode ter múltiplas aplicações.

A entrevista centrada (focused interview), na qual após o estabelecimento de


hipóteses sobre um tema preciso, o pesquisador conduz a entrevista com grande
liberdade, de modo que o entrevistado libere toda a sua experiência pessoal sobre o
problema levantado pala entrevista;
A entrevista com respostas livres, em que o pesquisador permite ou provoca a
liberdade de improvisação das respostas;
A entrevista com perguntas abertas, em que as perguntas são redigidas
antecipadamente e devem ser feitas segundo uma ordem precisa; a liberdade do
pesquisador tornou-se muito restrita, mas o entrevistado continua a ter grande liberdade
no contexto das perguntas que lhe são feitas;
A entrevista com respostas previamente estabelecidas, em que já estão
formuladas diversas possibilidades de respostas, oferecendo ao entrevistado a liberdade
de escolher entre elas;
A entrevista com perguntas fechadas, que comporta um questionário ao qual o
entrevistado responde por sim ou não, favorável ou desfavorável.

AS DIFICULDADES DA ENTREVISTA

Instrumento essencial da psicologia social, a entrevista supõe toda dificuldade da


verdade nas relações humanas; suscitou e suscitará ainda um gigantesco trabalho critico
e metodológico, quer seja a entrevista não diretiva. Não vou examinar os problemas
suscitados pela escolha das categorias, pela codificação, mas essencialmente as questões
relativas à estrutura da entrevista enquanto relação inter-pessoal. O problema essencial é
o da validade da entrevista, isto é, o da sua adequação relativamente à realidade que se
tentou conhecer. O mínimo operacional da validade é a fidelidade, que se verifica pela
concordância dos resultados obtidos por diferentes pesquisadores.
A entrevista baseia-se, evidentemente na fonte mais duvidosa e mais rica de
todas, a palavra. (elementos gestuais!) Arrisca permanentemente a dissimulação ou a
fabulação.
A questão fechada encerra uma alternativa intimidante, impõe um esquema e
arrisca um erro maximal, ao passo que, noutra frente, a da codificação, da interpretação,
da exploração, oferece garantias maximais. A questão aberta, a resposta espontânea
permitem (sobretudo para analise profunda) simultaneamente a fabulação, a
sensitividade verídica e uma riqueza de significação: mas, desta vez, o risco maximal de
erro situa-se do lado do pesquisador, da sua aptidão para decifrar a mensagem do
entrevistado (decifração ou interpretação? – dimensão representativa), da sua
possibilidade de estabelecer uma comparação, resumindo, de
transformar em dados científicos um documento humano bruto.
O que se verifica cada vez mais é que é absurdo se fazer questionários sobre
problemas em que a verdadeira atitude escapa à consciência clara do entrevistado, em
que as respostas são racionalizadoras ou justificadoras. De igual modo, respostas pré-
estabelecidas são incapazes de apreender a motivação profunda em muitos domínios.
Assim, à pergunta: “Por que vai ao cinema?”, os esquemas de respostas tais como: -para
me divertir;.- para me instruir;-para passar o serão;- etc., são incapazes de apreender a
motivação profunda e a motivação verídica.
Por outro lado, a experiência revelou que a formulação de perguntas tinha um
papel na orientação da resposta. Uma palavra aparentemente anódina pode modificar as
respostas. Sabe-se igualmente que a ordem das questões e o numero das questões
influem nas respostas.
Resumindo, na entrevista tudo depende de uma interação pesquisador-
pesquisado, pequeno campo fechado em que se vão enfrentar, confrontar ou associar
gigantescas forças sociais, psicológicas e afetivas.

No entrevistado podem manifestar-se diversos fatores de perturbação:


Quanto as perguntas de fato, as respostas terão tendências para ser efabuladoras
ou (e) dissimuladoras no que se refere a grandes regiões tabo: o sexo, a religião, a
política. (barreiras à comunicação) Neste ultimo plano, as desconfianças serão maiores
ou menores conforme o
regime em que as questões são levantadas for ou não for liberal, ou conforme o caráter
minoritário ou não, subversivo ou não, das opiniões políticas do entrevistado. Alem dos
tabos, considerações de prestígios, de standing, podem falsear as respostas;
Quanto as questões de opinião e de crença, a consciência diminui tanto mais
quanto mais se penetra na motivação. Esta é geralmente obscura no entrevistado, ou
então esta solidamente mascarada por um sistema de racionalização (universo simbólico
– BERGER&LUCKMANN). A bem dizer,
dificilmente se pode entrar nessa zona. Interrogado sobre o porquê das suas opiniões, o
entrevistado só manifesta os sistemas de racionalização que segrega como resposta à
investigação.
De maneira extremamente diversa, segundo a situação social, histórica, a
determinação psicológica, o clima e o caráter da entrevista, os entrevistados reagem a
entrevista por:
Inibição, que se traduz num bloqueio puro e simples, ou numa fuga (resposta à
margem);
Formas de timidez ou de prudência que, conduzem a respostas de cortesia,
segundo ao prazer que julgam que causarão ao pesquisador (antecipação do outro no
SELF), que se traduzem na
tendência para responder sim em vez de não, na tendência (prudência) para optar pelo
numero do meio quando se propõe a escolha de uma percentagem;
Mecanismos de atenção e de desatenção (em respostas pré-estabelecidas,
tendência para escolher o primeiro ou o ultimo ponto de vista);
Múltiplas tendências para racionalizar o seu ponto de vista, ou seja, para lhe dar
uma justificação, uma legitimação aparentes que mascarem a sua natureza verdadeira.
As racionalizações são “sinceras”;
Os exibicionismos, que provocam muito “sinceramente” (é, evidentemente, o
termo sinceridade que deve ser repensado) efabulações e comédias;
E, bem entendido, as tendências fundamentais para defender a sua pessoa e para
compor personagens perante um outrem curioso. (encen-ação e representação
dramatúrgica)
Entre os fatores de perturbação que provêm do pesquisador figura em primeiro
plano a sua aparência aos olhos do entrevistado. (tipificação) É preciso que o
entrevistado sinta um
óptimo de distancia e de proximidade, e igualmente um óptimo de projeção e de
identificação, relativamente ao pesquisador. O entrevistador deve corresponder a uma
imagem simpática e tranqüilizadora. Muitas vezes a pesquisadora será melhor
comunicadora do que o pesquisador. Não pode haver um modelo universal de
pesquisador, que seria o pesquisador urbano da cidade moderna (apresentação correta,
polidez, sem excesso de requinte ou de snobismo). Além disso, é preciso que o
pesquisador comece por ter um forte controle autocrítico sobre si próprio; verificou-se
que a sua opinião, as suas opiniões influíam inconscientemente nas respostas à
entrevista; a sua atitude durante a entrevista, as suas reações, ainda que pouco
perceptíveis, têm influencia (regime de atenção aos detalhes significativos –
GOFFMAN); também é preciso que o pesquisador tenha um interesse
profundo para a comunicação, para o outro. Não basta que pareça simpático, é preciso
que sinta simpatia.
Finalmente, vê-se quanto mais importância tiver a pessoa do entrevistado na
entrevista- e é sempre mais importante quando se pretende aprofundar-, ,mais
importante é a pessoa do entrevistador.
O entrevistador deve possuir a um grau raro de qualidades de objetivação e de
participação subjetiva. Isto significa que o pesquisador deveria ser uma pessoa moral e

intelectualmente superior, deveria estar à altura de um papel de confessor laico da vida


moderna.
Mas aqui deparamos com uma dificuldade presentemente insolúvel no sistema
das ciências humanas (exceto psicologia clinica). A entrevista é, em geral, um ganha
pão subalterno, um oficio para mulheres desocupadas ou com dificuldades, uma etapa
para futuros investigadores. É a tarefa inferior de que os chefes de equipe se descartam.
A investigação metodológica da maior riqueza leva-nos a privilegiar a entrevista
aprofundada, isto é, um domínio em que as precauções técnicas e as regras
metodológicas cedem passo a esse fator propriamente humano que releva da arte, da
subtileza e da simpatia. O fator humano, inicialmente anulado pelas tendências técnico-
estatísticas da entrevista, reaparece triunfante no termo da analise metodologicamente
critica.
É que a entrevista provoca (pois é uma intrusão que pode parecer traumática ou
agressiva ao interessado) um gigantesco sistema de defesas. Mas, ao mesmo tempo,a
entrevista dirigi-se a uma gigantesca necessidade de se exprimir. A descoberta genial e
infantil de Rogers consiste em quebrar o sistema de defesa do0 sujeito pela necessidade
de se exprimir do próprio sujeito.

A ENTREVISTA NÃO DIRETIVA

A entrevista não diretiva, utilizada a principio em psicoterapia por Rogers, foi


estendida no campo psicossocial. Visa, em primeiro lugar, a deixar desprender a
percepção do sujeito. Não é um dialogo livre entregue à improvisação da conversa.
Exige uma fortíssima disciplina do entrevistador relativa ao não comentário e à não
intervenção, a disponibilidade empática. (questão da conversa sociável – SIMMEL /
processo de artificialização da espontaneidade – GOFFMAN)
O grande principio rogersiano é que a nossa tendência para julgar, avaliar
aprovar, desaprovar, constitui a mais forte barreira à comunicação. Em compensação, o
que a favorece é a atenção simpática, ou pelo menos a impressão (por vezes a ilusão) de
atenção simpática, de compreensão profunda.
Assim, efetivamente. O “Rogers” baseia-se na necessidade de se exprimir, uma
necessidade intensa e talvez particularmente insatisfeita no nosso mundo, em que
muitos já não tem Grande Auditor – nem o seu mediador católico, o sacerdote – e em
que muito poucos – só os neuróticos - beneficiam do neoconfessor, o psicanalista.
O interesse da entrevista não diretiva ultrapassa a informação:
Primeiro, dá a palavra ao homem interrogado em vez de fecha-lo em questões
previamente estabelecidas. É a implicação “democrática” da não diretividade.
Depois, pode ajudar a viver, provocando um desbloqueio, uma libertação;
Enfim, pode contribuir para uma auto-elucidação, uma tomada de consciência do
sujeito. (verbalizações impensadas – OLIVEIRA F., projeções que compõe o sujeito –
GOFFMAN)

A ENTREVISTA COMO “PRAXIS”

Na entrevista não diretiva, o caráter informativo da entrevista esta estreitamente


associado a um caráter humano global e multidimensional e depende dele. A entrevista
é uma praxis.
De resto, a entrevista não diretiva constitui um dos ramos atenuados da
entrevista freudiana. A entrevista freudiana baseia-se não diretividade; esta entrevista
provoca processos psicafetivos intensos, nomeadamente o transfert, e finalmente a
catarse da cura. O modelo freudiano domina, pois, toda a perspectiva não diretiva.

Freud revelou ao máximo todas as fantásticas possibilidades energéticas que podia


haver na busca em si próprio solicitada por um interlocutor.
Os discípulos de Freud reformaram de outro modo o frente-a-frente analítico.
Para muitos deles, o analista deve deixar de desempenhar um papel mudo, estático,
nomeadamente para desempenhar um papel intervencionista, estimulante, no limite
provocador.
Em psicologia social experimentaram-se métodos “de provocação”
nomeadamente na entrevista de “personalidades”. O entrevistador pode ate conduzir
uma conversa polemica com o entrevistado. Isto é, evidentemente, eficaz no caso de os
entrevistados estarem demasiado seguros de si, demasiados habituado à palavra
(entrevistas a advogados).
Também é possível a fusão do método dos teste projetivos e da entrevista. A
entrevista deve provocar situações imaginárias, historias a completar, também nesta
caso de modo que o fluxo psicafetivo se lance para fora da zona do sistema de defesas
(comportamento de fachada – de fundo; há restrições aí dessa projeção, que estão
expostas em GOFFMAN quando comenta os limites da exposição do EU).
A libertação de energia psicafetiva provocada por toda a entrevista profunda,
quer seja não diretiva ou não, quer seja provocadora ou projetiva, traduz-se num fluxo
de comunicação em que o imaginário e o real poderão estar intimamente ligados. Pois o
sujeito dirá ao mesmo tempo aquilo que é, aquilo que julga ser (a histeria simuladora
perante si próprio é quase universal), o que desejaria ser. (papéis sociais que compõe o
self do sujeito) O fluxo da comunicação pode
ser uma torrente de comedia-sinceridade. Isto levanta novamente o difícil problema da
verdade, mas ao nível da pessoa total.

A ENTREVISTA NA RÁDIO-TELEVISÃO E NO CINEMA

A entrevista é um modo de informação que apareceu na imprensa. Seria


interessante fazer uma historia da entrevista, ver a sua passagem da imprensa à rádio, da
radio à televisão, da televisão ao cinema.
Notemos que a entrevista, na origem um meio de informação junto de uma fonte
individual, se distingue da “declaração” oficial que é um discurso unilateral dirigido ao
publico por meio de um jornal ou da rádio. A entrevista busca a comunicação pessoal.
O destino da entrevista esta ligado ao desenvolvimento da cultura de massa, que
procura em todos os domínios, para facilitar o contato com o público, para interessar ao
público, o “human touch”, e, mais amplamente a individualização dos problemas.
Assim, a entrevista vai desenvolver-se em direção as sobreindividualidades que reinam
no mundo do mass media. Primeiro, personalidades políticas, que serão entrevistadas
cada vez que entram ou saem do avião, a cada acontecimento, mas também “olímpicos”,
estrelas, vedetas, com quem é preciso multiplicar o contato direto, e que já não são
interrogadas apenas a cerca de um acontecimento relacionado com a sua vida publica,
mas acerca de tudo e de nada.
Ao mesmo tempo, a entrevista desenvolve-se na direção oposta. Parte em busca
do homem da rua, do transporte anônimo, encontrado ao acaso, a quem vai fazer-se uma
pergunta à queima roupa. Na relação com o homem da rua, desenha-se uma tendência
“brechtiana” que tende a provocar no espectador-auditor uma distanciação em relação a
sua vida cotidiana.
Mas, quer se trate de julgar o cotidiano ou de escutar os seus guias olímpicos, a
grande tendência recente da entrevista é levantar os problemas da vida privada; para
isso, a entrevista tornou-se cada vez mais familiar, cada vez mais intima, tanto na
procura de anedotas fúteis quanto na tentativa de diálogo.
Notemos, enfim, uma formula da entrevista, que é o debate sobre um tema com a
participação de varias pessoas. É uma espécie de entrevista com vários elementos,

dirigida ou controlada por um orientador, e que visa propor um modelo dialético da


formação da verdade por confrontação das opiniões contrarias. Neste caso, a entrevista
fundou-se no dialogo entre vários elementos.

A ENTREVISTA ESPETACULAR

Tal como na psicologia social, a missão oficial da entrevista consiste em


recolher informações e, tal como na psicologia social, a entrevista poderá liberar uma
energia afetiva por vezes considerável. Mas, permitir o aprofundamento da informação
ou (e) para ajudar o sujeito a viver, a energia afetiva, na entrevista da radiotelevisão ou
do cinema, será captada para ser projetada num espectador, por vezes para lhe transmitir
emoções como informações.
Chegamos à maior oposição entre a entrevista das ciências humanas e a
entrevista telecomunicante: a primeira terá um caráter não publico, ou mesmo secreto;
se há exibição de sentimentos, é unicamente em relação ao e para uso do pesquisador. A
segunda dirigi-se a todos; situa-se no foro telecomunicativo moderno.
Mas, como veremos, a maior oposição entre a entrevista em psicologia social e a
entrevista telecomunicada pode tornar-se a maior proximidade, precisamente no ponto
em que uma e a outra são mais intensas. Com efeito, aproximam-se no ponto em que o
problema da amostra representativa perde todo sentido em psicologia social. Pois a
segunda diferença radical entre a entrevista da psicologia social e a entrevista de mass
media é que a primeira tem uma grande preocupação metodológica e técnica na sua
preparação e procura fazer que o sujeito da entrevista seja representativo de uma dada
população. A entrevista de mass media é uma arte que não conhece nenhuma regra, mas
conhece seus artistas; a representatividade que procura é uma pseudo-
representatividade. Por exemplo, nas entrevistas ao homem da rua, far-se-á uma
amostragem das idades, das profissões, das opiniões, procurando mais a variedade e o
pirotesco do que o rigor, procurando mais não o lesar as grandes famílias espirituais do
recolher a opinião não conforma aos esquemas de uns e de outros.
Por outro lado, não devemos esquecer que pressões políticas ou econômicas
limitam o campo e a liberdade da entrevista. Enquanto o campo da entrevista é ilimitado
em ciências humanas, nos mass media esse campo sofre as limitações e os tabus que
reinam no campo da palavra (variando segundo os paises e os problemas).
Por conseguinte, tudo opõe a entrevista “comum” dos mass media à entrevista
comum da psicologia social. Uma visa o pitoresco, o divertido, o espetacular, e
preocupa-se pouco com a validade da informação recolhida; a outra procura a fidelidade
e baseia-se num método. (visão preconceituosa e reducionista) Porém, há um encontro
quando as duas se aprofundam.

TIPOS DE ENTREVISTA

Sem entrarmos na investigação de uma tipologia exaustiva da entrevista,


proponham que se distingam quatro tipos de entrevista segundo o seu grau de
comunicabilidade:
1) A entrevista-rito. Trata-se de obter uma palavra, que, aliás, só tem
importância por ser pronunciada hic et nunc. O exemplo perfeito é o “estou muito feliz
por ter vencido”, do campeão desportivo. A entrevista-rito marca acontecimentos,
cerimônias, encontros oficiais. O seu verdadeiro fito é fazer ouvir a voz, dar uma
autenticidade ao acontecimento pela voz-imagem (televisão, atualidades
cinematográficas), revelar e comunicar a sua presença subjetiva. As próprias palavras da
entrevista-rito são “rituais”. Realizam a cerimônia. Mas podem acontecer que o rito seja

perturbado por algo de inesperado, e que é a irrupção das forças selvagens da vida: um
olhar, uma palavra, um grito traem o sentimento sob a pose (acontecimento –
comportamento de fundo). Há toda uma arte da
entrevista que procura captar a vida sob o rito – ou quebrar o rito;
2) A entrevista anedótica. Muitas – certamente a maior parte – das entrevistas de
vedetas são conversas frívolas, ineptas, complacentes, em que o entrevistador procura a
anedota picante, procura fazer pergunta insípidas sobre as deslocações e os projetos, em
que o entrevistador e entrevistado ficam deliberadamente fora de tudo o que pode
comprometer. Esta entrevista situa-se ao nível dos falatórios;
3) A entrevista diálogo. Em certos casos felizes, a entrevista torna-se diálogo.
Este diálogo é mais que uma conversa mundana. É uma busca em comum. O
entrevistador e o entrevistado colaboram para revelar uma verdade que pode estar
relacionada com a pessoa do entrevistado ou com um problema. O dialogo começou a
aparecer na radio e na televisão. Foi preciso algum tempo para que a palavra humana
descongela-se diante do microfone e da câmera;
4) As neoconfissôes. O entrevistador apaga-se diante do entrevistado. Este já não
fica a superfície de si mesmo, mas efetua, deliberadamente ou não, o mergulho interior.
Atingimos aqui a entrevista em profundidade (o outro como ser dotado de uma
profundidade absurda, essência) da psicologia social. A entrevista –
mergulho comporta uma ambivalência; toda confissão pode ser considerada como um
strip-tease da alma para atrair a libido psicológica do espectador, ou seja, para ser
objeto de uma manipulação espetacular; mas também toda confissão vai muito mais
longe, muito mais fundo do que todas as relações humanas superficiais e mináveis da
vida cotidiana (quebra de representações rotinizadas), mesmo no cinema, em que se
constitui finalmente a alma do “cinema
verdade”. (Cf. as “confissões” em Chronique d’um été, Lê Joli Mai e, talvez, sobretudo
Hitler connais pas.).

OS ENTREVISTADOS

O entrevistado pode ser uma vedeta ou um homem da rua. Mas pode ser
simplesmente outrem.
As vedetas ou “olímpicos” são os piores e os melhores entrevistados. Os piores:
têm um admirável sistema de defesa, pois ser olímpico, político, mundano, estrela de
cinema, escritor, etc. é estar em constante representação no mundo. Neste sentido, o
olímpico continua a desempenhar um papel perante a entrevista, principalmente quando
sabe e sente que o publico exige dele uma certa imagem. Os melhores: olímpicos,
atores, escritores, são ao mesmo tempo personalidades exibicionista-narcisistas cujo
prazer de falarem de si as podem levar a falar profundamente de si próprias. Os
escritores, sobretudo, podem fornecer bons entrevistados. Alguns deles puseram na
entrevista um verdadeiro empenho pessoal, um esforço virado para elucidação de si
próprios.
Do homem da rua, geralmente só se espera ou só se retém uma reação brusca. É
a entrevista-relâmpago, que se pretende imediatamente se obter a opinião da rua.
O outro é o entrevistado considerado como ser humano a conhecer, e não como
representante de uma determinada profissão, classe ou idade. Ao outro corresponde,
evidentemente, a entrevista profunda. O outro pode ser escolhido por ter vivido uma
experiência particularmente intensa (um fugido de um campo de concentração), mas
também pode ser uma mãe de família interrogada sobre a felicidade...

OS ENTREVISTADORES

Se a entrevista nas ciências humanas é inteiramente dirigida para o entrevistado,

a personalidade do entrevistador da radiotelevisão pode estar em foco. (exibicionismo)


Em todo caso, a
profissão de communicator é, nomeadamente nos Estados Unidos, extremamente bem
remunerada. Os performers da entrevista são verdadeiros artistas e, como tal, são muito
cotados e bastante raros. Devem ter qualidades empáticas, devem suscitar a simpatia do
entrevistado e também do público. Eles próprios são vedetas. Ao contrario do
entrevistador das ciências sociais, o entrevistador da radiotelevisão não conhece as
classificações rígidas dos tipos de entrevista. Assim, ele é espontaneamente ora não
diretivo, ora, pelo contrario, provocante ou polêmico. Algumas entrevistas (as
confissões) requerem particularmente a audição e outras requerem a provocação.
Verifica-se muitas vezes que, nas entrevistas, a personalidades, o melhor é o
resultado de um doseamento, ou antes, de uma alternância entre o estilo provocatório,
ou mesmo polêmico, e o estilo auditor. Com efeito, convém ora desmanchar a comédia,
rasgar a máscara, arrancar o entrevistado da sua reserva, força-lo nas suas trincheiras,
ora, pelo contrario, deixa-lo falar e calar-se... O entrevistador completo é um polivalente
capaz de ser provocador e ao mesmo tempo auditor. (questão importante) Neste caso, é
efetivamente um
verdadeiro dialogante. Podemos perguntar se este modelo de dialogante (provocador-
auditor) não tem sido negligenciado nas ciências sociais.
O FENOMENO MICRO-CAMARA

Há um instrumento que a entrevista utiliza parcialmente nas ciências sociais: o


microfone. As entrevistas profundas são geralmente gravadas. Podemos notar que a
força inibidora do microfone é igual à sua força exibidora. Quer dizer que, se o
microfone aumenta a tendência para se defender da entrevista (pois isso equivale a
entregar-se a um instrumento que grava as palavras; estas deixam de ser volantes),
também aumenta a tendência para se exprimir, para lançar a sua mensagem ao mundo.
O microfone da radio desempenha o mesmo papel ambivalente, quer dizer, se o
ambiente for bom e o entrevistador e o entrevistador inspirar confiança, as necessidades
de expressão são sobreativadas. O microfone da radiotelevisão e do cinema registra
“para todos e para ninguém”, segundo a formula de Nietzsche. De certo modo,
poderíamos falar de microfone-caneta: o microfone não é um simples auditor, um
instrumento daquele que não sabe escrever e que se pode servir dele para se narrar a si
próprio. O auditor é o entrevistador e, mais além, são os outros, tranqüilizantes por
estarem confundidos na indeterminação anônima do “público”.
Além do microfone, a televisão e o cinema servem-se da câmara. Uma vez que
falei de microfone-caneta, posso falar de câmara-ouvido, que permite ao mundo (aos
espectadores) escutar as nossas palavras, e ao mesmo tempo ver a nossa imagem.
(categorias de Fernão Pessoa Ramos) Mas a
câmara é também um olho e, mais ainda, um olhar, de uma natureza ainda mal
conhecida mas de uma intensidade sem dúvida prodigiosa. Como o microfone, ela
aumenta as forças inibidoras mas também a força exibidora. Dispõe de um potencial
“extralúcido” e pode “intimar” os entrevistados a dizer a verdade. Isto pode traduzir-se
numa comedia de mentira, pois uma pessoa, quando sente vertigens à beira da verdade,
lança-se perdidamente na efabulação.
Assim, graças ao poder do microfone e da câmara, a televisão e o cinema, reinos
da falsa comunicação ou da comunicação imaginaria, têm grandes possibilidades de
comunicação, mais ricas do que a vida.
O microfone e a câmara da radio televisão ou do cinema já trazem o publico com
eles. A grande originalidade da entrevista telecomunicada é que a energia afetiva que
liberta não se resolve no frente-a-frente, mas passa para o público e verte-se em cada
auditor ou espectador.
Ou a comunicação é absorvida como espetáculo, isto é, digerida como um filme
de ficção, transposta para emoção estética, e então o conteúdo real da comunicação
perde-se, a energia afetiva metamorfoseia-se em satisfação de ter visto um espetáculo
belo e interessante.
Ou a comunicação é recusada, e o espectador apresenta a si próprio as razões
justificativas da sua recusa: “É falso”; “É um truque”; “É bluff”; quer dizer, acredita que
lhe impingem o imaginário sob a etiqueta do real, não se pode imaginar uma sinceridade
pública.
Ou a comunicação será libertadora para os que reconhecerão e se sentirão menos
sós; será reveladora para os que descobrirão o outro.
De fato, na nossa sociedade, a comunicação da entrevista profunda é geralmente
desvitalizada no campo estético do espectador, ou recusada como logro; raramente
conduz a uma compreensão nova.

A ENTREVISTA NUMA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO

O êxito global da entrevista ritual e da entrevista anedótica nos mass media, o


fracasso humano (embora muitas vezes acompanhado de êxito espectorial) da entrevista
profunda, tudo isso merece reflexão para uma política da comunicação.
Quando a entrevista nas ciências sociais e a entrevista nos mass media deixam a
zona de frivolidade revelam uma extraordinária necessidade de comunicar
(comunicação enquanto transmissão). Esta
necessidade é reforçada pela individualização crescente, que isola cada um e ao mesmo
tempo lha da vontade de revelar o seu ser (que julga ou quer julgar) autêntico?
O fato é que o triste estado da comunicação entre os humanos se pode medir
através das nossas conversas, ineptas trocadas de palavras convencionais, pontuadas de
sorrisos polidos e de risos espasmódicos, solilóquios cruzados entre os quais brota por
vezes uma pobre chispa. Na vida cotidiana, a comunicação esta bloqueada, atrofiada,
desviada, e daqui o êxito da comunicação imaginaria dos filmes e dos romances... Mas,
neste mundo moderno de comunicação pobre (talvez os tempos antigos fossem ainda
mais pobres, mas o homem acreditava que comunicava com o Cosmo ou com a
Transcendência), a civilização científico-técnica oferece novos meios. A psicologia
social, por um lado, e o mass media, por outro, elaboram, cada um a sua maneira, meios
de comunicação. Podemos tentar conjugar as aquisições dos dois setores em alguns
princípios que seriam precisamente os princípios de uma política da comunicação:
Procurar a comunicação profunda com o outro;
Procurar uma atitude dialogante. O dialogante, que já existe por momentos na
rádio e na televisão, é como que o herdeiro do provocador e não do diretivo. Deve
provocar as situações para favorecer a comunicação, deve provocar o outro, contanto
que também possa escutá-lo;
Procurar transformar a assimilação espectorial em compreensão. O espectador
pode abandonar facilmente o seu egocentrismo e o seu etnocentrismo no imaginário:
interessar-se-á então com amor pelo vagabundo, pelo negro, pelo outro. Mas é apanhado
pelo etnocentrismo, pelo egocentrismo, pelos demônios mesquinhos da vida real. Não
haverá, tanto na televisão como no cinema, uma falha entre o imaginário e o real através
da qual se poderia introduzir a entrevista, que se tornaria plenamente operatória se
permitisse simultaneamente a objetivação e a subjetivação?
Objetivação: permitir ao espectador objetivar-se em relação a si próprio, isto é,
distanciar-se segundo um desdobramento que permita a auto-analise, ou mesmo a
autocrítica.

Subjectivação: temos tendências para considerar o outro como objeto, ao passo


que a entrevista nos dá constantemente a consciência e o sentimento da presença
subjetiva do outro. (questão importante)
Por um lado, o diálogo fecundo é o diálogo em que o estranho se torna o meu
próprio duplo, em que o meu próprio duplo estranho volta a ser eu mesmo, em que me
torno estranho para mim próprio, processo múltiplo e contraditório que tece a própria
dialética da comunicação com o outro, a qual só é possível através de uma comunicação
de si a si. (SELF – Reconhecimento de si no outro, outro significativo) A imagem do
vídeo e do écran permite relançar essa dialética de maneira
vertiginosa. Ainda estamos no começo de uma cine-telecomunicação;
Dar uma nova dimensão existencial a democracia. A psicologia social, na sua
tendência não diretiva (e, aqui, dever-se-iam conjugar os diversos setores não
diretivistas e esboçar uma teoria do não diretivismo, o que esta a ser tentado por
Georges Lapassade), implica um principio democrático literal e, além disso,
estendendo-se muito além da zona de hoje demasiado estreita da vida política: dar a
palavra. Graças a teletécnica, pela primeira vez, a palavra pode ser dada a um
desconhecido, um sem-nome, e pode ser repercutida, transmitida a milhões de seres
humanos. (dar a palavra não significa comunicar-se) Ainda não estamos no começo do
que poderia ser, neste domínio, o

pensamento de uma política da telecomunicação que consistiria em fazer brotar a


palavra profunda de um indivíduo, de uma camada, de um grupo, no limite: de uma
sociedade.